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Imagem comunitária e transformação cultural

ASSOCIAÇÃO IMAGEM COMUNITÁRIA


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ASSOCIAÇÃO IMAGEM COMUNITÁRIA

Imagem comunitária e transformação cultural

belo horizonte 2013


prefácio

20 anos? Valter Filé*

Um prefácio deveria referir-se ao conteúdo de um livro. Deveria introduzir e, eventualmente, comentar aquilo que os autores estão tentando oferecer aos leitores. Porém, este prefácio pretende ultrapassar o livro. Buscar, na trajetória da AIC - e contra o fundo dos desafios que lhe colocam a comunicação - os processos de identificações, os embates para a sobrevivência cotidiana e as possibilidades de aparecimento de outras histórias. Histórias que ainda não foram e talvez nunca sejam contadas. Talvez não existam, ainda, como histórias. Então, seria possível um prefácio para histórias que ainda não existem de fato? Se ele não anuncia as histórias do livro, qual seria a função deste prefácio? Talvez ampliar o nosso horizonte imaginativo. Talvez a de dar um conselho (aquilo que, para Walter Benjamin, não é algo de cunho moral, mas que ajuda na continuidade de uma narrativa): de apurarmos os “ouvidos” para tentarmos compreender o que o mundo – e, neste caso, a trajetória da AIC – está querendo nos dizer.

Quem é essa moça? Nem parece que el a tem vinte anos!

É uma moça que se dedica a forjar espaços onde seja possível o surgimento de seres coletivos que atuem no tempo. Que se dedica a projetos que pretendem ultrapassar a urgência de determinadas pautas que se cumprem e se esfumaçam, como efêmeros eventos, sem deixar marcas.


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Pergaminhos que podiam ser raspados e reutilizados por uma nova escrita. Por um lado, o apagamento era a eliminação uma escrita, mas, por outro lado, tal raspagem (ou qualquer outra forma de apagamento) sempre deixava marcas na escrita atual.

Esta moça, apesar dos vinte anos, pertence e é pertencida por ideias que não estão circunscritas aos seus documentos de identidade, aos seus projetos, aos seus produtos. Compreendo-a como uma passagem entre tempos. Eu diria que ela faz parte de um fluxo que lhe ultrapassa como sonho das nossas humanidades. Ela é dos dias de hoje sem conformar-se a ideias que a contemporaneidade pode sugerir. Ou seja, a coincidência de todos com uma determinada época, com um determinado tempo que se pretende único. Tempo que, como obelisco, pretende escamotear e subsumir a complexidade dos vários tempos de que somos feitos (como palimpsestos1), das marcas das nossas existências e das repercussões das nossas com-vivências. Creio que esta moça veio não para ser a resposta adequada que, por fim, fará calar ou esconderá o incômodo de determinadas marcas que insistem em perturbar o texto e que devem circular para desativar questões e estabelecer o consenso. Assim, penso que é o que tem buscado essa moça. Seres coletivos trabalhando em processos comunicativos, mais do que em “comunicação”, se pudermos perceber a diferença: os processos dizem de coisas vivas, em movimento; a comunicação, como um campo de conhecimento, como um substantivo, quase sempre pretende atender à fabricação de mercadorias. Mercadorias que obedecem a uma lógica de produção especializada e a apelos de consumo e/ou de prestígio. Comunicação, neste sentido, é um substantivo, uma coisa que trabalha para eliminar a proliferação descontrolada de outros processos comunicacionais, para o aplainamento das diferenças. 5

Minha relação com a AIC é, na verdade, uma relação com as pessoas que a criaram e por aquilo que temos compartilhado: os desafios para construir uma sociedade mais democrática, mais justa. Nossas lutas têm se desenrolado dentro das questões que implicam os processos comunicativos e as mídias. Talvez, aqui seja o circuito onde me sinto mais à vontade para buscar indícios e artifícios que se ofereçam às possibilidades de composição de outras histórias.

Da L ama ao caos – ou... aos de ouvidos apurados 2 Movimento surgido em Recife (PE) nos anos de 1990.

O movimento Mangue bit2 criou esse bordão – “da lama ao caos” - como possibilidade de produzir rasuras estéticas em Pernambuco e em outros estados de espírito. Aproveitando de elementos esteticamente desprezados ou tidos como problema (como os de qualquer periferia urbana), nutre-se deles para produzir uma antena que se conecte com o mundo, ultrapassando os “canais” vigiados e seletivos que tradicionalmente se tem para circular: a comunicação de massa tradicional. Por que estou trazendo a história desse movimento (e eu poderia citar vários outros) para um prefácio sobre a AIC? Porque esta história (como tantas outras que ainda não foram contadas, ou pelo menos ainda não circulam para a proliferação de outras possibilidades para pensarmos sobre o mundo e as formas de habitá-lo) diz das escolhas e maneiras


de pensarmos os processos comunicacionais. De criarmos fluxos abertos, ou pelo menos tentativas de circuitos comunicativos nos quais o que interessa é o que vem e que pode nos com-mover de alguma forma, e não a resposta certa que nos oferece uma boa saída para o que existe de inquietante. Fluxos que sugiram respostas que apontem para lados inusitados. Inusitado como escolher ir da lama ao caos e não ao aterramento do mangue e soterramento de seres humanos, como tem sido as escolhas das grandes corporações e que tem a mídia como os novos pregadores dos benefícios de tais saídas, como únicas possíveis. Mídias que se pretendem como aterramento das questões que ecoam como assombrações, como personagens “anacrônicos” que parecem vir de outras produções assombrar a normalidade, a ordem.

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A identidade de um sujeito não se forja apenas da tentativa de permanência do mesmo quando colocado em relação ao outro, produzido como diferente. A identidade de um sujeito coletivo, da mesma forma, é um processo de movimentação constante do jogo da alteridade. Alteridade que é produzida não só pela diferença do outro, mas naquilo que nesse mesmo sujeito habita como outro. E como lidar com isso? Estas histórias foram vividas por mais de vinte anos. Estão contadas? Creio que sim. Quem ouviu/leu/viveu? Essa é uma outra questão. Normalmente, só ouvimos/lemos/vemos o que já sabemos. Precisamos fazer o exercício de aprender a ouvir/ver/viver o que ainda não sabemos. O prefácio já está pronto e a AIC aí está com várias histórias viajando clandestinamente nas suas movimentações. *Integrou projetos de comunicação comunitária no Rio de Janeiro e acompanha a trajetória da AIC desde a sua fundação. Participou da TV Maxambomba (TV de rua que atuou junto aos moradores da região da Baixada Fluminense); da TV Pinel (TV comunitária realizada no hospital psiquiátrico Philip Pinel); e atua no Projeto Puxando Conversa (que trabalha, a partir do registro audiovisual, as memórias do samba do Estado do Rio de Janeiro). Atualmente, é professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e pesquisa tecnologias, linguagens, mídias e produção de desigualdades nas relações étnico-raciais.


Um veículo para o futuro Madu Santos *

Existem diferentes formas de diálogos, como também existem diferentes maneiras de criá-los. A partir do momento em que estabelecemos o encontro das palavras, as ideias começam a tomar formas. Aí, então, podemos entender que estamos compartilhando nossos conhecimentos. Vivemos um momento atual de compartilhamento entre diferentes plataformas culturais, que são responsáveis por varias ações de intercultura que possibilitam novos encontros, onde todos podem construir juntos. Essa forma de atuar no universo cultural artístico brasileiro propõe sempre momentos de prazer nessa área que é tão desafiadora. Nos faz criar uma percepção com olhares múltiplos, para que possamos entender que não estamos sozinhos e que o outro pode também nos completar, nos enriquecer, dividir as alegrias e as conquistas que buscamos a cada dia nas realizações de nossos projetos culturais. Nossos sonhos! Devemos definir melhor a palavra parceria ou parceiro institucional, porque precisamos entender o sentido único que define tudo isso: comprometimento entre as relações. O futuro está nessas possibilidades de dialogarmos uns com outros. Vivemos um momento importante nacionalmente. O povo esta se manifestando politicamente e culturalmente como uma forma de expressar seus desejos para um mundo melhor. Sabemos que a arte é um veículo potencialmente forte e importante para a mudança de ações, de pensamentos e de valores. Compreender tudo – e transformar em ações artísticas essas percepções de vida, de mundo – é possibilitar a visibilidade do outro como um elemento que nos ajuda a construir juntos. Por isso a nossa jornada por um espetáculo melhor, por um produto cultural melhor. Vejo como importantes os vinte anos de existência de uma plataforma que vem colaborando com diferentes grupos, compartilhando seus conhecimentos, formando multiplicadores. A ASSOCIAÇÃO IMAGEM COMUNITARIA (AIC) é este espaço de diálogo e de possibilidades. Primavera de 2013

Integrante do Grupo Cultural Odum Orixás, participou de ações da Rede Jovem de Cidadania e da Agência de Comunicação Solidária, projetos da AIC.

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Tecendo redes: mobilização social e história

Quando o assunto são organizações da sociedade civil, os termos “mobilização” e “redes” tornam-se quase um mantra. Mobilizam-se pessoas para participarem deste ou daquele projeto; mobilizam-se parceiros e recursos – pessoais, financeiros, infraestruturais – para garantir a sustentabilidade institucional. Também são mobilizados desejos e esforços para impulsionar transformações sociais nas áreas em que a organização atua, por mínimas que sejam. Em maior ou menor grau, tudo isso demanda um empenho ímpar das pessoas que trabalham ali e são fundamentais para efetivar, cotidianamente, a missão institucional. Esses processos mobilizadores podem construir redes mais ou menos sólidas, que, por sua vez, alimentam e dão suporte a outros ciclos. O certo é que não há mobilização social que perdure no tempo se não for acompanhada da formação de redes em torno de si. Não foi diferente no caso da Associação Imagem Comunitária. Importantes mobilizações acompanharam o grupo durante suas duas décadas de história. Amplas redes solidárias de pessoas, grupos e histórias foram acionadas e estimuladas durante os caminhos percorridos. Aliás, vários dos projetos ou articulações com as quais a AIC se envolve carregam essa marca em seu próprio nome: Rede Juventude de Atitude, Rede Parabolinóica de Arte e Loucura, Rede Jovem de Cidadania – essa a mais perene entre todas as iniciativas da ONG. Erros e acertos fazem parte dessa herança, e lidar com a mobilização social na AIC é, talvez, um dos grandes aprendizados institucionais ainda em curso.


TV Sal a de Espera: o encontro com as comunidades

Tudo começou nos bairros Ribeiro de Abreu e Paulo VI, que fazem parte da Regional Nordeste de Belo Horizonte. Durante quase quatro anos, entre 1993 e 1997, a região acolheu a TV Sala de Espera, projeto de extensão da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que daria origem à AIC. A escolha não se deu por acaso: o psiquiatra e psicanalista Musso Greco, idealizador do projeto, à época era funcionário da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) e atendia nos centros de saúde da região. Vislumbrou a possibilidade de criar ali um ambiente para a produção de vídeos comunitários, inspirado em uma então recente viagem a Nova York, onde teve contato com os canais de acesso público nas TVs a Cabo norte-americanas. Nos Estados Unidos, por lei, entidades e grupos comunitários poderiam veicular, gratuitamente, materiais audiovisuais naquele espaço televisivo, contando com o suporte financeiro e estrutural das operadoras de TV (leia mais no capítulo sobre Acesso Público). Musso apresentou a proposta a uma professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG e logo a ideia ganhou corpo – primeiro como atividade de uma das disciplinas do curso e, no ano seguinte, como um projeto de ensino-extensão da Universidade. Através da Secretaria Municipal de Saúde, a PBH se responsabilizava pela remuneração dos profissionais contratados e pelos demais custos de manutenção da iniciativa, enquanto da UFMG vinham os professores orientadores da TV Sala de Espera e técnicos do Departamento de Comunicação Social e da Faculdade de Medicina, que, na época, possuía uma ilha de edição de imagens ociosa. Também eram ofertadas bolsas de estágio via Pró-Reitoria de Extensão. De início, a articulação com as comunidades se dava somente por meio das comissões locais de saúde, a partir do modelo de implantação do então recente Sistema Único de Saúde (SUS). Eram realizadas reuniões de pauta periódicas com integrantes dessas comissões, com a intenção de levantar temas, abordagens e formatos para os vídeos, que depois seriam exibidos nas salas de espera dos centros de saúde. “A comissão local era nosso ‘cliente’, nosso público, e acabava reproduzindo essa lógica da associação de bairro, com a figura do líder comunitário”, recorda o psiquiatra Musso Greco, idealizador do projeto. Aos poucos, a equipe foi “adentrando o território” e se aproximando também de grupos e pessoas que não necessariamente atuavam como lideranças, mas que igualmente desenvolviam vínculos afetivos com o projeto: outras associações, escolas, grupos de jovens ligados à Igreja, quilombolas, interessados em protagonizar um quadro de ficção... Ana Tereza Melo Brandão, uma das sócias-fundadoras da AIC e hoje coordenadora-geral da Oi Kabum! Escola de Arte e Tecnologia, um dos projetos executados pela ONG, ressalta que um dos grandes desafios era o de criar sentidos para a iniciativa junto às comunidades participantes, já que a TV Sala de Espera chegou de “fora pra dentro”. “A mobilização se dava em torno de pequenas ações”, pontua ela, que trabalhava no projeto como estagiária do curso de Comunicação Social. Ao lado dos temas-denúncia que deram o tom dos primeiros programas, acontecimentos como o festival de rap, o

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campeonato de peteca e a festa de inauguração das ruas do bairro também passaram a compor o cardápio de opções do programa. Além disso, eram destacadas iniciativas comunitárias de êxito e produzidas ficções com moradores, como o “Sequestro do Astrogildo” e o “Você Escolhe” (paródia de um conhecido quadro da televisão aberta na época, o “Você Decide”). E alguns deles se aventuravam como repórteres ou apresentadores – a exemplo do quadro “Cozinha Inteligente”, em que uma funcionária do posto de saúde apresentava receitas criativas e de baixo custo. Ana Tereza comenta que tudo isso cabia no conceito amplo de saúde inaugurado pelo SUS, que passava a contemplar questões ligadas à qualidade de vida e à cidadania. Para além da produção do programa de TV, a equipe buscava assessorar grupos e movimentos da região em suas demandas comunicacionais, lançando já nessa época os pilares da Agência de Comunicação Solidária (leia mais no Glossário de Projetos). Essas necessidades vieram quando se intensificou a participação comunitária no projeto, e a ideia era mostrar que, a depender da demanda, existiam formas de comunicação mais eficazes que o vídeo. Havia apoio na divulgação de eventos junto à imprensa, na elaboração de jornais, cartazes, panfletos e faixas e, também, em questões operacionais e logísticas.

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Diversificar os métodos de produção do programa da TV Sala de Espera também contribuiu para a apropriação comunitária do projeto. A partir de 1996, a equipe passou a ofertar oficinas de audiovisual aos interessados em manejar uma câmera, construir um roteiro e produzir os quadros, dentre outras etapas da construção de um vídeo. Em suma, as oficinas buscavam compreender a “sintaxe” do audiovisual, em termos de linguagem e técnica, e aplicar tais conhecimentos na produção dos próprios programas. Às formações oferecidas especialmente em escolas foi dado o nome de TV Sala de Aula (leia mais no Glossário de Projetos). Os circuitos originais de veiculação do programa também foram ampliados: das salas de espera dos centros de saúde a exibições comentadas em espaços públicos do bairro – praças, igrejas, escolas e associações –, com inspiração nas chamadas TVs de Rua. Moradores e moradoras também demandavam fitas cassete para empréstimos, com o intuito de organizar sessões privadas e coletivas. Inegável, no entanto, é que uma das estratégias de maior êxito para a criação de vínculos com moradores dos bairros foi a Barraquinha, um “ponto de fala” itinerante. Inspirada no modelo de vídeo-cabine proposto pela cineasta Sandra Kogut (leia mais no capítulo sobre Reflexões e Práticas Estéticas), na Barraquinha os interessados eram convidados a gravar livremente mensagens para o programa, tendo à disposição um camarim com itens de figurino, adereços diversos e maquiagem. O estúdio móvel era uma antiga banca de jornal transportada para locais de grande movimentação, principalmente durante os fins de semana. “Quando bem implantada, dava muito certo: às vezes acontecia aos domingos, por exemplo, quando as pessoas estavam indo aos espaços públicos. Ficava sempre em uma interseção entre as diversas igrejas do bairro, nas imediações dos botecos. Colocávamos uma placa ‘Dê o seu recado’ e isso suscitava curiosidade”,


recorda Musso Greco. Valiam performances musicais, recados para o prefeito, anúncios comerciais, convites à participação comunitária e outros mais, que, depois, iriam compor um dos quadros fixos do programa da TV Sala de Espera. Na opinião de pessoas que participaram da iniciativa, as atividades do projeto estimulavam outros focos de mobilização na região. Sheila Castro, moradora do Ribeiro de Abreu, era estudante do Ensino Médio na época e construiu roteiros, storyboards, atuou e dirigiu quadros da TV Sala de Espera. Ela acredita que, por meio do programa, as pessoas tinham a oportunidade de ver as demandas umas das outras, no contexto de uma região pobre e muito carente de infraestrutura: “levou a comunidade a refletir sobre problemas que havia em outros cantos. Isso dava uma força na mobilização social do bairro: ‘vamos nos juntar para ver o problema daquela rua?’. Eu nem sabia que lá do outro lado não tinha rede de esgoto, por exemplo”. Para Itamar de Paula, também morador do bairro e, à época, membro do Grupo de Amigos Renovando o Ribeiro de Abreu, o Garra, um dos grandes benefícios residia na visibilidade conferida a pessoas comuns. “Imagina em um bairro onde só tinha um telefone público haver uma TV que transmitia do Paulo VI para lá?”.

Inspirações

Foi durante o projeto TV Sala de Espera que a equipe buscou referências e gestou as primeiras articulações junto a grupos que desenvolviam experiências semelhantes no campo da comunicação comunitária. Um dos vínculos mais fortes foi com a Associação Brasileira de Vídeo Popular (ABVP), organização fundada em 1984 com o objetivo de incentivar a produção audiovisual no âmbito de movimentos sociais e populares. Cristina dos Santos Ferreira, responsável pela edição dos programas do TV Sala de Espera e uma das sócias-fundadoras da AIC, era também coordenadora regional da Associação em Minas. Para ela, o encontro entre as iniciativas foi muito bem-vindo. “O TV Sala de Espera era inovador na forma com que atuava junto à comunidade. O pessoal [da ABVP] achava muito legal trabalharmos não só a produção, mas também a exibição de outra forma, pensando a sala de espera como um espaço de visibilidade e discutindo saúde de maneira mais ampla”, acrescenta. Outra referência muito importante para o grupo foram as chamadas TVs de Rua, que se multiplicavam país afora durante a década de 1990. Consistiam na exibição de produções comunitárias em espaços de grande visibilidade, como ruas e praças, acompanhadas de discussão entre os presentes. “A nossa inspiração ideológica vinha das TVs de acesso público [norte-americanas], mas a inspiração metodológica vinha das TVs de Rua”, reflete Rafaela Lima, à época jornalista responsável pelo TV Sala de Espera e também sóciafundadora da AIC. O grupo aponta que as experiências mais marcantes eram a TV Viva, criada pelo Centro de Cultura Luís Freire, de Olinda, e a primeira televisão comunitária a céu aberto da América Latina; a TV Mocoronga, uma iniciativa da ONG Saúde e Alegria,

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do Pará, junto a comunidades ribeirinhas; e a TV Maxambomba, na Baixada Fluminense, promovida pelo Centro de Criação de Imagem Popular, o CECIP. Essa ONG viria a criar também a TV Pinel, produzida junto a usuários de serviços de serviço mental do Instituto Philippe Pinel, no Rio de Janeiro.

TV Beira Linha

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Imagine sintonizar um canal em sua televisão e se deparar com pessoas que vivem no mesmo bairro que você? Era essa a proposta da TV Beira Linha, uma transmissão experimental em baixa potência realizada pela Associação Brasileira de Vídeo Popular (ABVP) em parceria com a equipe da TV Sala de Espera. Entre os dias 30 de maio e 4 de junho de 1995, foram produzidos vários programas junto às comunidades do Ribeiro de Abreu e do Paulo VI, que iam ao ar na mesma noite, no canal 8 VHF e a uma potência de apenas 100 watts. Transportada por uma Kombi, a equipe batia de porta em porta, convidando os moradores a assistirem às produções: “Dá licença, deixa eu entrar e sintonizar a sua televisão?”. Segundo relatos, muitos moradores abandonaram a novela para prestigiarem os vizinhos que apareciam na tela. Na programação, quadros de alimentação alternativa, dicas de qualidade de vida, show de auditório e performances de grupos culturais da região. A iniciativa integrou as atividades da Oficina Latino-Americana de Capacitação Avançada em TV/Vídeos Comunitários, do projeto CODAL (Comunicação para o Desenvolvimento da América Latina), parceiro da ABVP. Embora de curta duração, a experiência se destacou por ser uma das pioneiras na transmissão de produções comunitárias em sinal aberto e baixa potência. Hoje a transmissão nesses moldes ainda é considerada ilegal por não ter respaldo normativo – diferentemente das rádios comunitárias, por exemplo, que foram regulamentadas em 1998 pela Lei 9612. Reza a lenda que o então prefeito de Belo Horizonte na época, Patrus Ananias, comunicou a realização da TV Beira Linha ao Ministério das Comunicações, salientando o caráter comunitário e inovador do feito. Naquele mesmo ano, a equipe também realizou o “Seminário Imagem Comunitária: o Vídeo Comunitário no Brasil”, que reuniu realizadores de audiovisual comunitário e independente de diversos cantos do país para discutir os rumos e perspectivas desse tipo de produção.


Tecendo redes

A TV Sala de Espera encerrou definitivamente suas atividades em 1997, devido a questões de ordem financeira e política envolvendo a Prefeitura de Belo Horizonte. Dentre os profissionais e os estudantes que participaram do projeto, já existia um grupo com o desejo de seguir desenvolvendo atividades semelhantes e, em 13 de janeiro daquele ano, fundou-se oficialmente a organização não governamental Associação Imagem Comunitária – Grupo de Pesquisa e Experimentação em Mídias de Acesso Público (AIC). A fundação marca o início de uma nova trajetória em favor da promoção do acesso público às mídias, mas, desta vez, sem o respaldo da universidade. Iniciavam-se aí desafios de múltipla ordem, como manter aquele grupo fundador coeso e mobilizado para seguir com as ações, muitas delas não remuneradas, além de captar recursos e projetos que guardassem afinidade com a razão de ser da ONG. A continuidade só seria assegurada se as pessoas acreditassem naquela proposta. Em parceria com o Canal Saúde, do Ministério da Saúde e da Fundação Oswaldo Cruz, a Associação produziu a série de vídeos de educação sanitária “Saúde, gente!”, junto a comunidades dos bairros Paulo VI e Ribeiro de Abreu, as mesmas onde havia atuado a TV Sala de Espera. Já em 1998 e 1999, a AIC ministrou oficinas para o Programa Oficina da Cultura, um convênio entre a Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais e o Ministério do Trabalho, por meio do Fundo de Amparo ao Trabalhador. Foram oferecidos cursos profissionalizantes em TV, vídeo e rádio a grupos culturais, pequenos produtores, funcionários públicos e instituições de caráter educativo e social de Belo Horizonte e interior de Minas (conheça melhor essas atividades no Glossário de Projetos). Essas e outras ações posteriores permitiram à AIC estabelecer vínculos com diferentes pessoas, grupos e instituições na cidade. Um elemento facilitador dessas redes foi a descentralização experimentada pelo setor cultural de Belo Horizonte ao final dos anos 1990. Programas públicos de fomento à cultura, como o Arena da Cultura e os Centros de Apoio Comunitário (CAC), foram criados nesse período. “Quando nasceram os CACs, houve todo um trabalho local nessas comunidades. Também era uma oportunidade para nós, pois havia uma demanda grande por oficinas”, comenta a jornalista Juliana Leonel, uma das sócias-fundadoras da AIC e que atuava como educadora nessas oficinas. Dos trabalhos desenvolvidos com os Centros de Apoio Comunitário, destacam-se aqueles com os CACs do Barreiro e do bairro São Paulo, junto a crianças e adolescentes dessas regiões. Já as oficinas ministradas no Arena deixaram uma herança muito importante: uma segunda leva de sócios para a AIC, que se juntaram àqueles que fundaram a Associação em 1997. Aléxia Melo, hoje diretora de Projetos Sociais da AIC e também uma das sóciasfundadoras, acredita que a pouca oferta desse tipo de atividade também foi um estímulo para a ONG: “na época, havia poucos processos formativos em audiovisual e poucos equipamentos públicos na cidade. As ONGs também eram novidade. Os órgãos públicos nos acionavam para pequenos processos e para atender demandas das quais eles não davam conta”, explica.

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O início da década de 2000 inaugura trabalhos desenvolvidos junto a outros grupos, como a população em situação de rua e os usuários de serviços de saúde mental de Belo Horizonte. Permanecia aí a preocupação em se articular com outros espaços e movimentos para além da AIC. Em algumas das oficinas de rádio com usuários da rede psiquiátrica, por exemplo, foram produzidos conteúdos para o evento anual de 18 de Maio, quando se comemora o Dia Nacional da Luta Anti-Manicomial. As produções também eram escoadas para diversas rádios comunitárias que existiam em BH à época. O educador João Evangelista, um dos usuários do serviço de serviço mental que participou dessas oficinas, conta que o trabalho os aproximou de coisas que “não tinham nada a ver com seu vocabulário”, relativos a conhecimentos técnicos básicos sobre comunicação. “Naquela época, fiquei muito mais excitado para aprender mais, eu não tinha noção de que aquilo era um projeto de cunho social... Eu tinha 20 anos, sabia que as ideias antimanicomiais eram justas e a gente transmitiu aquelas ideias”, recorda João, que anos depois viria a se tornar um dos articuladores da Rede Parabolinóica de Arte e Loucura (saiba mais no Glossário de Projetos).

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Outro marco importante, que renderia articulações futuras, foi o projeto “Se ame em close – Apenas um Olhar”, que realizou oficinas para a produção de um vídeo comunitário junto a crianças e adolescentes atendidos pelo Centro Integrado de Atendimento ao Menor, o Ciame Flamengo, no bairro Alto Vera Cruz. Grupos conhecidos por meio dessas atividades tornaram-se parceiros da AIC em outras ocasiões, como o Grupo Meninas de Sinhá e o Negros da Unidade Consciente, o N.U.C. Ainda, outras oficinas de rádios comunitárias foram realizadas com crianças dos bairros Vista Alegre, Cabana, Vila Cruzeirinho e Barreiro, localizados em periferias da cidade. Se as ações e projetos desenvolvidos nesse período eram muito diversos, em comum havia um ingrediente fundamental: a experimentação. A quantidade de oficinas ofertadas permitiu com que o grupo desenvolvesse formas de trabalho que iriam orientar as metodologias-chave da instituição nos anos seguintes. Além disso, existia um compromisso grande com a pesquisa e o estudo de referenciais teóricos que pudessem ser conjugados com as experiências práticas em curso. Parte do grupo se reunia semanalmente na casa de uma das integrantes da Associação para ler, discutir e criar. E, cerca de quatro vezes ao ano, encontros entre todos os membros da ONG possibilitavam discutir os rumos da Associação. Apesar da quantidade de ações executadas nesse período, as garantias de permanência eram escassas e muitos dos membros dividiam o tempo dedicado à ONG com outros trabalhos. Não havia vinculações trabalhistas e, não raro, os recursos resultantes de oficinas eram compartilhados entre todos os membros. “Era vender o almoço pra comprar a janta”, define Elias Santos, um dos sócios-fundadores da AIC e, atualmente, coordenador executivo da Rádio UFMG Educativa. Ele comenta que aqueles encontros e atividades eram uma oportunidade de reencontrar os amigos feitos na universidade – a maioria já graduados – e de se aprofundar nos estudos referentes às relações entre


comunicação e educação. “Se não fosse pela nossa amizade, não tínhamos conseguido chegar aonde chegamos. Era um momento de sociabilidade, em nome de manter os laços com as pessoas. E foi muito difícil. Era um encontro de amigos para tentar fazer alguma coisa diferente na comunicação. Sinceramente, eu não acreditava que ia dar certo”, reflete.

A formação de uma Rede Jovem de Cidadania

Cinquenta e quatro adolescentes e jovens, das nove regionais administrativas de Belo Horizonte, são responsáveis pela produção de programas de vídeo e rádio, de um jornal impresso e pelos conteúdos de uma agência de notícias para a imprensa local. Na pauta, temas ligados ao universo jovem e às suas maneiras de ver e viver a cidade. Em linhas gerais, assim se podia descrever a primeira configuração da Rede Jovem de Cidadania (RJC), um dos projetos institucionais de maior fôlego e perenidade. A iniciativa teve início no primeiro semestre de 2003, depois que a proposta foi aprovada em um edital público da Petrobrás, através do Programa Petrobrás Social. A AIC foi uma das 38 iniciativas contempladas, entre cerca de 2400 projetos vindos de todo o país. Os recursos recebidos com o início da RJC permitiram a contratação de uma equipe permanente de educadores, produtores e coordenadores, o aluguel de uma sede oficial para a ONG e, sobretudo, um investimento ímpar no desenvolvimento de metodologias dialógicas e participativas em educação midiática (veja mais no capítulo sobre Educação). Aquela rede de jovens comunicadores representava a materialização de vários dos contatos e articulações realizados pelo grupo ao longo de quase dez anos de caminhada. Ainda em 1999, quando completou dois anos de existência formal, a instituição realizou o Seminário “Pra onde vai essa criança?”, com o objetivo de avaliar sua trajetória e discutir possibilidades de atuação no campo da comunicação comunitária. Foram mapeadas e convidadas pessoas, grupos e instituições com as quais se havia trabalhado desde a TV Sala de Espera. “Tínhamos a sensação de haver feito muitas coisas espalhadas... Com o mapeamento, saltava aos olhos a presença infanto-juvenil em nossas atividades, com muitos adolescentes. A instituição não tinha muita consistência estrutural e foi incrível ver o sentido maior do que a gente tinha feito”, lembra Rafaela Lima, hoje diretora institucional da ONG. Atentos a possibilidades de financiamento mais perenes, descobriram o edital da Petrobrás, em 2001, e inscreveram aí a Rede Jovem de Cidadania. Uma vez aprovado o projeto, era o momento de mobilizar jovens interessados em fazer parte da Rede. Integrantes da AIC se dividiram por regionais administrativas de Belo Horizonte, contatando as entidades, grupos e jovens com os quais já tivessem estabelecido algum tipo de vínculo. “Me lembro de que Valéria, Cris [também associadas da ONG] e eu ficamos com as regiões do Barreiro, Centro-Sul e Leste. Aí levantamos contatos e articulamos com instituições. Na Oeste, por exemplo, acho que tínhamos dado

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apenas uma oficina, então tivemos que fazer outros contatos. Além de ‘achar’ os meninos, começamos articulações com outros grupos”, descreve Ana Tereza Melo Brandão, coordenadora-geral da Oi Kabum! – Escola de Arte e Tecnologia em Belo Horizonte. Desde o início, um dos maiores estímulos era o envolvimento dos jovens com a região de onde vinham. Das cinco tardes na semana dedicadas à formação em mídias, em uma delas os participantes deveriam permanecer em suas comunidades, em busca de pautas locais. Era o chamado “Turista em sua comunidade”. Depois, eram discutidas possibilidades de inserção e abordagem desses temas nas diversas mídias do projeto. Valiam grupos artísticos, trabalhos legais desenvolvidos por associações, personagens curiosos... A proposta era desnaturalizar o que porventura lhes parecesse banal, estimulando outros olhares para o cotidiano, além de fomentar a apropriação do espaço urbano. “Havia essa atividade de mapeamento, de ver o que estava acontecendo de invisível e trazer para a pauta. Era tentar ir fortalecendo trabalhos e grupos para a mobilização”, comenta Ana Tereza. Outra tentativa de estabelecer pontes com as comunidades era através dos chamados “copiões” – periodicamente, versões preliminares das produções da Rede eram exibidas a familiares, membros da comunidade e amigos dos jovens envolvidos, com vistas a legitimar as discussões e visibilizar o trabalho junto a outros circuitos. 18

As formações eram rotativas: cada um passava seis semanas produzindo nas mídias que mais lhe interessassem – vídeo, rádio, impresso ou agência de notícias. Depois disso, os jovens trocavam de linguagem. Inicialmente, as oficinas aconteciam na sede da Associação (à época localizada na Rua dos Tabaiares, 62, no bairro Floresta) – o que significa que cinquenta e quatro jovens, mais educadores, produtores e coordenadores circulavam diariamente em uma casa de poucos cômodos. Em seguida, ainda no mesmo ano de 2003, as formações passaram a acontecer no Centro Cultural da UFMG. A mudança ia ao encontro de um novo paradigma de ocupação daquele espaço. Sob o lema “O Centro é de todo mundo”, a proposta da gestão que havia assumido em 2002 era abrir as portas para a ocupação de projetos vinculados de alguma forma à universidade e também a grupos autônomos comprometidos com atividades sociais e/ou culturais. “Fui buscar os projetos da universidade que tivessem a ver com a diversidade das pessoas que frequentam esse lugar da cidade”, conta Regina Helena, professora do Departamento de História da UFMG e diretora do Centro Cultural UFMG entre os anos de 2002 e 2006. Regina lembra que crescia, em Belo Horizonte, o número de ONGs que desenvolvia projetos sociais, e que a AIC era uma das poucas que convocavam pessoas de vários lugares da capital. “E, ao mesmo tempo, começou a funcionar ali outro projeto com juventudes, então imaginei ‘essa coisa de jovens é uma boa’, porque nossos alunos eram jovens também. A ideia era fazer com que ali fosse um espaço de diversidade social e não somente cultural”, observa.


O outro projeto mencionado por Regina era o Curso de Formação de Agentes Culturais Juvenis, do Observatório da Juventude, um projeto de pesquisa e extensão da Faculdade de Educação (FAE) da UFMG. No Curso, jovens já envolvidos com alguma atividade cultural e/ou comunitária passavam por formações diversas. Na avaliação de Regina Helena, era muito importante o encontro entre os alunos da universidade que já frequentavam o espaço – estudantes da Escola de Belas Artes que expunham trabalhos na galeria do Centro Cultural, por exemplo – com jovens que, naquela época, não teriam a menor possibilidade de acessar o ensino superior. Como contrapartida pela cessão do espaço, participantes de ambos os projetos contribuíam com ações e produtos de comunicação para diversas atividades do Centro Cultural. O encontro entre duas iniciativas tão afins foi além de uma feliz coincidência. “Ambos levavam muito em conta o jovem na sua realidade, como protagonista e sujeito de ação”, destaca Juarez Dayrell, professor da FAE/UFMG, integrante do Observatório da Juventude e coordenador do Curso de Formação de Agentes Culturais Juvenis. Além do convívio entre jovens vindos de diferentes regiões e classes sociais, alguns deles passaram a frequentar as duas formações. Houve uma evasão da primeira leva de participantes da Rede Jovem de Cidadania e, para substituir alguns deles, foram convidados outros que já participavam do Curso de Formação de Agentes Culturais. Warley Bombi, um dos participantes do Curso e, depois, membro da RJC, lembra que havia muitas afinidades entre os grupos. “Nós, do Curso de Formação, contribuíamos muito com as pautas porque éramos mais velhos, já tínhamos uma trajetória e isso facilitava o trabalho do grupo”, acrescenta Warley, que hoje é um dos educadores responsáveis pelo Núcleo de Produção da Oi Kabum! Escola de Arte e Tecnologia. À época com 19 anos, o rapaz já ministrava oficinas comunitárias de grafite e desenvolvia trabalhados ligados ao design gráfico.

Do território às causas políticas: novas perspectivas de mobilização

No segundo ano de atividades da Rede Jovem de Cidadania, em 2004, acontecimentos importantes impactaram sobremaneira os rumos desse projeto e da própria instituição. Antes veiculado na TV Horizonte e no Canal Comunitário de Belo Horizonte, ambos disponíveis somente a assinantes de TV a Cabo, o programa de vídeo da RJC passou a ser exibido semanalmente na Rede Minas, a emissora pública de televisão do estado de Minas Gerais. Na grade de programação da TV, era a única atração produzida junto a comunidades e cujos temas dialogavam diretamente com o público jovem. A AIC dava aí um grande salto de visibilidade, o que permitiu à Rede adentrar outros circuitos e ganhar destaque entre iniciativas ligadas à comunicação comunitária. Naquele ano também se inicia o projeto CUCO – Juventude, Cultura e Comunicação, que atuou junto a cerca de 20 escolas públicas de Belo Horizonte, em diferentes regiões da cidade. A proposta era que integrantes da Rede desenvolvessem atividades de produção

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radiofônica em escolas de sua comunidade – em alguns casos, aquela onde haviam estudado. Os jovens deveriam propor um plano de atividades à direção da escola eleita, negociando com ela todos os passos do projeto. Ainda que estivesse sob a orientação de um educador da AIC, esperava-se que o participante conduzisse o processo de maneira autônoma, tendo como um dos principais objetivos a montagem de uma rádio escolar com os alunos. As oficinas eram oferecidas no contra-turno escolar. “Voltar para as nossas comunidades e atuar era bem legal; éramos multiplicadores. Havia essas palavrinhas mágicas - participação e autonomia - e esse processo [a formação recente no âmbito da RJC] estar fresco na nossa cabeça ajudou muito, de direcionar a gente nesse sentido. Acho que deu muito certo isso de buscar jovens de diferentes regiões; conhecemos outras realidades e trocamos muito, querendo ou não acabávamos circulando, então imagino que mundo é esse em que se vive. Acho muito legal essa diversidade de pessoas e lugares. Você vê que muitas realidades não existem só em sua comunidade dificuldades com transporte e violência, por exemplo”, reflete Giovânia Monique, que integrou a Rede Jovem de Cidadania e tornou-se educadora do projeto CUCO na Escola Municipal Aurélio Buarque de Holanda, na região do Barreiro. As atividades desse projeto se encerraram em 2006, com o fim do patrocínio do Instituto Credicard.

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Outro marco importante na trajetória mobilizadora da AIC foi o projeto Juventude e Direitos Humanos, desenvolvido em 2005 com o apoio da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE). A iniciativa sela o contato da instituição com jovens e grupos já envolvidos em outras atividades de caráter cultural e comunitário, como o coletivo Hip Hop Chama, o grupo Arte Favela e o Centro Juvenil Salesiano. Mais de sessenta pessoas foram mobilizadas à participação e durante todo o ano estiveram envolvidas com a produção de uma campanha educativa focada na interface entre juventude e direitos humanos. Foram elaborados documentários televisivos, peças radiofônicas, website e um CD-ROM final, com base em temas como Direitos Humanos e Cidadania Ativa, Rede de Defesa dos Direitos Humanos e Os Direitos das Crianças, Adolescentes e Jovens. Na esteira desses trabalhos, a Rede Jovem de Cidadania assumiu outro arranjo. Novos grupos adentraram a Rede, muitos deles os mesmos que participavam do projeto Juventude e Direitos Humanos, e os processos de formação em mídia eram conduzidos segundo as demandas observadas. “No início, a RJC era fruto de atividades formativas, ou seja, antes a atividade era com jovens que estavam participando desses processos, com propostas bem pedagógicas. Com a entrada dos grupos, começam a aparecer outras demandas, porque eles já tinham um trabalho comunitário. Então a demanda era por visibilidade”, compara Warley Bombi, ex-integrante da Rede e, atualmente, educador do Núcleo de Produção da Oi Kabum! Escola de Arte e Tecnologia. Para ele, esse foi um grande aprendizado para as equipes, no sentido de desconstruir discursos muitas vezes ‘engessados’ por parte desses grupos ou vindos da própria AIC. “Os grupos já levavam coisas pra serem ditas. Antes os adolescentes e jovens tinham que ser estimulados a dizerem algumas coisas”, completa Warley.


Para Áurea Carolina, que atuou como articuladora institucional do projeto Juventude e Direitos Humanos e hoje é coordenadora de projetos da AIC, o vínculo dos adolescentes com seus territórios deu o tom da primeira fase da Rede Jovem de Cidadania. “O Juventude e Direitos Humanos ‘desterritorializa’ o processo, e se aproxima mais de temas e causas políticas”, observa. Rafaela Lima, diretora institucional da AIC, ressalta que, até aquele momento, a instituição ainda não havia tido contato com juventudes já mobilizadas, o que afetou o entendimento da AIC acerca das relações entre juventude e política. “Eu percebi a riqueza da cidade na qual eu nasci naquele momento”, destaca. Naquele período, junto ao Observatório da Juventude da UFMG e ao grupo D-vEr. CidaDe CuLturaL, a AIC participou da fundação do Fórum das Juventudes da Grande BH. Rede de grupos, entidades e movimentos integrados por jovens ou que trabalham com o tema, o Fórum defende os direitos da juventude na capital mineira e luta pela construção de políticas públicas com essa perspectiva. O Fórum foi criado em 2004 e permanece com suas atividades.

Guia Cultural de Vilas e Favelas

Uma importante referência para a AIC, na época, foi o Guia Cultural de Vilas e Favelas, lançado em 2004 pela antropóloga Clarice Libânio. A publicação identificou e cadastrou 740 grupos culturais nas 226 vilas, favelas e conjuntos habitacionais da capital mineira. Embora expressivas em termos quantitativos, essas produções apresentavam várias carências. “A visibilidade dessas produções era muito incipiente, tanto dentro quanto fora das comunidades”, conta Clarice. Segundo a autora, as demandas apresentadas pelos grupos envolviam a própria produção cultural em si, além do suporte material pra veiculação de sua arte, como livro, CD ou vídeo. Capacitação para elaboração e gestão de projetos era outro dos gargalos vivenciado por esses coletivos. O Guia Cultural daria origem à ONG Favela é Isso Aí, coordenada pela própria Clarice e cuja missão é apoiar e divulgar ações de arte e cultura na periferia.

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Guia Jovem de Cultura e Cidadania

Com o objetivo de apresentar a diversidade e a riqueza de experiências envolvendo juventudes em Belo Horizonte, a AIC lançou, em 2005, o Guia Jovem de Cultura e Cidadania. A publicação é fruto das atividades realizadas pela Agência de Notícias da Rede Jovem de Cidadania, e se inspirou no cenário efervescente da produção cultural e comunitária em Belo Horizonte atestado pelo Guia Cultural de Vilas e Favelas. São apresentadas diversas iniciativas juvenis de destaque, voltadas à promoção da arte, cultura, desenvolvimento comunitário, entre outros, e localizadas nas nove regionais administrativas de Belo Horizonte. Foram produzidos 45 mil exemplares, distribuídos gratuitamente a escolas públicas de Belo Horizonte e a demais entidades interessadas.

Conselhos na AIC: o exercício da participação

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Uma das máximas do processo democrático é a de que democracia também se aprende na prática. Ou seja, é participando que se aprender a participar, e isso é fundamental para estimular a corresponsabilidade com o próprio processo. Na AIC, a preocupação em promover um envolvimento mais efetivo – das equipes, dos participantes dos projetos, dos parceiros – nos rumos tomados pela instituição sempre foi uma constante, com as devidas limitações que processos dessa natureza carregam. Juliana Leonel, jornalista e uma das sócias fundadoras da AIC, conta que sempre houve uma preocupação muito genuína por parte da ONG em buscar formas de envolvimento da comunidade, e que o próprio grupo, em suas atividades cotidianas, também levava essa ideia ao limite. “Sempre tivemos essa construção do coletivo e do comunitário, de integrar essa diversidade em algo em comum”, reflete Juliana. O Conselho de Jovens do Projeto CUCO – Juventude, Cultura e Comunicação é lembrado por vários integrantes da AIC como uma importante experiência de participação. A proposta era que os jovens se envolvessem com os processos de desenvolvimento metodológico do projeto e da ONG, bem como com discussões ligadas à gestão da organização. O Conselho reunia sete integrantes dos projetos juvenis da Associação, que tinham a missão de representar os colegas fora do grupo e junto aos educadores e à coordenação. Com reuniões periódicas, o grupo deveria deliberar o posicionamento diante de algum fato, assim como negociar com outras instâncias envolvidas. Pablo Abranches, hoje educador social na AIC, era um dos jovens integrantes do Conselho e avalia que o processo contribuía para que a gestão fosse mais descentralizada.


“Todas as questões do cotidiano passavam por essa interlocução, para que a coisa não viesse de cima pra baixo”, destaca Pablo, que na época era também membro da Rede Jovem de Cidadania e um dos multiplicadores do projeto CUCO na Escola Municipal Professor Moacyr Andrade, em Venda Nova. Giovânia Monique, que também participou da RJC e do CUCO como uma das correspondentes da Regional Barreiro, comenta que, como em qualquer projeto dessa natureza, as dificuldades eram várias. Iam desde a escolha dos jovens que viajariam a trabalho, quando necessário, até o lanche oferecido pela instituição. “Havia gente que comia dois pães, sendo que eram 54 pães, um para cada jovem! Mesmo que sobrasse algum quando alguém não fosse, muita gente iria querer esse pão”, exemplifica Giovânia, que hoje também é educadora social na AIC. A experiência com o Conselho de Jovens do projeto CUCO abriu caminhos para outra iniciativa institucional muito significativa: o Conselho da AIC, que mudaria de nome e formato por três vezes ao longo de sua história. Começou como Conselho Editorial da Rede Jovem de Cidadania, em 2006. Sua idealização é fruto de demandas apresentadas no Encontro de Comunicação dos Movimentos Juvenis da Grande BH, em 2005, e que selou a aproximação definitiva da AIC com grupos juvenis na cidade. O evento buscou discutir possibilidades e demandas de comunicação no âmbito desses grupos, e a criação do Conselho Editorial da RJC buscou atender a essas expectativas, por meio da sugestão de temas e pautas a serem abordados nos programas de TV da Rede. “O surgimento do Conselho teve muito a ver com uma discussão que acontecia no âmbito da Rede Jovem de Cidadania, que era o de como diversificar os temas que eram tratados e de como ampliar nossa rede, ver novos coletivos e caras e, sobretudo construir um espaço cada vez mais colaborativo de produção. Queríamos que os grupos tivessem mais entrada na definição das pautas, das metodologias e dos lugares onde aconteceriam. O desejo era diversificar a Rede e construir processos mais democráticos e colaborativos em suas produções”, descreve Áurea Carolina. Grupos como Faverock, Associação Cultural Odum Orixás e Grupo Cultural NUC - Negros da Unidade Consciente eram presença constante nessa primeira fase do Conselho da AIC. Para além de jovens e grupos juvenis, todos os interessados em contribuir de alguma maneira para a ONG eram convidados a se unirem ao Conselho – como líderes comunitários, professores e integrantes de projetos sociais. “Isso começou a fazer com que pensássemos esse espaço pra além de um projeto editorial. Queríamos que esse grupo começasse a pautar as coisas, inclusive projetos, e também diagnosticar, a partir de um grupo grande, que rumos poderíamos tomar”, avalia Aléxia Melo, que na época era uma das responsáveis pela produção do Conselho. Na visão de Áurea Carolina, o Conselho se tornou um espaço de incentivo à participação em outras frentes da ONG, e contribuía para legitimar ações levadas a cabo pelo coletivo. Esses novos arranjos levaram com que a AIC definisse outro escopo de atuação para o Conselho, que passou a operar segundo frentes de trabalho. Em 2007, com o início do

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projeto Rede Juventude de Atitude (leia mais no Glossário de Projetos), demandas de visibilidade dos grupos participantes passaram a ser discutidas também aí, tais como clips de grupos de rap e vídeos institucionais. Em suma, o Conselho tornava-se um espaço transversal, de confluência dos vários projetos desenvolvidos pela ONG, servindo também à formação e mobilização de antigos e novos grupos. Uma das frentes de trabalho se dedicava à análise das produções juvenis da Rede Jovem de Cidadania; outra levantava temas e demandas junto aos participantes e sugeria a mídia mais adequada para sua abordagem, se fosse o caso. Uma terceira frente cuidava da articulação com outras entidades parceiras, e havia também um grupo responsável por receber os novos participantes do Conselho, que se reunia mensalmente.

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“A impressão que eu tenho é de democracia”, define Doug Monge, membro da Família de Rua, coletivo dedicado à promoção da cultura hip-hop em Belo Horizonte. À época, o rapper participava de reuniões do Conselho representando o grupo Conspiração Subterrânea Crew e, depois, a Família de Rua. Ele avalia que o Conselho era pautado pelo respeito e escuta e era essencial para que a AIC cumprisse sua missão. No entanto, pontua que nem todos estão acostumados a esse tipo de atividade. “A correria e outras demandas às vezes nos afastam desse processo, que é mais coletivizado e democrático”, acrescenta Monge. Na tentativa de tornar esses processos mais dialógicos e corresponsáveis, a AIC passou a convidar os grupos para que também ajudassem a definir as próprias metodologias de condução do Conselho. “O que pensávamos era que não precisaríamos estar o tempo todo à frente da mobilização. Era necessário pensar a rede pra além do centro”, reflete Ana Tereza Melo Brandão, hoje coordenadora da Oi Kabum! Escola de Arte e Tecnologia. Ausência de financiamento e mudanças na equipe levaram à suspensão do Conselho entre 2008 e 2009. No ano seguinte, o espaço foi retomado, desta vez com um novo nome e uma nova diretriz: Conselho de Comunicação Comunitária, com o objetivo de discutir acesso público e tornar-se uma instância de referência para a gestão democrática dos projetos desenvolvidos pela AIC. Giovânia Monique, responsável pela produção do Conselho nessa fase, lembra que uma das estratégias utilizadas era buscar temas trabalhados pelos grupos parceiros para uma discussão compartilhada entre os participantes. “Um deles, muito legal, foi sobre arte e loucura [tema orientador dos trabalhos da Rede Parabolinoica de Arte e Loucura]. Às vezes pensamos que os grupos não se interessam muito pelo trabalho dos outros, mas vimos que se interessam, sim! Fizemos uma carta aberta para o evento do 18 de maio [quando se comemora o Dia Nacional da Luta Antimanicomial]”, conta. Outro desdobramento importante foi um posicionamento público do Conselho frente à prisão de sete jovens pichadores belo-horizontinos, os “Piores de Belô”. Eles foram detidos sob a acusação de “formação de quadrilha”, em vez de serem enquadrados como crime ambiental contra o patrimônio público. A AIC participava, à época, de uma comissão intersetorial dedicada a acompanhar e cobrar uma conduta respeitosa do


poder público em relação a isso; além disso, a temática era cara a muitos dos grupos participantes do Conselho e a membros da própria ONG. O texto chamava a atenção para o caráter extraordinário e equivocado da prisão e para o argumento infundado que a justificou, destacando que a pichação é uma questão complexa e que deve ser tratada em um diálogo amplo e livre. As últimas reuniões do Conselho nesse formato foram realizadas em 2011, quando, segundo Giovânia Monique, “acabaram-se as forças e as vontades”. Embora reconhecido como um espaço de extrema importância não somente para a instituição, mas também para os grupos parceiros que compõem a rede, são muitas as dificuldades para se permanecer na aposta. Além das rotinas mais cotidianas que consomem o trabalho da AIC e das pessoas que trabalham ali, a ausência de um sentido mais prático para as reuniões também é apontada como um dificultador. Giovânia pondera que, embora haja um desejo institucional em promover a formação e o intercâmbio entre grupos através do Conselho, também é necessário reinventar os métodos: “nossa dificuldade é não ter exatamente um objetivo para os rumos do Conselho; não amarramos no sentido metodológico”. Em 2012, o Conselho de Comunicação Comunitária ganhou nova cara com a concepção de uma campanha colaborativa de enfrentamento à violência contra as juventudes. Em parceria com o Fórum das Juventudes da Grande BH, espaço que a AIC integra desde 2004, foram realizadas reuniões ampliadas com grupos e movimentos de Belo Horizonte e região metropolitana, que atuam no campo das juventudes ou que são formados por jovens. Optou-se por inserir uma demanda concreta para o Conselho – neste caso, contribuir para a elaboração de uma campanha educativa. Mesmo inserida em uma causa maior, de maior perenidade – o enfrentamento à violência contra as juventudes, a campanha colaborativa teve início, meio e fim. Os encontros ampliados contaram com a participação de cerca de 40 pessoas em cada um, representando poder público e sociedade civil atuante em favor dessa causa.

Pé na estrada Habituada a concentrar suas atividades na capital mineira, a AIC deparou-se com um grande desafio quando passou a executar projetos também no interior de Minas Gerais e em cidades de outros estados. O primeiro deles foi o Juventude de Atitude, em 2007, que produziu uma série de documentários junto a grupos juvenis da Região Metropolitana de Belo Horizonte, a partir de temas como raça, teatro e sexualidade. No ano seguinte, e como desdobramento da primeira iniciativa, foi idealizado o Juventude de Atitude em Minas, que chegou às comunidades de Bichinho – povoado pertencente ao município de Prados e Lapinha, vinculada ao distrito de Santana do Riacho. “Essa expansão rumo ao

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interior, com o Juventude de Atitude, é uma inovação na forma de mobilizar, porque nos defrontamos com uma realidade muito diferente da região metropolitana. São cidades do interior, pequenas, meio rurais... Mesmo em escala menor e isso, em tese, facilitando a mobilização, é diferente a forma de acesso às pessoas e como conquistá-las para participarem com a gente”, avalia Áurea Carolina, coordenadora de projetos na AIC e, à época, articuladora institucional da ONG. Aléxia Melo, diretora de Projetos Sociais da AIC, ressalta que nessas ocasiões o “encontro com o outro” é ainda mais forte, o que demanda escuta, observação e visitas ao local. “Se chega a uma comunidade que está protegida pelas ‘montanhas’, pelo ‘tempo’, então é ainda mais necessário esse cuidado, que é de não levar a coisa pronta, de levar jeitos de fazer que estejam abertos para a participação e para que as pessoas possam ir se apropriando”, reflete. Um dos aprendizados mais significativos se deu no âmbito do Projeto Juventude do Jequi, realizado pela ONG desde 2007 e que já atuou fortemente em cidades como Araçuaí, Itaobim, Padre Paraíso e Jequitinhonha, todas no Vale do Jequitinhonha. O projeto envolve formação e produção em mídias comunitárias junto a jovens e coletivos juvenis da região, em articulação com escolas, espaços comunitários e eventos de caráter cultural.

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Outros projetos de atuação significativa no interior são o Estação da Música Jovem, presente em municípios do interior de Minas e do Espírito Santo, e o Cidadania nos Trilhos, que atua em escolas da região metropolitana de Belo Horizonte. (Saiba mais no glossário de projetos)

Dentro e fora da Escol a

Desde 2009, a AIC é responsável pela coordenação da Oi Kabum! Escola de Arte e Tecnologia, programa do Oi Futuro desenvolvido em Belo Horizonte e outras três capitais brasileiras (leia mais no Glossário de Projetos). A Escola atua no sentido de ampliar as possibilidades de formação e expressão artística e tecnológica de jovens de Belo Horizonte e Região Metropolitana. No processo seletivo, são analisados formulários de inscrição e realizadas entrevistas individuais e atividades em grupo, ao fim do qual são selecionados 120 jovens. É fundamental que os selecionados tenham interesse pela formação, já que deverão dedicar todas as suas tardes, durante 18 meses, às atividades formativas oferecidas pela Escola. Para a constituição da primeira turma de estudantes da Oi Kabum!, em 2008, outro grande esforço mobilizador foi empreendido pela AIC. Assim como na Rede Jovem de Cidadania, a aposta se concentrou em participantes de projetos anteriores, assim como em contatos pessoais de cada um dos membros da ONG. A equipe optou por não fazer uso de campanhas massivas de divulgação. Em vez disso, se concentrou em estratégias de mobilização mais focadas. Foi convocada uma reunião geral com pessoas, grupos


e entidades parcerias, para apresentar a eles a proposta da Escola. Aí também foram distribuídas peças gráficas para que esses multiplicadores pudessem replicar a novidade junto a outras pessoas. “Rodamos vilas e favelas conversando com as lideranças que não tinham conseguido ir à reunião, distribuindo materiais... Fizemos um mapeamento de lugares e pessoas que seria interessante acionar, como alunos de oficinas de grafite que eu havia ministrado e que tinham um desejo de arte e tecnologia que só a oficina não dava conta”, lembra Warley Bombi, educador da Kabum e que, à época, foi um dos mobilizadores para o processo seletivo. Duzentos e trinta candidatos se inscreveram para ocupar as 100 vagas então disponíveis. Embora um dos critérios fundamentais para a seleção tenha sido o interesse em dedicar 18 meses de suas vidas à Escola, o vínculo com ações comunitárias deu o tom daquela primeira turma. “Eram jovens que estavam, de alguma forma, ligados a atividades sociais e comunitárias, que vieram dessa mobilização mais focada nas comunidades”, conta Bombi. O processo seletivo é o ponto de partida para promover o engajamento dos jovens com a Oi Kabum! Escola de Arte e Tecnologia. Uma vez que estão matriculados, outras ações são realizadas com esse mesmo fim. Na chamada “Semana do Pertencimento”, que acontece nos primeiros dias letivos, os alunos participam de oficinas e atividades que favorecem a interação entre si e sua apropriação do ambiente escolar. Gustavo Teodoro, aluno da primeira turma da Kabum, comenta que, de início, se assustou um pouco com a dinâmica da Escola. “Teve um exercício para nos soltarmos, que os educadores fizeram, em que colocaram vendas em nós e nos davam coisas pra experimentarmos. Nisso fomos nos aproximando mais dos educadores... Eu estava conhecendo as pessoas, e isso marca demais”, lembra Gustavo, sobre a Semana do Pertencimento. Outra estratégia para o desenvolvimento de corresponsabilidade e sentidos comuns no ambiente escolar são os grupos de gestão compartilhada, formados a partir de demandas reais da Escola. Esses espaços buscam envolver alunos, educadores, familiares, funcionários e comunidade em geral na condução dos processos de gestão da Oi Kabum! (leia mais no capítulo sobre Desenvolvimento Institucional). Entre os 11 grupos atuantes no momento, está o EM Diálogo, responsável pela articulação e promoção de atividades educativas junto a escolas e outros espaços comunitários. A ideia é estabelecer vínculos com as escolas onde os jovens cursaram ou cursam o Ensino Médio e, para isso, são apresentadas produções realizadas pelos alunos e oferecidas oficinas em temas e linguagens pertencentes ao universo da Kabum (fotografia, vídeo, design, dentre outros). Algumas vezes, também é escolhido um professor de referência, que contribui para observar e monitorar o aprendizado do aluno na escola formal. Warley Bombi, que acompanha o grupo de gestão EM Diálogo, ressalta que é comum que as atividades da Oi Kabum! despertem no aluno um interesse maior que a escola convencional, devido às atividades envolvendo arte e tecnologia. Isso reforça

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a importância do diálogo com tais instituições. “Fomos sentindo, cada vez mais, a necessidade de mostrar o valor dessa educação formal, principalmente no que diz respeito à inserção no mundo do trabalho. Principalmente com o lance da Escola Técnica [título recebido pela Oi Kabum! em junho de 2013], porque o certificado depende do diploma. Isso é uma questão politica para a AIC, de estimular a relação das pessoas que passam por ela com a educação”, analisa.

Desafios e perspectivas

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“Acho que mobilizamos pessoas que querem fazer alguma diferença no mundo”. As palavras são de Áurea Carolina, coordenadora de projetos da AIC. Ela realça a variedade de sentidos que esse “fazer diferente” comporta: “pode ser desde o [Grupo] Ervanário, cujo trabalho consiste em produzir temperos e cosméticos usando produtos naturais, até o Fórum das Juventudes da Grande BH, que tem uma causa abstrata e se concretiza a partir de mobilizações em prol de políticas públicas de juventude”. Essa capacidade de interlocução com diferentes atores, entre organizações sociais, grupos comunitários, universidades, poder público e iniciativa privada, é apontada como uma das principais características da AIC. Warley Bombi, que já foi um dos jovens participantes da Rede Jovem de Cidadania e é hoje educador da Oi Kabum!, aposta que essa preocupação com o “outro” e a tentativa de promover o empoderamento dos sujeitos e grupos com os quais trabalha sejam, talvez, “a maior riqueza da AIC”. Rafaela Lima, diretora institucional da AIC, não acredita que a organização conte com um jeito único de conduzir suas atividades. Ela prefere apontar alguns princípios orientadores: “o que acho que está ligado à identidade da AIC são algumas preocupações com o processo: sempre tentar alguma dimensão de mobilização, de incidência política e de fortalecimento da sociedade civil. É promover um processo que seja dialógico”. Pablo Abranches avalia que o grande “valor” da ONG em termos de mobilização é sua característica comunitária. “Levamos isso no nome. Acho que temos muito forte como valor, ou princípio, a questão da diversidade, da produção colaborativa e participativa”, pontua. Para Aléxia Melo, diretora de Projetos Sociais da AIC, outro componente fundamental dos processos mobilizadores da ONG são os contatos pessoais de quem trabalha nela. “Nunca falamos em nome de um indivíduo, mas sempre como AIC. Cada um de nós tem seus pares e redes de relações”, afirma. Aléxia chama a atenção para o fato de que os processos mobilizadores não se dão somente via pessoas, mas também por produtos e atividades – como as produções audiovisuais da instituição, o site, as publicações já lançadas e as diversas participações em eventos afins à missão. O trabalho junto a grupos tão variados e, ao mesmo tempo, igualmente necessários ao cumprimento da missão institucional, demanda uma permanente leitura de cenários: da


cidade, das movimentações e, também, da condição juvenil em Belo Horizonte, já que as juventudes são os principais públicos dos projetos da AIC. Aléxia Melo argumenta que é necessária uma inteligência institucional que se atenha a essas questões, de maneira estratégica. “Agora os jovens se organizam de outra maneira, às vezes informalmente, como acontece no carnaval [de BH] e na Praia da Estação [importante movimentação juvenil da capital mineira]”, exemplifica. Embora a AIC esteja em contato com uma ampla rede de movimentos culturais e juvenis na cidade, Giovânia Monique, que hoje é educadora social na AIC, reconhece que os processos mobilizadores tendem a se concentrar em torno de projetos ou ações específicas. Para ela, é necessário ir além, apostando em espaços mais perenes de mobilização. “Não vamos mudar o mundo, mas a ideia é que a gente mude alguns espaços. E tem a mobilização que deve continuar para o resto da vida, que acho que é a mobilização dos grupos. Temos que sensibilizá-los para a causa da AIC. Para mim é isso: criar um relacionamento com o outro e, ao mesmo tempo, trazê-lo para nossa causa”. Áurea Carolina avalia que tão fundamental quanto saber quais redes a AIC ajuda a mobilizar é conhecer a força das conexões ativadas aí. Em outras palavras, seria imputar causalidade às ações da ONG. “Onde é que a AIC, ao entrar, reforça essas conexões?”, exemplifica Áurea, para quem isso permitiria afirmar com maior segurança quais são os impactos da AIC em termos de mobilização. Ana Tereza Melo, coordenadora da Oi Kabum! Escola de Arte e Tecnologia, acredita que a AIC cumpre mais um papel de mediar articulações existentes do que de se engajar em questões próprias, devido à natureza de sua missão. “Mobilizar para uma causa política é importante, mas a gente faz de tempos em tempos. Acho que a comunicação pode é ajudar nessa textura, ou seja, construir um fluxo entre políticas isoladas”, reflete. Ana pontua que a ONG tem condições para facilitar mobilizações que não são necessariamente suas. Na opinião de Pablo Abranches, educador social da AIC, a juventude também atua como um campo agregador. “Uma instituição que trata de comunicação é extremamente transversal porque a comunicação é assim, então temos que eleger prioridades. Eu elegeria a comunicação como um campo mais politico e, a partir da juventude, atuamos falando de cultura, esporte, lazer, dentre outras coisas”, opina.

Comunicação estratégica no COMUPRA “Acho que mobilizamos pessoas que querem fazer alguma diferença no mundo”. As palavras são de Áurea Carolina, coordenadora de projetos da AIC. Ela realça a variedade de sentidos que esse “fazer diferente” comporta: “pode ser desde o [Grupo] Ervanário, cujo trabalho consiste em produzir temperos e cosméticos usando produtos naturais, até o Fórum das Juventudes da Grande BH, que tem uma causa abstrata e se concretiza

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a partir de mobilizações em prol de políticas públicas de juventude”. Essa capacidade de interlocução com diferentes atores, entre organizações sociais, grupos comunitários, universidades, poder público e iniciativa privada, é apontada como uma das principais características da AIC. Warley Bombi, que já foi um dos jovens participantes da Rede Jovem de Cidadania e é hoje educador da Oi Kabum!, aposta que essa preocupação com o “outro” e a tentativa de promover o empoderamento dos sujeitos e grupos com os quais trabalha sejam, talvez, “a maior riqueza da AIC”. Rafaela Lima, diretora institucional da AIC, não acredita que a organização conte com um jeito único de conduzir suas atividades. Ela prefere apontar alguns princípios orientadores: “o que acho que está ligado à identidade da AIC são algumas preocupações com o processo: sempre tentar alguma dimensão de mobilização, de incidência política e de fortalecimento da sociedade civil. É promover um processo que seja dialógico”. Pablo Abranches avalia que o grande “valor” da ONG em termos de mobilização é sua característica comunitária. “Levamos isso no nome. Acho que temos muito forte como valor, ou princípio, a questão da diversidade, da produção colaborativa e participativa”, pontua.

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Para Aléxia Melo, diretora de Projetos Sociais da AIC, outro componente fundamental dos processos mobilizadores da ONG são os contatos pessoais de quem trabalha nela. “Nunca falamos em nome de um indivíduo, mas sempre como AIC. Cada um de nós tem seus pares e redes de relações”, afirma. Aléxia chama a atenção para o fato de que os processos mobilizadores não se dão somente via pessoas, mas também por produtos e atividades – como as produções audiovisuais da instituição, o site, as publicações já lançadas e as diversas participações em eventos afins à missão.

Odum Orixás: mobilização pelo conhecimento Dar visibilidade à cultura afro-brasileira por meio de atividades artísticas é o principal objetivo da Associação Cultural Odum Orixás, criada há 41 anos na cidade de Belo Horizonte. Parceiro em diversos projetos da ONG, o grupo traz na bagagem a produção de cinco videodocumentários sobre temas ligados ao universo negro, além de um site institucional e peças gráficas variadas – todos eles produzidos em parceria com a AIC. Os documentários falam sobre a presença da dança-afro no Brasil, mulheres negras, a história do negro no circo e o carnaval de Belo Horizonte. Há também um documentário institucional sobre o próprio Odum Orixás, feito “a partir de um grande encontro de gerações do Odum”, comenta Leonardo de Jesus, ator, arquiteto, bailarino e pesquisador do grupo.


Leonardo comenta que esses materiais permitem levar a outros espaços os temas trabalhados pelo Odum Orixás, além de dar visibilidade ao próprio grupo. Ele conta que o documentário sobre dança afro, por exemplo, é utilizado por vários professores de dança em Belo Horizonte. Alguns dos vídeos produzidos também já foram exibidos em circuitos ampliados de visibilidade, como o Palácio das Artes e o Museu Oi Futuro das Telecomunicações, bem como em escolas e outros espaços comunitários. “No Odum, temos esses vídeos como carros-chefes. Não precisamos levar todo mundo aonde vamos para falar das nossas temáticas; os documentários fazem essa representação muito bem. Já desenvolvemos várias rodas de conversa em que eles estão relacionados e desenrolaram um processo discursivo. É uma ferramenta importantíssima no desenvolvimento dos trabalhos do Odum”, avalia. Dar visibilidade à cultura afro-brasileira por meio de atividades artísticas é o principal objetivo da Associação Cultural Odum Orixás, criada há 41 anos na cidade de Belo Horizonte. Parceiro em diversos projetos da ONG, o grupo traz na bagagem a produção de cinco videodocumentários sobre temas ligados ao universo negro, além de um site institucional e peças gráficas variadas – todos eles produzidos em parceria com a AIC. Os documentários falam sobre a presença da dança-afro no Brasil, mulheres negras, a história do negro no circo e o carnaval de Belo Horizonte. Há também um documentário institucional sobre o próprio Odum Orixás, feito “a partir de um grande encontro de gerações do Odum”, comenta Leonardo de Jesus, ator, arquiteto, bailarino e pesquisador do grupo. Leonardo comenta que esses materiais permitem levar a outros espaços os temas trabalhados pelo Odum Orixás, além de dar visibilidade ao próprio grupo. Ele conta que o documentário sobre dança afro, por exemplo, é utilizado por vários professores de dança em Belo Horizonte. Alguns dos vídeos produzidos também já foram exibidos em circuitos ampliados de visibilidade, como o Palácio das Artes e o Museu Oi Futuro das Telecomunicações, bem como em escolas e outros espaços comunitários. “No Odum, temos esses vídeos como carros-chefes. Não precisamos levar todo mundo aonde vamos para falar das nossas temáticas; os documentários fazem essa representação muito bem. Já desenvolvemos várias rodas de conversa em que eles estão relacionados e desenrolaram um processo discursivo. É uma ferramenta importantíssima no desenvolvimento dos trabalhos do Odum”, avalia. “No Odum, temos esses vídeos como carros-chefes. Não precisamos levar todo mundo aonde vamos para falar das nossas temáticas; os documentários fazem essa representação muito bem. Já desenvolvemos várias rodas de conversa em que eles estão relacionados e desenrolaram um processo discursivo. É uma ferramenta importantíssima no desenvolvimento dos trabalhos do Odum”, avalia. Não precisamos levar todo mundo aonde vamos para falar das nossas temáticas; os documentários fazem essa representação muito bem. Já desenvolvemos várias rodas de conversa em que eles estão relacionados e desenrolaram um processo discursivo.

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Gravações para o TV Beira Linha

2.

Oficina de produção midiática com crianças do bairro São Paulo, realizada em parceria com o Centro de Apoio Comunitário (CAC) do bairro

3.

Atividades de produção radiofônica comunitária com funcionários e usuários de centros de convivência

4.

Programa de auditório “Elias Sunshine Show”, realizado junto a moradores do bairro Ribeiro de

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Abreu. A partir de ações como essa, a equipe buscava incentivar o envolvimento e a participação das pessoas em atividades do TV Sala de Espera. 5/6.

Materiais de divulgação da TV Sala de Espera

7/8.

Atividades do Conselho de Comunicação Comunitária da AIC

9/10. Atividades de educação audiovisual no projeto Juventude do Jequi, que atuou nas cidades de Araçuaí, Itaobim, Jequitinhonha e Padre Paraíso 11.

Formação em audiovisual no projeto Juventude de Atitude em Minas, junto a jovens da comunidade de Lapinha da Serra

12.

Convite para o Encontro de Comunicação dos Movimentos Juvenis da Grande BH, que selou a aproximação da AIC com diversos grupos e coletivos de jovens em Belo Horizonte.



Projeto gráfico_Livro 20 anos AIC