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Jornal daUnicamp www.unicamp.br/ju

Campinas, 16 a 22 de setembro de 2013 - ANO XXVII - Nº 575 - DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

Foto: Antoninho Perri

Foto: Divulgação/ Reprodução

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Internet populariza arquivos históricos

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Um chocolate de soja, diet e light

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Estudo liga imagens a problema cerebral Foto: Divulgação/ Reprodução

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Uma banda na ativa há 118 anos

Nanoproteção 3

Pesquisadores do Instituto de Química da Unicamp e da Universidade de Amravati, da Índia, desenvolveram uma película invisível à base de nanopartículas de prata que retarda por pelo menos 15 dias a deterioração de frutas. O material evita a perda de água e impede a invasão de micro-organismos. Maçã é mergulhada na solução preparada pelos pesquisadores: nanopartículas protetoras

Foto: Antonio Scarpinetti

CORREIOS

FECHAMENTO AUTORIZADO PODE SER ABERTO PELA ECT

Foto: Antonio Scarpinetti

Foto: Antonio Scarpinetti

Foto: Bruno Andreozzi/ Divulgação

Estadia de Murilo em Roma é tema de livro

País pode produzir sílica vítrea, diz tese

IMPRESSO ESPECIAL

9.91.22.9744-6-DR/SPI Unicamp/DGA


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Campinas, 16 a 22 de setembro de 2013

TELESCÓPIO

CARLOS ORSI carlos.orsi@reitoria.unicamp.br

A ninfa, ou filhote, de um tipo de percevejo, o Issus coleoptratus, usa um par de engrenagens nas coxas para sincrozinar o movimento das pernas durante o salto. Essa é a primeira vez em que um sistema de engrenagens capaz de entrelaçar os dentes com precisão e girar de modo funcional é descrito na natureza, diz artigo publicado na edição de 13 de setembro da revista Science. A delicadeza e a precisão do mecanismo são espantosas: os dentes das rodas têm cerca de 20 micrômetros – milésimos de milímetro – de altura, e graças às engrenagens as pernas se movem com um intervalo de tempo entre si da ordem de 30 microssegundos. Um grau de sincronia “difícil de conseguir com pulsos neurais de 1 milissegundo”, escrevem os autores. O pulso é cerca de 30 vezes mais lento que a coordenação das pernas pela engrenagem minúscula. Esta não é a primeira vez que se descobre que uma invenção mecânica humana já havia sido antecipada na evolução dos insetos. Em 2011, a mesma Science publicava um artigo descrevendo a descoberta de um sistema de porca e parafuso no corpo de um besouro, o Trigonopterus oblongus, numa das juntas das pernas.

À dir., uma ninfa do inseto Issus coleoptratus; no detalhe, imagem de microscópio eletrônico das engrenagens nas pernas do percevejo

Fotos: Malcolm Burrows/ Science/ Divulgação

Evolução inventou a engrenagem antes do homem

Bom preparo físico melhora a memória das crianças

Editor rastreia destino de artigos científicos fraudados

Um estudo realizado nos Estados Unidos, envolvendo 48 crianças de 9 e 10 anos, indica que crianças com melhor forma física têm maior facilidade de memória e aprendizado. O trabalho é apresentado em artigo publicado no periódico online PLOS ONE. “Há uma crescente tendência de inatividade entre as crianças, o que aumenta a probabilidade de excesso de peso e mau preparo físico”, escrevem os autores. “Essa inatividade não apenas resulta em má saúde física, mas também pode causar má saúde cognitiva”. As crianças participantes do estudo tiveram o preparo físico avaliado num teste de esteira ergométrica, e foram divididas em um grupo de bom preparo e um de preparo ruim. Elas tiveram, então, de estudar geografia num iPad – o objetivo era memorizar o nome e a localização de uma série de regiões. No dia seguinte, o conhecimento adquirido foi testado. Os participantes com boa forma física se saíram melhor no teste do que os de baixa forma física, escrevem os autores, quando a estratégia de estudo usada foi de simples memorização. Mas quando uma estratégia pedagógica mais sofisticada – envolvendo memorização e exercícios – foi adotada, não houve diferença.

Quando se descobre que um artigo científico foi produzido com dados falsos ou com base em algum outro tipo de fraude, a prática recomendada é que o periódico que o publicou faça uma retratação, removendo-o oficialmente da literatura especializada. Num congresso internacional realizado em Chicago, o editor-chefe da revista European Journal of Anaesthesiology, Martin Tramèr, descreveu o levantamento que fez a respeito do destino de 88 trabalhos assinados pelo anestesiologista alemão Joachim Boldt, flagrado há dois anos num caso de falsificação de resultados. Dezoito diferentes periódicos haviam prometido retratar-se dos trabalhos de Boldt. No entanto, de acordo com nota publicada pelo serviço Science Insider, da revista Science, apenas cinco artigos receberam retratações dentro dos padrões recomendados internacionalmente. Dos demais, nove sequer chegaram a ser alvo de retratação, por conta de ameaças de processo judicial feitas por coautores, enquanto que outros sofreram retratações inadequadas, incluindo a simples remoção dos registros on-line, como se o trabalho nunca tivesse sido publicado pelo periódico.

Análise de meteorito revela mais ingredientes para a origem da vida Cientistas sabem, há décadas, que meteoritos podem trazer matéria orgânica – os ingredientes fundamentais da vida – para a Terra. Agora, uma nova análise do meteorito Sutter’s Mill indica que muito mais material do espaço pode ter se tornado disponível para desencadear o início da vida na Terra do que se imaginava. O Sutter’s Mill se desfez na atmosfera terrestre, sobre os Estados Unidos, em 2012, mas sua queda foi filmada e vários de seus fragmentos já foram recuperados. Em artigo publicado no periódico PNAS, pesquisadores da Universidade Estadual do Arizona afirmam que uma análise da composição do meteorito, por meio de técnicas hidrotérmicas que, segundo os autores, “imitam de modo realista cenários da Terra primordial, como a vizinhança de atividade vulcânica e crateras de impacto” revelou “uma disponibilidade de material orgâni-

co meteorítico para o ambiente planetário muito maior que a presumida anteriormente”, e que a evolução molecular nos primórdios da Terra pode ter se beneficiado, “por um período demorado”, da “alteração, modificação e liberação dos materiais orgânicos insolúveis” presentes nessas rochas do espaço.

Gás radioativo de Fukushima é detectado sobre a Alemanha O desastre na usina nuclear de Fukushima, no Japão, trouxe, além de uma série de consequências graves para a economia e o meio ambiente, algumas oportunidades científicas indiretas – entre elas, a introdução na atmosfera de grandes quantidades do gás radioativo xenônio 133. Esse mesmo isótopo já foi usado na medicina, como contraste em exames de pulmão. Uma equipe de pesquisadores alemães decidiu aproveitar a emissão de Fukushima para um fim semelhante – mas, em vez de acompanhar os movimentos do gás dentro do corpo humano, rastreou seu deslocamento na atmosfera terrestre. “Como o xenônio é um gás nobre, ele é inerte e só raramente reage com outros elementos. Portanto, é superior a outros rastreadores comumente usados”, escrevem os pesquisadores, em artigo disponível no repositório público Arxiv. As medições envolveram a coleta de amostras por avião, e revelam que parte do xenônio radioativo de Fukushima foi elevada à tropopausa, que separa a troposfera – a camada mais baixa da atmosfera terrestre – da estratosfera, a mais de 10 km de altitude. Também mostram que o gás foi transportado mais rapidamente pelos ventos do alto da atmosfera: “A chegada mais rápida à Alemanha em alta altitude foi demonstrada de modo claro”, diz o trabalho.

Japoneses propõem uso de ondas cerebrais em biometria Pesquisadores da Universidade Tottori, no Japão, propuseram um método matemático para usar as ondas cerebrais de uma pessoa para alimentar um sistema de biometria contínua. Como escrevem os autores, em artigo publicado no periódico International Journal of Biometrics, a maioria dos sistemas de verificação de identidade dos tempos atuais é de uso único: uma vez obtido o acesso, qualquer pessoa pode utilizar o sistema. “Se o usuário for substituído por um impostor depois de a autenticação ter ocorrido, não há como detectar tal substituição”, dizem. Para contornar o problema no caso de veículos – por exemplo, para garantir que o motorista de um carro-forte não foi trocado por um ladrão –, eles propõem o uso das ondas cerebrais do condutor como meio de obter uma identificação biométrica contínua. O sistema proposto pelos engenheiros da universidade japonesa processa sinais de eletroencefalograma da pessoa que está dirigin-

do – obtidos por meio de sensores montados num capacete – e os compara a uma amostra pré-programada do motorista legítimo.

Morte violenta entre os maias Arqueólogos da Universidade de Bonn, na Alemanha, descobriram um sepulcro coletivo numa gruta da cidade histórica maia de Uxul, no México. Os corpos encontrados ali tinham sido decapitados e desmembrados há cerca de 1,4 mil anos. Os ossos correspondem aos esqueletos de 24 diferentes indivíduos, sendo 13 homens com idade entre 18 e 42 anos. Os pesquisadores ainda não conseguiram determinar se os mortos eram prisioneiros de guerra, vindos de outra cidade maia, ou cidadãos de Uxul punidos por algum crime.

Maior vulcão da Terra está submerso O Maciço Tamu, uma grane massa rochosa localizada sob as águas do Oceano Pacífico, é na verdade um vulcão – o maior da Terra e mais amplo que o maior vulcão conhecido no Sistema Solar até agora, o Monte Olimpo de Marte. O Maciço tem uma largura de 650 quilômetros, enquanto que o Olimpo marciano tem 625 quilômetros. O Tamu, parte de um complexo de elevações submarinas a 1,5 mil quilômetros da costa japonesa, já era conhecido dos geólogos, mas até agora acreditava-se que fosse formado pela junção de vários vulcões diferentes. A descoberta de que toda a estrutura corresponde, na verdade, a um só corpo foi apresentada no periódico Nature Geoscience no início de setembro, por uma equipe composta de pesquisadores dos Estados Unidos, Japão e Reino Unido. Os autores navegaram sobre o maciço – que, totalmente submerso, se ergue 4 quilômetros acima do leito oceânico – entre 2010 e 2012, usando instrumentos para enviar vibrações pela montanha e registrando os ecos, e determinaram que todo o fluxo de lava responsável pela formação tinha tido origem num mesmo ponto. O Tamu está inativo há 140 milhões de anos. Quanto ao Monte Olimpo de Marte, ele pode não ser mais o vulcão mais largo do Sistema Solar, mas, com mais de 20 quilômetros de altura, ainda é o mais alto.

UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas Reitor José Tadeu Jorge Coordenador-Geral Alvaro Penteado Crósta Pró-reitora de Desenvolvimento Universitário Teresa Dib Zambon Atvars Pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários João Frederico da Costa Azevedo Meyer Pró-reitora de Pesquisa Gláucia Maria Pastore Pró-reitora de Pós-Graduação Ítala Maria Loffredo D’Ottaviano Pró-reitor de Graduação Luís Alberto Magna Chefe de Gabinete Paulo Cesar Montagner

Elaborado pela Assessoria de Imprensa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Periodicidade semanal. Correspondência e sugestões Cidade Universitária “Zeferino Vaz”, CEP 13081-970, Campinas-SP. Telefones (019) 3521-5108, 3521-5109, 3521-5111. Site http://www.unicamp.br/ju e-mail leitorju@ reitoria.unicamp.br. Twitter http://twitter.com/jornaldaunicamp Assessor Chefe Clayton Levy Editor Álvaro Kassab Chefia de reportagem Raquel do Carmo Santos Reportagem Alessandro Silva, Carlos Orsi, Carmo Gallo Netto, Isabel Gardenal, Luiz Sugimoto, Maria Alice da Cruz, Manuel Alves Filho, Patrícia Lauretti e Silvio Anunciação Fotos Antoninho Perri e Antonio Scarpinetti Editor de Arte Luis Paulo Editoração André da Silva Vieira Vida Acadêmica Hélio Costa Júnior Atendimento à imprensa Ronei Thezolin, Patrícia Lauretti, Gabriela Villen e Valerio Freire Paiva Serviços técnicos Dulcinéa Bordignon e Everaldo Silva Impressão Triunfal Gráfica e Editora: (018) 3322-5775 Publicidade JCPR Publicidade e Propaganda: (019) 3327-0894. Assine o jornal on line: www.unicamp.br/assineju


Campinas, 16 a 22 de setembro de 2013

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‘Cápsula’ química retarda o envelhecimento de frutas Película de nanopartículas de prata conservou laranjas, peras e maçãs, mantendo suas propriedades

Foto: Antonio Scarpinetti

ALESSANDRO SILVA alessandro.silva@reitoria.unicamp.br

om o tempo, sob a influência da temperatura e do modo de estocagem, as frutas perdem água e são atacadas por micro-organismos que as fazem apodrecer, tornando-as impróprias para o consumo. É um ciclo normal da natureza, algo como um “envelhecimento” natural. Uma pesquisa recém-concluída na Unicamp, pelo Laboratório de Síntese de Nanoestruturas e Interação com Biossistemas (NanoBioss), em parceria com a Universidade Amravati, da Índia, conseguiu retardar esse processo por pelo menos 15 dias, graças à aplicação de uma “película” invisível, e inédita, contendo nanopartículas de prata metálica biofabricada. A proteção química é aplicada por meio de imersão das frutas em uma solução desenvolvida em laboratório, em um segmento de pesquisa conhecido como “agronanotecnologia”. Quando seco, o produto a envolve como uma camada protetora, evitando perda de água e a invasão de micro-organismos que degradariam o alimento. E isso sem a necessidade de colocá-lo na geladeira. “A película funciona como barreira microbiana”, comenta o professor Oswaldo Luiz Alves, coordenador do NanoBioss, sobre o trabalho realizado pelos professores Nelson Durán e Mahendra Rai (Índia), no Instituto de Química. O NanoBioss foi criado este ano, com a fusão dos Laboratórios de Química em Estado Sólido (LQES) e de Química Biológica (LQB). “Analisamos todos os parâmetros da fruta [conservada pelo filme], e mesmo após 15 dias, são os mesmos de uma fruta novinha”, avalia Durán. Laranjas, peras e maças, durante os testes, foram envoltas em um nanocompósito (película) constituído de carboidratos e de partículas de prata biofabricadas – um fungo selecionado pelos pesquisadores, em contato com íons de prata (Ag+), promove uma reação (redox), formando um novo produto biofabricado, a prata neutra (Ag0) na forma de nanopartículas, que funciona como elemento antimicrobiano e retarda o “envelhecimento”, no caso da pesquisa com frutas. Proteínas desses fungos, da espécie Fusarium oxysporum, causadores da fusariose, doença que faz a planta murchar e ataca culturas agrícolas, tornam as nanopartículas de prata, em geral, mais aderentes e dão a elas melhores propriedades químicas. Antes de prosseguir, é importante explicar que a nanotecnologia envolve a manipulação de átomos e moléculas, naquilo que os cientistas chamam de “nanoescala”, ou seja, um nanômetro é a bilionésima parte do metro, o equivalente a um milhão de vezes menor que o diâmetro da cabeça de um alfinete ou 80 mil vezes menor que a espessura de um fio de cabelo. Desse modo, é possível criar funcionalidades e novas aplicações para diversos materiais, com destaque para prata, matéria-prima de várias pesquisas em nanotecnologia. E não se preocupe com a possibilidade de consumir esse tipo de prata. O material que envolve as frutas sai com água e, segundo os pesquisadores, deve ser usado apenas para o transporte desse tipo de alimento. Além disso, a concentração do metal é baixa, em quantidade tolerável para o ser humano. “A humanidade ainda não produz a quantidade de alimentos de que precisa, logo qualquer coisa que aumente o tempo de prateleira dos alimentos é muito bem-vinda”, afirma Alves, ao explicar o potencial da descoberta. A película protetora está em fase de obtenção de patente, por meio da Agência de Inovação Inova Unicamp. As nanopartículas de prata, segundo os pesquisadores, não penetram nas frutas, o que aumenta ainda mais a segurança do material empregado na pesquisa. Também não impedem que os alimentos continuem o processo de amadurecimento, só que de forma mais lenta. No futuro, películas semelhantes poderiam vir a ajudar na preservação de outros alimentos perecíveis, como as verduras, transportadas de uma ponta a outra do país, principalmente em caminhões. Os pesquisadores acreditam que o tempo de retardo do “envelhecimento” das frutas pode ser ainda maior, em torno de 30 dias ou mais, se combinado com as técnicas conven-

Os professores Nelson Durán (à dir.) e Mahendra Rai em laboratório no IQ: material que envolve as frutas pode ser removido com água

cionais de resfriamento, já utilizadas hoje. “Há a possibilidade de combinar os dois efeitos, o de congelamento e o da aplicação da película de prata”, explica Durán. O NanoBioss é um laboratório-associado de referência do Sistema Nacional de Laboratórios em Nanotecnologias (SisNano) e conta com financiamento direto do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Essa nova unidade de pesquisa reúne trabalhos realizados nos últimos anos na Unicamp pelo LQES e LQB, que juntos somam mais de 70 patentes. Um dos artigos desse trabalho conjunto, que explica o método biogênico para a fabricação de nanopartículas de prata (“Mechanistic aspects of biosynthesis of silver nanopaticles by several Fusarium oxysporum strains”, publicado em 2005 no “Journal of Nanobiotechnology”), e de acesso aberto, já teve mais de 30 mil downloads. Além de desenvolver novos materiais e aplicações, o NanoBioss estuda a nanotoxicidade e como tratar os resíduos do processo de fabricação e uso de nanopartículas de prata (processo biotecnológico de eliminação de resíduos de prata). Nelson Durán coordena a Rede Brasileira de Nanotoxicologia (Cigenanotox).

Um em cada três alimentos é desperdiçado, aponta estudo O desperdício com alimentos no mundo pode causar cerca de US$ 750 bilhões anuais de prejuízo, de acordo com estudo realizado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), publicado em Roma (Itália), neste mês. Pelo relatório, 54% do desperdício de comida no mundo ocorre na fase inicial da produção – na manipulação, após a colheita e na armazenagem. Os restantes 46% de perdas ocorrem nas etapas de processamento, distribuição e consumo. Os produtos que se perdem ao longo do processo variam em cada região. O diretor-geral da FAO, o brasileiro José Graziano da Silva, afirmou que, além do impacto econômico, o desperdício de alimentos afeta diretamente populações em todo o mundo. “Não podemos permitir que um terço de todos os alimentos que produzimos seja perdido ou desperdiçado devido a práticas inadequadas, enquanto 870 milhões de pessoas passam fome todos os dias”, disse. (Com informações da Agência Brasil)

Nanopartículas protegem tecidos de superbactérias Foto: Antoninho Perri

O professor Oswaldo Luiz Alves, coordenador do NanoBioss: “Eliminamos as bactérias antes que elas cheguem aos pacientes”

“Estamos trabalhando para aumentar o arsenal de possibilidades para o enfrentamento do problema das superbactérias, que são altamente resistentes”. A frase do professor Oswaldo Luiz Alves, do NanoBioss, explica a importância de duas pesquisas derivadas de nanopartículas de prata para o controle de bactérias e controle do risco de infecções hospitalares. Em laboratório, pesquisadores da Unicamp conseguiram impregnar fios de tecidos comuns com nanopartículas antibacterianas, capazes de resistirem a ciclos de até 50 lavagens sem perda das propriedades “implantadas”. “Com a impregnação, não se formam colônias de bactérias”, explica o professor do Instituto de Química. A principal inovação da pesquisa, além da aplicação de nanopartículas de prata como bactericida, é a forma encontrada para que as partículas permaneçam presas aos fios. Assim, poderão ser produzidas roupas de cama especiais e uniformes para funcionários e pacientes em hospitais, particularmente para setores mais vulneráveis a esse tipo de problema com bactérias, como as unidades de terapia intensiva (UTI). Se já imaginou as roupas, agora pense que as paredes dos hospitais poderão estar pintadas com tintas especiais, contendo nanopartículas

de prata (Ag0) decorando nanofios de vanadato de prata (Ag+), capazes de eliminar as mais temidas bactérias, como a Methicillin-resistant Staphylococcus aureus (MRSA), resistente a antibióticos e transmissível pela pele. “O sistema vanadato de prata/nanopartículas de prata apresenta um efeito antibacteriano 30 vezes maior frente a bactérias tais como: Staphylococcus aureus (MRSA), Enterococcus faecalis, Escherichia coli e Salmonella enterica Typhimurium, se comparado com o antibiótico oxacilina”, afirma o professor Alves. A tinta à base de água foi publicada em estudo no ano passado e a equipe de pesquisa, em razão de novos e promissores resultados, trabalha visando depositar pedido de patente por meio da Agência de Inovação Inova Unicamp. Segundo os pesquisadores, as nanopartículas atacam o biofilme de proteção das colônias de bactéria, a barreira que as protege de ameaças, deixando-as vulneráveis ao efeito bactericida das nanopartículas de prata. “Em 24 horas, 100% do biofilme foi eliminado, a bactéria tenta se proteger, entretanto, as nanopartículas acabam com elas”, explicam. “Estamos eliminando as bactérias antes que elas cheguem aos pacientes”, destaca o professor Nelson Durán, do NanoBioss da Unicamp.


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Estudo analisa impactos da digitalização de documentos Pesquisa desenvolvida na FE conclui que internet aproxima arquivos públicos de estudantes e da população ISABEL GARDENAL bel@unicamp.br

m fenômeno vem crescendo mundialmente e conferindo uma maior visibilidade aos arquivos públicos, na esteira da expansão dos movimentos de preservação da memória. Essa nova dinâmica está mudando o seu status. Antes vistos como lugares empoeirados onde ninguém ia, hoje vêm se tornando cada vez mais objeto de pesquisas e de afeto da população. Trata-se de um movimento social e cultural, observando-se, não só na educação formal, como também na educação informal, uma maior aproximação entre a população, a sociedade civil e os arquivos. Esse movimento ganha mais impulso com a digitalização de documentos e sua publicação on-line. E muitos arquivos mobilizam áreas exclusivamente dedicadas ao ensino. “Como tudo nessa nova economia da memória passa rapidamente e ameaça cair na obsolescência, os arquivos precisam medir esforços e planejar os passos para responder com sensatez e responsabilidade à exposição midiática e às suas demandas.” Foi o que concluiu a historiadora Adriana Carvalho Koyama em sua tese de doutorado defendida na Faculdade de Educação (FE), orientada pela docente Maria Carolina Bovério Galzerani. As publicações, salienta Adriana, dão acesso imediato a documentos que de outra forma não seriam conseguidos facilmente. É o caso do site do arquivo nacional inglês (The National Archives - http://www.nationalarchives.gov.uk/education/lesson47.htm), que dá acesso a um mapa de Londres após um incêndio do século 17 que se tornou emblemático. “Nessa atividade educativa se veem os registros da casa do padeiro onde começou o fogo, além de uma série de documentos de época que fascinam as pessoas. Temos a sensação de ter às mãos documentos que, para conhecê-los, seria necessário viajar até lá.” Eles são todos higienizados, tratados digitalmente e ficam como novos, dando a impressão de que não sofreram com a ação do tempo, o que não é verdade, desmistifica a pesquisadora. O documento original sofre também com o pó e com os acessos. Mas essas dificuldades, em sua opinião, desaparecem na consulta on-line.

ENSINO

Nas décadas de 1980 e 1990, em um movimento de renovação no ensino de História e com os novos currículos, as escolas passaram a ter como perspectiva o trabalho com fontes para o ensino de História, desde o ensino fundamental. Este foi um movimento que já teve outros momentos de aproximação, mas ganhou um maior incentivo depois da década de 1990, quando vários países da Europa e da América renovaram seus currículos e passaram a mostrar as possibilidades que o ensino de História traz usando fontes documentais. O contato com essas fontes – críticas e análises – passou a ser pensado como importante desde as séries iniciais. Já no segundo ano, as crianças conseguem ler documentos curtos ou imagéticos e até no máximo no terceiro ano podem ser inseridas em atividades de arquivos. Para isso, basta qualquer lugar que dê acesso à internet, principalmente com a expansão da educação tecnológica nas escolas, dos tablets nas salas de aula e dos laboratórios de informática na rede pública. Um momento anterior de aproximação ocorreu no final da década de 1970, quando professores reivindicaram a renovação do ensino de História. Ela foi incorporada aos currículos duas décadas depois, fazendo com que os arquivos fossem mais busFoto: Antoninho Perri

A historiadora Adriana Carvalho Koyama: “Os documentos reproduzidos têm entrado no fluxo midiático”

Fotos: Reprodução/ Divulgação

cados pelas escolas. “Foi um movimento de aproximação em dois sentidos: tanto os arquivos se aproximaram das escolas, com a criação de serviços educativos, como começaram a ser pensados por professores e pesquisadores de ensino de História como espaços de educação”, contextualiza a pesquisadora. Ela relata que começou sua pesquisa fazendo um levantamento de sites de arquivos. Pesquisou os arquivos nacionais de língua inglesa, portuguesa, francesa, italiana e espanhola. Acabou se detendo nos arquivos inglês e americano (National Archives and Records Administration), os quais têm as ações de educação on-line mais antigas e o maior número de documentos digitalizados. No confronto com outros arquivos, delineou o trabalho de campo. A maior parte da pesquisa de literatura foi feita nos periódicos eletrônicos presentes nas bases de dados que a Unicamp assina. Pela novidade do tema, as referências específicas sobre a educação em arquivos on-line são basicamente papers e teses. Mas Adriana também muito se valeu de sua experiência de historiadora na direção de um arquivo público da cidade de Indaiatuba, de 2008 a 2012. Foi igualmente responsável pelo serviço educativo e trabalhou com o ensino de História por anos a fio, usando fontes documentais. De acordo com ela, o primeiro vestibular no Brasil com o uso de documentos (na década de 1980) foi o da Unicamp, universidade pioneira no movimento de renovação do ensino de História.

REFLEXÃO

A historiadora comenta que, nas visitas aos arquivos, há sempre um serviço educativo que seleciona fragmentos de séries documentais para serem mostrados. Nesse caso, a experiência presencial não difere muito da experiência on-line. Porém Adriana reconhece que visitar os arquivos e percorrer seus corredores é uma experiência relevante para os estudantes, a fim de dimensionarem a documentação que é custodiada pelos arquivos. De outra via, admite ela, nessas visitas corre-se um risco muito comum de monumentalizar o arquivo, porque cria-se uma imagem de que lá estão guardadas a memória e a história, o que gera uma espécie de educação das sensibilidades que situa o arquivo como o lugar da história, da memória – um santuário. Ocorre que essas visitas escolares aos arquivos presenciais acabam não permitindo que as crianças tenham de fato acesso à experiência de pesquisa com as séries documentais. Seria preciso encontrar formas para ampliar as experiências de reflexão e produção de conhecimento histórico educacional nos arquivos. “O aluno como pesquisador seria capaz de criar seu conhecimento a partir das fontes, evitando gerar uma aura em torno dos arquivos”, acredita. Como os arquivos vêm sendo atraídos por esse discurso de que são lugares da memória, essa é uma acepção que por um lado traz visibilidade e que traz inclusive mais financiamento. Logo, os arquivos entram no circuito das culturas da memória. Entretanto, eles tendem a sobrepor essa ideia à noção do documento custodiado. “O que temos nos arquivos é somente o registro de procedimentos do Estado na relação com os cidadãos. Os registros são muito importantes, contudo não são a memória social, posto que quem a constrói são os grupos sociais, de forma dinâmica, contraditória e sempre plural”, ressalva Adriana. A despeito disso, mundialmente os arquivos nacionais cada vez mais têm estampado nas suas páginas iniciais que eles são os guardiões da memória. Isso é parte de sua propaganda e funciona como uma justificativa do valor dos arquivos, pondera.

SÉRIES

Adriana conta que um grupo de pesquisadores de ensino de História da Universidade de Bolonha, Itália, tem tido experiências com séries documentais inter-relacionadas, não com documentos avulsos, selecionadas a partir de um fundo de arquivo com inúmeros documentos. Dentro dessas séries, os alunos podem fazer suas pesquisas com liberdade. Mas, no Brasil, elas ainda são desconhecidas. “Aquelas que conheço envolvem seleção de documentos avulsos que são agrupados para o trabalho de ensino”, relata. Na tese, ela sinalizou a chance de trabalhar com esses documentos a contrapelo, pois a forma como eles são lidos é fundamental. Têm que dialogar com os sujeitos da pesquisa: sejam os alunos ou os professores, com suas próprias experiências, de forma a deslocar as apreensões existentes, as significações que eles já têm sobre o passado e o próprio presente. Devem promover uma experiência significativa e mover esteticamente. Na perspectiva da educação, às vezes, experiências significativas deslocam as pessoas, as movem e mudam sua maneira de enxergar o mundo, relembra a doutoranda sobre o pensamento de Vigotski. Também é necessário trabalhar com seleções de documentos que estimulem alunos e professores a viver esta experiência de pesquisa que conecta sujeito e passado. Para a historiadora, toda cidade que tem um arquivo e um serviço educativo ligado a ele é privilegiada, porque são poucos os arquivos no país que têm essa condição e se colocam à disposição dos usuários.

Reproduções de páginas de arquivos públicos analisados: acesso imediato a documentos até então inacessíveis

Desde o final do século XIX, o mundo tem recebido, fragmentariamente, informações midiáticas sedutoras, com as quais são propostas significações sobre o passado, primeiro nos almanaques, nas revistas e nos jornais, depois na rádio, no cinema, na TV e, agora, na internet. “Ganhamos mais acesso a imagens sobre o passado, e os documentos reproduzidos têm entrado nesse fluxo midiático, o que também educa nossas sensibilidades”, realça Adriana. Sem perceber, as pessoas entram em contato com documentos de arquivo de um modo pouco reflexivo. O History Channel, um canal de televisão americano cuja programação é focada em conteúdos de teor histórico e científico, usa documentos de arquivo como autoridade. Como eles se apoiam nesses documentos, o resultado é que surgem conclusões sem fundamentação teórica mais sólida, mas que parecem ganhar um ar de verdade porque se apoiam supostamente em documentos públicos. Esses documentos estão on-line e estão sendo veiculados pela mídia, causando preocupação para os arquivistas internacionalmente, sobre como lidar com esse fluxo de documentos, pois os arquivos sempre foram ciosos por garantir autenticidade aos seus próprios documentos. Do modo como estão sendo mostrados na mídia, perdem totalmente o contato com seu contexto de produção original. “Temos pensado como é possível, a partir dos documentos midiáticos na contemporaneidade, trabalhar com a educação patrimonial em oposição a essas tendências”, sugere a doutoranda no estudo, realizado no período de 2008 a 2013, que teve como referenciais teóricos na educação Vigotski e Bakhtin, e nas pesquisas histórico-educacionais Edward Palmer Thompson, Peter Gay, Walter Benjamin e Carlo Ginzburg. Atualmente, a autora do estudo faz parte de dois grupos de pesquisa – do Kairós: Educação das Sensibilidades, História e Memória do Centro de Memória Unicamp e do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Continuada (Gepec) da FE.

Publicação Tese: “Arquivos on-line: práticas de memória, de ensino de História e de educação das sensibilidades” Autora: Adriana Carvalho Koyama Orientadora: Maria Carolina Bovério Galzerani Unidade: Faculdade de Educação (FE)


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Campinas, 16 a 22 de setembro de 2013

Produção de sílica vítrea é viável no país, mostra tese CARLOS ORSI carlos.orsi@reitoria.unicamp.br

sílica vítrea, um vidro especial feito de quartzo fundido, é insumo essencial para indústrias de alta tecnologia, como a de informática e de painéis de energia solar, além de ser componente fundamental em equipamentos científicos, como espectrômetros e lâmpadas ultravioleta. Dono das maiores reservas de quartzo do mundo, o Brasil não produz, mas importa esse vidro – embora a matéria-prima nacional seja perfeitamente capaz de gerar sílica vítrea de alta qualidade, como mostra a tese de doutorado de Christiano Pereira Guerra, defendida na Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM) da Unicamp. “A sílica vítrea é um vidro altamente puro”, disse Guerra ao Jornal da Unicamp. “E, quanto mais puro o vidro, mais elevado é o ponto de fusão”, que ultrapassa os 1.500º C. Isso faz com que o material seja usado em fornos industriais e em recipientes para a fusão do silício, material que vai dar origem a chips de computador e a células de conversão de energia solar. A sílica vítrea também possui alta transmitância em comprimentos de onda do ultravioleta médio, o que a torna ideal para lâmpadas que emitem luz nessa faixa de frequência. Para elaborar sua tese, que conclui que o quartzo brasileiro tem “excelente viabilidade (...) para a fabricação de sílica vítrea de elevado valor agregado”, Guerra obteve amostras de quartzo brasileiro de Minas Gerais, Goiás, Bahia, Paraíba e areias de quartzo comerciais da região de Rio Claro, no Estado de São Paulo. Ele também trabalhou com pós de quartzo comercial, incluindo amostras importadas dos EUA e do Japão. “Houve esforços anteriores para a produção de sílica vítrea de boa qualidade no Brasil, mas com pós de quartzo importado, de alta qualidade e de pureza”, disse o pesquisador. “O que eu fiz foi pegar vários tipos de pós de quartzo diferentes, com variados teores de impurezas. Alguns dos pós de quartzo utilizados foram produzidos por mim a partir de lascas adquiridas de garimpeiros. Fui até o garimpeiro, adquiri amostras”. Para moer as lascas, foi usado um moinho de sílica vítrea para evitar contaminação. Guerra diz que gostaria de ter obtido amostras de mais regiões do Brasil, mas que o objetivo específico da pesquisa não era, neste momento, testar todos os quartzos nacionais, mas apenas alguns com diferentes teores de impurezas. Por meio da fusão do pó de quartzo com maçaricos, o pesquisador obteve tarugos – cilindros – de vidro, cuja qualidade avaliou. Um dos critérios de qualidade usados foi a concentração de bolhas no vidro, “como as bolhas nas bolas de gude”, explicou Guerra, formadas por impurezas do quartzo que acabam vaporizadas durante a fusão. O outro critério de qualidade foi o valor da transmitância alcançado no comprimento de onda 254 nanômetros, usado em lâmpadas ultravioleta com efeito germicida. “Algumas das lascas deram origem a pós de quartzo de alta pureza, outros foram pós de quartzo comercial obtidos de fornecedores do Brasil, produzidos para exportação com teores médios de impurezas. Durante a formação do vidro, aparecem bolhas”, contou ele, que é físico e engenheiro eletricista. “Na tentativa de eliminar essas bolhas, foi utilizada uma etapa de lixiviação ácida. São usados litros de ácidos para purificar um quilo de pó de quartzo”, relatou. Após o tratamento com ácido, o teor de bolhas do vidro produzido com pó comercial brasileiro caiu a um nível comparável ao obtido com o uso de pó de origem japonesa. Além disso, parte das amostras de quartzo originadas em Minas Gerais deu origem a um vidro de alta qualidade, sem a necessidade de purificação química do pó. “Isto permite uma economia de insumos, energia e infraestrutura para a produção de pós de quartzo de alta pureza, além do menor impacto ambiental na produção e beneficiamento deste mineral”, diz o texto da tese.

Vidro é importado, apesar de o Brasil ser o maior produtor de quartzo do mundo “É lógico que os garimpeiros se interessam em vender esse material já processado e classificado, mas eles não têm know-how nem recursos para isso”, disse Guerra. O pesquisador enfatiza o papel fundamental do vidro de sílica na indústria de semicondutores, a base dos chips de computador, hoje presentes em praticamente todos os equipamentos eletrônicos, de brinquedos a telefones celulares. O silício que dará origem aos chips é fundido em recipientes feitos desse vidro, que suporta as elevadas temperaturas e também, por ser extremamente puro, não contamina o material trabalhado. No período de janeiro a julho deste ano, o Brasil gastou US$ 3,1 bilhões com a importação de semicondutores, 10% a mais do que no primeiro semestre de 2012, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee). O total de importações do setor eletroeletrônico, até julho deste ano, ficou em US$ 25,2 bilhões, ante exportações, pelo mesmo setor, de US$ 4,1 bilhões. As importações totais do Brasil, no semestre, somaram US$ 117,5 bilhões. Por sua vez, o Monitor do Déficit Tecnológico, relatório elaborado pela Sociedade Brasileira Pró-Inovação Tecnológica (Protec) registrava, no primeiro trimestre deste ano, um déficit de US$ 8,1 bilhões no grupo de alta intensidade tecnológica, e de US$ 13,7 bilhões no de intensidade média-alta. O autor da tese lembra que a necessidade de importação de equipamentos de alta precisão, que usam vidro de sílica, não só atrasa pesquisas científicas como também encarece processos industriais, tornando produtos brasileiros pouco competitivos no mercado internacional. Guerra, que já trabalhou como engenheiro em empresas de alta tecnologia, como fabricantes de geradores eólicos e células solares, conhece de perto o problema. “Já senti isso na pele, precisar desenvolver um equipamento e ter de importar compo-

nentes: aí, o seu equipamento acaba ficando mais caro que o do concorrente estrangeiro, e por causa destes pequenos detalhes”, disse. “Tem um filme do Henfil em que uma ilha paradisíaca exporta cabelos e importa perucas”, exemplificou Guerra, numa referência à película “Tanga – Deu no New York Times”, dirigida pelo humorista em 1987. “Então, é mais ou menos isso. Comparando o valor agregado, temos de exportar navios inteiros de quartzo para importar alguns contêineres de microchips”. “Um vidro de sílica brasileira daria ferramentas para a indústria nacional de alta tecnologia, de semicondutores e células fotovoltaicas, tornar-se mais competitiva, frente aos países desenvolvidos e aos países emergentes como a China. Então, com certeza, viria a facilitar a sobrevivência das indústrias de alta tecnologia no Brasil”, acredita.

VALOR AGREGADO

O pesquisador cita o caso da indústria siderúrgica nacional, que agrega valor ao minério de ferro, como um exemplo que poderia ser seguido: “Foi uma indústria de base que possibilitou o surgimento de outras indústrias no Brasil, como a indústria automobilística”. Da mesma forma, acredita, o processamento, no país, de outras matériasprimas disponíveis, como o quartzo, poderia estimular o ressurgimento de uma indústria nacional de microeletrônica. “Nos anos 60, estávamos pouco atrás dos EUA e da Europa nesse setor – uma geração atrás, nas áreas de eletrônica e microeletrônica”, afirmou Guerra. “Mas todo esse esforço, parece que de uma hora para a outra é jogado por água abaixo, e agora estamos algumas gerações para trás”. “Toda a indústria de alta tecnologia, desde a química fina e até a área de semicondutores, precisa da sílica vítrea”, disse ele. “É uma matéria prima fundamental para a indústria. Todos os países que desenvolveram o ciclo da sílica vítrea são os mais desenvolvidos. Pode-se falar em Alemanha, Japão, EUA, China, hoje, tem uma meia dúzia de países, no máximo, que dominaram essa tecnologia. O Brasil não conseguiu dominar totalmente o ciclo do quartzo, sendo que a sílica vítrea é o subproduto mais importante do quartzo”. O pesquisador lembra que seu trabalho foi construído sobre esforços anteriores, como

os dos professores da Unicamp Rogério César de Cerqueira Leite, hoje aposentado, e Carlos Kenichi Suzuki, que foi o orientador de sua tese. O trabalho de preparação dos cilindros de vidro foi feito nas oficinas da empresa Optron, de Campinas, criada pelo físico e ex-professor da Unicamp Ernesto Nagai. Guerra disse que ainda não há nenhuma proposta firme para a conversão do conhecimento produzido em sua tese num esquema industrial. “Sei que tem muita gente querendo comprar o quartzo brasileiro: vêm muitos estrangeiros”, disse ele. “Quanto ao Brasil, outro dia me ligou um empresário que achou interessante eu ter feito esse trabalho e se mostrou interessado, mas não vejo que seja um projeto de curto prazo a fabricação de vidro de quartzo em escala industrial”. No caminho entre o resultado acadêmico e a produção em escala comercial, o pesquisador vê como obstáculos uma falta de política industrial, a cultura das empresas e o próprio sistema de mérito acadêmico, baseado em volume de publicações. “Há coisas que deveriam ser focadas no desenvolvimento: tenho de fazer, não ficar publicando artigos, contando para os outros o que estou fazendo, e como”, disse ele. “Contando para o mundo inteiro: eu fiz isso, usei este quartzo, usei este processo de limpeza para eliminação de bolhas. Aí os estrangeiros com muito mais recursos do que dispomos aqui no Brasil, aproveitam estas ideias para desenvolver a sua tecnologia”. No que diz respeito à cultura das empresas, ele acredita que o diálogo entre o setor produtivo e universidades ou centros de pesquisa ainda é muito pouco desenvolvido. Em sua opinião, existe pouca inovação nas empresas brasileiras.

Publicação Tese: “Desenvolvimento de sílica vítrea por fusão em chama a partir de lascas de quartzo brasileiro, visando aplicações de alta transmitância no UV” Autor: Christiano Pereira Guerra Orientador: Carlos Kenichi Suzuki Unidade: Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM) Foto: Antoninho Perri

Christiano Pereira Guerra, autor da tese: “Quanto mais puro o vidro, mais elevado é o ponto de fusão”


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Sinais

que o cérebro pode emitir Neurologista avalia alterações de substâncias em pacientes com doença carotídea assintomática CARMO GALLO NETTO carmo@reitoria.unicamp.br

árias são as causas que podem levar ao acidente vascular cerebral (AVC), o conhecido derrame cerebral. Uma delas é a estenose e/ou oclusão da artéria carotídea, que resulta da doença aterosclerótica, desenvolvida principalmente devido a fatores como hipertensão arterial sistêmica, diabetes, dislipidemia, tabagismo e outros que levam à formação de placas nas artérias carótidas. Fragmentos dessa placa podem se desprender e entrar na circulação cerebral, onde ocluem um vaso cerebral ou ainda determinam a oclusão da própria carótida, acarretando então o AVC. Verifica-se, entretanto, que a estenose e a oclusão podem estar presentes sem que o indivíduo tenha sido levado a apresentar qualquer sintoma ou sinal condizente com acidente vascular cerebral ou sintomas transitórios. Estes casos, verdadeiros achados decorrentes de exames de rotina, correspondem ao que se pode chamar de doença carotídea assintomática. Pacientes que já sofreram acidentes vasculares cerebrais se beneficiam com a correção cirúrgica principalmente nos primeiros cinco anos. Desde a década de 80, esse procedimento passou a ser adotado também, em caráter preventivo, em relação a pacientes assintomáticos, assim considerados os que apresentam a obstrução, mas não revelam sintomas.Com o desenvolvimento de novos medicamentos, como as estatinas (usados para controlar o colesterol) junto ao uso de antiagregantes plaquetários, como o ácido acetilsalicílico, associados a um melhor controle dos fatores de risco, como hipertensão arterial sistêmica, diabetes, dislipidemia, tabagismo e acrescidos da prática de atividade física, o tratamento cirúrgico, de maneira geral, não corresponde a um benefício. Entretanto, estudos divulgados na literatura médica, baseados na aplicação de exames neuropsicológicos, mostraram que pacientes com estenose assintomática apresentavam desempenho cognitivo inferior ao dos cidadãos sem a doença. Não havia ainda, porém, menção a alteração estrutural no cérebro que justificasse tal fato. Apoiado nesses estudos, o neurologista Wagner Mauad Avelar, orientado pelo professor Fernando Cendes e juntamente com a disciplina de cirurgia vascular sob direção da professora Ana Terezinha Guillaumon, da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), constatou que a estenose assintomática não é tão inocente como poderia fazer inicialmente crer. Surge daí outra questão: há um dano cerebral secundário resultante do comprometimento causado pela estenose e que afeta a cognição? Com o objetivo de responder a essas indagações ele se propôs a fazer a “Avaliação das alterações da substância branca e cinzenta cerebral nos pacientes com doença carotídea assintomática”. O trabalho avaliou 25 pacientes com estenose de carótida/oclusão, assintomáticos, quanto a possíveis alterações da substância branca e cinzenta do cérebro, comparando os resultados com os de um grupo de controle constituído por 25 indivíduos saudáveis, pareados por idade. A estenose/oclusão foi caracterizada através da angiotomografia e todos os pacientes foram submetidos à ressonância magnética de encéfalo. As imagens foram analisadas com a utilização do método de morfometria baseada em voxel (VMB) e por tensor de difusão (DTI). A propósito dos resultados, Avelar afirma: “Nossos achados mostram que as estenoses/oclusões carotídeas assintomáticas estão associadas a alterações [atrofia] na

Foto: Antonio Scarpinetti

substância cinzenta do hemisfério ipsilateral [do mesmo lado] à estenose. Estes dados, se confirmados, poderiam justificar o declínio cognitivo observado nesses pacientes, uma vez que a função cognitiva está intimamente relacionada com a integridade da substância cinzenta. Tal alteração pode decorrer da alteração hemodinâmica cerebral causada por estas estenoses, que em última análise leva a hipóxia dos neurônios, ou seja, à falta de aporte de oxigênio suficiente para o ideal funcionamento da célula. O estudo é o primeiro que pode explicar e justificar tais achados”.

O ESTUDO O estudo se justifica quando se sabe que a prevalência da estenose carotídea assintomática aumenta com a idade, atingindo cerca de 10% dos homens com mais de 80 anos. Ela é responsável por 15% dos AVC isquêmicos, em que não ocorre rompimento dos vasos. A conduta médica nos casos assintomáticos gera ainda controvérsias quanto ou ao tratamento clinico, ou à angioplastia – colocação de stent –, ou à endarterectomia (cirurgia para remoção das placas). O cérebro é constituído fundamentalmente pelas substâncias branca e cinzenta. A cognição está relacionada com a substância cinzenta, onde se encontram os corpos dos neurônios. Os oxônios, prolongamento dos neurônios responsáveis pelos impulsos elétricos, disseminam-se na substância branca. Sabe-se que os quadros cognitivos estão ligados à integridade dos neurônios. Como nas situações de estenose, a ressonância magnética normalmente utilizada não mostra possíveis alterações nas substâncias branca e cinzenta, apesar das evidências cognitivas reveladas pelos testes, a grande pergunta que se colocava para o pesquisador era: será que existem lesões na microarquitetura que não são vistas na inspeção visual normal? A pesquisa orientouse na procura dessa resposta. Avelar partiu então para a avaliação da microestrutura cerebral, usando duas técnicas da ressonância magnética. Utilizou a morfometria para determinar através dos tons de cinza as diferenças que pudessem existir na parte cinzenta em relação a um grupo de controle. Tratase de um método quantitativo de análise de imagens que apresenta a vantagem de permitir detectar áreas de alteração estrutural, não observadas através da análise visual. Uma varredura permite detectar atrofias em todo o cérebro e estabelecer comparações com o grupo de controle em relação às duas substâncias. Depois, ele utilizou a imagem por tensor de difusão para avaliar se existiam diferenças basicamente nos axônios, que constituem as fibras de projeção dos neurônios que se estendem pela substância branca. E, neste caso, encontrou uma diferença bilateral, ou seja, as alterações em princípio são independentes da estenose, pois não se manifestam apenas no hemisfério ipsilateral, ou seja, do mesmo lado da estenose. Avelar explica: “Em princípio, essas alterações não podem ser associadas à estenose pois, se assim fosse, elas deveriam ocorrer do mesmo lado do cérebro. Nós acreditamos que essa alteração uniforme em toda a substância branca está associada aos próprios fatores de risco relacionados à estenose, como hipertensão, diabetes, tabagismo e dislipidemia, porquanto o grupo de controle era constituído por pessoas saudáveis”. Já em relação à substancia cinzenta, detectou uma atrofia, ou seja, uma perda de volume de massa cinzenta, quando comparou com grupo controle e também quando comparou o hemisfério cerebral dos pacien-

Wagner Mauad Avelar, autor da tese: “Existe uma associação entre a presença das placas e o comprometimento da substância cinzenta”

tes do lado sem estenose com o hemisfério cerebral do lado da estenose. Ou seja, o hemisfério que tinha a circulação comprometida, irrigado pela artéria com estenose, era o mais afetado. Isto levou à conclusão de que “existe uma associação entre a presença das placas e o comprometimento da substância cinzenta”.

RESULTADOS Diante dessas constatações, o autor conclui que a atrofia da substância cinzenta pode ser associada às estenoses carotídeas assintomáticas, mas estas não estão relacionadas às alterações da substância branca. Entende que isso ocorre porque a estenose repercute hemodinamicamente no fluxo sanguíneo afetando os neurônios, presentes na massa cinzenta, mais sensíveis à falta ou diminuição da oxigenação. O próximo passo da investigação envolve a avaliação das imagens de dezessete pacientes acompanhados pela cirurgia vascular, que foram submetidos à remoção das placas. As imagens dos cérebros desses pacientes, obtidas seis meses depois da cirurgia, permitirão novas avaliações da massa cinzenta. Se constatada dimi-

nuição na perda dessa substância nesses pacientes, então se poderá concluir que a atrofia é causada pela estenose. E, neste caso, esclarece o pesquisador, mais do que associação, se poderá falar em causalidade, pois fica evidente que a eliminação da estenose muda o quadro patológico. Em consequência, afirma Avelar, talvez se passe a investigar mais minuciosamente os pacientes que apresentam perdas cognitivas, mesmo leves, incluindo-os na avalição da carótida, mesmo diante de quadros assintomáticos, para que possam a vir se beneficiar de uma cirurgia de caráter preventivo.

Publicação Tese: “Avaliação das alterações da substância branca e cinzenta cerebral nos pacientes com doença carotídea assintomática” Autor: Wagner Mauad Avelar Orientador: Fernando Cendes Unidade: Faculdade de Ciências Médicas (FCM)


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Um poeta brasileiro em Roma Livro de professora do IEL analisa trajetória de Murilo Mendes na capital italiana Foto: Bruno Andreozzi/ Revista Realidade/ Reprodução

LUIZ SUGIMOTO sugimoto@reitoria.unicamp.br

Murilo Mendes - O poeta brasileiro de Roma” é o livro da professora Maria Betânia Amoroso, que resultou de mais de dez anos de pesquisa, realizada quase toda na Itália e que acaba de ser lançado pela Editora da Unesp e pelo Museu de Arte Murilo Mendes (MAMM) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Nele, a docente do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp analisa as impressões deixadas pelo poeta brasileiro entre os italianos durante o período vivido em Roma (1957 a 1975), enfatizando uma faceta praticamente desconhecida por aqui: o Murilo Mendes crítico de arte. “A pesquisa para este livro começa por volta de 2001, com uma questão relacionada não apenas a Murilo Mendes, mas a entender como se constroem as leituras de uma obra. Daí a pergunta inicial: como um dos maiores poetas modernos brasileiros, mudando de país e recomeçando a vida do zero, foi lido pelos italianos?”, comenta a professora do Departamento de Teoria Literária. “Temos um contexto que torna a decisão ainda mais radical, pois ele sai do Brasil aos 56 anos de idade, portanto já maduro, para morar num país cuja tradição literária tem pouco contato com a nossa.” Segundo Betânia Amoroso, provavelmente o projeto de pesquisa nasceu durante sua primeira orientação como docente do IEL, quando sua aluna Irene Miranda Franco obteve o mestrado com a dissertação intitulada “Pânico e flor: projeto ético e fazer poético em Murilo Mendes”. “Embora não fosse tema do trabalho, passei a me perguntar o que teria acontecido quando o poeta mudou de país – uma curiosidade induzida, já que morei cinco anos em Roma. Foi lá que fiz meu mestrado, sobre os dialetos da região central da Itália e, de volta, fiz o doutorado sobre Pasolini.” A autora do livro conta que partiu de uma bibliografia já existente, reunida no volume “Poesia Completa e Prosa de Murilo Mendes”, organizado pela crítica italiana Luciana Stegagno Picchio, uma das grandes responsáveis pela difusão e compreensão da obra do brasileiro na Itália. “Foram anos indo às bibliotecas para encontrar os artigos da bibliografia. Além de descobrir outros que não estavam na lista, entrevistei algumas das poucas pessoas ainda vivas que o tinham conhecido. O poeta faleceu em 1975, durante viagem de férias a Lisboa – a mulher Maria da Saudade Cortesão, também poeta, era portuguesa.”

gação da obra do poeta, traduzindo seus livros e escrevendo sobre ele. Sua presença é também notada em relação ao Prêmio Etna-Taormina.” Na opinião de Betânia Amoroso, se o título dado pela crítica significa o estranhamento causado inicialmente por um poeta que vem de outro universo, mas que vai se tornando “de Roma”, por trás também existe uma reverência. “Meus entrevistados falam dele como uma pessoa afável, inteligente e ‘muito europeia’ – em referência aos traços físicos e ao fato de ser extremamente culto –, o que contradiz um pouco a ideia que fazem de um brasileiro. Me pareceu que Murilo foi muito bem recebido no mundo cultural romano.” A autora acrescenta que o poeta vai se transformando numa espécie de mito, ganhando uma dimensão monumentalista em que são apagadas marcas como a dificuldade de publicar, o dinheiro curto, o desejo de voltar ao Brasil (encontrado principalmente em sua correspondência) – tensões supostamente existentes em um poeta exilado (ou autoexilado). “Mais mítico do que o título de poeta brasileiro de Roma talvez seja o apartamento na Via del Consolato 6, endereço frequentado por brasileiros que passavam pela cidade e onde promovia muitos encontros. Esse apartamento acabou por ganhar uma dimensão mais concreta quando foi filmado por Alexandre Eulalio, ex-professor do Departamento de Teoria Literária da Unicamp, no aniversário de 71 anos do poeta.”

O

Murilo Mendes de perfil no grande claustro do convento dos Cartuxos, nas termas de Diocleciano, em Roma, em foto de 1972: reconhecimento na Itália

De acordo com o levantamento da professora, escrevia-se mais sobre Murilo Mendes na ocorrência de fatos de destaque, como na sua chegada à Itália, no lançamento de livros e quando ganhou o Prêmio Internacional Etna-Taormina como “poeta estrangeiro” em 1972. “O interessante é que ao mesmo tempo em que se torna mais conhecido na Itália, vai ficando menos conhecido no Brasil, criando-se assim uma distância concreta e não só geográfica. Não recolhi todos, mas cheguei a 97% dos artigos da crítica – seja especializada, de jornalistas ou mesmo de colegas Foto: Antonio Scarpinetti

da Universidade de Roma, onde ele deu aulas de literatura brasileira e sua maior fonte de renda.” Betânia Amoroso observa que esses artigos não foram reproduzidos no livro, mas um volume será disponibilizado para os pesquisadores no MAMM. “Depois de ter elencado os artigos, procurei dar uma espinha dorsal ao conjunto, a partir de certas constâncias críticas que fui encontrando. Ao lado disso, dei destaque a alguns temas como, por exemplo, o da viagem, do deslocamento de intelectuais da periferia para os centros da cultura (geralmente a França), num vai e vem constante na nossa história literária.”

BRASILEIRO DE ROMA

A professora Maria Betânia Amoroso, autora da obra: “Passei a me perguntar o que teria acontecido quando o poeta mudou de país”

O eixo central da pesquisa, conforme ressalta a autora do livro, está nas leituras da obra de Murilo Mendes feitas na Itália, o que a obrigou a realizar uma longa busca a fim de identificar quem eram esses leitores. “Com exceção dos críticos mais conhecidos, tive que montar verdadeiras redes para ver quem era quem e entender suas escolhas: por que escrever sobre uma poesia e não sobre outra? Com isso, cheguei a desenhar um quadro interpretativo sobre o que se escreveu sobre Murilo, desde sua chegada à Itália até um pouco depois da sua morte. Nesse longo processo é curioso observar que, num primeiro momento, a crítica tem em mente que ele não é italiano; mas, num segundo momento, procura mostrar o quanto o brasileiro já se tornou europeu.” A docente da Unicamp apurou que, ainda desconhecido, Murilo Mendes era quem sugeria as pautas aos críticos e jornalistas italianos, que desconheciam a sua obra. “Acompanhando os primeiros artigos fica claro que vai se construindo ‘O poeta brasileiro de Roma’, como acabei por nomear o livro. É como passou a ser chamado por críticos como Ruggero Jaccobi, personagem importante para a relação cultural Brasil-Itália, que aqui chegou em 1946 junto outros italianos para atuar em teatro no país. De volta à Itália em 1964, Jaccobi tornou-se um militante na divul-

CRÍTICO DE ARTE

Outro aspecto destacado pela professora do IEL é que Murilo Mendes escreveu muitas críticas de arte para catálogos de artistas plásticos italianos, estabelecendo estreito contato com o meio. “Na Itália esse trabalho ganha destaque. Na verdade, ele já fazia crítica de arte no Brasil, o que mereceu pouca atenção. No segundo capítulo do meu livro trato dessa faceta, não a partir dos 60 na Itália, mas já a partir dos anos 20 no Rio de Janeiro.” Betânia Amoroso afirma que o foco central do livro é a recepção italiana e não a produção poética ou literária de Murilo Mendes. “Procuro encontrar temas ou vieses interpretativos pouco estudados, mas que são sugeridos por essa imensa obra, desde que se incorpore ao corpus analítico outras matérias como a correspondência, os textos escritos para jornais, os ensaios, as conferências.” Mas, afinal, como o poeta brasileiro foi lido na Itália? “De modo geral, os nomes mais expressivos da historiografia da crítica italiana colocam Murilo Mendes entre os grandes líricos modernos, aproximando-o dos maiores poetas do ocidente. Esses críticos o reconhecem também como um profundo leitor e conhecedor da literatura e da cultura ocidentais. Sua poesia é lida nesta chave, a dos grandes poetas.”

Capa do livro: recepção italiana é o foco central da obra


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De Zezé, com zelo, amor e carinho A trajetória de Maria José Zambuzzi, funcionária da Unicamp desde 1987 Foto: Antoninho Perri

MARIA ALICE DA CRUZ halice@unicamp.br

s visitas à irmã, internada para tratamento médico, eram constantes, naquelas tardes de 1975. Ele também começou a visitar com frequência um parente na mesma clínica. A aproximação se deu no quarto domingo de visita, três semanas depois de o rapaz ainda desconhecido consultá-la sobre o ponto de desembarque. Isso aconteceu muito antes de serem os funcionários da Unicamp Luís Hipólito (Tim Maia) e a Maria José Zambuzzi (Zezé). Quando Luís, no quarto domingo de encontro, pediu à mãe de Zezé para levála ao cinema assistir Inferno na Torre, a vida começou a gratificá-la com alguns anos de felicidade e dedicação. Casaram-se em 1978 e tiveram as filhas Gabriela e Luciana, hoje mãe de três filhos. Este seria o núcleo principal do elenco se essa história virasse filme, ou se fosse mais um enredo de amor. Mas a “Zezé da copa” é muito mais do que se pode ver. Também poderíamos começar a história de Zezé com a comum frase, quase musicada por sua voz tênue: – Aceita um cafezinho?” Ou falar dos quitutes oferecidos generosamente a sua equipe de trabalho: – Pessoal, fiz bolo de chocolate! Mas a vida não começa no cafezinho, nem no namoro, e sim na força da mulher de semblante doce, delicado, generoso. Doce até mesmo em momentos em que foi possível ver o sal escorrer pelo rosto. Diante disso, a conversa de uma hora gravada na Praça da Paz da Unicamp, entre as árvores dançantes e o frio amenizado por um sol morno de agosto, obriga ao recomeço desta história. O momento único na praça, que chegou a acalmar a alma, remete aos rápidos encontros com Zezé na copa da Assessoria de Imprensa, onde ela trabalhou antes de atuar na Reitoria, nos quais foi possível aprender mais sobre a própria vida e a vida de cada ser que passa diariamente ou eventualmente a perguntar: – Aceita um cafezinho? A história começa pela infância, em Ibitinga, no sítio da família, perdido pelo pai. E ela explica por quê: – Tivemos uma infância tão sacrificada, mas eu era muito feliz na roça. A gente morava numa fazenda. Meu pai foi carreiro de boi e trabalhou com folhas de café e na colheita de arroz, mas quando ele pegava serviço, era minha mãe quem trabalhava. Ela teve vida difícil, porque meu pai acabou com tudo que tínhamos por causa de mulher. Tínhamos sítio, criação, mas ele não teve juízo. Minha mãe nos mantinha, e nós a ajudávamos. Zezé o perdoou? – Claro. Tenho também boas lembranças dele trabalhando, mas sempre tinha um rabo de saia diferente. Depois que casei, tínhamos uma relação boa. Ele gostava muito de meu marido. Então, quando vinha de Ibitinga, descia na rodoviária, ia para o ponto de táxi onde Luís trabalhava e ia para minha casa com ele. Ficava em casa sempre que vinha para Campinas. Para suavizar a sobrecarga econômica da família, em 1964, a mãe autorizou Zezé a ir morar em São Paulo com os Cotellessa, vizinhos da fazenda desde a infância em Ibitinga. Lá, permaneceu por 12 anos, até as saudades unirem novamente mãe e filha, que, aliás, eram grandes amigas. – Quando morei com dona Maura Marques Cotellessa, a via uma ou duas vezes por ano. Tudo o que aprendi a partir de 1974 devo à dona Maura. Por outro lado, acabei sendo bem afastada de minha mãe. A história de carinho com dona Maura ruiu pela decisão de Zezé de ir além do terceiro ano primário (hoje fundamental). Mesmo sendo professora e tendo marido advogado, dona Maura questionou a decisão por medo que a metrópole devorasse a pequena Zezé, em seus 22 anos de idade. – Quando eu falei que queria estudar, achou que eu iria me perder. Só poderia sair com ela. Até para ir à missa. Ela foi pe-

Maria José Zambuzzi, a Zezé, na copa da Reitoria: alma de cuidadora e quituteira de mão cheia

dir opinião para uma freira, e ela respondeu que eu “seria uma flor jogada na lama” se eu começasse a estudar. A resposta fez com que Zezé pedisse para voltar para Ibitinga. E Maura declinou da decisão. Dessa vez, deixou que a menina viajasse sozinha para passar o Natal com a mãe, mas um desencontro mudaria mais uma vez sua vida. – Quando cheguei a Ibitinga, minha mãe tinha vindo para o distrito de Barão Geraldo, em Campinas, ajudar meu irmão mais velho. Rapidamente, outro irmão me trouxe para Campinas. Aqui, meu irmão mais velho me fez ligar para dona Maura e dizer que não voltaria mais para São Paulo. Mas sempre tive saudades de dona Maura. Ela faleceu, e tentei fazer, em vão, uma busca na internet para reencontrar seus filhos. Assim que alugou uma casa na Vila Santa Isabel, em Barão Geraldo, Zezé trouxe a mãe e os irmãos de Ibitinga. Mas nem morou na casa, pois começou a dormir no emprego em outro bairro do distrito, Cidade Universitária, atuando como babá. Sem perder tempo, tratou de buscar a formação tão sonhada num curso de atendente hospitalar e no Mobral. Depois, se especializou em documentação comercial. – Foi emocionante. O nome de quem se formou na primeira turma do Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral) saiu no jornal. Eu queria estudar mais. Queria fazer graduação, mas a vida tomou seu rumo. E eu fui muito feliz assim mesmo. A decisão de ser enfermeira foi tomada justamente quando aconteceu a primeira sessão de cinema com Luís e, mais uma vez, foi desencorajada. O cinema acabou em compromisso, e o namorado não gostou muito da ideia. E o amor sempre falou mais alto que qualquer projeto individual na vida de Zezé. Em 16 de setembro de 1978 casaram-se, prometendo fidelidade e companheirismo “na tristeza e na alegria. Na saúde e na doença”. E nunca se esqueceram dessas palavras.

CONCURSADOS Quando se conheceram, Luís estava desempregado, mas logo passou a integrar o quadro de funcionários de uma multinacional, em Campinas. Zezé também, depois de alguns anos na rotina de babá, foi admitida por uma panificadora. Quando Luciana, a primeira filha, nasceu, trocou os turnos da panificadora pelo trabalho de diarista. Em 1980, Luís prestou e passou no concurso para o cargo de motorista na Unicamp.

Em 1987, foi a vez de Zezé chegar à Unicamp. A aprovação no concurso para auxiliar de serviços gerais foi motivo de comemoração para a família. Neste trajeto de 26 anos, atuou na Diretoria de Administração, na Assessoria de Imprensa e Comunicação e agora na Reitoria. A história de Luís com a Universidade foi interrompida antes. Em 1995, em uma viagem de São Paulo a Campinas, ele sofreu um derrame na vista por consequência de diabetes. Como a pressão subiu demais, os rins, aos poucos, foram deixando de funcionar. Faleceu em 2005, depois de dez anos de luta. Tristeza, sim, mas uma realidade abraçada com ternura por Zezé. Aí entra mais um capítulo nesta história de dedicação. – O amor dava força para isso. O curso de atendente hospitalar também ajudou, porque tudo o que aprendemos torna mais fácil quando a vida chama a praticar. Eu amava meu marido, e ele era uma pessoa dedicada, muito boa. Então tudo o que eu fiz por ele valeu a pena. Ele fazia diálise cinco vezes por dia. Eu fazia questão de fazer companhia. Tinha prazer em ajudá-lo. Pena que ele foi embora cedo, aos 51 anos. Eu tinha 55 anos na época. Quando nasceu Jean, o primeiro neto, filho de Luciana, em 1996, Luís e Zezé encontram nele a força para enfrentar a enfermidade. Faz questão de lembrar também da atenção dos amigos em momentos críticos: – Fiquei 17 anos na Assessoria. Se soubessem como amo as pessoas de lá! São como minha família. No tempo em que Luís ficou doente, recebi muita ajuda deles. Não há o que pague o que me fizeram, principalmente a Dulce Bordignon e o Eustáquio Gomes. Foi muito gratificante. Ao ser indagada sobre seu jeito de ser “mãezona”, Zezé responde: – Gosto de fazer isso para as pessoas. É carinho. Não é adulação. É de dentro de mim, seja para quem for. Se eu pudesse fazer para todas as pessoas igualmente, eu faria.

QUITUTES Apesar das mãos generosas, Zezé não se considera uma quituteira. – Quando morava em São Paulo, preparava a comida do dia a dia. Nunca fui de fazer pratos diferentes. Se eu seguir à risca uma receita, não acerto. Tenho sempre de seguir minha intuição, aumentar, diminuir ingredientes.

Mesmo se livrando do título, o testemunho fica a cargo de quem teve oportunidade de se deliciar com os pratos oferecidos por ela. Suas receitas renderam convites para quadros de gastronomia em TV, jornal impresso e um blog. – Sou responsável hoje pelas saladas e pela sobremesa do almoço do Gabinete [do reitor]. Compro mamão, abóbora, laranja, figo... Quando comenta sobre suas conquistas, a funcionária fala sem rodeios: – Já passei por tanta coisa. Fui muito pobre. Hoje me considero até rica. Porque graças a Deus não me falta nada. Com meu salário e o que o Luís deixou para mim, mantenho minha filha, desempregada, que sempre precisa de mim. Não me sobra quase nada. Tenho minha casa, graças a Deus. Consegui dar um imóvel para a Luciana, um terreno para a Gabriela. A única coisa que sinto, que não fiz, foi aprender a dirigir. Agora acho que não consigo mais também. Depois de tantas circunstâncias, Zezé condiciona sua felicidade ao bem-estar das filhas. – A Zezé não se preocupa muito com ela não. Ela vive os dias. A Zezé procura fazer as coisas. Não sei o que falar para a Zezé. Não tenho vontades. Estou sempre pensando que alguém vai precisar de mim. Teria Zezé alma de cuidadora? – Acho que sim. Mas só de pensar que minhas filhas estão felizes, eu fico bem. O dia em que a Luciana falar que está bem e empregada, será uma bênção para mim. Pago a faculdade para as duas. Ver as filhas e os netos felizes é minha razão de vida. E o que o futuro lhe reserva? – Penso em me aposentar. Ter um dinheiro e fazer uma viagem. É meu sonho. Conhecer a Terra Santa e Fátima, em Portugal também. Você já pensou caminhar no lugar onde Jesus andou? Que coisa maravilhosa, não? Ainda não desistiu totalmente de um diploma de graduação, nem de tentar dirigir. Quando tentou concluir o ensino médio por meio de supletivo, Luís achou que seria difícil, não conseguiria. Mas em 2006, quando o amor de sua vida já havia partido, conseguiu realizar este sonho. – Toda vez que tentava voltar, precisava parar. Para mim, foi motivo de muita felicidade. Ao terminar, em 2006, eu estava tão sentida por ele sempre dizer que eu não conseguiria, que comecei a chorar. Quando a professora disse a nota, comecei a chorar, e a primeira coisa que gritei foi: “Luís, eu consegui!!!”.


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FEA obtém chocolate de soja

e sem adição de açúcar Fotos: Antonio Scarpinetti

Aprovado em testes, alimento deve beneficiar pessoas que fazem dietas controladas SILVIO ANUNCIAÇÃO silviojp@reitoria.unicamp.br

m chocolate à base de soja, diet e light? A engenheira de alimentos da Unicamp Alessandra Bugatte Palazzo garante que é saboroso e derrete na boca! Ela foi a responsável por desenvolver na Universidade a primeira guloseima do Brasil a partir da soja, sem açúcar e com baixas calorias. A formulação do chocolate integrou pesquisa de doutorado conduzida junto à Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA). O trabalho foi publicado no Journal of Sensory Studies, revista científica de impacto na área de análise sensorial. “Realizamos avaliações com 120 consumidores acostumados com o chamado chocolate padrão. O nosso produto também foi analisado por equipes treinadas em testes sensoriais. As análises mostraram resultados bastante satisfatórios. A formulação apresentou, de modo geral, as mesmas características com as quais o consumidor está acostumado quando come o chocolate convencional”, revelou Alessandra Palazzo. O seu doutorado, defendido junto ao Programa de PósGraduação em Alimentos e Nutrição da FEA, foi orientado pela docente Helena Maria André Bolini, coordenadora do Laboratório de Análise Sensorial e Estudos do Consumidor. Parte da pesquisa foi realizada no Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), com a colaboração de Priscilla Efraim, ex-pesquisadora do Ital e, atualmente, professora da FEA. “Tomamos como parâmetro comparativo o chocolate ao leite, que é o mais consumido no país. Este tipo de chocolate tem a característica de derreter na boca, pela sua cremosidade. De fato, pela ausência do leite no nosso produto, isso foi uma dificuldade. Realizamos diversos ajustes no processamento de modo a permitir um perfil sensorial muito semelhante ao que o consumidor está acostumado”, reconheceu a estudiosa da Unicamp. O chocolate formulado na Universidade deverá beneficiar pessoas que têm uma exigência de dietas controladas, com redução calórica, restrição de açúcares e gorduras. O objetivo é suprir deficiências nutricionais, explica Alessandra Palazzo, que também atua como docente na escola do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), em Campinas (SP). “O produto é voltado tanto para consumidores com intolerância à lactose, que é o açúcar predominante do leite, como para aqueles que têm alergia à proteína do leite. A formulação também é isenta de sacarose, um tipo muito comum de açúcar e altamente calórico. Portanto, este chocolate é indicado para pessoas com qualquer problema de metabolismo, como obesos e diabéticos, ou simplesmente para aqueles que desejam controlar o peso.” Levantamento recente do Ministério da Saúde indicou que mais da metade da população brasileira está obesa. O estudo “Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico”, publicado no ano passado, mostrou que 51% da população com mais de 18 anos está acima do peso ideal. O sedentarismo e os hábitos alimentares inadequados estão, conforme a pesquisa, entre as principais causas para o aumento no índice de pessoas com excesso de peso. Em 2006, a quantidade de obesos predominantes na população era de 43%, de acordo com levantamento realizado naquele período pelo Ministério da Saúde. O chocolate comum, um produto altamente calórico, não pode ser visto como vilão, mas o seu consumo pode potencializar as causas para a obesidade, admite Alessandra Palazzo. A sua tese de doutorado cita investigações realizadas com diferentes produtos alimentícios mostrando que o consumo médio per capita do alimento ultrapassa o de concorrentes, entre os quais, doces à base de frutas, cereais matinais, salada de frutas e açaí. “Neste contexto de uma epidemia mundial de obesidade, a associação entre sabor e dieta saudável é essencial para a inovação no mercado. Se faz necessário cada vez mais o desenvolvimento de produtos com ingredientes alternativos que substituam os tradicionais, garantindo a redução calórica e o prazer do apetite”, defende.

LIGHT

EM CALORIAS

Além de ser diet, por não conter açúcar, o chocolate desenvolvido na Faculdade de Engenharia de Alimentos pode ser considerado light em calorias. “Quando há uma redução calórica maior do que 25% em relação ao produto existente no mercado, ele pode ser considerado light.

A engenheira de alimentos Alessandra Bugatte Palazzo: “As análises mostraram resultados bastante satisfatórios”

No nosso caso, obtivemos em todos os chocolates formulados uma redução calórica em torno de 28%. Por todas estas características, possivelmente este tipo de chocolate não existe no mercado”, considera Alessandra Palazzo. Ela informa que deve submeter um pedido de patente para que o produto possa ser comercializado.

FORMULAÇÕES

de chocolate e derretimento na boca. A análise afetiva, ou de aceitação, é realizada com os consumidores do produto. Ela mede o grau de “afetividade” em relação à amostra, ou seja, o quanto eles gostam ou desgostam do produto. As análises foram repetidas durante 12 meses, período considerado como tempo de prateleira do produto. A vida de prateleira é definida como o prazo de conservação do alimento mediante determinadas condições de temperatura, umidade relativa, luz, entre outros parâmetros.

Durante a pesquisa foram desenvolvidas diversas formulações com o chocolate à base de soja, utilizando três alternativas para a substituição do açúcar: os edulcorantes sucralose, steviosídeo e PROCESSAMENTO neotame. A engenheira de alimentos exO chocolate obtido passou pelos plica que edulcorantes são substâncias processos de mistura e refino, visando Amostras do chocolate desenvolvido com alta capacidade de adoçar. reduzir o tamanho das partículas sóliem laboratório: menos calórico das de modo que não ficassem percep“A sucralose é produzida sinteticatíveis ao paladar do consumidor. Após mente a partir da sacarose. Ela dá um esta etapa, a mistura foi submetida a um processo conhepoder adoçante em torno de 400 vezes maior do que o do cido tecnicamente como conchagem. Trata-se de uma técaçúcar comum. O esteviosídio, extraído das plantas de nica utilizada no desenvolvimento de aroma e sabor por estévia, é um adoçante natural. O poder dele é 200 vezes meio da remoção de componentes ácidos voláteis, remamaior do que o da sacarose. E o neotame é similar ao asnescentes da mistura e refino. partame, só que ele tem uma estabilidade térmica maior. E isso é importante no chocolate porque o processo é Em seguida, houve o processo de temperagem, para feito em altas temperaturas. O neotame deu um poder assegurar uma correta e estável solidificação do chocolaadoçante 8 mil vezes maior do que a sacarose”, esclarece te. Neste estágio há um resfriamento controlado da massa a pesquisadora. de chocolate, promovendo a cristalização da manteiga de A fórmula com o adoçante sucralose foi a que obteve cacau, formando uma massa homogênea. Na última etamelhores resultados junto aos provadores. “Este edulcopa, constituída pela moldagem e resfriamento, ocorre o rante demonstrou semelhança sensorial em relação ao processo de solidificação e o chocolate obtém o formato chocolate padrão, utilizado como amostra de controle. de barras. Entre os 17 atributos avaliados pelos provadores, o chocolate formulado com sucralose não diferiu da amostra controle em 13 destes parâmetros, destacando-se a cor marrom e ausência de amargor residual. Formulações Publicações com os outros dois adoçantes deram bons resultados, Artigo mas, entre os três, a sucralose foi a que mais se destacou”, demonstrou Alessandra Palazzo. PALAZZO, A.B.; CARVALHO, M.A.R; EFRAIM, P.; BOLINI, H.M.A.The determination of isosweetness concentrations of Sucralose, Rebaudioside TESTES and Neotame as sucrose substitutes in new diet Para a pesquisa foram produzidas oito diferentes amoschocolate formulations using the time intensitras e para cada uma delas, oito quilos de chocolate em barty analysis. Journal of Sensory Studies, volume 26, ra. Os produtos foram submetidos a três tipos de análises p.291-297, 2011. sensoriais: descritiva quantitativa, análise tempo-intensiTese: “Avanços no estudo de edulcorantes em chodade e afetiva. A análise descritiva quantitativa contou com colates tipo ao leite, light em calorias e isentos de uma equipe treinada composta de 11 provadores. lactose e sacarose: perfil sensorial descritivo, tempo Eles avaliaram 17 atributos, como cor, brilho, homo– intensidade múltiplo e vida útil” geneidade, aroma de cacau, aroma doce, aroma de leite, aroma de manteiga de cacau, sabor de cacau, gosto doce, Autora: Alessandra Bugatte Palazzo gosto amargo, sabor de leite, sabor de soja, gosto doce Orientadora: Helena Maria André Bolini residual, gosto amargo residual, dureza, derretimento na Unidade: Faculdade de Engenharia de Alimenboca e arenosidade. tos (FEA) No teste tempo-intensidade foram abordados os atribuFinanciamento: Capes tos considerados mais relevantes para análise de chocolate em razão do tempo, como os gostos doce e amargo, sabor


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Vida Painel da semana Teses da semana Livro da semana Destaques do Portal da Unicamp

aa c dêi m ca

Painel da semana  Vestibulinho do Cotuca - O Colégio Técnico da Unicamp, o Cotuca, recebe, de 16 de setembro a 6 de novembro, as inscrições para o seu vestibulinho. O Cotuca oferece 805 vagas em 21 opções de cursos técnicos e de especialização técnica, em quatro modalidades. Todos os cursos são gratuitos. Mais informações no site www.cotuca. unicamp.br, telefone 19-3521-9906 ou e-mail alan@cotuca.unicamp.br  Encontro PAD/PED - Encontro de aperfeiçoamento dos programas PAD/PED objetiva introduzir aos monitores (PAD) noções básicas nas áreas que fornecem subsídios teóricos para as práticas de formação de graduandos, bem como aperfeiçoar para o exercício da docência os estudantes de pós-graduação da Unicamp (PED). O próximo será realizado no dia 16 de setembro, às 14 horas, no Centro de Convenções da Unicamp. A organização é do Espaço de Apoio ao Ensino e Aprendizagem (Ea2). Site do evento: www.ea2.unicamp. br. Mais informações: telefone 19-3521-7991 ou e-mail ea2@reitoria. unicamp.br  Carlos Gomes: o Nhô Tonico de Campinas - O Centro de Memória Unicamp (CMU) com apoio do Sistema de Bibliotecas (SBU) organiza, de 17 de setembro a 17 de outubro, no Hall da Biblioteca Central Cesar Lattes (BC-CL), a exposição “Carlos Gomes: o Nhô Tonico de Campinas”. A abertura da mostra ocorre às 9 horas. Pode ser visitada de segunda a sexta-feira, das 9 às 22h45, na rua Sérgio Buarque de Holanda 421, no campus da Unicamp. Além da exposição, às 9h15, no auditório da BC-CL, ocorrem duas mesasredondas. Na primeira, “Carlos Gomes e sua Música”, o professor Marco Padilha aborda “Carlos Gomes e a Música Contemporânea”. A mesa será coordenada pelo professor Mrcos Tognon. Mais informações: 19-3521-5250.  Santander Universidades - As inscrições para a 9ª edição dos Prêmios Santander Universidades que, em 2013 concederá R$ 2 milhões em prêmios e bolsas de estudos internacionais, pode ser feita até 17 de setembro, por meio do portal www.santander.com. br/universidades.  Fenomenologia de ions pesados - Seminário ocorre no dia 16 de setembro, às 16 horas, no Auditorio Meson Pi, prédio Pierre Auger do Instituto de Física “Gleb Wataghin (IFGW). Será ministrado por Giorgio Torrieri. A organização é de Arlene Cristina Aguilar. Mais detalhes pelo e-mail Orlando@ifi.unicamp.br  Educação do Campo e Agroecologia na Agricultura Familiar e Camponesa - Curso de especialização (lato sensu) será ministrado pela Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri). O objetivo é promover formação para o desenvolvimento

de atividades voltadas à assistência técnica e à extensão rural em áreas de agricultura familiar e reforma agrária. Com carga horária total de 555 horas, o curso segue a Pedagogia da Alternância, sendo dividido em tempos-escola (375 horas) e tempos-comunidade (180 horas). O ingresso no curso se dará por meio de processo seletivo, em três etapas. As inscrições são gratuitas e acontecem até 17 de setembro, mediante preenchimento da ficha de inscrição disponível no endereço http://www.feagri.unicamp.br, mais o envio de documentação. Outros detalhes no link http://www.incra.gov.br/index.php/noticias-sala-de-imprensa/noticias/13436-incra-e-unicamp-oferecem-60vagas-em-curso-de-especializacao-no-campo  Processamento de sinais - A Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC) organiza nos dias 18, 19 e 20 de setembro, a IV edição do Simpósio de Processamento de Sinais da Unicamp (SPS). Abertura do evento: 8 horas, na FEEC. Iniciativa de alunos da Unicamp, o SPS objetiva reunir professores, estudantes e pesquisadores que trabalham na área de processamento de sinais para exposição de resultados de pesquisas e discussão de ideias. Alunos interessados em participar do evento devem entrar em contato com a Comissão Organizadora até 19 de abril. Mais informações pelo e-mail sps.unicamp@gmail.com.  EDP University Challenge - As inscrições para o concurso universitário nacional EDP University Challenge, promovido pela empresa Energias de Portugal (EDP) e pela Premivalor Consulting, estão abertas até o dia 17 de setembro. Trata-se de um desafio a alunos de graduação e de pós-graduação de todo o Brasil, por meio do qual os estudantes, em equipes interdisciplinares de dois a cinco integrantes, mais um professor orientador (opcional) desenvolvem um plano de negócios no setor de energia elétrica, para a empresa EDP. Leia mais: http://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2013/09/06/ inscricoes-abertas-para-concurso-edp-university-challenge  Hepatites virais - A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, por meio da Divisão de Hepatites do Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE), realiza no dia 18 de setembro, o VII Simpósio Estadual de Hepatites Virais. O evento tem como público-alvo médicos, enfermeiros e equipes multiprofissionais de saúde que atuam nas áreas de assistência, prevenção e vigilância epidemiológica das hepatites virais B e C. O objetivo é fornecer atualização científica nas áreas de assistência, prevenção e vigilância epidemiológica das hepatites virais B e C. Inscrições gratuitas podem ser feitas no site http://sistema.saude.sp.gov.br/sde/evento-apresenta.php?evento_ id=111&menu_atual=principal  Fórum de Educação Infantil - Evento ocorre no dia 19 de setembro, às 8h30, no auditório do Centro de Convenções da Unicamp. Inscrições e outras informações no link http://foruns. bc.unicamp.br/foruns/projetocotuca/forum/htmls_descricoes_eventos/arte55.html. Mais informações: 19-3521-5039.  Jornada Endici - Será realizada nos dias 19 e 20 de setembro, no auditório do Laboratório de Estudos Uranos (Labeurb). A abertura ocorre às 14 horas. A Jornada é gratuita e as inscrições podem ser feitas pelo email publabe@unicamp.br ou no local. A coordenação é dos professores Eni Pulcinelli Orlandi e José Horta Nunes. A Endici é uma enciclopédia digital que tem como objetivo compreender o urbano através da linguagem, utilizando como base a perspectiva da análise do discurso.  Trappistas - O trio vocal masculino apresenta repertório variado no Almanaque Café, dia 18 de setembro, às 21 horas. O grupo preza a qualidade musical, mesclando desde peças eruditas a arranjos originais exclusivos de músicas populares brasileiras e estrangeiras, sempre a capella. Formado no fim de 2012, é composto por três profissionais graduados pela Unicamp. Para acompanhar o trabalho do grupo e ter acesso a maiores informações sobre agenda e eventos, acesse a página no facebook, www.facebook.com.br/trappistas, ou entre em contato pelo telefone 19-99253-7178 ou e-mail: wilsonricas@gmail.com.  Fórum de Educação Infantil - O IV Fórum Internacional de Educação Infantil ocorre no dia 19 de setembro, às 8h30, no auditório do Centro de Convenções da Unicamp. Inscrições e outras informações no link http://foruns.bc.unicamp.br/foruns/projetocotuca/forum/ htmls_descricoes_eventos/arte55.html  Copa - Nos dias 20 e 21 de setembro, no período da manhã, acontece o Copa – Cotil de Portas Abertas, ocasião em que Cotil abrirá as portas para o público. O objetivo é apresentar as suas instalações e os cursos oferecidos pela unidade. O Cotil fica na Rua Paschoal marmo 1888, no Jardim Nova Itália, em Limeira-SP. Contatos com o Colégio podem ser feitos pelo telefone 19-2113-3300. Mais informações no site www.cotil.unicamp.br

 Fórum de Esporte e Saúde - Próxima edição ocorre em 20 de setembro, às 9 horas, no auditório do Centro de Convenções. Inscrições e outras informações no link http://foruns.bc.unicamp.br/ foruns/projetocotuca/forum/htmls_descricoes_eventos/saude67.html O evento visa discutir conceitos, impactos e perspectivas futuras da ATS como ferramenta para decisão baseada em evidências nos sistemas de saúde, além de abordar metodologias passíveis de aplicação pela equipe multidisciplinar (área médica, enfermagem, farmácia, odontologia, fisioterapia, nutrição, engenharia clínica e gestores).  Seminário com Raghu Vemuganti - No dia 20 de setembro, às 14 horas, o Departamento de Neurologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) recebe o professor Raghu Vemuganti, da Universidade de Wisconsin (USA). Ele aborda, no anfiteatro do Departamento de Neurologia, o tema “All’s Well That Transcribes Well: microRNAs and Post-Stroke Brain Damage” com introdução do professor Alan Hazell, da Universidade de Montreal. Mais informações: 19-3521-9132.  Encontro de novos docentes e pesquisadores - No dia 20 de setembro, às 14h30, na sala de reuniões do Conselho Universitário (Consu), acontece o VII Encontro dos Novos Docentes e Pesquisadores da Unicamp. O evento contará com docentes e pesquisadores admitidos no período de 1º de Julho de 2012 a 30 de Junho de 2013. É organizado pela Coordenadoria Geral da Universidade (CGU).  Lançamentos - A Editora da Unicamp acaba de lançar os seguintes livros: “Um esqueleto Incomoda muita gente...”, de Walter Neves; “Corpo e pensamento – Alianças conceituais entre Deleuze e Espinosa”, de Cíntia Vieira da Silva, e “Introdução aos Direitos Animais. Seu filho ou o cachorro?”, de Gary Francione. Mais informações sobre as publicações podem ser obtidas no link http://www. editora.unicamp.br/  Teatro - No âmbito do Festival Brasileiro de Teatro (FTB), acontecerá um bate-papo entre alunos da Unicamp e integrantes da companhia Tato Criação Cênica, que se apresentará com o espetáculo “Tropeço” em Paulínia (dia 27, às 20h, no Teatro Ceart) e em Campinas (dia 28, às 20h, no Barracão Teatro). O bate-papo, que ocorre no dia 26 de setembro, a partir das 18 horas, na sala 01 do Departamento de Artes Cênicas da Unicamp, é aberto a todos os interessados. O FTB é um projeto de intercâmbio estadual, único no país, que seleciona espetáculos teatrais de um determinado Estado e os apresenta em outras unidades da Federação. A programação completa do festival pode ser conferida no endereço www.festivaldeteatrobrasileiro.com.br.

Livro

da semana

O universo poético de Raul Pompeia Sinopse: Neste O universo poético de Raul Pompeia, Lêdo Ivo proclama a linhagem impressionista e simbolista de Pompeia. Considera O Ateneu “um romance poemático” e refuta a visão crítica e pedagógica que o catalogava como uma obra realista e naturalista. Essa visão pioneira e fundadora de Lêdo Ivo, lastreada em seu conhecimento do Simbolismo europeu, impera hoje no cenário cultural e universitário. Autor: Lêdo Ivo ISBN: 978-85-268-1003-7 Ficha técnica: 1a edição, 2013; 136 páginas; formato: 10,5 x 18 cm Área de interesse: Literatura, Crítica literária Preço: R$ 32,00

Teses da semana  Computação - “Uma arquitetura para monitoramento da segurança baseada em acordos de níveis de serviço para nuvens de infraestrutura” (mestrado). Candidato: Anderson Soares Ferreira. Orientador: professor Paulo Lício de Geus. Dia 16 de setembro, às 14 horas, no auditório do IC.  Educação Física - “Lesões esportivas no esporte paralímpico: proposta para a coleta de dados” (doutorado). Candidata: Marilia Passos Magno e Silva. Orientador: professor Edison Duarte. Dia 18 de setembro, às 15 horas, no auditório da FEF.  Física - “Estudo da difusão e tunelamento planares para a equação de Dirac em presença de potenciais eletrostáticos” (mestrado). Candidato: Gabriel Gulak Maia. Orientador: professor Stefano de Leo. Dia 16 de setembro, às 14 horas, no auditório da Pós-graduação do IFGW.  Humanas - “Hannah Arendt e Giorgio Agamben: duas visões do Estado de Direito” (mestrado). Candidato: Fernando Henrique Rovere de Godoy. Orientadora: professora Yara Adario Frateschi. Dia 20 de setembro, às 14 horas, na sala multiuso do IFCH.  Linguagem - “O donjuanismo de Stendhal: a figura de Don Juan na construção do “Romantismo” stendhaliano” (mestrado). Candidata: Isabella Cristina Stangherlin Santucci. Orientador: professor Marcos Antonio Siscar. Dia 19 de setembro, às 14 horas, na sala de defesa de teses do IEL.  Matemática, Estatística e Computação Científica “Soluções ground state para algumas classes de problemas elípticos” (doutorado). Candidato: Rafael dos Reis Abreu. Orientador: professor Marcelo da Silva Montenegro. Dia 18 de setembro, às 14 horas, na sala 253 do Imecc.

“Processos estocásticos dependendo diferenciavelmente de uma família de métricas e conexões riemannianas” (doutorado). Candidato: Eduardo de Amorim Neves. Orientador: professor Pedro José Catuogno. Dia 19 de setembro, às 14 horas, na sala 253 do Imecc. “Condições de qualificação para programação não linear” (mestrado). Candidato: Darwin Castillo Huamaní. Orientador: professor Roberto Andreani. Dia 19 de setembro, às 14h30, na sala 321 do Imecc.  Química - “Eletrização de líquidos e sólidos: excessos de carga e efeito sobre as propriedades de superfície” (doutorado). Candidata: Leandra Pereira dos Santos. Orientador: professor Fernando Galembeck. Dia 20 de setembro, às 14 horas, na sala IQ-14.

Destaque do Portal

Labeurb celebra sucesso e faz balanço do Projeto Barracão Laboratório de Estudos Urbanos (Labeurb) da Unicamp celebrou o sucesso das atividades do Projeto Barracão, executadas desde 2011 na região dos Distritos Industriais de Campinas (DICs), com o evento (Com) Viver com Arte(Manhas), em que foram debatidos os resultados e desdobramentos nos dias 9 e 10 de setembro. A iniciativa, que teve apoio do Ministério da Educação (MEC), ofereceu oficinas de cinema, artesanato, informática básica, edição de áudio e vídeo, desenho digital, leitura, contação de histórias, teatro infantil, fotografia e escrita. Mais de 200 moradores desta região carente do município, entre crianças, adolescentes e mulheres adultas participaram das oficinas. “A ideia do Projeto Barracão surgiu em 2008 de uma conversa com lideranças do núcleo residencial Eldorado dos Carajás, que tinha uma demanda por atividades desse tipo para suas mulheres e crianças. Quando da publicação de um edital do MEC em 2010, submeti um projeto para trabalhar com arte e cultura na região”, recorda a professora Cristiane Dias, coordenadora adjunta do Labeurb e responsável pelo projeto nos DICs. “O objetivo foi produzir outros sentidos para a vida daquelas pessoas, sentidos que elas nem sabiam que eram possíveis, e possíveis realizando coisas muito simples.”

Cristiane Dias conta que as oficinas de fotografia para crianças de 7 a 12 anos, por exemplo, resultaram em uma exposição levada ao Centro de Convenções da Unicamp no ano passado; e as fotos clicadas pelos adolescentes da mesma oficina estão expostas no saguão do auditório do Labeurb durante o (Com)Viver com Arte(Manhas). “Nas oficinas de informática, recebemos cerca de 200 crianças, apesar das condições limitadas, com apenas seis desktops, o que implicou turmas pequenas, muitas vezes com duas crianças por computador.” Segundo a coordenadora, também foram promovidos inúmeros trabalhos de literatura a fim de trazer o livro para o dia a dia das crianças, com leituras, contação de histórias e criação de histórias próprias recorrendo a fantoches. “Para as mulheres, oferecemos sessões de cinema, sempre seguidas de debates. Não havia um tema específico, apenas conversamos sobre o que o filme tinha a dizer para elas: era um espaço de convivência, assim como as oficinas de artesanato, onde o produto que produziam se tornava secundário.” A equipe do Projeto Barracão foi composta pelos docentes pesquisadores Eni Orlandi, Greciely Costa e Marcos Barbai; pelos pós-graduandos Vinicius Santos, Andrea Klaczko, André Coelho e Lucas Guedes; pelos graduandos Vinicius Souza Silva e Lígia Rolfsen; pelos alunos do Programa de Iniciação Científica Júnior (PIC-Jr) Giulia Padovan,

Foto: Antonio Scarpinetti

A mesa do evento: trabalhos no âmbito do Projeto Barracão vão ter continuidade

Carolina Godoy e Rodrigo de Oliveira; pelos colaboradores Silas Sinotti, Cida Grecco, Elizete Azambuja, Ana Paula Camelo, Gabriel Santos, Eduardo Rodrigues, Wagner Cantori e Débora Massmann; e com suporte técnico de Fábio Bastos, Leci Mary, Carlos Bueno de Moraes Filho e Dagmar Moreira. O prazo de financiamento do projeto expirou, mas Cristiane Dias pretende dar con-

tinuidade aos trabalhos. “Minha expectativa é de que outras pessoas assumam o projeto posteriormente, ou melhor, gente da própria comunidade, o que seria a realização do nosso grande sonho: que a partir dos efeitos produzidos no bairro, eles mesmos deem sequência ao que foi construído, como a biblioteca e o espaço para as crianças.” (Luiz Sugimoto)


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Campinas, 16 a 22 de setembro de 2013

Diário traz à tona

impasses da saúde mental Tese defendida na FCM e publicada em livro sugere novas propostas para o atendimento psiquiátrico EDIMILSON MONTALTI Especial para o JU

araisópolis é uma cidade situada na Serra da Mantiqueira, no Sul de Minas Gerais. Em 2005, o médico psiquiatra Aidecivaldo Fernandes de Jesus, também chamado de Aidê, foi convidado para implantar um serviço de saúde mental na cidade. A proposta inicial era a implantação de um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), o que acabou não ocorrendo. Para um CAPS funcionar, a cidade precisaria, na época, ter mais de 20 mil moradores, de acordo com portaria do Ministério da Saúde (MS). A população local não chega a isso. Com o apoio do gestor local, Aidê decidiu traçar outra estratégia. O psiquiatra montou, então, um ambulatório multiprofissional em saúde mental nos moldes do Programa Saúde da Família. O ambulatório foi crescendo ao longo desses anos: foram incorporados um psiquiatra, duas psicólogas, uma terapeuta ocupacional, uma assistente social, três agentes comunitários da saúde, uma enfermeira, uma técnica de enfermagem, um administrativo e um auxiliar de serviços gerais. Hoje são 11 profissionais. O psiquiatra criou um diário coletivo chamado de “Dom Queixote”, em homenagem ao épico de Miguel de Cervantes, “Dom Quixote de La Mancha”. Por alguns meses, registrou suas reflexões e a dos trabalhadores – estes de forma anônima. Cada um escrevia usando um codinome identificado por cores (leia trechos nesta página). Todos podiam ler e escrever. Dificuldades de toda ordem eram relatadas, incluindo relacionamento interpessoal, de ética com relação aos pacientes e até as brigas com os gestores. Mas também havia registros de sucessos, êxitos e alegria. Em 2008, ao entrar na Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, os registros da equipe serviram de base para sua tese de doutorado em Análise Institucional e Saúde Coletiva, defendida em 2012. A orientação foi da professora e socióloga Solange L´Abbate, do Departamento de Saúde Coletiva. O trabalho acabou virando o livro “Saúde mental no contexto da realidade brasileira: As peripécias de uma equipe multiprofissional”, publicado recentemente pela editora Appris.

CAMPO MINADO

Está em vigência no país, há alguns anos, um debate público sobre a chamada “reforma psiquiátrica brasileira”. Entra ano, sai ano, diversos personagens se posicionam a favor ou contra: psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, enfermeiros, médicos sanitaristas, políticos e pacientes. Em 2009, cerca de 2.300 pessoas marcharam em Brasília por uma Reforma Psiquiátrica Antimanicomial. Em 2010, também em Brasília, aconteceu a IV Conferência Nacional de Saúde Mental (CNSM). A aposta de Paraisópolis foi defendida por Aidê nessa conferência. “Fui delegado nacional e quis levar essa discussão para lá. Até então os municípios pequenos não tinham voz. Esse modelo foi aceito”, disse Aidê.

Trechos do livro “Enfim, prezado diário, tive mais um dia de trabalho. Sinceramente falando, muito semelhante a tantos outros: brigamos e construímos na reunião, cobramos por uma atuação clínica eficaz, escutamos algumas pessoas, não conseguimos resolver a demanda de outras, não nos foram dadas todas as condições necessárias para uma atuação, foi tenso, cansativo... Mas revigorante ao seu final. (...) Portanto, Queixote, só posso finalizar dizendo que muito mais que queixar a você, sua existência nos permitiu conviver mais honestamente... Não deveria ser esse o principal objetivo de todos os cotidianos?”. Aidê. “Pessoal, parceiros de trabalho. Hoje venho ao Dom Queixote para dividir com vocês minha ‘inquietação’. Tenho observado alto índice de abstenção nos atendimentos agendados comigo (...) Têm sido frequentes os pedidos para que eu volte a oferecer atendimento individual por partes dos pacientes em trabalho grupal. Confesso que endureci no meu posicionamento que privilegia o atendimento grupal em detrimento do atendimento individual, mas as ‘ausências em sessão’ têm me forçado a rever o meu fazer e levantar questionamento, inclusive sobre a minha ‘adequacidade técnica’. Angustio-me com esta. Às vezes eu me pergunto se eu saberia mesmo trabalhar (...)”. Branca, em 9 de agosto de 2010.

Foto: Antoninho Perri

À luz da análise institucional – metodologia que busca a transformação das instituições a partir das práticas e discursos de seus sujeitos –, Aidê analisou o dia a dia do serviço clínico em saúde mental em Paraisópolis – no qual o trabalho não é focado apenas no atendimento do psiquiatra. Ele é mais um profissional na engrenagem do cuidado multidisciplinar em saúde mental. “É praticamente unânime, há tempos, o reconhecimento de que uma atenção à saúde de qualidade depende do trabalho integrado de diferentes profissionais numa mesma equipe”. Aidê ousou utilizar um método de pesquisa-intervenção, no qual todos foram participantes. O resultado é uma nova proposta em saúde mental”, explica Solange L´Abbate. E a partir desse trabalho, Aidê saiu apregoando aos quatro ventos aquilo que viu na prática clínica em saúde mental na pequena cidade do interior de Minas Gerais e aprendeu a partir de muitas reuniões e estudos sobre políticas públicas de saúde. Segundo Aidê, analisar o serviço clínico diário utilizando conceitos aprendidos na Universidade coloca a saúde mental em perspectiva. “O modelo de atendimento aos pacientes com transtornos mentais adotado em Paraisópolis é inovador e pode ser implantado em 70% das cidades brasileiras com menos de 20 mil habitantes. É melhor atender os pacientes próximo da casa deles a deslocá-los para outra cidade ou centro especializado”, diz Aidê.

“Fiquei muito satisfeito com a conversa que tive com Vermelha, Laranja e Aidê, posso dizer que saí mais capacitado da sala, admito que esteja completamente equivocado, quando digo que meu jeito de ser é este, apresentado à minha colega, que a fez ficar magoada. (...) Pretendo e vou me esforçar ao máximo para cumprir minhas obrigações e estou disposto a trabalhar em equipe”. Verde, em 2 de março de 2010. “Sou um ‘usuário em tratamento’, confesso que até ontem nunca tinha relacionado este termo com a minha pessoa, (olha que usei muita droga), mas tinha me esquecido disso, porque talvez de certa forma tenha ou tinha preconceito, com relação ao que o pessoal de fora olharia para mim, hoje trabalhando num serviço de saúde metal, às vezes tendo que conversar com um paciente sobre droga, confesso que fico meio inseguro, porque acho que é como se estivesse falando para mim mesmo, chego às vezes a pensar que sou diferente dos que usam, por estar na saúde mental, mas com isso tudo acontecendo, ‘o querer ajudar’ acaba sendo mais forte. Que bom, é aí que percebo que também sou um deles, porém em tratamento. Falo assim porque sabemos que têm muitos que não querem, não têm condições, sei lá porque, não se tratam. É muito satisfatório ser assistido por todos, penso que olham diferente para mim. Estão sendo fortificantes estas vivências”. Verde, em 4 de fevereiro de 2010.

O psiquiatra Aidecivaldo Fernandes de Jesus: “A atenção à saúde de qualidade depende do trabalho integrado de diferentes profissionais numa mesma equipe”

Segundo Aidê, a última recomendação do Ministério da Saúde – publicada no Diário da União no mês de maio –, alterando a população mínima para implantação de um CAPS para 15 mil habitantes, é fruto do relatório final dessa conferência. “Acho que conseguimos sensibilizar o Estado brasileiro da necessidade de rever algumas diretrizes. Para mim, a atual Portaria do Ministério está mais flexível e adaptável à realidade de mais municípios de pequeno porte. Por outro lado, permanece o desafio de estabelecermos condições para implantação de um serviço de saúde mental em 100% dos municípios brasileiros”. De acordo com o psiquiatra, a experiência de Paraisópolis também vai contra a recomendação do Ministério da Saúde para que um CAPS regional seja a porta de entrada da rede de atenção em saúde mental. Em sua opinião, a Estratégia Saúde da Família (ESF), que há 16 anos é o modelo estruturante da atenção primária em saúde no Brasil, deveria ser essa entrada. “Para um CAPS funcionar, nós precisaríamos fazer um consórcio entre duas ou três cidades. É uma regionalização. Mas isso traz complicações. O CAPS focaliza seus atendimentos em casos graves e persistentes. E não é esse o perfil epidemiológico de Paraisópolis”, revela o psiquiatra. Até outubro de 2011 foram atendidos 2.880 usuários no ambulatório de saúde mental da cidade mineira, perfazendo uma média de 800 atendimentos mensais, com o registro de 40 a 60 novos usuários por mês. A maioria é composta de mulheres com idade entre 19 e 60 anos, com problemas de violência doméstica, depressão e ansiedades leves. Os homens atendidos, em sua maioria, tinham problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas, dentre elas o crack. A estrutura física atual do ambulatório atende todos esses pacientes, segundo o psiquiatra. O salário dos funcionários é bancado pela prefeitura. O que falta, na opinião de Aidê, é a implantação de um Centro de Cul-

tura e Convivência (CECCO) na cidade para a promoção da saúde mental. A prefeitura de Paraisópolis está negociando com o Estado a criação desse centro. A proposta já tomou rumos regionais. Em várias cidades da Serra da Mantiqueira a proposta de Paraisópolis é discutida. Adotando a ESF, Aidê propõe que cada município tenha sua equipe em saúde mental para fazer a visita domiciliar dos pacientes e atendê-los em seu próprio território, além da inserção do agente comunitário de Saúde na equipe do CAPS. O Centro de Cultura e Convivência é um acréscimo necessário à estratégia. “Por meio de um espaço para a realização de oficinas terapêuticas, arte e cultura, você insere o portador de transtornos mentais no social e faz a promoção da saúde desses pacientes sem a necessidade de medicalização. É isso que defendo, além da terapia”, explicou. Assim como o personagem “Dom Quixote”, Aidê está sempre com o livro a tiracolo, fazendo palestras e dando autógrafos. “Quero levar a discussão de como construir uma equipe nesse modelo de atendimentos às pessoas com transtornos mentais para todos os lados. Ao adotar essa estratégia, o município e/ou a região já estariam estruturados para receber, futuramente, um CAPS potente e eficiente no atendimento”, diz Aidê.

Serviço Livro: Saúde Mental no contexto da realidade brasileira: as peripécias de uma equipe multiprofissional Autor: Aidecivaldo Fernandes de Jesus Editora: Appris Páginas: 259 Preço: R$ 62,00


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Campinas, 16 a 22 de setembro de 2013

Há 118 anos na praça

Fotos: Reprodução/ Divulgação

ISABEL GARDENAL bel@unicamp.br

Banda Ítalo-Brasileira de Campinas e a Banda Carlos Gomes são uma única instituição. E, com o tempo, passaram a adotar dois modelos completamente distintos. Vieram as mudanças sociais e modificaram as vestimentas, os instrumentos, o tipo de repertório e os locais das apresentações. Mesmo com 118 anos, a banda ainda está na ativa e provou que acompanhou a evolução da história. Essa é a conclusão da dissertação de mestrado do músico Vilmar Sartori, intitulada “Banda Ítalo-Brasileira/Carlos Gomes: história e memória de uma corporação musical centenária na cidade de Campinas”. O estudo acaba de ser apresentado ao Instituto de Artes (IA), orientado pela docente da unidade, professora Lenita Waldige Mendes Nogueira. Um modelo, explica o autor, está relacionado à Banda Ítalo-Brasileira e à primeira metade do século 20, e outro à Banda Carlos Gomes, que veio depois. “Verificamos, no entanto, que a banda de música, de um modo geral, tem grande capacidade de atuar em novas realidades, em novos modelos de entretenimento e em novas formas de gosto popular. Prova disso, é que ela está aí.” Segundo Vilmar, apesar do perfil que havia daquela banda tradicional, com seu repertório de valsas e dobrados apresentado em praças públicas quase deixar de existir, ela não desapareceu. Permanece viva, mormente em localidades do interior do Estado de São Paulo e do Estado de Minas Gerais. O autor do estudo tinha pensado em investigar as bandas de música da região de Campinas e contextualizá-las com a situação das bandas em outras regiões do país. Mas o seu recorte o levou a uma só banda centenária da cidade, fundada como Ítalo-Brasileira em 4 de julho de 1895. Esta corporação surgiu como iniciativa de imigrantes italianos que se estabeleceram em Campinas, como parte do grande fluxo migratório que chegava ao Brasil para suprir a demanda por mão de obra nas lavouras de café e em função da Abolição da Escravatura. Muitos deles se estabeleceram na região, o que ofereceu subsídios ao mestrando para fazer uma análise do século 20, com marcadas transformações sociais, tecnológicas e musicais. A nomenclatura “Banda Ítalo-Brasileira” foi encontrada também em Itatiba e em Jundiaí, indicando a existência, no mesmo período, de corporações musicais homônimas, além de outras da região ligadas a colônias italianas, como em Serra Negra, preponderantes à criação de diversas bandas de música. Ainda é forte a presença italiana na geração de conjuntos musicais e bandas. A partir de 1939, com a Segunda Guerra Mundial, o presidente Getúlio Vargas baixou um decreto proibindo qualquer conotação, em qualquer instituição do país, que fizesse alusão à Itália. Em Campinas, mesmo o Circolo Italiano Uniti, em dado momento, mudou de nome por causa desse decreto, passando a se chamar Casa de Saúde de Campinas. O mesmo ocorreu com o time de futebol do Palmeiras, o Palestra Itália. Nessa ocasião, em 1943, o maestro Carlos Gomes foi homenageado, emprestando seu nome à antiga corporação, que passou à Banda Municipal Carlos Gomes. [As pesquisas, no entanto, não identificaram qualquer relação com a municipalidade, em caráter oficial.] Cabe lembrar, que o compositor campineiro era vivo quando a Banda Ítalo-Brasileira surgiu em 1895 (ele faleceu em 1896, um ano depois). Nos acervos de partituras foram encontradas transcrições para banda das oito óperas de composição do maestro campineiro, mais o poema vocal sinfônico e um grande número de árias, canções e modinhas, contribuições para o repertório da banda. Coincidência ou não, a partir da mudança de nomenclatura da instituição, os espaços sofreram modificações, bem como o gosto musical e o repertório da banda, agora mais afinado com o público e com os novos tempos. Ao modificar também o tipo de entretenimento, a banda se distanciou das praças e do coreto – principal reduto das apresentações.

A

EVOLUÇÃO

Na virada do século XIX para o XX, houve grande proliferação de bandas de música no Brasil. Não havia rádio, TV ou outras formas de música de fácil acesso. As festas cívicas, procissões religiosas ou apenas música para entretenimento acabavam pedindo uma banda ou um conjunto ao vivo. A banda mostrou-se mais adequada, por causa da sonoridade volumosa, fácil deslocamento e logística, do que uma orquestra ou um outro tipo de conjunto.

Publicação Artigo “Transformações sociais no Brasil e suas implicações para as bandas de música”. XXII Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música (Anppom), 2012 (João Pessoa – PB). Dissertação: ���Banda Ítalo-Brasileira/Carlos Gomes: história e memória de uma corporação musical centenária na cidade de Campinas” Autor: Vilmar Sartori Orientadora: Lenita Waldige Mendes Nogueira Unidade: Instituto de Artes (IA)

A corporação musical em diferentes momentos: a banda soube evoluir, mesmo enfrentando períodos de turbulência

Começava a se firmar no repertório da Banda Ítalo-Brasileira a música popular e muitas foram as partituras do gênero, como o maxixe, o choro e o samba, além da reprodução de gêneros populares europeus, como os xotes, as mazurcas, as polcas, as quadrilhas francesas e, claro, italianas, já com sotaque abrasileirado. Através da análise das partituras, verificava-se uma aplicação acentuada de ritmos oriundos dos sambas, dos choros e dos maxixes. Em princípio, os gêneros populares eram europeus abrasileirados. A seguir, os dobrados imprimiram a marca da banda de música, então usados para treinamento de tropas e marchas. De imediato caíram no gosto popular, saindo dos quartéis e migrando para as bandas civis e as praças. A Banda Ítalo-Brasileira desempenhou, junto com um repertório de salas de concerto, um repertório de gosto popular, onde os espaços eram as praças, festas religiosas e bailes. Para as “domingueiras”, na Praça Carlos Gomes, eram executadas transcrições de aberturas de óperas e árias. Esses dois perfis, a Banda Ítalo-Brasileira desenvolveu com competência. Por outro lado, surgiram alguns impactos tecnológicos. No início do século XX, crescia no Brasil a demanda por aparelhos de reprodução fonográfica e de discos de vinil; uma nova maneira de se ouvir música começava a se firmar como hábito em parte da sociedade. As audições aconteciam em casas, clubes e outros ambientes. “O sistema de reprodução fonográfica representou o que podemos chamar de princípio da intervenção tecnológica no papel da banda de música”, revela Vilmar. Veio a primeira transmissão por rádio no Brasil em 1922, ano do centenário da Independência, que, a partir de então, afetaria as atividades da banda. Ao mesmo tempo, a Ítalo-Brasileira aderiu à tecnologia que, no começo, a pôs em xeque. Passou a tocar as músicas lançadas no rádio, como os sambas carnavalescos do Rio de Janeiro. As bandas aproveitavam para fazer arranjos e transcrições de músicas que tocavam no rádio para executar ao vivo. Isso se prolongou e pode ter impulsionado novamente a agenda da banda, por trazer ao público o que era novidade. A interferência foi benéfica, reflete o mestrando. A TV chegou ao Brasil promissora em 1950, reunindo som e imagem. Passou a ter programas de auditório, com bandas e orquestras ao vivo. Gerou um impacto nas bandas que executavam aquele tipo de repertório que as pessoas ouviam em casa, levando-o aos locais abertos. A indagação na mídia era: “agora que a TV adentrou os lares, o que será das bandas de música?” Com o cinema foi a mesma coisa. Depois vieram a Internet, o MP3, os eventos realizados nos shoppings. Aí o impacto foi ainda maior, distanciando o público das praças, com a violência e o barulho das ruas. “O impacto tecnológico e a mudança nos costumes fizeram esse distanciamento”, observa Vilmar. Na pesquisa, o foco foi a banda de música, que se diferencia de uma banda de rock. “Inclusive é uma grande dificuldade traduzir o termo para o inglês. Pode ser wind band, brass band, não havendo ao certo uma expressão que a defina”, conta ele. “Nosso trabalho fala de um tipo de banda tradicional, com instrumentos acústicos, sopros e percussão, que se exibia nas praças, para o povo.” Para a Banda Carlos Gomes hoje, essa é uma questão mais do perfil de uma banda sinfônica, seguindo padrões que ocorrem em várias partes do mundo. Não são transcrições do repertório sinfônico de orquestra e sim composições originais para bandas sinfônicas ou para orquestras de sopro, como vem sendo nomeada.

RESGATE

A Banda Carlos Gomes, anteriormente Ítalo-Brasileira, é a mais antiga de Campinas. “Trata-se de um patrimônio que teve reconhecimento em período áureo e que não é apenas um patrimônio cultural da cidade. Temos aqui um arquivo vivo e musicológico de extrema relevância”, situa Vilmar. “Chamo a atenção dos gestores de cultura para valorizarem essa banda, a qual resgata e preserva essa história.” Poucas bandas, recorda ele, atravessaram mais de um século de vida. São os casos da banda de Itu e a de Limeira. “Todas elas mereceriam um mecanismo que trouxesse mais conforto às pessoas que gratuitamente as mantêm funcionando.” Mas a Banda Ítalo-Brasileira, particularmente, teve momentos de glória, como a recepção a Santos Dumont, em 1903, que esteve em Campinas para a solenidade de lançamento da pedra fundamental do túmulo de Carlos Gomes. Em 1922, a banda participou de uma exposição internacional no Rio de Janeiro, comemorativa ao centenário da Independência do Brasil, com a presença de 11 bandas, entre elas a Portuguesa e a da Real Esquadra Inglesa. Essa banda ainda contribuiu para a criação da Sociedade Sinfônica Campineira em 1929, hoje a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, inclusive com empréstimo de sala para ensaio, instrumentos, músicos, intercâmbio de maestros, conforme atestam documentos encontrados nos acervos da corporação. A sede da banda dispõe de um acervo anterior à sua fundação. No total, são quase duas mil partituras manuscritas, além de fotografias, documentos e atas que estão sob a sua guarda, na Rua Benjamin Constant, 1.423. Em 2006, o prédio foi restaurado com recursos da Lei Rouanet. Vilmar também pesquisou documentos no Centro de Memória Unicamp, Centro de Ciências, Letras e Artes e Acervo da Banda Carlos Gomes. A investigação ocorreu entre 2011 e 2013. No momento, ele se dedica à pesquisa sobre banda, mas não deixa de atuar em música. Toca em eventos e seu último trabalho, antes da dissertação, foi como regente da Orquestra Sinfônica de Barretos. O mestrando fez graduação em Música, modalidade Regência, no IA. E muito do que escreveu deveu-se à sua convivência com o meio musical. Filho de músico de banda, quando menino iniciou estudos com o pai, em Votuporanga. Foto: Antonio Scarpinetti

O músico Vilmar Sartori: “Banda tem grande capacidade de atuar em novas realidades”


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