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Campinas, 4 a 10 de novembro de 2013 - ANO XXVII - Nº 582 - DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

IMPRESSO ESPECIAL

9.91.22.9744-6-DR/SPI Unicamp/DGA

CORREIOS

FECHAMENTO AUTORIZADO PODE SER ABERTO PELA ECT

Fotos: Marlene Bergamo/João Wainer/ Folhapress

Nos territórios do crack

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Uma nova frente de combate ao HIV

‘Química verde’ avalia qualidade de produtos A árvore genealógica e os primórdios da OAB Estudo com cadetes revela tendência secular de estatura Geóloga determina idade de minério em Carajás A literatura naturalista e os conceitos de moralidade

A antropóloga Taniele Rui mergulhou, ao longo de dois anos e meio, no universo de usuários de crack, em Campinas e São Paulo, para fundamentar tese de doutorado defendida no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH). Orientado pela professora Heloisa André Pontes e coorientado por Simone Miziara Frangella, o estudo conquistou o Prêmio Capes de Tese 2013 na categoria Antropologia/ Arqueologia.

Arte: Luis Paulo Silva

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Usuários na “cracolândia”, na região central de São Paulo


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Campinas, 4 a 10 de novembro de 2013

Alimentos, nutrição e saúde serão debatidos no 10º Slaca Simpósio vai reunir especialistas internacionais de 4 a 6 de novembro ISABEL GARDENAL bel@unicamp.br

três dias de iniciar o 10º Simpósio Latino-Americano de Ciência de Alimentos (Slaca), a professora Gláucia Pastore, coordenadora do Simpósio e pró-reitora de Pesquisa da Unicamp, enfatiza que nesta edição há muitos motivos para comemorar os 18 anos de criação do Slaca. Vitrine na exposição de pesquisas na área de Alimentos, sua abertura oficial ocorrerá no dia 4 de novembro, às 20h30, na Vila Ápia Festa e Eventos (Marginal da Rodovia D. Pedro I, 267), em Valinhos-SP. Na ocasião, o Slaca contará com as participações do Coral Zíper na Boca, da Banda Sinfônica da Aeronáutica e da Banda Sinfônica Sexto Sentido. Nos demais dias, a programação, que acontece no Centro de Convenções da Unicamp, terá andamento das 8h30 às 17h30, com palestras, minicursos, lançamento de livros e uma gama de atividades. Um dos motivos para comemorar, segundo a professora Gláucia Pastore, é que o Slaca sempre tem buscado recolher temas que atuam na fronteira do conhecimento, esteja onde ele estiver, trazendo especialistas de renome para abordá-los. Outro motivo é que ele tem proporcionado uma maior relação entre os pesquisadores brasileiros e a comunidade científica internacional.

“Entendemos que a área de alimentos é importante, é multidisciplinar e que devemos oferecer ao mundo uma alimentação saudável e de qualidade”, realça. Também, conforme a professora, a pósgraduação com ênfase em alimentos cresceu muito nos últimos anos, bem como os núcleos de pesquisa que estudam o assunto, isso não somente no Estado de São Paulo, o que acaba contribuindo para ampliar ações em diferentes Estados de origem do território nacional. Não é de se admirar que haja cerca de 1.800 inscritos e 1.970 trabalhos que serão apresentados até o dia 6 de novembro. “Já vimos que os trabalhos demonstram uma excelente qualidade, têm mérito científico e produzem reflexões acerca da alimentação saudável”, classifica. O tema desse ano é Alimentos, Nutrição e Saúde, por se entender que problemas de saúde podem decorrer de uma alimentação desequilibrada. O diferencial, de acordo com Gláucia Pastore, é que nos anos anteriores discutiam-se as tecnologias que estavam a serviço da alimentação. “Fizemos um caminho inverso, pois notamos que muitas doenças têm como fatores de exposição alguns alimentos que, consumidos sem parcimônia, podem trazer malefícios à saúde humana”, diz. “A grande arma é manter uma alimentação diversificada e em menores quantidades.” Por outro lado, a professora relembra ainda que, como o poder aquisitivo aumentou no país, as pessoas hoje podem ter um maior acesso a alimentos que anteriormente não tinham. Teoricamente, a população está comendo mais. Mas essa alimentação é de fato a melhor?, indaga. “Essa será uma das nossas discussões: repensar algumas práticas.” Para a coordenadora do evento, a contribuição das universidades está no preparo adequado dos profissionais para li-

Fotos: Antonio Scarpinetti

A professora Gláucia Pastore, pró-reitora de Pesquisa e coordenadora do Simpósio: “Devemos oferecer ao mundo uma alimentação saudável e de qualidade”

darem com a tríade alimentos, nutrição e saúde. Em sua opinião, merecem ainda um preparo efetivo e contextualizado professores de 1º e de 2º grau, que atuariam como agentes de transformação social, para orientarem seus alunos a terem uma educação alimentar. Probióticos, alimentos funcionais, bioaromas, biotecnologia, diabetes, saúde dos intestinos serão alguns dos temas abordados nos minicursos. Participam do evento,

destinado a pós-graduandos, professores e interessados, países como Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Espanha, Portugal, Itália, Argentina, Chile, Panamá, Peru, Colômbia e Uruguai, entre outros. Serão aproximadamente 90 palestrantes, sendo 40% deles do exterior. Gláucia Pastore também ministrará uma fala sobre Oligossacarídeos e Saúde. “Pretendemos conhecer o impacto da alimentação na saúde da população”, comenta ela.

Vestibular divulga locais da 1ª fase JULIANA SANGION Especial para o JU

Prova será realizada em 18 cidades do país no próximo dia 10 PARA EVITAR ATRASOS

s candidatos ao Vestibular Unicamp 2014 devem consultar, em www.comvest.unicamp.br, o local onde irão fazer a prova da primeira fase, a ser realizada no próximo dia 10 de novembro. Para a consulta é necessário apenas digitar o nome ou o número de inscrição no vestibular. A Unicamp realiza as provas do Vestibular 2014 em 18 cidades do Brasil: Bauru, Belo Horizonte, Brasília, Campinas, Jundiaí, Limeira, MogiGuaçu, Piracicaba, Ribeirão Preto, Santo André, Santos, São Bernardo do Campo, São Carlos, São José do Rio Preto, São José dos Campos, São Paulo, Sorocaba e Sumaré. Este ano, o Vestibular Unicamp teve um número recorde de inscritos: 73.818 candidatos. Eles vão disputar 3.460 vagas em 69 cursos da Unicamp e dois cursos da Famerp - Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto.

A Comvest ressalta que especialmente em alguns locais de prova, os candidatos devem chegar com bastante antecedência para evitar os congestionamentos registrados em anos anteriores. Para evitar transtornos aos candidatos, no Campus I da PUC Campinas o acesso ao prédio será permitido a partir das 9h30. A Comvest lembra que após as recentes mudanças nas marginais da Rodovia D. Pedro I, o acesso ao Campus I da PUC Campinas é feito a partir do quilômetro 135 da Rodovia D. Pedro I (sentido Anhanguera, pouco depois do entroncamento com a rodovia que liga Campinas a Mogi Mirim). Já para os candidatos que utilizarão a Rodovia D. Pedro I e farão a prova no campus da Unicamp, em Campinas, a orientação da Comvest é para que usem o acesso do quilômetro 138, para Barão Geraldo – assim evitando o fluxo intenso da entrada da PUC.

HORÁRIOS A orientação é para que os candidatos cheguem ao local de prova às 12 horas, já que o acesso aos locais de prova só será permitido até as 13 horas impreterivelmente. Sair de casa com antecedência é importante, tendo em vista que o candidato poderá encontrar congestionamento em alguns locais. A Comvest orienta os candidatos a fazerem o percurso até o local de provas antes do dia do exame, para conhecerem o caminho.

A PRIMEIRA FASE

Primeira fase da última edição do Vestibular: 73.818 candidatos vão disputar 3.460 vagas

A prova da primeira fase tem duas partes: a Redação, em que o candidato será solicitado a produzir dois textos de gêneros diversos e de execução obrigatória, e a parte de Conhecimentos Gerais, com 48 questões de múltipla escolha, baseadas nos conteúdos das diversas áreas do conhecimento desenvolvidas no ensino médio. O tempo máximo de prova na primeira fase é de cinco horas e o mínimo de três horas e trinta minutos.

UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas Reitor José Tadeu Jorge Coordenador-Geral Alvaro Penteado Crósta Pró-reitora de Desenvolvimento Universitário Teresa Dib Zambon Atvars Pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários João Frederico da Costa Azevedo Meyer Pró-reitora de Pesquisa Gláucia Maria Pastore Pró-reitora de Pós-Graduação Ítala Maria Loffredo D’Ottaviano Pró-reitor de Graduação Luís Alberto Magna Chefe de Gabinete Paulo Cesar Montagner

Elaborado pela Assessoria de Imprensa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Periodicidade semanal. Correspondência e sugestões Cidade Universitária “Zeferino Vaz”, CEP 13081-970, Campinas-SP. Telefones (019) 3521-5108, 3521-5109, 3521-5111. Site http://www.unicamp.br/ju e-mail leitorju@ reitoria.unicamp.br. Twitter http://twitter.com/jornaldaunicamp Assessor Chefe Clayton Levy Editor Álvaro Kassab Chefia de reportagem Raquel do Carmo Santos Reportagem Alessandro Silva, Carlos Orsi, Carmo Gallo Netto, Isabel Gardenal, Luiz Sugimoto, Maria Alice da Cruz, Manuel Alves Filho, Patrícia Lauretti e Silvio Anunciação Fotos Antoninho Perri e Antonio Scarpinetti Editor de Arte Luis Paulo Editoração André da Silva Vieira Vida Acadêmica Hélio Costa Júnior Atendimento à imprensa Ronei Thezolin, Patrícia Lauretti, Gabriela Villen e Valerio Freire Paiva Serviços técnicos Dulcinéa Bordignon e Diana Melo Impressão Triunfal Gráfica e Editora: (018) 3322-5775 Publicidade JCPR Publicidade e Propaganda: (019) 3383-2918. Assine o jornal on line: www.unicamp.br/assineju


Campinas, 4 a 10 de novembro de 2013

Pesquisa que contou com participação de professor da FCA induz a morte programada das células para inibir a infecção

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Nova rota para combater o HIV

Fotos: Antonio Scarpinetti

MANUEL ALVES FILHO manuel@reitoria.unicamp.br

esde que o HIV foi identificado no início dos anos 1980, a ciência não tem medido esforços, tanto intelectuais quanto financeiros, para alcançar a cura da Aids. Nesse período, foram registrados avanços importantes, como o desenvolvimento de drogas que ampliaram a qualidade e o tempo de vida dos pacientes. Entretanto, nenhuma alternativa encontrada se mostrou definitiva. Justamente por isso, as pesquisas prosseguem, cada uma buscando uma rota que possa finalmente subjugar o vírus. Uma delas, que contou com a participação do professor Augusto Ducati Luchessi, da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, mostrou-se promissora e tem tido grande repercussão junto à comunidade científica internacional. O estudo usou dois fármacos comerciais para induzir de forma seletiva a morte programada das células infectadas, impedido dessa forma a reprodução do vírus. O estudo foi desenvolvido por um grupo de pesquisadores norte-americanos, canadenses, brasileiros e um alemão, sob a coordenação do professor Michael B. Mathews, da Rutgers University, localizada em Nova Jersey, Estados Unidos. O pesquisador Hartmut M. Hanauske-Abel também coordenou os trabalhos. Os ensaios in vitro foram realizados nos laboratórios da instituição norte-americana. Luchessi foi convidado para integrar a equipe pelo próprio Mathews, durante um congresso científico do qual os dois participaram, em San Diego, na Califórnia. “O convite surgiu após o professor Mathews conhecer o trabalho que eu havia levado para o evento envolvendo a proteína EIF5A. Naquela oportunidade, eu investigava a relação dessa proteína com a diferenciação de células-tronco em tecidos musculares”, conta o docente da FCA. Conforme Luchessi, Mathews também estava estudando a EIF5A, mas no contexto do combate ao HIV. “Eu e a pesquisadora Tavane D. Cambiaghi, que também participou da equipe, fomos para a Rutgers University em 2009 para atuar no projeto. Lá, passamos inicialmente por um treinamento para aprender a trabalhar com o vírus. Posteriormente, participamos dos testes propriamente ditos, que envolveram dois fármacos comerciais que impedem a ativação da EIF5A e que causam a morte de células infectadas pelo HIV”. Para tornar a explicação mais acessível, Luchessi recorre ao conteúdo das aulas de biologia celular e molecular. Segundo ele, o organismo humano dispõe de mecanismos de defesa contra as doenças. Um deles é a apoptose, também conhecida como morte celular programada ou “suicídio” celular. Assim, quando um vírus nos ataca, é acionado o processo de apoptose, para impedir que o micro-organismo se replique. Com a morte da célula, o vírus não tem como se reproduzir, e a infecção é inibida. Ocorre, porém, que esse sistema de proteção não é 100% efetivo. Se fosse, as pessoas não apresentariam infecções virais. No caso do HIV, por exemplo, o vírus dispõe de uma estratégia que impede que o organismo acione o processo de apoptose. Dessa forma, ele consegue manter a célula viva para poder se replicar, fazendo com que a infecção avance. “Os fármacos que usamos apresentaram a ação de desarticular o mecanismo anti-apoptótico viral. Essa é uma rota nova no tratamento da Aids, que se mostrou muito promissora. O dado interessante que observamos em relação ao uso dos fármacos é que eles induzem a morte preferencial das células infecta-

Laboratório de Biotecnologia da Faculdade de Ciências Aplicadas, cuja instalação teve início há 11 meses

das. Para que as pessoas entendam, tomemos como analogia o tratamento quimioterápico. Os compostos usados no combate ao câncer buscam matar as células tumorais e preservar as saudáveis. Nos testes que fizemos, nós conseguimos promover essa mesma morte seletiva, mas em relação às células infectadas pelo HIV”, compara o professor da Unicamp. Além dos resultados obtidos, Luchessi destaca outros dois pontos que considera relevantes em relação aos ensaios com os dois fármacos. O primeiro deles é que, como são de uso comercial, os medicamentos são amplamente conhecidos pela ciência, o que deverá facilitar o avanço da pesquisa. “Nós já sabemos, entre outros aspectos, qual o grau de toxicidade dos compostos. Isso certamente contribuirá para acelerarmos os estudos, pois é uma etapa que não precisará ser investigada. O próximo passo será partirmos para os testes em modelo animal ou até mesmo diretamente para os testes clínicos, dependendo do que o grupo e as comissões de ética envolvidas decidirão. Obviamente, ainda não podemos falar em cura da Aids por esse método, mas podemos dizer que os resultados que obtivemos nos indicam que estamos trilhando um bom caminho”, pondera o pesquisador. O segundo ponto, prossegue Luchessi, diz respeito à continuidade das pesquisas, o que vai indicar de que forma os fármacos poderão ser usados. Conforme o docente da FCA, ainda é cedo para dizer se os medicamentos poderão ser administrados isoladamente ou em conjunto. Outra possibilidade é incorporá-los aos coquetéis já disponíveis, de modo a potencializar os resultados proporcionados por eles. “Isso sem falar que os dois fármacos também podem ser usados como protótipos para o desenvolvimento de novos fármacos. Por hipótese, pesquisadores da área de química orgânica podem se interessar pelo desenvolvimento de moléculas análogas”, exemplifica.

Os resultados das pesquisas desenvolvidas pelo grupo do qual Luchessi participou foram detalhados em artigo publicado no último dia 23 de setembro no periódico Plos One. Em menos de um mês, o trabalho recebeu cerca de 30 mil visitas no site da publicação, o que demonstra o interesse da comunidade científica internacional pelo tema. “Particularmente, fiquei impressionado com a repercussão que o artigo vem tendo. Espero que isso sirva de estímulo e apoio para que possamos dar prosseguimento aos estudos”, afirma o pesquisador.

DIFERENTE DO FUTEBOL

Logo após concluir o projeto de pesquisa com o professor Michael B. Mathews, Luchessi terminou o pós-doutorado no Brasil e em seguida foi contratado como professor da Unicamp. Atualmente, o pesquisador se dedica à estruturação do Laboratório de Biotecnologia da FCA, que começou a ser instalado há 11 meses, e divide a responsabilidade em quatro disciplinas diferentes. “Quando falo em estruturação, estou me referindo tanto à questão dos equipamentos quanto de recursos humanos. Em termos de parque tecnológico, tenho tido um apoio fundamental da Fapesp [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo], com contrapartidas importantes da Unicamp”, conta. Ocorre, porém, que no Brasil tudo caminha de forma mais lenta se comparado aos países desenvolvidos, como observa o docente. “Se tomarmos como comparação o futebol, todo jovem craque brasileiro é logo valorizado e em seguida é transferido para um grande clube do exterior. Com o jovem pesquisador, isso não acontece. Este tem que provar ano após ano que é capaz de fazer pesquisa de qualidade. A gente perde mais tempo provando do que pesquisando. Isso, muitas vezes, pode fazer com que o país perca ótimas oportunidades de promover o avanço do conhecimento científico e tecnológico”, considera. Luchessi revela que gostaria de conduzir investigações aplicadas, mas por ser um cientista em início de carreira, essa é uma tarefa muito difícil. “A pesquisa na área da biotecnologia oferece altos riscos. Não é fácil decidir-se por um projeto aplicado de alto risco quando se está preocupado em garantir sua efetivação na universidade. De todo modo, meu objetivo é concluir a estruturação do laboratório, atrair jovens pesquisadores talentosos para trabalhar aqui na FCA e buscar parcerias com a iniciativa privada, principalmente a indústria farmacêutica. Nós temos alguns projetos em perspectiva, como desenvolver biofármacos anti-HIV e outros. Entretanto, por enquanto não temos condições de trabalhar com esse tipo de vírus aqui. A médio prazo, o meu desejo é transformar o Laboratório de Biotecnologia em referência no desenvolvimento de biofármacos e, quem sabe, com foco também em outras áreas de interesse, como a agrária e ambiental”, adianta o docente. Entre outras urgências, o pesquisador diz procurar parceria científica com algum pesquisador na área de síntese orgânica.

AIDS

Augusto Ducati Luchessi, um dos participantes dos estudos: “O dado interessante que observamos em relação ao uso dos fármacos é que eles induzem à morte preferencial das células infectadas”

O Brasil registra 38 mil novos casos de Aids por ano, de acordo com dados do Ministério da Saúde. Desde os anos 1980, já foram notificados 656 mil casos. Estima-se que 700 mil pessoas vivam com Aids e HIV atualmente no país. Dessas, em torno de 150 mil não sabem sua condição sorológica. Também segundo os números do Ministério, o Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza medicamentos antirretrovirais (ARV) para 313 mil pacientes com a doença ou o vírus. Aqui são fabricados dez dos 20 remédios ARV usados no tratamento da síndrome. O objetivo das autoridades de saúde brasileiras com a estratégia de atendimento é reduzir a morbidade e a mortalidade e ampliar a qualidade de vida das pessoas com Aids ou HIV. A média de sobrevida após o diagnóstico passou de 58 meses em 2000 para nove anos em 2007. Atualmente, o governo federal investe R$ 1,2 bilhão ao ano no combate às doenças sexualmente transmissíveis e Aids.


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Campinas, 4 a 10 de novembro de 2013

A ‘química verde’ a serviço da saúde dos consumidores Técnicas permitem a detecção de substâncias prejudiciais à saúde em cosméticos e alimentos ISABEL GARDENAL bel@unicamp.br

osméticos, como esmaltes de unha e cremes hidratantes, e alimentos, como feijão e leite em pó, podem agora ter sua qualidade e autenticidade avaliadas em laboratório por meio de uma técnica que envolve análise qualitativa e quantitativa, a partir de métodos desenvolvidos no Instituto de Química (IQ). Segundo Gustavo Giraldi Shimamoto, autor do estudo, cosméticos como os que foram avaliados podem conter substâncias potencialmente prejudiciais à saúde dos consumidores. A legislação brasileira não as proíbem, quando utilizadas nas concentrações recomendadas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) mas, mesmo sendo deletérias, sequer aparecem advertências ao seu uso nos rótulos das embalagens. As análises, uma conjunção de duas técnicas, são rápidas e não destrutivas. Estão em conformidade com os princípios da “química verde”, uma vez que não empregam reagentes e não geram resíduos. Esses achados trazem boas perspectivas de aplicação em produtos de várias naturezas. Foi o que mostrou a pesquisa de mestrado do químico, realizada entre 2011 e 2013. Uma das substâncias em geral identificadas nas amostras de esmaltes, disponíveis no mercado, é a resina toluenossulfonamidaformaldeído (TSFR). Sua função é aumentar o brilho e a aderência, e contribuir para que o esmalte dure mais tempo na unha. Por outro lado, traz alguns inconvenientes para quem é suscetível a alergias. No Canadá, nos Estados Unidos e em alguns países da Comunidade Europeia, essa substância tem sido banida. Das marcas brasileiras de esmaltes analisadas, apenas uma não continha essa resina. Em todas as demais, ela estava presente em sua formulação. A despeito do grande contingente de pesquisas alertando para o seu caráter alergênico, continua sendo empregada, promovendo diferentes tipos de alergia. O ideal para quem é alérgico, conforme Gustavo, é adquirir esmaltes que não contenham essa resina. Mas como o consumidor comum pode ter certeza disso? O autor do estudo comenta que é muito difícil enxergar a descrição dessa substância no rótulo dos produtos e que uma boa saída é proceder à sua leitura no site do fabricante. No caso dos cremes hidratantes, também foi possível detectar a presença de dois ingredientes que, apesar de muito recorrentes nesses produtos, podem ser danosos à saúde. Trata-se dos parabenos (ou Paba) e do propilenoglicol. Os parabenos atuam como conservantes em praticamente todos os produtos de beleza, encontrados tanto na forma industrializada quanto em farmácias de manipulação. São comercializados em lojas de produtos “naturais” e, apesar da falsa ilusão de serem inofensivos, eles são disruptores hormonais, ou seja, com-

Fotos: Antoninho Perri

postos de uma grande variedade de classes químicas, incluindo hormônios, constituintes vegetais, pesticidas. E têm seus nomes atrelados a graves doenças como o câncer. Também o propilenoglicol (usualmente um líquido oleoso), além de ocasionar doenças de pele, pode desencadear distúrbios no organismo – em órgãos como os rins e o fígado. É introduzido em produtos cosméticos e farmacêuticos, agindo como conservante e principalmente hidratante. Na verdade, todos esses compostos cosméticos não devem ultrapassar concentrações especificadas e regulamentadas pela Anvisa. “Com o nosso trabalho, esperamos que o consumidor pense mais a respeito desses produtos”, salienta o mestrando, cujo estudo foi orientado pela docente do IQ professora Maria Izabel Maretti Silveira Bueno e coorientado pela pós-doutoranda Juliana Terra. Em sua opinião, é fundamental ler rótulos de cosméticos e de alimentos, ter consciência do que se está consumindo e atentar para a validade desses produtos. Eles podem não fazer mal a algumas pessoas, o que não significa que não façam mal a outras. Talvez a proibição desses compostos não seja o melhor caminho, pondera Gustavo, mas sim estar conscientizado na hora de consumir produtos que os contenham.

FEIJÕES

Prosseguindo com suas análises, desta vez com alimentos, o pesquisador propôs uma correlação entre o desenvolvimento da fase de germinação deles, a partir dos elementos encontrados nos grãos de feijão. “Tentamos estudar aqueles que estavam mais ligados à germinação de um grão, ou à não germinação de outros”, conta o químico. O trabalho foi mais voltado ao consumo do produto, à produção e à economia. Foram comparados dois tipos de feijão: o carioca e o preto. “A diferenciação foi marcante, ainda que os dois tipos de feijões tenham se desenvolvido baseados nos mesmos elementos, sofrendo influência de potássio, cálcio, ferro, alumínio e principalmente do silício”, aponta Gustavo. Conforme sua coorientadora, a dissertação mostrou que esses estudos caminham para várias direções, sobretudo no setor agroindustrial. “Fazemos pesquisas para avaliar feijões que podem germinar e dar um retorno mais rápido e rentável à indústria agrícola”, diz. A proposta mostrou que tem fôlego para ser extrapolada para outros grãos. Como a análise é “não destrutiva”, foi possível observar a composição do feijão para posteriormente plantá-lo. Alguns germinaram. Outros não. A presença de elementos como cálcio, ferro e, em particular silício, influenciou a germinação, o que significa que a posteriori poderão ser criados métodos para a comercialização de grãos selecionados, aprimorando o processo. Gustavo verificou que aqueles que tinham uma maior quantidade de silício tenderam mais à germinação. Isso possibilita pensar em um planejamento do cultivo do feijão de Maria Izabel Maretti Silveira Bueno (à esq.), orientadora, Gustavo Giraldi Shimamoto, autor do estudo, e a coorientadora Juliana Terra

Hidratante é colocado em equipamento: análises de cosméticos e alimentos (destaque) são rápidas e não destrutivas

forma a modificar o solo, enriquecendo-o com silício, ou até mesmo selecionando grãos com um maior teor desse elemento, pois eles possivelmente serão os mais produtivos. Maria Izabel comenta que o silício é considerado hoje como um elemento estrutural da planta e que os agricultores reputam o NPK (nitrogênio, fósforo e potássio) como os três elementos mais relevantes ao seu desenvolvimento. Mas o silício tem se despontado como elemento essencial também. O trabalho do pesquisador ressaltou isso.

LEITE EM PÓ

O mestrando acoplou ainda a este estudo análises relacionadas a alimentos como o leite em pó, um dos produtos mais consumidos por crianças, geralmente comparado a compostos lácteos tidos como similares. “Eles não são como o leite em pó, mas têm leite em sua composição”, desmistifica. Esses compostos lácteos, além de não terem as mesmas características do leite em pó, ainda possuem valores nutritivos inferiores, por isso acabam se tornando mais baratos no mercado e sendo consumidos muito em função do seu baixo custo. Nem sempre as pessoas têm consciência de que não estão consumindo o mesmo produto. “Então fizemos essa análise para indicar as diferenças e desenvolver metodologias a fim de averiguar a contaminação ou mudança de autenticidade do produto”, relata Gustavo. “O leite em pó é adulterado geralmente com soro de leite ou com amido”, conta ele. Esse método consegue detectar adulterações com soro e amido em até 25%, pois nessas condições o consumidor ainda não sente diferença no sabor. Nesse grupo de pesquisa do IQ, o Gerx (Grupo de Espectroscopia de Raios X), há outros estudos que envolvem temas que vão desde chocolates e farinhas até análises de tintas de tatuagem. Em diferentes momentos são percebidos elementos tóxicos nos produtos. No caso da tatuagem, exemplifica Maria Izabel, é largamente difundida a preocupação com a esterilização das agulhas, esquecendose, porém, da tinta, cujos pigmentos ficam presos, impregnados, na pele. A importância dessas investigações, comenta a orientadora, é que elas buscam uma aplicação direta em problemas havidos habitualmente em diversos tipos de indústrias. “O interessante é que elas podem até ser feitas diretamente em análise de campo, a partir de equipamentos portáteis”, frisa. Há trabalhos sendo feitos com equipamento portátil relacionados com teor de sacarose em cana para verificar o momento que essa cultura pode ser cortada.

Monitora-se hoje o teor de sacarose da planta e, se ele estiver maximizado, é possível decidir se essa é a hora de proceder ao corte da cana. Essa ação aumenta em muito a produtividade da planta, excluindo a necessidade de ter que levar uma amostra ao laboratório para realizar uma análise. As amostras dos quatro produtos avaliados foram colhidas no comércio de Campinas, supermercados, farmácias e lojas do ramo. As análises foram feitas de forma direta, não necessitando fazer a abertura e nem o preparo das amostras. São colocadas diretamente para análise em um equipamento de espectroscopia de fluorescência de raios X e geram resultados com informações úteis para todos os tipos de amostras.

MODELOS

O estudo de Gustavo, que empregou a técnica de fluorescência de raios X aliada à quimiometria, comprovou que as metodologias utilizadas foram capazes de avaliar a qualidade e a autenticidade dos produtos e que podem ser valiosas para se tornarem cada vez mais rápidas, simples e com resultados confiáveis, sem destruir as amostras. A fluorescência de raios X é uma técnica que permite não só uma análise qualitativa (identificação dos elementos numa amostra), mas também quantitativa, propiciando estabelecer a proporção em que cada elemento está presente. Ela tem se destacado hoje em análises químicas, devido à possibilidade de detecção simultânea de elementos numa ampla faixa de número atômico e de concentração, e de não necessitar de um pré-tratamento químico. Tem ainda custo acessível e é de fácil operação. A quimiometria – área que se refere à aplicação de métodos estatísticos e matemáticos, assim como aqueles baseados em lógica matemática e em problemas de origem química – é usada em técnicas de otimização, planejamento, calibração multivariada, análise exploratória, processamento de sinais, imagens, entre outras. Juliana esclarece que foram criados quatro modelos porque o método envolve tanto a técnica como a própria amostra da análise. Como Gustavo trabalhou com quatro amostras, foram criados quatro modelos. Mas a técnica é a mesma. Essa linha de pesquisa tem diversos trabalhos sendo desenvolvidos no momento. Tempo de prateleira de produtos e sexagem de aves são apenas alguns deles.

Publicação Dissertação: “Potencialidades da fluorescência de raios X aliada à quimiometria na análise de cosméticos e alimentos” Autor: Gustavo Giraldi Shimamoto Orientadora: Maria Izabel Maretti Silveira Bueno Coorientadora: Juliana Terra Unidade: Instituto de Química (IQ)


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Campinas, 4 a 10 de novembro de 2013

Na gênese da OAB Pós-doutorado analisa os primórdios da entidade, que nasceu com a chancela de Vargas Foto: Reprodução/ OAB

LUIZ SUGIMOTO sugimoto@reitoria.unicamp.br

rosopografia é um recurso utilizado pelos cientistas sociais para a elaboração de uma biografia coletiva: delimitado um grupo de indivíduos com certas características comuns, são estabelecidas variáveis e levantados dados biográficos para identificar padrões e rupturas no interior desse grupo. Foi assim que Marco Aurélio Vannucchi Leme de Mattos pôde observar dados de continuidade entre os bacharéis de elite do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), fundado ainda no Império (1843), e da cúpula da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), criada imediatamente após a Revolução de 30, que pôs fim à República Velha. Em sua pesquisa de pós-doutorado, o autor analisa o papel desempenhado pela OAB desde sua fase inicial como órgão paraestatal, até o fim do Estado Novo, já como centro de oposição ao governo e atribuindo para si o papel de defensor da ordem jurídica. O estudo foi desdobrado em quatro eixos de análise: a cúpula dirigente da entidade, instalada no seu Conselho Federal; as relações da cúpula com a categoria dos advogados; o perfil institucional do órgão; e as relações estabelecidas com o Estado. “A atuação da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no primeiro Governo Vargas, 1930-1945” é o título da pesquisa apresentada no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH). “A OAB é filha da Revolução de 30, embora fosse idealizada desde meados do século 19, quando uma elite de juristas fundou o IAB, já tendo entre seus objetivos a criação de um órgão inspirado na Ordem dos Advogados de Paris”, explica Marco Aurélio Vannucchi. “A diferença entre as duas entidades é que o IAB sempre esteve desvinculado do Estado. Ainda que prestasse assessoria jurídica ao governo central do Império, acerca de leis e propostas legislativas, não tinha a força de um órgão corporativo capaz de controlar a atuação profissional dos advogados. A OAB foi instituída através de decreto baixado em novembro de 1930 pelo Governo Provisório de Vargas.” Ficou claro para o pesquisador que, para entender a atuação da OAB ao longo dos 15 anos do primeiro governo Vargas, precisaria analisar também o papel do IAB, visto que as duas entidades tinham uma ligação umbilical. “Factualmente, sabe-se que juristas ligados ao Instituto levaram a proposta de criação da Ordem até Vargas e Oswaldo Aranha (então ministro da Justiça), e que ambos teriam resistido à ideia, alegando que não queriam instituir qualquer tipo de controle sobre o mercado profissional. Mas acabaram concordando, incluindo o artigo em um decreto visando à reorganização da Justiça no Distrito Federal.”

CONTINUIDADE

Segundo Vannucchi, apesar do decreto, era necessário instalar a OAB concretamente – eleger a diretoria, elaborar o regulamento, providenciar as sedes –, empreitada que o governo delegou justamente ao IAB. “Na prática, era o mesmo grupo de elite de advogados, relativamente pequeno, que ocupava os cargos de direção tanto de uma entidade como da outra, ao mesmo tempo ou de maneira alternada. Um primeiro dado compartilhado pelos bacharéis é que embora já existisse mais de uma dezena de faculdades de direito no país, eles tinham se diplomado predominantemente em instituições do Rio de Janeiro, o que indicava concentração de origem.” Um segundo ponto realçado pelo autor da pesquisa é que pelo menos a metade desses bacharéis também era de homens públicos, ocupando cargos eletivos ou cargos de confiança centrais como de ministros e secretários de Estado. “Isso confirmava o traço de continuidade em relação à elite do Império, que sempre teve um pé no parlamento e outro no escritório de advocacia. O primeiro presidente da Ordem, Levi Carneiro, foi consultor-geral da República de 1930 a 34. E, dentre os 27 bacharéis que compunham o Conselho Federal, 18 eram parlamentares.”

Montagem com imagens do site da OAB, com diferentes momentos da entidade ao longo da história

Ainda sobre o perfil desses dirigentes, a maioria provinha de oligarquias regionais ou de famílias com tradição nas carreiras jurídicas. O pesquisador cita o exemplo de Raul Fernandes, presidente da OAB de 1944 a 48, que por cinco décadas advogou para a família Guinle, além de ter sido diretor da Pirelli. “Outra característica é a vida acadêmica e intelectual intensa, como professores e até catedráticos de faculdades de direito prestigiadas, ao passo que alguns eram membros de academias estaduais e um ou outro da Academia Brasileira de Letras. Um único indivíduo, portanto, podia pertencer à elite jurídica, política, econômica e intelectual.” Quanto a outro eixo de análise da pesquisa, Vannucchi afirma que a representatividade da OAB junto ao conjunto dos advogados era apenas pretendida, e não de fato. “Essa elite de bacharéis estava muito distante da categoria, vendo-se como uma força de vanguarda que deveria liderar e estabelecer regras rígidas para que todos se tornassem profissionais respeitáveis. O Conselho Federal servia como uma instância iluminista, que apenas mostrava o caminho a ser seguido, sem o menor interesse em estabelecer um canal de diálogo amplo e frequente. A atual representatividade de classe da OAB vem de um movimento iniciado apenas na década de 70, num esforço real para se estabelecer o debate.”

OPOSICIONISMO Uma das indagações colocadas pelo autor na pesquisa é por que os notáveis bacharéis adeptos do liberalismo, que apoiaram a ascensão de Vargas ao poder e passaram a exercer funções públicas, decidiram pela oposição ao Estado Novo, regime político que o presidente impôs a partir de 1937. “Por conta de lutas intestinas, muitos deles acabaram afastados dos postos no governo e se antagonizaram com Vargas, assumindo como meta derrubar o regime. Esses ex-

purgados, por outro lado, se refugiaram na iniciativa privada, recebendo amparo financeiro e político de grandes grupos econômicos, atuando como consultores, dirigentes e mesmo proprietários dessas empresas.” De acordo com o pesquisador, a partir de 1944 e mais claramente em 45, o governo Vargas perdeu o apoio dos setores de elite e procurou se aproximar das classes populares, principalmente dos trabalhadores urbanos. “A aproximação alarmou os grupos econômicos e a atuação política dos juristas reverberou essa preocupação, estando aí uma fonte econômica do oposicionismo dos bacharéis. No fundo, eles temiam pela ordem social da qual individualmente se beneficiavam e, também, pelos grupos econômicos aos quais serviam profissionalmente.” No mesmo ano de 45 surgiu a UDN (União Democrática Nacional) e Vannucchi vê o embarque dos bacharéis na sigla como um movimento natural. “Até o início de 45, os partidos políticos continuavam proibidos, mas já em 43 era lançado o ‘Manifesto dos Mineiros’, que é, por assim dizer, a certidão de nascimento da oposição liberal ao Estado Novo. Na falta de partidos, os liberais se reorganizaram criando órgãos civis para alimentar o oposicionismo, e também procuraram colonizar os órgãos existentes, sobretudo os de grande prestígio como a OAB e o IAB, que serviram de trincheira na luta contra Vargas.” É no biênio 44-45, ressalta o autor do estudo, que a Ordem dos Advogados, vindo de uma conquista progressiva de prestígio junto à sociedade em geral, deixa definitivamente a atuação exclusivamente corporativa para se colocar no cenário nacional como um órgão defensor de um bem comum, que é a ordem jurídica. “Seus dirigentes passam a fazer pronunciamentos públicos, conceder entrevistas a veículos da imprensa e organizar manifestações e abaixo-assinados, permitindo pela primeira vez que a OAB ocupasse um espaço destacado no seio da sociedade civil.” Fotos: Divulgação

Marco Aurélio Vannucchi Leme de Mattos, autor da pesquisa: “A atual representatividade de classe da OAB vem de um movimento iniciado apenas na década de 70”

REFLORESCIMENTO

Na opinião do pós-doutorado, estudar a trajetória da OAB foi importante para entender a evolução da sociedade civil ao longo da primeira metade do século 20 – ela viveu um período de florescimento até meados da década de 1930. “ Nas primeiras décadas do século, a sociedade brasileira cresceu e se tornou mais autônoma em relação ao Estado, mais diversa do ponto de vista ideológico e também em termos de representação. O Estado Novo representou uma ruptura nesse processo. Ao fim da ditadura estadonovista, a sociedade ganhou outro respiro, com o fim da censura à imprensa, o surgimento de novos órgãos de classe e a organização, pela primeira vez no país, de um sistema partidário de âmbito nacional. E a OAB foi representativa dessa segunda onda de florescimento.” Uma última observação de Marco Aurélio Vannucchi vai contra a tese de que a reorganização do Estado em termos corporativos, a partir de 1930, diz respeito somente aos operários. “Vargas levou adiante uma organização do tipo corporativo também para profissões de classe média, sendo que os principais conselhos profissionais, existentes até hoje, nasceram naquele governo. E o primeiro conselho foi justamente da OAB, que surgiu como órgão corporativo, mas foi se autonomizando em relação ao Estado para se tornar cada vez mais um órgão da sociedade civil. Embora continue, grosso modo, com as mesmas incumbências corporativas que tinha em 1930, hoje ninguém pensa na OAB como um órgão paraestatal.”

Livro detalha ‘interregno democrático’ “Os cruzados da ordem jurídica” é o livro de Marco Aurélio Vannucchi Leme de Mattos que está sendo lançado pela Alameda Editorial, fruto da tese de doutorado defendida pelo autor na USP. Nesse trabalho, Vannucchi analisou a atuação da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de 1945 a 1964. “O foco do livro está no chamado ‘interregno democrático’ entre o fim do Estado Novo e o início da ditadura militar. Quis entender como a sociedade civil tinha se comportado e atuado nesse período, que foi da primeira experiência democrática na vida brasileira. Como já temos muitos trabalhos relacionados a sindicatos operários e partidos políticos, optei pela OAB, que naquela época já tinha projeção entre as entidades civis.” Atualmente, Marco Aurélio Vannucchi é professor adjunto do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Ele foi um dos coordenadores do projeto “Mapeamento e sistematização do Acervo Dops/SP”, financiado pela USP e Fapesp. É autor de artigos e livros na área de história política do Brasil República e, nos últimos anos, tem se dedicado a estudar a elite jurídico-política brasileira no pós-1930.

Capa do livro “Os cruzados da ordem jurídica”, fruto da tese de Marco Aurélio Vannucchi Leme de Mattos


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Campinas, 4 a 10 de Fotos: Divulgação

Rua da “cracolândia”, na região central de São Paulo: figura do “nóia” ganhou centralidade na investigação

Nas ‘lin

do cra Antropóloga mergulha no universo de usuários da droga, em Campinas e São Paulo, para fundamentar tese de doutorado premiada pela Capes PAULO CESAR NASCIMENTO pcncom@bol.com.br

o longo da pesquisa, muito do sentimento de vergonha demonstrado por mim e pelos usuários, expresso no silêncio rápido, mas constrangedor, no desviar de olhos, num certo embaraço, estava ligado ao fato de eu estar limpa. Não poucas vezes, quando estendia a mão para cumprimentálos, ouvia de volta o pedido de desculpas, quase de recusa, por estarem sujas, seguido de uma mão que se juntava à minha de forma bastante tímida. Um tanto inconscientemente, comecei a ir a campo com roupas desgastadas e calçando tênis velhos, passei a não lavar os cabelos nos dias de pesquisa, não soltálos, não utilizar adereços (como brincos ou colares) e não passar perfume. Achei que assim a minha limpeza não os afrontava tanto e não precisava gerar tanto desconforto. Em Campinas, como sempre fazíamos atividades no período da tarde, era comum eu almoçar em casa antes de seguir para o PRD. Uma vez, fiz macarrão com molho de tomate e alguns pingos grandes do molho sujaram minha camiseta. Nem passou pela minha cabeça trocá-la. Senti-me muito à vontade de transitar com ela pela linha férrea, ainda que tenha sido observada com certo estranhamento pelas pessoas que estavam no ônibus que me levou até lá. Nesse mesmo dia ainda, me vendo chegar suja para a atividade de campo, um dos redutores brincou: “é, já tá pegando o espírito da linha, hein?”. Taniele Rui, autora do texto acima, precisou despojar-se de seus temores e constrangimentos para reunir fôlego e mergulhar de alma e corpo – literalmente – em um universo muito particular dos usuários de crack: aqueles que, em sua maioria, por uma série de circunstâncias sociais e individuais, largaram tudo o que possuíam (família, trabalho, casa, bens) e desenvolveram com a substância uma relação extrema e radical, chamados frequentemente “nóias”. A profunda imersão diluiu até mesmo a sua identidade acadêmica, em um progressivo fenômeno de mimetização do ambiente em que se inseriu. Ela transmutou-se em agente de saúde, educadora social, redutora de danos e psicóloga, materializando personagens com os quais os usuários estavam acostumados a conviver. Ao voltar à tona, escreveu “Corpos abjetos: etnografia em cenários de uso e comércio de crack”, tese de seu doutorado em Antropologia Social no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. Orientado por Heloisa André Pontes, docente do IFCH, e coorientado por Simone Miziara Frangella, professora do Instituto das Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, o estudo conquistou o Prêmio Capes de Tese 2013 na categoria Antropologia/Arqueologia. Produzido ao longo de quatro anos, com financiamento da Fapesp, o trabalho é um denso e pungente relato autoral de mais de 300 páginas acerca do consumo abusivo do crack a partir de uma perspectiva sociocultural. Lê-se o texto da pesquisa como o inebriante diário de uma longa e dramática viagem a cenários variados de uso e comércio da droga nas cidades de Campinas e São Paulo, nos quais, em diferentes oportunidades, a autora experimentou emoções contraditórias. “Não poucas vezes durante a pesquisa tive a sensação de que um conflito iminente poderia acontecer; não poucas vezes deixei de temer inclusive pela minha própria vida, voltando para casa com uma estranha sensação de agradecimento por estar bem. Não poucas vezes também me senti tão à vontade em espaços à primeira vista bastante hostis”, confidencia. A construção da narrativa tem como fonte primária os três cadernos de anotações acumulados por Taniele nos dois anos e meio dedicados ao trabalho de campo, entre agosto de 2008 e dezembro de 2010. Neles registrou metodicamente todos os detalhes de seu cotidiano: descobertas, situações testemu-

nhadas, conversas, angústias, dúvidas. Para compor a etnografia ela valeu-se ainda de extenso material publicado pela imprensa sobre o assunto. Teorias acadêmicas de diferentes autores ajudaram a iluminar seus achados e contribuíram para as reflexões sobre a sua relação com os usuários e suas histórias apresentadas nas páginas da tese, que tem ainda o mérito de, ao tratar do crack, abordar questões bastante caras às Ciências Sociais, como violência e marginalidade urbanas, desigualdade social, políticas sociais e de saúde, entre outras.

NOTORIEDADE INESPERADA A temática das drogas permeia a atuação acadêmica de Taniele desde 2005, quando, para a dissertação de mestrado, escolheu abordar discursos sobre o uso de substâncias psicoativas entre pacientes de uma instituição para tratamento de dependentes químicos, entre meninos e meninas de rua e entre estudantes universitários. No doutorado, pretendia dar prosseguimento à pesquisa anterior, porém focando a experiência dos usuários nos locais de consumo em Campinas. Buscou a mediação do Programa de Redução de Danos (PRD) mantido pela Secretaria Municipal de Saúde para realizar o trabalho de campo. Somente quando começou a constatar a importância do crack na problemática do consumo de drogas é que o tema ganhou prioridade em seu estudo. “O consumo de crack acabou se impondo durante o trabalho não só porque tive mais contato com usuários dessa substância, mas, sobretudo, porque durante a pesquisa o crack acabou ganhando uma notoriedade inesperada. Nos jornais impressos, na televisão, nas políticas urbanas e de saúde, entre os traficantes, onde eu olhasse parecia só ver falar do crack”, justifica a pesquisadora, que a partir de então se viu compelida a olhar também para o universo da região que ficou conhecida como “cracolândia” em São Paulo como de suma relevância para o melhor entendimento do tema. Nesse processo, a figura do “nóia” tomou uma dimensão não prevista e ganhou centralidade na investigação, concentrando o seu enfoque. Ao mesmo tempo em que está completamente excluído da vida social, é esse usuário, de maneira paradoxal, que justifica – com seu estado corporal considerado de degradação extrema e alvo de rejeição – todo o aparato repressivo, assistencial, religioso, midiático e sanitário mobilizado em sua órbita. O “nóia”, observa Taniele, fez o Ministério da Saúde reestruturar suas políticas para o problema das drogas no país, a exemplo de outras medidas adotadas pelo poder público para lidar diretamente com a questão do crack.

A voz do usuário “Eu acordo e já fico louco, arrumo cinco reais e já venho comprar uma pedra e uso uma, duas horas, depende de quantas pessoas estão aqui pra dividir. Aí tenho que sair para a rua pra arrumar mais dinheiro, limpo as calçadas das pessoas que moram aqui perto, tiro a grama que cresce no cimento (nesse momento mostra suas mãos sujas, calejadas e ásperas) e elas me ajudam, dão um, dois reais e eu vou juntando. E quando eu volto pra cá eu não paro mais. Fico aqui até meu corpo não aguentar. Dois, três dias diretos. Sem comer, sem beber, sem dormir. Daí paro, dou um tempo, volto para a minha laje, durmo dois dias seguidos, como e depois venho para cá de novo.” Fala de um usuário, colhida na linha do Paranapanema. A laje de um supermercado é a sua referência de morada.

CENÁRIO DESOLADOR A Redução de Danos é um conjunto de políticas e práticas com o propósito de reduzir os danos associados ao uso de drogas psicoativas em pessoas que não podem ou não querem parar de usar drogas. Por definição, foca na prevenção aos danos, ao invés da prevenção do uso de drogas, por meio de orientações, distribuição de seringas descartáveis, preservativos e vacinação contra doenças infectocontagiosas. Com a ajuda desses serviços em Campinas e em São Paulo, Taniele esteve em contato com usuários de crack, com seus modos de obtenção da substância, participou de suas conversas, presenciou a preparação e o consumo da droga nos próprios contextos de uso. Em Campinas, percorreu muitos mocós, becos, casas abandonadas, linhas de trem (a “linha” mencionada na introdução deste texto) e galpões desocupados que garantem aos usuários de crack alguma privacidade, situados nos bairros Paranapanema e São Fernando, na região sudeste da cidade. Incursões foram também realizadas ao esqueleto de um edifício em obras abandonado na Vila Industrial e utilizado como refúgio de consumidores. Nas muitas das visitas que fez em Campinas, ela e os redutores (os profissionais dos PRDs) levavam cerca de quarenta minutos a uma hora e meia de ônibus ou a pé para chegar aos locais de consumo. Em São Paulo, concentrou seu roteiro no espaço conhecido como “cracolândia”, por agrupar grande quantidade de pessoas consumindo crack publicamente e que se tornou alvo dileto das políticas de segurança, de saúde, assistenciais e urbanísticas. Nesses redutos encontrou quase sempre o mesmo cenário de desolação: escombros de imóveis, muitos papéis que embrulham o crack, cartões telefônicos usados para a separação das porções do produto, palitos de fósforo, isqueiros, restos de alimentos e de roupas, cobertores, excreções humanas, chapas de alumínio que servem de apoio para preparar e separar a droga, latas de refrigerante e embalagens de iogurte usadas como cachimbo. Taniele evitou uma postura meramente contemplativa no trabalho de campo e deixou claro que para os propósitos da pesquisa era fundamental interagir o máximo possível tanto com os profissionais de redução de danos quanto com os atores sociais por eles acessados. Essa opção fez com que precisasse assumir um papel atuante nos grupos de redução para poder se aproximar e ganhar a confiança dos usuários: cumpriu religiosamente rotinas de visita, vestiu seus uniformes de identificação, organizou mochilas de trabalho, auxiliou em vacinações, elaborou relatórios... Em suma, incorporou-se ao “espírito da linha”. “Essa trajetória explicita o fato de que meu objetivo inicial não foi estudar o programa ou a política de redução de danos em si, tal como fizeram outros autores, nem o uso do crack especificamente. Para mim, estar com os redutores em campo significava a possibilidade de uma situação de pesquisa bastante privilegiada que me permitiria responder questões deixadas pelo meu estudo anterior”, argumenta Taniele, agora às voltas com a transformação de sua tese em livro. Recém-completando duas décadas de ingresso no Brasil, notadamente no Estado de São Paulo, o crack chega à maioridade desafiando as políticas de saúde, de segurança pública, urbanísticas e assistenciais, ressalta o estudo. A despeito do caráter novidadeiro e atual do crack, que se reflete na escassa bibliografia específica dedicada ao assunto, a autora acredita, com seu original estudo, ter contribuído de alguma maneira, empírica e metodologicamente, para atenuar o que percebeu ser uma lacuna na literatura nacional em Ciências Sociais dedicada ao tema. Ou ao menos – em uma comparação tão modesta quanto a observação de Claude Lévi-Strauss (1908-2009) sobre o mérito de um estudo em Antropologia na abertura do clássico O Cru e o Cozido – conseguiu deixar um problema difícil numa situação menos ruim do que aquela em que foi encontrado.


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novembro de 2013

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Foto: Wikipédia

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No cachimbo com nome, a vontade de ‘ser gente’

Escombros de prédio abandonado que servia de refúgio para usuários de crack: pesquisadora buscou interação com atores sociais ao longo do estudo

Taniele abre espaço na tese para uma reflexão acerca da relação sentimental estabelecida entre os usuários de crack e os objetos mediadores do consumo da droga: os cachimbos. Nas cenas de uso, esses utensílios perdem sua função meramente instrumental; ganham a esfera da intimidade e nomes próprios: Bóris, Catarina e outros capazes de revelar uma afeição entre usuário e o artefato que lhe permite inalar a entorpecente fumaça. Com folha de alumínio, isqueiro cortado ao meio, cano de PVC, porcas de parafuso, sacolas plásticas, pedaços de bambus, de antenas de rádio ou de guarda-chuvas, é possível fazer um recipiente que, ao receber uma base, em muitos casos protegida por um papel alumínio picotado com algum material cortante, está pronta para que o pó de crack, ou a pedra inteira, se misture às cinzas de cigarro. O uso de latas de refrigerante ou embalagens de iogurte também é comumente observado, relata a antropóloga. Ao comparar os locais de consumo pesquisados, ela vê ainda uma estreita relação entre esses espaços e a confecção dos diferentes tipos de cachimbos encontrados, pois a tarefa requer disponibilidade de tempo e condições adequadas, justifica. “A territorialidade de uso importa aqui porque, quando o cenário não possibilita a feitura desses objetos, o cachimbo se torna mercadoria. Na região mais pública da “cracolândia”, cachimbos são fabricados e vendidos por alguns comerciantes do local, por comerciantes de drogas que fazem a venda casada da pedra com o cachimbo e por outros usuários. Dependendo do material utilizado, o valor pode chegar até dezessete reais”, descreve Taniele em seu estudo. Assim como os usuários, os cachimbos são alvo de políticas de saúde pública e da repressão policial. Na “cracolândia” frequentemente são recolhidos pela polícia. Na falta do cachimbo e do dinheiro para comprá-lo, consumidores tornam-

se propensos a compartilhar entre si o aparato, o que suscita orientações específicas dos programas de redução de danos com o intuito de evitar a transmissão de doenças como hepatites B e C e herpes. Os redutores oferecem piteiras de silicone para serem anexadas ao cachimbo e manteigas de cacau para a cicatrização e hidratação de feridas bucais. Desestimula-se também o uso de latas para a inalação de crack, porque elas ampliam a superfície de contato ao redor da boca – aumentando as queimaduras labiais e o risco de contaminação por doenças – e podem transmitir infecções quando se desconhece a sua origem. Para Taniele, as diferentes vivências dos usuários com o instrumento mostram também que o cachimbo marca hierarquias e diferenciações internas entre os próprios consumidores. E mais: levando em conta a precariedade que marca as vidas dessas pessoas, ela identifica no uso de crack no cachimbo a fronteira última de humanidade e dignidade de que podem dar prova esses usuários. Em outras palavras, ter o próprio cachimbo pode revelar a vontade de ser gente.

NE concentra maior parte dos consumidores Os usuários regulares de crack e/ou de formas similares de cocaína fumada somam 370 mil pessoas nas 26 capitais brasileiras e no Distrito Federal. O contingente responde por 35% do total de consumidores de drogas ilícitas (com exceção da maconha), estimado nesses municípios em 1 milhão de brasileiros. Os dados integram estudo encomendado pela Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas (Senad) à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e divulgado em setembro deste ano. Contrariando o senso comum, segundo o qual o consumo é maior no Sudeste, o Nordeste concentra a maior parte dos consumidores: aproximadamente 150 mil usuários de crack, cerca de 40% do total de pessoas que fazem uso regular da droga em todas as capitais do país. O levantamento mostra ainda que, entre os 370 mil usuários, 14% são menores de idade. Isso indica que cerca de 50 mil crianças e adolescentes usam regularmente a substância nas regiões pesquisadas. A maior parte deles (56%) também está concentrada nas capitais do Nordeste, com 28 mil menores nesta situação. Mistura barata de cocaína com bicarbonato de sódio, água e uma série de outras substâncias, cujo aquecimento resulta em pequenos grãos, o crack não é uma droga nova, mas um novo jeito de administração da cocaína: fumada em vez de cheirada ou injetada – o que o faz ser considerado mais capaz de causar consumo compulsivo devido à facilidade de uso e à rápida absorção. De acordo com o documento Usuários de Substâncias Psicoativas: abordagem, diagnóstico e tratamento (2003) da Associação Médica Brasileira, Conselho Federal e Conselhos Estaduais de Medicina, a cocaína cheirada leva cerca de 2 a 3 minutos para iniciar a ação e os efeitos duram por volta de 30 a 45 minutos; na injetada a ação se inicia em cerca de 30 a 45 segundos e os efeitos duram de 10 a 20 minutos; na forma fumada a ação tem início depois de 8 a 10 segundos e os efeitos duram de 5 a 10 minutos. Segundo o documento, “quanto mais rápido o início da ação, maior a sua intensidade; quanto menor a sua duração, maior será a chance de o indivíduo evoluir para situações de uso nocivo e dependência”. Muito popular nos EUA desde meados da década de 1980, a droga teria surgido na cidade de São Paulo entre os anos de 1987 e 1990, segundo o livro Crack – O Caminho Das Pedras, do jornalista Marcos Uchoa (morto em 2005). Em Campinas, a data supostamente inaugural é maio de 1992, de acordo com a reportagem “Campinas registra primeiro caso de crack” publicada pela Folha de S.Paulo em 15 de maio de 1992, conforme pesquisou Taniele. Ainda segundo seu estudo, o crack, antes vendido sob a forma de pedra, agora é comercializado também em forma de farelo, com a pedra já bastante macerada. Esse segundo modo permite a venda da droga também em pequenas porções. O preço da pedra é 5 ou 10 reais, dependendo o tamanho, e um farelo pode ser comprado por um valor que varia entre 50 centavos e dois reais.

Foto: Antoninho Perri

Publicação Tese: “Corpos abjetos: etnografia em cenários de uso e comércio de crack” Autora: Taniele Rui Orientadora: Heloisa André Pontes Coorientadora: Simone Miziara Frangella Unidade: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) Financiamento: Fapesp

Taniele Rui, autora do estudo: a partir de uma perspectiva sociocultural, antropóloga produziu relato autoral de mais de 300 páginas sobre o consumo de crack


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Campinas, 4 a 10 de novembro de 2013

Adriana e as portas da Unicamp A trajetória da funcionária que começou na Biblioteca Central e hoje atua na Secretaria-Geral Foto: Antoninho Perri

MARIA ALICE DA CRUZ halice@unicamp.br

a entrada na nova casa, onde passaria a viver novamente com as irmãs Raquel e Renata, o quarto de meninas com três colchas idênticas e meticulosamente esticadas, sem nenhuma ruga, chamou a atenção de Adriana do Carmo, hoje assistente técnica de direção da Secretaria-Geral da Unicamp. Passou seis anos de sua vida separada das irmãs, pois era comum, há alguns anos, quando a esposa falecia, o viúvo dividir a criação dos filhos com outras pessoas da família. Renata foi morar com a avó paterna, Raquel, com a tia Shirley, e Adriana, com a avó materna, dona Merentina. Quando se reuniram, porém, foi como se fizessem um acordo de nunca mais ficarem tanto tempo longe. – É assim até hoje, mesmo morando em bairros diferentes, procuramos estar sempre próximas, seja para a diversão ou para dar apoio uma à outra. O toque de mãe alegrou os olhos de Adriana. Tinham novamente um quarto para três meninas. Os lençóis e as colchas para receber as três filhas do ex-jogador de futebol campineiro Geraldo do Carmo, conhecido como Geraldo Macacão, tinham sido esticados por dona Aurora, falecida em dezembro de 2012, de quem Adriana confessa sentir muitas saudades. O que era um recomeço a todos era apenas o início de uma história para dona Aurora e, aos olhos da filha mais nova, Adriana, já começou se saindo bem, oferecendo, na entrada, o aconchego da casa localizada no Jardim Garcia, em Campinas, onde passariam a viver todos juntos por muitos anos. – Imagine a coragem de uma mulher em começar uma vida ao lado de um homem e assumir suas três filhas, que por muito tempo se reencontravam somente aos finais de semana. Aceitamos, mas tinha o ciúme do pai, as brigas de irmãs adolescentes (eu brigava um pouco com a Renata), e ela soube administrar e conduzir muito bem. Fomos muito felizes. No começo, estranhei. Achava-a meio brava, mas com o tempo, vi que nos tratava como mãe. Eu tinha apenas 5 anos quando minha mãe faleceu. Então, para mim, ela foi uma mãe. Por ser a mais nova daquela nova organização familiar, Adriana estimulou-se a repetir algumas habilidades de Aurora, como a culinária e o artesanato. Vinha de Aurora também a motivação para o trabalho, o curso universitário e a importância de prestar um concurso público para a Unicamp. – Quando completei 18 anos, lembro-me de ela e meu pai insistindo para eu prestar o concurso, balizados pela bem-sucedida trajetória da Raquel na Universidade. Eu não tinha muita iniciativa, mas lembro de eles me darem dinheiro para fazer inscrição, que naquela época ainda era feita no Colégio Técnico da Unicamp [Cotuca]. Eles percebiam, pela estabilidade da Raquel, que aqui eu estaria segura, e eles poderiam ficar sossegados em relação a mim, como acontecia com minhas irmãs. Dos pais também partiu a ideia de Adriana prestar vestibular para artes plásticas na Pontifícia Universidade Católica de Campinas. – Entrei, mas desisti porque engravidei do Alexandre Júnior, meu primogênito, em 1986. E foi grávida de sete meses que Adriana assumiu o cargo de oficial de administração na Biblioteca Central da Unicamp, na época dirigida por Leila Mercadante. Como assim? Nem ela sabia. Desconhecia a lei e, como a barriga mal aparecia, foi contratada, para sair de licença depois de três meses. – Foi uma das portas abertas pela mão de Deus, porque, quando engravidei, não era casada. Foi um ano de muitas mudanças, casei em junho de 1986 e, em 21 de julho, entrei na Universidade, com sete meses de gravidez. Engordei muito pouco. Quando conto, ninguém acredita. A Diretoria Geral de Recursos Humanos tomou um susto quando dei entrada no pedido de licença maternidade, pois teriam de esperar o bebê nascer para me admitirem, mas Deus sabe o que faz. Ele sabia que eu precisaria muito do emprego. Sim, porque caberia a ela a sobrevivência dos meninos após a separação conjugal depois do nascimento de seu terceiro filho, Gabriel.

Adriana do Carmo, assistente técnica de direção da Secretaria-Geral: ressaltando o papel da família

– Minha cabeça naquela época da separação era de que precisava ser muito severa. Até hoje sou meio rígida porque tinha muito medo que meus filhos enveredassem para algo ruim. Achava que não podia rir muito para eles. Sentia-me protegida porque minha família sempre amparou, deu força, foi meu arrimo mesmo, mas fui morar num lugar com muita droga e alto índice de criminalidade, tinha muito medo. Vi muitos jovens que estudaram com eles morrendo, sendo encarcerados. Foi no complexo de literaturas, hoje chamado de Biblioteca Central Cesar Lattes (BCCL), que, por 20 amos, Adriana aprendeu a organizar periódicos e, nos últimos anos por lá, a secretariar a diretoria, na época já administrada por Luís Atílio Vicentin. – E quando a BCCL começou a abrir à noite, passei a trabalhar horas a mais para complementar o orçamento familiar. Separada e com três filhos, aos 39 anos, precisava pensar na família. Decidiu, então, dar nova direção a sua vida para, em seguida, poder realizar os sonhos dos filhos. Retomou os estudos, em 2004, mas, desta vez – muito distante do sonho de ser artista plástica –, pensou na organização da Unicamp, na valorização e na avaliação de títulos prometida pela Universidade e buscou meios que pudessem melhorar sua condição econômica. Inscreveu-se no vestibular para o curso de recursos humanos em uma faculdade particular. – O que estou fazendo aqui?, indagava a mim mesma nos primeiros dias. Foi uma surpresa no começo, aos 40 anos, encontrar tantos jovens e até patrulheiros da Unicamp na faculdade. Mas encarei e vi o quanto foi positivo. Não foi fácil. Colocava o Gabriel, com 11 anos de idade, no transporte fretado, e pedia para o Val, na época namorado, hoje atual marido, correr em casa para vê-lo, já que meus filhos mais velhos estudavam à noite. Mais que ampliar a renda, Adriana queria ser espelho para os filhos. Assim que a graduação começou a trazer bons frutos, pôde garantir curso superior a Alexandre Júnior, e hoje capitania a graduação de Diego, seu segundo filho. E como conseguiu tudo isso? – Pelas portas abertas pelas mãos de Deus, nas quais acredito. A BCCL, apesar da acolhida e das oportunidades inesquecíveis, tornou-se pequena para os sonhos da mãe que não estudou biblioteconomia. Adriana sabia que para validação de seu diploma, deveria desenvolver atividades compatíveis à formação. Então, preparou o coração e foi em busca de nova colocação profissional dentro da Universidade. – Eles tinham de estudar, e eu queria mostrar isso para eles a partir de meu exemplo. E, mais uma vez, a porta da frente se abriu, pois, antes de me formar, encontrei a dou-

tora Patrícia Lopes Moretto e, como estava sabendo de uma vaga na Secretaria-Geral, fui fazer entrevista. Foi outra coisa que Deus pôs a mão, porque ela nem me conhecia como profissional. A entrevista foi tão simples e, ao final, ela disse: “Vou falar com Atílio e você vem trabalhar aqui”. A vaga estava contingenciada, demorou, mas depois de quatro meses estava na Secretaria. Para desespero de iniciante, Adriana começou em 1º de outubro e, no dia 2, foi trabalhar em uma reunião na Câmara de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe), na qual atuaria como secretária. – Nunca tinha ouvido falar sobre a Cepe, mas fui, corajosamente. Foi meu primeiro teste, e fiquei maravilhada com os discursos, os debates. Como a Reitoria parecia algo distante de minha realidade, antes, achei linda a forma como falavam de suas pesquisas. Pensei que não daria conta, mas decidi continuar. Decisão acertada, pois, em 2007, em sete meses, lhe foi oferecido um cargo de chefia. E ela mais uma vez ficou sem entender como poderia uma funcionária recém-chegada ser convidada para assumir a Cepe. Para maior surpresa, em 2009, assumiu a direção do Conselho Universitário (Consu) da Unicamp e, em seguida, agregou a Câmara de Administração (CAD) também. Adriana não imaginava que uma prece para conseguir tocar sua vida lhe garantiria tantas oportunidades. Hoje, ela é assistente técnica de Direção da Secretaria-Geral da Unicamp. – Em 2010, a doutora Patrícia foi convidada para dirigir a área de Recursos Humanos (DGRH) da Universidade, e, ao assumir o cargo de secretária-geral, a Leda me convidou para ser assistente técnica de Direção. Não podia imaginar, pois, com a saída da doutora Patrícia, ela não tinha compromisso de me manter no cargo, que dirá me oferecer promoção. No momento, mais que as reuniões da Cepe e do Consu, Adriana é responsável pela área de recursos humanos, pela pauta de eleição de representação e até mesmo pela própria consulta para reitor. Hoje, ao olhar a trajetória, a assistente somente agradece. – A Unicamp, para mim, foi uma mãe. Criei meus filhos aqui. Os três ficaram aqui do berçário até a Escola Estadual de Ensino Fundamental Sérgio Porto.

PONTE PRETA Do pai, Adriana herdou o gosto por futebol. É capaz de passar as tardes de domingo ao lado dos filhos e do atual marido não somente assistindo, mas também comentando algumas partidas.

O sonho dos três filhos era ter o futebol como empregador, mas não foi por falta de dedicação de Adriana. Pessoalmente, ela levava às “peneiras” [testes para se tornar atleta em algum clube] não somente os filhos, mas o sobrinho Lucas, filho de Raquel e atualmente aluno do segundo ano de educação física na Unicamp. Semelhança ou coincidência? O bisavô desses garotos, Miguel do Carmo, pai de seu Geraldo, pode vir a ser reconhecido como o primeiro jogador negro a jogar no Brasil, pela Associação Atlética Ponte Preta (AAPP), de Campinas. A família se envolve na campanha, inclusive Adriana, ainda que de forma tímida. – Não conhecemos nosso avô. Meu pai conviveu pouco com o pai, pois ele morreu jovem, provavelmente por um erro cirúrgico. O fonoaudiólogo Carlos Burghi (torcedor e membro da família Burghi, também fundadora da AAPP) levanta esta história e faz circular um abaixo-assinado entre torcedores e campineiros em geral para que o nome de meu avô seja citado como o primeiro jogador negro, na próxima Copa do Mundo. Enquanto isso, a família colabora, levando uma faixa ao estádio em dias de jogo da Ponte Preta. A Raquel é a mais animada, mas todos colaboram. E não é assim somente no futebol. Sempre com palavras de gratidão, Adriana ressalta algum momento importante no qual recebeu apoio da “superfamília”. – Sempre me apoiaram. Quando separei de meu primeiro marido, tive uma paralisia facial e foi difícil, pois nem queria sair à rua. Mas minha família acompanhou até que eu melhorasse. Morei com meus pais por algum tempo, mas logo consegui mudar de lá e, mesmo morando longe e num lugar complicado, eles estavam sempre por perto. Temos este zelo. Outro momento emblemático foi no tratamento de Aurora. Quando ela ficou doente, nos dedicamos quatro anos de cuidados e atenção. Devíamos isso a ela. Foi uma santa por assumir a educação de três adolescentes. E, diante de tantos nomes a agradecer, dentro e fora da família, Adriana ainda ressalta: – Se tivesse de escolher uma família, ela seria formada por Geraldo, Aurora, Renata, Raquel, eu e Carla. Porque a Carla, filha única de tia Shirley, acabou entrando para o time das irmãs, pois cresceu conosco. Renata é a mais velha, aquela com instinto protetor. Sempre presente. Raquel é a líder, seja para a festa ou para acontecimentos não alegres. É quem dá força para a família toda; meu espelho. Minha vontade de fazer faculdade partiu do orgulho que eu e as outras pessoas têm dela. Eu observava e pensava: “Quando crescer, serei igual a ela”, brinca Adriana.


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Campinas, 4 a 10 de novembro de 2013

Ilustração: Luiz Guilherme Dias de Souza

Altura e peso de cadetes revelam patamar genético de crescimento Pesquisa feita com militares demonstra tendência secular de estatura no Brasil EDIMILSON MONTALTI Especial para o JU

que a altura, o peso e o índice de massa corporal (IMC) de jovens cadetes do Exército brasileiro têm a ver com o desenvolvimento do país, a epidemia de obesidade e os aspectos genéticos da população brasileira? Muita coisa, segundo a dissertação de mestrado “Tendência secular de estatura, peso e índice de massa corporal em adultos jovens militares brasileiros no século XX” e o artigo Secular trends of height, weight and BMI in young adult Brazilian military students in the 20th century, recém-publicado na revista inglesa Annals of Human Biology. A dissertação é do militar e educador físico Josiel Almeida de Avila, e foi defendida dentro do programa de pós-graduação em Saúde da Criança e do Adolescente da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp. A orientação é do professor, médico pediatra e coordenador do Centro de Investigação em Pediatria (Ciped), Gil Guerra Júnior. O artigo é dos poucos publicados nessa área e foi aceito devido ao seu ineditismo. “Os estudos de tendência secular no Brasil são poucos e, devido à escassez de dados para realizar análises sobre o crescimento, a maioria dos trabalhos utiliza dados de militares. Um deles foi feito aqui em Campinas, com recrutas na hora do alistamento militar, mas não foi publicado. O outro, com estudantes de alto nível socioeconômico de uma escola privada do Rio de Janeiro”, explicou Gil Guerra Júnior. Tendência secular de crescimento é um termo usado para caracterizar mudanças que ocorrem no tamanho ou na composição corporal de um determinado grupo populacional durante um período longo de tempo. Também pode ser entendida como a alteração da idade na qual se atinge uma determinada estatura na infância ou na adolescência ou o momento em que a estatura final é alcançada em um determinado país. A tendência secular de crescimento pode ser positiva, quando ocorre um aumento ou uma aceleração do crescimento; negativa, quando ocorre uma diminuição do crescimento; ou neutra, quando não é observada nenhuma mudança. O estudo foi conduzido por Josiel entre outubro de 2011 e janeiro de 2012. Ele coletou 2.169 dados de estatura e 1.741 dados de peso e IMC de jovens cadetes com idade entre 17 a 22 anos nascidos desde as décadas de 1920 até 1990 e que ingressaram na Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx) de Campinas, SP, e na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), em Resende, RJ. O primeiro ano de formação do oficial de carreira da linha de ensino militar bélico é realizado na EsPCEx e os outros quatro anos de estudo são realizados na Aman. Na EsPCEx, os alunos são submetidos a um regime de internato, no qual todas as atividades escolares são controladas e reguladas por normas internas, incluindo horários de aula, refeições, atividades físicas e militares. A frequência do aluno às atividades escolares é obrigatória. Ao final do seu primeiro ano de formação, o aluno aprovado é considerado habilitado para ingressar na Aman. Durante os quatro anos de estudos na Aman, o cadete também vive em regime de internato, tendo uma intensa rotina de atividades físicas e intelectuais. Nos arquivos existentes, nesses estabelecimentos de ensino, cada militar possui um prontuário com todos os seus dados. Os dados foram coletados por Josiel a partir dos militares formados no ano de 1948 e, portanto, nascidos na década de 1920. Essa data de

início de coleta foi escolhida por ser o momento em que pela primeira vez aparecem os registros de peso. A partir da turma de 1948, os dados foram coletados a cada dez anos. Os nascidos na década de 1930 não tinham o peso anotado no prontuário e, portanto, não tiveram os dados de peso e IMC analisados. Foram excluídos da pesquisa os alunos com idade inferior a 18 anos, pois alguns ainda poderiam não ter completado o crescimento. Foram excluídos também aqueles que possuíam 21 anos ou mais no momento da matrícula, uma vez que correspondiam a um número muito pequeno de casos. De acordo com a pesquisa, no período de 80 anos ocorreu um aumento de 7,3 cm na média da estatura dos militares brasileiros e 9,8 kg para o peso. Se no começo do século a estatura média era de 170 cm, na década de 1990 ela chegou a 177,3 cm. No entanto, o crescimento apresentado nesse período ocorreu de forma não constante. Os dados da pesquisa mostram um crescimento significativo da década de 1920 para década de 1930 e uma estagnação entre as décadas de 1930 e 1940. “Apesar de não terem ocorrido conflitos da Segunda Guerra no Brasil, as consequências desse panorama internacional desfavorável podem ter ocasionado o menor crescimento apresentado”, disse Josiel. Após as décadas de 1930 e 1940, a tendência de crescimento voltou a ficar positiva e se acentuou durante a década de 1960. Na década de 1970, a altura dos cadetes pesquisados se estabilizou em 175,7 cm de altura. Esse índice se manteve nos anos seguintes e Josiel, em sua dissertação de mestrado, explica as razões. “Entre 1950 e 1979, a sensação era de que o Brasil estava finalmente se tornando uma nação moderna. Existia a crença de um acesso iminente ao ‘primeiro mundo’. Essa motivação teve início no pós-guerra com a aceleração da industrialização, migrações internas e urbanização. Nos 30 anos que vão de 1950 ao final da década de 70, o Brasil construiu uma economia moderna, com padrões similares aos de países desenvolvidos, tanto em produção como em consumo. Também ocorreram progressos na indústria farmacêutica, com o uso de antibióticos substituindo os remédios com base em produtos naturais e o uso de vacinas no combate a doenças. Ocorreram melhoras também nas áreas da educação, da saúde – com ênfase na medicina preventiva – e na previdência”. Mas se houve um crescimento positivo nesse período, nas décadas de 1980 e 1990, ocorreu uma estagnação no crescimento da população, conforme apontam os dados da pesquisa. Nesse período, o Brasil começou a

sentir os reflexos das três décadas anteriores marcadas pelo grande crescimento econômico. Houve uma estagnação da economia e a alta da inflação. No final de 1980 uma nova realidade se impôs: a superinflação, o desemprego, a violência e a escalada das drogas. “Nesse período, as desigualdades sociais no Brasil eram enormes, bem distantes das observadas nos países desenvolvidos. Na década de 1980 – conhecida como a ‘década perdida’ –, a qualidade de ensino e serviço de saúde, apesar da expansão, também era péssima. No entanto, a estagnação do crescimento pode ser o reflexo de um provável máximo potencial genético alcançado pela população”, explica Josiel. Gil Guerra Júnior reforça essa teoria e diz que “a altura é geneticamente determinada, mas o ambiente pode modificar para cima ou para baixo esse índice. A estatura de um indivíduo é um reflexo das condições socioeconômicas em que ele vive”. Por isso, de acordo com a pesquisa, diferenças de estatura foram encontradas com relação à região de nascimento dos cadetes da EsPCEx e Aman. Os cadetes que nasceram nas regiões Sudeste e Sul apresentaram uma estatura maior que os nascidos nas regiões Norte e Nordeste. A média de variação foi de 6,5 cm. “Apesar das diferenças encontradas, a análise desses resultados necessita ser cautelosa, tendo em vista que muitos alunos eram filhos de militares que foram transferidos com frequência”, disse Josiel. Os resultados encontrados na pesquisa também apontam para uma tendência de aumento do peso e do IMC ao longo do período avaliado. O aumento do peso e do IMC ocorreu de forma significativa entre as décadas de 1920 e 1940 e de 1960 e 1970. Alguns fatores apontados pelo pesquisador como determinantes para o aumento desses índices são: a falta de atividade física, o maior consumo calórico, a globalização da produção e da propaganda ligada à indústria alimentícia.

Estudos realizados com a população brasileira mostraram que, ao longo do século XX, o país passou por mudanças nutricionais e com um maior consumo de produtos industrializados. Essa mudança, na década de 1980, ocasionou um aumento do sobrepeso nos diversos grupos etários e, a partir da década de 1990, houve um predomínio dos casos de obesidade sobre os de desnutrição. “O Exército brasileiro também sentiu os reflexos dessa mudança, visto que os militares incorporados entre os anos de 1980 e 2005 também apresentaram um aumento de sobrepeso e obesidade”, disse Josiel. Os dados de altura, peso e IMC da pesquisa reforçam três pontos importantes destacados pelos pesquisadores: o primeiro é de que o Brasil atingiu um nível socioeconômico estável; o segundo é de que a estagnação do crescimento pode indicar que o país também já atingiu o seu platô genético e o terceiro é de que essa estagnação pode levar a um aumento da obesidade. “O Brasil está entre as 10 maiores economias do mundo. Do ponto de vista genético, é necessário haver um ambiente favorável para que a população em geral atinja o seu patamar de altura máximo. É preciso que haja uma melhor distribuição de renda no país para que isso ocorra. Se tivéssemos feito a pesquisa com pessoas de nível socioeconômico baixo, não teríamos chegado nesses índices e nessa estabilidade”, comenta Gil Guerra Júnior. “Estudos internacionais mostram que os habitantes de países desenvolvidos, após atingirem seu potencial máximo de crescimento, começaram a adquirir obesidade. Nós atingimos esse patamar agora. Medidas de prevenção contra a obesidade devem ser intensificadas. Entretanto, é preciso cautela na extrapolação dos dados da pesquisa para o restante da população”, alertou Josiel.

Foto: Antoninho Perri

Publicações Artigo JA Avila, RA Ávila, EM Gonçalves, VJO Barbeta, AM Morcillo, G GuerraJunior. Secular trends of height, weight and BMI in young adult Brazilian military students in the 20th century. Annals of Human Biology, 2013

Dissertação: “Tendência secular de estatura, peso e índice de massa corporal em adultos jovens militares brasileiros no século XX” Autor: Josiel Almeida de Avila Orientador: Gil Guerra Júnior Unidade: Faculdade de Ciências Médicas (FCM) Gil Guerra Júnior (à esq.), orientador, e Josiel Almeida de Avila, autor da dissertação: resultados publicados em revista britânica


10 Vida Painel da semana Teses da semana Livro da semana Destaques do Portal da Unicamp

Campinas, 4 a 10 de novembro de 2013

aa c dêi m ca

Painel da semana  Semana de atividade física - Evento acontece de 4 a 8 de novembro, nas Estações de Atividades Físicas I e II do Programa Mexa-se e na Praça da Paz. O objetivo é disseminar informações de caráter preventivo e conscientizar a comunidade universitária sobre a importância da prática da atividade física. As atividades serão iniciadas às 9 horas. Mais detalhes no site do evento: http://www.cecom.unicamp.br/mexa-se/ ou telefone 19-3521.8999.  Jornadas de Antropologia - O Programa de Pós-graduação em Antropologia Social (PPGAS) do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) já está recebendo trabalhos a serem apresentados nas Jornadas de Antropologia da Unicamp, evento programado para ocorrer no auditório do IFCH, entre os dias 4 e 7 de novembro de 2013. O formulário para inscrições de ouvintes também está disponível no link http://antropologias.descentro. org/seminarioppgas/. As Jornadas de Antropologia são organizadas por alunos do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Unicamp. Mais informações: 11-97646-5820 ou e-mail vzanoli@gmail.com  SLACA - A abertura oficial do Simpósio Latino Americano de Ciência de Alimentos (Slaca) acontece no dia 4 de novembro, às 20h30, na Vila Ápia Festa e Eventos (Marginal da Rodovia D. Pedro I, 267), em Valinhos-SP. O evento contará com apresentação musical do Coral Zíper na Boca, da Banda Sinfônica da Aeronáutica e da Banda Sinfônica Sexto Sentido.  Variedades artesanais - O Centro Cultural de Inclusão e Integração Social (CIS-Guanabara) organiza nos dias 5,12 e 19 de novembro, das 15 às 17 horas, no Projeto “Terças com Arte”, uma oficina de variedades artesanais com a arte-educadora Cidinha Bueno. O objetivo é proporcionar aos participantes um encontro interessante, alegre, moderno, cultural e prazeroso, com trocas de ideias, experiências e vivências de práticas artesanais diversas. Público-alvo: adultos. O CIS-Guanabara fica na rua Mário Siqueira 829, no bairro do Botafogo, em Campinas. Estacionamento gratuito no local. Mais informações no site www. cisguanabara.unicamp.br  Café tecnológico - A Agência de Inovação Inova Unicamp e a Incubadora de Empresas de Base Tecnológica da Unicamp

(Incamp) realizam, dia 6 de novembro, às 9 horas, no auditório da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC), o Café Tecnológico. O evento contará com palestra da educadora financeira Thereza Bukow, ocasião em que também haverá a entrega de certificados às empresas graduadas da Incamp: Yellow, Immunocamp, Ekion, Taggen e Sparky Mobile. O Café Tecnológico tem como público-alvo empresas incubadas e graduadas pela Incamp e interessados em empreendedorismo. As inscrições para participar do evento são gratuitas e podem ser feitas no link http://www.inova.unicamp.br/evento/2744. Outras informações: telefone 19-3521-2623.  Vestibulinho do Cotuca - O Colégio Técnico da Unicamp (Cotuca) recebe, até 6 de novembro, as inscrições para o seu vestibulinho. O Cotuca oferece 805 vagas em 21 opções de cursos técnicos e de especialização técnica, em três modalidades. Todos os cursos são gratuitos. Mais informações no site www. cotuca.unicamp.br, telefone 19-3521-9911 ou e-mail exame@ cotuca.unicamp.br  Simpeq e Simpequinho - O 12º Simpósio para Profissionais do Ensino de Química (Simpeq) ocorre nos dias 8 e 9 de novembro, no Instituto de Química (IQ). No dia 9 haverá o Simpequinho, direcionado para estudantes (a partir do 9º ano). Inscrições, programação e outras informações, no link http:// gpquae.iqm.unicamp.br/simpeq12.html  Fórum de Empreendedorismo e Inovação - Com o objetivo de discutir as bases necessárias para a construção de um sistema de gestão para as Organizações Não Governamentais (Ong’s), no dia 8 de novembro, às 9 horas, no Centro de Convenções da Unicamp, acontece o Fórum Permanente de Empreendedorismo e Inovação com o tema “Desafios da Gestão nas Organizações Não-Governamentais Sem Fins Lucrativos”. Da abertura do evento, às 9h30, participam os professores Álvaro Penteado Crósta, coordenador-geral da Unicamp; João Frederico Meyer, pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários; Miguel Juan Bacic, do Instituto de Economia (IE); e Edison Lins, coordenador do Grupo Gestor de Benefícios Sociais (GGBS) da Unicamp. A primeira palestra, às 10 horas, será proferida pela professora Graziela Marian Comini (Ceats-USP). Aborda: “A experiência do Centro de Empreendedorismo Social e Administração em Terceiro Setor da USP”. Às 15h30 haverá o lançamento do livro Gestão para Organizações Não Governamentais. Inscrições, programação completa e outras informações podem ser obtidas na página eletrônica http://foruns.bc.unicamp.br/foruns/projetocotuca/forum/htmls_descricoes_eventos/emp47.html. O evento será transmitido (ao vivo) pela TV Unicamp.

Eventos futuros  Estudos do canto e da canção popular - Estão abertas as inscrições para o “I Encontro de Estudos do Canto e da Canção Popular” que vai reunir, de 11 a 15 de novembro, no Instituto de Artes (IA) da Unicamp, no Espaço Cultural Casa do Lago, no Instituto de Economia e na Concha Acústica do Parque Portugal (Taquaral), em Campinas, artistas, pensadores, pesquisadores, produtores e jornalistas para tratar o tema do canto e da canção popular no Brasil. A abertura do evento será às 10 horas, no auditório do IA. As inscrições, gratuitas, podem ser feitas no link http://encontrocancaopopular.wordpress.com. O evento é aberto a interessados e está sob a responsabilidade da professora Regina Machado. Mais informações: telefone 19-3521.7570 ou e-mail vinicius@iar.unicamp.br  Semana de Geografia - A IX Semana de Geografia da Unicamp acontece entre 11 e 14 de novembro com o tema “Os desafios do fazer geográfico: entre teoria e prática”. A conferência de abertura será feita pelo professor Antonio Carlos Robert Moraes (FFLCH/USP), às 19 horas, na sala PB16 do Ciclo Básico II. A programação prevê a realização de conferências e mesasredondas, minicursos, trabalhos de campo e apresentação de trabalhos. As inscrições devem ser feitas pelo site http://www.ige. unicamp.br/cact/semana2013/ e são gratuitas. Organizador: Centro Acadêmico de Geografia e Ciências da Terra (CACT).

 Projeto Rondon lança convite para operações de 2014 - Equipes terão até 12 de novembro para realizar inscrições na Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários (Preac). Leia mais em http://www.preac.unicamp.br/rondon/?p=347  Novos avanços em metodologia laboratorial e impacto clínico - Tema será tratado durante a realização do Fórum Permanente de Esporte e Saúde, dia 13 de novembro, às 9 horas, no Centro de Convenções da Unicamp. Inscrições, programação e outras informações no link http://foruns.bc.unicamp. br/foruns/projetocotuca/forum/htmls_descricoes_eventos/ saude69.html ou telefone 19-3521-5039.  O (des) financiamento da saúde - No dia 14 de novembro acontece mais uma edição do Fórum Permanente de Esporte e Saúde. Com o tema “O (des) financiamento da saúde: entre a saúde das finanças e as finanças da saúde”, o evento será realizado às 9 horas, no Centro de Convenções da Unicamp,. O Fórum é organizado pela Coordenadoria Geral da Unicamp (CGU) e está sob a responsabilidade do professor Edison Bueno, chefe do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas (FCM). Inscrições, programação e outras informações no link http://foruns.bc.unicamp.br/foruns/projetocotuca/forum/htmls_descricoes_eventos/saude71.html O Fórum será transmitido pela TV Unicamp. Mais informações: 19-3521-5039.

Livro

da semana

A fala dos quartéis e as outras vozes

Teses da semana  Computação - “Desenvolvimentos da Conjetura de Fulkerson” (mestrado). Candidato: Kaio Karam Galvão. Orientadora: professora Christiane Neme Campos. Dia 4 de novembro, às 10 horas, no auditório do IC. “Complexo de imagens discretas de Morse: algoritmos, modelagem e aplicações” (doutorado). Candidato: Ricardo Dutra da Silva. Orientador: professor Hélio Pedrini. Dia 5 de novembro, às 9 horas, no auditório do IC. “Implementação de software de criptografia para sensores sem fio e processadores móveis” (doutorado). Candidato: Conrado Porto Lopes Gouvêa. Orientador: professor Julio César López Hernández. Dia 8 de novembro, às 10 horas, na sala 322 do IC 3. “Modelagem, caracterização e otimização de poder de servidores de internet em data centers” (doutorado). Candidato: Leonardo de Paula Rosa Piga. Orientador: professor Sandro Rigo. Dia 8 de novembro, às 13 horas, na sala 316 do IC 3.  Educação Física - “Pesquisa regional sobre crescimento e desenvolvimento: relações com maturação, sobrepeso e obesidade, nível socioeconômico e desempenho motor” (doutorado). Candidato: Edilson Hobold. Orientador: professor Miguel de Arruda. Dia 6 de novembro, às 9 horas, no auditório da FEF.  Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo - “Geração de estruturas em casca de formas livres e analíticas de plantas poligonais regulares” (mestrado). Candidato: Éder Murilo Parizzoto Sabino. Orientador: professor Isaias Vizotto. Dia 7 de novembro, às 14 horas, na sala de defesa de teses da CPG da FEC.  Engenharia Mecânica - “Microestrutura e comportamento mecânico de ligas Ti-Nb-Sn conformadas por fundição por centrifugação” (mestrado). Candidato: Paulo Eduardo Leite de Moraes. Orientador: professor Rubens Caram Junior. Dia 4 de novembro, às 14 horas, na sala JE2 da FEM.  Linguagem - “As frutas bravas do norte: os romances nãocanônicos na produção literária de 1930” (mestrado). Candidata: Elisa Domingues Coelho. Orientador: professor Antonio Arnoni Prado. Dia 6 de novembro, às 10 horas, na sala de defesa de teses do IEL.  Matemática, Estatística e Computação Científica “Geometria riemanniana e semi-riemanniana no fibrado de Clifford e aplicações” (mestrado). Candidato: Samuel Augusto Wainer. Orientador: professor Márcio Antonio de Faria Rosa. Dia 8 de novembro, às 14 horas, na sala 253 do Imecc.

Sinopse: Este livro apresenta uma pesquisa sobre o discurso dos presidentes militares (1964-1985). A autora faz análises minuciosas do modo de dizer de Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo, contribuindo originalmente para a compreensão desse momento histórico. As análises claras e precisas permitem ao leitor aprofundar-se na teoria da análise do discurso para compreender a dimensão política das práticas de linguagem. Esta obra sustenta uma reflexão sobre o discurso autoritário, a censura e o discurso político em geral. Esta edição também examina, em seu Posfácio, a Lei de Anistia e seus efeitos de sentido na atualidade, momento em que a Comissão Nacional da Verdade pleiteia a revisão dessa lei para acabar com a impunidade dos torturadores e de seus mandantes. (Mónica Zoppi-Fontana) Autora: Freda Indursky Ficha técnica: 2a edição revista e ampliada, 2013; 352 páginas; formato: 14 x 21 cm ISBN: 978-85-268-1031-0 Área de interesse: Linguística Preço: R$ 46,00

Destaque do Portal

Evento debate energia hidráulica e meio ambiente 1º Latin American Hydro Power and Systems Meeting, que ocorreu entre os últimos dias 29 e 31, trouxe na pauta a discussão de pesquisas nas áreas de máquinas hidráulicas, sistemas e meio ambiente, a fim de promover a integração internacional entre pesquisadores, profissionais e alunos das áreas de engenharia, bem como a divulgação técnicocientífica dos trabalhos. O encontro foi aberto na manhã do dia 29, no Centro de Convenções. Simultaneamente ocorreu o 6º Hydro Power for Today Forum, promovido pela Unido – Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial. O professor José Geraldo Pena de Andrade, diretor da Faculdade de Tecnologia (FT) e responsável pelo evento na Universidade, explicou que a International Association on Hydraulic Research (IAHR), atendendo a proposta apresentada pela Unicamp e pela Universidade Federal de Itajubá (Unifei), instituiu como sua seção regional o Grupo de Trabalho Latino-Americano. “A IAHR é uma entidade voltada à pesquisa e divulgação na área de geração de hidroeletricidade e nosso grupo foi formalizado durante o Congresso Internacional de 2010, na Romênia.” Segundo o diretor da FT, este encontro no Brasil é o primeiro na América Latina, sendo que o próximo, daqui a dois anos, será realizado em outro país da região. “Até o momento, o Grupo de Trabalho Latino-Americano possui 16 entidades participantes: as empresas Alstom, Andritz, Impsa, KSB e

Foto: Antoninho Perri

Mesa de abertura do 1º Latin American Hydro Power and Systems Meeting

Voith, as universidades brasileiras Unicamp, Unifei, IME, UFRJ, UFMG, UFMT e UFRGS, e as argentinas UNLP, UNCU, UTN e Uncoma. Nesse primeiro evento temos ainda a parceria do Centro Internacional de Pequenas Centrais Hidrelétricas da China e do Centro Nacional de Referência em Pequenas Centrais Hidrelétricas do Brasil.” José Geraldo de Andrade afirma que essas discussões visam dar respostas para a necessidade de geração de energia elétrica

sem impactar o meio ambiente. “O Brasil possui o terceiro potencial hidráulico do mundo, atrás de China e Rússia, e até agora não utilizou um terço desse potencial. Chegamos a 44% de fontes renováveis na matriz energética, enquanto a média mundial é de 13%. Mas daqui para frente temos que atacar o problema ambiental, devido ao grande impacto causado pelos reservatórios e áreas de alagamento. Por outro lado, também precisamos considerar os aspectos de melhor

eficiência das máquinas, melhores sistemas e novas tecnologias que permitam gerar a maior quantidade de energia possível.” José Anibal, secretário de Energia do Estado de São Paulo, concedeu palestra responsabilizando o governo federal por políticas que, em sua opinião, levaram à priorização da gasolina na frota de veículos. “São Paulo tem uma grande experiência que, infelizmente, foi fortemente impactada no que se refere à geração de energia renovável, às contas externas e à Petrobras; houve desestímulo a um setor que emprega 800 mil pessoas, que é o sucroenergético. A participação da gasolina, que era de 61% no ano de 2000, chegou a apenas 43% em 2009, mas voltou para 62% no ano passado.” O professor João Frederico Meyer, próreitor de Extensão e Assuntos Comunitários, representando o reitor José Tadeu Jorge, encarregou-se da saudação aos participantes do 1º Latin American Hydro Power and Systems Meeting. Completaram a mesa de abertura Gustavo Aishemberg, representante da Unido no Brasil; Victorio Oxilia, da Organização Latino-Americana de Energia; embaixadora Mariângela Rebuá, do Departamento de Energia do Itamaraty; Lorena Lanza, vice-ministra de Minas e Energia da Nicarágua; Heng Liu, diretor do International Center on Small Hydro Power da China; Geraldo Lúcio Tiago Filho, secretário do Centro Nacional de Referência em Pequenas Centrais Hidrelétricas; e Eduard Egusquiza, diretor da IAHR Internacional. (Luiz Sugimoto)


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Campinas, 4 a 10 de novembro de 2013

Pesquisa determina idade de depósitos de cobre em Carajás Fotos: Antoninho Perri/ Divulgação

Descobertas feitas por geóloga podem nortear a prospecção e a exploração mineral na região

Carolina Penteado Natividade Moreto (centro) em trabalho de campo, com a professora Lena Monteiro (à esq.), orientadora, e na Unicamp (destaque): desvendando a evolução geológica de Carajás

uma fita adesiva adequada, recobertos com resina e encaminhados para datação. Durante o doutorado, ela processou 65 amostras de rocha, em um trabalho de meses. A idade das rochas é determinada pela quantidade de decaimento radiativo, já que nos pares U-Pb e Re-Os o primeiro elemento é radiativo e o segundo ocupa o final da série de decomposição, sendo chamado de radiogênico. Utilizando o conceito de meiavida e com base nas quantidades relativas dos elementos do par, é determinada com grande aproximação a época em que o depósito se formou. O melhor equipamento para essas determinações é o SHRIMP (Sensitive HighResolution Ion Microprobe), do qual existem muito poucos no mundo. O único existente no Brasil é o do Instituto de Geociências da USP, adquirido há alguns anos, e onde ela mesma fez as medidas U-Pb. Para as determinações Re-Os ela foi para a Universidade de Alberta, no Canadá, onde existe um laboratório pioneiro nessa técnica e considerado o melhor do mundo. A pesquisa foi financiada pela Fapesp, CNPq e INCT-Geociam (MCT-CNPq-Fapespa).

CARMO GALLO NETTO carmo@reitoria.unicamp.br

geólogo com martelo adequado na mão e mochila nas costas, percorrendo caminhos e picadas, subindo morros e escarpas para recolher fragmentos de rochas não é apenas uma ficção cinematográfica. Ele existe. E ela também. Mesmo na era da tecnologia, em que se presume que para o desvendamento da natureza dos solos e do subsolo bastam os satélites. A essa imagem equivocada contrapõe-se a pesquisa realizada pela geóloga Carolina Penteado Natividade Moreto, que utilizou amostras de rocha identificadas e coletadas em trabalhos de campo para compreender sua formação e as suas idades. Não apenas isso. Uma longa história de muitos milhões de anos que culminou na rara formação de grandes depósitos de cobre foi revelada. O trabalho foi realizado na Província de Carajás, próximo da região da Floresta Nacional de Carajás, área de preservação ambiental, situada ao Sul do Pará, famosa nos anos de 1980 em decorrência da enorme afluência de garimpeiros que trabalhavam e viviam em condições sub-humanas em busca de ouro em Serra Pelada. À época tornou-se conhecido o registro fotográfico que lhe fez Sebastião Salgado. O tema retorna em filme recém-lançado. Passada a corrida do ouro, a região de Carajás ainda se destaca por apresentar expressivas riquezas minerais. Província é a denominação genérica dada a regiões que concentram depósitos minerais. Em Carajás, conhecida internacionalmente devido ao potencial econômico de suas riquezas, existem as maiores jazidas de ferro do mundo além de abundância de cobre, níquel, manganês, ouro e platinóides. É a região mais importante do Brasil em recursos minerais e a que no mundo concentra a maior diversidade desses depósitos, e por isso atrai empresas de mineração e pesquisadores nacionais e internacionais. Ao iniciar o estudo, Carolina tinha grandes desafios: compreender a evolução geológica de Carajás, ou seja, como se deu a origem e a transformação das rochas ao longo do tempo geológico, e a evolução metalogenética, que explica como se formaram os depósitos minerais, em especial os de cobre. “Depósitos minerais são sempre anomalias no nosso planeta. São raros justamente porque dependem também da rara coincidência de processos geológicos”, diz ela. Através de estudos geocronológicos, envolvendo datação das rochas, a pesquisadora conseguiu caracterizar as rochas mais antigas de Carajás, que beiram 3 bilhões de anos e estão entre as mais antigas do Brasil. As rochas datadas mais antigas da Terra têm cerca de 4 bilhões de anos, em um planeta formado há 4,5 bilhões de anos. É difícil encontrar rochas no intervalo de 3 a 4 bilhões de anos. Entretanto, para Carolina, o principal mérito do trabalho foi o de determinar idades precisas e compreender como se formaram os depósitos de cobre de Carajás. Outro achado da pesquisadora foi a constatação de que depósitos de cobre, embora muito próximos e com características semelhantes, formaram-se em épocas muito distintas – 2,7 e 1,9 bilhões de anos –, mostrando uma rara recorrência de eventos geológicos ao longo do tempo. Com base nessas constatações, ela conseguiu integrar informações obtidas ao longo de mais de dez anos pelo Grupo de Pesquisa em Evolução Crustal e Metalogênese do IG-Unicamp e propor um novo modelo evolutivo para os depósitos de cobre.

EXPLICAÇÕES

Vista da Mina Sossego, na Província de Carajás, a partir do mirante: região tem expressivas riquezas minerais, atraindo empresas e pesquisadores

O minério é basicamente uma rocha, porém suscetível de ser explorado economicamente. O interesse está em extrair dele um mineral ou elemento, separando-o do restante do material, a ganga, que não tem interesse econômico. A pesquisa concentrou-se na caracterização do Cinturão Sul do Cobre, na área dos depósitos de ferro-cobre-ouro. Centrou-se na determinação das idades de cristalização das rochas hospedeiras desses depósitos e no estabelecimento de modelos evolutivos para os depósitos a partir dos dados geocronológicos inéditos obtidos e dos disponíveis na literatura. Os modelos teóricos delineados podem ser estendidos para a compreensão dos mecanismos de formação de depósitos de cobre em outras regiões do Brasil e do mundo. Apenas com a reconstituição de processos geológicos que atuaram em um passado muito distante podem ser entendidas em quais partes do planeta depósitos minerais podem ser encontrados. Os conhecimentos científicos agregados ao trabalho relativos à determinação das idades das rochas e de como nelas se acumularam os bens minerais podem servir, portanto, de importantes guias para nortear a prospecção e a exploração mineral. Adicionalmente, embora os recursos minerais sejam utilizados no dia-a-dia por todas as pessoas – do papel ao smartphone – e sua demanda seja crescente em termos mundiais, entender que esses bens minerais não são renováveis, mas resultantes de uma extraordinária coincidência de processos geológicos pode auxiliar na proposição de políticas sustentáveis para o setor mineral. Exemplos desse significado são as apresentações que Carolina realizou, durante o estudo, em encontros nacionais e internacionais no Chile, Austrália e na Suécia, e que a levaram inclusive, em 2011, a ganhar o prêmio de melhor apresentação no 11th SGA Biennial Meeting, promovido pela Society for Geology Applied to Mineral Deposits, realizado em Antofagasta, no Chile. Ela foi também selecionada, entre estudantes de todo o mundo, para participar de excursões de campo em depósitos minerais

situados na Cordilheira dos Andes e no norte da Suécia. Essas participações lhe permitiram comparar Carajás com outras províncias minerais do mundo.

O TRABALHO

O trabalho de campo envolveu a coleta de amostras de rocha a céu aberto, no entorno das minas de cobre, e também o recolhimento de amostras fornecidas pela Vale, principal mineradora na região, na prospecção em diferentes profundidades. Centenas de furos de sondagem são realizadas com o objetivo de determinar como o minério se distribui, suas reservas e seus teores. Trazidas para o laboratório, as rochas são então caracterizadas com o auxílio de microscópio petrográfico e de microscópio eletrônico de varredura. Depois são trituradas e moídas até um pó muito fino a partir do qual são feitas as análises desejadas e que permitem determinar os elementos que a constituem. A determinação da idade de formação da rocha, o chamado estudo geocronológico, é feita a partir de cristais microscópicos de minerais coletados no pó da rocha, que possuem elementos radioativos e radiogênicos, os pares Urânio-Chumbo (U-Pb) e RênioÓsmio (Re-Os). Estes pares, que se prestam à datação, estão no interior de minerais, tais como zircão, monazita, titanita e molibdenita na forma de raros cristais que constituem as rochas estudadas e devem ser separados. Nesta fase, o trabalho assumiu características inacreditáveis, pois precisam ser separados cristais que medem aproximadamente 30 micrômetros, ou 0,003 milímetros. Na mão. A pesquisadora esclarece: “Para separálos eu garimpei o minério em uma bateia. A diferença de densidade faz com que se concentrem no fundo zircão, monazita, titanita e outros componentes mais densos. Ao final restam na bateia 20% do material de partida. Uma vez seco, esse resíduo é levado a um separador magnético que retira os componentes radiativos. São separados então os cristais que interessam utilizando-se um fio de cabelo, que tem diâmetro próximo ao dos cristais”. Na sequência estes são colados em

Com base nas informações sobre idades das rochas e de suas composições, a pesquisadora concluiu que os depósitos minerais mais antigos formaram-se em grandes profundidades ao longo de grandes descontinuidades existentes na crosta terrestre. Fluidos quentes circulam na crosta, lixiviando metais das rochas, principalmente ferro, cobre e ouro, depositando-os depois nesses espaços. Por esta razão os depósitos de cobre formados há 2,7 bilhões de anos estão sempre muito próximos a essas grandes descontinuidades. Em Carajás, os depósitos ocorrem em áreas em que no passado remoto existiu um grande oceano, além de extensivo vulcanismo e formação de rochas magmáticas intrusivas, que também contribuíram para a formação dos depósitos. Bem depois, há 1,9 bilhões de anos, novo evento geológico determinou que os fluidos termais também circulassem pela região, aproveitando antigas estruturas, onde não existia mais oceano. Circulando pela crosta terrestre e por grandes descontinuidades, os fluidos conseguiram concentrar novamente grandes quantidades de vários metais. Em consequência, formaram-se lado a lado depósitos de minerais de origens completamente diferentes. Em síntese, diz Carolina: “Diferentes tipos de rochas hospedam diferentes depósitos, sempre próximos a grandes estruturas geológicas, em falhas, quebras, rupturas de rochas, formados em momentos distintos, embora muito parecidos. O conhecimento das características das rochas hospedeiras desses depósitos pode certamente guiar a prospecção utilizada pela indústria mineral”.

Publicação Tese: “Geocronologia U-Pb e Re-Os aplicada à evolução metalogenética do Cinturão Sul do Cobre da Província Mineral de Carajás” Autora: Carolina Penteado Natividade Moreto Orientadora: Lena Virginia Soares Monteiro Coorientador: Roberto Perez Xavier Unidade: Instituto de Geociências (IG)


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Campinas, 4 a 10 de novembro de 2013 Fotos: Divulgação/ Reprodução

Caricatura de Aluísio Azevedo na primeira página do periódico A Semana, em 1886 (Fonte: Hemeroteca Digital Brasileira)

Caricatura retratando Émile Zola, um dos principais autores do naturalismo francês, como “O rei dos porcos”

A exposição das chagas e a cura dos males sociais o final dos programas Quem tem medo de música clássica, clássica que apresentava na TV Senado, o exsenador Artur da Távola, falecido em 2008, dizia: “Música é vida interior, e quem tem vida interior jamais padecerá de solidão”. Certamente o mesmo se pode dizer da boa literatura e do cultivo dos clássicos de todas as épocas. Essas evocações emergem quando se conversa com Leandro Thomaz de Almeida sobre sua tese de doutorado, apresentada ao Departamento de Teoria e História Literária do Instituto de Estudos de Linguagem (IEL) da Unicamp, orientada pela professora Márcia Azevedo de Abreu, que versa sobre literatura naturalista, moralidade e natureza. A abordagem é cara aos que se interessam pelo resgate da aventura intelectual do homem, que permite entender o passado e explicar o presente, contribuindo para o enriquecimento do intelecto. Apoiado por bolsas da Fapesp e da Capes, ele realizou, durante quatro anos, um doutorado sanduíche, permanecendo um ano na Université Sorbonne Paris III, sob orientação do professor Alain Pagès. Nesses estudos, procurou resgatar os critérios de recepção crítica dos romances naturalistas publicados na França e no Brasil no final do século XIX. Almeida pretendia também compreender dois momentos da crítica sobre os romances naturalistas nesses países: a contemporânea a eles e a decorrente das visões do século XX, que não obedecem aos mesmos critérios. A propósito, o autor cita Lucien Febvre, em epígrafe inicial da publicação: “Cada época fabrica mentalmente seu universo (...) De maneira semelhante, cada época fabrica mentalmente sua representação do passado histórico.” Com efeito, o naturalismo precisa ser visto dentro do contexto de uma época, na qual, se visualizava tanto o positivismo de Augusto Comte e a seleção natural de Charles Darwin, quanto ganhava espaço a experimentação no estudo dos fenômenos naturais. Consolidava-se o cientificismo, baseado na observação e na experimentação, frente a explicações filosóficas ou religiosas para os fenômenos da natureza. Razões científicas deviam explicar os fenômenos sociais. Na literatura, o naturalismo defendia um romance que se ativesse a descrever o comportamento dos personagens colocados em determinadas situações. A esta proposta está subjacente o experimentalismo. Para Émile Zola, o romance naturalista mostra sintonia com os métodos de experimentação científica ao descrever o que se observa através do comportamento dos personagens colocados em determinado meio. Ele opera uma distinção em relação ao cenário predominante no romantismo, no qual a preocupação moral impunha aos romances o ideal de castigar o vício e premiar a virtude, pois se acreditava que o romance influenciava o leitor. Ele podia fomentar a virtude ou estimular o vício, o que determinava, em grande medida, a avaliação de sua qualidade. Essa preocupação moral também permeava as críticas ao naturalismo no século XIX, de certa forma, compreensível em uma época em que se lia muito e os romances de sucesso dominavam os encontros sociais, a exemplo das novelas hoje. Visconde de Taunay, literato brasileiro da época, baseado nessa moralidade, critica veementemente Émile Zola, con-

siderando que seus romances muito bem escritos e elaborados utilizam uma linguagem sedutora para deseducar o leitor. Seria o caso de Nana, uma das obras mais famosas do escritor francês, que relata a vida de uma prostituta de luxo. Na mesma época, críticos como Urbano Duarte concordam com a importância da questão moral, embora se coloquem contra os romances de meados do século XIX em cujos enredos o vício era castigado e a virtude premiada de maneira considerada artificial.

DIFERENÇAS Em suas elaborações teóricas, Zola defende que à moralidade se chega com a exposição da verdade e não maquiando a realidade por meio de enredos distorcidos. Apropriam-se dessas ideias escritores brasileiros como Aluísio Azevedo e Júlio Ribeiro, que, como Zola, também se viram às voltas com acusações de imoralidade. A estratégia de defesa era a mesma: não somos imorais, moralizamos pela exposição da verdade. Revelar a verdade como ela é, mostrar a sociedade com todos os seus vícios e defeitos seria o primeiro passo para sua cura. Daí a exploração nos romances naturalistas das cenas de sexo, da vida nas classes mais baixas, da exposição da homossexualidade na Marinha, como em Bom-crioulo, de Adolfo Caminha. Para Leandro, a questão da moralidade constitui a grande diferença entre as críticas dos séculos XIX e XX. Neste último período, a questão moralizante não está posta e não se pergunta se determinada literatura contribui para a moral ou para a perversão de costumes. As críticas dessas duas épocas partem de critérios diferentes, inseridos em e decorrentes de realidades diversas. No século XX, as preocupações são principalmente de ordem formal e procuram relacionar o romance com a sociedade do seu tempo. Em relação à questão formal, o naturalismo é acusado pelos críticos mais moralistas de que o narrador se exime de fazer um julgamento de valores das ações que descreve, Leandro Thomaz de Almeida, autor da tese: “Procurei mostrar que o naturalismo se apropria e transforma discussões artísticas fundamentais”

EMBATES Ao recuperar os debates na França e no Brasil à época do surgimento do naturalismo, o pesquisador se dá conta da importância de resgatar o conceito de natureza para fundamentar as críticas do século XIX. Trata-se de uma questão colocada desde há muitos séculos, mas que recebeu desdobramentos decisivos no século XVIII: qual o papel da arte? A resposta, representar a natureza, suscitava outra pergunta: qual natureza? Duas correntes são perceptíveis. Uma afirma que toda natureza pode servir de tema à arte. A prevalecente, contudo, defende a ideia de que a arte deve se ocupar apenas da bela natureza. Mas afinal, o que é a bela natureza? A bela natureza é aquela já amainada, escoimada, dos contornos mais repugnantes. É a natureza selecionada. A natureza digna de comparecer na arte é aquela que passa pelo crivo do artista. Desta ideia, que ainda perdura no século XIX, surge o embate entre naturalistas e seus críticos. Os naturalistas defendem que o papel que cabe ao romance é o de descrever toda a natureza, o que seus críticos rebatem dizendo que a arte não pode ser rebaixada, mas reservar-se à bela natureza, aquela desvestida dos seus aspectos repugnantes. O autor então recupera as críticas que se faz ao naturalismo com base no uso que se deve fazer da arte. Mostra e mobiliza elementos teóricos e práticos para apresentar, ao final do trabalho, uma proposta de leitura de três romances brasileiros do final do século XIX: A carne, de Júlio Ribeiro; Bom-crioulo, de Adolfo Caminha; e Livro de uma sogra, de Aluísio de Azevedo. São analisadas então as razões das ambientações dos romances, a verossimilhança dos personagens, a coerência dos seus comportamentos em relação aos ambientes em que são situados e as discussões suscitadas pela crítica. Na França, berço do naturalismo, o pesquisador procurou compreender como o movimento foi recebido pela crítica da época e as bases teóricas defendidas por Zola, seu expoente maior, que lhe permitiram estabelecer relações com a apropriação que lhe fizeram escritores brasileiros. Ele parte do pressuposto teórico de que é importante conhecer os debates postos nos contextos da época. Ao correlacionar o naturalismo entre os dois países, ele conclui que não é adequado falar meramente em termos de influência e influenciado, matriz e cópia: “Ocorreu uma apropriação. Os escritores brasileiros se apropriam, mas não são copistas do que fazia Zola. Incorporam seus parâmetros e os utilizam segundo suas concepções. Foi possível observar também uma simultaneidade de ideias entre a crítica brasileira e francesa”.

CONTEXTO Sobre a abordagem adotada, o autor destaca a importância de analisar o naturalismo à luz da moralidade, não levada em conta pela crítica realizada no século XX. E mais, que o naturalismo não é movimento isolado na história da literatura. “Procurei mostrar que o naturalismo se apropria e transforma discussões artísticas fundamentais, que remetem não apenas ao século XIX, mas também ao XVIII e, consideradas as devidas diferenças, até a Aristóteles”, diz ele. Para Leandro, todos esses elementos enriquecem a compreensão do naturalismo, que fica prejudicada ao considerá-lo, como comumente se faz, apenas à luz da influência do temperamento e do meio na construção de enredos e personagens. Esse reducionismo diz pouco sobre o movimento que é muito mais vasto. A concepção do trabalho se completa com a afirmação de que “a literatura enquanto produto cultural não é indiferente às construções próprias do momento de sua produção, exigindo a compreensão de suas injunções históricas”.

Publicação

Foto: Antonio Scarpinetti

CARMO GALLO NETTO carmo@reitoria.unicamp.br

reprovando-as ou elogiando-as. Os naturalistas defendemse afirmando que o narrador que se exime de emitir juízo sobre seus personagens e sobre as ações narradas está se limitando apenas a expor o que observa. Não existe, portanto, somente a preocupação com a construção formal mas, também, com os resultados que ela pode gerar. Segundo a tese “os autores do século XIX não podem ser analisados apenas em relação às suas características formais sem compromissos externos em relação a si mesmos”. Para o pesquisador, o resgate da questão moral no XIX é muito importante até para compreender a própria feição dos romances. Considera anacrônica a acusação, própria de algumas posturas críticas do XX, de que o naturalismo, por defender uma exposição objetiva da “realidade”, apresente uma espécie de “ideologia”, que deveria ser substituída por romances capazes de apresentar algum tipo de gesto autorreflexivo sobre o próprio fazer romanesco. Como acusar o romance naturalista, que se pretende objetivo, de ideológico, se era a impressão de objetividade que se pretendia alcançar com o romance nesses finais de século XIX? Hoje se sabe que ela não é atingível, porque toda a exposição da realidade constitui um recorte, uma seleção, uma escolha. Almejava-se, contudo, o efeito de verossimilhança. O próprio Zola reconhece isso claramente ao dizer que o romance é uma porção da natureza vista através de um temperamento.

Tese: “Literatura naturalista, moralidade e natureza” Autor: Leandro Thomaz de Almeida Orientadora: Márcia Azevedo de Abreu Unidade: Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) Financiamento: Capes e Fapesp


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