Revista em quadrinhos: Um Bolo Especial AHPAS

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O L O B M U L A I C E P S E Uma história de sensibilização e apoio aos pais, cuidadores e às famílias que têm filhos em tratamento de câncer Uma iniciativa da AHPAS Associação Helena Piccardi de Andrade Silva Transporte e apoio sociofamiliar a crianças e adolescentes em tratamento de câncer


Mãe e filho (Marlúcia e Vítor) chegam em casa após um dia de quimioterapia. Vítor, de 7 anos,se trata de uma leucemia e está bem abatidinho e sem fome, louco pra ir pra cama.

A mãe, cansada. A primeira coisa que faz ao chegar Boa noite, em casa é pôr seu filho querido. pra dormir em caminha posta ao lado da cama do casal (Marlúcia e Zé Luiz, pais de Vítor e Felipe). Ainda tem pela frente a janta da família, a louça acumulada, a roupa pra lavar e deixar tudo pronto pra Hoje não, amor, ir ao hospital de preciso ver seu novo amanhã bem irmão que está checedinho. gando da escola.

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Boa noite, mãe. Tem história?


Chega o irmão, Felipe, de 9 anos, batendo a porta e voando pro quarto. Marlúcia vai em sua direção.

Êi, êi, que correria é essa? Cadê meu beijo?

Silêncio, e depois o barulho da música alta que vem do quarto. Bum! Bum! Bum! A mãe Bate na porta do quarto de Felipe.

Filho, que história é essa? Não me cumprimenta, põe o som alto... não vê que seu irmão está doente e precisa dormir?

Silêncio. O som fica mais alto. Em meio ao som alto e ao barulho dos utensílios domésticos na cozinha, chega o pai, o Zé Luiz, e se senta à mesa esperando o jantar.

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Tudo bem, Marlúcia?

Tudo. E o seu dia, como foi?

O de sempre. E o Vítor?

O de sempre. Não tá fácil, Zé. Espero que ele durma a noite toda, porque amanhã tem mais.

Vou comer e vou dormir. Estou morto. Amanhã vejo as crianças. Não vai ver ninguém. Saio cedo pro hospital e levo os dois. Por que levar os dois? Amanhã não tem escola e o Felipe não tem com quem ficar.

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O som do quarto do Felipe fica ainda mais alto. No quarto dos pais, Vítor chora, o pai o acode, mas ele chama a mãe. Nessa hora chega a vizinha, Da. Dirce, que entra sem bater, trazendo um bolo fumegante.

Oi Dirce! Não chegou em boa hora...

Já jantou, Marlúcia? Bem, tanto faz, vem comer um pedaço desse bolo que eu acabei de fazer. Um docinho vai te fazer bem.

E, dizendo isso, pega dois pratos e talheres e, com intimidade, puxa Marlúcia pelo braço e as duas se sentam ao redor da mesa. Estou cansada, Dirce.

Espere comer meu bolo. Esse é especial! Experimenta.

Cadê seu marido e as crianças? Todos podem comer!

Especial por quê? Hummm... do que é? Não consigo saber.

Cada um no seu

canto e eu pro-

curando um canto pra mim... pra me esconder. Não

tô dando conta,

Dirce. O Felipe não coopera, não me

ajuda. O Zé, coi-

tado, esse não dá

conta mesmo. Pelo menos tá empre-

gado... Escuta, o que tem nesse bolo?...

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Nisso Felipe entra na cozinha, pega água e nem olha pra Da. Dirce. Marlúcia o repreende: Felipe volta pro quarto batendo a porta.

Escuta aqui, moleque, não tá vendo aqui a Da. Dirce?

Deixa ele, Marlúcia, esse deve estar sofrendo muito.

Dirce se levanta com um pedaço do bolo em um guardanapo e bate na porta do quarto do Felipe. Resolve não esperar resposta e vai abrindo a porta.

Sofrendo? Tá brincando? Esse não tá nem aí! Aposto que amanhã cedo vai me dar o maior trabalho pra ir comigo pro hospital...

Felipe, tô com saudades de você! Tá tudo bem?

Nenhuma resposta. Felipe permanece com a cara escondida atrás do travesseiro. Tá surdo?

nada. 6


Marlúcia, que acompanhara a cena, entra no quarto e puxa o Felipe da cama.

Não tá escutando a Da. Dirce?

E então as duas veem que o menino está chorando.

Come, vai, come esse bolo, Felipe! Que é isso? Vai, homem não chora! Vá, se acalme!

Agora Felipe soluça. Mesmo assim, come um pedacinho. Marlúcia se enerva.

Marlúcia, sai daqui, deixa eu conversar com ele.

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Marlúcia sai do quarto contrariada. Dirce senta na cama, põe o bolo de lado e abraça carinhosamente o menino.

Vamos, querido, o que há? Bateram em você na escola? nada.

Tirou nota baixa?

Tá doente?

nada.

Hesitando um pouco, Felipe resolve falar: Não tô doente, mas queria estar...

O quê? Tá doido, moleque? Responde, tá doido?

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Dirce abraça o garoto mais forte, percebendo, subitamente, com a clareza de quem está do lado de fora, o que está acontecendo. Me fala, vai! Se eu ficar doente, minha mãe vai gostar de mim de novo...

Que bobagem é essa, Felipe? Sua mãe ama você muito muito!!

Marlúcia, que não tinha ido dar conta dos afazeres, mas ficara ouvindo a conversa atrás da porta, se espanta. Não consegue se mexer. Fica ali parada, olhando para a porta, sem saber o que fazer. De pé, pasma, come o resto do bolo que tinha ficado esquecido no pratinho em suas mãos. Olha para a pia cheia. Olha para o tanque, também cheio. Vai até o quarto do casal e espia. Zé e Vítor dormiam. Vai até a estantezinha da sala e procura um livro. Devia estar lá. Queria achar o livro onde estava a história preferida do Felipe. Hoje os afazeres iam se acumular. Ia contar ao Felipe sua história preferida. Achou o livro. Mas qual era mesmo a história? Qual era mesmo? Não conseguia se lembrar...

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Nesse momento, Felipe sai do quarto de mãos dadas com Dirce. Vendo a mãe à procura do livro, diz: Mãe, é a história do menino que salva o amigo do dragão.

Felipe! (Marlúcia está comovida) Como sabe que estou procurando sua história preferida?

Não, mãe, a história do dragão é a preferida do Vítor. Me conta, mãe, a história que ele mais gosta!

Nesse momento, no quarto do casal, um sorriso se esboçou nos lábios do menino que dormia. Hoje Vítor certamente dormirá muito bem.

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Essa história nós contamos pra você. Agora queremos ouvir a sua!

Você já esqueceu de algo importante para um de seus filhos?

Sua família divide entre si a tarefa de cuidar? Existe uma Dirce em sua vida?

O que você sentiu ao ler a história?

Você daria outro final?

ACESSE AQUI E PREENCHA A PESQUISA DE INTERAÇÃO! SUA PARTICIPAÇÃO É MUITO IMPORTANTE PARA NÓS! https://goo.gl/forms/rFWkO3CnvDINYkZQ2 Escreva para ahpas@ahpas.org.br 11


Colaboraram na construção desta publicação: Estudo, concepção e redação do texto: Grupo de Estudos Saudar: Elisângela Rodrigues (assistente responsável pelo relacionamento diário com as famílias atendidas) Renata Datri (psicóloga, voluntária do Núcleo Marcela Costa Baptista de Apoio a Pais Enlutados) Rosinha Scalabrini (pedagoga, voluntária do Núcleo Marcela Costa Baptista de Apoio a Pais Enlutados) Saul Gomes (voluntário, doutor em Letras) Tatiana Piccardi (doutora em Letras, coordenadora voluntária do Grupo de Estudos Saudar, cofundadora da AHPAS) Thaysa Audujas (licenciada/bacharel em Letras, responsável pela condução diária do Programa Educação em Movimento) Vera Lúcia Costa Baptista (voluntária do Núcleo Marcela Costa Baptista de Apoio a Pais Enlutados) Ilustrações: Ana Gina Piccardi (fonoaudióloga, psicopedagoga) Projeto gráfico: Rose Sardin Arte final: Marina Luvizari Impressão: Magic Impress

Associação Helena Piccardi de Andrade Silva Transporte e apoio sociofamiliar a crianças e adolescentes em tratamento de câncer www.ahpas.org.br Tel. 11 5535 2726


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