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PATRICIA BRIGGS

FAIR GAME Livro 03 da Série Alfa e Ômega

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Dizem que os opostos se atraem. Esse era o caso dos homens lobos, Anna Latham e Charles Cornick, eles se acasalaram. O filho e executor do líder dos homens lobos da América do Norte, Charles, é um alfa dominante. Enquanto Anna, um ômega, tem a rara habilidade de tranquilizar os outros da sua espécie. Agora que os homens lobos se revelaram para os humanos, não podiam permitir nenhuma publicidade ruim. As infrações que podiam ter sido omitidas no passado agora deviam ser castigadas, e a tensão de fazer o trabalho sujo de seu pai está cobrando o seu preço a Charles. Entretanto, Charles e Anna são enviados para Boston, quando o FBI solicita a ajuda do bando em um caso local de assassinatos em série. Eles depressa percebem que não só as últimas duas vítimas eram homens lobos, mas todas. Alguém estava caçando a sua espécie. E agora Anna e Charles colocaram-se diretos na mira do assassino...

Revisão Inicial: AkraSota e Vanessa Revisão Final: Amanda Visto Final: Márcia PROJETO REVISORAS TRADUÇÕES

Para todos aqueles que vivem na escuridão lutando contra monstros, para que o resto de nós fiquemos seguros.

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PRÓLOGO 

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Um Conto de Fadas Era uma vez uma garotinha chamada Leslie. No ano em que ela fez oito anos duas coisas aconteceram: sua mãe abandonou Leslie e seu pai para se mudar para Califórnia com um corretor da bolsa; e, no meio de um sensacional julgamento por homicídio, as fadas das histórias e das canções admitiram sua existência. Leslie nunca soube de sua mãe novamente, mas os faes eram outro assunto. Quando ela tinha nove anos, seu pai aceitou um trabalho em uma cidade estranha, mudando-os da casa em que ela cresceu para um apartamento em Boston, onde eles eram as únicas pessoas negras em um bairro de brancos. Seu apartamento ocupava o piso superior de uma casa estreita, cuja dona vivia no andar de baixo, a Sra. Cullinan, que tomava conta de Leslie enquanto seu papai estava no trabalho, e que com seu amparo silencioso facilitou o caminho de Leslie na sociedade das crianças do bairro, que casualmente a visitavam para biscoitos ou limonada. Nas mãos capazes do Sra. Cullinan, Leslie aprendeu crochê, tricô, costura e culinária, enquanto seu pai mantinha a casa e o gramado da velha mulher em perfeita forma. Mesmo quando adulta Leslie não estava certa se seu pai pagava à velha mulher ou se ela tomou a iniciativa de cuidar de Leslie sem o consultar. Era o tipo de coisa que Sra. Cullinan faria. Quando Leslie estava na terceira série, um dos meninos do jardim de infância sumiu. Na quarta série, uma de seus colegas, uma menina chamada Mandy, desapareceu. Existiam também, ao longo do mesmo período de tempo, muitos animais perdidos—principalmente gatinhos e cachorros jovens. Nada que teria atraído sua atenção, não fosse pela Sra. Cullinan. Em uma de suas caminhadas diárias (a Sra. Cullinan as chamava de “o caminho das fofoqueiras”, pois serviam para ver o que as pessoas em seu bairro estavam fazendo), a velha senhora começou a tirar os cartazes sobre animais perdidos presos nas vitrines, e colá-los em um pequeno caderno, no qual escrevia informações a respeito. — Nós estamos procurando por animais perdidos? — Leslie perguntou finalmente. Ela aprendia principalmente pela observação do que fazendo perguntas por que, em sua experiência, pessoas mentiam melhor com seus lábios do que com suas ações. Mas, como a senhora não deu uma boa explicação para a lista de animais perdidos, ela foi forçada, afinal, a recorrer às palavras. — É sempre bom ficar de olho. — Era uma resposta insuficiente, mas como a Sra. Cullinan soou perturbada, Leslie não perguntou de novo. Quando o cachorrinho que Leslie ganhou de aniversário, um vira-lata com olhos marrons e grandes pés, sumiu, a Sra. Cullinan franziu os lábios e disse:

— É hora de pôr um fim nisto. — Leslie tinha certeza que a senhora não sabia que alguém a tinha escutado.

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Leslie, seu pai e a Sra. Cullinan estavam jantando alguns dias depois do desaparecimento de seu filhote quando uma limusine parou em frente à casa da senhorita Nellie Michaelson. Emergiram das profundezas escuras daquele brilhante veículo dois homens de terno e uma mulher em um vestido branco florido, que parecia muito fresco e leve para combinar com o traje dos homens. Eles estavam vestidos para um enterro e ela para um piquenique no parque. Sem vergonha de espiar, o pai de Leslie e a Sra. Cullinan deixaram a mesa para olhar pela janela as três pessoas que entravam na casa da senhorita Nellie sem bater. — Quem são eles…? — A expressão de curiosidade no rosto de seu pai mudou (ninguém nunca visitou a senhorita Nellie) para horrorizada num segundo, e ele agarrou seu revólver de serviço e seu distintivo. Sra. Cullinan o pegou na varanda da frente. — Não, Wes - ela disse em uma voz estranha, feroz. — Não. Eles são faes e é a bagunça deles que vieram limpar. Você deve deixá-los fazer o que eles precisam fazer. Leslie espreitou em torno dos adultos e finalmente viu o que colocou todo mundo nervoso. Os dois homens estavam levando Nellie para fora de sua casa. Ela estava lutando, sua boca escancarada como se estivesse gritando, mas não havia nenhum som. Ela sempre achou que Nellie parecia uma modelo ou uma estrela de cinema, com seus olhos azuis tristes e boca suave levemente curvada para baixo. Mas ela não parecia tão bonita agora. Ela não parecia assustada, mas enfurecida. Seu rosto bonito estava torcido, feio, de uma forma que tirou o fôlego de Leslie, assustando-a de um modo que assombraria seus sonhos até quando crescesse. A mulher no esvoaçante vestido feérico, que tinha vindo com os homens, saiu da casa quase o mesmo tempo em que os homens terminavam de colocar Nellie no banco de trás do carro. Ela trancou a porta da casa de Nellie, e quando terminou ela olhou para cima e viu o três assistindo. Depois de uma pausa, atravessou para a rua e a calçada abaixo deles. A mulher não pareceu estar caminhando rápido, mas ela já estava abrindo o portão da frente quase antes de Leslie perceber que se dirigia até eles. — E para onde vocês pensam que estão olhando? - Ela disse indulgente, em uma voz que fez com que o pai de Leslie em um estalo segurasse o cabo da arma no coldre. A Sra. Cullinan deu um passo a frente, sua mandíbula apertada como no dia em que ela enfrentou um par de jovens valentões que decidiram que uma mulher velha era um jogo justo. — Justiça. — respondeu, com a mesma ameaça suave que usou com os meninos que a acharam uma presa fácil. — E não seja arrogante comigo. Eu sei o que você é e não lhe tenho medo. A cabeça da estranha mulher inclinou-se agressivamente e seus ombros ficaram rígidos. Leslie deu um passo atrás de seu pai. No entanto, a resposta da Sra. Cullinan chamou a atenção dos homens na limusine.

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— Eve — disse um dos homens, com a mão apoiada na porta aberta do carro. Sua voz era suave e rica, tão cheia e com um toque irlandês quanto a da própria Sra. Cullinan, e essa voz reverberou através da rua e pelo quarteirão como se não houvesse nenhum outro som na cidade para amortecê-la. — Venha para o carro e faça companhia ao Gordie, ok? - Até Leslie soube que não era um pedido. A mulher endureceu e estreitou o olhar, mas deu a volta e foi embora. Quando ela tomou seu lugar no carro, o homem os abordou. — Você deve ser a Sra. Cullinan. — ele disse assim que chegou ao lado deles da rua e perto o suficiente para uma conversa mais pessoal. Ele tinha um daqueles rostos quase bonitos, que não se sobressaíam na multidão - com exceção de seus olhos. Não importa o quanto tentasse, Leslie nunca conseguiu lembrar qual a cor deles, apenas que eram estranhos, exóticos e bonitos. — Você sabe que eu sou. — respondeu duramente a Sra. Cullinan. — Nós apreciamos que você nos tenha chamado e eu gostaria de deixar uma recompensa. — ele estendeu um cartão de negócios para ela. — Um favor quando você mais precisar. — Se as crianças estão seguras para brincar livremente em seus jardins, então isto é recompensa o bastante. — Ela secou suas mãos nos quadris e não fez nenhum movimento para pegar o cartão dele. Ele sorriu, mas não baixou sua mão. — Eu não ficarei em divida com você, Sra. Cullinan. — E eu sou esperta o suficiente para aceitar um presente das fadas. — ela retrucou. — Uma recompensa. — ele disse. — Uma pequena coisa. Eu prometo que nenhum prejuízo intencional atingirá você ou os seus enquanto eu viver. Então, num tom suplicante ele disse: — Vamos. Eu não posso mentir. Isto é uma época diferente, na qual sua espécie e a minha precisam aprender a conviver. Você podia ter dito a polícia suas suspeitas; que estavam corretas. Mas, se tivesse feito isso, ela não teria sido impedida antes de matar ainda mais vidas do que já tirou. — ele suspirou e deu uma olhada atrás, para as janelas escurecidas do carro. — É difícil mudar quando se é tão velho, e ela sempre teve o hábito de comer coisas pequenas, era nossa Nellie. — Foi por que eu chamei você. — disse a Sra. Cullinan resoluta. — Eu não sabia quem estava levando os pequenos até que vi Nellie em nosso quintal duas noites atrás e, então, o filhotinho desta criança desapareceu pela manhã. O fae olhou para Leslie pela primeira vez, mas ela estava muito chateada para interpretar seu rosto. “Comer coisas pequenas”, o homem disse. Os filhotes de cachorro eram coisas pequenas. 7


— Ah... — ele disse depois de um momento longo. — Criança, você pode se confortar sabendo que a morte do seu filhote significa que ninguém mais morrerá pelos pecados daquela pessoa. Dificilmente é uma recompensa justa, eu sei, mas é alguma coisa. — Dê a ela. - disse a Sra. Cullinan de repente. — O filhote dela morreu. Dê sua recompensa a ela. Eu sou uma mulher velha com câncer, eu vou viver por todo esse ano. Dê isto a ela. O homem fae olhou para Sra. Cullinan, então baixou-se em seu joelho na frente de Leslie, que segurava apertado a mão do seu pai. Ela não sabia se estava chorando por seu filhotinho, ou pela velha mulher que era mais sua mãe do que sua própria mãe já tinha sido, ou por ela mesma. — Um presente por uma perda. - ele disse. — Tome isto e use quando você mais precisar. Leslie pôs sua mão livre para trás. Ele estava tentando compensar a morte do seu filhote com um presente, como as pessoas tentaram fazer depois que sua mãe partiu. Os presentes não melhoraram as coisas. Bem o oposto, em sua experiência. O ursinho gigante que sua mãe deu a ela na noite em que partiu estava enterrado no fundo do armário. E embora Leslie não pudesse se livrar dele permanentemente, ela também não podia olhá-lo sem sentir-se doente. — Com isto, você pode ter um carro ou uma casa. — o homem disse. — Dinheiro para estudar. — ele sorriu tão gentilmente que o fez parecer totalmente diferente, mais real de alguma forma, quanto ele continuava: — Ou salvar algum outro filhote de cachorro dos monstros. Tudo que você tem que fazer é desejar forte e rasgar o cartão. — Qualquer desejo? — Leslie perguntou cautelosamente, pegando o cartão mais porque não queria ser o foco da atenção do homem por mais tempo do que por querer o cartão. — Eu quero meu filhote de cachorro de volta. — Eu não posso trazer ninguém ou qualquer coisa de volta a vida. - ele disse com tristeza. — Eu gostaria de poder. Mas, fora isso, eu posso fazer quase qualquer coisa. Ela olhou fixamente para o cartão em sua mão. Tinha só uma palavra escrita: levantou. Então, sorriu - uma expressão tão alegre e leve como ela nunca viu.

PRESENTE.

Ele se

— E, senhorita Leslie — ele disse, ainda que não devesse saber seu nome — Não deseje mais desejos. Não funciona assim. Ela tinha acabado de pensar... O estranho homem voltou-se para a Sra. Cullinan, segurou a mão dela na dele e beijou-a. — Você é uma mulher de rara beleza, raciocínio rápido e espírito generoso.

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— Eu sou uma velha curiosa e enxerida — ela respondeu, mas Leslie podia ver que ficou lisonjeada. Quando se tornou adulta, Leslie manteve o cartão que o homem fae lhe deu dobrado atrás de sua licença de motorista. Parecia tão limpo e novo como no dia em que ela concordou em pegá-lo. Para o choque dos médicos, o câncer da Sra. Cullinan misteriosamente desapareceu e ela morreu em sua cama vinte anos mais tarde, aos noventa e quatro. Leslie ainda sente sua falta. Leslie aprendeu duas coisas valiosas sobre os faes naquele dia. Eles eram poderosos e encantadores; e eles comiam crianças e cachorrinhos. CAPÍTULO 1  Aspen Creek, Montana — Vá para casa. — Bran Cornick rosnou para Anna. Ninguém que já o tivesse visto naquele estado esqueceria o que espreitava por trás da fachada de Marrok amável e bem educado. Mas só aqueles que fossem estúpidos, ou desesperados, arriscariam acender sua ira e revelar o monstro atrás da máscara de bom sujeito. Anna estava desesperada. — Quando você me disser que deixará de pedir a meu marido para matar pessoas. — Anna disse a ele determinada. Ela não gritou, ela não berrou, mas não iria desistir facilmente. Claramente, ela o empurrou para a borda muito estreita de seu último fragmento de comportamento civilizado. Ele fechou os olhos, se virou para longe dela e disse, em uma voz muito gentil: — Anna, vá para casa e acalme-se. Vá para casa até que ele se acalmasse, era a mensagem. Bran era seu sogro, seu Alfa, e também era o Marrok que governava todos as bandos de homens lobo daquela parte do mundo, simplesmente por sua força de vontade. — Bran... O poder de Bran arrebentou junto com seu temperamento, e os outros cinco lobos, além de Anna, que estavam na sala da casa caíram ao chão, até mesmo sua companheira Leah. Eles curvaram suas cabeças e as inclinaram ligeiramente para o lado, expondo suas gargantas. Embora Bran não tivesse feito nenhum movimento, a velocidade das rendições atestava a sua raiva e seu domínio, e só Anna, um pouco surpresa pela própria audácia, ficou de pé. Quando ela chegou a Aspen Creek, espancada e abusada como tinha sido, se alguém tivesse gritado com ela, se esconderia num canto e não sairia por uma semana. 9


Ela encontrou olhos de Bran e mostrou seus dentes quando a onda de poder dele a transpassou como uma brisa de primavera. Não que ela não estivesse devidamente apavorada, mas não por Bran. Ele, ela sabia, realmente não a machucaria e se pudesse a ajudaria, não importa o que seu cérebro estivesse lhe dizendo agora. Ela estava apavorada para seu companheiro. — Você está errado. — Anna disse a ele. — Errado. Errado. Errado. E você está determinado a não ver isto até que ele esteja quebrado além do conserto. — Cresça pequena menina — Bran rosnou, e agora seus olhos — ouro brilhante expurgando o habitual castanho - estavam enfocados nela em vez de na lareira na parede. — A vida não é uma cama de rosas e as pessoas têm que fazer trabalhos duros. Você sabia o que Charles era quando se casou com ele e o tomou como seu companheiro. Ele estava tentando focar o assunto nela porque então não teria que ouvi-la. Ele não podia ser tão cego, só muito teimoso. Então sua tentativa de mudar o argumento, quando não deveria existir nenhum argumento, a enfureceu. — Se alguém aqui está agindo como uma criança, não sou eu. - ela rosnou de volta para ele. O grunhido de Bran foi uma resposta sem palavras. — Anna se cale. — Tag sussurrou com urgência, o grande corpo no chão, com seus dreadlocks alaranjados em confronto com o tapete persa marrom. Ele era seu amigo e ela confiava no julgamento do berserker na maioria das coisas. Sob outras circunstâncias ela o teria escutado, mas agora mesmo ela tinha Bran tão bravo que não conseguia nem falar, de modo que ela pudesse conseguir algumas palavras daquela mente teimosa e inflexível. — Eu conheço meu companheiro. — ela disse a seu sogro. — Melhor que você. Ele quebrará antes de desapontar você ou falhar com seu dever. Você tem que parar isto, porque ele não pode. Quando Bran falou, sua voz era um sussurro sem timbre: — Meu filho não se curvará ou se quebrará. Ele tem feito seu trabalho por um século antes de você ter nascido, e ele fará isto por mais outro século. — O trabalho dele era distribuir justiça — ela disse. — Mesmo que significasse matar pessoas, ele podia fazê-lo. Agora ele é meramente um assassino. Suas presas se agarram a seus pés arrependidos e redimíveis. Eles choram e imploram por uma clemência que ele não pode dar. Isso o está destruindo ela disse diretamente — E eu sou a única que vê isso. Bran se encolheu. E pela primeira vez ela percebeu que Charles não era o único que sofria debaixo das mais novas e severas que os homens lobos tinham que viver. — Tempos desesperados — ele disse sombriamente, e Anna torceu para que o tivesse convencido. Mas ele afastou a suavidade momentânea e disse: 10


— Charles é mais forte do que você acredita. Você é uma menininha tola que não sabe tanto quanto pensa que sabe. Vá para casa antes que eu faça algo que lamentarei depois. Por favor. Foi esse breve intervalo que lhe disse que isto era inútil. Ele sabia. Ele entendia, e ele estava na esperança de que Charles pudesse aguentar. Sua raiva fugiu e deixou… desespero. Ela encontrou os olhos de seu Alfa por um momento antes de reconhecer o fracasso.

ANNA SOUBE EXATAMENTE quando Charles chegou, voltando de Minnesota, onde foi cuidar de um problema que o líder da bando não conseguia resolver. Se ela não escutasse o som do caminhão ou a porta da frente, ainda assim teria sabido que Charles estava em casa pela magia que vinculava o lobo acasalado. Mas isso era só o que lhe dizia o vínculo. Entretanto, o lado dele no vínculo estava tão nebuloso quanto ele conseguiu deixar, e isso disse a ela muito mais sobre seu estado de espírito do que ele provavelmente pretendia. Pelo modo como que ele não deixava nada chegar até ela, Anna soube que tinha sido outra viagem ruim, uma que deixou muitos mortos, provavelmente pessoas ele não queria matar. Ultimamente, todas tinham sido viagens ruins. No começo ela tinha podido ajudar, mas quando as regras mudaram, quando os homens lobo admitiram sua existência para o resto do mundo, o escrutínio público fez com que a “segunda chance” dada aos que quebravam as leis de Bran, passassem a ser dadas apenas em circunstâncias extraordinárias. Ela continuou viajando com ele porque se recusava a deixar Charles sofrer sozinho. Mas quando Anna começou a ter pesadelos com o homem que caiu de joelhos na frente dela, numa súplica muda antes de sua execução, Charles decidiu não deixá-la ir mais. Ela era determinada e gostava de pensar em si mesma como durona. Ela podia tê-lo feito mudar de ideia ou o seguido de qualquer maneira. Mas Anna não lutou contra a ordem dele porque entendeu que estava só fazendo o trabalho de Charles mais difícil de suportar. Ele se via como um monstro e não podia acreditar que ela não fazia o mesmo quando testemunhou a morte que ele trazia. Então Charles saiu para caçar sozinho, como tinha feito por cem anos ou mais, da forma que seu pai havia dito. Sua caçada era sempre bem sucedida e, ao mesmo tempo, um fracasso. Ele era dominante; ele tinha a necessidade compulsiva de proteger os fracos, inclusive, paradoxalmente, os lobos que ele deveria matar. Na medida em que os lobos que ele executava morriam, também morria uma parte de Charles. Antes de Bran os expor ao público, os novos lobos, aqueles que tinham sido mudados em menos de dez anos, recebiam várias chances caso suas transgressões adviessem da perda de controle. Condições podiam ser impostas a fim de diminuir a punição sobre outros. Mas agora o público os conhecia, e não podiam permitir que todos soubessem o quão perigosos os homens lobo realmente era. Era o Alfa da bando que cuidava de distribuir a justiça corriqueira. Anteriormente, Charles só saía algumas vezes por ano para cuidar dos maiores ou mais incomuns problemas. Mas muitos dos 11


Alfas estavam infelizes com a dureza das novas leis, e, de alguma maneira, cada vez mais a execução sobrava para Bran e, portanto, para Charles. Ele vinha saindo duas ou três vezes por mês e isso o estava quebrando lentamente. Ela podia senti-lo em pé, dentro de casa, e então punha um pouco mais de paixão em sua música, chamando-o para ela com o doce som do violoncelo que tinha sido seu primeiro presente de Natal para ela. Se ela subisse as escadas, ele gravemente a saudaria, diria a ela que tinha que ir conversar com seu pai, e partiria. Ele voltaria em um dia ou então depois de correr como um lobo pelas montanhas. Mas Charles já não voltava mais todo o caminho. Fazia um mês desde que ele a tocou da última vez. Seis semanas e quatro dias desde que ele fez amor com ela, não desde que eles retornaram da última viagem na qual ela o acompanhou. Ela teria dito aquilo para Bran, não fosse o comentário “cresça pequena menina”. Provavelmente ela devia ter dito a Bran de qualquer maneira, mas desistiu de fazê-lo ver a razão. Ela decidiu tentar outra coisa. Anna ficou no quarto de música que Charles construiu no porão, enquanto ele estava no andar de cima. Ao invés de usar palavras, ela deixou que seu violoncelo falasse por ela. Rica e sinceras, as notas deslizavam de seu arco até o topo da escada. Depois que um momento, ela ouviu os degraus rangerem sob o peso dos pés de Charles e soltou uma respiração de alívio. A música era algo que compartilhavam. Seus dedos cantavam para ele, persuadindo-o para ela, mas ele parou na entrada. Ela podia sentir seus olhos nela, mas ele não disse nada. Anna sabia que quando tocava seu violoncelo, seu rosto estava pacífico e distante -resultado de muito treinamento imposto por um professor que lhe disse que morder seu lábio e fazer caretas era meio caminho para qualquer um julgar que ela estava tendo dificuldades. Suas feições não eram regulares o suficiente para a beleza verdadeira, mas ela não era feia, tampouco, e hoje ela usava alguns truques de maquiagem para suavizar suas sardas e enfatizar seus olhos. Ela o olhou brevemente. Sua herança salish1 deu a ele uma pele escura adorável e traços exóticos (para ela), o sangue galês paterno aparente só de forma sutil: o formato da boca, o ângulo do queixo. Foi o trabalho dele, não sua linhagem, que congelou suas características numa máscara indiferente e deixou seus olhos frios e duros. Seus deveres o corroeram até que ele era nada além de músculo, osso, e tensão. Os dedos de Anna tocaram as cordas e balançaram, suavizando a música do violoncelo com um vibrato nas notas mais longas. Ela começou com um pouco de Pachabel Cannon em D, que ela 2

Grupo de índios norte-americanos que habitam a Colônia Britânica (Canadá) e o noroeste dos Estados Unidos. A técnica denominada vibrato (expressão de origem italiana, literalmente traduzida como vibrado) consiste na oscilação de uma corda de um instrumento musical, utilizando-se um dedo, produzindo assim um som diferenciado, "vibrante", como sugere o nome. 1 2

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geralmente usava como aquecimento ou quando não estava certa do que queria tocar. Ela considerou mudar para algo mais desafiador, mas estava muito distraída por Charles. Além disso, ela não estava tentando impressioná-lo, mas seduzi-lo para aceitar sua ajuda. Então, Anna precisava de uma canção que ela podia tocar enquanto pensava sobre Charles. Se ela não conseguia convencer Bran a deixar de enviar seu companheiro para matar, talvez pudesse convencer Charles a deixá-la ajudar com as consequências. Poderia dar-lhe um pouco de tempo até que conseguisse achar o taco de beisebol certo – ou um rolo de massas – para golpear alguma clareza na cabeça do pai dele. Ela abandonou Pachabel por uma improvisada ponte, trocando as cordas de D para G, e então deixou o fluxo da música entrar no prelúdio de Cello Suite n. 1, de Bach. Não que fosse uma música fácil, mas tinha sido seu concerto do segundo grau, de modo que ela praticamente podia tocar de olhos fechados. Com seus dedos em movimento, ela não se permitiu olhá-lo novamente, não importava o quão faminta ela estiva por um vislumbre dele. Ela olhou fixamente para uma pintura a óleo de um lince dormindo enquanto Charles permanecia na porta a observando. Se ela pudesse conseguir que ele se aproximasse, que deixasse de protegê-la do seu trabalho... E então ela errou. Ela era um lobo Ômega. Isso significava que ela não só era a única pessoa no continente cujo lobo permitia que enfrentasse o Marrok quando ele estava furioso, mas também que tinha um talento mágico para acalmar os temperamentos lupinos, independentemente de eles quererem ser acalmados. Parecia errado impor sua vontade aos outros, e ela tentava não fazê-lo, a menos que houvesse uma necessidade terrível. Nos dois anos passados, Anna aprendeu melhor sobre quando e como usar sua habilidade. Mas sua necessidade de ver Charles feliz passou por cima da dura barreira de seu autocontrole como se esta nem estivesse lá. Num minuto ela estava tocando inteira para ele, focada exclusivamente nele, e no seguinte seu lobo tinha saído e acalmado o de Charles, mandando que ele dormisse e deixando só sua parte humana… Charles virou e caminhou propositalmente para longe dela, sem uma palavra. Ele, que nunca fugia de nada nem ninguém, saiu de sua casa pela porta de trás. Anna baixou o arco e colocou o violoncelo no aparador. Ele não voltaria por horas, talvez nem mesmo por uns dois dias. A música não tinha funcionado se a única coisa segurando Charles em seu feitiço era seu lobo. Ela saiu da casa também. A necessidade de fazer algo era tão forte que a colocou andando sem um destino real. Era aquilo ou chorar, e ela se recusava a chorar. Talvez ela pudesse ir até Bran mais uma vez. Mas quando o desvio para a casa dele apareceu, ela passou reto. Como Charles não estava indo até Bran para contar ao pai o que ele tinha feito aos lobos do mundo — e isso seria... esquisito, como se o estivesse perseguindo. Além disso, ela já havia conversado com Bran. Ele sabia o que estava acontecendo com seu filho. Ela sabia que ele sabia. Mas, como

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Charles, ele pesou as vidas de todo de sua espécie contra a possibilidade de Charles ir abaixo pela pressão, e aceitou o risco. Então Anna se dirigiu para a cidade, chegando numa estufa grande do outro lado do bosque. Ela estacionou próxima a um Jipe Willys danificado e foi à procura de ajuda. Muitos lobos o chamavam de Mouro - o que ele não gostava, dizendo que era o tipo de coisa que um vampiro faria, tomar uma parte do que uma pessoa era e reduzi-la a uma ou duas letras. Suas características e pele mostravam descendência árabe, do canto norte da África, mas Anna concordava que certamente não era tudo o que ele era. Ele era muito bonito, muito velho, extremamente mortal, e agora mesmo estava transplantando gerânios. — Asil — ela começou. — Silêncio. — ele disse. — Não perturbe minhas plantas com seus problemas até que elas estejam seguras em sua nova casa. Seja útil e tire as rosas mortas ao longo da parede. Ela pegou uma cesta e começou a arrancar as flores mortas das roseiras de Asil. Não haveria conversa com ele até que terminasse o que estiva fazendo, quer fosse para acalmá-la antes de conversar, quer fosse para conseguir um trabalhador de graça, quer fosse para manter o silêncio enquanto ele cuidava de suas plantas. Conhecendo Asil, podia ser todas as três alternativas. Anna trabalhou por mais ou menos dez minutos antes de ficar impaciente e agarrou um botão de rosa, sabendo que ele sempre vigiava quem estivesse trabalhando com suas flores preciosas. — Lembra-se da história de Bela e da Fera? — Asil comentou suavemente. — Vá em frente. Pegue o pequeno botão. Veja o que acontece. — “A Bela e a Fera” é um conto de fadas francês e você é um simples espanhol — Anna disse, mas afastou as mãos do broto. O pai de Bela roubou uma flor e pagou caro por isso. — E de nenhuma maneira você é um príncipe encantado. Ele espanou a poeira das mãos e se voltou para ela, sorrindo um pouco. — Realmente, eu sou. Para algumas definições de “príncipe”. —Ah... — disse Anna. — Pobre Bela, ia se ver beijando um rosto bonito que então, poof, viraria uma rã. — Eu penso que você está misturando os contos — Asil respondeu — Mas até como uma rã eu não desapontaria. Você veio para conversar sobre contos de fadas, querida? — Não... — ela suspirou, dando impulso para se sentar em uma mesa próxima a um grupo de vasos pequenos que continham folhas do tamanho de uma ervilha cada. — Eu estou aqui para conseguir um conselho sobre a Fera. Especificamente, informações sobre a Fera que decide sobre 14


todos nós. Naturalmente procurei você. Bran tem que parar de enviar Charles para matar. O está destruindo. Ele se sentou no oposto da mesa e a olhou pelo espaço estreito entre eles. — Você sabe que Charles viveu quase duzentos anos sem você para cuidar dele, não é? Ele não é um frágil botão de rosa que precisa de seu toque tenro para sobreviver. — Ele não é um assassino, tampouco — Anna retrucou. — Eu imploro que você diferencie — Asil estendeu suas mãos pacificamente quando ela rosnou para ele. — Os resultados falam por si mesmos. Eu duvido que existam outros lobos com tantas execuções em suas costas quanto à sua presente companhia. — Ele indicou a si mesmo com um ar modesto, que devia ser um atributo as suas habilidades dramáticas, já que não havia um osso de modéstia nele. Anna agitou sua cabeça, as mãos fechadas em punho pela frustração. — Ele não é. Matar o machuca. Mas ele vê isto como necessário. — E é... — Asil murmurou condescendente. — Tudo bem — ela concordou rapidamente, ouvindo o rugido em sua voz, mas incapaz de reprimi-lo. Falhar tão espetacularmente com Bran a ensinou que precisava manter seu próprio temperamento sob controle se quisesse convencer os velhos lobos dominantes sobre qualquer coisa. — Eu sei que é necessário. Claro que é necessário. Charles não mataria alguém se ele não achasse que era necessário. E Charles é o único dominante o suficiente para fazer o trabalho e que também não é um Alfa, já que isso causaria problemas com os Alfas dos territórios em que ele tem que entrar. Tudo bem. Mas não quer dizer que ele possa continuar com isso. Necessário não significa possível. Asil suspirou. — Mulheres... — ele suspirou novamente, de modo teatral. — Paz, criança. Eu entendo. Você é Ômega e Ômegas são piores do que Alfas sobre como proteger seus companheiros. Mas seu companheiro é muito forte. — ele fez careta, como se ao dizer isso sentisse um gosto amargo na boca. Anna sabia que ele nunca se deu muito bem com Charles, mas lobos dominantes frequentemente tinham esse problema um com o outro. — Você só precisa por um pouco de fé nele. Anna encontrou seu olhar e o sustentou.

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— Ele não me leva mais com ele quando parte. Quando ele voltou para casa esta tarde, eu usei minha mágica para enviar seu lobo para dormir, e assim que o lobo se acalmou ele se foi, sem uma palavra. — Você esperava que viver com um lobisomem fosse ser fácil? — Asil fez-lhe uma carranca — Você não pode consertar todo o mundo. Eu te disse isso. Ser um Ômega não faz de você Alá.- a companheira morta de Asil tinha sido uma Ômega. Asil ensinou a Anna tudo o que ela sabia sobre isso, e parece que ele acreditava que aquilo lhe dava algum tipo de status paternal maluco. Ou talvez ele só fosse condescendente com todo mundo. — Ômega não quer dizer poder infinito. Charles é um assassino frio; pergunte a ele você mesma. E você sabia disto quando se casou com ele. Você deveria deixar de se preocupar com ele e começar a se preocupar sobre como você vai lidar com aceitar a situação em que se meteu. Anna o encarou. Ela sabia que ele e Charles não eram amigos de infância ou coisa parecida. Ela não percebeu que ele não conhecia Charles de verdade, que Asil só via a máscara que Charles mostrava para todos os outros. Asil tinha sido sua última vã esperança. Anna se levantou da mesa. Ela deu as costas para Asil e andou a passos largos para a porta, sentindo o peso do desespero. Ela não sabia como fazer, como convencer Bran sobre o quanto as coisas estavam ruins. Bran era quem contava. Só ele podia manter Charles em casa. Ela falhou em persuadir seu sogro. E tinha pensado que Asil poderia ajudar. Ainda estava claro do lado de fora e estaria assim por algumas horas mais, porém o ar já estava agitado com o peso da lua crescente. Ela segurou a porta aberta e se voltou para Asil. — Vocês estão todos errados sobre ele. Você, Bran e todo mundo. Ele é forte, mas ninguém é assim tão forte. Ele não toca um instrumento, nem sequer canta uma nota há meses. Asil ergueu a cabeça e a encarou por um momento, provando que ele conhecia algo sobre seu marido afinal. — Talvez — ele disse devagar, com uma carranca, enquanto se levantava — Talvez você esteja certa. O pai dele e eu devíamos conversar.

ASIL ENTROU na casa de Marrok sem bater. Bran nunca fez objeção e outro lobo talvez achasse que ele só nunca notou. Mas Asil sabia que Bran notava tudo e escolhia permitir o sutil desafio de Asil por suas próprias razões. E isso era quase suficiente para fazer com que Asil batesse na porta e esperasse por um convite para entrar. Quase. Leah estava no sofá da sala de estar, assistindo algo na grande TV. Ela olhou para cima quando ele passou e não se incomodou em sorrir, enquanto uma mulher gritava estridentemente através dos alto-falantes. Quando Asil veio para Montana, Leah paquerou com ele — como companheira do seu 16


Alfa, ela deveria saber melhor. Ele permitiu a primeira, mas na segunda vez a ensinou a não jogar seus joguinhos com ele. Então ela se sentou no sofá, olhou para ele então afastou o olhar, como se ele a entediasse. Mas ambos sabiam que ele a assustava. Asil estava ligeiramente envergonhado disso, mas só porque ele sabia que sua companheira, morta, mas ainda amada, estaria desapontada com ele. Ensinar Leah a temê-lo tinha sido mais fácil e mais satisfatório do que só deixá-la saber que seus flertes eram mal recebidos e não chegariam a o que quer que fosse que ela desejava. Se ele não esperasse que o Marrok o executasse em curto período de tempo, que foi a razão que o fez vir para o bando de Montana, ele poderia não ter feito um trabalho tão completo. Mas ele não era infeliz que Leah o ignorou tanto quanto possível, e menos infeliz que o Marrok não o matou como ele esperava. Asil descobriu que aquela vida ainda tinha o poder de surpreendê-lo, então ele estava disposto a ficar por um pouco mais de tempo. Ele seguido o som de vozes baixas até o escritório de Marrok, e parou no corredor para esperar quando percebeu que o homem que conversava com Marrok era Charles. Se fosse qualquer outro, ele teria se intrometido, esperando que o lobo menor — e eles eram todos lobos menores — se retirasse. Asil franziu a testa, enquanto decidia se o que ele tinha a dizer seria melhor com Charles presente ou não. A estratégia era importante. Um lobo dominante, como ele ou Bran, não podia ser compelido, apenas persuadido. No fim, ele decidiu por uma conversa privada e seguiu em frente até a biblioteca, onde achou uma cópia de Ivanhoé e releu os primeiros capítulos3. — Conversa oca para românticos — disse Bran na porta de entrada. Indubitavelmente havia farejado Asil assim que caminhou para lá antes. — Como também historicamente cheio de buracos. — Existe algo de errado com isto? — Asil perguntou. — O romance serve para a alma. Ações heroicas, sacrifício e esperança. — ele pausou. — A necessidade de duas pessoas diferentes tornarem-se uma. Scott não estava procurando por precisão histórica. — Boa coisa — Bran grunhiu, sentando na cadeira do lado oposto de Asil — Porque ele não conseguiu isso. Asil voltou a ler seu livro. Era uma técnica de interrogatório que ele viu Bran usar muito e sabia que o velho lobo reconheceria. Bran bufou divertido, e cedeu, iniciando a conversação. — Então o que te trás aqui esta tarde? Eu desconfio não foi um desejo súbito de ler o romance arrojado de Sir Walter. Ivanhoé é um romance do escritor escocês Walter Scott, publicado em 1820. Narra a luta entre saxões e normandos e as intrigas de João sem Terra para destronar Ricardo Coração de Leão. É considerado o primeiro romance histórico do romantismo. 3

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Asil fechou o livro olhou para seu Alfa por debaixo dos cílios — Não. Mas é sobre romance, sacrifício e esperança. Bran jogou a cabeça para trás e gemeu. — Você tem conversado com Anna. Se eu soubesse que pé no saco seria ter uma Ômega que não retroage no meu bando, eu teria... — Batido nela até a submissão? — Asil astutamente murmurou — Abusado dela e tê-la deixado passar fome, a tratando como lixo para que ela nunca entendesse quem ela era? O silêncio ficou pesado. Asil deu a Bran um sorriso malicioso. — Eu sei melhor do que isso. Você poderia ter pedido a ela que viesse duas vezes mais rápido. É bom para você ter alguém ao redor que não abaixa a cabeça. Ah..., a frustrante alegria de ter uma Ômega por perto. Eu lembro bem disso. — ele sorriu mais amplamente quando se lembrou que uma vez pensou que nunca mais sorriria ante a memória de sua companheira novamente — Irritante como inferno, mas bom para você. Ela é boa para Charles, também. Bran endureceu o rosto. — Anna veio me ver - Asil continuou, observando Bran cuidadosamente — Eu disse a ela que precisava crescer. Ela assinou um compromisso para os tempos difíceis como também para os bons. Ela precisa entender que o trabalho do Charles é duro e que às vezes ele vai precisar de tempo para lidar com isso — não era exatamente o que Asil disse, mas ele teria apostado que era o que Bran disse a ela. O rosto em branco do seu Alfa lhe disse que ele acertou o alvo. — Eu disse a ela que existia uma realidade maior que ela não estava enxergando — Asil continuou, com falsa seriedade — Charles é o único que pode fazer o trabalho; que nunca foi tão necessário quanto agora, com os olhos do mundo em nós. Não é fácil encobrir as mortes com histórias cães selvagens ou animais carniceiros que comem o corpo depois que alguém morre por outra causa, não mais. A polícia está procurando por sinais de que os assassinos possam ser homens lobo, e nós não podemos permitir isso. Eu disse a ela que precisava crescer e lidar com realidade. A mandíbula de Bran estava apertada, porque Asil sempre teve um talento para imitação e conseguiu copiar quase perfeitamente a voz de Bran nas últimas frases. — Então ela desistiu de mim — Asil disse em sua própria voz. — Ela estava partindo quando me sentei e pensei, satisfeito comigo mesmo, que ela era uma fêmea fraca que estava mais preocupada com seu companheiro do que com o bem de todos. O que é apenas o que uma mulher deve ser, afinal. Realmente não é justo culpá-las por isso quando se torna um inconveniente para nós. Bran o olhou friamente, e Asil soube que bateu forte com aquela última observação. 18


Asil sorriu tristemente e acariciou o livro que segurava. — Então ela me disse que há meses ele não faz qualquer música, viejito4. Quando foi a última vez que ele ficou mais que um dia sem cantarolar alguma coisa ou tocar naquela guitarra? Os olhos de Bran ficaram chocados. Ele não sabia. Ele se levantou e começou a andar. — É uma necessidade — ele disse, afinal — Se eu não manda-lo, então quem irá? Você se voluntaria? Seria impossível, e ambos sabiam disso. Uma morte, ou talvez três ou quatro, e seu controle acabaria. Asil era muito velho, muito frágil, para ser enviado para caçar homens lobo. Ele apreciaria demais isso. Podia sentir o espírito selvagem de seu lobo pulando diante da chance da caça, a chance de uma briga de verdade e do sangue de um oponente forte entre suas presas. Bran ainda estava inquieto. — Eu não posso enviar um Alfa para outro território sem que se torne um desafio que levará a mais matança. Eu não posso mandar você. Eu não posso enviar Samuel, porque meu filho mais velho é até mais risco do que você. Eu não posso ir, pois teria que matar todos os malditos Alfas e não tenho nenhum desejo de trazer todos os homens lobo para a minha bando pessoal. Se não for Charles, então quem eu envio? Asil curvou sua cabeça para raiva de Bran. — É por isso que você é o Alfa e eu farei qualquer coisa para que eu nunca mais seja Alfa novamente — ele se levantou com a cabeça ainda abaixada. Acariciou a capa de tecido do livro e o colocou na mesa. — Eu não acho que realmente precise ler este livro de novo. Eu sempre pensei que Ivanhoé deveria ter casado com Rebecca, que era esperta e forte, ao invés de escolher Rowena, por achá-la certa e adequada. Então Asil deixou Bran sozinho com seus pensamentos, porque se ficasse Bran discutiria com ele. Deste modo, Bran não teria ninguém com quem discutir a não ser ele mesmo. E Asil sempre creditou a Bran a habilidade de ser persuasivo.

BRAN ENCAROU Ivanhoé. Sua capa era de um enfadonho azul cinzento, o pano puído sinalizando sua idade. Ele correu seus dedos pelas linhas do título e do desenho de um cavaleiro vestindo uma armadura do século XVI. O livro teve uma vez capa de papel, com um desenho até menos apropriado na frente. Ele sabia que lá dentro, na contracapa, existia uma inscrição, mas ele não abriu o livro para vê-la. Ele tinha certeza de que Asil teve tempo suficiente para percorrer toda a maldita biblioteca até achar este livro. Charles o deu para ele, talvez uns setenta anos atrás.

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Velhinho, em espanhol. Termo que, coloquialmente, indica “colega”, “camarada”.

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“Feliz Natal”, ele disse. “Você provavelmente já leu este livro uma dúzia de vezes antes. Eu o li pela primeira vez uns dois meses atrás e pensei que você poderia se consolar com esse conto sobre a possibilidade de que duas pessoas diferentes poderem aprender a viver juntas, uma boa história vale a pena revisitar”. Era uma boa história, ainda que historicamente inexata e romântica. Bran pegou o livro e o guardou cuidadosamente na estante, antes que cedesse ao impulso de rasga-lo em pedacinhos, porque então ele não pararia até que não sobrasse mais nada para destruir, e ninguém poderia segurá-lo se isso acontecesse. Ele precisava que Charles fosse algo que ele não era, e seu filho mataria a si mesmo tentando ser o que seu pai precisava. Há quanto tempo ele mentia para si mesmo que Charles estava bem? Há quanto tempo ele sabia que Anna estava certa? Existiam muitas razões, boas razões, para Bran não ser o executor. Ele deu a Asil uma delas. Mas sua verdadeira razão era mais como a de Asil, apesar de Bran não ser tão honesto quanto a isso. Quanto tempo passaria até que Bran começasse a apreciar a súplica, o sofrimento, antes da morte? Ele não se lembrava muito sobre o tempo em que deixava seu lobo tomar conta, entretanto o mundo ainda tinha registro disso e aconteceu mais de dez séculos atrás. Porém, algumas das memórias que ele reteve eram de suas vítimas apavoradas e a satisfação que seus gritos traziam. Charles nunca faria isto, nunca iria se vangloriar no medo que outros sentiam dele. Ele nunca faria mais do que fosse necessário. Um impasse, então. Bran precisava que Charles fosse exatamente que mele era, e Charles precisava ser o monstro que seu pai era para sobreviver aquilo. O telefone tocou, poupando Bran de seus pensamentos. Esperava que fosse um problema diferente, no qual poderia afundar seus dentes. Algo com uma solução. — Eu não farei isto — Adam Hauptman disse quando Bran atendeu. Bran pausou. Ele havia se surpreendido quando, afinal, Adam, de todos os seus Alfas, tinha se mostrado o mais adequado para lidar com os federais. Adam tinha um temperamento terrível e não numa coleira tão apertada quanto era prudente. Por isso, Bran o manteve distante dos holofotes, apesar da aparência e do carisma de Adam. Mas a experiência dele no exército e seus contatos, como também uma compreensão inesperadamente boa da política e da chantagem política, o tornaram, gradualmente, a peça mais útil no xadrez político de Bran. Não era do feitio de Adam declinar. — Não é uma tarefa difícil - Bran murmurou no telefone, contendo o lobo que insistia em obediência imediata. — Só uma troca de informações. Nós perdemos três pessoas em Boston e o FBI pensa que isso está ligado a um caso maior e quer um homem lobo para consultar. O Alfa local não é qualificado, e é muito jovem para ser diplomático quando sua gente está morrendo.

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— Se eles quiserem voar até aqui, tudo bem. — Adam disse — Mas as pernas de Mercy não estão curadas e ela não pode se mover na cadeira de rodas sem ajuda porque suas mãos foram queimadas. — Sua bando não a ajudará? — A ira glacial congelou a voz de Bran. Mercy poderia ser acasalada com Adam, mas para seu lobo ela sempre pertenceria a Bran. Sempre seria sua pequena coiote, que era difícil e desafiadora e foi criada por um bom amigo, porque Bran não podia confiar em sua companheira com alguém que se importava tanto e que era mais frágil do que seus filhos crescidos. Adam deu um riso que aliviou a raiva de Bran. — Não é isso. Ela está mal-humorada e constrangida por estar indefesa. Eu tive que sair na semana passada a negócios. Quando eu voltei, o vampiro teve que vir para cuidar dela, pois ela tinha mandado todos os outros embora. Eu não tenho que ouvir quando ela me diz para deixa-la só, mas os outros o fazem. Contente com o pensamento de Mercy dando ordens a um grupo de homens lobo, Bran recostou-se em sua cadeira. — Bran? Você está bem? — Não se preocupe — Bran disse. —Eu colocarei David Christiansen nisso. O FBI só terá que esperar mais uma semana ou até que ele consiga voltar da Birmânia. — Não era isso que eu estava perguntando — Adam respondeu — “Avoado” não é uma palavra que eu normalmente usaria para te descrever, mas você não está sendo você hoje. Está tudo bem? Bran enrugou o nariz. Ele devia manter o assunto para si mesmo. Mas Adam… Ele não podia conversar com Samuel sobre isso, só faria com que primogênito se sentisse culpado. Adam conhecia todos os jogadores e também era um Alfa, ele entenderia sem Bran ter que explicar tudo. Adam escutou sem comentários, exceto um bufar quando ouviu sobre como Asil virou o jogo com Bran impecavelmente. — Você precisa manter Asil por perto — ele disse — Os outros estão muito intimidados para jogar com você, e você precisa disso de vez em quando para se manter afiado. — Sim . E o resto? — Você tem que recuar sobre as sentenças de morte — Adam disse com certeza — Eu ouvi sobre Minnesota. Três lobos pegaram um pedófilo que perseguia um aluno do terceiro ano com uma corda na mão e uma arma de choque no bolso. Bran rosnou. 21


— Eu não teria objeções se eles não tivessem se empolgado e deixado o corpo meio comido para ser descoberto no dia seguinte, antes de contarem ao seu Alpha o que aconteceu. Se eles só tivessem quebrado o pescoço do cara, eu podia ter deixado passar... — Ele enrugou seu nariz novamente — Do jeito que foi o médico legista está especulando em todos os jornais. — Se você retrocedesse Charles não teria que sair e matar tão frequentemente, porque não teria tantos Alfas se recusando a disciplinar. — Eu não posso — Bran respondeu diretamente —Você viu os novos comerciais patrocinados pela Futuros Brilhantes? As audiências sobre as espécies ameaçadas começarão no próximo mês. Se eles nos classificarem como animais, o problema não será apenas lobos indisciplinados sendo caçados. — Nós somos o que somos Bran. Nós não somos civilizados ou domesticados, e se você forçar isso, não será apenas Charles que perderá. — Adam suspirou e numa voz menos apaixonada disse: — Em todo caso, talvez dando a Charles uma pausa de suas obrigações, ele possa ter um descanso. — Eu o livrei completamente de suas obrigações de negócios — disse Bran — Nada de trabalho. Fez-se uma pausa. — O que? — Adam disse cuidadosamente — Os negócios? Você colocou as finanças do bando nas mãos de outra pessoa? — Ele já se afastou da maior parte das tarefas diárias do funcionamento da corporação, põe isto nas mãos de cinco ou seis pessoas diferentes, sendo que só uma sabe que a propriedade é da família de Charles. Ele faz isto a cada vinte anos, mais ou menos, para impedir as pessoas de notarem que ele não envelhece. Eu contratei uma financeira para assumir o comando de outros negócios da bando, e o que não está nas mãos da financeira, está com Leah. — Então Charles não está fazendo nada exceto sair e matar? Nada para distraí-lo, nada para diluir o impacto. Eu sei que eu acabei de dizer que ele poderia precisar de uma pausa, mas é quase o oposto. Você realmente pensa que isso é uma boa ideia? Ele aprecia ganhar dinheiro, para ele é como um jogo de xadrez infinitamente complicado. Ele disse a mim uma vez que era muito melhor que caçar porque ninguém morre. Ele disse isto a Bran, também. Talvez ele devesse ter escutado mais cuidadosamente. — Eu não posso devolver as finanças a ele — Bran disse — Ele não… eu não posso devolver a ele as finanças. Não até Charles estar funcionado melhor, porque o dinheiro que a bando controlava era o suficiente para significar poder. Sua relutância em confiar em Charles, que havia concebido os negócios, fez Bran admitir, pelo menos para si, que ele notou que Charles estava em apuros já há algum tempo. 22


— Eu tenho uma ideia. — Adam disse lentamente. — Sobre aquela tarefa que você tinha para mim... — Eu não vou mandá-lo para lidar com o FBI! — disse Bran alarmado. — Até mesmo antes… disso, Charles não seria a pessoa certa para enviar. — Ele não é uma pessoa sociável — Adam concordou, parecendo divertido. — Eu imagino que o ano passado não tenha ajudado muito com isso. Não. Envie Anna. Aqueles agentes do FBI nem saberão o que os atingiu, e com Anna como amortecedor, Charles realmente pode fazer algum bem. Mande-os tanto para ajudar quanto para serem consultores. Um dos nossos pode dizer à polícia mais sobre uma cena de crime que os peritos. Dê a Charles algo para fazer no qual ele será o mocinho ao invés do carrasco. Deixe-o ser um herói, Bran pensou, seus olhos no Ivanhoé em sua estante enquanto desligava o telefone. Asil tinha acertado ao dizer que não tinha nada errado com um pouco de romance para suavizar a severa realidade da vida. Adam poderia ter dado a ele o meio que precisava para ajudar seu filho mais novo. Ele esperava sinceramente que sim. CAPÍTULO 2  A Agente Especial Leslie Fisher encarou a paisagem da janela que pairava acima do centro de Boston. De seu ponto de vista privilegiado, ela tinha uma adorável visão do início da manhã. O tráfico ainda estava leve, e embora fosse ficar muito mais pesado quando as pessoas saíssem para trabalhar, a falta de estacionamento nas ruas evitava que elas se tornassem tão loucas quanto às de Los Angeles, o último lugar ao qual ela tinha sido atribuída. No FBI, ela precisa se mudar a cada poucos anos, quisesse ela ou não, mas sempre pensou em Boston como seu lar. O hotel era antigo e elegantemente caro. Papel de parede de bom gosto, acetinado, cobria as paredes da sala de reunião, num autêntico estilo vitoriano. A saleta era dominada por uma grande mesa de mogno, com cadeiras acolchoadas que pareciam mais como se pertencessem a uma sala de jantar do que a uma sala de reuniões. Era um hotel, entretanto, não importa o quão bem decorado, e carecia de um toque de personalidade, como o que deu ao seu enfadonho cubículo no escritório do governo. Ela estava aqui para encontrar um consultor. Embora houvesse o ocasional perfeitamente inocente nerd da informática ou um contador, mas, na sua experiência, consultores eram, muito frequentemente, caras maus que faziam acordos para que os caras bons pudessem pegar caras ainda piores: recompensava-se o mau menor, para que os grandes monstros pudessem ser impedidos. Cinco pessoas mortas no último mês: uma idosa, dois turistas, um homem de negócios e um menino de oito anos. Um serial killer estava caçando. Ela viu o corpo do menino, e para pegar seu assassino teria se encontrado com o próprio Satanás. Em seu tempo no FBI, ela lidou com antigos negociantes de droga, um assassino já cumprindo uma sentença de prisão perpétua, e um bom número de políticos (alguns dos quais deveriam estar 23


cumprindo prisão perpétua). Certa vez, ela até consultou uma autoproclamada bruxa. Em retrospecto, Leslie não estivera com tanto medo da bruxa como deveria ter estado. Hoje ela iria falar com homens lobo. Por experiência, nunca se encontrara com um homem lobo antes, então aquilo ia ser interessante. Ela considerou a mesa aonde todos iriam se reunir. Os escritórios do FBI ou uma delegacia de polícia teriam dado ao seu lado a vantagem de jogar em casa — seu lado sendo aqueles que lutavam pela lei e pela ordem. Encontrar com as pessoas no território delas, em seus escritórios ou casas, fazia perder aquela vantagem, mas, às vezes, ela isso tinha possibilitado que ela obtivesse informações que não teria conseguido se as pessoas não estivessem se sentindo confortáveis e seguras. Prisões, curiosamente, davam ao presidiário a “vantagem da casa” 5, especialmente se ela trouxesse um nervoso ambientalista junto com ela. Hotéis eram territórios neutros — que era o porquê de eles estarem se encontrando aqui, ao invés de no escritório. — Por que eu? — Tinha perguntado a seu chefe ontem, quando ele lhe disse que ela iria sozinha. — Achei que a equipe toda iria conversar com ele? Nick Salvador fez uma careta e esticou seu grande corpo desconfortavelmente atrás de sua escrivaninha — um espaço onde ele gastava tão pouco tempo quanto possível. Ele preferia estar no campo. — “FUBAR6 adiante” — ele disse, citando seu código político. Quando Leslie entrou no escritório de Boston, a pessoa que antes ocupava sua escrivaninha digitou uma lista das falas de Nick e colou no fundo da gaveta com uma nota dizendo que tinha sido enviado por fax de Denver, onde Nick tinha estado antes. Era uma página cheia de palavrões, e “FUBAR adiante” estava no topo da lista. Não era que Nick não pudesse dançar graciosamente com os poderosos quando era necessário; ele só não gostava de fazer isto. — Fiz o requerimento e a ordem era que falaríamos com Adam Hauptman. Ele fez muitas consultas e deu palestras em Quântico algumas vezes. Pensei que nós poderíamos conseguir informações que nos ajudassem com o caso e um pouco mais além. — Ele deu a volta em sua cadeira e seu joelho bateu na lona de uma de suas malas de viagem. Ele tinha várias escondidas pelo seu escritório. Leslie tinha três — cada uma organizada para trabalhos diferentes. As suas estavam separadas por cor; as de Nick estavam numeradas. O que fazia sentido: havia mais números do que cores masculinas (as malas dele eram cáqui, cáqui, e aquela outra cáqui) e ele precisava de mais bolsas de viagem do que ela, pois seu trabalho era mais abrangente. Ela não tinha que manter um terno à mão, por exemplo, porque era improvável que fosse ser chamada para entrevistas na televisão ou audições congressionais. — Hauptman tem boa reputação. — Leslie disse. — Eu tenho um amigo que assistiu a uma das palestras dele e achou informativa e muito divertida. Então, o que aconteceu com aquele plano?

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Trocadilho com o termo “vantagem da casa”, usualmente empregados em referências aos cassinos. FUBAR: F(fucked) U(up) B(beyond) A(all) R(recognition), ou seja, Fodido além de todo reconhecimento.

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— Recebi um telefonema ontem de manhã. Hauptman não está disponível. Você se lembra daquele monstro que encontraram no Rio Columbia no último mês? Acontece que foi Hauptman e sua esposa que o mataram, principalmente sua esposa. E isto é só para nossa informação, não por ser confidencial, mas não para fazer propaganda. Ela ficou bastante machucada e por isso ele não pôde voar. Hauptman nos encontrou um substituto, alguém mais importante. Mas não mais do que cinco pessoas podem ir ao encontro, e nós temos que fazer isso em território neutro. Nenhum nome, nenhuma informação oficial adicional. — Ele franziu sua boca nada feliz. Nick Salvador podia jogar pôquer com o melhor dos jogadores, mas com as pessoas em quem ele confiava, cada coisa que pensava transparecia em seu rosto. Leslie gostava disto, gostava de trabalhar com ele porque ele era esperto— e nunca, nunca a tratou como um símbolo da mulher negra. — Isto não é FUBAR — ela disse. — FUBAR é ouvir que o homem lobo consultor é “mais importante”: deixa tudo mais interessante para muitas pessoas, exceto para o FBI — ele disse. — Hauptman é Alfa de algum clã em Washington, certo? — Leslie franziu seus lábios. — Não sabia que existia alguém mais importante que um Alfa. — Ninguém é. — concordou Nick. — Eu não sei qual é o negócio, mas fui informado que dois Turistas se juntarão à festa. Turistas, na fala de Nick, eram agentes da CNTRP. A sigla referente aos Provedores Combinados de Relações Humanas e Transumanas 7, a nova agência formada especificamente para lidar com os vários sobrenaturais. Eles o pronunciavam “Cantrip”. Nick os chamava de Turistas porque sempre que se envolviam em uma investigação em que ele estava, tropeçava neles por toda parte. — Queriam enviar dois agentes da Segurança Nacional também, mas eu bati o pé. — Nick franziu a sobrancelha para o telefone, como se ele fosse o culpado por aborrecê-lo. — O Agente Especial Craig Goldstein, que esteve envolvido em três casos anteriores deste mesmo assassino e terminou o mais urgente de seus casos, então está livre do Tennessee para vir para nos ajudar. — Ela nunca encontrara Goldstein, mas sabia que Nick tinha, e que gostou dele, o que era o suficiente como recomendação. — Quero que ele fale com nosso homem lobo. Eu queria dois dos meus agentes lá com ele, mas perdi na votação. Dois Turistas, um agente da Segurança Nacional — a voz dele baixou gelada — que não têm nada a ver com este caso. E Craig e você. — Por que eu? — ela perguntou — Len podia ir. Desse jeito você poderia incluir a polícia. — Len era o oficial local da delegacia de Boston que trabalhava na força tarefa deles. — Ou Christine, ela resolveu mais casos de serial killers do que eu. Nick se sentou de novo e ficou quieto, juntando toda sua energia do jeito que fazia quando conseguiam uma boa vantagem sobre alguém por quem eles procuraram. — Um amigo meu ligou

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No original, CNTRP significa Combined Nonhuman and Transhuman Relations Provisors.

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passou algumas informações. Ele conhece Hauptman, ou, o mais importante, é que Hauptman sabe que ele é meu amigo. E Hauptman ligou para ele para me dar um pouco mais de conhecimento. As sobrancelhas de Leslie subiram. — Interessante. — Não é? — Nick sorriu. —Meu amigo me contou que Hauptman disse que eu poderia querer ser cuidadoso com quem eu enviar. Alguém discreto, bom com linguagem corporal, e absolutamente não agressivo. Ele olhou para ela e ela assentiu. —Nem Len, nem Christine. Len era esperto, mas dificilmente discreto, e Christine tinha uma raia competitiva de um quilômetro de largura. Leslie se garantia, mas não precisava esfregar isto nos narizes das pessoas. — Isso me deixa fora também. — Nick admitiu. — Angel e você são provavelmente os mais adequados, mas Angel ainda está um pouco muito verde para ser enviado por conta própria contra os caras maus ainda. — Angel havia saído recentemente de Quântico. — Eu farei boas anotações — ela prometeu. — Faça isso. — Nick disse. Seus dedos estavam fazendo a pequena dança impaciente que faziam quando ele estava pensando entre amigos: como se estivesse conduzindo uma música invisível. Leslie esperou, mas ele não disse nada. — Então por que estamos fazendo este esforço extra para nos entendermos com o homem lobo? — Ela perguntou. Nick sorriu. — Segundo meu amigo, Hauptman disse que as pessoas que iríamos encontrar poderiam ser persuadidas a nos dar uma ajuda mais concreta, caso sentissem confiança no agente que enviarmos. — Pessoas? — Leslie se inclinou para frente. — Existe mais de um? — Hauptman disse “pessoas”. Não passou pelos canais oficiais, assim não vi nenhuma razão para transmitir isto. Nick era muito bom em cooperar. Cooperação resolvia crimes, colocava os caras maus atrás das grades. Cooperação era a nova máxima — e funcionava. Porém, com Nick na reserva cooperação poderia significar algo… um pouco menos cooperativo. Ele poderia menosprezar os Turistas em particular, mas não o atrapalhavam de forma alguma em campo. A Segurança Nacional, por outro lado, tendia a deixar seu apoio mais agressivo, porque gostava de esquecer que o FBI tinha jurisdição sobre toda atividade terrorista em solo norte-americano. Nick os lembrava disso sempre que necessário e com grande prazer.

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— Iria apreciar muito se pudéssemos usar nosso consultor, ou consultores, em campo. – Nick disse. — Seria interessante ver o que um homem lobo poderia fazer numa cena de crime... — Leslie disse, considerando a ideia. Do pouco que ela sabia sobre homens lobo, poderia ser como ter um cão de caça falante assinalando vestígios forenses instantaneamente. Nick até mostrou seus dentes brancos numa careta sincera. — Eu não quero ver outro corpo de criança submerso, com uma etiqueta de gado na orelha. Se um homem lobo pode fazer diferença, ponha-o a bordo, por favor. — Estou nisto.

LESLIE APOIOU SUAS MÃOS na mesa de reuniões do hotel. Suas unhas eram pequenas, bem cuidadas e esmaltadas num tom claro que combinava com o brilho da madeira que ela tinha sob as mãos. Direitos territoriais eram importantes. Ela tinha um diploma em psicologia e outro em antropologia, mas entendia isso desde que Srta. Nellie Michaelson tinha ido caçar cachorrinhos no quintal da Sra. Cullinan. Ela veio cedo porque esse era um jeito de transformar o território neutro em dela. Era uma das coisas que a tornavam uma boa agente: ela prestava atenção nos detalhes, detalhes como ganhar a vantagem da casa quando lidava com monstros — especialmente aqueles com dentes grandes e afiados. Ela estudou uma batelada desde que Nick a colocou nisso, no adia anterior. Homens lobos eram supostamente pessoas pobres, vítimas oprimidas de uma doença, e que usavam as habilidades nascidas de seu infortúnio para ajudar os outros. David Christiansen, a primeira pessoa a admitir ser um homem lobo, era um especialista em resgatar reféns de terroristas. Ela tinha certeza que ele ser incrivelmente fotogênico não era um acidente. A filha mais velha de Leslie tinha um pôster em cima da porta de seu quarto da famosa foto de David segurando a criança que salvou. Outros lobos que admitiram o que eram tendiam às profissões de bombeiros, policiais, e militares: os heróis de um e de todos. Ela podia cheirar uma manipulação desde a órbita terrestre. A manipulação não era uma mentira, não precisamente. O pequeno grupo de mercenários de David Christiansen tinha uma reputação muito boa entre as pessoas com que Leslie conversou. Eles concluíam o trabalho com um mínimo de baixas de todos os lados e eram bons no que faziam. Eles não trabalhavam com os caras maus. Por causa disto, Leslie estava mantendo uma mente aberta — mas porque ser naturalmente cautelosa, ela também estava mantendo um par de balas de prata (apressadamente compradas) carregadas em sua arma. A porta abriu e ela se virou para ver entrar uma mulher jovem, que parecia como se ainda devesse frequentar o ensino médio. Leslie se sentia daquele modo frequentemente quando encontrava os novos recrutas recém-saídos de Quântico. O cabelo brilhante marrom-avermelhado da garota estava 27


severamente preso em uma tentativa de fazê-la parecer mais velha, mas o efeito não era o suficiente para compensar as sardas que estouravam por suas bochechas pálidas ou os inocentes olhos melamarronzados. — Oh, oi. — a menina disse vivamente, sua voz com um leve acento de Chicago. — Achei que seria a primeira aqui. Está um pouco cedo. — Gosto de conhecer a situação do terreno — disse Leslie e a mulher mais jovem riu. — Oh, eu entendo! — ela disse, sorrindo. — Charles é assim. Charles devia ser seu parceiro, Leslie pensou. Eles deviam ser os agentes da Cantrip. Esta criança não seria um homem lobo... Supunha-se haver poucas mulheres lobas, Leslie sabia graças ao seu curso rápido na Internet, e eles eram muito protetores com elas. Nunca teriam enviado esta aqui para os federais. Pensando melhor, Leslie também não teria deixado a menina sozinha. — Então por que seu Charles não está aqui? — Ele a abandonou para os lobos. Fazia-a querer empolar a pele dele — e ela nem o conhecia ainda. E se tivesse sido o homem lobo aguardando a garota aqui ao invés de um agente do FBI? Leslie recebeu um sorriso lento, que pegou sua censura pessoal e a tornou divertida. — Ele perdeu uma aposta e teve que trazer café para todo mundo. Ele não está feliz com isto, também. Provavelmente eu não deveria apreciar tanto, mas às vezes eu sinto grande prazer em deixar um homem irritado, você não? Leslie surpreendeu a si mesma com uma risada. — Eu também... — ela concordou antes de tomar um fôlego cauteloso. Aquela ali estava chegando até ela... Leslie nunca ria enquanto estava trabalhando. Reavaliou a outra mulher. Ela tinha ares de adolescente, e usando um tailleur feito sob medida, risca de giz, de alguma maneira parecia mais que estava fantasiada do que vestindo uma roupa de verdade. — Eu aposto — Leslie disse, testando uma ideia — que homens perigosos tropeçam entre si só para terem certeza de que você não machucará o dedão. Sabia que estava certa quando, ao invés de parecer confusa, a mulher sorriu maliciosamente. — E me certifico de que eles se desculpem quando topam um com o outro no caminho. — Há! — Leslie disse triunfante — Achei mesmo que a Cantrip tivesse mais sensatez do que lançar um pedaço tenro para os lobos. Eu sou a Agente Especial Leslie Fisher, Unidade de Crimes Violentos do FBI. — Eu sou Anna Smith, hoje. — A garota deu a ela um sorriso arrependido. —Não da Cantrip. Um dos lobos, receio. E até pior, Smith não é o meu nome real. Eu disse que era um nome tolo, mas 28


Charles achou que era melhor ser óbvio sobre isso ou vocês ou a Segurança Nacional procurariam uns coitados Charles e Anna Washington, Adams, ou Jefferson para perseguir.

A AGENTE DO FBI não era exatamente o que Anna esperava, mas não era diferente, também. Inteligente, bem vestida, confiante — isso os shows de TV e o cinema entenderam certo. Anna tornouse muito boa em julgar pessoas desde que foi transformada. Linguagem corporal e aroma não mentiam. Ela surpreendeu a agente com sua revelação, mas não a assustou, o que pressagiava bem para suas chances de trabalharem juntas. As linhas finas ao redor dos olhos cor de chocolate-amargo se aprofundaram, e por um momento, a Agente Especial Leslie Fisher pareceu exatamente tão dominante quanto era. Ela poderia estar no meio dos seus quarenta anos, mas o paletó bem-cortado que ela usava cobria músculos. Seus olhos diziam que ela era dura. Dura como um cachorro de ferro-velho — e não só fisicamente. Se fosse um lobo — e macho — ela seria o segundo ou terceiro numa bando, Anna julgou. Não Alfa, ela não tinha a territorialidade e a agressividades subjacentes que empurravam os dominantes para a liderança do clã, mas estaria próxima a isto. Quantas pessoas a agente do FBI enganava com aquela fachada indiferente? A carranca nos olhos da Agente Especial Fisher se estendeu para seus lábios cheios, à medida que ela disse: — Estamos tendo esta reunião aqui, com tão poucas pessoas quanto possível, porque o homem que a organizou disse que não seria inteligente chatear o homem lobo. — Ela ergueu uma sobrancelha bem-desenhada. —Você não parece fácil de chatear. Repreendida. Anna lutou para não sorrir de satisfação. Agora. Como lhe dizer o que ela precisava saber sem assustá-la? — Eles não estão preocupados sobre me deixar chateada. É meu marido quem é o homem lobo problema. A outra mulher franziu a sobrancelha. —Então tem outro homem lobo vindo aqui. Seu marido? — Ela soou um pouco incrédula. Aquela Anna era casada? Seu marido era um homem lobo? Havia dois deles? Se Fisher conhecesse melhor os homens lobos, ela estaria mais incrédula pelo fato de que Charles deixou Anna só. A própria Anna estava um pouco cética sobre isso — mas lhe deu um bocadinho de esperança de que Bran estava no caminho certo com este negócio. Ela não estivera tão certa quanto ele e Asil que seria bom para Charles caçar um serial killer ao invés de caçar lobos indisciplinados, mas Charles concordara e então estava feito. — Sim. — Anna assentiu. —Sou uma mulher loba. Sou casada. E meu marido é um homem lobo, também. 29


A carranca de Fisher se aprofundou. — A informação é que, quem quer que fosse que iríamos encontrar, está acima de Hauptman, é o Alfa de um clã cheio de lobos. — É essa a informação? — Anna murmurou, enquanto se perguntava quem havia contado e se Bran sabia sobre isto... ou se ele mesmo o tinha engendrado. Se continuasse imaginando sobre o quanto da sua vida Bran planejou, ela acabaria em uma fazenda cômica tricotando toucas para patos. — Você mal tem idade o suficiente para estar por conta própria e seu marido é mais importante na estrutura de poder dos homens lobo do que Hauptman. — disse a Agente Fisher. —O que eles fizeram? Fizeram-na se casar com ele quando tinha doze anos? Anna piscou para ela. Em seu mundinho construído religiosamente a programas de TV e filmes, os agentes do FBI nunca diriam algo pessoal para alguém que acabaram de conhecer. Eles trabalhariam até isso gradualmente—ou insinuariam algo cuidadosamente. Pela aparência alarmada no rosto de Agente Fisher, acontecia o mesmo no mundinho dela também. Um Ômega faz com que todos se sintam mais protetores, Asil disse a ela um tempo atrás. Anna realmente não conectou isto com o mundo humano. Anna sorriu e escondeu sua simpatia. —Não. Eles não ataram a pobre, fraca, inocente, e pequena antiga eu e me forçaram a casar— Ela considerou. — Ele não é fraco ou inocente, mas se fosse preciso, eu o teria amarrado e o forçado a se casar comigo. Felizmente, não foi necessário. A outra mulher se recuperou. —Você disse que ele é a razão pela qual que não podíamos trazer mais pessoas? — Correto — Anna disse. —Mas se você esperar um momento, eu prefiro explicar isso uma só vez, e eu acho que... Ela deixou sua voz hesitar enquanto cronometrava os passos (não de Charles) que ouvia do lado de fora da porta da sala de reuniões. Podia ser algum hóspede do hotel que vagava pelos corredores, mas eram dois homens caminhando com velocidade intencional, que era um pouco rápida demais para ser confortável, do jeito como os homens que estão competindo um com o outro às vezes fazem. A porta se abriu. A atenção de Leslie passou de escutar Anna para as novas presenças na sala. Ela deu alguns passos para frente até que ficou entre Anna e os recém-chegados, pondo Anna às suas costas. O que fazia de Anna e da agente do FBI uma equipe enfrentando o par de agentes da Cantrip — pelo menos, foi o quem Anna assumiu que eles fossem, já que havia dois deles. Dois da Cantrip, dois do FBI, e um da Segurança Nacional, foi o que Charles lhe contou. Ela achou mais que interessante que a agente do FBI os visse como oponentes — e a Anna como uma aliada. — Jim. Então eles estão te deixando sair com os meninos grandes agora? — O tom de Leslie foi seco.

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Anna achou que os dois homens tomaram aquele como um comentário amigável, um daqueles que amigos de escavações poderiam fazer. Mas observando cuidadosamente a linguagem corporal da outra mulher, Anna notou que Leslie estava muito cautelosa, muito mais do que ela esteve perto de Anna depois dos primeiros minutos. — Leslie! — O homem mais jovem exclamou com um sorriso verdadeiro. Sua linguagem corporal dizia que ele gostava da agente do FBI, seja o que for que ela pensasse dele. — Agente Especial Fisher. — ele se corrigiu. — Bom ver você. E eu sou um dos meninos grandes e o tenho sido há muito tempo. Este é Dr. Steve Singh. Leslie estendeu a mão e cumprimentou a que oferecida a ela. — E o quê a Segurança Nacional quer com um serial killer? Isto é para os policias locais. A única razão que este seja do FBI é porque nosso assassino esteve cruzando as fronteiras dos estados por anos. Segurança Nacional. Supunha-se ser somente uma pessoa da Segurança Nacional. Anna franziu a testa. Charles não ficaria feliz com isto. Ele não gostava de surpresas. Ele provavelmente tinha um arquivo de todo mundo que viria para este arrasta-pé. Singh não disse nada, só estudou o rosto da agente do FBI antes de mudar para o de Anna. Ela o encarou de volta, só para ver o que ele faria. Ele fez uma carranca para ela e tentou fazê-la afastar o olhar, mas nem mesmo Bran podia fazer aquilo se ela não permitisse, e Singh não estava nem perto de ser tão dominante quanto Bran — ou mesmo quanto a Agente Fisher, no que diz respeito a esse assunto. Mas Anna baixou seus olhos de qualquer maneira. Não havia nenhum sentido em começar uma briga até isso que fosse necessário. — Ouvimos que haveria alguém importante falando pelos homens lobo nisto — respondeu Jim Sem-Sobrenome, aparentemente alheio da competição de encarar que seu parceiro engajou com Anna. — Decidimos que seria uma boa ideia saber quem ele era e o que teria a dizer. Só um nó sutil nas costas da agente do FBI disse a Anna que a arrogância irrefletida na voz do homem a tinha irritado. — E por que tem dois de vocês? — Fisher perguntou. — O requerimento foi para não mais de cinco pessoas. Dois de nós, dois da Cantrip e um de vocês. A agente do FBI sabia que a Segurança Nacional checaria o homem lobo, Anna pensou. Não ficou surpresa que houvesse dois deles, mas estava marcando um ponto para a causa de Anna. Ao não apresentar Anna, ela estava levando-os a pensar que Anna era a outra agente do FBI e deixando-os derramar a pauta na frente do inimigo. — Nos apoiamos um pouco na Cantrip. — disse Jim. — Eles nos deviam. Não devia realmente importar que Fisher fizesse daquilo um tipo de coisa “nós-contra-eles”. Estavam todos do mesmo lado no fim: pegando o vilão. Possivelmente era algo tão simples quanto rivalidade departamental: FBI contra Segurança Nacional. Anna estreitou seus olhos e considerou. Podia ser um pouco daquilo — e Fisher definitivamente não gostava de Jim. Mas Anna achou que era 31


um show feito para ela. Anna era paciente; veria o que a agente do FBI queria dela. Enquanto isso, ela precisava conseguir um pouco mais sobre as outras pessoas na sala. Jim tinha um frescor em si que lhe dava algum charme. Anna não perdeu o cérebro por detrás da fachada brilhante. O Dr. Singh, o homem mais velho, era reservado de uma maneira que a lembrou de alguns dos lobos Alfa que ela encontrou durante os anos passados. Daqueles que se sentavam no fundo e assistiam sua bando, deixando os assuntos serem debatidos e opinados até que as coisas estivessem longe do por eles idealizado. Então, eles se lançavam com uma brutal eficiência, que significaria que não teriam de mover-se novamente por algum tempo. Ele notou o que Fisher fez, certo, mas seus ombros relaxados disseram a Anna que ainda não tinha percebido quem e o quê era Anna. A porta se abriu abruptamente e outro homem entrou. Anna foi um pouco para frente. Ela não era tão boa com multitarefas quanto poderia ter sido. Se estivesse o teria ouvido se aproximar, mas esteve absorta no jogo de poder e perdeu o som dos passos dele. Leve e quase frágil em aparência, o recém-chegado olhava a todos com frios olhos cinza. Seu terno estava fora da moda e parecia um pouco amassado, mas a cor azul-cinzenta combinava com seus olhos e complementava a orla do cabelo curto escuro que por pouco circulava o topo da cabeça. Seus olhos pareciam mais velhos do que seu corpo, e se ele tinha mais de um metro e meio, não era muito mais. A palidez de sua pele adicionava à impressão, mas ele se movia facilmente, como um corredor. Ele franziu a testa para os dois homens. —Nacional. — ele disse em um tom neutro e então olhou para Leslie. — Você deve ser a Agente Especial Fisher. Eu sou o Agente Especial Craig Goldstein. Apresente-me, por favor. Ela o fez, começando com a equipe da Segurança Nacional. Jim Sem-Sobrenome, Anna descobriu, era Jim Pierce. — E esta — disse a Agente Fisher com uma sugestão de travessura, — é Anna Smith, nosso consultor homem lobo. Anna, este é o Agente Especial Craig Goldstein. Ele é o nosso perito no caso. Goldstein pareceu… atordoado, o que ela estava bastante certa de ser um acontecimento incomum. A dupla da Segurança Interna parecia da mesma maneira surpreendida. Singh, se recuperando primeiro, deu a Fisher um olhar afiado. Anna sorriu calorosamente e estendeu a mão para apertar a que Goldstein tinha automaticamente oferecido no inicio das apresentações. — Olá, Agente Especial Goldstein. — ela disse seriamente — Eu sei que não sou o que você esperava, mas farei meu melhor. Estamos esperando o pessoal da Cantrip e meu marido, que saiu para pegar café. 32


Charles estaria aqui logo. Ela tinha planejado aguardar até que os agentes da Cantrip chegassem, mas teria que se arranjar com o que tinha. Se Charles chegasse aqui antes dela explicar as regras, poderia ser desastroso. Anna olhou para todos e suspirou. — Ouçam, não temos muito tempo. Nós ajudaremos vocês. Mas existem algumas coisas que devem saber. Todos nós precisamos estar sentados quando meu marido chegar. Não o olhe nos olhos. Se você fizer, por favor, pisque ou desvie o olhar caso ele encontre o seu. Não toque em mim, nem mesmo casualmente. Vou me sentar com uma cadeira vazia entre eu e os demais. — Bran a alertou antes de partirem. Em Aspen Creek, no clã, Charles estaria confiante na segurança dela. Isso poderia mudar no momento em que estivessem fora de seu território. Anna tinha bastante certeza de que ele estaria bem. Não era o Irmão Lobo que estava em apuros; era Charles. Mas ela prometeu a Bran que faria o que pudesse para evitar problemas. O rosto de Goldstein se contraiu, mas foi Singh quem perguntou: — Ele é perigoso? Anna bufou. — Claro que ele é. Eu sou perigosa e aposto que você é bastante perigoso também. Não é sobre quem é o mais perigoso; é sobre ser esperto e manter tudo sob controle. — Você está brincando de bom policial, mau policial conosco? — Jim Pierce perguntou. — Homens lobo dominantes não se misturam bem com outros — Anna contou a eles. — Se você jogar o meu jogo, todos nós estaremos um pouco mais felizes. — Ela deu a Singh, que parecia o menos feliz, um olhar duro. — Se você estivesse para se encontrar com o Ministro das Relações Exteriores da China, não escutaria alguém lhe dando alguns conselhos sobre os costumes chineses? Pense dessa maneira sobre isso. CAPÍTULO 3  Charles segurou dois estranhos suportes de bebida8 e caminhou pelo saguão do hotel lotado. Em sua pressa, não percebeu que havia algo incomum sobre o modo como seu caminho estava livre, ou o elevador vazio que o levou para o terceiro andar, aonde a reunião com os federais ia acontecer. Não até que o homem esperando pelo elevador, quando este abriu no terceiro andar, se afastou três passos e, mantendo um olho cauteloso em Charles, partiu para as escadas, que notou que as reações das pessoas estavam um pouco anormais. Ele era um homem grande e indígena (ele foi um índio por mais de um século e só ocasionalmente pensava em si mesmo como nativo americano. Quando prestava qualquer atenção realmente, ele poderia se considerar mestiço Salish ou Cabeça-Plana). A combinação de tamanho e etnia normalmente faziam as pessoas o evitarem, especialmente em lugares onde os índios não eram comuns. Não era culpa delas; estava na natureza do homem achar o desconhecido intimidante, 8

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especialmente quando vinha na forma de um grande predador. Seu Da9 não acreditava, mas Charles estava totalmente certo que em algum lugar de seus cérebros a maioria das pessoas reconhecia um predador quando encontravam um. Seu irmão sustentava que o que fazia as pessoas recuarem não era nem seu tamanho nem o sangue de sua mãe, mas somente a expressão em seu rosto. Para testar a teoria de Samuel, Charles tentou sorrir — e então solenemente reportou a Samuel que ele estava enganado. Quando Charles sorria, ele disse a Samuel, as pessoas simplesmente corriam mais rápido. A única que apreciava seu senso de humor era Anna. As pessoas não se afastavam dele quando Anna estava ao seu lado. Mas mesmo sem a presença dela, ter alguém que ele não estava nem olhando recuando como se ele segurasse uma arma de fogo carregada, ao invés de um monte de expressos e lattes10 em um par de suportes de papelão fino, era um pouco excessivo. Ele saiu do elevador e se moveu devagar, para que o homem não pensasse que estava começando uma perseguição. Irmão Lobo achava que seria divertido e mandou a ele uma imagem do homem correndo aterrorizado pelo saguão com Charles em seu encalço — ainda carregando as estúpidas bebidas. Porque Anna especificou bebidas quentes para todos, e ele nunca fugiria de pagar essa aposta. Então, ele caminhou corredor abaixo com deliberada lentidão ao invés de perseguir, de rasgar e dilacerar a doce, metálica carne encharcada de sangue entre seus dentes, da mesma maneira que ele tomou o elevador em vez de subir os degraus estreitos, onde alguém poderia topar com ele e derramar as bebidas. Da estava louco para mandá-lo nessa missão quando ele estava tão perto de perdê-la, que mesmo um humano sem-noção poderia dizer que havia algo errado. Charles soube que existia algo acontecendo quando chegou para o almoço, como requisitado, e somente seu pai o aguardava, cozinhando um sanduíche de bacon, alface e tomate na grande cozinha da casa. Da comeu seu próprio lanche e esperou até que Charles terminasse o seu antes de irem para o escritório. Seu pai fechou a porta, sentou atrás da escrivaninha e franziu seus lábios, dando a Charles seu olhar “eu tenho um trabalho para você e você não vai ficar muito feliz comigo”. As refeições pai-efilho frequentemente incluíam aquela expressão no rosto de seu pai. Quando Da queria conversar com ele sozinho, raramente era uma conversa feliz. Charles esperou, em pé, para ouvir o que seu pai tinha a dizer. Seu lobo estava agitado, infeliz — e isso significava que ele não podia se sentar na cadeira oferecida e dificultava sua habilidade de se mover. — Asil esteve me chateando sobre você — Da disse.

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Designativo de pai ou patriarca (referência a Dã, líder de uma das doze tribos de Israel) Café com leite

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— Asil? — Asil não gostava particularmente dele; e Charles não via Asil já fazia algumas semanas. O que, pensando bem, era um pouco estranho em uma cidade tão pequena que alguém poderia espirrar duas vezes e nunca perceber que eles dirigiram o caminho todo enquanto isso. — Anna, claro, não precisa nem falar. — Da continuou. Charles se preparou. Ela sabia por que alguém tinha que manter ordem; ela sabia por que tinha que ser ele — ela só achava que ele era mais importante. Anna estava errada, mas o confortava que ela pensasse assim. Se a opinião de Anna fizesse seu pai decidir enviar outra pessoa, porém, era algo que teria que ser discutido. Charles, como o filho de Marrok e seu, há muito tempo, solucionador de problemas, era a única opção para oprimir a violência não-noticiável-para-padrões-públicos. Sua reputação — e quem seu pai era — evitava que os bandos fossem à guerra para proteger aos seus quando alguém precisava morrer. — Eu sei o que ela tinha para dizer. Mas Anna está errada. Irmão Lobo não está pronto para libertar-se. —Não. — concordou seu pai suavemente. — Mas seu avô lhe diria que você precisa se purificar de todos estes fantasmas que leva contigo. Charles vacilou. Ele devia ter sabido que seu Da entenderia o que estava acontecendo com ele. Da não era um homem espiritual, não que Charles pudesse dizer de qualquer maneira. Ele tinha bastante certeza que seu pai não podia ver os fantasmas do modo que seu avô via. Mas seu Da tinha um jeito de ver direito no coração das coisas quando queria. — Eu tentei — Charles disse, se sentindo com treze anos. — O jejum e o suor não funcionaram. Corrida. Natação. — Você os mantém consigo porque não sente que as mortes deles foram justas. Charles inclinou a cabeça ligeiramente e angulou seus olhos para baixo, mas não tão longe que não pudesse ver o rosto de Da. — Não sou eu quem determina a lei, eu só a executo. Da franziu a testa para ele, não como se estivesse descontente, só pensativo. — Eu tive uma conversa com Adam Hauptman. Charles levantou suas sobrancelhas e encontrou uma voz seca para perguntar: — Adam está preocupado comigo, também? — Adam está preocupado com a companheira dele, que está ferida, debilitada, e mal humorada. — respondeu seu pai — Então ele não está disponível para assumir uma situação bastante complicada. Charles não sabia para onde a conversa estava indo, então adotou o silêncio como estratégia. Da gostava de se ouvir falar de qualquer forma. 35


O velho lobo suspirou, espreguiçou-se e pôs os pés sobre a escrivaninha — um sinal que Charles estava falando com seu pai e não somente com o Marrok. — Eu estive quebrando a cabeça; para não mencionar a de Asil; em busca de uma forma de facilitar seu trabalho. Ele falou como se a situação de Adam tivesse um pouco a ver com Charles, entretanto ele não podia ver como. — Você tem feito. Seu pai lhe fez carranca. — Não. Está se tornando dolorosamente óbvio que nada do que eu fiz ajudou você. Bran não disse nada por alguns minutos, apenas estudou o rosto de Charles, como se não fosse o rosto que ele usava todos os dias desde que se tornou um adulto, quase dois séculos atrás. — Eu não posso enviar qualquer um para executar as regras; mas eu estou, a partir deste momento, flexibilizando as penalidades para muitas transgressões, na esperança de que isso permita aos lobos Alfa precisar de menos… ajuda as executando. — Ele levantou uma mão e Charles engoliu seus protestos. — Você é o único que eu posso enviar, sim. Mas se você vacilar não haverá ninguém além de mim; e eu não confio em mim mesmo. Assim, é necessário que você não quebre. Qualquer um que foi transformado em até cinco anos receberá uma advertência. Asil é tão assustador quanto você, e ele também não é um Alfa agora mesmo. Ele se voluntariou para sair e assustar severamente os jovens idiotas que quebram as regras pela primeira vez. Charles sabia que estava errado. Seu pai pesou e avaliou as necessidades de sobrevivência dos lobos e fez as mudanças necessárias nas leis dos bandos. No entanto, não foi a vergonha, mas o alívio, que o fez fechar os olhos. — Eu falhei com você. — ele disse. — Não, filho. — disse Da. — Eu quase falhei com você. Você é, como Asil me lembrou, um de meu clã e eu sou responsável por seu bem-estar. — seu tom ficou incerto. — Asil designou a si mesmo como meu guardião? — perguntou Charles suavemente. Asil estava passando dos limites. — Ele me falou que estava entediado. — disse seu pai, e deu a Charles um pequeno sorriso. — Eu dei a ele um trabalho para que não fique entediado novamente. Da balançou-se para trás na cadeira e estudou o teto como se fosse interessante por um momento, antes de voltar seus olhos amarelos para Charles. — Asil assustando os jovens lobos não será o suficiente. Eu… Nós ainda precisaremos de você para matar. Porém, Adam pensou que fazer outras coisas também poderia… diluir o impacto. Talvez, se cada viagem que você fizer não for para ir matar alguns amigos antigos e conhecidos... — Charles escondeu, ou tentou esconder, um estremecimento — Talvez ajude. Então. Eu recebi um telefonema 36


de um dos meus contatos no governo, e eles precisam consultar um de nós sobre um possível serial killer. Seu pai viu seu rosto e sorriu sem humor. — Não um de nós. Um dos assassinos que eles estiveram acompanhando por um tempo parece ter mudado seu tipo de vítima. Pelo menos três dos mortos em Boston eram homens lobo. — Três? E nós não soubemos? — Eu sabia que três morreram. — disse Da. — De três clãs diferentes, mas ninguém julgou conveniente me dizer que as mortes estavam provavelmente conectadas. Eu lidarei com esta parte. Algumas cabeças rolariam — provavelmente não literalmente. — Existe só um bando em Boston. — Não era bem uma pergunta, mas Da teria começado a fazer perguntas se três lobos do mesmo clã morressem em um curto período de tempo. — Um turista de um clã de Vermont e outro de Seattle. Só um do clã de Boston. O FBI está interessado em qualquer coisa que nós pudermos adicionar à investigação. — Você está me enviando? — As pessoas instintivamente queriam agradar Adam. Charles era melhor no destruir-e-subjugar, não tão bom no persuadir-e-encantar. — Não. — disse seu Da. — Isso seria estúpido. Eu estou enviando Anna. Você vai como seu guardião. Eu mandei os pormenores do que sei para seu e-mail e para o dela.

E DESTE MODO Charles se encontrou perambulando pelo hotel, rastreando um par de agentes federais enquanto segurava um suporte de papelão com café em cada mão, ao invés de estar fora caçando homens lobo malcomportados. Charles sabia que eram agentes federais porque somente homens que eram parceiros se moviam tão sincronizadamente. A linguagem corporal dizia que eles não estavam em um relacionamento, o quê significava militares, federais ou policiais. Desde que estavam indo na mesma direção que ele estava, Charles imaginou que se encontrou com dois dos federais com que os quais deveria se encontrar. De repente, ele percebeu que estava se divertindo, espreitando federais pelos corredores do velho e elegante hotel, especialmente porque os agentes não tinham nem ideia de que ele estava fazendo isto. Isso o divertia. Se ele não tivesse perdido a aposta para Anna, não teria tido a chance. Quem teria pensado que o pessoal de segurança em SeaTac11 estaria tão preocupado com ele que não perceberiam Anna contrabandeando uma garrafa da água pelo posto de fiscalização? Sua aposta deveria ter sido uma segura— e o pior que aconteceria com Anna era que eles jogariam fora sua garrafa d’água. 11

Centro de Detenção Federal

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Foi por culpa dele mesmo ter perdido a aposta. Talvez Samuel tivesse um pouco de razão quando disse a Charles que sua expressão influenciava as pessoas, pois um dos funcionários do hotel que estivera dando a ele um olhar preocupado pareceu, de repente, relaxado e deu-lhe um sorriso alegre. Ele podia ter vencido Anna. Ele não precisava ter soltado um rosnado subvocal no momento exato para distrair a todos quando Anna atirou a garrafa de plástico sobre os scanners e sobre a mochila de alguém, do outro lado das máquinas. Ninguém o ouviu, não realmente, só sentiram os cabelos na parte de trás de seus pescoços arrepiarem enquanto Irmão Lobo ria da audácia de sua companheira. Não só teve Anna passando por isso incólume; ela o distraiu enquanto era revistada e scanneada. O que provavelmente fora seu intento em primeiro lugar. Mulher esperta, sua Anna — mas ela não lhe perdoou a dívida da aposta. Quando a TSA12 finalmente o deixou passar pela segurança — porque ser assustador não era motivo o suficiente para mantê-lo fora de um avião — Anna o estava esperando confortavelmente enrolada num dos banquinhos onde as pessoas se sentavam para calçar seus sapatos. Ela levantou sua água tingida de azul em um brinde triunfante e então a bebeu até a última gota. Fora ideia da Anna, não sua, tingir a água, assim ela não poderia apenas usar truques de ilusionismo — ela nunca roubaria em uma aposta com ele. Assistir sua garganta enquanto ela engolia o líquido era uma coisa estranhamente erótica; erótica e mágica, algo que não poderia existir no mesmo universo que as mortes que o assombravam. Então os fantasmas recuaram, não de um jeito permanente, mas era mais liberdade do que ele teve durante algum tempo, e era bom. Charles não se importou de perder para sua companheira, entretanto deixar Anna sozinha para lidar com os federais enquanto ele pagava a aposta não fazia seu lobo feliz. Mas ele sabia que Anna podia encantar os pássaros para fora das árvores, e alguns federais que precisavam de ajuda não iriam dar a ela nenhuma dificuldade. Ninguém iria tentar machucá-la. Não ainda, não antes deles se envolverem na caça do FBI. Da achava que seria bom para Charles caçar algo diferente de um homem lobo, algo verdadeiramente malvado. Ele esperava que seu pai estivesse certo — e a evidência empírica tendia a sustentar sua esperança, já que seu Da estava frequentemente correto. Então Charles seguiu a dupla de federais pelo corredor abaixo, até a sala aonde iriam encontrar sua companheira e um pequeno grupo de outras pessoas. Estes não eram agentes de campo do FBI, ele decidiu, porque nenhum deles o notou embora não estivesse fazendo nenhum esforço particular para evitar ser descoberto. Segurança Nacional e Cantrip tendiam a ter mais cadeiras do que o FBI tinha. Eles estavam conversando baixo o suficiente para que Charles precisasse usar a audição do lobo para ouvi-los. O que ele fez, descaradamente.

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Administração de Segurança no Transporte

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— Você tem certeza de que isto é seguro? — perguntou nervosamente o homem loiro ao parceiro federal. Ele parecia recém-saído da faculdade, nem ainda com vinte e cinco. — Eu quero dizer, homens lobo, Pat. Plural. — Eles estão cooperando conosco. — disse Pat, o homem mais velho. Charles identificou o sotaque como um nativo da Nova Inglaterra suavizado um pouco por uma estadia em algum lugar no Sul. Ele estava no início dos quarenta e caminhava como alguém que fez muito disto. — Eles se comportarão porque é o que eles têm que fazer. — Você não acha que eles ficarão bravos porque eu vim junto? Deveria ser só você. Cinco pessoas. Dois do FBI, dois da Segurança Nacional e um de nós. Eles devem ser da Cantrip então, pensou Charles. De acordo com Da, lá deveria haver dois deles e um da Segurança Nacional. Alguém andou flexionando os músculos. Vários alguéns. Irmão Lobo decidiu que Charles estava se sentindo muito relaxado para ensiná-los a se importar com suas boas maneiras. — Mais fácil pedir perdão que permissão. — disse Pat enquanto abria a porta da sala em que iam se encontrar — Não está certo, Leslie? — Um de vocês pode partir. — disse friamente uma voz de mulher. — Só porque você não está mais no FBI Pat, não significa que você esqueceu como contar. Cinco. É fácil. Você pode trapacear e contar nos dedos se precisar. — Ha-ha... — resmungou Pat, fechando a porta atrás de si. Charles parou para escutar antes de entrar. — Aposto com você que ninguém realmente se importa. Quando o homem lobo vai aparecer? Eu pensei que o memorando dizia oito em ponto. — Seis pessoas estão bem. — disse Anna, e Irmão Lobo relaxou mais com a diversão na voz de sua companheira. — Cinco era só para manter os números baixos. Ele sabia que ela estava segura. Ela era uma mulher lobo, e se o treinamento que estava dando a ela não a fizesse segura numa sala cheia de humanos, ele estava fazendo errado. Ainda assim, Irmão Lobo estava mais feliz ouvindo os tons relaxados da voz dela. Charles olhou para a porta e percebeu que seria duro abrir com ambas as mãos cheias. Ele poderia ter administrado isto, mas havia outro caminho. Ele sabia muito bem, sabia que os fantasmas não tinham ido embora. Mas a tentação era muito grande. Fazia tanto tempo desde que ele a tocou, e Irmão Lobo estava tão faminto... Quase tão faminto quanto ele estava.

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Então ele abriu as ligações que amarravam o lobo à sua companheira e disse, tão suave quanto possível: Abra a porta, por favor. E alguém vai ter que beber o café do hotel já que eu só trouxe o suficiente para cinco agentes federais. A porta foi escancarada e ela olhou para ele, seu rosto completamente sério e seus olhos brilhando com lágrimas. Você falou comigo. Mas mais que palavras viajaram através do vínculo pelo lado dela; Anna era sempre generosa em compartilhar seus sentimentos com ele. Ela enviou a ele uma onda de alívio que quase escondeu o sofrimento e a dor do abandono. Ele fez isso com ela; ele soube que estava fazendo isto — e ainda sabia que era o menor de dois males. Charles tinha que protegê-la do que estava acontecendo com ele. Saber que era o mais certo não significava que não o rasgava, que não lamentava tê-la magoado. — Eu não me importo com o café do hotel. — ela disse em voz alta, num tom embotado. Ele tinha medo de machucá-la ainda mais antes disso tudo acabar. Charles curvou sua cabeça e tocou seu nariz no dela, fechando seus olhos para esconder o efeito de saber o que ele tinha feito para ela — e o efeito de senti-la, pele a pele, mais uma vez. Irmão Lobo queria arrastá-la para longe de todos estes estranhos e encontrar o quarto vazio mais próximo, assim ele poderia se embrulhar ao redor dela e nunca deixá-la ir. Charles queria dizer “Eu sinto muito por machucar você”, mas isso implicava que ele faria algo diferente se tivesse que fazer tudo de novo. Ele nunca iria permitir que a feiura de sua vida a manchasse, não se ele pudesse impedir. Então ele disse algo estúpido no lugar. — Minha esposa vai beber o chocolate quente que eu trouxe para ela. — Seu olhar passou por ela e pela sala. Com exceção dos dois homens que ele seguiu, os demais estavam sentados em torno da mesa. Deve ter sido sugestão de Anna, porque todos pareciam tensos e desconfortáveis. Estar sentado quando outra pessoa está de pé pode ser uma posição de poder; um jeito de dizer “eu estou tão confiante que eu posso te pegar que não me aborrecerei levantando”. Mas quando um monstro entra na sala, todo mundo quer estar sobre seus pés. Charles era um monstro grande. Prova de que Anna foi esperta ao fazer isto, entretanto, era o nível de sua irritação com os dois homens ainda em pé atrás dela. Ele encontrou os olhos do agente Cantrip mais jovem. O humano baixou o olhar e retrocedeu involuntariamente, agradando ao Irmão Lobo. Charles sorriu para o agente com seus dentes. — Você convidou a si mesmo para onde não tinha sido convidado. Você pode beber o café do hotel. E agora eles achariam que ele realmente era estúpido, porque a maioria dos humanos não entenderia que ele precisava estabelecer quem estava no comando, de forma que Irmão Lobo saberia que Anna estava segura. Dar uma ordem que eles obedeceriam era estabelecer a ordem de

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alimentação13. Estava tudo bem que eles o achassem estúpido, ele decidiu. Ele e Anna podiam bancar o policial tolo e o policial mudo se fosse preciso. E brincar com os agentes federais era tão mais fácil que lidar com que ele estava fazendo para Anna. Ela devia ter escolhido outra pessoa. Asil. Alguém. Mas o pensamento de Anna com outra pessoa enviou Irmão Lobo em um ataque de ira ciumenta. Não há ninguém para mim exceto você. A resposta rápida de Anna o lembrou que ele escolheu deixar a ligação entre ambos aberta. Ele não sabia o quanto ela estava pegando, mas era mais que tempo de se controlar. Charles passou por Anna e deixou os suportes de papelão na mesa. Retirou o único que não era café para Anna, e o deu para ela enquanto observava todos ainda sentados perfeitamente quietos e de olhos baixos, com exceção dos agentes da Cantrip: Anna os estivera educando. Ela se dirigiu até a parte de trás da mesa, escolhendo uma cadeira com ninguém sentado perto. Os agentes da Cantrip pegaram cadeiras vazias no outro lado da mesa depois que ele advertiu o mais jovem para longe de Anna com uma sobrancelha erguida. Charles permaneceu em pé, atrás da cadeira de Anna. — Este é meu marido Charles. — Anna disse a eles, suas mãos cruzadas — Talvez fosse uma boa coisa se apresentarem novamente, agora que estamos todos aqui. Eu sou Anna. — Agente Especial Leslie Fisher — disse a outra fêmea na sala, uma mulher negra com olhos inteligentes e voz firme. —Unidade de Crimes Violentos, FBI. — Agente Especial Craig Goldstein — falou um homem magro na casa dos cinquenta. — Em tarefa para a Unidade de Crimes Violentos de Boston porque tenho experiência com este serial killer. Charles assentiu para os agentes do FBI. A experiência de Fisher ele conhecia, pois checara o histórico de todo o pessoal na UCV de Boston. Sobre Goldstein ele teria que pesquisar mais. — Jim Pierce — disse o único homem na sala que estava sorrindo. Ele apontou para Charles. — Segurança Nacional. Eles me enviaram para juntar informações. Ele tinha uma boa ideia de quem seria enviado pela Segurança Nacional, já que eles tinham apenas oito pessoas especializadas em assuntos sobrenaturais, e Charles tinha os arquivos de todos eles. Alpinista político, ele disse a Anna silenciosamente devolvendo o sorriso a Pierce. O rosto do sujeito ficou bem menos feliz e ele empurrou sua cadeira alguns centímetros atrás. A caminho de um cargo público. Você acha que eu devia trabalhar meu sorriso? Anna olhou para ele e franziu a testa. Se comporte, disse sua companheira, bastante séria. Mas ele leu sua diversão na pequena curva que ergueu seus lábios. É um sistema hierárquico na organização social dos animais. O nível de dominância determina qual indivíduo ganha acesso preferencial à comida e ao acasalamento. 13

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— Dr. Steven Singh — disse o segundo agente da Nacional. Um patriota antiquado, Charles informou a Anna depois de trocar cumprimentos no estilo artes marciais com o doutor. Ele está no registro que pessoalmente classificou os faes e os homens lobo como terroristas domésticos. Charles tendia a concordar com ele. Nenhum deles está aqui porque desejam ajudar a pegar um serial killer. Pierce não tem nada a acrescentar. Singh é bastante esperto, o que poderia ser útil, embora ele não se importe com o crime. Os agentes da Cantrip eram mais interessantes. Ele não sabia muito sobre a Cantrip, a não ser que era uma agência muito mais nova que Segurança Nacional, tendo sido criada quando os homens lobo se expuseram. Apesar de subsidiada e autorizada pelo governo, seu papel era “coletar e compartilhar informações sobre grupos e indivíduos não humanos e humanos transformados”, o que os deixava com certa margem de manobra. Eles tinham dois escritórios principais, um em cada uma das costas, mas pareciam viajar por todo o país e se interessarem, principalmente, por casos criminais que envolviam faes, homens lobo, ou qualquer outra coisa que parecesse esquisito para eles. Seu pai tendia a rotular os agentes da Cantrip como inofensivos, já que eles não tinham nenhuma autoridade para prender ou deter ninguém. Charles era menos otimista, pois, uma vez que eles eram de uma agência do governo, andavam armados — e levavam consigo balas de prata. Ele tinha arquivos de muitos dos agentes, mas decidiu ver quem eles enviariam antes de refrescar sua memória. Os mais velhos dos dois agentes da Cantrip tentou (e falhou) sustentar seu olhar, e então observou atentamente à Anna, o que fez os pelos do pescoço de Charles se arrepiarem — e Irmão Lobo não gostou muito dele, tampouco. — Patrick Morris — ele disse. — Cantrip, agente especial. — Anteriormente do FBI — disse a Sra. Fisher, com uma fria desaprovação que esclarecia que qualquer um que escolhia deixar o FBI era um idiota. — Les Heuter, — disse o homem mais jovem, instantaneamente se tornou mais interessante. Heuter é um garoto-propaganda para a Cantrip, Charles disse a Anna. Seu pai é um senador do Texas. Se alguém da Cantrip é entrevistado pela imprensa, três vezes de quatro é Heuter. O quê era uma das razões, Charles pensou, pelas quais as pessoas tendiam a não levar a Cantrip mais a sério. Ele devia ter reconhecido Heuter imediatamente, mas o sujeito parecia diferente pessoalmente, não tão robusto, impressionante ou bonito, mas mais sério e agradável. Ele cheirava avidez, como um cão de caça que espera pelo aroma certo. Charles se perguntou se eram os homens lobo ou o serial killer que causavam a descarga de adrenalina no jovem. Ele tinha um bom rosto para o pôquer, entretanto. Charles duvidou que qualquer um dos humanos na sala perceberia o quão excitado Les Heuter estava por estar aqui. Charles nunca fora humano, mas ele decidiu que devia ser como caminhar por aí com tampões nas orelhas e no nariz o tempo todo. 42


Goldstein olhou em volta. — Pessoal, vamos por a bola para rolar. — Ele olhou para Charles. — O homem que marcou esta reunião me disse que é improvável que os três homens lobo tenham sido vítimas escolhidas ao acaso. De acordo com ele, simplesmente não há muitos homens lobo por aí a fora. Ele especulou que as três vítimas significam que o assassino está mirando homens lobo e sugeriu que nós expuséssemos todo o caso desde o início para você, Sr. Smith, e ver o que pensa antes de eu começar a fazer perguntas. Sendo assim, eu direi a você o que nós sabemos sobre o cara, e apreciaria qualquer coisa que possa nos dar. Charles cruzou os braços e se recostou contra a parede, sua atenção em Anna, telegrafando tão ruidosamente quanto a linguagem corporal permitia, que Anna estava no comando. Esse era o trabalho dela — se Charles tivesse que lidar com o grupo, eles provavelmente correriam assustados e começariam eles mesmos a executar homens lobo. — Quem marcou isto? — Heuter perguntou abruptamente. Goldstein olhou para o jovem e disse brandamente: — Eu não tenho ideia. O homem que me ligou não se identificou, só sugeriu que eu tomasse notas e seu conselho. Como a maioria disso pareceu senso comum, eu o fiz. Bran, Anna pensou. Provavelmente, Charles concordou. Ou Adam Hauptman. Anna encontrou o olhar de Heuter e encolheu os ombros. — Eu sei quem marcou nosso encontro. Não tenho ideia de quem marcou o seu. Goldstein pegou seu notebook e o ligou ao sistema de vídeo da sala. Ele limpou a garganta e disse: — Agente Fisher, você guardaria a porta, por favor? Algumas destas imagens são bem ilustrativas e eu prefiro não assustar alguma pobre empregada. A porta estava trancada e Goldstein tirou seus óculos e os limpou enquanto a Agente Fisher desligava as luzes. Quando colocou os óculos de volta, o fez junto com um manto de autoridade; o lânguido ar de debilidade, de idade e ingenuidade desapareceu. Por só um momento, o Agente Goldstein era um homem que caçava outros homens, e então a aura de debilidade voltou, como outro homem que punha de volta uma velha camisa confortável. — Nós chamamos nosso UNSUB — ele pausou. — Isto é um termo do FBI para “sujeito desconhecido14,” que parece um pouco mais profissional e menos histérico que “assassino” e mais adulto que “cara mau”. Este UNSUB é conhecido como o Caçador do Grande Jogo, porque pelas primeiras duas décadas todas as matanças aconteceram durante a tradicional estação de caça. A primeira 14

No original é “unknown subject”, por isso UNSUB.

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morte de que nós sabemos foi em 1975, entretanto, dada a sofisticação dos assassinatos, é provável que ele já tenha matado antes disso. — ele olhou para Anna, que deve ter mudado sua expressão, e disse: — Sim. Nós estamos absolutamente certos que este assassino é um homem. Ele bateu num botão e duas fotos apareceram na TV de tela grande, lado a lado. A primeira era a fotografia de uma adolescente asiática — chinesa, pensou Charles. Ela estava sorrindo resolutamente para o fotógrafo e havia uma brilhante fita laranja em seu cabelo. A segunda fotografia estava muito granulada e mostrava um corpo nu, cabeça envolta em sombras e um lençol ou cobertor branco lançado sobre seus quadris. — Karen Yun-Hao tinha quatorze anos. Ela foi sequestrada de seu quarto em… Charles deixou a voz do homem flutuar; ele lembraria do que o Agente Goldstein disse depois, se ele precisasse. No momento ele se concentrou nos rostos, procurando por pistas, por pessoas que ele conheceu, por vítimas que eram dos clãs. No primeiro ano, o assassino pegou quatro meninas, com uma semana de intervalo cada. Asiáticas e jovens, nenhuma com mais de dezesseis ou menos de doze. Ele as mantinha, estuprava e torturava até que estivesse pronto para a próxima vítima. O FBI achava que ele matava uma vítima logo antes de raptar a seguinte — entretanto existia uma possível sobreposição. Assim que a estação de caça terminou, ele parou. O primeiro ano foi em Vermont, o segundo foi no Maine, onde ele ficou por alguns anos, então Michigan, Texas, e Oklahoma. Organizado, Irmão Lobo pensou, erguendo-se para a perseguição. Um bom caçador tomava somente o que precisava quando precisava e a presa deles era um bom caçador. As vítimas do assassino mudaram gradualmente pelos anos, meninas e mulheres asiáticas e então, no Texas, um adolescente que também era asiático. O menino foi a primeira vítima sodomizada, mas depois dele, todas as demais foram, homens e mulheres igualmente. No ano seguinte a este, suas presas eram divididas dois a dois, mulheres e meninos. Então somente meninos. Depois disso, ele adicionou uma adolescente negra. — É como ele se estivesse procurando pela refeição perfeita. — disse Anna suavemente, e conseguiu um olhar horrorizado do Dr. Singh que Charles não achou que ela viu; a atenção de Anna estava focada na tela. — Ele começou em setenta e cinco. Talvez fosse um veterano do Vietnã? — As vítimas asiáticas, sim... — disse o agente sênior do FBI, parecendo até mais frágil do que antes. — Elas não eram todas vietnamitas, ou mesmo a maioria. Mas algumas pessoas não podem ver a diferença ou não ligam. A polícia já adotou essa tese antes, na primeira vez que o FBI foi colocado no caso, no início dos anos oitenta. O UNSUB não seria o único a sair daquela bagunça com necessidade de matar. — “Esses são tempos que tentam as almas dos homens” - Anna citou brandamente, e Charles sabia que ela estava se lembrando de outro guerreiro veterano. — Levou mais de cinco anos para o FBI ficar envolvido? — perguntou Heuter. 44


Goldstein deu ao agente da Cantrip um olhar paciente. — Mais perto dos dez. Primeiro, levou um tempo para a polícia compreender que eles tinham um serial killer, sendo a comunicação o que era. Segundo, o FBI não é responsável por casos de serial killers. Nós somos o pessoal de apoio, não o primário. — Ele bateu num botão e uma nova fotografia apareceu. — Aqui é quando nós entramos, o FBI; foi antes do meu tempo. A primeira vez que topei neste caso era um novato, em 2000. Em 1984, o Caçador do Grande Jogo estava de volta no Maine. Esta é a primeira vítima naquele ano, Melissa Snow, idade dezoito. Charles a reconheceu — e ela não tinha dezoito anos. A próxima vítima era um menino negro, um desconhecido. Ele também não conhecia a terceira vítima, outra menina asiática. Esta tinha dez anos. Irmão Lobo decidiu, olhando para o delicado rostinho alegre, que eles encontrariam o assassino e o destruiriam. As crianças deviam ser protegidas. Charles concordava, e os fantasmas dos injustamente executados que o assombravam, afastaram-se ainda mais. — Aquelas foram as únicas três vítimas que localizamos naquele ano, e depois o número de corpos encontrados começou a variar. Em 1986 e 1987 nós encontramos três corpos. Em 1989, foram dois. Em 1990, três corpos de novo, e assim por diante até 2000, quando várias coisas mudaram, mas eu chegarei lá em um minuto. Nós não acreditamos que ele tenha mudado o modo de matar. Aquele intervalo de uma semana entre a primeira vítima e a próxima parece bem definido. Então achamos que ele começou a pôr os corpos em lugares menos acessíveis. No grupo de vítimas do ano seguinte, Charles reconheceu dois de três. Ele também notou que as fotografias da cena do crime eram de melhor qualidade—um sinal do FBI trazendo um fotógrafo melhor, ele pensou, ou só uma combinação do avanço da tecnologia e o jeito como o tempo degradou a cor do filme. Goldstein comentou: — Em 1984, duas das vítimas correspondiam com o perfil de escolha do UNSUB. De 1985 em diante não houve nenhum padrão aparente na escolha das vítimas. Homens e mulheres, jovens e velhos. Ele ainda está sequestrando, estuprando e torturando por uma semana antes de seguir para próxima vítima. — ele tomou seu tempo, mostrando a eles o rosto de cada vítima. Charles notou que Goldstein nunca tinha que consultar suas notas para os nomes, e que quando ia para as anotações, era normalmente para confirmar algo que tinha acabado de dizer. —No outro ano, ele começou em setembro. Charles conhecia três das vítimas de 1985 e todos os corpos encontrados em 1986. Pare-o, ele disse a Anna, decidindo que a vitimologia do assassino não era nenhuma coincidência. Isto é importante. Volte para aquele primeiro ano, o que o FBI se juntou na caça. — Espere — Anna disse, olhando para as próprias anotações — Você pode voltar para as vítimas de 1984?

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Os faes se revelaram por essa época, Charles disse a Anna. Melissa Snow era fae e tão próxima dos dezoito quanto meu pai está. Ela não tinha se revelado, eu acho que não, mas ela era fae. Talvez tenha sido um acidente? Anna pensou quando o rosto de Melissa, luminoso e feliz numa foto instantânea em família, apareceu na tela, ao lado de seu rosto cinza e inanimado. Os faes não estão exatamente em todo lugar, mas é razoável que ele tenha escolhido uma por engano. Ela não era uma mestiça, ele disse a ela. Se alguém a escolheu achando que era uma adolescente humana, nunca poderiam mantê-la. Ela não era poderosa, mas podia se defender melhor que um humano. Eu posso dizer isto a eles? Absolutamente. Então os ponha no próximo ano. Alguns faes não têm nenhum corpo quando morrem. Isso pode ser a razão de não existir uma quarta vítima. Goldstein deu uma olhada perscrutadora para Anna — Ela era uma lobisomem? —Não. — Anna disse. — Fae. — e então contou aos federais o que Charles lhe havia dito. — Fae. —Singh fez uma carranca. —Como você sabe? — Eu sou um dos monstros, Dr. Singh. — Anna disse sem uma pausa. —Nós tendemos a conhecer uns aso outros. — não era bem uma mentira. — A pergunta é como o... do que você o chamou? O Caçador do Grande Jogo? Como ele saberia o que ela era? Se ele a atacasse pensando que era humana, ela teria escapado. — Eu conheci o agente que trabalhou neste caso. — disse Goldstein. — Melissa tinha pais e um casal de irmãos que tinham dez e sete na época. Ele conversou com eles. Ela tinha dezoito anos de idade. Sem pais, Charles disse a Anna. Ou talvez eles fossem faes também. Ou ela poderia ter assumido a aparência de uma garota morta. Difícil de dizer. Mas eu a conheci… não muito bem, mas o suficiente para dizer que ela não tinha dezoito anos. A vítima poderia ter sido a Melissa Snow real e a fae tomou sua identidade depois de sua morte? Anna só estava cobrindo as bases, mas era uma boa pergunta. Quando ele encontrou Melissa? Anos tendiam a misturarem-se uns aos outros… Eu a conheci durante a Proibição, ela estava trabalhando em um speakeasy15 em Michigan— Detroit, eu acho— mas bem antes dos anos oitenta. — Ela era fae. — Anna disse. — Se ela tinha pais e irmãos, eu suspeito que eles também fossem faes. Eles sabiam como se misturar com a sociedade Agente Goldstein. A idade aparente tem muito pouco a ver com a realidade quando se está lidando com um fae. — Os outros dois? — Goldstein perguntou, entretanto não pareceu convencido. 15

Um lugar para venda e consumo ilegal de bebidas alcoólicas, durante a Proibição nos Estados Unidos.

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— Eu não sou uma especialista em faes. — Anna disse. —Foi um acaso eu ter reconhecido Melissa. Mas existem faes entre as vítimas em todos os anos, deste em diante. Goldstein perguntou: — Todos os anos? Isso explicaria a ausência de corpos, Charles disse a ela. Alguns dos faes simplesmente se desvanecem quando morrem. Se um fae perdeu seu glamour, outro fae se asseguraria que o corpo nunca viesse à tona. — Que eu tenha visto. Houve uma tensão crescente nos ombros de Goldstein, e um ímpeto em seu cheiro que disse ao Irmão Lobo que Goldstein estava pensando, acrescendo isso a todos os pedaços e mordidas que ele tinha sobre o assassino, tentando ver como isso mudava o caso. Charles considerou as repercussões de um serial killer que caçava faes. Certamente os Senhores Cinzas teriam notado que alguém estava matando seu povo? Mas eles não eram Bran, que protegia e amava seus lobos. Se um fae que não fosse poderoso e que mantivesse a cabeça baixa por segurança morreu, os Senhores Cinzas que o governavam iriam mesmo notar? E se eles notassem, fariam qualquer coisa? — O assassino poderia ser um fae? — Isso veio de Pat, o agente da Cantrip. — Se ele esteve matando desde 1975 e fosse humano, estaria usando uma cadeira de rodas hoje. A Agente Fisher fez uma carranca. — Eu conheço um homem de oitenta anos que podia pegar você com um braço amarrado nas costas, Pat. E se este cara estava com dezoito no fim da Guerra do Vietnã, ele seria muito mais jovem que oitenta. Mas a maioria dos serial killers não dura tanto tempo. Eles decaem ou começam a cometer erros. — O Assassino de Green River caçou por mais de vinte anos. — ofereceu Pat. —E quando finalmente o encontraram, ele era um homem casado que ia à igreja com os dois filhos e tinha um trabalho estável há mais de trinta anos. Goldstein não tinha escutado; ele esteve encarando Anna sem realmente olhar para ela. Pensando. — Eu não acho que ele é fae, — ele disse. — Não nosso assassino original. Por que outra razão ele teria esperado até que os faes se revelassem para começar a matá-las? Não nosso assassino original, pensou Charles para si mesmo. — Eu, pessoalmente não conheço tudo sobre os faes. — disse Anna secamente. —Talvez eles fossem faes desde o princípio. Goldstein sacudiu a cabeça e Charles concordou com ele quando ele disse: 47


— Não. Isto é uma escalada no tipo de presa que o assassino caça. Ele está na pista, disse Irmão Lobo, observando o agente mais velho do FBI com interesse. — Caçando o inimigo. — disse Singh inesperadamente. —Digamos que ele seja um veterano do Vietnã. Ele volta para casa e vê vietnamitas; ou asiáticos, o que é bastante próximo para ele, em seu território. Então ele vai caçar, assim como fez na guerra. Ele troca para meninos. Talvez seja porque gostar mais de sexo com meninos; mas vamos dizer que é porque ele os acha mais resistentes, uma presa melhor. E então ele encontra um fae... E decide que eles são oponentes mais merecedores. E, como suas vítimas originais, são invasores aos seus olhos. —Ele é bom e esperto se tem matado todos esses faes. — disse Anna. — Eles tendem a ser mais difíceis de matar que os humanos. Muito ruim que ele não tenha escolhido o fae errado... Nós nunca encontraríamos os pedaços de seu corpo. Eu me pergunto como ele conseguiu isso. — Ele está matando homens lobo. — disse Heuter subitamente. Charles deixou de prestar atenção ao Cantrip que falava — Eles não são mais difíceis de matar que um fae? Anna encolheu os ombros. — Eu não saio por aí matando faes. Mas sendo tão antigos quanto alguns deles são, devem ter alguns truques nas mangas. — Melissa Snow morreu antes de você nascer. — disse Pat. — Como sabia que ela era fae? — não foi o que ele disse, mas a agressividade em sua voz, que fez Irmão Lobo perceber que o tom da reunião tinha mudado. — Fotografias de família. — Anna retrucou, curvando os lábios. — Ou talvez eu seja mais velha do que pareço. Será que isso importa? — Você tem vinte e cinco anos. — disse Heuter. —Tenho sua foto no meu telefone e a enviei para a central. Eles tiveram sucesso há mais ou menos dois minutos atrás. Anna Latham, de Chicago, mãe falecida, pai advogado figurão. — Então, como ele sabe? — Singh murmurou, ignorando o ataque do agente da Cantrip à Anna. — Como sabe que eles não eram humanos? Se eles tivessem se assumido, alguém teria notado que estava vitimando faes. Um homem lobo poderia cheirar um fae a maior parte do tempo. — Talvez ele tivesse um jeito de observar enquanto suas potenciais vítimas tocavam no ferro. Minha avó escocesa jurava que existiam pomadas herbáceas que você podia esfregar em seus olhos para ver as fadas... — Singh continuou, embora não parecesse alguém que tivesse uma avó escocesa, contudo, Charles dificilmente podia comentar, já que ele mesmo não parecia muito galês também. — Supõe-se que passar as roupas pelo avesso ou usar ferro frio funciona também. — disse Fisher, que esteve bastante tranquila até agora. Charles pensou que ela estava se assegurando que os 48


agentes da Cantrip não tomassem o controle da reunião novamente, já que falou ao mesmo tempo em que Heuter abriu sua boca para dizer outra coisa. — Você disse “assassino original” — disse Anna para Goldstein, e Charles teve que lutar para esconder seu sorriso. Ele pensou que Anna tinha perdido isto, mas ela só estava esperando pelo tempo certo para tocar no assunto — Você acha que nós não estamos mais lidando com o mesmo homem? — Certo. — Goldstein concordou, ignorando completamente os agentes da Cantrip e Singh para focar-se nos assassinatos. — Nós percebemos algumas diferenças nos assassinatos do UNSUB começando mais ou menos em 1995, que parecem indicar que ele adquiriu um parceiro. Então, em 2000, as mortes aconteceram durante seis semanas. Entretanto, nós... 2000 foi o primeiro ano que eu peguei neste caso.. . Nós somente encontramos cinco corpos, a linha de tempo indica que poderia haver seis vítimas. Como foram seis no ano seguinte, e em todos depois, sua janela entre mortes é de seis semanas ao invés de quatro, e nós estamos bastante certos de que existiram seis vítimas em 2000 também. — Se o MO16 não combina, como você sabia que elas ainda eram as vítimas do Caçador do Grande Jogo e não de algum outro assassino? — Singh perguntou. Ele foi apanhado na caça por seu assassino; embora a caça dele começasse com uma presa completamente diferente: os homens lobo. Irmão Lobo concordou com a avaliação de Charles sobre Singh: esperto, mas distraído caso algo mais interessante que sua presa atual corresse em sua frente. Goldstein alcançou sua pasta e retirou… um brinco de identificação auricular17 amarelo claro. Do tipo que rancheiros amáveis grampeavam em seu gado. — Ele marca suas mortes. Em 75 ele usou etiquetas de caça para cervo, roubadas de uma loja de suprimentos para caça. Em 82, ele trocou por este. O lote atual pode ser comprado na Internet em pacotes de vinte e cinco por um dólar cada. Suas presas eram coisas para ele, pensou Charles. Gado. Ou ele estava tentando transformá-los em coisas, disse Anna. — Vamos continuar com as vítimas e ver se notamos algo mais que possa ajudar. Goldstein continuou seu slide show. Com o desenvolvimento das técnicas periciais, os métodos do assassino para lidar com os corpos mudaram. Em vez de deixá-los para serem encontrados em algum lugar fora do caminho, ele os pôs na água. Rios, lagos, pântanos... e aqui, em Boston, o Atlântico, confiando na água para lavar seus pecados, que eram muitos. — Existem várias mudanças além da escolha e do número de vítimas. — Goldstein continuou — O ano de 1991 teve várias. A tortura ficou mais ritualizada, e ele parecia dar mais importância para isso. As mortes também começaram a recuar em um mês. De 1975 até 1990, todos os assassinatos aconteceram em novembro. Em 1991, ele mudou para outubro. E todo ano depois deste, ele recuou um mês, até 1995, quando começou a matar no dia primeiro de junho, onde ele está agora.

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Modus Operandi: termo latino que significa “jeito de agir”, “modo de operar”. http://exame2.abrilm.com.br/assets/pictures/14548/size_590_gado-claudio-rossi-600.jpg?1286691487

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— Se você me der uma lista com fotografias das vítimas — disse Anna, quando Goldstein concluiu — Eu farei meu melhor para ver se nós não podemos separar os faes do resto. Eu acredito que as primeiras vítimas homens lobo foram aqui em Boston, mas poderei dizer a você com certeza depois de dar alguns telefonemas. Charles estava bastante certo de que os lobos mortos este ano eram os únicos, mas não machucaria ter certeza. Além disso, com uma lista das vítimas, ele podia mandá-las para um casal fae que conhecia e que poderia ser capaz de dar mais informações sobre as vítimas faes, talvez até identificar mais algumas. — Certo. — concordou Goldstein. —Nós podemos fazer isto. Anna franziu a testa, uma mão roçando ligeiramente em seu queixo quando ela olhou fixamente para a colagem de fotografias das vítimas do ano atual—cinco até agora. A última era uma fotografia escolar de um menino pequeno. Mais uma vítima para ir antes que o Caçador do Grande Jogo siga para o próximo ano. — Eu não sou uma expert em fae — Anna disse. — Mas eu conheço lobos. Para um homem normal, ou mesmo um par de homens normais, pegar um homem lobo é... bastante ambicioso. Os predadores normalmente escolhem vítimas que dificilmente os derrubará. Heuter franziu a testa. — Ele não pareceu ter muita dificuldade com estes. Três lobos, certo? E ninguém viu nada. Eu não acho que é tão difícil quanto você diz. Caso contrário alguém teria percebido. Anna voltou sua cabeça, encontrando os olhos de Charles. Nós estamos aqui para aconselhar. Para dar a eles informações. Nós devíamos mostrar a eles? Charles se moveu de trás dela até o fim da pesada mesa, onde ninguém estava sentado. Ele olhou para baixo, para ter certeza que não estava presa no chão, então a ergueu na altura de seu tórax e, enquanto a nivelava, assegurou-se que nenhum dos eletrônicos caros de Goldstein caísse. Aí a baixou de volta no lugar. — Só nos matar — disse Anna — É difícil, mas não é impossível. Mas segurar um homem lobo enquanto o tortura… — Mágica? — Singh perguntou. O agente da Segurança Nacional esqueceu totalmente que sua primeira intenção tinha sido descobrir mais sobre os homens lobo. Charles descobriu que gostava dele—e não esperava por isso. Anna encolheu os ombros. — Isso ou um planejamento extremamente bom. Não é só força; nós metabolizamos muito depressa. Drogar ou incapacitar um de nós por muito tempo sem nos matar é muito difícil. — Água benta. — disse Pat, o ex-FBI e atual agente da Cantrip. 50


Anna não rolou seus olhos, mas deixou Charles sentir sua exasperação. —Eu poderia bebê-la todo dia por uma semana; e faria isso enquanto estivesse na Capela Sistina. —Prata? — Esse foi Heuter, novamente. — Existem marcas negras onde eles foram presos? — Anna perguntou. —A prata nos queima como fogo ou ácido. Eles não responderam sua pergunta. Charles notou que nas vítimas de 1990 em diante as fotografias das pessoas mortas eram do pescoço para baixo, e às vezes não havia nenhuma foto da cena do crime mesmo. Ele tinha bastante certeza que a ausência não era uma omissão. — E como ele soube que eles eram homens lobo? Somente um deles, o lobo local, saiu publicamente — Anna continuou. Houve um pouco mais de discussão, mas Charles deixou Irmão Lobo assimilar enquanto ele observava o ambiente. A Agente Fisher estava observando Anna com o mesmo olhar que Asil usava quando achava uma rosa que ele queria para sua estufa, meio avaro e satisfeito. Nós não teremos que conversar do nosso jeito para ajudar com este caso, ele disse a Anna. A Agente Fisher nos quer para ela. Irmão Lobo voltou sua atenção para a sala, onde o outro agente da Segurança Nacional, Jim Pierce, estava falando. — E se o assassino era um homem lobo? Anna sacudiu sua cabeça. — Então você não estaria achando corpos marcados; estaria encontrando partes do corpo. — Homens lobo comem pessoas? — Heuter perguntou, ficando alerta como um cão de caça. — Aquelas mortes em Minnesota... foram homens lobo? Anna bufou e mentiu como um político. — Olhe. Se tornar um homem lobo não faz de você um serial killer, e também não faz de você um super-herói. Quem você era é quem você é. Se um cara mau é transformado, ele continua sendo um cara mau. Porém, nós policiamos os nossos e estamos satisfeitos com isso. Sobretudo, nós simplesmente somos pessoas comuns que se transformam em um lobo durante a lua cheia e saem para caçar coelhos. Ser transformado transformava qualquer um em assassino. Homens lobo não eram lobos cinza ou lobos vermelhos que caçavam somente quando tinham fome. Homens lobo eram assassinos — e aqueles que não conseguiam se controlar, às vezes levavam muitos outros com eles antes de morrerem. Ninguém olhando para o sério rosto sardento de sua companheira jamais perceberia a mentira — a menos que fosse um homem lobo também. Seu Da estaria orgulhoso. CAPÍTULO 4 51


 Anna seguiu Charles para fora do hotel, tentando entender o que aconteceu com ele e porque para então decidir como prosseguir. Charles liderou o caminho para fora do hotel e virou na direção do condomínio onde eles estavam ficando. Charles, o clã de Aspen Creek, e a corporação do clã tinham condomínios por todo lado. O de Boston pertencia à corporação. Deixava a viagem mais discreta, sem despesas com hotel, sem estranhos entrando para limpar todo dia. — Espere um minuto. — ela disse. Charles girou. A expressão em seu rosto era exatamente a mesma de quando deixaram a casa dele ontem, rumo ao aeroporto, e de lá até Seattle, onde pegaram um voo comercial. Mas ele se sentia tão diferente. Quando Charles escolheu assustar todas aquelas pobres pessoas no aeroporto para que ela ganhasse a aposta, Anna pensou que tinha visto a travessura em seus olhos. Mas fazia tanto tempo desde que ele riu— ou a provocou com seu senso de humor sorrateiro — que ela teve medo de ter esperança. Afinal, eles vinham sendo tipicamente complacentes com Charles, algo que poderia tê-lo irritado o bastante para rosnar, e o timing poderia estar errado. E mesmo na reunião… foi necessário, se os federais tinham que acreditar que ela era quem vinha com as informações, ele teria que alimentá-la com isso. E o melhor caminho era abrindo o vínculo entre ambos. Bran não queria que os federais temessem os homens lobo, e Charles, especialmente nos últimos meses, era realmente assustador. Se ele só estivesse fazendo isto por causa dos negócios, teria encerrado o vínculo quando deixassem o hotel, mas ele não fez. E ele a tocou. Bran, ao que parecia, realmente encontrou uma cura — ou pelo menos um curativo — para seu filho. — O que? — Charles perguntou. Evidentemente ela o olhara fixamente por muito tempo. Ele se aproximou e ajeitou um maço do cabelo dela atrás de sua orelha. Ela queria agarrar-lhe a mão e segurá-la com ela, queria subir em seus braços e os sentir fechados ao seu redor. Mas ela tinha medo de que se chamasse a atenção dele para isso, ele a deixaria de fora novamente. Então ela manteve suas mãos para si mesma e ergueu-se na ponta dos pés algumas vezes. Ela precisava mantê-lo afastado do próprio jogo, mantê-lo pensando sobre outras coisas— e ela tinha exatamente algo nesse sentido. — Vamos explorar. — ela tirou um mapa da cidade que tinha pego no lobby do hotel de manhã e o abriu.

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— Eu conheço Boston. — disse Charles, com um olhar ligeiramente aflito ao redor, para ver se alguém tinha notado o mapa. Era cor de laranja claro e altamente improvável de iludir até o olhar mais casual. — Mas eu não conheço, — ela disse, apreciando a expressão no rosto dele. Estar acasalada com um lobo duzentos anos mais velho significava que ela raramente o via desconcertado. — E desde que eu quero explorar… — ele a levaria para lugares interessantes, Anna sabia. Amanhã que seria bom, e indubitavelmente ela apreciaria mais que qualquer coisa que tivesse feito por si mesma. Mas hoje ela queria ser mais… espontânea. — Se você andar por aí com este mapa laranja brilhante na mão — Charles disse a ela — todo mundo pensará que é uma turista. — Quando foi a última vez que você foi um turista? — ela perguntou maliciosamente. Ele só olhou para ela. Charles, ela tinha que concordar, não era material para um turista. — Certo. — Anna disse a ele. — Mexa-se. Você pode até gostar disso. — Você também poderia ter tatuado “vítima infeliz” em sua testa — ele murmurou. Anna agarrou sua mão e o puxou para o outro lado da rua, em direção a King’s Chapel e o cemitério mais velho de Boston—de acordo com o mapa dela.

DUAS HORAS DEPOIS, ela estava competindo por comida no prédio do North Market em Faneuil Hall Marketplace com o quê parecia quatrocentos grupos de turistas, enquanto Charles esperava por perto, recostado contra uma parede. Os noventa centímetros de espaço vazio ao redor dele era provavelmente o único espaço livre no lugar inteiro — mas esse era Charles; as pessoas simplesmente não se aglomeravam em volta dele. Pessoas espertas. Desde que a maioria dos turistas na frente da barraca que ela escolheu para pegar o almoço era da altura da cintura de Anna, ela estava bastante certa de não haver perigo, mas não se podia dizer o mesmo pela concentração de seu companheiro apontada para as crianças. Se você não pode falar que eu estou olhando para algo em você que está justamente no nível das cabeças das crianças — a voz dele em sua cabeça era um ronronar áspero — então você precisa verificar seus olhos. O queixo dela caiu. Ele estava paquerando com ela? Anna girou sua cabeça para encontrar seu olhar, que voltou-se imediatamente para o traseiro dela. Ela voltou sua cabeça antes de ele ver seu sorriso — ou suas bochechas vermelhas. Ele esteve verificando a multidão. Ela o viu fazer isto, o viu dar um bom longo olhar para cada uma das crianças.

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Mas Charles certamente não estava mentindo para ela, também, de modo que tudo foi automático, mas conferi-la foi de propósito. Ela sorriu e sentiu seu lobo relaxar no acerto de paquerar com seu companheiro. Ela teve bastante tempo para suas bochechas esfriarem. Levou um tempo até ela conseguir pedir comida — principalmente porque teve piedade de um professor subjugado que pareceu estar responsável, sozinho, por um milhão de crianças. Anna escapou, afinal, com um par de sanduíches e duas garrafas d’agua e deixou Charles escolta-la para fora do edifício e procurar por algum lugar para se sentar e comer. — Nós podíamos ter ido a um restaurante de verdade — Charles disse, pegando uma das garrafas de água — Ou ter esperado que as hordas famintas se dispersassem antes de juntar-se à luta. — Ele soou sério, como sempre, mas ela sabia melhor, sabia por que seu vínculo transmitiu a diversão dele. — Elas tinham todos sete anos de idade. Eu estava confiante que era improvável eu acabar no prato delas quando havia cachorros quentes e sorvete para pegar. — Se elas não fossem predatórios, você não teria que tê-los coagido — ele disse, caminhando em direção a uma área de assentos desocupada. Anna viu que pelo menos outra pessoa partia para o mesmo lugar, então Charles foi notado, e a pessoa afastou-se, mas pelo menos não parecia em pânico. —Elas não podiam ver acima do balcão para a comida. — ela contou a ele. — Nós tínhamos um trato. Elas não me mordiam e eu os ergueria para que pudessem ver. — ela tinha esperado que as crianças fossem mais tímidas, mas elas realmente pareciam estar se divertindo. Talvez fossem muito jovens para estarem preocupados com estranhos. O professor estivera muito ocupado erguendo sua metade da classe para se preocupar com Anna. Aparentemente as mães que deveriam estar ajudando fugiram para o banheiro feminino. —Todas as crianças? —Metade. Uma de cada vez. Não é como se elas pesassem muito. E eu tive ajuda. —Hmm. — Charles levantou uma sobrancelha. —Havia algo bastante intenso em competição, considerando que o prêmio era cachorros quentes e sanduíches, e não tesouros de arte inestimáveis. Eu vi que você acotovelou aquela mulher. —Ela cortou a fila de um menininho de sete anos! — Anna exclamou indignada —Quem faz isto? — Senhoras usando quatro mil dólares em diamantes, aparentemente. — ele limpou a mesa do que sobrou da refeição de outra pessoa e jogou os restos numa lata de lixo próxima. — Eu não corto a fila de crianças e eu tenho quatro mil dólares em diamantes. — ela se estatelou em um banco estreito e pôs sua comida na minúscula mesa, esperando que não cambaleasse e despejasse tudo no chão. 54


—Você tem? — Charles perguntou suavemente, sentando-se do outro lado. Os bancos de um assento, diferentemente da mesa, pareciam bastante firmes e não rangeram sob seu peso, entretanto ela o viu sacudir um pouco para ter certeza que o seguraria. — Com exceção de seu anel, você não os usa. E o anel não vale quatro mil. — Aquele colar, certo? Usar não me faria cortar a fila de alguma pobre criança faminta. — ele estava jogando com ela, provocando, porque Anna tinha medo de usar a joia que seu pai deu a ela quando eles se casaram. Seu lobo queria se agitar em diversão e ir caçar algo para celebrar. Anna deu uma mordida no sanduíche. —Entretanto talvez eu tivesse que colocar o bracelete, também. —Não. — ele disse. — Só o bracelete valeria. Mas você não os usa. O colar era coberto com pelo menos duas vezes o número de diamantes e várias pedras maiores. Ela absorveu a ideia de que o bracelete em si mesmo valia quatro mil dólares, e estava duplamente agradecida de não tê-los colocado. Ela tendia a brincar com qualquer coisa em volta de seu pescoço — e se quebrasse o colar? — Existe hora e lugar para coisas desse gênero. — Anna tentou para não mostrar a ele como estava intimidada pelo valor das joias. Ela preferia minimizar as mudanças materiais em sua vida desde que se encontrou e acasalou com Charles. Porque não eram as mudanças importantes — e, ocasionalmente, ela as achava mais difíceis que as mudanças verdadeiras em sua vida. — Quando você está indo fazer comprar, joias não são uma boa ideia, especialmente se você achar que se espremer ao redor de crianças pequenas é normal. Ele levantou as sobrancelhas. — Oh? Quando você estava pensando em usar seus diamantes? — Charles soou divertido. Ele sabia que ela estava planejando nunca usá-los agora que sabia o quanto valiam. — Talvez se nós estivéssemos encontrando a Rainha da Inglaterra. — ela pensou sobre isso por um momento. — Ou se eu realmente precisasse exceder em brilho alguém de quem eu não gostasse. — ela deu mais algumas mordidas no sanduíche que precisava de um pouco mais de… cebola ou rabanete, talvez. Algo com uma mordida. Ela realmente não podia imaginar uma situação bastante medonha para arriscar usar o conjunto, especialmente se o bracelete valia quatro mil dólares. E se o gancho cedesse? — Ah. Isso seria nunca? — não pareceu aborrecê-lo de uma forma ou de outra. Anna pensou sobre isso seriamente. — Talvez se eu precisasse intimidar alguém... Como se meu irmão decidisse se casar novamente e meu pai dissesse que não gostou da mulher; eu teria que voar para Chicago e afugentá-la. Eu até cortaria a fila na frente dela por um cachorro quente enquanto eu estivesse usando as joias. Mas ela não teria sete anos, tampouco.

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Charles sorriu. Não era uma risada ou um sorriso. Mas também não era seu sorriso você-vaimorrer-antes-que- respire-seu-próximo-gole-de-ar, e era o mais perto de um sorriso real como ela não via em seu rosto há tempos. Ela deu um suspiro satisfeito e bateu o dedão do pé de sua bota contra a perna do terno dele. Eles estariam mais confortáveis em roupas casuais, entretanto teriam tido que se trocar. E ela tinha medo que voltar para o condomínio desse a ele uma desculpa para se fechar novamente. — Está tudo bem. — ele disse. — Nós podemos ir nos trocar e fazer um pouco mais de coisas de turistas. Ele a estava lendo através do vínculo. Escondendo a sensação quente e prazerosa que isso provocou por trás de um olhar desconfiado, Anna mordeu seu sanduíche e então disse: — Certo. Mas só se você concordar em fazer isto comigo. — Ela tirou seu mapa “agoradesgrenhado” de seu bolso e bateu o dedo em um anúncio. Charles olhou e suspirou longamente. — Eu deveria saber que nós não sairíamos daqui sem fazer o tour completo pelo bonde na imitação de cemitério, com ghouls18 fantasiados. — Não em meu território. — rosnou alguém atrás dela. Como parecia uma resposta improvável para o “pseudo-relutante” acordo de Charles, Anna inicialmente assumiu que o comentário foi dirigido à outra pessoa. Mas Charles balançou sua cabeça e abaixou as pálpebras, os músculos sutilmente tensionados em seus ombros, então ela girou em sua cadeira para ver quem falou. Enfileirados ao longo do mercado ao ar livre estavam dúzias de carroções verde-escuros nada semelhantes com aqueles vagões19 nos filmes de Velho Oeste que seu pai amava. As carroças serviam como quiosques onde as pessoas vendiam camisetas, bolsas e outros pequenos bens portáteis. Em pé no topo do carroção mais próximo a eles estava um homem negro, de aparência jovem e ossatura delgada os observando — observando Charles, de qualquer maneira — com olhos amarelos como as cordas de contas penduradas por todo o vagão, que balançava instável. Por fotos, ela o reconheceu como Isaac Owens, o Alfa do clã de Olde Towne — e Boston era Olde Towne20. Ele não tinha o hábito de se empoleirar em topos improváveis ou teria aparecido no jornal local muito mais que já aparecia. — Você está atraindo atenção. — disse Charles em um tom sociável projetado para não alcançar os ouvidos humanos. Isaac, sendo um homem lobo, o ouviria bem o suficiente apesar de estar há uns onze metros de distância. — Você realmente quer isso? 18

Fantasmas, zumbis.

19http://images.quebarato.com.br/T440x/carroca%20coberta%20c%20figura%20e%20cavalos%20velho%20oeste%20schl

eich%20rio%20de%20janeiro%20rj%20brasil__46139B_1.jpg 20 Olde Towne é um apelido dado à cidade de Boston por ser uma das mais antigas cidades dos EUA. É também usado como referência ao time de beisebol Boston Red Sox (O time de Olde Towne).

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— Eu estou fora. Eles sabem quem eu sou. — respondeu, projetando sua voz para qualquer um escutar; e as pessoas estavam começando a parar o que estivessem fazendo para escutar. Isaac levantou seu queixo agressivamente. — E você? Charles deu de ombros. — Dentro, fora, não importa. — ele se inclinou para frente e abaixou a voz. — Assim como sua declaração. Você perdeu o controle da situação que me trouxe aqui quando escolheu não reportar as mortes em seu território. Você não tem o que falar sobre o que eu faço ou não faço. — Nós não matamos ninguém. — Isaac declarou e apontou para Charles — E você terá que passar por mim antes de pegar qualquer um do meu clã. Isaac era novo, Anna lembrou. Novo em seu trabalho, novo em ser um lobo — e, como ela, era um universitário quando foi transformado. Normalmente teria levado anos antes de ele tornar-se Alfa, não importando quanto domínio em potencial tivesse. Mas o clã de Olde Towne perdeu seu Alfa no ano passado em um bizarro acidente de barco e Isaac, que era seu segundo, entrou para fazer o trabalho. O segundo dele era um lobo velho que provavelmente não sabia nada sobre sua atuação. A mulher que estava trabalhando no quiosque—seu corpo coberto de joias e tatuagens numa desconcertante mistura de cor e textura—recuava lentamente, tentando não chamar atenção para si mesma. Não era uma estratégia ruim para alguém pego entre predadores, entretanto, menos joias cintilantes poderia ter ajudado—outra razão para Anna não usar os diamantes. — Se nenhuma lei foi quebrada, ninguém está em risco. — disse Charles e Isaac desdenhou. — Saia do estúpido vagão antes que a pobre mulher ligue para emergência — Anna disse, exasperada. — Venha se apresentar Isaac, e veja o que acontece. — Ela disse alto o suficiente para que a multidão que formava um anel ao redor deles ouvisse; as pessoas estavam perto o suficiente para ver o que estava acontecendo, mas não o bastante para se envolverem. Isso significava que ela estava falando quase tão ruidosamente quanto Isaac fizera. O Alfa local a olhou pela primeira vez e fez uma carranca. Suas narinas chamejaram quando ele tentou pegar seu cheiro — o que seria impossível de filtrar do resto das pessoas ao redor, exceto pelo fato de ela cheirava como um lobo Ômega. Depois de uma pausa bastante longa, Isaac circulou os ombros para relaxar os músculos e saiu de cima do vagão — uns bons dois metros e oitenta ou três metros de queda. Ele aterrissou com joelhos dobrados e voltou-se para a proprietária da loja, que tinha parado quando Anna chamou atenção para ela. — Minhas desculpas — ele disse a ela. — Eu não quis assustar você. — Ele sorriu e deu-lhe um cartão. — Um amigo meu tem um pub; pare por lá e faça uma refeição por nossa conta. A mulher pegou o cartão com uma mão bastante trêmula que se estabilizou quando o sorriso de Isaac esquentou. Ela olhou para o cartão e ergueu as sobrancelhas — Eu já comi lá. Bom peixe com batatas. 57


— Eu também acho. — ele disse, deu-lhe uma piscada, e caminhou até onde Anna e Charles estavam sentados. — Bom RP21. — Anna disse. — No entanto, considerando o que aconteceu antes, não estou inclinada a te dar uma nota A. Ele a estudou, ignorando a presença sinistra de Charles. — Ayah, nah, — ele disse, exagerando seu acento de Boston com sons nasalados incompreensíveis antes de continuar mais claramente. — O que no inferno é você? — Bom te conhecer também — Anna disse. — Eu aposto que o cartão foi ideia do seu segundo, não foi? Para compensar a falta de cortesia? — ela amoleceu a voz e adicionou um toque de Boston, o imitando — Oops... desculpe se destruí seu carro. Aqui, faça uma refeição por minha conta. Foi o seu cachorro que eu comi? Oh, desculpe. Tome uma bebida no pub do meu amigo e esqueça tudo isso. Isaac sorriu, uma súbita e encantada expressão que mostrou os dentes brancos, brancos em seu rosto negro-azulado. — Me pegou, querida. Mas não respondeu minha pergunta. — Ela é minha — disse Charles. Sua resposta agressiva não aparecia em sua voz, que estava baixa e tranquila. — Nós temos uma reunião marcada amanhã, com você e seu clã. Não havia necessidade para este… — Ele olhou ao redor. As pessoas ainda estavam assistindo-os, mas fingiam que não. — Teatro. — ele terminou. — Isto é Boston, parceiro. — Isaac curvou seus joelhos e se agachou, nivelando sua cabeça com a deles — Isto é “teee-ah-trooh”. Nós somos todos sobre teatro aqui. — Ele pronunciou o segundo “teatro” da mesma maneira que Charles tinha feito. Isaac não era nativo de Boston, ela lembrou. Achava que ele era de Michigan ou da Pensilvânia. Anna deu a ele um olhar perfurante e falou para Charles. — Ele provavelmente estava andando por aqui e suspeitou de nós. Decidiu que não podia esperar até amanhã para dar um chilique. — E se não é você para explodir a pose dos outros? — os olhos escuros de Isaac a analisaram. Então, num tom mais realista, olhou para Charles e disse: — De fato, ela está certa. — então seu rosto e sua voz ficaram muito, muito sérios. — Eu quis dizer o que disse. Para chegar aos meus lobos, você terá que passar por cima do meu cadáver. — Se você fizer seu trabalho, ele nunca terá que fazer o dele. — A amargura tornou o tom de Anna mais afiado do que ela queria que fosse. — Ela diz todas as suas palavras, kemosabe22? — Isaac dirigiu-se a Charles. 21

Relações Públicas

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Charles ergueu as sobrancelhas de maneira exagerada e apontou seu queixo para Anna, como se esperando que ela respondesse por ele. Ele nunca usava o dedo para apontar. Ele contou a ela que isso era considerado falta de educação entre o povo de sua mãe. Falando de falta de educação... — Onde está nosso cartão para uma refeição grátis? — Anna exigiu. — Eu acho que você nos deve uma. Cogita ante salis, meu pai diria. Você devia pensar antes de saltar. Charles murmurou — Antes de você sair. Partir. Passou perto... Anna não tinha certeza sobre quantas das frases latinas que ela conhecia estavam corretas, e quantas tinham sido criadas por seu pai. Ela parou de falar na frente de Bran porque ele punha aquele olhar aflito no rosto. Charles parecia achar principalmente engraçado, uma piada que eles compartilhavam. Ele dizia que não falava latim, mas, aparentemente, espanhol e francês eram bastante próximos para permitir comentários. — Charles não está aqui para executar a justiça, pelo menos não em você ou nos seus. – ela assentiu para Isaac - Nós estávamos indo até você para pedir informações. Existem homens lobo mortos e o FBI e a polícia aparentemente não tem nada, exceto os corpos. Nós fomos enviados aqui para ajudá-los. Estávamos indo perguntar a você as questões que o FBI provavelmente já tem na esperança de que você possa responder de forma diferente para nós. Como nossa gente foi raptada e morta? Onde essas pessoas estavam quando foram raptadas? — Informações sobre os caras mortos? — Isaac levantou o queixo e encontrou os olhos de Anna. Ele esperou que baixasse os dela, e quando isso não aconteceu, franziu a testa pensativamente. Provável que ele nunca encontrou um lobo antes o encarasse, ou se sentisse compelido a curvar-se. Seu lado Ômega tendia a confundir muitos lobos imediatamente estudavam aqueles que que acabavam de conhecer. Este lobo é mais dominante ou menos? Ela fará como eu mando, ou eu tenho que fazer o que ela diz? Nós estamos bastante próximos em nível a ponto de eu ter que me preocupar com uma briga para determinar quem governa e quem é governado, quem protege e quem é protegido? Anna não se encaixava em toda a escala “obedeça-ou-seja-obedecido” — e ela aparentemente veio com algo que fazia todos os lobos dominantes precisarem protegê-la. Finalmente Isaac sacudiu sua cabeça. — Meu chute é que isso é coisa de algum muito poderoso fae, vampiro ou algo deste tipo. Eu não sei sobre os outros dois — posso dar a você os endereços dos hotéis deles e seus negócios declarados. Mas eles estiveram aqui antes, várias vezes. Não tinham o hábito de causar problemas, então eu não os vinha seguindo mais. Mas meu menino, Otten, ele foi pego bem enquanto estava fora, caminhando ao longo do Charles River, mais ou menos às cinco da manhã.

Kemosabe significa escoteiro confiável ou amigo fiel, e tem origem nativo-americana. Pode se usado enquanto se fala com amigos ou irmãos, mas também sarcasticamente quando se fala com uma desleal e duvidosa pessoa. 22

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Isaac olhou sobre o ombro de Anna como se ele pudesse ver o rio de onde eles se sentavam, entretanto não era possível. — É cedo, sei que é cedo. Mas existem outras pessoas, e maldição, ele é um homem lobo, certo? — E Anna percebeu que Isaac virou a cabeça para que eles não pudessem ver a expressão em seu rosto. — Ainda assim, ninguém viu nada. Nenhum sinal de luta... E Otten, ele é bem velho, certo? Velho, duro e um bom lutador, na forma de lobo ou na humana. Ele sabia cuidar de si mesmo. Não é alguém para ser surpreendido. O vínculo do clã me bateu duro mais ou menos três horas depois, me jogou para baixo e para fora... Ele foi desse tanto machucado. Mas havia tanta estática que eu não consegui localizá-lo quando despertei. Ele focou-se em Charles, mantendo seu olhar por mais tempo que ela já viu alguém fazer, além do pai dele. — Eles o cortaram. O estupraram o e o mataram enquanto o cortavam por dentro. — Sua voz estava grossa de ira, e brasas douradas faiscaram em seus olhos escuros apesar das lágrimas em sua bochecha. — Eles. — disse Charles atentamente. — Quantos? Isaac pareceu surpreendido com a pergunta, e então a surpresa empurrou sua cabeça para cima e ele franziu a testa. — Dois? Dois… está errado; houve um terceiro. Eu só captei impressões. Principalmente de dor. Não pensei que as sombras que peguei fossem importantes. Deixe-me pensar... — Ele fechou seus olhos e balançou a cabeça, um movimento lupino que era familiar. Eles todos faziam isto de vez em quando. Se o nariz de Anna parasse de trabalhar, ela ainda reconheceria um homem lobo quando o encontrasse só por aquele movimento. Isaac franziu a testa e balançou a cabeça. Eles o cortaram, Isaac disse. O FBI mostrou a eles só ângulos selecionados das vítimas mais recentes, como se para esconder um dano que tivesse algum significado eles não queriam compartilhar. Ou então estavam tentando não chocar um consultor civil, que poderia dar tanta atenção ao corpo que falhasse em ver qualquer outra coisa. Mas cortar… Ela conhecia uma espécie de criatura que poderia cortar em pedaços um homem lobo antes de matá-lo. — Os cortes eram aleatórios? — perguntou Anna — Ou tinham num padrão intencional? Isaac compreendeu para onde ela estava indo. — Bruxas? Você acha que bruxas estão por trás disso? Charles encolheu os ombros. — Esse é o início da nossa caçada, Isaac. Eu tento não pensar em qualquer coisa neste momento. Isaac assentiu e olhou para Anna. — Os cortes poderiam ser deliberados. Ou poderia ser só alguém brincando, como um gato com um rato... Eles pareciam gostar disso. A ligação entre um Alfa e seus lobos não é como a ligação de acasalamento. Eu só peguei uma ou outra coisa do pior que ele estava experimentando. — Algo infeliz apareceu em seu rosto, e seus olhos alargaram quando conteve 60


as lágrimas. — Ele não estava assustado, sabe? Mesmo quando a dor era ruim. Otten foi frio, somente esperando uma chance; mas não deram uma a ele. — Eu o conheci. — disse Charles, e sua voz falou muito mais que palavras. Reconheceu e concordou com a avaliação de Isaac e disse aos dois que o homem morto foi alguém que ele sempre respeitou e gostou. — Obrigado por conversar conosco, Isaac. Você ajudou. Nós os pararemos, e quando fizermos isso, você saberá que ajudou. — Você encontra esses bastardos... — isso saiu feito um grunhido baixo da barriga de Isaac, um comando dado por quem estava acostumado a dar ordens — Que mataram Otten… — Ele sugou sua respiração e olhou abruptamente para longe e para baixo. Anna olhou para Charles, mas não pode ver a expressão em seu rosto que fez Isaac responder; já tinha ido. Quando o Alfa de Boston falou novamente, o comando já não impregnava sua voz. — Você os encontra, e eu tomaria como um favor pessoal se me chamasse como auxílio. Ele deu a Anna um cartão. Tinha somente um número de telefone abaixo de seu nome, então ela estendeu sua mão vazia exigentemente. Ele abaixou as pálpebras e encarou enquanto ela o olhava inflexivelmente — então Anna meneou seus dedos. — Me dê. Ele riu, enxugou as lágrimas de seu rosto com ambas as mãos, e olhou para Charles. — O que ela é? — Mas sem esperar por uma resposta, que não ia chegar de qualquer maneira, ele deu a Anna um par de cartões com as palavras The Irish Wolfhound ornadas em relevos — Não os dobre. São reutilizáveis. Anna bufou quando ele apoiou-se sobre os pés e saltou, um pulo ágil, em cima do vagão em que estava antes. Com um meio aceno de sua mão, ele decolou, movendo-se rápido, mas sem aparentar uma fuga. Ele pulou ligeiramente de um quiosque ao outro, balançando-os, mas não o suficiente para que algo caísse das prateleiras. Charles se levantou sem pressa, mas sem desperdiçar movimentos tampouco, e juntou o resto da comida deles. — Vamos enquanto ele ainda está distraindo todo mundo.

ELES CAMINHARAM PELA Old State House em direção ao condomínio, que ficava bem no meio de um grupo de arranha-céus, parecendo anacronismo branco e dourado no meio de todo o vidro e cromo escuro de seus vizinhos próximos. Boston… Anna esperara algo como Seattle, desde que tantas pessoas comparavam as duas. E existiam algumas coisas que lembravam muito fortemente da Cidade Esmeralda — o oceano, por exemplo — e todo aquele educado-e-liberal sentimento pelo lugar. Mas Boston era diferente, pelo menos a parte que ela viu.

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Não era só mais velha; parecia mais velha — e de alguma maneira ainda nova e frágil e ainda se movendo. Meio que um Novo Mundo, talvez. Construída por pessoas insatisfeitas com suas vidas que cruzaram um oceano, arriscando e dando suas vidas por um novo começo, aqui mesmo. Havia a arquitetura também. Tantos edifícios aqui tinham importância histórica, e foram deixados onde eles estavam não importando a inconveniência. Ladeada à esquerda e direita por estradas movimentadas e enormes edifícios modernos, a Old State House foi polida, pintada e cuidada de um jeito que provavelmente já não acontecia desde os dias coloniais, quando Crispus Attucks e quatro outros homens foram baleados numa rua próxima, no Massacre de Boston. As estreitas ruelas coloniais quase desapareciam entre as largas ruas modernas, mas ainda eram vistas aqui e lá — cheias de tesouros como antiquários e livrarias antigas. O efeito final do aço maciço e dos edifícios de vidro em guarda sobre as menores e mais delicadas construções precursoras era eclético e encantador. — Você acha que os assassinos são homens lobo? — Anna perguntou enquanto eles caminhavam rapidamente de volta para o condomínio. — Homens lobo? — Charles considerou e balançou a cabeça. — Não. Isaac teria sabido se Otten tivesse sido caçado por homens lobo. Eles caminharam mais ou menos metade de um quarteirão em silêncio; então Charles balançou sua cabeça de novo. — Talvez… talvez Isaac não tenha captado melhor por serem os assassinos homens lobo. Ele é jovem. Mas a caça é errada para homens lobo. Ninguém está comendo essas vítimas. Um homem lobo caçando assim… Os outros lobos poderiam cheirar a doença de espírito neles. — ele pausou. —Eu poderia cheirar isso. Não existe nenhum lobo vivo no país, desde quarenta anos atrás, com quem eu não tenha em encontrado desde que as mortes começaram. Mas poderiam ser vampiros ou bruxas. —Cinco e meia da manhã nessa época do ano é bastante leve para um vampiro. — Anna disse — Mas se ele esteve caçando por tanto tempo, com sucesso, matando faes e homens lobo igualmente, tem que ser algum tipo de sobrenatural, não é? Eu não posso imaginar que um vampiro também não beberia das vítimas — e se esse for o caso, ninguém está nos contando. Charles encolheu os ombros, desviando de uma pequena excursão sendo liderada por um homem de peruca empoada, do período Revolucionário, carregando uma lanterna apagada em uma vara. Anna desviou pelo outro lado e pegou um pouco da lengalenga do guia da excursão. — Revere não cavalgou sozinho naquela noite, nem era ele, em seu próprio tempo, famoso pelo ato. Paul Revere é famoso porque seu nome é o que Longfellow, quase cem anos depois, escolheu usar em seu famoso poema ao invés do de meu bom amigo William Dawes, que era o outro cavaleiro fora de alerta da invasão britânica. — Antes que sua voz fosse afogada nos sons de uma cidade ocupada ao meio-dia, Anna notou que ele tinha um enjoativo sotaque britânico colado sobre uma pronúncia sulista: não era um nativo de Boston.

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Charles continuou a conversa como se jamais a tivesse pausado — Pode ser uma organização de pessoas que odeiam os faes e os homens lobo, como a Futuro Brilhante ou a Sociedade de John Lauren. Ou um grupo de caçadores que nos vê como um desafio. — Ou um grupo de bruxas negras, se for mais de um assassino. — Certo. — concordou Charles. — Eu ainda não sei o bastante. O FBI foi bastante cuidadoso sobre que informações que nos deram. — Eu notei que nenhuma das fotos das cenas do crime das vítimas mais recentes mostrava os rostos delas... — Anna disse pensativa — Nós vimos um número suficiente dessas fotos para que a falta tenha sido um descuido. — Nenhum rosto, nenhum torso descoberto, de frente ou de costas. Nada também sobre o método do assassinato. Eles foram estrangulados? Apunhalados? Eu devia ter perguntado a Isaac. — Você acha que o FBI vai nos chamar para ajudar? — Ela achava que sim, mas tinha medo de confiar em seu julgamento quando ela queria tanto aquilo. Os olhos das vítimas continuavam com ela. Charles encolheu os ombros. — Sim. Fisher olhou para nós como se fôssemos doces. Mas não importa. Se eles não chamarem, nós nos envolveremos. Será mais fácil se eles pedirem. Eles caminharam por algum tempo em silêncio. Bem, Charles estava mudo. Os sapatos de Anna faziam clique-clique-clique na calçada. Ela podia ter caminhado mais silenciosamente, mas ela gostava do modo que o barulho que fazia se misturava com os sons da cidade, quase como música. Ela bateu em Charles quando uma bonita mulher vestindo um terninho e saltos torturantes passou por eles. — Você viu isto? Olhe para as pernas dela. Olhe para todas as mulheres que estão usando vestidos e olhe para as pernas delas. Suas panturrilhas são tão grandes quanto suas coxas. — Eles chamam Boston de “a cidade que caminha” por uma razão. — Charles disse enquanto abria a porta para o edifício de seu condomínio. Assim que entrou, a frágil aura de perigo que ele emitia cedeu. Evidente que Charles estivera neste edifício bastante frequentemente, já que não o via como território-inimigo. — Quando você acha que o FBI vai nos chamar? — Anna perguntou. — Se eles decidirem nos chamar. — Entediada? — Ele os guiou pelos degraus após o passeio de ambos no moderno, polido e muito lento elevador. Anna estava feliz saltitando atrás dele. — Não. Eu só quero ter certeza de que teremos tempo para fazer a excursão assombrada hoje à noite.

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Charles deu-lhe uma olhada e Anna sorriu, afundando felizmente no relacionamento quente e segura, que de alguma maneira foi restabelecido ainda melhor depois de um ano de fragmentação. Era muito fácil; ela sabia disto. Mas iria aproveitar enquanto pudesse. — Talvez o FBI ligue... — ele disse esperançosamente. Ela não estava acreditando; ele teria tanta diversão correndo pelos cemitérios velhos quanto ela teria — ele só não admitiria isto. — Eu tenho meu celular. — ela assinalou. — Você tem o seu. Se troque e vamos. Ele rosnou.

DEPOIS DA REUNIÃO com os homens lobo, Leslie almoçou mais cedo num restaurante próximo, do tipo sopa e pão, antes de caminhar pelo resto do quarteirão entre o hotel e seu escritório. Ela usou o tempo para processar mentalmente o que viu e ouviu, assim poderia dar uma versão coerente e organizada do essencial para Nick. Ela terminou os últimos acertos quando pegou o elevador, de modo que estava pronta para o relatório antes de bater na porta. O cão de guarda do escritório, conhecido pelo grupo de Leslie como O Porteiro, assentiu para Leslie e a pôs dentro. Ela se dirigiu para sua escrivaninha, mas um assobio afiado vindo do escritório de seu chefe mudou sua trajetória. Nick parecia cansado. Eles estiveram em perseguição depois que dois ladrões assaltaram um banco e um caso que poderia ser uma célula terrorista — ou só um grupo de estudantes falidos morando juntos — antes dessa coisa de serial killer bater no radar deles. A célula terrorista tinha prioridade maior sobre tudo. Porém, um dos ladrões de banco fez seu melhor para conseguir se colocar no topo da lista. Ele usava um singular capacete de moto com um pequeno adesivo na parte de cima, o que rendeu-lhe o apelido de Bandido Smiley23. Ultimamente estava trabalhando com outro cara sem rosto, protegido com um capacete, e que gostava de carregar uma arma e atirar nas luzes e máquinas fotográficas depois de apontá-la para as pessoas. Num dia próximo ele começaria a atirar nas pessoas. A equipe deles era pequena, desde que Joe e Turk foram transferidos. O trabalho estava feito, mas todos estavam um pouco insones. — Como vai? — Nick perguntou depois que ela fechou a porta. Leslie pensou a respeito. — Interessante, em muitos níveis. Ele grunhiu impaciente — Compartilhe. Por favor. Ela começou com um informe de quem estava lá. Nick rosnou quando ela disse que Heuter tinha ido. Foi um rosnado que ela não pode interpretar. Ela não sabia dizer se ele gostava de Heuter ou não, ou se estava simplesmente reconhecendo que a Cantrip tinha enviado o seu menino dourado. Referência ao emoticon no formato de carinha sorridente. (http://www.notebookcheck.net/uploads/tx_jppageteaser/smiley1_01.jpg)

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Leslie contou-lhe sobre a maior revelação. — Nosso UNSUB tem matado principalmente faes; nós achamos que durante os últimos vinte e cinco estranhos anos... E ninguém notou até que uma homem lobo nos disse, uma homem lobo que não era nem nascida quando os primeiros assassinatos começaram. A Cantrip afirma que ela é Anna Latham. Eu vou verificar o nome e verei se concordo com eles sobre a identidade dela, mas ela não negou. — Existem rumores, se você souber onde escutar, que homens lobo podem compartilhar uma característica ou duas com os faes. Que a habilidade deles de se curarem malditamente rápido também os impede de envelhecer. Leslie absorveu a informação. — Se é isso, eu marco nossa Anna as dezesseis e seu marido às dez mil e troco. Nick riu. — Impressionada por ele, não? Craig também está. Ele me ligou assim que a reunião terminou para me dizer que estava indo ver Kip na delegacia de Boston. Ele esperava que a polícia pudesse ter alguém familiarizado com os faes para podermos mostrar as fotos e, então, ter uma confirmação. — Se você já falou com Craig, por que eu tenho que fazer um relatório básico? — ela perguntou um pouco aborrecida. — Ele disse que deixou o relatório para você, já que ele é o agente de campo sênior — disse seu chefe honestamente, para então voltar para o trabalho em mãos. — Se for verdade que tantas das vítimas eram faes, por que ninguém nas comunidades faes falou nada? Leslie encolheu os ombros. — Por que um fae faz algo, Nick? Talvez não quisessem chamar atenção ou encorajar um imitador. Talvez não tenham notado. — Então o assassino estava por aí atirando em faes e decidiu mirar nuns homens lobo também. — Essa é a teoria que eu e Craig apoiamos. — E os homens lobo? Eles nos ajudarão? Nós queremos a ajuda deles? Leslie bateu o pé no chão. — O cara é nativo-americano e grande. Ele assistiu de longe e não disse uma palavra além do necessário. Todos nós naquela sala estávamos fazendo tudo que podíamos para não prestar atenção nele porque ele era muito assustador. — Assustador como? Frio? Louco? Leslie fez uma carranca para seu chefe. —Como você quando está tentando intimidar alguém que estamos interrogando, só não tão proposital. 65


— Olhar fixo de mil jardas? — Sim. — Leslie concordou. — Ele já viu sangue em algum lugar. — E a coisa que a estava incomodando sobre a dupla de homens lobo se fundiu. — A garota que é a esposa dele, ela parece tão doce que deve estar atraindo abelhas. Inocente. Até Jim Pierce estava se sentindo protetor ao redor ela; dava para ver em sua postura corporal... E o Dr. Singh deliberadamente distraiu os agentes da Cantrip quando a encararam e tentaram intimidá-la. E você conhece Singh. — Você acha que ela estava fingindo? Leslie sacudiu sua cabeça. — Não. Não realmente. Mas ambos os homens lobo olhavam para as fotos dos corpos e nem piscavam. Garanti que nós não mostrássemos as piores em cores, mas o tradicional preto e branco policial é bastante desagradável. — Você acha que eles passaram um tempo olhando para corpos mortos... — Nick disse. — Você acha que eles são assassinos. Ela assentiu. — Ele sim. Ele tem esse... esse olhar. Você tem isso. Muitos dos caras das forças armadas têm isso. Eu acho que ele podia ter matado a nós todos e nem pensar a respeito. Quanto a ela… — Leslie franziu a testa, tentando manejar melhor a situação — Você já trabalhou com Lee Jennings? O sujeito que a Unidade de Análise Comportamental envia para entrevistar os caras sórdidos na prisão? Nick franziu a testa. — Sim. — Ele é bastante comum. Eu gosto muito dele, assim como todos os que trabalham com ele. E a razão para mandá-lo para as prisões com a escória da Terra e os loucos, é porque eles também gostam de Lee. Eles se desmancham para dar quaisquer informações que forem pedidas. Nick levantou seu queixo e seu rosto ficou parado. — Certo. Ela é assim? Leslie assentiu. — Seu marido não disse mais que duas ou três palavras, mas dominou a sala. O único que não se intimidou foi Craig, e só porque ele não estava olhando. Eu apostaria que Charles Smith é um Alfa de um algum clã sobre o qual nós não sabemos. — Intimidante. Ela assentiu novamente. — Ele estava jogando duro, eu acho. Mas ela não o tratou desse modo. — Por que ela pensou isto? — Ele chegou atrasado, com café para todos nós... Ela o mandou fazer isso, assim poderia nos explicar como tornar a situação mais tranquila para ele. — Para manter todo mundo seguro? Leslie sacudiu sua cabeça. — Ela disse isso, mas eu tenho a distinta impressão que ela estava muito mais preocupada com ele do que com qualquer um de nós. Era coisa padrão: não encontre seus olhos se puder evitar. Nenhum movimento agressivo. A única novidade era que nós não deveríamos 66


tentar tocá-la absolutamente. Eu esperei um maníaco de olhos selvagens, e o homem que entrou era firme, controlado, e estava à vontade. Ele parecia como se conduzisse reuniões com o governo federal todos os dias de sua vida. — E isso fez você pensar que ele estava comando o show dos bastidores? — Não. Isto não é tudo. A linguagem corporal disse que ela o respeitava e concordava com seu julgamento. Ela estava na frente, mas ele estava mais do que só apoiando. — Então nós os convidamos? — Ela assinalou que nosso assassino pegou homens lobo. Usar os homens lobo, eu suponho, é similar a pegar uma equipe SEAL24. Este UNSUB tem caçado faes e saiu, até onde sabemos, ileso. Nós temos uma escolha? — O FBI tem alguns faes na folha de pagamento. Nós temos uma escolha. Você os encontrou e está próxima ao melhor agente que eu tenho em ler pessoas. O que você acha? Leslie suspirou ruidosamente. — Eu gosto dela. Eu disse a você. E ele é… competente. Ele tinha aquele ar. Aquele que diz, “eu vi muito e consegui sair vivo.” Eles não nos custarão nada, então o orçamento estará feliz. Mas — ela levantou um dedo—ele não vai receber ordens. Nick assentiu e fez sua coisa de conversa com os dedos por um bom meio minuto antes de soltar uma lufada de ar. — Existem umas pessoas na UAC25que estão familiarizadas com o Caçador do Grande Jogo. Eu darei um telefonema e verei o que os perfiladores acham que pode acontecer ao nosso assassino se a mídia souber que temos homens lobo o caçando. Você e Craig podem levantar informações sobre os homens lobo enquanto trabalham com eles. Deixe-me pensar sobre as implicações pelo resto do dia, e se nada parecer demasiado estúpido, te darei carta branca amanhã. CAPÍTULO 5  Depois de um duro dia de turista, Anna dormiu profundamente na cama do outro lado da parede do banheiro. Charles pôs sua testa contra o seu lado da parede por um longo momento antes dele trabalhar sua… “Coragem” não era a palavra correta. Fortaleza. Depois de respirar fundo, Charles entrou na frente do espelho do banheiro. Era um do tipo inteiriço que as mulheres costumavam usar para ter certeza de que seus tornozelos não estavam aparecendo sob suas saias e agora usado para ter certeza, ele supôs, que a roupa íntima aparecesse só quando elas queriam. Os United States Navy Sea, Air and Land, mais conhecidos como US NAVY SEALS, são uma Força de Operações Especiais da Marinha dos Estados Unidos, especializados na guerra não convencional, ação direta, antiterrorismo e reconhecimento. No Brasil poderiam ser equivalentes com o Grupo de Mergulhadores de Combate (GRUMEC) e em Portugal ao DAE. 25 Unidade de Análise Comportamental 24

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E ele estava tentando se distrair ao olhar para o espelho ao invés de olhar para a imagem que ele mostrava. Charles não podia vê-los se girasse a cabeça para olhar atrás de si, mas no espelho os espíritos que o assombravam estavam tão claros, tão tridimensionais quanto eram quando ainda estavam vivos. Eles se ausentaram o dia todo, enquanto ele e Anna fizeram a coisa de turista: naquela tarde quando Anna o levou na tola excursão assombrada, que acabou sendo surpreendentemente divertida; e à noite, quando ele a segurou quando que ela adormeceu. Assim que Anna dormiu, os espíritos retornaram. Nós a vemos, eles disseram. Ela vê você? Ela sabe o que você é? Homicida, assassino, aquele que traz a morte. Nós mostraremos para ela e ela correrá de você. Mas ela não pode correr o bastante longe para estar segura. Com olhos vazios e cadavericamente magros, eles o encaravam, encontrando seus olhos de um jeito que ninguém, exceto Anna, seu pai ou seu irmão ousou fazer em longo tempo. Os mais velhos deles se transformaram em algo que eles não eram em vida — seus olhos pretos, suas faces distorcidas até que dificilmente parecessem humanos. Os três mais novos pareciam como eram no momento que antecedeu o fim de suas vidas. Eles permaneciam tão perto dele que era estranho que não pudesse sentir o calor — ou o frio — em suas costas. Mesmo assim, não eram somente seus olhos que lhe diziam que eles estavam lá. Charles podia cheirá-los. Não precisamente o cheiro de carne apodrecida, mas algo próximo, o doce e doentio cheiro que algumas flores produziam para atrair moscas e outros insetos carniceiros. O cheiro penetrava sua pele. Como os fantasmas no espelho, o odor era um reflexo, não a coisa real. E ele os ouvia. Por quê? Eles perguntavam. Por que você nos matou? Ele sabia que eles não estavam interessados nas respostas, não realmente. A primeira vez que os viu, quando começou neste trabalho para seu pai, Charles tentou responder, entretanto, ele pensou melhor. Charles tinha certeza de que se falasse exatamente a coisa certa, eles iriam embora. Mas explicar coisas para os mortos nunca funciona. Eles não ouvem como os vivos fazem e palavras têm pouco efeito. As perguntas eram para ele, mas não para ele responder—e conversar só daria mais força aos espíritos. Culpa os atraiu. Sua culpa os afastou do lugar ao qual pertenciam. Lá haveria alguma coisa que pudesse ser feita por eles. A possibilidade de não haver, não o fazia sentir-se nada diferente sobre isso. Eles tinham protegido uma criança e perderam o controle de sua raiva. Charles sabia, como qualquer homem lobo sabia, tudo sobre perder o controle. Houve um pedófilo perseguindo crianças no território do clã, e eles foram enviados para caçá-lo. Isso foi exatamente o que eles fizeram. Então arruinaram o trabalho além do conserto. Em outro tempo, eles teriam sido castigados, mas não mortos.

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E agora eles o assombravam. Que Charles não os pudesse libertar era um segundo fardo para aguentar, uma segunda dívida que ele devia. Seu avô — o pai da sua mãe — o ensinou que era assim, e sua vida muito longa não lhe deu nenhuma razão para duvidar. Dave Mason, o homem morto mais próximo de Charles, o último dos lobos de Minnesota que Charles matou, abriu a boca e lançou-se para frente. Dave tinha sido um bom homem. Não o mais brilhante ou o mais amável, mas um bom homem, um homem de palavra. Ele entendeu que Charles só estava fazendo o que era necessário. Dave não teria querido que seu fantasma atormentasse ninguém. No espelho, os olhos ávidos e frios de Dave encontraram o de Charles enquanto sua boca de lampreia se prendeu ao pescoço de Charles, fria e afiada, alimentando-se de culpa. Ele desapareceu da visão depois de alguns minutos, mas não dos sentidos de Charles quando, um por um, os fantasmas atrás dele fizeram o mesmo, até que Charles ficou aparentemente sozinho na frente do espelho, sentindo seus fantasmas ganhando a força dele enquanto o debilitavam. Eles não o tocaram fisicamente, não ainda. Mas ele sabia que não estava pensando tão claramente, não era mais capaz de confiar em seu julgamento. No outro lado da parede, Anna se moveu inquieta. Não acordada, mas consciente. Ele devia fechar sua ligação com ela, novamente. Charles não achou que alguns de seus fantasmas podiam atravessar e tocá-la, mas não tinha certeza. Ele não aguentaria se causasse algum mal a ela. Da mesma maneira, Charles não aguentaria ser separado dela novamente. O celular de Anna tocou e ela murmurou enquanto tateava em torno da pouco conhecida mesa de cabeceira. — Oi, é Anna — ela disse, sua voz rouca com sono. Ele estava muito distraído para prestar atenção às palavras da pessoa no outro lado da linha. Charles escutou Anna, deixou que a voz dela o lembrasse de que não a tinha afastado, não a tinha machucou irreparavelmente. Não ainda. — Agora mesmo? — Uma pausa. — Claro. Nós estamos contentes por sermos úteis. Você pode me dar o endereço? Não. Não é necessário. Tem Wi-Fi aqui, assim eu tenho Internet. Só espere eu encontrar uma folha de papel. — Ela puxou outra coisa para fora da mesa de cabeceira; sua bolsa, ele pensou, pelo som produzido. Charles desviou o olhar do espelho. — Tudo bem. Tenho caneta e papel. Manda. Ele não podia sair e representar para os federais. Não desse jeito. Ele machucaria alguém, alguém que não merecia. Use-me, disse Irmão Lobo. Se eu ficar com Anna, será seguro para todo mundo. Eu não prejudicarei nenhuma das pessoas. Eu a manterei protegida deles. 69


Que “eles”? Charles perguntou. FBI, assassinos, os mortos. Todos e qualquer um deles. Ela estará segura—e então os outros também estarão. Eu não os machucarei a menos que eu tenha que machucar. Você pode dizer o mesmo? Charles quase sorriu pelo pensamento que Irmão Lobo seria menos perigoso do que ele, mas no momento parecia ser verdade. Sem outro olhar para o reflexo no espelho, ele deixou a mudança toma-lo: confiaria no lobo para mantê-la segura.

- QUANTO TEMPO VOCÊS vão levar para chegar aqui? — A voz de Leslie Fisher estava fria e profissional, mas sua pergunta tinha um toque de urgência. Uma moça havia sumido de seu apartamento, mas não há muito tempo. Felizmente, o policial encarregado estava informado sobre o serial killer e achou a situação parecida o bastante com o jeito que as outras pessoas foram raptadas, de modo que ligou para o FBI. Havia algo errado com Charles. Estivera resmungão com Anna desde que ela acordou, mas ela já tinha atendido ao telefone. Não parecia urgente, simplesmente não parecia bom — assim ela decidiu cuidar primeiro do assunto verdadeiramente urgente, para tirar isso do caminho. Se fosse o serial killer deles, teriam uma chance de chegar à menina antes de qualquer coisa acontecer. — A que distância o apartamento fica do hotel em que estávamos... — eram duas da madrugada — ontem de manhã? — Charles não estava na cama ao lado dela, ela sabia, porém, que ele estava no condomínio. Ela podia senti-lo. — Dez ou quinze minutos a pé. Algo assim. O apartamento da vítima não é muito longe do Common26. — Então Fisher claramente lembrou que Anna e Charles não eram de Boston. — Boston Common. O grande parque a uns quarteirões do hotel. Depois de um dia de turismo, Anna podia ter dito a Fisher o quão grande o Common era e aproximadamente quantas pessoas estavam enterradas nele e tudo sobre os patos que inspiraram um famoso livro de crianças. O condomínio deles estava a menos de cinco minutos do hotel, e ela e Charles sempre poderiam pegar um táxi se o lugar onde precisavam chegar fosse muito longe. — Menos que quinze minutos, então. — Anna disse a ela. — Bom. — disse Fisher. — Nós apreciaríamos qualquer ajuda que vocês possam dar. Assumindo que é nosso UNSUB, baseado nos casos anteriores, ela ainda está viva e estará assim por mais alguns dias.

Boston Common (também conhecido como “The Common”) é um parque público em Boston. Datado de 1634, é um dos mais velhos parques dos Estados Unidos. 26

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— Nós faremos nosso melhor. Anna desligou o telefone e começou a colocar suas roupas. —Charles? Você ouviu? Tem uma menina perdida. Lizzie Beauclaire é uma de nossas lobas? Eu não me lembro do seu nome na lista do clã de Olde Towne. Não que eu saiba. Não foi Charles que respondeu. Anna parou, um pé fora do chão enquanto ela o empurrava dentro de uma perna da calça. Irmão Lobo saiu do banheiro, todos os cento e trinta quilos de pele de raposa vermelha, presas, e garras. Havia homens lobo maiores, mas não muitos. Seu próprio lobo estava mais perto da marca dos noventa quilos — assim como o de Bran, aliás. — Bem... — ela começou devagar. A incorreção na ligação deles estava desvanecendo, dando lugar para a fresca e ponderada presença que era Irmão Lobo. — Eu suponho que ajudará a poupar tempo se um de nós já estiver como lobo quando chegarmos lá. Charles está preocupado em fazer algo ruim, Irmão Lobo disse a ela. Nós decidimos que seria melhor se eu tomar conta hoje à noite. Irmão Lobo tinha melhorado em falar com ela por palavras ao invés de imagens. Ela pegou a distinta impressão que ele considerava isso como conversa de bebê, mas o divertia de qualquer maneira. Ela continuou a se vestir enquanto considerava as palavras dele. De todos os lobos que ela conheceu durante os anos passados, nenhum, exceto Charles, podia deixar o lobo ter o domínio sem causar um desastre. A parte lupina de um homem lobo era… uma besta devastadora, nascida para caçar e matar, proteger a bando a todo custo, e não muito mais que isso. Irmão Lobo era diferente de outros espíritos lupinos dos homens lobo porque Charles, nascido homem lobo, era diferente dos demais. Diferente por causa de você, também, Irmão Lobo disse a ela. — Eu suponho que se você, os dois, acham que isso é sábio, sabem melhor do que eu. Diga-me se houver algum modo de eu poder ajudar. Mas isso significa que nós não vamos pegar um táxi. Não parecia mais estranho conversar com Charles e seu lobo como se fossem duas pessoas separadas que compartilhavam a mesma pele, ambos amados. Ela e sua natureza de lobo eram muito mais entrelaçadas, entretanto ela tinha a impressão de que ainda não estavam tão unificadas quanto à maioria dos homens lobo eram. Irmão Lobo intrometeu-se no caminho dela, derrubou-a e lambeu seu rosto inteiro. Sim. Nenhum táxi para homens lobo. Charles não gosta de dirigir carros. O homem lobo andou para longe e balançou sua cabeça, olhos de ouro cintilando com humor—o que quer que seja que tenha deixado Charles chateado, não devia ser muito ruim, já que seu lobo não estava preocupado. Eu cuidarei dele. O humor de Irmão Lobo escapou. Como sua irmã lobo cuidou de você quando precisou dela para derrotar os lobos de Chicago. 71


— Tudo bem, então. — Anna não sabia o que pensar sobre isso porque seu lobo a ajudou a suportar o estupro e a tortura. E no otimismo da mudança de Charles ontem, decidiu acreditar que a intervenção de Irmão Lobo era uma coisa positiva. Anna secou seu rosto na ponta da camisa e levantou para terminar de se vestir. Sapatos colocados, rosto lavado, ela olhou para o endereço em seu laptop. — Nós estamos com sorte. — ela disse a ele. — Só três quilômetros daqui.

HAVIA PESSOAS nas ruas às duas da manhã, mas ninguém pareceu achar estranho ela correndo por aí com um homem lobo de cento e trinta quilos. Poderia ter sido um toque de magia do clã fazendo as pessoas verem um cachorro grande — ou não os ver absolutamente. A magia do clã, ela descobriu, podia ser caprichosa, indo e vindo sem que nenhum dos lobos a tenha chamado especificamente. Bran podia dirigi-la, assim como Charles — mas ela tinha o sentimento que a magia do clã fazia principalmente o que escolhia fazer. A falta de interesse que eles estavam presenciando também poderia ser as habilidades de sobrevivência da cidade por parte de seus moradores. Anna cresceu em Chicago. Em uma cidade você não olha para ninguém cuja atenção você não quer chamar. E quem quer ter um grande lobo assustador decidindo que você poderia ser interessante? Irmão Lobo usava uma coleira, porque Bran pensou que uma coleira com corrente faria muita diferença para os humanos que eles encontravam — e não muita diferença para o homem lobo. A coleira foi comprada de uma caixa grande num pet shop e tinha com um mimoso fecho de plástico projetado para assegurar que o cachorro de ninguém se enroscasse e sufocasse até a morte. Significava que a coleira sequer abrandaria um homem lobo antes de o plástico quebrar. O nome na coleira que ele usava era Irmão Lobo. Bran desaprovou. Ele gostava que os nomes fossem menos verdadeiros, mais amigáveis e atraentes. O irmão de Charles contou a ela que, excepcionalmente, Charles insistiu até que seu pai cedesse. O endereço que Leslie Fisher forneceu os levou a um dos arranha-céus, um edifício alto, mas estreito, apertado entre dois edifícios muito mais altos. Anna o teria escolhido mesmo sem os gigantes números pretos cauterizados no vidro acima da porta principal, porque era na frente dele que estavam parados os carros da polícia. Ninguém olhou para eles quando entraram no edifício, contudo havia um pequeno grupo de oficiais amontoados no vestíbulo. Um jovem com uniforme de segurança sentava-se à escrivaninha; ele parecia chateado. Em um impulso, Anna dirigiu-se a ele. — Com licença. Você estava de serviço quando a moça desapareceu? — e esperou que ele pedisse suas credenciais, mas ou ele estava muito chocado ou ele se acostumou a responder qualquer e todas as perguntas feitas para ele.

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— Lizzie, — ele disse, seu olhar se movendo do rosto dela até Irmão Lobo e voltando, como se não olhar para o lobo gigante na frente de sua escrivaninha poderia fazer a coisa assustadora ir embora. — Seu nome é Lizzie. Ela entrou mais ou menos às oito horas e eu nunca a vi sair. Nem as fitas de segurança viram. — Ele engoliu em seco. Olhou de novo para Irmão Lobo. — Quem usou o elevador depois dela? — Tim Hodge do quinto andar. Sally Roe e sua companheira, Jenny, do oitavo. Este é o maior cachorro que eu já vi. — Ele soou um pouco apreensivo. — E Lizzie está no décimo segundo. — Está certo. — Quantas pessoas usam as escadas? — Negócios nos três primeiros pisos. — ele respondeu, franzindo a testa para Irmão Lobo. Ela podia ouvir a batida do coração dele aumentar quando algo instintivo lhe dizia que havia um grande predador no fim da corrente. Embora o rapaz continuasse a falar, deu um passo para trás. —Um par de pessoas nos quarto e quinto andares descem a escada às vezes, mas, principalmente, todo mundo que vive aqui toma o elevador. Irmão Lobo deu um passo para frente. — E onde está a escada? — Anna perguntou, então sussurrou para seu companheiro — Pare com isto — Se ele fosse Charles, ela teria tido certeza de que estava apenas atazanando o rapaz; o lobo era um assunto diferente. Irmão Lobo girou a cabeça na direção dela, seus olhos entrecerrados, e deixou suas orelhas relaxarem um pouco em um sorriso lupino. Tudo isso não significava que ele não esteve interessado em caçar o jovem — era só que ele também gostava de provocá-la. — Ali. — O segurança apontou simplesmente além dos oficiais de polícia. — Eu terei que colocar você para dentro. Para isso, eu precisarei de alguma identificação. — Você tem que colocar pessoas para fora? Ele sacudiu sua cabeça. — É contra as regras de incêndio, eu acho. As escadas teriam sido uma rota de fuga melhor. A porta estava fora do caminho e não faziam barulho, como as portas do elevador, para anunciar quando alguém estava partindo. Ela subiria com Irmão Lobo por aquele caminho — se pudesse dar um jeito na coisa de identificação. Anna não trouxe nada com ela, e não teria usado ainda que tivesse trazido. Ela não mentiria com uma identidade falsa, mas não tinha nenhuma intenção de dar a eles mais informações pessoais do que o necessário, não a menos que Bran diga a ela outra coisa. 73


— Você tem um cartão da Agente Fisher ou do Agente Goldstein, do FBI? — Anna perguntou. Ele olhou para a pequena coleção de cartões na escrivaninha na frente dele. —Agente Fisher. Sim. — Por que você não nos coloca para dentro e a chama? Ela me ligou e eu saí com pressa e esqueci minha bolsa e a identidade. Ela está esperando por mim. Ele fez uma carranca para ela. — Sério — disse Anna secamente. — Mulher com homem lobo. É difícil nos confundir com qualquer outro. Os olhos do segurança se alargaram e ele deu outra boa olhada para Irmão Lobo—que lentamente sacudiu seu rabo e manteve a boca fechada. Aparentemente ele decidiu não atormentar o jovem. — Eu pensei que eles seriam grandes. — o segurança disse, inesperadamente. — E… você sabe... Mais cinzentos. — Menos civilizados, enormes? — perguntou Anna com um sorriso. — Metade-humano, metade-lobo, todo monstro? — Uhm. — Ele deu um sorriso rápido e manteve um olho cauteloso em Irmão Lobo. — Eu posso convocar a quinta emenda27? Você ainda terá que esperar até que eu ligue para confirmar. Se eu não te conheço, você não entra sem identidade ou um convite. — A polícia já te perguntou sobre as pessoas que entraram hoje? — Anna perguntou. O guarda assentiu. — Todo mundo. Polícia, FBI, e possivelmente uma dúzia de outras agências e pessoas até onde eu posso dizer. Começando com pai de Lizzie. — Eu não preciso repetir o trabalho, então. — Anna disse. Ele deu seu um sorriso cortês, pegou o telefone, e discou o número de um cartão deixado sobre a escrivaninha. — É Chris, da segurança no andar de baixo. Eu tenho uma mulher e um homem lobo aqui em baixo. — Mande-os subir. — disse a voz de Leslie Fisher. Ela soou muito menos calma do que estava quando ligou para Anna. E desligou sem formalidade. Chris, o Segurança assentiu para Anna. — Eu passarei você. Como você vai subir as escadas? Doze andares é muito. A Quinta emenda da Constituição dos Estados Unidos da América assegura aos norte-americanos o direito de permanecer calado e evitar assim a auto-incriminação, assim como a proteção contra buscas e apreensões descabidas. 27

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— Ele não gosta de elevadores. — Anna disse. — E é provável que, se ela foi sequestrada, o atacante a tenha levado escada abaixo, porque você teria notado se alguém usasse o elevador. — Ela indicou o lobo com uma inclinação de sua cabeça. — Ele tem um bom nariz. Nós verificaremos. Chris olhou para Irmão Lobo com menos medo e mais interesse. — Seria bom se ele pudesse encontrá-la rápido. Anna assentiu. — Nós tentaremos.

IRMÃO LOBO TROTOU pelos degraus farejando as pessoas que usaram aquele caminho. Havia cheiros antigos — várias pessoas tinham cachorros e alguém tinha a pior água-de-colônia — e seis ou oito cheiros mais frescos. Na medida em que ele e Anna subiam mais, num passo firme e constante, os outros cheiros decaíram, restando só alguns. Ele podia cheirar a mulher da limpeza — ela vinha frequentemente aqui — mas havia outro aroma que se sobrepunha, mais fresco por dias. Irmão Lobo inclinou suas orelhas e parou, porque Charles disse a ele que o que estava cheirando era improvável. — O que? — perguntou Anna, e então, mais apropriadamente: O que? Ela veio aqui sozinha, sem tocar o chão. Irmão Lobo sabia que seu tom era ranzinza, mas ele não podia mudar o que era só porque não fazia Charles feliz. Deslizando contra a parede, mais ou menos a noventa centímetros do chão. Charles disse ‘Não’. — Tudo bem. — disse Anna, a voz dela acalmando o pelo arrepiado dele — No momento, a inexplicável evidência de um rapto que possivelmente envolve faes ou homens lobo não exatamente uma surpresa, se pensar bem. — Ela pôs sua mão na cabeça dele, entre as orelhas. — Discutir com seus instintos nesse momento é inútil; o que é algo que Charles me ensinou. Haverá uma explicação. Vamos ver o que o apartamento dela nos diz. Mais alegre — porque ela ficou do seu lado e não do de Charles — Irmão Lobo retomou a caça. Eles foram logo para o décimo segundo andar, onde Anna segurou a porta aberta para ele. Não foi difícil localizar o apartamento da jovem desaparecida, porque, assim como na entrada do prédio, havia policiais e outras pessoas ao redor, fora da porta. A mulher do FBI estava lá, seus braços cruzados e seu rosto determinado. Na frente dela estava um homem delicadamente constituído, mais alto que a mulher do FBI, porém, ele parecia menor devido à sua compleição. O cabelo era castanho e grisalho nas laterais. Fae — o nariz de Irmão Lobo podia cheirar isto. Algum tipo de fae da água, talvez; ele cheirava como um lago de água doce no amanhecer.

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Ele parecia muito impotente, este fae, mas não emanava qualquer sensação de timidez s dele. Irmão Lobo tampouco pode determinar o quão poderoso era o fae. Irmão Lobo não era nenhum perito em faes, mas se virava bem. Pareceu-lhe que a habilidade para esconder-se de todos os sentidos de Irmão Lobo poderia significar a mesma coisa entre o fae que significava entre os homens lobo. Só Bran podia esconder o que era tão bem que Irmão Lobo não podia discernir imediatamente seu poder. — Nós estamos fazendo o que podemos. — a mulher do FBI disse. — Nós não sabemos se esse caso está relacionado aos outros, só que nosso serial killer tem matado faes por vários anos e que sequestra suas vítimas de um modo semelhante a este. Ninguém vê ou ouve nada, no entanto o local do rapto é seguro e bem habitado. — Minha filha é só metade-fae. — disse o homem. — E até que o Oficial Mooney, aqui, me perguntasse, ninguém sabia disto. Ninguém. Não existe razão para supor que seu serial killer pegou minha filha antes que os peritos entrem para ver o que podem encontrar. Eu estava lá, e não havia nenhum sinal de luta. Nós iríamos nos encontrar para celebrar seu sucesso numa audição... Ela ganhou um lugar em um importante grupo de balé, e não teria me deixado aqui plantado. Não sem ligar para cancelar. Se não há nenhum sinal de luta, então ela conhecia seu sequestrador e o deixou chegar muito perto. Ela era uma atleta treinada e eu garanti que ela soubesse como se defender. Eu preciso encontrar seu caderno de endereços e você precisa começar a descer os andares a enviar pessoas para verificarem cada e todas as pessoas por lá, enquanto esperamos aqui por uma ligação dos sequestradores exigindo resgate. Nós estamos perdendo tempo. Esse aqui, Irmão Lobo pensou, está acostumado a dar ordens ao invés de recebê-las. Ele poderia ter estado tentado a ensiná-lo melhor, não fosse o cheiro de preocupação frenética e o terror deprimido que o fae estava encobrindo com ordens serenas. — Se for nosso serial killer — disse a mulher do FBI, soando muito mais paciente do que cheirava — então não existirá nada que nossos peritos possam encontrar, e não será ninguém que ela conhece. Eu tenho um... — Algo a fez olhar ao redor em seguida. Provavelmente o palavrão dito surpreendeu um dos jovens policiais, quando ela notou Anna e Irmão Lobo do lado de fora, ao pé da escadaria. A mulher do FBI... Leslie Fisher — admoestou Anna, porque ela gostava de usar apropriadamente os nomes e as palavras. Para demonstrar que ele sabia perfeitamente bem sobre quem estava falando, Irmão Lobo mandou a ela uma impressão complicada de domínio silenciado, humano e um cheiro que era uma combinação de pele e produtos de higiene, e um odor familiar que indicava que a mulher do FBI tinha uma relação de longo prazo com um homem, várias crianças não-adultas e dois gatos. Ele estava se exibindo um pouco, porque requeria muita experiência separar o cheiro da pessoa em tantos detalhes. Anna deu um soquinho leve na cabeça dele com suas juntas. — Se comporte. — ela disse severamente. Mas ele sentiu seu riso. 76


— Aqui estão eles. — disse a mulher do FBI, Leslie Fisher. Seus olhos deslizaram sobre ele duas vezes. Ela piscou, então enfocou na coleira. Anna sorriu. — Nós usamos a coleira e a corrente porque faz as pessoas se sentirem mais seguras. — ela explicou. — Desse jeito ninguém faz nada estúpido. O fae olhou para Irmão Lobo e agarrou uma espada em seu quadril que não estava lá — a que parecia incomodá-lo bastante. Irmão Lobo retransmitiu para Anna de forma que ela saberia que o fae os viu como uma possível ameaça. — Anna Smith e Charles Smith, eu gostaria de apresentar vocês para Alistair Beauclaire, um sócio na firma de advocacia Beauclaire, Hutten, e Solis. Ele ia encontrar sua filha, Lizzie Beauclaire, vinte e dois anos, aqui, às onze da noite para uma celebração atrasada. Mas, ela desapareceu alguma hora entre as seis da tarde, quando ele conversou com ela, e quando ele chegou aqui, dez minutos antes das onze. Embora seu tom fosse ameno, sua linguagem corporal, o jeito que a mão dela se movia, mantendo a arma ao alcance e o ritmo acentuado de seu pulso disseram para Irmão Lobo que a mulher do FBI vira o que ele viu. Ela falou mais do que precisava, a fim de dar a todo mundo um tempo para se acalmar. Tudo isso a fazia mais do que só uma pessoa para ele, porque ela não era vítima de ninguém e ela era esperta, essa Leslie Fisher do FBI. — Senhor — disse Anna, — nós estamos aqui para ajudar. Além das outras vítimas, esse assassino pegou três homens lobo em Boston no verão. O homem esbelto deixou seus olhos flutuarem de Anna até Irmão Lobo, e Irmão Lobo resistiu em exibir suas presas porque prometeu a Charles que ele cuidaria de Anna. Provocar uma briga com um fae poderia ser divertido, mas ele não estaria protegendo Anna. — Ambos são homens lobos. — disse o fae. Anna assentiu. — Ela tem muitos amigos por aí? Ele sacudiu sua cabeça. — Ela gasta de seis a oito horas por dia tendo aulas e ensaiando. Normalmente, ela encontra seus amigos em um clube ou num restaurante se quiserem sair. A maior parte de seus amigos é de dançarinos, o que significa que são pobres. Eu acho que a constrangia viver numa outra classe. Sua mãe vive na Flórida com seu padrasto e um casal de meios-irmãos mais novos que Lizzie. — Bom. Isso ajudará muito. Então, quem esteve no apartamento hoje à noite? Leslie levantou sua mão. — Eu. — Apontado para o fae. — Ele esteve. — Ela procurou. — Ei, Moon. Mooney, você ainda está por aqui? Um dos policiais mais distantes no corredor saiu por detrás de vários outros e levantou sua mão. — Aqui mesmo. — ele disse. 77


— Se isso é verdade, vai ajudar muito quando entrarmos para verificar quem esteve lá. Mas Charles precisa cheirar todos, para assim descartar suas presenças. Ele não machucará vocês; só não se mexam. Anna soltou a corrente. Irmão Lobo abordou o policial com suas orelhas para cima e seu rabo suavemente sacudindo, e o homem ainda ficou rígido e pálido. Isso era bom. Agradável, até. Não tão divertido como se ele fugisse, mas Irmão Lobo tomou seu prazer como o encontrou. Ainda, uma rápida farejada de vários metros era suficiente. Depois de registrar o cheiro do policial, ele foi pelo fae — que manteve um olho cauteloso nele, mas não fez objeção. De um jeito interessante, Leslie Fisher não vacilou, tampouco; somente sua pulsação ascendente entregou seu medo. Ele gostava mais dela quanto mais tempo passava. Ele olhou para sua companheira. — Alguém mais que nós saibamos que estive lá hoje à noite? — Anna perguntou. — Não. — disse Leslie. — Assim que eu cheguei aqui que lacrei o quarto. — Você nos deixa entrar? — Anna assentiu para a porta do apartamento. Irmão Lobo esperou até que eles estivessem fechados no apartamento juntos antes de se colocar para trabalhar. Averiguar os cheiros de um lugar era truque velho para ele, mas não exigia menos concentração do que na primeira vez: ele só fazia um trabalho melhor agora. Era um trabalho de descartar cheiros velhos ou obsoletos, ir buscar aqueles que sentiu no corredor e ver o que restava. O cheiro da mulher que ele pegou no corredor era o que sentiu na escadaria. Fora o do pai dela, uma vez que ele deixou a sala de estar, não existia cheiro de ninguém mais que tenha estado lá nos últimos seis meses. Só o cheiro da mulher estava em seu quarto. Ela era uma dançarina, o pai dela disse — Charles disse a Irmão Lobo. Olhe nos armários. Um para roupas do dia-a-dia e para festas. O outro cheio com roupas de treinamento e alguns vestidos de competição. Competições de dança de salão. Eu achei que o pai dela disse que ela dançava balé. Irmão Lobo considerou isto. O primeiro grupo de roupas é camuflagem, ele ofereceu. Era bom que Charles tenha decidido participar em vez de só observar. As roupas neste aqui são um disfarce para ajudá-la a se misturar e parecer com todo mundo. Elas cheiram como perfume—ela até escondia o próprio cheiro quando as vestia. O segundo é quem ela realmente é. Eles cheiram a longas horas de trabalho: como triunfo e dor, sangue e suor. Irmão Lobo ficou mais interessado no quarto dela. Ela era tanto a presa que ele caçava quanto a pessoa que a levou. Talvez algo que ele pudesse aprender sobre ela ajudasse em sua busca. Na parede haviam algumas fotografias artísticas emolduradas, de dançarinos, e oito delas eram em preto-e-branco, colocadas num círculo. Fred Astaire e Ginger Rogers estavam imortalizados em um momento em que Ginger estava no ar, um sorriso enorme em seu rosto, e Fred gracejava manhosamente. Outra em preto-e-branco era de uma cena de Dirty Dancing, na qual os atores principais 78


estavam sobre seus joelhos e mãos, encarando famintamente um ao outro — entretanto, a tensão da pose dizia ao observador que eles estavam no meio de uma dança. Vários outros dançarinos, que ele não conhecia, principalmente casais, em uma larga variedade de danças de salão até o tribal para o moderno. No centro do círculo de fotografias estava uma imagem do tamanho de um pôster que dominava o quarto. O fotógrafo pegou um dançarino em meio voo, estirado através da tela em um gracioso Y. Seus pés mais abaixo no canto à esquerda estavam ligeiramente fora de foco, dando a fotografia uma sensação de vivacidade e fazendo a imobilidade do resto mais profunda. O braço esquerdo do dançarino, mais distante do espectador, estava esticado para a direita superior, e seu braço direito, mais próximo do espectador, lançado de volta para o topo do canto esquerdo. Sua cabeça estava curvada, a linha de seu corpo tão pura e forte que ele poderia estar se balançando na corda de um barco pirata. Seus músculos estavam dobrados e tensionados e, de alguma maneira, ainda passava a impressão de estar relaxado, em paz. Diferentemente das outras, essa era colorida, mas bem mal, como se alguém a tivesse preenchido com sombras marrons. A camisa branca solta que ele usava parecia creme, suas calças justas eram de um tom cinza acastanhado, e o fundo terminava em um marrom escuro no lugar do preto. Uma imagem quente, bonita. Rudolf Nureyev, forneceu Charles. — Irmão Lobo? — chamou Anna de algum lugar perto — Charles? Você pode vir aqui por um momento? Eu acho que cheiro algo. Ela estava em pé no corredor, próxima ao banheiro, um olhar pensativo no rosto. — O que você cheira? — ela perguntou, e quando ela farejou, ele se chegou um passo mais próximo e farejou também. Terror — ele respondeu, e tentou novamente, fechando seus olhos para não deixar outros sentidos intervirem. Sangue. O sangue dela. E… Um grunhido cresceu baixo… E dele. Ela lutou com seu atacante, a pequena dançarina lutou. Era só uma pequena gota de sangue, mas era o suficiente. Ele a lambeu — sentindo o cheiro se erguer assim que sua língua a tocou, quebrando a magia de ocultação que tentou esconder até algo tão pequeno do homem que veio aqui para fazer mal. Um homem, mas não humano, ou não completamente humano. O sabor amargo de magia no sangue fez sua língua formigar. Ele reconheceria este homem quando o cheirasse novamente. Meio-sangue fae, ele disse a ela. — Nós provavelmente devíamos ter deixado esse sangue para os laboratórios do FBI. — disse Anna, seu tom um pouco arrependido. 79


Minha caça — Irmão Lobo assegurou a ela, embora Charles concordasse com Anna. Minhas regras. Esse último foi tanto para Charles quanto para Anna. Ele olhou para a porta fechada do banheiro. Se o homem a esteve acossando, poderia ter esperado no banheiro. Você abriria a porta para eu poder procurá-lo lá? Ela embrulhou sua mão na ponta de sua camisa e a abriu. A princípio ele pensou que não havia nada para achar, que o atacante da mulher a esperou em outro lugar. Então ele pegou um rastro lânguido de excitação, algo que ele sentiu quase mais que cheirou — e uma sugestão de qualquer outra coisa que impulsionou Charles para frente, chamado por algo que ele entendia melhor do que o lobo: espíritos. Algumas casas tinham espíritos e algumas não, e nem ele nem Charles sabiam por era assim. Espíritos não eram fantasmas; eles eram a consciência de coisas que o Da de Charles não acreditava que eram vivas: árvores e água, pedras e terra. Casas e apartamentos—alguns deles, em todo o caso. Este aqui era lânguido e tímido, melhor que o filho do xamã lidasse com ele do que o lobo. Mostre-me, disse Charles para o espírito da casa. Mostre-me o que esperou aqui. O apartamento era novo. Não fora um lar para gerações de crianças, então o espírito era fraco. Tudo que ele pode dar foi uma impressão de paciência e grandeza, tão maior que ela, que vivia ali. Cheiro limpo — não, isso estava errado; ele cheirava a produtos de limpeza. Ele carregava… algo. Algo? Charles foi paciente com isto. Uma arma? Irmão Lobo proporcionou o cheiro de uma arma, óleo, pó, metal. Negação rápida e uma resposta, uma resposta mais sensorial que em palavras: algo suave, principalmente têxtil, com só uma sugestão de metal. Uma bolsa, como uma mochila de ginástica, Charles pensou, imaginando a mochila cuidadosamente em sua cabeça, e o espírito saltou por diversão, fornecendo cada vez mais informações sobre a bolsa. Como se, ao nomear, Charles tivesse puxado a rolha da garrafa daquilo que o espírito sabia. Ele trouxe uma bolsa — Irmão Lobo disse a Anna, triunfante porque esteve certo sobre a escada. Uma grande bolsa de lona, e pôs nossa mulher desaparecida dentro. Ele a levou escada abaixo, que é o porquê de eu só poder cheirá-la ao longo das paredes. — Ele não tem cheiro? — Anna perguntou, tendo pegado um pouco do que ele encontrou. Sua voz fez o espírito tímido fugir. Ele escondeu seu cheiro com magia, uma que se assemelha com magia de fae — Charles disse a ela. Irmão Lobo pensou no gosto amargo do sangue do sequestrador que ainda permanecia em sua língua. Também parece com magia de bruxa, negra e encharcada de sangue. 80


Charles concordou. Parece menos… civilizado do que a magia de fae com que estou familiarizado. — Uma bruxa poderia levar uma mulher adulta por doze andares de degraus? — Anna perguntou. Talvez não diretamente — respondeu Charles depois de um momento de consideração — mas existem meios. — Começou a caçada — disse Anna. Exatamente — Charles respondeu. — Quem nós conhecemos que sabe muito sobre faes e sua mágica? — perguntou Anna. — Bran saberia? Nós temos uma fonte melhor — sugeriu Irmão Lobo. O pai dela é velho e poderoso. — Ele foi por uma espada. — Anna disse. — É por isso que você pode dizer que ele é velho? Irmão Lobo forneceu a memória do cheiro de criaturas que eram mais velhas que alguns séculos, uma leve fragrância que ficava mais rica. Velho, explicou Charles. E então eles mostraram a ela como o poder cheirava entre os faes, começando com algo mais fraco e aumentando até que Charles disse a ela: Isto é força. Mas eles são criaturas sutis, os faes. Eles não podem acrescentá-la ao cheiro deles porque, na maior parte, eles não podem cheirá-la. Porém, quando eles escondem o que são, às vezes também podem obscurecer o que nós podemos cheirar sobre eles. Este aqui cheira a velho, mas ele cheira tão pouco quanto é possível para alguém que ainda cheira como fae. — Então um fae provavelmente não cheirará mais poderoso ou velho do que ele é — disse Anna — Mas ele poderia cheirar mais fraco. Como Bran gosta de fazer para esconder quem ele é. Irmão Lobo bufou um espirro afirmativo. Charles continuou — Eu acho que poderia ser uma boa coisa discutir isso com o pai de Lizzie — quando não houver nenhum humano presente. — Discutir o quão poderoso ele é? — perguntou sua companheira, um canto de sua boca torceu para cima. Ela sabia o que Charles queria dizer, mas tinha um senso de humor bobo às vezes. Irmão Lobo gostava disso nela. Charles, porém, estava em um humor mais sério e tratou sua pergunta como se realmente fosse séria. Não. Discutir com ele que tipo de fae se adequariam aos parâmetros que nós atribuímos a esse serial killer. Irmão Lobo espirrou para deixá-la saber que achava que ela era engraçada.

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— VOCÊ ACHOU alguma coisa? — perguntou Leslie quando Anna deixou Charles e foi para fora do apartamento. Anna olhou para os peritos policiais que os aguardavam e se perguntou se foi pela questão do serial killer, ou algo se foi sobre o pai da menina desaparecida, que fez trouxe à tona as grandes armas para um caso de pessoa desaparecida, no qual a vítima havia sumido só há algumas horas. — Sim. — Anna respondeu — Quem a levou é fae… ou tem algum acesso à magia de fae. Ele se escondeu no banheiro e esperou que ela fosse para ele. Depois de gesticular para a equipe da perícia que podiam entrar no apartamento, Leslie tirou um caderno espiral pequeno e começou a rabiscar coisas nele. Ela não olhou para cima quando ela disse — O que mais você achou? — Ele veio sem ser notado. Um fae puro-sangue poderia ter vindo com a aparência de qualquer um, provavelmente de alguém que realmente mora aqui. — Anna disse a ela. Era especulação, mas isso era o que ela teria feito se pudesse se esconder do modo que os faes podiam. Eles tinham diversas variantes para o “não olhe para mim” mágico que eram mais fortes que a mágica do clã, mas o glamour, o poder que todos os faes dividiam, era ainda mais... tratava-se de uma ilusão muito forte. — Porém, independentemente de como chegou, ele partiu com sua presa em uma bolsa de ginástica e a levou escada abaixo. Leslie olhou para isso. — Ele a levou abaixo? Doze andares de degraus? — Sem a arrastar. — Anna disse, pondo um dedo na parede do corredor na altura que Irmão Lobo tinha rastreado. Se ele a tivesse levado com seus braços para baixo… então mais alto do que humanos. Anna não disse isto, porém, dando a Leslie apenas os fatos. — Nosso criminoso não deixa um cheiro, então nós estávamos bastante confusos a princípio. Ela olhou para o pai da mulher desaparecida, que permaneceu em pé, numa pose de parada militar, o olhar no chão. — Porque ele não deixou um cheiro, pode ser alguém que estive no apartamento antes, alguém que ela conhecia, mas não acreditamos nisso. Ele a pegou de surpresa no corredor na frente do banheiro. Ela lutou com ele, lutou duro. A um sinal muito bom disso na parede em frente ao banheiro. Mas ela não foi páreo. Ele usou uma droga, Charles disse. Eu peguei uma insinuação dela no banheiro. — O que o lobo acabou de lhe dizer? — perguntou Alistair Beauclaire. Sua voz devia ser um recurso valioso na sala de tribunal... era fria, consistente e bonita. Se ela fosse humana, sem seus sentidos para guiá-la melhor, nunca teria sabido que suas palavras o atingiram forte—ele estava esperando que fosse alguém que ele pudesse rastrear. — O sequestrador a drogou. — Ela olhou para Charles. — Você sabe o que ele deu a ela?

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Cheirava como ketamina28 para mim, disse Charles. Mas não é minha área de especialidade. Ela avisou sobre a resposta aos ouvintes enquanto pensava sobre como pegar o pai de Lizzie sozinho para discutir o assunto longe de ouvidos humanos. — Eu sinto muito que nós não possamos ser de mais ajuda. — Anna disse. — Como vocês sabem, nós temos um risco aqui; e ninguém quer outra pessoa morta. Talvez se nós conhecêssemos mais sobre o fae que a levou ou o que exatamente o assassino está fazendo para suas vítimas. — Ela pausou e delicadamente disse — Ou serão “assassinos”? A agente Fisher deu a ela um olhar avaliador enquanto Mooney, o único oficial de polícia ainda na cena, limpou sua garganta severamente. Beauclaire olhou para ela com interesse. Anna encontrou seu olhar e disse sem ênfase particular: — Nós o encontraremos, mas quanto mais soubermos, mais rápidos seremos. — Ela se voltou para a agente do FBI — Se você precisar entrar em contato e meu telefone tocar até cair a linha, pode tentar o de Charles. — Ela balbuciou o número, que tinha um código da área de Boston porque Bran pensou que anunciar que eram de Montana seria um erro. O rosto de Leslie Fisher ficou especulativo antes de retornar ao neutro. Ela entendeu que o deslize de Anna foi proposital, mas não comentou em voz alta. — Você poderia ir para casa também — Fisher disse. — Se pensar em qualquer outra coisa ligue para mim ou para o Agente Goldstein. CAPÍTULO 6  Anna trancou a porta atrás deles e tirou a coleira e a corrente de Charles, deixando ambas sobre uma pequena mesa contra a parede. — Se o pai dela é um velho e poderoso fae, por que não pode encontrá-la? — Anna perguntou. Talvez seu poder não exista dessa forma — respondeu Irmão Lobo. Ou existe algo o bloqueando. Eu não sei muito sobre magia fae, exceto dizer que nenhuma mágica tem respostas para tudo. É uma ferramenta. Um martelo é uma boa ferramenta, mas não é útil para remover parafusos. —Certo. — disse. — Eu vou acreditar nisto. — Ela tirou os sapatos e penteou seus cabelos com os dedos. Ela estava cansada. — Você pode me dizer o que está errado com Charles? Irmão Lobo olhou para ela e não disse nada.

A ketamina, também chamada de cetamina, é uma droga dissociativa usada para fins de anestesia, com efeito hipnótico e características analgésicas. 28

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— Eu não achei que pudesse. — ela disse. — Charles, como eu posso ajudar se você não me deixa entrar? Você não pode ajudar, Charles respondeu. Anna respirou fundo. — Você acabou de mentir para mim? — Ela não tinha certeza, mas não sentiu como verdade, tampouco. Irmão Lobo desviou o olhar. Charles não deixará você ajudar. — Tudo bem... Aí. Eu menti para você, também. — Não estava bem, nem mesmo perto de bem. Nós deveremos ser humanos quando o lorde fae vier — Irmão Lobo disse, finalmente. Anna não soube o que dizer, de modo que não disse nada. Depois de um momento, Charles começou a mudar de volta. Não demoraria muito para ele, uns cinco ou dez minutos. O sangue de um xamã Cabeça-Plana significava que levar muito menos tempo para mudar do que qualquer outro lobo que ela tenha encontrado. Machuca mudar, machuca mais quando você faz indo de um lado para outro em só um par de horas — e Charles não estava em um bom lugar quando ele começou. Anna podia sentir a dor em que nele — fracamente, porque Charles nunca a deixaria senti-la toda, se pudesse impedir isso. Era melhor deixá-lo sozinho por alguns minutos. Era melhor se afastar da tentação de uma briga de verdade, especialmente quando podiam ter visitas a qualquer hora. E eles não voltaram à estaca zero, também. A ligação de ambos mantinha-se aberta entre eles, um testemunho de que ele estava melhor do que antes. Eram quatro horas da manhã. Ela se debateu entre tomar banho e se vestir — ou escovar seus dentes e voltar a dormir. Anna não voltou para o banheiro. A cama ainda estava amarrotada de quando a tinha deixado mais cedo, e estava muito convidativa para resistir. Ela rastejou debaixo dos cobertores e enterrou sua cabeça no travesseiro de Charles. Ela sentiu mais do que ouviu quando ele entrou no quarto. Ele parou próximo à cama e deu um tapinha ligeiro nas nádegas dela, e algo dentro de Anna relaxou. — Não fique muito confortável, Bela Adormecida. — ele retumbou provocador, soando como seu antigo eu. Charles poderia não estar deixando que ela o ajudasse, mas estava fazendo progresso da mesma forma, apesar de sua decisão de recuar para trás de Irmão Lobo mais cedo. — Nós teremos companhia bem mais cedo ou mais tarde. Você fez ao fae uma óbvia oferta de dar-lhe informações que o FBI não daria, e ele não esperará até uma hora educada do dia para vir. Eu duvido que ele tenha até mesmo dormido um pouco, já que o destino da sua filha é incerto... Eu não dormiria. 84


Anna esperou até que o chuveiro ligasse antes de puxar sua cabeça de baixo dos cobertores. Não. Charles não descansaria enquanto uma criança dele estivesse em perigo. Se ele tivesse crianças. Homens lobo fêmeas não podiam levar uma gestação a termo. A lua chamava e elas mudavam para lobos; a violência disso era demais para a criança em formação. Anna perguntou a Samuel, que era médico, sobre ficar na forma de lobo durante todo o período da gestação como alternativa. Ele empalideceu e sacudiu sua cabeça. — Quanto mais tempo você permanece lobo, menos o humano fica no controle. Se você permanecer lobo por muito tempo, não haverá volta. — Eu sou uma Ômega. — Anna respondeu-lhe. — Meu lobo é diferente. Nós podíamos tentar. — Sempre termina mal. — disse asperamente o irmão de seu companheiro. — Não fale, por favor, com Charles ou com Da sobre isto. A última vez foi brutal. Houve uma mulher… Ela conseguiu esconder de Bran até que fosse muito tarde. Um homem lobo não é um lobo, Anna, que se importará e protegerá sua cria. Quando nós finalmente a localizamos, Charles teve que matá-la porque não havia nenhuma humanidade sobrando, só a besta. Charles a levou de volta para a caverna onde ela estabeleceu sua guarida. Ela deu a luz, tudo bem. E então ela matou o bebê. Seus olhos estiveram crus e selvagens, então ela mudou o assunto. Mas Anna tinha seus próprios pensamentos sobre o tema — Irmão Lobo não era nenhuma criatura imprudente que comeria sua cria, e ela estava bastante certa que sua própria loba era ainda mais gentil. Mas ainda não havia necessidade de medidas desesperadas. Os homens lobo estavam expostos para o mundo agora, sem mais necessidade de se esconder. Existiam opções para os casais que não podiam ter crianças biológicas por uma razão ou outra que funcionariam para homens lobo também. Agora mesmo, com o público tão ambivalente a respeito dos homens lobo, seria difícil tentar usar um substituto para carregar o filho deles. Mas poderiam esperar por algum tempo para a opinião pública mudar. — Para a opinião pública mudar sobre o quê? — perguntou Charles quando abriu a porta do banheiro, deixando o vapor rolar para fora. Ele tinha uma toalha embrulhada ao redor da cintura e estava secando seu longo cabelo com outra. Ela não teve que responder porque alguém tocou a campainha. Suponha-se que o fae iria ligar para eles; ela deixou o número de Charles. Aparentemente ele decidiu vir sem um convite ao invés. Anna não estava despida, então correu seus dedos pelo cabelo e partiu em direção à porta. Charles se moveu para frente dela e largou a toalha que segurava no chão. — Não. — ele disse. Ela rolou seus olhos, mas disse: 85


— Tudo bem. Eu esperarei por você. Ele se vestiu rapidamente, mas sem aparentar pressa, enquanto ela o assistia. Ver Charles se vestir e se despir era uma de suas coisas favoritas de fazer — melhor que embrulhar e desembrulhar presentes de Natal. Homens lobo eram, no geral, jovens, saudáveis e musculosos — o que eram características atraentes. Mas eles não eram Charles. Seus ombros eram largos e sua pele escura tinha um brilho como de tinta que convidava seus dedos a tocar. Seu longo cabelo, preto como a meia noite, cheirava a... — Se você não parar com isto — ele falou suavemente, mas parou com sua camisa justo acima de seus ombros, assim ela podia ver o modo como os músculos lisos de suas costas deslizavam por baixo na calça jeans bem ajustada — nosso cavalheiro visitante poderá ter que esperar por mais algum tempo. Anna sorriu e estendeu-se para deslizar um dedo abaixo pela coluna vertebral dele. Ela apertou seu rosto contra a camiseta de algodão e inalou. — Eu senti falta de você. — ela confessou. — Sim? — Ele perguntou gentilmente. Ficou ainda mais gentil quando falou: — Eu não estou concertado ainda. — Quebrado ou inteiro — ela disse, sua voz transformando-se num grunhido — você é meu. Melhor não se esquecer disso novamente. Charles riu; um som pequeno, feliz. — Certo. Eu me rendo. Só não venha atrás de mim com um rolo de massas. Anna ajeitou a camisa e a alisou. — Então não faça nada para merecer isso. — Ela bateu-lhe levemente no ombro. — E isto é por desrespeitar o rolo de massas da minha avó. Ele se virou para encará-la, o cabelo molhado em uma emaranhada bagunça ao redor de seus ombros. Olhos sérios, entretanto sua boca estava curvada para cima. — Eu nunca desrespeitaria o rolo de massas da sua avó. Seu velho clã fez tudo que podia para transformá-la em uma vítima, e quando aquele lobo louco partiu para cima de mim, você ainda agarrou o rolo de massas para me defender, embora tivesse horror a ele. Eu acho que é a coisa mais valente que já vi. E possivelmente foi a única vez que alguém tentou me defender desde que eu alcancei a maioridade. Ele tocou seu nariz, curvou-se... A campainha tocou, um prolongado zumbido, como se alguém estivesse ficando impaciente. Olhos entrecerrados, Charles olhou para a porta da frente do mesmo modo que olharia para um urso-pardo ou um guaxinim que interferisse em sua caça. 86


— Eu amo você, também — murmurou Anna, porém ela estava pelo menos tão melindrada com a interrupção quanto Charles possivelmente poderia estar. — Vamos ver o que pai de Lizzie tem a dizer. A campainha tocou novamente. Charles respirou fundo, correu seus dedos por seu cabelo molhado para livrar-se do pior dos emaranhados, olhou no espelho na parede e congelou. — Charles? O lado dele no vínculo fechou tão rápido que ela não pôde evitar um fraco suspiro, mas não foi tão rápido que a impedisse de ver que a motivação de Charles era singular e enorme: ele queria protegêla. Charles não olhou para ela, e quando a campainha tocou novamente, voltou-se para fora do quarto. Ela permaneceu onde ele tinha estado, na frente do espelho, e tentou ver o que o tinha perturbado tanto. Vozes de homens e mulheres correram por seus ouvidos. O espelho era chanfrado, preso numa plana e bem-feita armação, e nele ela viu a si e às paredes do quarto atrás dela. Existia uma pintura a óleo original de uma montanha na parede à sua direita, próxima à porta do banheiro. Diretamente atrás dela, cortinas de renda na cor creme penduradas acima da janela, ainda escura com o reinado da noite. O que ele vira que o fez querer protegê-la? Quando ela saiu para a sala de estar, Alistair Beauclaire já estava dentro do apartamento — bem como os Agentes Especiais Fisher e Goldstein. — Eu pensei — dizia Beauclaire — que pouparia tempo todos nós nos reunirmos juntos e colocar todas as cartas na mesa. A vida da minha filha é mais importante que política e segredos. — Aquele era, vindo de um fae, um movimento chocante. Anna não teve muito contato com faes, mas até ela sabia que eles nunca davam um pedaço de informação se pudessem evitar. Beauclaire olhou para Charles; ele teve que olhar para cima. — Eu sei quem você é. — o fae disse a Charles. — Você pode ter só uma chance de encontrála, mas não se nós estivermos todos tropeçando sobre os segredos que não podemos contar. — ele olhou por cima, para trazer os agentes do FBI para a conversa. — Se vocês retiverem alguma coisa que pudesse permitir encontrar Elizabeth um minuto mais cedo, vão lamentar. Nós falaremos nesta manhã sobre coisas que gente de fora não sabe; confiaremos em vocês para usarem isso para parar o assassino. Os olhos de Leslie se apertaram pela ameaça, mas Goldstein a absorveu sem uma reação, nem mesmo um aumento na batida cardíaca: ele só parecia cansado e mais delicado do que na última vez que Anna o viu.

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— Eu asseguro a você — Goldstein disse a Beauclaire — que é nossa missão encontrar sua filha rapidamente. Se nós não concordássemos com você, não estaríamos aqui. Não importa de que favores você dispõe. Anna se perguntou como o FBI ou Beauclaire souberam onde ela e Charles estavam ficando. O apartamento pertencia a uma pequena companhia que estava completamente integrada a uma empresa maior, e assim por diante. A coisa toda pertencia, por sua vez, à Aspen Creek Inc., que era o Marrok. Aparecer sem ser anunciado era um movimento de poder que dizia “Vocês não podem se esconder de nós”. Parecia um pouco agressivo demais para o FBI: ela e Charles não eram suspeitos. Anna pensou que era mais provável que Beauclaire fosse o responsável pela visita matutina, buscando estabelecer domínio com sua invasão não anunciada do território deles — reivindicando uma posição de ponta na caçada por sua filha. Ela podia ver o que ele estava tentando fazer, mas não funcionaria com Charles, no entanto, poderia tornar seu companheiro mais perigoso se ele decidisse tomar aquilo como ofensa. O rosto sociável de Charles estava muito bem colocado para que ela pudesse lê-lo, o que lhe sinalizou que ele estava sentindo um monte de coisas sobre as quais não queria que ela soubesse. Ele fechou a ligação para protegê-la. Anna tentou ficar brava com isso, dessa forma não teria que estar preocupada ou machucada, mas ele era um lobo dominante e parte de ser dominante era cuidar do que era seu. Sua esposa, sua companheira, encabeçava a lista. Então Charles a protegeria de qualquer coisa que ele pensasse que a atacaria através da conexão entre ambos. Mas ele esqueceu algo no caminho. Ele era dela. Dela. Ele estava se machucando para protegê-la e ela iria pôr um ponto final nisso — mas não agora. Não em público. Um bom caçador é paciente. Charles olhou para Anna, que estreitou os olhos para dizer que a raiva que ele sentiu vindo dela estava dirigida para ele. Charles ergueu uma sobrancelha e ela levantou o queixo. Redirecionando sua atenção para os intrusos, Charles silenciosamente sinalizou a todos em direção o grande sofá em “L” na frente da TV. Ele puxou uma cadeira de madeira da mesa de jantar para si mesmo e a colocou diante da mesa de centro, onde poderia encará-los. Os agentes do FBI sentaram-se na ponta do sofá. Goldstein pareceu mais cansado que interessado, mas Leslie Fisher observou Charles atentamente, sem o olhar nos olhos, sem desafiar, só apurando. Tal interesse intencional teria posto Anna inquieta, exceto que não havia nenhum calor no olhar de Leslie. Era mais uma coisa “observando o sujeito em seu habitat natural” que um “ele é realmente quente”. Beauclaire, por sua vez, afundou-se no material macio do sofá como se o pensamento de aquilo poderia impedi-lo caso ele precisasse mover-se rapidamente, nunca tivesse ocorrido. “Eu não tenho medo de ninguém aqui” era o que a postura corporal dele dizia. A de Charles — relaxada, braços cruzados frouxamente, queixo ligeiramente inclinado — dizia “Você está me entediando; ou lute e morra — ou desista”.

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Anna agarrou outra das cadeiras de madeira e a colocou próxima da de Charles, e então se sentou. — Certo. — ela disse, para quebrar o festival de testosterona antes de poder realmente conseguir continuar. — Quem vai primeiro? Charles olhou para Beauclaire. — Os faes sabem que alguém esteve caçando-os desde os anos oitenta? — Nós estamos aqui para dividir informações. — disse Beauclaire, estendendo sua mão magnanimamente. — Eu estou feliz em começar. Sim, claro que nós sabemos. Mas ele só esteve caçando os zé-ninguém, os meio-sangues, os solitários. Ninguém com família para protegê-los. Ninguém de real poder. — Sua voz era fria. — Ninguém por quem valesse se colocarem em risco. — disse Charles. Beauclaire deu a Charles um olhar cortês que foi tão claro quanto qualquer adolescente levantando seu dedo do meio. — Nós não somos clãs. Nós não somos todos bons amigos. Principalmente, nós somos inimigos educados. Quando um fae morre, se ele não for um de poder; que são valiosos para nós só porque existem muito poucos sobrando; se não for alguém que tenha família ou aliados poderosos, a maioria dos outros faes vai considerar aquela morte um alívio. Primeiro não foram eles que morreram. Segundo, não causou prejuízo a mais ninguém e aquele fae não estará mais livre para fazer alianças com alguém que poderia ser um inimigo. — Sua voz afundou só um pouco na última frase. — Incomoda você. — disse Leslie. Anna gostava de pessoas competentes. Não havia muitos humanos tão bons em lerem os outros como eram os lobos. Leslie era muito boa em ser capaz de ler Beauclaire. olhou para a agente, começou a dizer algo, hesitou, então falou: — Sim, Agente Fisher, me incomoda que um assassino tenha permissão para continuar a abater aqueles que ele bem entende por quase meio século. Tivesse eu sabido disso, eu teria feito algo; o que, provavelmente, é o porquê de eu não ter sido informado. Um erro que eu estou trabalhando para corrigir. O que devia ter sido, neste caso, foi substituído pelo que é: um assassino que tortura suas vítimas antes de matá-las pegou a minha filha. — Você sabe quem ou o que nós estamos caçando, Sr. Beauclaire? É um fae?— Goldstein perguntou. — Sim. Eu sei de um tipo de fae que poderia entrar em um edifício sem deixar uma trilha de cheiro que um homem lobo pudesse seguir, e poderia se esconder de forma que as pessoas que passassem por ele não pudessem discernir sua presença. — Isto é incomum. — disse Anna. — A maior parte do glamour não funciona com aromas.

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— Você não pode esconder o que você não percebe. — concordou Beauclaire. — A maioria dos faes que podiam rastrear um cheiro tão bem quanto um homem lobo tinham uma mente bestial: como o gigante em “João e o Pé-de-Feijão.” Aqueles faes não conseguiram escapar s dos cristãos carregando ferro-frio para nos expulsar de nossas casas... Então eles pereceram, a maioria deles. Mas existem alguns faes sobrando que seriam capazes de perceber e esconder seus cheiros. Entre aqueles que têm essas habilidades, os únicos que também seriam fortes o suficiente para carregar minha filha para fora de casa em uma bolsa, e se passar por alguém levando roupa para lavar é um lorde cornudo. Goldstein estreitou seus olhos. — O velho termo para um homem que foi traído? Não é isso o que você quer dizer. — Cornudo — disse Charles. — quer dizer com galhada. Beauclaire assentiu. —Sim. — Herne, o Caçador. — sugeriu Charles. — Como Herne. — concordou Beauclaire. —Nunca houve muitos deles, menos de um punhado pelo que eu saiba. O último desse lado do Atlântico foi morto em 1981, atingido por um carro em Vermont. O motorista achou que matou um cervo muito grande, mas o acidente foi testemunhado por um de nós que podia ver o fae dentro da pele do cervo. Quando não tinha ninguém olhando, roubamos o corpo. — Você acha que existe outro? — Leslie perguntou. O fae assentiu. — É isso o que a evidência sugere. — Se o assassino é fae, então por que ele não começou a caçar vítimas faes antes dos faes se revelarem? — Anna perguntou. O UNSUB ser fae explicava por que ele ainda estava ativo depois de tantos anos e por que ele podia pegar um homem lobo sem ninguém notar. Mas não explicava por que ele começou a mirar os faes só depois de eles terem revelado sua existência. — Eu não sou o assassino para saber suas motivações, Sra. Smith. — disse Beauclaire. Ele enfatizou o “Smith” para mostrar que sabia qual era o verdadeiro sobrenome deles; ainda competindo pelo domínio da situação — Coincidências acontecem. — Chame-me de Anna. — ela lhe disse numa voz amigável. — É como a maioria das pessoas me chama. Ele olhou fixamente para ela por um momento. Charles rosnou e o fae afastou seu olhar dela, então franziu a testa pela irritação de perder a vantagem. Mas Anna podia sentir a atmosfera inteira da sala de estar se aliviar quando a briga por território era perdida e ganhada.

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Beauclaire curvou a cabeça para Charles e sorriu para Anna, e ela pensou que ela nunca tinha visto uma expressão tão triste em sua vida. Naquele olhar ela entendeu o que ele estava fazendo e por que — ele achava que sua filha estava perdida, ela viu. Ele não tinha esse olhar, não quando estavam no apartamento da filha, mas algo — talvez o fato de o assassino ser fae — mudou sua atitude. Ele estava caçando o assassino dela agora e não tentando salvar sua filha. Talvez fosse por isso que ele cedeu tão facilmente a Charles. — Coincidência — Beauclaire admitiu — é altamente superestimada. Eu tenho uma explicação alternativa sobre como um fae poderia não saber o que era até que descobrisse que existiam tais criaturas. Ele olhou em torno do quarto, mas Anna não podia dizer o que ele estava procurando. — No auge da era vitoriana, — Beauclaire começou finalmente, em uma voz descansada e serena que contrastava com o que o nariz de Anna farejava — quando cavalos de ferro 29cruzavam indo e vindo pela Europa, várias coisas ficaram óbvias. Não havia mais um lugar para os faes no velho mundo; e nós éramos muito poucos. De 1908 até somente alguns anos atrás, era a política dos Senhores Cinzas, aqueles que governam os faes, encontrar os tipos úteis, apesar de escassos, e forçá-los a se casarem e procriarem com humanos, uma vez que os humanos se reproduzem muito mais rapidamente do que nós. Anna sabia sobre isto, mas não percebeu quanto tempo durou. Pela expressão de Leslie, Anna teve bastante certeza de que a agente do FBI não sabia sobre a política de mestiçagem. Isso era interessante, porque o rosto dela não tinha mudado nada quando Beauclaire mencionou os Senhores Cinzas, que também eram um segredo profundo. Goldstein poderia estar escutando o relatório do tempo pela expressão em seu rosto. Não houve nenhuma dica sobre o que ele sabia ou não sobre os faes. — Acreditava-se — continuou Beauclaire — que humanos eram de linhagens sanguíneas mais fracas e que o sangue fae prevaleceria... E humanos reproduziam-se muito facilmente, mesmo que seus companheiros fossem faes. — ele fechou os olhos e inspirou profundamente. —A inteligência nessas reproduções forçadas está agora sendo reexaminada. Faes meio-sangue enfrentam muitos desafios. Eles, em geral, não são aceitos pelos outros faes. E muitos deles exibem... características ímpares; defeitos de nascimento são muito comuns. Uma vez pais ou mães, os faes tendiam a abandonar completamente a criança, o que aconteceu com uma porcentagem alta dos mestiços, o que os obrigavam a descobrir, sozinhos, quem e o que eles eram, com resultados às vezes desastrosos. E boa parte das crianças nascia completamente humana. Charles se sentou. — Como sua filha? — seu tom foi suave. — Como minha filha. A única coisa que ela tem de mim é o amor da minha mãe pela dança... E ela tem que treinar por horas, todos os dias, para fazer o que minha mãe fazia sem qualquer esforço. — Beauclaire olhou para baixo, então de volta para Charles. — Você é velho, mas não tão velho quanto 29

Iron Horse é uma locomotiva movida a vapor.

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seu pai. Talvez possa entender por que eu lutei contra essa ordem tão duro quanto qualquer outra das minhas lutas. Enganar uma mulher humana com a finalidade de ser pai de uma criança dela… é desonroso. Sim. E, ainda assim, me deu alguém com quem eu me importo profundamente. Ele suspirou e olhou Charles nos olhos. Não era um desafio, mas um modo de mostrar o quão sério ele estava sendo. — Não é sábio... — Beauclaire disse, sua voz entrecortou, e Anna captou algo muito similar ao acento de Bran quando ele ficava irritado. —Não é sábio dar a alguém velho e poderoso alguém com quem eles se preocupem. E eu sou muito velho. — Ele olhou para os agentes do FBI. — Até, possivelmente, mais velho do que seu pai... Nós não comparamos anotações. Leslie reagiu à ideia de que um homem lobo pudesse ser mais velho que um fae antigo — um fae imortal e antigo. Goldstein só pareceu mais cansado, e talvez isso fosse uma reação também. — Não tenha a ideia errada. — Anna disse a eles. — A probabilidade de vida média para alguém de quando é transformado e se torna um homem lobo é de mais ou menos dez anos. — Oito. — disse Charles, soando tão cansado quanto Goldstein parecia. Anna saiba que seus dados estiveram corretos até o ano passado. Ela alcançou e tocou sua coxa, mas ele não olhou para ela. Charles não estava totalmente envolvido naquela reunião, ela pensou. Ele ficava olhando acima do sofá, para a parede de janelas. Ela franziu a testa, notando como, com o céu ainda escuro do lado de fora, a janela refletia a sala em volta deles. Ele estava vendo algo no reflexo. — Quatro entre dez de nossas crianças mestiças sobrevivem até a maioridade. — Beauclaire estava dizendo. — Elas são a presa favorita de outros faes se não forem protegidas. Minha filha faz vinte e três anos em duas semanas. Anna olhou para Charles. Ele não parecia estar escutando, e o quer que seja que ele estivesse vendo nos espelhos da janela o estava deixando cada vez mais distante. — Que tipo de dançarina sua filha é? — Anna perguntou de repente — Eu vi sapatos de balé, mas também trajes de dança de salão. — ela não viu, não realmente, mas Irmão Lobo viu e a manteve informada. — Balé — O pai de Lizzie disse. — Balé e dança moderna. Um de seus amigos faz dança de salão e ela foi parceira dele durante algum tempo, uns anos atrás. Dança de salão é por diversão e balé é a sério, ela me disse. — ele sorriu para Anna. — Quando ela tinha seis anos, se vestiu para o Dia das Bruxas como uma completa princesa fae com asas. Ela estava dançando em torno do quarto e eu perguntei por que ela não estava voando. Ela parou e me disse, bastante seriamente, que suas asas eram de mentira. Que dançar era o mais perto que ela podia chegar de voar. E ela amava voar. Não foi o suficiente. Charles ainda estava preocupado. Anna tocou em seu rosto e esperou até que Charles se afastasse das janelas. — Lizzie Beauclaire não tem vinte e três anos completos. Ela ama dançar. E ela está completamente sozinha com um 92


monstro que vai tortura-la e matá-la se nós não a encontrarmos logo. Você é sua melhor esperança. — ela não adicionou “então aguenta aí e presta atenção”, mas confiou que ele ouviu isso em sua voz. Charles balançou sua cabeça, entretanto seu rosto estava calmo. Pelo menos ele não estava mais olhando para as janelas. — Lembre-se disso. — Anna disse ferozmente quando retirou sua mão. — Você não pode mudar o passado, mas isso nós podemos fazer. Beauclaire respondeu primeiro; é nossa vez. O que nós sabemos que ajudaria na caçada? Ela encontrou o olhar de Charles e o sustentou até que ele jogou seu peso para frente e fez um breve aceno com a cabeça. — Os corpos que a polícia tem encontrado estão cortados em pedaços. — Charles se voltou para os agentes do FBI. — Eu cheirei magia negra, magia de sangue, no homem que levou Lizzie Beauclaire. Isso me faz pensar em bruxas, e que aqueles cortes nas vítimas poderiam ser significativos. Os faes não têm nenhum uso para magia de sangue. — Ela não funciona para nós — respondeu Beauclaire, mas sua voz era ausente e observava Charles. Não o olhando nos olhos, não inteiramente. Goldstein comentou: — Eu tenho mais detalhes sobre isso. — ele abriu sua pasta e deu a Charles um espesso arquivo de fotografias. — A maioria das vítimas tem contornos esculpidos dentro da pele — nós estivemos olhando para o ângulo da bruxaria ou do vodu nos últimos dez anos. Mas as bruxas dispostas a falar conosco só nos dizem que não é nada que elas conheçam. Não vodu ou hoodoo30. Não são runas. Não são hieróglifos, nem qualquer outra linguagem de símbolos usada por bruxas. Charles abriu a pasta e espalhou as fotografias na mesa de centro. Eram principalmente instantâneos ampliados ou close-ups, algumas em preto e branco, algumas coloridas. Nomes, datas, e números foram escritos em marcador branco no canto esquerdo superior. As fotografias documentavam símbolos, irregulares e escuros nas bordas. Algumas das marcas estavam rasgadas no meio por cortes furiosos; outras estavam distorcidas pela degradação da carne em que foram esculpidas. — Elas mentiram para você. — disse Charles, curvando-se para dar uma olhada mais aproximada numa das fotos. — Quem? — As bruxas. — respondeu Beauclaire. Ele puxou uma das fotos, mas a devolveu rapidamente. Fechou seus olhos por um momento e quando os abriu novamente, eles estavam quentes com… ira ou terror; o nariz de Anna não tinha certeza do que.

Hoodoo: Magia de cura e controle, especialmente baseada em medicina popular africana, nos Estados Unidos e Caribe. Também chamada de Conjuro. 30

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— Os símbolos que as bruxas usam — Beauclaire disse a Goldstein num tom educado e formal — seguem as linhas familiares na maior parte das vezes. Eu não posso, mas as bruxas deveriam ter podido dizer de qual linhagem esses vieram. Existe algo errado com o lugar onde foram feitos ou o formato… Em uma vida muito longa, eu vi muitas coisas. Eu não faço magia de sangue, mas eu a vi bastante frequentemente. Charles girou uma das fotografias para visualizá-la de um ângulo diferente e franziu a testa. Ele pegou seu telefone do bolso e tirou um close-up de uma das fotografias. Ele apertou alguns botões e pôs o telefone na orelha. — Charles — disse Bran. — Orelhas podem ouvir. — advertiu Charles, dizendo a seu pai que havia mais pessoas na sala que podiam escutar o telefonema. — Eu enviei a você uma foto. Parece com bruxaria para mim. O que você acha? — Eu ligarei de volta. — Bran disse e desligou. Goldstein esfregou seu rosto cansadamente. — Nós deveríamos estar mantendo estas longe do público. — ele disse. — Eu posso pedir para que a foto não chegue à Internet ou à mídia? — Você está seguro. — Anna asseverou. — Nós estamos ligando para uma opinião perita. O telefone tocou antes que alguém pudesse dizer alguma coisa. Charles o pôs no viva-voz quando atendeu — Todo mundo pode te ouvir agora. — ele disse. Houve uma pequena pausa antes de Bran falar. — Você precisa arrumar uma bruxa para olhar isso. Parece ser algo dos clãs irlandeses para mim, mas não parece muito certo. Alguns desses símbolos são absurdos e outros estão desenhados errados. Seria melhor se a bruxa pudesse ver a coisa real, não apenas as fotografias. Existe mais em um feitiço do que só o visual pode dizer. — Obrigado. — Charles disse, desligando sem formalidade. — Então, alguém conhece uma bruxa local com quem podemos conversar? — Eu conheço uma bruxa. — disse Leslie. — Mas ela está na Flórida. Charles sacudiu sua cabeça. — Se nós vamos trazer alguém, eu sei de um ou dois confiáveis. Você conhece alguma em Boston? — Ele olhou para Beauclaire, que sacudiu sua cabeça. — Não sei de nenhuma que ajudaria. — Se nós acharmos alguém — Anna disse — ela poderá ver um dos corpos? — Nós podemos arranjar isso. — disse Leslie. 94


— Certo, então, vamos ligar para o Alfa local e ver se ele tem uma bruxa que cooperará conosco. Charles discou e deu a Anna seu telefone. — Ele gosta mais de você. Você pergunta a ele. — Ele tem medo de mim. — Anna disse, sentindo-se um pouco envaidecida. — É Owens. — Isaac, é Anna. Nós precisamos de uma bruxa.

OS AGENTES DO FBI partiram para organizar a entrevista com a bruxa, que não estaria disponível até as dez de manhã. Beauclaire disse a eles que iria ver se podia encontrar qualquer um que pudesse saber se o lorde cornudo que morreu em 1981 deixou quaisquer crianças meio-sangue para trás. Anna esperou até que Charles fechou a porta. — O que você vê no espelho? — ela perguntou. Ele fechou seus olhos e não se virou para ela. — Charles? — Existem coisas.. — ele disse devagar — Que melhoram quando são desabafadas. Existem outras coisas que se fortalecem mais quando se fala delas. Estas são da segunda variedade. Ela pensou sobre aquilo por um momento e então foi até ele. Os músculos de suas costas estavam apertados quando Anna os tocou com as pontas dos dedos. — Não parece que manter-se mudo sobre o que quer que seja esteja ajudando tampouco. — ela respondeu lentamente... sobre quais tipos de coisas ele não gostava de falar? Más, ela lembrou. — É como uma coisa de Harry Potter? Ele girou a cabeça então. — Uma o quê? — Uma coisa de Harry Potter — ela disse novamente. — Sabe, não diga o nome de Voldemort porque pode atrair a atenção dele? Ele considerou. — Você quer dizer o livro de crianças. — Eu tenho que fazer você assistir mais filmes... — ela respondeu — Você apreciaria esse. Sim, eu quero dizer o livro de crianças. Charles sacudiu sua cabeça. — Não é bem assim. Reparar em algumas coisas as torna mais reais. Eles já são reais para mim. Se você as notar, poderiam ficar reais para você também, e isso não seria bom. 95


De repente ela soube. Charles disse a ela uma vez que não falava o nome de sua mãe por medo de amarrá-la a este mundo e não deixá-la seguir para o próximo. Fantasmas, ele contou, precisam ser pranteados e então libertados. Se você os mantém contigo, eles ficam infelizes e corrompidos. — Fantasmas. — ela disse, e ele segurou o fôlego e andou para longe dela, mais para perto da janela. — Não. — ele falou bruscamente. Ela teria discutido se não se lembrasse de que quando ele fechou o vínculo de ambos foi porque estava preocupado com ela. — Tudo bem. — ela disse devagar. — Você se sente melhor do que antes de nós virmos para cá. Certo? — se ele estivesse melhorando, era porque estava conseguindo lidar com aquilo. Ele teve que pensar a respeito antes de responder — Sim. Não está bom, mas está melhor. Ela abraçou-o pela cintura, pelas costas, e suspirou contra ele. — Eu vou deixar pra lá se você me prometer uma coisa. — O que é? — Se começar a ficar pior de novo, você me dirá; e você dirá a Bran. — Eu posso fazer isto. — Tudo bem. — Ela passou as mãos nas costas da camisa dele, como se estivesse limpando alguns fiapos de tecido ou outra coisa, e não como se suas mãos estivessem famintas pelo calor da pele dele. — Dormir ou tomar café? — Ela perguntou vividamente. — Nós temos duas horas antes do FBI vir e nos levar para o necrotério.

O PEQUENO CORPO NA MESA, coberto com um lençol, cheirava a carne podre, sal e peixe. Nenhum dos quais conseguia sobrepor-se completamente ao cheiro prolongado do terror. Pelo tamanho do cadáver, Anna pensou que ele poderia ter tido sete ou oito anos. Anna foi transformada por estupros, tanto físico quanto psicológico. Ela serviu três anos em um clã liderado por uma mulher louca, e durante esse tempo a morte se tornou algo para se esperar ansiosamente, um fim para a dor. Charles mudou tudo isso — e Anna apreciava a ironia de que o Lobo Assassino do Marrok, sem dúvida o mais temido no mundo, a manteve segura e a fez querer viver. Ironia à parte, Anna conhecia a morte. O necrotério cheirava a isto, como também a uma dose saudável de antisséptico, luvas de látex e fluidos corporais. Quando eles entraram na pequena sala de visualização, o cheiro de um menino pequeno se adicionou à mistura, um menino que certamente deveria estar lá fora brincando com seus amigos e, ao invés disso, sustentava os sinais inconfundíveis da autópsia. 96


Ao lado dela, Irmão Lobo rosnou, o som tão baixo que ela achou que nenhum dos humanos ouviu. Ele veio como lobo — de novo. Anna cavou seus dedos na pele do pescoço dele e respirou duramente, tentando enfocar em algo além do pequeno corpo na mesa. Mesmo se preocupar com seu companheiro era melhor do que uma criança morta. Charles prometeu que a deixaria saber se ficasse pior — mas ele não reabriu o vínculo, nem mesmo o suficiente para poder conversar com ela enquanto estava na forma de lobo. — Sua família ia buscá-lo hoje. — disse o homem que os deixou entrar. Ele estava vestindo um uniforme limpo e novo; ou ele estava só começando o dia, ou ele se trocou por causa deles. — Quando eu expliquei que um homem lobo se ofereceu para procurar pistas que nós não podíamos encontrar, não foi difícil persuadi-los a deixá-lo aqui até amanhã. — Você não disse aos pais dele que estavam me trazendo, também? — disse a bruxa, que parecia como se viesse diretamente de um seriado dos anos 1970: de meia-idade, um pouco atarracada, um pouco amarrotada, o cabelo num inverossímil tom vermelho e roupas que não se ajustavam bem. — O homem lobo é incidental e, eu poderia adicionar, implorou para a bruxa vir; e você não pensou em mencionar a mim? — A ameaça de morte em sua voz fez um bom trabalho extraindo qualquer ar de comédia, entretanto, Anna não pôde evitar pensar na Bela Adormecida e a fae do mal, que se ofendeu porque não ter sido convidada. Anna não gostava de bruxas em geral. Elas cheiravam à dor das outras pessoas e gostavam de causar problemas. Mas, ainda que esta aqui não fosse uma bruxa, ela duvidava que teria gostado dela. — Dr. Fuller — Anna perdeu a introdução de Leslie do contato deles no necrotério enquanto absorvia os cheiros do lugar, mas ele usava um crachá com seu nome — Ele vem de uma família batista convicta. Homens lobo já devem ter sido um grande esforço para eles. Eu acho que eles não teriam conseguido lidar muito bem com a ideia de uma bruxa. A bruxa sorriu. — Provavelmente não. — ela concordou alegremente, como se não houvesse se ofendido um momento atrás. Isaac advertiu Anna de que sua bruxa escolhida era um pouco instável. Ele também disse a ela que a bruxa não era toda tão poderosa, então o dano que ela poderia fazer era mínimo. Ele tinha outra bruxa que trabalhava em certas ocasiões para seu clã, mas era reservada e muito mais perigosa. A bruxa aqui agora, Caitlin (sobrenome não informado), diria a eles tudo o que descobrisse só para provar o quanto ela sabia. Já a outra manteria para si mesma, para uso posterior ou apenas para se divertir, o que não faria nenhum bem a Lizzie. — Diga-lhes que apreciamos sua cooperação. — disse Heuter, o agente mais jovem da Cantrip, que apareceu enquanto eles aguardavam pela bruxa na frente do edifício onde o necrotério da cidade ficava. Ele alegou que alguém lhe contou que eles iriam vistoriar o corpo, mas pela atitude de Leslie (educada, mas distante) não fora ela. 97


Goldstein fora chamado para discutir o caso com alguém no Departamento de Polícia de Boston, então a adição de Hélter formou um grupo de cinco. Houvesse mais deles, teriam que deixar a porta da pequena sala aberta. O Dr. Fuller descobriu o lençol. — Jacob Mott, oito anos. Água em seus pulmões diz que ele se afogou. Corredores o encontraram jogado na praia, em Castle Island, de manhã cedo. Seus pais nos disseram que ele não tinha as orelhas furadas, então o assassino deve ter perfurado as duas. Contudo, apenas a orelha esquerda foi etiquetada. A etiqueta está com as evidências. Anna deixou as palavras entrarem por uma orelha e saírem pela outra. Elas eram insignificantes perto do pequeno corpo deitado diante deles. Além disso, Charles se lembraria de cada palavra — e ela não queria lembrar. Jacob tinha estado na água e os peixes o mordiscaram, mas ele não teria se importado então. Comparado ao que foi feito a este menino, os peixes eram só uma nota de rodapé. Morte não tinha nada mais para ensinar a Anna, mas morrer… morrer podia ser tão difícil. A morte de Jacob foi muito difícil. A bruxa se aproximou e tocou o corpo com uma luxúria que Anna podia cheirar mesmo com seu nariz humano. — Ooh... — ela murmurou, e a recitação clínica do médico falhou numa pausa. — Você não foi uma bela refeição para alguém, criança? — ela inclinou seu rosto para o tórax do menino, e Anna quis agarrá-la e rasgá-la. Ao invés disso, cruzou seus braços. Não era útil censurar a bruxa antes de conseguirem o que precisavam dela. Jacob foi analisado cuidadosamente pela bruxa. — Alguém foi uma menina malcriada... — a bruxa disse para si mesma quando seus dedos localizaram uma série de símbolos cortados na coxa do menino. Ela puxou seu rosto para longe e começou a murmurar “é um mundo pequeno” enquanto seus dedos continuavam a percorrer as marcas no corpo. — Seguramente existe mais nas costas. — ela disse, olhando para o médico. Ele assentiu em silêncio e ela levantou e rolou o corpo de Jacob. Ela era forte, por mais que parecesse boba e atarracada, porque não teve que fazer algum esforço em particular. Corpos mortos eram, principalmente, mais difíceis de moverem do que os vivos. Mais nas costas, a bruxa disse, e tinha mesmo. Mais símbolos e mais marcas de abuso. Anna respirou fundo. — Antes da morte — disse ela de modo feliz. — Todo foi feito antes da morte. Alguém colheu sua dor e seu fim, não foi pequeno? Mas eles foram desleixados, desleixados com isso. Não profissionais, absolutamente. — Suas mãos acariciaram o menino morto. — Eu reconheço isto. Sally Reilly má. Ela não era uma bruxa muito talentosa, não é? Mas ela escreveu um livro e foi na televisão e escreveu mais livros e ficou famosa. Bonita, bonita Sally, vendeu seus serviços e então... poof, ela se foi. Assim como deveria ser com qualquer bruxa ruim que quebra as regras.

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— Sally Reilly esculpiu estes símbolos? — perguntou a Agente Fisher, sua voz só um pouco afiada. — Sally Reilly está morta. Está morta há vinte anos ou mais, porque ela deu às pessoas mundanas um caminho para fazer isto. — Caitlin se curvou e lambeu a pele do menino morto, e Heuter engoliu e seco. — Mas eles a fizeram errado e não conseguiram tudo, não é? Eles deixaram toda essa mágica adorável para trás em vez de comê-la. — Precioso... — murmurou Anna. A bruxa sacudiu sua cabeça. — O que você disse? — Você esqueceu o “meu precioso” — Anna disse secamente. — Se quiser agir como uma esquisita ensandecida, você tem que fazer direito. A bruxa baixou seus cílios, tremulou as mãos para Anna e disse que algo que soou quase como um espirro. Irmão Lobo colocou Anna de lado, flexionou-se um pouco, como se estivesse absorvendo um golpe, e então pulou sobre a mesa, empurrando a bruxa para longe do corpo de Jacob Mott e sobre o chão. Limpo e preciso como um gato, ele fez aquilo sem tocar Jacob absolutamente, no entanto, mandou Heuter e o médico alguns passos para trás. Anna correu em torno da mesa para que pudesse ver o que estava acontecendo, e viu Irmão Lobo arreganhar suas presas de marfim para a bruxa—que imediatamente parou de lutar. — Charles tem uma avó que era bruxa e um avô que era um xamã, em lados opostos de sua linhagem. — Anna disse calmamente naquele silêncio. — Você está derrotada. Agora, por que não nos conta tudo o que sabe sobre as marcas? Um grunhido baixo saiu do peito de Irmão Lobo e ela adicionou — Antes dele pensar muito sobre o que quer que fosse que você pensou em fazer para mim. — Anna não estava certa se Irmão Lobo estava realmente jogando junto com ela ou se queria mesmo matar a bruxa, mas ela usou o que tinha. Embora o espaço fosse apertado na saleta, as outras pessoas presentes conseguiram se aglomerar juntas atrás de uma mesa entre eles e Irmão Lobo. Poderia ser que estivessem tentando fugir da bruxa. — Os símbolos inscritos destinam-se a aumentar o poder de quem é nomeado na cerimônia — a bruxa Caitlin disse, sua voz um pouco mais alta e apertada do que tinha sido. O suor gotejava sobre sua fronte e sobre seus olhos, e ela o piscou para longe. — Sabe... — Anna disse a ela. — Se você parar de o olhar fixamente nos olhos, não será tão provável que ele te coma. — A bruxa encarou Anna então, e Irmão Lobo aumentou o palmo de dentes que ele estava mostrando e o barulho ameaçador que estava fazendo. — Provavelmente. — Então os símbolos aumentarão o poder da bruxa? — Leslie inesperadamente perguntou. — Sim. 99


Irmão Lobo estalou seus dentes muito perto do nariz de Caitlin e a bruxa gritou, saltou, e lutou involuntariamente antes de forçar-se a afrouxar. — Homens lobo — Anna falou com suavidade — podem cheirar mentiras e meias-verdades, bruxa. Eu teria muito cuidado com o que você disser em seguida. Agora, responda a pergunta da Agente Fisher, por favor. Os símbolos aumentarão o poder da bruxa? Caitlin acreditou, sua respiração ofegava. — Sim, as habilidades mágicas de qualquer um. Fae, bruxa, feiticeiro, mago, mágico. Qualquer coisa. Você pode armazená-la. Para usar mais tarde. Para dar poder a um feitiço ou alguma magia. — No que você pode armazená-la? — Anna perguntou. — Algo denso. Metal ou cristal. A maioria de nós usa algo que posa ser usado ou carregado facilmente. — Ela hesitou, olhou os grandes dentes de Irmão Lobo e complementou: — Mas não é isso o que aconteceu com este feitiço, especificamente. Isto está projetado para alimentar a magia de um fae. — Então esse menino foi marcado por uma bruxa. — Heuter disse. Caitlin bufou apesar de seu medo de Irmão Lobo e respondeu para Heuter como se ele tivesse feito uma pergunta, ao invés de uma afirmação. — Ela somente deseja que ser uma bruxa. — O que você quer dizer? — A voz de Leslie era fria, como se ela interrogasse bruxas que estavam achatadas de costas, sendo ameaçadas por homens lobo, todo dia. — Alguns dos símbolos estão mal feitos e um par deles são completos absurdos. — A voz da bruxa estava atada com desprezo. — Sally morreu no final dos anos oitenta. Talvez alguém os tenha copiado errado. Uma bruxa de verdade poderia sentir que eles estavam desligados e tê-los afinado na mesma hora. Então alguém está brincando de bruxa de faz-de-conta. — Caitlin falou como se a vida do menino fosse menos do que nada, que a pior coisa que a pessoa que marcou Jacob Mott fez fosse esculpir os símbolos errados. — Nos conte sobre Sally Reilly. — Anna sugeriu. — Se ela está morta, o que tem a ver com isso? A bruxa apertou a mandíbula. — Nós não falamos com estranhos sobre ela. Irmão Lobo deu a ela um pouco mais de presas para olhar. Ela prendeu o fôlego.

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— Se faz com que você se sinta melhor, — Anna murmurou — nós conhecemos algumas bruxas que nos dirão o que queremos saber. — Tudo bem. — Caitlin disse. — Sally Reilly arrumou um jeito de deixar as pessoas mundanas usarem nossos feitiços. Se alguém a pagasse o suficiente, ela os ensinava como escrever os símbolos. Ela lhes dava um amuleto que, se fosse usado enquanto eles trabalhavam a magia — normalmente só um feitiço específico — os faria atuar como se fossem uma bruxa real. Como tocar uma fita cassete ao invés de um violino, ela gostava de dizer. Faz muito tempo desde que foi morta, e a maioria das pessoas ou perderam os símbolos ou os amuletos que permitiam que usassem o feitiço. Esse aqui foi feito errado. Poderia ter sido desenhado desse jeito de propósito, mas Sally tinha a reputação de entregar o que disse que entregaria. Provavelmente eles pensaram que o tinham memorizado. Caitlin sorriu maliciosamente. — Os feitiços não gostam de pessoas erradas os usando; eles tendem a lutar contra quando podem. Talvez em um par de décadas tenha ficado errado o suficiente para que eles estejam cortando dentro de alguém e matando a todos eles. — Então ela olhou para Charles e endureceu. — Eu estou dizendo a verdade. — ela disse, soando um pouco histérica. — Eu estou dizendo a verdade. Músculos flexionaram nas costas de Irmão Lobo e Anna pensou que poderia ser uma boa ideia tirá-lo da bruxa antes de Caitlin realmente o incomodar — embora parte dela estivesse feliz em ver que ele estava envolvido na caça novamente. — Ela está cooperando, Charles. — Anna disse a ele. — A deixe levantar antes de você assustála até a morte. O homem lobo rosnou para Anna. — Realmente — ela disse, batendo de leve no nariz dele. — Já é o suficiente. Você não é um gato. Não brinque com algo que você não vai comer. — Não era com as palavras que ela esperava persuadi-lo; era com o toque tranquilizador. Irmão Lobo saiu quase delicadamente de cima da bruxa e viu com seus olhos amarelos como a mulher colocou-se desengonçadamente sobre os próprios pés. — Melhor? — Anna perguntou, e sem esperar uma resposta, continuou com outra pergunta. — Como você sabe que é “ela”? A pessoa que está tentando ser uma bruxa? Caitlin endireitou seu cabelo com as mãos trêmulas. — As bruxas bastante fortes para fazerem isso são mulheres. —Você acabou de dizer que quem pôs estes símbolos no menino não era uma bruxa. — Disse? Irmão Lobo rosnou. 101


— Eu realmente não o pressionaria muito mais. — Anna aconselhou. — Ele não está muito feliz com você agora mesmo. — Irmão Lobo deu a Anna um olhar divertido e então voltou a ser assustador. A bruxa bufou astutamente. Ela estendeu a mão para tocar no corpo de Jacob novamente e parou quando Irmão Lobo deu um passo para mais perto, seus olhos na mão dela. Ela a puxou de volta e respondeu a pergunta de Anna. — Qualquer um poderia ter desenhado isso e feito funcionar. Não existe nenhuma razão, além do hábito, assumir que foi uma mulher. Eu suponho que o estupro significa que foi provavelmente um homem, não é? — E funcionou, embora alguns dos símbolos estejam errados? — Foi Heuter quem perguntou. Anna tinha estado tão enfocada na bruxa e Irmão Lobo que quase se esqueceu dos outros na sala.. — Eu posso sentir que funcionou. — Caitlin disse. — Não tão bem quanto se os símbolos estivessem corretamente inscritos, mas sim, funcionou. — Quais símbolos estão errados? Como você os teria corrigido? — A voz de Heuter estava um pouco ávida demais. Caitlin deu a ele um olhar frio. Ela fazia as vezes de dona-de-casa suburbana psicótica tão bem quanto Anna nunca tinha visto — Eu não estou aqui para instruir o FBI em bruxaria. Leslie limpou a garganta. — Eu sou a Agente Especial Fisher do FBI. Ele é o Agente Heuter da Cantrip. — Cantrip. — Caitlin bufou desdenhosamente. Ela tirou um cartão de sua bolsa e o deu para ele — Se você tiver perguntas, pode me ligar neste número. Mas eu não sou Sally Reilly, Agente Heuter. Eu não pretendo desaparecer, então provavelmente não te ajudarei em absoluto. E eu lhe cobrarei muito para não fazê-lo. Irmão Lobo espirrou, mas Anna não estava perto de rir porque a bruxa estava andando na direção do corpo do menino de novo. — Existe qualquer outra coisa que nós devíamos saber sobre isso? — perguntou Anna. Caitlin olhou para a mesa. — O sexo não é parte da cerimônia. — Ela apertou os lábios. — Eu não sei se é útil. — O assassino mantém as vítimas vivas durante algum tempo. — Leslie disse. — Sete dias, normalmente. Às vezes alguns a mais ou a menos. Isso é importante? Caitlin franziu o cenho — Isto é provavelmente o porquê de a magia ter funcionado, apesar de ter sido estragada. Ele corta os símbolos esculpidos e os deixa trabalhar... Como uma Crock-Pot31, sabe? Não pode cozinhar muito rápido em uma temperatura baixa, mas dê-lhe tempo o suficiente e o 31

Fogão elétrico que que cozinha numa temperatura baixa.

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trabalho estará feito. — Ela xingou. —Talvez o sexo seja porque ele estava chateado esperando. Se nós acabamos aqui, eu gostaria de ir. Eu tenho um compromisso em meia hora. Leslie deu a ela um cartão. — Se você pensar em qualquer coisa mais, por favor, me ligue. — Claro. — Caitlin disse. Então ela virou para Anna. — Eu vou dizer a Isaac o que seu lobo fez para mim. — Ela sorriu maliciosamente. — Ele não vai estar contente com vocês. — Diga a ele que eu lhe pagarei um jantar no The Irish Wolfhound para compensar a ofensa. — Anna sugeriu, segurando a porta aberta. Caitlin pareceu desapontada pela falta de reação de Anna. — Ele é o Alfa do clã de Olde Towne e ele me deve. Você sentirá muito. — Você vai se atrasar para seu compromisso não se apressar. — Anna disse a ela. A bruxa franziu as sobrancelhas, girou em seu salto alto, e marchou porta a fora. Antes de ela estar longe da vista, o Dr. Fuller já tinha voltado o corpo do menino sobre as costas e o coberto protetoramente. — Que… — Ele esbravejou um pouco, tentando manter sua voz baixa. — Existem razões por que nós não gostamos muito de bruxas. — Anna disse, quando teve certeza de que Caitlin estava bem longe para ouvi-los — Eu sei que é triste. Mas o assassino de Jacob tem outra vítima agora mesmo. Ela provavelmente está viva. E algo que a bruxa contou poderia nos ajudar a encontrar Lizzie Beauclaire. Ela acha que as bruxas mataram Sally Reilly. Anna olhou para Irmão Lobo. Sua ligação de acasalamento estava ainda tão congelada quanto um Popsicle32 na Antártica, mas era a voz dele em sua cabeça. — Você não pensa assim. — ela disse. Os olhos de xamã a olharam, os olhos de Charles, então ele os fechou e se agitou, como se tentando escorrer a água depois de um mergulho num lago. Eu acho que ela deu um feitiço para um assassino que não queria que ela abrisse o bico. As bruxas não foram as únicas a querê-la morta. — Anna? — perguntou Leslie. — O que ele está dizendo para você? — Nada que nós possamos provar agora. — Anna respondeu — Contudo, poderia ser interessante ver se Sally Reilly desapareceu em um dos anos em que todos os corpos não foram encontrados. — Nós não sabemos nada sobre Sally Reilly. — Leslie lembrou a ela. — E muito menos que ela tenha desaparecido.

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Marca americana de picolés.

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— Bruxaria e faes no mesmo caso... — disse Heuter, soando fascinado e um pouco excitado. Na saleta de exame, com um menininho morto na mesa, Anna achou sua excitação desagradável. CAPÍTULO 7  — Eu não acho que Fuller vai permitir mais bruxas dentro do seu necrotério num futuro próximo. — disse Heuter, enquanto mordia um pedaço de bife meio cru. — Foi a coisa mais arrepiante que já eu vi. — disse Leslie, que estava comendo sua salada e não olhando para Heuter. Anna não podia decidir se ela era vegetariana ou se só não gostava de assistir a alguém comendo carne crua. Talvez a visita ao necrotério tivesse algo a ver com isto. — A bruxa ou o bife sangrento de Heuter? — perguntou Anna, dando a primeira mordida em seu cheeseburger e decidindo que aprovava. Ela pediu seis cheeseburgers em dois pratos, todos no ponto. Sim, ela preferia mal passado, embora antes de ser transformada gostasse de muito bem passado. Mas ela não comia carne crua na frente de estranhos. — Os hábitos alimentares de Heuter são bastante arrepiantes. — Leslie disse. — Mas eu estava falando sobre a bruxa. Pelo menos ela nos disse algumas coisas que nós não sabíamos. Depois que eles deixaram o necrotério, Leslie ligou para Goldstein com uma atualização. Do que Anna pode dizer, ele ficou bastante animado, pois sua voz acelerou por uma palavra ou duas. Quando ela terminou, Heuter recomendou um restaurante com boa comida e mesas ao ar livre onde eles poderiam conversar sem ter de comentar a confusão com Irmão Lobo. As sobrancelhas do garçom subiram quando Anna pediu tanta comida. Ele protestou quando ela pôs o prato com quatro hambúrgueres abaixo para Irmão Lobo, mas se calou quando Leslie apresentou seu distintivo e disse, com um aceno da cabeça: — Homem lobo. Houve uma rápida mudança no pessoal de serviço, e a nova garçonete perguntou se ela podia trazer para Irmão Lobo uma tigela da água (sim) — ou se ele gostaria de qualquer outra coisa para beber (não). Anna imaginou que a garçonete tinha acabado de ganhar uma gorjeta muito grande. Pelo sorriso no rosto da garçonete, ela estava pensando a mesma coisa. — Foi diversão perversa quando você colocou a bruxa no devido lugar. — Leslie disse a ela. — Até então eu não tinha percebido que ela só estava tentando nos assustar. —Humm — respondeu Anna, dando uma mordida, ganhando tempo para pensar.

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Irmão Lobo olhado para cima e enfocou em Anna. Certo, ela estava aqui para dividir informações. Poderia também fazer seu trabalho. — Ela não estava tentando assustar vocês. — Anna disse a eles. — Isaac nos disse que ela não era muito poderosa. Ela não tinha o controle para manter as aparências na presença da magia de morte no corpo do menino. Eu estava tentando distraí-la, fazê-la concentrar-se em mim, então ela nos diria algo ao invés de fazer algo estúpido que faria com que ela fosse baleada. — Baleada? — Heuter perguntou. Anna sorriu para ele. — Armas são bastante fáceis de cheirar. Você devia tratar de mudar o coldre que está abaixo nas suas costas para uma posição mais acima. Como está, é preciso se estender muito para alcançar a arma; você leva muito tempo. Tente um coldre de ombro ou comece a praticar mais. — o pão tinha sido tostado em manteiga de verdade e a carne grelhada no carvão. Anna comeu algumas batatas-fritas para adiar o início do segundo hambúrguer. — E você precisa esperar até ter certeza de que vai sacá-la antes de alcançar a arma — concordou Leslie. Ela sorriu para Anna. — A Cantrip não exige o mesmo treinamento com armas que nós temos em Quântico. Algo frio surgiu pelo rosto de Heuter antes dele retomar sua aparência branda. — Certo. Tem havido uma conversa sobre mudar isso. Eu receio que a maioria dos tiros que dei foi com um rifle. Meus pais são do Texas e nós temos um lugar ao norte do estado de Nova Iorque onde nós caçamos todos os anos; caçar é um ritual da família. Mas aquela bruxa… — Arrepiante... — disse Leslie, concordando com a cabeça. — Eu queria que ela estivesse fingindo. Algum de vocês reconhece o nome que ela nos deu? Sally Reilly? Anna sacudiu sua cabeça. — Não, mas eu acho que Charles reconhece. Conversaremos quando ele mudar de volta e te informo. Leslie franziu a testa e começou a falar algo, então olhou para Heuter e, ao invés disso, encheu sua boca com salada. — De acordo com a Wiki — disse Heuter, lendo de seu telefone — em 1967, Sally Reilly escreveu um livro chamado Meu Pequeno Livro Cinza de História. — ele ergueu o olhar e sorriu. — Foi um trocadilho com a série Meu Pequeno Livro Vermelho de História utilizada nas escolas primárias. Meu Pequeno Livro Cinza de História foi uma sensação no meio underground, e quando o segundo livro, Instruções de uma Bruxa, chegou às prateleiras três anos depois, alcançou a lista de best-seller do The New York Times. Sally Reilly era bonita, escandalosa e engraçada e se tornou uma celebridade instantânea, por um curto tempo. Os livros eram menos do tipo “como fazer” do que “aqui está minha vida de bruxa”. Ela apareceu em alguns talk shows, inclusive no The Mike Douglas Show, onde ela endireitou algumas colheres dobradas por Uri Geller sem tocá-las, um dia depois que o famoso psíquico israelita apareceu. — Bruxas não podem endireitar colheres. — disse Anna involuntariamente. Bruxas faziam coisas com tecidos vivos ou uma vez vivos: sangue, corpos e coisas do gênero. 105


Heuter virou seu telefone para ela. — Está na Wiki. — Eu nunca ouvi sobre ela. — disse Leslie. — Eu sei sobre Uri e sua colher dobrada. Algo aconteceu com ela? A bruxa parecia bastante certa de que ela está morta, e Charles, de acordo com Anna, acha que ela foi uma vítima de nosso serial killer. Que a Wiki diz? — A Wiki não diz — disse Heuter. — Espere. — Meu pai fala sobre os anos sessenta e setenta como um apogeu do pensamento New Age 33 antes de haverem adeptos da tese New Age. — Anna disse. — Muito amor livre e Wicca e pensamento mágico. Heuter, ainda procurando na Internet, assentiu. — A era vitoriana foi a única que se aproximou disso. Tabuleiros ouija, sessões espíritas, jogos que testavam se as pessoas podiam ler mentes. Então, porque todo mundo estava fazendo isso, isso se… se tornou menos misterioso, menos obscuro, e mais… ridículo. Interesses mudaram. — Então talvez nossa Sally Reilly simplesmente tenha desaparecido da vista do público quando o mundo deu um bocejo. — sugeriu Leslie. — Isso vai ajudar nossa menina desaparecida? Heuter não respondeu sua pergunta. — Existem rumores de um terceiro livro que ela escreveu e imprimiu somente algumas cópias: Magia Elementar. Quando eu voltar para o escritório, vou verificar nossos arquivos e ver se o temos na biblioteca. Eu também devo poder descobrir o que aconteceu com ela ou se ela ainda está por aí. — A bruxa pareceu muito certa de que ela estava morta. — disse Anna. Caitlin não tinha mentido. Heuter bufou e uma carranca arruinou seu rosto bonito. — Aquela bruxa estava… bem, eu não confiaria nela para saber que direção seguir. — Ela nos deu Sally Reilly. — Anna assinalou. — Que foi mais do que nós conseguimos tirar de quaisquer outras bruxas consultadas pelo FBI sobre o caso. — concordou Leslie. Anna terminou seu último cheeseburger e pegou o prato vazio de Irmão Lobo, empilhando-os juntos na mesa. Ela tentou pensar em algum jeito para que ela e Charles pudessem ser de mais ajuda. — Talvez se nós formos para onde o corpo de Jacob foi encontrado, poderíamos encontrar alguma outra coisa. — ela disse devagar. — Ele foi a última vítima antes de Lizzie?

Conhecido no Brasil como Nova Era, é um movimento espiritual ocidental não religioso que se desenvolveu na última metade do século XX. Seu preceito principal gira em torno de “ligar as duas tradições ocidentais e orientais, espirituais e metafísicas e, em seguida, difundi-las com influências de autoajuda e psicologia motivacional, cura holística, parapsicologia, pesquisa de consciência e física quântica”. 33

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— Sim. — Leslie disse. — Ele era fae ou homem lobo, você sabe dizer? O Dr. Fuller disse que os pais dele eram batistas. O que não combina com toda a coisa sobrenatural. Anna piscou por um momento. Ela não tinha pensado nisso.. Por que o assassino deles voltou a matar humanos? — Fae. — disse Heuter. — Seu pai, Ian Mott, está listado no banco de dados fae na Cantrip como puro-sangue e Jacob está claramente listado como meio-sangue. Eu pesquisei a lista de vítimas depois que nós conversamos ontem. O banco de dados da Cantrip é muito mais extenso que o oficial. — É? — perguntou Anna; então ela tomou um rápido gole de água para disfarçar qualquer expressão que pudesse estar mostrando. Se Jacob Mott fosse qualquer tipo sobrenatural, ela comeria seu chapéu. Ele não cheirava a fae; e até mestiços cheiravam como fae. Não era interessante que ele estivesse listado dessa forma no banco de dados da Cantrip? Talvez o assassino estivesse encontrando suas vítimas no mesmo local. Mesmo assim, o fae que sequestrou Lizzie não deveria poder dizer que Jacob Mott não era fae? Ela realmente não sabia se um fae podia saber se outro estivesse por perto, entretanto ela suspeitava sim. Charles estava observando Heuter com um súbito interesse. Como ela podia falar que era Charles e não Irmão Lobo… era como uma mãe de gêmeos, que sabe quem é quem: era menos sobre os pequenos detalhes e mais sobre o instinto. Heuter olhou para Anna como se tivesse esquecido que ela estava lá. — Oops... Suponho que você não possa esquecer isso. — Não quer seu arquivo cheio de papelada com requerimentos de pessoas que querem saber se estão naquele banco de dados? — Leslie perguntou. — Um dos pequenos benefícios de se trabalhar com a Cantrip ou com outra das pequenas agências do governo é que ninguém nunca apresentou a elas o Ato de Liberdade de Informação. — Você ficaria surpresa. — disse Heuter em uma voz muito próxima de um lamento. — As pessoas que usam o FOIA34 fazem isto intensamente e bem. Responder a essas solicitações é o trabalho que dado aos novatos; e isso inclui filhos de senadores importantes, como o meu também. — ele sorriu, mostrando que não pensava que aquilo o fazia mais merecedor de privilégios que o resto dos novatos. — Mas nem mesmo todo o poder poderia me manter lá por mais tempo. Coletar informações sobre homens lobo desconhecidos é muito mais interessante. — Ele olhou para Anna. — Anna Latham, de Chicago, prodígio musical. Deixou a Northwestern University a dois anos de colar grau; para grande pesar do codiretor de Estudos Musicais, com quem eu conversei esta manhã, porque ele achava que você se tornaria o próximo “Yo-Yo Ma”. Ninguém parece ter ouvido sobre você desde então, com exceção de seu pai, que foi bastante curto na conversa. — Meu pai é um advogado. — Anna meio explicou e meio se desculpou. — Ele não diria nada sem muito mais informações fluindo para o lado dele. E, provavelmente, só com uma ordem judicial, embora eu não contasse com isso. 34

Freedom of Information Act, ou seja, Ato de Liberdade de Informação

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— Ele não me diria o nome do seu marido ou onde você vive agora; e o IRS35 não é nada cooperativo. — Eles não deveriam ser? — Anna perguntou. — Meu marido e eu viemos aqui para ajudar; nós não viemos aqui para nos tornarmos nomes listados em seu banco de dados, embora soubéssemos que você provavelmente descobriria quem eu era. Ele achou que havia tirado um coelho da cartola com suas revelações sobre a identidade verdadeira de Anna. Ela deveria tê-lo deixado continuar a cumprimentar a si mesmo, e sabia disso. Heuter era uma daquelas pessoas que gostavam de ser mais espertas que os demais. Ele estaria mais feliz se ela estivesse brava ou preocupada por ele ter descoberto quem ela era. Mas ele estava só um pouco satisfeito demais consigo mesmo para Anna estar disposta a favorecê-lo. — Onde vocês estão ficando enquanto estão em Boston? — Heuter perguntou. — Por que você está preocupado com isto? — retrucou Anna. Leslie, que sabia onde ela e Charles estavam ficando, estava fazendo constantes incursões nos últimos bocados de sua salada. — Eu prometo que nenhum de nós vai perder as estribeiras e sair matando pessoas. Heuter tamborilou levemente os dedos na mesa. — Eu fui criado para serviço. — ele disse. — É uma tradição de família. Eu acredito neste país. Eu acredito que inocentes precisam ser protegidos. Eu acredito que é minha missão ter certeza de que todos estão protegidos de pessoas como você. A voz de Heuter estava fria e controlada, mesmo quando falou a última parte. Se Leslie não tivesse contido a respiração, Anna pensaria que tinha ouvido errado. Ao lado dela, Irmão Lobo endureceu, então ela se puxou para mais perto. — Isto é engraçado. — Anna disse. — Eu pensava que terroristas e assassinos fossem mais problemáticos do que eu. — como uma resposta, era fraco, mas ela estava mais preocupada sobre as balas de prata com que todos os agentes da Cantrip carregavam suas armas. A arma que Heuter quase sacou no necrotério. Ela não podia realmente lembrar agora quando, exatamente, ele tentou fazer isto. Ele foi tão lento e desajeitado que não conseguiu puxar a arma do coldre antes de Irmão Lobo derrubar e conter Caitlin no chão. Heuter tinha ido pela arma antes de Irmão Lobo saltar, de forma que pudesse mirar na bruxa? Ou ele tinha sido muito lento e quando ele chegou ao coldre, já era óbvio que Irmão Lobo não iria machucar a bruxa? Se ele tivesse atirado no necrotério, poderia ter matado Charles. Sua mão estendeu e tocou seu companheiro, para se reassegurar de que ele estava bem. — Heuter — disse Leslie claramente — Isso foi desnecessário.

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Internal Revenue Service; seria como a Receita Federal no Brasil.

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Ele deu à agente do FBI um sorriso apertado e pôs algum dinheiro na mesa. — Eu estou sendo esperado no escritório. Deixarei vocês para sua tarde de explorações infrutíferas. Leslie esperou até que ele tivesse ido e então sacudiu sua cabeça. — Turistas. — ela disse. — Turistas? — perguntou Anna. — É como meu chefe chama os agentes da Cantrip. — Leslie tomou um gole de seu chá gelado. — Exatamente quando você começa a achar que eles são mesmo profissionais, eles se saem com alguma façanha estranha como essa. — Ela olhou para Anna pensativamente — Eu não vou soprar arco-íris e rostos felizes para você e dizer que não existem pessoas preocupadas sobre os homens lobo e os faes. Nós provavelmente temos alguns agentes no FBI que estão bastante assustados por vocês ou por pessoas como Beauclaire. Mas pelo menos eles são profissionais o suficiente para não ir macaqueando em cima de você quando tudo que você está tentando fazer é nos ajudar a pegar um grotesco serial killer.

ELES PEGARAM UM táxi para Castle Island, onde o corpo de Jacob foi lançado à praia, deixando carro de Leslie na garagem do estacionamento próximo ao necrotério. Certamente teriam vagas para estacionar em Castle Island, mas era o meio do verão e Leslie não gostava de desperdiçar tempo tentando achar um lugar desocupado. As dúvidas de Anna sobre andar de táxi com Irmão Lobo mostraram-se infundadas. O motorista tinha um grande vira-lata em casa, ele contou que era um dinamarquês grande cruzado com um dinossauro. Uma vez que descobriu que Anna nunca tinha estado em Boston antes, ele deu a ela um completo relato sobre a ilha, que realmente não era uma ilha desde os anos 1930. Suas histórias incluíam um conto fantasmagórico de um prisioneiro fugitivo que de alguma maneira tornou-se uma assombração e o que inspirou Edgar Allan Poe a escrever “O Barril de Amontillado”, quando prestava serviço militar no forte. — Sinistro. — Anna disse a ele quando saíram do carro e deu-lhe uma gorjeta. Ele riu e deu-lhe um “high five36”. — Pirado, sinistro mesmo. Você será uma nativa num instante. — Não acredite. — Leslie disse a ela brincando. — Os nativos de Boston são aqueles que têm estado aqui desde a Revolução; todas as outras são intrusas, não importa o quão bem-vindas. A brisa do oceano vinha numa velocidade refrescante enquanto Leslie os liderava pela passagem de cimento paralela ao oceano, no lado portuário da ilha. Não estava lotado, não realmente — havia bastante lugar para estacionar — mas tinham várias pessoas lá, curtindo o sol. Os muros altos de blocos de granito do Fort Independence dominavam a paisagem, que era principalmente grama, com alguns arbustos e árvores de tamanho médio. 36

Gesto de bater a mão aberta na da outra pessoa, usualmente adotado para comemorar.

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— Jacob não esteve aqui por muito tempo antes de ser descoberto. — Leslie disse. — Não há muitos lugares para esconder um corpo por aqui e, como você pode ver, existem muitas pessoas passeando nessa época do ano. A brisa do porto mantém as temperaturas a um nível razoável e a pesca é, supostamente, muito boa. — Você acha que ele foi deixado no porto por um barco? — Essa é a teoria. Muita gente em volta para abandoná-lo sem ser visto, e o legista disse que o corpo esteve na água por pelo menos um dia inteiro. Jacob foi encontrado vários dias atrás. Eu suspeito que se havia alguma coisa que nós inicialmente perdemos, agora é muito tarde. — Provavelmente isso é inútil. — concordou Anna — Mas eu não estou certa do que mais podemos fazer agora que seja útil. Havia todos os tipos de pessoas por ali — correndo, levando o cachorro para passear, observando outras pessoas. O som de crianças gritando ao longe competia com o dos aviões no céu, através do porto e das aves marinhas. Eles passaram por uma mulher com um pequinês, fazendo o caminho contrário. Seu cachorrinho esticou sua corrente e começou a latir roucamente para Irmão Lobo. — Ele é perfeitamente amigável. — sua dona disse. — Agora fique quieto, Peter. — Para embaraço óbvio da mulher, o cachorro rosnou, se mantendo entre os homens lobo e sua dona em uma valente, mas equivocada tentativa de protegê-la, ainda quando já tinham passado uns pelos outros há muito tempo. — Peter. — disse Anna, sorrindo involuntariamente. — Peter e o Lobo37. — Essa reação é habitual? — Leslie perguntou. — A maioria dos cachorros têm dificuldades conosco a princípio. — Anna admitiu; e então sorriu. — Ele estava em todos os seus quatro quilos, hein? Bastante valentia dele, se você pensar a respeito. Depois que os insultos são trocados, normalmente fica tudo bem. Gatos... gatos não gostam de nós. E eles não se ajustam, nunca. — Ela sorriu para Leslie. — Simplesmente como os agentes da Cantrip, eu presumo. — Heuter é só um homem. — Leslie assinalou. — É severo julgar todos da Cantrip por um só homem. — Eu não sei sobre isso. — Anna disse — Quem mais se juntaria a uma agência como a Cantrip, exceto as pessoas que têm medo do escuro? — Pessoas que precisam de trabalho? — Leslie secamente sugeriu. — A Cantrip pega muitos dos graduados de Quântico que não conseguem entrar para o FBI. Como um trabalho, a Cantrip Peter and the Wolf é uma composição escrita por Sergei Prokofiev em 1936 na antiga URSS. É uma história para crianças contada por um narrador que é acompanhado por uma orquestra. 37

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demanda menos tempo do que o FBI ou a Segurança Nacional, e paga melhor do que a maioria dos departamentos de polícia. É menos perigoso, também, porque eles realmente não fazem nada além de coletar informações. — Não ainda. — Anna disse afavelmente. — Meu pai diz que governo não controlado é como uma bola de neve; você pode sempre contar que vai ficar maior e acumular mais poder. — Ela caminhou alguns passos. — Heuter ia atirar em alguém no necrotério. Se ele tivesse conseguido atirar antes de se tornar óbvio que Charles não ia machucar ninguém, ele teria atirado em Charles. Se você não estivesse lá, ele teria feito isto. Na hora, eu achei que ele iria mirar na bruxa, mas mudei de ideia. A Cantrip leva armas carregadas com balas de prata. — A minha também está — admitiu Leslie, soando embaraçada. — Bom para você. — respondeu Anna — Você nem sequer pensou em pegá-la, no entanto. — Eu não sei por que não. Eu realmente devia ter feito isso. — Charles fez o que você queria fazer. — Anna sugeriu. — Conseguiu tirar as mãos da bruxa daquele pobre menino. Ela estava se preparando para alimentar-se dele e Charles a impediu. — Alimentar? — Absorver os resíduos mágicos que os assassinos deixaram para trás. — Isso não soa apetitoso. Soa como necrofilia. — Ahã. — concordou Anna. — Mas você e eu não somos bruxas. Leslie desviou a vista para o porto por um momento, então sorriu. — Eu suponho que foi isso. Eu queria bater nela e seu Charles fez isso por mim. Havia um monumento à frente que se parecia com o Monumento de Washington em miniatura ou, desde que eles estavam em Boston, como o Monumento Bunker Hill. Era um alto e estreito retângulo, danificado pela maresia, que se erguia para o céu e terminava num ponto. No caminho do lado do oceano, estavam alguns cais com algumas pessoas pescando. — Ainda, Heuter… — Anna continuou — Você conhece as ideias do Senador Heuter sobre homens lobo, certo? Ele é um dos que propuseram aquela lei para nos incluir como uma espécie em extinção. Leslie franziu a testa. — Espécie em extinção?

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— Logo, não cidadãos. — Anna concluiu — Eu não suponho que seria de tanto interesse para você como é para nós, homens lobo. Ele também quer nos marcar com etiquetas de IDRF38, como se fôssemos animais de estimação que podem se perder. — IDRF? — Isso ainda não entrou em nenhum projeto de lei. — Anna disse. — Mas tem aparecido em alguns de seus discursos. — Isso não seria constitucional. — disse Leslie. — Seria, se nós fôssemos uma espécie em extinção — Anna olhou para Irmão Lobo. — Eu gostaria de ver alguém tentar pôr uma coleira de controle via rádio em Charles. Poderia ser divertido assistir no YouTube. Ele deu uma olhada para ela. Anna levantou a mão que não estava segurando a corrente. — Eu não estou dizendo que eu faria isto. Eu só pagaria para assistir alguém tentar. Leslie deu a ela um olhar pensativo. — Eu achei que vocês fossem incompatíveis quando os conheci. Mas vocês não são não é? — Não. — Anna concordou. — Eu sou a única que sabe quando ele está provocando. —Se você diz... — disse Leslie, divertida. Anna olhou em volta. — É aqui onde o Jacob foi encontrado? — Por aqui. Entre a calçada e o mar havia uma cerca tubular com dois corrimãos decorativos que a água salgada coloriu de verde e ferrugem. À frente, uma curta margem rochosa debruada com musgos marinhos dava lugar para um pouco de água e uma parede de vigas de madeira presas lado a lado, como soldados afastando as ondas da terra. Leslie apontou para uma pequena mancha de sujeira entre a parede do cais e as vigas de madeira. Jacob teria estado um pouco protegido do tempo. Anna se curvou um pouco mais perto do que o necessário e soltou a corrente de Charles, respirando o cheiro familiar dele para se confortar. Ele esperou até que ela se levantasse antes de pular sobre a cerca e descer até a faixa de terra abaixo. Anna não fez nenhuma tentativa de segui-lo.

Radio-frequency Identification (RFID), ou seja, Identificação por Radiofrequência (IDRF). É uma tecnologia que usa comunicação via ondas de rádio para colher informações entre um leitor e uma “etiqueta” eletrônica colocada em um animal, com o propósito de monitoramento. 38

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Leslie deu a ela uma olhada minuciosa — Ele pode cheirar melhor as coisas na forma de lobo do que você pode na humana? — Sim. Mas ele também é melhor nisto do que eu sou. — Anna não se sentiu nem um pouco defensiva sobre isto. Ele a ensinou muito, mas… — Ele tem muito mais experiência do que eu. Os cheiros não vêm com uma etiqueta, esse é o problema... Aqui está uma senhora com um cachorro; aqui está um oficial de polícia e aquele cheiro de leite pegajoso, doce e azedo é de um velho sorvete de casquinha de banana. Charles pode selecionar o que ele está cheirando melhor do que eu posso, e datálos também, no geral. Irmão Lobo avançou até o trecho isolado de sujeira que Leslie assinalou e então o rastreou na direção delas com seu nariz no chão. Um corredor os abordou e parou, ainda correndo no mesmo lugar. — Seu cachorro devia estar em uma corrente. — ele disse num polido tom de desaprovação — São as regras. Existem muitas crianças aqui e um cachorro grande assim poderia assustar alguém. — Homem lobo — disse Anna maliciosamente, só para ver o que ele faria. Ele parou de correr e olhou, de queixo caído — Merda. Você está brincando. — É um homem lobo. — afirmou Leslie. — É vermelho. Homens lobo não deveriam ser pretos ou cinzas? — Homens lobo podem ser de qualquer cor. — Anna contou-lhe. Ele se curvou, estirando suas pernas e respirando profundamente. — É bonito. Ei, aqui é onde eles encontraram aquele menininho, não é? Eu vi a polícia cercar esse lugar uns dias atrás. Vocês estão com a polícia? — FBI. — Leslie deu a ele um olhar sagaz — Você sempre corre aqui? — Quando eu estou de folga. — ele admitiu. — Eu sou bombeiro. Perdi a confusão, no entanto. — Você vê muitas coisas jogadas pela praia por aqui? — Sim, senhora. Muitas. Novas coisas todo dia, mas nós recolhemos tudo para manter o lugar bem e limpo. O único corpo de que soube foi o dele, mas eu só corro nessa área há uns dois anos. — Ele olhou fixamente para Charles, que felizmente não estava prestando nenhuma atenção. — FBI. Você tem isto para procurar pistas. — É ele — disse Anna, cansando-se do “isto”. O corredor não ficou desconcertado com a correção. — Ele trabalha para o FBI? 113


— Não. É estritamente voluntário. — Anna disse a ele. — Sinistro. — ele disse em aprovação — Espere até que eu diga aos caras que eu vi um homem lobo. Ele liga se eu tirar uma foto? — Nem um pouco — Anna disse a ele. Ele pegou o telefone de uma pochete e ficou tempo suficiente para tirar uma fotografia. — Legal. Os caras não vão acreditar nisso. — olhando para a foto, ele franziu o cenho — Eles dirão que eu tirei uma foto de um cachorro grande. — Charles... — Anna chamou. — Nós podemos ganhar um sorriso? Charles girou e deu a ela um olhar. — Relações públicas — ela sugeriu. Ele girou seus olhos dourados para o corredor e então soltou sua mandíbula em um sorriso lupino que exibiu as presas muito grandes para qualquer cachorro já nascido. O homem tragou. — Homem lobo. — ele sussurrou, e então, lembrando o que estava fazendo, tirou outra foto. — Obrigado, cara... lobo. Obrigado. Eles não rirão disto. — Ele olhou para Anna e Leslie e começou a correr no sentido oposto — Ei, boa sorte. Eu espero que vocês peguem o sujeito. — Nós esperamos também. — Leslie assegurou a ele. Ele girou para assisti-los mais um par de vezes, antes de acelerar e se afastar da ilha. — Fazendo um pouco de RP? — Leslie perguntou. — Não machuca — concordou Anna distraidamente. — É meio que o meu trabalho. — Ela esteve olhando para o corredor, que tinha acabado de cruzar com uma figura familiar. Goldstein a viu e acenou. — Eu mandei uma mensagem para o Agente Goldstein e disse a ele onde estaríamos — Leslie esclareceu. Anna assentiu. — Charles não parece estar encontrando nada. Eu suspeito que só desperdicei seu tempo. — Muito do meu trabalho é assim. Agente Goldstein foi até Anna — Achou alguma coisa? — Não. — Anna disse a ele. — Charles? 114


Charles voltou para cima e começou a se transformar, bem na frente deles. Bem na frente de qualquer um que calhasse parar e ver o que ele estava fazendo. Não era típico dele. — O que nós fazemos Sra. Smith? — Goldstein perguntou bastante calmamente. — Fique quieto e não toque, certo? Realmente machuca e tocá-lo só vai fazer piorar. Anna olhou ao redor, mas ninguém mais pareceu estar prestando atenção. Podia ser pura sorte ou podia ser algo que Charles estava provocando. — Lembre, por favor, não olhe nos olhos dele. — Houve um par de estalos musculares e Leslie estremeceu. — Sim. Isso machuca. — Anna concordou. — Isso é o porquê, se você estiver perto de um homem lobo recém-transformado; em qualquer direção, deve andar com cuidado durante um tempo. A dor deixa o melhor de nós bastante irritado. — Isto significa que ele descobriu algo? — Leslie perguntou. — Eu não sei. — Anna respondeu. — Ou isso ou ele decidiu que era um bom dia para causar um ataque cardíaco em algumas pessoas de Boston. — Não é tão ruim quanto no cinema. — disse Goldstein, soando filosófico — Não tem nenhum líquido ou substância gelatinosa, por um lado. — Credo. — disse Anna. — Entretanto, se você se mexer na hora errada, pode ficar sangrento. Leslie se virou e tragou. — Só brincando. — Anna disse. — Principalmente. — Ainda assim... — Goldstein continuou. — Eu posso ver por que ninguém concordou em mudar na frente das câmeras. — Toda aquela história de se transformar nu que a maioria de nós tem que fazer, também torna isso esquisito. — Anna disse. Não era fácil de assistir, mesmo para ela. Principalmente, era a empatia: você não tinha que ser um homem lobo para assistir articulações e ossos mudando e sentir a dor em sua própria carne, numa expressão de simpatia. E então existia a estranheza de ver coisas que deviam somente estar dentro de um corpo surgindo do lado de fora. — Você teria que ter um canal a cabo, tipo HBO. E nós estamos tentando fazer as pessoas se esquecerem de que somos monstros... Esta é uma lembrança desagradável. — Eu pensei que levasse mais tempo — Goldstein comentou quando Charles se tornou humano na maior parte.

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Leslie estava assustada, mas segurou a onda. Goldstein parecia como se estivesse pronto para dormir. — Para a maioria de nós leva. — ela concordou. — Os lobos alfa tendem a ser mais rápidos, e podem mudar mais frequentemente. Charles é mais rápido do que a maioria dos Alfas. Nós achamos que é pela mesma razão que ele pode usar roupas quando muda: ele tem usuários de magia de ambos os lados de sua ascendência. — eles não precisavam saber que Charles era o único homem lobo nascido. — Para um homem lobo misterioso, você está muito feliz em falar — observou Goldstein. — O desconhecido é assustador. — Anna disse a ele. — Minhas ordens foram para vir aqui, ajudar vocês o quanto possível, e tentar fazer os homens lobo parecerem bons, para o FBI e para o público. Como fazer isto é por minha conta. É difícil ser amigável com alguém que você acha assustador. — Seu marido é assustado; lobo ou humano. — disse Leslie. Anna assentiu. — Ele tem que ser. De qualquer maneira, Charles é um dos caras bons. Charles mudou completamente para a forma humana, e estava vestindo calça jeans, botas de cadarço de couro escuro e uma simples camisa cinza. Ele se levantou, olhos fechados e músculos tensos, enquanto passava pelas últimas câimbras debilitantes da mudança. Ele dobrou os dedos algumas vezes, então olhou diretamente para Anna. — Chame Isaac. Diga a ele que nós precisamos de um barco e de sua outra bruxa. — a voz dele estava grave. — Certo. Ele olhou para Leslie. — Chame seu médico legista. Veja se nós podemos conseguir um pouco do cabelo de Jacob. Pele funcionaria, mas cabelo seria mais fácil para o resto de nós. — Eu terei que dizer a ele o porquê. Charles levantou uma sobrancelha desafiadora. — Eu direi a você o porquê, e você pode inventar uma boa mentira. Um dos pequenos espíritos da água me disse que o menino foi tirado de uma ilha e jogado no porto. Ela tem certeza de que ele veio a morrer aqui, o que é útil para nós, mas eu acho que ela falou isso porque não quer a magia negra tardando-se em sua água. Esse tipo de magia pode atrair algumas coisas sórdidas. Ocorreume que se o corpo dele ainda tinha resíduos mágicos o suficiente para fazer com que Caitlin, a bruxa, ficasse toda animada, então o local da morte dele pode ainda ter o bastante para uma bruxa de verdade localizar, se ela tiver um pouco de Jacob para se orientar. — Espíritos da água? — disse Leslie, soando confusa. 116


— É sua herança xamã, não um talento de homem lobo. — Anna disse — Eu não posso vê-los tampouco. — Eu conheço o legista da minha temporada em Boston alguns anos atrás — disse Goldstein, depois de um momento de silêncio. — Eu conversarei com ele. Talvez faça um pouco de chantagem se precisar. E nós podemos conseguir um barco. Charles sacudiu a cabeça. — Nenhuma bruxa que eu conheço se arriscaria a morrer num barco oficial com o FBI. Terá que ser uma das pessoas de Isaac. — Eu ligo para Isaac, e então para Beauclaire. — disse Anna. — Se nós tivermos uma chance de encontrar sua filha, ele vai querer saber. — Bruxas e faes não se dão bem. — Charles a advertiu. — Se o destino de sua filha está nas mãos de uma bruxa, Beauclaire trará flores para ela e beijará seus pés. — Anna sentenciou com absoluta certeza — Além disso, se nós trombarmos com o tal lorde cornudo, não seria má ideia ter um grande fae malvado do nosso lado... E o modo que ele está soltando informações, sem se preocupar com isso, significa que ele é louco ou que ele é um fae realmente muito mau. Charles olhou para ela e inclinou a cabeça. — Eu confio em seu julgamento. Anna olhou para Leslie. — Mas vamos deixar a Cantrip fora, tudo bem? Nós teremos homens lobo, bruxas, e faes... Não precisamos de um homem hostil e assustado que provavelmente abateria tanto aliados quanto inimigos. — Além disso, Heuter é um babaca. — Leslie disse. — E não sei sobre você, mas eu não quero estar presa em um barco com ele. — Exatamente.

CHARLES NÃO GOSTAVA do mar. Ele gostava ainda menos de velejar e menosprezava o modo como o colete salva-vidas restringia seus movimentos. O Daciana, o barco de trinta pés no qual eles estavam saindo, poderia ter sido projetado para pesca oceânica em alto-mar, porém o console central de barcos como aquele nunca parecia como se realmente fosse grande o bastante para lidar com o clima marítimo. O barco mal era grande o suficiente para acomodar todos eles: Anna e ele, os dois agentes do FBI, Malcolm (o dono do barco), Isaac (que insistiu em vir), Beauclaire e a bruxa de Isaac (que estava atrasada). Se encontrassem Lizzie, poderiam ter que amarrá-la à proa ou fazê-la nadar. A única coisa que poderia piorar a situação era se o barco fosse pilotado por alguém que não fosse lobo — não era só a bruxa que teria recusado um barco policial ou federal. 117


— Charles — disse sua companheira, surgindo atrás dele na proa, onde estava sozinho e um pouco isolado do resto do pequeno barco. Malcolm e Isaac estavam murmurando sobre percursos e ocupados com os instrumentos embalados debaixo do convés superior, única área coberta do barco. Todos os outros escolheram esperar nas docas até que a bruxa chegasse. Ele ouviu Anna se aproximar, sentiu o leve balanço do barco. Tinha sido mais fácil estar com ela quando estava na forma de lobo. Irmão Lobo não estava despedaçado; ele sabia que eles poderiam protegê-la de qualquer coisa — mas seu lobo era assim: confiante. Charles não era tão otimista. A mácula dos fantasmas que ele carregava estava começando a consumi-lo. Um dia, em breve, Anna olharia em seus olhos e veria o mal dentro dele. Charles desejou que pudesse ter permanecido na forma de lobo, mas falar com Anna sem abrir o vínculo entre eles era muito difícil. E ele não podia abrir o vínculo por medo de que os fantasmas pudessem usá-lo para chegar até ela. Havia histórias sobre isso, sobre fantasmas que matavam as pessoas próximas ao homem que os carregava. Era mais fácil ser lobo do que humano, já que o mau neles não podia tocar Irmão Lobo. O lobo não sentia nenhuma culpa, porque culpa era uma emoção humana. Anna tocou seu ombro. Charles não se virou para sua companheira, porque não podia enfrentála enquanto estava pensando sobre o mau que levava em si. Em vez disso, ele examinou o lado estibordo da proa e desviou o olhar para a água, onde o sol estava se pondo em raias de azul-celeste, prata e um fraco dourado. — Estará escuro antes de nós sairmos do porto. Anna anuiu. — Eu sei que não é a hora, mas te olhar meditando aqui, me fez pensar que você, evidentemente, se esqueceu de algo e eu acho que seria melhor eu lembrá-lo. Eu deveria ter lembrado a você esta manhã. Ele se voltou para ela então. Como ele, Anna estava com o olhar perdido no espaço, seu ombro roçando o dele como as asas de uma borboleta. — O que é? — Você é meu. — Ela não olhou para ele, mas sua mão se fechou possessivamente sobre a dele no parapeito do barco. Sua voz estava suave e sem ênfase; nem mesmo as orelhas de homem lobo a teriam ouvido a três metros de distância — Seus fantasmas não podem ter você Charles. Então os exorcize antes que eu tenha que fazê-lo — a última frase foi uma ordem clara, afiada como um pedaço de gelo. Irmão Lobo grunhiu com satisfação. Ele gostava quando sua companheira ficava possessiva e afirmava seus direitos sobre ele. Assim como Charles. — Vá em frente e sorria — ela disse seriamente, mas seu corpo estava relaxado contra ele. — Mas mantenha isso em mente. Talvez não tenha que lutar sozinho todas as suas batalhas.

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— Eu me lembrarei de suas palavras — ele disse a ela com a mesma seriedade, no entanto imaginou Anna pegando o rolo de massas da sua avó para ir atrás dos fantasmas que o assombravam, e isso o fez querer… sorrir de novo. — Assim está melhor — ela disse a ele presunçosamente. — Sem mais meditação. E ela estava certa. O barco balançou um pouco quando Isaac e Malcolm se moveram de repente e houve um zing de expectativa no ar. — Já era sem tempo de chegar aqui, mulher — Isaac gritou com um tom de afeto verdadeiro. Surpreso, Charles olhou para ver uma mulher caminhando cais abaixo, até onde o barco estava aportado. Ela era mais alta do que a média, mais alta que Isaac, que saltou sobre o barco para descer o cais e saudá-la. Ele a beijou, inclinando-se para isso, se demorando. — Ele está dormindo com a bruxa sobre a qual disse que era muito desleal para ser confiável na coleta de informações do corpo de Jacob? — Disse Anna, decepcionada. Charles riu e a puxou para mais perto, colocando seu queixo no topo da cabeça dela. — Valente. — ele disse. — Mas ele se esqueceu da primeira regra do vestiário masculino. — Qual é? — Não enfie seu… — ele não precisava ser rude, então ele se corrigiu. — Não foda com loucas, não importa o quão bonitas sejam. Ela bufou. — Você não a conhece. — Eu conheço bruxas — ele disse. — Elas são todas loucas. — Que tal a Moira? Moira era a bruxa branca que estava na folha de pagamento do clã da Cidade Esmeralda. Anna a encontrou uns anos atrás e elas se tornaram amigas rapidamente. — Com exceção das cegas. — Charles permitiu. Eles observaram quando Isaac apresentou sua bruxa para os agentes do FBI como Hally Smith. Ela não era bonita, mas era impressionante envolta em tons escuros, o nariz longo, elegante, e uma boca larga, generosa. Isaac a ajudou a entrar no barco. Para Charles, ela fedeu a magia negra assim que se aproximou e ele se perguntou como Isaac aguentava. Moira, amiga de Anna, era uma bruxa branca. Ela geralmente 119


cheirava a ervas, especiarias e magias do dom dela. Hally emitia um cheiro forte de morte, sangue velho e fantasmas. A bruxa olhou para Charles como se pudesse ler sua mente, o que ele sabia malditamente bem que não podia. — Bem... — ela disse numa voz baixa e rouca. — Eu ouvi muito sobre você, Charles... Isaac fez um barulho com sua garganta e ela sorriu. — Charles Smith. Veja, nós até compartilhamos o sobrenome. Que encantador. — O sobrenome dela realmente é Smith. — Isaac contou a ele. — Conveniente. — disse Anna. — As pessoas pensarão que você está mentindo mesmo quando você não estiver. — Mas não vocês. — disse a bruxa, e Charles lutou contra o desejo de agarrar sua companheira e a pôr atrás dele, onde ele poderia protegê-la melhor. — Vocês e seu tipo podem dizer se eu estiver mentindo. — Só se você não for uma boa mentirosa. — disse Anna, meio se justificando e meio honestamente. Ser um bom mentiroso podia evitar que um lobo jovem, como Anna, descobrisse uma mentira, mas um lobo velho, como Charles, podia quase sempre saber. Anna continuou a esclarecer os pontos. — Se você acredita em suas próprias mentiras ou se contar mentiras não te aborrece, podemos ser enganados. De fato, nós somos muito mais fáceis de enganar porque muitos de nós assumimos que somos infalíveis. Eu, pessoalmente, sou sempre cuidadosa em não menosprezar o quão bem as pessoas mentem. — Eu manterei isso em mente. — Hally sorriu e aceitou um colete salva-vidas de Isaac, então lhe deu sua mochila para segurar, uma mochila de lona impermeável, enquanto ela o vestia. Havia uma arrogância não dita no ato que colocou Irmão Lobo no limite: Isaac nem era seu companheiro nem seu empregado, cujo serviço fosse para ser concedido. Ela ajeitou o colete sobre um resistente suéter de lã. — Você está planejando mentir? — perguntou Leslie Fisher com interesse. Anna deu a ela um olhar rápido e então para Charles. Ele a deixou ver que aquilo não o aborreceu, e ela relaxou. O sorriso de Hally cresceu. — Eu não sei ainda. Isaac disse que vocês teriam algo do corpo de Jacob para mim?

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Goldstein se acomodou no assento próximo a Leslie, com suas costas voltadas para a popa do barco. Ele retirou um Baggie39 do bolso do colete salva-vidas, no qual estava um quadrado de cinco centímetros de pele e uma pitada de cabelo escuro, e o deu para Hally, que o pegou com o entusiasmo de uma criança que ganha um pirulito. — Esplêndido. — ela disse — Provavelmente seria melhor esperar até que estejamos fora do porto para eu começar a fazer magia. Tudo que eu conseguirei é a distância e uma direção, não a rota mais próxima de lá. Não durará para sempre, então eu prefiro esperar até que nós estejamos em algum lugar que nos dará mais. Isaac me colocou nessa — ela olhou para Charles — e me prometeu uma recompensa. Ela não tinha sido barata. Se não fosse pelo fator tempo, ele podia ter tido Moira e Tom voando de Seattle com uma despesa consideravelmente menor. — Dez mil. — Charles concordou. Leslie assobiou. — Não me admira não nos consultarmos muito com bruxas. — Você paga pelo melhor. — disse Hally presunçosamente. — Vamos preparar a vela? — Motor — Anna disse, apontando para a popa. — Sem velas. CAPÍTULO 8  Charles manteve uma estreita vigilância da proa enquanto Malcolm manobrava o Daciana ao redor de barcos e outros obstáculos diversos com toda a habilidade de navegação de um pirata e assobiando, desafinado, uma versão alegre de “The Mary Ellen Carter,” uma canção sobre homens reformando um navio afundado. Se Bran estivesse com eles, indubitavelmente teria se juntado à canção. O Da de Charles amava concertos improvisados, especialmente com as pessoas que cantavam — ou assobiavam — músicas de Stan Rogers, entretanto, considerando os passageiros do barco, “A Bruxa de Westmoreland” poderia ter sido mais apropriada. A subida e descida do oceano faziam o estômago de Charles embrulhar — outra razão de porque ele não gostava de barcos. Anna estava ajoelhada na proa tão perto da borda quanto possível, com seu rosto ao vento e uma expressão pacífica que fez Irmão Lobo querer beijar seus pés e outros lugares — se somente ele não vomitasse no momento em que se inclinasse. — Me pega também. — disse Isaac, surgindo da parte de trás do barco. Ele se abraçou à parede do console e falou em uma voz bem calculada, para se elevar justo acima do barulho do motor, mas não tanto que alguém mais fosse capaz de ouvir.

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Saquinhos plásticos transparentes, com fecho tipo zip.

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— Uma vez que eu vomito, fico bem. — Então ele subiu o timbre — Mas eu sou o Alfa do clã de Olde Towne, maldição, e não posso me permitir “pôr os bofes pra fora” na frente de um grupo de estranhos. Eles poderiam achar pedaços do vendedor chato que eu comi ontem à noite. Charles fez uma careta para ele. — Obrigado pela imagem. Isaac jogou sua cabeça para trás e riu. —Você é legal, cara. Malcolm diz que ele está se dirigindo para um lugar que acha ser um ponto certeiro para a maioria das ilhas. Existem também muitos armazéns abandonados ao longo do litoral, graças à queda da pesca por aqui. Muitos lugares para manter e torturar pessoas sem ninguém ouvir. Você realmente vê espíritos indígenas e conversa com eles? — Espíritos. — corrigiu Charles. — Não tem nada de indígena sobre isso, exceto que nós acreditamos que eles existem e vocês, white-eyes40, não. Sim. Isaac gargalhou — Eu não posso acreditar que você acabou de me de chamar de white-eye. Melhor que cara pálida, eu suponho, mas só parece tão Bonanza41. — Seu rosto suavizou. — Meu avô, ele podia ver fantasmas. Quando estava realmente velho, se balançava naquela velha cadeira de balanço, de madeira escura, e contava a nós, crianças, sobre o assassino que assombrava a casa em que ele cresceu e que tentou fazer de sua vida o inferno quando ele era ainda muito jovem para ler e escrever. — Fantasmas são diferentes de espíritos — Charles disse. Sim, uivaram as pessoas que o assombravam, conte a ele sobre seus fantasmas, nos somos um pouco mais real cada vez que você fala sobre nós, cada vez que você nos vê ou pensa sobre nós. Conte a ele que os fantasmas das pessoas que você mata podem voltar e matar aqueles que você ama se você for bastante idiota ou muito sem noção para compreender como libertá-los. Charles teve que esperar um momento antes de poder continuar, e disfarçou com seu enjoo pelo passeio de barco engolindo fortemente. — Os espíritos que eu vejo são mais… um modo de a natureza falar com aqueles com olhos para vê-la e ouvidos para escutá-la. Eles nunca foram humanos. Eu não vejo fantasmas. — Mentiroso! estalou um em sua orelha — Não do jeito que seu avô fazia, mas eu encontrei algumas pessoas que viam. Não é um dom fácil. — Meu avô era um velho do tipo resistente. Eu acho que ele era resistente até quando tinha só cinco anos de idade e enfrentou uma assombração que ninguém mais podia ver. — Isaac sorriu. O sol se punha agora e seus dentes cintilaram na luz da lua crescente. Faltavam dois dias até a lua cheia. — Resistente como eu. Resistente e estúpido, Charles pensou com um suspiro. — Você está dormindo com a bruxa? Isaac sorriu em branco. — Sim, senhor. E ela leva café da manhã na cama pra mim também. O termo “White-eye” é oriundo de uma lenda indígena norte-americana “A Águia e a Cobra”, que basicamente conta como foram criados os índios e os homens-brancos: os índios são descendentes da águia mais sábia e poderosa de todas, “Redman. Já os homens-brancos são descendentes de “White Eye”, uma cobra que enquanto na forma de serpente se achava feia, não era amigável com as águias e tinha ciúme porque o Grande Criador deu para as águias grande beleza e a habilidade de voar. Ele conseguiu aprender a arte de trocar de forma ao matar uma águia, e então se transformou em um ser igual a Redman, só que com a pele branca. 41 Seriado ambientado no velho-oeste, Bonanza foi exibido no canal americano NBC de 1959 até 1973. 40

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Charles gostava desse Alfa jovem, duro, e por isso quis adverti-lo. — As bruxas negras são amantes indignas de confiança. — Eu sei disto. — Isaac disse. Ele sacudiu seus ombros para relaxá-los — Eu sou um homem lobo; eu não posso me permitir ser delicado; mas eu nunca poderia me apaixonar por uma mulher que tortura gatinhos para fazer poções de amor, mesmo que ela não faça perto de mim. Ela só está arranhando uma coceira e eu estou aproveitando enquanto dura, e sou claro com ela quanto a isso. — Mulheres ouvem o que os homens dizem. — Anna disse sem se virar. — O que não significa que elas acreditam neles. Uma bruxa não é alguém com quem foder Isaac, e elas ficam tão possessivas quanto qualquer outra mulher. Você é bonito, forte e poderoso... Ela não vai deixá-lo ir facilmente. — Você está tentando roubar meu homem? — Hally não parecia ter qualquer problema com os solavancos do barco quanto os demais. E ela era boa em se esgueirar, porque Charles não percebeu que ela tinha se levantado e dado a volta para o lado oposto do console. Ela ainda tinha sua mochila, e estava segurando o Baggie próximo ao seu rosto, como se segurasse uma rosa ao invés de um pedaço de pele do corpo do menino. Anna manteve uma mão no corrimão e deslizou para se sentar com somente um quadril na borda da proa, para que assim pudesse enfrentar a bruxa. Seu companheiro sorriu um de seus sorrisos grandes e generosos. — Não. Só o estou advertindo sobre dormir com coisas perigosas. Os tigres são tesouros raros; e eles irão comê-lo sem pensar duas vezes. A bruxa se envaideceu, sua ira esvaindo. Sua Anna era tão boa em lidar com as pessoas — ele inclusive. Era uma boa coisa que a bruxa estivesse olhando para Anna e não para Isaac, porque ele claramente ouviu o que Anna disse também. E quando um Ômega falava o lobo ouvia, não importa o que o homem pensasse. Isaac parecia como se tivesse sido esbofeteado. — Tigres precisam ser cautelosos perto de lobos. — Charles falou, evitando que ela notasse o jeito de Isaac. Hally estreitou seus olhos. Ela lembrava mais uma serpente do que um tigre — elas eram bonitas, também, bonitas e frias, matando com veneno no lugar de presas ou garras. — Você está enfiando seu nariz em lugares que não lhe dizem respeito, lobo. — ela disse, como se pensasse que ele devia estar preocupado sobre ela. Hally se excedeu, e então Irmão Lobo encontrou seus olhos e deixou-a ver que eles mataram bruxas mais poderosas do que ela — e que não se aborreceria de fazer isso novamente. Ela tragou e deu um passo para trás, tropeçando quando uma onda a deixou sem equilíbrio.

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— Você arranha qualquer coceira que escolher — Charles disse a ela, sua voz fria e serena. — Se divirta. Mas no fim do dia, lembre-se de que Isaac pertence a meu pai e a mim. Ele é necessário para nós como você não é. Você o deixará incólume ou eu te caçarei e te destruirei. Ela silvou para ele como um gato. Quando ele simplesmente a encarou, Hally correu desengonçadamente para longe do console, fora de sua linha de visão. Isaac o estava observando, seus olhos brilhando dourados. E então ele sacudiu sua mandíbula, expondo a garganta. Charles avançou e o mordeu levemente antes de liberá-lo. Da parte de trás do barco, Beauclaire os assistia com olhos inumanos, e Irmão Lobo quis ensinar ao homem fae a respeitar o jeito como ele tinha posto a bruxa em seu lugar. A lua incitava, os fantasmas em sua cabeça uivavam… e Charles deu um meio passo para longe da grade da amurada. — Você fez um inimigo. — Isaac falou tranquilo e suave, distraindo Irmão Lobo. Beauclaire baixou seus olhos por fim e o momento se foi. — Ela é uma bruxa negra — Charles respondeu igualmente tranquilo. — Nós sempre fomos inimigos. Agora, estamos voltados para o mesmo objetivo; é tudo. Se seu objetivo é prazer e você tem certeza de que é disso que ela é também, tudo bem. Só lembre: uma bruxa negra não ama a nada exceto ao poder. Isaac engoliu em seco e desviou o olhar. — As bruxas brancas são simplesmente comida para o resto. Hally tinha uma irmã que morreu quando ela contava dezesseis anos porque se recusou a tomar a rota negra para o poder. Uma grande e perversa bruxa má a comeu. Charles assentiu. — Você pode admirar a sobrevivente, mas Hally se fez sobreviver. Ela se assegurará de que sempre sobreviva. Melhor ter certeza de que o mesmo seja verdade para você. O pequeno barco diminuiu a velocidade; os motores se acalmaram. O céu estava escuro com exceção da lua prateada e a tira fina de nuvem que cruzava entre eles e ela. — Aqui. — disse Malcolm desnecessariamente. A bruxa pegou sua mochila e o Baggie que Goldstein deu a ela e subiu a escada de alumínio para a plataforma de pesca acima do console. Era o melhor lugar para fazer aquilo — uma plana superfície aberta em um barco lotado — mas Charles tinha certeza de que a bruxa sabia e apreciava o fato de que a altura a pôs em um palco e fez do resto deles o seu público. Ficando no topo da escada, Hally tirou um pequeno tapete da sua mochila e o estendeu na superfície. Enquanto ela o ajeitava no lugar, Charles pegou um vislumbre de círculos e símbolos e percebeu que ela teceu no tapete as proteções pelas quais uma bruxa teria normalmente usado giz. Era uma coisa inteligente, algo que economizaria tempo e problema — e ainda funcionaria admiravelmente bem em um barco sob a chuva.

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Ajoelhando no tapete, ela tirou quatro ou cinco pequenos jarros de cerâmica e os ajeitou como se a colocação deles fosse importante. Ela fez o mesmo com oito castiçais de prata segurando velas de cor escura — provavelmente velas pretas, mas algumas bruxas trabalhavam com vermelhas. Ela ajustou e moveu coisas ao seu redor durante algum tempo. Por fim, colocou uma vela alta no centro de seu trabalho. — Luz — a bruxa disse numa voz normal meia batida antes das velas se iluminarem, apesar do ar salgado do mar. As chamas nos pavios queimaram firmes e de verdade, embora o vento chicoteasse os fios de cabelo que se soltaram da trança dela. Mágica. Sua voz não fora o gatilho, só uma distração ou embelezamento. A fumaça disse a seu nariz o que Charles já imaginava — havia sangue humano trabalhando dentro das velas que que queimavam. O modo como as bruxas lançam feitiços difere de uma bruxa para outra dependendo de muitas coisas: seu histórico familiar, quem foram seus professores — e um pouco de suas próprias personalidades. Esta aqui era uma contorcionista e gemedora, mas ela o fazia com toda a graça de uma talentosa dançarina de dança do ventre, e seus gemidos eram musicais e hipnotizantes. Charles sentiu sua chuva mágica cair sobre o pequeno barco e se encontrou concordando com a avaliação de Isaac: ela era poderosa. O fez desejar que tivesse chamado a bruxa branca Moira, afinal. Hally não o assustava, mas sua paranoia não gostava de estar no meio do oceano em um barco, com sua companheira e uma bruxa de primeira classe que iria tão logo — como Anna tinha assinalado antes — matá-los ou não. Ele repugnava intensamente estar sob o poder de outra pessoa. Se nós pulássemos lá em cima, ela gritaria e cairia na água, Irmão Lobo assegurou a ele, porque não gostava de estar sob seu jugo tampouco. Ou nós podíamos simplesmente matá-la e economizar o problema de se afogar. Hally pôs o conteúdo do Baggie em um pequeno pote de cor marfim na forma de um sapo, com grandes olhos pretos e caricatos, com as costas descobertas como se feita para segurar uma vela ou uma pequena planta. Ele cabia na palma da mão dela. Hally puxou um frasco da mochila, puxou a rolha com seus dentes, e despejou o líquido no pote. Pelo cheiro, Charles sabia que era conhaque e não dos bons. Annie Green Springs42, Everclear43, ou álcool provavelmente teriam funcionado tão bem quanto. Colocando o frasco vazio de volta na mochila, ela segurou o pote com ambas as mãos, acima da chama da vela central e continuou sua melódica cantoria. Depois de alguns momentos, ela afastou suas mãos e o pote pairou sobre a chama sem se mexer. Ela se sentou sobre os calcanhares e ergueu o rosto de forma que a lua acariciasse sua pálida pele inglesa e deslizou para baixo suas mãos, que estavam sacudindo febrilmente a mais ou menos oito centímetros da panela. Dramaticidade projetada para esconder quais eram os momentos importantes, no caso de outra bruxa estar assistindo. Charles começou a se afastar do show, mas o canto de seu olho pegou algo e congelou. Uma sombra mais espessa do que vapor deslizou para fora da boca do sapo. Afundou no tapete e ficou 42 43

Marca antiga de vinho Marca de álcool de cereais

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muito mais denso e escuro, enchendo o espaço entre a bruxa e as velas. Ele olhou ao redor para os outros, mas ninguém parecia preocupado ou excitado, assim presumiu que ele — e Beauclaire, que estava se levantando devagar —, eram os únicos que viram a sombra. No meio de sua música, no auge de sua dança, a bruxa calou e disse: — Escuridão. As velas e todas das luzes do barco se apagaram. Malcolm praguejou, inclinou-se sobre o console, e freneticamente apertou os interruptores. Ele pôs um pé no primeiro degrau da escada, presumivelmente para subir e confrontar a bruxa pela intromissão com seu barco. Malcolm estava sobre a proteção de Charles, então Charles empurrou Isaac (ainda observando a bruxa em vez de Malcolm), confiando que o lobo Alfa teria presença mental suficiente para não cair no mar. Ele pegou Malcolm pelo ombro enquanto subia dois degraus, puxando-o de volta para o deck. Interromper uma bruxa não era uma boa ideia para ninguém que quisesse sobreviver por algum tempo. Malcolm se torceu livre do domínio pouco conhecido e rosnou. O barulho cortou assim que ele viu quem que era que o segurava. Uma luz turva começou a brilhar no topo da plataforma de pesca, distraindo-os. — O que no… No Inferno, pensou Charles, quando a luz revolveu-se na forma tridimensional de um menino de oito anos de idade. O cheiro da magia negra fez o enjoo anterior de Charles aumentar com uma vingança, e ele se moveu tão longe do centro do barco quanto pode. A mão fria de Anna fechou-se na dele. Ela estava tremendo. Não com medo. Não sua Anna. Não, ela estava tremendo de raiva. — Me diga que isto era necessário — ela disse. — Não — Charles respondeu. Ele sabia que Anna não falava da bruxa; ela falava do método que a bruxa escolheu. Feitiços direcionais eram fáceis. Ele não os fazia por si mesmo, mas já os viu serem feitos. Chamar um fantasma como uma bússola era um feitiço importante, um feitiço de ostentação e completamente desnecessário. — Me diga que ela não consegue mantê-lo. — Ela não conseguirá mantê-lo — Charles disse a ela. Ele não era bruxo, mas seu avô o ensinou uma coisa ou duas. Ele poderia não ser capaz de livrar-se de seus próprios fantasmas, já que tinha que se consertar primeiro, mas Jacob Mott, preso pela magia negra, não seria nenhuma dificuldade. — Tudo bem — Anna disse, sua voz apertada, confiando nele para manter sua palavra. 126


— Jacob, eu te invoco — a bruxa disse, sua voz como mel aumentando com o vento e a batida das ondas. — Jacob, eu te suplico. Jacob, eu te nomeio. Faz a minha vontade. A figura do menino, brilhando com o luar prateado, permaneceu de costas para ela, cabeça curvada, a relutância em cada linha de seu corpo. Mas Charles podia ver seu rosto — e não havia nenhuma expressão nele, e seus olhos brilhavam vermelhos como fogo. — Onde eles mataram você, Jacob Mott? Onde eles sacrificam seu ser mortal? O menino ergueu a cabeça, olhou para sul e leste, e apontou. — Eu não posso seguir sem luzes. — Malcolm disse. — É ilegal. E eu não quero ser pego com velas feitas de sangue humano. Eu não ligo pra multas, mas prisão não vai acontecer. — Minha magia necessita de escuridão. — disse a bruxa em uma voz da meia-noite. Beauclaire saiu de sua cadeira e tocou o corrimão do barco. As luzes voltaram a se acender e a bruxa girou para olhar para ele. — Sua magia é escuridão — disse o fae repreensivamente. — O resto é teatro barato. A bruxa o ignorou e pôs suas mãos nos ombros do menino, acariciando-o de uma maneira nada maternal. — Obrigado — disse Isaac ao fae. Malcolm, seu rosto tensionado — ele tinha que ficar diretamente debaixo da mancha da magia negra a fim de conduzir o barco —, girou o Daciana. Quando a direção que o menino estava indicando alinhou-se com o ponto da proa, Isaac disse: — Assim está bom — e o Daciana estabilizou no curso. Malcolm ficou ocupado com seus mapas e então gritou alto o suficiente para que as pessoas no barco que não fossem homens lobo ou fae o pudessem ouvir acima do motor e das ondas — Parece que nós estamos indo para Long, Georges ou Gallops Island. — O que você acha? — Isaac perguntou; então para os demais ele disse — Malcolm leva a vida arrastando qualquer um que que o pague em pescarias ou explorações. Ele esteve fazendo isto por trinta e cinco anos e conhece o porto melhor do que qualquer pessoa viva. — Pode ser qualquer uma delas, eu acho. Georges tem muitas pessoas durante o dia, o que me deixaria nervoso se estivesse tentando manter prisioneiros vivos. — Que tal Long Island? — perguntou Leslie. — É acessível de carro também, certo?

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— Certo. — Malcolm estava pensativo — Long Island tem as instalações de saúde pública, e as pessoas que vivem e trabalham lá todo dia. Mas existem muitos lugares que ninguém vai. Lugares para se esconder pessoas, muito mais que em Georges ou Gallops. Esses edifícios dos velhos hospitais têm túneis que ligam um até outro. Existem alguns prédios vazios... a velha casa de concertos, a capela, e dois outros que se conectam com o hospital velho. Fort Strong está caindo e cheia de bons buracos para esconder. O velho Alfa me liderou em algumas caçadas de lua-cheia por lá. Nós caçamos em Gallops também; deviam fazer isso mais lá, porque havia coelhos fazendo muito estrago. Desde que ninguém note os barcos, é bem legal. Nós não temos que caçar quietos já que estão de quarentena nessa última década. Gallops tem muitos edifícios militares velhos, cheios de amianto e não há nenhum dinheiro para limpar. — Nosso UNSUB sabe muito sobre a área local — Anna observou. — Sempre me pareceu assim também — concordou Goldstein, que se levantou e caminhou em torno do barco até que pudesse ter uma visão melhor do menino morto, que guiava a viagem deles. — Ele faz isto na maioria dos seus territórios de caça: os usa mais como um nativo do que um visitante. Goldstein parou e franziu a testa para o menino suavemente brilhante. — Ele é um fantasma? — ele perguntou. Anna olhou para Charles e todo mundo seguiu o exemplo. A bruxa olhou para ele, também, e sorriu. Charles a ignorou e deu seu melhor para responder. — Não sua alma; essa já atravessou. Ela não poderia tê-la tocado. — ele acreditava nisso, acreditava que a única pessoa que podia destruir ou corromper uma alma era a própria pessoa que a tinha, embora seus fantasmas estivessem rindo enquanto ele falava. Você nos corrompeu, eles disseram. Você roubou nossa vida e nos corrompeu. Ele continuou, ignorando estoicamente as vozes dos mortos. — Um fantasma é composto de pequenos pedaços deixados para trás e reunidos juntos. Memórias mantidas em prédios ou coisas; e aqui em carne e cabelo. — Não é realmente o menino? — perguntou Leslie Fisher, e, pelo seu tom de voz, se ele dissesse sim ela atiraria em Hally sem pensar duas vezes. — Não. É mais como um suéter que ele vestiu e descartou. — Charles respondeu. Os olhos vermelhos, ele tinha certeza, foram causados por um algum aspecto da magia da bruxa. Leslie o observou, e ele pensou que se ela olhasse para seus filhos daquele jeito, eles se contorceriam. Então ela concordou com a cabeça e fez seu caminho até a parte traseira do barco — e se sentou próxima a Beauclaire ao invés de nos assentos voltados para trás do console e que a teriam deixado de costas para a bruxa. Ele não a culpava. Depois de um enquanto, Malcolm disse: 128


— Não é Long Island ou Georges. Nós estamos indo ou para Gallops ou para algum lugar ao longo da costa. — Não é a costa. — disse a bruxa, erguendo o rosto para o céu noturno — Vocês não sentem isso? É glorioso. Eles devem ser amadores para deixar tal banquete para trás sem consumir. — ela sorriu, e era um sorriso terrível porque a fazia parecer tão doce e jovem, e a causa do sorriso era a morte de Jacob Mott e dos outros antes dele. — É muito ruim que tantas de nós, tantas bruxas, tenham medo da água. — Hally disse para Charles. — Caso contrário nós teríamos sabido sobre isso há muito tempo atrás. Eles fizeram isso mais que só nessa estação. O Caçador atingiu Boston duas vezes, Charles lembrou. — Se fosse primavera, teríamos dificuldade em acessar Gallops. — disse Malcolm. — Mas assim como está, existem algumas docas que ainda são utilizáveis. Eu nos levarei por lá. — Nós sabemos onde estamos indo. — disse Charles para a bruxa. — Libere o menino. — Eu achei que ele fosse só uma coleção de memória. — ela murmurou. — Só um suéter velho descartado quando Jacob morreu. Charles saltou para o topo da grade da plataforma de pesca e curvou seus joelhos, balançando com a súbita guinada que a força de seu salto causou e então ficando mais confortável enquanto a subida e descida do barco se estabilizavam na mão do oceano. Ele pegou os olhos da bruxa e, trazendo Irmão Lobo e todo o seu poder à tona, falou: — Deixe-o ir. Ela obedeceu sem pensar, o aparecimento súbito de Irmão Lobo e a força de sua ordem ditaram as ações dela. Hally dispersou o fantasma com um estalido de seu poder. Então sua mandíbula abriu-se em afronta e magia se juntou ao redor ela. — Não. — disse Charles antes de ela poder completar qualquer mau que lhe tenha vindo à mente. — Você não gostará do que vai acontecer. Ele pulou para o lado dela e pegou o pequeno pote de sapo. O doentio resíduo mágico tentou rastejar sobre seus dedos, mas recuou no último instante devido à presença de Irmão Lobo. Seu instinto disse que o que quer que fosse que amarrasse o conteúdo do pote a Jacob tinha sido usado, consumido — e isso estava bastante bom para ele. Charles jogou fora o sapo, par a lateral do barco, assegurando-se de que a cabeça girou para baixo, dispersando o conteúdo à medida que caía. Ela silvou e lançou algo que escorreu sobre ele como água. Charles sacudiu sua cabeça.

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— Você acha que eu teria sobrevivido todo esse tempo se algum a feitiço apressado pudesse me prejudicar? — não era uma mentira. Ele só estava fazendo a ela uma pergunta. Se ela desse a resposta errada, não seria culpa dele. Metade de sua reputação descansava nas histórias que as pessoas contavam a seu respeito. Ele foi sortudo. Usava algumas proteções, e ser um homem lobo era outro tipo de proteção, mas ninguém era invulnerável. O segredo de estar protegido da magia era fazer as pessoas acreditarem que era inútil atacá-lo daquela forma. Charles se lançou de volta sobre a grade da plataforma e aterrissou levemente no deck abaixo. Ele sentou-se em um dos bancos que serviam como recipientes de isca, próximos à proa, e sua companheira deslizou e sentou em seu colo. Anna beijou a linha da sua mandíbula e ele sentiu os estrondos predatórios dos fantasmas. Mais perto, traga-a para mais perto, eles diziam, gargalhando. Nós devemos comê-la e dividi-la entre nós. Minha, respondeu Irmão Lobo. Ele apertou seus braços ao redor dela quando Charles a teria enviado para a segurança. Mas Irmão Lobo a segurou e olhou fixamente para a lua, que cantava serenamente para ele.

CHARLES SALTOU COM uma das cordas na doca assim que o barco estava próximo. A plataforma de madeira parecia robusta debaixo de suas botas e o suporte em que ele amarrou a corda parecia novo. Ele perguntou a Malcolm sobre ela enquanto os outros desembarcavam. — O Departamento de Parques vem aqui e eles precisam de em lugar para prender seus barcos, não é? — perguntou Malcolm retoricamente. — Então eles mantêm a doca. — Vamos ficar juntos. — disse Charles. — Malcolm, seu trabalho é manter nossos agentes do FBI seguros. Leslie segurou a respiração, mas Goldstein levantou uma mão. — Você e eu não podemos ver na escuridão se nossas lanternas apagarem. Há uma lua lá fora agora mesmo, mas devido às nuvens no céu, isso pode mudar. Nós somos mais lentos e mais vulneráveis do que eles são; e se essa é a base do assassino, então alguém pode estar aqui para vigiar a vítima mais recente. Leslie retirou sua arma, verificou, para ter certeza, de que estava carregada, e então a devolveu ao coldre em seu ombro. — Se vocês puderem seguir sem lanternas — Charles disse a eles — ajudará o resto de nós a manter nossa visão noturna. Mas não arrisquem um tornozelo quebrado. Eu não sei quão bem vocês podem ver; nós, lobos, enxergamos muito bem no escuro; a maioria das bruxas tem um truque ou dois — Ele olhou para Beauclaire. O fae assentiu. — Eu posso ver bem.

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— Então depende de vocês. Se usarem as lanternas, por favor, tentem não as reluzir em nossos olhos. — Eu tenho uma pergunta. — disse Leslie. — Se vocês podem ver no escuro, por que Malcolm disse que precisava de luzes para encontrar a ilha? — Porque eu não estou pegando um barco defeituoso para navegar em águas que não são seguras — Malcolm disse. — Existem alguns lugares bastante desagradáveis por aqui se você não souber onde está, e o feitiço dela matou todas as luzes dos instrumentos: GPS, localizadores de profundidade, o lote inteiro. A bruxa sorriu para todos eles. — Vocês ainda estão falando? Isaac tocou seu ombro. — Vai na frente, Hally. O fae seguiu Isaac e a bruxa dele, sua pele pálida distinguindo-se na escuridão como uma vela na noite. Os agentes de FBI seguiram a bruxa com Malcolm os guiando. Isso deixou Charles e Anna na retaguarda. Castle Island era como um parque com árvores cuidadosamente plantadas e arbustos. Gallops era mais como uma selva. Não tão densa quanto a floresta tropical temperada próxima a Seattle, mas a vegetação rasteira poderia demandar um ou dois machetes44 para limpá-la. Forçosamente, eles seguiram caminhos que uma vez foram calçadas ou ruelas antes da natureza começar a recuperá-los. Sobretudo eles andaram para cima — do que ele vira na água, a ilha inteira era, em sua maior parte, uma colina comprida e estreita. Não era muito grande, menos de 17 hectares, ele pensou. Não levariam muito tempo para encontrar o lugar onde Jacob foi morto, desde que a bruxa estivesse dizendo a verdade—que ela podia sentir isso. Anna assinalou a base de uma casa e o que era, indubitavelmente, uma cerca viva de rosas plantadas que ficaram selvagens. Ele apontou para algumas heras venenosas e um par de curiosos coelhos que não estavam nada assustados com eles. Qualquer caça nesta ilha seria chata se eles estivessem caçando coelhos. A coisa inteira fedia à magia negra. Se ele tivesse tentado encontrar o centro sozinho, teria tido que cruzar a ilha inteira e esperar que tropeçasse nele. Apesar do quanto detestava admitir, a bruxa estava certa. Somente amadores deixariam este tanto de poder para trás. Depois que acabassem aqui, ele teria que conversar com seu pai sobre como limpar aquilo. Esse tanto de poder contaminado era mais preocupante do que o amianto — pessoas ficariam doentes aqui e morreriam resfriadas. Eles coçariam a si mesmos nos espinheiros e morreriam da infecção de resultante. Eles se matariam de um desespero que, de outro modo, nunca teriam sentido.

Facão de lâmina espessa, de 60 a 90 cm, normalmente usados para o corte de cana ou abrir trilhas no mato. (http://www.marauderinc.com/catalog/Series3machete1.jpg). 44

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Esse tanto de resíduo também atrairia coisas sombrias — e no oceano existiam algumas coisas muito ruins que poderiam decidir vir para terra firme pelo tipo de convite que a ilha estava enviando. E a pior parte era que existiam mais lugares como esse, em todos os cantos em que os assassinos tinham agido ao longo dos anos. “Sally Reilly”, disse Caitlin quando identificou as marcas que os assassinos deixaram no menino. Fazia sentido. Ele nunca encontrou Sally, mas seu pai tinha assistido a uma de suas “demonstrações” e voltou para casa sacudindo a cabeça e enviou Charles para pesquisar. Naquela época, o trabalho era mais a pé e ao telefone do que por computador. Depois de falar com o pai dela (a mãe estava morta), alguns velhos amigos e algumas bruxas, ele retornou a Bran com um relatório. Sally não era uma mercenária ou uma amadora, mas uma bruxa habilidosa. Ela cortou relações com sua família e decidiu por lenha na fogueira — talvez provocar outra caça às bruxas. Uma caça que da qual ela pretendia proteger-se pelo dinheiro que tinha ganhado convencendo ao público, por meio de programas televisivos, de que as bruxas eram reais. Ele disse a Bran que precisavam pará-la — mas, então, ela deixou de tentar dar publicidade às bruxas. Ao contrário, começou a cobrar de pessoas ricas grandes fortunas por seu trabalho. Ela desapareceu completamente em algum dia no início dos anos 1990, mas ele sempre supôs que ela tinha se aposentado, até que Caitlin se mostrou totalmente segura de que Sally Reilly estava morta. Era bem do estilo de Sally concordar em elaborar um feitiço que deixasse um resíduo daquele, um com símbolos incorretos, talvez — enquanto ela cobrava os olhos da cara por isso, pensando neles como bobos que intencionavam matar galinhas ou cabras. Eles a mataram? O timing estava correto. E se eles pagaram a uma bruxa por um feitiço que os deixava alimentarem-se das pessoas que assassinavam, teriam sentido a necessidade de livrar-se dela, já que era uma testemunha que eles não queriam. E seriais killers não ficavam livres e ativos por tantos anos se não fossem espertos o bastante para cuidar de testemunhas. Charles descansou sua mão nas costas de Anna. Ela usava um suéter e uma jaqueta leve, mas ele fingiu que podia sentir o calor dela através da roupa que a cobria. Irmão Lobo a queria fora dessa ilha e em algum lugar longe dos assassinos que caçavam homens lobo e não deixavam nenhum cheiro perceptível para trás. Mas Charles sabia melhor. Tentar encerrar sua Anna em plástico-bolha seria matar a mulher que o protegeu com um rolo de massas da sua avó. Ela era a mulher por quem ele se apaixonou. Então por que você esconde seus fantasmas dela? Irmão Lobo disse. Porque eu tenho medo, Charles respondeu a seu irmão como não teria respondido a ninguém mais. Ele viveu por um longo tempo, mas só aprendeu a temer quando ganhou Anna. Ele descobriu que nunca tinha sido valente antes — apenas indiferente. Ela o ensinou que para ser valente você tem que temer perder algo. Eu tenho medo de perdê-la. De que eles a levem de mim... Ou de que eu a afaste quando ela ver o que eu realmente sou. 132


Beauclaire falou disso. Charles não podia se lembrar das palavras exatas do fae, mas ele as sentia. Às pessoas tão velhas e poderosas quanto eles, nunca deveria ser dado alguém para amar. Por Anna ele destruiria o mundo. ANNA SENTIU CHARLES mais do que o ouviu, embora ele tivesse tirado a mão de suas costas e a deixado ir em frente. Ela podia ouvir os outros caminhando adiante, mas Charles estava mudo, reassegurando sua presença atrás. Ela podia cheirar a incongruência no ar e isso deixou seu lobo nervoso. Sentiu como se algo estivesse observando-os, como se a incongruência fosse dotada de inteligência — e não ajudava lembrar que pelo menos uma das pessoas que eles estavam caçando poderia se esconder dos sentidos deles. Anna lutou contra o desejo de dar a volta, pegar a mão de Charles ou deslizar debaixo de seu braço e deixar sua presença afastar a incongruência. Noutra época, ela o teria feito, mas agora tinha a incômoda intuição de que ele poderia recuar, como quase havia feito no barco quando ela sentou-se em seu colo, antes de Irmão Lobo assumir o comando. Talvez ele só estivesse cansado dela. Ela tinha dito a todo mundo que havia algo errado com ele… mas Bran conhecia seu filho e achava que o problema era ela. Bran era esperto e perceptivo; ela deveria ter considerado que ele poderia estar certo. Charles era velho. Ele viu e experimentou muito — perto dele, Anna era simplesmente uma criança. Seu lobo a escolheu sem consultar Charles em absoluto. Talvez ele tivesse preferido alguém com mais conhecimento. Alguém bonita e inteligente que… — Anna? — disse Charles. — O que está errado? Você está chorando? — Ele se moveu para frente dela e parou, forçando-a parar de caminhar também. Ela abriu sua boca e os dedos dele tocaram suas bochechas molhadas. — Anna — ele disse, seu corpo se aquietando — Chame seu lobo. — Você devia ter alguém mais forte. — ela disse miseravelmente — Alguém que pudesse ajudá-lo quando precisar, ao invés de ser mandada para casa porque eu não posso suportar o que você tem que fazer. Se eu não fosse Ômega, se eu fosse dominante como Sage, eu poderia ter ajudado você. — Não existe ninguém mais forte. — Charles disse a ela. — É a mancha da magia negra. Chame seu lobo. — Você não me quer mais. — ela sussurrou. E uma vez que as palavras saíram ela sabia que eram verdadeiras. Ele diria as coisas que pensava que ela queria ouvir, porque era um homem gentil. Mas seriam mentiras. A verdade estava no modo como ele fechou a ligação entre eles, para que ela não ouvisse as coisas que a machucariam. Charles era um lobo dominante e lobos dominantes eram impelidos a proteger os mais fracos. E ele a via como muito mais fraca. 133


— Eu amo você. — ele afirmou — Agora, chame seu lobo. Anna ignorou a ordem — ele sabia mais do que dar ordens a ela. Ele disse que a amava; soou como verdade. Mas ele era velho e inteligente e Anna sabia disso, quando o impulso vinha, ele poderia mentir e fazer alguém acreditar. Sabia por que ele mentiu para ela agora — e soou como a verdade. — Eu sinto muito. Eu irei embora... E de repente suas costas estavam contra uma árvore e o rosto dele estava extremamente perto do dela. Seu comprido corpo quente estava apertado contra ela, dos joelhos até o tórax — ele teve que se curvar para fazer isto. Charles era muito mais alto que ela, entretanto ela não era pequena. Anna estremeceu quando o calor de seu corpo começou a penetrar o frio que tinha engolido o dela. Charles esperou como um caçador; esperou ela se contorcer ao notar que estava de fato presa. Esperou enquanto ela prendia a respiração. Esperou até que ela olhou dentro de seus olhos. Então ele rosnou para ela. — Você não está me deixando. Era uma ordem, e ela não tinha que seguir ordens de ninguém. Isso era parte de ser Ômega ao invés de um homem lobo normal — que tinha a chance de uma bola de neve no inferno de uma companheira adequada. — Você precisa de alguém mais forte. — Anna disse novamente — Então não teria que se esconder quando for machucado. Poderia confiar em sua companheira para cuidar e ajudar você, maldição, em vez de ter que me proteger do que quer que seja o que está escondendo. — ela odiava chorar. As lágrimas eram debilidades que podiam ser exploradas e que nunca resolviam uma maldita coisa. Os soluços se juntaram em seu tórax como uma rápida correnteza, e ela precisava fugir dele antes de se quebrar. Em vez de lutar contra seu aperto ela tentou deslizar fora dele. — Eu preciso ir — ela disse para o tórax dele — Eu preciso de... Sua boca fechou sobre a dela, quente e faminta, aquecendo sua boca enquanto seu corpo aquecia o dela. — Mim. — Charles disse, sua voz sombria e grave como se tivesse viajado até o fundo da Terra, seus olhos dourados cintilando — Você precisa de mim. Ele a beijou novamente, suas mãos viajaram mandíbula abaixo, até o pescoço e os ombros. Os quadris dele pressionaram para frente, e ele liberou sua boca quando deslizou seu corpo para cima, até ter seu sexo duro e cheio comprimido contra o dela. Anna estremeceu involuntariamente, e ele riu do mesmo jeito profundo com que havia falado. Ela rosnou para ele, lobo para lobo. — Aí está você, aí está você — ele disse. — Você simplesmente vai me deixar fazer isto sozinho? 134


Ele estava falando demais quando devia estar sentindo. Ela envolveu uma perna até que o ângulo dos quadris de ambos estivesse melhor, subindo seu corpo até que ela pudesse morder-lhe a clavícula. Ele prendeu a respiração pela dor e ela o liberou. Agora sua atenção estava nela em vez de em palavras, de modo que ela poderia ser mais gentil. Anna lambeu o ferimento que fez, sentindo-o curar sob sua língua enquanto limpava o sangue rico de sua pele. Ela investiu para cima e dessa vez pegou o tendão em seu pescoço suavemente, e o suspiro dele não teve nada a ver com dor. Ela mexeu seus quadris, roçando a costura dos seus jeans nele enquanto ela absorvia o cheiro inebriante que tinha seu companheiro quando estava desperto. Ela queria cheirá-lo melhor, então deslizou para baixo e descansou sua boca aberta contra a dureza dele, deixando sua respiração quente acariciá-lo através da calça. Fazia tanto tempo desde que eles se tocaram. O cheiro dele ficou mais forte: almíscar e floresta, salgado e amargo, com uma indescritível deliciosa borda de doçura. — Anna — ele disse, um pouco desesperado. — Isaac, Malcolm, e provavelmente aquele maldito fae podem nos ouvir. Ela o mordeu — não de modo doloroso, mas só o suficiente para calá-lo e deixá-lo saber que a afastar não era uma opção. Charles fez um barulho que poderia ter sido uma risada, mas tudo o que ela ouviu foi sua rendição, e então ele a deixou derrubá-lo sobre suas costas na terra úmida da ilha e abriu o zíper da calça dele até que que pudesse alcançá-lo. Uma vez que teve a pele nua dele em suas mãos, a necessidade frenética diminuiu, em parte suavizada pela clara evidência que ele a queria tanto quanto ela o queria. Sua pele era tão suave para embainhar algo tão duro. Ela delicadamente o lambeu, amando o gosto dele agora temperado pelo sal do oceano. Ela o amava em todos os seus sabores, amava os sons que ele fazia quando ela lhe dava prazer, amava o aperto em sua respiração e a insensatez de seus movimentos — ele que era sempre gracioso. Ela o engoliu, reivindicando-o, homem e lobo, do modo mais básico possível. — Eu sou seu. — disse ele, um dedo debaixo de queixo dela, desalojando sua reivindicação. — E você — ele moveu suas mãos para debaixo de seus ombros e a puxou até que estivesse toda por cima — é minha. Sua calça jeans estava no caminho, então ele a rolou de lado e tirou seus sapatos, calças e roupa íntima em três rápidos movimentos. Ele puxou suas costas para cima com as mãos, que estavam mais urgentes que gentis, e deslizou dentro dela. Ela fechou os olhos e absorveu a sensação de queimadura lenta, a pressão escorregadia e fricção quente que significavam que ele era dela. Então ele a agarrou pelos quadris e pediu — então ela se moveu... e parou completamente de pensar ao mesmo tempo. 135


Lânguida e bem amada, Anna arquejou em cima de Charles. Quando o último latejar passou, ela começou a pensar novamente em vez de só sentir. — Nós fizemos... — ela sussurrou, sentindo o rubor começar nos dedões do pé e viajar a distância toda até suas orelhas. — Nós fizemos amor enquanto todo mundo estava escutando? A céu aberto? Quando pode haver um cara mau, que nós não podemos ver ou ouvir, assistindo? — ela podia ter guinchado a última palavra. Debaixo dela, Charles riu, sua barriga a balançando para cima e para baixo. Ele se sentia flexível e relaxado, como um gato tomando um banho de sol. — Tudo que eu estava tentando fazer era conseguir que você chamasse seu lobo, assim ela poderia rechaçar a magia negra que estava te fazendo duvidar de si mesma. — ele pausou e o relaxamento desvaneceu. — Fazendo você duvidar de mim. — ele esfregou-lhe as costas — Eu fiz você duvidar de mim. Anna enfiou a cabeça no oco de ombro dele e fechou seus olhos, mas esconder não funcionou. Depois de um minuto, ela riu incontrolavelmente — Não existe salvação, existe? Nós só podemos encarar a verdade. Anna se sentou e ergueu sua cabeça para cheirar o ar. Tudo que ela sentiu foram coisas verdes crescendo, Charles, sexo e a maresia — A incongruência se foi. — ela disse. Ele franziu a testa e fechou seus olhos, respirando profundamente. — Daqui. Não da ilha inteira. Isso é interessante. — então ele a olhou e sorriu. — Eu acho que é melhor nos reunirmos com o grupo de novo. Eles estão esperando por nós. Anna se levantou e ele lhe deu sua camiseta. Ela a limpou da melhor forma possível, devolveu a ele sua camisa, e então vestiu-se novamente. Ele era mais rápido, desde que só tinha que fechar o zíper da calça. Ela estava escovando a sujeira de uma de suas meias quando ele pegou a camisa e a apertou contra uma árvore. Ela o assistiu enquanto ela colocava um sapato e começava a espanar o outro. Charles murmurou para a árvore no que ela tinha bastante certeza ser seu dialeto nativo—o que ele usava muito raramente. Ele e Bran eram os únicos que ainda o falavam da mesma forma como o bando da mãe dele, uma variante da língua dos Cabeças-Planas. Usá-lo o fazia sentir-se triste e solitário, ele disse a ela uma vez, e ele e seu pai se comunicavam bastante bem em inglês, galês ou qualquer outro de vários idiomas. Vestida e calçada, ela correu seus dedos por seu cabelo para tirar folhas, grama, lama e qualquer coisa arrepiante que rastejasse e que poderia ter ido parar lá. Charles afundou sobre um joelho e apertou a camisa no chão… que a comeu. Ele murmurou mais uma frase e voltou a se levantar. Ele a viu observando e sorriu, seu rosto mais aberto do que ela viu em muito tempo. — Eu não ia colocá-la de volta. — ele explicou. — E 136


deixar algo assim abandonado por aí, quando nós estamos viajando com uma bruxa, só não é muito esperto. A macieira a absorverá eventualmente e a guardará até que o faça. — Vocês já acabaram? — gritou Isaac. Charles balançou sua cabeça e gritou de volta — Suponho que é por isso que eles te chamam e a maravilha dos cinco minutos. Anna podia sentir seus olhos se arregalando e seu queixo caindo — Não posso acreditar que você acabou de dizer isto. — ela pausou e reconsiderou. — Eu vou contar tanto para Samuel que você disse isto! Charles sorriu, beijou-a suavemente, e disse: — Samuel não acreditará em você. — então a pegou pela mão e partiu no rastro dos outros. CAPÍTULO 9  Enquanto eles subiam, pulando sobre cimento quebrado, rochas, e uma variedade de arbustos rasteiros, Anna teve tempo para pensar sobre o show que eles acabaram de dar. Tinha sido sua culpa. Charles havia tentado provocar seu lobo — porque aparentemente a magia negra a tinha afetado. Ela se encolheu para longe de sua estúpida autocomiseração, na qual se permitiu chafurdar. Conversar não funcionou para tirá-la daquilo, então ele a beijou, e seu lobo se levantou para se livrar dos efeitos da magia, simplesmente como ele achou que iria. E então lobo dela mudou o jogo. Anna lembrou distintamente que ele a advertiu de que eles tinham um público — e ela o ignorou totalmente. Foi bastante ruim. Fazer isto quando havia uma chance clara de que eles colidissem com os caras maus foi o auge da estupidez. — Anna — disse Charles. — Pare de pensar. — Isso realmente foi estúpido — ela disse sem olhá-lo — Minha culpa. Eu sinto muito. Nós poderíamos ter sido atacados pelos assassinos. — Ela levantou suas mãos. — Nós poderíamos também ter colocado câmeras e convidado todo mundo para assistir. E agora teremos que subir para nos encontrarmos com nosso público e nos justificarmos. Ele parou abruptamente e a empurrou para uma estação ao lado dele, com uma mão em seu pulso. Surpreendeu-a sua alusão à violência — Charles nunca ficava fora de controle.

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— Se você acha que foi estúpido, desnecessário, e sua culpa — ele disse numa voz rouca — então não estava prestando atenção. — ele a beijou novamente, sua boca exigindo uma resposta, seu corpo quente contra o dela. Charles cheirava como casa, quente e correto. Ela sabia que devia se afastar, sabia que era mais distração do que eles podiam dispor, mas ela estava tão faminta por ele — não só por sexo, mas pelos toques simples, pela certeza absoluta de saber que era bem-vinda a acariciar e provocar e rir. Anna afundou nele e deu-lhe tanto quanto recebeu. Ambos estavam ofegantes quando ele recuou. — Quando nós voltarmos hoje à noite, conversaremos. Eu acabei de aprender algo. — Que meu lobo é sem vergonha — ela murmurou, mas sem poder se afastar. Ele riu, o maldito. Foi mais um bufar do que uma risada, mas ela conhecia a diversão quando a ouvia. Ela o tinha derrubado no meio de uma caçada, com um bando de pessoas escutando. Todos os homens lobo, ele a lembrou — e Beauclaire, que estava aqui para encontrar sua filha, não para ouvir os amassos dela no bosque. E agora, para mostrar que ela não aprendeu sua lição, tudo o que queria fazer era se prender àquele último beijo de onde parou. — Nenhuma ajuda nisto — Anna murmurou. — Hora de enfrentar a verdade. — Vergonha não é… uma emoção muito produtiva — Charles disse a ela. Houve uma pequena pausa engraçada quando ele inclinou-se para olhar o rosto dela e então para longe. — Irmão Lobo gostou de reivindicar você na frente dos outros, de forma que não haverá nenhuma dúvida sobre a quem você pertence. Enquanto eu… eu lamento seu embaraço, mas por um lado, concordo com Irmão Lobo. Anna olhou fixamente para ele, incrédula. Se existia no mundo, um homem mais reservado do que seu marido, ela não o conhecia. — Como pelo outro… — Charles sorriu ferozmente para ela e levantou a voz. — Isaac, continue adiante; nós seguiremos vocês. — Você é quem manda — Isaac respondeu. — Nós os seguiremos de perto. — Charles disse. — Se algo acontecer, estaremos lá; mas se esperarmos até que apareçam coisas mais interessantes do que nós, eles não caçoaram de você. — ele não precisava dizer que ninguém caçoaria dele. — Obrigado. — Anna disse, não sabendo como mais responder.

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Ele pôs sua mão no ombro dela quando recomeçaram a subir a trilha. Enquanto eles caminhavam, não houve nada da relutância em tocá-la que o caracterizou nos meses passados. Ele mantinha uma mão em qualquer parte dela que estivesse mais próxima a ele.

CHARLES TENTOU ABRIR a ligação entre eles e instigar o lobo dela a derrotar a magia negra e não conseguiu. Irmão Lobo se apavorou porque Charles tinha, de alguma maneira, bagunçado o vínculo de ambos — e então Anna ameaçou deixá-los e Charles se apavorou também. Se ela não tivesse permitidos que eles fizessem amor com ela, restabelecer sua reivindicação, as coisas poderiam ter ficado… interessantes, da mesma forma que um ataque de urso-pardo é interessante. Porque nem ele nem Irmão Lobo eram capazes de deixá-la ir. Tinha sido uma espécie de revelação. O primeiro ponto era que ele era uma criatura egoísta, Charles decidiu mais alegremente do que estivera sobre qualquer coisa em muito tempo. Ele guiou Anna em volta de um buraco no chão com um empurrão sutil de sua mão no quadril dela. Ela provavelmente viu o buraco, mas o agradava cuidar dela de uma forma tão trivial. Ele estava disposto a pagar qualquer preço para mantê-la segura… qualquer preço, exceto perdê-la. Quando voltassem para o apartamento, ele contaria a ela sobre os fantasmas que ameaçavam matar tudo que ele amava, a menos que pudesse encontrar a chave para liberá-los. Era um risco — mas estava bastante claro que ele danificou o vínculo de companheiro dos dois ao tentar agir sozinho—e consertar isso, valia qualquer risco. Ele veria se, entre os dois, poderiam reparar o que ele quebrou—e se não, ele chamaria seu Da. Se esta viagem não fizesse nada mais, pelo menos tinha o afastado da severidade implacável que havia tomado sua vida desde que os homens lobo se revelaram ao público. Ele tinha estado tão focado na missão, na necessidade, e em só terminar o trabalho que perdeu a perspectiva. Honra, dever e amor. Ele não sacrificaria Anna por seu pai e por todos os outros homens lobos. Dada uma escolha, escolheu o amor. O que significava que teria que achar um jeito de lidar com os fantasmas — ou deixar de ser o homem machadinha de seu pai. Não era o resultado que seu pai esperava desta viagem, mas Charles não podia evitar. Ele não perderia Anna, ainda que significasse que guerrear com a população humana. A decisão o fez sentir-se estranhamente tranquilo, se mais que um pouco egoísta. — Nós encontramos. — Isaac chamou. Charles começou a correr e Anna ficou ao seu lado—simplesmente onde ela pertencia. O lugar onde os outros os aguardavam fora uma vez um jardim com uma pequena casa ou um galpão de armazenamento, de talvez três metros por quatro e meio, no centro. A parte de madeira da 139


estrutura há muito tinha sumido, mas os blocos da base de granito ainda estavam na posição original. O pitão45 que introduzido n um dos blocos podia ser original, mas a corrente e a bainha presos a ele estavam brilhando de novo. Beauclaire estava de pé no centro da fundação, de olhos fechados e movendo os lábios. Charles tinha bastante certeza de que ele estava trabalhando em alguma magia, mas com os resquícios da magia de sangue que tinha sido feita ali obstruindo seus sentidos, não dava para ter certeza. Ao longo do perímetro da clareira, Malcolm mantinha-se atrás dos agentes do FBI, que estavam ocupados usando suas lanternas para examinar o chão, a procura de pistas ou algum rastro. — Nós teremos que voltar durante o dia com uma equipe — Goldstein disse, e havia dureza bordeando sua voz — Nós não devíamos estar vagabundeando por aqui de noite; nós vamos nos perder ou destruir pistas. — Você não vai conseguir que Beauclaire parta sem sua filha. — disse Leslie. Então ela olhou para trás, para o homem lobo atrás deles, e andou um pouco mais para perto de Goldstein. Charles deu uma olhada em Malcolm por si mesmo. — Malcolm — ele falou rispidamente. O barbudo homem lobo olhou para cima. — Você me mandou vigiá-los. Isaac tinha estado numa conversa baixa com sua bruxa, mas quando Charles falou ele olhou também. — Malcolm? — Ele chamou gentilmente. O outro lobo suspirou e se moveu um pouco mais para longe dos agentes do FBI, mas também trocou sua linguagem corporal de espreitador para guarda-costas. Charles não estava certo de que os humanos podiam, conscientemente, ler a linguagem corporal bem o suficiente para dizer a diferença, mas seus subconscientes podiam. Assim que Malcolm começou a se comportar, os ombros de Leslie relaxaram e ela parou de bater em sua coxa com a mão direita. Isaac deixou a bruxa ajoelhar ao lado das correntes, os dedos dela localizando feitiços que deixavam pequenas linhas de brilho vermelho para trás. — Hally diz que houve dez ou doze pessoas mortas aqui num período de anos — ele disse a Charles. — Ela diz que juntará alguns de seus aprendizes e eles corrigiram a ilha depois que a polícia coletar evidências. Hally está fazendo o que é possível agora. Nós não queremos um bando de pessoas armadas em um lugar com um resíduo tão forte de magia negra... A expressão “tiros acidentais” nem começa a cobrir os desastres que poderiam surgir. — Bom. — disse Charles. Era uma coisa a menos para ele se preocupar — Algum sinal de Lizzie? Parafuso terminado por um anel, numa das extremidades. (http://salestools.com.br/public/upload/produto/31262608480.JPG) 45

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— Não bem aqui. Não há ninguém vivo além de nós e alguns coelhos dentro do alcance da audição, e não havia nenhuma trilha para dentro ou para fora desse lugar. Eu não posso cheirar ninguém além de nós na redondeza. Talvez se estivesse na forma de lobo, pudesse fazer melhor. — Todos nós mudaremos para caçar pela menina; exceto Malcolm, se ele puder evitar. — Charles disse. — Eu posso evitar. — Malcolm soou um pouco ofendido por ser deixado para trás. — Nós precisamos de você para poder nos levar de volta para a ilha principal rapidamente, quando encontrarmos Lizzie. — Charles explicou. — Ela vai precisar de atenção médica tão logo quanto possível. Não é só um dever de guarda. — Você acredita que Lizzie está aqui. — Beauclaire disse acentuadamente, deixando de lado o seu feitiço — Você pode cheirá-la? Você tem provas? Charles ondulou sua mão na pedra — Eles usaram esse lugar para matar todas as suas vítimas locais, uma vez que terminavam com elas. Você acha que eles encontraram um lugar melhor que essa ilha isolada e em quarentena para manter suas vítimas enquanto ainda estão vivas? O fae olhou fixamente para ele, seu rosto faminto. — Como você propõe encontrá-la? Se ela estivesse aqui, eu teria sido capaz de localizar. Mas minha magia não me diz nada. Não tem dito desde o início. — sua voz caiu para um sussurro — Eu achei que significasse que ela estava morta. — Eu sei alguns caminhos para obstruir magia fae. — disse a bruxa, sem parar o que quer que estivesse fazendo à pedra de granito. — As bruxas irlandesas e alemãs são conhecidas por suas habilidades em romper seu tipo de poder de uma forma ou de outra, e Caitlin me disse que esse cara conseguiu seu feitiço rúnico de uma bruxa irlandesa. Existe uma dúzia de caminhos que eu conheço para fazer encantamentos, alguns mais efetivos do que outros. Beauclaire olhou para ela, o rosto tenso e esperançoso — Existem. Realmente existem. Isaac começou tirar suas roupas e assim fez Anna. Charles se moveu até ficar entre os dois em resposta a uma pequena adequação da territorialidade e ciúme infundado. Hoje à noite, Irmão Lobo estava se sentindo possessivo. Não se incomodando em tirar sua calça, ele começou a própria mudança. Era mais difícil desta vez porque mudara muito hoje, e na última vez forçou por velocidade. Sua transformação foi mais lenta e machucou mais, deixando-o com a dor cega em seus ossos, que previam que Charles pagaria na próxima mudança de volta para humano. Se ele pudesse, esperaria até que todos voltassem para suas casas antes de tentar. Ele ainda conduzia a mudança total antes dos outros e estava sacudindo as picadas e câimbras de seus músculos quando Isaac cambaleou, um lobo de altura média e pelo dourado que lembrou a Charles da companheira de Bran, Leah. Anna ainda estava mudando. 141


Charles deixou os outros se recuperarem e começou a explorar o chão com seu focinho. Como os agentes do FBI, ele concentrou seus esforços ao longo da borda da clareira. Ele não achou nada em sua primeira passagem ou na segunda e estava começando uma terceira — Beauclaire andou atentamente ao seu lado, uma mão na longa faca que ele usava embainhada em seu cinto, uma que Charles não se lembrava de ter visto no barco — quando Anna o chamou com um par de exigentes latidos. Ele levou seu tempo farejando ao redor de onde Anna estava, mas não cheirou nada, nem mesmo os onipresentes coelhos e ratos. Ela gemeu quando ele ergueu a cabeça e tentou novamente. Na segunda vez, ela latiu e começou a seguir algo que ele não podia farejar. Frustrado por sua inabilidade de perceber o que ela rastreava, duplamente frustrado, porque se ele não tivesse bagunçado o vínculo de ambos, ela poderia ter comunicado o que encontrou, Charles a seguiu juntamente de Isaac e Beauclaire. Provavelmente porque ele estava tão aborrecido, precisou de mais ou menos cinco metros para entender. Nada. Ele não cheirou nada. Como se algo que disfarçasse o cheiro tivesse se arrastado por ali muitas vezes, ele não sentiu absolutamente nada. Sua companheira era muito esperta. Ele tocou em seu focinho para deixá-la saber que ele compreendeu. Ela sorriu para ele, sua língua pendendo feliz entre as afiadas presas brancas. — Espera — disse a bruxa. Charles parou e a olhou. — Isaac disse que vocês não poderão ver ou ouvir este fae que estão perseguindo. Charles deu a Isaac um olhar sombrio. Disse a ele o que estavam caçando quando o chamou para ajudar hoje à noite. Aquelas informações não tinham sido para distribuição geral, e o lobo Alfa sabia. — Paz. — a bruxa disse. — Isaac só me disse por que eu estava me colocando em risco ao vir aqui, e ele sabe que eu não falo. Esse fae tem comido as essências das pessoas que morreram aqui, e isso Isaac não precisou me dizer. Conversei com Caitlin sobre a natureza da magia que eles estiveram usando. Então... Eu posso lhes dar um pouco daquele poder e o poder reconhecerá o fae: magia simpática, lobo, de igual para igual. Existe o suficiente para dá-la apenas para um de vocês. Charles nivelou suas orelhas para Isaac, quando aquele lobo teria se apresentado. Se houvesse um risco, seria para Charles assumir — de todos eles, ele tinha as melhores chances de derrotar o inimigo. Ele trotou até a bruxa e esperou por muita fumaça e gestos dramáticos e dança. Ao invés, ela simplesmente se inclinou até que seu rosto ficasse no nível do dele e soprou.

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Ele tossiu, então sufocou e engasgou com o cheiro. Machucava, também. Como ser picado por mil abelhas de uma vez ou saltar de um carro sobre um asfalto que retalhasse a pele — ambas situações que ele já havia experimentado. Mas isso não era o pior. Sentia-se como se óleo de motor usado fosse despejado sobre seu corpo e se agarrasse lá, fedorento e gorduroso. Irmão Lobo rosnou e pendeu a cabeça para baixo, suas orelhas inclinadas. Isaac lamentou e deu um passo para frente, como se ele pudesse tentar ficar entre Charles e a bruxa. Os fantasmas dentro dele começaram a uivar e rir. Então Anna encostou-se a Charles, silenciando as vozes internas com uma paz radiante, o presente do Ômega que o deixou recuperar o controle. Somente então a bruxa se moveu. Ela se levantou e limpou as mãos vivamente. — Minhas desculpas. Eu não sabia que te afetaria tão adversamente. Ficará em você até que o amanhecer o disperse; e provavelmente só será o suficiente para um rápido alerta, então preste atenção. Mais tranquilo agora, se não mais confortável, Charles assentiu seu obrigado — não era culpa dela que machucasse ou que o fizesse querer pular no mar para limpar a sujeira oleosa de seu pelo. Ou que ela lhe desse ordens porque Isaac não a ensinou nada melhor. O feitiço, se funcionasse como Hally contou, daria a eles uma chance caso colidissem com o fae. Por isso, ele poderia perdoá-la muito. Hally ficou em pé diante dele, sem medo, e tão frágil em sua humanidade. Ela não podia evitar ser uma bruxa mais do que ele podia evitar ser um homem lobo. Os dois nascidos em suas alteridades. Isaac estava certo ao apontar que a maioria das bruxas brancas morria enquanto ainda muito jovem, incapaz de se defender da magia de sangue de sua família. Ela fora, dentro dos limites do que era, muito útil — e ele se lembraria disto.

OS LOBOS E O FAE deixaram os outros para trás, na a duvidosa segurança da pequena clareira e sob a tutela de Malcolm e da bruxa. Charles deixou os outros lobos tomarem a liderança, já que seu nariz não estava em seu melhor sob o fardo do feitiço que a bruxa usou. Eles viajaram devagar porque era mais difícil não seguir nenhum odor do que rastrear um ou mais cheiros específicos. Isaac entendeu o que eles estavam fazendo depois de uns trinta metros e seu nariz era melhor do que o de Anna, mas ela o corrigiu quando ele tomou uma trilha falsa. Eventualmente seus narizes os levaram a uma porta mal colocada no cimento, que parecia estar presa ao lado da colina. Charles escalou para o topo do cimento que estava coberto por um telhado rude, de cerca de sessenta por noventa centímetros. Uma possível entrada ou saída se precisassem, pensou, mas melhor entrarem pela porta. A porta, quando ele retornou para estudá-la, parecia que tinha sido comprada usada e parafusada em novas dobradiças. Estava trancada com uma trava de aço. Aço não era tão prejudicial para os faes quanto o ferro, mas ainda resistiria a qualquer magia que Beauclaire pudesse produzir. 143


O fae, evidentemente, teve o mesmo pensamento. Ele se levantou de onde estivera revolvendo os arbustos, com um grande pedaço de pedra na mão. Murmurou algumas palavras até que a pedra brilhou verde-musgo e a atirou na porta. Atingiu com um estrondo que lembrava mais uma granada do que uma pedra, e se desfez em pó, deixando um entalhe de bom tamanho na porta. Nem a fechadura nem o tranca sobreviveram ao golpe. A maçaneta era de alumínio e não pareceu dar a Beauclaire nenhum problema para abri-la. Dentro estava muito escuro, mas mesmo assim, Charles podia dizer que era muito mais profundo do que o telhado de sessenta-por-noventa teria indicado. Alguém escavou por dentro da colina. Tudo isso ele percebeu pelo modo em que a câmara ecoava, não por algo que pudesse ver. Até um lobo precisa de alguma luz para poder enxergar. O ar estava fresco, então havia ou outra entrada ou algum tipo de ventilação. Charles não podia cheirar nada perigoso, mas, dadas as circunstâncias, ele não estava disposto a confiar só em seu nariz para adverti-lo do perigo. O lorde fae resolveu o problema ao lançar uma bola de brilho mágico pela entrada e para dentro da escuridão. Parou antes de bater no chão sujo, pairando cerca de um metro do chão, e a uns dois ou três metros à frente deles, iluminando um espaço que parecia ter se originado como o porão de um edifício grande — talvez parte de uma antiga construção militar. Um número grande das ilhas do porto de Boston tiveram instalações militares uma vez ou outra ao longo dos últimos quatrocentos anos. — Quem está aí? — sussurrou uma voz indistinta quando eles acabaram de cruzar a entrada. Era uma voz muito suave, vinda de um quarto vazio; todos congelaram no lugar. — Ajude-me, por favor. — a voz estava tão baixa que um humano nunca teria ouvido. O efeito em Beauclaire foi elétrico. — Lizzie! — ele trovejou, pronto para correr, a cabeça inclinada tentando entender de onde a voz veio. O quarto não tinha nenhuma porta, estava vazio de tudo exceto por escombros espalhados. Obviamente não continha Lizzie Beauclaire. — Papai? — a voz não ficou mais forte; soou impertinente e desesperada. Isaac tinha estado explorando cautelosamente as extremidades escuras do quarto, e deu um grunhido suave para atrair a atenção deles. Atrás de uma pilha de madeira apodrecida, tubos, e blocos de granito quebrados, o que Charles pensou que fosse só uma sombra escura de mais escombros revelou-se uma estreita escada de cimento, com buracos e enferrujados ajustes de metal onde uma vez existiu um corrimão. Um lado, aquele com os ajustes enferrujados, corria ao longo da parede do quarto; o outro estava aberto. Beauclaire, sua luz indo à frente, correu para descer as escadas e deixou o resto para segui-lo. Não foi a ideia mais inteligente do mundo, pensou Charles — mas compreendeu. Se fosse alguém que pertencesse a ele lá em baixo, ele não teria perdido nenhum tempo em chegar até ela também. 144


A bola de luz do fae revelou um quarto quase da metade do tamanho do de cima, com uma entrada na parede mais distante. A porta há muito havia sumido, e um dos suportes de sua moldura tinha tombado e caído no chão. Beauclaire parou momentaneamente ao pé dos degraus: Lizzie deixou de fazer barulho. Quando ele começou a avançar novamente, sua pressa inicial diminuíra, e ele se movia com cuidado, apontando para a entrada aberta porque o subsolo estava obviamente vazio. Só que não estava. Charles parou, ainda seis ou oito passos do fundo da escada. Existia uma difusão de faíscas de ouro fino, como uma constelação em miniatura. “Preste atenção” a bruxa tinha dito. Ele poderia não ter se atentado, poderia não ter notado se eles não se movessem. Mas uma vez que se mexeram, fizeram um bom trabalho em dizer a Charles um pouco sobre o fae que estavam perseguindo. O senhor cornudo, se é que era isso, era grande. O teto do subsolo tinha dois e oitenta, talvez três metros de altura, e as pequenas faíscas começavam no topo e se prendiam a um bom pedaço do canto do quarto onde estavam. Ele não captou nenhum detalhe, mas sabia que estava lá. Charles desejou ter pensado em perguntar a Beauclaire como o senhor cornudo parecia em sua forma original. Mesmo saber se ficava sobre duas pernas ou quatro teria sido útil. Tal como estava, Charles esperava que em duas — uma criatura quadrúpede que fosse bastante grande para tocar o teto seria quase do tamanho de um elefante. Anna parou quando ele parou, seu silêncio alerta e cauteloso. Charles girou sua cabeça e beliscou seu ombro ligeiramente. Quando ela olhou, ele a dirigiu na direção de Beauclaire, que já estava no meio do quarto. O fae devia ter apoio — e Anna não tinha um monte de experiência em combate. Lutar contra algo que ela não podia ver não era o melhor modo para ela ganhar mais alguma. Ela deu a ele um olhar perplexo e então correu até o fae, enquanto Charles continuou a descer mais lentamente os últimos degraus atrás dela. Isaac, ciente de que algo estava acontecendo, parou no fundo e esperou por Anna, e então Charles, passarem por ele. Charles esperou pelo momento certo, observando o fae escondido, tentando usar as faíscas para deduzir o que ele estava fazendo. Quando Anna e Beauclaire passaram, ele se moveu. Charles se preparou, mas a criatura camuflada parou antes de se aproximar de Anna — a parte superior movendose como um redemoinho vertiginoso de faíscas. Ele imaginou que aquilo finalmente notou a dupla de homens lobo, ele e Isaac, concentrados onde ele estava embora devesse estar invisível, e girou sua cabeça para olhá-los. Depois de um momento, a parte superior da criatura se curvou e se sacudiu para ele como um alce irritado — isto estava definitivamente prestando atenção nele e em Isaac. Em lugar de saltar sobre 145


a coisa e encontrar- se empalado, Charles deslizou cautelosamente escada abaixo até que ficou bem na frente de Isaac, deixando o outro lobo ver em sua linguagem corporal onde o inimigo estava. Isaac encurvou-se e saltou duas vezes, se separando de modo que ambos pudessem atacar de direções diferentes, além de que seriam dois objetivos ao invés de um. Houve um impacto abrupto vindo da entrada em que Anna e Beauclaire haviam entrado, e então veio o som quebrado de uma mulher chorando. A maior parte do fae invisível se moveu novamente, balançando a cabeça na direção do barulho, Charles pensou. Então Anna apareceu na abertura e o fae correu para ela. Mas não era tão rápido quanto Charles. Ele mirou baixo em relação ao tamanho da criatura que estava atacando, cerca de noventa centímetros do chão. Do modo como isso se movia, ele tinha bastante certeza de que era bípede — e isso significava tendões. Ele bateu em algo que se assemelhava ao jarrete46 de um alce e mudou sua mordida no meio do ataque, deixando seu impulso o puxar, de forma que suas presas cortassem horizontalmente através da articulação, enquanto seu corpo oscilava até que estar atrás da criatura. Então, ele regulou sua mandíbula como um buldogue e se pendurou, cavando em osso enquanto rasgava o lorde cornudo com suas garras, avançando para cima, tentando encontrar uma parte importante para danificar. A criatura fae uivou, um selvagem e perfurante som sibilante, que era uma combinação estranha de bramido de alce e relincho de garanhão, e quando uivou o ar se moveu pelo subsolo como um mar alimentado pela tempestade atingindo a orla. Algo que se sentia como um porrete o atingiu no ombro, e então Isaac pulou na briga, atingindo mais alto do que Charles, talvez esperando derrubar aquilo. Em baixo de Charles, a criatura fae balançou, mas não caiu, quando Isaac encontrou algo onde prender suas presas. A cabeça balançou em um movimento que disse a Charles que havia acertado um pedaço de músculo no lugar de osso. Ele estava rasgando-o enquanto segurava com as garras dianteiras e as alisava em suas pernas, como um gato. As patas traseiras de Charles estavam no chão e ele as usou para trocar seu peso, preparando-se para encontrar algo mais frágil do que o osso espesso que achou, não importando isso tenha lhe dado um bom suporte sólido. Era muito espesso para quebrar com suas mandíbulas e ele precisava incapacitá-lo para que a criatura não alcançasse Anna. A criatura gritou de novo e se livrou de Isaac, lançando-o pelo quarto até a parede de cimento. Assistir como aquilo lidava com Isaac fazia Charles pensar que o lorde cornudo tinha mãos de algum tipo — e era seriamente forte, mais do que um homem lobo. Livre de distração, a criatura voltou sua atenção para Charles. Bateu mais duas vezes nele, de forma desajeitada, como se não pudesse alcançá-lo muito bem. Então ele ergueu a perna que Charles agarrou e algo o atingiu no ombro novamente, um golpe limpo que soltou seu agarre. Antes de ele poder recuperar seu controle ou soltá-lo, o lorde cornudo chutou seu jarrete contra a parede atrás.

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Parte da perna situada atrás da articulação do joelho. Lugar onde se dobra a perna traseira dos quadrúpedes.

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Charles caiu para o chão. Por um momento ele estava impotente, o vento o nocauteou, mas antes que a criatura pudesse fazer qualquer coisa, um dínamo preto mergulhou sobre Charles como um vendaval. Anna não se preocupou em tentar qualquer nada extravagante. Ela só correu, de um lado para outro e em círculos confusos. Quando ela batia em algo, ela o fatiava, mas continuava. Distraindo-o. Charles cambaleou em seus pés e se lançou na criatura novamente. Dessa vez, confuso por ter batido na parede e no chão, ele não tinha nenhuma ideia do que atingia — tudo o que sabia, tudo que Irmão Lobo sabia, era que eles tinham que proteger sua companheira. Mas a sorte o favoreceu e ele conseguiu um golpe limpo. Era carne e osso em baixo de suas presas e ele afundou suas garras profundamente. Ele não soube quando Beauclaire se juntou à briga. Só que de repente ele estava lá, seu rosto glacial e mais bonito e inumano do que Charles se lembrava. Estava mais alto, também, e mais magro, e lutava com uma faca em uma mão e magia na outra. Ele era rápido e duro, lutando às cegas, mas ele cortava uma vez e de novo com a faca — e quando usava sua magia, Charles não podia dizer o que Beauclaire fazia, mas o lorde cornudo sentiu e estremeceu debaixo de suas presas. Charles tinha bastante certeza de que foi a magia que virou o jogo. Assim que Beauclaire o atacou com isso, o lorde cornudo parou de lutar para ganhar e começou a lutar para fugir. A besta fae que Charles agarrou, gritou, dessa vez um cru e profundo som de tambor que machucou suas orelhas, e se atirou no chão, rolando como se estivesse queimando, primeiro de um lado e então do outro. Charles se agarrou por dois rolamentos, mas caiu no terceiro. Beauclaire, sem presa ou garra, ficou imóvel no chão depois da primeira manobra. Livres de seus atacantes, a criatura dirigiu-se aos degraus — e Charles deu uma boa olhada contra quem eles estiveram lutando, porque, o que quer que o tenha feito invisível, parou de funcionar. Seus chifres eram enormes. Ele achou, a princípio, que tinham um formato similar ao de uma rena, mas deve ter sido um truque de sombras porque eles começaram… a brilhar fracamente, com uma luz branca glacial, e os chifres eram de um cervo — um enorme cervo antigo. Tinha um casaco prateado que embranquecia enquanto cambaleava para cima — e Charles percebeu que ele se equivocara antes, porque tinha quatro patas, longas e parecendo delicadas. O sangue preto desaparecia — mesmo enquanto Charles assistia — absorvido pela pelagem de um grande veado branco, mais alto por uma mão ou mais do que qualquer alce que ele já vira. Irmão Lobo queria persegui-lo e matá-lo porque eles não estariam seguros até que estivesse morto. Charles concordava, mas decidiu que, desde que um de seus ombros estava deslocado ou quebrado, ter um homem lobo seguindo uma criatura que estava se curando enquanto fugia, mais rápido do que um homem lobo — seria estúpido. Especialmente quando já tinha quase derrotado três homens lobo e um forte fae. Ele se perguntou se o lorde cornudo, um mestiço, era realmente tão forte, ou se a magia tomada o deixou assim. De qualquer modo, Charles não iria segui-lo, não importa o que queria Irmão Lobo. 147


Ele não iria deixar sua Anna indefesa. Irmão Lobo rugiu sua frustrada ira e tomou a satisfação que pode quando o veado saltou os últimos cinco ou seis degraus, cambaleando no topo, e sua perna traseira esquerda, ainda curando, não sustentou seu peso. Quando a criatura estava longe da vista, Charles girou para inspecionar os caídos. Isaac ainda estava no chão, mas rolou para uma pose de esfinge e piscou um pouco estupidamente para Charles. Se ele não estava morto, curaria logo. Beauclaire estava sobre uma mão e sobre seus joelhos, tentando pôrse em pé com sucesso limitado — mas tudo parecia estar progredindo bem, com exceção de um punho obviamente quebrado. Anna… Anna estava abaixada próxima a Lizzie Beauclaire, sussurrando para ela, ou algo tão perto de um sussurro quanto um lobo podia conseguir. A menina… Ele viu fotos dela na parede e ela era bonita. Agora, feridas cheias de casca decoravam sua testa e bochechas, toda a pele que podia ver. Ela vestia a camisa do seu pai, mas estava obviamente nua por debaixo dela, e sua pele, antes imaculada, estava coberta com símbolos e contusões — da mesma maneira que o corpo de Jacob estivera. Em uma pessoa viva, respirando, isso era ainda pior, porque ela também estava coberta com um miasma visível de magia negra — como uma névoa de pulgas minúsculas. Lizzie piscou para ele com olhos drogados e se moveu para trás, parando abruptamente com um pequeno suspiro porque algo doeu. Eles quebraram seu joelho. Esmigalharam-no, se ele fosse alguém para julgar — e era. Foi deliberado — e ele se perguntava se ela, uma atleta treinada, era um pouco mais resistente do que eles esperavam. Seus pés estavam contundidos e sangrentos, como se ela tivesse e libertado e saído correndo descalça no terreno rochoso. Ela não teria tido nenhuma chance de realmente escapar, não a menos que pudesse chamar os tritões47 — e ele duvidava disso. Tritões tendiam a ser reservados ou agressivos, mesmo com seu próprio tipo. Lizzie claramente não estava em forma para caminhar. Ela teria que ser carregada para fora, e, olhando para os outros, Charles sabia que teria que fazer aquilo. Com um punho quebrado, o pai dela não poderia, e Anna ainda era muito nova como um homem lobo para mudar de uma para a outra forma tão rapidamente. Isaac estava atordoado e confuso, e era bastante novo também. Ele foi transformado por volta da mesma época que Anna, Charles recordava, apenas alguns anos atrás. Assim, Charles só iria ter que administrar mais uma troca para humano, bem nesse minuto. Machucava. Ele esqueceu como machucava tanto mudar quando algo estava errado. Ele era velho e mudar ajudava a curar qualquer dano que não tenha sido causado pela prata—mas a mudança curava do mesmo jeito que água salgada evitava que ferimentos ficassem infeccionados: com muita dor. Charles não gritou. Não uivou e assustou a pobre pequena dançarina que se embrulhava ao redor de Anna, como se a mulher lobo fosse um filhote de pelúcia. O suor saía de seu corpo mesmo antes dele estar humano o suficiente para suar. E então ele voltou, ajoelhando-se no cimento coberto de pó, usando uma camiseta vermelha encharcada de suor e seu jeans azul, o qual — ele notou com um toque de diversão — tinha a braguilha com o velho estilo de botão. 47

Criaturas míticas que são humanas da cintura para cima e peixes da cintura para baixo

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Charles precisou de um par de tentativas para levantar, e quando conseguiu suas mãos ainda tremiam. Mas o ombro deveria ter estado somente deslocado, porque aquele dano a mudança curou completamente, exceto por uma dor persistente. Quando ele e Anna voltassem para o apartamento, ele teria que dormir por uma semana. Procurou fazer uma triagem, com a ideia de ter todo mundo lá em cima da escada e a caminho do barco antes do lorde cornudo voltar para acabar com eles. Charles deixou Lizzie Beauclaire com Anna por alguns minutos mais e agachou-se na frente de Isaac. — Ei — ele disse. — Você está com a gente? O lobo só arquejou, sem focar-se. — Vou tocar em você. — Charles disse a ele em um tom que não permitia oposição: lobo dominante para lobo menos dominante — Para ver se existe alguma coisa que precise ser reparada. Você não gostará disso, mas me deixará fazer. Os grunhidos são aceitáveis. Morder não. Depois de um exame rápido, durante o qual Isaac rosnou muito, Charles tinha bastante certeza de que, embora provavelmente houvesse outros danos a princípio, o Alfa de Boston curou a maioria. O que ficaria eram muitos lugares doloridos e uma extraordinária concussão que se resolveria em algumas horas com a alimentação adequada. Charles esperava que Malcolm tivesse mais em suas caixas do que lula, isca e minhocas — entretanto, proteína era proteína. Ele se levantou e olhou de novo ao redor. Beauclaire conseguira se levantar e caminhou desengonçadamente para sua filha. Ele se sentou no chão, a cerca de trinta centímetros dela, e se estendeu para tocar em seu cabelo suavemente. Ela se encolheu e ele começou a cantar para ela em galês. Ar Lan y mor mae lilis gwynion Ar Lan y mor mae ‘nghariad inne48 Ele tinha uma boa voz. Não espetacular, como Charles teria esperado de um fae de classe e poder (e o fae que lutou ao lado de Charles esta noite obviamente tinha poder), mas de bom compasso e tom doce, embora estivesse um pouco afetada pelas lágrimas derramadas em sua voz. Outra canção podia ter servido melhor ao timbre de Beauclaire, e essa canção em particular não estava entre as favoritas de Charles. Preferia aquelas que tinham uma história, poderosa imagem, ou pelo menos, melhor poesia.

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“Ao lado do mar existem lírios/ Ao lado do mar não me amo”

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Charles avançou para frente e, embora Beauclaire não olhasse para cima ou deixasse de cantar, Charles sentiu a atenção do fae concentrar-se nele. Parecia-se com a atenção de uma cascavel logo antes de ela dar o bote. — “Ao lado do Mar”, de fato... — Charles disse com brandura, observando a linguagem corporal de Beauclaire. O lorde fae deixou de cantar e olhou para cima. Charles viu que o leu corretamente. Beauclaire estava pronto para defender sua filha contra qualquer um que chegasse muito perto. Como Isaac, ele levou muitas batidas na cabeça e parecia um pouco atordoado — algo que Charles não notou em sua primeira avaliação. Estar ferido tornava o fae ainda mais perigoso. A longa faca reapareceu em sua mão boa e parecia muito afiada. — Ar Lan y mor — cantou Charles, observando Beauclaire relaxar só um pouco, então cantou mais algumas linhas para ele. — Tudo bem. Aliados, lembra? Nós precisamos colocar todo mundo no barco. Talvez a bruxa de Isaac faça algo para sua filha que impeça a magia negra de comê-la; eu não sei se você pode ver isso, mas eu posso. Nós precisamos consertar seu punho. Beauclaire fechou seus olhos e baniu a faca. Magia, Charles pensou, ou mãos rápidas. O fae assentiu, então estremeceu e fez uma careta. — Certo. — sua voz falando estava menos firme do que esteve sua voz cantando — Nós precisamos levá-la para a segurança no caso do lorde cornudo voltar. Eu não consigo carregá-la. — Eu posso, se você me deixar — ofereceu Charles. Se necessário, ele usaria o mesmo tipo de domínio em Beauclaire que esteve usando em Isaac. Mas Beauclaire não era um lobo. Poderia funcionar por um segundo, mas poderia também ter Charles apunhalado nas costas quando não estivesse prestando atenção. Melhor ganhar cooperação de verdade. — O joelho dela... — Beauclaire disse. — Eu sei. Eu vejo. Vai machucar não importa como nós façamos. Mas essa ilha não é tão grande. Não devemos demorar muito. Beauclaire olhou para cima e lhe deu um meio sorriso. — Primeiros temos que nos levantar e subir a escada. — Sim — concordou Charles. — Ele poderia estar nos esperando lá em cima. Charles começou a concordar, mas Irmão Lobo falou mais alto. O velho lobo poderia não conhecer senhores cornudos, mas ele conhecia a presa e Charles confiava em seu julgamento. — O veado branco está muito longe. Beauclaire congelou. — Você o viu? Como um veado branco? 150


Charles assentiu. — Quando nós lutamos contra ele, não estava naquela forma. — teve tempo para pensar sobre isso. Charles sabia o que tocou e tinha forma vagamente humana com pernas como as patas de um alce. — Mas ele subiu correndo os degraus e se transformou em um veado; do mesmo modo que sua invisibilidade sumiu. — Não sumiu. — Beauclaire disse. — Ele liberou o glamour de propósito. Por que você não o seguiu? — Não tinha nenhuma forma de competir sozinho contra ele. — disse Charles, gesticulando ao redor para os caídos — Mesmo com aliados, nós poderíamos não ter conseguido derrotá-lo se ele não tivesse decidido fugir. E eu não deixaria vocês feridos e vulneráveis. Anna bufou. Ela o conhecia, sabia que ele não sairia vulnerável. Beauclaire curvou sua cabeça e sorriu. — Eu devia ter sabido que o filho de Bran seria muito teimoso para ser levado pelo nariz até qualquer magia; mesmo até o veado branco. Se o tivesse perseguido, você teria continuado, nunca parando, nunca alcançando, até que suas pernas fossem nada além de tocos sangrentos ou até que você morresse. Charles olhou para ele — Obrigado pelo aviso. Beauclaire riu. — Filho de Bran, ninguém pode se defender do veado branco; e saber o que ele é e o caçar mesmo assim é muito perigoso. Até mais perigoso do que caçá-lo na ignorância. Se o veado branco passou por mim duas semanas atrás, eu não ficaria compelido a segui-lo. Mas se eu o visse hoje à noite, depois de caçá-lo desde que ele roubou minha filha, eu o teria seguido, poderoso que sou, até que um de nós estivesse morto. — Pensei que os faes fossem imortais — disse Charles — Pelo menos aqueles que podem se referir a si mesmos como “poderoso que sou”. Beauclaire começou a dizer algo, mas cessou bruscamente quando Charles levantou uma mão. Houve um som deformado acima deles. Alguém estava lá em cima. — Isaac? — Era Malcolm. — Nós estamos aqui em baixo. — respondeu Charles, relaxando, embora Irmão Lobo estivesse chateado com eles. Eles deveriam estar seguros onde os deixou. Malcolm, a bruxa, e o FBI vieram incumbidos do resgate, trazendo mais barulho e caos com eles do que quatro pessoas deveriam ter conseguido gerir. Goldstein e Leslie Fisher assumiram o comando, e Charles, cansado, sentindo dor em cada osso de seu corpo, deixou-os. Leslie tirou seu casacão impermeável e ajudou Beauclaire a embrulhá-lo ao redor de sua filha. A bruxa vasculhou em sua maleta e murmurou coisas desagradáveis. Finalmente encontrou um saquinho 151


de sal, os fez tirar o casaco e a camisa de Beauclaire da garota, e espanou Lizzie da cabeça aos pés com o sal. Brutal mas efetivo. A magia negra se dissipou — mas o sal queimou nos ferimentos abertos. Ela chorou, mas parecia ser muito mais a profunda influência do que quer que seus sequestradores lhe deram, para fazer tanto barulho. Charles cheirou cetamina e mais alguma coisa. — Nós poderíamos atirá-la no oceano e pescá-la de volta — Hally disse a eles. — Mas o frio não faria nenhum bem para ela. Melhor não tirar o sal. Uma meia hora deve ser tempo o suficiente, mas mais tempo não machucará. Também evitará infecção. Eles embrulharam Lizzie novamente e Charles a pegou, para sua evidente angústia, mesmo com quaisquer drogas que eles deram em seu sistema. Ela não esteve nas mãos deles por muito tempo — pouco mais que um dia inteiro — mas foi torturada e quem sabe o que mais. Machos não eram algo com que ela quisesse lidar. Mas Anna não podia se transformar de volta, e Leslie, embora em boa forma, era humana, e incapaz de carregar Lizzie toda a distância de volta ao barco. Charles tentou cantar para ela a mesma canção que seu pai tinha cantado. Beauclaire — e Malcolm — se uniram, e a música pareceu ajudar. Goldstein usou uma vara e uma tira da parte inferior da sua camisa de algodão para colocar uma tala no punho de Beauclaire. E quando eles recomeçaram a subir a escada, passou um ombro debaixo do braço do fae e o ajudou a firmar-se, tendo, evidentemente, decidido que Beauclaire seria sua responsabilidade pessoal. O fae atirou a Charles a sombra de um olhar divertido, e se deixou ajudar — possivelmente um pouco mais do que ele realmente precisava. Isaac estava obviamente com dor, arquejando de tensão, mas se levantou e foi atrás, Malcolm caminhando firmemente ao lado dele. Charles manteve um olho neles durante um tempo — lobos podiam ser um pouco imprevisíveis quando outro mais dominante estava ferido. Era uma boa hora para eliminar o dominante e tomar seu lugar. Normalmente não acontecia quando um até mesmo mais dominante, como Charles, estava perto para manter a paz e proteger o clã, mas melhor se assegurar. Felizmente, Malcolm parecia honestamente preocupado com seu Alfa. Anna se enfileirou, às vezes caminhando ao lado de Charles, mas na maior parte trotando em um largo círculo ao redor deles, procurando por perigo. Leslie tomou a retaguarda, sua arma em punho e pronta para atirar. Hally caminhou na frente do grupo, guiando-os enquanto, sobretudo, ignorava a todos. Eles cambaleavam e tropeçavam, feridos, mas triunfantes, cantando a velha música folclórica galesa “Ar Lan y Mor”. E se havia algo estranho sobre retornar da batalha cantando sobre lírios, 152


alecrim, pedras, e — por alguma razão que ele nunca sondaria — ovos, e todas as coisas à beira-mar, bem... Então os três deles a faziam soar bastante bem, e somente ele e Beauclaire sabiam galês.

CAPÍTULO 10  No barco, Charles esticou as pernas e tentou ignorar a dor insistente daquela última mudança. Anna tentou se sentar em vários lugares diferentes, mas as cadeiras humanas eram muito estreitas e da forma errada. As bordas que usara no caminho de ida estavam escorregadias, e em vez de usar suas garras para cavar na fibra de vidro, ela deslizou ao redor com o movimento do mar. Finalmente, ela soltou um suspiro enorme e se enrolou aos seus pés no deck. Beauclaire proibira qualquer interrogatório à sua filha até que ela visse um médico. Goldstein e Isaac escolheram ficar para trás, até que as várias agências chamadas chegassem à ilha. Malcolm lhes disse que decidiu que Beauclaire e os lobos poderiam precisar ser salvos quando ouviu um barco deixando a ínsula. Charles se sentia seguro o suficiente fazendo a suposição de que o senhor cornudo, contra quem eles lutaram, partiu no tal barco. O que significava que muitos poucos perigos restavam— mas foi bom que Isaac ficasse de qualquer jeito, só para ter certeza de que tudo estava bem. Charles suspeitava que Isaac decidiu adiar a viagem de barco até que melhorasse um pouco, embora estivesse bem o bastante para se transformar de volta em humano. Hally ficou com Isaac para ter certeza de que o resíduo mágico não tomasse o controle sobre qualquer agente da equipe forense que iria examinar a ilha com um pente fino. Então o barco estava muito mais vazio no caminho da volta do que esteve no caminho da ida. Leslie deixou Beauclaire na metade de trás do barco para se sentar ao lado de Charles. — Ela está com uma aparência péssima — comentou, se sentando precisamente na ponta da cadeira. — Haverá uma ambulância esperando por nós no ancoradouro regular do Daciana. A agente do FBI parecia um pouco menos profissional, embrulhada em um cobertor do barco, seu cabelo bagunçado pelo vento. Como Charles e Anna, ela estava acordada por um pouco mais de vinte e quatro horas. A falta de sono e a falta da sutil maquiagem que se dispersou em algum momento enquanto corriam em torno da ilha, adicionou anos ao seu rosto. Intrigou Charles que ela escolhesse se sentar perto dele com tantas cadeiras disponíveis. — Você não tem medo de mim? — ele perguntou. Leslie fechou seus olhos. — Muito cansada para ter medo de qualquer coisa. Além disso, se você pudesse ver meu marido, entenderia que precisa de muito para me assustar. 153


Isso faiscou sua curiosidade. — Como é isso? — Linebacker49 pelos LSU Tigers por três anos na faculdade. — ela disse sem abrir seus olhos. — Machucou o ombro no último ano, senão teria se profissionalizado. Tem um metro e noventa e oito de altura e cento e dez quilos. Nenhum deles de gordura, nem mesmo agora. Ele dá aulas para o segundo grau. — ela olhou para ele. — Do que você está rindo? Charles arregalou seus olhos. — Nada, madame. Ela sorriu um pouco. — Jude diz que ama as crianças mais do que ele já amou o futebol. Mas ele treina o time do segundo grau local de qualquer maneira. — Você não veio aqui para me contar sobre seu marido. — ele disse. — Não. — Leslie olhou para ele e então desviou o olhar — Quão velho você é? — Mais velho do que pareço. — Charles disse. — Muito mais velho. Ela assentiu. — Eu perguntei por aí sobre você. Nós temos alguns homens lobos que falam com o FBI. Eles me contaram que você é um detetive para todos os lobos. Você chega e resolve os crimes. Ele se perguntou se isso era tudo o que eles contaram a ela — e achou que provavelmente fosse. Não respondeu por que não sabia se concordar com ela era mais mentira do que discordar seria. — E você sabe muito sobre esse mundo que nós só estamos descobrindo. Nós tiramos Lizzie das mãos deles porque você soube colocar bruxas no caso; e porque aquela bruxa estava bastante assustada com você o suficiente para se comportar. Era bastante justo. Ele esperou que ela chegasse ao ponto. — Lizzie disse que havia três deles. — Leslie contou — Dois jovens e um velho. Um dos jovens chamou o sujeito velho de “tio” antes que fosse calado. O velho fez os cortes em sua pele. Ambos os jovens a estupraram primeiro, “enquanto ela ainda estava bonita”. Eles lhe disseram que o velho preferia as mulheres depois que tinham sido violadas. Charles esperava que tivessem chegado a ela rápido o suficiente para poupá-la disto, mas tinha bastante certeza de que não conseguiram. — Achei que Beauclaire tinha recusado um interrogatório. — Charles disse. Ele ouviu Lizzie falando, mas Leslie não precisava saber como era boa a sua audição.

Linebacker: Um jogador defensivo no futebol americano ou canadense, que está posicionado logo atrás da linha de ataque. 49

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— Eu não fiz uma pergunta a ela. Ela simplesmente falou. Disse-me que quer que eles sejam pegos e enjaulados, assim não poderão fazer nada mais para ninguém. Mulher forte. Ela adormeceu no meio de uma palavra... E eu acho que seu pai teve algo a ver com isto. Os faes podem colocar as pessoas para dormir? — Eu não sou um perito em magia fae. — Charles disse com cuidado. Ela girou sua cabeça e assentiu. — Você é muito bom em contornar a verdade. — Leslie suspirou. — Você é um detetive experiente e encontrou o inimigo. Quais são suas impressões? — Eu só encontrei aquele — Charles disse. Mas seu pedido por informações era justo, e ele queria o agressor preso — O fae é definitivamente o membro júnior do grupo, embora seja provavelmente o único com magia; e ele é a razão para que possam capturar outros faes e a homens lobo. — O que te faz pensar assim? — Ele não é um caçador. Ele é um veado; não é um predador, não importa o quão duro ou mortal ele seja. — com exceção de Herne, o Caçador. Mas Irmão Lobo sabia que o fae contra quem eles lutaram era uma presa. Talvez Herne fosse mais caçador e menos cervo, mas este aqui… Este aqui fugia de seus inimigos. Ele não era um caçador; era uma ferramenta dos caçadores de verdade. — Você acha que ele é uma vítima? Charles bufou. — Não. Ele não é nenhum anjo, mas nunca sairia caçando vítimas. Ele poderia estuprar e matar alguém que chegasse muito perto dele, mas não caçaria. Esse é um comportamento predatório. Não significa que ele não é perigoso. Na maioria dos anos, os alces matam mais pessoas no Canadá do que os ursos-pardos. Alces, entretanto, geralmente não seguem as pessoas com a intenção de matá-las, como um urso-pardo faria. — Certo. — Leslie disse. — Nós temos um alce, não um urso. O que mais? Ele refletiu sobre a briga. O senhor cornudo lutou instintivamente em vez de estrategicamente, aparentemente incapaz de enfocar em mais de um atacante de cada vez. — Aquele fae não é esperto. Se ele tem um trabalho de dia; e eu acho que ele tem... — Charles tentou verbalizar os instintos que permitiam a um lobo dominante controlar seu clã. — Se você vai manter alguém assim perigoso sob controle, não o deixa começar a pensar que é muito valioso. Você não o sustenta só porque ele é útil caçando. Ele tem que se sustentar. — Ok. Leslie soou duvidosa e Charles encolheu os ombros. — Poderia ser diferente se nossa família de assassinos não fosse endinheirada; assim eles teriam que encontrar outro jeito para assegurar que ele soubesse que é subordinado. 155


— Eles são endinheirados? — Tantas viagens, nesse tanto de anos... Se você estivesse procurando por um grupo de pessoas pobres os teria encontrado. O dinheiro faz muitas coisas mais fáceis. O assassinato é só uma delas. E eles tinham que ter dinheiro para poder custear Sally Reilly. — É justo. Nossos perfilhadores apontaram que o Caçador do Grande Jogo era rico há mais ou menos quinze anos atrás. Você ia especular sobre um emprego. — Certo. Ele não é brilhante, e por causa de sua outra natureza, será difícil esconder-se. —“Outra” como fae? Charles assentiu. — Sim. Então ele deve ser um caixa de supermercado ou um balconista de armazém. Talvez um zelador ou faz-tudo. Ele deve ser muito forte. Estivador, se ainda os tiver aqui. — As pessoas se lembrariam dele? — Se ele é assustador, você quer dizer? Como seu marido? — Charles balançou a cabeça, seguindo os instintos de Irmão Lobo. — Eu acho que não. Acho que as pessoas sentirão pena dele. Caso contrário, ele estaria na prisão. Pessoas assustadas geralmente fogem ou atacam. Se alguém o atacasse, ele mataria. Se ele saísse por aí matando as pessoas abertamente, estaria na prisão ou morto. — Ok. — Leslie disse. — Veremos o que podemos fazer com isto. Vou passar isso para nossos perfiladores e ver se eles concordam.

O CONDOMÍNIO NÃO ERA um lar, mas o sentimento de boas-vindas era o mesmo. Charles tirou alguns bifes do refrigerador e cortou-os em pequenos pedaços. Um deles colocou no chão para Anna e o outro ele comeu. Seus dentes humanos não eram afiados o bastante para a carne crua, mas ele perseverou e foi recompensado quando as dores e o sofrimento gradualmente diminuíam enquanto a energia da comida entrava em seu sistema. Assistiu sua companheira comer com uma satisfação que nunca enfraquecera desde que a encontrou, meio faminta e com olhos selvagens. Irmão Lobo nunca se esqueceu de quão magra ela estava, e ele ficaria agressivo se pensasse que Anna não estava comendo o suficiente. Quando terminou de comer, ela se transformou de volta na forma humana. Sempre deixava Charles inquieto quando ela se transformava, vendo-a machucada e sabendo que não havia nada que pudesse fazer para ajudar. Ele andou de um lado para o outro um par de vezes, então se sentou e ligou a TV, passando ociosamente por canais até que Anna, humana novamente, tirou o controle de sua mão e desligou a TV. — Cama. — ela disse. — Ou você vai se ver casado com um zumbi. 156


Ele tinha intenção de falar com ela, se lembrou, contar a ela sobre seus fantasmas. Mas nenhum deles estava em forma para conversar. Charles a olhou e disse em sua voz mais séria: — Não acho que homens lobos possam se tornar zumbis. —Confie em mim. — ela continuou numa passável voz de zumbi — Outros dez minutos e eu comerei seus cérebros. Ele a puxou sobre seu colo — Acho que vou arriscar. Ela suspirou como se estivesse aborrecida, porém, seu faro lhe disse que ela gostava de estar em seu abraço. — Então você pode fazer isto sem uma plateia? É isso que o esteve aborrecendo nesses meses passados? Tudo que eu precisava fazer era convidar o clã para o nosso quarto? Você devia ter me dito. Ele riu. Ela o fazia rir. — Eu não sei. Vamos descobrir.

UM BOM TEMPO DEPOIS, Anna se espreguiçou antes de se afundar confortavelmente perto dele. — Urr, cérebros — ela disse. — Vá dormir — Charles rosnou, puxando-a para mais perto. — Eu adverti você. Mas você não me deixou dormir. — Ela deu um bocejo grande e pesado — E agora, não tenho nenhuma escolha além de comer seu cérebro. — Obviamente, você precisa de mais exercício antes de ir dormir. — Ele rolou sobre suas costas. — Suponho que terei de ser um bom companheiro e ajudá-la com isso. Ela rastejou para cima dele, nua, quente e suave, cheirando como um milagre que o salvou de toda uma vida de solidão. — Não quereria que você se esforçasse com nada... — Anna disse a ele — Por que só não fica deitado e pensa sobre a Inglaterra. A boca dele pegou a parte mais próxima do seu corpo — a parte suave dentro de seu cotovelo — e deu um suave beliscão. — A Inglaterra é a coisa mais longe da minha mente. Ela se acomodou em cima dele, levando-o dentro dela, e ele parou completamente de falar. Os olhos dela estavam azuis, os olhos do seu lobo, quando ela gozou para ele, pela segunda vez naquela noite.

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Corada e feliz, Anna se curvou e beliscou sua orelha. — Nenhuma necessidade de plateia, eu vejo. — Mova-se. — Charles disse a ela. Ela riu novamente, seus olhos ainda azuis enluarados, mas ela se moveu.

ELES ADORMECERAM. Charles acordou primeiro e observou o rosto dela na luz do fim da manhã. Era pacífico e agradava Irmão Lobo, embora a lua tivesse crescido quase cheia e o desejo de caçar sempre corresse forte em seus ossos naquela época. O contentamento ainda era algo novo para Charles, algo que nunca experimentara em toda sua longa vida antes de encontrar Anna. — Tenho pensado sobre os assassinos — Anna disse sem abrir seus olhos. — Três pessoas são um clã. Charles esperou que ela continuasse. Ela se sentou num estalo. Em uma voz cheia com excitação silenciosa, ela continuou: — O fae, ele é o soldado, o último na hierarquia de alimentação. Faz como é ordenado, quando é mandado a fazer. O velho, ele é a pessoa que deu início a tudo. Ele é o Alfa. — Mmm... — disse Charles, quando parecia que ela precisava da sua concordância. A lua da caça poderia não estar atiçando Irmão Lobo, conquanto tivesse Anna em sua cama, mas aparentemente Anna estava sentindo-a bastante fortemente. — Quem é o segundo jovem? — ela perguntou — Você acha que ele é o segundo submisso? Leal, dedicado? Ou ele é o Alfa em treinamento, esperando até que o velho esteja muito encanecido para controlar o clã, para que assim ele possa matá-lo e assumir o comando? — Nenhum de nós é um perfilador treinado. — ele se sentiu obrigado a assinalar. Ela saltou na cama, seus olhos castanhos reluzindo com excitação — Agora que Lizzie está a salvo, tudo que temos a fazer é resolver o resto. — Como eles têm tentado fazer por mais tempo do que você está viva — disse a ela secamente. — Sim, mas eles não tinham você e eu no caso. Eles tinham uma TV agora, e satélite — principalmente para que Anna pudesse assistir a seus programas de detetive. Ela estava gostando daquilo. Charles… Ele supôs que estava gostando também. Mais agora que os inocentes estavam seguros, no hospital ou no necrotério. 158


— O motivo — ela disse na mesma voz que ele imaginava que Arquimedes poderia ter dito “Eureca!” em seu banho, tantos anos atrás. — Não funciona do mesmo jeito nos casos de serial-killers como funciona na maioria dos assassinatos — ele disse. — Os seriais killers são viciados na caça e eles não são capazes de parar, na maioria das vezes. Suas vidas são controladas por matar. — Ele está etiquetando suas vítimas. — Anna disse. — O que isso diz? — Que são menos do que humanos. — disse Charles, repetindo o que ambos sabiam. — Animais para serem mortos. — Certo. Animais que ele matou. Ele está reivindicando a morte com aquela etiqueta. — Ela franziu o cenho — Não se supõe que os serial killers tentem entrar na investigação? Para assistir as pessoas lutando e falhando em resolver o caso; ou para controlar melhor o caso? — Eu ouvi isto... — Charles concordou. — Para alguns tipos de assassinos. Ela sorriu para ele. — Tudo sobre o qual o FBI sabe melhor do que nós. — ele disse. — Provavelmente ajudamos o caso tanto quanto nós podemos até que outra pessoa seja apanhada. A excitação de Anna se moderou — É muito ruim que não tenhamos sido capazes de machucar o senhor cornudo mais do que fizemos. Ele estava curado na maior parte quando alcançou o topo dos degraus, você notou? A polícia não tem uma chance contra ele. — Nós ficaremos aqui durante um tempo. Leslie e Goldstein pareceram ser pessoas sensatas. Eles nos chamarão se precisarem. Ela balançou sua cabeça e perguntou — O que Irmão Lobo diz sobre tudo isso? — Que esses caçadores não conseguiram o que querem; nós roubamos sua presa. Eles vão estar com fome e ainda mais perigosos. Por outro lado, eu, Charles, digo que devíamos comer alguma coisa, já que a manhã passou e nós perdemos o café da manhã e estamos em risco de perder o almoço; e Irmão Lobo está contente em concordar. — Você está sempre tentando me alimentar. — ela acusou sem calor enquanto saía da cama. — Não, este é Irmão Lobo. — Charles sorriu. — Eu cozinharei.

CHARLES TINHA A INTENÇÃO de conversar com ela sobre seus fantasmas durante o café da manhã, porque estava cansado ontem à noite e então foi distraído. Mas algo que ela tinha dito o incomodava. 159


— Charles? — Anna perguntou pacientemente. — Desculpe. — disse a ela. — Pensando. — Você quer um pouco mais de bacon ou posso colocar na geladeira para mais tarde? Havia quatro pedaços sobrando. Ele pegou dois e os comeu. Então ele pegou os outros dois e os levou até a boca dela. — Você precisa de mais proteína. Ela rolou seus olhos, mas os comeu em todo o caso. — Eu preciso verificar algo na Internet. — ele disse — Você pode tirar os pratos? — Você cozinhou; eu limpo — ela concordou. Ele foi com seu laptop até o quarto de hóspedes, onde havia uma pequena escrivaninha. Era mais lento que seu desktop em casa; e a tela era muito pequena para deixá-lo buscar tantas imagens de uma só vez, como ele gostava — e a conexão de Internet aqui não era muito rápida também. Ele rosnou de frustração enquanto seus dedos voavam sobre o teclado, como se mover-se mais rápido pudesse persuadir a máquina a esforçar-se mais. Começou com as coisas legítimas as quais teve acesso — Goldstein enviou-lhe um arquivo do caso, como prometido — e então cavou mais fundo. Esses assassinos, esses UNSUBS, tinham dinheiro — tinham poder. Anna estava certa: eles não seriam capazes de ficar fora da investigação. Em algum momento, Anna lhe trouxe uma pizza—contudo, ele não tinha notado quando ela fez a encomenda. Um pouco mais tarde, ela veio bater no seu ombro. — Você, Isaac e eu fomos convidados para uma celebração pelo retorno seguro de Lizzie. — Estou esperando por dois telefonemas. — Charles disse. — Seria uma excelente hora para um pouco de relações públicas com o Departamento de Policia de Boston; o que é importante para o clã de Olde Towne. Isaac me disse que eles tiveram algumas controvérsias esse ano. Ele girou sua cadeira, dando as costas para a escrivaninha, e olhou sua companheira. Ela parecia um pouco nervosa e seus olhos castanhos brilhavam levemente, destacados com o azul claro do seu lobo. Estava escuro lá fora, o que significava que ela esteve presa aqui por horas, com nada para fazer além de assistir TV. E estava perto da lua cheia. Não era justo fazê-la ficar mais tempo sentada por aí. — Pode ser uma perseguição a um ganso selvagem, mas estou em algo e gostaria de terminar. — disse a ela. — Você concordaria em deixar Isaac ser sua escolta? — Irmão Lobo não gostou disto, mas Charles não queria sufocá-la. Ele poderia terminar em cinco minutos ou em doze horas. E Isaac 160


era um bom lutador; Charles viu isto ontem à noite. Ele havia sido sobrepujado por tamanho e força e foi prejudicado por não poder ver seu oponente, mas lutava de modo inteligente. — Eu não preciso de um guarda-costas. — disse Anna, não se acreditou nem por um momento quando Charles chamou Isaac de escolta, mas ela não deixaria barato — Nós iremos a um lugar que estará cheio de policias, agentes do FBI e homens lobos. Deve ser bastante seguro. E um Alfa não está acima de ser um guarda-costas? — Me deixe feliz. — disse Charles. Ela suspirou fortemente; e então o arruinou com um sorriso astuto. — Eu disse a Isaac para vir me buscar, e que você iria encarregá-lo responsável pela minha saúde e meu bem-estar. — Se você sabia o que eu ia dizer, por que você entrou aqui e me incomodou? — Ele rosnou com falso aborrecimento Anna riu. — Vou me trocar. — Deixe-me saber quando você sair. — ele disse, já preso em seu trabalho novamente. Onde estava antes que ela o interrompesse? Quando ele foi se dar conta novamente, ela tinha saído.

— ELE TE DEIXOU sair sozinha? — Isaac, sem Charles para colocá-lo à margem, era mais relaxado do que Anna pensou, mas também mais insistente. — Eu estou com você. Além disso, mulher lobo aqui — disse a ele com o polegar apontado para o próprio peito — Não é exatamente uma princesa delicada precisando ser resgatada. — Não é o que ouvi. — Isaac disse — Perguntei sobre você. Ômega. Fui informado por meu segundo que deveríamos estar honrados por você estar visitando nossa cidade. Devíamos trazer presentes e ver se conseguíamos fazê-la abandonar seu clã e se juntar ao nosso. Quando assinalei que isso significava que Charles viria também; e me substituiria, fui informado que a bênção de ter um Ômega no clã sobrelevaria aturar Charles. Anna riu. — Lobos velhos. Acham que sabem tudo. — E depois ele se pergunta por que eu não faço mais indagações a ele. — Isaac concordou. — Então faça. Anna olhou para ele justo quando um pingo de chuva acertou seu nariz. As nuvens estiveram ameaçando e o ar cheirava a molhado, mas essa foi a primeira gota. — Fazer o quê?

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— “Aquele vodu que você faz” — Isaac disse. Observando a expressão dela, ele deu a volta e andou de costas, para que ela pudesse pegar o efeito completo da virada de olho dele e o cômico exagero. — O quê? Você não conhece Adam Ant50? — “A emoção de um dia mantém o frio longe” — ela cantou, então disse secamente — Não é sua melhor canção. Você me quer para o quê? Apagar você com meus incríveis poderes cósmicos de Ômega? — É o que eu disse. — Isaac se virou, caminhando ao lado dela mais uma vez. — Só que meu pedido soou frio, e o seu soa como uma manhã de sábado de desenho animado. — Eles estão mais para uns anti-superpoderes. — Anna explicou enquanto as primeiras gotas de água se tornavam mais uma chuva constante. —Se estivesse em uma revista em quadrinhos, eu seria a solitária menina boba em um time de homens incríveis e cheios de poder. Como Sue, a Mulher Invisível, do Quarteto Fantástico, que era invisível de tantos modos. O que deveria ter sido chamado de Terceto Fantástico e a Mulher Fofa e Sem Noção Que Corre Por Aí Arrumando Problemas e Sendo Salva. Isaac sorriu, sua expressão iluminada, aquela borda que os Alfas sempre levam suavizada — Nem mesmo Jessica Alba poderia salvar Sue de ser uma fracote. Anna suspirou de um jeito um pouco “angústia compartilhada” — Eu gosto de filmes de superheróis. Entretanto, foi melhor do que Mulher Gato; e Mulher Gato tinha material muito melhor para extrair. — Então você vai me enfeitiçar? — Isaac perguntou novamente. Ela acenou e fez umas firulas com os dedos, em seu melhor estilo mágico, entretanto já o atingira quando ele havia citado “Aquele Vodu”. Ela contorceu seu rosto e fez engraçados sons de gorgolejo, então disse, imitando a voz mais perfeitamente séria de Charles — Considere-se enfeitiçado. Eles caminharam juntos, amistosamente, por um quarteirão. — Eu não me sinto enfeitiçado. — ele disse. — O que você sente? — Ela perguntou. Isaac deu mais três passos antes de endurecer e parar. — Eu não estive bêbado desde que fui transformado. — sussurrou. — O que você fez para mim? — Você não está bêbado. Nem debilitado física ou mentalmente. — Anna disse a ele.

Adam Ant é o nome artístico de Stuart Leslie Goddard, líder e vocalista da banda Adam and the Ants. Embora tenha começado a tocar música punk, ele foi aos poucos mudando seu estilo em direção à imagem de um astro pop. Assim como David Bowie, Madonna e outros célebres camaleões da música, Adam era notório por reinventar sua imagem a cada disco novo. 50

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Ele curvou a cabeça, mexendo suas mãos; então girou e começou a caminhar de costas novamente, enfrentando-a. Anna continuou, mantendo um olho arguto para as coisas nas quais poderia bater ou atropelar. Ela se perguntou se Isaac fazia isto o tempo todo e, nesse caso, como conseguia evitar fotos de jornal com legendas do tipo “Alfa Local Tropeça em Criança” ou “Lobo Contra Placa de Rua, Placa Ganha”. — Sou eu mesmo de novo. — ele disse, seu rosto quase relaxado de admiração —Sou só eu aqui. — ele bateu na própria testa — Uma noite antes da lua cheia e eu não quero caçar ou afundar meus dentes em nada. — Isaac piscou rapidamente e girou de novo, de modo que ela não pudesse mais ver seu rosto. Depois de um momento ele disse: — É como se o lobo sumisse — Havia uma ponta de preocupação em sua voz. — Não. — Anna respondeu. — Só… em paz. Você poderia começar a se transformar agora mesmo se quisesse. — Por Deus, não é de se admirar que meu segundo estivesse salivando só de pensar em você. — respondeu — Você se preocupa sobre ser sequestrada? — sua voz se alterou só um pouco — Eu ouvi que Charles te salvou de uma situação abusiva. — ele olhou para ela, seus olhos reluzindo amarelo claro. O outro efeito de ser Ômega era que lobos dominantes tendiam a ser protetores demais com ela. Anna assentiu. — Charles me salvou. Meu primeiro clã me transformou e me manteve sob o cabresto deles. Uma de suas antigas estava louca e o companheiro dela achou que eu pudesse mantê-la sã. Quando Charles conseguiu lidar com eles, me ensinou como salvar a mim mesma. — Charles ajudou que ela recuperasse a confiança em si. Mas não importa o quão competente ela era em se proteger, Anna sabia que, no fim das contas, a mantinha protegida dos clãs de lobos que quisessem um Ômega para o deles. — Se alguém tentar me sequestrar, Charles os caçará. Você conhece muitos lobos que estariam dispostos a enfrentar isso? — O bicho-papão do Marrok? — Isaac perguntou com um bufar. — Não. — ele parou por um momento. — Especialmente se já o viram lutar. Hally me disse que ele não podia ver aquele fae, só saber quando estivesse por perto. Mas Charles lutou como se ele pudesse, como se soubesse exatamente onde aquilo estava. E eu nunca vi ninguém; nem homem lobo, nem vampiro, nem ninguém; se mover tão rápido. — O dom dele. — Anna concordou. A ruína dele. Talvez se Charles não fosse um lutador tão bom, seu pai teria enviado outra pessoa para manter a ordem entre os clãs. Mas isso não era uma discussão pública. Ela precisava mudar de assunto. — Então aonde nós vamos? — Uma lanchonete51 seria perfeita... só um pouco desgastada, com assentos Naugahyde gastos, mesas de fórmica numa péssima imitação de madeira, onde cafés são servidos para todo mundo em xícaras brancas e todas as comidas são cozinhadas em gordura insalubre: a recreação de um policial, o clichê de todo filme ou romance policial. A Anna se refere a um “diner”, uma daquelas lanchonetes em um trailer, comumente vistos em filmes e séries norteamericanos. 51

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— Quando Goldstein me ligou eu ofereci dar a festa no The Irish Wolfhound. — Isaac disse a ela. — O pub do nosso clã. Tem um grande salão para festas. Anna não pôde evitar um pouco de desapontamento —Estava esperando por uma lanchonete. Isaac riu. — A comida é melhor no Wolfhound, e é menos provável de termos visitantes não convidados. — a diversão morreu em seu rosto e o sorriso que ele deu a Anna foi apertado e infeliz. — Como eu lhe disse, existem membros da comunidade policial que não gostam de nós e adorariam provocar uma briga com a desculpa de excesso de bebida. Desse jeito estarão somente as pessoas que trabalham no caso; e a maioria deles está muito entusiasmada com o resgate de Lizzie para ficarem inquietos sobre como foi feito. — Parece muita comemoração quando nós ainda não pegamos os assassinos. — Anna disse. Isaac assentiu. — É como quando estava no segundo grau. No meu ano de calouro, o time de futebol americano acabou por ter essa… sinergia. No ano anterior, no ano posterior, eles foram bons. Mas aquele ano eles não só tinham os jogadores; eles tinham o time. Ninguém nem mesmo marcou contra eles até o último jogo da estação. O outro time marcou um field goal52 no quarto tempo; e as arquibancadas estouraram. Você teria pensado que tinham ganhado o jogo em vez de perderem por trinta e tantos pontos. Mas o que eles fizeram foi o que ninguém mais tinha conseguido fazer. — Entendo. — Anna disse. Os dentes brancos de Isaac brilharam. — Nós não ganhamos esse, mas não perdemos tampouco. — Você não estava naquele time de futebol, não é? — Havia algo em sua voz e o jeito que Isaac se referiu ao time do segundo grau como “eles”. — Não. Eu era o pequeno nerd que o meio-de-campo do time gostava de trancar nos armários do ginásio por diversão, quando o capitão do time não estava perto para mantê-lo na linha. Às vezes, quando eu estou me sentindo particularmente malvado, adoraria encontrar Jody Weaver de novo e tê-lo tentando me trancar em um armário agora. Anna riu… e parou, porque ela não sabia de futebol, mas tinha um pai e um irmão que eram fanáticos pelo jogo — Eu conheço esse nome. Jody Weaver. Ele é importante, certo? Isaac assentiu. — Ficou rico e famoso; e ainda é um bastardo. Provando de uma vez por todas que a vida não é justa. — Falando do que não é justo — Anna disse — você ouviu alguma coisa sobre Lizzie? Eu liguei para Leslie mais cedo, mas tudo que ela sabia era que Lizzie foi diagnosticada estável e que já a tinham na sala de operação por causa do joelho. É um termo do futebol americano que simboliza um “gol” que é marcado quando o jogador chuta a bola do meio de campo, e ela passa entre os postes do “gol”, por cima da trave. Vale 3 pontos para o time, diferente do Touchdown que vale 7. 52

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Isaac sacudiu sua cabeça. — Você sabe mais do que eu. Deixei uma mensagem no telefone de Beauclaire e o convidei para hoje à noite. Suspeito que ele não deixe o hospital. — Havia quaisquer pistas a serem obtidas na ilha? — Anna já sabia que o pessoal da perícia não havia encontrado muito por sua conversa com Leslie mais cedo. Mas existia uma possibilidade de que Isaac ou sua bruxa tivessem encontrado algo sobre o qual não falaram para as autoridades. Isaac balançou a cabeça. — Não. Era como se eles soubessem que a ilha seria vasculhada por homens lobos... A área inteira do cativeiro foi encharcada de amônia. Eles encontraram alguns objetos pessoais, o bastante para determinar que Jacob, Otten e um par de outras vítimas foram mantidas lá. — Se eles sabiam que nós estávamos indo, teriam deslocado Lizzie. — Anna comentou. Isaac anuiu — Certo. Suponho que estavam se preparando para um cenário pior. Eles estiveram matando homens lobos. Não querem que nós saibamos quem eles são. A explicação de Isaac fazia sentido. Ele provavelmente estava correto. E se não estivesse, eles descobririam quando os bastardos fossem pegos.

A CHUVA ESTAVA caindo quando alcançaram o pub. Pubs irlandeses em Boston, Anna notou, eram como pizzarias em Chicago: havia muitos deles e a maioria servia comida boa. Logo na porta de entrada espreitava um cão wolfhound irlandês de madeira, em tamanho natural. Era só um pouco menor em altura do que Charles, Anna mediu, mas cerca de um quarto tão largo. Ao redor de seu pescoço estava uma placa com os dizeres: SEJA BEM-VINDO AMIGO. Isaac acenou uma mão para a recepcionista e, com a outra mão na parte inferior das costas de Anna, a guiou por uma escadaria de madeira serrada. No topo das escadas, logo depois dos sanitários, encontrava-se uma porta marcada com o letreiro: FESTA PRIVADA. Depois da porta havia um grande salão, com quatro mesas de cavalete com cadeiras e bancos misturados, lotado de pessoas, a maioria das quais Anna não conhecia. Música celta tocava pelos altofalantes no teto e tinha jarros de cerveja e água em todas as mesas. Uma garçonete entrou pela porta nos fundos do salão. Ela pôs seus dedos na boca e assobiou. Anna tampou suas orelhas assim que os dedos da menina tocaram seus lábios, e o barulho penetrante ainda machucou. Ela podia nomear os homens lobos, porque eram aqueles com caretas em seus rostos. Ela reconheceu Malcolm, claro, mas existiam três outros no salão também. O silêncio baixou. — Tudo bem, cavalheiros e damas. Tem cerveja e água na mesa e nós manteremos os jarros cheios até às nove da noite. Se vocês quiserem algo diferente para beber, nosso Isaac diz que cobrirá também — Ela parou bruscamente de falar, interrompida por brindes. Isaac se curvou, e assentiu para a 165


garçonete continuar. — Novamente, até às nove, depois a comida e as bebidas saíram dos seus bolsos. Nós estaremos por aí para pegar os pedidos. Nossa especialidade é salsicha e purê de batatas, mas temos um ótimo guisado hoje e o peixe com batatas fritas está de morrer. Desfrutem! Ela se retirou pela porta às suas costas acompanhada de outro punhado de aplausos, e entraram dois jovens e uma mulher de meia-idade pela mesma porta e começaram a pegar os pedidos. Anna olhou em volta. Existiam, talvez, trinta pessoas no salão — se sete eram homens lobos, significava que havia vinte e três oficiais de polícia. O que parecia muito, até que ela colocou os olhos em Leslie. A agente do FBI estava sentada ao lado de um homem gigante, que parecia como se pudesse fazer sua parte em trancar pessoas nos armários. Ele se elevava sessenta ou, talvez, noventa centímetros acima de Leslie e, enquanto ela conversava com uma dupla de policiais à paisana, ele mantinha uma grande mão atrás do pescoço dela. Esse devia ser o marido jogador de futebol sobre o qual Leslie falou. Se todo mundo trouxe um acompanhante, os números fariam mais sentido. Ela viu um dos dois agentes da Cantrip, o que não era Heuter. Seu nome começava com um P. Patrick… Patrick Morris. Ele estava conversando com Goldstein. Então, não havia somente oficiais da polícia aqui. Anna decidiu evitá-lo, se possível, só no caso de ele compartilhar as ideias de Heuter sobre os homens lobos. Leslie olhou para cima, viu Anna e acenou. Nas duas horas que se seguiram, Anna se encontrou trocando de uma mesa para outra, respondendo perguntas sobre ser uma mulher loba. Em um momento tranquilo, ela assinalou para Leslie, bastante rabugenta, que existiam seis outros homens lobos — Isaac e seus cinco companheiros de clã — no salão. Então por que todo mundo estava fazendo perguntas a ela? — Todos os lobos estão respondendo perguntas. — Leslie respondeu. — Mas com você é mais fácil de falar; as mulheres não são tão ameaçadoras quanto os homens. — ela pensou sobre isso. — A maioria das mulheres, em todo caso. Conheço algumas que assustariam qualquer pessoa com um bocadinho de sensatez. Mas você é acessível. E você vai embora logo. Então, se eles te ofenderem, não têm que viver com as consequências. Assim, Anna explicou, repetidas vezes, que homens lobos podiam se controlar quando corriam como lobos — embora tendessem a ser impetuosos. Sim, todos os homens lobos tinham que se transformar durante a lua cheia, mas a maioria podia se transformar sempre que desejasse. Sim, prata podia matar um homem lobo — como poderia também, a decapitação ou várias outras coisas (Bran achava importante que o público não visse os homens lobos como tão invulneráveis). Não, a maioria dos homens lobos que ela conhecia eram cristãos convictos e nenhum dos que conhecia adorava Satanás. Uma vez, ela recitou alguns versos bíblicos para provar que podia fazer isso. Anna estaria mais exasperada sobre aquilo tudo, mas existiam criaturas were53 lá fora que não podiam citar a Bíblia (não que ela contasse isto a eles). — Seu marido é um homem lobo, certo? — perguntou um jovem quando ela passou por sua mesa.

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Refere-se aos seres que podem trocar de forma para animais, como os werewolves (homem lobos).

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— Certo. — Vocês já fizeram sexo como lobos? É diferente de sexo normal? Você gosta mais? — ele sorriu imensamente e deu um gole em sua bebida, obviamente pensando que ganhou uma sobre ela. Mas Anna cresceu em uma casa de homens: seu pai, seu irmão e todos os amigos do seu irmão, que pensavam nela como uma irmãzinha. Ele tinha muitos amigos. — Você já fez sexo com sua mãe? — Ela casualmente perguntou — Foi melhor do que com sua namorada ou você prefere com seu namorado ou seu rato de estimação? O queixo dele caiu e o sujeito ao lado bateu em sua cabeça e lhe disse: — E é por isso que você nunca vai conseguir um encontro, Chuck. Você vê uma garota bonita e as coisas que sua mamãe lhe ensinou sobre cortesia e todos os pontos de QI que você não pode contar com seus dedos, simplesmente deixam sua cabeça, e então você é compelido a abrir sua boca. As mulheres não são impressionadas pela rudeza. — ele olhou para Anna. — Ele se desculpa por ser um idiota. Ele se sentirá realmente mal sobre isso em cerca de quatro horas, quando ele começar a ficar sóbrio. Ele é realmente um bom policial e não normalmente... — ele olhou para o caro ofensivo e suspirou. — Bem, certo. Existe uma razão para que ele não tenha muitos encontros. — Como você sabia que eu tinha um rato de estimação? — Disse Chuck num tom cheio de temor. Ele estava realmente bêbado e provavelmente perdeu o ponto de tudo que o outro rapaz disse nos últimos minutos: tudo, exceto, evidentemente, o rato. Vários de seus amigos riram e zombaram com ele. Anna sorriu; ela não pôde evitar — ele soou mais ou menos como se tivesse seis anos de idade. — Eu posso cheirá-lo. — e isso começou outro round de perguntas. Não foi exatamente uma noite divertida — Anna sentiu como se gastasse a maior parte de seu tempo caminhando numa corda bamba. Mas foi melhor que estar presa no apartamento, enquanto Charles se enterrava na eletrônica. E não estava de todo mal. Ela gostou de conhecer o marido de Leslie, que era engraçado e esperto — e se ofereceu para colocar Chuck em um cesto de lixo. O peixe e as batatas fritas estavam soberbos, assim como o guisado. Eventualmente a fascinação com homens lobos pareceu se dissipar e Anna encontrou uma mesa quieta em um canto, onde ela poderia relaxar e observar todo mundo. O amigo do rude Chuck a viu e veio se desculpar novamente. — Ele sabe que fica estúpido quando bebe, então normalmente não bebe. Foi só um mau dia hoje, sabe? A última chamada que recebemos antes de vir para cá foi um abuso doméstico; o namorado de alguma senhora bateu nela e depois em seu bebê. Chuck tem um garotinho que ele não vê desde que sua ex-mulher se mudou para Califórnia, e as coisas estão bastante difíceis para ele. — Eu tenho dias ruins também. — Anna disse — Eu entendo. Não se preocupe sobre isso. 167


O amigo de Chuck assentiu e saiu para longe. Ela fechou os olhos por um minuto. Estava com um pouco de sono, graças a Charles, e isso a deixava com os olhos secos. Alguém veio e se sentou na cadeira oposta a ela. Anna abriu seus olhos para ver Beauclaire servindo um copo de cerveja para si mesmo. — Isaac disse que te convidou — disse a ele. — Mas tínhamos bastante certeza de que não iria vir. — Lizzie está fora da sala de operação. — disse a ela, bebendo sua cerveja como se fosse um vinho fino — Sua mãe e seu padrasto estão lá, e Lizzie estará anestesiada e adormecida até amanhã. — ele sorveu um gole maior. — Sua mãe acha que é minha culpa ela ter sido raptada. Como eu concordo com ela, estava difícil me defender, e então eu fugi pra cá. Anna sacudiu sua cabeça. — Nunca aceite a culpa pelo que as pessoas más fazem. Somos todos responsáveis por nossas próprias ações. — ela o estava repreendendo, por isso parou. — Desculpe. Passe muito tempo com Bran, e veja se não começa a distribuir conselhos do Marrok como se ele fosse Confúcio. Como Lizzie está indo? — Seu joelho estava esmagado. — ele olhou para a parede atrás de Anna, onde havia uma gravura muito boa de um castelo irlandês. — Eles puderam consertar o suficiente para que ela pudesse caminhar, mas dançar está definitivamente acabado. — Sinto muito. — Anna lamentou. — Ela está viva, certo? — Beauclaire disse, e tomou um longo e lento gole. — As coisas que eles esculpiram em sua pele… Com o tempo, os cirurgiões poderão ser capazes de se livrar daquilo, eles acham. Até lá, toda vez que que se olhar no espelho, Lizzie se lembrará do que passou. — ele parou. — Ela sabe que nunca dançará novamente. Isso a quebrou. — Talvez não. — disse Leslie. Ela sentou-se ao lado de Anna no banco marrom escuro e pôs sua bolsa na mesa. — Alguém me deu algo, muito tempo atrás, e eu nunca usei. Eu acho, sobretudo, porque eu tinha medo. E se eu tentasse usá-lo e falhasse? Ela abriu a bolsa, procurou até que encontrou sua carteira e tirou um cartão branco e liso, dando-o para Beauclaire. Parecia um cartão de visita para Anna, mas em vez de um nome, a palavra PRESENTE estava digitada no centro do cartão. Beauclaire o pegou e esfregou seus dedos por ele, e um sorriso lânguido cruzou seu rosto. — E como você conseguiu isso? Leslie pareceu desconfortável, quase envergonhada. — É verdadeiro, certo? 168


Ele assentiu, ainda brincando com o cartão — É verdadeiro, sim. Ela respirou fundo. — Aconteceu assim... — ela, então, desfiou um conto de monstros que comiam crianças e sonhos de infância; inclusive o cachorrinho de Leslie, e uma velha feroz que sabia um pouco sobre os faes e sobre uma dívida contraída e uma barganha feita. — Você pode usá-lo para consertar o joelho da sua filha? — Leslie perguntou. Beauclaire balançou sua cabeça e devolveu o cartão para Leslie. — Não. Mas eu me lembrarei de que você ofereceu... E lhe darei um conselho, se você não se importar. O fae que deu isso para você, o fez com as melhores intenções. Apesar de não nos reproduzirmos, tendemos a ser pessoas muito longevas. Treasach era muito velho, e poderoso também. Mas a morte vem por todos nós eventualmente, e ela veio para ele. Leslie guardou o cartão e esfregou seus olhos com a ponta de seu dedo para não arruinar sua maquiagem. — Não sei por que estou me sentindo desse modo. É estúpido. Eu o encontrei uma vez, por menos de dez minutos… e… eu não o esquecerei. — Não. — Beauclaire concordou seriamente — Treasach era uma maravilha. Poeta, lutador, companhia jovial, e não há mais como ele para ser encontrado. Nenhum de nós o esquecerá. Magia fae, entretanto, às vezes tem sua mente própria. Isso foi dado a você para resolver uma dívida. Ele pretendeu que fosse um presente e uma bênção, mas sua morte significa que sua vontade não o liga mais àquele pedaço de magia. Use-o ou não, como você desejar, mas use-o para uma coisa pequena, ou por algo que se equipare ao pesar de um bom homem que não pôde poupar uma criança da dor do destino de seu cachorrinho. Se você se lembrar de suas exatas palavras, use-o para isso: pelas palavras dele e pela dívida às quais essa magia está subjugada. Vá além dessas coisas com seu desejo e causará estragos desagradáveis. — Vocês têm curandeiros? — Anna perguntou. — Curar está entre as grandes magias e nós temos muito poucos curandeiros sobrando entre nós; e a maioria deles é até menos digna de confiança que o presente de Treasach seria. — ele tomou um gole de sua cerveja e assentiu para Leslie. — Minha filha caminhará novamente, mas não dançará. É o caminho dos mortais. Eles se lançam para a vida e emergem quebrados. — Ela sobreviveu. — disse Anna. — Ela é forte. Ela lutou contra eles por cada passo do caminho. Ela fará isso. Beauclaire assentiu educadamente. — Alguns mortais fazem. Alguns deles o fazem muito bem quando coisas horríveis acontecem a eles. Alguns deles… — Ele sacudiu a cabeça e tomou outro gole de sua cerveja, e então disse com calma selvageria — Às vezes, pessoas quebradas permanecem quebradas. — ele olhou para ela — Por que eu estou lhe dizendo tudo isto? Anna encolheu os ombros. — As pessoas conversam comigo. — ela não sabia o que mais dizer, então seguiu seu impulso. — Eu estive onde Lizzie está, brutalizada e apavorada. Alguém me salvou 169


antes que meus capturadores pudessem me matar. Perto disso… perder algo que ela ama é trágico. Mas ela não parece ser o tipo que pensará que estaria melhor morta, não no final das contas. Beauclaire olhou para seu copo. — Sinto muito ouvir que você precisou ser salva. Ela encolheu os ombros novamente. — O que não nos destrói, nos faz mais forte, certo? — acabou soando impertinente, de modo que ela adicionou: — Eu conheci uma mulher quando estava na escola. Ela era inteligente, uma musicista talentosa e trabalhadora. Ela veio para o colégio e descobriu que suas qualidades não eram suficientes para fazê-la a primeiro violinista, ou mesma a segunda, e ela tentou se matar porque teve que sentar-se com os terceiros violinistas. Foi a primeira decepção real que ela tinha tido em sua vida e não soube lidar com isso. Aqueles de nós que vivem no mundo real e sobrevivem a coisas horríveis, emergem mais fortes e prontos para enfrentar o amanhã. Lizzie estará bem. Beauclaire fez-lhe uma carranca. Ele olhou para longe e então disse: — Você poderia visitá-la e falar com ela sobre isso. Ela não queria. Anna não era uma conselheira e não gostava de falar sobre o que aconteceu com ela com estranhos — entretanto, isso não a parou hoje à noite, não é? Anna estava bem porque Charles a encontrou e a ensinou a ser forte. Lizzie teria que encontrar sua própria força e Anna não sabia como dizer a ela onde encontrá-la. — Eu verei o que eu posso fazer. — ela relutantemente prometeu. Estava exausta por estar em exposição e por pensar sobre coisas que tentou deixar para trás. — Se vocês me derem licença, acho que irei ao banheiro. Ela deixou Leslie conversando com o fae e se deixou sair do salão de festas. Longe do barulho e da sala cheia de tantos estranhos, Anna se sentiu melhor. Ela usaria o banheiro, comeria a comida que pediu e iria para casa. Quando saiu do banheiro, não estava contente de ver que Agente Heuter estava encostado contra a parede próxima à porta. Não tinha ninguém sobrando no espaço do restaurante, que devia ter fechado às dez. Então ela e Heuter estavam sozinhos, no corredor próximo à entrada para o salão onde a festa ainda estava bombando. — Então você é a heroína do dia. — ele disse. Alguma coisa na voz dele não batia com as palavras, e ela franziu o cenho — Na verdade, não. Você me dá licença? Mas ele entrou na frente dela. — Não. Acho que não. Não hoje. E alguém que não estava lá, agarrou-a por trás e a pôs para dormir. CAPÍTULO 11 170


 Anna despertou com um doentio gosto doce em sua boca, que se espalhou para seu nariz e seus canais nasais, amortecendo qualquer outra coisa que seu nariz pudesse lhe dizer. Náusea e uma enxaqueca podre competiam com a coleira de prata, as algemas e correntes em estilo medieval, de alto teor de prata, pelas honras de “distração mais miserável”. Anna tentou se lembrar do que aconteceu para acabar encadeada como se na fantasia extrema de BDSM de alguém, em uma gaiola de tamanho humano pendurada num grande quarto vazio. Estava escuro e ela estava só. Ela conversara com Heuter, quem estava agindo estranhamente. E então… caramba. Eles realmente usaram clorofórmio nela? Longas décadas de assassinatos, magia de bruxa, linhagem sanguínea fae antiga, rara e assustadora — e eles usaram clorofórmio. Várias vezes, se suas embotadas lembranças de acordar no banco traseiro de um carro forem precisas. Simplesmente parecia tão… mundano. Ela se ergueu sobre suas mãos e joelhos — e chegou até onde as correntes permitiram. Deixou que a queimadura da prata e a necessidade desesperada de vomitar seu jantar a mantivessem longe do pânico enquanto ela tentava pensar, em torno da enxaqueca, num plano de ataque. Lizzie foi estuprada em horas após o sequestro. Foi quase a primeira coisa que eles fizeram. E esse foi o pensamento que fez Anna vomitar. Tão deliciosa quanto à comida no pub irlandês de Isaac estava, na segunda vez, não tinha um gosto muito bom. Conseguiu colocar a maior parte disso fora da gaiola, mas o bastante ficou em seu cabelo — por alguma razão, ter suas mãos algemadas e encadeadas, impedia sua habilidade de manter o cabelo fora de sua boca — e respingou na borda do piso, o que incrementou seu tormento. E então ela se perguntou se estava tão só no quarto quanto pensava. Ela não podia ver ou cheirar o fae que esteve guardando o cativeiro de Lizzie na ilha. O pânico a ameaçou e ela o dominou porque não lhe faria nenhum bem. Charles estaria procurando por ela agora. Mas quando ela tentou acessar o vínculo de ambos, estava fechado tão apertado quanto nunca esteve antes. Charles não sabia que ela estava desaparecida? Isaac diria a ele imediatamente. Mas e se Isaac não soubesse? E se Heuter lhe disse que Anna decidiu voltar sozinha para o apartamento? Mas não fazia sentido, porque Isaac seria capaz de dizer que Heuter estava mentindo — e Heuter sabia disto. Ele teria que ficar tão longe do caminho quanto pudesse, assim não se entregaria para os homens lobos. Então, por que Charles não abriu a ligação entre os dois? Houve barulho fora do quarto cavernoso e Anna se agachou, tentando acalmar sua respiração e diminuir a velocidade das batidas de seu coração para poder ouvir através das portas fechadas e das paredes. Eles estavam falando bastante ruidosamente, então não era muito difícil pegar a maior parte. 171


—… bonita. Gosto das mulheres e ainda mais das bonitas. — Achei que você decidiu que era um super-herói, Buldogue? — A voz de Heuter estava zombando. — Paga bem. — o estranho disse. — Melhor que um trabalho de zelador. Nunca arrume um trabalho para limpar o chão; arrume um para salvar a prostituta do seu alcoviteiro. Esta que nós pegamos agora é bonita. Ela não é bonita? — Não tanto quanto a que você deixou fugir. — disse Heuter. — Não é minha culpa. Não é minha culpa. Aquele grande lobo, ele ia me matar. — havia uma ponta de histeria na voz do homem e uma estranha cadência no seu padrão de fala — Você nunca disse que eles teriam um monstro com eles. Matar homens lobos não é difícil. Matei todos os que Tio Travis me mandou. Por que esse é tão difícil de matar? — A bruxa fez algo. — disse Heuter. — Usou algum tipo de magia, então o lobo podia ver você e deve tê-lo feito mais forte. A garota que nós pegamos hoje à noite é a esposa dele. — Ele vai estar tão bravo comigo. — ele soou assustado. Heuter afastou isto na passagem. — Ele tem que nos encontrar primeiro. Esta será a última no ano, e então partiremos. — Eu a terei primeiro. — disse o homem que não era Heuter. Anna estava bastante certa de que Heuter não era o fae; seguramente Beauclaire poderia ter dito se ele fosse. Ela decidiu que o outro homem devia ser o fae. Nenhum deles soava com o um velho, e Lizzie lhes disse que um homem era mais velho — e se Anna decidisse que um dos que falava era o fae, nenhuma pessoa invisível poderia estar observando-a das sombras. — A terei primeiro porque aquele lobo me machucou. Eu vou machucá-la. Vou tomá-la até que ela entenda quem é o chefe. Sou... Ele continuou nessa linha, se colocando num frenesi enquanto usava um palavreado mais sujo para descrever o destino dela em feios detalhes. Anna deliberadamente parou de escutá-lo. Ela aprendeu como fazer isso logo depois de ser transformada, e não havia nenhum Charles para salvá-la dos loucos bastardos no quebrado clã de Chicago. Ela não podia sentir Charles. Ele chegaria muito atrasado e isso o destruiria. Anna se arrastou nas correntes, mas elas seguraram homens lobos antes e não existia nenhum modo de poder quebrá-las. Soprando em suas mãos para aliviar a queimação, ela pensou sobre como Isaac disse que seu lobo Otten tinha esperado por uma chance, mas os assassinos não deram uma a ele. Não podia se permitir esperar — tinha que fazer sua própria chance. Porque Anna foi uma vítima uma vez, e estava condenadamente segura de que não o seria novamente. 172


Apesar de sua determinação, ela estava assustada. Suas chances não eram boas—estes homens conseguiram matar muitas pessoas, homens lobos e faes, alguns deles consideravelmente mais experientes em se proteger do que ela era. O cheiro doente e acre de seu terror queimou o último resquício do clorofórmio em seu nariz e ela agarrou seu medo, a dor prolongada da enxaqueca e a dor que se infiltrava em seus músculos devido à prata. Rebateu tudo isso contra as algemas de metal que a seguravam — pescoço, pulsos, e tornozelos — e chamou a mudança. Aquele não era um clã de homens lobos; eles eram humanos e fae. Estuprar Anna quando na forma de lobo era uma proposta completamente diferente de fazer o mesmo a ela quando não tinha dentes arrepiantemente afiados e garras que faziam frente a qualquer puma no planeta. A transformação sempre machucava. Sempre. E ela há muito tempo aprendera a usar a dor para abrir seu caminho através da sensação grotesca dos ossos se estirando e juntando, de músculos crescendo e dentes afiando, o que era muito mais intolerável do que uma mera dor. Dessa vez, a mudança foi pior do que o habitual. Sua garganta se curvou sob a pressão da coleira de prata. Então se curou e se curvou novamente, presa dentro de uma faixa de metal que era muito pequena para contê-la. Ela pensou que estava apenas frustrando seus sequestradores ao matar-se, quando algo no mecanismo mais frágil do fecho finalmente quebrou, cuspindo fora um pedaço de metal. A coleira caiu longe dela, atingindo o chão e partes da corrente com um tinir severo. Sugando o ar como um fole, ainda teve que segurar seus planos e esperar para que seus braços, que estavam se transformando em suas patas dianteiras, se movessem apenas no momento certo, enquanto suas mãos ainda fossem mãos, mas quando seus braços já tiverem se alterado ligeiramente, a fim de sair do agarre da algema. Seus pulsos sangraram e ela arquejou, tentando ficar quieta, enquanto se libertava das faixas de prata de cinco centímetros de largura que a aprisionavam. Não se preocupou sobre as algemas em seus tornozelos porque elas eram mais largas e o lobo tinha acabado de sair delas. Esperou, mas não houve nenhuma pausa na conversa do lado de fora. Ou estavam muito envolvidos para notar ou já previam que ela fizesse um pouco de barulho ou suas orelhas eram muito humanas para ouvir através das paredes do jeito que podia ouvi-los. Ela se deitou extenuada por um tempo — então percebeu que o momento estava prolongando o próximo passo, sem qualquer mudança adicional acontecendo. Era perigoso ficar meio-transformada, entretanto alguns dos lobos mais dominantes podiam fazê-lo durante algum tempo. Anna lutou por um jeito de continuar a mudança, mas seu corpo estava exausto, tremendo com a necessidade de comida e… Eles a doparam com algo. A maioria dos homens lobos era imune a drogas e álcool. O metabolismo deles simplesmente era muito rápido, mas tinham lhe dado algo, provavelmente um lote

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inteiro de algo. GHB54 ou Rohypnol55, talvez — ou algum sedativo projetado para mantê-la submissa. Não foi nenhuma competição para a onda de adrenalina que o pensamento de estar impotente nas mãos de sequestradores e assassinos trouxe — mas tinha enguiçado sua mudança. A dor veio em ondas, porque seu corpo não foi feito para ficar preso por tanto tempo assim. Fluidos, claro, rosa e vermelho-claro, começaram a vazar sobre o piso da gaiola. Ela buscou por Charles e encontrou a lua, ao invés. Amanhã chegaria a noite de lua cheia, quando sua música era muito forte para resistir, mas hoje à noite ela estava crescendo e cheia de força que emprestou para sua filha, que pediu. Com um espasmo doloroso, que raspou a corrente e as algemas ruidosamente no fundo da gaiola, enquanto seus músculos dobravam , rasgavam e se alteravam, Anna reiniciou sua transformação.

CHARLES ESTAVA ABSORTO em seu trabalho. Irmão Lobo amava a caça, mesmo quando estava nos computadores, em vez de em carne e sangue. Os dois podiam cheirar sua presa, fraca e trêmula, fora do alcance deles. Dessa forma, o primeiro golpe na porta produziu nada mais do que um grunhido de aborrecimento. Foi Irmão Lobo quem notou que algo estava errado na segunda vez que o golpe veio. Mesmo enterrado no estágio final de sua caça, seus sentidos ainda estavam em alerta, e eles contaram a Irmão Lobo que a senhora inteligente do FBI, o homem inteligente do FBI que tentava muito ser subestimado, o fae cuja filha fora machucada e o Alfa local estavam batendo em sua porta — e todos deviam estar com sua companheira, que não estava aqui. Anna. Charles buscou por ela, mas não podia tocá-la através da ligação de ambos, nem mesmo pela ligação de clã. Com a ajuda dele, seus fantasmas o isolaram bem e verdadeiramente. Enfurecido e apavorado por Anna em igual medida, abriu a porta sabendo que seus olhos estavam mostrando Irmão Lobo. — Onde está Anna? — rosnou. Isaac devia se assegurar de que ninguém a machucaria enquanto Charles trabalhava. A tentação de culpar o Alfa de Olde Towne se ergueu e foi banida. Anna era de Charles; ela era dele para proteger e ele falhou. Irmão Lobo queria investir na noite e matar até que a encontrassem; Charles o conteve sabendo que existiam melhores caminhos para encontrar Anna mais depressa — e sangue fluiria quando ele o fizesse. — Estávamos esperando que você pudesse nos contar. — Isaac disse. — Ela foi para o banheiro feminino e nunca voltou. Vocês dois estão acasalados, certo? Você pode dizer onde ela está? Charles tentou novamente. Ali mesmo e com os outros ainda de pé na entrada, tentou novamente abrir o vínculo que ele fechou para protegê-la. GHB: Gama Hidroxibutirato, também chamado de ecstasy líquido. Rohypnol: Uma marca de droga flunitrazepam usada como um hipnótico: a sua capacidade de tornar uma pessoa inconsciente e desorientada ao despertar tem sido explorada por estupradores. 54 55

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Nada. Ele tentou mais forte, tentou até que machucasse mais do que a transformação. Rosnou e tentou novamente — e sentiu os fantasmas que o assombravam uivarem em triunfo. Ele girou e caminhou quase cegamente até que se olhou fixamente no grande espelho do quarto. Os fantasmas estavam irreconhecíveis, tendo se derretido numa única criatura com cinquenta bocas e vinte mãos, que estavam ativamente dando nós nas faixas de seu laço. Podemos matá-la, não importa o quanto você tente protegê-la, disseram a ele, suas vozes altas e malignas. Por sua culpa, por sua culpa nós morremos, por sua culpa ela morre. Uma voz começou a rir, e então os outros continuaram até haver uma cacofonia profana em sua cabeça. Tinha sangue escorrendo do nariz de Charles e o branco de seus olhos estava rosa, com os vasos sanguíneos arrebentados — o que fazia seus olhos amarelos parecerem particularmente estranhos. — Você tentou localizá-la? — ele perguntou a Isaac, enquanto continuava a olhar fixamente no espelho, sua voz tão baixa e áspera que não a reconheceu como sua própria. Ele pôs sua ira em um pequeno lugar gelado e prometeu libertá-la se o deixasse trabalhar agora mesmo. Estaria frio e controlado até que achasse onde esconderam sua Anna — e então ele os reduziria a pequenos pedaços de carne. — Sim. — o Alfa de Olde Towne disse. Charles se afastou do espelho para encontrar Isaac observando-o cautelosamente da relativa segurança da sala de estar, enquanto continuava a explicar — Eu a rastreei até banheiro feminino e para fora de novo. Então ela andou mais ou menos sessenta centímetros na direção contrária de pretendesse voltar para a festa; o que ela pretendia, porque tinha pedido outro round de peixe e batatas fritas, de acordo com a garçonete que o entregou... e então a trilha de seu cheiro simplesmente acabou. Como a de Otten. Isaac devia ser um bom sabujo. Era incomum para um lobo tão novo poder seguir cheiros tão bem, mesmo na forma lupina. Não importa o quão bom ele era, Charles era melhor. O computador não confirmou suas suposições ainda, mas estava só esperando pelo golpe final. Considerou seguir as pessoas que decidiu estarem por trás das mortes — mas se ele estivesse errado, significaria que Anna ficaria nas mãos dos seus sequestradores enquanto ele a caçava pelo caminho errado. E aí havia o problema de que as pessoas que ele estava vigiando tinham quase os mesmos recursos de Bran e ele precisaria... — O que há de errado com ele? — Leslie perguntou em uma voz calma que, todavia, interrompeu seus pensamentos —Por que ele está sangrando assim? Vê seus olhos? Não estavam assim quando ele abriu a porta. — Não tenho a menor ideia. — Isaac disse calmamente — Olhem, vocês dois não têm chance se ele se perder. Fiquem fora daqui, para trás, fora do caminho, mantenham suas armas em punho e observem. Se parecer que ele está indo para vocês, só atirem; e tenham certeza que os tiros acertem. Se ele for o lobo que penso que é, preferirá estar morto a ter vocês tornando-se danos colaterais. E se ele for longe o suficiente para pegar civis, não vai ser muita ajuda para Anna, em todo caso. 175


— Civis? — disse o oficial do FBI, soando ofendido. Irmão Lobo poderia ter sabido seu nome, se ele se importasse. Mas sua companheira estava desaparecida e ele não ligava para nada e ninguém, com exceção daquilo. Isaac ignorou o agente — talvez tivesse se deixado levar por aquele semblante cansado, parecendo esgotado, mas Irmão Lobo sabia melhor. Ele reconheceu um camarada predador no agente do FBI, embora Goldstein — o nome veio quando o buscou — Goldstein não era nenhuma ameaça para qualquer coisa com que Charles se importava. — Humanos são civis aqui. — disse Charles. Aos seus ouvidos, soou tranquilo. — E vocês poderiam escutar Isaac, embora não ache que irei tão longe a ponto de machucar nossos aliados. Isaac, eu deveria ser capaz de encontrá-la, mas não vou poder usar nosso vínculo hoje à noite. — sua garganta fechou quando Irmão Lobo lutou para se erguer com a admissão de pânico de Charles. Anna estava desaparecida. Anna estava nas mãos das pessoas que machucaram a pequena dançarina. Sua Anna, que já sobrevivera a tanto — ele jurou que nada assim jamais aconteceria com ela novamente quando era deles. E eles falharam, Irmão Lobo e Charles, duas almas compartilhando uma pele… Eles falharam com sua companheira. Charles convenceu a Irmão Lobo de que eles tinham uma chance melhor de achar Anna na forma humana ao invés de na de lobo, mas tomou mais força de vontade do que ele próprio sabia que tinha. — Ele não pode encontrá-la? — Leslie perguntou. — Eu lhe disse que não era uma coisa certa. — Isaac disse a ela. — O laço de acasalamento é uma coisa muito pessoal. Isaac estava fazendo um bom trabalho em manter sua natureza de Alfa sob controle; sua voz estava suave e nada ameaçadora. Irmão Lobo gostava de Isaac, e agora não seria uma boa hora para querer disputar quem era o mais dominante. Pessoas morriam em brigas como essas — e Irmão Lobo estava desejando violência agora mesmo. — Você também disse que se não funcionasse poderíamos estar com sérios problemas. — disse o fae, pai da forte e pequena dançarina — Porque não há uma pessoa nessa cidade mais perigosa do que um lobo cuja companheira esteja em perigo. Estamos com sérios problemas? Sim, pensou Charles. Ele precisava fazer algo urgentemente — mas a ira de Irmão Lobo estava nublando seus pensamentos. Ele precisava chegar a seu computador e confirmar... — Não quero que aqueles bastardos atinjam Anna. — Leslie disse. —S e Charles não pode encontrá-la, que tal o meu desejo? Você disse que era perigoso usar, exceto para meios específicos ou pequenos. Mas eu perdi um filhotinho; e agora estamos tentando encontrar outro. Charles estreitou seus olhos para ela — Que desejo? 176


Beauclaire o ignorou, olhando fixamente para Leslie com algo que muito próximo do deleite. — Inteligente. — ele disse. — Oh, esse é um modo inteligente de olhar para isso. — Um homem fae me deixou um presente quando eu era criança. — Leslie disse para Charles, e lembrou-se de não olhá-lo nos olhos — Para compensar-me por ele não estar lá para salvar meu filhotinho, acho. Nunca o usei, e nosso perito em magia fae diz que preciso ser cuidadosa com isso. Mas soa como uma troca justa para mim. — ela olhou para Beauclaire. Gravemente, ele assentiu. — Acho que poderia estar bem. Ela abriu sua bolsa e abriu sua carteira, e Charles pôde cheirar a magia de onde estava. A magia fae era bastante forte para fazê-lo espirrar, bastante poderosa para dar-lhe esperança. Ela retirou um pequeno cartão branco de sua carteira. — Não estou exatamente certa de como fazer isto. — Magia segue a intenção. — disse Charles, e Beauclaire lhe deu um olhar penetrante — Diga o que você quer e rasgue o cartão para lacrar o negócio. — Desde quando o filho do Marrok se tornou um perito em magia fae? — perguntou Beauclaire; e Charles viu Goldstein observando afavelmente. Foi “o filho do Marrok” que fez isto. Goldstein ouviu aquela expressão antes e agora queria saber o que significava. — E desde quando os faes desistem de informações sobre os homens lobos? — Charles contradisse suavemente. Anna estava desaparecida: ele não se importava com o quê Goldstein descobriu. Mas o fae estaria muito bom para satisfazer o desejo de Irmão Lobo de rasgar carne até que sangrar. Beauclaire, Irmão Lobo decidiu, seria um oponente digno, e uma vez que ele matasse algo, talvez pudesse pensar claramente de novo. Beauclaire deu um cauteloso passo para trás e Isaac apartou-os — Você não quer fazer nada imprudente, Charles. — ele alertou — Estamos todos no mesmo time aqui. — Desejo — disse Leslie, chamando a atenção de Charles para longe do fae. — Desejo… — ela olhou para Charles. — Um filhote perdido por outro; mas Anna é sua como Toby era meu. Então eu desejo que, como perdi meu filhote, meu cachorro que amei, que Charles encontre sua loba perdida. — ela rasgou o cartão pela metade e a magia… fez algo. O telefone de Charles tocou antes que ele pudesse compreender o que a magia fez. Seu súbito e vociferante toque, que não era a música que tocava quando Anna ligava, irritou Irmão Lobo, que o tirou do bolso e o esmagou para fazê-lo parar. Todo mundo no apartamento parou de respirar — e Charles percebeu que sua habilidade de falar coerentemente deu-lhes uma falsa sensação de segurança. — Quanto tempo até que funcione? — ele perguntou a Beauclaire em uma voz suave e macia.

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O fae suspirou. — Nem sabemos se funcionará, homem lobo. Algo aconteceu, mas não era minha magia naquele cartão. Treasach tendia em direção a uma magia sutil, que se esgueira atrás de você. Outro celular tocou e Charles rosnou. Isaac pegou seu telefone e começou a digitar o botão de desligar, mas parou. — Quatro-zero-seis é o código de área de Montana, certo? Ele atendeu ao telefone antes de Charles responder e, tão clara quanto o dia a voz do pai de Charles saiu do viva-voz do celular de Isaac. — Tenho uma sensação de que meu filho está com problemas — Bran disse. — E tenho o hábito não ignorar minha intuição, especialmente quando nem ele nem Anna estão atendendo aos seus telefones. Isaac deu a Charles um olhar nervoso. — Está certo. Charles está aqui e Anna foi pega pelos bastardos assassinos que estamos perseguindo. Temos o FBI aqui, os dois que têm trabalhado conosco. E Beauclaire está presente também, o fae cuja filha salvamos ontem. Era um informe muito bom do que estava acontecendo, Charles pensou. — Por que Charles não está procurando Anna? Irmão Lobo rosnou. — Isto não é útil, Charles. — Bran disse. — Ele diz que não pode contatá-la. Houve uma pausa muito longa e então seu pai disse com calma: — Charles. É a mesma coisa que estava te aborrecendo antes de ir para Boston? Charles não podia responder, não estava humano o suficiente para responder. Ele girou e andou para o outro lado da sala. Se ele não os tivesse matado, se não tivesse executado aqueles lobos em Minnesota, poderia encontrar Anna antes de ela ser machucada. — Antes de Boston… — disse Isaac, e sua voz diminuiu — Oh, eu sei o que você fez antes de Boston, Charles. Isto pode ficar sujo. — ele disse para os outros, de repente decisivo. — Acho que podemos fazer alguma coisa, mas seria melhor se seu pessoal, que é um pouco mais fácil de machucar, estiver fora do caminho. Vocês se importariam de esperar no corredor? — Você tem algo para falar que não quer que ouçamos. — disse Goldstein. — Você não tem que mentir. Iremos esperar.

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— Nunca minto para os policiais ou o FBI. — Isaac disse. Ele estava sendo verdadeiro, Charles notou um pouco distraidamente. — As coisas podem ficar bastante ruins antes de melhorarem e não quero que vocês se machuquem. Isaac não disse nada para Beauclaire, mas o fae disse: — Penso que esperarei lá fora com os outros. Será mais fácil sem mim aqui. Houve um clique silencioso quando a porta da frente foi fechada e outro quando Isaac a trancou. — Tudo bem. — Isaac disse, e levou um momento para Charles perceber que ele estava falando com Bran. — Estamos só Charles e eu, embora Beauclaire ouça muito bem. Ele pode ser capaz de ouvir cada palavra que dizemos. — Aceitável — falou o Da de Charles decisivamente. — Beauclaire é digno de confiança, e ele nos deve uma, se você resgatou sua filha. Confiem em Da para conhecer Beauclaire. — Bom. — disse Isaac. — Então estou pegando isso direito e existe algo sobre a mer... — Ele parou, provavelmente se lembrando de alguém o advertindo a não praguejar perto de Bran. O pai do Charles era velho, e embora pudesse praguejar melhor do que ele (normalmente em galês), geralmente preferia evitar. Ele podia ficar bastante assustador com subalternos que tinham bocas sujas. Isaac continuou com adjetivos ligeiramente mais leves — O estrago em Minnesota que esteja prendendo Charles e que, de algum jeito, está interferindo na ligação com Anna? — Não sei. — disse Bran. — Charles, é esse o problema? Charles não conhecia bem Isaac e falar na frente dele era similar a dançar pelado em público. Mas se seu pai podia encontrar um jeito para ajudar—e se ele não pudesse ninguém poderia — então Charles tiraria suas roupas e correria nu pela Congress Street no centro de Boston, na hora do almoço, só para conseguir uma chance de falar com Bran. — Eles quebraram o vínculo. — Charles disse. — Quem quebrou? — perguntou Bran. — Os fantasmas das pessoas que matei e que deveriam estar vivas. — Ele virou para olhar para seu pai, mas tudo que viu foi Isaac segurando seu celular aberto. Sorriu severamente para Isaac, que deu um passo para trás, e falou para ele: — Outro homem provavelmente teria um surto mental, e culparia a todos os tipos de psicoses. Mas meu avô era um xamã e me deu o dom que permite que eu veja os fantasmas daqueles que eu injuriei. 179


— Então eles estão assombrando você. — Isaac respondeu, seu rosto tranquilo. Charles não esperava que o Alfa olhasse para ele e o chamasse de mentiroso—Charles era o homem da machadinha do Marrok, afinal. Mas a simples crença que viu, o fez lembrar que o avô de Isaac podia ver fantasmas também. — E eles estão me assombrando. — respondeu, e Irmão Lobo se abaixou um pouco, para um ataque imediato. Irmão Lobo aprovava Isaac, desde que o outro lobo não fosse muito insistente. — Conte a ele o por quê. — Bran disse no silêncio. Sua voz estava estranha, como ficava quando seguia um impulso que não entendia. A verdade era que Charles conseguiu sua habilidade de lidar com a magia de ambas as suas linhagens; mas, às vezes, Bran se aborrecia quando a magia falava com ele, provavelmente porque sua mãe teria feito a Bruxa Má do Oeste parecer-se com a Fada Madrinha da Cinderela. — Porque minha culpa os segura aqui. — Charles respondeu a Isaac porque Bran achava que poderia ser importante — Eles deveriam ir, seja para onde for que as pessoas mortas vão, mas os estou segurando aqui porque não posso deixá-los seguir. — Você se sente culpado pelo quê? — Isaac perguntou, soando honestamente confuso — Todos nós sabemos sobre Minnesota, ninguém fofoca como nós, Alfas. Três lobos mataram um velho pedófilo, comeram-no pela metade, e então o deixaram para os civis encontrarem... E foi uma criança de dez anos que o achou. Provavelmente, levando em conta o que a fofoca diz e os relatórios policiais que eu vi, o menino de dez anos era a criança que o velho estava querendo. Os malditos tolos provavelmente fizeram tanto barulho lutando sobre o corpo, que a criança foi averiguar. Pelo menos eles tiveram o bom senso de correr em vez de matar o menino, mas acho que eles fizeram idiotices o suficiente para entrar na lista Top Cinco de Jogadas Mais Estúpidas pelos próximos dez anos. Charles não sabia que foi a criança quem encontrou o corpo. Seu pai lhe disse que seu trabalho era ir descobrir se eles mataram o homem e o deixaram para os humanos encontrarem — e, sendo o caso, executá-los. Irmão Lobo os forçou a confessar — lobos dominantes podem fazer isso, se fossem o suficiente mais dominantes — e então cumpriu as ordens do seu Alfa. — Pobre menino... — murmurou Bran. — Ninguém me disse que foi o menino que o encontrou. — alguém, Charles sabia, contataria a família do menino e se asseguraria de que ele recebesse aconselhamento. Seus pais achariam que era alguma organização de apoio às vítimas ou coisa do tipo. Era um dos trabalhos que Charles costumava lidar ou vigiar. — Você se sente culpado por executá-los. — Isaac disse, puxando a atenção de Charles de volta para ele — Entendo. Mas não entendo por que deveria. Eles estavam chorando como bebês? Porque realmente é uma merda quando fazem isto. Foi Robert, o Alfa deles? Ouvi o lixo que ele estava pregando. Sua vítima era um bastardo que mereceu morrer. Bom. Se eles tinham certeza de que o cara era culpado, matassem-no num lugar discreto e se livrassem do corpo. Se você me perguntar, eu teria executado o Alfa deles também, por ser incompetente o bastante para deixá-los tão fora de controle que abandonaram o corpo para civis encontrarem. 180


— Isso aconteceu antes de nos expormos. — Charles disse — Eu poderia tê-los deixado viver. — Poderia? — Isaac disse e balançou a cabeça. — Se eles fossem do meu clã, eu os teria matado. Agora, dez anos atrás, tanto faz. Charles leu a verdade daquilo na voz de Isaac. — Não importava para eles que o sujeito fosse uma porcaria. — Isaac disse. — Se importasse, depois de uma morte justa, não o teriam comido. Ainda que estivessem caçando em bando, provavelmente não o teriam matado tampouco. Eles eram idiotas. Estavam fora de controle. E você não pode ter homens lobos idiotas fora-de-controle. Nem agora. Nem nunca. E era o trabalho do Alfa se assegurar de que eles não fossem idiotas. Eu faço melhor do que enviar um clã fora para caçar quando não queremos uma bagunça sangrenta como resultado, e não sou um homem lobo a metade do tempo que Robert é Alfa de seu clã. E ele não pode aceitar a culpa; oh não! Eles eram os caras bons, ele não iria matar os caras bons... Porque sabia que era sua culpa que eles precisassem ser mortos em primeiro lugar. Então Bran teve que enviar você para matá-los. Aposto que aquele mer... — Isaac deu uma olhada apavorada para o celular, mordeu seu lábio e terminou mais calmamente — Aposto que ele disse todas as coisas certas, todas as coisas educadas e ainda fez com que você se sentisse um assassino, certo? Ele fez isto porque sabe que é culpa dele e não pode admitir para si mesmo, assim está procurando alguém para culpar. E todos sabem, todos nós sabemos, que agora mesmo nós, homens lobos, não bancar manchetes como as que vimos em Minnesota. Era a verdade, como Isaac percebia aquilo. E soava correto. Talvez ele tivesse dado atenção demais a Robert e sem pensar claramente a respeito. Charles respirou fundo — Anna sabe como as pessoas funcionam. Ela teria visto isso, também. Mas não trago Anna comigo mais. — Faz sentido, apesar disso, não é? — Isaac disse. — Se já não estivesse desgastado com a matança — disse Bran pesarosamente — você reconheceria a verdade por si mesmo. Se eu não estivesse tão ocupado tentando justificar algo que tem menos a ver com justiça do que com conveniência, teria visto também. Só porque era necessário, não significa que era a resposta certa, em todo caso. — Um deles era lobo a menos de dois anos — Charles disse. — Muito ruim para eles. — disse Isaac. — Eles escolheram ceder ao lobo na hora errada. Escolheram andar com idiotas. Escolheram agir do jeito que agiram. Escolheram sua própria morte e você foi apenas o sistema de entrega. — Penso — disse Bran — que o clã de Minnesota precisa de um Alfa diferente. — Concordo — disse Isaac. — Charles. — falou Bran. — Onde está Anna? 181


Ele apontou para sudoeste, inconsciente disso até que foi tão preciso quanto à localização dela — Dezesseis quilômetros naquela direção — ele não podia dizer mais nada, não podia tocar na mente dela, mas sabia onde estava. — Encontre-a. — seu pai disse a ele. — E derrote essas pessoas. Evite matá-los se puder; lembre a seu lobo que a prisão é uma sentença bem pior que a morte. Se nós pudermos ajudar a pegálos com o mínimo de violência, seria bom. — Sim. — concordou Charles, apesar de seu Da já ter desligado. — Você está bem? — perguntou Isaac. Charles deu a ele uma curta reverência de respeito, de um lobo dominante para outro. — Melhor. — não consertado, em nenhum lugar perto do normal, mas ele não podia cuidar disso nele de uma forma ou de outra, porque agora podia achar Anna. — Tenho certeza sobre ela. O que há a dezesseis quilômetros naquela direção? — Islington, Dedham, Westwood. Milton, talvez. Sei meu caminho por aqui pela estrada, não em linha reta. Nós teremos que consultar um mapa para estarmos seguros; e o quão certo você está dos dezesseis quilômetros? — É perto disso. — Charles disse. Ele considerou só entrar em um carro e seguir seu vínculo, mas provavelmente seria mais rápido se soubesse para onde estava indo. “Em linha reta” a direção tinha sérios problemas em tempos de cercas e estradas. Especialmente quando tinha tanta certeza de que poderia saber exatamente onde ela estava antes que deixassem o apartamento. Ele não desperdiçou seu tempo hoje. — Por que você não deixa o resto deles entrar e se junta a mim em meu computador? Ele precisava do tempo que Isaac levaria para juntar os outros. Charles estava tremendo e dominante o suficiente para não querer que ninguém visse. Ela estava viva. Seria o bastante por agora. Sentou-se à mesa e viu que seu computador terminou a tarefa que tinha dado. Ele ouviu os demais entrarem em fila, mas não se virou. Não queria arriscar encontrar o olhar de ninguém inesperadamente, até que tivesse Anna segura. — Anna é uma noz para os procedimentos da polícia. — disse a eles enquanto redimensionava uma janela para que pudesse ver se tinha feito qualquer progresso — Esta manhã ela observou que os serial killers frequentemente se insinuam nas investigações. Eu, inicialmente, descartei isso, porque vocês teriam notado algo do tipo depois de tantos anos, certo? — Nós observamos. — Goldstein disse. — Não houve nenhum sinal de nada. Seu script fez o trabalho e ele estava entrando através dos firewalls — sempre era bom ter amigos dentro. Ele podia falar e hackear ao mesmo tempo, e talvez mantivesse os federais longe de 182


compreenderem o que estava fazendo. Provavelmente ajudava que nenhum deles trabalhasse para a RF, e que a porta pela qual entrou era baixa em gráficos e alta em códigos. — Conclui que talvez o assassino inicial, o velho, não fosse esse tipo de psicopata. Mas o novo cara poderia ser; o misterioso terceiro homem. Então voltei dez anos. E corri uma lista dos nomes de todos os envolvidos no caso por todos aqueles anos. Existem duas pessoas que apareceram mais de três vezes. — Asseguro a você, não sou um serial killer. — disse Goldstein secamente. — Estava bastante certo que não era você. — Charles concordou. — Você quer pegá-lo tanto que eu posso cheirar. Então dei uma olhada no outro cara primeiro. Goldstein inspirou profundamente — Não pode ser sério. Goldstein esteve envolvido em várias das investigações, e saberia quem mais tinha estado lá com ele. — Alguém esteva presente por seis dos últimos dez anos. — Charles continuou. — Dando uma entrevista para a imprensa escrita ou televisionada. Ajudando na central de chamadas. Atribuído como o contato de alguém; e então eu tive sorte e encontrei sua foto na primeira página do jornal, no local onde um dos corpos foi achado. Pude confirmar que ele esteve na cidade certa e na hora certa em nove dos últimos dez anos, em um trabalho que normalmente muda as pessoas de um lugar para outro. No ano seguinte, quando ele foi designado para um lugar do outro lado do país, esteve em umas férias misteriosas na época dos assassinatos. Então examinei o histórico dele. Pedi alguns favores. Hackeei alguns bancos de dados. Chamei uma dupla de oficiais de polícia e um pastor aposentado. — Quem é? — perguntou Beauclaire, sua voz era uma mordida ansiosa. Charles apertou um botão e uma foto do menino-propaganda da Cantrip surgiu no meio de sua tela, esperando para ser arquivada no meio de tantos outros registros. — De acordo com uma antiga babá, o bom senador era obcecado para que seu filho fosse um homem viril, no estilo texano. E quando o Les Heuter de seis anos foi descoberto brincando com a maquiagem de sua mãe, foi empacotado e enviado para passar um período másculo com o irmão mais velho do senador, o veterano da Guerra do Vietnã e ávido caçador Travis Heuter, que viveu e ainda vive em Vermont. Travis Heuter também tem casas e propriedades em várias das cidades onde as farras das mortes do Caçador do Grande Jogo aconteceram, como também uma boa dúzia em lugares onde não houve mortes. Nos poucos lugares que nosso assassino foi ativo e Travis Heuter não possuía patrimônio, sua família tinha propriedades ou uma de suas três companhias tinham condomínios ou apartamentos. Ele é um pouco louco, esse Travis, então a família Heuter não o deixa aparecer em funções públicas ou na televisão, pois ele podia não ser politicamente correto em suas ideias. — Heuter — Goldstein falou como uma sombra desnuda do desejo de Irmão Lobo para destruir o assassino. 183


— Filho de senador. Vai ser um pesadelo de pressões políticas. — Leslie disse. — Meu chefe vai amar isto. Charles não podia dizer se ela estava ou não sendo sarcástica — provavelmente porque ela não soubesse, também. — E o prego no caixão é este: Travis e Senador Dwight Heuter tinham uma irmã mais jovem, Helena. Em 1981, quando tinha dezesseis anos, ela ficou grávida; estuprada, ela afirmou. Helena foi morar com seu irmão mais velho e cometeu suicídio uns anos mais tarde, deixando Travis encarregado de seu menino meio-sangue. Um professor aposentado contou-me que o menino era “diferente”, não exatamente lento ou autista, mas definitivamente estranho, com uma propensão para violência. Seu nome é Benedict Heuter e ele lida com trabalhos braçais, de acordo com a Receita Federal — esse foi o último pedacinho que precisou para amarrar tudo — E, nos últimos cinco anos, ele esteve trabalhando como zelador ou com manutenção, se mudando quase todo ano. Charles retornou do banco de dados da RF e fechou sua entrada. Então, deslizou para dentro de um recôndito da Darknet — um pequeno espaço separado da Internet invisível para mecanismos de procura e engendrado, principalmente, por hackers que abandonaram a Internet devido às suas atividades mais questionáveis — e puxou uma lista de propriedades do registro fiscal de Travis Heuter, o que ele já tinha copiado durante uma excursão anterior ao banco de dados da RF. — Não acho que você deveria ser capaz de encontrar essas informações. — disse Leslie. — Não olhe. — disse Goldstein, perscrutando sobre o ombro de Charles — Não sabemos nada sobre hackers ilegais. — ele assobiou animadamente. —Travis Heuter possui metade do mundo. Charles procurou por Massachusetts e encontrou um endereço. — Não esse. — murmurou Isaac — É no centro da cidade. Você quer dezesseis quilômetros a sudoeste daqui. Não esse também; fica ao norte. Lá. Dedham. Uma de minhas namoradas da faculdade mantinha um cavalo por lá e isso fica na direção e na distância corretas. Charles não queria estar errado, então confiou aquele endereço à memória, mas continuou pelos registros até que sua procura saltou de volta para o início. Era Dedham ou eles teriam que seguir o vínculo. De qualquer modo, Heuter estava acabado. Pesando tempo perdido investigando contra tempo perdido, Charles resolveu olhar em outro site da Darknet, o qual era especializado em registros de propriedades oficiais e não oficiais—a Darknet era uma mistura bastante tediosa de teoristas da conspiração, brilhantes hackers maldosos, e guardiães de registros obsessivos compulsivos. A propriedade em Dedham de Travis Heuter era uma casa de fazenda, de dois andares e bastante larga, com um celeiro de 1,7 hectares, e que tinha sido vendida cinco anos atrás por cerca de um milhão de dólares. Charles imprimiu as plantas da casa e o registro da propriedade no cartório, com as últimas marcações da terra, os dobrou e guardou em seu bolso. — Um do meu clã tem um furgão esperando por nós lá fora. — Isaac disse. — Devemos ir? 184


Enfocado em Anna, Charles esqueceu que precisariam de um carro para chegar lá. Provavelmente fosse melhor que ele não dirigisse. CAPÍTULO 12  Anna estava arquejante com a dor da mudança e seus músculos tremiam ao acaso pela mesma razão, ela disse a si mesma. Ela se sentia mais fraca do que nunca esteve enquanto em forma de lobo e estava cheirando errado também. Doente ou drogada, talvez. O outro homem, aquele que não era Les Heuter, ainda estava discursando no outro cômodo sobre o que ele faria com ela em uma linguagem muito explícita… o que significava que ou sua troca fora tão rápida quanto à de Charles ou ele falou por cerca de quinze ou vinte minutos. Ela estava apostando no último. Heuter encorajava o outro homem, cujo nome evidentemente era Benedict, acrescentando detalhes feios ou zombando dele, o que fosse preciso para incitá-lo a um nível mais alto. Heuter provavelmente pensava que ela estava encolhida na gaiola, escutando. — Você se lembra do que nós fizemos para aquela menina no Texas? — Heuter perguntou. — Aquela com a tatuagem de borboleta? — Não aquela; a alta... Anna se levantou e se sacudiu, como se estivesse tirando água de seu pelo, numa tentativa de fazer seus músculos funcionarem — e então não pareceria como se estivesse agachada em sua gaiola, com medo deles antes de mesmo fazerem alguma coisa. Ela fez o seu melhor para modulá-los à parte, transformá-los em ruído de fundo, como uma música chata no rádio. Ela precisava de algo mais para se concentrar. Sua visão noturna como uma humana era satisfatória. Em sua forma de lobo, era muito melhor. Sua gaiola se dependurava a sessenta centímetros de um chão polido, que parecia mais fora de lugar no grande quarto aberto do que a gaiola propriamente. Havia um odor persistente de cavalos que lhe dizia que aquilo foi, originalmente, um celeiro, mas que alguém o tinha redesenhado como um estúdio de dança. Na outra ponta do quarto, na parede mais curta, um banco apoiava um par de sapatilhas e o que se parecia com um… cinto de moedas de dança do ventre. Próximo ao banco, um canto do celeiro foi fechado e uma placa onde se lia “ESCRITÓRIO” estava presa à porta. Uma parede de espelhos atravessava o lado mais comprido do celeiro, espelhos que refletiam sua imagem, ainda parecendo como se estivesse apavorada. Uma longa barra de metal, colocada a mais ou menos noventa centímetros acima do comprimento da superfície refletida, fechava o negócio. Ela estava encarcerada em uma gaiola pendurada nas vigas de um estúdio de dança. Nenhum úmido calabouço ou porão escondido para ela. 185


Quando ela se apresentava regularmente, costumava ter pesadelos sobre ser encarcerada num palco, de onde só poderia sair se tocasse “Mary Tinha Um Cordeirinho” ao contrário, o que deveria ter sido fácil, porém alguém tinha trocado as cordas do seu violoncelo por cordas de violino. Uma gaiola em um estúdio de dança era melhor do que isso, certo? Terror honesto em vez de frustrado embaraço. Ela tinha que sair dali. Mas, enquanto isso precisava fazer algo sobre a mulher lobo de aparência assustada refletida no grande espelho. Levantou-se ereta e mordeu suas orelhas, e a Anna do espelho pareceu ligeiramente menos patética. Ela não tinha encarado inteiramente o terror — Charles podia fazer aquilo sem nem tentar — mas, pelo menos, já não parecia tão assustada. Ela era uma mulher lobo. Ela não era uma vítima. Vendo que eles a trouxeram para um celeiro transformado num estúdio de dança, Anna se perguntou se haveria qualquer conexão com Lizzie. Talvez ela dançasse ou ensinasse aqui. Talvez fosse como os assassinos a acharam. Ou talvez Beauclaire e sua filha estivessem simplesmente em uma misteriosa e às vezes inexata lista da Cantrip sobre faes e outros morando nos Estados Unidos — uma lista a que Heuter tinha acesso. Mas, se existia um vínculo entre Lizzie e este estúdio de dança, havia uma pequena chance de que Charles pudesse fazer a conexão e encontrá-la. Porque ele tinha que saber que ela sumiu por agora. Se ele não a contatasse pelo vínculo de ambos, era porque não podia. Ele encontraria outro modo. E o estúdio de dança poderia trazê-lo até ali… em uns meses ou algo assim. E agora ela parecia patética novamente. Houve um afiado som de tapa — como alguém sendo estapeado no rosto. Um segundo tapa, e o ruído de fundo dos homens que fantasiavam sobre tortura e estupro parou abruptamente. — Você sabe o que eu te disse. — era a voz de um homem velho, um pouco trêmula, mas ainda poderosa, falada num tom quase suave que a lembrou de Bran quando ficava realmente bravo. — Você continue usando essas palavras e vai se esquecer e usá-las em público. Então perderá seu bom trabalho e se achará lá fora, na rua, mendigando por pão, porque eu não vou alimentar você. Nenhuma criança da minha casa será inútil e vivendo de esmola. Alguém disse “Sim, senhor” quase sussurrando. — Aquelas palavras são para o lixo. — o velho continuou — Para escória de baixo nascimento. Seu pai pode ter sido escória, mas sua mãe era uma boa menina e o sangue dela deve ser mais forte. Você a envergonha quando fala desse jeito. A voz do velho mudou um pouco, como se ele se movesse, mas também se aguçou: — E você. Les, o que você acha que está fazendo? Acha que eu não sei de onde ele tira isso? Você acha que é tão malditamente esperto, mas você não é nada. Nada. Muito estúpido para o FBI, muito bunda mole para o exército. Você gosta de esquecer quem está no comando aqui ou o que a nossa missão é e o que significa. Distração não é útil; você sabe o quão duro ele tem que trabalhar para 186


parecer como qualquer pessoa. Quer que ele seja pego? Quão longe você iria, tentando destruir as criaturas que estão assumindo o comando das nossas terras, sem Benedict? Você está tentando nos arruinar? — Não, senhor. — A voz de Heuter estava subjugada, mas havia veneno espreitando abaixo do tom submisso — Desculpe tio Travis. — Vocês não são mais crianças. — o velho disse com severidade, aparentemente sem notar as camadas ocultas na atitude do mais jovem — Comece a agir de acordo. O que nós estamos fazendo aqui? — Salvando nosso país. — A voz de Heuter fortaleceu-se de um jeito quase militar; e ele estava dizendo a verdade — Deixando nosso país seguro para seus cidadãos ao tirar o lixo e fazer as coisas para as quais nosso governo é muito liberal e muito suave para fazer. Anna não podia imaginar aquilo. Ela se lembrou do pequeno discurso de Heuter no almoço de ontem; ele disse a verdade como realmente acreditava então... E, embora ela o tivesse achado desagradável, também tinha sentido certo respeito por ele. Ela devia ter se lembrado da lei de Bran: os fanáticos são pôneis de um truque só. Eles não amam nada tanto quanto sua própria causa. Não entre no caminho deles sem esperar se machucar. Ela sempre pensou que Bran estava falando sobre si mesmo — mas ela sabia melhor, ainda que ele não fizesse. Bran era focado, mas amava seus filhos e amava seu clã. Ele não era um pônei de um truque só. “Você se lembra da garotinha que penduramos pelas tranças enquanto nós...” — A luxúria na voz de Heuter enquanto persuadia o invisível Benedict a um maior frenesi era mais real do que o discurso sincero que ele fez na mesa de almoço. Heuter não era um fanático tampouco, ela concluiu. Ele só dizia que estava protegendo a América dos monstros, para se convencer de que estava no direito quando satisfazia sua luxúria por subjugar aos outros, seu desejo de causar dor e sofrimento em outras pessoas. O assassinato e o estupro eram sua verdadeira causa; manter a América segura era só uma desculpa. — Posso tê-la primeiro, tio Travis? — Benedict perguntou — Eu gosto mais de meninas. E o marido dela me machucou. Posso tê-la primeiro? — Assim é melhor, menino. — o homem mais velho disse — Mantenha sua linguagem educada. Vamos ir dar uma olhada nela antes de decidirmos qualquer coisa. Teremos um tempo para jogar antes de você se alimentar da morte dela. Haverá tempo suficiente para tudo. Ele soou como se estivesse falando sobre ir pescar em vez de torturar e matar alguém. A porta perto de sua gaiola se abriu e o velho acendeu a luz enquanto todos eles entravam. Salve, salve! A gangue está toda aqui, pensou Anna enquanto dava sua primeira boa olhada em seus sequestradores. 187


Mesmo sabendo o que ela tinha feito, Les Heuter ainda parecia um cara “todo-americano”, do tipo que ajudava velhinhas a atravessarem a rua. O outro jovem, Benedict Heuter… ele era grande. Mais alto do que Charles e talvez vinte e dois quilos mais pesado, e Charles não era um varapau. Havia algo de errado com os olhos dele e seu cheiro era como o de um cervo no cio. Ela achava desconfortável olhá-lo nos olhos — e ela podia fazer Bran baixar o olhar. Não tinha nada a ver com domínio e tudo a ver com a loucura em seu rosto. As características eram diferentes, mas a expressão de Benedict, os pensamentos que espreitavam atrás de seus olhos, eram o clássico Justin, o louco homem lobo que a transformou e… fez todas as outras coisas que ninguém mais, particularmente, queria fazer a um lobo Ômega. Não muito depois dela e Charles se encontrarem, Charles matou Justin. Mas mesmo anos mais tarde, ela tinha pesadelos com o olhar de Justin. Porque Benedict deixou-a tão incomodada, Anna voltou sua atenção para o outro estranho na mistura. Claramente parente de sangue dos dois mais jovens, o velho — tio Travis, como Heuter o chamou — mostrou a ela qual a aparência de Heuter dali quarenta anos, assumindo que não morresse sob suas presas, como ela esperava. A idade não tinha curvado tanto este homem como sua imagem esclarecia. Heuter ainda tinha uma suavidade em seu entorno; era o que lhe dava uma aparência saudável. Este homem era todo couro e peles. Mesmo em meados de seus sessenta anos ou início dos setenta, ele era bonito, com olhos azuis brilhantes, inalterados pelos anos, e feições retas e limpas, que devem ter sido espetaculares quando ele era jovem, mas foram solidificadas por um senso de força e determinação. Se Anna pensava que a força de caráter naquele rosto era ligeiramente insana — bem, ela estava numa posição melhor do que a maioria para julgar. Ele se moveu como se houvesse músculos debaixo de sua pele, apesar da idade. E pela linguagem corporal dos outros, ela soube que aqui estava o lobo Alfa. Ele governava por decreto, por força de caráter e pela compreensão dos demais de que ele era o único que os mantinha seguros e lhes dava a direção — e que os mataria se fosse necessário. A linguagem corporal que ela observou quando o homem mais velho não estava olhando para seus asseclas, também lhe disse que Heuter se irritava com sua posição secundária: ele estava pronto para assumir o comando ao primeiro sinal de debilidade. Estava em sua voz também. O velho devia ter sabido, e o fato de não saber mostrava para Anna que ele estava se debilitando e não comandaria por muito mais tempo. — Vamos dar uma olhada em você, querida. — o velho sussurrou quando subiu na gaiola, aparentemente imperturbável ante sua transformação em lobo — Negra como o piche e olhos azuis como o gelo. Nunca vi um lobo com olhos azuis antes. Ela teve que lutar para não recuar. De perto, ele cheirava a tabaco de cachimbo. Charles às vezes cheirava assim, depois que realizava uma das cerimônias que seu avô ensinou.

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Charles não o fazia frequentemente, mas Anna aprendeu a ver os sinais. Ele ficava inquieto por alguns dias. Então ia para o bosque sozinho — ou a arrastava com ele em busca de um lugar para queimar tabaco e cantar para os espíritos na língua de sua mãe. Às vezes ele lhe contava o que estava fazendo; às vezes não. Ela não perguntava sobre as pedras que ele levava ou os pequenos pedaços de pano que colocava em cima delas durante certas estações do ano. Ele lhe disse uma vez que algumas coisas eram para ser compartilhadas e outras não — e isso estava bom o suficiente para ela. Mas o cheiro do tabaco de Charles passou a ser reconfortante. Ela se ressentiu com o velho por arruinar isso. — Tio Travis, ela é um lobo. — A voz de Benedict era um lamento mais adequado a um adolescente discutindo o horário de voltar para casa, do que ao homem crescido que ele era. Anna teve certeza, então, de que existia algo errado com ele, algo além de ser um sociopata — ou era psicopata? — serial killer. — Ela é inútil como um lobo. Não gosto de velhos ou meninos, mas posso fazer com eles. Não farei com um lobo, é doentio. — Shh. — calou-o o homem velho — Eles não podem ficar como lobos para sempre. Amanhã é lua cheia; ela pode ficar como um lobo enquanto isso, entretanto, terá que mudar de volta quando a lua se puser. Ele estava errado. Desde que ela não se importasse de se perder para o lobo, poderia ficar na forma de lobo indefinidamente, mas ele soou muito confiante. Talvez os bancos de dados da Cantrip tivessem informações inexatas sobre mais do que simplesmente quem era e não era fae. — Não posso esperar até amanhã. — disse Heuter. — Você não é um homem lobo. — Benedict disse. — Você não precisa da lua cheia para fazer nada. — Não, não me importo com a lua. — Heuter sorriu. — Não posso esperar para ver aquele bastardo presunçoso perder-se, porque nós temos sua esposa e ele não pode encontrá-la. — Você não vai chegar perto dele. — Tio Travis estalou irritado. — Não seja estúpido. Você ficará petulante e ele cheirará isso em você. Cheirará a ela em você, talvez. — o velho não tirou sua atenção de Anna, de modo que não viu o ressentimento que relampejou no rosto de Heuter. Anna não tinha a memória de Charles para informações, mas estava bastante certa de que Heuter tinha quase trinta anos. Era velho para estar seguindo ordens dadas como se fosse uma criança. Homens lobos tinham que seguir as ordens do seu Alfa dessa forma, entretanto. Eles as seguiam ou eram mortos. Talvez, fosse o mesmo tipo de coisa para Heuter? Talvez seu tio o lesse melhor do que ela fazia, e a ameaça de morte fosse o suficiente para mantê-lo na linha. 189


— Você parece tão submissa aí. — tio Travis disse, e levou um momento para Anna processar que estava falando com ela, porque ele passou da conversa com Heuter sem alterar a voz ou a postura corporal — Você está com medo, princesa? Devia estar. Seu tipo está tentando assumir o comando do mundo. Você não me engana com a propaganda de “nós somos os caras bons”. Eu conheço um predador quando vejo um. Igual aos homossexuais. Assim como os gooks56 e os spics57 e os dagos58. Tentando transformar esse país numa latrina. Gooks eram… vietnamitas, certo? Um ponto para sua aula de história do segundo grau, porque ela nunca realmente ouvira aquilo antes. Spics eram hispânicos. Ela não tinha nenhuma ideia do que os dagos eram. Seu vocabulário racista obviamente precisava de reparos. Do que um racista chamaria os homens lobos? Wargs59? Ela meio que gostava disto, mas suspeitava que os bastardos racistas não liam Tolkien. E, se liam, ela não queria saber a respeito. — Mas estamos aqui para parar vocês. — tio Travis continuou e então sorriu sedutoramente; e ele era bonito o suficiente para que ela apostasse que muitas mulheres teriam seguido aquele sorriso até um quarto — E por pagamento, tudo que pedimos é termos um pouco de diversão no caminho, certo, meninos? — Sim. — disse o homem grande — Sim, diversão. Era estranho ouvir a mente simples naquela voz que falava e cheirar sua luxúria. Pela sua experiência — e ela voluntariou-se no segundo grau para um grupo especializado em ser babá gratuitamente para pais com filhos autistas ou com necessidades especiais — a maioria das pessoas que tinham alguma deficiência mental era bastante dócil, desde que seus pais não os mimassem totalmente. Benedict não era doce, e era algo muito mais depravado do que um pirralho mimado. Escutá-lo e cheirar sua necessidade, dava a ele uma vibração esquisitamente pedófila. Fê-la sentir-se suja por associação. Anna se perguntou se sempre houve algo errado com Benedict, ou se tio Travis o transformou nesta… alma distorcida. — Olha para ela tio Travis. — disse Heuter — Ela só está encarando. Está muito assustada para lutar? Ou talvez ela ache que pode fugir, que pode lutar contra nós e ganhar. Talvez ela não esteja assustada com um grupo de meros humanos. — Nenhum grunhido ou raiva. — concordou Tio Travis — Pode significar que ela já desistiu. Talvez não esperemos até que seja humana. Ela não é nem metade de tão grande quanto aquele último “Gook” é uma gíria depreciativa para pessoas nascidas ou descendentes do Leste Asiático. A palavra talvez seja uma alteração dos antigos “goo-goo”, habitantes nativos das Filipinas. 57 “Spic” é uma palavra pejorativa para uma pessoa de um país de língua espanhola da América do Sul ou Central, ou de uma das comunidades de língua espanhola nos EUA. Seria como os latinos. A origem do nome talvez venha da alusão à pronunciação errada da palavra “speak”. 58 “Dago” é uma gíria pejorativa para italianos, espanhóis e portugueses (todos naturais europeus), especialmente os dois últimos. A palavra “dago” é uma alteração do nome Diego, comum na Espanha. 59 Na mitologia nórdica, um vargr (geralmente anglicizado como warg ou varg) é um lobo e, em particular, refere-se ao lobo Fenrir e seus filhos Sköll e Hati. Baseado nisso, J. R. R. Tolkien em sua ficção, usou a forma do inglês antigo de warg para se referir a uma criatura do tipo lupino particularmente má. 56

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era, e ele não nos deu nenhum problema. — ele aproximou o rosto da gaiola como se por acidente, mas ela pode cheirar sua excitação. Ele a estava insultando, tentando fazê-la atacar. — Nós pegamos aquele por partes, pedaço por pedaço, até que a criatura que restou fosse uma coisa choramingando, quebrada. Nós o matamos sem piedade quando terminamos com ele. Otten não foi treinado por Charles, Anna lembrou a si mesma com firmeza. Deixe o sucesso torná-los descuidados. Ela relaxou as orelhas e mudou sua postura até que o vislumbre do lobo preto no espelho mostrasse uma besta que estava assustada e sozinha, que sabia não haver nenhum jeito de seu companheiro encontrá-la — como se a lembrança do que aconteceu a Otten fosse o suficiente para roubar sua confiança. Anna teve que se lembrar firmemente de que só estava agindo como se estivesse desesperada e com medo. Ela não era uma vítima, ela prevaleceria sobre deles. Tio Travis zombou. — Patética. Mas todos eles são eventualmente. — Não ligo se são patéticos. — disse Benedict seriamente — Desde que sejam bonitos. E humanos. Não fodo animais. Foder animais é ruim. Mas Anna notou que ele não ficou nenhum pouco mais perto da gaiola do que já estava. Seu cheiro era… apreensivo. Charles o machucou quando lutaram e agora ele não queria ficar muito próximo dela. Tio Travis ignorou Benedict, estudando Anna como se ela fosse um quebra-cabeça. — Eu não acho que esperaremos. Pegue a bang stick e a mordaça. Nós a tiraremos e colocaremos as correntes de novo nela. Tio Travis não especificou para quem ele estava dando as ordens, mas Benedict caminhou a passos largos para fazer cumprir o ordenado, enquanto Heuter sequer se moveu. Bang stick. Uma bang stick era um longo mastro com uma arma de fogo que podia disparar balas em tubarões sob a água. Ela viu isso em algum programa da National Geografic, na televisão. Ela tinha torcido pelos tubarões. Benedict entrou no escritório no canto distante do celeiro e saiu com uma vara de dois metros, dois metros e meio de comprimento, com o que parecia uma seringa colada no final com fita adesiva. Não era uma bang stick — mas parecia que uma inspirou a sua criação. Anna recuou cautelosamente. Ela não tinha nenhuma intenção de ficar inconsciente de novo, se pudesse evitar. As drogas podiam não funcionar direito em homens lobos, mas muita droga podia derrubá-la por alguns minutos. Ela não queria estar impotente com estes homens.

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ISAAC ESTAVA BASTANTE surpreso de que o alto e poderoso Senhor dos Elfos não tinha entendido o quão assustado deveria estar agora mesmo, preso, como todos eles estavam, em um carro com Charles, enquanto a companheira de Charles estava nas mãos de um bando de serial killers. Que os agentes do FBI não entendessem tampouco era um tributo ao extraordinário e excelente blefe no rosto de Charles, mas Isaac tinha pensado que o fae, sendo tão mais velho e mais sábio em música e história, teria instintos melhores. Ele devia saber que o Lobo Matador do Marrok estava quase sucumbindo e muitas pessoas iriam morrer. Claro, Isaac teve a distinta impressão que Beauclaire era um duro, duro bastardo na noite passada, quando eles lutaram contra o senhor cornudo juntos. Atacar um monstro invisível com nada além de uma longa faca era todos os tipos de bravura e talvez um pouco de loucura — porém, o fae ainda vivia, o que poderia significar que não estava tão louco assim. Não que qualquer um deles, Isaac ou Beauclaire, tivesse causado uma fração do dano que o bicho-papão dos homens lobos conseguiu. Isaac ficou impressionado mesmo quando acreditava que Charles podia ver o monstro, mas Hally o desiludiu daquela crença. “Ele pode ter visto uma centelha” ela lhe disse enquanto esperavam pelos policiais e oficiais para fazerem sua parte na triagem de Gallops Island. “Mas faz quase uma semana desde que mataram Jacob. Magia se perde rápido quando você a desperdiça do modo como esses caras fizeram. Da mesma forma, a magia liberada pela morte de Jacob ilumina um pouco, o bastante para ter dito a Charles havia algo no quarto, especialmente se estivesse um pouco escuro, mas não o suficiente para ver o que era”. E Charles atacou como se soubesse exatamente onde estava mirando. Rápido. Esquisitamente rápido e poderoso. Isaac ouviu o “bum” quando o outro lobo caiu sobre a besta, o observou se agarrar depois que a criatura rolou sobre ele algumas vezes. Naquela hora, o cronômetro de Isaac estava marcando apenas bem, então tudo que ele lembrava eram pequenos pedaços do fim da briga — mas era o suficiente para impressioná-lo. Isaac teve sua quota de brigas, antes e depois de sua transformação. Ele sabia, sem arrogância, que era malditamente bom, e cinco anos de caratê antes de ser transformado — inspirado pelo desejo de nunca deixar ninguém o atirar em um armário novamente — se provou útil em seu trabalho como Alfa. Mas se algum dia ele entrasse num ringue contra Charles, ele poderia muito bem rolar e mostrar sua garganta antes de começar a primeira rodada de hostilidades. Não admirava que o Marrok usasse Charles como seu homem da limpeza. Quem ia levantar-se contra ele? Isaac dirigiu o furgão porque quando Horatio, o lobo dono do furgão — Horatio não era seu nome verdadeiro, mas ele queria ser um ator e seu domínio de Shakespeare era realmente bom, então o apelido pegou — deu uma boa olhada para o rosto determinado de Charles, jogou as chaves para Isaac. Então sugeriu que podia passar na casa de Isaac algum dia de manhã para pegar o furgão, se eles realmente não precisassem dele para ir junto. Horatio esperou para ter certeza de que Isaac não o mandaria dirigir, mas pareceu extremamente aliviado quando Isaac lhe deu um aceno com a cabeça. Horatio tinha mais sensatez em seu dedo mindinho do que qualquer um naquele furgão tinha no corpo inteiro — inclusive Isaac. 192


Horatio era um bom lutador, contudo. Poderia ser útil quando eles se chocassem com os caras maus. Isaac olhou por cima do ombro para Charles, que estava brincando atentamente com o telefone que tirou de Isaac. Beauclaire estava sentando no banco traseiro mais distante, então talvez não fosse tão inconsciente sobre o estado de Charles, afinal. O Lobo Matador do Marrok manteve seu corpo virado na direção exata da meta deles. Provavelmente não precisariam de Horatio. Provavelmente eles não precisariam de ninguém exceto Charles. E Horatio teria insistido em dirigir se viesse; era o furgão dele, afinal. Charles escolheu dar a Agente Fisher o banco do carona — o que podia ser maneiras antiquadas; os lobos velhos faziam coisas assim. Era improvável que o tivesse feito apenas para ferrar com Isaac ao sentar-se bem atrás dele, ainda que este tenha sido o resultado final. A nuvem preta de intensidade que Charles vertia, deixou Isaac nervoso de todas as maneiras e teria deixado Horatio, que era muito mais tenso, dirigindo como um menino de seis anos tentando jogar uma bola de boliche. Era tarde, talvez uma da manhã, e o tráfego estava consideravelmente leve, assim Isaac acelerou um pouco. Não tão rápido que os policiais achassem necessário mandá-lo parar, mas não tão lento para que o lobo no banco de trás decidisse assumir o comando. Era um equilíbrio delicado. Horatio não tinha nenhum tipo de navegação por GPS em seu furgão velho, mas a Agente Fisher usou seu celular para reproduzir um. Eles decidiram que a I-93 era o caminho mais rápido, embora fosse uma distância maior do que se tomassem as estradas vicinais. — Encoste. — disse Charles, sua voz áspera. Isaac não ia discutir com ele. Então dirigiu o furgão para uma parada no acostamento da estrada. Charles pulou para fora, bateu levemente na lateral do carro e disse: — Continue até o endereço que eu te dei. Eu vou correr o caminho direto para lá e devo chegar antes de você. Não foi até então que Isaac percebeu que Charles tinha começado a mudar para lobo. Isaac não podia falar — exceto praguejar nos piores momentos — enquanto mudava, mas Charles podia ter uma conversa regular, ou algo bastante perto disto. Maldição. Quando crescesse, queria ser como Charles. Charles fechou a porta e partiu para dentro da escuridão, ainda em duas pernas, mas seu passo era um estranho deslize saltitante, nem humano nem lupino. Engraçado, meditou Isaac, como ser um homem lobo o fez complacente, o fez pensar que sabia tudo o que existia sobre ser um lobo. Ele arrancou de volta para a interestadual e perguntou: — Quanto tempo até chegarmos lá? — Quinze a vinte minutos. — Leslie respondeu — Ele pensa que pode nos superar?

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Estes não eram os terrenos habitualmente frequentados por Isaac, mas ele tinha uma vaga ideia da geografia — e uma boa ideia do quão rápido um homem lobo irritado era. Mentalmente, ele adicionou 10 por cento a mais de velocidade, só porque era Charles e falou: — Acho que ele pode também.

CHARLES NÃO ESTAVA CERTO se aquilo era uma boa ideia ou não, mas Irmão Lobo estava farto com o passeio de carro quando tinha quatro bons pés e Anna precisava deles. Mudou-se no resto do caminho, na medida em que corria, o que não era seu jeito favorito de fazê-lo, mas conseguiu. O telefone de Isaac, que Charles deixou no banco do furgão, sugeriu que pudesse cortar por algum bosque, alguns cemitérios e campos de golfe e terminar onde queria estar. Ele não esperava que fosse tão simples — o que era uma boa coisa. Cercas, canais e casas o afastaram de um caminho reto, mas ele lidou com isso. Quando ficou mais perto, seu vínculo com Anna se afiou. Ele ainda não podia falar com ela, mas podia sentir sua dor e seu medo — e isso o fez se agachar e correr muito mais. Por pouco não foi atingido por um Subaru Outback60 em uma estrada estreita, deixando-o parado com o cheiro azedo de borracha queimada e seu motorista perguntando ao companheiro: — Você viu isto? O que era aquela coisa? Charles só diminuiu quando abordou a casa. Ela não estava mais sentindo dor. E agora que podia pensar ao invés de perder a cabeça, ele soube o que Anna fez. Quem sabia melhor como era uma mudança do que outro homem lobo? Ela era esperta, sua companheira. O lobo era mais resistente que o humano e mais capaz de se defender, então ela trocou para sua forma lupina. Ela não precisava de resgate imediato; não estava machucada agora, então ele podia ter um momento. Irmão Lobo estava empenhado em achar o local onde a mantinham e matar todos os envolvidos. Charles estava bem com a última metade, mas pensou que descansar até que não estivesse respirando como um motor a vapor tornaria tudo mais possível. Ele se largou no chão, debaixo de um grupo de arbusto de lilases próximos a uma placa que dizia “ESTÚDIO DE DANÇA WESTWOOD: ESTABELECIDO EM 2006”. Charles entraria quando estivesse na sua melhor forma, e não arquejando como um galgo depois de uma corrida. Irmão Lobo não estava feliz, mas aprendeu que, às vezes, sua metade humana era mais sábia — e às vezes não.

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Carro Utilitário manufaturado pela Subaru desde 1995.

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No alto, sobre ele, a lua cantou. Amanhã estaria cheia e não haveria como ignorá-la. Hoje à noite, ela se manteve junto dele como companhia, enquanto se erguia para ir caçar àqueles que queriam machucar sua companheira.

BENEDICT EMPURROU A VARA na direção de Anna num movimento rápido e brusco, feito para enganar o olho. Charles ocasionalmente lutava com Asil usando uma qiang 61chinesa, e eles adotavam o mesmo tipo de movimentos, girando as lanças e fazendo as extremidades golpearem ao redor. Talvez, se ela fosse humana, teria funcionado. Em vez disso, Anna esquivou-se e agarrou a extremidade bem atrás da seringa quando a vara passou por ela. Anna virou a cabeça enquanto apertava seus dentes em volta do bastão. Se Benedict fosse um humano segurando a lança, ela a teria puxado de suas mãos. Se ela fosse um lobo real, não a teria danificado. Mas, embora Anna fosse pequena para um homem lobo, era enorme para um lobo e mais forte do que um lobo do seu tamanho seria. A ponta estalou e a seringa caiu a seus pés. Ela tinha uma arma — era só esperá-los tentar tirar a seringa da gaiola enquanto ainda estivesse em sua pele de lobo. E quando fosse humana, poderia usá-la. Ela sorriu para o velho, mostrando a língua para ele. Toma essa. Eu não sou vítima de ninguém, não mais. Benedict soltou a vara e saltou para trás — e ela cheirou medo. Anna mostrou seus dentes para ele e rosnou, só um pouco. Uma gozação. Tio Travis deu quatro grandes passadas para alcançar Benedict e bateu-lhe forte no rosto, com a palma de sua mão — Pare com isso. Pare com isso. Ela é uma abominação, mas nós matamos abominações antes. Ela é uma prisioneira e é fraca; você é um Heuter. Não nos acovardamos diante de monstros cheios de doenças. Benedict começou a dizer algo, então enrijeceu e levantou a cabeça. — Ele está vindo. — Quem está vindo? — perguntou Travis. Benedict mudou sem responder. Entre uma respiração e a próxima, ele se tornou algo… fantástico. Anna esperava que ele fosse feio em sua forma fae, o externo refletindo o interior, mas devia ter pensado melhor. Ela tinha visto o veado branco.

Qiang é o termo chinês para lança. É conhecida como uma das principais armas, junto com o Gun (Bastão), o Dao (sabre) e a Jian (espada), é conhecida nesse grupo como “A Rainha das Armas”. 61

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Uma larga galhada, branco-neve e prateada nas pontas, erguida como uma coroa em sua cabeça — que não era realmente humana. Os olhos estavam certos e a boca, mas o resto do rosto estava mais acentuado, prolongado de uma maneira esquisitamente graciosa. Havia tal beleza na estranha simetria de suas feições, uma beleza nem um pouco diminuída por sua pele prateada. Não. Não sua pele, embora esta fosse pálida também. Toda a parte superior de seu corpo, face incluída, estava coberta com um pelo curto, branco-prateado, que refletia a luz e cintilava. Seu cabelo tinham três ou quatro tons de cinza e cascateava através e sobre a base de seus chifres, terminando em cachos sobre seus ombros imensamente musculosos, como gotas de cera derretida. Ele era enorme. Não poderia ficar em pé dentro de uma casa normal. Se tio Travis tinha um metro e oitenta de altura, e ela achava que ele estava perto disso, então Benedict era duas vezes maior, sem incluir os chifres. Suas roupas derreteram — e ocorreu a Anna que ele provavelmente não mudou nada, só perdeu seu controle sobre o glamour que todo fae podia usar para parecer humano. Mas seus ombros, tórax e barriga estavam cobertos com uma armadura prateada que lhe lembrou de um casco de tatu. Não era roupa, mas parte de sua pele. Do tórax pra baixo, o couro de pelo prateado ficava mais longo, mais espesso e enrolado, feito couro de búfalo. Cobria seus quadris e deixava sua genitália espreitando por aqui e ali. Suas patas eram construídas como as patas traseiras de um búfalo ou um cervo — embora o tamanho parecesse mais como a de uma girafa que ela tinha visto no zoológico de Brookfield quando era criança. Nos seus… jarretes ou joelhos, o pelo escurecia para um tom de aço cinza e ficava mais longo, como o cabelo... — plumagens, seu amigo doido por cavalos do terceiro grau insistia que se chamava assim — na parte inferior das patas de um garanhão da raça Clydesdale. Benedict permanecia em pé sobre um par de dedos de casco, como um alce. Ele curvou suas costas para trás, seu focinho se elevando em direção ao teto e os chifres exagerando o movimento, e levantou uma pata nervosamente antes de colocá-la no chão e baixar a cabeça de novo. Ele se balançou de um casco para o outro, fazendo barulhos ocos no chão de madeira e deixando marcas na superfície polida. — Ele só está assustado. — disse Heuter, num preguiçoso sotaque texano que ele parecia ter deixado e cair e pegado de volta sem perceber — Não tem ninguém lá fora. Eles estão sem pistas. Anna não ouviu nenhum carro vindo naquela direção e não cheirava nada diferente, embora a porta estivesse fechada e ela não pudesse farejar direito nada fora do celeiro, em todo caso. Ainda, ela suspeitava que Les Heuter estivesse certo. Sabia que ninguém estava considerando Heuter pelas mortes. Benedict agitou sua cabeça e soltou o rugido desafiador que ela ouvira antes. Nada respondeu, exceto os sons distantes de carros correndo e do vento arrastando pelas folhas.

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Mas Anna sentiu também. Um sentimento de destruição iminente, como estar de pé em uma via férrea e sentir os trilhos começarem a vibrar, antes de poder ouvir o trem. Ela levou um momento para perceber o que era aquele sentimento: esteve tão certa de que ele não poderia encontrá-la. Ele não entrou pela porta. Ele atravessou as paredes como um aríete. Velhas vigas dois-pordoze dobravam-se abertas diante dele como folhas de grama, e escorriam dele como palitos e ramos. Seus olhos pegaram os dela, varreram o quarto e então enfocaram em Benedict. A cabeça do lobo vermelho se abaixou e ele se agachou só um pouco e rosnou, um som tão profundo que o chão da gaiola de Anna vibrou. O senhor cornudo agitou seus grandes chifres e berrou, investindo adiante, apesar do terror que Anna podia cheirar. Charles esperou, então se moveu só o suficiente para sair de seu caminho. Os cascos do fae deslizaram no chão duro e liso, e ele atingiu o espelho, rachando-o, antes de conseguir parar. — Les, pegue minha Glock. — exclamou tio Travis — Ainda está carregada com balas de prata. Heuter puxou sua própria arma, mas, ainda obediente ao seu tio, correu para o escritório. Significava que ele não atiraria em Charles por enquanto, mas a folga não duraria muito. Anna não podia fazer nada, presa na gaiola. Charles tinha muita força, mas ele era ainda mais afetado pela prata do que a maioria dos homens lobos. Ela não podia deixar que atirassem nele. Ela tinha que fazer algo. Anna empurrou sua cabeça pelas barras cobertas de prata e lutou para ficar livre, cavando suas garras no fundo de madeira da gaiola para alavancar. Ela era menor do que a maioria dos homens lobos, então talvez pudesse forçar sua saída — ou talvez as barras se rendessem à sua necessidade de proteger seu companheiro. A prata queimava mesmo através de sua pelagem espessa, mas ela ignorou e continuou lutando enquanto assistia seu companheiro lutar com o monstruoso fae. Charles saltou quando Benedict passou rapidamente, aterrissando momentaneamente nas costas do senhor cornudo, e então continuou reto por uma dúzia de largas passadas antes de girar para enfrentar sua presa novamente. Aconteceu tão rápido que Charles já havia parado antes do sangue começar a esguichar ao longo do pescoço de Benedict. Sangue arterial, preto com oxigênio, pulverizava um pouco enquanto bombeava para fora. Heuter alcançou o escritório e Anna sentiu as barras cederem contra seus ombros. Ela investiu novamente, mais forte. Tio Travis agarrou as sobras da bang stick e, balançando-a como um taco de beisebol, acertou-lhe no rosto, fazendo com que a lateral da cabeça dela batesse nas barras e torcendo seu pescoço. Atenta à batalha de Charles, e sem querer distraí-lo, Anna não deu um pio, apenas continuou lutando.

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Ele cruzou a sala no mesmo movimento de ziguezague que ela o viu usar quando caçava alces. Charles não parecia como se estivesse se movendo muito rápido — mas cruzou o espaço em tempo recorde. Dessa vez, ele fatiou o rosto do senhor cornudo com suas presas. O corte no lado do pescoço de Benedict já tinha parado de sangrar; ele o curou depressa. Mas a metade de seu corpo prateado estava carmesim com o sangue coagulado. Ele cambaleou e estendeu ambas as mãos para seu rosto. Charles tinha arrancado completamente um olho e fatiou o nariz do fae. Aquilo tirou a briga das mãos de Benedict — Anna podia ver como seria; estava bastante certa de que algo em seu nariz estava quebrado e doía, obscurecendo sua vista e enviando tremores de debilidade por seus músculos. Então Heuter saiu do escritório com uma segunda arma, e ela parou de se importar com qualquer coisa exceto sair, para assim poder evitar que eles atirassem em Charles. As barras tinham se movido daquela última vez, antes de Travis bater nela; sabia disso. Anna se contorceu com toda sua força, e o piso cedeu um pouco embaixo das garras de suas patas traseiras. Foi muito pouco, muito tarde. O lobo vermelho rondou lentamente adiante, mais ou menos a quatro metros e meio de Benedict, dando a Heuter uma mira perfeita. Heuter parou, apalpou em busca da segunda arma depois de tê-la posto em seu coldre. A busca o fez apressar seu tiro e ele apertou o gatilho logo após a investida de Charles. O som chamou a atenção do velho para a briga — Les! Ponha seu traseiro esquelético aqui e me dê a minha arma. Você não pode atingir o lado mais largo de um celeiro. Comece a se mexer. Meu avô era mais rápido do que você quando tinha oitenta e seis anos. Em vez de tentar um segundo tiro, Heuter correu de volta para Travis — provando para Anna que ele não era nenhum lobo Alfa, seja o que for que ele pensava que devia ser. As barras cederam um pouco mais e ela estava deslizando para frente — e Travis bateu nela de novo, exatamente no mesmo lugar em seu nariz onde tinha batido na primeira vez.

CHARLES SABIA QUE estava ganhando. Não sabia por que Benedict Heuter não ficava invisível; talvez ele estivesse muito apavorado para isso. Charles não reclamaria. O senhor cornudo curava mais rápido do que um homem lobo, mas não podia substituir o sangue, não a menos que fosse muito mais poderoso do que parecia. A perda de sangue estava diminuindo a velocidade do fae, deixando-o mais desajeitado. Existiam coisas que poderiam estar melhores. O chão estava muito escorregadio — era uma pista de dança e ele podia cheirar a cera. Incomodava ao fae mais do que a ele, embora não fosse realmente um problema importante, desde que não calculasse mal. Ele também não queria ter mais dois outros vilões soltos e andando por aí com armas carregadas com prata, enquanto ele lutava contra o fae, mas eram humanos e os instintos de Irmão Lobo diziam para descartá-los como ameaça. A outra coisa que sabia era esta: ganhando ou não, ele tinha que manter sua atenção no fae. Mais lento mais desajeitado — mas ainda era bastante rápido e mortal com aqueles chifres. Ele atingiu uma vez o 198


ombro de Charles, quando tinha ido pela garganta do fae, e agora queimava. As pontas daqueles chifres não só pareciam de prata; elas eram prata. A segunda regra de qualquer briga prolongada era desmoralizar seu oponente. O fae começou assustado com ele. A pancada no rosto de Benedict Heuter não era nada perto de fatal, mas perder um olho era aterrador — e criaturas com chifres e cascos eram propensas ao pânico. Instinto de briga ou de fuga, os cientistas diziam. Os lobos eram todos de briga, e as criaturas como Benedict eram todas de fuga. O pânico as tornava estúpidas, e desde que Benedict já nem era tão brilhante assim, até onde Charles podia dizer, apavorá-lo só podia melhorar a situação. Claro, a primeira regra em qualquer tipo de briga era não entrar num confronto prolongado. Charles começou a correr para frente novamente, quando soou o estalo de uma arma. A bala não o atingiu, assim ele a ignorou e continuou em sua linha de ataque. Mas o pequeno som aflito que Anna fez, quase imediatamente após, foi uma coisa totalmente diferente. Ele olhou para ver Anna meio dentro e meio fora da gaiola, seu nariz gotejando sangue, e Travis Heuter de pé, ao lado da gaiola, com um taco extralongo, extra espesso, que tinha sido mastigado numa ponta. Anna se empurrou para dentro da gaiola, onde tudo que eles podiam fazer era cutucá-la — e algo o atingiu como um trem de carga nas costelas. Ignorando a dor, Charles pegou a perna do senhor cornudo, bem acima de seu jarrete, e suas presas dividiram o grande tendão e o músculo menor. Em um humano, ali seria o tendão de Aquiles, e fatiá-lo tornava a perna do fae inútil. Benedict tentou baixar sua perna e caiu quando ela desmoronou debaixo dele. Charles deslizou sob os chifres e fechou seus dentes no pescoço do senhor cornudo. Benedict foi vencido. Impotente. Ele estuprou Lizzie Beauclaire e, indubitavelmente, dúzias de outros, provavelmente matou também. Irmão Lobo achava que ele precisava ser morto. Charles hesitou. Um carro parou com um guincho de freios e borracha, e Charles reconheceu o som do furgão que Isaac estava dirigindo. A cavalaria estava aqui, o senhor cornudo subjugado. Matá-lo para salvar Anna era desnecessário. Havia algo errado com a habilidade de Benedict para raciocinar, possivelmente errado o bastante para afastar a responsabilidade por suas ações. Se houvesse nascido em uma família diferente, talvez não ele tivesse gasto sua vida adulta matando pessoas. Ele desistiu da briga, deitando ainda embaixo de Charles e esperando pelo final, um golpe da morte, da mesma maneira que um cervo ou alce às vezes fazia. Ele era inocente. Encarcerado em barras de aço, não machucaria ninguém. Na ilha, Charles decidira que não mataria por conveniência política, porque isso colocou Anna em perigo ao interferir com a ligação de companheiros deles. Irmão Lobo e ele estavam de acordo: essa não era uma morte política. Esse teria machucado sua companheira, matado os lobos sob sua proteção 199


— e tinha machucado a valente pequena dançarina. Irmão Lobo sabia o que devia acontecer àqueles que quebravam as leis: justiça. Charles afundou seus dentes profundamente e então deu um puxão afiado, estalando os ossos do pescoço de Benedict em pedaços. O fae espasmou brevemente enquanto a vida partia e a morte entrava, e então a presa de Charles era nada além de carne. Parecia certo e adequado, e algo dentro dele se acalmou com a repartição de justiça. Isto era o que ele era, o vingador das vítimas de Benedict Heuter. Era sua resposta aos fantasmas que o assombravam. Por que ele os matou? Porque era justo que eles pagassem pelo dano que causaram. O calor inundou sua carne quando os dedos frios dos mortos partiram. Charles estava livre deles — e viceversa. Algo o advertiu, instintos ou o som de um dedo puxando um gatilho, e ele se moveu imediatamente. Ele ouviu uma arma disparar e algo acertar Benedict, quase onde Charles estava um momento antes. Aquele era o segundo tirou que perderam: alguém era péssimo atirador. Charles se mexeu de novo, deixando o volume do corpo do senhor cornudo entre ele e as armas, antes de girar para ver que Travis e Les tinham armas em punho, era impossível ver quem havia disparado contra ele. Mas a arma de Travis estava apontada para Anna. — É o FBI. Larguem suas armas. — Goldstein gritou da porta próxima ao buraco que Charles fez na parede. Ele e Leslie também tinham suas armas em punho. Não existia nenhum sinal de Isaac ou Beauclaire; Charles assumiu que estavam circulando o edifício para ver se poderiam entrar pela parte de trás. — Larguem suas armas ou eu atirarei. — Não seja precipitado Agente Goldstein. — disse Travis. Ele tinha sua arma sob firme controle, em ambas as mãos. — Essa arma está carregada com prata. Eu atiro na cabeça dela e ela morre. Eu sei que ninguém quer isso. Charles ficou congelado, sua respiração parada. Ele estava longe demais. Levaria três saltos para alcançar Travis — e dois saltos já eram demais. Les Heuter levantou suas mãos sobre a cabeça — mas não soltou a arma. — Les Heuter, Travis Heuter, larguem suas armas. — disse Goldstein — Está tudo terminado. Ninguém se mexeu. Charles rosnou. — Larguem suas armas. — disse Goldstein, e então ele cedeu ao que deveriam ter sido anos de frustração e forçou muito duro — Vocês estão acabados. Sabemos quem vocês são e vocês estão derrubados. Facilitem para todo mundo.

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— Você solte sua arma. — Travis gritou. — Vocês, fodidos, soltem as suas. Vocês são nada. Nada além da ferramenta impotente de um governo liberal muito fraco para servir suas pessoas e protegê-las dessas monstruosidades. — soou esquisitamente como uma fala decorada, como algo declamado por alguém do pequeno harém de Charles Manson62. Talvez Travis Heuter dissesse isto tão frequentemente que nem pensava mais a respeito — Vocês soltem suas armas ou atirarei nela agora e partirei para vocês. Goldstein e Leslie estavam enfocados em Travis. Eles perderam Les, perderam a estranha expressão em seu rosto, que mudou de desespero para satisfação. Eles não o viram mudar seu aperto na arma, cair sobre um joelho e disparar, quase num só movimento. Charles viu, mas não havia nada que ele pudesse fazer sem arriscar que Travis atirasse em Anna, e ele não faria isso. — Abaixe-se. Abaixe-se agora! — gritou Goldstein, mas Les Heuter já estava no chão. — De cara no chão e coloque as mãos atrás da cabeça. Les já o tinha feito antes que Goldstein dissesse uma palavra. As reações dos humanos eram muito lentas. Agora Les era um inocente e matá-lo seria mais difícil. Se Charles tivesse uma arma naquele momento, teria matado Les de qualquer maneira, porque, embora Heuter tivesse atirado no tio, aquilo não impediu Travis Heuter puxasse o gatilho. Travis Heuter, com um buraco de bala bem no centro de sua testa, ainda conseguiu disparar um tiro antes de morrer. Anna desmoronou em uma pilha no fundo da gaiola. Ele a atingiu na coxa e seu sangue formou uma piscina ao redor dela, como um cobertor vermelho. Seu nariz estava torcido e inchado; Travis quebrou algo quando lhe bateu com a vara. — Não foi minha culpa. — disse Heuter. — Era meu tio. Ele nos obrigou a fazer isso. Ele era louco. Anna gemeu, e Charles parou de ouvir Les Heuter tentar culpar o morto por seus crimes. Charles arrancou as portas da gaiola com suas mãos nuas, nem mesmo percebendo que se tornou humano novamente, até que registrou a presença de dedos polegares opositores ao agarrar a prata que queimava a pele. Ele nunca pôde mudar tão rápido antes. E ele fedia à magia fae. Charles voltou seus olhos para Beauclaire, e o velho fae, de pé na entrada próximo a Isaac, lhe acenou com a cabeça. Mais tarde, Charles se perguntaria sobre aquilo; ele não sabia que existia um modo de um fae afetar a mudança de um homem lobo. Mas Anna estava machucada e não havia tempo para se preocupar sobre o que Beauclaire era agora mesmo. Nenhum tempo para o pânico cego que ele sentia ou o modo como queria rasgar o cadáver de Travis Heuter. Ele tinha que ter certeza de que Anna sobreviveria. Charles Milles Manson (Cincinnati, 12 de novembro de 1934) é conhecido como o fundador, mentor intelectual e líder de um grupo que cometeu vários assassinatos na década de 60. Manson tinha ideias grandiosas e um grupo de amigos e admiradores, conhecidos como Família Manson. Aos 37 anos foi acusado de seis assassinatos e levado à justiça, sendo condenado à prisão perpétua. 62

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—… Pare a hemorragia até que tenhamos uma ambulância lá fora. Charles rosnou porque Goldstein chegou muito perto de sua companheira ferida. Mas Isaac apartou antes que Charles fosse compelido a agir. — Deixe-o em paz; você não quer estar em nenhum lugar perto deles agora. — lobo esperto, esse Isaac. Muito jovem ou não, Bran esteve certo por deixá-lo no poder. Charles teria matado qualquer um que chegasse muito próximo. Ameaça à sua impotente companheira evitada, Charles ignorou, principalmente, as palavras que continuaram atrás de suas costas enquanto verificava Anna com gentil eficácia. “Por que ele está usando pele de veado e pérolas?”; “Cale a boca e fique lá até que arranjarmos alguns policiais para ler os seus direitos”; “Quero dizer, ele é nativo americano, mas como vamos explicar...”. Quando Charles mudava sem pensar, quando mudava de lobo para humano muito rápido, às vezes suas roupas esqueciam em qual século ele estava. A suave pele de veado parecia reconfortante e familiar quando ele tocou o pobre nariz de Anna. Ela lambeu seus dedos nervosamente porque ele a estava machucando. Primeiro, a hemorragia. Ele estendeu a mão e rasgou a manga da camisa de Travis, ignorando o grasnido dos policiais quando fez isso. Mas Anna rosnou quando a bandagem improvisada se aproximou dela, então ele a soltou. Fazia sentido que ela não quisesse o cheiro de Travis nela, mas as camurças de Charles não funcionariam, o couro não era nada absorvente. — Eu preciso... — ele não terminou de dizer todas as palavras antes de Isaac falar: — Pegue. — e lançou para ele um dos enormes kits de primeiros socorros que todos os clãs mantinham em seus carros, por ordens de Bran. Só porque você podia curar rapidamente não significava que podia curar rápido o suficiente, o Marrok gostava de dizer. Charles afastou as palavras do seu Da, desejando que os fantasmas delas não se demorassem em seus ouvidos. Não havia nenhuma razão para pânico. Ela estava sangrando profusamente, mas a bala atravessou direto e estava cravada no chão e não existia nenhum sinal de hemorragia arterial. Mas Irmão Lobo não ficaria feliz até que ela estivesse bem. Uma vez que ele controlou o ferimento da bala, deu uma segunda boa olhada para a cabeça de Anna. Ele se curvou para tocar seus lábios nas orelhas dela e lhe perguntou: — Posso fazer isso agora ou você pode esperar até mais tarde. Suas drogas não ajudam muito e eles terão que quebrar novamente… 202


Agora. A voz de Anna estava clara como um sino em sua cabeça — e ele percebeu que a ligação de ambos estava aberta e forte. Por um momento Charles ficou sem fôlego. Quando isso aconteceu? Quando ele aceitou seu papel como a justiça mais uma vez? Quando aceitou que havia outras respostas além da morte — mas que aquela morte era a adequada e justa? Ou foi quando ele viu o sangue de Anna e soube que Travis conseguiu machucá-la mesmo com seu companheiro tão próximo, quando culpa, certo e errado se tornaram apenas palavras ante a realidade do ferimento de sua companheira? Mas Anna estava machucada e depois haveria tempo para compreender o que aconteceu. Charles usou o vínculo para absorver sua dor e tomar tanto dentro de si quanto pudesse. Então ele colocou o osso do nariz dela de volta no lugar certo, antes que a habilidade de remendar rapidamente do homem lobo o curasse torto. Ela não vacilou, embora ele soubesse que não podia tomar toda a dor dela. Pare com isto, Anna ralhou com ele. Você não precisa se machucar porque fui ferida. Mas eu preciso, Charles respondeu, mais honestamente do que pretendia. Falhei em te manter segura. Ela bufou uma risada. Você me ensinou a me manter segura — um presente muito melhor para sua companheira, eu acho. Se você não me encontrasse, eu teria matado todos eles. Mas você veio — e isso é outro, um segundo presente. Que você tenha vindo, embora eu pudesse ter me protegido. Ela estava confiante e isso o agradou. Então Charles não pensou sobre os três lobos experientes e duros que foram mortos para o lazer daqueles sujeitos. Deixou-a sentir-se segura. Não discutiu com ela sobre aquilo, só correu seus dedos gentilmente pelos tufos da pele dela. Os fantasmas se foram, ela pronunciou com absoluta certeza, e adormeceu antes de ele poder responder. Mas ele o fez de qualquer maneira. — Sim.

CAPÍTULO 13  Quando Charles era um menino, em todo outono seu avô levava seu povo e reunia-se com outros bandos de índios, a maioria deles camaradas Cabeças-Planas, Tunaha, ou outros bandos Salish, mas às vezes uns poucos Shoshone de quem eram amigos viajavam junto. Eles montavam seus cavalos em direção ao leste para caçar búfalos e se preparar para a chegada do inverno. Ele não era mais um garoto e viajar para o leste não era mais um divertimento, não quando significava que ele e sua companheira estavam de novo numa grande cidade, em vez de acomodados na 203


casa deles, nas montanhas de Montana. Três meses se passaram desde que ele matou Benedict Heuter, e eles voltaram para o julgamento sensacionalista de seu primo. Boston era bonita nessa época do ano — as árvores exibindo suas cores outonais. Mas o ar ainda cheirava a escapamento de carro e a pessoas demais. Ele testemunhou, Anna testemunhou, o FBI testemunhou. Lizzie Beauclaire de muletas, com o joelho em uma cinta e as cicatrizes deixadas pelos Heuters, testemunhou. Ela seria capaz de andar sem muletas novamente, com cirurgias o suficiente, mas dançar estava fora de cogitação. Suas cicatrizes podiam ser reduzidas, mas para o resto de sua vida ela suportaria as marcas dos Heuters como lembrança a cada vez que se olhasse em um espelho. Quando a acusação terminou de apresentar seu caso, a defesa começou. Eles passaram a última semana guiando o júri pelo inferno que foi a infância de Les Heuter. Foi quase o suficiente para nutrir a simpatia em Charles. Quase. No entanto, Charles esteve lá, viu o calculismo no rosto de Les Heuter quando ele atirou em seu tio. Ele tinha planejado esta defesa, contando em pôr a culpa de seus males nos mortos. O tio dele estava errado; Les Heuter era esperto. Heuter se sentou na frente do tribunal, muito bem vestido com calça comprida, camisa e gravata. Nada muito caro. Nada muito brilhantemente colorido. Eles fizeram algo com seu cabelo e a roupa que o fez parecer mais jovem do que era. Heuter explicou para o júri, para os repórteres e para o público na sala do tribunal, como era viver com um homem louco que o obrigou a ajudá-lo a limpar o país — aparentemente o nome de Travis Heuter para a tortura e o estupro de suas vítimas — quando ele tinha dez anos de idade. — Meu primo Benedict era um pouco mais velho do que eu. Ele era uma boa criança, tentado manter o velho afastado das minhas costas. Levou algumas surras por mim. — ele piscou para afastar as lágrimas e, quando isso não funcionou, limpou os olhos. Talvez as lágrimas fossem genuínas, mas Charles achava que eram simplesmente perfeitas demais, as únicas lágrimas vertidas por um homem forte para criar compaixão, no lugar de lágrimas verdadeiras, que poderiam ter sido vistas como debilidade de caráter. Les Heuter escondeu o que era por mais de duas décadas; interpretar um papel para o júri não parecia ser muito esforço. — Quando Benedict tinha onze anos, ele teve um episódio violento. Ficou louco por cerca de dois meses. Tentou apunhalar meu tio, atacar-me, e… — um olhar cuidadoso para baixo, uma leve ruborizada — Era como um cervo ou um alce entrando no cio. Meu tio tentou bater nele, drogá-lo, mas nada funcionou. Então o velho ligou para uma bruxa famosa. Ela nos mostrou o que Benedict era, o que ele devia ter instintivamente escondido. Ele parecia com um menino normal; acho que os faes podem fazer isto, podem parecer com todos os outros; mas ele era um monstro. Tinha esses chifres, como um cervo, e cascos partidos. E era muito maior do que qualquer menino de sua idade deveria ser, um metro e oitenta nessa ocasião, perto o suficiente.

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— Minha tia havia sido estuprada por um estranho quando tinha dezesseis anos. Aquela foi a primeira vez que nós percebemos que ela foi estuprada por um monstro. Seu advogado deixou o barulho aumentar na sala do tribunal e começar a cair antes de fazer outra pergunta — O que seu tio fez? — Ele pagou à bruxa uma batelada de dinheiro e ela proveu-lhe os meios para manter o cio de Benedict sob controle. Ela deu a ele um amuleto para usar. Disse que se ele esculpisse aqueles símbolos em um animal ou dois, mais ou menos um mês antes do cio de Benedict, isto pararia. Ela pretendia que nós sacrificássemos animais, mas — aqui uma careta de desgosto — o velho descobriu aquelas pessoas funcionavam melhor. Mas então a bruxa sabia sobre nós, e tivemos que nos livrar dela. Meu tio a matou e a deixou no gramado da frente de um dos parentes dela. Foi um desempenho de mestre e Heuter conseguiu manter o personagem mesmo sob um feroz interrogatório, conseguiu manter o monstro que ajudou a estuprar, torturar e matar pessoas por quase duas décadas completamente fora de vista. Seu pai era quase tão brilhante. Quando sua esposa morreu, ele abandonou o filho para ser criado por seu irmão mais velho, pois estava muito ocupado com o cargo público, muito consumido pelo luto. Ele pensou que o menino estaria em melhor situação nas mãos da família do que sendo criado por alguém que fosse pago para isso. Ele informou ao júri que tinha decidido renunciar à sua posição no Senado dos EUA. — É muito pouco, muito tarde. — ele lhes disse, com um remorso que foi efetivo porque era obviamente genuíno — Mas não posso continuar no trabalho que custou meu filho tão querido. E durante a exposição da defesa, a habilidosa equipe de advogados dos Heuters sutilmente lembrou ao júri e às pessoas na sala do tribunal que eles mataram faes e homens lobos. Que Les Heuter achou que estava protegendo as pessoas. Quando Heuter contou que seu tio retratou os homens lobos como bestas apavorantes, seu advogado apresentou fotografias do pedófilo morto pelos homens lobos de Minnesota. Ele foi cuidadoso em mencionar que o homem tinha sido um pedófilo, cuidadoso em dizer que as autoridades de Minnesota estavam satisfeitas que os envolvidos tivessem sido tratados apropriadamente, muito cuidadoso em dizer que estes eram exemplos dos tipos de coisas que Travis Heuter mostrou ao seu sobrinho. E, Charles tinha certeza, ninguém no júri ouviu nada do que o advogado de defesa disse; eles só olharam para os retratos. Eles mostraram fotos do cadáver de Benedict Heuter. O corpo em si desapareceu algumas horas depois de ter sido levado para o necrotério, mas as fotos permaneceram. As fotografias mostravam um monstro, coberto em sangue e tecido, nada da graça que o fae teve em vida visível em sua morte. Uma foto mostrava os ossos do pescoço de Benedict Heuter esmagados e separados, embora fossem tão grandes quanto uma maçã que alguém mordeu de modo particularmente medonho, para uma comparação.

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Apesar de o maior monstro na sala estar sentado na cadeira de acusado, Charles estava certo de que os únicos monstros que o júri via eram Benedict Heuter e o homem lobo que o matou.

ELES ESPERARAM PELO veredicto no escritório de Beauclaire, ele e Anna, Lizzie, Beauclaire, sua ex-esposa e o atual marido dela. Charles desejou que eles pudessem ter aceitado a oferta de Isaac de uma boa refeição ao invés — mas Beauclaire foi insistente no comportamento “cortês-mas-disposto-adesembainhar-uma-espada-para-fazer-do-seu-jeito” que algum dos faes mais velhos tinham. Charles estava bastante certo de que era a presença de Anna que ele procurava, e que ele queria que ela estivesse com Lizzie quando Heuter fosse sentenciado. Porque o advogado seguramente sabia, como Charles sabia, que seria uma sentença leve. Os advogados de defesa mereceram o pagamento. Eles não podiam apagar todos os corpos que os Heuters deixaram para trás, mas deram o seu melhor. O escritório de Beauclaire cheirava a vazio. As estantes de parede a parede estavam limpas e desocupadas. Ele estava se aposentando. Oficialmente exposto como fae, sua firma sentiu que era seu melhor interesse, e interesse de seus clientes, que ele parasse de advogar. Ele não parecia muito chateado com isso. O nariz de Charles lhe disse que o resto da firma era composto principalmente por faes — e que existiam muitas caixas fechadas no corredor. Talvez estivessem planejando fechar a firma completamente, reinventado a si mesmos e seguindo em frente. Uma daquelas coisas de presente/maldição em uma vida longa. Ele mesmo se “aposentou” e começou de novo por algumas vezes. Eles jogavam pinochle63, uma versão ligeiramente diferente da que ou ele e Anna conheciam, mas, de modo geral, o verdadeiro pinochle existia em qualquer lugar. Os mantinha ocupados enquanto esperavam e preservava a tensão em baixa. Não havia nenhum amor residual entre os pais de Lizzie, embora fossem assustadoramente educados um com o outro. O padrasto dela ignorou admiravelmente a tensão e pareceu ter decidido que era seu trabalho manter Lizzie entretida. Quando veio a chamada de que o júri havia chegado a um veredicto, depois de apenas quatro horas de deliberação, eles estenderam suas mãos com um suspiro de alívio.

A JUÍZA ERA uma mulher de cabelos grisalhos com feições e olhos arredondados, que combinavam mais com um sorriso do que com uma carranca. Ela evitou olhar para Charles, Anna e Isaac durante o julgamento — e ela tinha colocado, discretamente, um guarda entre si e a testemunha, Um jogo de cartas para duas ou quatro pessoas, com pontos sendo marcados por truques feitos e certas combinações formadas. 63

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quando quaisquer dos homens lobos ou faes, incluindo Lizzie, foram questionados. Sua voz era lenta e paciente enquanto listava os nomes daqueles cujo assassinato tinha sido imputado a Les Heuter. Levou um bom tempo. Quando ela terminou, disse: — Como vocês julgam o réu? O presidente do júri tragou um pouco nervosamente, relanceou os olhos para Charles, limpou a garganta e respondeu: — Nós julgamos o réu inocente de todas as acusações. O tribunal ficou mudo por um longo tempo. Então Alistair Beauclaire levantou-se, o rosto inexpressivo, mas a ira estava em cada outra parte de seu corpo. Ele olhou para os membros do júri e então para a juíza. Sem uma mudança de expressão, girou e caminhou para fora do tribunal. Somente quando ele se foi, a sala explodiu em barulho. Les trocou abraços exuberantes com seus advogados e com seu pai. Ao lado de Charles, Anna soltou um grunhido baixo pela visão. — Nós precisamos tirar Lizzie daqui. — Charles disse a ela. — Isso vai virar um zoológico. Ele se levantou enquanto falava e usou seu corpo para abrir caminho para a filha de Beauclaire, a mãe e o padrasto dela, enquanto Anna os conduzia para fora. Vários repórteres surgiram e gritaram perguntas, mas eles se afastaram quando Charles mostrou-lhes os dentes — ou talvez fossem seus olhos, porque ele sabia que Irmão Lobo os mudou para dourado. — Eu esperava que ele pegasse uma pena leve — disse a mãe de Lizzie, seus dentes batendo como se o ar vivo do outono estivesse abaixo de zero — Pensei que ele seria condenado por uma acusação menor. Nunca sonhei que eles simplesmente o soltariam. Seu marido tinha um braço ao redor Lizzie, que parecia atordoada. — Ele está livre. — ela disse em uma voz perplexa — Eles sabiam. Eles sabiam o que ele fez. Não só para mim, mas para todas aquelas pessoas; e eles simplesmente o deixaram ir. Charles manteve metade de sua atenção em Heuter, que estava falando com uma multidão de repórteres nos degraus do tribunal, a quinze metros de distância talvez. Sua linguagem corporal e seu rosto transmitiam um homem que estava sinceramente arrependido pelas ações que seu tio o tinha obrigado a fazer. Fez Irmão Lobo grunhir. O pai de Heuter, o senador do Texas, permaneceu atrás dele com uma mão em seu ombro. Se qualquer um deles visse o rosto da mãe de Lizzie, teriam contratado seguranças. Se ela tivesse uma arma em sua mão, a teria usado. Charles entendia o sentimento.

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— Eles salientaram a estranheza dos faes e dos homens lobos e a usaram para assustar o júri até uma absolvição. — disse o padrasto de Lizzie, soando tão chocado quanto a própria. Então ele olhou Charles nos olhos, embora tivesse sido advertido por Beauclaire a não fazê-lo — Travis e Benedict não machucarão ninguém mais, e pessoas estarão vigiando Les, ainda que eu mesmo tenha que contratá-las. Ele cometerá um erro e nós o mandaremos para a prisão. — Você poderia considerar investigar aos jurados também. — sugeriu Anna em uma voz fria que não escondia sua fúria — O bom senador tem dinheiro mais do que suficiente para subornar algumas pessoas, se necessário. O padrasto de Lizzie a olhou e sua voz suavizou-se — Vamos levar você para casa, coração. Você provavelmente terá que dar uma entrevista para se livrar dos repórteres, mas meu advogado ou seu papai podem montá-la. — Confie em Alistair para não estar aqui quando precisamos dele. — murmurou a mãe de Lizzie. Mas ela falou sem veneno. Então continuou — Certo, sei que não é justo. Ele sabe que você está segura conosco, querida. E ele provavelmente ficou preocupado de matar Heuter se tivesse que olhá-lo correndo por aí, livre como um pássaro. E por muito que eu desejasse que ele pudesse fazer isso, causaria mais problemas do que resolveria. Ele sempre sentiu falta dos dias em que podia matar qualquer um que o aborrecesse. Anna pôs sua mão no braço de Charles — Ouve isso? — ela perguntou tão urgentemente que todo mundo se voltou para olhar para ela. Charles não ouviu nada acima da multidão de pessoas, dos carros buzinando e dos cascos dos cavalos de carruagem. Anna olhou ao redor, ficando na ponta dos pés para ver por cima das cabeças das pessoas. Ainda havia uma multidão nos degraus e hordas de repórteres, porque “serial killer” somado a “filho de senador” era igual a “grande furo”. Charles procurou, também — e então percebeu que não podia ver quaisquer cavalos de carruagem. Ele nunca viu quando eles apareceram ou de onde eles vieram, mas, de repente, eles estavam lá. Depois de alguns minutos outras pessoas os viram também, e ficaram mudas. O tráfego parou. Les Heuter e seu repórter ainda estavam enrolados em sua declaração cheia de mentiras para os noticiários nacionais, mas o senador Heuter estava olhando para a rua e pôs sua mão no ombro de seu filho. Cinquenta e nove cavalos negros estavam imóveis na calçada em frente ao tribunal. Eles eram altos e esbeltos, como cavalos de corrida puro-sangue, exceto por suas crinas e rabos que eram mais cheios — absurdamente mais. Correntes de prata estavam trançadas em suas crinas, e nas correntes penduravam-se sinos de prata. Charles conhecia cavalos. Não havia nenhum modo de cinquenta e nove cavalos permanecerem quietos, sem nenhum estalido numa orelha, nenhuma contorção de seus rabos.

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Suas selas eram brancas — selas antiquadas com lombadas altas e cabeçotes, quase como uma sela do velho oeste sem o berrante. Os cobertores de sela eram prateados. Nenhum deles tinha rédeas. Cada cavalo carregava um cavaleiro vestido em adornos pretos e prateados, tão imóveis quanto seus cavalos. Suas calças eram folgadas, feitas de algum tecido leve; as camisas eram túnicas bordadas com linha prateada, o padrão de costura diferente para cada cavaleiro. Este aqui tinha flores, aquele ali estrelas, o outro, folhas de hera. Charles sabia que havia magia acontecendo porque não podia discernir um único rosto, entretanto nenhum deles usava uma máscara. Somente quando o feitiço de sua chegada começou a se afinar, quando as pessoas na multidão começaram a sussurrar, eles se separaram. Os cavalos voltaram para trás e para o lado, formando duas linhas, uma ao lado da outra, e por esta passagem um cavalo branco trotou lentamente. Como os outros cavalos, ele não tinha nenhuma rédea — mas este cavalo não tinha nenhuma sela também. Somente correntes pretas amarradas por sua crina e seu rabo, cobertas com sinos de prata que tiniam docemente com o movimento firme do cavalo. Sobre ele estava um homem vestido de prateado e branco. Em sua mão direita segurava uma pequena espada de prata e na esquerda um galho de planta, com folhas verdes azuladas e pequenas flores amarelas. Arruda. O cavalo branco parou no pé da escada e Charles notou duas coisas. Primeiro, o cavalo tinha olhos azuis brilhantes que encararam os dele e o estudaram friamente antes de se voltarem para olhar fixamente Lizzie. Segundo, o cavaleiro era o pai de Lizzie. — Eu disse a eles — ele falou numa voz clara, carregada — que não deviam dar a alguém tão velho e poderoso quanto eu uma filha para amar. Que terminaria mal. Seu cavalo moveu-se, levantando uma pata dianteira e escoiceando o ar, antes de colocá-la exatamente onde estava. — Agora todos nós devemos viver com as consequências. O cavalo branco se ergueu em suas patas traseiras, não se erigindo. Foi um preciso e lento levade , tão equilibrado e gracioso quanto qualquer movimento de balé. 64

— O que foi feito hoje não foi justiça. Este homem estuprou e torturou minha filha. Quando terminasse ele a teria matado. Mas vocês todos nos veem como monstros; com tanto medo do escuro que não conseguem realmente ver os seus próprios monstros entre vocês. Muito bem. Vocês deixaram claro que nós e nossas crianças não somos cidadãos desse país, que estamos separados. E que receberemos uma justiça separada que tem pouco a ver com a senhora adorável que segurando a balança equilibrada, e tem tudo a ver com seus medos.

O levade faz parte de uma série de movimentos de alto nível, no qual o cavalo deixa o chão. O levade começou a ser ensinado no início do século XX, no qual o cavalo permanece em uma posição de aproximadamente 30-35 degraus do chão. O ângulo reduzido faz o levade uma posição extremamente vigorosa de se manter e requer um grande esforço por parte do cavalo. 64

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O cavalo baixou até descansar novamente sobre todas as quatro patas. — Fizeram sua escolha. E todos nós viveremos com as consequências. A maioria de nós. A maioria de nós viverá com as consequências. O cavalo branco começou a avançar novamente, subindo os degraus de cimento. Seus cascos calçados de prata estalavam enquanto ele caminhava, e Alistair Beauclaire desintegrou a arruda em sua mão esquerda e a dispersou à medida que seguia, deixando para trás uma trilha de folhas que era muito espessa para o pequeno galho com que ele começou. A última caiu de suas mãos quando o cavalo parou na frente de Les Heuter. Charles tentou se mover afinal — mas descobriu que não podia fazer nada, exceto respirar. — Não é adequado que o atacante de minha filha deva viver. — Beauclaire disse. Ele levantou sua espada e girou, mal diminuindo a velocidade quando o metal encontrou a carne e triunfou. Ele decapitou Les Heuter na frente de uma câmera de televisão — e então falou para ela: — Por duzentos anos estive sujeito ao juramento de que não usaria meus poderes para ganho pessoal nem para o ganho do meu povo. Em retorno, nós teríamos permissão para vir aqui e vivermos em tranquila harmonia num lugar desatado do ferro. Ele não disse para quem fez seu juramento, apesar de Charles achar que não importava. Para alguém como este fae, um juramento feito a uma criança era tão válido quanto um juramento feito a um rei ou ao papa. Inclinando sua lâmina sangrenta em direção ao corpo no chão, Beauclaire disse tranquilamente: — O tempo daquele juramento passou, quebrado por este homem e por aqueles que o libertaram sem levar em conta a justiça. Reclamo minha magia para mim e para meu povo. Nosso dia começa de novo. Então ele levantou a espada ensopada em direção ao céu e severamente anunciou — Nós, os faes, nos declaramos livres das leis dos Estados Unidos da América. Não as reconhecemos. Elas não têm nenhuma autoridade sobre nós. Deste momento em diante, somos nossa própria nação soberana, reivindicando como nossas as terras cedidas a nós. Nós trataremos vocês como uma nação hostil trata a outra, até o momento em que nos pareça bom fazer diferente. Eu, Alistair Beauclaire, uma vez e novamente Gwyn ap Lugh, Príncipe dos Senhores Cinzas, assim determino. Todos respeitarão meus desejos. O cavalo branco ergueu suas patas dianteiras e girou, saltando os degraus e de volta pelo caminho feito para ele pelos outros cavaleiros. Quando o cavalo branco correu, uma névoa branca levantou atrás dele, cobrindo-os todos por um momento antes de se dissipar, levando consigo todos os faes. O senador Heuter caiu de joelhos para lamentar seu filho. 210


O MARROK ENTROU na casa de seu filho. Charles voara para casa na noite anterior — direto de Boston. Ele decidiu parar de pegar voos comerciais até que não fosse mais necessário que ele observasse outros revistando sua companheira. Bran não podia discutir com sua lógica, mas eles chegaram tarde e foram direto para casa. Bran tentou deixá-los dormir, mas a necessidade de ter certeza que eles estavam seguros anulou seu senso de cortesia. Ele caminhou silenciosamente pelo corredor, para o quarto. Charles estava deitado na cama com Anna esparramada, sem energia, sobre dele, seu cabelo cobrindo-lhe o rosto. Bran sorriu, contente por seu filho estar feliz. Não importa o que mais estivesse errado — e ele tinha muito medo de que muito iria dar errado em pouco tempo, graças ao movimento inesperado daquele fae geralmente cauteloso —, o conhecimento de que Charles ficaria bem o deixava satisfeito. Naquele momento, observando seu filho dormir, ele entendeu completamente as ações de Beauclaire. Os olhos de Charles se entreabriram, dourado brilhante. — Durma um pouco por enquanto, Irmão Lobo. — Bran murmurou suavemente. — Continuarei vigiando até que você desperte.

— OS FAES RETIRARAM-SE para suas reservas — o Da disse enquanto panquecas para Anna. Seu Da gostava de fazer panquecas para o café da manhã, mas o formato de cervo era uma coisa nova. Charles tentava não analisar seu pai quando podia evitar. — E sobre os humanos? — Anna perguntou — A burocracia da reserva? — ela não pareceu aborrecida pelas panquecas. Ele acordou depois de voar de Boston até Montana para encontrar seu Da fazendo o café da manhã para eles: salsicha e panquecas com formato de cervo. Não era qualquer cervo, tampouco — elas pareciam com o Bambi dos desenhos da Disney. Charles não queria saber como seu pai conseguiu isso. Charles preferia que seu cervo tivesse gosto de carne e que suas panquecas se parecessem com panquecas. Irmão Lobo achava que ele era muito exigente. Irmão Lobo provavelmente estava certo. — Os humanos foram expulsos e os portões se fecharam contra eles. Helicópteros militares foram enviados para vigiar a área mas parece que não conseguiram encontrar as reservas para poder sobrevoá-las. Charles bufou. — Típica coisa fae. — Eles me abordaram. — Da disse. 211


Charles abaixou o garfo. Anna, sendo Anna, tirou a espátula da mão de seu Da e o arrastou para se sentar com eles. Ela não disse nada, só empilhou algumas panquecas em um prato, despejou xarope de bordo sobre elas e as deu para seu Da. — O que eles disseram? — perguntou Charles. — Eles se desculparam pelo distúrbio que as ações deles causarão em nossa habilidade de nos integrarmos com a sociedade humana. — ele comeu um pedaço de panqueca e fechou os olhos. — Eles me agradeceram pela ajuda do meu filho no caso de Les Heuter. — Os faes agradeceram a você? — perguntou Charles. Os faes não agradeciam a ninguém, nem era sábio agradecer aos faes: isso põe você no poder deles. Seu pai assentiu. — Então me pediram para encontrar com eles para discutir assuntos de diplomacia. — O que você disse? Seu pai sorriu brevemente e comeu outro bocado de panqueca. —Disse-lhes que eu consideraria. Não pretendo deixá-los me forçar a seguir o exemplo deles. Anna segurou seu copo de suco laranja em um brinde formal. — Por tempos interessantes. — ela disse. Seu Da se inclinou e beijou a testa dela. Charles sorriu e deu uma mordida em sua panqueca de cervo. Tinha um gosto muito bom.

 FIM 

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A Fúria do Lobo / Alfa e Ômega #3 - Patricia Briggs  

Dizem que os opostos se atraem. Esse era o caso dos homens lobos, Anna Latham e Charles Cornick, eles se acasalaram. O filho e executor do l...

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