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Campinas, 9 a 15 de setembro de 2013 - ANO XXVII - Nº 574 - DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

IMPRESSO ESPECIAL

9.91.22.9744-6-DR/SPI Unicamp/DGA

CORREIOS

FECHAMENTO AUTORIZADO PODE SER ABERTO PELA ECT Foto: Divulgação

O fio da vida 6e7

Pesquisadores da Unicamp desenvolveram um fio de sutura enriquecido com células-tronco que acelera a cicatrização de fístula intestinal. Os testes foram feitos durante pesquisa de mestrado do biólogo Bruno Bosch Volpe, sob orientação da professora Ângela Cristina Malheiros Luzo, da Faculdade de Ciências Médicas. A metodologia foi patenteada.

Imagem microscópica mostra células-tronco (quimicamente marcadas em verde) aderidas aos filamentos do fio de sutura

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Amazônia boliviana abriga sambaquis O Banco Mundial e sua rede de interlocutores

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As hidrelétricas e a urbanização de São Paulo Software monitora teste in vitro em tempo real

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Uma opção interativa para telespectadores Ondas sonoras ajudam a desobstruir pulmões


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Campinas, 9 a 15 de setembro de 2013

TELESCÓPIO

CARLOS ORSI carlos.orsi@reitoria.unicamp.br

Foto: PLoS ONE/ Lombardo U, Szabo K, Capriles JM, May J-H, Amelung W, et al./Creative Commons

Sambaquis são descobertos na Amazônia boliviana Uma equipe internacional de pesquisadores, liderada por Umberto Lombardo, da Universidade de Berna, na Suíça, descobriu que pelo menos três das “ilhas de floresta” existentes na região de Llanos de Moxos, na Amazônia boliviana, são, na verdade sambaquis: montes de conchas de animais aquáticos, ossos e carvão, erguidos por ação humana há cerca de 10 mil anos. Essas “ilhas” são elevações do solo cobertas por árvores, que se destacam em meio à vegetação baixa da região. “Centenas de ‘ilhas de floresta’ (...) espalham-se por Llanos de Mochos”, descrevem os autores em artigo publicado no periódico online PLoS ONE. “Pouco se sabe de sua origem: sua existência já foi atribuída a processos naturais, como a formação de cupinzeiros e erosão (...) Embora seja provável que algumas dessas ilhas tenham origem natural e outras sejam obra de povos do Holoceno tardio, este artigo informa a descoberta de três ilhas que são, de fato, sambaquis antropogênicos do Holoceno médio e inferior”. O Holoceno é a época geológica atual, que teve início há 11,7 mil anos. Os sambaquis bolivianos contêm uma camada antiga, feita principalmente de conchas de caramujos, e uma camada superior de matéria orgânica, que contém cerâmica, ferramentas feitas de osso e ossos humanos. Entre as duas, há uma fina camada de argila queimada e terra. Datação por carbono 14 indica que seres humanos chegaram à região 10,4 mil anos atrás. Os sambaquis foram crescendo ao longo de 6 mil anos.

Perdão é mais fácil em relacionamentos longos É mais fácil perdoar uma traição se ela acontece depois de um longo período de relacionamento. Já traições cometidas logo no início da relação são tratadas de modo mais impiedoso. É o que indica o resultado de uma série de experimentos realizada por pesquisadores dos Estados Unidos, divulgado no periódico PNAS. Para testar o efeito da duração do relacionamento na reação à traição, os pesquisadores convidaram voluntários a participar de um jogo pela internet, no qual um dos parceiros recebia US$ 8 e tinha a opção de entregar ou não o dinheiro ao outro. Se a doação fosse feita, a verba era triplicada – chegando a US$ 24 – e o segundo jogador tinha a opção de dividir o prêmio meio a meio, ou ficar com tudo para si. Sem que os voluntários soubessem, no entanto, o jogador responsável por decidir o que fazer com os US$ 24 era um robô, programado para trair a confiança do parceiro humano logo no início do experimento, ou apenas mais adiante. De acordo com os resultados obtidos, a probabilidade de o jogador humano voltar a confiar no robô, após a traição, aumentou de modo proporcional ao tempo prévio de interação leal. Um segundo experimento, envolvendo o uso de imagens de ressonância magnética funcional, mostrou que traições cometidas em diferentes momentos da relação são processadas por diferentes regiões do cérebro: quando a quebra de confiança ocorre no início do relacionamento, ela é tratada por áreas vinculadas à resolução de problemas e à análise racional; já quando ocorre num estágio mais avançado, são ativadas áreas do cérebro ligadas a hábitos automáticos. “Essa noção é apoiada pela literatura, que implica que, ao longo do tempo, pessoas tendem a criar modelos mentais de seus colegas que dão base para um proces-

Isla del Tesoro, uma das ilhas de floresta investigadas por Umberto Lombardo

so habitual de tomada de decisões, e que fazem com que desvios, como quebras de confiança, sejam vistos como exceções”, escrevem os autores.

Preocupação com dinheiro reduz capacidade mental Fazendeiros se saem pior em testes de inteligência imediatamente antes da colheita – quando estão com pouco dinheiro – e melhor logo após a safra, quando a perspectiva financeira também é mais positiva. Além disso, pessoas pobres induzidas a pensar sobre questões financeiras e, depois, submetidas a testes de inteligência têm resultados piores do que o de pessoas em boa situação, testadas sob as mesmas condições. Os experimentos que produziram esses resultados são descritos na edição de 30 de agosto da revista Science, no artigo “Poverty Impedes Cognitive Function” (“Pobreza Dificulta a Função Cognitiva”), assinado por pesquisadores dos EUA e Canadá. “Sugerimos que isso acontece porque preocupações relacionadas à pobreza consomem recursos mentais, deixando menos para outras tarefas”, escrevem os autores. “Os pobres têm de administrar uma renda incerta, fazer malabarismos com despesas e aceitar situações difíceis. Mesmo quando não estão tomando decisões financeiras, essas preocupações podem estar presentes e causar distrações”, prosseguem, mais adiante. Em comentário que acompanha o artigo principal, Kathleen Vohs, da Universidade de Minnesota, cita o chamado “modelo de recursos limitados do autocontrole”, segundo o qual o exercício de autocontrole é como o uso intenso de um músculo: provoca cansaço e requer algum tempo de recomposição. Em declaração ao jornal The Washington Post, o economista Sendhil Mullainathan, de Harvard, um dos autores do estudo, disse que o efeito da pobreza na capacidade mental equivale ao de passar uma noite inteira acordado. “Imagine seu estado depois de uma noite em claro. Ser pobre é assim, só que todo dia”. Os autores sugerem que esse estresse cognitivo acaba impedindo que muitas pessoas pobres tomem as decisões que poderiam ajudá-las a melhorar de vida.

Ganhador de Nobel vira senador vitalício na Itália

Fuligem da indústria derreteu os Alpes no século 19

O físico Carlo Rubbia, que dividiu o Nobel de 1984 com Simon Van deer Meer pela descoberta dos bósons W e Z, é um dos quatro novos senadores vitalícios da Itália, nomeados no fim de agosto pelo presidente Giorgio Napolitano. Outro cientista nomeado para a uma vaga vitalícia foi a especialista em células-tronco Elena Cattaneo, da Universidade de Milão. Aos 51 anos, a pesquisadora é bem mais jovem que Rubbia e que a média histórica dos senadores vitalícios. Ela vem tomando posições firmes contra o uso de terapias “alternativas” baseadas em células-tronco, que em tempos recentes começaram a ganhar apoio popular e político na Itália, embora ainda sejam vistas com desconfiança pela ciência. A Constituição italiana permite que o presidente nomeie até cinco senadores vitalícios, que devem ser pessoas de “alto mérito social, científico, artístico ou literário”.

Partículas de fuligem podem ser a solução para um pequeno mistério da ciência climática: por que as geleiras dos Alpes começaram a se retrair a partir de 1865, reduzindo-se a áreas menores que as registradas nos 500 anos anteriores, ao mesmo tempo em que as temperaturas medidas na Europa caíam? De acordo com pesquisa publicada no periódico PNAS, o fato histórico que melhor se correlaciona com a regressão das geleiras é o aumento brutal na queima de carvão para fins industriais, a partir de 1850, inundando a atmosfera com fuligem – minúsculas partículas de cor escura. Como qualquer pessoa que já tenha ficado no sol vestindo uma camisa preta sabe, cores escuras são muito eficientes para absorver calor. Ao pousar na neve, a fuligem acelera o derretimento e expõe o gelo por baixo ao ar e aos raios do sol. Para estabelecer a correlação entre a fuligem e o grande derretimento, os pesquisadores, liderados por Thomas Painter, do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, analisaram núcleo de gelo extraídos dos pontos mais elevados diversos glaciares europeus, para então deduzir como a fuligem teria se depositado nas geleiras mais baixas. Uma simulação de computador mostrou que, quando o efeito da fuligem era levado em conta, a retração das geleiras no século 19 deixava de ser surpreendente.

Bactérias do intestino humano transmitem obesidade a ratos Camundongos que receberam um transplante de bactérias intestinais de seres humanos obesos ganharam mais peso e acumularam mais gordura corporal que os animais infectados com bactérias de humanos magros, diz artigo publicado na edição de 6 de setembro da revista Science. De acordo com os autores do estudo, os animais que vieram a se tornar obesos não consumiam mais alimento que os que ficaram magros. Nessa etapa do estudo, os dois grupos foram alimentados com uma mesma dieta padronizada. Quando os dois grupos de camundongos foram postos em contato – o que permitiu que eles se contaminassem uns dos outros – os animais obesos passaram a ter um perfil mais saudável, enquanto que os magros não foram afetados. Mudanças na formulação da dieta, no entanto, alteraram o resultado: quando alimentados com uma ração criada para simular a comida americana “típica”, de muita gordura e pouca fibra, os camundongos com as bactérias intestinais de obesos não conseguiram se beneficiar da companhia dos colegas magros.

Animais venenosos podem estar por trás de fobia de furos Tripofobia é o nome dado ao medo visceral de padrões formados por buracos ou furos – como o interior de um chocolate aerado, ou uma colmeia: na internet, há vários sites dedicados ao problema, incluindo catálogos de imagens que desencadeiam a reação. Em artigo publicado no periódico Psychological Science, os pesquisadores britânicos Geoff Cole e Arnold Wilkins argumentam que a tripofobia, na verdade, é apenas a exacerbação de uma reação natural, talvez de raiz evolutiva, à aparência de vários tipos de animais venenosos, como certas espécies de cobra ou escorpião. De acordo com nota distribuída pelo periódico, Cole acredita que “todas as pessoas têm tendências tripofóbicas. Mesmo quem não sofre da fobia considera imagens tripofóbicas desconfortáveis”.

UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas Reitor José Tadeu Jorge Coordenador-Geral Alvaro Penteado Crósta Pró-reitora de Desenvolvimento Universitário Teresa Dib Zambon Atvars Pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários João Frederico da Costa Azevedo Meyer Pró-reitora de Pesquisa Gláucia Maria Pastore Pró-reitora de Pós-Graduação Ítala Maria Loffredo D’Ottaviano Pró-reitor de Graduação Luís Alberto Magna Chefe de Gabinete Paulo Cesar Montagner

Elaborado pela Assessoria de Imprensa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Periodicidade semanal. Correspondência e sugestões Cidade Universitária “Zeferino Vaz”, CEP 13081-970, Campinas-SP. Telefones (019) 3521-5108, 3521-5109, 3521-5111. Site http://www.unicamp.br/ju e-mail leitorju@ reitoria.unicamp.br. Twitter http://twitter.com/jornaldaunicamp Assessor Chefe Clayton Levy Editor Álvaro Kassab Chefia de reportagem Raquel do Carmo Santos Reportagem Alessandro Silva, Carlos Orsi, Carmo Gallo Netto, Isabel Gardenal, Luiz Sugimoto, Maria Alice da Cruz, Manuel Alves Filho, Patrícia Lauretti e Silvio Anunciação Fotos Antoninho Perri e Antonio Scarpinetti Editor de Arte Luis Paulo Editoração André da Silva Vieira Vida Acadêmica Hélio Costa Júnior Atendimento à imprensa Ronei Thezolin, Patrícia Lauretti, Gabriela Villen e Valerio Freire Paiva Serviços técnicos Dulcinéa Bordignon e Everaldo Silva Impressão Triunfal Gráfica e Editora: (018) 3322-5775 Publicidade JCPR Publicidade e Propaganda: (019) 3327-0894. Assine o jornal on line: www.unicamp.br/assineju


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Campinas, 9 a 15 de setembro de 2013

Estudo decifra mecanismos do Banco Mundial para ter influência e legitimidade Foto: Antonio Scarpinetti

Tese mostra que instituição articulou rede mundial de interlocutores para respaldar políticas de desenvolvimento ALESSANDRO SILVA alessandro.silva@reitoria.unicamp.br

izer que o Banco Mundial impõe unilateralmente sua agenda ao financiar projetos e disseminar políticas em diversas áreas pelo mundo é, de fato, desconsiderar uma das suas habilidades diferenciais, construída ao longo de décadas de história: a capacidade de encontrar interlocutores alinhados às ideias e políticas que defende e de articular uma “rede de apoio” nos países com os quais se relaciona por meio do financiamento de projetos. Esse mecanismo foi analisado pela pesquisadora Hivy Damasio Araújo Mello, na tese de doutorado “O Banco Mundial e a educação no Brasil: convergências em torno de uma agenda global”, orientada pelo professor Renato Ortiz no Programa de Pós-Graduação em Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. Na pesquisa, o objetivo era analisar a atuação do Banco Mundial levando em conta o papel de um grupo de pessoas, policy makers, professores universitários, especialistas da área de educação, na “acomodação e circulação de ideias” disseminadas pelo Banco Mundial, no debate internacional, em torno das políticas educacionais. “Esses interlocutores nacionais, mobilizados em cada contexto e área, ajudaram e ajudam a fundar a legitimidade do Banco Mundial, essencial para influenciar as mais diversas temáticas no debate sobre o desenvolvimento”, explica a autora. O Banco Mundial surgiu em meio à Segunda Guerra e, de lá para cá, cresceu em tamanho, abrangência e escopo de atuação, segundo a pesquisadora, tornando-se importante financiador, formulador e disseminador de políticas transnacionais em várias regiões do mundo. Na análise que realizou, Hivy destaca a capacidade dessa organização de “reinventar as suas práticas, seus mecanismos de atuação e, sobretudo, o seu discurso no intuito permanente de integrar os países à economia mundial e combater a pobreza”. A partir dos anos 60, o banco começou a atuar na área da educação. “Permanente foi a defesa da educação como central para o crescimento econômico. Nos anos 1990, na esteira dos debates sobre o Consenso de Washington (desregulamentação do mercado, redução do Estado, privatizações), e tendo a educação como medida compensatória das políticas de ajuste estrutural, o Banco Mundial se tornou o maior financiador externo em educação, além de divulgar valores ligados à gestão, avaliação, eficiência e maior participação do setor privado. Nesse contexto, o Banco Mundial era visto, ao lado do FMI, como o maior defensor de políticas neoliberais e suas ações viraram alvo de crítica de vários lados.” Para a autora, muito se analisou sobre como o Banco Mundial impôs políticas aos países, mas comumente as convergências e os alinhamentos entre os lados envolvidos ficaram à margem do debate. “O Banco Mundial tem utilizado largamente mecanismos de coerção, entre os quais as condicionalidades – sobretudo atreladas às políticas de ajuste estrutural. No entanto, é perceptível também o crescente uso de mecanismos menos

Escola indígena em Miracatu, interior de São Paulo: atuação do Banco Mundial na área educacional foi analisada na pesquisa

coercitivos e mais persuasivos, sobretudo após meados da década de 1990”, escreve Hivy. Isto é, as conexões entre o Banco Mundial e os países clientes são complexas, remetendo também a instituições e pessoas em solo nacional com interesses similares aos da organização. No caso do Brasil, um dos maiores clientes históricos do Banco Mundial, a análise do papel de uma intelligentsia, termo da sociologia que a autora resgata para remeter à “ideia de um grupo de intelectuais que partilha uma visão de mundo”, foi ponto chave para refletir sobre as influências dessas relações no setor educacional. “A minha hipótese é a de que, a partir dos anos 1970, a intensificação da circulação de pessoas e ideias entre as instituições e países, mais pontualmente no caso brasileiro, entre algumas instituições de ensino e/ou pesquisa, esferas do governo e organismos internacionais por parte de uma intelligentsia, que assume o papel de policy makers, possibilita identificar uma série de convergências entre as ideias defendidas por esses grupos e as do Banco Mundial. Nos anos 1990, o alcance de posições de poder dessa intelligentsia que analisei criou as condições sociais para que a agenda do banco se confundisse com a do próprio governo brasileiro, mostrando sinais ainda mais claros de articulação”, diz a autora no trabalho. Foto: Divulgação

Hivy Damasio Araújo Mello, autora da tese: “Nos anos 1990, o Banco Mundial era visto, ao lado do FMI, como o maior defensor de políticas neoliberais”

EDUCAÇÃO Os financiamentos do Banco Mundial para a educação no Brasil começaram nos anos 70, durante o período do regime militar, e atingiram seu ápice nos anos 90. Segundo a autora, a fatia de recursos injetados em projetos de educação saltou de menos de 2% do total de investimentos do Banco no país nos anos 1980, para 22,1% (de 1991 a 1994), o que, naquele contexto, ajudou a colocar o organismo no centro do debate. “O Banco Mundial é uma instituição com dada competência técnica e que adquiriu legitimidade, capital simbólico, para opinar, dar diagnóstico e influenciar em várias áreas, a educação é uma delas”, afirma a pesquisadora. “Essa influência, no entanto, não deriva apenas do montante de recursos emprestados, sendo esses, em geral, pouco representativos se comparados ao orçamento total do Ministério da Educação brasileiro. Mas o financiamento dá acesso às decisões e possibilita influenciar. Ainda, apesar das diretrizes globais do organismo quando da escolha dos temas e áreas financiáveis, chama a atenção como foi necessário ao Banco Mundial a existência de intelectuais orgânicos, desses interlocutores em solo nacional, que possuíssem uma concepção de mundo semelhante, para instituir a sua legitimidade.” Na prática, os agentes envolvidos emprestam legitimidade entre si, em um processo que envolve instituições e pessoas que produzem relatórios, estudos e discursos que sustentam as políticas, práticas e projetos incentivados pelo Banco Mundial. Essa “intelligentsia” exerceu papel fundamental na acomodação e divulgação de ideias que, se sugeridas pelo organismo, não eram estranhas aos seus interlocutores nacionais. “Eles reforçam argumentos, antecipam diagnósticos, valores e crenças disseminados pelo Banco, compartilham pressupostos e firmam um solo receptivo às suas políticas e recursos.” A autora dividiu a investigação em três partes: na primeira delas, buscou entender o processo que possibilitou ao Banco Mundial assumir uma posição tão central no debate sobre desenvolvimento; depois, analisou a evolução da forma de tratamento dada à educação pelo Banco e sua influência no surgimento de uma agenda global

para o setor; por fim, avaliou a atuação do organismo na educação no Brasil e os seus principais interlocutores. Para isso, recorreu a documentos e relatórios produzidos e encomendados pelo Banco Mundial, entrevistou funcionários e consultores, entre outras fontes. “O Banco Mundial tem uma capacidade de se reestruturar, de se apropriar de discursos de interesse na academia, de encontrar esses interlocutores, e de reformular o seu próprio discurso, fruto das suas características como organização, mecanismos de atuação e rede de relações que consegue estabelecer em cada contexto ao longo do tempo.” Segundo ela, não se trata de um processo com via de mão única, como se Banco Mundial influenciasse países de fora para dentro. Há ações dos dois lados, um alinhamento de ideias. “No caso do Brasil, as convergências de agendas chamaram mais atenção na medida em que seus interlocutores ganharam legitimidade política e social, e influencia na formulação de políticas públicas nacionais.” De acordo com a pesquisadora, “a presença do Banco Mundial nos projetos traz [no Brasil], além dos recursos financeiros para os componentes do projeto propriamente dito, recursos para estudos e publicações, viagens, consultoria especializada (assistência técnica), legitimidade, e, às vezes, até propaganda”. “Apesar das críticas, o Banco Mundial segue encontrando brechas para influenciar nas mais diversas áreas quando da elaboração de políticas nacionais, e isso merece ser acompanhado de perto”, explica a autora.

Publicação Tese: “O Banco Mundial e a educação no Brasil: convergências em torno de uma agenda global” Autora: Hivy Damasio Araújo Mello Orientador: Renato Ortiz Unidade: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) Financiamento: CNPq


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O acaso que deu certo Foto: Divulgação/ CPFL

Tese revela que as primeiras hidrelétricas de São Paulo foram construídas sem qualquer planejamento MANUEL ALVES FILHO manuel@reitoria.unicamp.br

Brasil possui a matriz energética mais renovável do mundo, com 45% da produção proveniente de fontes como biomassa, etanol e recursos hídricos. Sozinhas, as hidrelétricas respondem por algo como 15% da energia ofertada. Embora a hidroeletricidade tenha grande importância para o país na atualidade, a construção das primeiras usinas em território nacional ocorreu ao acaso, sem qualquer planejamento, a despeito do gigantesco potencial hídrico brasileiro. Este e outros aspectos estão detalhadamente narrados na tese de doutorado da arquiteta Débora Marques de Almeida Nogueira Mortati, defendida recentemente na Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC) da Unicamp. No trabalho, a autora mostra como surgiram as Centrais Hidrelétricas em São Paulo e de que forma elas contribuíram para o processo de urbanização das cidades do interior do Estado. O trabalho de Débora foi orientado pelo professor André Munhoz de Argollo Ferrão e coorientado pelo professor Paulo Pinho, da Universidade do Porto, em Portugal, onde ela realizou parte das pesquisas. O recorte temporal definido no estudo compreende o período que vai de 1890 a 1930, ocasião em que São Paulo dá início ao seu processo de industrialização. “Na minha tese, procuro demonstrar que a disponibilidade de energia foi fundamental para a mudança da economia rural do café para a urbano-industrial no Estado. Nesse contexto, as centrais hidrelétricas constituem parte relevante do patrimônio cultural brasileiro”, considera a pesquisadora. De acordo com Débora, a primeira hidrelétrica do Brasil e da América Latina foi instalada em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1889. A Usina Marmelo Zero foi uma iniciativa do empresário do setor têxtil Bernardo Mascarenhas. No ano seguinte, começou a ser construída a primeira hidrelétrica paulista – a segunda da América Latina –, a Usina de Monjolinho, na cidade de São Carlos, que entrou em operação em 1893. A unidade, hoje sob a responsabilidade da CPFL, ainda mantém os prédios e equipamentos. Logo após a implantação da Monjolinho, outras pequenas hidrelétricas passaram a ser construídas em solo paulista, numa velocidade impressionante. Em vinte anos, metade do Estado já tinha cidades acesas utilizando energia elétrica. No período tomado para análise por Débora, foram instaladas 115 usinas em São Paulo, fato sem paralelo até mesmo em países mais desenvolvidos. “O interessante é que as hidrelétricas foram implantadas inicialmente no interior, nas cidades que tinham relevância econômica para o Estado. Curiosamente, nos municípios de São Paulo e Rio de Janeiro a iluminação pública permaneceu sendo a gás por um bom tempo ainda”, informa a arquiteta. O esforço para levar eletricidade aos mais diferentes pontos do território paulista, conforme a autora da tese, partiu especialmente dos integrantes das elites locais, que estavam em busca de modernização. Baseados nos padrões europeus, notadamente os franceses, os moradores das cidades paulistas queriam romper com o paradigma rural e migrar para o urbano. “A iluminação era o símbolo da modernidade nas cidades da belle époque. Foi esse desejo de modernização que determinou a disseminação das hidrelétricas pelo interior de São Paulo, antes mesmo da chegada da indústria”, afirma Débora. O processo de eletrificação do Estado, continua a pesquisadora, seguiu os caminhos da ferrovia. Com isso, novas fronteiras foram estabelecidas e as cidades, reconfiguradas. “As indústrias, que eram nascentes na ocasião, foram ocupando o espaço entre a ferrovia e a energia. Uma das consequências desse

Vista aérea da Hidrelétrica de Monjolinho, em São Carlos, a primeira usina de São Paulo e a segunda da América Latina

processo foi a criação das vilas industriais”, relata Débora. Segundo a arquiteta, esse processo teve sequência até 1930, quando a economia cafeeira entrou em crise e a indústria começou e se consolidar. “Com o início da era Vargas, e com a necessidade crescente de energia por parte do parque industrial brasileiro, o ciclo das pequenas centrais hidrelétricas chega ao final e tem início o das grandes hidrelétricas”. O dado curioso que está na base dessa trajetória é que, a despeito de o Brasil dispor de um gigantesco potencial hídrico, a geração de eletricidade através dessa fonte natural ocorreu sem qualquer planejamento tanto por parte dos investidores quanto dos gestores públicos da época. Débora explica que o desejo de eletrificação esbarrou inicialmente na indisponibilidade de carvão no Brasil para alimentar as termelétricas, como ocorria na Europa. Diante dessa dificuldade, os fornecedores estrangeiros de equipamento, notadamente dos Estados Unidos, como a General Eletric, decidiram enviar ao país turbinas para serem movidas pela força da água. “Os compradores brasileiros não sabiam muito ao certo o que estavam adquirindo, nem como esses equipamentos funcionavam. Tudo foi feito de forma bem empírica. Assim, os engenheiros, normalmente aqueles que trabalhavam na ferrovia, assumiam a responsabilidade de construção da usina e tratavam de ler o manual de instrução dos equipamentos para saber o que fazer”, relata a autora da tese.

As primeiras experiências, como seria de se esperar, não deram bons resultados. Conforme Débora, ocorreram problemas de diversas ordens durante a implantação das usinas. Houve caso, por exemplo, de equipamentos que ficaram presos na alfândega. No caso da Monjolinho, os responsáveis técnicos depararam com algumas dificuldades, o que fez com que recorressem aos conhecimentos de Thomas Alva Edison, o cientista inventor da lâmpada elétrica incandescente. Não se sabe, porém, qual teria sido a resposta do Edison ao pleito. “Muita coisa não deu certo nesse início. A hidrelétrica de Rio Claro, por exemplo, pegou fogo no dia da inauguração. Além disso, no levantamento que fiz, foi possível apurar que, na primeira década do estudo, algumas usinas foram construídas concomitantemente, mas uma não sabia da existência da outra. As pessoas que tocaram esses projetos promoveram atos heroicos”, avalia a arquiteta.

MUDANÇA DE HÁBITOS

A chegada da energia elétrica não modificou somente o perfil das cidades paulistas, que cumpriram uma espécie de rito de passagem para o contexto urbanoindustrial. A novidade também promoveu mudanças nos hábitos e costumes dos moradores. Uma alteração importante foi o advento das atividades noturnas. Com a disponibilidade da iluminação pública, as pessoas passaram a sair de casa à noite Foto: Antonio Scarpinetti

Débora Mortati, durante a defesa da tese: “Procurei demonstrar no trabalho que a disponibilidade de energia foi fundamental para a mudança da economia rural do café para a urbano-industrial no Estado”

e a assumir compromissos nesse período. “O mesmo ocorreu em relação à criação de mais um turno de trabalho, o noturno, nas indústrias”, destaca Débora. No rastro da eletrificação das cidades, surgiram também inventos dotados de motores e dispositivos elétricos, o que facilitou a vida das pessoas, a da mulher inclusive. Graças às então denominadas “máquinas do conforto”, os atuais eletrodomésticos, as donas de casa puderam substituir o emprego da força física no cumprimento de inúmeras tarefas domésticas, como limpar e lavar. “Mas, a energia elétrica não proporcionou somente bônus às sociedades de então. Trouxe também ônus, visto que as obras para a colocação de postes e os cortes no fornecimento, indispensável para a execução de determinados trabalhos, incomodavam e geravam queixas por parte dos moradores. Alguns chegaram a escrever para os jornais para reclamar dessas inconveniências”, acrescenta a pesquisadora. Para dar embasamento ao seu trabalho, Débora recorreu a diversas fontes, como revistas da área elétrica, livros históricos, documentos e a literatura científica, tanto no Brasil quanto em Portugal, onde cumpriu parte do doutorado sanduíche. “Grande parte do material utilizado na tese encontra-se no arquivo da Fundação Energia e Saneamento, que fica em São Paulo e que mantém um rico acervo bibliográfico e imagético”, informa. A Fundação dispõe de aproximadamente 1.600 metros lineares de documentos técnicos e gerenciais, 260 mil documentos fotográficos, cerca de 3.500 objetos museológicos, 50 mil títulos na biblioteca, além de documentos cartográficos, audiovisuais e sonoros, reunidos a partir de meados do século XIX. Para desenvolver a tese, a autora contou com bolsa concedida pela Euro Brazilian Windows (EBW), Programa Erasmus Mundus para doutorado sanduíche e, no Brasil, pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Publicação Tese: “A arquitetura da eletricidade: o surgimento das pequenas centrais hidrelétricas e o processo de urbanização das cidades do interior de São Paulo - 1890-1930” Autora: Débora Mortati Orientador: André Munhoz de Argollo Ferrão Coorientador: Paulo Pinho Unidade: Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC) Financiamento: Euro Brazilian Windows, Erasmus Mundus e Capes


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Campinas, 9 a 15 de setembro de 2013 LUIZ SUGIMOTO sugimoto@reitoria.unicamp.br

o laboratório do Centro de Engenharia Biomédica (CEB) da Unicamp, uma aluna muito competente na área de biologia, ao estudar a interferência de estímulos ultrassônicos no coração de animais in vitro, viu-se cercada de inúmeros instrumentos com os quais tinha pouca afinidade: além do excitador para gerar e transmitir o estímulo de forma controlada, ela precisava manipular outros instrumentos que faziam as medições dos parâmetros alterados pelo estímulo, como a frequência cardíaca, a força de contração, a temperatura e, detalhe, tendo um cronômetro em uma das mãos. É assim, recorrendo a uma linguagem meio figurada, que o professor Sérgio Santos Mühlen procura tornar claro o objetivo da pesquisa de seu orientado Leard de Oliveira Fernandes: desenvolver uma “Plataforma de controle e análise para dispositivos de aquisição e estimulação de sistemas biológicos”, em dissertação de mestrado apresentada na Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC). “As dificuldades enfrentadas pela aluna para ‘pilotar’ os equipamentos foi o que motivou o trabalho. O olhar de um engenheiro de sistemas permitiria fazer com que os instrumentos utilizados no experimento biológico funcionassem de maneira programada”, explica o docente do Departamento de Engenharia Biomédica da FEEC. Leard Fernandes atualmente é professor da Faculdade Independente do Nordeste (Fainor), em Vitória da Conquista (BA), onde leciona as disciplinas de processamento digital de sinais e de introdução à engenharia, além de coordenar o curso de engenharia de computação da instituição. “A plataforma de software que criamos foi capaz de controlar a geração e a aplicação de estímulos (pulsos de ultrassom) em preparações in vitro de corações de ratos, tornando possível automatizar todo o protocolo experimental de estimulação, bem como capturar os sinais de resposta ao estímulo em tempo real; os sinais também podem ser pós-processados”, informa por e-mail o mestre em engenharia elétrica. De acordo com o professor Mühlen, seu orientado observou que a maior parte dos erros cometidos em experimentações laboratoriais desse tipo devia-se à operação simultânea de instrumentos e que esta dificuldade era crônica entre os pesquisadores de biomédicas. “Erros implicam perda de tempo e também de experimentos, alguns complexos e muito caros. Para estudar um coração de animal é preciso extraí-lo e mantê-lo em ambiente biologicamente estável. Quem se atrapalha no uso dos equipamentos pode perder o órgão, sendo obrigado a refazer todo o trabalho e gastar verba adicional com outro animal de laboratório, que no Brasil não é barato.” O docente da FEEC explica que a partir de perguntas sobre a rotina desejada – tipo, intensidade e duração do estímulo; em que momento acionar cada equipamento – fezse todo o trabalho de programação, sem interferir no poder de decisão do pesquisador. “Todos os instrumentos são controlados por meio de um único software. Quando o experimento está montado, o aluno simplesmente aperta a tecla para rodar o programa, podendo concentrar a sua atenção no evento fisiológico em curso. As reações aparecem na tela em tempo real e é possível repetir o experimento quantas vezes forem necessárias.”

Experimentos em tempo real Estudo desenvolvido na FEEC cria ferramenta que programa atividades com sistemas biológicos em laboratório Fotos: Divulgação

Equipamento usado pelos pesquisadores: controlando a geração e a aplicação de estímulos em preparações in vitro

BRINQUEDO LEGO Resolvido o problema pontual da aluna, Sérgio Mühlen e Leard Fernandes se deram conta do valor da ferramenta também para outros tipos de experimentos. “Propus ao aluno tornar nosso software mais generalista, com capacidade de controlar maior quantidade de equipamentos e programações biológicas que nem imaginávamos existir. Depois de entrevistar biólogos sobre as montagens em laboratório que julgavam mais complicadas, passamos a incorporar essas rotinas ao software, que possui hoje muito mais aplicações do que originalmente.” Mühlen afirma que a ferramenta ainda foi enriquecida com sistemas para permitirem o tratamento estatístico dos sinais de retorno, a partir de um pacote completo de funções estatísticas; a possibilidade de ampliar um trecho do sinal no tempo para observar os detalhes e compará-lo com outro sinal; ou de compactar todos os sinais para Foto: Antonio Scarpinetti

gravá-los. “Há uma infinidade de recursos que podem ser acrescidos e o aluno, que é extremamente criativo, a cada ideia corria para incorporá-la.” O passo seguinte sugerido pelo professor foi que o orientando, mantendo as características desejadas, reescrevesse o software inteiro, tornando-o, do ponto de vista da engenharia de software, elegante e robusto para não travar. “O aluno apresentou uma solução digna da reputação da FEEC no campo da pesquisa. Já tendo uma primeira versão, ele recomeçou do zero desenvolvendo um software todo modulado, sendo que os módulos trabalham em paralelo, ou seja, cada função é independente da outra: se uma travar, as outras continuam funcionando. Não há nada mais desesperador para um biólogo que perder os resultados de uma pesquisa.” Sérgio Mühlen compara o software a um brinquedo Lego, visto que possibilita pôr e tirar funções, ativá-las ou desativá-las, conforme as necessidades de determinado experimento. “Foi essa característica que mereceu elogios da banca examinadora: diante de um novo experimento biológico, não é preciso reescrever todo o software; fazemos uma análise e rapidamente ativamos os módulos a serem utilizados; e, se for o caso, escrevemos um módulo com outra funcionalidade.”

GRANDE GENERALIDADE

O professor Sérgio Mühlen, orientador: “Quando o experimento está montado, o aluno simplesmente aperta a tecla para rodar o programa”

Uma informação adicional enviada por Leard Fernandes é que o software é compatível com diversos equipamentos, dos mais modernos aos mais antigos, dando ao pesquisador maior flexibilidade na utilização da ferramenta, sem a necessidade de investir em equipamentos de alto custo. “A plataforma serve ao estudo de diversas preparações biológicas e, graças à sua grande generalidade, é possível aplicá-la em outras áreas, como em testes de equipamentos, circuitos elétricos e automação de processos de baixa complexidade. Esse sistema vem sendo utilizado no CEB para o estudo dos efeitos contráteis da aplicação do ultrassom de alta potência (USAP) em corações de ratos isolados.”

Trabalhando há 30 anos com instrumentação médica, o professor Mühlen explica que o objetivo do grupo de pesquisadores do seu departamento na FEEC, em geral, é detectar problemas na área médica para tentar resolvê-los construindo ferramentas de engenharia: softwares e, por vezes, hardwares. “Já pude assistir a várias cirurgias de porte e percebo como os médicos se confundem com a quantidade de equipamentos que precisam gerenciar, quando deveriam estar atentos ao paciente. Este software, portanto, nasceu da observação de experimentos biológicos e procedimentos médicos que ganham certa complexidade e roubam muito da atenção do médico ou pesquisador.” De acordo com o docente, o trabalho de Leard Fernandes foi apresentado em dois congressos internacionais e, em ambos, embora a ferramenta não tenha causado surpresa inicialmente, despertou grande curiosidade do público quando se explicou a sua generalidade. “Existem outros softwares com a mesma finalidade, mas se este não é inédito no seu conceito, traz inovações que o tornam muito versátil. Já houve uma primeira discussão quanto a patenteá-lo ou não. Sou de opinião que inovações devem ser repassadas, não vamos ficar desenvolvendo produtos para ganhar dinheiro individualmente. A ideia é fazer com que a propriedade desse software seja da Universidade, disponível para todos os laboratórios interessados. Eventualmente, havendo interesse comercial, podemos discutir a questão dos royalties.”

Publicação Dissertação: “Plataforma de controle e análise em tempo real para dispositivos de aquisição e estimulação de sistemas biológicos” Autor: Leard Fernandes Orientador: Sérgio Santos Mühlen Unidade: Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC)


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Campinas, 9 a 15 de

Fio de sutura com célula acelera a cicatrização de Material desenvolvido na FCM é capaz de acelerar a regeneração de tecidos em fístulas intestinais resultado surpreendeu até mesmo os pesquisadores que acompanhavam a evolução de uma fístula intestinal – uma ferida aberta, provocada por uma falha de cicatrização ainda de origem desconhecida e de difícil tratamento. No terceiro dia após a aplicação de um inédito fio de sutura enriquecido com células-tronco, notaram que a área do ferimento havia diminuído de tamanho, e quase fechado (75%). Trata-se de uma regeneração bem acima da obtida com os atuais recursos convencionais e que aplicam uma longa e complicada recuperação nos pacientes com esse tipo de problema em humanos, que pode durar de oito a dez semanas. Uma fístula intestinal ocorre por uma falha de cicatrização, de uma comunicação anormal do trato digestivo com a pele, ou melhor, uma ferida aberta que dá secreção de dentro para fora e que resulta em altas taxas de desnutrição e de infecção, problemas que dificultam o tratamento e a recuperação dos pacientes, explica a hematologista que orientou o estudo, Ângela Cristina Malheiros Luzo, professora do programa de pós-graduação em Ciências da Cirurgia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), diretora do Serviço de Transfusão e Banco de Sangue de Cordão Umbilical e Placentário e pesquisadora do Hemocentro da Unicamp. No estudo, células-tronco mesenquimais foram as responsáveis pelo “milagre” que acelerou a regeneração de tecidos em testes com animais (ratos). Elas estão no organismo humano porque possuem a capacidade de se diferenciar (transformar-se) em vários outros tipos de células, podendo iniciar a formação de um novo tecido, o que explica o resultado obtido. Na medicina, foram descritas pela primeira vez nos anos 70 e, desde então, pesquisadores têm buscado formas para aproveitá-las, o que não é tão simples, como mostram outros estudos no mundo e experimentos produzidos na Unicamp, para descobrir a melhor forma de transformálas em outros tecidos e implantá-las no organismo. O tempo médio de recuperação de fístulas intestinais em ratos, no tratamento convencional, está próximo do necessário para o tratamento de humanos (até dez semanas). “As células mesenquimais podem ter se transformando em outras células [as que faltavam no local da ferida] ou liberado substâncias que propiciaram a diminuição do processo inflamatório e melhor vascularização na área e ativaram as células-tronco do próprio tecido na área afetada, para que se multiplicassem ali”, afirma Ângela Luzo, sobre o efeito no processo de cicatrização acelerado observado durante a pesquisa de mestrado realizada pelo biólogo Bruno Bosch Volpe. Os efeitos provocados por elas serão estudados pelo Grupo de Multidisciplinar de Terapia Celular da Unicamp, na tese de doutorado do autor do trabalho, quando também deverão acontecer os estudos clínicos, ou seja, os testes em humanos. A grande inovação da pesquisa não foi o uso de célulastronco, mas a metodologia desenvolvida para “injetá-la” na fístula, por meio de um “fio de sutura enriquecido com células mesenquimais”, patenteado pela Agência de Inovação Inova Unicamp. De acordo com os pesquisadores, a simples aplicação das células no local do ferimento, como demonstrado em experimentos com cobaias, não apresentou o mesmo efeito de cicatrização. A pesquisa juntou, com sucesso: um fio de sutura comum, usado há décadas pela medicina; uma cola cirúrgica humana (de fibrina), um selante biológico produzido a partir do plasma do sangue, que não tem contra indicações nem causa reação nos pacientes; e milhões de células tronco mesenquimais humanas, capazes de acelerar a cicatrização. “Com a aplicação do fio, observamos uma recuperação de 90% [média] da área afetada pela fístula, após 21 dias, sendo que em alguns animais a ferida fechou completamente”, avalia Bruno. Em outras pesquisas realizadas no mundo, segundo o estudo brasileiro, foram testadas a aplicação de células-tronco diretamente na ferida (Espanha), mas sem o mesmo resultado de cicatrização, e a produção de um fio semelhante (Estados Unidos), produzido por meio de outro processo, mas em quantidade limitada – na Unicamp, os pesquisadores conseguiram a adesão de células em um fio longo com trinta centímetros, aplicado após dois dias da preparação, mas há uma expectativa de que ele “sobreviva” por sete dias. O grupo brasileiro já tinha avaliado a efetividade da capacidade de adesão de células-tronco na cola de fibrina em um projeto de iniciação científica realizado pela aluna Larissa Berbert, sob a orientação do professor Paulo Kharmandayan, do Departamento de Cirurgia da FCM, e da professora Angela Luzo, hematologista. Essa linha de investigação surgiu a partir de uma aula na disciplina de

Em laboratório, o fio de sutura recebe gotas de células com cola de fibrina, na etapa de produção do fio enriquecido

A PESQUISA PASSO A PASSO

O biólogo Bruno Bosch Volpe no laboratório da Unicamp: microscópio revela células-tronco vivas no fio de sutura e prontas para ajudar na cicatrização

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GRÁFICO COMPARAÇÃO DA EVOLUÇÃO DA ÁREA DA FÍSTULA NOS 3 GRUPOS DURANTE 21 DIAS 0.5 CONTROLES INJEÇÃO FIOS

0.4

ÁREA (mm2)

ALESSANDRO SILVA alessandro.silva@reitoria.unicamp.br

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cirurgia plástica, realizada em 2005 pelo cirurgião plástico Ithamar Stocchero, que questionou a possibilidade de células-tronco aderirem ao fio de sutura. Anos mais tarde, o projeto da Unicamp funcionou porque, em laboratório, foi possível cultivar as células-tronco, aplicálas no fio de sutura e, principalmente, mantê-las vivas, em quantidade suficiente, para que elas entrassem em ação na área do ferimento. Imagens captadas com a ajuda de microscópio mostram as células aplicadas aos filamentos que se entrelaçam no fio de sutura, completamente tomado pela cor verde, que marca cada uma delas, todas vivas, prontas para iniciarem o processo de cicatrização observado.

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Gráfico comparando a evolução da em 21 dias, nos três grupos de r escura mostra que a ferida

INDICAÇÃO Em média, 2% de pacientes submetidos a cirurgias no intestino desenvolvem esse tipo de fístula que serviu como base para os estudos, mas esse número pode chegar a 20% no caso de pacientes de risco, aqueles que estão tomando remédios imunossupressores, debilitados pelo câncer ou são portadores de algumas doenças específicas. “No tratamento convencional, na maior parte das vezes, é feita uma tentativa de sutura direta da fístula, o que é bastante complicado de fazer, ou há um suporte nutricional para o paciente e espera-se que a fístula feche, o que pode demorar,


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e setembro de 2013

as-tronco e feridas 3

A professora Ângela Cristina Malheiros Luzo, orientadora das pesquisas: “Esse tipo de célula existe em todos os tecidos, mas, para extrair, manipular, a gordura é a fonte mais fácil”

Fio de sutura comum, visto no microscópio, demonstrando a ausência de células-tronco: imagem mostra vários filamentos do material

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Fotos: Antonio Scarpinetti /Divulgação

Nas formas alongadas, marcadas quimicamente, célulastronco cobrem fio de sutura enriquecido em laboratório e testado em fístulas intestinais de ratos

Além disso, dois resultados chamam a atenção no estudo: não haveria a necessidade de avaliar a compatibilidade das células-tronco usadas no fio de sutura para os pacientes, como ocorre hoje em determinadas terapias; e não houve sinais de rejeição e inflamação do organismo em relação às células implantadas. Nos experimentos realizados pela Unicamp, fios de sutura foram enriquecidos com células-tronco humanas para aplicação em fístulas intestinais de cobaias (ratos), em um procedimento conhecido como “xenotransplante”. Por enquanto, o tratamento é uma solução ainda cara, mas com potencial de aplicação em vários procedimentos da medicina, particularmente em pacientes de risco, como forma de acelerar a cicatrização e reduzir as complicações em procedimentos cirúrgicos, segundo os pesquisadores. O fio enriquecido tanto pode ser utilizado preventivamente como no tratamento de problemas desse e de outros tipos de fístulas.

FABRICAÇÃO No estudo realizado na Unicamp, as células-tronco mesenquimais foram extraídas da gordura – sim, aquela “substância amarelada” retirada em lipoaspiração é muito rica em uma variedade de células-tronco. “Esse tipo de célula existe em todos os tecidos, mas, para extrair, manipular, a gordura é a fonte mais fácil”, explica a pesquisadora Ângela Luzo. A medula óssea ou do sangue de cordão umbilical seriam outras fontes desse tipo de material. De cerca de 20 ml a 30 ml de gordura, onde existem em torno de um milhão de células mesenquimais, o método permite multiplicá-las em laboratório e, ao final de 20 dias, existirão de 4 a 5 milhões delas, prontas para o processo de fabricação do fio enriquecido. A cola humana de fibrina, usada na produção, foi aprimorada para favorecer a adesão delas às fibras de sutura (veja na arte). Os médicos a usam para conter um sangramento, principalmente quando os pontos não dão conta sozinhos de estancar o sangue.

Na prática, ao absorver o fio enriquecido com células, o organismo recebe o “remédio” que acelera a proliferação de tecido no local da ferida e isso apressa a cicatrização. “Pego o fio de sutura, coloco em cultura, gotejo um milhão de células nele e aplico a cola para que elas fiquem aderidas. Depois que impregnou o material, não solta e elas ficam vivas”, explica Bruno, ao lembrar que haviam três problemas principais a serem superados: que as células morressem em contato com a cola, que ambas não resistissem ao procedimento cirúrgico (aplicação no tecido) e que não houvesse quantidade suficiente delas para ativar o processo de regeneração da área afetada pelo ferimento. Na etapa de testes em animais (ratos), foram acompanhados três grupos: o primeiro, no qual observou-se a recuperação espontânea do organismo; o segundo, de ratos que receberam a aplicação direta de células-tronco mesenquimais; e a terceira, formada por aqueles que tiveram a ferida tratada com os fios de sutura enriquecidos. A próxima etapa da pesquisa é estudar qual foi a função das células-tronco na cicatrização, onde e como elas ajudaram no processo, segundo o biólogo. O Grupo de Multidisciplinar de Terapia Celular da Unicamp planeja produzir, em maior escala, os fios de sutura enriquecidos com células mesenquimais aderidas para a realização de testes em humanos, que devem ocorrer ao longo dos próximos quatro anos.

Publicação Dissertação: “Utilização de fio de sutura com células tronco mesenquimais de tecido adiposo aderidas: Avaliação da cicatrização e recuperação de fístulas enterocutâneas em ratos” Autor: Bruno Bosch Volpe Orientadora: Ângela Cristina Malheiros Luzo Unidade: Faculdade de Ciências Médicas (FCM) Financiamento: CNPq

Recuperação ocorre em menos tempo As setas e a circunferência mostram a ação da cola de fibrina formando uma camada celular ao longo do fio

A cicatrização das fístulas em ratos que receberam fios de sutura enriquecidos com células-tronco mesenquimais ocorreu, em média, 15 dias depois do procedimento, evolução mais rápida e bem diferente do que foi observado nos dois outros grupos de cobaias do experimento – dos que tiveram recuperação natural do ferimento e daqueles que passaram por procedimento de aplicação direta de células-tronco no local da ferida. “Sabemos que esse tipo de célula [mesenquimais] libera vários fatores estimulantes de crescimento, substâncias que melhoram a cicatrização, que diminuem o processo inflamatório na região e que, portanto, poderão ser aplicadas em outros tipos de cirurgias e tratamentos”, afirma a hematologista Ângela Cristina Malheiros Luzo, professora da pós-graduação em Ciências da Cirurgia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, orientadora da pesquisa. No experimento, todos os ratos tinham fístulas intestinais do mesmo tamanho. Os ferimentos foram acompanhados diariamente com o apoio de um programa de computador capaz de avaliar, por milímetro quadrado, a regeneração dos tecidos da área afetada.

as áreas das fístulas (mm2) ratos testados; a linha mais a fechou mais rapidamente

às vezes, 40 dias”, afirma o médico Joaquim Bustorff-Silva, professor e coordenador do Departamento de Cirurgia da FCM, que participa do grupo de pesquisa. Quando estiver acessível à medicina, a nova tecnologia permitirá um “tratamento simples” e deve reduzir o tempo de recuperação dos pacientes. “Isso diminuirá muito a necessidade de internações, as complicações por causa das fístulas, mas, basicamente, reduzirá muito o tempo para a resolução do problema”, avalia o professor. A ferida aberta degrada a saúde do paciente, provoca perda de peso, desidratação, entre outros problemas.

Segundo o autor do estudo, o biólogo Bruno Bosch Volpe, o grupo de cobaias que não recebeu nenhum tipo de tratamento, após 21 dias, apresentou pouca evolução depois de praticamente o dobro do tempo esperado para a cicatrização. “No outro grupo, que recebeu as células-tronco, semelhante ao realizado por pesquisadores espanhóis, a recuperação foi de 70% (da área afetada pela fístula). Com a aplicação do fio, no mesmo período, a recuperação média ficou em 90%”, explica. Além disso, em três dos nove ratos que receberam a sutura enriquecida, de fato, tiveram cicatrização completa da ferida durante o período observado. O gráfico que mostra a evolução do fechamento da fístula, nos três grupos de cobaias, impressiona, assim como as fotos que demonstram a recuperação completa do tecido da ferida naqueles que receberam o fio com células mesenquimais. “No terceiro dia, o resultado obtido é praticamente igual ao obtido, depois de 21 dias, com a aplicação de células-tronco no local da fístula”, afirma o pesquisador. A aplicação direta das células, sem o fio, foi um experimento realizado na Espanha e reproduzido pela Unicamp para comparação. Lá, pesquisadores realizaram o trabalho voltado para um possível tratamento da doença de Crohn, uma inflamação crônica do intestino, de origem autoimune e ainda desconhecida. Os sintomas e o tratamento dependem de cada caso, mas é comum a ocorrência de dor abdominal, diarreia, perda de peso e febre. Atualmente, não há cura, mas procedimentos para aliviar as complicações enfrentadas pelos doentes. O resultado obtido pela pesquisa demonstra a importância do fio de sutura enriquecido desenvolvido na pesquisa da Unicamp para o processo de recuperação e prevenção de fístulas intestinais. Mais do que isso, a mesma metodologia poder ser experimentada em outros tipos de procedimentos semelhantes, o que aumenta o potencial de uso pela medicina, de acordo com os pesquisadores do Grupo de Multidisciplinar de Terapia Celular. Esse grupo de pesquisa da Unicamp, além de pesquisadores da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), envolve ainda as Faculdades de Engenharia Mecânica (FEM), Engenharia Química (FEQ), mais os Institutos de Biologia(IB), Química (IQ) e Física (IFGW), além do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Biofabricação (Biofabris) e o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS).


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Campinas, 9 a 15 de setembro de 2013

Do berçário

ao correio virtual

Foto: Antonio Scarpinetti

Funcionária da FCA, em Limeira, desenvolve projeto institucional de comunicação MARIA ALICE DA CRUZ halice@unicamp.br

ovem não lê mais e-mails acadêmicos. A menos que esteja esperando um convite ou uma resposta deveras atraente. Essa constatação, em 2012, levou uma equipe de funcionários da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) de Limeira a criar um perfil de sua área acadêmica no Facebook. Como o plano de trabalho de Karina Venâncio, desde que ingressou na FCA em 2011, era justamente a parte de atendimento e comunicação, coube a ela desenvolver a página e ‘fazer funcionar’ a comunicação, definindo meios de abordagem, publicações e captura de conteúdo. Foi assim que conseguiu “laçar” os alunos para estabelecer uma comunicação eficaz com a galera desta chamada era da tecnologia. A inquietação jovial de quem há muito tempo já era adepta da comunicação por rede social não suportou a demora ou a falta de retorno a e-mails. “Havia dificuldade. Tinha problema em comunicar coisas com prazo. Era muito difícil. Como não podemos mandar para e-mail pessoal e pouquíssimos acessavam e-mail da faculdade, muitas vezes, os alunos ficavam sem receber informações importantes. Conhecendo um pouco do perfil desses jovens internautas, encaminhei a proposta de criação deste perfil a seu superior, que rapidamente apoiou a ideia. “Garanto que a resposta é rápida, e as informações são eficazes. Em poucos minutos, sei quem leu, por meio da ferramenta ‘curtir’ ou por comentários e compartilhamentos”, acrescenta a funcionária. Karina explica que o aluno da FCA tem um perfil diferenciado por, muitas vezes, trabalhar no período contrário da sala de aula e, neste caso, o novo sistema de comunicação favorece esses alunos. “Já aconteceu de um professor não poder vir para a aula no período noturno e nós conseguirmos evitar que o aluno viesse de seu trabalho, em outra cidade, para uma aula que não aconteceria”, relata. Ela declara que, muitas vezes, por não conseguir falar por telefone, principalmente em períodos de pico, os alunos tinham de se enfileirar na secretaria de graduação para pedir uma simples informação, por exemplo, sobre lista de documentos. Depois da criação do perfil, Karina recebe alguns pedidos também da área administrativa para atender de forma mais rápida os estudantes. O projeto, intitulado “Consolidação de perfil no Facebook da Área Acadêmica para a comunicação de assuntos acadêmicos”, faz parte de um Plano de Comunicação envolvido pelo Planejamento Estratégico da FCA. Em agosto, o trabalho recebeu o Prêmio Paepe 2013 pela comissão local da FCA. “Foi bom para mim, fiquei contente de ter ganhado porque a iniciativa de criar o perfil no Facebook facilitou a vida de muitas pessoas, inclusive da equipe da área acadêmica da FCA.” Um dos principais motivos para apresentar o projeto à faculdade foi a lista de aprovados no vestibular de 2012 para os cursos de Limeira. “As informações para candidatos são vinculadas no site da FCA, mas na página do Facebook, adicionamos veteranos e ingressantes, assim que confirmam matrícula. Hoje está tudo na página

Karina Venâncio, funcionária da Faculdade de Ciências Aplicadas: “O perfil no Facebook facilitou a vida de muitas pessoas”

e qualquer pessoa pode solicitar amizade. Lá, procuramos veicular todas as informações de interesse de alunos e candidatos. Desde documentação para matrícula até dados para inscrição em intercâmbio, palestras, prazo para entrega de trabalhos e outros compromissos. As informações para ingressantes permanecem no site da FCA”. A página acabou beneficiando também alguns professores, em caso de mudança de datas e prazos, com urgência. Hoje, parte da relação de “amigos” na página gerenciada por Karina é formada por docentes. Até o momento, o número passa de 2.400 pessoas. O que leva a crer que a página tem atendido não somente a comunidade interna. “Na FCA temos 2.100 alunos, o que mostra que a página atrai o interesse do público externo. Isso acaba fazendo com que este perfil seja uma prestação de serviços para a sociedade e também desperte o interesse de futuros alunos”, salienta Karina. Karina não arrisca afirmar se as redes roubaram espaço dos e-mails entre jovens de um modo geral, mas quem convive com essa geração conectada sabe da preferência por bate-papos. “Não sei se roubou, mas começamos a entrar neste espaço. Não podemos ignorar; temos de avançar cada vez mais. No princípio, eles apenas podiam curtir, mas ainda não achamos suficiente, e decidimos criar o perfil para que pudessem interagir”, acrescenta. O compromisso com a informação se intensifica a cada dia de trabalho e afasta a possibilidade de se tornar na prática uma tecnóloga em gestão ambiental, área na qual se formou em 2011, mas que Karina não tem mais a pretensão de ter como rotina de trabalho. Na verdade, o curso foi procurado quando viu frustradas as tentativas de cursar biologia. “Não deu para cursar biologia, optei por algo que parecia próximo. Mas não é igual”.

APERFEIÇOAMENTO Karina não sabe se frequentaria outro curso de graduação hoje, mas pensa em se especializar em comunicação para desenvolver cada vez melhor seu trabalho e aprimorar o atendimento a alunos. “Cada vez mais, o perfil das gerações mais novas exige essa incursão nas redes sociais e no mundo da tecnologia. Para estarmos próximos dos alunos, temos de buscar uma linguagem na qual eles se sintam à vontade. Por isso pretendo me aperfeiçoar nessa área para melhorar cada vez mais o processo de trabalho e facilitar a vida dos estudantes.” A menina que entrou na Unicamp antes mesmo de falar mamãe, pelas portas do berçário do primeiro campus de Limeira, onde se abrigam a Faculdade de Tecnologia e o Colégio Técnico de Limeira (Cotil), agora, apesar da timidez, pode conversar com todo o público da FCA ou quiçá do mundo. Este é um dos papéis que, apesar da necessidade de questionamentos, acabou por incluir num processo de comunicação antes muito restrito, pessoas anteriormente excluídas. É o caso da área acadêmica da FCA, que corria o risco de “omitir”, involuntariamente, informações a alunos impossibilitados de checar e-mails o tempo todo. “Neste mundo globalizado, em que a maior parte dos celulares permite que o usuário se informe onde está, não dá mais para ficar se excluir”, acrescenta. Os primeiros passos de Karina no universo acadêmico foram proporcionados pela mãe, Dorothi Macedo Venâncio, funcionária do Cotil há quase 30 anos. Foi ela também que, num momento difícil para Karina na Prefeitura de Limeira, onde trabalhou antes de entrar na Unicamp, aconselhou-a a prestar concurso público para a FCA. Ao assumir, em 2011, Karina se surpreendeu com a organização do campus. “Tudo ainda era novo, e o quadro de

funcionários é formado por muitos jovens. Além disso, nossas sugestões são ouvidas sempre que possível. Na prefeitura não tinha benefícios como temos aqui.” Além da falta de plano de carreira, oportunidade melhor de salário oferecida pela Unicamp, Karina deixou a área de saúde de Limeira com certo sentimento de impotência diante das necessidades dos usuários do sistema público de saúde. Um acontecimento pessoal também a fez sentir que, em seu caso, aquela não seria uma área propícia. Na época em que precisava dar “afirmações negativas” a pacientes com doenças graves, como afirmar que um exame ou o próximo atendimento demoraria, ela perdia uma prima querida para um câncer, aos 27 anos, deixando um bebê. “Eu não tinha mais condições psicológicas para continuar ali e dizer a uma pessoa com necessidade de atendimento que o processo é demorado. O urgente significava um mês. Aquela situação não me fazia bem. Eu falava aquilo que eu não queria. Trabalhar com pessoas doentes sem poder ajudar, suga-nos. Foi uma fase muito difícil.” Hoje, a creche virou república. Limeira ganhou mais um campus, e Karina cresceu, habita esse novo espaço e vai se casar em breve. Vai recomeçar a história de Dorothi, que trouxe Karina e seus dois irmãos, Adrien e Diego, pela mão, do berçário até a graduação. Sobre a Karina, aquela que se contenta facilmente com situações novas, aceita os propósitos da vida, trabalha das 14 às 23 horas em prol da formação acadêmica de 2.100 alunos e no período da manhã encontra tempo para ajudar a família, buscar a sobrinha na escola, ir para a academia e ainda resolver os trâmites do matrimônio que se aproxima, ela diz ter “pouco” a dizer. Até porque, muitas vezes, o muito pode ser descrito em poucas palavras.


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Campinas, 9 a 15 de setembro de 2013

Ferramenta dá informações adicionais a telespectadores Técnica concebida na FEEC coloca na tela, via internet, conteúdo interativo

Fotos: Divulgação

LUIZ SUGIMOTO sugimoto@reitoria.unicamp.br

ma técnica desenvolvida na Unicamp vai permitir que o telespectador, ao assistir a um filme na TV digital, acesse na própria tela informações complementares como sinopse, críticas, direção, histórico do elenco, premiações, fotos, vídeos e outros conteúdos relacionados disponíveis via internet. Como instrumento de navegação, o controle remoto. O modelo é fruto da tese de doutorado de Rodrigo Cascão Araújo, orientada pelo professor Ivan Luiz Marques Ricarte e defendida na Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC). O autor da tese observa que a integração da internet e das tecnologias de comunicação móveis com as plataformas de televisão têm provido os telespectadores de novos serviços interativos de conteúdo digital. “Por causa disso, os equipamentos para o consumidor têm se tornado cada vez mais sofisticados, suportando uma variedade de conteúdos e conectividade com outras redes e dispositivos. Diante do crescimento do volume e da diversidade de conteúdos multimídia, a televisão está enfrentando os mesmos desafios de complexidade e excesso de informações que já vinham sendo encarados por outras mídias digitais relacionados à internet.” Segundo Rodrigo Araújo, a ideia é que usuário da TV digital possa pesquisar os conteúdos facilmente, a partir da própria grade de programação que as emissoras transmitem com o sinal. “A novidade está na técnica de integração de ontologias e metadados desenvolvida por nós. O sistema é automático, não depende de ser alimentado porque captura a informação já existente. O guia enviado pela emissora, que chamamos de EPG, traz somente o básico – nome e descrição do programa, elenco, classificação etária – mas isso já é suficiente para que o sistema rastreie informações adicionais em repositórios da internet de forma inteligente.” Ao leigo convém um parêntese para explicar a terminologia que dificulta compreender o próprio título da tese: “Alinhamen-

também, que existem na internet diversos repositórios de informação baseados em metadados que complementam as informações de metadados da TV Digital. “Contudo, como os padrões são baseados em diferentes especificações, surge o problema de como integrar essas informações. O que a tese propõe é um processo para alinhamento das especificações, a fim de que o telespectador utilize tanto informações de metadados da TV digital como da internet.”

PADRÃO GINGA

Conteúdo disponibilizado atualmente (acima) e já com informações complementares: interatividade

to de metadados da indústria de broadcast multimídia no contexto da TV digital com a web semântica”. Web semântica é uma extensão da internet que permite interligar significados de palavras e, assim, atribuir um sentido aos conteúdos. Metadados são dados sobre um dado, ou seja, outras informações sobre determinado conteúdo. E ontologia é um modelo de dados, um conjunto de conceitos sobre indivíduos, classes, atributos e relacionamentos.

RONALDO, QUEM? O pesquisador lembra que cada vez mais utilizamos diferentes dispositivos (celulares, tablets) para acessar os mesmos conteúdos e, cada vez mais, esses dispositivos estão conectados. “É um volume muito grande de informações. Para organizá-las existem tecnologias que tornam a web mais inteligente e facilitam a pesquisa.

Uma delas é a de metadados – dados que complementam as informações digitais dos conteúdos multimídia, com o objetivo de descrevê-los de forma sintática e semântica, facilitando a estruturação e o gerenciamento de tanta informação.” Rodrigo Araújo toma o exemplo de um jogador de futebol chamado Ronaldo para ilustrar como uma palavra-chave pode ter significados diferentes, conforme o contexto. “É preciso haver inteligência para o computador identificar se aquele Ronaldo é o ‘Fenômeno’ ou o ‘Gaúcho’. A inteligência pode ser fornecida pela tecnologia de metadados, muito utilizada dentro da web semântica que, por sua vez, permite que os computadores conversem entre si e façam associações de informações.” O engenheiro informa que atualmente existem diversas especificações de metadados utilizadas pela indústria de broadcast multimídia em redes de TV Digital; e, Foto: Antoninho Perri

Rodrigo Cascão Araújo, autor da tese: “Os equipamentos para o consumidor têm se tornado cada vez mais sofisticados”

Visto que o país passa por um processo de digitalização das transmissões de TV, o pesquisador atenta que o aplicativo funciona no padrão Ginga – a linguagem desenvolvida para a TV digital brasileira e estabelecida para todos os televisores que estão saindo de fábrica. “Nesse padrão é possível consultar as informações complementares navegando com o controle remoto. Abre-se uma tela translúcida em cima da imagem, com os devidos interlinks para a busca nos repositórios da internet.” De acordo com o engenheiro, o sistema foi validado através de uma prova de conceito implementada em um receptor híbrido de TV digital, que demonstrou a viabilidade de sua operacionalização sem a necessidade de impactar os padrões utilizados no Brasil para transmissão de sinal de TV digital terrestre (ISDB-T). “Basicamente, é preciso instalar esse aplicativo Ginga no televisor. E esse aplicativo pode até ser transmitido com o sinal da emissora: quando recebido, ele já se instala e inicia todo o trabalho.” Rodrigo Araújo é diretor comercial de uma empresa que desenvolve uma série de equipamentos para que as emissoras realizem a migração do sinal analógico para o digital. “O fato de eu já ter contato tanto com emissoras de TV quanto com fabricantes de dispositivos é uma vantagem, mas o aplicativo ainda está em estágio de protótipo, funcionando em cima de um emulador. Ainda trabalho numa versão mais amigável, com nomenclaturas menos técnicas e mais claras para os usuários.”

PRODUTO INOVADOR O pesquisador também pretende submeter um projeto a agências de fomento como Fapesp e Finep, que oferecem recursos para o desenvolvimento de produtos inovadores. “Quero fazer uma análise detalhada de modelos de negócio para que o produto consiga se pagar e que pode ser baseado, por exemplo, em publicidade. Também penso numa versão voltada a celulares e tablets que já oferecem acesso à TV – esses usuários têm mais facilidade de interagir com dispositivos móveis do que com o controle remoto.” Ainda entre os trabalhos futuros, Rodrigo Araújo vê a possibilidade de se fazer consultas personalizadas avançadas, como por exemplo, a respeito de quais diretores já trabalharam com a protagonista de determinado filme e de outros filmes em que ela atuou; e, inclusive, criar uma espécie de rede social em que o usuário possa enviar o link aos amigos para gerar comentários. “O mecanismo que desenvolvemos pode ser estendido para diversas aplicações, mas pretendo ficar um pouco mais na pesquisa, trabalhando em um artigo para submeter a uma revista científica internacional, o que é desejo do meu orientador, professor Ivan Ricarte. Depois vamos focar esforços no produto.”

Publicação Tese: “Alinhamento de metadados da indústria de broadcast multimídia no contexto da TV digital com a web semântica” Autor: Rodrigo Cascão Araújo Orientador: Ivan Luiz Marques Ricarte Unidade: Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC)


10 Vida Painel da semana Teses da semana Livro da semana Destaques do Portal da Unicamp

Campinas, 9 a 15 de setembro de 2013

aa c dêi m ca

Painel da semana  Inovações curriculares - A Unicamp sedia o IV Seminário Inovações Curriculares, evento que busca possibilitar a discussão, a exposição e a troca, entre acadêmicos, sobre as questões teóricas e práticas (experiências desenvolvidas e em desenvolvimento) de interdisciplinaridade nas universidades públicas paulistas. A participação no evento é livre mas apenas poderão submeter trabalhos docentes, pesquisadores e alunos de pós-graduação das universidades públicas paulistas (Unicamp, Unesp, USP, UFSCar, Unifesp, UFABC e Centro Paula Souza). Os trabalhos devem ser relativos a experiências interdisciplinares curriculares inovadoras desenvolvidas em suas instituições. Envio de trabalhos: até 10 de setembro. O evento é gratuito e acontecerá nos dias 21 e 22 de outubro, no Centro de Convenções da Unicamp. Mais informações: http://www.ea2.unicamp.br/inovacoes  (Con)Viver com Arte(Manhas) - Nos dias 9 e 10 de setembro o Labeurb realiza o evento (Con)Viver com Arte(Manhas), que busca celebrar as atividades realizadas no Projeto Barracão e debater seus resultados e desdobramentos. As inscrições podem ser feitas no endereço http://www.labeurb.unicamp.br/barracao/. O Projeto ofereceu oficinas de cinema, artesanato, informática básica, edição de áudio e vídeo, desenho digital, leitura, contação de histórias, teatro infantil, fotografia e escrita. Mais de duzentos moradores da região dos DICs em Campinas, entre crianças, adolescentes e mulheres, participaram deste trabalho. A mesa de abertura ocorre às 9 horas, no auditório do Labeurb/Unicamp. Outras informações: telefone 19-35217945 ou e-mail publabe@unicamp.br  Encontro de História Oral - Com a temática “Educação das Sensibilidades: violência, desafios contemporâneos”, no dia 10 de setembro, às 9 horas, no Centro de Convenções da Unicamp, o Centro de Memória Unicamp (CMU) e a Associação Brasileira de História Oral (ABHO) organizam o X Encontro Regional Sudeste de História Oral. Mais informações no site do evento http://www.sudeste2013.historiaoral.org. br/, telefone 19-3521-5250 ou e-mail remaia@unicamp.br  Energia, biocombustíveis e sustentabilidade - O ‘XI Workshop Internacional Brasil/Japão: Energia, Biocombustíveis de Desenvolvimento Sustentável’ ocorre das 8 às 18 horas, dia 11 de setembro, na sede do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP), em Caraguatatuba-SP. A organização é do IFSP, do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (Nipe) e da Faculdade de Engenharia Química (FEQ) da Unicamp. Mais informações: 19-3521-1718.  Inovação do empreendedorismo no Brasil - No dia 12 de setembro, às 9 horas, no auditório da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA), acontece mais uma edição do Fórum Permanente de Empreendedorismo e Inovação com o tema Perspectivas e inovação do empreendedorismo no Brasil. Inscrições, programação e outras informações no http://foruns.bc.unicamp.br/foruns/projetocotuca/forum/htmls_descricoes_eventos/evento46.html ou telefone 19-3521-5039.  Vozes do Bolsa Família - Livro será objeto de debate no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), dia 12 de setembro, às 14 horas. Alexandre Pinzani e Walquiria Leão do Rego, autores do livro, estarão presentes no evento cuja proposta é discutir o resultado de cinco anos de pesquisa e do encontro mais do que heterodoxo entre um filósofo e uma socióloga para tentar compreender o impacto do programa Bolsa Família na subjetividade das mulheres. A proposta é uma conversa

aberta com o público, na qual toda a comunidade está convidada a participar. O evento é organizado pelo Grupo de Filosofia Política. Mais informações: 19- 8298-0410 ou e-mail anitaclsilveira@gmail.com  Pesquisa Quantitativa em Educação Superior - Fernanda Oliveira Simon, doutora em Educação pela Unicamp, ministra seminário no dia 12 de setembro, às 14 horas, no Salão Nobre da Faculdade de Educação. Discute: “Pesquisa quantitativa em educação superior: da criação dos bancos de dados às análises”. Inscrições para participar do evento podem ser feitas no site http://www.fae.unicamp.br/informatica/ dform-dev/gera.php?form=gepessemi. A promoção é do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Superior (GEPES). Mais informações no link http://www.fe.unicamp.br/TEMPORARIOS/gepes-seminario.jpg  Ciência & Arte nas Férias - A Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP) recebe, até 13 de setembro, as inscrições para a edição de 2014 do Programa Ciência & Arte nas Férias. O Programa visa proporcionar aos alunos do ensino médio da rede pública, a oportunidade de participarem no desenvolvimento de projetos de pesquisa em laboratórios da Unicamp, durante o período de férias escolares. O Ciência & Arte ocorrerá de 8 de janeiro a 7 de fevereiro de 2014, sob a supervisão de professores e pesquisadores da Unicamp. Docentes ou pesquisadores da Unicamp devem encaminhar um único projeto à Pró-Reitoria de Pesquisa, através do preenchimento do formulário eletrônico http://www.prp.gr.unicamp.br/ faepex/pesquisa/auxCAF/loginFSP_CAF.php. Uma versão impressa (e assinada) também deve ser entregue ao Faepex, até 13 de setembro. O projeto envolve (no mínimo) dois bolsistas e só poderá ser submetido por docentes ou pesquisadores da Universidade. Eventualmente e mediante justificativa à coordenação do Programa, um laboratório poderá acolher até quatro alunos. No entanto, o montante de recursos destinado será o mesmo. Outras informações podem ser obtidas pelos telefones 19-35212973, 3521-4614 ou e-mail ciencianasferias@unicamp.br  Vamos conversar sobre epilepsia - Coordenado pelo neurologista Li Li Min, o evento “Vamos Conversar Sobre Epilepsia” acontece em 14 de setembro, às 8h30, no Anfiteatro 1 do conjunto de salas de aula da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp. As inscrições podem ser feitas no Laboratório de Neuroimagem, localizado no Setor de Ressonância Magnética do Hospital de Clínicas (HC) ou pelo e-mail sonianevesromeu@gmail.com. A inscrição, cujo valor é de 25 reais, será aceita mediante envio da cópia do comprovante de depósito em nome de Assistência à Saúde de Pacientes com Epilepsia Banco Santander; Agência 0207; Conta corrente: 13.010204-6. Toda a arrecadação será revertida para ações sociais da Assistência à Saúde de Pacientes com Epilepsia (Aspe). Os 50 primeiros inscritos ganharão o livro GIS – Grupo de Interação Social. Li Li Min recebeu, em junho, em Montreal, o prêmio de Embaixador da Epilepsia no Brasil. O prêmio é concedido anualmente pelo International Bureau for Epilepsy e pela Liga Internacional contra a Epilepsia a 12 indivíduos que promovem, de forma notável, a causa da epilepsia em nível pessoal, nacional e internacional. As vagas para o “Vamos Conversar Sobre Epilepsia” são limitadas.

Eventos futuros  Vestibulinho do Cotuca - O Colégio Técnico da Unicamp, o Cotuca, recebe, de 16 de setembro a 6 de novembro, as inscrições para o seu vestibulinho. O Cotuca oferece 805 vagas em 21 opções de cursos técnicos e de especialização técnica, em quatro modalidades. Todos os cursos são gratuitos. Mais informações no site www. cotuca.unicamp.br, telefone 19-3521-9906 ou e-mail alan@cotuca. unicamp.br  Encontro PAD/PED - Encontro de aperfeiçoamento dos programas PAD/PED objetiva introduzir aos monitores (PAD) noções básicas nas áreas que fornecem subsídios teóricos para as práticas de formação de graduandos, bem como aperfeiçoar para o exercício da docência os estudantes de pós-graduação da Unicamp (PED). O próximo será realizado no dia 16 de setembro, às 14 horas, no Centro de Convenções da Unicamp. A organização é do Espaço de Apoio ao Ensino e Aprendizagem (Ea2). Site do evento: www.ea2.unicamp. br. Mais informações: telefone 19-3521-7991 ou e-mail ea2@reitoria. unicamp.br  Carlos Gomes: o Nhô Tonico de Campinas - O Centro de Memória Unicamp (CMU) com apoio do Sistema de Bibliotecas (SBU) organiza, de 17 de setembro a 17 de outubro, no Hall da Biblioteca Central Cesar Lattes (BC-CL), a exposição “Carlos Gomes: o Nhô Tonico de Campinas”. A abertura da mostra ocorre às 9 horas. Pode ser visitada de segunda a sexta-feira, das 9 às 22h45, na rua Sérgio Buarque de Holanda 421, no campus da Unicamp. Além da exposição, às 9h15, no auditório da BC-CL, ocorrem duas mesasredondas. Na primeira, “Carlos Gomes e sua Música”, o professor Marco Padilha aborda “Carlos Gomes e a Música Contemporânea”. A mesa será coordenada pelo professor Mrcos Tognon. Mais informações: 19-3521-5250.  Santander Universidades - As inscrições para a 9ª edição dos Prêmios Santander Universidades que, em 2013 concederá R$ 2 milhões em prêmios e bolsas de estudos internacionais, pode ser feita até 17 de setembro, por meio do portal www. santander.com.br/universidades.

 Educação do Campo e Agroecologia na Agricultura Familiar e Camponesa - Curso de especialização (lato sensu) será ministrado pela Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri). O objetivo é promover formação para o desenvolvimento de atividades voltadas à assistência técnica e à extensão rural em áreas de agricultura familiar e reforma agrária. Com carga horária total de 555 horas, o curso segue a Pedagogia da Alternância, sendo dividido em tempos-escola (375 horas) e tempos-comunidade (180 horas). O ingresso no curso se dará por meio de processo seletivo, em três etapas. As inscrições são gratuitas e acontecem até 17 de setembro, mediante preenchimento da ficha de inscrição disponível no endereço http://www.feagri. unicamp.br, mais o envio de documentação. Outros detalhes no link http://www.incra.gov.br/index.php/noticias-sala-de-imprensa/ noticias/13436-incra-e-unicamp-oferecem-60-vagas-em-cursode-especializacao-no-campo  Processamento de sinais - A Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC) organiza nos dias 18, 19 e 20 de setembro, a IV edição do Simpósio de Processamento de Sinais da Unicamp (SPS). Abertura do evento: 8 horas, na FEEC. Iniciativa de alunos da Unicamp, o SPS objetiva reunir professores, estudantes e pesquisadores que trabalham na área de processamento de sinais para exposição de resultados de pesquisas e discussão de idéias. Alunos interessados em participar do evento devem entrar em contato com a Comissão Organizadora até 19 de abril. Mais informações pelo e-mail sps.unicamp@gmail.com.  Hepatites virais - A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, por meio da Divisão de Hepatites do Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE), realiza no dia 18 de setembro, o VII Simpósio Estadual de Hepatites Virais. O evento tem como público-alvo médicos, enfermeiros e equipes multiprofissionais de saúde que atuam nas áreas de assistência, prevenção e vigilância epidemiológica das hepatites virais B e C. O objetivo é fornecer atualização científica nas áreas de assistência, prevenção e vigilância epidemiológica das hepatites virais B e C. Inscrições gratuitas podem ser feitas no site http://sistema.saude.sp.gov.br/ sde/evento-apresenta.php?evento_id=111&menu_atual=principal  Fórum de Educação Infantil - Evento ocorre no dia 19 de setembro, às 8h30, no auditório do Centro de Convenções da Unicamp. Inscrições e outras informações no link http://foruns. bc.unicamp.br/foruns/projetocotuca/forum/htmls_descricoes_ eventos/arte55.html. Mais informações: 19-3521-5039.  Jornada Endici - Será realizada nos dias 19 e 20 de setembro, no auditório do Laboratório de Estudos Uranos (Labeurb). A abertura ocorre às 14 horas. A Jornada é gratuita e as inscrições podem ser feitas pelo e-mail publabe@unicamp.br ou no local. A coordenação é dos professores Eni Pulcinelli Orlandi e José Horta Nunes. A Endici é uma enciclopédia digital que tem como objetivo compreender o urbano através da linguagem, utilizando como base a perspectiva da análise do discursos.  Trappistas - O trio vocal masculino apresenta repertório variado no Almanaque Café, dia 18 de setembro, às 21 horas. O grupo preza a qualidade musical, mesclando desde peças eruditas a arranjos originais exclusivos de músicas populares brasileiras e estrangeiras, sempre a capella. Formado no fim de 2012, é composto por três profissionais graduados pela Unicamp. Para acompanhar o trabalho do grupo e ter acesso a maiores informações sobre agenda e eventos, acesse a página no facebook, www.facebook.com.br/trappistas, ou entre em contato pelo telefone 19-99253-7178 ou e-mail: wilsonricas@gmail.com.  Fórum de Esporte e Saúde - Próxima edição ocorre em 20 de setembro, às 9 horas, no auditório do Centro de Convenções. Inscrições e outras informações no link http://foruns. bc.unicamp.br/foruns/projetocotuca/forum/htmls_descricoes_ eventos/saude67.html O evento visa discutir conceitos, impactos e perspectivas futuras da ATS como ferramenta para decisão baseada em evidências nos sistemas de saúde, além de abordar metodologias passíveis de aplicação pela equipe multidisciplinar (área médica, enfermagem, farmácia, odontologia, fisioterapia, nutrição, engenharia clínica e gestores).  Seminário com Raghu Vemuganti - No dia 20 de setembro, às 14 horas, o Departamento de Neurologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) recebe o professor Raghu Vemuganti, da Universidade de Wisconsin (USA). Ele aborda, no anfiteatro do Departamento de Neurologia, o tema “All’s Well That Transcribes Well: microRNAs and Post-Stroke Brain Damage” com introdução do professor Alan Hazell, da Universidade de Montreal. Mais informações: 19-3521-9132.  Encontro de novos docentes e pesquisadores No dia 20 de setembro, às 14h30, na sala de reuniões do Conselho Universitário (Consu), acontece o VII Encontro dos Novos Docentes e Pesquisadores da Unicamp. O evento contará com docentes e pesquisadores admitidos no período de 1º de Julho de 2012 a 30 de Junho de 2013. É organizado pela Coordenadoria Geral da Universidade (CGU).

Livro

da semana

Canções

sem metro Sinopse: Raul Pompeia não é propriamente um autor esquecido, mas a fortuna crítica concentrada em O Ateneu (1888) minimizou a riqueza de sua obra extensa e multifacetada, reduzindo-o à ingrata e equivocada condição de “autor de um livro só”. A rigor, ele produziu muito mais fora do gênero romanesco: crônicas, contos, novelas, ensaios, artigos, caricaturas, desenhos, capas de livro e poemas em prosa são algumas das searas em que se aventurou. Prova disso são as Canções sem metro, obra iniciadora do poema em prosa no Brasil.

Autor: Raul Pompeia ISBN: 978-85-268-1002-0 Ficha técnica: 1a edição, 2013; 304 páginas; formato: 10,5 x 18 cm Área de interesse: Literatura, Crítica literária Preço: R$ 46,00

Teses da semana  Engenharia Elétrica e de Computação - “Explorando redundâncias e restrições entre odometrias e sensores absolutos em localização robótica terrestre” (mestrado). Candidato: Renato José Martins. Orientador: professor Paulo Augusto Valente Ferreira. Dia 9 de setembro, às 10 horas, na sala PE-12 da Pós-graduação da FEEC. “A comparative study of countermeasures to detect spoofing attacks in face authentication systems” (mestrado). Candidato: Tiago de Freitas Pereira. Orientador: professor José Mario De Martino. Dia 10 de setembro, às 10 horas, na sala PE-12 da FEEC. “Contribuições à caracterização estatística do canal de rádio móvel e estimação de parâmetros por máxima verossimilhança” (doutorado). Candidato: Antonio Marcelo Oliveira Ribeiro. Orientador: professor Evandro Conforti. Dia 13 de setembro, às 14 horas, na sala PE-12 do prédio da CPG da FEEC.  Linguagem - “A aquisição de verbos perceptivos e causativos e a teoria da mente” (doutorado). Candidato: Gustavo Andrade Nunes Freire. Orientadora: professora Ruth Elisabeth Vasconcellos Lopes. Dia 13 de setembro, às 14 horas, na sala de defesa de teses do IEL.  Matemática, Estatística e Computação Científica - “Novos limitantes para a probabilidade de erros sobre canais de apagamento” (doutorado). Candidato: Leandro Cruvinel Lemes. Orientador: professor Marcelo Firer. Dia 12 de setembro, às 14 horas, na sala 253 do Imecc. “Pontos fixos por grupos finitos agindo sobre grupos solúveis de tipo FP infinito” (mestrado). Candidato: Francismar Ferreira Lima. Orientadora: professora Dessislava Hristova Kochloukova. Dia 13 de setembro, às 14 horas, na sala 253 do Imecc.¬¬  Odontologia - “Análise estrutural e funcional de sequências de DNA com potencial de formação de G-quadruplex” (doutorado). Candidata: Luciana Souto Mofatto. Orientador: professor Sergio Roberto Peres Line. Dia 13 de setembro, às 14 horas, no anfiteatro 4 da FOP.

Destaque do Portal

A inflorescência dos ipês da Unicamp cada dia a paisagem ganha uma beleza plástica diferente. É como se a natureza fosse pincelando o quadro e dando à composição de cores um novo contorno a todo instante. Em planos fechados ou ampliados, as imagens reveladas no monitor da câmera digital surpreendem, ainda que o olhar tivesse imaginado outra cena. Essas observações não são privilégios ao olhar de um fotógrafo profissional ou de um artista, que busca também o belo em tudo que contempla, pois a paisagem está ao alcance dos olhos de quem se permite parar para olhar, na opinião do fotógrafo da Assessoria de Imprensa da Unicamp Antônio Scarpinetti. A inflorescência dos ipês, exuberantes no fim de agosto e início de setembro, pode determinar a cor do dia de quem os contempla. E durante apenas um dia, a cada mudança da luz natural, que reflete entre galhos e flores, é possível encontrar um tom diferente. É só escolher.

ÁLBUM DE FOTOS

O caminho pode ser mais colorido se percorrido a pé. E foi numa empreitada dessas, depois de uma reportagem, que Scarpinetti pôde contemplar e registrar a fileira de ipêsrosa que ajudam a fazer o contorno da Avenida Antonio da Costa, no campus de Barão Geraldo. Mas as flores não estão só. Algumas das fotos revelam a convivência urbana em um espaço que antes era só fazenda.

Foto: Antonio Scarpinetti

Ipês floridos em avenida que dá acesso à Unicamp: flora da Universidade é composta de mais de 340 espécies

Debaixo da disputa entre os fios de alta tensão e a cortina verde-amarelo-brancolilás, carros, motos, estudantes, professores, alunos e visitantes transitam sobre o tapete de pétalas amarelas que caem ao chão com o fim do inverno. O fotógrafo tenta mostrar como a busca de diferentes ângulos e combinações de cores podem mudar a paisagem. A luz do sol pode variar a pigmentação do ipê do amarelo ao topázio.

“Os ipês vêm para encantar as retinas num momento em que o clima está seco, arredio e acontece a transição do inverno para a primavera. As cores dão um tom diferente para as avenidas, as praças da Universidade”, diz Adriano Grandinetti Amarante, biólogo da Divisão de Meio Ambiente da Universidade e um dos responsáveis pelo projeto de revitalização do campus de Barão Geraldo. O encontro das copas encanta os transeuntes,

que também se encarregam de divulgá-las em sua página nas redes sociais. Esta reação dos contempladores alegra o biólogo Amarante. Assim como Scarpinetti, que também acredita que as pessoas precisam se favorecer mais desse presente da natureza antes de adentrar o local de trabalho ou nos intervalos. “Minha satisfação aumenta pela satisfação do outro”, diz Amarante. Ver a inflorescência das árvores que cuidaram desde as sementes, obedecendo ao projeto paisagístico da Universidade, é se ver dentro de um projeto de qualidade de vida, não somente do ponto de vista do lazer, mas da sustentabilidade. “Precisamos ter mais cuidado com nossas irmãs vivas”, pontua Amarante. E essa preocupação da Divisão de Meio Ambiente é evidenciada pelo crescimento exponencial de espécies no campus. Na Praça da Paz, onde a pista e o gramado extenso favorecem a convivência, a flora atrai algumas espécies de pássaros, os quais roubam um pouco de silêncio humano para impor sua sinfonia. Era este o clima no entardecer da sexta-feira (30 de agosto), enquanto o pôr-do-sol começava mais uma vez a dourar o branco da flor pata-de-vaca. Feliz com a resposta desse conjunto, Amarante informa que a flora da Unicamp atualmente é composta de mais de 340 espécies. Entre o fim de agosto e todo o mês de setembro a maior parte delas se põe em festa, avivando não somente as cores das pétalas, mas também a cor das copas, “para encantar a retina”. (Maria Alice da Cruz)


Campinas, 9 a 15 de setembro de 2013 ISABEL GARDENAL bel@unicamp.br

respiração é fundamental à manutenção da vida e essa função é desempenhada por meio do sistema respiratório. Uma forma de avaliá-lo é pelo estudo da mecânica, que caracteriza e avalia como o ar entra e sai dos pulmões. No tratamento de uma Lesão Pulmonar Aguda (LPA), por exemplo, a ventilação mecânica é inestimável. É quando ocorre o aumento da elastância (resistência à força) nesse órgão, determinando o uso de pressões mais elevadas para a ventilação. Em muitas situações, o organismo é incapaz de manter o nível de oxigenação adequado, pois, nos alvéolos (pulmões), região onde se efetuam as trocas gasosas, ele fica comprometido pelo processo inflamatório. Também podem ocorrer obstruções nas vias aéreas, prejudicando ainda mais a oxigenação e levando ao colapso alveolar. Diante desse cenário, o paciente necessita ser submetido à ventilação mecânica (com auxílio de aparelho). Nos últimos 30 anos, tornou-se evidente que empregar altas pressões na ventilação mecânica, nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI) dos hospitais, pode desencadear, entre outros problemas, a Lesão Pulmonar Associada à Ventilação Mecânica. E, mesmo com todo investimento injetado na terapêutica dessa lesão, a mortalidade prossegue alta, já beirando 35% das ocorrências no mundo. Por acreditar que poderia contribuir com essa problemática, em sua tese de doutorado, defendida na Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC), a enfermeira Márcia Zotti Justo Ferreira procurou auxílio da engenharia elétrica para buscar promover a reabertura das vias aéreas colapsadas dos pulmões. Ela inovou ao introduzir ondas sonoras ao experimento. A sua tentativa foi descobrir um modo ventilatório que não fizesse uso de altas pressões para a desobstrução das vias respiratórias e, dessa forma, não piorar um quadro de Lesão Pulmonar Aguda. A princípio, relata a pesquisadora, poderia ser acoplado um equipamento emissor de som junto ao que já existe para o suporte ventilatório. “No estudo, o som ajudou a abrir as vias aéreas obstruídas, diminuindo o dano que as altas pressões imprimiriam aos pulmões”, comemora. O processo deve motivar uma patente – já depositada junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi) – e também o interesse de alguma empresa em investir nessa ideia.

EXPERIMENTOS A doutora desenvolveu modelos experimentais inéditos. O primeiro avaliou a influência da parede torácica sobre o sistema respiratório a partir de medidas da mecânica ventilatória. No segundo, provocou uma LPA induzida pelo herbicida Paraquat, no qual se comprovou o colapso das vias aéreas. E o terceiro analisou as curvas P-V (pressão-volume) após a aplicação de ondas sonoras em vias aéreas colapsadas, para notar o recrutamento alveolar. Os resultados deste terceiro modelo mostraram-se promissores. Foto: Divulgação

Ondas sonoras

desobstruem

vias respiratórias Foto: Antoninho Perri

Enfermeira desenvolve processo que pode atenuar quadro de Lesão Pulmonar Aguda A curva P-V é uma técnica diagnóstica para descrever as propriedades quasi-estáticas (muito lentas) do sistema respiratório. Situações como alteração nos volumes pulmonares são alguns indicadores precoces de que pode existir doença pulmonar. É o caso da LPA. A própria ventilação mecânica pode iniciar a lesão pulmonar, chamada em inglês Ventilation Induced Lung Injury (VILI). Na década de 1970, em experimento com animais, percebeu-se inclusive que, após poucas horas de ventilação artificial, quando se usavam pressões elevadas nas vias aéreas, formava-se um intenso edema e mesmo hemorragia. Esse procedimento acabava levando a um estresse mecânico, com colapso alveolar e comprometimento do seu recrutamento, ocasionando lesões. Não obstante, esse tipo de ventilação substitui a respiração fisiológica e proporciona, por meio de aparelhos, as trocas gasosas, trazendo oxigenação ao paciente. “Essa ventilação é indispensável a priori para o suporte aos criticamente doentes”, garante a enfermeira. A Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo (SDRA), ou Síndrome da Angústia Respiratória Aguda (Sara), é a manifestação mais grave da Lesão Pulmonar Aguda. É provocada por diversos distúrbios que causam o acúmulo de líquidos nos pulmões, sendo uma resposta inflamatória aguda e grave de insuficiência respiratória a diversas formas de agressão que os pulmões podem sofrer (nesse caso altas pressões). Ambas são formas correlatas e mortais de falência respiratória aguda, sendo que os mecanismos que iniciam e propagam a lesão pulmonar ainda não foram completamente elucidados, nem o modo de ventilação mais adequado. “A incorporação de diferentes e modernas tecnologias para a assistência ventilatória tem demandado o desenvolvimento de novas técnicas de assistência, as quais têm como objetivo a rápida identificação da enfermidade e o pronto atendimento a pacientes que se beneficiam da ventilação mecânica”, explana a doutora. A tese de doutorado de Márcia, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica, foi orientada pelo docente da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (Feec) da Unicamp Hugo Enrique Hernández Figueroa e coorientada pelo docente do Instituto de Física da USP Adriano Mesquita de Alencar.

Publicação

Márcia Zotti Justo Ferreira, autora da tese: modo ventilatório sem fazer uso de altas pressões

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Tese: “Estudo da aplicação de ondas sonoras na árvore pulmonar de roedores” Autora: Márcia Zotti Justo Ferreira Orientador: Hugo Enrique Hernández-Figueroa Coorientador: Adriano Mesquita de Alencar Unidade: Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC)

Aparelho usado para ventilação mecânica em casos de Lesão Pulmonar Aguda: altas pressões podem acarretar problemas

Ausculta no diagnóstico Desde Hipócrates, sabe-se que os sons pulmonares são uma forma diagnóstica de doenças pulmonares. Por meio deles encontram-se informações valiosas sobre a fisiologia e patologias pulmonares. Sua audibilidade melhorou pelo surgimento do estetoscópio, idealizado pelo médico francês René Théophile-Hyacinthe Laënnec (1781-1826), e desde então vem sendo aperfeiçoado. Tem-se como uma das características diagnósticas para doenças pulmonares a ausculta dos sons pulmonares, dentre eles os sibilos (wheezes), que são sons contínuos, musicais e de longa duração. Eles têm sua origem nas vias aéreas e requerem o fechamento dos brônquios para serem produzidos, conhecidos popularmente como “chiados”. Outro som pulmonar importante para o diagnóstico são os ruídos de crepitação (crakles) que são explosivos, agudos e de

curta duração, ocorrendo no final da inspiração. Eles são gerados sobretudo pela abertura dos alvéolos colapsados ou ocluídos por secreções (líquido viscoso). Esses sons confirmam a presença de obstrução das vias aéreas. Conforme a autora da tese, o sistema respiratório é composto pelas vias aéreas e pulmões. As vias aéreas são classificadas como vias aéreas de condução e vias aéreas respiratórias. Enquanto as vias aéreas de condução umedecem, aquecem e filtram o ar respirado, com a função de levar o ar para dentro e para fora dos pulmões, as vias aéreas respiratórias são a última parte da árvore brônquica, constituída pelos sacos alveolares. É nela que ocorrem as trocas gasosas. “Na árvore respiratória, o local onde acontece a troca gasosa são os alvéolos. O restante é chamado de espaço morto anatômico”, esclarece Márcia.


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Campinas, 9 a 15 de setembro de 2013 Fotos: Divulgação

Apresentação de grupos formados por artistas baianos em ruas de Paris: pouco espaço para as manifestações afros autênticas

PATRÍCIA LAURETTI patricia.lauretti@reitoria.unicamp.br

s nomes são fictícios, as trajetórias verdadeiras. Jaime, Manoela, Cibele, Kauã, Roberto, Iara. Maísa, Lucas, Ana Maria. Todos declarados negros, idades variadas. Com ensino superior completo, apenas Verônica. A maioria tem apenas ensino médio, às vezes incompleto. Gente de Salvador, que cresceu sonhando com a arte. Cresceu já se sentindo artista, por ser baiano. E, nas organizações culturais, teve acesso a um instrumento, a um grupo, ou às aulas de dança afro-brasileira. A formação e o contato com uma rede de relacionamentos garantiram convites para apresentações fora de Salvador e do Brasil. Com o passar do tempo, alguns se cansaram das idas e vindas e procuraram se fixar no exterior. A França foi um dos países que receberam os artistas brasileiros, muitos deles atraídos pelo regime especial de trabalho que assegura remuneração na entressafra de temporadas, o chamado estatuto do Intermitente de Espetáculo. Mas a situação na Europa e na França, em particular, já não é a mesma. Hoje há quem pense em voltar ou, o mais comum, mudar de atividade. “O cenário na França dos últimos anos vai dificultar o processo migratório. Além do mais, o próprio estatuto passa por reformulações que dificultam o recebimento de benefícios”, avalia a assistente social Cacilda Ferreira dos Reis. Ela ressalta que, sobretudo os artistas que tiveram filhos na França, começam a reorientar a carreira, deixando de dançar para produzir espetáculos, ou participando de cursos na área de serviços. São brasileiros acima dos 35 anos, sem formação superior, que acreditam na dificuldade de reinserção no mercado de trabalho, caso retornem ao país de origem. A assistente social é autora da tese de doutorado “Sonhos, incertezas e realizações: as trajetórias de músicos e dançarinos afro-brasileiros no Brasil e na França”. Cacilda percorreu o mesmo caminho de seus 17 entrevistados no trabalho de pesquisa: de Salvador para a França. Foram nove meses de estágio em Paris, além de ter percorrido outras cidades francesas como Nice, Lyon e Nantes, para acompanhar de perto os artistas migrantes. “O objetivo do meu trabalho é refletir sobre as atividades artísticas. Quais

A assistente social Cacilda Ferreira dos Reis, autora da tese: acompanhando a trajetória de 17 dançarinos

aprisionados à baianidade são as especificidades dessas atividades e como se distinguem de outra forma de trabalho. E, a partir dessas trajetórias, queria investigar as condições sociais e históricas que acabaram impulsionando jovens pobres no Brasil e nascidos na Bahia, a escolher a música e a dança como tentativa de subverter as condições socioeconômicas e garantir a ascensão social”. Entender como foi o processo de formação dos bailarinos e músicos na Bahia seria o início da pesquisa acadêmica. “Em campo fomos percebendo que a formação dessas pessoas se dá nas organizações e grupos culturais baianos. São grupos que fazem shows, e também alguns órgãos do Estado como, por exemplo, a Fundação Cultural do Estado da Bahia. Essas organizações recebem os jovens e crianças de bairros periféricos de Salvador”, complementa. Para as famílias, se a criança integra um grupo, está ocupando seu tempo. A música percussiva ou dança afro-brasileira são opções comuns. Quando adultos, prossegue a pesquisadora, começam a enxergar as atividades artísticas como estratégia de sobrevivência e ascensão social. “Essas atividades podem representar uma forma de rendimento maior do que aquelas a que eles poderiam ter com a formação de ensino fundamental e médio”. Há três décadas a Bahia viveu a explosão da indústria do turismo e surgiram grandes produtores na área do axé music. Cacilda ressalta que houve, portanto, uma ampliação do número de músicos e de dançarinos, e a consequente ampliação do mercado de trabalho e de shows no exterior. A migração passou a ser uma possibilidade. Ainda no cenário da década de 1980, agenciadores pagavam as passagens, faziam um contrato, forneciam alojamento e o artista fazia shows em várias partes do mundo. Um exemplo, de acordo com a autora da tese, foi o grupo “Brasil Tropical”, que fez turnês por vários países levando o show típico brasileiro. Um espetáculo brasileiro, e não baiano. Cacilda explica que as dançarinas de dança afro-brasileira precisavam aprender o samba carioca, que é o carro-chefe das atrações ainda hoje. “É o modelo de show do samba carioca, de plumas e paetês, é o carnaval. A dança afro é muito diferente, dança-se com pés descalços, está vinculada ao candomblé e aos orixás. No samba, as artistas precisam alongar os cabelos, exagerar na maquiagem. Todos acreditam que não há espaço para a dança afro exclusivamente”. Havia também o artista que migrava por conta própria, ou aquele que viajava agenciado, mas sem contrato formal. Mais recentemente, entre os anos de 1990 e 2000, os

artistas passaram a viajar como turistas ou estudantes. “Encontrei pessoas que vivem na França há 15 anos e que escolhem o país por considerá-lo mais acolhedor para a cultura brasileira, além de oferecer melhores condições de trabalho”. Os entrevistados na pesquisa conseguiram visto de residência por até dez anos, renovando os contratos de trabalho. “Mas, por conta das mudanças das políticas migratórias, alguns começam a ter a necessidade de buscar o visto de permanência. E hoje tem aumentado a dificuldade de fazer trabalhos dentro de uma situação legal”.

BAIANIDADE

Cacilda desenvolveu uma pesquisa qualitativa e sua tese detalha e analisa as 17 entrevistas com músicos e bailarinos baianos. “Eu aciono as redes de relações, visitando algumas instituições e organizações de Salvador como, por exemplo, o bloco cultural Ilê Aiyê, Bagunçaço, ou a Fundação Cultural. Recebo indicações de pessoas e começo a fazer entrevistas. Dessa forma chego aos artistas que estão na França. Trabalho a rede de relações”, afirma. A pesquisadora verifica que a formação dos jovens ocorre em vários grupos, por meio de cursos gratuitos. “Mais de 60 entidades ligadas à dança afro-brasileira e/ou à música afro-percussiva recebem financiamento da prefeitura de Salvador ou do governo do Estado para o carnaval, em 2013, e em contrapartida realizam projetos sociais”, explica. Cacilda avalia que essas pessoas acreditam estar cumprindo uma vocação natural. “É o conceito de baianidade que aprisiona. Todos acham que há uma inclinação natural do baiano para a música e a dança. É o que está acessível”. Mas a reflexão é maior porque a arte também envolve a questão do trabalho, preocupação do grupo de pesquisa coordenado pela professora Liliana Segnini, orientadora da tese. “O artista também é um trabalhador e a atividade exige condições concretas e materiais”, diz. Segundo Cacilda, muitas vezes os percussionistas que fazem os cursos nos grupos baianos não têm os instrumentos necessários para aprender os novos ritmos, e não conseguem passar em um curso de aptidão em uma faculdade de música, assim como os dançarinos que dominam a dança afro. “Por esse motivo, para aprender instrumentos diferentes, os músicos transitam muito entre as instituições, já que cada uma tem uma ‘especialidade’. Quem quer aprender o samba reggae vai para o Olodum, samba afro é no Ilê Aiyê, a Timbalada é outra possibilidade”. Quem toca apenas um ritmo ou instrumento tem maior dificuldade para ingressar em uma banda como percussionista, a autora exemplifica.

Há os artistas que depois de migrarem apenas dão cursos ou estágios de percussão e não fazem shows. “Os percussionistas, principalmente, alugam um estúdio, você se matricula e o fato de ser baiano e ter passado por essas entidades atrai os interessados. Já na propaganda do curso eles dizem que se trata de artista nascido na Bahia, em Salvador ‘a cidade mais negra do Brasil’”.

MODELO

O desejo de migrar permanece no imaginário dos jovens baianos que se iniciam no meio artístico, mas há um debate sobre o esgotamento desse modelo, pois além das barreiras criadas pelos países, há mais “oferta” de shows culturais pelo mundo, segundo a pesquisadora. Todas as condições verificadas por Cacilda reiteram a característica de precariedade do trabalho artístico. “O trabalho no campo das artes é intermitente, independentemente do artista ser músico ou dançarino. E no Brasil ainda há o agravante da atividade estar desprotegida. Os músicos e dançarinos que conseguem ter uma rede de contatos potencializam as possibilidades de trabalhar tanto no Brasil como no exterior. De um modo geral, os entrevistados da pesquisa estão em melhores condições socioeconômicas do que em relação ao que tinham antes, particularmente aqueles que conseguem migrar. Mas a amplitude da formação que tiveram será determinante no destino de cada um.”

Publicações Artigo Música e dança afro-brasileira: os caminhos da formação e profissionalização artística; In: Diversidade e sistema de ensino brasileiro / Maria Alice Rezende Gonçalves, Ana Paula Alves Ribeiro (organizadores). Rio de Janeiro: Outras Letras, 2012. 16 224 p. (A Lei nº 10.639/03 e a formação de professores; v.2) Tese: “Sonhos, incertezas e realizações: as trajetórias de músicos e dançarinos afro-brasileiros no Brasil e na França” Autora: Cacilda Ferreira dos Reis Orientadora: Liliana Segnini Unidade: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) Financiamento: Capes e Cofecub


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