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António do Rosário Oliveira Idade: 60 anos Naturalidade: Cabo Verde, Aldeia do Talho da Ilha de São Nicolau Área de Residência: Beja Profissão: Médico Veterinário, Docente e Investigador no Ensino Superior nas áreas das Ciências Veterinárias Como é que teve conhecimento e viveu o 25 de Abril 1974? Através da Rádio em São Nicolau, Cabo Verde, tudo normal, porque não tinha informação e nem tinha experiência política suficiente, apenas dediquei um poema a minha falecida mãe em 1973, ano da sua morte, também de Amílcar Cabral. Em que ano veio para Portugal? 4 de outubro de 1974. Segundo a sua experiência quais foram as dificuldades mais evidenciadas durante o período da repressão? Como estudante do Liceu Gil Eanes em Cabo Verde, nunca fui abordado por ninguém a não ser em 1971 quando apareceram Inscrições murais com “vivas a Amílcar Cabral”. Apenas vi e registei o facto mas nada de importante aconteceu comigo, pois era um pacato e humilde estudante filho duma doméstica e proprietária (Maria da Luz do Rosário), nascida e criada na ilha de São Nicolau do arquipélago de Cabo Verde. Que influências a Revolução dos Cravos teve nas ex-colónias? A Independência foi total: política, económica, social. E o reflexo de tudo isso deu origem a CPLP (Comunidades dos Países de Língua Oficial Portuguesa). Em Cabo Verde a mudança não foi imediata. Desde 5 de julho de 1975 vivia-se no sistema unipartidário. A reforma politica pluripartidária foi estabelecida em 1991. É preciso continuar a estudar, inovar e lutar pela democracia todos os dias.


Identifique as mudanças políticas, económicas e sociais pós 25 de Abril? Liberdade, liberdade, liberdade. As mudanças foram acontecendo lentamente, a democracia é um regime bastante sensível as alterações económicas, principalmente, no mundo em que vivemos é o mais adequado ao povo. Mas é preciso lutar e inovar a bem da população e do povo que nos rodeia, sem preconceitos. É a minha mensagem como um ilhéu da Macaronésia. Para si o que foi o 25 de Abril? Apesar de tudo o que aconteceu, o 25 de Abril livrou-me de ir para a Guerra Colonial Portuguesa matar os meus irmãos. E o que está a acontecer neste mundo agora globalizado, vale sempre lutar para um mundo melhor. Para Portugal convém ver e ler os dados e resultados estatísticos gerais e especiais contidos no sítio www.pordata.pt antes e agora em todas as áreas do conhecimento, pois há 40 anos havia 25 % de analfabetos, atualmente só 5%. A cultura, a educação e a formação são armas indispensáveis. Em Cabo Verde no tempo em que viveu o meu ilustre Professor Baltazar Lopes da Silva (Nhô Baltas – 1907-1989) o analfabetismo nas décadas de 60 e 70 do século passado era insignificante entre a população cabo-verdiana. Quiçá andava à volta de 3 a 5% da população. Hoje temos que pensar, pois convém pensar e discutir bem o que são os info-ricos, os info-pobres e os info-excluídos.


Armindo Vaz Gomes Pereira Idade: 57 anos Naturalidade: Cabo Verde, Ilha de Santigo Área de Residência: Sines Profissão: Pescador

Em que ano veio para Portugal? Aos 17 anos decidi viajar para Portugal, mas devido à falta de condições financeiras os meus familiares que viviam em Portugal enviaram-me dinheiro para pagar a viagem. Cheguei a Portugal a 22 de abril de 1974, com uma licença militar, num avião militar. Fiquei instalado em casa de familiares em Carnaxide, num bairro de Barracas com condições muito precárias, onde residiam imigrantes e nacionais. Como é que teve conhecimento e viveu o 25 de Abril de 1974? Tive conhecimento através da televisão do café, no Largo de Carnaxide. Apercebi-me que havia uma revolução. Senti que era algo positivo porque se os soldados estavam na rua era para mudar alguma coisa tanto para os portugueses como para os residentes africanos. Na altura não se podia falar do regime. Quando soube, tive a noção de que estava “livre”, porque quando vim sabia que ao completar 18 anos tinha que comparecer no quartel mais próximo da minha área de residência em Portugal para ingressar nas forças armadas devido à minha licença militar. Nos dias seguintes os soldados concentraram-se na área de Lisboa, mas em Carnaxide os dias decorriam dentro da normalidade. Segundo a sua experiência quais foram as dificuldades mais evidenciadas durante o período da repressão? Falta de liberdade de expressão. As pessoas viviam oprimidas. Em Cabo Verde eu não me reunia com muitos rapazes com medo da polícia política PIDE. Que influências a Revolução dos Cravos teve nas ex-colónias? Em todo o lado houve uma grande mudança. Após o 25 de Abril tivemos a independência de Cabo Verde (a 5 de julho de 1975). Também tive o conhecimento


através da televisão. Com o fim da opressão podia-se falar livremente, era uma alegria para todos nós imigrantes. Fomos comemorar num café, porque embora não estivéssemos lá, sendo nós caboverdianos sentimos uma enorme emoção, foi algo muito bom. Na altura emigrar para Portugal era mais fácil, era atribuído a identidade portuguesa aos cidadãos das colónias. Em contrapartida se houvesse guerra éramos obrigados a participar como cidadão português. Todos tínhamos bilhete de identidade português e licença militar. Um ano após a independência, todos os cidadãos caboverdianos que possuíam documento português foram obrigados a substituir para o cartão de cidadão estrangeiro, atual autorização de residência e deslocar-se às suas embaixadas para alterar os documentos. Identifique as mudanças políticas, económicas e sociais pós 25 de Abril? Foi uma grande mudança. As pessoas já podiam falar com mais liberdade da mudança do governo, mas no entanto falava-se pouco sobre esse assunto porque as pessoas tinham pouco conhecimento. Algumas pessoas regressaram a Cabo Verde. Muitas empresas fecharam, houve escassez de trabalho. Fiquei alguns meses sem trabalhar, mas depois consegui um emprego temporário nos caminho-de-ferro de Sintra. Quando terminou, vim para Sines. Na altura não havia muito trabalho em Sines, mas comecei a trabalhar na minha antiga profissão, na pesca, a 2 de julho de 1975. Quando cheguei, trabalhava na construção civil. Embora já tivesse passado algum tempo, a situação em Sines não era melhor que a de Carnaxide. Havia muita pobreza e embora essas dificuldades se sentisse mais nos imigrantes também havia portugueses que viviam em péssimas condições. Moravam em cabanas feitas de madeira. Atualmente nota-se o enorme desenvolvimento, mas na altura Sines era só areia… A política nos pós 25 de Abril teve fases boas e más tal e qual os dias de hoje. A crise quando vem não é para um, é para todos. Para si o que foi o 25 de Abril? Liberdade


Miriam Mills Mascarenhas Idade: 53 anos Naturalidade: Guiné-Bissau/ foi para Cabo verde em criança e viveu lá até aos 14 anos Área de Residência: Vila Nova de Santo André Profissão: Professora

Como é que teve conhecimento e viveu o 25 de Abril de 1974? Eu tinha 14 anos. Tivemos conhecimento na rádio local do governo português, foi noticiado numa das rádios piratas, da canária e outros países. No estrangeiro espalhou-se rapidamente. Lembro-me da minha mãe chamar-me a mim e aos meus irmãos a chorar e a dizer: filhos vocês a partir de agora não fazem a ideia a vida que vão ter e que não tinham essa hipótese, a partir de agora vocês são livres, e há coisas que se, continuasse da maneira que são, vocês iriam ter muitos problemas. Não podem reclamar, dizer várias coisas, que nós na altura não tínhamos a consciência do que nos estava a ser proporcionado, mas que iríamos ter essa consciência no futuro quando fossemos mais adultos e compreendêssemos o que realmente estava a ser conquistado. Ela abraçou-nos os 4 filhos a chorar. Minha mãe estava grávida e com um ar de felicidade. Disse-nos: já tenho um filho que vai nascer com LIBERDADE e exclamou: o meu único filho não terá que enfrentar a guerra colonial que se fazia sentir em Angola, Moçambique e Guiné. Qualquer que tivesse um filho próximo da idade de recruta para guerra tinha o seu coração nas mãos. Em que ano veio para Portugal? Saí de Cabo Verde com o meu pai e irmãos em dezembro de 1974 no navio Rita Maria. Passámos a passagem de ano no mar. Cheguei a Portugal, Lisboa, em janeiro de 1975. Demorámos 15 dias a chegar a Portugal, o que num percurso normal seria um semana. Isto porque sabiam que o meu pai estava no barco e estavam a fazer uma guerra de nervos, para provocar medo para afugentar as pessoas que eventualmente pudessem vir a trazer problemas ao regime PAIGC fazendo repressão sobre a nossa viagem com o objetivo de não embarcarmos.


Segundo a sua experiência quais foram as dificuldades mais evidenciadas durante o período da repressão? Não tinha consciência do que uma simples ideia poderia causar na altura. Pessoas presas por pura e simplesmente emitirem as suas opiniões. Eu era uma adolescente que reclamava muito. Que influências a Revolução dos Cravos teve nas ex-colónias? O povo automaticamente associou esta revolução a uma possível independência. Quando a população ouviu a notícia começou a movimentar-se pelas ruas, porque em Cabo Verde não havia guerra armada. A reação geral em CV: começaramse as ditas manifestações, juntaram-se em plenários, a palavra de ordem era reacionário, eram os termos utilizados constantemente. Qualquer pessoas de que se não gostava era reacionário ou informador da PIDE. Identifique as mudanças políticas, económicas e sociais pós 25 de Abril? O meu pai associou-se a um grupo político que não o PAICV. Meteu-se no UDC (penso que era União Democrática de Cabo Verde). Na visão do meu pai, democracia não se fazia com um só partido, porque assim as decisões concentrariam num grupo de pessoas. Ele foi uma das pessoas tentou que isso não acontecesse, mas deu-se mal, os ânimos estavam exaltados e na altura o meu pai estava ascender na sua carreira no banco, mas acabou por não ser nomeado gerente, porque não era aliado do PAIGC e estes não aceitavam novas linhas. Em Portugal e Cabo verde, em termos sociais, senti em algumas situações falta de respeito. Confundiu-se a liberdade e a libertinagem. As pessoas já abusavam da liberdade. Havia certas cenas como homens chegavam perto de mulheres com falta de respeito. Como estudei numa escola privada, as turmas da 1.ª à 4.ª classe eram turmas mistas, mas o regime não admitia isso. Admirei-me em Portugal, com o Liceu Maria Amália, só de meninas. Quando fui para o 9.º ano implementaram turmas mistas. Em Portugal havia pessoas que ainda não tinham consciência das mudanças que viriam a sentir. Lembro-me do meu pai falar que as pessoas com poder económico escondiam os seus bens, para evitar ostentação, deixavam de mostrar que eram ricas, para não serem saneadas pelo povo. Para si o que foi o 25 de Abril? Hoje digo ainda bem que houve o 25 de Abril! Liberdade é uma conquista que não há dinheiro nenhum no mundo que a pague. Embora haja portugueses que intitulem que o 25 de Abril foi só dos portugueses eu digo que foi uma conquista de todos.


Organização: Associação Caboverdiana de Sines e Santiago do Cacém

Apoio: Câmara Municipal de Sines


25 de Abril e a Descolonização