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ciência&Tecnologia oporTunidades da inovação mais perTo das empresas História

Os “Familiares” da Inquisição no Sertão do Siará Grande

Edição Nº 03 — Ano I — Revista Nordeste VinteUm – Publicação sobre economia, política e cultura — www.nordestevinteum.com.br

R$ 9,90

Câmara Cascudo

Um homem Chamado Brasil FNe 20 aNos e BNB – NoVo PerFil eCoNÔmiCo Para o NordesTe


Não importa a distância. Não importa a dificuldade. A gente não mede esforços para levar desenvolvimento a cada canto do Nordeste.

Cliente Consulta | Ouvidoria: 0800 728 3030 - www.bnb.gov.br


Desenvolvimento Ê financiar cadeias produtivas, gerar emprego e oportunidades. É mudar a vida das pessoas. Aumentar sua auto-estima e recuperar sua dignidade. Desenvolvimento Ê fazer o Nordeste crescer. E ser do tamanho do seu povo.


Insigths Câmara Cascudo (1898 - 1986). Visão de mundo

“Fiquei na província e trabalhei sem prêmio” “Natal não consagra nem desconsagra ninguém” “Faço questão de ser tratado por esse vocábulo que tanto amei: professor. Os jornais, na melhor ou na pior das intenções, me chamam folclorista. Folclorista é a puta que os pariu. Eu sou um professor. Até hoje minha casa é cheia de rapazes me perguntando, me consultando” “O vício da literatura grego-latina vacinou-me contra as ditaduras mentais contemporâneas” “O Brasil não tem problemas, só soluções adiadas” “Eu não conheço Carlos Drummond pessoalmente, mas somos amigos íntimos. Ele ainda estava em Minas Gerais e já se correspondia comigo. O que acho é que Drummond é superior ao prêmio Nobel. Você vai entender essa minha independência de julgar. Quem concede o prêmio Nobel? Ninguém sabe o que é a Academia de Ciências de Estocolmo. Você não sabe o valor dos homens que a compõem. Não conhece nenhum livro, nenhuma frase, nada deles. Eu faço muita questão de conhecer a idoneidade do juiz para julgar a sentença” “Não me interessei por nada no mundo. Daí a minha fidelidade mental ao meu trabalho. Sou um brasileiro feliz, diz Diógenes. Vivi a minha vida e não a vida indicada pelos outros. Não fui o que quiseram, fui o que senti, a volição de ser. Hoje, sou um resto de idade, estou fora do ar, tenhos dias eufóricos, compreendeu? O trabalho para mim não era maldição. Era como o trabalho gostoso de fazer um filho. Prazer”.

O velho que sabe tudo

“Já consultou o Cascudo? O Cascudo é quem sabe. Me traga aqui o Cascudo. O Cascudo aparece e decide a parada. Todos o respeitam e vão por ele. Não é propriamente uma pessoa, ou antes, é uma pessoa em dois grossos volumes, em forma de dicionário, que convém ter sempre à mão. Para quando surgir uma dúvida sobre costumes, festas, artes do nosso povo. Ele diz tim-tim por tim-tim a alma do Brasil em suas heranças mágicas, suas manifestações rituais, seu comportamento em face do mistério e da realidade comezinha. Em vez de falar ‘Dicionário Brasileiro’, poupa-se tempo falando ‘O Cascudo’, seu autor, mas o autor não é só dicionário, é muito mais. E sua vasta bibliografia de estudos folclóricos e históricos marcam uma bela vida de trabalho inserido na preocupação de viver o Brasil”, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) Poeta, contista e cronista brasileiro

Luís da Câmara Cascudo, inteirinho, da cabeça aos pés, de corpo e alma Natal, Rio Grande do Norte, Brasil, eu Brasil, nós Brasil, Brasil, Brasil.” Mário de Andrade, (1893-1945) poeta, romancista, crítico de arte, musicólogo, professor e ensaísta

Para Cascudo, a felicidade não é dom nem êxtase: está nas menores coisas que encerram a polpa do instante, o sumo da eternidade.” Sanderson Negreiros, poeta, jornalista e professor

“Temos muitos escritores importantes, sábios de alta qualidade, artistas magníficos. Temos intelectuais de grande valor. Mestre, porém, temos poucos. Mestres no sentido amplo da palavra: construtores da realidade, da verdade brasileira, assim como Luís da Câmara Cascudo.” Jorge Amado, (1912-2001) escritor Julho/2009

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Nordeste VinteUm


CArtA Do EDitor

“Coisas que o povo diz” Vida fácil não existe. Eis um daqueles axiomas bem difundidos e aceitos como verdade popular. Há quem não concorde, mas o certo é que, no Nordeste, o sentido da frase vence séculos e ainda muito se aplica às nossas mais variadas e peculiares condições de existência social. Basta reler Câmara Cascudo em “Coisas que povo diz”, uma obra leve e divertida, mas, nem por isso, menos erudita. Lá, está pinçada pelo “homem que descobriu o brasileiro”, logo na abertura do livro, o seguinte verso do trovador pernambucano, Adelmar Tavares: ““ A verdade popular/ Nem sempre ao sábio condiz,/ Mas há verdade serena/ Nas coisas que o povo diz.” Relembramos a passagem a propósito de um artigo da coluna do jornalista Rodrigo de Almeida, editor do Jornal do Brasil, publicada em agosto, pelo jornal O Povo de Fortaleza, onde ele trata das procissões eleitorais iniciadas no Nordeste, este mês, por pré-candidatos tucanos à Presidência da República. Objetivo do roteiro traçado pelo partido: recuperar espaço político na região. No rumo do seu comentário final, quando diz que “não haverá vida fácil até outubro do ano que vem”, Rodrigo de Almeida recorre ao estudo de Cícero Péricles de Carvalho, “um tinhoso professor da Universidade Federal de Alagoas”, mostrando que “apenas em Pernambuco e Alagoas, a renda gerada pelo programa Bolsa-Família é, pelo menos, oito vezes maior do que a da cana-de-açúcar.” E que, no Nordeste inteiro, os benefícios previdenciários superam o Fundo de Participação dos Municípios (FPM) em 70% das localidades. E que, somados, Previdência e programas sociais atingem mais de dois terços das famílias. Viram só, que profusão de contraditórias leituras possíveis ao revirarmos a mistura de tais fatos, prosas e versos populares? Pois, é. E assim caminha, o nosso sertão de meu Deus. Com seus 27% do eleitorado nacional, mas descompensado “feito a gota serena” diante das premências de investimentos. Tão necessários a verdadeira superação dos batidos discursos políticos sobre desigualdades regionais. E o que fazer, então? Uma saída seria bradar mais e mais pela retomada do debate sobre o desenvolvimentismo na região. Ressuscitar dos Assuntos Estratégicos da União, os pretensos projetos de alavancagem econômica, até agora, somente ensaiados. Também pegar e projetar exemplos de agentes dinâmicos e transparentes como o BNB, passando a limpo o que realmente mudou nesses 20 anos de FNE. Daí, continuar cobrando tratamentos diferenciados, porque assim o somos. Temos o legítimo direito ao nosso real quinhão enquanto ente federado secularmente desprivilegiado. Não é mesmo, BNDES? Até porque diferenças produzem diferenças e a lógica dos tratamentos iguais passa longe da nossa História junto ao Poder central. Mas, queixas à parte, aqui estamos, com a Nordeste Vinte Um em sua terceira edição. Mais vivos, irredentos e universais do que nunca. Feito os “Guerreiros do Sol”, do Brasil profundo de Frederico Pernambucano de Melo. Insubmissos que só a peste quando tenta se alastrar até o oco do mundo. E não é por feiúra que nos intimidamos ao entrar para a concorrência desse cangaço gráfico-editorial. Na última edição, deixamos o recado: “Confira e cresça junto com a Nordeste Vinte Um”. Desta vez, acrescentamos o agradecimento pela receptividade e aceitação crescentes em forma de correspondências e apoiamentos. E por que não mencionar, os sinceros afagos ao ego de nosotros escribas, durante perambulações formais e informais. Por fim, um abraço da nossa equipe de cangaceiros que lutou para deleite de seus leitores diante das fornalhas da Inquisição no Ceará, do tesouro arqueológico ameaçado no Piauí, da avalanche de números sobre o BNB e o FNE-20 anos e da magnificência da obra do homem chamado Brasil, Luís da Câmara Cascudo.

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Nordeste VinteUm

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Marcos Aurelio/Ilustração

Edição Nº 03 Ano I — Julho/2009 Circulação Agosto 2009 Revista Nordeste VinteUm Política, Economia, Cultura www.revistanordestevinteum.com.br

Seções 22. 44. 66.

Saberes & Sabores Caleidoscópio Ateliê – Audifax Rios

Especial 35.

Memória Constitucional do Ceará

Artigo 63.

Padre Cícero, a santidade e a políticaConstitucional do Ceará

Barros Alves

Editora Assaré Ltda ME Rua Waldery Uchôa, 567 A n Benfica Fortaleza, Ceará n CEP: 60020-110 e-mail: assare@editoraassare.com.br Fone/fax: (85) 3254.4469

Francisco Bezerra Diretor de Negócios e Relações Institucionais negocios@editoraassare.com.br

Orlando Júnior Diretor Administrativo Financeiro adm@editoraassare.com.br

Wilton Bezerra Júnior Editor Executivo editor@editoraassare.com.br wiltonbezerrajunior@gmail.com


Sumário 08

Economia Como nasceu o Fundo Constitucional que, em 20 anos, revolucionou a estrutura produtiva e o perfil do Nordeste

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Infraestrutura

História A Inquisição e o Sertão, de Otaviano Vieira Júnior, fala dos “desviantes da fé” delatados pelos “Familiares do Santo Ofício” no interior do Nordeste

Brasil consolida política para trazer competitividade ao sistema portuário brasileiro

Capa

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Memória

Câmara Cascudo 23 anos depois do ‘encantamento’, o homem que descobriu o brasileiro é assunto por todo o Brasil

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Histórias de identidade com Pernambuco e o Brasil nos 90 anos do Jornal do Commercio

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Cultura

Homem americano

Mestre Vitalino: A vitalidade dos significados

Porque o patrimônio arqueológico do Piauí é um tesouro ameaçado

Marcel Bezerra Editor Adjunto marcel@editoraassare.com.br

Vladimir Pezzole Editor de Arte arte@editoraassare.com.br

Flamínio Araripe Editor Adjunto de Ciência e

Lucílio Lessa, Samira de Castro e Filipe Palácio Reportagem

Tecnologia editor@editoraassare.com.br

Claudemir Luis Gazzoni Diretor de Arte arte@editoraassare.com.br

reporter@editoraassare.com.br

Paulo Rocha Repórter Fotográfico reporter@editoraassare.com.br

Entrevista Raul Lody e as ‘peiticas’ de saberes e sabores sobre a história da nossa comida

Imagem Assessoria de Comunicação Marketing imagem.com@secrel.com.br Colaboradores Barros Alves, Audifax Rios e Marcos Aurelio Impressão Pouchain Ramos Tiragem 16.000 exemplares

TODOS OS DIREITOS SÃO RESERVADOS. É proibida a reprodução total ou parcial, especialmente por sistemas gráficos, microfílmicos, fotográficos, reprográficos, fonográficos e videográficos ou qualquer outro meio ou processo existente ou que venha a ser criado.

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ECONOMIA

FNE 20 Anos A diferença que produz diferença Por Samira de Castro / redacao@nordestevinteum.com.br

Uma histórica queda de braço sócio-política e econômica gerada no clamor pela redução das desigualdades intra e inter-regionais resultou, em duas décadas, num impacto de R$ 56,8 bilhões em indução ao desenvolvimento do Nordeste. Saiba nesta reportagem como a batalha pela instituição do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) contribuiu para transformar a estrutura produtiva da região e o perfil da sua economia

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H

á 20 anos, não se poderia imaginar que o Cariri, região ao Sul do Ceará, abrigaria o terceiro maior pólo calçadista do Brasil, com uma produção, em 2008, de 100 milhões de pares e um faturamento de US$ 2 milhões. Ou que o município de Ipojuca, em Pernambuco, erguesse Suape, um complexo industrial e portuário dos mais competitivos do País. Ou que por estas bandas aportassem grandes redes varejistas, algumas até de capital internacional, disputando vantagens competitivas de logística e um mercado consumidor crescente, como Carrefour e Wal-Mart. No final dos anos 1980, “a década perdida”, como dizem os economistas, o cenário que se tinha do Nordeste ainda era muito marcado pelas grandes secas ocorridas nos anos 70, a produzir grandes levas de retirantes, cujo caminho fatalista apontava para uma vida de privações nos centros urbanos do Sudeste. A história da região começou a mudar, literalmente, à época da Constituinte de 1987-1988, quando três deputados federais — Firmo de Castro (CE), Fernando Coelho (PE) e Benito Gama (BA) — criaram, na Subcomissão de Tributos, um fundo de 2% sobre Imposto de Renda e Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para o financiamento do setor produtivo do Norte e Nordeste. “Logo a seguir, houve acordo com a bancada do Centro-Oeste, e o fundo passou para 3%”. Quem recorda é o economista Cláudio Ferreira Lima. Ali começava a nascer o Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE), que injetou na economia regional, nos últimos 20 anos (até junho de 2009), R$ 56,3 bilhões. A garantia de recursos para o desenvolvimento das regiões mais pobres do País foi uma queda de braço entre as bancadas das regiões

mais pobres e a elite do Sudeste. “Essa conquista e outras mais, que compõem uma série de dispositivos em benefício dessas três regiões, resultaram de negociações, principalmente com a bancada do Sudeste, liderada por José Serra (SP)”, conta Cláudio Ferreira Lima. O economista destaca, além dos três deputados, os senadores Virgílio Távora (CE), Mauro Benevides (CE) e Teotônio Vilela Filho (AL)— que incluíram a obrigatoriedade de aplicação de 50% do FNE no semi-árido — e o deputado Alberico Cordeiro (AL), segundo secretário da Câmara dos Deputados. “Seu gabinete funcionava como o quartel general da bancada do Nordeste”. Garantido o dispositivo constitucional, a regulamentação do FNE se deu a partir de projeto de lei do deputado Firmo de Castro, que teve como relatores de mérito José Luiz Maia (PI), na Câmara, e Mauro Benevides, no Senado. “Aprovado nas duas Casas do Congresso, o FNE foi remetido para sanção no dia 22 de setembro de 1989 e sancionado por Paes de Andrade, então na presidência da República, cinco dias depois. Um recorde!”, destaca o economista, que assessorava a bancada nordestina. Nestes 20 anos de FNE, como reflexo de um conjunto de mudanças na condução da política econômica brasileira, com impacto sobre a inserção do País no mercado global, a estrutura produtiva nacional foi extremamente alterada. O mesmo aconteceu com o Nordeste, que passou a apresentar um ganho de peso no setor manufatureiro. Embora tímidas em relação às de outras regiões como Sul, Centro-Oeste e Norte, as Contas Regionais da indústria nordestina de manufatura passaram de 8,9%, em 1990, para 9,2% em 2006 — último ano com informação disponível — do Valor Adicionado Bruto da economia.

“Velha Sudene”

“mea culpa” do poder cenTral ao insTiTuir Fundo

Henrique Marinho, economista e professor da Universidade de Fortaleza (Unifor), analisa a aprovação do FNE como uma mea culpa do poder central em relação às falhas do processo de incentivos fiscais da “velha” Sudene. Neste sentido, a criação do fundo tem proporcionado à região Nordeste um importante instrumento de desenvolvimento da economia por intermédio do crédito. “E o Banco do Nordeste (BNB)”, acredita Marinho, “tem se mostrado um agente catalisador desse desenvolvimento, democratizando, ao máximo possível, a distribuição dos recursos entre os estados e entre as empresas, desde as micros até os grandes projetos”. Para o economista, “nesses anos todos, o FNE fez a diferença e, principalmente, na atual gestão”. A destinação e o volume dos recursos têm colaborado para que o crescimento regional, não somente dos grandes projetos, mas essencialmente dos pequenos, como Pronaf, o crédito solidário do programa Crediamigo, linhas para capital de giro, entre outros, proporcionando uma significativa melhora na distribuição de renda regional.

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dos minguados do Finor aos r$ 50 Bi e 1.989 municÍpios aTendidos Até 1989, os estados nordestinos contavam com minguados recursos do Fundo de Investimentos do Nordeste (Finor). “O Banco do Nordeste dependia principalmente de depósitos do Programa de Integração Nacional (PIN) e do Programa de Redistribuição de Terras e de Estímulo à Agroindústria do Norte e do Nordeste (Proterra), que permaneciam no Banco durante 15 dias. Não havia praticamente recursos estáveis para o financiamento do desenvolvimento do Nordeste”, comenta Cláudio Ferreira Lima. Uma página virada no histórico da política regional. Hoje, o FNE atende a 1.989 municípios situados nos nove estados da região Nordeste e no norte dos estados do Espírito Santo e Minas Gerais, incluindo os Vales do Jequitinhonha e do Mucuri – área de atuação legal do BNB. “O Fundo, a preços de hoje, realizou, nos 20 anos de sua existência, contratações superiores a R$ 50 bilhões. É um número razoável em qualquer língua”, acentua o economista, lembrando que o Ceará foi um dos principais beneficiários, com cerca de 16% desses recursos nos setores rural, agroindustrial, industrial, de comércio e serviços e infraestrutura. “Um bom resultado se levarmos em conta que o Estado representa cerca de 14,5% do Produto Interno Bruto (PIB) do Nordeste”.

nÚmeros Em 20 anos, r$ 56,8 bilhões do FNE aplicados em indução ao desenvolvimento do Nordeste

50% no semi-árido é a

obrigatoriedade de aplicação dos recursos do FNE

1,8 bilhão de reais é o patrimônio do BNB

A participação média anual do FNE, no total dos financiamentos de longo prazo na região, ficou no percentual de 65% no período de 1994 a 2007

À bUSCA DE NoVAS foNtES

recursos acabam sendo poucos pelo dinamismo do financiamento A preços constantes, quando começou, no período 1989-1994, o FNE contava com a média anual de recursos da ordem de r$ 1,9 bilhão. Entre 1994-2002, o bolo caiu para r$ 1,6 bilhão, mas saltou para r$ 5 bilhões entre 2003 até junho deste ano. Cláudio Ferreira Lima lembra que a atual gestão do BNB imprimiu um dinamismo tal ao financiamento do desenvolvimento regional, que os recursos do FNE se tornaram poucos. “A solução que está sendo posta em prática pelo próprio presidente Roberto Smith é a busca de novas fontes de recursos, como por exemplo, no Banco de Desenvolvimento

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Econômico e Social, o BNDES”. A maior parcela dos recursos aplicados via FNE dirigiu-se ao financiamento rural (52%), seguindose, pela ordem, o financiamento industrial (25%), de comércio e serviços (10%), de infraestrutura (9%) e o agroindustrial (4%). “O FNE, portanto, está presente em todos os setores produtivos da economia nordestina. Agricultura familiar ou empresarial, micro, pequena, média ou grande empresa, os principais empreendimentos privados do Nordeste, independente do seu porte, contam com o apoio do Fundo”, ressalta.

roberto Smith, presidente do BNB

A solução que está sendo posta em prática pelo próprio presidente Roberto Smith é a busca de novas fontes de recursos, como por exemplo, no Banco de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES Cláudio ferreira lima, economista


PolítiCA rEgioNAl

lacunas de planejamento preenchidas pelo Fne Para Cláudio Ferreira Lima, o FNE mantém até hoje seu objetivo, de suprir a lacuna da falta de planejamento de políticas públicas capazes de dar conta das desigualdades de um país continental como o Brasil. “Só mais recentemente, no governo Lula, é que se vem recuperando o planejamento regional; é que se voltou a investir em infraestrutura com o Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC”, reforça. No vácuo deixado pelo poder central, os estados acabaram lançando mão dos incentivos fiscais a fim de atrair investimentos produtivos. “Não era para menos. É bom recordar que, nos anos 1990 e começo dos 2000, sem política regional — a política do País era gerar superávit

primário para pagar o serviço da dívida —, sem mais os bancos estaduais — a maioria, privatizada -, com reduzidos investimentos do governo federal em infraestrutura, ainda por cima, o FNE recuou”, diz Lima. A preços de junho de 2009, em

curto prazo crédito comercial 2009 110,8% 124%,

As operações de e de do BNB em cresceram e respectivamente, sobre igual período de

2008

oito anos (de 1995 a 2002), foram aplicados apenas R$ 12,5 bilhões, contra R$ 32,7 bilhões, de 2003 a junho de 2009 (seis anos e meio). “Como se vê, a realidade do FNE mudou da água para o vinho!”, comemora. E, daí para frente, mesmo com crise e tudo, o economista diz que o horizonte é de mais do que a luz no fim do túnel. “Estamos saindo dele e descortinando novos horizontes, em que o pré-sal, pelo expressivo aumento da capacidade de investimento público que trará, é uma das maiores promessas para se resolver a questão regional no Brasil. E vamos lutar para que parcela importante desses recursos venha para o financiamento do desenvolvimento do Nordeste”.

CoNfiANçA

crise Faz o BnB ampliar volume de crédiTo em 40,5% Sem tomar conhecimento da tão falada crise financeira internacional, no primeiro semestre deste ano, o BNB contratou R$ 8,4 bilhões, para um total de 957 mil operações, registrando crescimento de 40,5% no volume de crédito, em comparação aos valores aplicados no mesmo período do ano passado. O valor total de empréstimos subiu de R$ 5,9 bilhões para R$ 8,3 bilhões. Do montante contratado, R$ 3,9 bilhões, relativos a 172 mil empréstimos, correspondem a operações no âmbito do FNE, hoje a principal fonte de recursos do Banco. O incremento foi da ordem de 12,4% em relação à igual período de 2008. “O Banco do Nordeste contribuiu de forma expressiva no combate aos efeitos da crise financeira mundial na região nordestina”, destaca seu presidente, Roberto Smith. Smith tem reiterado que os recursos do FNE parecem ter ficado “pequenos” para as necessidades do setor produtivo regional. O que não chega a ser visto como um gargalo no BNB. “É bem verdade”, admite o presidente, “que o Banco teve de buscar novos parâmetros para aperfeiçoar as aplicações do FNE, cujas cifras

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previstas para este ano estão entre R$ 8,8 bilhões a R$ 11,5 bilhões”. Só em carteira, o banco já tem R$ 3,8 bilhões, além de cartas-consulta da ordem de R$ 3,1 bilhões, fora R$ 4,5 bilhões contratados até julho. Para atender a tamanhas necessidades, o BNB aguarda a concretização de repasse da ordem de R$ 4 bilhões do BNDES. “Essas conversações com o BNDES vão buscar suprir a demanda, de forma que, neste momento, a gente não deixe de atender o setor produtivo”, comenta. O Índice de Basiléia — que determina que a relação percentual do patrimônio líquido do banco sobre os seus ativos, ponderados pelos respectivos fatores de risco, tem de ser

As

contas regionais da indústria nordestina de

manufatura passaram de

8,9%, em 1990, para 9,2% em 2006 — último ano com informação disponível — do Valor

PolítiCAS CoNtrA-CíCliCAS

Adicionado Bruto da

economia

no mínimo de 11% — quase chegou ao seu limite neste semestre: 11,5%. “Estamos numa trajetória perigosa, mas isso significa que os recursos estão sendo aplicados com eficiência. Tivemos uma retração nas contratações para não chegar aos 11% em junho. Mas em julho começou a normalizar”, diz Smith, destacando que, no primeiro semestre, o patrimônio líquido do BNB fechou em R$ 1,8 bilhão. Um fôlego considerável, tendo em vista que o BNB não é um banco de varejo e sim uma instituição pública de fomento regional. “Temos importante participação em investimentos do PAC, daí o crescimento constante das aplicações do FNE em infraestrutura”.

no vácuo dos bancos privados, desempenho do banco se projeta

O

s resultados operacionais do BNB no semestre demonstram o papel estratégico da instituição, que contribuiu de forma expressiva no combate aos efeitos da crise financeira mundial no Nordeste. Para se ter uma idéia, as operações de curto prazo e de crédito comercial cresceram 110,8% e 124%, respectivamente, sobre igual período de 2008. Para Smith, o desempenho positivo destas carteiras está vinculado às políticas públicas contra-cíclicas, que foram fundamentais para minimizar os efeitos da crise econômica na região. “Os investidores perceberam que este era um bom momento para pular a crise, aproveitandose das boas condições de financiamento oferecidas pelo BNB, que conquistou parte do mercado deixado pelos bancos privados”, explica Smith. Os contratos de longo prazo, abrangendo financiamentos aos setores rural, industrial, infraestrutura, comércio e serviços, representam a maior parte dos recursos contratados no semestre, totalizando R$ 5,1 bilhões, distribuídos em 177 mil operações.

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microcrédiTo produTivo:

alcance social

Produto de extremo alcance social do BNB, o Crediamigo apresentou contratações da ordem de R$ 663,8 milhões, para um total de 572,2 mil operações, no primeiro semestre de 2009. A carteira do microcrédito produtivo orientado apresentou aumento de 43,5% em relação ao valor contratado nos seis primeiros meses do exercício anterior.

micro e peQuenas empresas:

mercado cresce O Banco tem primado por melhorar o atendimento às micro e pequenas empresas, porque vislumbramos significativa ampliação desse mercado. Estamos crescendo, mas devemos crescer muito mais roberto Smith , presidente do BNB

agriculTura Familiar:

ampliação do pronaF

Já as aplicações destinadas a micro e pequenas empresas (MPEs) alcançaram, de janeiro a junho último, o montante de R$ 765,4 milhões para um total de 38 mil operações contratadas, resultado que eleva em 55% o desempenho do banco nesta área, em termos de valores contratados, comparando-se a igual período de 2008. Para Roberto Smith, a evolução dos empréstimos no segmento de MPEs é estratégica, e o BNB tem atuado de maneira a tornar o crédito para o segmento mais ágil e simplificado. Entre as ações citadas pelo presidente nesse sentido, está a junção das áreas de microcrédito, considerada a mais tecnificada do banco, com a de MPEs dentro da mesma Superintendência. “O banco tem primado por melhorar o atendimento às micro e pequenas empresas, porque vislumbramos significativa ampliação desse mercado. Estamos crescendo, mas devemos crescer muito mais”, afirma.

www.asbraer.org.br

Com relação ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), o BNB contratou o volume de R$ 373,1 milhões no primeiro semestre de 2009, para um total de 158 mil operações. Do montante total contratado no Pronaf, o valor de R$ 172,4 milhões foi aplicado no Programa de Microcrédito Rural do BNB, o Agroamigo, com aproximadamente 123 mil operações realizadas, resultando no acréscimo de 65,4% no valor contratado quando comparado ao primeiro semestre de 2008. Nos seis primeiros meses do ano, o Banco regularizou operações que estavam em situação de atraso no total de R$ 489,4 milhões, valor que será reinvestido na economia regional. Julho/2009

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José Cruz/ABr

fUNDoS CoNStitUCioNAiS

projeto quer exclusivo financiamento regional e fim da sangria de recursos

Nossa expectativa é de que a matéria seja aprovada até o fim deste ano José guimarães, deputado federal (PT-CE)

A

Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 2688/07, do deputado federal José Guimarães (PT-CE), que exige que os recursos obtidos dos fundos constitucionais de financiamento do Norte (FNO), do Nordeste (FNE) e do Centro-Oeste (FCO) sejam investidos exclusivamente nessas regiões. Já aprovado também pela Comissão da Amazônia, Integração Nacional e de Desenvolvimento Regional, o projeto segue para a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania. Sujeita a análise em caráter conclusivo, a proposta não precisa ser votada em plenário. “Nossa expectativa é de que a matéria seja aprovada até o fim deste ano”, comenta o parlamentar, coordenador da bancada cearense no Congresso Nacional. Ele considera sua aprovação uma homenagem aos deputados e senadores, em especial os do Nordeste, que tanto lutaram na Constituinte de 1988. A comissão acompanhou o parecer do relator, deputado Manoel Junior (PSB-PB), e do relator14

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substituto, deputado Pepe Vargas (PT-RS). Na opinião dos parlamentares, o projeto é conveniente e oportuno porque evita a dispersão dos recursos, assegura sua aplicação e, portanto, contribui para reduzir as disparidades regionais. De acordo com Guimarães, o projeto pretende assegurar a exclusividade da aplicação dos recursos captados principalmente nos casos de grandes empreendimentos ou projetos de infraestrutura que, muitas vezes, têm uma atuação inter-regional. “Os fundos precisam ser fortalecidos e ter seus recursos ampliados, tendo em vista que o BNB tem batido todos os recordes na aplicação do FNE”, lembra o parlamentar, citando que, em 2002, as aplicações do fundo eram de minguados R$ 245 milhões por ano, saltando para R$ 4 bilhões no exercício passado. Ele argumenta que é preciso estabelecer normas mais rígidas, evitando uma possível sangria do dinheiro destinado às regiões menos favorecidas. “O BNB é extremamente criterioso com os recursos, mas se faz necessário reiterar a importância da aplicação exclusiva”, pontua.


transparência na aplicação, grandes e pequenos nivelados

A

proposta de Guimarães, restringindo a aplicação dos recursos nas regiões onde forem contratadas as operações, tem intenção de ratificar o objetivo desses fundos, conferindo ainda mais transparência à aplicação e colocando no mesmo patamar os grandes e os pequenos. “Juntos, eles devem contribuir para o crescimento das três regiões, promovendo o desenvolvimento através da geração de emprego e renda, fixação do homem no campo em condições dignas de sobrevivência e, finalmente, diminuindo as disparidades regionais”. “De acordo com o superintendente do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste

Os fundos têm um papel importante contra ciclos econômicos, que deveria ser realçado neste momento de crise José Sydrião, superintendente do Etene

ProNAf E MENoS tAxA

70% da comida na mesa e estímulo a micro e pequenos O parlamentar lembra que os fundos estimulam o fortalecimento dos setores produtivos dessas regiões. “Em importantes segmentos econômicos, como a aqüicultura e pesca; indústria, agroindústria e turismo regional; comércio e serviços; infraestrutura programas especiais, onde se destaca o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf)”, comenta. A agricultura familiar é exemplo emblemático da atuação dos fundos constitucionais, uma vez que esta atividade responde por cerca de 70% da comida que chega à mesa dos brasileiros. Guimarães comenta que, em novembro de 2006, o decreto nº 5.951 reduziu as taxas dos financiamentos no âmbito do FNE, FNO e FCO, tornando-as as mais baixas do País e consolidando esses instrumentos como uma das principais fontes de recursos para micro e pequenos empreendedores e agricultores familiares. “A redução contemplou também, ainda que de forma diferenciada, os grandes projetos industriais e de infraestrutura, conferindo ao FNE, FNO e FCO uma abrangência especial, uma vez que o acesso ao crédito é possível ao grande e ao pequeno em condições favoráveis tanto para a contratação, quanto para o pagamento, com prazos e carências especiais”, reforça.

(Etene), José Sydrião de Alencar Júnior, os fundos têm um papel importante contra ciclos econômicos, que deveria ser realçado neste momento de crise. Apesar de se mostrar otimista quanto às captações do BNB, ele disse que o governo precisa encarar os fundos como uma ferramenta de combate à crise, principalmente no campo. O BNB responde por 60% do crédito rural no Nordeste. Nos últimos meses, o banco substituiu as “tradings” — multinacionais que financiam o setor agroexportador nos pólos mais dinâmicos da região, como o sul do Piauí e do Maranhão, onde se produz soja. “Se não fosse o banco, não haveria crédito”, diz o superintendente do Etene.

biodiesel teve prioridade

Pensando no desenvolvimento sustentável, a partir de 2007, por determinação do Ministério da Integração Nacional, os empreendimentos voltados para a produção de biodiesel passaram a ter prioridade na liberação de recursos dos fundos constitucionais. O crédito concede apoio tanto aos projetos agrícolas direcionados para a produção de oleaginosas, que são matérias-primas do biodiesel, quanto aos industriais, para implantação de usinas de beneficiamento. A medida assegurou, no primeiro trimestre daquele ano, um crescimento de 45% do volume de empréstimos em relação ao mesmo período de 2006, com destaque para as regiões Norte, com o maior índice de crescimento do período, de 58% sobre 2006, seguido pelo Nordeste, com 44,5% e R$ 1,1 bilhão contratados. “Desses financiamentos, a maioria expressiva são para o semi-árido nordestino e para a Amazônia”, destaca o coordenador da bancada cearense. Julho/2009

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HISTÓRIA

Inquisição x “desviantes da fé”

Por Lucílio Lessa / redacao@nordestevinteum.com.br

pesar de não ter sido um palco presencial das chamas do Santo Ofício, o Ceará desponta no cenário inquisitorial como uma região em que delatar o próximo não era só um “ato de fé”, mas uma forma de promoção social mesmo em terras ainda inócuas, de incipiente povoamento. As histórias são contadas pelo historiador e pesquisador cearense Otaviano Vieira em seu livro: A Inquisição e o Sertão. Painel de uma época do Ceará, até então desconhecida do grande público, o trabalho revirou os arquivos da Universidade de Lisboa, durante um pós-doutoramento, para encontrar vestígios coloniais de um tenso passado sertanejo. Sob o medo do implacável fogo católico. 16

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éculo XVIII. “Um índio chamado Dom Francisco reúne homens e mulheres nus à beira de um rio. No grupo há esposas, filhas e até netas dos presentes. O ritual, regado pela beberagem da Jurema e ritmado em danças”, não inclui relações sexuais como tradicional forma de purificação. Mas, no meio da cerimônia, “um menino de ‘cabelos dourados e olhos de fogo’ desce e inicia uma espécie de processo de cura. É o menino voador”. A descrição compõe o texto da denúncia de ritual pagão, uma aclimatação do Sabá europeu, feita por espiões do Tribunal do Santo Oficio, a temida Inquisição, criada na Idade Média para “combater os que ameaçavam” as doutrinas católicas, no período de 1536 a 1821. E, enquanto a cena remete aos típicos casos de suspeita de bruxaria desse período, o local do episódio prima pelo inusitado: Sobral, cidade do interior do Ceará, localizada a 250 quilômetros de Fortaleza. Quem conta a passagem é o historiador cearense Otaviano Vieira Júnior. Em meados deste ano, o pesquisador lançou o livro A Inquisição e o Sertão. A obra revela que, assim como outras isoladas capitanias, o Ceará surpreendentemente não passou incólume pelas tramas, perseguições e condenações do Santo Ofício. Mesmo que os episódios não estivessem necessariamente relacionados ao fim trágico nas brasas das grandes fogueiras. O ceticismo que o autor denota a veracidade de parte das denúncias e, ao mesmo tempo, à total inocência de alguns acusados, faz com que o livro escape da armadilha maniqueísta comum ao tema. A própria denúncia de Sabá, que inclusive ficou relegada às “considerações que não são finais” da obra, aponta esse caminho. “Não sei se o que aconteceu foi realmente um Sabá, pois tudo era visto sob o olhar da Inquisição”, considera Otaviano. No Ceará e no Brasil, a vigilância da Igreja Católica ficava sob a batuta de quem mandava em Portugal. Lá, eram recebidas denúncias de “condutas inapropriadas” por espiões infiltrados em cada região, os chamados “Familiares da Inquisição”. A partir daí, os acusados eram investigados por comissários e demais funcionários inquisitoriais. Dentre eles, os “visitadores eclesiáticos ibéricos”. Após a análise da situação, era decidido se a acusação procedia. Sendo afirmativo, os réus eram enviados a uma prisão secreta, em terras portuguesas.

Nas pesquisas em documentos do Instituto de Arquivos Nacionais da Torre do Tombo, em Lisboa, Otaviano Vieira encontrou pelo menos 40 casos de denúncias dos “desviantes da fé” no Ceará. “O número é, provavelmente”, segundo o autor, “bem inferior ao existente naquelas estantes”. Ele também explica que deve-se levar em conta os casos que iniciaram em qualquer parte do império lusitano e terminaram no Ceará. “Não nos esqueçamos da intensa mobilidade que marcava as possessões portuguesas” Embora haja lacunas em relação aos documentos sobre a região, percebe-se a variedade dos “delitos” relatados. Desde casos de feitiçaria e bigamia, até padres que revelavam segredos de confissão. Além do município de Sobral, constam episódios em Aracati, Icó, Crato (“Cariris Novos”), Missão Velha (“Missão Nova”), Russas, Morada Nova, Fortaleza, Quixeramobim, Granja, Camocim e serras de Guaramiranga e Ibiapaba, Em relação ao território brasileiro, são imprecisos os números de processos no Tribunal de Lisboa, visto que a logística de composição dos arquivos foi montada em ordem alfabética, não discriminando os processos por região. Ao todo, o Santo Ofício em Lisboa registrou mais de 10 mil processos. Entre 1536 e 1605, dos acusados em 3.376 processos, 256 acabaram na fogueira. De 1606 a 1674, dos 3.210 processos, 337 réus também tiveram o mesmo fim. De 1675 a 1750, dos 2.844 processados, 209 conheceram as chamas da Igreja. De 1751 a 1767, o número de processos caiu para 296. Nove acabaram condenados. As sentenças variavam entre açoite público, degredo, fogueira, orações e admoestação, além de trabalhos forçados nas famigeradas galés, o que equivalia à pena de morte. Torre do Tombo

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Hoje, a Inquisição associada apenas ao estrangeiro, é lugar comum que já caiu por terra faz tempo entre nações do “Novo Mundo”. Embora o tenebroso espetáculo final ficasse reservado a Portugal, a máquina da vigilância inquisitorial no Brasil tinha seus sórdidos desdobramentos em várias regiões. É o caso do Nordeste, como agora também prova o arquivo lisboeta sobre o Ceará. Otaviano relata que houve visitações do Santo Ofício à Bahia, em 1591 e 1618, a Pernambuco, no ano de 1593, e ao Grão Pará e Maranhão, em 1763. Mas, existe a possibilidade de terem sido realizadas outras missões em solo nordestino. E, embora o Ceará nunca tivesse recebido a visita do Santo Ofício, o fato é que nem por isso foi menos afetado. A presença da Inquisição na região se intensificou à medida que avançava o processo de colonização, na segunda metade do século XVIII. Os vitimados sofreram não só com as denúncias e condenações, mas sobretudo pelo clima cotidiano de medo do olhar inquisitorial entre as populações, que estigmatizavam quem não seguia à risca a orientação da Igreja. No painel da época, o então denominado Siará-Grande, era conhecido como Sertão, capitania anexa de Pernambuco. Daí, o título do livro de Otaviano. Mas, recomenda-se ignorar o termo como algo relacionado ao clima, vegetação ou aridez do solo. A capitania era conhecida como tal por se tratar de um local ermo, ignorado pelas autoridades e composto por pequenas vilas.

EStiMAtiVAS DE PoPUlAçÃo Ao fiNAl Do SÉCUlo xViii Brasil – 2,85 milhões Minas Gerais – 650 mil Bahia – 530 mil Pernambuco – 480 mil Rio de Janeiro – 380 mil Ceará +/- 65 mil habitantes. No século XVIII, uma fronteira aberta para a pecuária. A agricultura era de subsistência e somente o final do século iria se consolidar em termos mercantis na cultura algodoeira. O Estado chega a se posicionar entre quinta ou sexta província em tamanho de população apenas no século XIX.

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Pela pouca importância econômica que possuía, o Ceará estava em tudo subordinado a Pernambuco. As igrejas, por exemplo, se reportavam ao Bispado de Olinda. Todas as denúncias locais eram enviadas a Recife. Essa distância comprometia as ações do Santo Ofício, já que ao contrário de Pernambuco, a região não dispunha de um comissário local. Investigações acabavam deficientes, prejudicando o resultado para o bem ou para o mal do acusado. Apenas em 1859, o Bispado do Ceará foi criado. Quanto aos relatores das denúncias, normalmente clérigos e familiares, esses registravam os casos no papel. Juntas, as anotações compunham os Cadernos do Promotor. Uma espécie de rol de denúncias que eram enviadas ao Santo Ofício e serviam como base para a formação dos processos. Conforme as denúncias aumentavam em número, os espiões da Inquisição, ou melhor, os Familiares, emergiam no cenário social como um novo parâmetro de modelo de conduta. Um personagem que encontrava na denúncia, muitas vezes leviana, uma forma de ascensão nas terras da caatinga. Mas, quem eram os Familiares?


A páginas tantas de A Inquisição e o Sertão, o autor apresenta a figura polêmica do Familiar. Sobre essa categoria, sabe-se que teve início no final do século XVI, em Portugal. Era formada por “homens e mulheres de moral e conduta irrepreensíveis” aos olhos da Igreja. Sua função: ser “os olhos da Inquisição”. Na verdade, os delatores. E para quem acredita que a fé era o que movia os aspirantes à função, considere que ser indicado pela Igreja a ser um Familiar era, sobretudo, um passaporte de ascensão social. Numa sociedade estamentária como a do período colonial, valia-se não só pelo patrimônio, mas pela filiação. Toda a árvore genealógica do candidato era investigada. A obrigação do Familiar era denunciar pessoalmente ou por carta aos inquisitores, as situações avaliadas como ofensivas à santa fé, além de efetuar prisões ou verificar denúncias. Através do título, possibilitou-se no Ceará a formação de uma elite,

uma milícia voluntária sob as ordens do Santo Ofício. Embora a nomeação “corresse à bocamiúda”, ser Familiar representava essencialmente status. O motivo era a forma como se obtinha a honraria. Para começar, todos as despesas da habilitação ficavam às custas do candidato. Assim, era necessário que ele tivesse posses, mas a habilitação era um processo lento. Exigia inclusive o envio de documentação entre Brasil e Portugal. Em sua pesquisa, Otaviano encontrou cerca de 20 nomes de Familiares no Ceará. Entre eles, representantes dos Costa, Barros, Pinto, Martins, Feitosa, Alves, Macedo, Sousa, Braga, Fialho, Ribeiro e Pessoa. “Mas é importante advertir que estamos falando de indivíduos e não de famílias inteiras”, considera Otaviano. Os aspirantes ao título tinham toda a sua vida, bem como a de sua família e antepassados, alvo de uma minuciosa investigação. A Igreja bus-

cava constatar se ele tinha ou não sangue judeu, se possuía parentes negros, se havia sido réu do Tribunal do Santo Ofício, se tinha alguma mácula moral, entre outros aspectos. Ao final, testemunhas eram chamadas para ratificar as informações do candidato. O isolamento administrativo em que se encontrava o Ceará permitia nomeações que burlavam o rigor defendido pelo Santo Ofício. Prova disso é que a grande maioria dos Familiares era composta por comerciantes. “Por serem pessoas originalmente pobres e que fizeram dinheiro com o comércio, eles buscavam o reconhecimento”, diz Otaviano. E por viajarem por várias cidades, os comerciantes acabavam sendo o foco do Santo Ofício para a composição da teia de vigilância da Inquisição.

“Perspecto da Villa da Fortaleza”, original manuscrito do Arquivo Histórico do Exército, Rio de Janeiro, 1811

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ruxaria, sexualidade, briga de famílias, varíola. Alguns casos sobre o Ceará chamaram a atenção de Otaviano Vieira e são revividos no livro. O “passeio” teve início em artigos do Barão de Studart e do historiador Luiz Mott, que discorriam sobre casos de bigamia e sodomia envolvendo habitantes da capitania subalterna.

Em um dos processos encontrados por Otaviano na Torre do Tombo, estava o caso do morador da cidade de Russas, Miguel Alves de Faria Pita. Preso na Semana Santa de 1782, Miguel foi enviado a Recife, para depois partir para os cárceres de Lisboa. Sobre ele pesava a acusação de falso testemunho. Anos antes havia confirmado que um amigo casado seria solteiro, para este poder se casar novamente. Na intenção de “fazer as pazes com Deus”, Miguel acabou revelando tempos depois que havia mentido. E, enquanto o bígamo conseguiu escapar da prisão, ele e mais três testemunhas foram enviados a Lisboa. Por ter confessado o crime, o mentiroso arrependido acabou recebendo uma pena mais branda: admoestação e a obrigatoriedade de se confessar nas festas do calendário católico. O problema é que morreu na volta ao Brasil. O motivo? Havia contraído varíola nos cárceres insalubres. “Villa Nova da Fortaleza”, original manuscrito do Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, 1730

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Outro caso foi o do pároco da comarca de Cariris Novos, padre Antônio Macedo. Após iniciar sua empreitada para ser Familiar do Santo Ofício, o religioso teve sua vida pregressa levantada. O resultado foi, no mínimo, curioso: havia tido dois filhos ilegítimos na juventude com uma tal Josefa. As crianças não haviam sido registradas. Uma delas, inclusive, também chamada Antônio, foi deixada na porta da casa da mãe do padre, dona Ana Maria. Detalhe: Antônio Macedo tornou-se ainda padrinho da criança. A situação não era desconhecida das testemunhas de Antônio no processo de habilitação. O próprio padre que havia batizado o filho de Antônio, e que por sinal sabia da sua condição de pai, enviara à Inquisição uma carta em favor do colega, recomendando-o para o cargo de Familiar. E como se não bastasse o emaranhado de histórias e estórias, o filho do padre Antônio, que inclusive morava com o pai, também havia se tornado padre e, pasmem, também havia solicitado a admissão como Familiar do Santo Ofício. O resultado? Ambos foram aceitos.


A solene execução da pena de morte na Inquisição começava a se agitar no início na semana. Os Familiares do Santo Ofício já haviam distribuído o “Édito da Graça” junto ao clero, uma espécie de indulto de crime. Os religiosos o leriam na Missa do domingo anterior à execução. Ao chegar o dia da sentença, o público se espalhava no caminho como uma procissão. Muitos aproveitavam para cumprir penitências. As elites alugavam janelas para o espetáculo. As roupas usadas deveriam ser as melhores. Os condenados, também chamados de relaxados, já sabiam de suas sentenças há pelo menos três dias. Nesse período, recebiam com mais intensidade a visita de religiosos, para o “arrependimento” de seus pecados. Apesar de não significar a mudança da pena, isso mudava a forma de execução. Quem se arrependesse seria “garroteado”, antes de ser queimado pela fogueira. A caminho da morte, o acusado era acompanhado por dois Familiares da Inquisição. Os trajes eram específicos, os sambenitos, feitos de linho cru e pintados de amarelo. Se

tivesse uma cruz vermelha, era sinal de que havia se reconciliado com a Igreja. Se fosse o seu retrato rodeado de chamas, é porque não havia se arrependido. Pelo sigilo dos processos, o público só conhecia a sentença durante o percurso da procissão. O encarregado do retrato o fazia espreitando o condenado, em segredo. No cortejo, havia também os condenados a penas mais brandas. Os menos graves à frente e os mais graves atrás. Segurando o estandarte da Inquisição, ficava um grupo de Dominicanos, os chamados primeiros Cães de Deus. O andar dos acusados era um espetáculo à parte. Sofridos, eles denunciavam os dias na tortura. Antes da execução, que para não sujar as mãos da Igreja era feita por populares classificados como o “poder leigo”, era dada a última oportunidade de arrependimento. As bases da fogueira normalmente eram simples. Cubos formados com toros cruzados. Sobre eles, um banco apoiado num tronco vertical. E em meio aos gritos da multidão, a pena era executada.

O candidato a familiar seria alvo de uma sistemática e rigorosa investigação. O objetivo dessa pesquisa era saber se o habilitado tinha, na sua linhagem, sangue judeu, mouro ou mulato, se tinha algum parente que fora réu do Santo Ofício, se tinha alguma mácula moral no seu passado, se tinha patrimônio suficiente para viver decentemente, se sabia ler e escrever

O processo de habilitação como Familiar do Santo Ofício instigava muitas vezes a fabricação de origens principalmente em regiões, como o Ceará, onde o rigor do processo se confrontava com a ausência de legítimos e puros candidatos ao cargo: era necessário menos rigor

Otaviano Vieira Júnior, historiador cearense que lançou o livro “A Inquisição e o Sertão”

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SINgulARES 10 ANOS DE uMA REvISTA PluRAl A pergunta que não quer calar: como fazer uma revista singular numa terra tão plural como o Ceará? Com a palavra, ou melhor, o editor da publicação, jornalista eliezer rodrigues: “A Singular surgiu, não por acaso, e sim por uma necessidade de continuar alimentando a inquietação pela notícia, após anos no batente de redação.” E tal inquietação já dura longos e rápidos 10 anos. Parece que foi ontem, que o Eliezer começou a nos brindar com uma revista de tamanho diferente, programação visual inovadora e conteúdo extremamente sedutor. Uma revista, diríamos, dialética. Ou se os senhores críticos preferirem, a filosofia editorial define bem o caráter dinâmico de um veículo que fala vários “idiomas” e para várias tribos, com uma mesma língua afiada na arte do diálogo. Quanto ao conteúdo da edição comemorativa, quem quiser que corra atrás do Eliezer para adquirir a revista. E corra muito, pois o editor anda suando a camisa para manter viva a chama do utópico projeto que de tão real se tornou artigo de primeira necessidade entre nós outros. Dialeticamente, falando.

Padre Cícero 75 anos depois Direto do site do jornalista Lira Neto (www.liraneto.com) trazemos alguns recados desse escriba cearense em brilhante projeção nacional. É que no último dia 20 de julho, uma multidão tomou conta de Juazeiro do Norte, no Ceará. A data marcou os 75 anos de morte de Padre Cícero. Cerca de meio milhão de pessoas esteve presente à cidade. Foi a última viagem de Lira ao Cariri antes do lançamento do livro, previsto para o final do ano. A ideia era escrever o epílogo e colocar o ponto final na obra ali mesmo, naquele dia exato, bem diante do túmulo do biografado.

MILAGRE VOLTA À ROMA Já a Revista Piauí de agosto oferece como aperitivo aos leitores dois trechos inéditos da obra. Em quatro páginas, a revista traz fragmentos do prólogo e de um dos capítulos iniciais da obra. E como última frase: “Nas prateleiras empoeiradas do antigo Tribunal do Santo Ofício, por determinação de Bento XVI, os documentos secretos que resultaram na expulsão de Cícero das fileiras da Igreja começam a acordar de um sono de quase 100 anos.”

Leitor em primeira mão Em entrevista ao jornal O Liberal, do Pará, o jornalista Fernando Morais respondeu sobre o que tem lido nos últimos tempos: “Estou tendo o privilégio de ler em primeira mão os originais de uma grande biografia que vem por aí.”

ariaNo suassuNa E a imagEm da Palavra A Imagem da Palavra é o nome da exposição que o professor, escritor, gestor cultural e artista gráfico Ariano Suassuna apresentou em agosto, na Estação Cabo Branco, Ciência, Cultura e Artes, de João Pessoa (PB). Parte da obra do artista chega ao público paraibano através de uma seleção de dez iluminogravuras. Originalmente atribuído ao “conjunto de insígnias, brasões, estandartes e bandeiras de um povo”, a palavra armorial ganhou, através do mestre Suassuna, um novo significado. Passou a designar criações que buscavam

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nas tradições populares brasileiras “a literatura de cordel, os poemas dos cantadores, a xilogravura, os estandartes e danças dos folguedos” os elementos para a construção de uma arte erudita essencialmente nacional. Na concepção das iluminogravuras, Ariano também se inspirou nas tradições medievais. A técnica era praticada por monges na Idade Média, que costumavam adornar as páginas de manuscritos com motivos florais e geométricos, capitulares rebuscadas e figuras fantásticas, que cobriam as margens do papel, emoldurando o texto.


CurtA MetrAgeM LAtinoAMeriCAnA eM CAnoA QuebrAdA O V Festival Latinoamericano de Curta Metragem divulgou a lista de selecionados da edição de 2009, que acontece entre os dias 2 e 9 de setembro, na praia de Canoa Quebrada, localizada no município cearense de Aracati, Ceará. Dos 351 trabalhos inscritos, são 271 vídeos e 80 filmes. Na categoria vídeo, três trabalhos cearenses foram selecionados: O sacrifício do jegue (ficção), de José Bob; Invenção do Sertão (documentário), de José Pimentel e Armando Praça; e Alfarrábio (ficção), de Sabina Colares. São Paulo e Rio de Janeiro concorrem com quatro trabalhos cada, o Distrito Federal com dois e os estados Rio Grande do Norte, Bahia, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Minas Gerais concorrem com um trabalho cada. Na categoria filmes, o Ceará concorre com quatro: Torpedo (ficção), de Márcio Câmara; A Mulher Biônica (ficção), de Armando Praça; Pode me chamar de Nadí (ficção), de Déo Cardoso; e A Montanha Mágica, documentário de Petrus Cariri. De São Paulo foram selecionados três; do Rio de Janeiro, dois; e dos estados Paraná, Rio Grande do Sul, Bahia e Pernambuco, um. Os selecionados serão exibidos na praça principal de Canoa Quebrada.

Emiliano Queiroz Lançará documentário

Em 2009, o Festival Curta Canoa completa cinco anos de preservação do seu formato original ao homenagear personalidades do município de Aracati que estão em destaque local ou nacional. Dentre os convidados especiais, está o ator Emiliano Queiroz, que vai lançar um documentário de sua biografia. Natural de Aracati, Emiliano esteve no Curta Canoa 2008 e utilizou imagens do festival no seu filme. Na programação do evento, o público vai poder conferir, além da exibição de vídeos de animação, ficção e documentários, a apresentação de longas: Patativa Ave Poesia; Bezerra de Menezes; Abelardo Barbosa, Chacrinha e outros filmes com temas ligados ao festival. Para a criançada, o Curta vai oferecer a Mostra Infantil (não é competitiva), que conta com a parceria do Instituto Marlin Azul (Vitória-ES), responsável pelo programa de TV Revelando Brasis.

Para a EstaNtE CINCO DéCADAS DE TRAvESSIA jORNAlíSTICA O pesquisador José Marques de Melo, autor de 25 livros e organizador de 73 coletâneas é o presidente da comissão do MEC que vai estabelecer as novas normas e diretrizes curriculares dos cursos de jornalismo. Ele possui mais de uma centena de artigos em periódicos científicos do país e do exterior. No Intercom Nordeste 2009, encontro sobre comunicação, realizado em maio, no Piauí, o autor lançou dois livros: Jornalismo, Forma e Conteúdo, editado pela Difusão, de São Caetano, e Vestígios de Travessia: da imprensa à internet – 50 anos de jornalismo, lançado recentemente pela Paulus (EDUFAL), de Maceió. Marques exerce o jornalismo há 50 anos. Em Vestígios de travessia, traz uma obra autobiográfica e antológica. A primeira parte contém a narrativa do percurso entre a comunidade sertaneja e a metrópole globalizada. A segunda parte reúne uma amostra seletiva de textos publicados pelo autor nas diversas etapas da sua vida jornalística.

REvISIONISMO DE EuClIDES DA CuNHA NA PARAíBA O pré-lançamento do livro “Terra, Revisionismo e Cultura em Euclides da Cunha”, de autoria do professor e historiador José octávio de Arruda Melo aconteceu no último dia 2 de agosto. O evento foi promovido pela Academia Paraibana de Cinema, no Cine Mirabeau, em João Pessoa (PB). O pesquisador imprimiu a primeira parte, intitulada A Questão da Terra em Canudos – Do Revisionismo de Euclides da Cunha ao de José Calazans, a valorização do sertanejo, o revisionismo euclidiano, suas conexões com Capistrano de Abreu, Barão do Rio Branco e Monteiro Lobato, entre outros. Na segunda, O Profeta Territorial em Euclides da Cunha, José Octávio discute o conflito econômico, político, social, jurídico, religioso e militar entre os dois mundos que se defrontam em Canudos: o da propriedade privada do Estado e o comunismo primitivo dos canudenses. Com o título de ”Variações Euclidianas”, a terceira parte da obra consta de artigos publicados na imprensa dedicados aos estudantes. Nele, José Octávio compara Euclides da Cunha ao paraibano João Lélis e Canudos com Princesa Isabel. O livro termina com “Ideólogos da República Velha”, que situa Euclides como um dos principais pensadores do Brasil anterior à Revolução de 30. Julho/2009

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CAPA

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Câmara Cascudo

UM PROVINCIANO

COSMOPOLITA qUE dESCOBRIU

O BRASILEIRO Mais de duas décadas após o seu “encantamento”, aos 88 anos de idade, em 1986, Luís da Câmara Cascudo, uma das mentes mais privilegiadas que o Brasil já produziu, tem sua a extensa obra, hoje, cada vez mais objeto de interesse regional, no Brasil e até no exterior. Situado no panteão dos grandes intérpretes da nação, o mais ilustre dos potiguares ajudou a compreender melhor a cultura popular e o próprio povo brasileiro em mais de duas centenas de publicações Por Marcel Bezerra marcel@editoraassare.com.br

“Tenho a impressão de ser o que chamam na Itália, Uomo qualunque, um homem igual aos outros. Toda a minha vida se resume naqueles dois versos de Afrânio Peixoto: ensinou e escreveu, nada mais aconteceu” Julho/2009

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frase é de Luís da Câmara Cascudo. O último dia 30 de julho marcou a os 23 anos de sua morte. A passagem revela ao mesmo tempo a sabedoria e a modéstia de uma das mentes mais privilegiadas que o Nordeste e o Brasil já produziram. Cascudo não foi, definitivamente, qualquer um. “É impossível compreender o homem brasileiro na sua normalidade cultural, econômica, antropológica e etnográfica, nas superstições e costumes, sem ler Cascudo”, decreta o jornalista e professor Vicente Serejo, que desde 1966 cultiva admiração pela obra do professor e, por isso, se define como um “cascudófilo”. Isso porque o termo “cascudólogo” fica melhor apenas para aqueles que se dedicam a estudá-lo. “Câmara Cascudo faz parte de uma geração intelectual que reavaliou experiências culturais brasileiras, deu novas respostas sobre quem somos”, escreveu o professor Marcos Silva, potiguar radicado em São Paulo, no Dicionário Crítico Câmara Cascudo (Perspectiva, 2003) do qual é organizador com a autoridade de um mestrado e doutorado em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

(FFLCH/USP), e pós-doutorado na Université de Paris III. A produção intelectual de Câmara Cascudo é imensa e, talvez, ainda não totalmente descoberta. Afinal, não é tão comum ocorrer de um ser humano que tenha deixado ao final da vida mais de duas centenas de obras publicadas, conforme atesta a neta Daliana Cascudo, diretora do Memorial que leva o nome do avô em Natal. Oficialmente, a conta era de cerca de 150. No último levantamento feito por ela, foram contabilizadas 215, entre livros, plaquetes e separatas. “O número de publicações não cresceu, mas sim o nosso conhecimento delas”, revela. Em 2007 e 2008, por exemplo, foram lançados No caminho do avião e A Casa de Cunhaú, respectivamente. O primeiro é uma série de reportagens escritas por Cascudo, entre os anos de 1922 e 1933, denominadas como “notas de reportagens aéreas”, sobre a passagem de aviadores em Natal, e o segundo conta a história de um massacre de católicos ocorrido no século XVII e descreve a genealogia da família Albuquerque Maranhão. Foi encontrado pela própria Daliana e publicado pelo Senado Federal. Recentemente, de acordo com

ela, o pesquisador Francisco Fernandes Marinho recuperou em Portugal separatas que lá haviam sido publicadas por Cascudo. Isso sem contar 200 artigos de revistas e as 1.848 crônicas de Acta Diurna, coluna publicada entre 1939 e 1960 nos jornais A República e Diário de Natal, com intervalos. “É muito difícil compilar a obra desse homem toda. Dá um trabalho danado”, reclama com satisfação. É impossível falar de Câmara Cascudo sem situar as vicissitudes da sua trajetória. Aliás, as experiências da infância em Natal e no interior do Rio Grande do Norte sempre fizeram parte do seu trabalho como uma referência importante para aquilo que ele escreveu. A contar, ainda, outras nuances de sua vida, como a derrocada financeira do pai no final dos anos 1920 e início dos anos 1930, o fato de ele nunca ter deixado Natal para morar em outro lugar, a amizade e as correspondências com figuras de relevo nacional, em especial com Mário de Andrade. Sem falar das viagens à África e à Europa, além de inúmeros outros episódios, como a postura política conservadora em diferentes épocas, que conferiram à sua existência uma aura especial.

Jornalismo, Literatura, Antropologia, História, Medicina, Educação, Folclore

Multifacetas de uM intelectual Suas inúmeras facetas – historiador, professor, jornalista, etnógrafo, crítico literário, folclorista, biógrafo –, dão à figura de Cascudo, na visão de Serejo, a forma de um poliedro. Nascido a 30 de dezembro de 1898, filho único de família rica, Luís da Câmara Cascudo teve infância cercada de zelo, pois os pais haviam perdido os dois primeiros filhos vítimas de difteria. Segundo Vicente Serejo, veio ao mundo dentro do quadrante da cultura popular. “Na água do primeiro banho, a mãe despejou um cálice de vinho do Porto para o filho ter saúde e o pai a temperou com um Patacão do Império para merecer fortuna”, escreveu o jornalista. Saúde, Cascudo teve – morreu aos 88 anos –, mas a fortuna desaparece a partir de 1929. “Fui menino pálido, magro e enfermiço. Cercado de dietas e restrições clínicas. Proibiram-me movimentação na lúdica infantil. Não corria. Não saltava. Não brigava. Nunca pisei na areia nem andei descalço. Jamais subi a uma

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a indignação coM o noMe de “folclorista” O que Cascudo estudou nem sempre foi inicialmente bem compreendido, visto que um dos seus temas principais, o folclore, era desprezado pela intelectualidade de um Brasil de meados do século XX. “Alguém tinha que estudar as coisas inúteis”, brincava. Rótulos, não gostava. “Folclorista é a puta que os pariu. Eu sou mesmo é professor”, dizia em tom de protesto. Cascudo estreia na vida literária em 1921, com Alma Patrícia, e já evidencia a perspectiva do plano local que iria permear a sua vasta obra. “Ele escreve pequenos e médios ensaios sobre poetas e prosadores locais, o que para a época era uma ousadia, pois ao invés de ser um ensaísta de autores franceses, por exemplo, ele trata da literatura local”, situa Vicente Serejo. O episódio serviu para imortalizar uma de suas mais célebres frases. Diante da pesada crítica a Alma Patrícia, um funcionário do Coronel Cascudo se dispõe a defendê-lo no jornal da família, mas é contido por Câmara Cascudo: “Não precisa. Natal não consagra nem desconsagra ninguém”. Como historiador, ousa ao lançar dois pequenos ensaios com os quais, acrescenta Serejo, começa a “fustigar” o plano nacional. “Ele defende duas teses, uma colocando o Marco de Touros como o mais antigo do Brasil e outra, para conquistar a cátedra do colégio Atheneu, defendendo a intencionalidade do descobrimento do país”. No início dos anos 1920, passou a lecionar História e depois dirigiu o Atheneu Norte-Riograndense, instituição criada em 1824 e consagrada à época como responsável pela formação da elite local. Na década de 1920 até o final dos anos 1930, Luís da Câmara Cascudo dedica maior parte do seu tempo a livros de cunho histórico e biográfico. É durante esse tempo que surgem obras como Lopez do Paraguay (1927), Conde d’Eu (1933), O Doutor Barata (1938) e O Marquês de Olinda e seu Tempo (1938). Pouco antes, em 1922, o Brasil passara por duas rupturas importantes, a Semana de Arte Moderna e a fundação do Partido Comunista Brasileiro. Por intermédio do amigo pernambucano Joaquim Inojosa, Cascudo passa a se corresponder com Mário de Andrade. Câmara Cascudo

“Graças a Deus eu fiquei pobre, para poder estudar o que eu queria”

árvore. Cuidado com fruta quente, sereno, vento encanado! Brincava com meninas. Um quarto cheio de brinquedos para exercícios sedentários”, recordava ele. Talvez essa vida regrada tenha possibilitado a Cascudo ser quem foi. Aprendeu a ler quase sozinho, com seis anos, iniciado nas primeiras letras por professores particulares em casa, antes de estudar no Externato Coração de Jesus e no Colégio Santo Antônio. O pai, Francisco Justino de Oliveira Cascudo, mais conhecido como Coronel Cascudo, teve grande importância na vida do filho. Serviu à Guarda Nacional, foi delegado de polícia e rico comerciante em Natal.

“Ele era dono quase do bairro de Tirol inteiro. Tinha uma propriedade chamada Principado do Tirol, onde tomava de conta de aproximadamente todo o quarteirão. Era representante de carros Ford aqui, você imagine no começo do século, um carro era um absurdo e o homem tinha três na garagem”, conta Daliana. Outro dado que ilustra o potencial financeiro do Coronel Cascudo é a criação e manutenção, com recursos próprios, do jornal A Imprensa durante 13 anos entre 1914 e 1927, onde Câmara Cascudo iniciou a vida jornalística em 1918. Posteriormente, Cascudo estudou Medicina na Bahia e no Rio de Janeiro. Abandonou o curso no quarto ano,

resolveu estudar na Faculdade de Direito do Recife, onde se formou em 1928. No debate sobre o “provincianismo incurável” de Câmara Cascudo, está o fato de ter virado arrimo de família depois que o seu pai, Coronel Cascudo, passa por um completo processo falimentar a partir da crise econômica de 1929. Cerca de 10 pessoas, entre esposa, filho, pais e tias, ficaram na sua dependência. Nem a modesta vida de professor e escritor, que não lhe fez rico, tirou o bom humor característico de sua personalidade. “Graças a Deus eu fiquei pobre, para poder estudar o que eu queria”, comemorava, de acordo com Daliana. Julho/2009

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Dos arcaísmos da fazenda para o mundo

Mário de andrade e o divisor de águas na obra cascudiana A correspondência de Câmara Cascudo com Mário de Andrade acaba solidificando uma grande amizade entre dois dos mais importantes intelectuais brasileiros. Segundo o professor Humberto Hermenegildo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a partir dos contatos estabelecidos com os modernistas, Câmara Cascudo passaria a assimilar novas idéias, a maioria delas advindas da correspondência com o autor de Paulicéia Desvairada. No período que o professor caracteriza como de “assimilação” e início da grande tarefa de Cascudo como pesquisador, de 1925 a 1927, nenhum livro é publicado por ele. “Entre a publicação do Livro de poemas de Jorge Fernandes (1927), de autoria do poeta potiguar que acompanha Câmara Cascudo na aventura modernista, e a passagem de Mário de Andrade por

Mário de Andrade, que depois viria a ser padrinho do primeiro filho de Cascudo, Fernando Luís, é ciceroneado pelo potiguar entre dezembro de 1928 e janeiro de 1929, quando os dois empreendem viagens pelo interior do Rio Grande do Norte. 28

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Natal (1928-1929), muitas transformações se operaram. A compreensão da modernidade brasileira, a partir da segunda metade da década de 20, passaria também pela visão Pau-Brasil e da Antropofagia, que, naquele momento, davam o tom das discussões sobre a brasilidade”, considera. Mário de Andrade, que depois viria a ser padrinho do primeiro filho de Cascudo, Fernando Luís, é ciceroneado pelo potiguar entre dezembro de 1928 e janeiro de 1929, quando os dois empreendem viagens pelo interior do Rio Grande do Norte. Mas, é a famosa carta de junho de 1937, enviada por Mário de Andrade, que ainda hoje rende debates acerca da reorientação do trabalho de Câmara Cascudo em direção à cultura popular, à tradição e ao folclore, responsáveis pela maior repercussão de sua obra em todo o país. Segundo Gildson de Oliveira, biógrafo de Cascudo, Mário critica o direcionamento do trabalho do amigo, até então voltado principalmente a perfis biográficos e plaquetas de paróquias interioranas. “Veja o que se passa diante de você, a cultura brasileira desfila na sua calçada, olhe para a rua e para as coisas”, disse Mário de Andrade. Para Daliana Cascudo e para a professora Vânia Gico, da UFRN,

a preocupação de Cascudo com o folclore vinha desde antes de ele conhecer Mário, quando da publicação do artigo “O aboiador”, em 1921, que fala do arcaísmo resistente nas fazendas de gado sertanejas. Para outros, longe de colocar que Mário tenha, com seu “puxão de orelhas carinhoso” – como observa Serejo – ensinado algo, o fato é que Cascudo materializa uma mudança de postura em 1939, quando lança Vaqueiros e Cantadores. Ele apresenta o livro como resultado de 15 anos de observação e registro de “fatos, versos, causos”, compondo, com o “material colhido diretamente na memória de uma infância sertaneja, despreocupada e feliz”, uma primeira parte poética, que incluiria uma parte religiosa e outra sobre os autos populares, conforme coloca Ivone Barbosa, professora de História da Universidade Federal do Ceará (UFC), na sua análise da obra em Dicionário Crítico Câmara Cascudo. “Com esse livro, Cascudo se coloca no plano nacional como etnógrafo e como alguém que olha sociologicamente o Nordeste”, acrescenta Vicente Serejo. Ivone coloca ainda que, a partir da análise

Cascudo materializa uma mudança de postura em 1939, quando lança Vaqueiros e Cantadores. Ele apresenta o livro como resultado de 15 anos de observação e registro de “fatos, versos, causos”, compondo, com o “material colhido diretamente na memória de uma infância sertaneja, despreocupada e feliz”


“Veja o que se passa diante de você, a cultura brasileira desfila na sua calçada, olhe para a rua e para as coisas”, disse Mário de Andrade. dos modelos de produção poética, Câmara Cascudo identifica a influência da cultura medieval, principalmente de Portugal, da Espanha e da França, no sertão nordestino, apontando as variações entre as diferentes versões de cantigas, romances e gestas, entre outros. Humberto Hermenegildo situa Vaqueiros e Cantadores como um divisor de águas na obra cascudiana, pois posterior à experiência modernista, muito próxima da experiência integralista e anterior à produção de Literatura Oral (1952) e Dicionário do Folclore Brasileiro (1956). Assim, acredita o professor, “esta classificação cronológica permite estabelecer relações entre as etapas da produção intelectual do ensaísta, apontando para distinções entre os textos esparsos e os livros, assim como entre os gêneros textuais exercitados por ele”. O interesse de Câmara Cascudo pelo folclore o leva a fundar, em 1941, na cidade de Natal, a Sociedade Brasileira de Folclore. “Totalmente inovador. E passa a se corresponder com folcloristas do mundo todo. E participar de associações de folclore da Irlanda, dos EUA. Steve Thompson, que era um folclorista norte-americano importantíssimo na época, vem e se hospeda na casa de Câmara Cascudo”, conta Daliana, ao apontar que o primeiro reconhecimento ao trabalho de Cascudo na área veio de fora do Brasil.

Continente e arquipélagos

Macro e MicrocosMos da cultura nuMa figura só, iMune a sisteMatizações Sem desmerecer a sua produção intelectual anterior, a partir da “ruptura” representada por Vaqueiros e Cantadores, a obra de Luís da Câmara Cascudo experimentou cada vez mais uma multiplicidade de abordagens, que terminaram por sedimentar o autor como um dos maiores do Brasil. Difícil, para não dizer impossível, sistematizá-lo adequadamente, é possível, para alguns, identificar entre seus escritos os textos fundamentais de sua lavra. “Na condição de intérprete da história do Brasil, em múltiplos campos de escrita, Câmara Cascudo enfatiza dimensões de tradição e continuidade milenares, num contexto marcado pela intelectualmente pela nostalgia diante da perda de tradições, e pela busca de novas alternativas para a sociedade brasileira”, afirma Marcos Silva no Dicionário Crítico. Com experiência de mais de 40 anos de leitura e admiração de Câmara Cascudo, Vicente Serejo vê na obra do professor um continente cercado por ilhas. “Você tem um continente Cascudiano que é Civilização e Cultura (1973) em dois volumes, o Dicionário do Folclore Brasileiro, e a História da Alimentação no Brasil (1963), mas ele não abre mão de um arquipélago imenso e rico, que vai desde um pãozeiro local, que dançava coco, entregando o pão na cidade, até ensaios eruditos no plano local, nacional e internacional”, explica, ao colocar que Cascudo tinha dimensão do macro e do microcosmo da cultura, e escreveu sobre a História de Nossos Gestos (1976), sobre a história do tamborete e da lamparina, por exemplo.

Câmara Cascudo enfatiza dimensões de tradição e continuidade milenares, num contexto marcado intelectualmente pela nostalgia diante da perda de tradições

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folclore: “ciÊncia da psicologia coletiva” Ainda sobre o folclore, Câmara Cascudo publicou em 1944 Antologia do Folclore Brasileiro. Segundo Maristela Oliveira de Andrade, ele manifestou, no livro, o repúdio às críticas e depreciações freqüentes do meio intelectual em relação a esse campo de estudo, tão atraente para autodidatas diletantes. “Não consiste o folclore na obediência ao pinturesco, ao sertanejismo anedótico, ao amadorismo do caricatural e do cômico, numa caçada monótona ao pseudotípico, industrializando o popular. É uma ciência da psicologia coletiva, com seus processos de pesquisa, seus métodos de classificação, sua finalidade em psi-

O dicionário traz uma dimensão do folclore que nenhuma outra obra consegue ter Ricardo Souza, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

quiatria, educação, história, sociologia, antropologia, administração, política e religião”, afirmou Cascudo. Já o Dicionário do Folclore Brasileiro, lançado 12 anos depois, é considerado uma síntese do vasto trabalho do autor. Referência freqüente de estudiosos, artistas, festeiros e carnavalescos, o dicionário recebeu seis edições até 1988, sendo as quatro primeiras com novos verbetes e atualizações bibliográficas. Apresenta, nas palavras da professora Martha Abreu, da Universidade Federal Fluminense (UFF), uma grande variedade de temas ligados a festas, músicas, lendas, mitos, superstições, usos, costumes, gestos, indumentárias, bebidas, comidas, santos favoritos, principais folcloristas e etc. “Para se ter uma idéia da dimensão do trabalho realizado, pela edição de 1988, é importante mencionarmos a existência de

811 páginas (com letra bem pequena e sem ilustrações), com um número incalculável de verbetes”, mostra. Na análise de Martha Abreu, o livro se aproxima do que se conheceu como Movimento Folclórico Brasileiro, que a partir do final da década de 1940 reuniu muitos intelectuais na defesa do folclore brasileiro, tendo Câmara Cascudo como um compartilhador de suas bandeiras, sem, no entanto, participar efetivamente das organizações federais criadas pelo movimento. Na opinião do professor Ricardo Souza, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o dicionário traz uma dimensão do folclore que nenhuma outra obra consegue ter. Autor de A Identidade Nacional e Modernidade Brasileira: um diálogo entre Silvio Romero, Euclides da Cunha, Câmara Cascudo e Gilberto Freyre, Souza identifica a preocupação de Cascudo que é pensar o folclore não apenas como folclore brasileiro, mas como folclore universal, sempre fazendo, com prazer, a ligação entre o passado remoto e o presente.

“Literatura oral”

idéia de uMa tradição brasileira eM buMba-Meu-boi, reisados, coMidas... Humberto Hermenegildo considera Literatura Oral como o local onde aparece de forma mais nítida a idéia de uma tradição brasileira. Nele, há a idéia de que o Bumbameu-Boi, enquanto auto brasileiro, representa uma síntese dos processos formativos, o que se reflete no próprio modo de o autor analisá-lo. “Depois de estabelecidos os

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elementos, temas, técnicas, assim como a classificação das formas registradas na pesquisa, aparece no último capítulo do livro o auto com a mesma origem estrangeira e com um processo de nacionalização semelhante às demais formas registradas, mas com a diferença da originalidade na sua formação – que ocorreu nos últimos anos do século XVIII, a partir de um processo aquisitivo que assimilou Reisados já existentes (Cavalo-Marinho, etc.)”, coloca.


“Civilização e Cultura”, o livro perdido

tráfego fácil entre erudição e o aparente trivial popular Um dos aspectos mais sedutores da personalidade e da obra de Câmara Cascudo é a facilidade com que ele trafega entre a sua larga erudição, construída desde os tempos da convivência com o amigo Henrique Castriciano – que teve papel fundamental na orientação de leituras, na experiência de viagem e nos ensinamentos sobre a qualidade do pesquisador –, e o interesse pelo aparentemente trivial. Como o próprio Cascudo colocou: “Queria saber a história de todas as cousas do campo e da cidade. Convivência dos humildes, sábios, analfabetos, sabedores dos segredos do Mar, das Estrelas, dos morros silenciosos. Assombrações. Mistérios. Jamais abandonei o caminho que leva ao encantamento do passado. Pesquisas. Indagações. Confidências que hoje não tem preço. Percepção medular da contemporaneidade”. Em Civilização e Cultura, o livro perdido que passou 11 anos para ser publicado, Câmara Cascudo se vale da profissão de professor para expor suas idéias e conceitos acerca da etnografia. “Essa inclinação para o estudo da etnografia foi desenvolvida mais

rigorosamente a partir da experiência docente do ensino superior, e teve seu primórdios nos estudos do folclore, os quais deram início às investigações do autor no campo das raízes tradicionais do Brasil”, interpreta Vânia Gico no Dicionário Crítico Câmara Cascudo. Na visão dela, Cascudo não simpatizava com a concepção reducionista que geralmente era dada à palavra folclore, “pelo seu sentido limitado aos contos e histórias populares”. Preferia ser entendido como

“Cultura popular é o complexo, representa a totalidade das atividades normais do povo, do artesanato ao mito, da alimentação ao gesto”, ou “o saldo da sabedoria oral na memória coletiva”

um estudioso da cultura popular e pensava que a “cultura popular é o complexo, representa a totalidade das atividades normais do povo, do artesanato ao mito, da alimentação ao gesto”, ou “o saldo da sabedoria oral na memória coletiva”. Cultura erudita e popular, sob a ótica cascudiana, são consideradas complementares. Vânia Gico acrescenta ainda que ele estudou o folclore como fenômeno sociocultural, configurando-o a partir das manifestações populares como expressão de historicidade. Na concepção de Cascudo, etnografia era “realmente o estudo da origem desenvolvimento e permanência social das culturas”, sem que houvesse culturas superiores nem inferiores, e sim sempre “culturas, reuniões de técnicas suficientes para a vivência grupal”. Para Vânia Gico, Cascudo quis mostrar em Civilização e Cultura que o folclore, as crenças, tradições religiosas e o clima social “tinham, pois, a função de um cimento fundamental e antropológico, a partir do qual emergiam os padrões mais alargados da história e da cultura de um povo”.

Na avaliação do professor, com origem nas “tourinhas” portuguesas, e através da substituição de toureiros por vaqueiros negros ou caboclos, surgiu uma dança absolutamente brasileira e em função do motivo econômico e social da pecuária.

social brasileira, neste caso através da comida. Conforme Paula Pinto e Silva, da FFCLH/USP, na tentativa de escrever uma sociologia da alimentação com base histórica e etnográfica, ele recorreu à bibliografia de viajantes estrangeiros no Brasil do século XX, bem como notas, observações e inquéritos pessoais que vinha acumulando desde 1943. Para escrever o livro, Cascudo foi à África e à Europa. Pesquisou e escreveu sobre o cardápio indígena, a dieta africana e a ementa portuguesa, fontes da cozinha brasileira,

este assunto do segundo tomo da obra. O objetivo, como o próprio Cascudo estabeleceu, foi mostrar “a antiguidade de certos hábitos, explicáveis como uma norma de uso e um respeito de herança dos mantimentos de tradição”. Para o antropólogo Raul Lody, a obra pode ser tida como fundadora do pensamento sobre sistemas alimentares. “Com o livro, Câmara Cascudo fornece a mais completa pesquisa já realizada sobre esse assunto no país”, assinala Paula Pinto e Silva.

ViAgENS À ÁfriCA E EUroPA. História da Alimentação no Brasil, lançado em 1963, é uma demonstração do vigor do pesquisador que foi Câmara Cascudo e de como ele buscou entender as raízes da formação

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Nunca saiu de Natal

de ignorado pela acadeMia, a fundador da ufrn e reconheciMento tardio eM profusão Foto: Acervo Instituto Câmara Cascudo - Ludovicus.

Visita de Gilberto Freyre à sua casa, em 1982. Nesta ocasião foi agraciado com a Medalha Massangana, do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, entregue pelo próprio Gilberto Freyre

Câmara Cascudo recebeu, ainda vivo, em Natal, diversas homenagens e distinções, ao mesmo tempo que virou nome de rua, prêmio cultural, Biblioteca e Museu de Antropologia e a transformação da sua casa em referência turístico-cultural da capital potiguar. Um ano após o seu falecimento, um memorial também foi montado para preservar seu legado. O interesse pelo estudo e discussão da obra de Luís da Câmara Cascudo cresceu depois da sua morte, em 1986, sobretudo a partir dos anos 1990. Durante muitos anos, ele foi, de certa forma, ignorado pela academia. Vários fatores colaboraram para isso. No Rio Grande do Norte, por exemplo, Cascudo figura como fundador da

própria Universidade Federal naquele estado, a UFRN. Para a neta Daliana, o reconhecimento à obra do avô não pode ser considerado tardio. Ela acha que o interesse é grande, “mas sempre falta mais”. Já Ricardo Souza duvida. “Será que ele foi descoberto ainda?”. Na sua ótica, Cascudo é um injustiçado. E, novamente, permeia o debate o fato de ele nunca ter deixado Natal para fazer carreira em outro Estado. “O Câmara Cascudo tem uma estatura e uma grandeza que o colocam ao lado dos outros intérpretes brasileiros, e ele sempre foi posto à margem. De certa forma ele sempre se pôs à margem, pois nunca quis sair de Natal”, afirma Souza, ao comparar a trajetória do potiguar com a do pernambucano Gilberto Freyre, cuja maior vivência no plano nacional lhe rendeu maior projeção. “Veja o que já foi produzido em relação a Mário de Andrade, por exemplo, em comparação com Câmara Cascudo. Ele é uma gota no oceano em relação ao que já foi, está sendo escrito sobre Mário, Oswald de Andrade, Monteiro Lobato. Gilberto, então, nem se fala”, reclama. Por seu lado, Serejo compensa esse provincianismo com a universalidade cosmopolita que Cascudo exercitou, seja através das suas inúmeras viagens pelo mundo ou pelas

“O Câmara Cascudo tem uma estatura e uma grandeza que o colocam ao lado dos outros intérpretes brasileiros, e ele sempre foi posto à margem. De certa forma ele sempre se pôs à margem, pois nunca quis sair de Natal” Ricardo Souza

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correspondências com figuras de renome, como Carlos Drummond de Andrade, Cassiano Ricardo, Edison Carneiro, Manuel Bandeira, Monteiro Lobato, Gilberto Freyre e Renato Almeida. Além disso, Câmara Cascudo recebeu em sua casa desde políticos como Juscelino Kubitscheck e João Batista Figueiredo e músicos como Heitor Villa-Lobos até o mais simples pescador ou artista popular. Humberto Hermenegildo discorda de Ricardo Souza. “Se tomarmos ‘academia’ como ‘universidade’, podemos considerar que o autor tem uma fortuna crítica considerável no âmbito da universidade brasileira”, afirma, sem entretanto dispor de dados estatísticos. Humberto coordena o Núcleo Câmara Cascudo de Estudos Norte-Rio-Grandenses (NCCEN) da UFRN. Entre os objetivos do núcleo, estão reunir especialistas para aprofundar estudos sobre o Rio Grande do Norte nas áreas de literatura, de história e de antropologia, e sobre o acervo intelectual de Câmara Cascudo; desenvolver programas de ensino e de extensão, valendo-se dos resultados de pesquisas nas áreas inter-relacionadas no Núcleo; e organizar e colocar à disposição um banco de dados sobre a obra de Câmara Cascudo, a literatura, a história e os aspectos antropológicos do Estado. Casa onde morou Câmara Cascudo será reaberta


Olhares políticos enviesados

Monarquista, integralista, apoiadordo golpe Militar e de Maluf Foto: Marcel Bezerra

“Ele foi monarquista na juventude, 1910, 1920. Foi integralista na década de 1930. Depois apoiou a Ditadura Militar em 1964, e em 1984 apoiou o Maluf”

viesado em relação a Cascudo. Outro agravante em relação à obra de Cascudo, mas que, na opinião de Serejo, tem sido dirimido nos últimos anos, é o seu não aprisionamento ao método acadêmico de pesquisa. “Ele não tinha o método, digamos, marxista que está aí, que vê a vida através da luta de classes. Cascudo não tinha isso, ele era um burguês, tinha raízes no pequeno burguês. Mas ele foi tentar compreender a alma do povo, por isso que ele diz que o melhor do Brasil é o brasileiro”, contrapõe. Se por um lado Cascudo se ateve mais, em determinados momentos, a registrar seus objetos de estudo sem utilizar a metodologia acadêmica tradicional, por outro permitiu a ele ir além, pelo que a cultura agradece penhoradamente. Ricardo Sousa acredita que, no momento que ele se manteve à margem da academia, numa época que ela não tinha interesse pelo folclore, isso o permitiu expor todo um universo, em cuja descoberta ele foi pioneiro.

Ricardo Souza, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

LIVRE DE RIGORES ACADÊMICOS. “Cascudo

Vicente Serejo, jornalista, professor e admirador da obra de Cascudo

Na visão de Serejo, o posicionamento político de Cascudo durante toda a sua vida pode ter sido um complicador. “Ele foi monarquista na juventude, 1910, 1920. Foi integralista na década de 1930. Depois apoiou a Ditadura Militar em 1964, e em 1984 apoiou o Maluf”, recorda Ricardo Souza, ressaltando ser essa postura conseqüência de um tradicionalismo que Câmara Cascudo sempre adotou, o que não invalida a obra do autor. De acordo com Serejo, embora tenha tomado a atitude digna de romper com o integralismo com a eclosão da Segunda Guerra, isso pode ter influído para que o universo acadêmico mantivesse durante muito tempo olhar en-

pôde ver esse universo com uma clarividência de quem esteve ali, de quem faz parte desse universo. Esse é o ponto forte. Agora, há o ponto fraco de que ele nunca soube analisar de forma conceitual, acadêmica, esse universo. Nisso ele sempre teve um lado empírico, que poderia ter sido mais aprimorado se ele tivesse uma formação acadêmica mais estrita. Por isso que eu falo, Civilização e Cultura é o livro no qual ele tenta dar uma de acadêmico, mas essa não é a praia dele”, critica ele, ao ressaltar que Cascudo sempre ignorou a cultura acadêmica contemporânea, em benefício de sua formação clássica. Mesmo como professor – e fundador – da antiga Faculdade de Direito do RN, Câmara Cascudo buscou a compreensão do homem como ser universal. Seus três ensaios “Etnografia e Direito”, “Leges et Consuetudines nos Costumes Locais” e um texto sobre a figura do Pelourinho em História da Cidade do Natal, falam sobre simbologia costumes e etnografia.

“MeMória Mantida coM sangue, suor e lágriMas” Como tem sido regra no Brasil, a preservação da memória e da obra de seus filhos ilustres não foge à regra da carência de políticas públicas que garantam sua manutenção. E o legado de Câmara Cascudo poderia estar perdido ou difuso se não fosse o amor e abnegação da sua família. Formada em Psicologia e Ciências da Computação, Daliana, neta de Câmara Cascudo, está há 20 anos à frente do Memorial que leva o nome do avô. A mãe, Anna Maria Cascudo Barreto segunda herdeira de Cascudo e Dália, é a única detentora do espólio do pai. O memorial Câmara Cascudo é Julho/2009

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vinculado à Fundação José Augusto, órgão de cultura do Estado do Rio Grande do Norte. Memória mantida a “sangue, suor, e lágrimas”, afirma a neta. Câmara Cascudo viveu a maior parte de sua vida num belo casarão na avenida Junqueira Aires, bairro da Ribeira, em Natal. Depois da partida de Cascudo, deixou de ser aberta ao público até 2001. Lá, logo na entrada, estão as placas que homenagearam Cascudo por seus préstimos à cultura brasileira. No átrio, vários quadros com fotos autografadas por grandes personalidades amigas de Cascu-

acervo, que não é pequeno. São 10 mil livros, 15 mil correspondências, cinco mil fotografias. “Passa muito de 25 mil peças”, diz Daliana, ao incluir o acervo museológico da casa, que consta de uma coleção de etnografia africana e de uma rica pinacoteca, além do antigo mobiliário da casa, todo conservado. Tudo, reitere-se, sem verba oficial. Com o instituto, Daliana afirma que será possível buscar patrocínios e parcerias para a execução de projetos. A idéia da família, segundo ela, é reabrir a casa para visitação nos próximos meses

do, o escritório onde ele escrevia à máquina, e nas paredes assinaturas de centenas de amigos, ilustres ou desconhecidos, que o visitavam. Para preservar o imóvel e todo o acervo de Cascudo, foi fundado o Instituto Câmara Cascudo – Ludovicus. Desde o final de 2005, com recursos próprios da família, o imóvel está sendo restaurado para funcionar como casa biográfica. A biblioteca do mestre, que ficava no Memorial, teve seus livros restaurados e já voltou para a casa, onde poderá ser consultada e pesquisada, assim como todo o seu

Sebos e relançamentos

recusa a convites de JK e cadeira na abl

Além dos dois livros publicados eles me pedem para sugerir uma recentemente, está programado para obra para ser relançada, eu sugiro o final do ano ou início do próximo o logo 20, porque tem tanta coisa imlançamento do livro com a corresponportante para sair que fica difícil a dência – ida e volta –, entre Cascudo gente escolher um”, gaba-se. Assim, e Mário de Andrade. O livro só foi Daliana espera uma maior difusão possível graças a um convênio firmado da obra do avô, que é objeto de pesem 2008 entre as academias Paulista quisa em todo o Brasil. Em breve, e Norte-Riograndense de Letras, onde entrará no ar, na internet, o site o Instituto Câmara Cascudo e o Instido instituto (www.cascudo.org.br). tuto de Estudos Brasileiros (IEB), que Outra parte da obra de Cascudo, detém a correspondência de Mário. suas 1.848 crônicas de Acta Diurna, Daliana informa que o mesmo se prejá teve até agora dez volumes publitende fazer com as cartas que Cascucados sob o título de O Livro das do trocou com outras figuras ilustres, Velhas Figuras, pelo Instituto Hiscomo Monteiro Lobato, Carlos Drumtórico e Geográfico do Rio Grande mond de Andrade, Josué de Castro e do Norte (IHGRN) Jorge Amado, por exemplo. Câmara Cascudo escrevia na biblioteca de casa: sua “Babilônia” A obra de Cascudo, que se encontrava em sua grande maioria esgotada e só possível de encontrar em sebos, começou a ser relançada há alguns anos, após assinatura de contrato entre a família de Cascudo e a Global Editora. Até agora, 27 títulos foram relançados, e estão disponíveis em todo o Brasil. “Quando

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Foto: Acervo Instituto Câmara Cascudo - Ludovicus.

correspondÊncias coM Mário, lobato, aMado, druMMond e Josué de castro

Sem querer deixar Natal, Câmara Cascudo acabou por cumprir a missão de dar visibilidade ao Estado do Rio Grande do Norte, avalia Daliana. Convidado por Juscelino Kubitschek para ser o primeiro reitor da Universidade de Brasília (UnB), não aceitou. Assim como se recusou a efetuar inscrição para concorrer a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. O apelido de “provinciano incurável” ganhou de Afrânio Peixoto. “Encontrara meu título justo, real, legítimo”, escreveu Cascudo. Serejo vai além. “Eu acho que ele produziu muito mais pelo desafio de sobreviver. Ele quis que, da província, seria lido no mundo. Agora, ele foi vítima de não ter discípulos, de uma sociedade pobre, de uma universidade dando os primeiros passos, não podia abraçá-lo como um produto. Se você pensar, Cascudo é o melhor produto do RN, a melhor coisa que o RN produziu foi Luís da Câmara Cascudo. Porque exporta, é o que nos faz conhecidos”.


Agitação mudancista, vanguarda democrática e vida curta em rudes tempos

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Por Juarez Leitão — Parte 1

primeira constituição republicana no Ceará foi elaborada num momento de perplexidade e agitação mudancista. Vivia-se a transição da Monarquia para a uma nova forma de governo e era natural a condição de ansiedade e expectativa que acometia a população. Embora o povo simples não estivesse a par do processo que se operava na Assembléia recém-eleita, sabia-se que alguma coisa nova estava acontecendo. O movimento republicano se iniciara no Ceará por volta de 1870, quando surgiram os primeiros clubes de simpatia ao regime que caracterizava o continente americano. Depois, houve um arrefecimento, mas o entusiasmo retornou nos meados da década de 80, como acontecia em vários pontos da nação. Entretanto, a proclamação da República, naquele 15 de novembro de 1889, pegou a todos de surpresa. É impressionante como se fez a substituição da monarquia sem um tiro, sem uma escaramuça, sem nenhuma participação popular. Um grupo de militares se reúne numa praça do Rio de Janeiro e induz um velho líder do exército, doente e amigo do imperador, a dar um viva à República, derrubando o Império e despachando a dinastia de Bragança para o exílio humilhante. Graças ao telégrafo, a notícia da proclamação da República chegou na mesma tarde de sua ocorrência. Todo mundo foi tomado de surpresa. Os líderes, porém, trataram de espalhar a boa nova, e logo se formaram aglomerações nos dois pontos principais da cidade: a Praça do Ferreira e o Passeio Público. Naquela noite, ainda sob o impacto da estupefação, não aconteceu uma mobilização de vulto. Mas, no dia seguinte, quando a informação já se generalizara, uma verdadeira multidão se reuniu no Passeio Público (Praça dos Mártires) para aclamar os oradores republicanos e, num impulso de exaltação, partiu para o Palácio do Governo (atual sede da Academia Cearense de Letras) com o objetivo de enxotar o presidente da Província, coronel Jerônimo Rodrigues de Morais Jardim, que se recusava a acreditar que o imperador havia sido destituído e que tudo não passava de uma arruaça de baderneiros. Estava certo quanto à baderna, pois os agitados participantes daquela manifestação, segundo os cronistas da época, no trajeto do passeio Público para a Praça General Tibúrcio (Praça dos Leões), promoveram o maior quebra-quebra de

placas, estátuas e emblemas que se vinculavam à monarquia. Furiosos e aos gritos de “Fora, monarquista!” tomaram o palácio de assalto e, expulso Morais Jardim, aclamaram como governador o tenente-coronel Luiz Antônio Ferraz, comandante do 11° Batalhão. Pode-se imaginar quanto atabalhoada foi a organização político-administrativa da nascente República em sua matriz e nos Estados. Tudo era provisório e o exercício de governo se dava por decretos.

A constituição de 1891, pelo menos no que estava escrito, era muito avançada e contemplava as aspirações democráticas em educação, saúde pública, descentralização, desenvolvimento e justiça social. A primeira eleição estadual ocorreu no dia 10 de fevereiro de 1891 e tinha a missão de escolher os constituintes. Havia uma curiosidade: o Congresso Estadual teria duas câmaras – a dos deputados e a dos senadores. Foram eleitos 12 senadores e 24 deputados. Os trabalhos constituintes decorreram a toque de caixa, pois havia urgência em dotar o Estado de sua Carta Constitucional, como exigia a nova ordem nacional. Instalada a Assembléia Constituinte em fevereiro de 1891, já estava sendo promulgada

www.al.ce.gov.br

em 16 de junho do mesmo ano a nossa primeira Constituição Republicana. Composta de 108 artigos e seis disposições transitórias, é assinada pelo Presidente do Congresso Cearense Constituinte, José Joaquim Domingues Carneiro, demais componentes da Mesa Diretora e por todos os constituintes, num total de 36 parlamentares. O texto faz eco ao movimento de renovação idealizado por Rui Barbosa e inserido na Constituição Federal. Esse desejo de equiparar-se ao contexto do vanguardismo ocidental, liderado pelos Estados Unidos, está configurado a partir do primeiro título, que define a Organização do Estado. Nele, se assegura nossa filiação ao Estado Federativo, sem prejuízo para a autonomia relativa, preceituada na Carta Magna. Contemplado está o princípio iluminista da Separação dos Poderes em Executivo, Legislativo e Judiciário, de funcionamento independente e harmônico. No procedimento eleitoral, estabelece o sufrágio direto para a escolha do Governador e dos parlamentares. Os portadores de cadeira no Legislativo gozavam de prerrogativas especiais, como a inviolabilidade de suas opiniões, palavras e votos no exercício do mandato e a proibição de serem presos sem a devida licença da Assembléia. Assegura aos municípios uma autonomia poucas vezes verificada em documentos constitucionais brasileiros. O Conselho Municipal, que geria o destino das comunas, poderia administrar livremente os bens e as rendas municipais, executando a arrecadação e promovendo a aplicação dessas rendas, além do direito de contrair empréstimos e celebrar contratos. No capítulo da Declaração de Direitos também se verifica uma clara posição de vanguarda. Ali, estão assegurados a liberdade de opinião, locomoção, denúncia, representação e religião e o direito de privacidade e de defesa contra todos os tipos de arbitrariedades. Enfim, a constituição de 1891, pelo menos no que estava escrito, era muito avançada e contemplava as aspirações democráticas em educação, saúde pública, descentralização, desenvolvimento e justiça social. Sabemos, entretanto, que, principalmente naqueles rudes tempos, havia uma distância abismal entre a lei e a prática. Sua duração teria, porém, o curto espaço de um ano e 26 dias.


vinculado à Fundação José Augusto, órgão de cultura do Estado do Rio Grande do Norte. Memória mantida a “sangue, suor, e lágrimas”, afirma a neta. Câmara Cascudo viveu a maior parte de sua vida num belo casarão na avenida Junqueira Aires, bairro da Ribeira, em Natal. Depois da partida de Cascudo, deixou de ser aberta ao público até 2001. Lá, logo na entrada, estão as placas que homenagearam Cascudo por seus préstimos à cultura brasileira. No átrio, vários quadros com fotos autografadas por grandes personalidades amigas de Cascu-

acervo, que não é pequeno. São 10 mil livros, 15 mil correspondências, cinco mil fotografias. “Passa muito de 25 mil peças”, diz Daliana, ao incluir o acervo museológico da casa, que consta de uma coleção de etnografia africana e de uma rica pinacoteca, além do antigo mobiliário da casa, todo conservado. Tudo, reitere-se, sem verba oficial. Com o instituto, Daliana afirma que será possível buscar patrocínios e parcerias para a execução de projetos. A idéia da família, segundo ela, é reabrir a casa para visitação nos próximos meses

do, o escritório onde ele escrevia à máquina, e nas paredes assinaturas de centenas de amigos, ilustres ou desconhecidos, que o visitavam. Para preservar o imóvel e todo o acervo de Cascudo, foi fundado o Instituto Câmara Cascudo – Ludovicus. Desde o final de 2005, com recursos próprios da família, o imóvel está sendo restaurado para funcionar como casa biográfica. A biblioteca do mestre, que ficava no Memorial, teve seus livros restaurados e já voltou para a casa, onde poderá ser consultada e pesquisada, assim como todo o seu

Sebos e relançamentos

recusa a convites de JK e cadeira na abl

Além dos dois livros publicados eles me pedem para sugerir uma recentemente, está programado para obra para ser relançada, eu sugiro o final do ano ou início do próximo o logo 20, porque tem tanta coisa imlançamento do livro com a corresponportante para sair que fica difícil a dência – ida e volta –, entre Cascudo gente escolher um”, gaba-se. Assim, e Mário de Andrade. O livro só foi Daliana espera uma maior difusão possível graças a um convênio firmado da obra do avô, que é objeto de pesem 2008 entre as academias Paulista quisa em todo o Brasil. Em breve, e Norte-Riograndense de Letras, onde entrará no ar, na internet, o site o Instituto Câmara Cascudo e o Instido instituto (www.cascudo.org.br). tuto de Estudos Brasileiros (IEB), que Outra parte da obra de Cascudo, detém a correspondência de Mário. suas 1.848 crônicas de Acta Diurna, Daliana informa que o mesmo se prejá teve até agora dez volumes publitende fazer com as cartas que Cascucados sob o título de O Livro das do trocou com outras figuras ilustres, Velhas Figuras, pelo Instituto Hiscomo Monteiro Lobato, Carlos Drumtórico e Geográfico do Rio Grande mond de Andrade, Josué de Castro e do Norte (IHGRN) Jorge Amado, por exemplo. Câmara Cascudo escrevia na biblioteca de casa: sua “Babilônia” A obra de Cascudo, que se encontrava em sua grande maioria esgotada e só possível de encontrar em sebos, começou a ser relançada há alguns anos, após assinatura de contrato entre a família de Cascudo e a Global Editora. Até agora, 27 títulos foram relançados, e estão disponíveis em todo o Brasil. “Quando

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Nordeste VinteUm

Julho/2009

Foto: Acervo Instituto Câmara Cascudo - Ludovicus.

correspondÊncias coM Mário, lobato, aMado, druMMond e Josué de castro

Sem querer deixar Natal, Câmara Cascudo acabou por cumprir a missão de dar visibilidade ao Estado do Rio Grande do Norte, avalia Daliana. Convidado por Juscelino Kubitschek para ser o primeiro reitor da Universidade de Brasília (UnB), não aceitou. Assim como se recusou a efetuar inscrição para concorrer a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. O apelido de “provinciano incurável” ganhou de Afrânio Peixoto. “Encontrara meu título justo, real, legítimo”, escreveu Cascudo. Serejo vai além. “Eu acho que ele produziu muito mais pelo desafio de sobreviver. Ele quis que, da província, seria lido no mundo. Agora, ele foi vítima de não ter discípulos, de uma sociedade pobre, de uma universidade dando os primeiros passos, não podia abraçá-lo como um produto. Se você pensar, Cascudo é o melhor produto do RN, a melhor coisa que o RN produziu foi Luís da Câmara Cascudo. Porque exporta, é o que nos faz conhecidos”.


Caderno especial

Julho de 2009 - númeroº 2

Oportunidades da inovação

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STF autoriza implantação do Cinturão Digital

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Incubadora fomenta talentos

Fundo de Extensão: R$ 300 milhões por ano

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Carta do Editor

Desafio da inovação se impõe O Ceará faz a sua parte

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niversidade e empresa no Brasil se constituíam, até pouco tempo, em dois entes com distanciamento marcado por mútuas desconfianças e preconceitos. Agora, pontuam demonstrações mais freqüentes de que podem formar um elo de inteligência com foco no desenvolvimento. Impelida por razões de sobrevivência diante das mudanças na sociedade global, a aproximação entre os dois polos gera sinergia e irradia benefícios. A pesquisa da universidade, ao ser transformada em produto pela empresa, estende sua abrangência social. O conhecimento produzido pela inovação tecnológica dá às empresas competitividade nos cenários nacional e mundial, o que contribui para aumentar a riqueza do país. Países desenvolvidos há muito aplicam incentivos e subsídios às empresas que inovam. Para tanto, oferecem mecanismos ágeis de apoio e ambiente legal que não atrapalha, mas ajuda e promove a cultura da inovação. O desafio foi aceito pelo Brasil ao criar a Lei de Inovação e outros mecanismos como a Lei do Bem – que trata de incentivos fiscais para pessoas jurídicas que realizam pesquisa e desenvolvimento de inovação tecnológica – e a Lei de Informática. Há forte sinalização de que o país caminha nesta direção. Todavia, o mode-

lo é ainda concentrador e privilegia o Sudeste. Os números oficiais da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), empresa pública vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, confirmam o quadro, embora não revelem detalhes de distribuição da subvenção econômica a cada estado, como esta revista solicitou. O Ceará faz a sua parte ao formatar instrumentos de política pública para trabalhar com o apoio à inovação. Até mesmo um Fundo de Inovação Tecnológica (FIT) compõe os mecanismos do Estado para avançar neste campo. A Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), que já tem a experiência de operação com duas edições do Programa de Apoio à Pesquisa na Pequena Empresa, criou uma área dedicada à Inovação. O momento desafia a uma postura mais arrojada para captar contrapartidas na Finep, BNB e Sudene. A maturidade, quando alcançada, impõe um tratamento especial que o Ceará merece hoje nos instrumentos nacionais de apoio à inovação. A incorporação de grandes empresas estaduais com participação nas oportunidades da inovação virá consolidar o lugar que o Estado deve ocupar neste cenário. redacao@nordestevinteum.com.br


tOme sCientia!

Por Flamínio Araripe redacao@nordestevinteum.com.br

vaziO e perDas em pesquisa agrOpeCuária A extinção da Empresa de Pesquisa Agropecuária do Ceará (Epace) em 1997, pelo então governador do Ceará, Tasso Jereissati, deixou um vazio ainda não preenchido no Estado. Hoje, o governador Cid Gomes preferiu deixar para a Embrapa local a parte que caberia ao Ceará dos R$ 263,6 milhões para revitalização das Organizações Estaduais de Pesquisa Agropecuária (Oepas) até 2010. Os recursos estão no Plano de Ações do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), traçado após diagnóstico de 16 Oepas, com ações sob a liderança nacional da Embrapa. Os estados amazônicos, o Maranhão, o Piauí e o Ceará não possuem órgão de pesquisa agropecuária. A Embrapa gera tecnologia, mas a transferência é com o Estado, onde tem Oepa.

Ceará dá de ombros para dinheiro das Oepas

C&t de pernambuco em muDança estratégiCa

O chefe geral da Embrapa Agroindústria Tropical, Vítor Hugo de Oliveira, procurou a Secretaria da Ciência e Tecnologia do Estado do Ceará tão logo foi lançado o programa de revitalização das Oepas, onde participou de algumas reuniões. Foi cogitada a indicação do Instituto Centec, que teria de possuir uma estrutura específica para receber os recursos e executar a ação. Mas, por decisão do governo, o Estado não entrou. Os recursos não vieram para a Embrapa nem para a possível substituta da Oepa. “O Ceará ficou de fora. Perdemos esse recurso”, disse Vitor Hugo.

Troca de titulares na Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco (Sectma). Saiu Aristides Monteiro Neto, deslocado para assessor de Assuntos Estratégicos pelo governador Eduardo Campos. Entrou a ex-prefeita de Olinda, Luciana Santos, que tomou posse no cargo no dia 27 de julho. Mudanças para dar mais agilidade no desempenho operacional cobrado após os primeiros anos da gestão. O gesto demonstra a importância estratégica da secretaria, agora entregue a quem tem experiência comprovada de boa gestão e capital político.

atlântiCO contrata em são paulo O Instituto Atlântico definiu a produção de software para o sistema financeiro como foco na expansão da sua filial em São Paulo. Instalada este ano nas imediações do Morumbi, a unidade já contratou 60 profissionais. Até agosto serão incorporados mais 25 colaboradores à filial, que deve chegar a 100 este ano, informa o superintendente, José Eduardo Martins. Não são utilizados os mecanismos da Lei de Informática na operação em São Paulo. Entre outros concorrentes no mercado, o cliente escolheu o Atlântico por critérios de preço e qualidade do serviço. Com mais de 200 colaboradores na sede em Fortaleza, o Atlântico é uma entidade civil sem fins lucrativos que tem como principal objetivo fornecer à sociedade soluções científicas e tecnológicas. Atua preferencialmente nas áreas de telecomunicações e tecnologia da informação.

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ciência &tecnologia / julho de 2009

CanteirO De OBras nO ifCe O Ministério da Educação superou o contingenciamento de recursos feito pela área econômica do governo. A medida beneficiou o orçamento do IFCE com a recuperação de mais de R$ 3 milhões. Não falta onde aplicar os recursos pelo reitor Cláudio Ricardo Gomes de Lima que toca no momento 13 canteiros de obras, novos campi e unidades descentralizadas.

CiênCias DO mar são tema da 62ª sBpC-natal O Nordeste vai sediar em 2010 o maior encontro científico do Hemisfério Sul. Em julho, será realizada em Natal a 62ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. As ciências do mar foram escolhidas como o tema principal do evento. A decisão foi aprovada na assembléia da Reunião Anual deste ano em Manaus, realizada de 12 a 17 de julho na Universidade Federal do Amazonas.

eua X teCnOlOgia naCiOnal: deu samba pra nós O embargo dos Estados Unidos ao pedido de importação da matéria-prima baseada em silício para a produção das lentes de câmera multiespectrais para os satélites CBERS 3 e 4 não impediu o Brasil de fabricar o modelo MUX com tecnologia nacional. Seis meses depois, o equipamento foi entregue com as lentes desenvolvidas por empresa nacional, a Opto Eletrônica. Já está requerida patente para a inovação, que no seu processo de produção dispensa a matéria-prima que teria de ser importada. O INPE, presidido pelo cearense Gilberto Câmara, contratou por licitação pública a empresa que fez a câmera capaz de captar imagens do solo com resolução de 20 metros para monitoramento ambiental e gerenciamento de recursos naturais.


pesquisa + empresas = DesenvOlvimentO

OpOrtunidades da

inOvaçãO

mais abertas cOm recursOs públicOs

O Ceará trilha um caminho, desde que criou em 2007 a Lei de Inovação, para organizar bases e alavancar, este ano, o aumento do dinheiro destinado à inovação da fonte de subvenção econômica – recursos não reembolsáveis – para pequenas, médias e grandes empresas. O Fundo de Inovação Tecnológica (FIT) acumula R$ 15,9 milhões numa conta do Bradesco depositados pela Secretaria da Fazenda (Sefaz), que ainda não foi mexida. O saldo foi informado no dia 31 de julho. Tais recursos podem tornar o Estado muito mais competitivo na conquista por novas fontes, como os programas federais destinados à inovação. A idéia é não investir diretamente e sim buscar recursos de forma compartilhada no modo de sharing (cotas de contrapartida).

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Brasil é o 13º país na classificação mundial da produção científica com a autoria de 2,12% de tudo que é publicado em revistas internacionais indexadas. O ranking foi elaborado pela Thomson Reuters — a maior agência internacional de notícias e multimídia do mundo — com base em resultados de pesquisas com cerca de 200 países. Mas, na transformação deste conhecimento em riqueza, na criação de produtos e processos inovadores preservados na forma de patente, o País precisa evoluir. O Brasil ocupa o 28º lugar no ranking da United States Patent and Trade Mark Office (USPTO), dos

Estados Unidos, com 0,09% das patentes mundiais. Outro indicador de que a ciência está bem: o Brasil forma 10 mil doutores por ano. Sem abandonar a linha dos investimentos em educação, ciência e tecnologia, o governo quer estimular a geração do conhecimento que contribui para aumentar o Produto Interno Bruto (PIB). O caminho escolhido para isso é o mesmo dos países desenvolvidos, que investem recursos de modo direto na empresa interessada em garantir o ritmo do crescimento sustentável. E, o mais importante: a empresa que planeja competir num mundo global. A tendência do cenário mundial indica que a inojulho de 2009 / ciência &tecnologia

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PAPPE-2

FUNCAP FECHA 21 CONTRATOS PARA dESTINAR R$ 9 MI À PEQUENA EMPRESA

HistÓria de avançO cientÍFicO em detrimentO da inOvaçãO na empresa

vação nasce de pesquisa e desenvolvimento (P&D) e é lançada no mercado pelas empresas. No Brasil, a maioria dos pesquisadores está nas universidades. Para tirar os entraves à aproximação dos pesquisadores das empresas, foi regulamentada em 2005 a Lei da Inovação do governo federal. A legislação permite ao poder público aplicar dinheiro direto nas empresas. No Ceará , o dinheiro também pode ser aplicado diretamente em empresas cearenses que inovam, informa o diretor Administrativo e Financeiro da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), Haroldo Rodrigues de Albuquerque Júnior. O artigo 16 da Lei de Inovação que trata de subvenção econômica foi regulamentado no dia 24 de junho de 2009. O governo do Estado, por meio de decreto, deu novo formato ao Conselho Gestor do FIT (Cogefit), nova composição e um prazo de 90 dias para ser implantado. A Secretaria da Ciência, Tecnologia e Educação Superior é a gestora do FIT e a Funcap opera os recursos.

e acordo com Guimarães, em pouco tempo de atuação dos programas já é possível perceber muitos avanços. “Os empresários estão mais conscientes da importância da inovação para o crescimento de suas empresas. Muitas fazem inovação, mas algumas vezes não há um processo formal para inovar. Em outros casos, alguns empresários tem conhecimento pleno do grande volume de recursos para inovação e de como podem captá-los”, observa. A inovação pode não estar vinculada a processos de P&D, disse Guimarães. Para ele, é o caso da inovação incremental, a mais fácil de ser copiada e superada por inovações de empresas concorrentes. “O maior desafio da empresa do estado é a inovação baseada na geração de novos conhecimentos, que em geral resulta em patentes”, afirma. A trajetória da política científica e tecnológica do Brasil tem sido tradicionalmente orientada para os mecanismos de apoio ao desenvolvimento científico em detrimento do estímulo à inovação empresarial. Desde a aprovação da Lei do Bem, em 2004, com a criação de diversificado conjunto de instrumentos para incentivar a inovação, a agenda da política tecnológica brasileira experimentou mudanças significativas, analisa Guimarães. “No entanto, não se promoveu nenhuma alteração importante no contexto para a formação de profissionais, mestres ou doutores com experiência na área de inovação. O sistema brasileiro de fomento ao desenvolvimento tecnológico mantém-se centrado para o apoio à P&D e não à inovação”, observa o coordenador da Funcap. Em geral, as atividades de pesquisa para a inovação são também estruturadas na forma de projetos e o critério de julgamento é a avaliação do mérito científico do projeto. “Consideramos fundamental alinhar os investimentos públicos para a formação dos profissionais aos investimentos para a inovação empresarial”, afirma Guimarães, acrescentando que são recursos a fundo perdido. “Não é financiamento”. Por lei, 30% do total de recursos devem ser aplicados nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Se projetos destas regiões não são qualificados, os recursos são remanejados pela Finep.

Um ano depois de ter criado uma área de operação focada na Inovação, sob a responsabilidade do empresário Augusto Guimarães, a Funcap fechou 21 contratos da segunda edição do Programa de Apoio à Pesquisa em Pequenas Empresas (Pappe) no valor aproximado de R$ 9 milhões. O ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, quando esteve em Fortaleza, no mês de julho deste ano, anunciou que conversou com o presidente da Funcap, Tarcísio Pequeno, para preparar o projeto do lançamento da terceira edição do Pappe. A previsão é que na terceira edição do Pappe sejam aplicados cerca de R$ 18 milhões – R$ 12 milhões do governo federal e o restante de contrapartida das empresas e do governo estadual. Após a recente aprovação da regulamentação do FIT, a Funcap mobiliza esforços para sensibilizar também as grandes empresas a competirem nas oportunidades oferecidas pelos editais da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) com recursos subvencionados.

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POLÍTICAS PÚBLICAS

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investimentO dO GOvernO Federal nãO cresce e menOs de 50% É aplicadO

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o analisar os números, Guimarães assinala que na prática não houve aumento dos investimentos do governo federal em inovação no Estado do Ceará. “E outros aspectos precisam ser analisados, como o fato de que aprovação não significa, necessariamente, aplicação de recursos. Nos dois últimos anos, por exemplo, estima-se que menos de 50% dos recursos foram aplicados nos projetos aprovados”, lembra. Segundo Guimarães, o esforço da Funcap visa também sensibilizar tanto o governo para disponibilizar mais recursos, como a empresa, para que ela perceba a inovação como um processo alinhado com a estratégia da companhia. “É preciso também incentivar o pesquisador na percepção de que a atividade científica é importante do ponto de vista da aplicação e do benefício social obtido” acrescenta. O coordenador não concorda que o empresário não sabe e não tem interesse em inovação. “Quando o empresário inteligente tem uma necessidade específica, em geral, ele busca um profissional com habilidade técnica na área que resolva o problema e encontre a melhor solução. Na área de inovação não deve ser diferente: quando se entender que a inovação é uma atividade inerente à sobrevivência, que deve estar alinhada com a estratégia da empresa e,

nos anos recentes, pelo menos em parte, subsidiada pelo governo federal, tem o apoio dos governos estaduais e é uma atividade transparente, as empresas tenderão a se organizar para competir em busca de aprovação de seus projetos”.

O que tem ocorrido é que os editais não estão alinhados com a base empresarial existente no estado. Este simples fato, por si só, elimina e exclui a participação da maioria das empresas Augusto Guimarães, empresário e coordenador de Inovação da Funcap

julho de 2009 / ciência &tecnologia

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PRODETEC x FLExIBILIzAçãO POLÍTICA

prOnaF dO bnb e Fne:

exemplOs em linHas de crÉditO para incrementO das empresas

númerOs brasil 99 Forma 10 mil doutores por ano;

99 É o 13º país na

classificação mundial da produção científica com a autoria de 2,12% de tudo que é publicado;

99 Ocupa o 28º lugar no

ranking da United States Patent and Trade Mark Office (USPTO), dos Estados Unidos, com 0,09% das patentes mundiais;

99 Os recursos para inovação

José Sydrão em reunião no BNB

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lém de aumentar a captação na Finep, a Funcap também quer atrair recursos do BNB e Sudene. A idéia é que seja implantada a proposta discutida pelo banco com o Conselho dos Secretários para Assuntos de Ciência e Tecnologia e Inovação (Consecti) visando a criação de um programa de estímulo à área com juros negativos ou outro mecanismo de menor custo do dinheiro. O modelo creditício é o do Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf), de crédito subsidiado. O superintendente do Escritório Técnico do Nordeste (Etene), José Sydrião Alencar, informa que o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico (Prodetec), do BNB, é uma linha de financiamento com potencial de R$ 200 milhões, que poderá ter juros negativos. Segundo ele, da mesma forma que o governo considerou a agricultura familiar como prioridade e facilitou o acesso ao crédito pelo Programa Nacional de Forta-

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lecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), poderá fazer com o Prodetec. “A parceria com os estados vai envolver a quebra desses estrangulamentos. Essas questões burocráticas foram vencidas hoje no Pronaf, que é um sucesso”, disse ele. Alencar sugere a dinamização do Prodetec, uma linha de crédito para empresas que ele considera pouco operante, de acordo com as políticas dos Estados na área. O superintendente convoca os secretários a articularem apoio dos governadores para que o Ministério da Integração flexibilize as regras do Prodetec do mesmo modo que ocorreu com o Pronaf. “A ideia é adaptar o Prodetec às características de cada Estado e limitar ao máximo em termo de garantias”, disse Alencar. A interação do BNB com os secretários de C&T do Nordeste, na avaliação do superintendente, levará a uma negociação política para forçar uma parceria dos fundos setoriais para todos os estados.

no orçamento federal cresceram de R$ 2 bilhões em 2007 para R$ 2,55 bilhões em 2008;

cearÁ 99 A Finep destinou R$ 274

milhões em 2006 para 145 projetos de empresas em áreas prioritárias da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (Pitce). O Ceará teve apenas 03 projetos aprovados no valor de R$ 1,7 milhão;

99 Em 2007, a Finep aprovou 174 projetos de empresas no país, no valor de R$ 313,8 milhões, sendo que o Ceará teve 10 projetos aprovados somando R$ 14,4 milhões no total;


99 Para 2008, foram

disponibilizados R$ 450 milhões. Nesta chamada pública, já foram aprovados 245 projetos no valor total de R$ 450 milhões, que excede o orçamento inicial. O Ceará tem até agora sete projetos aprovados no total de R$ 10,6 milhões

99 Em 2009, o edital de R$

450 milhões foi reduzido para R$ 129,3 milhões, total este anunciado para 199 projetos de empresas pré-selecionadas. Ainda não saiu o resultado final. A divulgação preliminar do edital 2009 de subvenção econômica, que saiu este mês, registra 15 empresas do Ceará como qualificadas com projetos que, segundo a Finep, somam R$ 19, 5 milhões.

99 O programa de Subvenção

da Finep é um dos grandes mecanismos de concessão de recursos públicos, que deve ter mobilizado cerca de R$ 1,5 bilhão nos quatro primeiros editais. Coube ao Ceará uma fatia anual do bolo nunca maior de R$ 18,5 milhões, com uma média anual ainda baixa.

99 30% do total de recursos

devem ser aplicados nas regiões Norte, Nordeste e Centro Oeste.

“linHa de inOvaçãO nO bnb seria mais GÁs para cOmpetir” “S

e o BNB apostar na inovação das empresas que fomenta com o FNE”, avalia Augusto Guimarães, “iria capitalizar mais ainda o recurso investido e diminuir o risco do aplicado pelo fundo”. Para ele, “é preciso ter a coragem de acreditar que os projetos apoiados com recursos do FNE darão mais certo se eles apresentarem ações para a inovação alinhadas com a estratégia da empresa”, assinala o coordenador de Inovação da Funcap. A Finep opera com programas nacionais para a concessão de recursos 100% subvencionados para as empresas inovarem. “É importante que o BNB ocupe posição de destaque com a criação de programas para investimentos diretos nas atividades de inovação”, aponta. Segundo ele, o apoio à atividade pelo BNB sinaliza a importância para o Brasil e o mundo que no Nordeste também se faz inovação apoiada por um banco de desenvolvimento. Para o coordenador da Funcap, a Sudene pode buscar os recursos dos fundos setoriais para criar o novo cenário da inovação. “A bandeira da inovação está levantada em várias regiões do Brasil. Há estados que compraram essa iniciativa, já adquiriram expertise nesse segmento e o Nordeste não pode ficar de fora”, diz ele. “A Sudene e o BNB”, conforme Guimarães, “poderiam contar com a experiência das Fundações de Apoio à Pesquisa no Nordeste”. No Ceará, a Funcap tem mais de 15 anos de experiência em apoiar o desenvolvimento científico e tecnológico e a formação de recursos humanos para a área de pesquisa. “Toda essa bagagem de conhecimento e expertise na formação de pessoal pode ser utilizada pelo BNB no julgamento do mérito dos seus projetos”, propõe. “Se o BNB criar uma linha de inovação”, avalia Guimarães, “vai dar mais gás ao Ceará para pleitear recursos na Finep e no Ministério da Ciência e Tecnologia, com oferta de maior contrapartida local”. Além de mecanismos estratégicos de obtenção de recursos, a iniciativa envolveria a criação de estrutura de avaliação criteriosa do mérito científico da aplicação dos recursos para transformar o Nordeste de uma região que faz cópia do produto, numa região que de fato inova, moderniza, cresce e alavanca a riqueza. julho de 2009 / ciência &tecnologia

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empreenDeDOrismO

incubadOra FOmenta talentOs

para neGÓciOs nO cearÁ A Incefetce fornece espaço físico e consultoria em como administrar o negócio, marketing e mercado. O perfil do incubado com projeto de base tecnológica geralmente é de excelência técnica, mas tem muito o que aprender nas áreas de gestão e negócios. Normas legais e critérios de seleção pré-estabelecidos em edital regem a seleção dos projetos, requerendo apresentação de um Plano de Negócio por parte dos alunos ou egressos, o qual é submetido a um comitê avaliador indicado pelo Conselho Orientador da Incubadora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE). Os recursos financeiros para os cursos de capacitação oferecidos para as empresas incubadas são do Sebrae-CE. Entre 2004 e 2008, já passaram pela incubadora mais de 15 empresas

d

esde antes de concluir o curso técnico de desenvolvimento de software no Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet-CE), hoje IFCE (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará), Rafael Lopes Melo e Renato Busato Figueiredo já produziam sistemas para clientes no mercado. A demanda acelerou a partir de janeiro de 2008, quando ingressaram na Incubadora de Empresas do IFCE (Incefetce) com um plano de negócios da Imagine Comunicação Digital, aprovado no primeiro edital do ano passado. Hoje, a empresa trabalha com mais três bolsistas e tem clientes na fila de espera, informa Rafael Lopes Melo, que concluiu o curso de Matemática na Uece – o sócio vai concluir Ciência da Computação na UFC. “Todos os nossos clientes vieram por indicação de outros. Não fomos atrás de nenhum”, diz ele. O trabalho da Imagine posiciona as empresas na Internet de modo a agregar visibilidade à clientela para impulsionar os seus objetivos comerciais ou informativos. Tudo começa com um estudo do ramo de atividade, objetivos a atingir na web, planejamento e estratégias com a definição das ferramentas a serem usadas. O resultado buscado é a geração de negócios por

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Rafael Lopes Melo e Zandra Dumaresq, diretora de Extensão do Campus Fortaleza do IFCE

meio do uso das ferramentas que facilitam achar as empresa no foco do mercado onde atuam. A indexação no Google, blogs, sites, Buscapé e BemAqui são alguns passos percorridos pelo atendimento. De acordo com Rafael Melo, a chancela de ser incubada no IFCE é um cartão de visita que conta na aceitação da empresa. Segundo ele, a Imagine está bem nos negócios sem precisar apresentar preços mais baixos, pois a concorrência cobra até 20% mais barato. “Nosso diferencial é o resultado, o aumento da receita da empresa através da Internet. Fazemos o que prometemos”, afirma. zandra Dumaresq, diretora de Extensão do Campus Fortaleza do IFCE, informa que hoje a Incefetce abriga três empresas pré-incubadas (Imagine, AED Tecnologia e Mais Lazer) e três empresas incubadas (Siara Viagens e Turismo, Liukin Tecnologia e Azul Tecnologia). O edital de março de 2009 selecionou mais quatro empresas para ingressarem este ano na incubadora: a TST Service, que faz consultoria na área de segurança e medicina do trabalho; Ecolazer, de atividades recreativas com enfoque ambiental; Convermídia, que desenvolve software e produtos para o entretenimento; e a Freeway Engenharia, que elabora estudos e projetos de engenharia de tráfego.


COntatOs Da empresas: IFCE/BNB

mOtOtaxÍmetrO

inOva cOm sOluçãO inteGrada

O

projeto de um taxímetro para motos, do empreendedor Heyde Leão de Souza, técnico em estradas e graduando em desenvolvimento de sistemas do IFCE foi apresentado ao presidente do BNB, Roberto Smith, pelo reitor Cláudio Ricardo Gomes de Lima. A idéia foi encaminhada ao Fundo de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Fundeci) do BNB e transformada em projeto que foi aprovado com a captação de R$ 101,7 mil. Com recursos para pagar a equipe, começou a ser produzido um lote de 120 unidades do mototaxímetro para testes em campo, hoje em fase de conclusão. Até o final de julho deste ano, os equipamentos deverão estar instalados em motos da Etufor, informa Heyde Leão, o diretor de AED. Em 2006, a AED Tecnologia ingressou na incubadora. Após um ano e meio de trabalho, conseguiu elaborar um protótipo para testes de laboratório e de campo. Foram tempos de escassez. O empreendedor explica que o mototaxímetro não é um equipamento isolado, mas uma solução integrada, capaz de aliar o cotidiano dos mototaxistas e a informação necessária para o gestor público ter um Mototaxímetro desmontado: segredos da inovação

melhor acompanhamento da realidade destes trabalhadores. “Buscamos criar um Sistema de Gestão e Avaliação de Trajetos, composto por duas partes: um sistema embarcado, o mototaxímetro, e o Sistema de Gestão de Dados, software responsável pelo download e tratamento dos dados, que gera relatórios para o usuário final”, ele informa. “Nosso equipamento é capaz de medir os trajetos efetuados, formando uma base de dados estatísticos, de maneira que tais informações possam fomentar inúmeras políticas voltadas para o transporte individual de passageiros em geral”, assinala Heyde Leão. O empreendedor conta que vai pleitear no Inmetro homologação do invento, que considera o primeiro equipamento do gênero no país construído para mototáxi. A solução engloba, além da tarifação, o registro de dados da corrida, afere se o veículo passou do limite de velocidade e gera relatórios que podem migrar para a web. O equipamento, que visa o mercado corporativo e o gestor público, já despertou a atenção de investidor, pontua o empreendedor. A Etufor é cliente e parceiro técnico da AED, que desenvolveu o protótipo em interação também com o Sindicato dos Mototaxistas de Fortaleza. Ligado no público-alvo, Heyde Leão acompanhou em Brasília a aprovação do projeto de lei que regulamenta a profissão de motoboy na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, que irá a plenário para homologação, e diz estar em contato com a categoria em diversos estados. O vento sopra a favor dele em Fortaleza. A legislação que regulamenta a atividade de mototaxista, quando não existia a opção no mercado, exige a instalação de equipamento de aferição de corrida, um mercado de 2.200 unidades, que ele olha com um certo carinho.

cursOs semipresenciais sãO melHOr avaliadOs

99 A MaisLazer tem como foco a criança e o adolescente e

um portfólio de atendimento a eventos do BNB Clube, Oceani Resort, Alphaville, SESI Parangaba, Hotel Parque das Fontes e Colônia de Férias da Prefeitura Municipal de Caucaia. Email: mais_lazer@yahoo. com.br

A Siara é uma agência espe99 cializada em turismo persona-

lizado, que faz desde consultorias na residência do cliente a materiais exclusivos para viagem. Primeira empresa formalizada na incubadora. Tem uma linha de viagens para a melhor idade, com serviço diferenciado para atividades lúdicas e culturais para este público. Telefone: (85) 3223-1586 site: www.siara.com.br

A Liukin desenvolve soluções 99 personalizadas em dispositivos

inteligentes. Busca proporcionar às pessoas maior conforto, segurança e eficiência no uso de novas tecnologias. Telefone: (85) 3286-0880. E-mail: liukintecnologia@ig.com.br

A Azul Tecnologia desenvolve 99 software e produtos para Internet e empresas. Telefone: (85) 3281.3167

A AED Tecnologia é a primei99 ra empresa pré-incubada na

área de tecnologia na incubadora. Apresenta seu primeiro produto, o Mototaxímetro, fruto do “Projeto COELHO”, um modelo de gestão de trânsito para colaborar com a melhor distribuição dos recursos da população. Email: heydeleao@ gmail.com

Imagine - (85) 8856.6530 99 www.empresaimagine.com.br

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Justiça

stF autOriza implantar

cinturãO diGital

Paralisação das obras poderia gerar grave lesão à economia pública, visto que estão sendo financiadas pelo Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), e o atraso ocasionar sanções para o Estado. Outro risco apontado pelo STF foi a ameaça da perda de R$ 20 milhões de emenda da bancada federal junto ao Ministério da Ciência e Tecnologia, recursos já empenhados pela Secretaria de Planejamento e Gestão para a Empresa Schahin.

A

instalação das fibras óticas do projeto Cinturão Digital foi retomada por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). O presidente, ministro Gilmar Mendes, relator do julgamento, sustou o efeito da decisão liminar do Tribunal de Justiça do Ceará — e a confirmação da mesma pelo Supremo Tribunal de Justiça(STJ) — que suspendia o contrato do Governo do Estado, de 16 dezembro de 2008, com a empresa Schahin Engenharia, vencedora da licitação. A decisão foi publicada no site do STF e tratada de modo discreto pelo governo estadual que retomou a obra, mas só pretende fazer alguma divulgação quando forem inaugurados os primeiros trechos, em Sobral e Quixadá. Segundo Gilmar Mendes, a determinação judicial que suspendeu o contrato e pa-

ralisou as obras de instalação da rota óptica do projeto, “representa um ato de intervenção direta do Poder Judiciário na gestão administrativa estadual e compromete execução da política estadual de inclusão digital”. A suspensão da liminar e a continuidade das obras foram confirmadas pelo governador Cid Gomes, que diz ser este um dos projetos prioritários do governo, e pelo presidente da Empresa de Tecnologia da Informação do Ceará (Etice), Fernando Carvalho. O mandado de segurança contra o contrato foi impetrado pela empresa Procable Energia e Telecomunicações, segunda colocada na concorrência por ter apresentado um preço superior em R$ 7.332.898,76 ao da firma vencedora, cerca de 15% acima do preço contratado.

Fibra Ótica

OitO QuilÔmetrOs de cabOs pOr dia, sete rOtas, antenas e rÁdiOs “A obra avança com a implantação de oito quilômetros de cabos de fibra ótica por dia”, relata Fernando Carvalho. A Schahin instalou um grande canteiro de obras em Pacajus e distribuiu diversos outros ao longo da obra dividida em sete rotas. Mas, nem tudo é fibra ótica no Cinturão Digital. Nas pontas das localidades, onde chega a fibra, o sinal é distribuído por antena e estações de rádio para o entorno. Está para ser homologado pela Procuradoria do Estado o resultado da licitação das antenas e rádios com fre-

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quência de 4.9 a 5.8 Ghz, velocidade de 50 Mbps na antena, que irradia nas estações pelo sistema Wimax a velocidade de 5 Mbps. De acordo com Fernando Carvalho, o contrato com o fornecedor das antenas e rádio inclui garantia por quatro anos a homologação da Anatel e troca de equipamentos por um novo em caso de quebra. O presidente da Etice confirma para entre os dias 26 a 28 de agosto o workshop da Etice patrocinado pelo Banco Mundial que irá discutir com as empresas de telefonia, de telecomunicação e TV o modelo de exploração do Cinturão Digital.


númerOs O Cinturão Digital do Ceará atenderá 81 municípios, uma população urbana de 4.339.920 habitantes, o que representa 59,21% da população total do Estado e 82,77% da população urbana. Serão beneficiadas ainda 554

escolas estaduais de um total de 774 — o equivalente a 71,57% de cobertura.

demOcratizaçãO diGital

mOdelO da austrÁlia serve de cOmparaçãO

Levando em consideração todas as escolas municipais, serão cobertas 5.980 escolas de um total de 12.602 estabelecimentos, o que representa um percentual de 47,45% de abrangência. Na defesa judicial, o Governo do Ceará informou que, com a paralisação da obra, teria que arcar com os prejuízos da vencedora, que já mobilizou a sua equipe, adquiriu 2.500 km de cabos óticos e montou

4 canteiros de obras em cidades do Estado. “O atraso da obra acarretaria custos intangíveis, considerando que vários projetos de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) das diversas áreas de governo estão no aguardo desta infraestrutura para serem utilizados, visto que atualmente devido ao monopólio na área de telecomunicação no Estado, estão inviabilizados pelo alto custo.”

São citados como principais benefícios do Projeto Cinturão:

99 implantação do processo de compras informatizado próprio do governo; implantação de um sistema de ensino à distância; 99 99 realização de interligações de 784 escolas estaduais, beneficiando 120.575 estudantes de ensino básico

e de 6 hospitais e 10 unidades ambulatoriais, viabilizando o acesso e intercâmbio de informações de saúde para gestores, agentes e usuários do Sistema Unico de Saúde (SUS).

Interligação de 80 Delegacias de Polícia Civil e 20 99 Companhias e Quartéis da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros à Secretaria de Segurança Pública e Defesa da Cidadania, e a interligação da Ouvidoria Geral do Estado com as Unidades Integradas de Atendimentos, totalizando 13 Casas de Mediação Comunitária e 4 Unidades Móveis.

F

ernando Carvalho compara o modelo de democratização da informação digital do Cinturão Digital ao da Austrália, onde o governo criou o Ministério da Banda Larga, Comunicação e Economia Digital e está implantando fibra óptica pelo país para conectar 90% da população. Governo, empresas e residências australianos serão conectados com velocidade de mais de 100 Mbps, em oitos anos. “O modelo cearense parte na frente de todos os estados do Brasil e de muitos países”, assinala o presidente da Etice. O projeto Cinturão Digital visa democratizar o acesso à informação digital, apoiando, assim, projetos do governo nas áreas de educação, saúde, segurança pública, meio ambiente, ação social, gestão e fazendária. Outros objetivos são realizar a modernização da administração pública estadual, a melhoria e a facilidade de acesso aos serviços públicos; disponibilizar ao Poder Judiciário uma comunicação ágil e eficaz entre todas as comarcas do Estado. Haverá uma efetiva redução dos custos, com a digitalização dos processos, a realização de interrogatórios, audiências e outros atos através de videoconferência, além da eliminação das despesas de telecomunicação. Para a Assembléia Legislativa e os Tribunais de Contas do Estado e Municípios, diz a petição do Governo ao STF, a infraestrutura vai disponibilizar ferramenta de controle que irá interligar todos os órgãos das administrações públicas municipais a estadual, reduzindo custos de transporte, diárias, e outros que dispensem o deslocamento de servidores. A petição destaca ainda a redução instantânea de 70% nos custos com telecomunicação, que hoje são de R$ 36 milhões por ano. julho de 2009 / ciência &tecnologia

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funDO De eXtensãO

r$ 300 milHões pOr anO para educaçãO prOFissiOnal

Ganha prioridade na Câmara dos Deputados a tramitação do projeto que cria uma fonte de recursos a ser constituída por 1,5% do Fundo de Apoio ao Trabalhador (FAT) e 1,5% do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) . O objetivo é financiar bolsas de extensão destinadas à capacitação no contingente de 85 milhões de analfabetos funcionais do país

O

presidente da Câmara Federal, Michel Temer, anunciou que vai colocar na pauta em agosto e dar “prioridade absoluta” ao Projeto de Lei 7394/06, de autoria do deputado Ariosto Holanda (PSB-CE), que cria o Fundo de Extensão da Educação Profissional. O pedido foi feito pelo parlamentar cearense no Fórum Extensão Tecnológica dos Institutos Federais, realizado na Câmara. O PL já foi aprovado nas comissões de Ciência e Tecnologia e de Educação e tramita na Comissão de Tributação. Agora, com o regime de urgência urgentíssima terá um relator nomeado em plenário e irá à votação. O Fórum de Extensão teve mais de 500 inscrições com a participação de reitores e diretores de 38 Institutos Federais, dos ministros Sergio Rezende, da Ciência e Tecnologia, José Pimentel, da Previdência, José Henrique Paim Fernandes, ministro interino da Educação e André Figueiredo, ministro adjunto do Trabalho. Michel Temer observou que a prioridade dada ao ensino Programa dos Centros Vocacionais Tecnológicos (CVT), foram criados por inspiração de Ariosto Holanda

universitário tornou complicada a absorção dos profissionais no mercado de trabalho e defendeu a extensão da formação de pessoal no nível intermediário. Sergio Rezende disse que o programa dos Centros Vocacionais Tecnológicos (CVT), criados por inspiração de Ariosto Holanda – o Ministério da Ciência e Tecnologia já implantou 306 unidades no país – ocupa um espaço vazio. Para ele, 350 dos cinco mil municípios brasileiros são atendidos por IFs e 150 por universidades. os outros podem ser atendidos se tiverem CVTs, que oferecem uma capacitação prática e objetiva. “O CVT precisa de sustentação que depende de instituições como os IFs e universidades”, disse Rezende, ao assinalar que as bolsas de extensão podem contribuir no processo. Segundo ele, como o CNPq tem apenas três mil bolsas de extensão, é bem vindo o projeto de lei que venha a institucionalizar e dar consistência ao programa”. No entanto, o ministro fez um apelo para que o Fundo não seja vinculado ao FNDCT. O ministro José Pimentel disse que o Ministério da Previdência vai precisar muito dos IFs para ajudar na capacitação do programa Empreendedor Individual que pretende formalizar com CNPJ o registro de 11 milhões de trabalhadores informais. O ministro, José Paim Fernandes, por sua vez, avaliou que com o apoio da Câmara a educação profissional vai avançar. O deputado Ariosto Holanda destacou que o programa nacional de extensão e o Fundo para bolsas irão consolidar ações de assistência às microempresas no âmbito do Empreendedor Individual.

Wilton Bezerra júnior Editor Executivo n editor@editoraassare.com.br n wiltonbezerrajr@hotmail.com- wiltonbezerrajunior@gmail.com Marcel Bezerra Diretor Editor Adjunto n marcel@editoraassare.com.br Flamínio araripe Editor Adjunto de Ciência e Tecnologia n flaminio.a@gmail.com apoio escritório técnico de estudos econômicos do nordeste (etene) / Banco do nordeste do Brasil - BnB apoio técnico centro de Pesquisa e Qualificação tecnológica – cPQt diretor-executivo edson da Silva almeida colaboração assessoria de comunicação Social do instituto Federal de educação, ciência e tecnologia do ceará (iFce) / jornalista Marlen danúsia

editora assaré ltda Me - Rua Waldery uchôa, 567 A n Benfica, Fortaleza, Ceará n CEp: 60020-110 e-mail: assare@editoraassare.com.br - Fone/fax: (85) 3254.4469 TODOS OS DIREITOS SÃO RESERVADOS. É proibida a reprodução total ou parcial, especialmente por sistemas gráficos, microfílmicos, fotográficos, reprográficos, fonográficos e videográficos ou qualquer outro meio ou processo existente ou que venha a ser criado. O CADERnO DE ciência &tecnologia É umA pARTE InTEgRAnTE DA REVISTA nordeSte VinteuM E nÃO pODE SER VEnDIDO SEpARADAmEnTE

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Agitação mudancista, vanguarda democrática e vida curta em rudes tempos

A

Por Juarez Leitão — Parte 1

primeira constituição republicana no Ceará foi elaborada num momento de perplexidade e agitação mudancista. Vivia-se a transição da Monarquia para a uma nova forma de governo e era natural a condição de ansiedade e expectativa que acometia a população. Embora o povo simples não estivesse a par do processo que se operava na Assembléia recém-eleita, sabia-se que alguma coisa nova estava acontecendo. O movimento republicano se iniciara no Ceará por volta de 1870, quando surgiram os primeiros clubes de simpatia ao regime que caracterizava o continente americano. Depois, houve um arrefecimento, mas o entusiasmo retornou nos meados da década de 80, como acontecia em vários pontos da nação. Entretanto, a proclamação da República, naquele 15 de novembro de 1889, pegou a todos de surpresa. É impressionante como se fez a substituição da monarquia sem um tiro, sem uma escaramuça, sem nenhuma participação popular. Um grupo de militares se reúne numa praça do Rio de Janeiro e induz um velho líder do exército, doente e amigo do imperador, a dar um viva à República, derrubando o Império e despachando a dinastia de Bragança para o exílio humilhante. Graças ao telégrafo, a notícia da proclamação da República chegou na mesma tarde de sua ocorrência. Todo mundo foi tomado de surpresa. Os líderes, porém, trataram de espalhar a boa nova, e logo se formaram aglomerações nos dois pontos principais da cidade: a Praça do Ferreira e o Passeio Público. Naquela noite, ainda sob o impacto da estupefação, não aconteceu uma mobilização de vulto. Mas, no dia seguinte, quando a informação já se generalizara, uma verdadeira multidão se reuniu no Passeio Público (Praça dos Mártires) para aclamar os oradores republicanos e, num impulso de exaltação, partiu para o Palácio do Governo (atual sede da Academia Cearense de Letras) com o objetivo de enxotar o presidente da Província, coronel Jerônimo Rodrigues de Morais Jardim, que se recusava a acreditar que o imperador havia sido destituído e que tudo não passava de uma arruaça de baderneiros. Estava certo quanto à baderna, pois os agitados participantes daquela manifestação, segundo os cronistas da época, no trajeto do passeio Público para a Praça General Tibúrcio (Praça dos Leões), promoveram o maior quebra-quebra de

placas, estátuas e emblemas que se vinculavam à monarquia. Furiosos e aos gritos de “Fora, monarquista!” tomaram o palácio de assalto e, expulso Morais Jardim, aclamaram como governador o tenente-coronel Luiz Antônio Ferraz, comandante do 11° Batalhão. Pode-se imaginar quanto atabalhoada foi a organização político-administrativa da nascente República em sua matriz e nos Estados. Tudo era provisório e o exercício de governo se dava por decretos.

A constituição de 1891, pelo menos no que estava escrito, era muito avançada e contemplava as aspirações democráticas em educação, saúde pública, descentralização, desenvolvimento e justiça social. A primeira eleição estadual ocorreu no dia 10 de fevereiro de 1891 e tinha a missão de escolher os constituintes. Havia uma curiosidade: o Congresso Estadual teria duas câmaras – a dos deputados e a dos senadores. Foram eleitos 12 senadores e 24 deputados. Os trabalhos constituintes decorreram a toque de caixa, pois havia urgência em dotar o Estado de sua Carta Constitucional, como exigia a nova ordem nacional. Instalada a Assembléia Constituinte em fevereiro de 1891, já estava sendo promulgada

www.al.ce.gov.br

em 16 de junho do mesmo ano a nossa primeira Constituição Republicana. Composta de 108 artigos e seis disposições transitórias, é assinada pelo Presidente do Congresso Cearense Constituinte, José Joaquim Domingues Carneiro, demais componentes da Mesa Diretora e por todos os constituintes, num total de 36 parlamentares. O texto faz eco ao movimento de renovação idealizado por Rui Barbosa e inserido na Constituição Federal. Esse desejo de equiparar-se ao contexto do vanguardismo ocidental, liderado pelos Estados Unidos, está configurado a partir do primeiro título, que define a Organização do Estado. Nele, se assegura nossa filiação ao Estado Federativo, sem prejuízo para a autonomia relativa, preceituada na Carta Magna. Contemplado está o princípio iluminista da Separação dos Poderes em Executivo, Legislativo e Judiciário, de funcionamento independente e harmônico. No procedimento eleitoral, estabelece o sufrágio direto para a escolha do Governador e dos parlamentares. Os portadores de cadeira no Legislativo gozavam de prerrogativas especiais, como a inviolabilidade de suas opiniões, palavras e votos no exercício do mandato e a proibição de serem presos sem a devida licença da Assembléia. Assegura aos municípios uma autonomia poucas vezes verificada em documentos constitucionais brasileiros. O Conselho Municipal, que geria o destino das comunas, poderia administrar livremente os bens e as rendas municipais, executando a arrecadação e promovendo a aplicação dessas rendas, além do direito de contrair empréstimos e celebrar contratos. No capítulo da Declaração de Direitos também se verifica uma clara posição de vanguarda. Ali, estão assegurados a liberdade de opinião, locomoção, denúncia, representação e religião e o direito de privacidade e de defesa contra todos os tipos de arbitrariedades. Enfim, a constituição de 1891, pelo menos no que estava escrito, era muito avançada e contemplava as aspirações democráticas em educação, saúde pública, descentralização, desenvolvimento e justiça social. Sabemos, entretanto, que, principalmente naqueles rudes tempos, havia uma distância abismal entre a lei e a prática. Sua duração teria, porém, o curto espaço de um ano e 26 dias.


INFRAESTRuTuRA

Desafios de novos tempos nos

portos brasileiros

Há mais de 200 anos, o Brasil estabeleceu um marco na sua história, quando D. João VI abriu os portos às nações amigas. Hoje, depois de dois anos do que pode ser considerado um “despertar” para a importância do fortalecimento da infra-estrutura de comércio exterior na economia nacional, o país consolida, através da ação de um órgão específico, uma política pública e diretrizes destinadas ao fomento do setor portuário. O objetivo é conferir competitividade. Comparativamente, pode-se dizer que o Brasil se reposiciona no desafio de reabrir seus portos ao mundo.

O

Brasil tem cerca de 8,5 mil quilômetros navegáveis de costa marítima. Com um sistema portuário composto por 37 portos públicos, entre marítimos e fluviais, o país movimenta hoje, em torno de 700 milhões de toneladas em mercadorias por ano. Pouco diante de países como a China que, só em 2006, movimentou mais de 5 bilhões de toneladas. Mas, relevante se considerarmos que, por nossos portos, passam mais de 90% das exportações brasileiras. 36

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www.addiper.pe.gov

Segundo o Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppead/UFRJ), o modal aquaviário possui um dos menores custos para o transporte de cargas no Brasil, perdendo apenas para o transporte dutoviário e aéreo. Do total de portos públicos, 18 são delegados, concedidos ou tem sua operação autorizada à administração por parte dos governos estaduais e municipais. Há ainda 42 terminais de uso privativo e três complexos portuários que operam sob concessão à iniciativa privada. Analisados apenas sob aspectos quantitativos, esses números não expõem o tamanho do desafio do setor portuário brasileiro. Para entender a lógica dos portos, o raciocínio é simples. Nos últimos anos, o Brasil tem experimentado crescimento econômico e um dos reflexos disso está na balança comercial. Só para se ter uma idéia, o fluxo total de exportações e importações no Brasil saltou de US$ 100 bilhões, em 2003, para US$ 381 bilhões em 2008.

O volume de cargas que passam pelos portos brasileiros vem crescendo a uma taxa anual de mais de 21%, o que dá uma dimensão do quão estratégico é o setor. Para um país de dimensões continentais, é necessária a existência de estrutura e integração por meio de ferrovias, rodovias, vias fluviais e portos equipados e competitivos em relação aos demais concorrentes. As descobertas recentes de petróleo no pré-sal pela Petrobras tornaram o papel dos portos ainda mais imprescindível. O sistema brasileiro tem um histórico de falta de investimentos que nos afastou, durante muito tempo, do topo do ranking dos países com maior fluxo marítimo de cargas. Segundo Raimundo F. Kappe, durante a ditadura militar, o enfoque era a área de segurança, não se tendo como objetivo o aumento de movimentação de mercadorias nem avanço tecnológico das operações portuárias, para tornar o porto um fator de desenvolvimento. Em 1975, foi criada a Empresa de Portos do Brasil S/A (Portobras), uma “holding” que representava o interesse do governo em centralizar atividades portuárias. Desta maneira, seguindo o critério de centralização da administração pública federal vigente à época, iniciado no Estado Novo e intensificado após 1964, era consolidado o modelo monopolista estatal para o Sistema Portuário Nacional. Começava, nesse momento, um período de marcante ineficiência nos portos brasileiros. Até que em 1993, o sistema portuário passa por uma crise após a dissolução da Portobras, o que cria um desastroso vazio institucional. Esse processo culmina com a aprovação da Lei 8.630, de 25 de fevereiro de 1993, conhecida como Lei de “Modernização dos Portos”. Esta fase foi a mais difícil para o sistema portuário, que passa a ter um novo marco legal: a partir dessa nova regulamentação mais privatista nos portos, se estabelece uma nova regulamentação com esse objetivo, e também são criados organismos institucionais para dar suporte ao marco. O fato é que os gargalos do setor portuário nacional nunca foram, de fato, enfrentados com investimentos que devolvessem ao Brasil a competitividade necessária no setor.

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História

Abertura de D.João VI

A

e a Criação da SEP: um paralelo

realidade não competitiva dos portos brasileiros começou a mudar efetivamente há cerca de dois anos, com a criação da Secretaria Especial dos Portos (SEP) pelo Governo Federal. O orgão nasceu para formular políticas e diretrizes para o setor portuário com vistas a ampliar o seu comércio exterior. Em termos de história portuária, a criação de um organismo específico, com status de ministério, para cuidar dos portos brasileiros – com exceção dos portos fluviais e lacustres, que são de competência do Ministério dos Transportes – tem sido, sem exageros, considerada um marco. Comparado ao ato de janeiro de 1808, quando D. João VI anunciou para o mundo a abertura dos portos para as nações amigas. No século XIX, a decisão do então Príncipe Regente permitiu, de início, que os portos de Belém, Salvador, Recife, Santos e do Rio de Janeiro passassem a manter contato direto com todos os países que não estivessem em conflito com Portugal. Dois anos depois, em 19 de fevereiro de 1810, Portugal, Inglaterra e Irlanda estabeleceram um Tratado de Comércio e Navegação, onde em 34 artigos, subscritos pelo conde de Linhares e pelo Lorde Strangford, foram definidas as normas de comércio com as nações, com uma franca e inequívoca tendência favorável à Inglaterra. O documento, publicado em português e inglês, apesar de impresso em Lisboa, mereceu

tratado de Commercio e Navegação, publicado em português e inglês, impresso em Lisboa, mereceu uma edição preparada pela Imprensa Régia, no Rio de Janeiro.

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uma edição preparada pela Imprensa Régia, no Rio de Janeiro. O Brasil experimentou entre os anos de 1808 e 1814 um verdadeiro monopólio mercantil inglês que ocupou, com competência, posições estratégicas e conquistou o mercado. Tudo sem concorrência. Ante qualquer ameaça, entrava em ação o draconiano Tratado. O fato é que, não fosse a vinda da Família Real para o Brasil fugindo das garras de Napoleão, talvez nos encontrássemos, com certeza, em outra situação. Hoje, mais de 200 anos depois, o Brasil experimenta uma nova realidade portuária. “Através de uma série de ações estratégicas e planejadas, estamos revolucionando o sistema portuário brasileiro, na perspectiva de aumentar sua capacidade de competitividade, com a conseqüente ampliação do movimento de mercadorias”, afirma o ministro-chefe da SEP, Pedro Brito. Após os primeiros dois anos de atividades, a SEP tem motivos “de sobra” para comemorar os resultados até agora conquistados. Nesse sentido, Brito cita uma completa mudança no perfil gerencial das sete Companhias Docas administradas pela União, logo no início da sua estruturação, e o desenvolvimento de iniciativas como o Programa Nacional de Dragagem, o Porto Sem Papel, o Plano Nacional de Logística de Portos e o Plano Geral de Outorgas, além de outras importantes obras pontuais.

lorde Strangford, poeta amador e tradutor de Camões, foi emissário da Grã-Bretanha em Portugal no período que antecedeu a invasão francesa. antes de acompanhar a corte em sua ida para o Brasil em 1808. Era o diplomata arquetípico da era napoleônica, defendendo os intereses da Grã-Bretanha com quaisquer meios que se fizessem necessários.


Custo Brasil x Ásia, Europa e EUA

N

a opinião do ministro, que vislumbra um horizonte de 50 anos para os portos brasileiros, com adequação de boas experiências européias à nossa realidade, como o modelo de planejamento adotado pelo porto de Roterdã, na Holanda, os programas hoje em andamento, vão garantir, a diminuição do chamado “Custo Brasil”. Assim como maior geração de emprego, renda e maior volume na movimentação de mercadorias nos seus principais portos. No entanto, os primeiros avanços na reestruturação de um sistema e política portuários são celebrados com parcimônia pelo ministro. “Temos ainda muito trabalho pela frente, porque a atividade portuária é extremamente dinâmica, exigindo um esforço cada vez maior na perspectiva de colocarmos o nosso sistema no mesmo patamar dos portos mais evoluídos do mundo”,

afirma Pedro Brito. Ele acompanhou recentemente o presidente Lula em vista à China dentro da política do ministério de buscar parcerias principalmente junto aos asiáticos, europeus e americanos. “Na China fomos apresentar ao mercado as oportunidades de negócios e os primeiros resultados já começaram a aparecer, com a presença de empresas chinesas, consorciadas com empresas locais, em obras de dragagem”, coloca o ministro, ao destacar que, no trabalho de identificação de parceiros, o governo busca contratar os melhores serviços com o menor preço. Ele adianta que tanto os asiáticos como os europeus e americanos estão “bastante interessados em marcar presença” no conjunto de obras que a SEP deverá executar até o final do próximo ano.

nÚmeros 8,5 mil quilômetros navegáveis de costa marítima.

37 portos públicos, entre marítimos e fluviais.

700 milhões de toneladas em mercadorias movimentados/ano.

90% das exportações

brasileiras passam

CoMPEtiçÃo

Mais cargas e cabotagem, menos custo e burocracia.

Novas lei garantem

O

s desafios do setor portuário brasileiro são enormes, mas podem ser resumidos em: aumentar a capacidade de movimentação de cargas nos portos; promover condições para a ampliação do transporte de cabotagem; reduzir os custos de movimentação portuária; e simplificar os procedimentos administrativos e fiscais de desembaraço de mercadorias. Antes disso, as primeiras ações da SEP focaram no aprimoramento do marco regulatório dos portos. Quatro instrumentos legais foram editados com o intuito de melhorar as condições para o setor. Entre eles, a Lei nº. 11.610, de 12.12.2007, que instituiu o Programa Nacional de Dragagem Portuária e Hidroviária, implantou o conceito de “dragagem por resultado” e permitiu a participação de empresas estrangeiras nos processos de contratação dos serviços de dragagem, e a Lei nº. 11.726, de 23/06/2008, que prorrogou, até 2010, o Regime Tributário para Incentivo à Modernização e à Ampliação da Estrutura Portuária (Reporto). Com isso, as vendas de máquinas, equi-

pamentos, peças de reposição e outros bens permaneceram isentos do IPI, da contribuição para o PIS/Pasep, da contribuição para o Cofins e do Imposto de Importação. O dispositivo se aplica as compras no mercado nacional ou internacional diretamente pelos beneficiários do Reporto e destinados à utilização exclusiva em portos na execução de serviços de carga, descarga e movimentação de mercadorias, na execução dos serviços de dragagem e na execução do treinamento e formação de trabalhadores. Além das leis, foram editados dois decretos, um que excluiu do Programa Nacional de Desestatização as companhias docas controladas pela União, e outro que dispôs sobre políticas e diretrizes para o desenvolvimento e o fomento do setor de portos e terminais portuários de competência da SEP/PR, trouxe definições mais precisas sobre conceitos explicitados na Lei nº. 8.630/93, e disciplinou, com base na legislação vigente, a concessão de portos, o arrendamento e a autorização de instalações portuárias marítimas.

18 portos públicos são delegados, pelos portos.

concedidos ou administrados por Estados e Municípios.

42 terminais são de uso privativo. 03 complexos

operam sob concessão.

us$ 100 bilhões, em 2003, para us$ 381 bilhões em 2008 foi o De

salto do fluxo total de exportações e importações no Brasil.

21% é taxa de crescimento anual do volume de cargas Julho/2009

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Nordeste VinteUm


PolítiCA DE goVErNo

dragagem aprofunda canais dos 20 principais portos brasileiros

U

companhias docas administradas pela sep

Recursos da ordem de R$ 1,5 bilhão em dragagens

Outra iniciativa da SEP direcionada aos portos brasileiros é o programa Porto Sem Papel, que estabelece um documento virtual único para processar e distribuir, em tempo real, as informações necessárias ao funcionamento do setor. Sua implantação vai integrar os órgãos e ministérios envolvidos (Polícia Federal, Receita Federal, Anvisa, Ministério da Fazenda, Ministério da Agricultura, entre outros) e conferir mais celeridade às operações, reduzindo os custos operacionais. Já está sendo testado no Porto de Santos (SP) Manaus

Santarém

Boa vista

Principais Portos

Macapá Belém vila do conde

Macapá

Companhia Docas do Pará (CDP) – portos de Belém, Santarém e Vila do Conde.

Itaqui

Belém

Manaus

luíz Corrêa

Companhia Docas do Estado da Bahia (Codeba) – Portos de Salvador, Ilhéus e Aratu. Companhia Docas do Espírito Santo (Codesa) – Portos de Vitória e Barra do Riacho. Companhia Docas do Rio de Janeiro (CDRJ) – Portos do Rio de Janeiro, Niterói, Angra dos Reis e Itaguaí. Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp) – Porto de Santos.

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Pecém Fortaleza Areia Branca Natal Natal Cabedelo

São luis Fortaleza

Companhia Docas do Ceará (CDC) – Porto de Fortaleza. Companhia Docas do Rio Grande do Norte (Codern) – Portos de Natal e Maceió e Terminal Salineiro de Areia Branca.

Antonio Cruz/ABr

m dos principais projetos da nova política do governo para o setor portuário é o Programa Nacional de Dragagem, que está procedendo o aprofundamento dos canais aquaviários dos 20 mais importantes portos brasileiros, começando pelo Porto de Santos, o maior da América Latina, capacitando-os a receber navios de maior porte, aumentando a competitividade e a capacidade de movimentação de cargas. No Nordeste, o programa inclui os portos de Salvador e Aratu (BA), Fortaleza (CE), Suape (PE), Itaqui (MA), e Cabedelo (Paraíba). Ao todo, serão investidos recursos da ordem de R$ 1,5 bilhão no programa. “Isso, por si só, já é uma revolução absoluta no sistema portuário brasileiro. Nós vamos ter uma divisão muito clara entre os portos antes e depois da SEP só por essa providência”, dimensiona Pedro Brito. A SEP possui uma série de projetos previstos no PAC. Os empreendimentos, que priorizam a manutenção, recuperação e ampliação da infra-estrutura portuária, pretendem imprimir ao setor mais competitividade e dinamismo, além de reduzir os custos do transporte aquaviário e contribuir para o desenvolvimento do país.

Teresina

joão Pessoa Rio Branco

Recife

Recife Maceió

Porto velho Palmas

Aracaju

Porto velho

Suape Maceió Barra dos Coqueiros

Salvador

Salvador Cuiabá

Aratu

DF

Ilhéus

Cáceres

goiânia

ladário Corumbá

Pirapora Campo grande

PortoS flUViAiS E MArítiMoS Portos Administrados por Cia. Docas Controladas da união Portos Administrados por Estados e Municípios Portos Administrados por Empresas Privadas Observação: Não foram incluídos os terminais de uso exclusivo e misto.

Belo Horizonte Rio de janeiro

Barra do Riacho vitória

vitória

Forno Niterói Rio de janeiro Sepetiba Curitiba Angra dos Reis São Sebastião Santos Antonina Florianópolis Paranaguá São Francisco do Sul Itajaí Porto Alegre Imbituba Oceano Atlântico laguna Estrela Porto Alegre Cachoeira do Sul Pelotas Rio grande São Paulo


Fim do Pacto Colonial:

Comércio aberto em contexto de guerra

O

Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas foi uma Carta Régia promulgada pelo príncipe regente Dom João de Portugal no dia 28 de Janeiro de 1808, em Salvador, na Capitania da Baía de Todos os Santos. Tudo aconteceu no contexto da Guerra Peninsular, que uniu os portugueses e os ingleses contra os exércitos de França, de Napoleão Bonaparte, na Península Ibérica, no período de 1808 a 1814. Foi a primeira Carta promulgada pelo Príncipe Regente no Brasil, o que se deu apenas quatro dias após sua chegada, com a Família Real, em 24 de Janeiro de 1808.

Por esse diploma era autorizada a abertura dos portos do Brasil ao comércio com as nações amigas de Portugal, do que se beneficiou largamente o comércio britânico. Foi a primeira experiência liberal do mundo após a Revolução Industrial. O texto marcou o fim do Pacto Colonial, o qual na prática obrigava a que todos os produtos das colônias passassem antes pelas alfândegas em Portugal, ou seja, os demais países não podiam vender produtos para o Brasil, nem importar matérias-primas diretamente das colônias alheias, sendo forçados a fazer negócios com as respectivas metrópoles.

Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas, foi uma carta régia promulgada pelo príncipe regente Dom João de Portugal, no dia 28 de Janeiro de 1808, em Salvador, Bahia

POlítiCA dE EstAdO POr NECEssidAdE dE MErCAdO Nascido a 5 de abril de 1950, em Fortaleza, o ministrochefe da Secretaria Especial dos Portos (SEP), Pedro Brito, é economista. Ex-ministro de Integração Nacional, tem mestrado em administração financeira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi funcionário de carreira do Banco do Nordeste (BNB), presidente do Banco do Estado do Ceará (BEC) e secretário da Fazenda no governo do Ceará. Antes de assumir o Ministério da Integração Nacional, em abril de 2006, foi chefe do gabinete do então ministro da pasta, Ciro Gomes, entre 2003 e 2006. Na entrevista a seguir, o ministro fala da visão estratégica do governo em relação à política portuária e sobre os planos da pasta para os próximos meses. Por Marcel Bezerra Ministro Pedro Brito – SEP Julho/2009

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Nordeste VinteUm – Se pudesse fazer um paralelo com os 200 anos da abertura dos portos, como o senhor avalia a escolha da política de governo em criar uma secretaria especificamente voltada ao setor? Pedro Brito – Nós poderíamos dizer que o presidente Lula está fazendo uma nova abertura dos portos brasileiros, na direção da modernidade, da gestão responsável, na direção da competência portuária e da competência logística que o país precisa ter. Teve essa visão muito intuitiva. Certamente, ele já vinha recebendo reclamações do diversos gargalos portuários e quando tomou a decisão, viu que seria a maneira de tirar os portos de dentro de um ministério muito grande, que é o dos Transportes. Poder transformar os portos brasileiros, para que pudessem atender a velocidade de crescimento da economia. Então, essa criação da Secretaria Especial, é exatamente para que o país se prepare do ponto de vista tecnológico, do ponto de vista de equipamentos, de pessoal e de desburocratização, que é muito complicada nos portos brasileiros para dar velocidade no atendimento dessas cargas. NVU – O senhor diria que a questão deixou de ser meramente de governo, passando a uma política de Estado? Ela permanece? PB – É uma política de estado por necessidade de mercado. Ou o Brasil se moderniza na sua estrutura de logística, ou o Brasil não poderá acompanhar seus principais competidores, que são justamente China, Índia, Rússia e os países em desenvolvimento de uma maneira geral. Não há como ter crescimento compatível sem uma logística competente. A estimativa de crescimento da China em plena crise para este ano é da ordem de 8%, no próximo ano 11%. Mas, certamente o Brasil reúne todas as condições objetivas para, no próximo ano, estar crescendo a taxas de 5% ao ano, que é compatível com o volume de jovens que são lançados no mercado de trabalho anualmente. Agora, para isso tem que ter logística, tem que ter portos aparelhados, modernos e eficientes. Então, acho que, por tudo isso, tem que ser política de Estado. NVU – E qual seria o contributo que a SEP daria para que em 2010, o quadro de crescimento mude? PB – Do ponto de vista do governo, o presidente Lula já destinou os recursos necessários para o grande

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Programa Nacional de Dragagem. Estamos aprofundando os canais aquaviários dos 20 mais importantes portos brasileiros, começando pelo maior da América Latina, que é o Porto de Santos, todos os grandes portos do Sul do país, como

No final de 2010, todos esses portos terão novas profundidades. Isso, por si só já é uma revolução absoluta no sistema portuário brasileiro. Rio Grande do Sul, Paranaguá, Itajaí (SC), Rio de Janeiro, Itaguaí, também no RJ, e também os portos do Norte/Nordeste, incluindo Salvador e Aratu, Fortaleza, o nosso porto do Mucuripe, o porto de Suape, o porto de Vila do Conde no Pará, Itaqui, no Maranhão, o porto de Cabedelo na Paraíba. Estamos investindo R$ 1,5 bilhão. No final de 2010, todos esses portos terão novas profundidades. Isso, por si

só já é uma revolução absoluta no sistema portuário brasileiro. Nós vamos ter uma divisão muito clara entre os portos antes e depois da SEP só por essa providência. NVU – O que o Nordeste tem significado para o trabalho que o senhor desenvolve na SEP? PB – Nós que somos nordestinos, e eu que com 14 anos de idade comecei a trabalhar no Banco do Nordeste, exatamente dentro desse projeto de redução dos desequilíbrios regionais, contar com portos é absolutamente essencial. Imagine aqui, no caso do Ceará. Temos aqui um complexo portuário formado pelo porto do Mucuripe e pelo Pecém. O Estado do Ceará está atraindo uma siderúrgica, uma refinaria, várias indústrias de grande porte para o entorno do Pecém, exatamente porque tem o porto. Esse tipo de projeto seria absolutamente impensável sem o equipamento. Veja o caso de Suape, outro exemplo importante na região Nordeste, um porto que foi iniciado há 30 anos e, hoje, está maduro, com todo um parque industrial sendo desenvolvido em torno de Suape, com efeitos importantes na economia de Pernambuco e na economia do Nordeste. O caso de Aratu, na Bahia, um complexo portuário que nasceu com a indústria petroquí-


NVU – Sobre essa questão do desenvolvimento, o trabalho da Secretaria com órgãos como Banco do Nordeste, a Sudene, há uma conexão de ações, uma interação? PB – Há uma conexão do ponto de vista do planejamento estratégico e da utilização do crédito. Por exemplo, um dos programas do BNB é de financiamento à infra estrutura, que precisa inclusive de mais apoio, de mais recursos. Tanto o BNB quanto o BNDES tem programas de crédito voltados especificamente para a área. Não só da infraestrutura portuária, inclusive porque um porto não existe isoladamente. Para ser eficiente, tem que ter toda uma estrutura de acessos terrestres, por exemplo, ferrovias e rodovias. Todo um investimento público na área de energia elétrica, de telecomunicações. Agrega não só valor do ponto de vista econômico privado, mas do complexo público. E aí, nós temos que trabalhar com bancos de desenvolvimento, que possam oferecer essas linhas de financiamentos com taxas e com prazos. NVU – No Nordeste e no Ceará, como está a infraestrutura? PB – Ela não está ainda boa. Eu lhe digo que esse desafio é o maior que o Brasil tem nos próximos anos, construir uma infra estrutura logística moderna, eficiente, com manutenção permanente. Nós, para podermos ser competitivos com a China, com a Índia, com a Europa, com os EUA, temos que focar nessa questão de infra estrutura.

Antonio Cruz/ABr

mica que, hoje, inclusive está se modernizando. O porto de Itaqui, no Maranhão, que hoje é um dos mais importantes para o Brasil, não só para o Maranhão ou para o Nordeste, porque nós podemos ter a chance de escoar por ali toda a produção de grãos do Centro–Oeste.

Resolver a burocracia, hoje é talvez mais importante do que fazer investimentos na própria infraestrutura Então, se você me perguntar: qual é o principal desafio do próximo presidente do Brasil, qualquer que venha a ser o escolhido pela população brasileira? Será a nossa infra– estrutura, incluindo, naturalmente, a melhoria do sistema portuário. NVU – Quanto ao “Custo Brasil”, a burocracia, onde entra a informática para facilitar tais mecanismos de relacionamento entre os vários setores que compõem a máquina burocrática, o comércio exterior, a relação entre os portos? PB – Esse é um dos projetos mais importantes da SEP em conjunto com o Ministério da Fazenda, a Polícia Federal, ANVISA, Ministério da Agricultura e todos os

órgãos que atuam dentro dos portos. O que acontece hoje? Cada um, dentro da sua competência, da sua funcionalidade, exerce um papel. Cada um quer abrir um contêiner, quer ter sua fiscalização, a sua taxa como resultado disso. Nós temos fila de caminhões, fila de navios, inoperância, maiores custos. Então, resolver a burocracia, hoje é talvez mais importante do que fazer investimentos na própria infraestrutura. Porque burocracia excessiva, como é o nosso caso, implica em custos maiores. Nós estamos desenvolvendo esse projeto, que se chama Porto Sem Papel, uma ferramenta de tecnologia da informação, criando um banco de dados único onde todas as informações das cargas, tanto de importação quanto de exportação, são armazenadas num único banco de dados, ao qual terão acesso todos os órgãos de fiscalização do governo. Cada um tendo acesso àquilo que lhe é pertinente. É como se, fazendo uma analogia, entrasse um contêiner num porto, ou um navio completo, aquele contêiner terá uma sala onde todos os órgãos de governo fariam toda a fiscalização que fosse necessária, e não fiscalizações isoladas e repartidas. E esse projeto de porto sem papel é assim chamado, porque usando todas as ferramentas hoje disponíveis no mundo inteiro, os softwares que já são conhecidos, essa tecnologia já é dada, nós podemos ter todas essas informações sendo digitalizadas sem que se produza nenhum papel, com agilidade, segurança. NVU – E quando esse projeto vai sair do papel? PB – Dentro de 12 meses, porque nós estamos falando de algo que já está sendo testado. Já estamos estruturando esse sistema dentro do porto de Santos, é o nosso porto piloto para esse projeto.

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Caleidoscópio redacao@nordestevinteum.com.br

renda ou redução da desigualdade: o que mais impacta contra a pobreza? O Laboratório de Pobreza do Curso de Pós-Graduação em Economia (CAEN), da Universidade Federal do Ceará, lançou a pesquisa “O que mais impacta a redução da pobreza: é o aumento da renda ou a redução da desigualdade? Evidências para os estados brasileiros e os setores da atividade”. O estudo integra a coleção Ensaio sobre pobreza. Os professores responsáveis são Flávio Ataliba Barreto, João Mário Santos de França, Carlos Alberto Manso, Paulo Faustino Matos e Guilherme Diniz Irff. Nas primeiras impressões do colunista do jornal O Povo, de Fortaleza, Jocélio Leal, o estudo aponta que redução da desigualdade pode ser o remédio. Isto porque “em ambiente de alta desigualdade como o nosso, o crescimento do PIB per capita por si só não é um bom indicativo da evolução das condições de vida de uma sociedade”. A pesquisa analisa de 1995 a 2007 qual a importância da expansão da renda versus redução da desigualdade. Nas várias estimativas, a constatação de que a redução da desigualdade tem mais impacto. O ideal, dizem os autores do estudo, seria a combinação das duas ações. Fonte: Curso de Pós-Graduação em Economia da UFC/CAEN - (fone: 85 3366 7750)

Pib influi mais no Sul e Sudeste “Como exemplo, calcularam que se o PIB dos estados do Nordeste crescer em 10% num ano, a pobreza se reduz em 7,1%. Nos estados do Sul e Sudeste, um aumento do PIB nos mesmos 10% provoca uma redução da pobreza bem maior, de 13,6%. Ao mesmo tempo, se a desigualdade no Nordeste cair em 10% a pobreza se reduz em 11,2% contra 24,4% nos estados do Sul e Sudeste”, informa Jocélio Leal. Noutros termos: a queda da desigualdade é um instrumento mais eficaz na redução da pobreza que o crescimento do PIB e que os impactos são mais fortes no Sul e Sudeste do que no Nordeste.

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rECifE rEÚNE NAtA DoS goUrMEtS EM SEtEMbro No mercado gourmet, “Recife é o segundo pólo gastronômico do país e perde em importância apenas para São Paulo”. Isso pelos “restaurantes surpreendentes, chefs criativos, ideias inovadoras”. Quem atesta é a revista Prazeres da Mesa, autoproclamada a “Bíblia da Gastronomia” no país, que em sua primeira versão “Ao Vivo” (“um reality show da enogastronomia”) fora da capital paulista, aporta em Recife, de 9 a 11 de setembro deste ano. Na terra do frevo, do maracatu e do bolo de rolo, quem gosta de cozinhar ou de comer estará reunido para receber chefs de renome, nacionais e internacionais. Eles produzirão uma parte da revista na frente dos convidados. Em quatro salas do Senac recifense acontecerão aulas, sobre confeitaria, padaria, coquetelaria e alta gastronomia. Uma das presenças mais esperadas é de Montse estruch, chef catalã do El Cigle, em Vacarises, distrito de Barcelona, Espanha, considerada um dos grandes nomes da cozinha moderna da Catalunha. Ela comandará, ao lado da carioca Flávia Quaresma, um dos jantares especiais. Outro vai reunir as estrelas nacionais Simone Berti e André Saburó. Na seção O Melhor das Cidades, onde casas pernambucanas apresentarão seus melhores acepipes. Serão 15 restaurantes a participar em um dos dias do evento. duca Lapenda, chef do Pomodoro Café, craque local, estará presente. Mais informações: tel.: (11) 3023-5509 ou (81) 3088-0378.


PAf garante ao Ceará a maior capacidade de investimentos do País O governador do Ceará Cid Gomes e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, assinaram em Brasília o termo de cooperação para revisão do Programa de Reestruturação e Ajuste Fiscal (PAF), que autoriza o Estado do Ceará a contrair até R$ 3,95 bilhões em financiamentos. Segundo Cid, o Ceará tem atualmente a menor relação entre a dívida corrente líquida e a receita corrente líquida dos últimos 15 anos. “Com baixa taxa de endividamento e alta taxa de possibilidade de investimentos com recursos próprios, fica assegurado ao Estado a contratação de diversos financiamentos que servirão, sobretudo, para complementar a infraestrutura do Estado em áreas como Estradas e Saúde”, afirmou. Alguns projetos são prioritários como o programa rodoviário Ceará III, Prodetur Nacional, Programa Emergencial de Financiamento aos Estados (PEF), Progerih II, Projeto Rio Cocó, Centro de Eventos do Ceará e Atenção Especializada à Saúde. Todos os financiamentos, que serão contraídos com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Banco Mundial (Bird) e Caixa Econômica Federal (CEF), contarão com contrapartida do Tesouro do Estado.

Pré-sal é alavanca contra disparidades As gigantescas reservas do pré-sal poderão gerar recursos para alavancar o desenvolvimento do Nordeste e solucionar, definitivamente, a disparidade de desenvolvimento regional no País. A opinião é do deputado federal José guimarães (Pt-Ce), para quem, se tais recursos não forem aproveitados nesse sentido, as desigualdades tendem a se aprofundar de forma irreversível. O novo marco regulatório em análise no governo deve contemplar a criação de fundos específicos para incentivar projetos de desenvolvimento e também da área social. O parlamentar lembra que a exploração do pré-sal levará à construção de uma grande indústria petroquímica, com inúmeras ramificações. Assim, ele defende que “seja privilegiada a localização das plantas nas regiões de menor desenvolvimento”. Ele frisou que a partir de 2003, com o Governo Lula, passou-se a observar que a retomada das rédeas do desenvolvimento regional, com planejamento, formulação de políticas, planos e programas. Em termos absolutos, houve grandes transformações econômicas, políticas e sociais, mas, em termos relativos, continua a defasagem do Nordeste em relação ao Sudeste. Por isso, defendeu, por exemplo, uma intervenção mais dinâmica do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) na região.

beberibe ganha parque eólico de r$ 550 milhões

A IMPSA, gigante latinoamericana em energias renováveis, e a Companhia Enérgética de Minas Gerais (Cemig), inauguraram em agosto, o Parque Eólico da Praia de Parajuru, localizado no município de Beberibe, a 103 quilômetros de Fortaleza (CE). É a primeira de três usinas que serão instaladas no Estado, com investimento de cerca de R$ 550 milhões. Numa extensão de 325 hectares, são 19 aerogeradores de 1,5 MW fabricados na planta que a IMPSA inaugurou em setembro de 2008, no Porto de Suape, em Pernambuco. Os outros dois parques, Praia do Morgado e Volta do Rio, ficam localizados no município de Acaraú, a 250 quilõmetros de Fortaleza. Juntos possuem capacidade instalada de 99,6 MW gerando durante sua implantação, cerca de 7,6 mil postos de trabalho diretos e indiretos. A IMPSA tem o Brasil como mercado chave, não só para gerar energia e fabricar equipamentos. Quer desenvolver também tecnologia.

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Por Lucílio Lessa — redacao@nordestevinteum.com.br

anos de história stamos fazendo história”. A frase está escrita em cartazes espalhados nos corredores do segundo jornal mais antigo do país – o primeiro é do Rio de Janeiro – e que este ano completou 90 anos, o Jornal do Commercio de Pernambuco. Os números apontam a competência do periódico. A tiragem diária é de 53 mil exemplares, a maior de todo o Nordeste. Aos domingos, esse número chega a 80 mil. O jornal faz parte de um complexo de comunicação que conta ainda com TV e Rádio FM. O portal de notícias, JC On Line, é a página mais acessada do Norte e Nordeste, com mais de oito milhões de visitas por mês. Reflexo da credibilidade de um veículo que em parte foi criado curiosamente para eleger Epitácio Pessoa à Presidência da República. “Há 90 anos esse tipo de apoio era a coisa mais comum que existia”, avalia o diretor de redação, Ivanildo Sampaio. Mas, como a história do JC começou? Legítimo representante das classes conservadoras, o Jornal do Commercio foi lançado no dia 3 de abril de

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1919, pelos irmãos Pessoa de Queiroz. Seu lema era “Trabalhar para o Norte”. O número de estreia, com Epitácio Pessoa na capa, e seu programa de governo como parte do recheio, tinha 12 páginas e foi vendido a 100 réis. Já na primeira edição, o jornal foi distribuído para todo o estado de Pernambuco, graças a uma malha ferroviária forte, que possibilitava inclusive sua chegada mesmo no sertão pernambucano. Nascido em uma época na qual o mundo se recuperava do fim da I Guerra Mundial (1914 a 1918) e em plena finalização das obras do Porto do Recife, o JC, assim como os demais jornais do início do século, parecia dar de ombros para os temas locais. O segundo número do periódico já dava sinais da mudança de perfil do jornal. Originalmente criado para divulgar informações de Pernambuco, o Jornal do Commercio passou a tratar também de temas referentes aos estados da Paraíba e Rio Grande do Norte. Em menos de um ano de existência, já contava com seu primeiro processo de modernização tecnológica. Para

Imagens Arquivo JC

Reflexo de uma trajetória singular, na qual a autoria fundamental foi da própria história, o Jornal do Commercio comemora 90 anos. O periódico, que em parte surgiu pelo interesse em eleger o então candidato à Presidência da República, Epitácio Pessoa, completa suas nove décadas sustentado por uma relação de credibilidade e, sobretudo, de parceria com a população pernambucana. Na Internet, o JC ON Line é a página mais acessada do Nordeste

Jornal do Commercio, prédio da imprensa onde funciona até hoje começar, o tamanho do jornal foi reduzido e a aquisição de uma máquina rotativa permitiu a impressão de cerca de 30 mil exemplares por hora. Na esteira dessa evolução, ocorria também um processo de conscientização sobre a mercadoria notícia. Com o desenvolvimento da cidade de Recife, à época

já considerada uma das principais capitais do país, foi inevitável uma mudança de postura do JC. Esse processo se intensificou a partir dos anos 20, com o rápido crescimento imobiliário da região e as mudanças significativas da paisagem local, que tornaram a capital pernambucana conhecida como a Veneza Brasileira.


Jornal do Commercio — 90 anos

Choques político-editoriais

a fúria da revolução de 30, modernização e pioneirismos

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foi justamente pela novidade do compromisso com o jornalismo, com a perspectiva de denúncia e, sobretudo, pelo apoio a Epitácio Pessoa, que o jornal passou por sérios problemas com a Revolução de 1930. Sob o lema “órgão independente e noticioso”, o JC se opôs ao golpe de estado orquestrado por Getúlio Vargas e ao regime que a partir dele se estabelecia. Como represália, a Aliança Liberal invadiu e destruiu

todo o maquinário, arquivos e dependências do jornal. As máquinas de escrever foram atiradas pela janela. Boa parte do material, inclusive, foi danificado com ácido. Quatros anos depois do ataque, mais precisamente em 1933, o jornal voltou a circular. A conquista veio pelas mãos de Francisco Pessoa de Queiroz, irmão do fundador, João Pessoa de Queiroz. Após uma estadia forçada em Paris e sob o ceticismo da família, ele conseguiu reerguer

Anos 60

padrão estético do JB e inauguração da Tv

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o início da década de 1960, ele assumiu o mesmo padrão estético do Jornal do Brasil. Nessa época inaugurou também a TV Jornal do Commercio. A primeira construída no país com um projeto arquitetônico exclusivo, já que a TV Tupi, no Rio de Janeiro, ocupava o antigo cassino da Urca. “Pessoa de Queiroz foi quem desenhou o projeto. Durante muito tempo, a TV Jornal do Commercio foi re-

ferência nacional, com auditório próprio e estúdios de gravação com 250 metros de área. Ninguém ainda tinha isso no país”, afirma Ivanido. ECOCIÊNCIA. Já o interesse pela Ciência, denotado ainda nos anos 30, quando publicava, aos domingos, o caderno “Através do Mundo”, continuou. E a partir dos anos 70, o jornal passou a também focar na questão do desenvolvimento sustentável. Prova disso é que foi o pri-

Aliados de getúlio invadiram o jornal durante a revolução de 30 o periódico e moderniza-lo com equipamentos de primeiro mundo. A partir daí, o pioneirismo se intensificou como uma constante no veículo. No ano de 1956, o jornal passou a publicar fotos diá-

rias na capa. As manchetes eram normalmente voltadas a notícias internacionais. Nessa época, o JC era o impresso mais importante do país, pois além do periódico, ele já contava com a Rádio Jornal do Commercio.

meiro jornal do país, ainda em 1989, a ter uma página diária com notícias reservadas ao meio ambiente, denominada Ciência/ Meio Ambiente. Foi durante a Eco 92, no Rio de Janeiro, que o jornal publicou um programa diário sobre essa temática, o que motivou outros jornais a também discutirem o assunto. Para Ivanildo Sampaio, a iniciativa motivou o surgimento de uma cultura de preservação ambiental. “Antes, a coisa se restringia unicamente à página de meio ambiente, mas a partir daí essa cultura difundiuse pelo resto do jornal. A parte de economia, de política, enfim, todos passaram a discutir o assunto a partir das suas perspectivas”, destaca.

VARIEDADE DE CADERNOS. Em todo o Norte e Nordeste, o Jornal do Commercio também foi o primeiro a criar cadernos diversificados a partir de 1989. “Nós idealizamos um caderno de esportes, outro de cidades e um de economia. Antes disso ele possuía apenas um caderno cultural. E criamos também suplementos que não existiam, como turismo, informática, entre outros”, revela o diretor. Nessa época, a TV Jornal já era concorrente da filial da Rede Globo. Portanto, parte do caderno de fofocas era local e a outra era comprada da emissora carioca.

Pessoa de Queiroz foi quem desenhou o projeto. Durante muito tempo, a Tv jornal do Commercio foi referência nacional, com auditório próprio e estúdios de gravação com 250 metros de área. Ninguém ainda tinha isso no país ivanildo Sampaio, diretor de redação Julho/2009

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Jornal do Commercio — 90 anos

greve, recuperação e maior ivc de pernambuco

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m 1987, ano em que o Sistema JC de Comunicação passou por uma série crise financeira, os funcionários entraram em greve. O motivo? Sete meses de atraso salarial. O jornal passou então 36 dias sem circular. Somando-se a isso, o problema contou ainda com a adesão dos profissionais da Rádio e da TV Jornal.

E, aos 27 dias de greve, o JC foi comprado pelo proprietário da rede de supermercados Bompreço, João Carlos Paes de Mendonça. O resultado foi que, mesmo estigmatizado pela insegurança, o Jornal do Commercio, após seis anos da greve e de uma injeção significativa de investimentos no maquinário, na

capacitação e na contratação de profissionais, passou a ser o jornal de maior circulação de Pernambu-

co, posição que mantém até hoje, segundo dados do Instituto Verificador de Circulação (IVC).

compromissos e reorientações políticas em meio à história guerras mundiais

apoio inTegral ao golpe de 64

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fenômeno editorial do Jornal do Commercio foi construído em meio a 90 anos de pura história. Da Iª Guerra Mundial ao bombardeio de Hiroshima e Nagasaki. Da chegada do homem à lua até a luta das mulheres pela emancipação. Do 1º transplante cardíaco às Diretas Já. Em todos esses momentos, o JC esteve presente com suas coberturas. Um momento ímpar na trajetória do jornal foi durante a II Guerra Mundial. Com a competência de anos

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de jornalismo, ele promoveu uma cobertura minuciosa, através das informações que recebia via rádio e agência de notícias. Todo o conteúdo era traduzido simultaneamente. O Diário de Pernambuco, outra referência do jornalismo local, também cobriu com competência o período, e como fazia parte dos jornais Associados, teve a vantagem do acesso ao material dos correspondentes enviados para cobrir a guerra. Mas, nada que diminuísse a atuação do JC.

á durante o Golpe Militar, em 1964, o Jornal do Commercio, numa demonstração de alinhamento com a perspectiva da imprensa nacional, deu apoio integral ao movimento. “Naquela época, o dono do jornal era o senador da República

Eça Pessoa de Queiroz. De fato, enquanto o jornal esteve nas mãos de políticos, evidentemente ele tinha esse viés”, justifica Ivanildo Sampaio, emendando a afirmativa de que nos últimos 22 anos o jornal jamais tomou partido político.

luTa pela reFinaria em pernamBuco

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azendo contraponto à incursão equivocada à ditadura, o JC empunhou bandeira em benefício de Pernambuco que se tornou vencedora. Trata-se do apoio ao Governo do Estado em relação à instalação de uma nova refinaria de petróleo que a Petrobras construiria na época. Sob o título de

“JC dá apoio à nova campanha pela refinaria”, o jornal teve o mérito de criar ações como a maratona “Pernambuco Chama”, na qual uma tocha era carregada por 954 quilômetros do Sertão à capital, bem como à campanha “Pernambuco em Primeiro Lugar”, que visava o apoio da classe política, e por fim,


Jornal do Commercio — 90 anos

o recolhimento de 1 milhão e 100 mil assinaturas de populares para o recebimento da refinaria. Segundo Ivanildo Sampaio, as assinaturas foram o principal motivo para que a

decisão em favor de outras capitais, como Maranhão, fosse “barrigada”. Para ele, a iniciativa do jornal foi decisiva na instalação da usina, mesmo que isso só ocorresse anos depois, já no Governo Lula.

campanHas conTra a Fome e pela paz

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m 2000, outra ação do jornal teve grande repercussão. A adesão de todo o Sistema de Comunicação do Jornal do Commercio ao “Dia Nacional do Basta! Eu Quero Paz”. Na ocasião, 20 entidades da sociedade civil se mobilizaram junto ao JC. A ação ocorreu em mais 13 capitais brasileiras. Na semana que sucedeu o evento, o jornal publicou uma série de reportagens sobre iniciativas de entidades civis em favor da paz. O compromisso social do veículo pôde ser atestado em outra série de reportagens, de 2003, na qual o jornal mostrava que os pernambucanos eram precursores há décadas de ações voltadas ao comba-

te à fome, assunto então em voga devido à nova política nacional encabeçada pelo Governo Lula. Em cinco dias, o “Pernambuco Solidário Contra a Fome” registrou cerca de 30 ações de sucesso, realizadas por diversas instituições não governamentais. Paralelo a isso, o jornal viabiliza, desde 2001, o Fórum Sistema JC de Debate, em que promove discussões públicas sobre questões pertinentes à população de Pernambuco. O projeto, inclusive, foi a mola mestra para várias reportagens veiculadas não só pelo jornal, como pela rádio e pela TV, com temas variados e focados na denúncia e no bem estar da população.

primeiro na inTerneT e presTÍgio enTre os 10 maiores do paÍs

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m 1994, o Sistema Jornal do Commercio de Comunicação criou o primeiro site de notícias de Pernambuco, o JC ONLINE. A estréia ocorreu com um simples boletim eletrônico. As manchetes da edição do dia seguinte eram a atração. Dois anos depois, o site já contava com imagens

e links, tornando-se Portal em fevereiro de 2002. Nele, foram integrados serviços como programação em tempo real, classificados, e até a Rádio Jornal, primeira da América Latina com sinal 24 horas pela internet. Foi em 2001 que o Jornal do Commercio figurou pela primeira vez na lista dos

10 jornais de maior prestígio do país. O ranking foi publicado pela revista Meio & Mensagem e feito por uma reconhecida consultoria de

marca de mercado. De lá para cá, o jornal figurou por mais 3 vezes na lista, sendo o único do Norte e Nordeste a participar do ranking.

511 proFissionais, 134 JornalisTas, 400 mil leiTores e 37 mil assinanTes

A

o todo, trabalham no JC 511 profissionais. Destes, 134 são jornalistas. Os demais assumem funções comerciais e de cunho administrativo. Pela redação do jornal já passaram nomes como Ricardo Noblat, Eurico Andrade, Murilo Marroquim,

Lula Costa Pinto e João Aluisio Vieira, entre outros. O jornal possui, de segunda-feira a domingo, 530 mil leitores. São 242 mil exclusivos. A publicação também se destaca pelo número de assinaturas, uma média de mais de 40 mil por semana.

premiaçÕes da onu e união européia

A

s premiações nacionais e internacionais também são ponto forte do Jornal do Commercio. Entre elas, há o Prêmio Desertificação: Uma Ameaça Global, viabilizado pela Organização das Nações Unidas (ONU). O jornal foi o único veículo de comunicação brasileiro a ser premiado. Concorreram 60 reportagens do mundo inteiro. A matéria vencedora era de 1999, e mostrava características das áreas de maior desertificação do país: Gilbués (PI), Cabrobó (PE), Irauçuba (CE) e Seridó (RN/PB). Além desses, o jornal também venceu oito vezes o Prêmio Esso, reconhecidamente o mais importante do Brasil. Além dele, o JC já venceu os prêmios Fiat Allis,

Vladimir Herzog, Imprensa Embratel, Colgate, Unisys e José Reis de divulgação científica, entre outros. Outro destaque é que o jornal é recordista no Prêmio Cristina Tavares, o maior do jornalismo pernambucano. São dezenas de troféus em texto, arte, foto e desenho. Nos internacionais, constam ainda o Prêmio de Jornalismo 50 Anos da União Européia e premiações no Concurso Jornalístico América Latina e os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, conferidos pela ONU. Na área da fotografia, destacam-se o Internacional Library of Photography e os vários reconhecimentos no News Page Design, que elege as melhores capas de jornais do mundo. Julho/2009

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Foto: www2.bienaldolivro.ce.gov.br

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ENTREvISTA Raul Lody Uma suculenta e antológica abordagem sobre fundamentos de nossos sistemas alimentares, em conversa apresentada a partir do rodízio histórico-etnográfico e descritivo das obras de Câmara Cascudo e das análises étnicas da civilização do “Assucar”, de Gilberto Freyre. Nessa entrevista, o pesquisador carioca e baiano por opção, Raul Lody nos fala como identifica os elementos e as oportunidades culturais na mistura de ingredientes da culinária nordestina, da sua paixão pelas tecnologias tradicionais e dos ambientes sedutores dos mercados como síntese das relações sociais. Antropólogo e museólogo renomado no Brasil, Lody tem diversos livros publicados como, À Mesa com Gilberto Freire, Santo Também Come e Dicionário de Arte Sacra e Técnicas Afro-Brasileiras. É o idealizador do Museu da Gastronomia Baiana e curador da Fundação Gilberto Freyre (Recife), da Fundação Pierre Verger (Salvador), e do Memorial da Cultura Cearense, do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura em Fortaleza. Seus livros recentes são Brasil Bom de Boca e Dendê - Símbolo e Sabor da Bahia, lançado em agosto deste ano. Por Marcel Bezerra / marcel@editoraassare.com.br

este é o que ele come ‘Peiticas’ de saberes e sabores sobre a história de nossa comida Nordeste VinteUm – Qual o lugar da alimentação nos estudos da cultura humana? Raul Lody – Acho que no campo das ciências sociais, no campo da Biologia ou da Nutrição, o tema alimentação, que prefiro chamar comida, é o resultado de um processo de escolha de ingredientes. Já é um processo tecnológico ou de práticas culinárias. Nessas práticas, já estão relacionadas questões de gênero. Ocorrem em cenários rituais, ou cozinhas, ou restaurantes, ou feiras, mercados, comunidades religiosas. Então, vou usar sempre a palavra comida nessa perspectiva mais complexa, fazendo

considerações sobre sistemas alimentares, gastronomia e outras coisas. NVU – Qual o marco no aparecimento da comida mais próxima das conformações de hoje? RL – A comida sempre foi de interesse geral, inclusive a própria arqueologia começa essas datações a partir das fogueiras, nos vestígios do fogo. É o grande divisor temporal para a comida. Tendo o domínio, o homem começa então a preparar e a ter opções de fazer sob diferentes aspectos. Isso já te dá um perfil de como o fogo é importante na história da humanidade, na história das ciências, na Geografia Humana, o que está um pouco no Josué de Castro. NVU – Seu trabalho toma a obra de Câmara Cascudo como referência? RL – Cascudo tinha uma visão historiográfica, que era Julho/2009

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muito a visão da época, dava saltos ampliados, complexos sobre a história da civilização ocidental. Fez um cruzamento com a formação da sociedade brasileira, porque ele possuía uma biblioteca estupenda, de obras raras, inclusive. Hoje, temos o Google e outras coisas. Nessa época, o saber era concentrado exclusivamente na literatura, na obra impressa e também na oralidade. A internet é uma boa ferramenta para quem tem massa crítica. Para quem não tem, é uma armadilha. Então, o Cascudo tinha uma coisa muito importante também, muito comum à época, que era uma rede de correspondentes não só no Brasil, como no exterior, Portugal principalmente. E entender

que Portugal à época era ultramarino, ou seja, Angola, Moçambique, Guiné, Goa. Quer dizer, de uma visão ampliada do mundo. Ele conseguia fazer suas comparações, gostava muito de etnografia comparada. Ele pegava um tema, e tentava fazer uma digressão histórica, muito subjetiva, mas temos que dar um desconto, porque todos os pioneiros tem esse mérito. NVU – É a questão do rigor acadêmico? RL – É, porque os pioneiros são os pioneiros, não é? A partir deles é que começa uma massa crítica dos estudos, mas Cascudo realmente possibilitou, no caso específico da história da alimentação, colocar algumas vertentes importantes para compreender esse universo. Ele

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to... RL – Cascudo dá essa orientação, ele gostava de trabalhar com as matrizes africana, ameríndia, indígena, NVU – Gilberto Freyre disse que européia. Entendendotambém descobriu o Brasil e Casse européia numa perspectiva cudo, o brasileiro? mais ampliada também africana, RL – Havia como se diz aqui uma pela questão da África muçulmana, ‘peitica’ entre os dois, mas é interesÁfrica Magreb, do norte, África Mesante, porque cria um tempero. Essas diterrânea, e as vertentes migratórias obras todas começam a criar orienorganizadas: japoneses, alemães, litações, que são seguidas até hoje. baneses e outros. Cascudo, então, Relativizadas, evidentemente, mas tem essa obra de referência e ouseguidas até hoje como fundamentras obras também, como o Made In tais. Elas fundam esse pensamento Africa, que ele escreve após ter ido a sobre sistemas alimentares. E, falanAngola. Na época, ainda colônia pordo em comida, o contraponto à falta tuguesa. Ele faz também o trabalho Antologia da Alimentação Brasileira, uma seleta de Muitas comidas que eram dos alguns artigos. E muitas terreiros foram para os restaurantes, outras coisas, como o próprio Dicionário do Folclore para as casas e vice-versa. São Brasileiro, que tem verbetes ligados à história da processos permanentemente alimentação. Eu acho que dinâmicos e criativos. Ao mesmo a obra de Cascudo, como também a obra de Gilberto lado, existem os nichos da tradição, Freyre, muito importantes. que são preservados. Mas, a Inclusive, esse ano, o livro Assucar, de Gilberto, faz 70 tradição, ela é dinâmica, tem anos de publicado. É obra adaptações maiores ou menores que cria uma metodologia da pesquisa de campo. O Cascudo buscava uma pesquisa mais historiográfica, de referências da lide comida é a fome. Então, você tem teratura. O Gilberto procurava cada essa bipolaridade, é um fenômeno vez mais uma referência da pesquisa crescente. A própria FAO, a ONU, de campo. É um bom contraponto os organismos internacionais dizem entre ambos. Mas, o que o Cascudo que a fome crescerá em números pesquisou de campo foi muito o seu absurdos, nos próximos 20 anos. E entorno, foi muito o Rio Grande do exatamente, a grande base ainda da Norte. Lembro que ele me confidenalimentação no mundo são os grãos, ciou que um dos grandes desejos era os cereais, as farinhas de milho, fariir à Amazônia. Nunca foi. nha de sorgo, farinha de mandioca. É tão interessante você observar que NVU – Isso limitou suas abordagens? continua a mesma coisa como se fosRL – Não é desmerecendo. É uma se há dez mil anos atrás. A própria contextualização de cenário, das batata, que matou a fome em plena oportunidades e também de outros Idade Média. Se não fosse a batata fatores, como os econômicos. Até americana, a Europa ia passar fome. porque esses pesquisadores não Aliás, ela passou muita fome, duraneram ricos. Eles viviam dessa obra. te muito tempo. Acho que Cascudo dá esse norte, essa fundação aos estudos da história NVU – Câmara Cascudo foi à Áfrida alimentação. E o Gilberto Freyre, ca e à Europa pesquisar o assunconcentra na região Nordeste, onde ele estava, e como aconteceu com Gilberto Freyre, mesmo tendo uma visão geral, tão firmada pelo próprio como nacional, internacional...


com Assucar, começa a fazer um recorte mais da análise. O Cascudo eu considero muito mais no aspecto descritivo, etnográfico, importantíssimo. E o Gilberto entra numa questão mais da análise ainda histórica, étnica. Toma como princípio, na obra dele como um todo, a civilização do açúcar. Cascudo não toma esse foco do Assucar, porque o Rio Grande do Norte não tinha essa base econômica, como tem Pernambuco e Alagoas, por exemplo. Cascudo é mais generalista no sentido das grandes matrizes. Gilberto é mais localizado com o Assucar. Os dois tem um diálogo não intencional, mas acabam tendo um diálogo. NVU – Seria um diálogo, em certa medida, de obras que se complementam? RL – Eu diria um diálogo. Nem sempre o diálogo é complementar. O diálogo é uma conversa que pode ser superposta. Eu nem chamaria de diálogo, eu chamaria de uma conversa, porque tem conflitos também. O que é muito bom, ótimo. Como já dizia o outro, toda unanimidade é burra. Então, tem isso, são focos diferentes, mas que o leitor, ou quem se interessa por esse campo, vai encontrar essas correlações e esses contrapontos. NVU – Voltando um pouco mais, como começa o interesse do senhor em relação ao estudo da comida, ainda mais ligada à religiosidade? Seu livro “Santo Também Come”, fez aniversário? RL – Santo Também Come teve na verdade 30 anos. Nós tivemos um evento aqui no Museu do Homem do Nordeste, que está completando 30 anos, e esse foi o primeiro livro lançado aqui. Fizemos um painel expográfico com matérias dos jornais de 1979, inclusive fotos do lançamento do livro. Foi um evento assim muito

emocional. O interesse pela comida nesse campo vai se dar da seguinte maneira: a minha primeira grande experiência internacional foi na África. Eu tinha acabado a universidade, e por vários motivos, fui estudar arte africana em Dakar, no Senegal, no Instituto Francês de África Negra. Um choque cultural, que eu chamaria de uma bofetada cultural. Botar o pé na África Ocidental, não só pela pujança, como também pelas semelhanças. Os mercados africanos foram os grandes lugares de sedução. NVU – Qual o poder da ambiência, dos cheiros? RL – Eles tem um poder de síntese, tem um poder de retrato não só da comida, mas retrato das relações sociais, da história. Eu acho que qualquer lugar, qualquer cidade, seja onde for, que eu não conheça, o primeiro lugar que eu quero visitar é o mercado. Indo ao mercado eu me situo. Evidentemente, ali é um fragmento, lógico, mas ao mesmo tempo é uma síntese das questões culturais. O meu interesse pela comida vai se dar junto com o interesse pelo grande tema que na verdade eu trabalho nesses 37 anos: as tecnologias tradicionais. São as maneiras que as culturas, que as sociedades tem de transformar materiais. Fiz um livro sobre rendas, trabalhei coisas sobre o Ceará. Coordenei durante anos uma série de livros e pesquisas na Funarte, no final dos anos 1970, até meados dos anos 1980, chamado Projeto Artesanato Brasileiro, onde fizemos grandes pesquisas de campo no Brasil. Integrada às tecnologias artesanais está a comida. Aí, você vê se é bom. Aí, é feijoada, que é servida onde? Na panela? Ou na travessa? Ela é feita na panela de barro? Sim. Onde é feita essa panela? E você começa a fazer a rede. A cultura vai se dar de uma forma complexa. Nós e os outros. Que interpretam a cultura. Vão fragmentar para poder tentar entender a partir do seu ponto de vista. Tenho escrito e me dedicado cada vez mais, não esquecendo o artesanato, os rituais, todos esses contextos sociais, religiosos, ecológicos.

E há o desejo e as oportunidades. Porque a comida, todos esses pratos, nascem pelas oportunidades. O vatapá, por exemplo, que provavelmente vem de um prato português chamado açorda. Açorda é exatamente isso: o pão ficou velho, bota ele de molho ou pouquinho na água. Inchou? Agora, vou fazer um refogado, com muito óleo, cebola, azeite de oliva. Está aquela massa temperada com alho, com cebola e com bastante azeite de oliva. Na hora de servir, coloco duas gemas cruas de ovo, mexo e vou comer. Eis a açorda

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Ninguém nasce com uma receita pronta. Isso não existe. É feito a Física, a Matemática, você vai experimentando... tem esse prato, a dobradinha. Ela nasceu porque tem essa história. Histórias de origem você não acredite 100%, viu? Você tem que deixar, digamos, 30% de veracidade, e 30% de fantasia NVU - Como se dá essa interligação entre comida e religião? RL - Existem diálogos. Muitas comidas que eram dos terreiros foram para os restaurantes, para as casas e vice-versa. São processos permanentemente dinâmicos e criativos. Ao mesmo lado, existem os nichos da tradição, que são preservados. Mas, a tradição, ela é dinâmica, tem adaptações maiores ou menores. E há o desejo e as oportunidades. Porque a comida, todos esses pratos, nascem pelas oportunidades. O vatapá, por exemplo. “Ah, sobrou o pão”. Eu vou jogar o pão fora? Não. Sobrou o pão, para fazer rabanada. Para fazer pudim de pão, os recheios. Vou botar com temperos e vai pro pastel, vai

para a empada. Você tem o vatapá, que provavelmente vem de um prato português chamado açorda. Açorda é exatamente isso: o pão ficou velho, bota ele de molho ou pouquinho na água. Inchou? Agora, vou fazer um refogado, com muito óleo, cebola, azeite de oliva, fiz um refogado. Está aquela massa temperada com alho, com cebola e com bastante azeite de oliva. Na hora de servir, coloco duas gemas cruas de ovo, mexo e vou comer. Eis a açorda. É uma das receitas. Por que o vatapá? Nele, a base é o pão. Em vez de eu botar azeite de oliva, boto azeite de dendê. E, aí, começa a ver o que sobrou. Um pouquinho de peixe? Bota peixe: vatapá de peixe. Sobrou uma coxa de galinha, uma asa, não sei o quê, eu vou desfiar: vatapá de galinha. Sobrou um pedacinho de carne de porco: vatapá de carne de porco. Um pedaço de bacalhau: vatapá de bacalhau. Então, a comida é fruto das oportunidades. Ninguém nasce com uma receita pronta. Isso não existe. É feito a Física, a Matemática, você vai experimentando. NVU – Nesse sentido, o Nordeste, até pelas suas condições, reaproveita tudo, por exemplo, o bode, com a panelada, a buchada. Isso é uma coisa mais presente aqui ou é peculiar de cada região? RL – Isso é comum de outros povos. Você, por exemplo, tem esse prato, a dobradinha. Ela nasceu porque tem essa história. Histórias de origem você não acredite 100%, viu? Você tem que deixar, digamos, 30% de veracidade, e 30% de fantasia. Mas dizem que a cidade do Porto, em Portugal, estava sitiada pelos muçulmanos. E cidades, nessa época, nesse miolo, havia muralhas, como sempre

faziam, para proteção. E a comida foi acabando. Foram comendo as carnes, e sobraram as vísceras. E não tinham o costume de comer as vísceras. A fome bateu e tem a chamada tripa à moda do Porto, que é nossa dobradinha, com algumas mudanças. O mesmo é o bode. Vou comer tudo que o bode possa oferecer, ou o carneiro, ou a galinha, a cabidela, também, ou ao molho pardo. Sempre há essa perspectiva de aproveitar ao máximo os alimentos porque existe abundância, mas existe muito mais falta do que abundância. NVU – Que tipos de comidas foram contribuições do negro, do índio, do português na construção alimentar do Nordeste, se é que a gente pode falar apenas em termos regionais? RL – Você pode até pegar o exemplo do vatapá. A mandioca, que é nativa, é de uma faixa central da América do Sul, e grande parte dela está no Brasil. Tem inúmeros tipos, são mais de 400 espécies diferentes. Diria que a mandioca á uma das grandes bases dos sistemas alimentares. Se você for pegar doces, bolos, farinhas, angus, mingaus e tantas outras coisas, você vai ter sempre um alimento vindo da mandioca. Ou seja, o tucupi, ou seja, a farinha feita em casa de farinha, a farinha seca, farinha d’água, a massa puba, ou massa podre, os inúmeros produtos vindos da mandioca. O trigo, o azeite de oliva e esses bichinhos todos que a gente come, como boi, cabrito, elas chegam por um processo colonizador, europeu, e tal. A cana sacarina, que é da Ásia e cria um grande sistema alimentar em todos esses segmentos. As questões africanas nascem muito com o processo de criação no Brasil, porque obviamente

Preservar todas as tecnologias de fazer queijo, os de coalho, de manteiga, tem uma variedade. E, agora, a parte de queijos caprinos, na Paraíba tem coisas ótimas. queijos mineiros, a própria mandioca, que não foi ainda estudada devidamente. Tem que ter muito mais pesquisa, dedicação 54

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NVU – O tema da comida vem ganhando cada vez mais atenção. Demorou para isso acontecer? RL – Tudo era uma questão de foco. Sempre, principalmente a televisão, o rádio, revistas, tinham os seus espaços para ensinar a fazer bolo, empada, carne assada, aproveitamentos. Tudo é uma questão de foco. O foco foi se ampliando e foram vendo realmente que a comida é um grande mercado, em termos econômicos. Cresce mundialmente a diversidade de restaurantes, bares e lugares para comer. Exatamente isso, também amplia a formação profissional, o interesse da mídia. Nesses últimos dez anos, cresceu a variedade de programas de televisão em rede fechada, a quantidade de revistas especializadas, cursos, publicações, livros. Acreditase que, anualmente no mercado de livros internacionais, por baixo, são 20 mil títulos novos ao ano. Um interesse muito grande, porque a comida tem essa possibilidade de ser transversal a todas essas questões. NVU – O senhor foi o responsável pela registro do ofício da baiana do acarajé. Que outras tradições precisam de uma atenção no sen-

Foto: acervo pessoal

existe todo um olhar romantizado que persiste até hoje. As pessoas pensam que os africanos vinham nos navios feito cruzeiro, cheios de colares, torços, anéis e trazendo comida, cantando, dançando, tocando tambor. A grande maioria pensa que a África é uma coisa só, muitas vezes perguntam qual é a bandeira da África. Outro dia eu me surpreendi quando perguntaram qual era a bandeira do Caribe. Você tem o dendê, o inhame, que é muito forte, pimentas, e uma coisa muito importante que é a memória. São os processos culinários. São as formas de transformar os alimentos. Obviamente vamos ter outras interpretações do trigo, do peixe, a partir dos japoneses, dos libaneses, de toda uma base tradicional judaica, de aproveitamento de alguns produtos, como a batata, o queijo. Tem aí toda uma miscelânea, e no caso do Nordeste, ele é muito centrado nesses encontros...

As questões africanas nascem muito com o processo de criação no Brasil, porque obviamente existe todo um olhar romantizado que persiste até hoje. As pessoas pensam que os africanos vinham nos navios feito cruzeiro, cheios de colares, torços, anéis e trazendo comida, cantando, dançando, tocando tambor

tido de preservação? RL – Muitas. Preservar todas as tecnologias de fazer queijo, os queijos de coalho, de manteiga, tem uma variedade. E, agora, a parte de queijos caprinos, na Paraíba tem coisas ótimas. Queijos mineiros, a própria mandioca, que não foi ainda estudada devidamente. Tem que ter muito mais pesquisa, dedicação, é um campo ainda a ser revelado. NVU – O senhor lançou ano passado “Artes e rituais do fazer, do servir e do comer no Rio Grande do Norte”. Qual foi sua impressão mais forte desse estado? RL – Esse livro está numa série de livros do Senac nacional que se chama Formação da Culinária Brasileira, uma série que já existe há 15 anos. É também uma homenagem a Luís da Câmara Cascudo. Busca mostrar e se dedicar um pouco à pesquisa, à documentação, para esses temas,

lógico que existem diálogos, existem referências, a ginga, como tapioca, frita no dendê, eu acho sensacional essa solução. É bem do Rio Grande do Norte e, na verdade, você pode estudar. É uma questão meramente operacional, os sistemas alimentares pelos estados. Certa área da Bahia entra por Minas, Minas entra por Goiás, Rio Grande do Norte entra pelo Ceará, comunica com Pernambuco, quer dizer, são ares culturais, mas é uma questão muito mais didática mesmo para o público, uma tentativa de apontar para essas questões e a gente trabalha ou por regiões, ou por estados. Na verdade, eles não são estanques, se comunicam.

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HOMEM AMERICANO

Patrim么nio arqueol贸gico

tesouro ameacado

i u a i p no


Pinturas em rochas que representam o cotidiano do homem préhistórico, cerâmicas, ferramentas. Resquícios de uma história que brindam os nossos sentidos. Parte preciosa dessa riqueza se encontra nos parques nacionais da Serra da Capivara, da Serra das Confusões e de Sete Cidades no Piauí, locais ameaçados pela ação do homem e pela falta de valorização do poder público. Escassez de recursos financeiros para pesquisa e conservação, gestos depredatórios, ausência de mão-de-obra especializada e consciência ecológica colocam os sítios em risco.

o

Por Filipe Palácio / redacao@nordestevinteum.com.br

patrimônio arqueológico do Brasil não é dedos descendentes do mesmo homem que, no passado, foi vidamente cuidado e aproveitado”. Quem capaz de registrar sua existência nas rochas. A arqueóloga lamenta é a arqueóloga e diretora da Fundaconta que as ameaças vão “desde a que nasceu no cérebro ção do Museu do Homem Americano (Fude um imbecil que, em razão de uma briga, jogou uma mdham), Niède Guidon. Ela já conta com 35 anos de lata de tinta sobre pinturas rupestres, até a que resulta da atuação na Serra da Capivara e afirma com autoridade proliferação dos cupins e vespas, que não têm mais seus que a única exceção fica por conta de algumas cidades predadores habituais, exterminados pelos caçadores”. coloniais e monumentos históricos. A riqueza nacional As galerias e os ninhos feitos pelos insetos cobrem as neste campo, contudo, vai além e está ameaçada pela falpinturas. Assim, a cada limpeza, parte das cores dos deta de atenção. senhos também é removida. Outro problema, acrescenta, Um pedaço precioso da história dos últimos 100 mil é coibir o ato de alguns visitantes que insistem em deixar anos, por exemplo, está em terras piauienses. O estado seus nomes gravados nas rochas. “Somente a aplicação possui um dos acervos arqueológicos mais ricos do Brasil real das leis pode impedir tais atos”, avalia. e do mundo. Cerâmicas, pinturas e ferramentas de pedra A escassez de recursos financeiros para a manutenlascada e de pedra polida são algumas ção dos parques e estímulo a novas das expressões da cultura dos nossos pesquisas complicam ainda mais a siancestrais, a exemplo de uma ponta tuação. Niède lembra que as maiores de flecha feita de cristal de quartzo, dificuldades financeiras da Fumdham que data de nove mil anos. “Uma datam de 2005. No ano seguinte, a obra de arte, uma coisa fantástica, instituição conseguiu, por meio da Lei sobretudo porque é um material diRouanet, doações regulares da Petrofícil de ser trabalhado, pois quebra bras, o que tem possibilitado manter facilmente”, ressalta Guidon. o Parque Nacional em atividade. “E Niède guidon arqueóloga e diretora da Fundação do Museu do Homem Americano (Fumdham) Ela garante que o Brasil poderia também, no último ano, tivemos da ter na exploração de suas reservas arAbengoa – empresa multinacional do queológicas, através do turismo, uma solução para a deramo de bioenergia – uma doação específica para elimisigualdade social. “Um país grande como o nosso recebe nar certos processos erosivos causados pela destruição da menos turistas que a República Dominicana! Do que eu vegetação por antigas queimadas”, acrescenta. conheço do Piauí, posso afirmar que, se houvesse estraAo mesmo tempo, Niède admite que o País mostra das decentes, meios de comunicação, hotéis de qualidaavanços na área. Ela classifica a abertura de escritórios de, o Estado deixaria de ser pobre”. do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional Neste sentido, a arqueóloga defende que países como (Iphan) em cidades do interior como um grande passo. Egito, Itália, Espanha, França, Peru e Bolívia sirvam de Porém, seria necessário que a proteção, a conservação modelo para o Brasil. “Somente em países muito subdedesses sítios arqueológicos fosse assegurasenvolvidos, caracterizados pela ignorância é que o patrida por funcionários do órgão mais tecnimônio arqueológico não é protegido e utilizado”, camente preparados e dispostos a viver ataca. “Quanto rende a Grande Muralha para a nestas cidades, em seus respectivos loChina?”, questiona cais de trabalho. “Infelizmente, o Brasil Guidon acredita que os maiores gestos é um país onde somente as capitais são depredatórios ao patrimônio arqueológico consideradas cidades interessantes para nacional tem origem na ação irresponsável se viver”.

o patrimônio arqueológico do brasil não é devidamente cuidado e aproveitado

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SErrA DA CAPiVArA Trabalho para duas geracoes em Sao Raimundo Nonato Declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o local pertence ao município de São Raimundo Nonato, a 530 quilômetros de Teresina. Ali estão abrigados 912 sítios arqueológicos, dentre os quais 657 apresentam pinturas rupestres. Feitos sobre a rocha em tons de vermelho, branco, amarelo, marrom e cinza, os desenhos mostram ações da vida cotidiana, com figuras humanas, animais, plantas e objetos, chamados grafismos reconhecíveis. Há ainda figuras as quais não se consegue identificar, conhecidas como grafismos puros. Uma dessas pinturas, localizada no sítio Toca do Boqueirão

da Pedra Furada, foi escolhida para integrar a logomarca da Fumdham, instituição que realiza pesquisas e participa da gestão do parque. Dos 13 mil sítios arqueológicos cadastrados pelo Iphan, em todo o Brasil, cerca de 1.200 estão no Estado do Piauí. Mas, os números não são estáticos. As pesquisas em busca de novos indícios da vida do homem pré-histórico são feitas de forma permanente.

NÚMEroS 912 sítios arqueológicos; 657 com pinturas rupestres; Dos 13 mil sítios cadastrados do iphan, 1.200 estão no Piauí

Cada vez que vamos para um lugar onde ainda não fomos, descobrimos sítios novos Niède guidon

“Cada vez que vamos para um lugar onde ainda não fomos, descobrimos sítios novos”, diz Guidon, estendendo a possibilidade de transpor as descobertas para outras áreas de estudo, como a Biologia e a Geologia. A pesquisadora faz questão de ressaltar ainda as belezas naturais da Serra da Capivara. “Há paisagens incríveis, a fauna, a flora. Lá dentro, você encontra coisas que já desapareceram de outros locais do Nordeste. Aqui, os povos pré-históricos que chegaram há 100 mil anos se depararam com uma região muito rica; estabeleceram-se e desenvolveram uma cultura extremamente adiantada. Como chegamos muito cedo, conseguimos proteger tudo isso”, ressalta a arqueóloga. Ela admite, contudo, que, apesar de sua primazia nas pesquisas arqueológicas na Serra da Capivara, “há trabalho para mais duas gerações”.

Presenca humana mais antiga das Americas A Serra da Capivara é o local que apresenta a presença humana mais antiga das Américas. O homem que habitou a área há 100 mil anos deve ter vindo da África e entrado pelo mar. “Pensamos que ele deve ter chegado pela costa norte, porque ele também chegou ao México muito cedo”, analisa Guidon.

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A via de acesso, segundo ela, teria sido o rio Parnaíba, que, à época, era um rio muito grande. Ao passar, o homem teria seguido pelo seu afluente, o rio Piauí. “Podemos comprovar que há cerca de 10 mil anos, o rio Piauí, aqui na altura de São Raimundo Nonato, tinha mais de 10 quilômetros de largura”.

A história do homem que habitou as Américas há tantos milhares de anos ainda é fragmentada pela quantidade insuficiente de trabalhos em outras regiões do mundo que expliquem sua origem. “Temos uma pesquisa de 35 anos e, talvez, para chegar aqui, esse homem tenha passado por outros lugares”.


SErrA DAS CoNfUSõES Coisas fantasticas parque cinco vezes maior e nenhuma estrutura No ano passado, dois meses foram suficientes para se descobrir 150 sítios arqueológicos no Parque Nacional da Serra das Confusões, cuja localização engloba territórios pertencentes aos municípios de Caracol, Guaribas, Santa Luz e Cristino Castro. O local fica a 620 quilômetros da capital. “Nesse parque, estão escavando dois sítios que são absolutamente extraordinários, com coisas fantásticas”, empolga-se Niède. A arqueóloga Fátima Luz, integrante da equipe que atua no parque desde outubro de 2008, detalha essas “coisas fantásticas”. Uma delas é uma sepultura que continha dez esqueletos inteiros e ossos humanos pertencentes a dois indivíduos incompletos. “Esses esqueletos tiveram um aparato especial no enterramento, como adornos feitos de contas perfuradas, ossos de animais trabalhados e perfurados, e conchas”, conta. Por meio de datação pelo carbono 14, chegou-se a, aproximadamente, 6.610 anos (6610±40 BP, sendo 40 a margem de erro. A sigla BP significa before present – antes do presente; por convenção, considera-se esse presente o ano de 1950). Segundo Fátima, as pesquisas feitas na Serra das Confusões trazem a conclusão de que o homem pré-histórico tinha muito respeito por seus mortos. Isso não só pelos adornos que recebiam, mas pela preparação dos corpos, que era feita com ocre (um tipo de argila colorida), e pela proteção com blocos de arenito dada às sepulturas. Atualmente, o Parque possui cerca de 180 sítios arqueológicos, predominando, na maioria deles, pinturas e gravuras rupestres. É cinco vezes maior que a Serra da Capivara, mas ainda não tem infra-estrutura para receber visitações. A demanda de interessados em conhecer o local é atendida por cerca de 20 condutores, que integram a Associação de Condutores do Parque Nacional da Serra das Confusões (Acopanasc). Por mês, conforme o chefe do parque, José Wilmington Paes Landim Pinheiro, o parque recebe cerca de 240 pessoas. O cenário deverá mudar em breve. Os projetos da primeira fase de intervenções que dará estrutura básica para visitação estão quase prontos. A obra é orçada em R$ 2,4 milhões, provenientes de verbas de compensação ambiental, e a previsão era de que os processos de licitações se iniciassem em julho.

Mesmo após terem sobrevivido a milhares de anos, os materiais que compõem os sítios arqueológicos precisam de cuidados para conservar a história que contam. É preciso, por exemplo, tirar as plantas que nascem nas rochas onde há pinturas rupestres, cuidar para que não sofram com a ação das chuvas e retirar folhas secas e madeira morta – combustíveis em potencial. Há sete anos, um incêndio no parque da Serra da Capivara provocou danos em cerca de seis sítios arqueológicos. Desde então, não foram mais registrados acidentes do tipo. Conforme Niède, criou-se uma área limpa em torno do parque e o local conta ainda com uma brigada de incêndio. Outro tipo de dano que acomete alguns sítios é o causado, propositadamente, pelo homem. Segundo a arqueóloga, nos últimos quatro anos, caçadores resolveram “brincar” de atirar nos animais que estão pintados nas rochas, deixando as marcas das balas nas pinturas rupestres. “É uma luta constante (a preservação), porque, aqui no Brasil, não se dá importância a essas obras deixadas pelos nossos ancestrais.” Tanto na Serra da Capivara como na Serra das Confusões, ainda há pessoas morando dentro do limite dos parques.

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tUriSMo Potencial para cinquenta mil turistas ano A Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), em São Raimundo Nonato, formou sua primeira turma de arqueólogos este ano e abriu o curso de Ciências da Natureza. Na Universidade Federal do Piauí (UFPI), os primeiros estudantes de Arqueologia e Conservação de Arte Rupestre estão no terceiro semestre. “Isso aumenta a possibilidade de os jovens da região se formarem”, diz Niède Guidon. A esperança no crescimento da região está também no turismo arqueológico. Estudo realizado no ano passado pela Rede de Patrimonio, Turismo y Desarrollo Sostenible, entidade espanhola, concluiu que o Parque da Serra da Capivara tem potencial para atrair cerca de 50 mil turistas por ano – dentre os quais, 40% estrangeiros. Em 2008, segundo dados da chefia do parque, o local foi visitado por 7.464 pessoas. “Se esse parque estivesse na França, com a maravilha que são a paisagem e as pinturas, esta já seria uma região riquíssima”, argumenta Niède. O Aeroporto Internacional de São Raimundo Nonato, cuja pista começou a receber pousos no ano passado, deverá facilitar as ações de turismo na área, prevê Wilmington. Segundo ele, a Serra das Confusões tenderá a absorver o turista que visita a Serra da Capivara por conta da proximidade entre os dois parques.

fEChAMENto Global Rock Art faz apelo a Lula Entre os últimos dias 29 de junho e 3 de julho, a Serra da Capivara foi sede do XII Congresso Internacional de Arte Rupestre, o Global Rock Art. Segundo a organização, participaram cerca de quatro mil pessoas de vários lugares do mundo, dentre pesquisadores, estudantes e interessados nos estudos de arte rupestre. Esta é a primeira vez que o Brasil sedia o Congresso, que já passou por países como Itália, Índia, Bolívia e Portugal. Durante o evento, foi elaborada uma petição dirigida ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na qual a Fumdham e o Parque Nacional Serra da Capivara pedem ajuda, sob pena de terem suas atividades suspensas. “É com grande preocupação que recebemos a notícia do encerramento ameaçado, devido à falta de financiamento das muitas boas obras da Fundação”, diz o documento escrito por Mila Simões de Abreu, uma das coordenadoras do Global Rock Art. Para assinar a lista eletrônica em prol desse documento, basta acessar o link: http://www.petitiononline.com/fumdham/petition.html.

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SEtE CiDADES

ProfiSSÃo

Pre historia flora e fauna Arqueologia ainda pontual

Para muito alem de Indiana Jones

O Parque Nacional de Sete Cidades, nos municípios de Piracuruca e Piripiri, localizado a 217 quilômetros de Teresina, pode esconder outra parte da Pré-história. Mas, esse potencial ainda é pouco explorado. O local se destaca por suas formações rochosas (divididas em sete conjuntos, chamados cidades) e pela flora e fauna. Na área da Arqueologia, no entanto, as pesquisas precisam ser aprofundadas. O parque possui 22 sítios. Até então, segundo a arqueóloga Conceição Lage, foram feitas pequenas sondagens arqueológicas, ou seja, trabalhos ainda pontuais. A revisão do plano de manejo do parque, acredita ela, pode possibilitar a continuidade desses trabalhos, uma vez que haverá recursos para financiá-los. De acordo com Cristino Pereira da Silva, coordenador de educação ambiental de Sete Cidades, a previsão é de que o plano seja revisado este ano – o atual data de 1979 e veda a realização de escavações, o que impossibilita o aprofundamento das pesquisas arqueológicas. Conceição rebate esse argumento, negando que exista tal impedimento. Segundo ela, para atuar em um parque nacional, é de praxe solicitar autorização. “Não é uma proibição (o fato de ter de solicitar autorização), é uma exigência normal”, explica. Por serem ainda pouco profundas, as pesquisas realizadas em Sete Cidades ainda não conseguem contar o que houve lá há milhares de anos”. “O que encontramos é muito pouco. É preciso ter muita pesquisa, análises complementares, outras sondagens”, diz Conceição. A geógrafa e arqueóloga Andrea Scabello, da Universidade Federal do Piauí (UFPI), está se propondo a explorar esse potencial. Um grupo de 16 estudantes de Arqueologia e Conservação de Arte Rupestre, sob sua tutela, vem se preparando para iniciar pesquisas no parque e verificar como se deu o povoamento da área. “O interesse em Sete Cidades”, conta Andréa, “está tanto na ausência de escavações de grande porte no local como nos problemas de conservação que os sítios sofrem por questões naturais, como a ação dos cupins – embora haja um trabalho permanente de conservação, essa praga sempre retorna.” O grupo pretende ainda focar o turismo arqueológico e a educação patrimonial. Mas, para além do trabalho específico em Sete Cidades, há a intenção de “descentralizar” a Arqueologia do Piauí.

Embrenhar-se numa floresta em busca de tesouros de populações pré-históricas, viver aventuras e decifrar segredos. Qualquer semelhança com o personagem Indiana Jones não é mera coincidência, mas ser arqueólogo é bem mais do que isso. “Não tem nenhuma possibilidade aquilo tudo o que ele faz”, comenta Niède Guidon, ressaltando uma exceção: sim, o arqueólogo arrisca sua vida durante os trabalhos. “Muitos arqueólogos já morreram em acidentes. O trabalho exige concentração e, sobretudo, conhecimento para evitar situações perigosas. Fora isso, não temos ‘bonitas’ andando com a gente e todas aquelas coisas que o Indiana Jones tem”. O arqueólogo Pedro Paulo Funari, em seu livro Arqueologia (Contexto, 2003), afirma que a profissão não deve se desvencilhar de seu caráter aventureiro e romântico, a exemplo de Indiana Jones e dos arqueólogos Heinrich Schliemann (1822-1890) – que buscava reconstituir a trajetória de Ulisses, descrita na Ilíada – e Howard Carter (1874-1939) – que descobriu a tumba de Tutancamon. “Certamente, a Arqueologia não se reduz a essas imagens. É um campo muito mais rico e complexo – atualmente desenvolvido com muito profissionalismo (um tanto distante das versões romanceadas e cinematográficas)”, esclarece. A Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB) define Arqueologia como a “ciência que se dedica ao estudo das sociedades humanas através de seus vestígios materiais e das modificações que imprimiram no meio em que viveram, alterando a paisagem, fauna e flora”. E esses estudos não são somente em campo. Uma boa parcela da emoção das descobertas arqueológicas se dá nos laboratórios, onde são descobertos, por exemplo, a idade e a composição dos artefatos. Apesar de ser famosa pelo seu estudo de populações que não existem mais, a Arqueologia também se ocupa de estudar as sociedades contemporâneas. Andréa Scabello cita como exemplo a chamada Arqueologia do Lixo, que se ocupa em investigar o lixo das residências atuais para determinar padrões de consumo e de descarte. Pedro Paulo Funari cita outro campo: a Arqueologia Industrial, que estuda construções e objetos ligados à indústria, tanto no passado como no presente. Julho/2009

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NiÈDE gUiDoN

sonHos de criança e um QuinTal de mil sÍTios

Niède estudou arqueologia na França. hoje vive em São raimundo Nonato

As brincadeiras da infância de Niède Guidon já davam uma pista de que, em alguns anos, ela transformaria a Arqueologia em profissão. Natural de Jaú, São Paulo, ela passou a infância no interior do estado. Os fins de semana e as férias eram na chácara dos avós. Se hoje seu vigor físico impressiona, certamente ele se deve às correrias e às escaladas em árvores. Obstáculos nunca foram problema. Toda aquela disposição parece inabalável e a mesma destreza pueril pode ser vista nas escaladas das mais altas serras. Ossos do ofício. Ou ainda seria como nas brincadeiras de criança? O gosto pela natureza era evidente e outra profissão não poderia ter sido seguida por Niède. Ela passava horas imaginando desenhos nas nuvens. Com o tempo voltou seu olhar para a terra e passou buscar esses desenhos em rochas e cavernas. A curiosidade foi e ainda é a chave de tudo. Enquanto as outras crianças mal continham a ansiedade em receber um novo presente, Niède

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colocava-se pacientemente a analisar cada detalhe do mimo recém-adquirido. Em seguida vinham os questionamentos. Como funciona? De que é feito? Veio de onde? O mesmo prazer que tinha em brincar, a arqueóloga levou para a vida profissional. Nos tempos de curso de História Natural, na Universidade de São Paulo (USP), dormia apenas quatro horas por noite. Durante o dia trabalhava e à noite tinha as aulas. Ela lembra da época

como um período de puro prazer. O esforço foi recompensado e não demorou para ganhar o mundo. Em 1961, ela foi para Paris, na França, onde fez o curso de Arqueologia. Logo foi contratada como pesquisadora do Centro Francês da Pesquisa Científica. As pesquisas sempre foram voltadas para a arqueologia brasileira. Os trabalhos no Piauí tiveram início em 1970. Sete anos depois ingressou como mestre assistente, na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais. Ali se aposentou, em 1998, já mestre de conferências. Em 1991, deixou Paris, pois havia sido emprestada pela França ao governo do Brasil para coordenar os trabalhos no Parque Nacional da Serra da Capivara. Atualmente, continua vivendo em São Raimundo Nonato, perto do parque. No quintal, quase mil sítios arqueológicos. Desviando das ameaças de morte e das dificuldades como dos galhos das árvores que subia quando menina, ela segue firme, aos 76 anos – 18 deles vividos na Serra da Capivara. Como pinturas rupestres, o esforço de Niède ficará gravado na história da arqueologia mundial. (Baseado no artigo Uma mulher chamada Niède, de Luis Carlos Duarte Cavalcante – Jornal da Ciência, Março de 2005)

Prêmios e títulos NiÈde GuidoN 2007 2005 2005 2005 2005 2004 2002 2001 1995 1994

Prêmio Bunge - Antropologia e Arqueologia, Fundação Bunge. Faz Diferença, O Globo. Ordem do Mérito Cientítico - Grã Cruz, Ministério de Ciência e Tecnologia. Green Prize, Paliber. Prêmio Príncipe Claus, Governo da Holanda. Cientista de Ano, SBPC. Comendador da Ordem do Mérito Cultural, Ministério da Cultura. Medalha CAPES 50 Anos, CAPES. Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito, Governo Francês. Oficial da Ordem do Mérito Educativo, MEC - Brasil.


Em Tese --------

Barros Alves

Padre Cícero, a santidade e a política

S

em qualquer fundamento histórico-sociológico ou mesmo teológico, há uma dificuldade enorme de determinadas pessoas em aceitar que homens que tiveram participação na vida política e social do seu país possam ter tido uma vida de santidade. Com relação aos muçulmanos este é um preconceito visível que assoma entre algumas preeminentes lideranças cristãs, preconceito que chega às raias da ignorância. Assim é que o diálogo interreligioso entre muçulmanos e católicos tem emperrado exatamente porque a liderança católica teima em não vê o Profeta Maomé como um dos homens escolhidos por Deus para cumprir extraordinária missão terrena. E, quer queiram os cristãos, quer não, Maomé além de estadista e guerreiro, foi santo e profeta. Ora, quantos santos que hoje compõem o panteão hagiológico da Igreja Católica não foram também guerreiros e estadistas? Vide a vida de alguns. Paulo, o maior dos apóstolos foi homem de extrema valentia, irrequieto, enfrentou os poderosos de sua época. (“Combati o bom combate, encerrei a carreira e guardei a fé”). São Jerônimo, o excelso tradutor da Bíblia do grego para o latim, a Vulgata, não viveu toda a vida enclausurado, como se pensa. Tinha importantes relações sociais e delas usava para divulgar o Evangelho. Assim também Santo Inácio de Loyola, Santo Thomas Morus e o próprio São Francisco, que foi soldado na juventude. Mais recentemente assoma a figura de São Josemaria Escrivá de Balaguer, fundador da polêmica Prelazia chamada Opus Dei. Aliás, quase todos os santos católicos foram homens que desenvolveram ação sócio-econômica e cultural, influenciando decisivamente o mundo do seu tempo. Tiveram virtudes e defeitos próprios dos seres humanos. Poucos são os que viveram totalmente enclausurados. Enfim, o próprio Cristo é exemplo de homem de ação, porque é, segundo a doutrina aceita por católicos e protestantes, completamente Deus e completamente homem. Teve fome, angustiou-se, chorou, teve medo (“Pai, se for do teu desejo, afasta de mim este cálice de amargura”), teve raiva (fez um azorrague e meteu a peia nos vendilhões do templo). Por que, então, todo este preconceito com a figura extraordinária do Padre Cícero Romão Batista, o inolvidável taumaturgo do Nordeste brasileiro, quanto a ele não merecer ocupar um lugar nos altares da Igreja Católica Apostólica Romana, pelo fato de ter-se imiscuído na política partidária de sua época? Ora, Roma tem uma dívida com a multidão de devotos que ao longo de mais de cem anos crê piamente na santidade do homem que em vida determinou os caminhos da sua comunidade, tanto do viés políti-

co e social quanto do ponto de vista religioso, sedimentando pela coerência de suas atitudes o respeito e a obediência aos postulados emanados pela cúpula da hierarquia de sua Igreja, ainda que alguns deles perfeitamente questionáveis. A Igreja Católica, não negará a confirmação da santidade de “Meu Padim”, porque ele jamais negou obediência, ainda que injustiçado por algum purpurado de visão autoritária. É uma questão de tempo. Os devotos nordestinados do “Meu Padim Ciço”, os daquém e os dalém, não tenhamos pressa, porque o tempo de Deus não é igual ao tempo dos homens e há tempo para tudo debaixo do sol, como refere Eclesiastes. Tratar-se-á de uma confirmação de santidade, pois as populações de nossos sertões adustos já têm certeza plena de que “Meu Padim” é verdadeiramente santoOs protestantes, principais críticos das canonizações levadas a termo pela Igreja Católica Apostólica Romana, também têm, de fato, os seus santos e ídolos. O que eles não fazem – e neste ponto tergiversam, o que significa escamotear a realidade – é praticar explicitamente a veneração dessas figuras que também são respeitáveis, é bem verdade, como líderes religiosos. O primeiro deles é Martinho Lutero, o monge rebelde que se insurgiu contra os erros da Igreja Católica em determinada quadra da história humana. Foi pensador religioso de renome e político dos mais ladinos. Sobre ele pesa, inclusive, o pecado de ter apoiado o massacre de mais de 30 mil camponeses liderados por Thomas Müntzer, também um luterano. Durante a guerra fratricida entre nobres e pobres da Alemanha, Lutero poderia ter usado seu poder junto ao Príncipe Frederico da Saxônia, seu amigo e protetor. Não o fez. Ao contrário, Lutero repudiou o levante, recomendando aos nobres que derrotassem os camponeses, exterminando-os como a “cães raivosos”. Outro nome de grande valor histórico é o erudito João Calvino, que escreveu aos 27 anos de idade, as Institutas da Religião Cristã, obra que sedimentou a reforma protestante no campo doutrinário. Ele rebelou-se contra o Rei Francisco I, da França, foi por este perseguido, fugiu para Genebra e lá tornou-se prefeito, imprimindo governo autoritário. Diz-se que Calvino nada fez para livrar da condenação à morte o seu ex-amigo Miguel de Servet, descobridor da pequena circulação do sangue. Em homenagem ao “Meu Padim Ciço”, cito apenas estes dois exemplos. Duas faces da mesma moeda cristã. Destarte, para que não sejam acoimados de ignorantes, é necessário que os protestantes ao apontarem o dedo em riste para os católicos, estudem primeiro a sua própria história.

Quantos santos que hoje compõem o

panteão hagiológico da Igreja Católica

não foram também guerreiros e estadistas?

da cultura popular (*) Barros Alves é escritor e pesquisador

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CulTuRA

Mestr e Vitalino

A vitalidade dos significados Mestre Vitalino, o maior ceramista popular do Brasil, teria completado 100 anos no último mês de junho. Neste ensaio, o poeta Barros Alves fala sobre a trajetória e o significado da obra desse grande artista nordestino, “quiçá do mundo”, o maior ao imprimir no ‘massapê’ a vida, sua vivência e a de seu povo... Por Barros Alves redacao@nordestevinteum.com.br

O

menino Vitalino é um daqueles rebentos que nascem no interior dos sertões mais adustos e que se transformam em arbustos de têmpera, a insistir na vida sob a fornalha do sol inclemente que queima até o juízo das pessoas. Com o menino Vitalino, a natureza foi mais peculiar, dotando-o de inteligência e vivacidade que destoavam daquela figura pequena, franzina, de tez baça, pele áspera tostada de sol, que se fez um moço como tantos outros do agreste sertão pernambucano. Vitalino Pereira dos Santos cresceu sob o manto da religiosidade popular, crendo piamente que o Padre Cícero Romão Batista é santo (“meu Padim Ciço”) e frequentando desde tenra idade a famosa feira de Caruaru, onde manteve um quiosquezinho para

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vender seus apetrechos de alta criatividade, feito bichos e gente, até o fim da vida. O pai de Vitalino era roceiro, matuto do pé rachado; a mão “loiceira” fazia utensílios domésticos de barro, especialmente utilitários como panelas, para vender na feira da cidade. Vitalino, que nunca pôs os pés numa escola e “era cismado que só sagüi criado no mato”, começou cedo a arte de burilar a cerâmica com as sobras de barro da mãe, ainda que sob o protesto da pobre mulher. Mandava os bichos que fazia com esmero para serem vendidos na feira pelo irmão Joaquim, quase às escondidas. Entusiasmado com o sucesso dos bichos que fazia – “ficava doidinho com o dinheiro que ganhava e perdia até o sono vendo ‘chegá a segunda-feira


ACERVO FJN

Mestre Vitalino, artesão ceramista estaria completando 100 anos.

pra eu trabaiá’” – o rapaz danou-se a fazer bonecos de tudo quanto era jeito, os quais carregavam em si um quê de diferença dos demais, como se tivessem alma e juízo igual a gente. Os bichos que Vitalino fazia também não eram coisa de um artesão que faz do barro o seu ganha-pão, mas tinha algo de artístico que fugia ao próprio entendimento do ceramista, os quais eram por ele chamados apenas como “loiça de brincadeira”. Na década dos 30 do século passado, já adulto, começou a ampliar seus horizontes de criatividade, fazendo grupos de pessoas, notadamente de cangaceiros e soldados, personagens do seu pequeno mundo, mas que também transcendiam a geografia sertaneja, alteando-se na imaginação não apenas de artistas como Vitalino, mas ganhando as páginas da literatura popular, bem como dos jornais do Brasil e de outros países. A imensa criatividade que ele tinha de tratar do mesmo com olhares ricos de pluralidade, a inexplicável sensibilidade de observar e absorver as lições do cotidiano de sua gente a um tempo tão rude e tão ingênua, assim como o esforço pessoal de desenvolver a sua técnica artesanal própria é que fizeram com que se tornasse o maior ceramista popular do Brasil, quiçá do mundo. Ele compreendia a importância de expressar as ações cotidianas do povo, as quais eram justamente o que causa ainda hoje a admiração de todos. Retirantes, casa da farinha, terno de zabumba, batizado, casamento, vaquejada, pastoril, padre, Lampião, Maria Bonita. A novidade, com efeito, não estava no engenho da realização da peça, mas na arte de como ele intentou representar seu povo, o trabalho, suas tristezas, angústias e alegrias. Sobretudo, Vitalino gravava uma “anima” em suas peças, que nada mais é do que extração feita através de extrema sensibilidade, de todo esse mundo rural de homens e mulheres dotados

Como a referendar o informe bíblico de que o homem foi feito do barro, ele modelou o barro antropologicamente, fazendo em seu objeto de trabalho o homem sertanejo de bravura épica e darwiniana capacidade de sobrevivência em ambiente tão hostil. Enfim, foi nesta fase de muito trabalho e grande efervescência criativa que Vitalino se fez mestre, ao imprimir no massapê a vida, a sua vivência e a de seu povo. Como a referendar o informe bíblico de que o homem foi feito do barro, ele modelou o barro antropologicamente, fazendo em seu objeto de trabalho o homem sertanejo. O que Vitalino não sabia é que os seus bonecos estavam falando ao olhar e às emoções de muita gente como uma novidade artística originada de uma sensibilidade a um tempo rústica e delicada, expressão de telurismo que ultrapassava a simplicidade crua dos objetos feitos pelos demais ceramistas de Caruaru. Mas, sobretudo, a força da obra daquele veio a se tornar o fenômeno da arte ceramista aqui e alhures, veio das entranhas do seu próprio povo e de sua mundivivência. Os costumes da nordestinidade e da sertanejice, especialmente do agreste pernambucano, estão imantados de forma imanente na produção artística de Vitalino. E, paradoxalmente, é este telurismo intrínseco na obra vitaliniana, ainda quando trata de temas urbanos como os famosos bonecos de “Operação”, “Doutô escutando doente” ou “Advogado”, que se faz de uma transcendência tal que deve ser isto a explicação para o elevado grau de universalidade que tão singelos objetos do cotidiano de uma cultura quase primitiva alcançaram junto do público e da crítica de Arte. É certo não ser o objeto em si que alcança o que está por trás do olhar do observador. Mas, essa vitalidade de Vitalino permanece em razão dos extraordinários significados de sua obra só explicável por uma atenta leitura semiótica. A obra de Vitalino é o povo nordestino em forma de bonecos e bichos. Mestre Vitalino deixou definitivamente o agreste sertão pernambucano em 1963. Foi fazer bonecos nas oficinas do Divino, mas cá deixou uma grande lista de discípulos e admiradores de sua obra, os quais continuam a alargar o imensurável patrimônio imaterial que legou ao país dos nordestinos. Seus filhos, Severino e Amaro, constituem legítimos continuadores de sua obra, recriando no barro as personagens do mundo nordestinado.

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Economia Solidária

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