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Campinas, 28 de outubro a 3 de novembro de 2013 - ANO XXVII - Nº 581 - DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

IMPRESSO ESPECIAL

9.91.22.9744-6-DR/SPI Unicamp/DGA

CORREIOS

FECHAMENTO AUTORIZADO PODE SER ABERTO PELA ECT Imagem: Luca D’Acci

3 Equações projetam uma vida melhor em metrópoles 4 5 6 e7 Fragilidade ambiental Por que Cálculo 1 é pesadelo para alunos? Métodos detectam trincas em aviões

coloca em risco biomas em duas unidades de preservação

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Eficácia da autogestão é avaliada em dissertação Muitos retratos de Dorian Gray

Excertos de estudos feitos pelo arquiteto e engenheiro Luca D’Acci, cuja pesquisa desenvolvida na Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo usa equações matemáticas que mensuram o nível de qualidade urbana. D’Acci leva em conta fatores como sustentabilidade, ecologia e bem-estar psicológico dos moradores. Seu trabalho foi citado em artigos pela Agência Espacial Americana (Nasa) e pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT Technology Review).


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Campinas, 28 de outubro a 3 de novembro de 2013

Hemocentro comemora 20 anos de transplantes de medula óssea CAIUS LUCILIUS Especial para o JU

á 20 anos, o Brasil discutia entre acadêmicos e membros da equipe econômica do governo Itamar Franco, propostas para combater a inflação – de 206% ao mês – através de choques heterodoxos. As altas taxas de inflação, que marcaram o ano de 1993, levaram o governo a editar a medida provisória que criou o Cruzeiro Real e um ano depois seria transformado em Real. A inflação (IPCA) despencou em 1993 de 2.477,15% para 916,46% (94), e para 22,41% em 1995. Nesta mesma data, acontecia no Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp, o primeiro transplante de medula óssea do interior do Estado, em uma paciente com diagnóstico de leucemia mielóide crônica (LMC). Como boa parte dos componentes laboratoriais e medicamentos eram importados, a instituição enfrentava, ainda, o desafio de vencer uma inflação diária para salvar vidas. A primeira paciente faleceu alguns meses depois, mas Severina Gomes, a segunda pessoa transplantada, conseguiu vencer uma anemia aplásica depois de uma doação do irmão. Hoje, aos 57 anos, leva uma vida normal. Exatos 20 anos depois, a enfermeira Maria Aparecida dos Santos recebeu alta do HC da Unicamp após um transplante bem-sucedido. Foram 14 anos, depois do diagnóstico de leucemia mielóide crônica, aguardando um doador compatível não aparentado. Apesar de o Brasil ser hoje o terceiro maior banco de doadores do mundo, com 3 milhões de pessoas, ainda é um desafio o baixo número de doadores compatíveis. Até agora, o Hemocentro da Unicamp realizou 1.122 transplantes (740 transplantes alogênicos e 382 autólogos). “É um casamento indissolúvel pelo resto da vida”, diz Afonso Vigorito, coordenador do serviço de transplantes de células-tronco hematopoéticas (TCTH) - denominado genericamente de transplante de medula óssea, se referindo ao transplantado que precisa de um acompanhamento constante da equipe médica. O transplante de medula e de células-tronco sanguíneas aumentou a taxa de sobrevivência para alguns tipos de câncer hematológico para 90%. Antes, as chances de cura beiravam zero. Para a coordenadora do Hemocentro da Unicamp, Sara Saad, as equipes do Hemocentro e do HC da Unicamp desenvolveram uma larga experiência na estruturação do grupo multidisciplinar com médicos e enfermeiros, treinados no Brasil e no exterior. “Nosso centro está entre os melhores

Foto: Divulgação

Pioneira no Interior, unidade da Unicamp atingiu a marca de 1.122 procedimentos da América do Sul em pesquisa científica e atendimento”, enfatiza Saad. Nesse período, foram 31 teses de mestrado, 20 de doutorado e quatro de pós-doutorado relacionados aos transplantes de células-tronco hematopoéticas. A produção científica se completa com 58 trabalhos publicados em revistas internacionais indexadas. Trinta e quatro anos após a realização do primeiro transplante no Brasil, realizado pelo professor Ricardo Pasquini, em Curitiba, existem no país mais de 40 centros, concentrados principalmente nas regiões Sul e Sudeste. São Paulo é o Estado com o maior número de procedimentos ao ano, cerca de 45% do total. No mundo todo são cerca de 60 mil transplantes feitos todos os anos. De acordo com Cármino Antônio de Souza, que foi o responsável pela criação da unidade na Unicamp, o serviço de transplantes de células-tronco hematopoéticas começou a ser planejado em 1991, a partir do momento em que o Hemocentro estava preparado para a área assistencial e com o laboratório de HLA montado. Segundo ele, a estruturação da unidade na Universidade custou, na época, cerca de U$S 250 mil financiados pela Secretaria de Estado da Saúde. “Esse valor correspondia a um transplante realizado nos Estados Unidos”, recorda. No entender do médico Afonso Vigorito, a limitação nos transplantes na Unicamp é estrutural, pois desde o início atua com um módulo hospitalar com sete apartamentos e nove leitos no quarto andar do Hospital de Clínicas. Só para lembrar, diz o hematologista, hoje a Unicamp realiza mais transplantes em leucemias agudas, procedimento habitualmente mais oneroso e de maior permanência hospitalar do que há 20 anos. “Além disso, ocorreu uma importante modificação no cenário dos transplantes com a implantação de novas técnicas, como o transplante de intensidade reduzida e a utilização de novas fontes como o sangue de cordão umbilical e de célula-tronco do sangue periférico”. Foi aí que a ideia de montar um hospital hemoterápico e hematológico tornouse mais concreta. Ao longo dos anos, o Hemocentro desenvolveu um projeto de

A enfermeira Maria Aparecida dos Santos: alta após transplante feito no HC

construção de sua unidade de assistência ambulatorial e hospitalar, que vai triplicar o número de leitos aos pacientes hematológicos e para os transplantes. A área e as fundações estão prontas e o custo total para conclusão da obra é de cerca de R$ 35 milhões. Para que se realize um transplante de medula é necessário que haja total compatibilidade tecidual entre doador e receptor, caso contrário, as células transplantadas podem iniciar um processo de rejeição ao receptor. Esta compatibilidade tecidual (histocompatibilidade) é determinada por um conjunto de genes localizados no cromossomo 6 – que contém genes ligados à defesa do corpo contra bactérias e vírus – por isso, devem ser iguais entre doador e receptor. Esta análise é realizada em testes laboratoriais específicos a partir de amostras de sangue de doador e receptor, chamados de exames de histocompatibilidade (HLA). Com base nas leis de genética, as chances de um indivíduo encontrar um doador ideal entre irmãos (mesmo pai e mesma mãe) são de 35%. Quando não há um doador aparentado (um irmão ou outro parente próximo) disponível, como foi o caso de Maria Aparecida dos Santos, a solução é procurar um doador compatível entre os grupos étnicos semelhantes. Desta forma, surgiram os primeiros Registros de Doadores de Medula, em que voluntários de todo o mundo são cadastrados e consultados para pacientes de todo o planeta. Hoje, já existem mais de 20 milhões de doadores nos registros mundiais. Fotos: Antonio Scarpinetti

A coordenadora do Hemocentro, Sara Saad: “Nosso centro está entre os melhores da América do Sul em pesquisa científica e atendimento”

Cármino Antônio de Souza, responsável pela criação do Hemocentro da Unicamp: serviço de transplantes começou a ser planejado em 1991

Afonso Vigorito enfatiza que o Hemocentro da Unicamp, através do serviço de TCTH, definiu uma linha de investigação local e internacional muito relevante em que o grupo foi associado ao European Bone Marrow Transplantation Group e pelo Registro Internacional de TMO (CIBMTR). “Estes registros têm como objetivo avaliar, em reuniões anuais, os resultados dos transplantes no mundo e discutir o aperfeiçoamento do procedimento”, ressalta Vigorito. Novas tecnologias de laboratórios empregadas em serviços na Europa e nos Estados Unidos, como exames de quimerismo – STR, PCR quantitativo para diagnóstico de infecção viral e PCR quantitativo para monitoramento da LMC, são disponibilizadas pela Unicamp mesmo sem a cobertura do SUS. “Olhar o passado nos permite um diagnóstico mais aproximado do futuro. Tudo isso faz do Hemocentro da Unicamp uma instituição fundamental para o sistema público de saúde e para formação de profissionais qualificados”, afirma Sara Saad.

MEDULA

ÓSSEA

Um tecido líquido-gelatinoso que ocupa o interior dos ossos, sendo conhecida popularmente por “tutano”. Na medula óssea são produzidos os componentes do sangue: as hemácias (glóbulos vermelhos), os leucócitos (glóbulos brancos) e as plaquetas. As hemácias transportam o oxigênio dos pulmões para as células de todo o nosso organismo e o gás carbônico das células para os pulmões, a fim de ser expirado. Os leucócitos são os agentes mais importantes do sistema de defesa do nosso organismo. O médico E. Donnall Thomas, pioneiro no uso de transplante de medula óssea para tratar pacientes com leucemia e ganhador do Nobel de medicina em 1990, fez os primeiros transplantes na década de 60 e, em 1970, publicou o primeiro trabalho relatando um grande número de transplantes. Ele morreu no ano passado, em Seattle, nos EUA, aos 92 anos. No transplante autólogo, utiliza-se a célula-tronco do próprio paciente, que é retirada após um processo de mobilização, para ser recolocada depois de uma quimioterapia de alta dose. Com este processo, espera-se destruir o tumor alvo do procedimento e restaurar o sistema imunológico e sanguíneo do paciente. Já no transplante alogênico, os médicos utilizam células de irmãos ou dos bancos públicos.

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Campinas, 28 de outubro a 3 de novembro de 2013

A matemática e

o teatro da vida real

Foto: Antonio Scarpinetti

Região central de Campinas, uma das cidades pesquisadas pelo autor do estudo: ampla visão dos fenômenos urbanos

MANUEL ALVES FILHO manuel@reitoria.unicamp.br

ma maneira tradicional de se avaliar a qualidade de vida no meio urbano é considerar os indicadores econômicos a ele relacionados. Embora sejam muito importantes, esses dados não dão conta, sozinhos, de analisar um sistema tão complexo como uma cidade, principalmente quando ela apresenta grandes dimensões. Pensando nisso, o arquiteto e engenheiro Luca D’Acci desenvolveu algumas equações matemáticas capazes de mensurar o nível de qualidade urbana que contempla fatores complementares como sustentabilidade, ecologia e bem-estar psicológico dos moradores, entre outros. Assim, o pesquisador chegou a uma ferramenta capaz de personalizar a visão sobre um dado espaço. A proposição tem tido significativa repercussão no meio científico, tendo sido citada em artigos, por exemplo, pela Agência Espacial Americana (Nasa) e pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT Technology Review). D’Acci realizou os estudos de pós-doutorado na Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC) da Unicamp, sob a supervisão do professor Leandro Medrano. Recentemente, ele atuou como pesquisador assistente na University of Strathclyde, em Glasgow (Escócia), onde deu sequência às abordagens relacionadas à temática. De acordo com ele, a avaliação da qualidade de vida urbana tem recebido cada vez mais atenção, tanto dentro quanto fora da academia. O pesquisador, que nasceu na Itália, explica que o método convencional de se aferir os atributos de uma cidade, baseado principalmente nos indicadores econômicos, que são essenciais para gerar bem-estar, tem sido insuficiente para tratar de um assunto tão complexo. “Por isso têm surgido inúmeros artigos sugerindo novas formas de se pensar e avaliar as cidades, que incorporam pontos como memórias e gostos e necessidades pessoais dos moradores”, diz. A proposta formulada por D’Acci está baseada em conceitos advindos de modelos urbanos gravitacionais e, em alguns aspectos, modelos de interação espacial, bem como nas equações exponenciais de acessibilidade. Embora esses termos possam soar demasiadamente complicados aos leigos, o arquiteto garante que a equação é relativamente simples de ser entendida.

“O que eu tentei fazer foi construir uma fórmula matemática que permitisse considerar cada aspecto capaz de contribuir para o prazer da vida urbana. Tal fórmula, ainda que estática e redutora, favorece usos mais elaborados. Um deles é justamente a possibilidade de personalizar a visão sobre a cidade, que muda de uma pessoa para outra ou até mesmo conforme as variações de humor do observador”, detalha. Em resumo, segundo D’Acci, a equação é uma ferramenta quantitativa que promove medições pessoais de fatores qualitativos. “Cada aspecto que pode oferecer uma sensação de prazer na vida dos cidadãos – seja ela diária ou ocasional – é levado em consideração pela fórmula. Ao final, o que se obtém é uma representação numérica daquilo que as pessoas dizem ou demonstram gostar”, acrescenta. Esse instrumento, reconhece o pesquisador, pode não ser de grande utilidade no caso de dimensões urbanas muito pequenas, visto que a decisão quanto a morar neste ou naquele lugar não requer uma avaliação tão pormenorizada. “Entretanto, a ferramenta pode ser especialmente útil quando pensamos em grandes ou megacidades. Nesse caso, os

inúmeros pontos a serem considerados e as suas mútuas influências podem exigir uma capacidade de análise altamente complexa, o que é facilitado pela simulação”, pondera. Questionado sobre a viabilidade de a equação matemática contribuir para a formulação de políticas públicas voltadas ao planejamento urbano, D’Acci responde que essa é uma aplicação possível. De acordo com ele, uma cidade pode ser entendida como um jogo de xadrez, no qual as peças são representadas por áreas de lazer, vias, prédios, equipamentos públicos etc. Nesse caso, as peças ganham ou perdem proeminência de acordo com o uso e o posicionamento que os jogadores [no caso, os moradores, os investidores, os planejadores urbanos, etc.] fazem delas. “Por suas características, o instrumento proposto pode ajudar nos processos decisórios de políticas urbanas, principalmente em relação a grandes ou megacidades, visto que ele considera fenômenos ligados à qualidade de vida urbana – valor de propriedade, índice de criminalidade, atratividade econômica de áreas de investimentos etc – que não seriam facilmente manipulados sem esse tipo de recurso”, reforça o pesquisador. Foto: Divulgação

Luca D’Acci, autor da proposta: “O que eu tentei fazer foi construir uma fórmula matemática que permitisse considerar cada aspecto capaz de contribuir para o prazer da vida urbana”

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Arquiteto desenvolveu equações para medir fatores que conferem qualidade à vida no meio urbano CONVITES D’Acci revela que está trabalhando atualmente com um especialista de renome internacional em simulação baseada em agente, o professor Pietro Terna, da Universidade de Turim, na Itália. O objetivo da cooperação é formular um modelo que simule o “jogo” compreendido pelo planejamento urbano e os fenômenos que emergem das ações individuais dos moradores. “Além disso, alguns processos relacionados ao planejamento urbano que venho estudando deverão ter continuidade no Programa de Pós-graduação em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade da Universidade Federal de Sana Catarina [UFSC], onde tive a honra de ganhar uma vaga de professor visitante”, informa. Paralelamente, o arquiteto está executando um trabalho com o professor Pierluigi Morano, do Politecnico de Bari, na Itália, baseado em algumas das suas proposições. Nesse caso, a dupla de cientistas está orientando um grupo de estudantes de pós-graduação com o objetivo de propor às autoridades locais uma ferramenta para auxiliar no planejamento urbano da cidade, levando em conta as transformações pelas quais ela deverá passar nos próximos anos. Graças à qualidade e à repercussão internacional do seu trabalho, D’Acci tem recebido vários convites profissionais de diferentes instituições de ensino e pesquisa, como ele mesmo revela. Um deles partiu de uma universidade da China, para apresentar, em uma palestra, o seu conceito de Isobeneft Cities como proposta de um modelo alternativo das megacidades do futuro. “Além desta universidade chinesa, outra importante instituição daquele país me ofereceu uma vaga para analisar o desenvolvimento econômico, social e urbano das antigas aldeias do país”. Embora alguns dos estudos conduzidos pelo arquiteto estejam fundados em métricas e simulações matemáticas, ele faz questão de ressaltar que esse tipo de ferramenta deve ser considerado como um suporte para a tomada de decisões que possam afetar o design das cidades, definidas poeticamente por ele como “teatros em que recitamos nossas vidas”. “Instrumentos dessa ordem jamais poderão substituir o julgamento humano, que é o resultado de uma mistura holística da história com o espírito do local”, sustenta.

BRASIL A experiência obtida com a realização do pós-doutorado na Unicamp foi enriquecedora tanto do ponto de vista profissional quanto pessoal, de acordo com D’Acci. No período em que esteve no Brasil, ele teve a oportunidade de travar contato com pesquisadores de outros Estados, bem como de estudar, in loco, cidades como Brasília, São Paulo, Belém, Florianópolis, Campinas etc. “Minha passagem pela Unicamp foi valiosa. Aí encontrei professores e estudantes desafiadores e um clima que valoriza o espírito livre e o progresso científico. A Universidade abriga uma interessante comunidade multidisciplinar. Poucos metros separam laboratórios avançados de química, matemática e computação dos de música, dança e filosofia. E tudo isso dentro de um campus poliédrico com muito verde e no qual ocorrem diversos eventos culturais”, relembra o pesquisador. O arquiteto faz uma referência especial ao professor Leandro Medrano, com quem teve a oportunidade de aprender e também de refletir sobre diferentes aspectos de algumas cidades brasileiras. “O que está em um livro não muda. Tanto faz você lê-lo no Japão, na França ou na Venezuela. O que pode mudar é a situação em que a obra é lida. E a situação que eu experimentei em meu tempo de Unicamp deu um valor e um sabor especial ao aprendizado, que vou levar comigo para sempre. Além disso, ter visitado as cidades brasileiras, bem como as anglo-americanas e australianas, muitas delas diferentes das europeias, me deu uma visão mais ampla para vários aspectos relacionados aos fenômenos urbanos”, considera.


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Disciplina com alto índice de reprovação é tema de pesquisa Tese da FE analisa impactos das práticas pedagógicas adotadas por docentes de Cálculo I PAULO CESAR NASCIMENTO pcncom@bol.com.br

m tese de doutorado defendida na Faculdade de Educação (FE) da Unicamp, a pedagoga Fabiana Colombo Garzella debruçouse sobre um pesadelo dos estudantes ingressantes no ensino superior: a disciplina de Cálculo I. No estudo orientado pelo professor Sérgio Antônio da Silva Leite, ela analisou os impactos das práticas pedagógicas adotadas por docentes da disciplina – cuja alta taxa de reprovação é notória – no processo de ensino-aprendizagem e na vida acadêmica e pessoal dos alunos. O fenômeno ocorre de maneira indiscriminada nas instituições e responde pela oferta de um número crescente de turmas por semestre, na tentativa de atender os reprovados; por atrasos na conclusão dos cursos e ainda por elevado número de evasões da disciplina e, consequentemente, da universidade. Embora reconheça o perfil multifacetado do problema, pois engloba também outros aspectos da vida acadêmica e pessoal do calouro, Fabiana observa, amparada nos resultados de sua pesquisa, que as formas de organização da disciplina e a qualidade da mediação desenvolvida pelo professor em sala de aula são fortes determinantes do aproveitamento insatisfatório de parcela significativa de alunos, sendo que os impactos afetivos dessa experiência são marcadamente negativos em suas vidas acadêmicas. Além de situações próprias da dinâmica do ingresso na universidade que interferem no emocional do estudante, como a mudança para um ambiente distante da família, a busca por uma nova moradia, a convivência com novas pessoas, a diferença da natureza dos assuntos estudados em relação ao ensino médio, entre outros, constatam-se na estruturação da disciplina de Cálculo I componentes que dificultam a sua aprendizagem por parte do aluno ingressante, argumenta Fabiana. “Há um sistema pré-estabelecido ao qual o aluno precisa se adaptar, se inserir, como um ritual de passagem. Quem não for capaz de cumprir etapas estabelecidas pela coordenação da disciplina, provavelmente, será reprovado”, afirma ela na tese “A disciplina de Cálculo I: a análise das relações entre as práticas pedagógicas do professor e seus impactos nos alunos”.

PRODUÇÃO INDUSTRIAL

Durante o processo de coleta de dados, Fabiana assistiu às aulas de um semestre letivo inteiro de Cálculo I como observadora; conversou com docentes e alunos; e levantou um histórico de doze anos (1997 a 2009) de informações relativas à disciplina que per-

mitiram constatar taxas de até 77,5%, que incluem reprovação e evasão dos estudantes. Entre os fatores determinantes para esse quadro, a pesquisa relaciona o grande número de alunos por turma, impedindo que necessidades particulares de determinados grupos de alunos sejam atendidas. No caso do semestre observado, existiam 30 turmas da disciplina, com média de 40 alunos cada. Três turmas eram agrupadas em uma sala de aula, totalizando aproximadamente 150 alunos. No conjunto, havia 10 salas composta por três turmas, cada uma com um professor responsável. A presença de Cálculo I no primeiro semestre dos cursos, dividindo espaço com outras disciplinas que já demandam o conhecimento acerca da área – como Física I, por exemplo; a incoerência entre o que se estuda nas aulas e o que é cobrado nas provas; a ruptura entre a Matemática do ensino médio e a do ensino superior e a grande quantidade de conteúdos previstos por semestre foram outros fatores identificados. Os resultados do trabalho mostram que a disciplina de Cálculo I, na universidade pesquisada, é planejada e desenvolvida de forma rígida e inflexível, exigindo que todos os alunos e professores se adaptem igualmente às condições estabelecidas. Tal situação é comparada pela autora a um processo de produção industrial, em que as etapas estabelecidas devem ser cumpridas rigidamente por todos os atores, independentemente de seus diferentes ritmos de aprendizagem e diferentes repertórios iniciais. Além disso, salienta Fabiana, situações vivenciadas pelos alunos com os professores e suas práticas pedagógicas em sala de aula demonstram exercer papel fundamental na compreensão e assimilação da disciplina. “É possível assumir que o sucesso do aluno na aprendizagem dos conteúdos de Cálculo I depende, em grande parte, da qualidade da mediação desenvolvida em sala de aula pelo professor”, aponta a pedagoga.

RELAÇÃO AFETIVA

A definição do tema da pesquisa foi fomentada pelas vivências anteriores de Fabiana na graduação e no mestrado com estudos acerca das práticas pedagógicas nos diferentes níveis de ensino (educação infantil e ensino fundamental), além de outros estudos de pesquisadores do Grupo do Afeto – integrante do Grupo de Pesquisa Alle (Alfabetização, Leitura e Escrita) da FE –, que contemplaram os mesmos níveis de ensino e, ainda, o ensino médio e cursos pré-vestibulares. Também decorreu de contatos com profissionais da área que apontavam para a demanda de um estudo específico sobre a disciplina de Cálculo I no ensino superior.

Em seu estudo, o relacionamento professor-aluno também foi identificado como um elemento de impacto no grupo discente, uma vez que foi possível identificar movimentos de aproximação e afastamento dos alunos em relação aos conteúdos, a partir da forma como se relacionam com o professor. Os achados de Fabiana confirmam dados anteriormente observados por pesquisadores do Grupo do Afeto. Com enfoque na análise da dimensão afetiva das práticas pedagógicas, trabalhos do grupo têm demonstrado resultados que sugerem que a afetividade e a inteligência são funções inter-relacionadas e determinantes para o desenvolvimento do indivíduo, atuando na aprendizagem, favorecendo a relação sujeito (aluno) e objeto de conhecimento (conteúdos escolares). “A afetividade, no contexto em que se inserem esses estudos, não se refere apenas ao relacionamento interpessoal entre professor e aluno. Trata-se de uma relação subjetiva capaz de produzir aproximação ou afastamento entre o sujeito que aprende e o objeto do conhecimento, contribuindo para que a experiência do aluno com a disciplina seja ou não positiva”, esclarece Sérgio Leite. “Esse processo é profundamente influenciado pela mediação exercida pelo professor, pois em sua prática pedagógica o aluno identifica se ele é um docente comprometido com a sua aprendizagem.” Segundo o orientador de Fabiana, um exemplo clássico de uma situação em que o aluno enxerga a preocupação com seu bom desempenho na matéria é quando, em uma avaliação, o professor afere a assimilação de conteúdo em função daquilo que foi desenvolvido em sala de aula, e não por meio das famigeradas “pegadinhas”.

EQUÍVOCOS De acordo com ele, a sustentação teórica para estudos como o de Fabiana vem de uma visão mais integrada do ser humano proporcionada pela Psicologia, em que a crença na existência de uma inter-relação de aspectos afetivos e cognitivos torna-se fundamental para a compreensão do processo de construção do conhecimento. Na área educacional, isso inclui, além dos conteúdos das disciplinas, a forma através da qual o professor os ensina. “Como condutor do processo de ensino e aprendizagem, o professor pode facilitar ou dificultar para o aluno a apropriação do conhecimento. Uma série de providências que ele toma na sua organização de ensino vai ter impactos na aprendizagem. Desse modo, a prática pedagógica é percebida como um dos principais determinantes do sucesso ou fracasso de uma disciplina na vida escolar do Foto: Antoninho Perri

aluno. E ter sucesso não é só contribuir para que o aluno faça uma boa prova, mas no mínimo levá-lo a gostar daquilo que está estudando”, salienta o educador. Por isso, argumenta, é equivocado o entendimento de ensino e aprendizagem como processos independentes, nos quais ensinar cabe ao professor e aprender é obrigação do aluno. Esse falso conceito, segundo ele, respalda um modelo tradicional de avaliação predominante no cenário educacional que estabelece um ranking entre os alunos, na qual se utilizam os seus dados para separar “os que sabem e os que não sabem”; no final do processo, a responsabilidade é centrada, prioritariamente, no aluno, principalmente, nos casos de fracasso. “Infelizmente ainda predomina a ideia entre muitos docentes que o ensino é certo, o aluno é que está errado. Não passa pela cabeça dos que adotam essa postura que determinados arranjos no plano de ensino podem melhorar as condições de aprendizagem para os alunos. O argumento é que mudar o modelo vigente seria baixar o nível de ensino na universidade”, lamenta Sérgio. Outra marca do pensamento pedagógico tradicional é a crença equivocada de que o aluno já chega pronto à universidade, aponta Sérgio, citando estudos do educador Cipriano Carlos Luckesi, referência em avaliação da aprendizagem escolar no Brasil. “O processo de aprendizado de conteúdos complexos, como aqueles de Cálculo I, exige fundamentalmente o domínio de uma série de conhecimentos básicos. No ensino superior, entretanto, parte-se do falso pressuposto de que, se passou no vestibular, o aluno tem todos os pré-requisitos necessários para a disciplina”, critica Sérgio. “Contudo, um olhar sobre o nível de conhecimento matemático dos calouros indicaria que uma parcela detém o domínio, outra apresenta uma série de deficiências e outra sequer tem o mínimo necessário para frequentar as aulas.”

AVALIAÇÃO DIAGNÓSTICA

A expectativa de Fabiana é que sua pesquisa possa contribuir para uma reflexão sobre a prática pedagógica no ensino superior, especialmente no ensino de Cálculo I. Para ela, a atual situação da disciplina requer uma análise e uma reordenação profunda de sua estrutura e de seus modos de conduzir o processo de ensino-aprendizagem. A realização de uma avaliação diagnóstica no início do curso, cujos dados poderiam orientar o professor na decisão sobre de onde começar a disciplina, é uma das alterações que, segundo ela, poderia colaborar decisivamente para mudar o quadro desolador de reprovações e evasões. Conforme já sugerido por Luckesi, a adoção de um modelo de avaliação diagnóstica possibilita se conhecer previamente conhecimentos dominados pelos estudantes e as lacunas de aprendizagem para, a partir disso, definir o ponto de partida do processo de ensino tendo como referência o aluno. “A proposta é que o planejamento pedagógico leve em conta informações acerca de saberes já adquiridos pelos alunos, bem como aqueles ainda não conquistados e que dificultariam seu desempenho já no início da disciplina. Tal providência aumentaria as possibilidades de aprendizagem dos alunos que, apoiados em conhecimentos anteriores, teriam melhores condições para avançar na compreensão de novos saberes”, argumenta a educadora.

Publicação Tese: “A disciplina de Cálculo I: a análise das relações entre as práticas pedagógicas do professor e seus impactos nos alunos” Autora: Fabiana Colombo Garzella Orientador: Sérgio Antônio da Silva Leite Unidade: Faculdade de Educação (FE) A pedagoga Fabiana Garzella, autora da tese, e o professor Sérgio Leite, orientador: investigação mostra que disciplina é planejada e desenvolvida de forma rígida e inflexível


Campinas, 28 de outubro a 3 de novembro de 2013

Baseados na propagação de ondas, sistemas avaliam também a severidade dos problemas ISABEL GARDENAL bel@unicamp.br

detecção precoce de danos, como trincas, que aparecem em determinadas estruturas devido ao desgaste natural das peças, à lubrificação inadequada e à falta de reparos, antes de se tornarem falhas irreparáveis, são situações desafiadoras para a área de Engenharia quando a máquina se trata de uma aeronave com capacidade de sustentar, por exemplo, mais de 400 mil quilos durante um voo. O binômio trinca e falta de manutenção pode ser um ingrediente capaz de causar acidentes de maior gravidade em aviões. Mas hoje observa-se um grande interesse mundial no desenvolvimento de sistemas que permitam monitorar contínua e preventivamente a integridade dessas estruturas para evitar catástrofes e auxiliar nos procedimentos de manutenção somente quando houver necessidade de intervenção. O engenheiro eletricista Pablo Rodrigo de Souza desenvolveu em sua tese de doutorado, defendida na Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM), métodos baseados na propagação de ondas em estruturas. Eles se mostraram eficazes não apenas para detectar, mas também para localizar e avaliar a severidade dos danos. Essas ferramentas podem ser aplicadas inclusive para identificar o surgimento de trincas em diversos tipos de estruturas da área de Engenharia, incluindo aeronaves, veículos terrestres ou aquáticos e satélites. Os resultados comprovaram experimentalmente a eficácia dos métodos. Com base neles, um dos próximos passos será desenvolver um equipamento que possa ser integrado ao sistema a ser monitorado, no qual serão conectados transdutores e processadores, com vistas a detectar e realizar diagnósticos em tempo real, durante o próprio funcionamento da estrutura. Os testes para detecção e localização de trincas em placas de alumínio e em vigas, provocadas com o auxílio de um instrumento de corte, foram efetuados no Laboratório do Departamento de Mecânica Computacional (DMC) da FEM. Esse trabalho aconteceu no âmbito da linha de pesquisa “Instrumentação, processamento de sinais e monitoramento da integridade de estruturas”. As etapas de definição do posicionamento dos transdutores (a partir de um arranjo geométrico), aquisição e processamento dos sinais já foram concluídas ao longo da tese.

5 Fotos: Antonio Scarpinetti

Métodos identificam danos em estruturas de aeronaves

Avião decola em Viracopos: trinca e falta de manutenção podem causar acidentes de maior gravidade

Agora, a intenção de Pablo é integrar os diversos módulos em um único sistema, substituindo alguns equipamentos como o gerador de funções arbitrário (usado para gerar o sinal de excitação) e o osciloscópio (que faz a aquisição do sinal para ser processado) por um moderno sistema de aquisição e processamento digital de sinais.

MÉTODOS No primeiro método, os parâmetros que detectam a presença do dano e permitem que seja feita sua localização baseiam-se nas reflexões de ondas nas descontinuidades da estrutura, como bordas, trincas e furos, as quais são medidas por um arranjo multissensor. “O aparecimento do dano traz alterações no formato dos sinais medidos pelos sensores”, diz Pablo. Nesse caso, comparando os parâmetros extraídos deles na estrutura íntegra com a estrutura danificada, é possível obter uma estimativa da sua localização na região monitorada, afirma o doutorando. Dessa maneira, de acordo com o engenheiro, a aplicação do método indica o começo da formação da trinca e a necessidade de realizar a inspeção. Um segundo método emprega parâmetros extraídos dos sinais transmitidos e não mais refletidos, correspondentes à propagação das ondas através do dano, medidos pelo arranjo multissensores. Quando surge um dano entre o transdutor que está excitando a estrutura e um dos transdutores que está medindo o sinal, O engenheiro eletricista Pablo Rodrigo de Souza, sobre a trinca: “É possível detectar e determinar a sua direção dentro da região monitorada”

são esperadas alterações nas amplitudes de componentes dos sinais mensurados pelos sensores próximos ao dano, revela o autor. “Assim, é possível detectar e determinar a sua direção dentro da região monitorada.” Os métodos avaliados, conforme Pablo, podem ser usados conjunta ou isoladamente. Com eles, é possível também serem obtidos parâmetros indicativos de quão grave está o dano na estrutura. O procedimento hoje adotado pelos profissionais das companhias aéreas, encarregados da análise do estado da manutenção, reconhece os pontos críticos na aeronave e tem condições de perceber o dano com a ajuda de uma variedade de instrumentos, desde lupas a emissores acústicos, passando pelos raios X. A inspeção para eles então é, de fato, um evento de inestimável valor. Alguns aviões, por exemplo, devem ser inspecionados periodicamente ou de acordo com um sistema que possibilite sua inspeção total ao longo de determinado tempo ou de horas voadas. Normalmente, os procedimentos de manutenção são feitos em função do tempo de vida útil estimado das peças, para que haja troca das partes provavelmente afetadas. O órgão regulador de aviação do governo, a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), estipula a inspeção de toda aeronave civil a intervalos específicos, a depender do tipo de operação efetuada, com a finalidade de comprovar o seu estado de conservação. Para a segurança das aeronaves, são recomendadas inspeções obrigatórias antes de cada viagem e outras mais meticulosas a intervalos regulares por horas de voo. O pesquisador, que no seu projeto de tese teve orientação do docente da FEM Eurípedes Guilherme de Oliveira Nóbrega, escolheu o assunto pelo fato de esses sistemas de monitoramento e diagnóstico poderem detectar e prognosticar o surgimento de falhas e sua evolução, alertando contra eventos desastrosos. Também escolheu o tema porque esses sistemas auxiliam no planejamento da manutenção, otimizando o uso de recursos e diminuindo os custos. “Há hoje trabalhos que reportam estimativas do quanto a empresa pode reduzir nos custos com manutenção utilizando sistemas para o monitoramento da integridade de estruturas”, descreve ele. Em determinados tipos de manutenção, estipula-se ainda que as aeronaves permaneçam paradas por horas, quando ocorre a troca de peças que nem sempre precisariam ser substituídas naquele exato momento, apenas para cumprir a uma exigência do setor aeronáutico. Um avião que fica estacionado por essa razão, repara Pablo, pode trazer gastos desnecessários à empresa, além de prejudicar as atividades de praticamente toda equipe envolvida na operação.

APLICAÇÕES

Estruturas mecânicas encontradas em várias áreas – além da aeronáutica, também a civil, a marítima e a ferroviária – estão

sujeitas a trincas, devido ao desgaste das peças durante seu funcionamento. Segundo o autor do trabalho, nenhum material é isento de defeitos, os quais tendem a evoluir tornando-se grandes danos, isso desde a fabricação, passando pela montagem, pela operação e pela manutenção. Quando uma chapa de fuselagem é furada para fixar um simples rebite (fixador mecânico metálico), exemplifica o doutorando, ela pode formar uma trinca minúscula, aparecendo em qualquer espécie de material por conta do esforço e fadiga. A trinca pode surgir em estruturas lineares como trilhos de trem, cascos de navios, estruturas de pontes, etc. “Uma trinca mais profunda é suficiente para ocasionar o descarrilamento de um trem ou mesmo a submersão de um navio”, avisa o pesquisador. O seu estudo teria inclusive uma aplicação real e oportuna na área de monitoramento da integridade de pontes, por haver inúmeras dessas estruturas espalhadas pelo mundo e novas pontes sendo construídas, que deveriam incluir sempre sistemas integrados de monitoramento. Logo, durante sua projeção, as pontes embutiriam os transdutores necessários para medir os sinais e uma série de equipamentos para implantar o sistema de monitoramento da sua integridade. Via de regra, comporiam esses sistemas um gerador de funções arbitrárias, para criar o sinal de excitação; técnicas de processamento de sinais, porque habitualmente eles são corrompidos por ruídos naturais do ambiente; e metodologias para obter os parâmetros dos sinais processados, combinando as informações encontradas a fim de chegar ao diagnóstico da estrutura. Pablo aplicou as técnicas do estudo no programa computacional Matlab, muito praticado em projetos de Engenharia. Nas simulações da FEM, foi usado um gerador de funções arbitrárias, equipamento de laboratório que produz vibrações, induzindo as ondas na estrutura. “Como a fuselagem do avião é enorme, se conseguirmos localizar a região danificada, será possível ir diretamente ao ponto que está sugerindo um problema e também fazer uma avaliação da sua severidade”, explica o doutorando, que é professor do Instituto Federal de São Paulo.

Publicação Tese: “Métodos para análise da propagação de ondas em sólidos baseados em arranjos multissensores para o monitoramento da integridade de estruturas” Autor: Pablo Rodrigo de Souza Orientador: Eurípedes Guilherme de Oliveira Nóbrega Unidade: Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM)


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Campinas, 28 de outubro

Grupo de pesquisa do IG aponta elevado estágio de fragilidade ambiental na Serra da Canastra e na APA Fernão Dias

Mapeamento co biomas em unid

SILVIO ANUNCIAÇÃO silviojp@reitoria.unicamp.br

geógrafo Marcos César Ferreira e seus orientados Danilo e Cassiano apontam, nos mapas, as áreas em tom de vermelho de duas relevantes unidades de conservação do Cerrado e da Mata Atlântica brasileira. Quanto mais avermelhadas as áreas mapeadas, maior a suscetibilidade a fragilidades ambientais, explicam. Eles também mostram fotografias produzidas durante o trabalho de campo e esclarecem que a combinação entre baixo índice de vegetação, chuvas intensas, declividades elevadas, alta densidade de estradas rurais e presença de fraturas na superfície e nos rios, serve como uma espécie de alerta. Baseados nestes indicadores, o grupo de pesquisa liderado pelo professor Marcos, do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, desenvolveu uma metodologia inédita capaz de gerar um mapeamento da fragilidade ambiental a partir da análise espacial realizada em sistema de informação geográfica. As primeiras aplicações para o método foram feitas na área de proteção ambiental (APA) Fernão Dias e na região do Parque Nacional da Serra da Canastra, ambas localizadas no Estado de Minas Gerais. “São áreas de conflitos, em que, ao mesmo tempo, há uma necessidade premente de conservação, mas um uso permitido do solo para a agricultura. A nossa proposta é criar um modelo mais preciso, capaz de permitir uma orientação técnica e cartográfica para a ocupação racional de APAs, além da detecção de áreas situadas em parques nacionais que necessitam de recuperação ambiental urgente”, recomenda o docente da Unicamp. Ele informa que os mapas produzidos pelos pesquisadores Danilo Francisco Trovó Garófalo e Cassiano Gustavo Messias identificaram várias áreas que podem ser classificadas com alto grau de fragilidade ambiental. Danilo Garófalo defendeu recentemente dissertação sobre a APA Fernão Dias e Cassiano Messias está concluindo o mestrado sobre a Serra da Canastra. “Na APA Fernão Dias constatamos elevado grau de fragilidade, sobretudo em áreas onde há maior concentração de culturas agrícolas, como a bataticultura, as plantações de morango e repolho. Muitas vezes, o cultivo é feito em terrenos com altas declividades e sob risco de sofrer escoamento superficial intenso durante as chuvas volumosas.” Marcos Ferreira acrescenta que há também pressão turística no local, especialmente no distrito de Monte Verde e nos municípios de Gonçalves e Sapucaí Mirim. “Tem crescido o parcelamento do solo e a formação de pousadas e sítios de lazer em áreas mais naturais, próximo às nascentes de rios importantes como o Jaguari, Camanducaia e Sapucaí Mirim. O corredor da rodovia Fernão Dias, uma área de grande ocupação industrial e urbana, mostra-se também com altas chances de degradação ambiental dentro da APA”, expõe.

CONFLITO O Brasil, conforme o docente da Unicamp, conta com 12 categorias de Unidades de Conservação, divididas em dois grupos: Unidades de Proteção Integral e Unidades de Uso Sustentável. O Parque Nacional da Serra da Canastra pertence à primeira categoria e a APA Fernão Dias, à segunda. A diferença principal é que as Unidades de Uso Sustentável, como é o caso da APA Fernão Dias, permitem atividades econômicas consorciadas com a proteção ambiental. “Em função de haver essa possibilidade de uso do solo, principalmente o uso agrícola, as APAs se configuram como uma unidade de conservação conflituosa”, contextualiza. Tal conflito acontece, muitas vezes, por conta de ausência ou má elaboração de planos de manejos, aponta o geógrafo. “Em geral, o que se tem são planos muitos subjetivos e genéricos. Isso gera uma dificuldade de implantação, basicamente pela ausência de documentação técnica específica da cartografia. Ou seja, não há um mapeamento que indique quais áreas seriam mais ou menos frágeis dentro de uma APA.” Marcos Ferreira assinala que a Serra da Canastra diferese da APA Fernão Dias por se tratar de um parque nacional, onde não são permitidas áreas particulares. Entretanto, este parque foi criado após intenso período de atividade pecuária, com áreas de risco, localizadas na nascente do rio São Francisco e na área não regularizada, conhecida como Chapadão da Babilônia. “A Serra da Canastra é uma das principais áreas de preservação do Cerrado brasileiro, bioma que está sob o risco de extinção, sendo, atualmente, um dos mais condenados no país, em razão da expansão agrícola no Centro-Oeste. Existem poucas áreas de Cerrado original, assim como a Caatinga. A topografia relativamente suave e as terras de

Vista parcial da Serra da Canastra, uma das principais áreas de preservação do Cerrado: bioma sob risco de extinção

COBERTURA VEGETAL Uma das principais vantagens da metodologia aplicada na APA Fernão Dias e na região da Serra da Canastra é a possibilidade de se utilizar imagens de satélites para estimar a quantidade de vegetação na superfície. Muitos processos que originam a degradação ambiental são potencializados a partir da baixa cobertura vegetal do solo. “Nesta metodologia o mapa já mostra um coeficiente de cobertura vegetal, ou seja, o quanto protegido está o solo. Os métodos convencionais fazem apenas uma classificação qualitativa, identificando, por exemplo, se há ou não florestas, se existem ou não plantações de cana-de-açúcar, laranja, etc. Além disso, a técnica considera as variáveis de transição da cobertura vegetal. Nos Cassiano Gustavo Messias, que pesquisou a Serra da Canastra: métodos convencionais estas transições “A área não regularizada se apresenta bastante frágil” possuem limites muito rígidos”, compara Marcos Ferreira. menor custo, além de outros fatores espaciais, têm possibiPara o pesquisador Danilo Garófalo, a baixa densidade litado forte expansão agrícola em direção a estes biomas”, de cobertura de vegetação pode acelerar os processos erosievidencia o geógrafo da Unicamp. vos, levando a um empobrecimento do solo e assoreamento de leitos de rios e lagos. “No caso da APA, o mapa de Ademais, salienta, a Serra da Canastra possui também fragilidade aponta para a ocorrência de escorregamentos, formações vegetais raras no Brasil, como campos de altituprocessos de ravina, rastejo e a geração de anfiteatros de de, além de fauna específica do Cerrado, como lobo-guará, erosão degradados. Escorregamentos e rastejos são movitamanduá-bandeira, entre outros. Também está localizada mentos de massas, e ravinas são feições erosivas lineares”, no parque a nascente do rio Araguari, que corta parte do descreve o estudioso da Unicamp. triângulo mineiro. Criada em 1972, esta unidade de conservação se estende por seis municípios mineiros: Delfinópolis, Sacramento, Capitólio, Vargem Bonita, São João Batista do DENSIDADE DE Glória e São Roque de Minas. São cerca de 200 mil hectares ESTRADAS RURAIS de área, dos quais apenas 70 mil estão regulamentados. A segunda diferença em relação aos processos tradicioA APA Fernão Dias possui, por sua vez, considerável nais é a quantificação da densidade de estradas rurais. “Os quantidade de fragmentos de Mata Atlântica, em 180 mil outros métodos não utilizam isso. Levamos em conta que, hectares de área, abrangendo oito municípios mineiros: quanto maior a densidade de estradas na zona rural, maior Brazópolis, Camanducaia, Extrema, Gonçalves, Itapeva, o escoamento superficial e maior a possibilidade de remoParaisópolis, Sapucaí Mirim e Toledo. Criada como comção de solo, de formação de erosão e assoreamento dos pensação ambiental pela duplicação da rodovia BR-381 enrios. Portanto, pelo sistema de informação geográfica e a tre 1995 e 2005, a APA está situada nas nascentes de rios partir das imagens de satélite, mapeamos a densidade de relevantes, como o Jaguari, Camanducaia e Sapucaí-Mirim. estradas rurais por quilômetro quadrado”, fundamenta o “Na área de proteção estão localizados mananciais resprofessor Marcos Ferreira. ponsáveis pela perenidade hídrica dos rios Piracicaba e SaNeste ponto, Cassiano Messias exemplifica citando que pucaí Mirim, este último uma das principais fontes para no mapa de fragilidade da região da Serra da Canastra houo reservatório de Furnas, em Minas Gerais. Já o rio Pirave a constatação de alto adensamento de vias de circulação. cicaba, um dos maiores afluentes do Tietê, é fundamental “A área não regularizada se apresenta bastante frágil: ela para o abastecimento do Estado de São Paulo. Além disso, tem alto adensamento de estradas e locais de maior declia APA possui fragmentos florestais importantes, sobretuvidade. Ocorrem também muitas queimadas. As matas são do, nas áreas das nascentes mais elevadas, em Gonçalves, pouco densas e os lineamentos geológicos seguem o senCamanducaia e Sapucaí Mirim. No entanto, ela está pertido noroeste sudeste, levando à ocorrência de processos dendo vegetação nativa para a silvicultura, no caso, pinus e eucaliptos”, lamenta o docente. erosivos”, detalha.


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a 3 de novembro de 2013

onstata ameaça a dades de conservação Fotos: Divulgação

Publicações Artigos GARÓFALO, D.F.T.; FERREIRA, M. C.; FERREIRA, M. F. M.; MESSIAS, C. G.. Mapeamento da densidade de processos erosivos e de movimentos de massa, a partir de imagens do Google Earth georreferenciadas, utilizando estimador kernel: uma aplicação na APA Fernão Dias (MG). In: IX Simpósio Nacional de Geomorfologia, 2012, Rio de Janeiro. IX Simpósio Nacional de Geomorfologia, 2012. MESSIAS, C. G.; FERREIRA, M. C.; FERREIRA, M. F. M.; GARÓFALO, D. F. T.. Mapeamento de Processos Erosivos no Parque Nacional da Serra da Canastra, Alta Bacia do São Francisco, a partir de Imagens Google Earth Georreferenciadas e Técnicas de Análise Espacial. In: XV Simpósio Brasileiro de Geografia Física e Aplicada, 2013, Vitória, ES. Anais do XV Simpósio Brasileiro de Geografia Física e Aplicada, 2013.

Área na APA Fernão Dias, no Sul de Minas Gerais: concentração de culturas agrícolas eleva fragilidade ambiental Fotos: Antoninho Perri

flagração dos processos erosivos. “Além da densidade, outro fator que consideramos na metodologia é a declividade do terreno. A declividade tem influência decisiva na intensidade da erosão. O aumento da declividade de uma vertente provoca o aumento da velocidade do escoamento superficial e, consequentemente, cresce também a sua capacidade erosiva”, complementa.

MODELOS O mapeamento da fragilidade ambiental foi realizado a partir de modelos de análise geoespacial, usando conceitos da lógica fuzzy, também conhecida como raciocínio aproximado ou difuso. O emprego da técnica fuzzy pode reduzir a propagação de erros através de modelos lógicos, fornecendo informações mais confiáveis, garantem os pesquisadores. Danilo Francisco Trovó Garófalo: “A utilização desta lógica possibilibaixa densidade de cobertura de vegetação pode acelerar os processos erosivos ta a avaliação do espaço como variável contínua e não por meio de limites rígidos. Isso torna a modelagem de dados mais flexível, traPRECIPITAÇÕES zendo maior proximidade aos dados reais observados em Outro ponto significativo na metodologia desenvolvicampo”, especifica Danilo Garófalo. da envolve a medição dos índices de precipitações. SegunOs pesos das variáveis ambientais no modelo (índice do o orientador das pesquisas a chuva é um fator indicade vegetação, probabilidade de chuvas intensas, declivitivo para se entender a fragilidade ambiental, sobretudo dades, densidade de lineamentos e de estradas rurais) a chuva mais intensa, que provoca retirada de material e foram determinados por meio da aplicação do teste estaescoamento superficial. tístico proposto pelos matemáticos russos Andrey Kol“Geralmente os métodos convencionais utilizam mamogorov e Vladimir Ivanovich Smirnov (teste Kolmogopas de chuvas que levam em conta apenas a média anual rov-Smirnov). de precipitações. E isso não significa muita coisa. Em dois anos, por exemplo, pode-se constatar a mesma média anual das chuvas. Só que, em um ano, 60% desta chuva caiu em poucos meses e, no outro ano, ela foi mais bem distribuída ao longo dos meses. O nosso método utiliza a probabilidade de ocorrência de chuvas intensas, baseados em evidências de uma série histórica, ao invés do mapa das chuvas médias.”

DENSIDADE

DE LINEAMENTOS

Conceito específico do campo da geologia, os lineamentos estruturais indicam a presença de fraturas ou falhas geológicas em uma determinada área. São fatores ligados ao tipo de rocha que podem causar processos erosivos e movimentos gravitacionais de massas. Os movimentos de massa são alterações no solo potencializadas pela ação da gravidade, como os deslizamentos em encostas e morros, responsáveis pelos desastres ambientais. O pesquisador Danilo Garófalo explica que o mapeamento da densidade dos lineamentos, relacionados à rede hidrográfica, é uma técnica que pode ser utilizada para associar à predisposição geológica do terreno à de-

Dissertação: “Mapeamento de fragilidade ambiental por meio de análise espacial: um exemplo da alta bacia dos rios Piracicaba e Sapucaí Mirim – APA Fernão Dias – MG” Autor: Danilo Francisco Trovó Garófalo Orientador: Marcos César Ferreira

Dissertação: “Mapeamento das áreas suscetíveis à fragilidade ambiental na alta bacia do rio São Francisco, Parque Nacional da Serra da Canastra – MG” Autor: Cassiano Gustavo Messias Orientador: Marcos César Ferreira Unidade: Instituto de Geociências (IG) Financiamento: Fapesp

Foto: Antonio Scarpinetti

VERDADE TERRESTRE A metodologia foi confrontada com o que os pesquisadores denominaram de “verdade terrestre”, ou seja, a identificação real, no campo, dos processos de degradação apontados pelo estudo. A verificação demostrou que os resultados apresentados pelo mapeamento refletem a realidade vigente. “Estes mapas podem ser utilizados no prognóstico de situações futuras, inclusive nos planos de manejos das unidades de conservação. Eles mostram, por exemplo, que determinadas áreas devem ser monitoradas e fiscalizadas, a fim de evitar o uso intensivo agrícola e a expansão urbana desordenada”, conclui o professor Marcos Ferreira. Ele sinaliza que os procedimentos metodológicos apresentados devem contribuir também como instrumentos de planejamento ambiental de bacias hidrográficas e municípios situados em outras áreas de proteção ambiental. As pesquisas foram financiadas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

O professor Marcos César Ferreira, orientador das pesquisas: “A nossa proposta é criar um modelo mais preciso, capaz de permitir uma orientação técnica e cartográfica para a ocupação racional de APAs”


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Campinas, 28 de outubro a 3 de novembro de 2013

No CEB ou na Amazônia, o foco de Ryan é o paciente MARIA ALICE DA CRUZ halice@unicamp.br

unca houve uma correspondência da Embaixada de Moçambique que retornasse para alegrar Ryan Pinto Ferreira, apesar do sonho em participar de missões na África. O desejo de atuar em comunidades carentes de atenção o motivava a procurar qualquer tipo de organização responsável por missões ou expedições a lugares onde há pessoas à margem de atendimento. Nessa busca, tomou conhecimento da organização não-governamental Expedicionários da Saúde (EDS) e não teve dúvida, foi realizar manutenção de equipamentos médicos na Amazônia. Pelo menos duas vezes ao ano, se despede da família e das atividades no Centro de Engenharia Biomédica (CEB) da Unicamp para cuidar de parte importante de procedimento pré-cirúrgico: a eficácia dos equipamentos. “Quando descobri que a ONG era de Campinas, vi que, finalmente, poderia ajudar não somente como cidadão, mas como profissional, pois os voluntários transportam equipamentos para lá. Alguns deles chegavam a pesar 200 quilos. Agora, com o avanço tecnológico, vamos conseguir utilizar equipamentos compactos.” A Expedicionários da Saúde é uma organização humanitária que leva atendimento cirúrgico aos povos indígenas da Amazônia. O reconhecimento ao trabalho da ONG tomou uma página no periódico francês Le Monde, que publicou, em setembro, uma matéria sobre o engajamento do fundador, o médico Ricardo Afonso Ferreira. Como engenheiro, não se contentou em somente trabalhar para receber, pois, em sua opinião, trabalho não é somente aquele com o qual se pode ganhar dinheiro. Até porque retorno financeiro nunca é suficiente. “Sempre tento transmitir isso a meu filho, Giovanni, de 15 anos, e ele já pensa em me acompanhar à Amazônia.” Para as atividades do outro lado do País, Ryan tem o aval da esposa, Adriana. Até porque a casa onde moram é o local de recepção de equipamentos que conserta para a ONG. “Sempre digo que tenho dois empregos, pois, mesmo quando não estou em viagem, me ocupo com a expedição. O trabalho não se restringe à manutenção. Também instalo, embalo, carrego as imagens. Faço logística e planejamento de compra e instalações de equipamentos. Hoje, lutamos para mudar as instalações.” No dia a dia, no Laboratório de Engenharia Clínica do CEB, o esmero e a satisfação com que também executa seu trabalho evita riscos a pacientes e profissionais do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp. Mas quando chega a cidades como São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, e tem a oportunidade de assentar-se ao lado das pessoas e ser mais que um engenheiro, acaba participando da emoção de ouvir um a um os pacientes operados dizerem: “Estou enxergando”. “Passamos horas trabalhando para instalação, manutenção, longe da família, dormindo mal, com riscos de contrair doença, mas quando a gente vê o resultado, a pessoa enxergando, é impactante. Vemos o quanto vale a pena. Aí não tem jeito, queremos voltar.” A expectativa toma conta de parte da equipe que não pode assistir às cirurgias. “Há momento em que saio de cena, instalo os equipamentos e aguardo o resultado, pois não permanecemos durante as cirurgias, mas quando volto e vejo que as pessoas vão poder contemplar aquele ambiente em que vivem, fico emocionado. Os índios têm o jeito deles. São mais reservados. Muitos não demonstram o que sentem, mas sempre alguém se manifesta.” Ryan descobriu que não precisava ir até Moçambique para se voluntariar. Já sabia que na Amazônia legal havia uma lacuna governamental no atendimento a algumas comunidades. Um olhar mais atencioso à população indígena o fez perceber que há vários problemas sociais e culturais quando o índio tem de se deslocar para uma cidade grande. Um deles é o alcoolismo. “É comum encontrar índio alcoolizado no meio da rua em São Gabriel da Cachoeira, por exemplo. Isso me faz pensar que alguns contatos com os brancos não são saudáveis. Os voluntários geralmente procuram chegar, prestar atendimento e ir embora, com o mínimo impacto. Um amigo dentista disse que os mais afastados do centro da cidade apresentam menos problemas, pois vivem da forma tradicional, usam medicamentos tradicionais. O contato tem prós e contras. Precisa ter cuidado. Uma vez eu vi um pajé dizendo: ‘Esta doença é de branco; tem de usar remédio de branco para curar.’ Eles tratam de formas diferentes doenças de brancos e índios.”

CONVIVÊNCIA

Ao passar quase 20 dias vivendo e comendo juntos, Ryan consegue roubar alguns sorrisos dos indígenas, principalmente as crianças. A simplicidade que sempre teve durante sua criação e nos trabalhos sociais em uma igreja evangélica é intensificada cada vez que passa pela experiência. Apesar de a expedição durar sete dias, Ryan precisa chegar alguns dias antes. “Enxergo como vivem. Vivem bem, sem luxo. Então penso: por que preciso de luxo para viver?” A própria bagagem tem de ser singela. Não se pode levar muita muda de roupa, pois há um

Engenheiro que trabalha com manutenção de equipamentos médicos atua como voluntário em aldeias Fotos: Divulgação

Ryan Pinto Ferreira, funcionário do CEB, durante missões da ONG Expedicionários da Saúde em aldeias no Amazonas, e indígenas que passaram por cirurgia: “resultados impactantes”

peso máximo para embarcarmos. “Andamos de chinelos e bermuda. Metade de minha bagagem vai com comida. A cultura diária do índio nos ajuda muito”, brinca. Em alguns lugares, as fotos são proibidas, pois algumas etnias relacionam sua imagem com parte de sua alma. Ryan lembra que em uma das expedições, ele tentou fotografar crianças que jogaram futebol com ele, mas o pai questionou. “Mas a mãe falou braba com ele, na língua dela, e autorizou a foto.” A aproximação nem sempre é rápida, mas alguns meios são usados para que os indígenas aceitem as visitas, entre eles copiar a maquiagem de seu povo. É comum em fotos ver enfermeiros, dentistas com o rosto pintado para facilitar o relacionamento. Mas, algumas vezes, é preciso ter cuidado para não voltar ao trabalho formal ou para casa maquiado. Algumas tintas, avisa Ryan, saem somente depois de 15 dias. “Cheguei com rosto pintado. Havia chegado a minha casa às 6 da manhã e fui atender o pessoal de uma empresa aqui no laboratório. Eles ficaram olhando para mim e, talvez, se perguntando onde esse maluco havia tatuado o rosto”, brinca. Na Unicamp, a lida com equipamentos começou cedo, aos 17 anos, como estagiário no mesmo laboratório. Aprendeu (e faz questão de reconhecer) com pessoas que hoje são subordinadas profissionalmente a ele, por conta da exigência de nível superior. “Fui acolhido por algumas pessoas que se tornaram muito importantes nesta trajetória. Recebi muitos conselhos de Carlos Rios quando fui estagiário dele. Ícaro Bellentani, meu chefe na época, foi uma espécie de tutor quando comecei como engenheiro.” Na época, também começava uma trajetória acadêmica na Universidade, como estudante de eletrônica do Colégio Técnico de Campinas (Cotuca). “Aprendi muito no colégio. Tive excelentes professores. No cursinho reencontrei docentes de lá também.” A história com a instituição quase “cinquentona”, porém, começou antes mesmo de decidir por alguma carreira. As brincadeiras nas escadarias do Ciclo Básico o divertiam enquanto a mãe estudava pedagogia na Faculdade de Educação. O primeiro a abrir a fila, porém, foi o pai, formado em engenharia elétrica. “Minha mãe veio estudar quando nós já tínhamos nascido, então, aos 7 anos, já frequentava o campus de Barão Geraldo. Aos 13, ela vinha fazer complementação, e eu também acompanhava. Minha irmã mais velha também estudou pedagogia aqui.” Mas não foram somente as referências familiares que o inspiraram a estudar na Unicamp. “Vim por oportunidade e necessidade, pois havia somente dois cursos noturnos de engenharia elétrica na região, um gratuito e outro pago. Então, estudei muito para me formar no gratuito.” Ao concluir o ensino técnico, Ryan foi contratado como estagiário pelo CEB e, logo em seguida, foi aprovado em concurso público para técnico em eletrônica. Em 1994, entrou na segunda turma do curso noturno de engenharia

elétrica. “Tempos difíceis, mas recompensadores. Eu trocava dias de férias por dias de preparação para as provas. No final, quase não tinha férias, mas sabia que mais tarde seria recompensado pelos esforços durante a graduação. Poder trabalhar e estudar aqui foi muito bom.” Assim como na aldeia, Ryan alegra-se por colaborar com a prática médica em seu dia a dia. “Tenho no quadro de funcionários quatro técnicos, um estagiário e ajudamos a manter os equipamentos em bom funcionamento até o final da vida dele. É gratificante quando tira o foco do trabalho, do estresse e coloca o foco no paciente. Isso ajuda muito a entender as coisas e passar pelas dificuldades normais de uma rotina. É bacana ver o que fizemos. Isso faz diferença.” Foto: Antonio Scarpinetti

No Laboratório de Engenharia Clínica do CEB: evitando riscos a pacientes e profissionais do HC


Campinas, 28 de outubro a 3 de novembro de 2013 CARMO GALLO NETTO carmo@reitoria.unicamp.br

riação, encerramento e falência de empresas constituem um processo dinâmico e intrínseco ao capitalismo. Particularmente as empresas de maior porte, ao encerrar as atividades, geram perdas significativas para agentes econômicos e, dependendo de sua abrangência, alteram até a dinâmica de uma localidade. Perdem-se, também, conhecimentos acumulados, competências desenvolvidas e, normalmente, ocorre o desmonte da estrutura produtiva com a venda de ativos para o pagamento de credores, inviabilizando a possibilidade de retomada das atividades. O Direito Falimentar brasileiro disponibiliza instrumentos que visam minimizar os danos e preservar as atividades empresariais, recuperar o empreendimento, salvaguardar interesses de credores e maximizar o valor dos ativos. Para tanto, o instrumento de recuperação judicial abre a possibilidade aos trabalhadores, enquanto credores, de buscar alternativas para o encaminhamento da situação. Nesses casos destaca-se a possibilidade da organização coletiva dos trabalhadores em um empreendimento de autogestão (cooperativa), como forma de viabilizar o arrendamento da massa falida para o grupo constituído e a continuidade das atividades produtivas. Essa solução, entretanto, não automática nem regulamentada, resulta, na maioria das vezes, de um processo de luta encampado pelos trabalhadores, apoiados pelos respectivos sindicatos. Esse processo, muitas vezes longo e penoso, é assumido, em geral, pelos trabalhadores mais antigos, com menores chances de recolocação no mercado e que atuam no chão de fábrica. Ainda assim, em cada caso, o grau de dificuldade enfrentado dependerá, em última instância, de decisões da Justiça do Trabalho. Essas experiências foram mais significativas no Brasil na década de 1990, em uma época em que os postos de trabalho escasseavam em todo o mundo e vaticinava-se a drástica e progressiva redução do emprego formal. No país, a mudança cambial e a abertura comercial agravaram a situação. O movimento sindical brasileiro, que nessa ocasião teve contato com a autogestão e o cooperativismo internacional, incorporou essa bandeira à sua luta, com a perspectiva de preservar os postos de trabalho e a renda dos empregados das empresas falidas. Acreditando na importância econômica e social da manutenção do emprego e da renda – função social da empresa – e considerando um desperdício permitir que empresas com potencial produtivo encerrem suas atividades, Thiago Figueiredo Fonseca Ribeiro, elaborou dissertação de mestrado em que discute a viabilidade atual da autogestão dos trabalhadores como alternativa para a recuperação de empresas falidas ou em processo falimentar no Brasil. O trabalho foi apresentado ao Instituto de Economia (IE) da Unicamp, orientado pelo professor Rodrigo Lanna Franco da Silveira.

PONTOS

DE PARTIDA

Do ponto de vista microeconômico são analisadas as experiências de recuperação de empresas em processo de autogestão dos trabalhadores e verificada sua viabilidade. No sentido mais amplo, das políticas públicas, o autor procura entender como outras experiências de autogestão dos anos 1990 desaguaram no movimento da Economia Solidária e culminaram, em 2003, na criação da Secretaria Nacional de Economia Solidaria (SENAES), ligada ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que concentrou a maioria das ações públicas relativas ao tema. Explicita as características e funções do órgão, explica os óbices que impediram avanços na construção de uma política mais efetiva e analisa sua contribuição para a recuperação de empresas autogestionárias. Baseado em duas experiências empíricas, o autor procura responder a duas perguntas básicas: a recuperação de empresas industriais falimentares, através da organização do trabalho e dos trabalhadores de forma coletiva e autogestionária (cooperativas), constitui-se em uma alternativa economicamente viável? Em sendo positiva essa resposta, quais as possibilidades de se reproduzir as experiências estudadas para a recuperação de outras empresas nos dias atuais? Para responder a estes questionamentos, ele estudou a evolução das políticas públicas na construção das possíveis bases

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Estudo investiga efeitos e alcance da autogestão Dissertação desenvolvida no IE analisa viabilidade do cooperativismo Foto: Antonio Scarpinetti

Thiago Figueiredo Fonseca Ribeiro, autor da dissertação: “Tive oportunidade de observar transformações realmente fenomenais e emocionantes”

de sustentação para essas iniciativas (apoio técnico, capacitação, marco legal e financiamento) e se concentrou em duas experiências em andamento. Uma na Unipol (Cooperativa da Indústria de Polímeros de Joinville), em Santa Catarina, e a outra na Metalcoop (Cooperativa de Produção Industrial de Trabalhadores em Conformação de Metais), localizada em Salto, interior de São Paulo.

CONSTATAÇÕES Thiago chega a duas conclusões importantes. Se por um lado, do ponto de vista econômico, essa forma de organização é capaz de recuperar parte das empresas em falência, por outro lado, não se conseguiu avançar no país, na última década, nos aspectos que envolvem suas bases de sustentação. Em decorrência disso e ainda do fato de hoje se desenvolver um novo ciclo econômico, com aumento de postos de trabalho e de salários, a força política dos defensores dos modelos alternativos se reduziu. Para ele, perdeu-se o bonde da história e a oportunidade de avançar no estímulo de iniciativas dessa natureza no Brasil. As taxas de sucesso relativamente baixas dessas experiências decorrem das deficiências estruturais oriundas de processos pelas quais passaram essas empresas ao serem recuperadas, agravadas pela ausência de leis e financiamentos, de apoio técnico e de competência em seus quadros. E constata: “Com poucos casos bem-sucedidos em andamento e em vista do atual ciclo virtuoso de nossa economia nos últimos anos, o que se verifica atualmente é um quadro de abandono dessas poucas experiências pelo setor público e uma grande morosidade no trâmite de uma legislação condizente com a realidade desses empreendimentos”. Os estudos de caso, segundo o pesquisador, o credenciam a afirmar que os trabalhadores são capazes de assumir os novos papeis e que o processo é viável: “Embora olhados com descrença e sem apoio, os trabalhadores correm atrás do que precisam, aprendem, estudam e dão conta da gestão. Um dos presidentes de uma das cooperativas era estoquista, hoje tem MBA, senta-se à mesa com o BNDES. Tive oportunidade de observar transformações realmente fenomenais e emocionantes dentro do grupo dirigente”. Ele conta que na mesma empresa os diretores realizam há onze anos uma gestão eficiente. Pagaram praticamente todo o passivo

dos trabalhadores que não permaneceram na cooperativa e compraram a massa falida com fundo do BNDES, tornando-se assim, efetivamente, autogestores, já que isso pressupõe, simultaneamente, a participação nos processos decisórios e à propriedade dos meios de produção. Os insucessos acompanham os empreendimentos que começam mal financeiramente e, em decorrência, não conseguem se recuperar. Ele defende então uma boa análise financeira inicial, oferta de linhas de crédito, apoio técnico em termos de gestão, criação de legislação coerente, aspectos que poderiam ter sido encaminhados pela SENAES, que encampou as políticas públicas de Economia Solidária e a quem também estava afeta a recuperação de empresas. A Secretaria iniciou um trabalho de diagnóstico, de legislação, mas avançou pouco. No atual governo o ciclo negativo da economia se transformou em positivo, passou-se do desemprego estrutural ao pleno emprego e a Economia Solidária, que foi criada para pensar alternativas do modelo capitalista tradicional, perdeu força. O modelo, que nasceu como resposta a uma crise e envolve um processo duro, demorado, cansativo, estressante se exaure, porque não conta com apoio público, não tem financiamento, não tem apoio técnico. O autor comenta com tristeza: “A Economia Solidária volta à pauta na próxima crise de emprego com tudo a construir”.

DILEMAS Para Thiago Ribeiro, mesmo com a maioria das variáveis examinadas conspirando contra as possibilidades de sucesso das iniciativas de recuperação de empresas pela autogestão dos trabalhadores, as experiências estudadas surpreendem pelos resultados alcançados e pela capacidade de organização e gestão dos trabalhadores envolvidos. “A manutenção dos postos de trabalho e a significativa contribuição para o pagamento do passivo trabalhista das antigas empresas, garantidos pelo arrendamento dos meios de produção, constituem fatores que justificam o investimento de tempo e energia dedicados a essas experiências e demonstram tratar-se de uma possibilidade concreta para o encaminhamento de crises e recuperação de empresas falimentares”, enfatiza ele. Embora o processo se mostre viável em casos particulares, atualmente apresenta grande risco e exige enormes sacrifícios

dos envolvidos, não configurando alternativa com possibilidades de reprodução em termos de políticas públicas. O pesquisador considera que o dilema está em conseguir com a autogestão maior produtividade, eficiência, segurança e felicidade do que na empresa capitalista convencional: “Essa é a luta, mesmo porque o mercado comprador continua o mesmo. Pode haver um nicho de pessoas que se disponha a pagar um pouco mais por um produto de uma empresa autogestionada, mas em geral o consumidor quer padrão e qualidade por preço menor.” Para o pesquisador, as empresas estudadas são tão boas ou melhores que as concorrentes e por isso sobrevivem. Para ele “a Economia Solidária não está criando um novo mundo, não está fazendo uma revolução operária. Está propiciando a criação de um ambiente mais saudável, mais democrático, com melhores condições de evolução pessoal”. O estudo o leva a uma crítica ao fazer político no Brasil, que não constrói: “Criamos uma Secretaria que não deu respostas aos problemas enfrentados pela Economia Solidária e que se extinta não vai deixar praticamente nenhum legado”. Considera, por sua vez, que o movimento popular também precisa realizar uma autocrítica. Na sua visão, as empresas em recuperação não deveriam estar no mesmo arcabouço da Economia Solidária porque, face ao menor número, não têm expressão política nem condições de influir em negociações. E conclui: “Cerca de 500 empresas em recuperação não conseguem conversar com outras vinte mil que constituem o grupo, com a agravante de que estas se dividem em grupos com interesses bem diversos, do que resulta enfraquecimento do movimento”.

Publicação Dissertação: “Autogestão dos trabalhadores como alternativa para recuperação de empresas falidas ou em processo falimentar” Autor: Thiago Figueiredo Fonseca Ribeiro Orientador: Rodrigo Lanna Franco da Silveira Unidade: Instituto de Economia (IE)


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Campinas, 28 de outubro a 3 de novembro de 2013

Vida a ca dêi m ca Painel da semana

Teses da semana Livro da semana Destaques do Portal da Unicamp

Painel da semana  O futuro da arqueologia - O Laboratório de Arqueologia Pública (LAP) “Paulo Duarte” recebe, até 28 de outubro, inscrições de interessados em participar da palestra “O futuro da Arqueologia”. Ela será ministrada no dia 5 de novembro, pela professora Margarita Díaz-Andreu, da Universidade de Barcelona. As inscrições devem ser feitas pelo e-mail eventos.lapunicamp@gmail.com.  I Latin American on Hydro Power & Systems Meeting - Evento acontece no Centro de Convenções da Unicamp, de 29 a 31 de outubro. Acesse a programação no link www.latiniarh.org/meeting  Lançamento - O professor Ernesto Giovanni Boccara, do Departamento de Artes Plásticas do Instituto de Artes (IA) da Unicamp, lança no próximo dia 30 de outubro, pela editora nVersos, o seu primeiro romance de ficção intitulado Os Ciclonautas – Jogro e os doze Kríacos. A noite de autógrafos ocorrerá na Livraria da Vila, em São Paulo, a partir das 19 horas.  Internacionalização - A Vice-Reitoria Executiva de Relações Internacionais (Vreri) promove no dia 31 de outubro, das 8h30 às 17 horas, no auditório da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), workshop para discutir a internacionalização. O evento é apoiado pelas Pró-Reitorias de Graduação (PRG), de Pós-Graduação (PRPG), de Pesquisa (PRP) e de Extensão e Assuntos Comunitários (PREAC). O workshop contará com a participação de palestrantes de instituições brasileiras e estrangeiras. O workshop é aberto aos docentes, alunos, funcionários e à comunidade externa. Será transmitido pela TV Unicamp. Informações e inscrições (gratuitas) no site http://vreri-unicamp.wix.com/workshop  Identidades Modernas e Arqueologia - O Laboratório de Arqueologia Pública (LAP) “Paulo Duarte” recebe, até 31 de outubro, as inscrições de interessados em participar da Web Conferência “Identidades Modernas e Arqueologia”. Ela será ministrada pela professora Margarita Díaz-Andreu (ICREA - Universitat de Barcelona), dia 4 de novembro, às 9 horas. As inscrições devem ser feitas pelo e-mail eventos.lapunicamp@ gmail.com. O número de vagas é limitado a 95 participantes.  Exame de seleção do Cotil - O Colégio Técnico de Limeira (Cotil) recebe, até 31 de outubro, as inscrições ao seu Exame de Seleção 2014. As provas ocorrem em 24 de novembro, às 14 horas. Os cursos de ensino médio e técnico oferecidos pelo Cotil são os seguintes: Edificações, Enfermagem, Geodésia e Cartografia, Informática, Mecânica, Qualidade e Prótese Dentária (oferecido na Faculdade de Odontologia de Piracicaba). O Cotil fica na Rua Paschoal Marmo 1888, no Jardim Nova Itália, em Limeira-SP. Contatos com o colégio podem ser feitos pelo telefone 19-2113-3300. Mais informações no site www.cotil.unicamp.br

 Revista Rua seleciona trabalhos - A Revista Rua já está selecionando trabalhos a serem publicados nas edições de 2014. O prazo para o envio termina em 31 de outubro. Rua é uma publicação multidisciplinar e seu tema principal é a cidade. A publicação está sob a responsabilidade do Laboratório de Estudos Urbanos (Labeurb) do Núcleo de Estudos da Criatividade (Nudecri). A revista foi lançada em 1995 e possui 13 números publicados com periodicidade anual. A partir de 2008, com a sua migração para formato eletrônico, passou a ser uma publicação semestral. O objetivo principal de Rua é abrir espaço para abordagens de diferentes áreas do conhecimento, que tomem o espaço urbano como objeto de estudo. Rua é dividida em seções: Estudos, com artigos acadêmicos; Artes, com manifestações artísticas de diversas naturezas; Notícias e Resenhas, com as notícias das atividades desenvolvidas; e resenha de obras interessantes para as diversas áreas do conhecimento. As normas de publicação encontram-se no link http://www.labeurb.unicamp.br/rua  #prontofalei - O CIS-Guanabara, o Conselho Tutelar de Campinas e o Comitê de Democratização da Informática (CDI) organizam, dia 30 de outubro, das 8h30 às 17h30, na sede do CIS-Guanabara (rua Mário Siqueira 829), no bairro do Botafogo, em Campinas, a primeira ação do projeto #prontofalei. O projeto destina-se aos adolescentes dos ensinos fundamental e médio e a adolescentes que participam de atividades sociais em ONGs e OGs. O objetivo é contribuir na capacitação desses jovens para que sejam multiplicadores de garantias de direitos. Para iniciar o projeto haverá uma roda de conversa com Fábio Rizzo, do Conselheiro Tutelar, Bárbara Meneses, psicóloga do CR-LGTB, Coré Valente, arteducador e professor do ensino fundamental e Biula Muller, liderança estudantil e comunitária. O evento é apoiado pelo Grupo Gestor de Benefícios Sociais da Unicamp (GGBS) com contribuição do Grupo Gestor de Tecnologias Educacionais da Unicamp. O #prontofalei será transmitido, ao vivo, pela TV Unicamp, o que também permitirá a participação de Maria Izabel Silva, representando a Secretaria Nacional de Direitos Humanos em conexão com Brasília. Inscrições e outras informações no site www.cisguanabara. unicamp.br  Startup Weekend - A Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação da Unicamp (FEEC) da Unicamp sedia, de 1 a 3 de novembro, o Startup Weekend, evento que ocorrerá em mais de 95 países ao redor do globo. O encontro tem como público-alvo empreendedores, desenvolvedores, designers e entusiastas. Neste ano quem o traz é a Liga Empreendedora, uma organização criada por jovens empreendedores e pesquisadores da Unicamp, que atua no estímulo, capacitação e apoio ao empreendedorismo. A abertura oficial do Startup Weekend ocorre às 18 horas, na FEEC. O evento está sob a responsabilidade de Mateus Souza Borges. Mais informações no site http://campinas.startupweekend.org/, telefone 19-3521-7016 ou e-mail everaldo@sae.unicamp.br  II Fórum de Estudos Avançados em Esporte Adaptado - Evento acontece no dia 1 de novembro, às 9 horas, no Centro de Convenções da Unicamp. O Fórum será transmitido pela Internet. Inscrições, programação e outras informações no link http://foruns.bc.unicamp.br/ foruns/projetocotuca/forum/htmls_descricoes_eventos/saude70.html  Enures - O Encontro Universitário de Responsabilidade Social e Sustentabilidade (Enures) acontece no dia 1 de novembro, às 9h30, no Pavilhão do Básico (PB). O objetivo do evento é disseminar a conscientização socioambiental por meio de palestras, cursos e workshops. Uma feira expositiva estará no saguão do PB, no horário do almoço, mostrando as aplicações sócio-responsáveis na atualidade. O Enures é organizado pela empresa júnior Propeq - Projeto e Pesquisa em Engenharia Química. Mais informações podem ser obtidas com Danilo Silva. O telefone para contato é 19-3521-3979. E-mail: danilosbraz@gmail.com  A música que narra a história - A música Skyfall, tema do filme “007 Operação Skyfall”, é uma das composições que serão executadas no dia 1 de novembro, às 19h30, na Sala Multiuso do Espaço Cultural Casa do Lago. Ela está inserida no “A Música que narra a História”, projeto que consiste em adaptar para piano e voz, canções que foram trilhas de filmes de aventura, ação, romance. A apresentação será feita pelos alunos do curso de música do Instituto de Artes (IA), Daniel Figueiredo (piano) e Larissa Montanha (voz) com a participação especial de Adriano Guiducci e Thomas Zornig. Thousand years/Turning Page, canção que ficou mundialmente conhecida como tema do filme “Crepúsculo” encerra a apresentação do projeto, que deve durar uma hora. O Espaço Cultural Casa do Lago fica na rua Érico Veríssimo 1011, no campus da Unicamp. A apresentação tem entrada franca. Assista ao clipe de Larissa e Daniel, gravado no início de outubro, na Casa do Lago. http://www.youtube.com/ watch?v=Amt5aELvDH0

 SLACA - A abertura oficial do Simpósio Latino Americano de Ciência de Alimentos (Slaca) acontece no dia 4 de novembro, às 20h30, na Vila Ápia Festa e Eventos (Marginal da Rodovia D. Pedro I, 267), em ValinhosSP. O evento contará com apresentação musical do Coral Zíper na Boca, da Banda Sinfônica da Aeronáutica e da Banda Sinfônica Sexto Sentido.

Teses da semana  Alimentos - “Produção de ácido gama-poliglutâmico: estudo e otimização do processo utilizando resíduos agroindustriais” (mestrado). Candidata: Priscila Nunes Brito. Orientador: professor Ranulfo Monte Alegre. Dia 29 de outubro, às 14 horas, no salão nobre da FEA.  Biologia - “Expressão gênica diferencial induzida por elicitores nos patossistemas cancro cítrico e clorose variegada dos citros” (doutorado). Candidata: Danila Souza Oliveira Coqueiro. Orientador: professor Marcos Antônio Machado. Dia 30 de outubro, às 14 horas, na sala de defesa de teses da CPG/IB.  Economia - “De Campos-Bulhões a Delfim: posição dos industriais diante da política econômica” (mestrado). Candidato: Ulisses Rubio Urbano da Silva. Orientadora: professora Ligia Maria Osorio Silva. Dia 31 de outubro, às 10 horas, na sala 23 do IE.  Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo - “Influência das ligações no dimensionamento das estruturas tubulares circulares de aço treliçadas” (mestrado). Candidata: Bárbara Daniela Giorgini Sepúlveda. Orientador: professor João Alberto Venegas Requena. Dia 30 de outubro, às 14 horas, na sala CA-22 da CPG/FEC. “Abordagem de resolução de problema complexo orientada aos princípios de processo” (doutorado). Candidato: Caio Márcio Gonçalves. Orientador: professor André Munhoz de Argollo Ferrão. Dia 31 de outubro, às 16 horas, nasala de defesa da de teses da CPG/FEC. “Avaliação do desempenho de sistemas de embalagens nas atividades logísticas de carga urbana” (mestrado). Candidata: Ana Paula Reis Nolêtto. Orientador: professor Orlando Fontes Lima Júnior. Dia 1 de novembro, às 10h30, na sala CA-22 da CPG/FEC.  Engenharia Química - “Transesterificação via etanólise do óleo de levedura para a produção de biodiesel” (mestrado). Candidata: Erika Marques Reis Junior. Orientadora: professora Telma Teixeira Franco. Dia 28 de outubro, às 9 horas, na sala de defesa de teses (bloco D) da FEQ.  Engenharia Elétrica e de Computação - “Rede de sensores sem fio de baixo custo para monitoramento ambiental” (mestrado). Candidato: Marcel Salvioni da Silva. Orientador: professor Fabiano Fruett. Dia 29 de outubro, às 8h30, na sala PE-12 da FEEC. “Aprendizado de máquina baseado na teoria da informação: contribuições à separação de sinais em corpos finitos e inversão de sistemas de Wiener” (doutorado). Candidato: Daniel Guerreiro e Silva. Orientador: professor Romis Ribeiro de Faissol Attux. Dia 31 de outubro, às 9 horas, na sala PE-12 da FEEC. “Desenvolvimento de metodologias para localização de defeitos em sistemas de distribuição com medidores inteligentes” (doutorado). Candidata: Fernanda Caseño Lima Trindade. Orientador: professor Walmir de Freitas Filho. Dia 31 de outubro, às 14 horas, na sala PE-12 da FEEC. “Equalização não supervisionada: contribuições ao estudo do critério do módulo constante e de métodos baseados na teoria da informação” (mestrado). Candidato: Denis Gustavo Fantinato. Orientador: professor Romis Ribeiro de Faissol Attux. Dia 1 de novembro, às 10 horas, na sala PE-12 da FEEC.  Física - “Uma análise fenomenológica do espalhamento elástico próton-próton na região de energia do LHC” (mestrado). Candidato: Paulo Victor Recchia Gomes da Silva. Orientador: professor Marcio José Menon. Dia 1 de novembro, às 14 horas, no auditório da Pós-graduação do IFGW.  Matemática, Estatística e Computação Científica “Análise de um modelo para combustão em um meio poroso com duas camadas” (doutorado). Candidato: Ronaldo Antonio dos Santos. Orientador: professor Marcelo Martins dos Santos. Dia 29 de outubro, às 14 horas, na sala 253 do Imecc.  Odontologia - “Influência do número de desinfecção por energia de micro-ondas na dureza, rugosidade e brilho de resinas acrílicas termopolimerizadas” (doutorado). Candidata: Manoela Capla de Vasconcellos dos Santos da Silva. Orientador: professor Rafael Leonardo Xediek Consani. Dia 29 de outubro, às 9 horas, na sala da Congregação da FOP.

Livro

da semana

Operários de empreitada Os trabalhadores da construção da estrada de ferro Noroeste do Brasil (São Paulo e Mato Grosso, 1905-1914)

Autor: Thiago Moratelli Ficha técnica: 1a edição, 2013; 272 páginas; formato: 14 x 21 cm ISBN: 978-85-268-1013-6 Área de interesse: História Preço: R$ 36,00

“Efeito da temperatura no grau de conversão e resistência à flexão biaxial de cimentos resinosos dual no modo autopolimerizado” (doutorado). Candidata: Cristiana Godoy Sartori Azevedo. Orientador: professor Mario Fernando de Góes. Dia 30 de outubro, às 14 horas, no anfiteatro 4 da FOP.  Química - “Reologia de micelas gigantes – fundamentos e aplicação na exploração de petróleo” (doutorado). Candidata: Roberta Kamei Rodrigues. Orientador: professor Edvaldo Sabadini. Dia 30 de outubro, às 14 horas, no miniauditório do IQ. “Filmes de poli(álcool vinílico) reticulados liberadores de NO para aumento da vasodilatação dérmica” (mestrado). Candidato: Raphael Henrique Marques Marcilli. Orientador: professor Marcelo Ganzarolli de Oliveira. Dia 1 de novembro às 9 horas, no miniauditório do IQ.

Destaque do Portal

Ato ecumênico homenageia estudante Denis Casagrande lunos e direção da Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM) da Unicamp promoveram dia 21 um ato ecumênico pela memória do estudante Denis Papa Casagrande, assassinado no último dia 21 de setembro, durante uma festa não autorizada, realizada no campus da Universidade em Barão Geraldo. Estiveram presentes à cerimônia religiosa, celebrada na praça diante da Biblioteca Central Cesar Lattes (BC-CL), os pais e o irmão de Denis, além de amigos, professores, funcionários e dirigentes da instituição. A celebração coube ao padre Wilson Maximiano, do Hospital da Mulher Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti (Caism), e ao pastor João Sílvio Rocha, do Hospital de Clínicas (HC). Tanto o padre Wilson quanto o pastor Silvio destacaram em suas falas que a homenagem a Denis era um ato de celebração da vida e em favor do entendimento entre as pessoas. Os religiosos conclamaram a sociedade a se empenhar para substituir a cultura da violência pela cultura da paz. O clima durante a cerimônia foi de profunda emoção. A mãe de Denis, Maria Lurdes Papa Casagrande, foi o tempo todo amparada pelo marido e pelo filho, Celso José Casagrande e Celso José Casagrande Júnior, respectivamente. Os três vestiam uma camiseta com a foto do homenageado e com a inscrição “Somos todos Denis”. Logo após a cerimônia ecumênica, houve uma apresentação musical por parte de estudantes do curso de Música do

Instituto de Artes (IA). As canções foram selecionadas pelos colegas de turma de Denis. Também foi descerrada uma placa e plantada uma muda de ipê branco na praça, como forma de manter viva a memória do estudante assassinado. “Esta é uma manifestação de solidariedade. Queremos enaltecer a ideia do plantio da árvore como um símbolo da semeação da vida”, afirmou o professor José Ricardo Figueiredo, coordenador do Serviço de Apoio ao Estudante (SAE), órgão que apoiou a homenagem. Na mesma linha, o coordenador-geral da Unicamp, professor Alvaro Crósta, disse que a iniciativa dos estudantes e da direção da FEM representava a manifestação de solidariedade de toda a Universidade aos familiares e amigos de Denis. Além de Crósta, estiveram presentes ao ato ecumênico o pró-reitor de Extensão, professor João Frederico Meyer; a próreitora de Desenvolvimento Universitário, Teresa Atvars, o chefe de gabinete da Reitoria; Paulo Cesar Montagner; e o chefe-adjunto de gabinete, Osvaldir Pereira Taranto.

Foto: Antonio Scarpinetti

Parentes, amigos, alunos e professores participaram do ato realizado no último dia 21

Os pais do também estudante Mário dos Santos Sampaio, assassinado a facadas na véspera do Ano Novo em um restaurante do Guarujá, também compareceram à cerimônia, para prestar solidariedade à família de

Denis. Eles distribuíram folhetos pedindo o fim da impunidade no Brasil. Denis Papa Casagrande tinha 21 anos e cursava o segundo ano do curso de Engenharia de Controle e Automação na FEM. (Manuel Alves Filho)


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Campinas, 28 de outubro a 3 de novembro de 2013

Fotos: Antoninho Perri

Mesa de abertura do seminário que deu início aos trabalhos da comissão: promovendo a transmissão da memória

Comissão da verdade é instalada Grupo vai recolher depoimentos e informações, assegurando, se preciso, a não identificação das fontes MANUEL ALVES FILHO manuel@reitoria.unicamp.br

s trabalhos de uma comissão da verdade não são importantes somente para as vítimas da ditadura, que ganham voz por meio dela, mas para a sociedade de modo geral, que passa a ter novos elementos para avaliar de forma crítica aquele período e os episódios a ele relacionados. A frase, cunhada no último dia17 pela professora Maria Lygia Quartim de Moraes, marcou o início dos trabalhos da Comissão da Verdade e Memória “Octavio Ianni” da Unicamp, da qual é presidente. A primeira atividade da Comissão foi um seminário realizado no auditório do Instituto de Economia (IE). Além de Maria Lygia, participaram do evento o deputado estadual de São Paulo Adriano Diogo, presidente da Comissão da Verdade Rubens Paiva; o advogado Belisário dos Santos Júnior, exsecretário de Justiça e de Administração Penitenciária do Estado de São Paulo; e o também advogado Claudineu de Melo, professor adjunto de Direito Comercial da Faculdade de Direito da Universidade Mackenzie. De acordo com Maria Lygia, a Comissão conduzirá os trabalhos de forma transparente e manterá diálogo com comissões universitárias similares, bem como com as comissões estadual e federal. “Nossas tarefas serão restabelecer a verdade e promover a transmissão da memória. É preciso lembrar que o terrorismo de Estado perpetrado no período ditatorial não atingiu somente os adversários do regime militar, mas a sociedade em geral, por intermédio principalmente do espalhamento do medo”, afirmou. Ainda conforme a docente, os trabalhos da Comissão também terão um caráter acadêmico, visto que estudantes de graduação e pós-graduação estarão envolvidos nas atividades. Para o deputado Adriano Diogo, a criação de uma comissão da verdade por parte da Unicamp é importante porque vem se somar a outras iniciativas para romper com o pacto de silêncio que ainda prevalece sobre as arbitrariedades cometidas durante o período e exceção. “Trata-se de um pacto para que a verdade não apareça, advindo com a promulgação da Lei da Anistia, em 1979. Vale destacar que esse silêncio não interessa somente aos militares, mas também a outros setores”, observou. Em sua fala, Belisário dos Santos Júnior destacou que os anos de chumbo estão de volta. Tal retorno, sustentou, se deve tanto ao trabalho das comissões da verdade, que promovem o resgate da memória, quanto pela violência política, que segue fazendo vítimas fatais no Brasil. “Desde o advento da Lei da Anistia foram registrados cerca de 1.200 assassinatos de estudantes, jornalistas, magistrados, etc”, contabilizou. Ao comentar sobre as ações de reparações que têm sido concretizadas no país, o ex-secretário salientou que elas não podem ser usadas como pedras sobre a verdade. “As reparações têm de servir como elementos de transição para um Estado verdadeiramente democrático. Nesse sentido, o papel da Unicamp com esta Comissão da Verdade será o de contribuir para recuperar o sentido de democracia no país”, completou.

Maria Lygia Quartim de Moraes, presidente da comissão: “O terrorismo de Estado atingiu a sociedade em geral”

Sobre a Lei da Anistia, Melo afirmou que a medida concorreu para a banalização do mal no país. “Esta lei expressa a vontade daqueles que cometeram crimes durante a ditadura e não a vontade da sociedade brasileira. A Lei da Anistia não foi criada, como se alega, para estabelecer a paz social. Minha expectativa é que a Comissão da Verdade da Unicamp produza efeitos pedagógicos que auxiliem os cidadãos a compreenderem melhor esse e outros fatos”, concluiu. Tanto o reitor José Tadeu Jorge quanto o coordenadorgeral da Unicamp, Alvaro Crósta, consideraram que criação da Comissão da Verdade e Memória “Octavio Ianni” está em consonância com as ações de outras instituições, empenhadas em restabelecer a verdade sobre os acontecimentos relacionados à ditadura. “Esta Comissão reflete os anseios da comunidade universitária, visto que ela foi criada depois de entendimentos com as entidades representativas de docentes, funcionários e estudantes”, informou o reitor. Segundo ele, a expectativa é de que os trabalhos a serem realizados contribuam para apurar não somente eventuais atos de arbitrariedade cometidos durante a ditadura militar contra docentes, alunos e funcionários da instituição, mas também para a formulação de políticas públicas contra novas violações dos direitos humanos no Brasil. Crósta acrescentou que uma das contribuições será a apresentação de um relatório com as conclusões do trabalho, que será amplamente divulgado para a sociedade.

ATRIBUIÇÕES O reitor José Tadeu Jorge: “Esta comissão reflete os anseios da comunidade universitária”

Alvaro Crósta, coordenador-geral da Unicamp: relatório apresentará conclusões do trabalho

Claudineu de Melo citou um texto bíblico para exemplificar a importância do trabalho de uma comissão da verdade: “conheceis a verdade e a verdade vos libertará”. “Uma comissão da verdade não tem o poder de punir aqueles que cometeram arbitrariedades e violaram os direitos humanos. Entretanto, ela tem a capacidade de fazer emergir os fatos que têm sido ocultados da sociedade”, ponderou.

Conforme a portaria assinada pelo reitor Tadeu Jorge, a Comissão está autorizada a recolher depoimentos, informações e documentos, assegurando, sempre que requerida, a não identificação do informante; a requisitar informações e documentos de todos os órgãos da Universidade; e a convidar professores, funcionários e alunos que tenham vivenciado situações específicas de violações de seus direitos civis dentro da Universidade, ou qualquer outra pessoa que possa ter informações relevantes. Também serão atribuições da Comissão encaminhar às Comissões da Verdade em âmbito nacional e estadual as informações obtidas; recomendar a adoção, no âmbito da Unicamp, de medidas e políticas destinadas a prevenir a violação de direitos humanos, inclusive propiciando elementos para a eliminação de possíveis resquícios do AI-5 ainda presentes nas normas da Universidade; e elaborar relatório que contenha os resultados de seu trabalho de investigação dando ampla divulgação a esse texto. Ainda segundo a portaria, a Comissão atuará pelo prazo de um ano a partir de sua instalação, com possibilidade de prorrogação, caso seja necessário. Além da professora Maria Lygia, são membros titulares o professor Wilson Cano (IE), o professor Yaro Burian Júnior (FEEC), a professora Ângela Maria Carneiro (IFCH) e o advogado Eduardo Garcia de Lima, do escritório De Lima, Emmanoel & Advogados Associados. Os suplentes são a doutoranda em sociologia Danielle Tega (IFCH) e a advogada Fernanda Cristina Covolan, do escritório - De Lima, Emmanoel & Advogados Associados.


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Campinas, 28 de outubro a 3 de novembro de 2013

CARMO GALLO NETTO carmo@reitoria.unicamp.br

stava-se em 1890. A Lippincott’s Monthly Magazine, nas versões americana e inglesa, publicava pela primeira vez O retrato de Dorian Gray, único romance de Oscar Wilde, autor extremamente influente no final do século XIX e envolvido em discussões estéticas. Por solicitação da revista, Dorian Gray foi elaborado como um ensaio, sob a forma de romance, que tinha o objetivo de possibilitar a discussão das ideias do Movimento Estético defendido em ensaios por Wilde, que desvinculava da literatura alguns valores caros à classe média vitoriana. Com efeito, a sociedade puritana da época considerava moral e estética na arte como fatores interdependentes. Wilde dissocia esses dois aspectos, defendendo que a moral podia integrar uma obra, mas não constituir seu objeto principal, que deve ser a preocupação com a estética. É a defesa da beleza por ela mesma, desvinculada de princípios éticos. A recepção da crítica inglesa foi bastante negativa, face à exclusão dos valores tanto morais quanto artísticos dos pressupostos estéticos que o autor defendia e colocava em prática no romance que lhe fora encomendado para servir de exemplo às propostas do novo movimento. Diante da recepção negativa, Wilde alterou e ampliou a obra, adicionando cinco novos capítulos à edição que seria publicada em livro por Ward, Lock e Company, em 1891. Vinte anos depois, em 1911, o recém-criado vespertino carioca A Noite, de propriedade de Irineu Marinho, publica o romance na forma de folhetim, durante cerca de um ano, em tradução do jornalista, cronista e contista João do Rio, admirador do poeta, ensaísta e dramaturgo irlandês. No Brasil, a editora Garnier lança a publicação em livro, em 1923, após a morte do tradutor. Embora a intenção da revista fosse contribuir para a discussão das novas concepções estéticas, apresentando-as concretamente através de romance, este acabou sendo recebido pela crítica inglesa sob o viés da imoralidade associada à vida íntima do autor, acusado de ter relações impróprias com homens, à época punidas como crime. O indício de uma afetividade considerada inadequada entre dois personagens, o pintor Basil Hallward e Dorian Gray, agravou-se com a eclosão de um escândalo envolvendo homens da família real que manteriam relações com meninos. A partir desse contexto, é recorrente a discussão sobre a leitura que se faz do romance associando-a à imagem de Oscar Wilde. No Brasil o interesse pela biografia de Wilde constituiu-se também uma possibilidade de leitura entre o público familiarizado com os acontecimentos divulgados pelos jornais acerca de sua condenação e prisão por dois anos, em 1895, por manter relações sexuais com um lorde. Mas, ao mesmo tempo, em decorrência do veículo em que foi publicado – um vespertino dedicado a notícias de impacto e forte cobertura policial – o romance recebeu outras leituras. Certamente o público desse jornal era atraído por aspectos do entrecho que revelavam o submundo do crime e pelo caráter de suspense que o envolviam. As possibilidades de leitura que a própria construção do romance suscita; as compreensões de como as obras literárias se inserem de maneira diversa em diferentes contextos, possibilitando interpretações inesperadas; as conotações sugeridas pelos próprios meios que as publicam e pelas formas que o fazem – certamente são diferentes as motivações de uma revista literária, de um jornal preocupado em manter o suspense do leitor e de uma editora de livros – levaram a pesquisadora Tânia Toffoli a dedicar-se ao estudo de Dorian Gray durante a elaboração de sua dissertação de mestrado em que ela analisa a obra em três tempos e segundo algumas possibilidades de leitura.

Da Londres vitoriana ao folhetim carioca Fotos: Divulgação/ Reprodução

O romance, que atraíra há muito a atenção da pesquisadora, a fez refletir, enquanto estudante de letras, sobre a função da literatura. A literatura precisa realmente ter uma função, ou basta que tenha valor estético como defendia Oscar Wilde? Estaria ela dedicando-se a um estudo que não serviria para nada? A essa discussão muito antiga, que ela considera recorrente entre os estudantes de literatura, ela responde, citando Antonio Candido, quando diz que a arte humaniza o homem. Para ela, a literatura permite entender a humanidade, como se dão as relações na sociedade, como os seres humanos se posicionam, pensam, agem, revelam suas vaidades. Em suma, a literatura põe em evidência o ser humano, o humaniza e o distingue dos demais seres vivos.

O RETRATO Dorian Gray é retratado por um amigo, o pintor Basil Hallward, que inspirado na extrema beleza daquele jovem de 18 anos, pinta-o com tal exatidão que julga ter-lhe captado a própria alma. Um amigo do pintor, o cínico e hedonista Lord Henry Wotton, que passa a gozar da amizade do jovem, o seduz para uma visão de mundo em que o único propósito é o da beleza e do prazer. Impulsionado por essa visão, ao se deparar com seu retrato, Dorian se dá conta de que, enquanto o quadro se manterá belo para sempre, ele envelhecerá. Manifesta então o desejo de se manter jovem. E tem atendido o pedido. Influenciado por Henry, Dorian envereda por um mundo de vícios, desregramentos e crimes, mas se dá conta de que, em consequência, ocorre a progressiva transformação da figura retratada, que refletiria a degradação do seu estado de alma, levando-o a esconder o quadro no sótão. O retrato representaria o registro de transgressões e envelhecimento interior, enquanto sua própria aparência permanecia jovem e bela. As várias possibilidades de leitura que a obra de Oscar

Primeira versão do romance foi publicado na Lippincott’s Monthly Magazine, em 1890

Wilde sugere levaram à sua adaptação com vistas a vários públicos ao longo dos anos, como o fez Clarice Lispector que nele se baseou para a produção de uma obra destinada ao público infanto-juvenil. Para Tânia, permeia o romance uma série de discussões sobre o significado da arte, da estética, do belo, da moral através de um personagem extremamente vicioso e de outro de ideias hedonistas e que, por defender conceitos estéticos semelhantes ao do autor, muitas vezes é associado a ele. Para outros, Oscar Wilde não pensava como Henry e utilizava o personagem com ironia e provocação. Ao propor-se ao estudo, a pesquisadora tinha como objetivo verificar como a descrição remetia à concepção do quadro, supondo que

A primeira edição em que aparece o folhetim, em 19 de julho de 1911, publicada sem o nome de Wilde e, no destaque, capa do jornal A Noite Foto: Antoninho Perri

Publicação Dissertação: “O retrato de Dorian Gray: um romance em três tempos” Autora: Tânia Toffoli Orientadora: Orna Messer Levin Unidade: Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) Tânia Toffoli, autora do estudo: obra tem diferentes conotações, de acordo com a publicação

esta fosse muito relevante na construção da imagem em um texto escrito. Ela propunhase a estabelecer a relação do quadro com a escrita, porque este não pode ser visto, já que se trata de um texto. Com o desenrolar do trabalho ela percebeu que a utilização da descrição não se alongava. As imagens do quadro eram sugeridas e decorriam dos acontecimentos da narrativa. Daí a percepção de que havia uma ligação muito grande entre a descrição e a narração no romance, na maneira como se desenrolava a narração, como os elementos eram dispostos e de como o narrador se colocava. Tudo contribuía para a descrição do quadro. “Muitas vezes se consegue imaginar a deterioração da figura retratada por sugestão das atitudes e ações de Dorian Gray. Começa-se a enxergar o quadro em função da narrativa e por isso centrei o estudo nela”, explica Tânia. A pesquisadora, que se propusera inicialmente ao estudo centrado na estrutura formal do romance, ao perceber que havia uma correlação entre o narrador e o autor na maneira como o romance fora construído, passou a orientar o estudo também sobre a maneira como a forma de como ele é construído, determina como a sociedade o recebe e associa a fatores externos à obra. Ela explica: “De certa forma esta decisão constituiu um desvio da proposta inicial mesmo porque minha orientadora trabalha em linha de pesquisa que estuda a circulação das obras e isso passou a me interessar muito”. O trabalho foi orientado pela professora Orna Messer do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), da Unicamp.

CONTEXTO Ao partir da análise da estrutura da descrição do quadro apoiada na narração, a autora percebeu como a forma do romance corrobora a associação feita pela crítica entre o romance e a biografia do autor. Esse fato, por sua vez, está relacionado à recepção do romance em um primeiro momento na Inglaterra e também com a maneira como João do Rio o traduziu, modificando inclusive trechos para não receber respingos decorrentes da biografia do autor. Essa versão, publicada inicialmente em 1911 no jornal A Noite, possibilita a desvinculação do romance da questão estética e permite sua leitura como enredo de crime e suspense. No bojo da dissertação, ela mostra as conotações que a obra pode ter dependendo do meio, do veículo de publicação e inclusive da tradução. Tânia detalha: “Não fiz uma pesquisa que trata só do contexto e ou só do veículo, pois a união da estrutura e a relação dela com o contexto é importante, porque muitas vezes a análise não trata do contexto e fica só na estrutura, ou trata do contexto e esquece a estrutura. O retrato de Dorian Gray permite o estabelecimento dessa interpretação devido à sua estrutura. Essa me parece a questão fundamental do trabalho, que é o de procurar mostrar com a forma influi no contexto e este influi na forma”. A pesquisadora considera a discussão da importância da literatura para a sociedade tema muito atual não só para os que se dedicam a literatura, mas também para toda a sociedade. Para ela a literatura tem papel importante na formação intelectual das pessoas, nas suas transformações, na formação de melhores seres humanos. Ela leva à reflexão de cada um sobre si mesmo e sobre o mundo. “Acho que os estudos de literatura podem contribuir muito para tudo isso, justamente porque despertam pensamentos que talvez não fossem suscitados, que levam a pensar o mundo de ângulos até então desconhecidos. Do ponto de vista da perspectiva histórica, a literatura permite perceber como se viam as coisas antes e porque o tempo e o lugar mudam olhares”, conclui ela.

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