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Revista Bimestral do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco

Edição 01 Ano 01 Agosto/Setembro 2018

A inclusão que transforma O acesso de povos indígenas à educação profissional vem garantindo a promoção da equidade racial no âmbito do IFPE bem como uma maior aproximação com comunidades indígenas de Pernambuco


Destaque

Connepi movimenta Pernambuco 7 CULTURA

Experiências artísticas a partir da gravura

Extensão

Escola do Jovem camponês

10 capa

perfil

Reitora | Anália Ribeiro

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De auxiliar a estudante do IFPE

Estudantes Indígenas no IFPE

Assessora de Comunicação | Natasha Bezerra Edição | Patricia Rocha • Rafaela Vasconcellos

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Projeto Gráfico | Adriana Oliveira • Natasha Bezerra Foto capa | Jorge Luiz Diagramação | Adriana Oliveira • Natasha Bezerra

Redação Alline Lima | alline.lima@caruaru.ifpe.edu.br Carlos Magno Menezes | magno.menezes@belojardim.ifpe.edu.br Débora Duque | debora.duque@reitoria.ifpe.edu.br Denise Galvani | denisegalvani@ipojuca.ifpe.edu.br Gil Aciolly | gilaciolly@olinda.ifpe.edu.br Juliana Costa | juliana.costa@reitoria.ifpe.edu.br Henrique Asevedo Hugo Peixoto | hugo.peixoto@vitoria.ifpe.edu.br Jorge Luiz | jorge.luiz@pesqueira.ifpe.edu.br Mônica Melo | monicamelo@recife.ifpe.edu.br Patrícia Rocha | patriciarocha@reitoria.ifpe.edu.br Rafaela Vasconcellos | rafaela.vasconcellos@reitoria.ifpe.edu.br Revisão | André Galvão Colaboração | Clara Martins • Erika Targino Anúncios | Adriana Oliveira • Patrícia Rocha Reprodução | Triunfal Gráfica e Editora Tiragem | 2 mil exemplares

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su Pesquisa

Tecnologia

Óleos essenciais

Óculos 3D vai ajudar pessoas cegas 24

Especial

Capacitação e terapia 26

28 Ensino

Meio Ambiente

Área ambiental se destaca na Extensão

IFPE na Olimpíada de Astronomia

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34 Carreiras

Técnico em Logística 38


A importância da educação inclusiva É com muita alegria que damos as boas-vindas aos nossos estudantes e às nossas estudantes.

infraestrutura do IFPE, melhorando a permanência e êxito dos nossos estudantes e das nossas estudantes. Cada laboratório, cada reforma, cada aquisição, cada parceria, cada campanha, cada ação desenvolvida pelo Instituto faz parte desse esforço Aqui no IFPE, temos como foco de democratizar a sociedade através a oferta da educação, da ciência e da da educação de qualidade. tecnologia com qualidade e o acolhiNossas iniciativas têm gerado mento das pessoas nos seus diversos resultados excelentes. Nesta primeira matizes, identidades e afetividades, edição da revista Acontece trazemos religiões, cores e extratos socioecoalguns deles, como a participação de nômicos. Um trabalho de entender e um estudante do IFPE na Olimpíada formar pessoas enquanto sujeitos de Internacional de Astronomia e direito. Obviamente o aprendizado Astrofísica (IOAA), na China, o não é unilateral, e se fundamenta nas desenvolvimento e transferência de perspectivas de compartilhamento, tecnologia assistiva por meio dos de conexões, de coletividade, de nossos óculos 3D, os conhecimenpluralidade. tos compartilhados com os jovens Os princípios do acolhimento e da zona rural por meio do projeto da qualidade não são díspares, mas Escola do Jovem Camponês e os recomplementares e essenciais para latos inspiradores dos nossos alunos a inclusão das pessoas, pois acolhiindígenas, que, através do ensino, da mento sem qualidade é uma falsa pesquisa e da extensão modificam inclusão. Por isso, queremos uma não só as realidades e perspectivas educação inclusiva e democrática, deles, mas também as nossas. E não baseada na colaboração entre pesso- para por aí. A revista está cheia de as humanas nos seus mais diversos outras grandes histórias e projetos espectros e representatividades. que estão prestes a ser descobertos Nesse sentido, todos os esforços por você, leitor(a). se concentram na construção de Boa leitura! políticas institucionais para qualificar cada vez mais os trabalhos e a Anália Ribeiro | Reitora do IFPE

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palavra da reitora

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Grande encontro da Pesquisa e Inovação Em novembro, Pernambuco abrirá as portas para sediar a 12ª edição do Connepi, que se consolida como o maior evento científico e multidisciplinar da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica

destaque

TEXTO Débora Duque FOTOS Divulgação

Entre os dias 27 e 30 de novembro, Pernambuco se prepara para receber a 12ª edição do Congresso Norte-Nordeste de Pesquisa e Inovação (Connepi). O evento está sendo organizado de forma conjunta pelo Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco (IFPE) e do Sertão Pernambucano (IF-Sertão), e promete reunir cerca de cinco mil estudantes, pesquisadores e docentes, consolidando-se como um dos maiores eventos científicos de caráter multidisciplinar do país.

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A exemplo de edições anteriores, programação do Congresso inclui sessões orais, mostra de pôsteres, mesas-redondas, minicursos e atividades vinculadas ao Universo IF

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Neste ano, o Connepi terá como tema os “10 anos da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica”. Como nas edições anteriores, a programação inclui sessões orais de apresentação de trabalhos, mostra de pôsteres, mesas-redondas, minicursos, apresentações culturais e atividades vinculadas ao Universo IF. Uma delas é a Mostra Tecnológica, que reúne projetos de destaque no âmbito da Inovação desenvolvidos nos Institutos Federais. A outra é o Desafio de Ideias, um espaço para que os estudantes possam tirar projetos do papel com a ajuda de consultores e especialistas da área de empreendedorismo. “Com o Universo IF, a proposta é mobilizar alunos e servidores dos Institutos participantes em torno da pesquisa aplicada, incentivando o desenvolvimento de soluções inovadoras por meio

de jogos, ideias, produtos, processos e protótipos”, explica a vice-coordenadora da Comissão Organizadora do Connepi, Clécia Pacheco, pró-reitora de Pesquisa do IF-Sertão. A troca de conhecimentos e experiências é uma das palavras de ordem do Connepi 2018. Por isso, a Comissão Organizadora decidiu dar preferência à realização de sessões de debates e mesasredondas, em detrimento de palestras e conferências. “Nosso objetivo foi incentivar ainda mais o debate entre os participantes e a interação entre o público e os convidados”, destaca o coordenador-geral do evento, Mário Monteiro, pró-reitor de Pesquisa, Inovação e Pós-Graduação do IFPE. Outra novidade é que o evento buscará reforçar o caráter multidisciplinar da programação, que envolve atividades


Encontro, que deve reunir cerca de cinco mil pessoas, ainda vai contar com apresentações culturais e premiação da Mostra de Inovação Tecnológica

PROGRAMAÇÃO DO CONNEPI 2018 Mesas-redondas Debates Apresentação de Trabalhos Mostra de Pôsteres Atividades Culturais

e trabalhos das áreas de Engenharia, Ciência Exatas, Saúde, Biologia, Ciências Sociais Aplicadas, Linguagem e Ciências Humanas. As sessões de pôsteres e apresentações de artigos serão divididas por áreas do conhecimento e serão abertas por sessões de debates realizados por especialistas das respectivas áreas. A lista de minicursos oferecidos também seguirá em sintonia com o princípio da multidisciplinaridade, incluindo ao menos uma formação em cada grande área. “Em 2018, o Connepi está sendo pensado, definitivamente, para promover o encontro entre trabalhos de áreas diferentes, mas especialmente para facilitar o diálogo entre pesquisadores com interesses afins, sem abrir mão do seu caráter disciplinar”, avalia Monteiro. Realizado desde 2006, o congresso sempre teve como foco a difusão da

produção científica e tecnológica dos Institutos Federais e outras instituições da Rede. Nas últimas edições, no entanto, sua abrangência vem se expandindo gradativamente mobilizando pesquisadores de universidades e outras instituições de ensino. No último Connepi, cerca de 20% dos trabalhos apresentados eram de autores externos à Rede. “O evento vem chamando a atenção de pesquisadores de universidades e outras instituições. A expectativa é de que, neste ano, a presença de pesquisadores externos aumente ainda mais”, projeta o presidente do Comitê Científico, Márcio Villar, que também atua como diretor de Pesquisa do IFPE.

Mostra dos IFs Universo IF -> Mostra Tecnológica e Desafio de Ideias Minicursos e Oficinas

CALENDÁRIO Inscrições gerais (ouvinte): a partir de setembro Divulgação da programação geral: a partir de setembro Realização do evento: 27 a 30 de novembro

INFORMAÇÕES Site oficial: connepi2018.ifpe. edu.br Contato: connepi2018@reitoria. ifpe.edu.br Facebook: Connepi2018 Instagram: Connepi2018

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Roda de Capoeira | H.C. Gravura cedida pelo Prof. Josinaldo Barbosa, integrante do projeto

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O valor artístico da gravura cultura

Universo da gravura é explorado no Coletivo Gravos, projeto de extensão do IFPE que integra os cursos de Artes Visuais, do Campus Olinda, e Design, do Campus Recife TEXTO Gil Aciolly FOTOS Aline Évora, Gil Aciolly e Leandro Viana

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Há cinco séculos, grandes artistas começaram a utilizar a técnica artesanal da gravura, que nos dias de hoje continua encantando. O método, estudado no curso técnico em Artes Visuais do IFPE Campus Olinda, extrapolou a sala de aula e virou um projeto de extensão, integrado também por professores do curso de Design Gráfico do Campus Recife. Intitulado Gravos, o coletivo tem o objetivo de desenvolver experiências artísticas relacionadas à produção, formação e divulgação da gravura, além de testar novos produtos e dar início a um acervo próprio dessa arte. O processo consiste na impressão de várias cópias a partir de uma matriz. Por serem realizadas artesanalmente, as gravuras têm grande valor artístico. Com tiragem limitada, cada uma delas é numerada pelo próprio artista, garantindo a exclusividade das obras. “Cada gravura é única, como diz Samico”, explica a idealizadora do projeto, Luciene Pontes. “Começamos de forma espontânea em 2016, produzindo fora da sala de aula, e não paramos mais”, conta ela. A inspiração veio da Oficina Guaianases, coletivo que reuniu, entre as décadas de 70 e 90, grandes artistas pernambucanos. Em 1998, a oficina encerrou as atividades e todo o seu acervo foi doado à UFPE. É lá onde os membros do Gravos se encontram toda primeira segunda-feira de cada mês para pesquisar cerca de duas mil obras, 700 pedras de litogravura e outros acervos além do Guaianases. Os encontros ocorrem semanalmente, no Laboratório de Gravura do Campus Olinda. Além da produção de matrizes e impressões, são realizadas pesquisas de materiais, planejamento de exposições e oficinas para o público em geral. O espaço também recebe, frequentemente, visitas de artistas e acadêmicos.  É nesses encontros que reside a maior riqueza do grupo. “Você frequenta, troca ideia e produz. O aprendizado acontece nos encontros”, conta o servidor Caio Danieli, um dos integrantes. O modelo de ateliê coletivo, além de baratear custos com material, promove a troca de experiências e saberes, apoiando artistas emergentes na busca da liberdade estilística e de novas técnicas.

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No Gravos, são trabalhadas a xilogravura, que usa a madeira como matriz, a linoleogravura (linóleo) e a calcogravura (metal). O espaço é cada vez mais usado pelos estudantes fora do horário de aula, para consolidar a aprendizagem. Para Lado Andrade, um dos bolsistas do projeto e aluno de Artes Visuais, o coletivo é uma oportunidade de especialização. “A gente usa as diversas linguagens da gravura para desenvolver ideias, conceitos e poéticas. Ao me apropriar das técnicas, desenvolvo minha percepção e melhoro enquanto artista”, revela. Do Campus Recife, participam os professores Elizete Coelho e Josinaldo Barbosa. Esse último, inclusive, teve três criações suas selecionadas para a Mostra Latino-americana de Gravura, que acontece em Londrina, no Paraná, em setembro e outubro.  Mais do que fazer arte, eles acrescentam conhecimento ao projeto, ao ministrarem oficinas de encadernação e tipografia.

Criações O projeto ainda trabalha na criação de produtos como camisetas, bolsas, cadernos, imãs, cartazes e prints, que estampam as gravuras criadas. Enquanto coletivo, as ideias não param de surgir. Um grupo de estudo começa a se articular para discutir arte e política. Outra iniciativa recente é a LinoCaptulares, através da qual um alfabeto é criado a partir de matriz em linóleo. Cada membro faz a composição que deseja a partir de uma mesma fonte, a Baskerville Old Face Regular. Nesse e em outros exercícios, o reportório estético é aprimorado, e a extensão vira pesquisa. Já foram realizados sete trabalhos de conclusão de curso sobre a gravura, desde a publicação de livros à estamparia. “O que importa é que esses alunos escolhem como forma de expressão a gravura, que não é o caminho mais fácil”, comemora Pontes. ACOMPANHE AS OBRAS CRIADAS PELO COLETIVO – COLETIVO GRAVOS

Além da produção, formação e divulgação da gravura, Coletivo aposta em novas iniciativas como a criação de um alfabeto capitular a partir de matriz em linóleo

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EXTENSão


Escola do jovem camponês Projeto de extensão desenvolvido pelo IFPE incentiva jovens moradores da zona rural de Belo Jardim a serem multiplicadores de conhecimento em suas comunidades TEXTO e FOTOS Carlos Magno Menezes

Mais de 70 estudantes de sete comunidades rurais participam do projeto, que também inclui visitas e aulas práticas no Campus Belo Jardim

É sábado e a jovem Márcia Adriana da Silva, 16 anos, tem uma programação bem diferente do que é esperado para garotas da sua idade. Moradora da comunidade Sítio Rodrigues, zona rural de Belo Jardim, ela passa o dia ministrando um curso, na localidade, sobre criação de galinhas caipiras. “No início, os participantes ficaram desconfiados por causa da minha pouca idade, mas com o decorrer da aula eu fui ganhando a confiança de todos e tudo foi um sucesso”, conta a estudante. Márcia Adriana faz parte da Escola do Jovem Camponês, projeto de extensão do IFPE-Campus Belo Jardim que oferece aulas teóricas e práticas de diversas áreas do ensino para jovens moradores da zona rural, com o objetivo de torná-los multiplicadores de conhecimentos em suas comunidades. A elaboração e a execução dos conteúdos oferecidos contam com a participação de estudantes e professores do IFPE. Além disso, os cursos dispõem de toda a estrutura do Instituto, oferecendo transporte, refeições, e disponibilizando a utilização de laboratórios e salas de aula. Mais de 70 estudantes de sete comunidades rurais estão participando dos encontros, que acontecem, desde abril, uma vez por mês. Para o professor André Luís Gonçalves,

coordenador do projeto, o grande objetivo da Escola do Jovem Camponês é a preparação dos alunos no sentido de repassar os conhecimentos adquiridos para as comunidades onde vivem, multiplicando e colocando em prática os ensinamentos. “Esperamos que os jovens sejam os atores principais na expansão do conhecimento. Inicialmente, estamos dando as diretrizes, mas nosso pensamento é que, com o tempo, eles mesmos nos apresentem as suas demandas, para que, através delas, possamos formatar os cursos que serão realizados”, conta. O primeiro passo para essa nova etapa do projeto já foi dado, com a instauração de uma comissão de jovens representantes das comunidades participantes. Uma vez por mês, eles se reúnem com representantes da coordenação do projeto, tanto para prestar conta das ações junto às comunidades como para dar sugestões de melhoria da Escola do Jovem Camponês. Já no primeiro encontro da comissão, o professor André resumiu a essência do projeto: “A Escola é de vocês”. Neste segundo semestre, os participantes do projeto integraram as atividades do I Seminário de Agroecologia do IFPE, e as comunidades passaram a ter aulas relacionadas à área de saúde.

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perFIL

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A forรงa de Inรกcia

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Inspirada pelas filhas, que estudam no IFPE, agricultora e auxiliar de serviรงos gerais de Afogados da Ingazeira realiza sonho de voltar a estudar TEXTO Rafaela Vasconcellos FOTOS Carlos Domingos


Toda manhã, no sertão pernambucano, a agricultora Inácia Barbosa sai do sítio Queimada Grande, onde mora, na zona rural de Afogados da Ingazeira, e vai para o campus do IFPE, localizado a 15 quilômetros de distância. Lá, a mulher de sorriso tímido passa a maior parte do seu dia numa jornada dupla. Após oito horas de trabalho, limpando salas e corredores, ela volta para casa, troca o uniforme azul da empresa terceirizada pela farda do Instituto e retorna ao campus para assistir aula à noite.

Inácia divide sua rotina entre o expediente como funcionária terceirizada do Campus Afogados e as aulas do curso de Agroindústria

O IFPE mudou minha vida. Aqui, eu fiquei mais liberta Aos 48 anos, Inácia é aluna do quarto período do curso técnico subsequente em Agroindústria e está realizando um sonho antigo. “Através do trabalho no IFPE, comecei a ver um meio de voltar a estudar, principalmente depois que eu soube que havia cota para quem era do meio rural. Meu marido e minhas filhas me apoiaram muito. Uma delas já estudava aqui e eu fiz o vestibular com as outras duas. Uma passou e eu e a outra ficamos na lista de espera. Então, eu desisti para minha filha entrar e não me arrependo”, conta ela, satisfeita. Mãe de Ione, de 29 anos, e das gêmeas Maria de Lourdes e Maria de Fátima, de 28, Inácia fez a prova de novo no ano seguinte e passou para o mesmo curso das filhas. “Sou um pouco teimosa mesmo. Quando eu quero uma coisa, não desisto. A gente realiza um sonho por vontade, por prazer”, revela. Hoje, Inácia se sente realizada em ampliar o conhecimento em agricultura, que tem desde a infância. A satisfação em estudar as frutas nos laboratórios é estampada no rosto. “O IFPE mudou minha vida. Eu era mais tímida, não conversava com quase ninguém. Aqui, eu fiquei mais liberta. Gosto muito daqui, das pessoas, do trabalho. Eu me sinto como se fosse a minha casa”.

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Presença indígena na educação profissional No Instituto, a valorização da identidade étnicoracial acontece através de núcleo específico. Campus Pesqueira se destaca quanto ao número de estudantes indígenas. TEXTO Alline Lima e Jorge Luiz FOTOS Erika Targino, Jorge Luiz e Rafaela Vasconcellos

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A indígena Marcela Lima de Moura (22) mora na Aldeia Cana Brava, território do povo Xukuru do Ororubá, na cidade de Pesqueira. Em 2015, ela foi aprovada no vestibular do IFPE para o curso de Licenciatura em Matemática. “O ingresso na instituição mudou minha vida em todos os aspectos. Foram e continuam sendo diversos desafios, mas todos muito prazerosos e que a cada dia enaltecem meus aprendizados”, afirmou. Ano passado a estudante participou do IV Congresso Internacional das Licenciaturas (COINTER) no qual teve aprovado o trabalho “A geometria presente na pintura corporal do Povo Xukuru do Ororubá-PE e Potiguara-PB”. “A participação em eventos como congressos permite que eu tenha uma formação integral, bem como, proporciona conhecer novos horizontes no contexto educacional”, comentou. Marcela também participa do Movimento Estudantil do Campus, integrando o Diretório Acadêmico de Licenciatura em Matemática, preside o Diretório Central dos Estudantes e recentemente conquistou assento no Conselho Superior do IFPE (Consup). Marcela faz parte do grupo formado por 163 estudantes declarados indígenas matriculados no IFPE, de acordo com os dados apresentados na Plataforma Nilo Peçanha, ano-base 2017. O Campus Pesqueira é o que concentra o maior número de indígenas, com 100 discentes no total. No nível superior são 28 alunos no curso de Licenciatura em Matemática, 12 em Bacharelado em Enfermagem, 20 em Licenciatura em Física e 03 em Engenharia Elétrica. Já nos cursos técnicos são 27 estudantes nos Integrados e 10 alunos nos Subsequentes. Na modalidade Educação a Distância (EaD), segundo a Coordenação de Controle Acadêmico, existem 20 indígenas devidamente matriculados. Desde 2015, o Instituto regulamentou a criação do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi), que foi posteriormente implantado nos campi. Entre as funções, desses núcleos estão: promover palestras, encontros e seminários sobre educação antirracista; incentivar a construção da cidadania por meio da valorização da identidade étnico-racial e do respeito às diferenças e à igualdade de oportunidades; motivar e divulgar pesquisas relacionadas aos povos indígenas e quilombolas. O espaço reúne pesquisadores que têm como foco as relações étnico-raciais, especificamente no estado de Pernambuco. De acordo com o coordenador do Neabi no Campus Caruaru, Weydson Roberto, o núcleo busca sistematizar, produzir e difundir conhecimentos que contribuam para a promoção da equidade racial e dos direitos humanos. “Temos como perspectiva a superação do racismo e outras formas de discriminações, sempre objetivando a ampliação e a consolidação da cidadania e dos direitos das populações negras e indígenas no Brasil através de estudos, pesquisas e projetos de extensão”, destacou Weydson. Em Garanhuns, a servidora da Funai Edvânia Bezerra, em exercício provisório no IFPE, desenvolve projeto de Extensão que organiza intervenções temáticas em comunidades indígenas e quilombolas. No âmbito indígena, a iniciativa estreita os laços do Instituto com o povo Fulni-ô, habitante do município de Água Belas. O público-alvo são as turmas do nono ano da Escola Estadual Indígena Fulni-ô Marechal Rondon, com as quais é trabalhada a temática étnico-racial, de forma problematizada às questões identitárias e sociopolíticas do espaço em que ocupam. Na metodologia estão ações como entrevistas, rodas de diálogo, dinâmicas e exibição de filmes.


Marcela garante que o ingresso no IFPE mudou a vida dela em todos os aspectos. Abaixo, Edvânia Bezerra, que desenvolve projeto com intervenções temáticas em comunidades indígenas

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O projeto também incentiva que esses estudantes prestem vestibular para os cursos técnicos integrados do IFPE, esclarecendo sobre políticas públicas, ações afirmativas e o sistema de cotas para indígenas e quilombolas. Além das intervenções, as duas turmas do nono ano da Escola Indígena fizeram visitas guiadas ao Campus Garanhuns, quando conheceram a instituição e realizaram pequenas experiências nos laboratórios. “A educação profissional deve garantir que os direitos constitucionais direcionados aos povos originários sejam cumpridos, de maneira que essa inclusão ocorra considerando as diferenças socioculturais dessas populações”, explicou Edvânia. A servidora também acredita que nesse sentido, os Institutos Federais podem ser a oportunidade de ensino público que valoriza a identidade indígena com todas as suas características, desde as suas tradições culturais até a condição de sofrimento por discriminação racial. “É preciso que haja aproximação entre o poder público, no caso, os Institutos, e as comunidades indígenas, para que suas necessidades reais possam ser contempladas e suas diferenças consideradas”, complementou.

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Fulni-ôs na EaD Águas Belas também é polo de Educação a Distância do IFPE, e um de seus estudantes egressos é Tayho Matos Fulni-ô (24), que este ano concluiu o curso de Licenciatura em Matemática. “Sabia que no modelo de educação a distância o estudante era o principal responsável pela organização do seu tempo e isso seria favorável a mim enquanto indígena, pois teria que me organizar entre os costumes do meu povo e a faculdade”, pontuou. Para o ex-aluno, a relação entre instituição de ensino e diversidade deve ser estreita. “A demanda indígena possui características específicas, que variam de acordo com cada etnia. Essas divergências devem ser encaradas como ponto de flexibilidade para atender às necessidades que os estudantes indígenas possuem. É papel desses ambientes promover o diálogo dessas diversidades”, observou. Tayho lembra que passou os quatro anos da graduação questionando a escola enquanto ferramenta de promoção da autonomia, tentando enxergar até que ponto aqueles conceitos eram aplicados no seu cotidiano. “Esses choques de realidades me serviram para entender a escola como resultado de processo histórico, a escola como agente transformador e a representatividade de domínio desse instrumento para os povos indígenas. Os conhecimentos não funcionam de forma isolada, eles precisam dialogar: o curandeiro, a parteira, o pajé e o conhecimento científico”, citou.


A xukuru vem estudando elementos da Matemática presentes na cultura de seu povo. Abaixo, Fernando Rodrigues: pesquisador aponta dívida histórica com indígenas e quilombolas. Ao lado, Índio Tayho Fulniô concluiu Licenciatura em Matematica pela EaD.

Enquanto estudante, participou de projeto de extensão oferecendo o curso “Ferramentas do Ambiente Virtual de Aprendizagem Moodle”, sob coordenação do professor Domingos Aguiar. Hoje, Tayho atua na educação escolar indígena de seu povo. “Tento ao máximo valorizar a cultura e não sobrepor os diferentes conhecimentos como mais ou menos importantes”, afirmou. Matos ainda comentou sobre a ocupação dos espaços dentro dos núcleos de políticas inclusivas e ressaltou que esses setores devem ser fortalecidos, para garantir o lugar de fala dos povos. Para o professor doutor em Sociologia pela Universidade de Sorbonne-Paris Kleber Fernando Rodrigues, que leciona no Campus Pesqueira, temos uma dívida histórica com os povos indígenas e quilombolas. “No Brasil, voltando o olhar para o passado histórico, a partir do modelo de colonização aqui implantado no processo de dominação portuguesa e, em seguida, após a separação do Brasil da metrópole, continuou-se a construir um país não para todos e todas, e sim para os interesses, vantagens e privilégios das elites locais e internacionais”. O docente ressaltou que, nesse contexto “os indígenas, os negros, os quilombolas, as pessoas com deficiência, os LGBTs, as mulheres e o conjunto dos trabalhadores assalariados do campo e da cidade amargam diferentes experiências cotidianas de exclusão, mas resistem, constroem e reconstroem resiliências, lutas e resistências contra todas as formas de injustiça”. De acordo com o estudioso, o Campus Pesqueira possui um número expressivo de indígenas Xukurus matriculados. A unidade é considerada uma das instituições federais de ensino superior, técnico e tecnológico a ter em seu quadro discente um dos maiores números de indígenas em processo de formação acadêmica e profissional do Brasil. “As políticas afirmativas produzem ações inclusivas, e as ações inclusivas constroem a dignidade da pessoa humana, promovendo a desconstrução de preconceitos e discriminações, abrindo portas de oportunidades, transformando vidas para melhor e apontando caminhos eivados de esperança na reumanização da humanidade”, finalizou o docente.

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pesquisa

O poder da natureza

Resultados de pesquisa sobre óleos essenciais no combate ao Aedes aegypti aliam uso de produtos naturais e baixo impacto ambiental texto e fotos Juliana Costa

O estudante de Química Gustavo Silvino afirma que a pesquisa vem tornando a vivência acadêmica dele mais rica

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Sentada atrás de sua mesa, no Campus Recife, a professora Sofia Brandão só tem sua concentração interrompida pelo toque do celular. Do outro lado da linha, Andréa Gregório, sua orientanda no Mestrado Profissional em Gestão Ambiental (MPGA). A notícia arranca de Sofia um sorriso de triunfo, e não é para menos: a estudante informava que, na condução de testes no laboratório da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz-PE), haviam sido observados casos em que óleos essenciais encapsulados em nanopartículas obtinham ação larvicida contra o mosquito Aedes aegypti por até 48 horas. Pesquisar sobre formas de combate ao mosquito com o uso de óleos essenciais está ligado à busca por produtos naturais com ação larvicida e de baixo impacto ambiental. Os esforços empreendidos nesse sentido vêm povoando não só o cotidiano de Sofia e Andréa, como de outros pesquisadores do Instituto Federal


A docente Sofia Brandão lidera equipe que pesquisa sobre formas de combate ao mosquito com o uso de óleos essenciais

de Pernambuco (IFPE). A parceria entre os professores Cláudia Maranhão, Fabíola Barbosa, Eduardo Alécio e Suzana Moreira garantiu o envolvimento de oito estudantes de curso técnico, mediante o Programa de Bolsas de Iniciação Científica Técnica (PIBIC Técnico), e cinco alunos do Mestrado Profissional em Gestão Ambiental na condução dos trabalhos. A dedicação do grupo rendeu, ainda, outro resultado: a comprovação da ação repelente dos óleos essenciais para oviposição, ou seja, um impedimento para que a fêmea deposite seus ovos nas proximidades do espaço em que o óleo for colocado. Assim, os dois resultados apontam não

só para possibilidades de ação repelente, mas também para as chances de prolongamento da ação do óleo vegetal. Vislumbrar as contribuições que podem ser oferecidas no combate ao Aedes aegypti fascina os estudantes que participam da pesquisa. É o caso de Gustavo Silvino, do curso técnico em Química. “A experiência acadêmica é incrível, e a pesquisa científica vem tornando minha vivência mais rica”, conta, empolgado. “Fico feliz em fazer parte disso. Acredito que esse tipo de pesquisa é uma contribuição importante para a sociedade, porque, diferentemente do que acontece com os larvicidas que temos hoje no mercado, é praticamente nula a chance de o mosquito desenvolver resistência aos óleos essenciais. Além disso, o uso desses óleos não prejudica o meio ambiente”, explica Andréa. A realização da pesquisa contou também com o apoio dos professores Aída Araújo, Ioná Rameh e Vânia Carvalho, do Grupo de Pesquisa de Engenharia e Desenvolvimento de Software, cuja colaboração permitiu a criação de um sistema para a localização e o mapeamento de ovitrampas. Ainda houve a parceria de pesquisadores de outras instituições, caso do LIKA-UFPE e da Fiocruz-PE, além do Centro de Vigilância Ambiental da Secretaria de Saúde do Recife. Futuro De acordo com Sofia, há também a intenção de que os resultados das pesquisas sejam traduzidos em produtos e/ou iniciativas para a sociedade. Entre as pretensões futuras, está a geração de um banco de informações geográficas e estatísticas que contribua para o desenvolvimento de ações a partir da definição de padrões de distribuição do mosquito nos espaços estudados, além da possibilidade do desenvolvimento de agentes larvicidas e repelentes naturais.

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EsPECIAL

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Plantar e colher a esperança

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Projeto de Extensão do Campus Vitória de Santo Antão oferece capacitação em Avicultura e Horticultura a ex-dependentes químicos TEXTO e FOTOS Hugo Peixoto


Um senhor de meia idade toca um pequeno sino pendurado em uma pilastra do terraço, enquanto outro, mais velho, arruma as cadeiras em círculo, à espera dos alunos, e explica: “eles estão vindo, é que cada um tem uma tarefa, e às vezes estão um pouco distantes daqui”. Em alguns minutos eles começam a chegar e logo cumprimentam, um a um, toda a equipe que irá conduzir o encontro do dia. É assim que começam as aulas do projeto de Extensão “Integração Horticultura e Avicultura Caipira: terapia e profissionalização para ex-adictos da drogatização”, realizado pelos bolsistas Ana Carolina e Salmo Alexandre e por quatro profissionais da Coordenação-Geral de Produção (CGP) do Campus Vitória de Santo Antão, sob a coordenação da servidora Fernanda Meirelles, na comunidade Cristolândia dos municípios de Paudalho e Paulista. A ideia surgiu há dois anos como proposta para melhoria da dieta dos ex-dependentes químicos através do fornecimento de proteína animal de qualidade, e também como uma opção de formação profissional básica. Dessa forma, o projeto vem promovendo assistência técnica e extensão rural (Ater) nas duas comunidades, visando a instalação de núcleos de criação de galinha caipira que forneçam ovos e carne e à construção de hortas – tudo para o consumo interno –, além da capacitação dos acolhidos com noções básicas de Avicultura Caipira e Horticultura integradas. Os alunos plantam, cuidam, colhem e aprendem como fazer tudo isso da melhor maneira. Assim, quando terminarem a luta contra as drogas, estarão preparados para oportunidades de emprego e renda. “A palavra-chave do projeto é esperança”, resume o missionário Bruno César, voluntário na instituição. Ele explica que os acolhidos se questionam sobre como será a vida após eles concluírem o tempo de recuperação na comunidade, mas o trabalho espiritual e os cursos ajudam a trazer de volta sonhos, esperança e dignidade. “São pessoas inteligentes e com bastante potencial, mas que eram ignoradas, muitas moravam nas ruas, sem perspectivas, e hoje passam a ver uma chance, uma oportunidade”, com-

pleta. Atualmente, além do curso realizado pelo projeto do Campus Vitória, também são oferecidos, por voluntários, os cursos de Eletricista e de Adestramento de Animais. Nos caminhos entre o pátio, as salas de aula e o galinheiro – construído por eles através do projeto –, ou entre a horta e as plantações de milho e inhame que começam a brotar no terreno, eles contam com orgulho o quanto resistem para vencer as drogas. Bonifácio Júnior conta que entrou como acolhido e hoje ajuda no projeto. Ele lembra o tempo em que morou nas ruas do Recife e frequentava a comunidade em busca de comida, banho e roupa, apenas. “Depois de 4 ou 5 anos, não aguentava mais as drogas, busquei ajuda e ouvi que tinham esperança em mim. Aqui abriram-se portas que eu nunca imaginei, e hoje vejo o quanto tudo isso é de suma importância para aqueles que acham que não têm mais jeito”, conta. No final de 2017, a primeira turma do curso de Avicultura visitou o Campus Vitória, conhecendo toda a estrutura da instituição, áreas de cultivo e criação de animais. “Hoje, dois alunos daquela turma estão trabalhando, e um desses está tentando organizar uma criação para ter uma renda”, comemora Fernanda, coordenadora do projeto. Projetos solidários Em 2017 também foi realizado, no Campus Vitória, o projeto de capacitação em agricultura para exdependentes químicos ˝Aprendendo, instruindo e transformando vidas: CApacitando para o FUturo (CAFU)˝

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TECNOLOGIA


Sons que mostram o caminho Conheça o protótipo de óculos 3D desenvolvido por estudantes do IFPE que auxiliará na locomoção de pessoas cegas TEXTO Henrique Asevedo | Juliana Costa FOTOS Adelcidio Soares, Henrique Asevedo e Thiago Riedel

Imagine alguém com deficiência visual que, ao sair de casa, coloca seu par de óculos com sensores tridimensionais para se locomover livremente por onde quiser. Embora a cena pareça vir do imaginário de um futuro distante, ela está prestes a se tornar realidade. Estudantes do curso técnico em Eletrônica do IFPECampus Recife estão trabalhando, desde 2015, em um protótipo de baixo custo de sensores ultrassônicos acoplados a óculos comuns. O aparato, que complementa auxílios como bengalas e cães-guia, poderá ficar disponível no mercado em aproximadamente dois anos. O objetivo é trazer às pessoas cegas uma maior noção espacial, detectando com mais facilidade possíveis obstáculos presentes em sua volta. A ideia surgiu quando o pesquisador Gilmar Brito, coorientador da Synesthesia Vision, precisou definir o tema para a iniciação científica dos então alunos Michael Barney e Saulo Alexandre. Gilmar já havia trabalhado com projetos na área de inclusão social e, a partir disso, entendeu ser importante apresentar aos estudantes algo que não apenas estimulasse a produção científica, mas trouxesse benefícios à sociedade. A proposta foi rapidamente aceita pelos jovens, e logo eles iniciaram os estudos da fundamentação teórica. “Passamos para os alunos informações como pesquisas bibliográficas, o que há disponível no mercado de softwares e como eles deveriam proceder”, lembra Gilmar, que divide a tarefa da orientação com os colegas Meuse Nogueira, Aida Ferreira e Ioná Rameh. A principal inspiração para o funcionamento do dispositivo instalado nos óculos veio da própria natureza. O sistema trabalha tal qual a forma como morcegos fazem para se localizar. São sensores que emitem uma onda de sinais sonoros. Estes, por sua

Experiência vai permitir que pessoas cegas possam ter maior noção espacial para se locomover livremente por onde quiser

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O que é?

acontece IFPE | #01agosto/setembro 2018

O projeto Synesthesia Vision utiliza áudio binaural tridimensional para transformar distâncias em sons. Dessa maneira, pessoas com deficiências visuais terão um complemento para a bengala, ajudando com obstáculos aéreos e obstáculos grandes e distantes

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vez, batem em um objeto e retornam ao local de origem, sendo posteriormente enviados para um microcontrolador responsável por filtrar dados e enviá-los, via bluetooth, à unidade de processamento. Para utilizar o equipamento, basta que o usuário tenha em mãos um aparelho smartphone. “A unidade de processamento, nesse caso, encontra-se no próprio celular. É no aparelho móvel que ocorre a geração do som 3D”, explica Jonathan Kilner, que atualmente também integra o corpo de discentes da equipe junto com Ryan Morais, Jonatha Romoaldo e José Eduardo Gatto, cada um dedicando 20 horas semanais à iniciativa. O protótipo está em sua segunda versão e o grupo atua na implantação e aperfeiçoamento dos sistemas. Segundo Gilmar, a próxima etapa já é o uso pelo público-alvo. Os testes estão sendo

feitos desde o ano passado. No começo, os cientistas contaram com o apoio do deficiente visual Leandro Silva, estudante de Engenharia Mecânica no Campus Caruaru. Agora, as provas são realizadas com José Carlos Amaral, servidor cego da Reitoria do IFPE. Os ensaios realizados no Instituto têm sido importantes para trazer aos pesquisadores as demandas reais feitas por quem, de fato, utilizará a peça. “Eu sugeri que os óculos, a partir da conectividade com o wi-fi do telefone, pudessem ter acesso, por exemplo, à previsão do tempo. Ou que houvesse uma redução no tamanho e peso do material”, explica José Carlos. Entre os benefícios que o aparato poderá trazer, José Carlos frisa o aumento de autonomia nas circunstâncias em que os métodos tradicionais podem falhar. “A bengala ou o cão-guia resolvem nossos


problemas de obstáculos no nível do chão. No entanto, os obstáculos aéreos, como um galho ou um fio baixo, por exemplo, podem causar acidentes e são de difícil detecção”, esclarece o servidor. “É muito gratificante participar de um projeto assim, cuja finalidade é ajudar uma parcela da sociedade”, salienta o estudante José Eduardo Gatto. “E a sensação de ouvir de José Carlos, um representante da parcela de pessoas que seria beneficiada com a iniciativa, que o protótipo funciona, é incrível”, completa Jonatha Romoaldo. Acerca do destino comercial dos óculos, os autores revelam que o objetivo é deixar o sistema aberto para ser desenvolvido por mais cientistas. “No futuro, as pessoas interessadas poderão entrar em nosso endereço eletrônico (synesthesiavision.com) e pegar as instruções para continuar aperfeiçoando o trabalho, apenas tendo que citar a origem dos estudos”, explica Gilmar. Reconhecimento Em abril do ano passado, Michael Barney, na época estudante integrante do projeto, esteve na Austrália para apresentar o protótipo dos óculos 3D no Web for all 2017 – The future of accessible work, um congresso de tecnologia e acessibilidade que contou com a presença de representantes de algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo. De lá para cá, o projeto participou de eventos internos e foi exposto em um congresso da Associação Municipalista de Pernambuco (Amupe), o que resultou na proposta de levar uma oficina sobre a iniciativa para diferentes cidades do estado. A professora Aida Ferreira analisa que o projeto traz benefícios tanto para a sociedade quanto para a comunidade interna do IFPE que, segundo ela, tem incentivado trabalhos de pesquisa por meio dos programas de iniciação científica e de extensão. “Nesse projeto, a gente vem trabalhando há três anos com bolsas para alunos de cursos superiores e técnicos. Queremos que cada vez mais jovens possam participar dessa experiência”, explica Aida.

Assista ao vídeo em youtube.com/canalIFPE Para utilizar o equipamento, será necessário que o usuário tenha em mãos um aparelho smartphone para gerar o som 3D

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Educação Ambiental como alvo da Extensão Meio ambiente, Tecnologia e Produção, Direitos Humanos e Justiça, Educação e Cultura. Várias são as frentes de atuação por meio das quais professores e estudantes do IFPE envolvidos em projetos de Extensão se esforçam por gerar impacto positivo na comunidade. Um exemplo desse fomento é o Campus Recife que, atualmente, desenvolve um total de 45 trabalhos, no seio do Programa Institucional de Bolsas de Extensão (Pibex), quase o dobro em comparação ao ano anterior. Boa parte dessas iniciativas extensionistas vem contemplando

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Boa parte dos projetos desenvolvidos no Campus Recife contemplam a área TEXTO Mônica Melo FOTOS Clara Martins

a área de Meio Ambiente, chegando a representar 40% dos projetos, um crescimento, no interesse na temática, da ordem de 12% em relação ao ano anterior. Foi dessa área, inclusive, que saiu o projeto premiado durante a última edição do Encontro de Extensão do IFPE (Enext). O trabalho de educação ambiental inclusiva explorou a implantação de horta sensorial envolvendo


meio ambiente

pessoas com deficiência visual. Este ano, um dos muitos projetos interessantes desenvolvidos pelo Campus Recife relacionados à área ambiental corresponde ao trabalho “Solos, aprender e conservar”, coordenado pela professora Manuella Vieira, do curso de Licenciatura em Geografia. A iniciativa, que envolve estudantes bolsistas e voluntários, além de docentes colaboradores, leva a educação em solos para escolas de espaços urbanos e rurais. Por meio de oficinas itinerantes, o grupo busca contribuir para a melhoria no processo ensino-aprendizagem sobre o estudo dos solos no seu ambiente natural. Segundo a professora, o entendimento sobre o solo, que consiste em uma unidade geossistêmica, contribui para a compreensão da dinâmica do espaço natural. “Apreender sobre o seu processo de formação e características principais favorece de modo direto para a tomada de uma postura que busque a conservação e preservação do ambiente natural”, explica. Na intervenção mais recente, a equipe promoveu atividades com os alunos da Escola Municipal Doutor João Murilo de

Oliveira, no Engenho Pirapama, município de Vitória de Santo Antão. A instituição, que tem cerca de 30 estudantes distribuídos em duas salas multisseriadas, é afastada da área urbana e de difícil acesso. Durante a ação, as crianças participaram de experimentos e de um jogo sobre os organismos vivos dos solos, e montaram um quebra-cabeça sobre o perfil do solo elaborado para estudantes das séries iniciais. Além disso, as professoras receberam apostila para viabilizar a posterior reprodução da oficina. A vivência procurou despertar na comunidade escolar a criticidade em torno da importância da conservação dos solos, da preservação ambiental e, sobretudo, das implicações sociais relacionadas. Além de beneficiar, nesse caso, instituições de áreas rurais onde a produção agrícola se destaca como principal atividade econômica, o projeto representa, de acordo com a coordenadora, uma oportunidade para os estudantes extensionistas pensarem em soluções para problemas como a perda de fertilidade do solo devido à lixiviação, a erosão que remove a matéria orgânica do solo e reduz a produtividade e, ainda, a remoção da vegetação para ampliação da área de plantio. Já por meio da atuação em escolas da Região Metropolitana do Recife, Manuella explica que os extensionistas terão contato com um cenário que envolve problemáticas relacionadas à impermeabilização do solo, à erosão em áreas de encosta e ao armazenamento incorreto de lixo. Ainda este ano, o projeto prevê a realização de oficinas em mais cinco escolas, uma delas localizada em um quilombo no município de Rio Formoso, Zona da Mata Sul do estado.

Grupo promove oficinas itinerantes com jogos e experimentos que levam a pensar em soluções para a infertilidade do solo

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Uma jornada de curiosidades Com vaga garantida na Olimpíada Internacional de Astronomia, estudante mostra que o caminho para o conhecimento pode dar no outro lado do mundo

ensino

acontece IFPE | #01agosto/setembro 2018

TEXTO Carol Falcão FOTOS Patrícia Rocha

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Mais de 15 mil quilômetros separam a capital pernambucana de Pequim, na China. Uma longa distância, mas que para o estudante do Campus Recife Juventino Férrer vai ficando mais próxima a cada dia. Desde que descobriu, no início de agosto, que faria parte da delegação que representará o Brasil na Olimpíada Internacional de Astronomia e Astrofísica (OIAA), o estudante vem pensando sobre o tempo e o espaço de uma maneira bastante empolgada. “É uma viagem de mais de 30 horas até lá, acho que essa é uma das partes que me deixam mais nervoso”, confessa, quebrando a habitual timidez. Para fazer parte desse grupo, Juventino passou por um processo de seleção que envolveu 100 mil estudantes de todo o país e definiu os cinco integrantes da delegação brasileira. “É uma seleção muito afiada, que vai deixando no caminho muita gente boa, preparada pelas instituições mais renomadas”, explica Guilherme Pereira, professor de Física do Campus Recife.


Guilherme preparou o estudante desde sua primeira competição, ainda em 2015, quando o então calouro do IFPE participou da Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica e conquistou a medalha de bronze. O menino, que antes de entrar no Campus Recife tinha a Matemática como matéria favorita, hoje, por razões óbvias, divide essa preferência com a Física. Para Guilherme, é fácil identificar quando um estudante tem “jeito” para a coisa. “Não se trata de ser o mais inteligente, nem o que decora mais rápido as fórmulas... tem a ver com persistência e com curiosidade”, resume. Juventino diz de outra forma: “A gente precisa manter o espírito perguntador, curioso, questionar, entender como as coisas funcionam”, diz. A resiliência também pode ser um ingrediente nessa composição. Nas seletivas do ano passado, o estudante ocupou a 19ª posição, ficando de fora tanto da delegação que iria para o mundial quanto da que iria para a Olimpíada Latino-Americana.

O resultado que o qualificou para a sonhada vaga na delegação de elite foi um impressionante terceiro lugar. Isso significa que, em um ano, ele deu um salto de 16 posições. A diferença de desempenho, para Juventino, tem uma explicação simples: “dessa vez eu estava muito mais maduro para encarar a seletiva, tinha mais experiência e tinha me dedicado mais”. Mas a fórmula também inclui uma boa dose de foco. Durante as qualificações para escolha dos integrantes da delegação, um processo que dura cerca de oito meses e envolve sete fases, Juventino estudava em média cinco horas por dia. Isso tudo além das atividades no Campus Recife, onde hoje cursa o oitavo período do técnico integrado em Química. Para a competição na China, a carga vai ser ainda mais intensa, de seis ou mais horas diárias de estudo. Mas ele continua mantendo sua calma habitual e a vontade de saber mais. A tranquilidade para se dedicar com tanto Para chegar à China em novembro, Juventino precisou se preparar bastante para encarar um caminho bem desafiador no Brasil


Professor Guilherme prepara Juventino desde a primeira competição, em 2015, quando o estudante participou da Olimpíada Brasileira

O CAMINHO ATÉ PEQUIM CONFIRA AS ETAPAS VENCIDAS POR JUVENTINO ATÉ GARANTIR SUA VAGA NO MUNDIAL DE ASTRONOMIA Olímpiada Brasileira de Astronomia e Astrofísica (maio 2017) 100 MIL COMPETIDORES Pré-seletiva (provas via internet) 2 MIL MAIORES NOTAS

acontece IFPE | #01agosto/setembro 2018

Seletiva presencial (maio 2018, Rio de Janeiro)

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200 MELHORES COMPETIDORES Treinamentos presenciais (julho 2018, São Paulo) 35 SELECIONADOS Olimpíada Mundial (Novembro 2018, Pequim, China) 5 PRIMEIROS

afinco à Física é uma das várias contribuições da professora Luciene Férrer, mãe do estudante. “Sempre me esforcei para garantir um ambiente propício para que ele pudesse estudar, sem cobranças e sem pressão. O resultado chegou!”, comemora. Luciene garante que a longa jornada de Juventino até Pequim não a deixa aflita. “Quero ver meu filho ganhando o mundo, suas conquistas me deixam orgulhosa”, diz. Toda a preparação burocrática para a viagem já começou, e envolve desde a emissão do passaporte do estudante (essa é a primeira vez que ele vai sair do Brasil) e o requerimento de visto até a disponibilização de ajuda de custo, para que ele e o professor possam se concentrar apenas em representar o Brasil (e o IFPE) da melhor forma possível. A competição envolve 300 estudantes de todo o mundo durante nove dias. Os participantes responderão a questões teóricas e terão que realizar também experimentos. “É inegável que os competidores possuem um alto nível de conhecimento, mas o que está em jogo também é a criatividade, a capacidade de chegar a soluções e conclusões sobre as quais ninguém nunca pensou”, explica o docente. Enquanto o passaporte e o visto não chegam, Juventino percebe a importância desse momento para sua trajetória. “Participar dessa competição é um grande privilégio. Vejo como a ciência, o campo científico pode ser um lugar de muitas possibilidades”, diz o estudante, que vem considerando fazer vestibular para Física no próximo ano. Até a hora em que o avião alcance o céu rumo a Pequim, Juventino vai afiando o “espírito perguntador”, que o segue, garante a mãe, desde pequeno. Se o acompanhou durante a infância e o fez um menino curioso e dedicado, com certeza será seu companheiro (talvez o melhor deles) nessa viagem de tantas léguas.


No lugar certo Saiba como funciona o curso técnico em Logística, que prepara profissionais para pensar soluções, planejar, organizar e controlar diversas atividades TEXTO e FOTOS Patrícia Rocha


CARREIRAS Uma área que tem se destacado em toda empresa ou instituição como essencial para facilitar o fluxo de processos e operações é a Logística. Sem ela, não se consegue mais planejar, nem executar a movimentação de recursos para que uma organização funcione bem. Mas, afinal, o que vem a ser essa vertente da Administração de Empresas? Para que, de fato, ela serve e como o profissional pode se preparar para integrar esse segmento? Logística é a área responsável por gerir e controlar operacional e processualmente uma empresa. Funções como transporte, armazenamento, compras, distribuição e entrega de mercadorias e produtos são geridas por esse setor, visto por muitos como estratégico. Bem remunerados, os profissionais de Logística costumam encontrar um mercado aquecido e diversificado. Isso porque o incremento do setor industrial e as novas estratégias de comercialização estão gerando mais vagas na área. Atacadistas, varejistas, comércios virtuais, indústrias, portos, aeroportos e transportadoras, entre outros, estão abrindo as portas para receber profissionais qualificados e com experiência. Para quem deseja atuar nessa área, o primeiro passo é fazer um curso técnico em Logística, formação que o IFPE oferece nos campi Igarassu e Cabo de Santo Agostinho, com duração de um ano e meio. O estudante egresso José Henrique Silva, 20 anos, é um dos que ingressaram no setor. Ele concluiu recentemente o curso no Campus Igarassu e atua, mesmo antes de se formar, como

A rotina de trabalho do egresso é realizar a conferência física da carga e a liberação para a entrega

conferente na expedição de uma empresa de fabricação de fraldas e produtos de higiene pessoal, fazendo a conferência física da carga e a liberação para a entrega. “Você aprende bastante trabalhando em grupo e testando todos os dias seus conhecimentos, além de aprender novas coisas, planejamentos”, avalia. Para Henrique, a carreira de Logística abriu novos caminhos em sua vida profissional e pessoal. “Você não cansa de querer aprender, sempre está tentando melhorar a si mesmo. Além de ter me dado várias oportunidades, me fez ver o mundo de outra maneira, de querer correr atrás dos meus objetivos sem medo”, destaca. De acordo com o coordenador do curso Técnico em Logística do Campus Igarassu, Alexandre Magno, a unidade conta hoje com 164 estudantes matriculados nessa formação. Além da carga horária curricular, é preciso complementar a formação com 100 horas de atividades extraclasse. “Além de atividades de pesquisa, monitoria e extensão, podem ser apresentados como comprovação o exercício profissional na área e outras atividades, como visitas técnicas, ações comunitárias e participação em cursos e minicursos na área”, explica o docente. Segundo Magno, apesar de o curso ter um enfoque mais teórico, a atividade prática é bastante estimulada por meio de visitas técnicas. “Nós docentes buscamos explorar ao máximo cada uma delas. Além das visitas, estamos montando nosso laboratório, que atualmente pode receber algumas aulas práticas, desenvolvendo atividades com pallets e diversos tipos de embalagens”, ressalta.

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Imagem & Arte Cartema a partir de fotos do viaduto Capitão Temudo, no bairro da Ilha do Leite|Recife-PE, 2017 Autoria: Micaela Alcântara Estudante do Curso Técnico em Artes Visuais | IFPE-Campus Olinda

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Revista Acontece IFPE #01  

Revista bimestral do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco.

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