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Sumário

AVALIAÇÃO ECONÔMICA DE SISTEMA AGROFLORESTAL PARA RECUPERAÇÃO DE ÁREAS DEGRADADAS Bastiaan P. Reydon Raimundo Cláudio Gomes Maciel Claudia Lima Saldanha1 Gisele Elaine de Araújo Batista2 RESUMO Na Amazônia, os sistemas agroflorestais (SAF's) ganharam espaço na discussão sobre alternativas de plantios que não exijam o desmatamento progressivo como ocorre na agricultura itinerante, praticada pela produção familiar rural. Neste trabalho, avalia-se, mediante indicadores econômicos (valor presente líquido, taxa interna de retorno e relação benefício custo), um SAF experimental para recuperação de áreas degradadas, implantado nas dependências do campus da Universidade Federal do Acre. Sendo avaliados quatro formas de recuperação de solos dentro do sistema. Os resultados apresentados demostram a viabilidade econômica do sistema implantado.

Palavras chaves: avaliação econômica, sistemas agroflorestais, desenvolvimento sustentável

1. INTRODUÇÃO A discussão sobre desenvolvimento sustentável na Amazônia tem recebido bastante atenção nas últimas décadas, principalmente em relação ao modelo de desenvolvimento implantado na região, após 1964, e os seus efeitos perversos em relação às populações tradicionais e ao meio ambiente. O aumento das áreas desflorestadas da Amazônia e os resultados desse processo, tais como a erosão do solo e a poluição das águas, tem evidenciado a necessidade de reflexão sobre as formas tradicionais de uso da terra, paralelo à formulação de perspectivas que combinem tanto a preservação dos recursos naturais, quanto a elevação do nível de renda sobretudo dos pequenos produtores familiares. Ao longo do processo de colonização da Amazônia, a agricultura migratória ou itinerante, praticada quando "o plantio das culturas é efetuado após a derrubada e a queima da floresta primária ou capoeira" (Franke, Amaral, Lunz, 1998, p.9), tem-se constituído numa das principais formas de devastação de áreas florestais, pois o local aberto com fins agrícolas é utilizado no máximo por três anos. Após esse período, verifica-se a queda na fertilidade do solo e a necessidade de abertura de uma nova área para plantio. Nesse contexto, os Sistemas Agroflorestais (SAF's), caracterizados por Fassbende apud Peneireiro ( 1997, p.1), "como uma série de sistemas e tecnologia de uso da terra onde se combinam árvores com cultivos agrícolas e/ou pastos em função de tempo e espaço para incrementar e otimizar a produção de forma sustentada", podem se constituir numa forma de uso da terra viável, assegurando tanto sustentabilidade ambiental, por meio da recuperação de áreas desflorestadas, como econômica, com a diversificação de culturas com potencialidades de mercado numa mesma área. (Franke, Amaral, Lunz, 1998) Apesar da prática de SAF's não ser recente, somente na década de 90 verificou-se uma ênfase maior sobre o assunto, (Van Leeuwen et al, 1997; Santana, Tourinho, 1998), 1 2

Graduanda de Economia na UFAC Graduanda de Economia na UFAC 1


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mediante a intensificação de pesquisas e estudos sobre suas potencialidades na Amazônia, e mais especificamente no Acre. Nesse sentido, o Parque Zoobotânico da Universidade Federal do Acre (UFAC) vem realizando desde de 1997 a 2º fase do Projeto Arboreto de Pesquisa e Extensão Agroflorestal para a Recuperação de Solos Degradados. Este projeto tem caráter multidisciplinar, envolvendo diversas áreas de estudos como economia, biologia, agronomia, etc. De forma geral, a pesquisa objetiva “aumentar a sustentabilidade dos SAF's através do aumento da diversidade biótica, da complexidade estrutural e de função do ecossistema" (Meneses Filho, 1997, p.9). Uma vez que, uma das maiores preocupações desse projeto concerne à baixa diversidade dos sistemas agroflorestais acreanos e ao baixo índice de fertilidade do solo, que poderia ser amenizado através da ciclagem da biomassa proveniente da própria agrofloresta. Como experimento de SAF, foi instalado em 1998, pelo projeto Arboreto, uma unidade demonstrativa nas dependências do Campus da UFAC, numa área com baixo índice de fertilidade que anteriormente era utilizada como pastagem. A escolha desta área visou testar o comportamento de diversas culturas em sistema agroflorestal sob formas diferentes de recuperação de solo. Este trabalho foi desenvolvido pelo do projeto Arboreto, como um subprojeto na área de economia, para contribuir na discussão sobre a viabilidade econômica de sistemas agroflorestais na Amazônia, considerando os resultados da avaliação econômica do sistema experimentado. 2. MATERIAL E MÉTODO Na área experimental da UFAC foram implantados três repetições de um SAF com área correspondente 0,25 ha cada repetição. A combinação de culturas dentro do sistema envolve madeireiras, frutíferas permanentes e semi-permanentes, leguminosas e culturas anuais, conforme quadro 1. Quadro 1 – Culturas componentes do SAF implantado na UFAC CATEGORIAS ESPÉCIES Contorno de madeira Teca , mogno, freijó Frutíferas Permanentes Abiu3, caju, araçá-boi, açaí Frutíferas Semi-permanentes Banana, cana, mamão e maracujá Culturas anuais Abóbora, arroz, feijão, gergelim, mandioca, maxixe e milho Leguminosas Ingá, gliricídia e mulungú Nessa combinação, todas as espécies tem sua função. As culturas anuais e as semi-permanentes contribuirão para a amortização dos custos de implantação, as leguminosas estão incumbidas de manter o nível de fertilidade da área, e o contorno de madeireiras, juntamente com as culturas permanentes, serão responsáveis pelos rendimentos nos anos subsequentes. As três repetições do SAF tiveram suas áreas divididas em quatro parcelas iguais, com áreas equivalentes a 0,06 ha, nas quais foram aplicadas uma forma de recuperação de solo para cada 1/4 da área do sistema: Tratamento 1 (T1): NPK + Calcário; Tratamento 2 (T2): Calcário + SPT Tratamento 3 (T3): Coquetel + Calcário + SPT; Tratamento 4 (T4): Coquetel. 3

O abiu foi implantado no SAF mas, não foi considerado na avaliação econômica por falta de dado principalmente à respeito dos custo de produção. 2


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Para fins de avaliação econômica, considerou-se a vida útil da cultura de maior duração dentro do sistema (açaí), corresponde a 40 anos, como o período limite para obtenção do retorno do investimento. Avaliou-se separadamente o rendimento de cada tratamento extrapolando sua área real para um hectare. A comparação entre as quatro parcelas do SAF permitiu identificar qual apresentou maior viabilidade. Os dados utilizados referem-se a somente um dos três sistemas implantados, os demais tratam-se de repetições, inclusive em relação aos tratos culturais. Para calcular a rentabilidade do SAF, de acordo com cada tratamento, utilizou-se os indicadores econômicos o Valor Presente Líquido (VPL), a Taxa Interna de Retorno (TIR) e a relação Benefício/Custo (B/C). A taxa de juros usada nos cálculos foi de 5%, que é a mesma utilizada nas linha de crédito para pequena produção familiar rural pelo Fundo Constitucional do Norte (FNO) e representa o custo de oportunidade de mercado. Segundo Buarque (1982), o valor presente líquido que é a atualização do fluxo de caixa anual, descontada por uma determinada taxa de desconto, indica a rentabilidade do investimento, e é dado pela fórmula: Sendo: N

VPL = ∑ J =0

Rj − Cj (1 + i ) j

−I

R= receita no ano j C= custo total no ano j I= investimento no ano j i= taxa de desconto j= anos (1, 2, ... , n)

Buarque (1984, p. 149), afirma que, "a taxa interna de retorno é calculada com base nos próprios dados do fluxo de fundos, sem a necessidade de arbitrar-se um taxa de desconto". Este índice permite calcular o percentual de retorno do investimento e compará-lo ao custo de oportunidade de mercado. Segundo Rêgo (1996, p.40-41), a TIR “é a taxa que torna o VPL nulo ou a relação B/C igual a 1”, representada pela fórmula: sendo:

TIR = TMV a + + ( MVa + / Mv a + + Va − D * K TIR = taxa interna de retorno TMVa+ = taxa do menor valor atual positivo MVa+ = menor valor atual positivo |Va-| = valor absoluto do valor atual negativo seguinte k = intervalo das taxas que definem os valores atuais em torno de zero.

Ainda segundo Rêgo (1996, p.40), "a relação benefício/custo é o quociente entre o valor atualizado das rendas brutas e o valor atualizado dos custos totais, descontados a uma taxa de juro, durante os anos da vida útil do sistema de produção. Se a relação B/C ≥ 1 o sistema de produção será considerado viável." Os dados utilizados para a avaliação econômica são fundamentalmente dados projetados, o que a caracteriza como "ex-ante". As informações reais referem-se aos dois primeiros anos de implantação. A partir deste período, as projeções foram elaboradas com base nas descrições dos tratos culturais do sistema feitas pela equipe técnica do projeto Arboreto, além da utilização de informações de fontes secundárias

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3. RESULTADOS E DISCUSSÕES A avaliação econômica aponta que as quatro formas de tratamento experimentados no SAF são economicamente viáveis, conforme tabela 2. Demonstrando que a implantação do SAF sob qualquer uma das formas de tratamento experimentadas podem trazer retornos econômicos favoráveis. Entre os tratamentos, destaca-se o tratamento três por apresentar todos os índices maiores que os demais, com a TIR atingindo mais de 50% de retorno e um VPL de R$ 10.359,13. Nesta forma de tratamento, apesar da adubação orgânica ser parte de sua composição, ainda é utilizado grande parcela de adubação química. Considerando que os sistemas agroflorestais objetivam ser auto-suficientes com respeito à incrementação da fertilidade da terra, torna-se fundamental observar que o tratamento quatro, utilizando apenas adubação orgânica, mostrou-se viável com a TIR e B/C significativos e similares aos tratamentos que utilizaram exclusivamente adubação química. Isto corrobora a hipótese de que um sistema agroflorestal é capaz de fornecer nutrientes suficientes para o desenvolvimento das culturas do sistema, oferecendo uma boa produtividade, sem necessariamente recorrer a adubos químicos. Este fator é muito importante especialmente para o pequeno produtor familiar que na maioria das vezes não tem acesso - ou não deseja - esse tipo de recurso. Tabela 1 - Avaliação Econômica do SAF Multiextrato - Área 1 ha Tratamento 1 Tratamento 2 Tratamento 3 Tratamento 4 Valor Presente Líquido 10.174,91 7.496,33 10.359,13 5.480,30 Taxa Interna de Retorno 27,48% 22,03% 51,89% 20,71% Benefício/Custo 1,29 1,31 1,51 1,27

Um dos propósitos dos sistemas agroflorestais consiste em diversificar a produção de quem o implanta, possibilitando tanto a melhoria do nível de vida da família - com a elevação do autoconsumo - como a diminuição dos riscos do empreendimentos, mediante geração de renda pelo conjunto das culturas do sistema (Van Leeuwen, 1997). Isto atenuaria a dependência econômica que geralmente sofre um produtor de monocultivo. Para verificar a existência desse comportamento no sistema agroflorestal implantado supôs-se que, por um motivo qualquer, uma ou mais das culturas permanentes, responsáveis pelo retorno do investimento, não conseguiriam realizar sua produção. Para tanto, foram propostos dois cenários para os tratamentos três e quatro. No primeiro, desconsiderou-se da avaliação os resultados gerados pela cultura do caju, que em experimentos da Coordenação de Pesquisa em Ciências Agronômicas - CPCA/INPA - em Manaus não se adaptou bem ao clima do trópico úmido, favorecendo a ocorrência de tracnose (Van Leeuwen, 1997); no segundo, foram excluídos os resultados tanto do caju, quanto do araçá-boi. Conforme os cenários apresentados nas tabelas 3 e 4, os tratamentos analisados mantiveram-se viáveis. Mesmo no cenário em que o sistema passou a depender basicamente de uma única frutífera (açaí) e das madeireiras, as duas formas de tratamento continuaram com o VPL positivo; o retorno do investimento (TIR) em ambos os casos caíram pela metade, mas permaneceram acima do custo de oportunidade do mercado, em torno de 5%. Portanto, o sistema agroflorestal implantado poderá gerar uma renda significativa, mesmo sem conseguir realizar a produção de todas as culturas que dele fazem parte.

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Indicadores VPL TIR B/C Indicadores VPL TIR B/C

Tabela 2 - Cenários do Tratamento 3 SAF Atual SAF: açaí, araçá, madeira 10.359,13 8.007,97 51,89% 44,02% 1,51 1,42

SAF: açaí, madeira 5.523,78 22,64% 1,32

Tabela 3 - Cenários do Tratamento 4 Valores atuais: Açaí, araçá, madeira 5.480,30 3.722,32 20,71% 14,91% 1,27 1,20

1.965,25 8,91% 1,12

Açaí, madeira

Apesar da viabilidade econômica apresentada, o não envolvimento dos produtores no delineamento e na implantação do sistema testado gera algumas incertezas quanto à adoção deste por parte dos agricultores. Segundo Van Leeuwen (1994) "a participação do produtor ajuda a resolver em parte o problema das prioridades e permite ver o funcionamento da proposta tecnológica em condições reais". Enfatizando, que a "participação do produtor seja verdadeira, tanto em relação às decisões como ao uso dos recursos". O acúmulo de experiência com a terra, permite ao produtor indicar, em parte, aspectos como, compatibilidade entre a área implantada e a disponibilidade de sua mão-deobra, a adaptação da tecnologia utilizada à sua realidade, o grau de interesse e/ou a tradição no cultivo de determinadas culturas, etc. Observando a necessidade de trabalhar em propriedades agrícolas, o projeto Arboreto está desenvolvendo, juntamente com produtores, novas experiências com SAF no Projeto de Assentamento Dirigido (PAD) Humaitá no município de Porto Acre - Acre. 4. CONCLUSÕES O SAF implantado na Unidade Demonstrativa da UFAC teve sua área dividida em quatro parcelas e a aplicação de uma forma tratamento para recuperação da fertilidade da terra em cada uma dessas parcelas. Os dois primeiros tratamentos foram adubados exclusivamente com adubos químicos; no terceiro, empregou-se adubação química e orgânica e, finalmente no quarto tratamento utilizou-se somente adubação orgânica. As avaliações econômicas das quatro partes dos SAF demonstrou que o sistema é viável economicamente submetido a qualquer forma de tratamento acima descrito. Quando comparados entre si, o terceiro tratamento apresentou rendimentos maiores que todos os demais. A importância da viabilidade econômica do quarto tratamento assegura-se no fato deste utilizar exclusivamente adubos orgânicos, facilitando a adoção deste pelos pequenos produtores. BIBLIOGRAFIA: BUARQUE, Cristovam. Avaliação Econômica de Projetos. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1984. p. 130-178. FRANKE, Idésio L., AMARAL, Eufran F., LUNZ, Aureny M. P. Sistemas Agroflorestais no Estado do Acre: problemática geral, perspectivas, estado atual de conhecimento e 5


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pesquisa. Rio Branco: EMBRAPA - CPAF/AC, 1998. 41 p. (Embrapa-CPAF/AC, documentos, 38) MENEZES FILHO, Luís C. de L. (coord.) Projeto Arboreto: pesquisa e extensão agroflorestal para a recuperação de áreas degradadas no Acre – II fase 1997-1999. Rio Branco: UFAC – Parque Zoobotânico, 1997. p.73 (projeto de pesquisa) PENEIREIRO, Fabiana M. Sistemas Agroflorestais para uma agricultura Sustentável: produção aliada à conservação dos recursos naturais. Piracicaba, 1997. 09 p. (não publicado) RÊGO, José Fernandes do (coord.). Análise econômica de sistemas básicos de produção familiar rural no vale do Acre. Rio Branco: UFAC, 1996. 53 p. (Projeto de Pesquisa do Departamento de Economia da UFAC) RODIGHERI, H.R., GRAÇA, L.R., DE CONTO, A., HOEFLICH, V.A. Rentabilidade de Plantios Florestais Puros, de Sistemas Agroflorestais e de Culturas Agrícolas no Sul do Brasil. In: XXXVI Congresso Brasileiro de Economia e Sociologia rural. Poços de Caldas: SOBER, 1998. p 391-407 SANTANA, A. C, TOURINHO, M. M. Notas sobre Avaliação Sócio-Ecoômica Agroflorestais na Amazônia. In: XXXVI Congresso Brasileiro de Economia e Sociologia rural. Poços de Caldas: SOBER, 1998. p 165-177 Van LEEUWEN, Johannes et al. Sistemas Agroflorestais para a Amazônia: importância e pesquisas realizadas. In: Noda, H., Souza, L.A.G. e Fonseca, O.J.M (eds). Duas décadas de contribuições do INPA à pesquisa agronômica no trópico úmido. INPA, Manaus, 1997. p.131-146. (disponível no endereço http://peixe-boi.inpa.gov.br/cpca/johannes.html) Van LEEUWEN, Johannes. Planejamento de Ensaios com Sistemas Agroflorestais. In: Anais, I Congresso Brasileiro sobre Sistemas Agroflorestais e I Encontro sobre Sistemas Agroflorestais nos Países do Mercosul, Porto Velho, RO, 03 a 07 de julho de 1994. Colombo: EMBRAPA, PR, vol. 1: p.463-473. (disponível no endereço http://peixeboi.inpa.gov.br/cpca/johannes.html)

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AVALIAÇÃO ECONÔMICA DE SISTEMA AGROFLORESTAL PARA RECUPERAÇÃO DE ÁREAS DEGRADADAS  

Na Amazônia, os sistemas agroflorestais (SAF’s) ganharam espaço na discussão sobre alternativas de plantios que não exijam o desmatamento pr...

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