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Campinas, de 20 a 26 de agosto de 2012 - ANO XXVI - Nº 536 - DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

IMPRESSO ESPECIAL 1.74.18.2252-9-DR/SPI Unicamp

CORREIOS

FECHAMENTO AUTORIZADO PODE SER ABERTO PELA ECT

O Brasil no mapa do

mundo O livro O desenho do Brasil no teatro do mundo (Editora da Unicamp), do historiador Paulo Miceli, resgata a trajetória da representação cartográfica da Terra, desde o final da Idade Média, com ênfase em mapas feitos sobre o Brasil no período colonial. “O meu foco não foi produzir uma história da cartografia, mas evidenciar como o Brasil foi sendo reproduzido nesse esforço da humanidade em desenhar a Terra”, explica Miceli. Página 3

Aloísio Silva, um dos sobreviventes: ação reparadora contra o Estado brasileiro por violação de direitos

“America Meridionale”, de Vincenzo Coronelli, de 1692

Eugenia à brasileira Tese do historiador Sidney Aguilar Filho revela, a partir da história de 50 meninos que foram transferidos de um educandário do Rio para uma fazenda no interior de SP, como políticas eugenistas de inspiração nazista foram introduzidas no Brasil no período anterior à 2ª Guerra. Página 6 e 7

Uma embalagem feita à base de farinha Página 2

Câncer e tuberculose no alvo do P-Mapa Página 3

Pesquisadora purifica ácido antibactéria Página 4

Sistema barateia transporte de energia Página 5

Um funcionário entre cobras e lagartos Página 8

Para aumentar o autocontrole da gestante Página 9

Foto: Mário Franca

Inova facilita parceria pesquisador-empresa Página 11


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Campinas, de 20 a 26 de agosto de 2012

Pesquisadora desenvolve embalagem à base de farinha de tubérculo andino Foto: Antoninho Perri

Biofilme de biri aumentou vida útil de alimentos de 12 para 15 dias ISABEL GARDENAL bel@unicamp.br

m sua tese de doutorado, feita na Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA), a pesquisadora Margarita Andrade-Mahecha desenvolveu um biofilme de farinha de biri (um tubérculo originário dos Andes, muito consumido na Colômbia como biscoito) que conseguiu aumentar o tempo de vida útil de alimentos como o cogumelo in natura – de 12 para 15 dias, três dias a mais que a embalagem feita hoje com material sintético. O trabalho teve como orientadora a docente da FEA Florencia Menegalli. A tarefa não foi simples e envolveu trabalhar com um dos problemas mais desafiadores dos materiais biodegradáveis, que é o fato de serem muito higroscópicos e acabarem retendo maior umidade, sem falar no baixo desempenho mecânico em relação a outros materiais. Devido ao seu alto teor de amido no rizoma (um tipo de caule), o biri apresenta potencial como matéria-prima para produção comercial tanto de amido como de farinha. Na tese, a autora realizou diversos testes e, em cada etapa, buscou novas metodologias com o intuito de melhorar as propriedades mecânicas, bem como reduzir a solubilidade e a permeabilidade à água desses materiais. Para isso, uma série de biofilmes foi elaborada empregando-se farinha de biri e misturas de amido de biri e celulose em forma microcristalina (que tem grande afinidade com os biopolímeros). Na última etapa, a doutoranda produziu a própria nanofibra de celulose a partir do bagaço do biri, adaptando um processo de obtenção de celulose industrial. As nanofibras foram desenvolvidas em condições mais brandas para logo serem acrescidas à suspensão filmogênica para produção dos filmes. Margarita notou como isso afetava a solubilidade, a permeabilidade à água e as propriedades mecânicas. E todos os experimentos conseguiram melhorias significativas nessas propriedades, embora deva levar ainda algum tempo até atingir a propriedade de um polímero sintético, estima Florencia. Por ora, os materiais estudados já podem ser usados como coberturas para frutas cortadas que, com a adição de princípios antioxidantes ou antimicrobianos, levam a um efeito de maior conservação. Além de Margarita, outros pós-graduandos que se dedicam a essa linha de pesquisa (testando embalagens produzidas a partir de biopolímeros, novos materiais que têm um papel sobremodo importante – não agridem a natureza) já desenvolveram biofilmes com vários tipos de farinha, amido e proteínas, efetuados com materiais não convencionais. A ideia é produzir materiais para embalagem e para acondicionar alimentos, visando a sua preservação durante armazenamento e transporte de produtos. Entre os trabalhos mais recentes realizados no grupo pelo qual Florencia é responsável, estão sendo analisadas, no momento, as propriedades das fibras para agirem como material de reforço de filmes biodegradáveis. Foram inclusive testados vários tipos de processos, em que se mediu a carga das nanofibras, o tamanho e o diâmetro. Ademais, foram concebidos outros tipos de filmes na FEA, para produtos mais secos, próprios para serem colocados em bandejas de material plástico, com processo totalmente conduzido com material biodegradável. Em seu estudo, Margarita investigou as propriedades térmicas e funcionais do amido e da farinha, os filmes adicionados com celulose microcristalina, a produção da nanofibra e as hidrólises, buscando aplicação em coberturas comestíveis à base do amido de biri (Canna

A professora Florencia Menegalli, coordenadora das pesquisas: aproveitamento integral dos alimentos

indica L.) para cogumelos frescos (Agaricus bisporus), armazenados sob condições de refrigeração.

BANANA

Um dos últimos trabalhos aponta para uma fruta rica em potássio, a banana, da qual se obtém a farinha e as nanofibras para produção de nanocompósitos. As bananas verdes in natura, depois de serem cortadas em rodelas, são desidratadas e posteriormente trituradas. Assim, está pronta a farinha de banana. A casca também é aproveitada. Dela são fabricadas as nanofibras de celulose, um material que depois será aditivado aos filmes. “Buscamos fazer um aproveitamento integral do fruto”, diz Florencia. A docente relata que os trabalhos tiveram início com as farinhas porque, para fazer um filme biodegradável, normalmente adiciona-se uma proteína e uma gordura. No caso da farinha de cereais, ela já vem com esses componentes, na qual todos os polímeros são compatíveis, do ponto de vista químico. A decisão de adicionar celulose foi intuitiva, comenta, após pensar que a celulose extraída do próprio produto seria mais proativa e se incorporaria melhor à mistura. Como alguns pesquisadores, capitaneados por Florencia, têm trabalhado pesado na esfera da formulação, em alguma etapa haverá a aplicação para usos mais específicos ainda. Atualmente, o grupo está estudando o recobrimento de frutas anterior à secagem. Figo, carambola e caqui são fatiados e sobre eles é aplicada uma cobertura, para depois passarem por secagem. Nesse momento, a cobertura é aditivada com vitamina C, ácido cítrico e outros sucos de frutas, como o morango. Tal cobertura protege-as durante a secagem pois, do contrário, diversas propriedades funcionais se

degradariam com facilidade. Esse processo não tem ainda um amplo uso comercial: a cobertura de frutos frescos ou secos. Porém, para que entrem em escala industrial, o fato de serem biodegradáveis por si só constitui já um grande apelo. Conforme a docente, a importância desses estudos está em ampliar o leque de opções e aproveitar integralmente os alimentos, já que, para se ter uma ideia, 40% da produção da banana é desperdiçada. A fim de lançar luz sobre o assunto, Florencia orientou um trabalho abordando a fruta, intitulado “Banana flour films (Musa paradisiaca): evaluation of film properties in terms of process variables”, escolhido entre os 12 melhores, dos 800 apresentados sob forma oral e de pôster, do International Congress on Engineering and Food 11th (ICEF11). Evento dos mais representativos na área de Engenharia de Alimentos, o ICEF11 foi realizado na Grécia no ano passado, tendo como autores as pós-graduandas Franciele Pelissari e Margarita Andrade-Mahecha, e o docente Paulo Sobral (da USP), além de Florencia. O estudo abordou a formulação de filmes a partir da farinha da banana.

Publicação Tese: “Microcompósitos, nanocompósitos e coberturas a base de materiais biodegradáveis obtidos a partir do biri (Canna indica L.)” Autora: Maria Trindade Marques Bizzarria Orientadora: Florencia Cecilia Menegalli Unidade: Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA)

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Campinas, de 20 a 26 de agosto de 2012

As últimas sobre o

3 Fotos: Antoninho Perri

P-Mapa Artigo revela que fármaco poderá ser útil no combate à tuberculose e ao câncer de bexiga O professor Wagner José Fávaro (à esq.), o administrador de empresas Iseu Nunes (centro) e o pesquisador Fábio Seiva: produto modifica resposta biológica

LUIZ SUGIMOTO sugimoto@reitoria.unicamp.br

m maio de 2010, o Jornal da Unicamp publicou entrevista com Carlos Henrique Fioravanti, autor da tese de doutorado “A construção de um medicamento no Brasil: a trajetória do fármaco P-Mapa”. O jornalista contava a história do médico Odilon da Silva Nunes (1922-2001), que há mais de 60 anos, num laboratório mantido com seus próprios recursos, pesquisava produtos originados de fungos com potencial antitumoral. A partir destas pesquisas, ele conseguiu criar uma molécula que ao longo dos anos se mostraria eficaz contra tumores e alguns tipos de microrganismos causadores de infecções oportunistas associadas ao HIV. É uma história que vem tendo sequência até hoje, graças à iniciativa do professor Nelson Durán, professor titular do Instituto de Química (IQ) da Unicamp (onde permanece como convidado voluntário, sendo também professor sênior da UFABC), e do administrador de empresas Iseu Nunes, filho do médico idealista. Em 2001, Durán e Nunes criaram a Farmabrasilis, uma rede de pesquisa aberta e sem fins lucrativos que, entre outros produtos, desenvolveu e disponibilizou gratuitamente um derivado da molécula original criada por Odilon Nunes, o P-Mapa, para pesquisas visando ao tratamento de doenças negligenciadas e aplicações em saúde pública. P-Mapa é a sigla em inglês para agregado polimérico de fosfolinoleato-palmitoleato de magnésio e amônio proteico, produto proveniente do fungo Aspergillus oryzae. Segundo os pesquisadores, o produto é um modificador de resposta biológica, ou seja, modifica a resposta do organismo contra doenças, podendo ainda atuar de maneira diferente em diversas doenças. “Um exemplo de modificador de resposta biológica bastante conhecido e utilizado é o Interferon”, ilustra Iseu Nunes, um dos coordenadores da rede Farmabrasilis, que reúne dezenas de pesquisadores atuando em projetos envolvendo o P-Mapa ao redor do mundo. Em junho, a revista Infectious Agents and Cancer publicou o artigo “Efeitos do imunomodulador P-Mapa sobre receptores toll-like e p53: possíveis estratégias terapêuticas para doenças infecciosas e câncer”. O artigo é assinado por pesquisadores da Farmabrasilis, Unicamp, Unesp e da Universidade do Colorado – estes patrocinados pelo NIAID (sigla em inglês para Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA). O artigo mostra que o P-Mapa é capaz de ativar determinados receptores do sistema imunológico e favorecer o combate à tuberculose e ao câncer de bexiga em experimentos com animais. É a primeira vez que os possíveis mecanismos comuns de ação

Medicamento surge como opção frente à BCG Uma curiosidade apontada pelo professor Wagner Fávaro, do IB, é que o tratamento do câncer de bexiga inclui a vacina BCG (Bacillus Calmette-Guerin), a mesma para tuberculose. “O tratamento envolve um procedimento cirúrgico que chamamos de ressecção transuretral e, depois de algum tempo, a aplicação intravesical da BCG, com a

Frascos de P-Mapa: medicamento está sendo testado há bastante tempo

do medicamento contra as duas doenças são descritos. “O P-Mapa está sendo testado há bastante tempo e já se sabia que ele podia agir contra câncer em animais. A grata surpresa dos últimos anos foi a demonstração do seu efeito também em doenças infecciosas in vivo [em animais de laboratório], a exemplo da malária, listeriose e leishmaniose visceral em cães. Nossos pesquisadores ficaram inicialmente perplexos porque não conseguiam visualizar um ponto comum para entender a atuação em patologias tão diversas”, lembra Iseu Nunes. O professor Wagner José Fávaro, do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, esclarece que as novas pesquisas sobre os mecanismos de ação permitem visualizar pelo menos um caminho comum: a atuação dos toll-like, que são receptores de alerta das células, tanto para doenças infecciosas como para alguns tipos de câncer. “Como resultado adicional, temos a confirmação por meio de trabalhos realizados no Brasil e Estados Unidos de que o P-Mapa pode agir em câncer e doenças infecciosas”. Os pesquisadores da Farmabrasilis consideram o P-Mapa um dos imunomoduladores mais versáteis em desenvolvimento, por aliar um amplo espectro de atuação com baixos efeitos colaterais adversos, nas dosagens utilizadas em animais experimentais. “O produto já foi testado em ratos, camundongos, macacos e cães, em pequenas e altas dosagens, e em nenhuma dessas espécies revelou toxicidade significativa ou que obrigasse à retirada da medicação. Se este efeito se mantiver em seres humanos, poderemos ter dado um grande passo para colocar um fármaco potente em utilização clínica, justamente por conta desta combinação: amplo espectro de ação com baixo efeito colateral adverso”, diz Iseu Nunes, com a ressalva de que isto ainda depende de confirmação futura.

90% DE EFICÁCIA

Wagner Fávaro é estudioso da carcinogênese, principalmente a urogenital, que afeta rins, bexiga urinária e prósta-

finalidade de evitar a progressão e a recidiva tumoral. É um tratamento desenvolvido na década de 1970 pelo médico Alvaro Morales e considerado uma das melhores opções terapêuticas até hoje.” O problema, ressalva o docente, é que existem muitos efeitos colaterais, como febre, sintomas irritativos, sangramento e infecção sistêmica; e que na vigência de um desses sintomas, pode haver necessidade de suspender a BCG, obrigando a tratamentos de segunda linha. “Quanto ao uso do P-Mapa, já nos nossos experimentos, os efeitos colaterais foram mínimos, com a redução das lesões em mais de 90% diante dos 20% conseguidos com a BCG. A perspectiva é de aumentar o contato do medicamento com o urotélio [tecido que reveste as vias urinárias] e melhorar o nosso protocolo

ta. “Meu trabalho envolve modelos animais, estudando os mecanismos da carcinogênese e o desenvolvimento de novas terapias. Já conhecia o P-Mapa e procurei a Farmabrasilis interessado em testar o efeito do medicamento no câncer de bexiga urinária. Isso porque já temos um modelo animal bem desenvolvido, em que conseguimos um bom grau de similaridade com o câncer incidente em seres humanos.” Recebido gratuitamente o produto, o docente da Unicamp propôs um projeto de pesquisa à Fapesp, aprovado em 2011. “Causou surpresa o efeito extremamente significativo do P-Mapa, reduzindo em mais de 90% as lesões neoplásicas, que foram caracterizadas como neoplasias não músculo invasivas da bexiga urinária (carcinoma in situ ou papilífero). Ficamos, então, curiosos em entender o mecanismo de ação deste produto, estudo que ainda está em andamento pelo projeto aprovado.” Ao mesmo tempo, um grupo da Universidade do Colorado investigou o efeito do P-Mapa em tuberculose, com resultados que indicaram a sua atuação em receptores da membrana celular conhecidos como toll-like. “A Farmabrasilis nos cedeu dados mostrando a atuação também in vitro nestes receptores. Como pesquisávamos os toll-like em neoplasias urogenitais, achei que o caminho poderia ser este para tais lesões. E os experimentos em animais com câncer de bexiga, realizados por mim e um pós-doutorando, confirmaram esta hipótese”, esclarece Fávaro. A pesquisa de pós-doutorado de Fábio Rodrigues Ferreira Seiva, orientada pelo docente do IB, indicou que o P-Mapa estimulava principalmente os tipos 2 e 4 de toll-like. “Sabemos, a princípio, que a ação se dá através de toll-like e da p53, proteína que atua como uma guardiã do DNA e tem provável atividade regulatória sobre estes receptores. Nos cânceres de bexiga, as alterações da p53 podem indicar se o tumor é mais ou menos agressivo. Já vimos que há modificações desta proteína e, agora, vamos tentar desvendar o mecanismo de ação”, adianta Fávaro, lembrando que esse trabalho é originário da Unesp de Botucatu, onde foi docente por vinte meses antes de voltar à Unicamp.

Para saber mais http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/maio2010/ ju462_pag0607.php

para diminuir as doses e o tempo de tratamento.” Em relação aos resultados do P-Mapa em tuberculose, Fávaro informa que Anne Lenaerts, considerada uma das principais pesquisadoras mundiais da doença, infectou o animal com Mycobacterium tuberculosis e, em seguida, administrou o P-Mapa isoladamente e também em associação com outra droga em testes na Universidade do Colorado, o Moxiflaxin. “Ela notou uma redução importante das unidades formadoras de colônia da bactéria no baço e no pulmão. Comprovada a ação do P-Mapa em tuberculose e em câncer de bexiga, temos outro medicamento com efeitos muito semelhantes aos da BCG, depois de 1976. Foi esta confluência de linhas de pesquisa em doença infecciosa e em câncer que gerou o artigo publicado na Infectious Agents and Cancer.”


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Escudo

antibactérias

Pesquisas contribuem para a produção em escala industrial do sal do ácido clavulânico

Fotos: Antoninho Perri

CARMO GALLO NETTO carmo@reitoria.unicamp.br

esquisa temática financiada pela Fapesp, de que participam professores da Unicamp, UFSCar e Unesp de Araraquara, estuda a produção do ácido clavulânico, da cefamicina C e de outros metabólitos bioativos de Streptomyces, um tipo de micro-organismo. Como parte desse projeto temático, no Laboratório de Bioprocessos, da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp, sob a orientação do professor Francisco Maugeri Filho, são pesquisados processos para purificação e concentração do ácido clavulânico, com a utilização tanto de peneira molecular como de nanofiltração. Especificamente a “Purificação e concentração do ácido clavulânico por nanofiltração” foi tema de pesquisa da engenheira de alimentos Andrea Limoeiro Carvalho. O trabalho é inovador no Brasil por utilizar a modelagem matemática do transporte através de membranas de nanofiltração e a caracterização dessas membranas utilizando técnicas microscópicas – que permitem visualizar a superfície da membrana – e eletrocinéticas – que possibilitam a determinação de sua carga superficial. O estudo contribui também para o desenvolvimento de técnicas de obtenção desse antibiótico atualmente produzido apenas em dois países: Portugal e Japão. O ácido clavulânico tem particular importância na ação protetora que exerce sobre outro antibiótico mais potente, a amoxilina, protegendo-a do ataque de bactérias. O mecanismo que permite “enganar” bactérias leva à potencialização da eficiência de um antibiótico como a amoxilina e tem sido utilizado para enfrentar o aumento crescente da resistência desses micro-organismos. Embora o trabalho desenvolvido na Unicamp atenha-se à purificação e principalmente à concentração do ácido clavulânico, o projeto temático mais amplo parte da escolha de cepas (micro-organismos) mais adequadas; da definição do melhor meio de produção dessa substância; além de tratar de sua purificação, concentração e liofilização, um processo de secagem a vácuo, a baixas temperaturas, usado para obtenção do produto na forma sólida. Andrea chegou ao laboratório para trabalhar com modelagem de bioprocessos, em que a simulação em computador antecede à experimentação. Esse estudo exige entendimento prévio do processo, o que a levou então a realizar a modelagem para caracterização da membrana em parceria com a Universidade de Valadolid, na Espanha, durante doutorado sanduíche. Para conhecer como se processa a atuação da membrana é necessário determinar o tamanho dos poros e sua permeabilidade, o que permite estabelecer a eficiência da membrana. Ela explica: “Na fase experimental, procuramos a membrana mais adequada para o processo. Por sua vez, a construção do modelo exigia o entendimento do funcionamento dessa membrana, daí a necessidade de informações sobre ela, que permitiriam sua caracterização”.

A engenheira de alimentos Andrea Limoeiro Carvalho: “Procuramos a membrana mais adequada para o processo”

O EXPERIMENTAL

A membrana, que se parece a uma folha de papel, é enrolada como um rocambole e colocada em um vaso de pressão tubular que suporta elevadas pressões. A solução do caldo clarificado resultante da produção do ácido clavulânico é alimentada no sistema, o qual é submetido à pressão de trabalho adequada. Pelos poros da membrana passam a água e substâncias menores, como alguns sais inorgânicos, permanecendo no interior da mesma a solução concentrada do acido. A pesquisadora conseguiu através deste processo um aumento de cinco vezes na concentração do ácido, certo grau de purificação, além de avaliar a eficiência do processo, analisando tanto a composição do concentrado como do filtrado. O estudo envolveu várias etapas: 1) seleção e caracterização das membranas a serem utilizadas; 2) aplicação de modelo matemático que permitiu a simulação dos resultados experimentais; 3) a avaliação do desempenho de determinadas membranas; 4)ampliação de escala no processo envolvendo a membrana que

Equipamento usado nos experimentos: trabalho inovador no país utiliza a modelagem matemática e caracteriza membranas com técnicas microscópicas

apresentou melhores resultados nas etapas anteriores. Esses dados permitiram a geração de um modelo que explicasse o transporte através de membranas. Por fim, Andrea realizou experimentos que permitiram acompanhar o processo em escala piloto. Na verdade, o antibiótico utilizado corresponde ao sal de potássio derivado do ácido clavulânico. Então, esse ácido produzido por microorganismos é transformado no respectivo sal, o clavulanato de potássio, que tem

estrutura mais estável e é comercializado, em mistura com a amoxilina, na forma de comprimidos. O clavulanato protege a amoxilina da ação das bactérias que tenderiam a destruí-la para que ela possa atuar com mais eficiência, embora ele também apresente ação antibiótica. Na fase experimental, a pesquisadora não utilizou a solução fermentada do ácido, que se degrada rapidamente na forma em que é produzido, e que por isso, exige armazenamento em ultrafreezer, em temperaturas abaixo de 80 graus Celsius negativos. Essa dificuldade foi sanada preparando uma solução, com algumas características do fermentado, obtida pela dissolução em água de comprimidos do produto farmacêutico comercializado que contém a mistura de amoxilina e clavunalato de potássio. Nessa solução foi adicionada também peptona, que é uma mistura de peptídeos, cujas moléculas são menores que as das proteínas. Na nanofiltração, parte desses componentes menores passam junto com o caldo clarificado, ficando retido o clavunato e moléculas maiores, como alguns peptídeos. Então é necessário determinar o que fica retido no concentrado e o que acompanha o caldo. Previamente, uma mistura preparada sem peptona foi testada em quatro membranas comerciais e foram analisadas tanto a solução mais concentrada que não passa pela nanofiltromembrana, como a que a atravessa. A membrana mais eficiente permitiu a maior concentração da solução de ácido no menor tempo, em função de um fluxo maior do filtrado. Como durante o processo o sistema automaticamente se aquece, acelerando a degradação do ácido, a rapidez da filtração atenua a decomposição da substância e possibilita o seu emprego em um eventual processo industrial mais eficiente e barato. Estabilizando a temperatura do sistema em 20 graus Celsius com a utilização de um banho, a pesquisadora conseguiu concentrar para dois litros os dez litros iniciais da solução em menos de quatro minutos, o que considera muito bom em relação aos dados mencionados na literatura. Embora não adequada como forma de separação da peptona e do ácido clavulânico, a nanofiltração se mostrou eficiente na concen-

tração da solução do ácido clavulânico, o que a torna interessante como etapa que antecede às de formação do sal de potássio. A pesquisadora explica que o desenvolvimento do modelo computacional e a realização dos testes experimentais permitem extrapolar os resultados para um projeto piloto e dele para uma escala industrial. Ela considera que o trabalho desenvolvido na Unicamp e as pesquisas envolvendo produção do ácido, obtenção do sal correspondente e sua cristalização, etapas estas estudadas na UFSCar e na Unesp, contribuirão para o desenvolvimento futuro de um processo que permitirá a fabricação do produto no Brasil. Andrea lembra que o projeto temático estendeu-se por dez anos, centrado na UFSCar, mas existem ainda algumas pesquisas sendo finalizadas com vistas ao desenvolvimento de uma tecnologia brasileira. Ela esclarece também que no laboratório está sendo utilizado o mesmo processo de purificação e concentração para outros produtos e que dependendo de suas características se lança mão ou da ultrafiltração ou da nanofiltração, em que a diferença reside no tamanho dos poros. Em relação ao trabalho específico em que esteve envolvida, Andrea Limoeiro Carvalho destaca o processo temático que envolve diversas atividades de várias instituições; o desenvolvimento de um modelo teórico para simulações; a importância do produto estudado e a abertura da possibilidade de vir a ser fabricado no Brasil; o desenvolvimento de um processo que envolve um fluxo de filtração rápido, que permite a obtenção de um concentrado em tempo reduzido, importante na escala industrial; a utilização de uma tecnologia limpa, que não utiliza solventes para a purificação, o que levaria a resíduos químicos; a utilização de membranas cuja vida útil vem aumentando ao longo dos anos; a demanda de baixo gasto de energia, usada no banho de resfriamento e no acionamento da bomba de pressão.

Publicação Tese: “Purificação e concentração do ácido clavulânico por nanofiltração” Autora: Andrea Limoeiro Carvalho Orientador: Francisco Maugeri Filho Unidade: Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) Financiamento: Fapesp


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Sistema barateia transporte de

energia elétrica

Transmissão em corrente alternada elimina utilização de equipamentos de conversão Fotos: Antoninho Perri

CARMO GALLO NETTO CARMO@reitoria.unicamp.br

transporte de energia elétrica da usina em que é produzida até os centros de consumo tem custos que dependem, principalmente, das formas de transmissão utilizadas e das distâncias envolvidas. Na transmissão convencional, a energia elétrica gerada na usina em corrente alternada (CA) é transportada através de linhas de até 400 km de comprimento, que necessitam de uma grande quantidade de equipamentos para regular essa transmissão. Quando as distâncias envolvidas são maiores, a CA é convertida em corrente contínua (CC) para a transmissão e, depois, na recepção novamente transformada em CA para distribuição aos consumidores. Este processo exige a utilização de equipamentos de tecnologia sofisticada, tanto na estação geradora como na estação receptora. O transporte de grandes blocos de energia elétrica através de longas distâncias, que variam de 2,5 mil a 3 mil km, típicas em países extensos como o Brasil, impõe a utilização de soluções mais adequadas, baseadas em linhas de transmissão não convencionais. Estudos desenvolvidos, desde 2007, junto ao Departamento de Sistema e Controle de Energia da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC) da Unicamp, orientados pela professora Maria Cristina Dias Tavares, mostram a viabilidade e as vantagens da substituição do sistema em CC por outro em que a transmissão seja feita em CA, eliminando a necessidade de equipamentos de conversão utilizados na saída e na chegada da energia. Essa transmissão ponto a ponto permite ainda a eliminação das subestações intermediárias presentes na transmissão convencional e grande parte dos equipamentos nela utilizados. É a chamada transmissão em meia onda que, para o sistema elétrico brasileiro de CA em 60 Hertz, é indicada para um tronco de transmissão em que as distâncias entre as estações geradoras e receptoras de energia estejam a cerca de 2,5 mil km. Para a professora Maria Cristina, esse sistema revela-se muito interessante, porque todos os equipamentos das estações conversoras são importados – válvulas, transistores, filtros, pois não existe tecnologia nacional desenvolvida para a transmissão em CC. Para a transmissão em CA todos os equipamentos podem ser adquiridos no Brasil, abrindo a possibilidade de alavancar a indústria nacional. Neste caso, explica ela, as estações do início e do fim da linha são muito parecidas com as utilizadas hoje nas linhas convencionais em CA. A diferença é que na transmissão em meia onda essas estações são mais simples e não exigem os equipamentos utilizados para a estabilidade do sistema durante a transmissão. Além disso, a implantação de uma transmissão que utiliza uma estação de geração e outra de recepção e uma estrutura de torres e cabos ao longo da linha torna o sistema mais barato, podendo gerar de 20% a 25% de economia em relação à alternativa em CC.

A professora Maria Cristina Dias Tavares, orientadora, e Elson Costa Gomes, autor da dissertação: transmissão ponto a ponto dispensa subestações intermediárias

DISPARIDADES

Grande parte da energia hidrelétrica passível de ser aproveitada no Brasil encontra-se na Região Amazônica, muito distante dos grandes centros consumidores. Prevê-se que o potencial dessa região corresponda à metade do potencial hidráulico estimado para o Brasil. Entretanto, o consumo de energia elétrica na Região Norte e em parte da Região CentroOeste, que correspondem a 45% do território nacional, não chega a 4% do consumo total de energia do país. Em vista disso, novas linhas estão e devem ser construídas para transportar essa energia através de troncos, que envolvem interligações de 2 mil a 3 mil de extensão, até os grandes centros consumidores, localizados nas Regiões Sul/Sudeste e Nordeste. É o caso da linha de transmissão do Complexo do Rio Madeira, em Rondônia, bem perto de Porto Velho. A energia produzida nas usinas de Santo Antônio e Jirau, situadas em duas barragens separadas por 100 km, chegará a Araraquara, São Paulo, percorrendo 2.350 km. Sistemas com linhas muito longas são necessários em países com grandes dimensões como o Brasil, China, Rússia e Índia, além de, por exemplo, possíveis interligações entre Norte e Sul da África, em que grandes distâncias separam os centros de geração e os centros de carga. Apesar de os estudos envolvendo transmissão com pouco mais de meio comprimento de onda remontarem à década de 60, não existe sistema desse tipo em operação. A falta de informações sobre essa prática gera precaução nos engenheiros e técnicos responsáveis pela expansão do sistema elétrico brasileiro em relação à utilização dessa alternativa. Em vista disso, em chamada de projeto P&D-Estratégico, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Annel) propôs um ensaio prático desse novo sistema, sob condições bem definidas. A sugestão foi então a utilização de um conjunto de linhas de transmissão no sistema brasileiro, utilizando especificamente as interligações Norte-Sul I, Norte-Sul II e parte da interligação Nordeste-Sudeste que, ligadas em série, formam um tronco de 2,6 mil km, um pouco mais longo que meio comprimento de onda. O ensaio de energização, que corresponde à aplicação de uma tensão para acionamento da linha previamente desligada, envolve três empresas ligadas à transmissão de energia e

financiadoras do P&D: Centrais Elétricas do Norte do Brasil S.A. (Eletronorte/Eletrobras), Centrais Hidroelétricas do São Francisco S.A.(Chesf/Eletrobras) e Empresa Norte de Transmissão de Energia Elétrica S.A. (Ente). Em colaboração com a Unicamp, que coordena o projeto, trabalham a Universidade Federal da Bahia (UFBA) e a Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

ENSAIO

Entretanto, a utilização das três interligações propostas na formação do denominado Elo CA Teste necessita de estudos para sua validação já que as linhas de transmissão a serem utilizadas apresentam parâmetros elétricos semelhantes, mas não idênticos. Diante dessa necessidade, Elson Costa Gomes, orientado pela professora Maria Cristina, se propôs a estudar a viabilidade da utilização de linhas de transmissão semelhantes, mas não iguais, no ensaio de energização de um tronco com pouco mais de meio comprimento de onda. A conclusão foi de que, mesmo apresentando pequenas diferenças, a junção dessas três linhas não inviabiliza o experimento e nem descaracteriza o sistema de meia onda. Não foram aventadas para teste outras linhas existentes que cobrem grandes distâncias por não exibirem as semelhanças necessárias em toda a extensão. Além do apoio das empresas envolvidas, a pesquisa, que foi tema da dissertação de mestrado de Gomes, contou com bolsa da CNPq, apoio do Capes e da Fapesp. O estudo visa embasar os técnicos das empresas envolvidas no projeto e mostrar os resultados para a Aneel e para o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) – criado para operar, supervisionar e controlar a geração de energia elétrica no País. Desses dois organismos depende a liberação do estu-

do de campo que possibilitará a passagem das simulações computacionais para o ensaio real. Os pesquisadores lembram que, face às diferenças dos regimes de chuvas e, em consequência, da época do ano, a transmissão de energia ocorre do Norte para o Sudeste, ou vice-versa. Em dois períodos do ano esse trânsito de energia é baixo e permite que os três sistemas sejam desligados para o ensaio. Já com a concordância da Aneel, o estudo encontra-se na fase de apresentação dos resultados ao ONS, mostrando que não haverá danos para essa parte do sistema a ser manobrado durante o ensaio. A professora considera que “estamos na fase de consolidação dos resultados e devemos mais adiante realizar alguns estudos mostrando como a proteção que já existe no sistema irá se comportar se houver algum problema durante o teste. Nossos estudos mostram que os equipamentos que já existem nessas linhas e continuarão funcionando para permitir a ligação dessas linhas, concluído o teste, voltarão às suas funções normais”. Ela diz que isso é importante porque esses equipamentos, dimensionados para operar em linhas curtas, estarão sendo utilizados para uma linha de 2,6 mil km. Segundo Gomes, as simulações mostram que, apesar disso, as solicitações são menos severas e não existe nenhum efeito que reduza a vida útil dos equipamentos. O ensaio, previsto para um feriado ou uma madrugada, poderá ser realizado em no máximo seis horas, tempo decorrente entre a montagem, energização do circuito e o seu retorno às condições habituais de operação. Para o pesquisador, os resultados apresentados são importantes para subsidiar a realização de testes semelhantes em outras partes do sistema elétrico brasileiro ou em outros sistemas do mundo. Ele considera que a meia onda seria uma alternativa competitiva com o sistema convencional e em corrente contínua a serem usados no transporte da energia produzida nas barragens que estão sendo construídas no Brasil, quando poderá se constituir uma opção nos leilões dos sistemas de transmissão. Maria Cristina teme que todo o esforço dedicado ao trabalho possa vir a ser atropelado pelos chineses: “Os chineses acompanham e fazem referências aos nossos estudos, mas quando eles se propuserem a trabalhar nisso colocarão muita gente e muito dinheiro e com certeza conseguirão avançar muito mais rapidamente”.

Publicação Dissertação: “Utilização de linhas de transmissão semelhantes no ensaio de energização de um tronco com pouco mais de meio comprimento de onda” Autor: Elson Costa Gomes Orientadora: Maria Cristina Dias Tavares Unidade: Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC) Financiamento: CNPq, com apoio da Capes e da Fapesp


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Tese da área da educa

inspiração nazista no p

Historiador recupera história transferidos de educandário Fotos:Reprodução

MANUEL ALVES FILHOO manuel@reitoria.unicamp.br

olíticas eugenistas de inspiração nazista foram perpetradas no Brasil no período anterior à Segunda Guerra Mundial. A afirmação é do historiador Sidney Aguilar Filho, que defendeu recentemente tese de doutorado na Faculdade de Educação (FE) da Unicamp com o tema “Educação, Autoritarismo e Eugenia: Exploração do trabalho e violência à infância desamparada no Brasil (1930-45)”. No trabalho, orientado pela professora Ediógenes Aragão Santos, o autor recupera a história de 50 meninos órfãos ou abandonados – a maioria negra e com idades variando de nove a 11 anos –, que foram transferidos de um educandário do Rio de Janeiro para uma fazenda no interior de São Paulo, onde foram submetidos, sob os auspícios da legislação da época, a trabalhos forçados, castigos físicos e humilhações. O estudo está dando origem a um documentário, tem proposta para ser transformado em livro e foi indicado pela FE para representar a unidade no Prêmio Capes de Teses. O tema do estudo, conta Aguilar, caiu repentinamente no seu colo. Ele dava uma aula sobre a Segunda Guerra para uma turma do ensino médio, quando uma de suas alunas afirmou que a suástica, o símbolo utilizado pelo nazismo, estava inscrito em tijolos de casarios demolidos na fazenda do pai dela, situada na cidade de Campina do Monte Alegre (SP). “Aquela informação ficou adormecida por anos. Cheguei a repassá-la para alguns centros de pesquisa, mas ninguém se interessou. Quando finalmente comecei a investigar o assunto, percebi que as dimensões eram infinitamente maiores do que eu imaginava. O que mais me chamou a atenção nem foi tanto a simbologia nazista encontrada na propriedade, mas a coincidência dela com evidências da forte presença integralista no mesmo local”, relata. Esta justaposição, diz Aguilar, já justificaria um estudo mais aprofundado. Ocorre, porém, que ele deparou com um fato, nas palavras dele, ainda mais chocante. “Descobri que aquela e outras fazendas da região haviam sido utilizadas para abrigar 50 meninos órfãos ou abandonados, que foram retirados, a partir de 1933, do Educandário Romão de Mattos Duarte, mantido pela Irmandade de Misericórdia do Rio de Janeiro. No local, eles eram submetidos a trabalhos forçados, a castigos físicos, a humilhações e a toda sorte de violação de direitos. Todas essas propriedades pertenciam à família Rocha Miranda, uma das mais ricas do Brasil na época, que era dona de bancos, empresas de transportes e hotéis de luxo”, afirma.

A insígnia nazista no time de futebol (acima), no certificado de origem animal (ao lado) e em tijolo (abaixo, ao lado de outro com o símbolo integralista): Fazenda Cruzeiro do Sul, em Campina do Monte Alegre, serviu de cárcere para crianças órfãs e abandonadas

FILANTROPIA

Um aspecto que chamou a atenção do autor da tese foi o fato de a transferência das crianças ter sido feita com a concordância da Igreja, o patrocínio da elite empresarial e a anuência da Justiça, tudo sob a justificativa de que a medida teria caráter educativo e filantrópico. Ao consultar documentos da época do Educandário Romão de Mattos Duarte, da Irmandade de Misericórdia, do Ministério da Agricultura e do Arquivo Público do Estado de São Paulo, o pesquisador constatou que a remoção dos meninos – 48 negros e pardos e somente dois brancos – foi autorizada pelo titular do Juizado de Menores do Rio de Janeiro, José Cândido de Albuquerque Mello Mattos, que O historiador Sidney Aguilar concebeu o primeiro Código do Filho: políticas de inspiração nazista foram perpetradas sob Menor do país. os auspícios da legislação Segundo o autor da tese, os membros da família Rocha Miranda i Perr inho n participavam da cúpula da Ação Into : An Foto tegralista Brasileira (AIB), grupo de ultradireita com inspirações fascistas, cujo nome de maior destaque foi Plínio Salgado. “Um dos membros dessa família, Renato Rocha Miranda, presidia uma grande empresa de carvão de Santa Catarina. Através de fontes documentais, eu consegui recuperar dados sobre negócios que ele manteve, tanto antes quanto depois da Segunda Guerra, com a família Krupp, dona de uma poderosa siderúrgica alemã produtora de armas e equipamentos bélicos. Nunca é demais lembrar que um dos membros do clã alemão foi Alfried Krupp, ministro da Economia de Guerra de Adolf Hitler, condenado pelo Tribunal de Nuremberg pelo uso de trabalho escravo de judeu”, assinala Aguilar. Após o conflito mundial, continua o historiador, Alfried Krupp comprou

Anauê, publicação da Ação Integralista Brasileira: ação orquestrada


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ação revela práticas de

país antes da 2ª Guerra

a de 50 meninos que foram o no Rio para fazenda em SP Foto: Mário Franca

uma das fazendas de Renato Rocha Miranda, para onde enviou o seu único herdeiro, Arndt von Bohlen und Halbach. As duas famílias tinham interesse em implantar uma siderúrgica no Brasil. “Ou seja, no meio dessas relações empresariais internacionais envolvendo adeptos do integralismo e do nazismo, havia um grupo de 50 crianças submetidas a toda sorte de violência. O caminho que adotei para tratar todo esse episódio foi estudar a história da educação desses meninos. O que eu acabei encontrando, depois de analisar inúmeros documentos, foi uma legislação abertamente eugenista nessa área”, sustenta o pesquisador. Ao se debruçar sobre documentos produzidos pela Assembleia Constituinte promulgada em 1934, por exemplo, o autor da tese diz ter identificado uma bancada formada por mais de 20 constituintes que defendia práticas eugenistas e afins em propostas voltadas às políticas educacionais, migratórias e sanitárias, entre outras. “Na época, não havia o conceito do politicamente correto, tão presente nos dias atuais. Muitos legisladores não usavam meias-palavras para fazer manifestações homofóbicas, machistas e segregacionistas. Tanto é assim que o artigo 138 daquela Constituição estabelece ser função do Estado nacional incentivar a educação eugênica. Isso coincide com o momento em que os meninos eram retirados do Rio e transferidos para a fazenda em Campina do Monte Alegre”, reforça. Aguilar revela que teve muita dificuldade em trabalhar com um tema tão espinhoso e doloroso. “Confesso que fiquei exaurido por incontáveis vezes ao ler os textos e as manifestações dos ultradireitistas, dos racistas. Trabalhei com a dúvida até o fim da pesquisa. Vivia me questionando se tudo aquilo realmente acontecera. Mas, o fato é que todas as evidências funcionaram como fios que se entrelaçavam num tecido inquestionável. De fato, as práticas autoritárias e eugenistas foram transformadas em políticas de Estado no Brasil”, assevera.

BALAS AMARGAS

Além de basear a sua investigação em farta documentação, Aguilar também entrevistou muitas pessoas que tiveram envolvimento direto ou indireto com o episódio dos meninos, inclusive três sobreviventes, que hoje estão com idades beirando os 90 anos. O depoimento mais marcante foi de Aloísio Silva, que integrou a primeira turma a ser transferida do Rio para o interior de São Paulo – as crianças vieram em três levas. Ainda morador de Campina do Monte Alegre, onde constituiu família, ele inicialmente se recusou a falar sobre a experiência. “Primeiro, pensei que fosse medo. Depois, entendi que a recusa tinha a ver com trauma. Falar sobre o que sofreu naquela época seria muito dolorido para ele”, explica o historiador. Estrategicamente, Aguilar resolveu se aproximar dos filhos dos sobreviventes, como forma de mostrar a seriedade da pesquisa. “Essa decisão de mostrou acertada. Aos poucos, e através deles, fui me aproximando dos personagens principais da história. Um aspecto que percebi foi que, assim que eu apresentava aos sobreviventes os documentos que havia colhido, eles iam se mostrando mais receptivos. O primeiro a falar foi o senhor Aloísio. Ou seja, a memória documental incentivou a memória oral. Assim que ele começou a contar tudo o que viu e viveu, outras pessoas, inclusive moradores da cidade, também concordaram em contribuir com depoimentos”. Segundo o autor da tese, as narrativas feitas pelo senhor Aloísio confirmaram que os meninos foram submetidos a trabalhos exaustivos, sem qualquer remuneração. Aqueles que não cumpriam as tarefas ou desobedeciam às ordens dos “cuidadores”, que o sobrevivente classificou como “feitores”, eram espancados e, não raro, impedidos de comer. “Um relato do senhor Aloísio que me marcou bastante foi sobre a forma como as 50 crianças foram escolhidas para serem retiradas do educandário carioca. Segundo ele, um homem, posicionado numa espécie de passadiço, jogava balas coloridas ao chão. Os meninos que pegavam primeiro as guloseimas eram selecionados, por serem considerados mais ágeis e espertos, e apartados dos demais”. Até onde o historiador conseguiu apurar, poucos daqueles órfãos e desvalidos ainda estão vivos. Alguns morreram ainda no cárcere, Aloísio Silva, que integrou a primeira turma a ser transferida: meninos eram submetidos a trabalhos exaustivos outros conseguiram fugir e os demais foram “libertados” anos depois, já na fase adulta. Desses, pouco se sabe. Ao falar sobre o que espera em termos de repercussão da sua tese, Aguilar afirma desejar que ela provoque incômodo a todos aqueles que tiveram acesso ao texto. “A tese também é um convite aos atuais educadores, para que reflitam sobre a sobrevivência ou não desses princípios autoritários e racistas no pensamento e na prática cotidianos. Em termos de discurso, me parece que isso foi, em boa medida, corrigido. No que toca à prática, porém, não tenho tanta certeza”. Ainda conforme Aguilar, o seu trabalho de doutorado também está servindo de base para uma ação judicial reparadora que o senhor Aloísio está movendo contra o Estado brasileiro. “Vamos esperar o resultado do julgamento. Uma consequência positiva, porém, a pesquisa já proporcionou a ele. Atualmente, o senhor Aloísio circula por Campina do Monte Alegre com a cabeça muito mais erguida”, garante o historiador, acrescentando que o apoio que recebeu por parte da sua orientadora, da FE, da Capes e da Unicamp foi fundamental para que conseguisse concluir seu estudo.

Publicações

Ilustrações de publicações nacionais retratam a conjuntura política e os costumes da época: eugenia como política de estado

Tese: “Educação, autoritarismo e eugenia: exploração do trabalho e violência à infância desamparada no Brasil (1930-1945)” Fonte: Sidney Aguilar Filho Orientadora: Ediógenes Aragão Santos Unidade: Faculdade de Educação (FE)


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Uma vida dedicada

aos répteis

Funcionário do IB há 40 anos, Paulo Manzani assina artigos em periódicos nacionais e internacionais Fotos: Antoninho Perri

MARIA ALICE DA CRUZ halice@unicamp.br

á bichos que botam muito medo. E os peçonhentos estão em primeiro na lista, embora isso não seja consenso. Há pessoas que os tratam muito bem, alimentam e cuidam para que não façam falta no equilíbrio ecológico. O fato é que esses bichos são importantes inclusive para o estudo de tratamento contra seus ataques. E é bom que se lembre: só atacam se a ameaça os desconforta. A paixão por esses animais ou pelo estudo da vida deles e de outros seres faz com que milhares de profissionais se dediquem por décadas aos seus cuidados ou a estudá-los. É o caso do biólogo e mestre em zoologia do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp Paulo Roberto Manzani. No ano em que o mais antigo instituto da Universidade faz 45 anos, ele completa 40 anos no Departamento de Zoologia (hoje Biologia Animal). Atualmente, realiza taxonomia de répteis, principalmente cobras e lagartos. O jovem de 19 anos atraído à Universidade em 1972 pela curiosidade e pelo interesse manifestado desde a infância por biologia hoje assina uma lista de 12 artigos publicados em periódicos nacionais e internacionais e também nos livros Enciclopédia da Floresta (2002) e Ecologia e preservação de uma floresta tropical urbana- reserva de Santa Genebra (2002), da Editora da Unicamp. Na Biologia, trabalha com história natural e é responsável pela taxonomia de répteis recentes utilizados em aulas e pesquisas de graduação e pós-graduação, além de atuar como colaborador em pesquisas desenvolvidas por pesquisadores de outras instituições. Hoje, Manzani é o mais antigo funcionário do IB, de acordo com a lista da Diretoria de Recursos Humanos (DGRH) da Unicamp. O conhecimento desenvolvido ao longo do tempo conferiu-lhe a curadoria da coleção de répteis do Museu de Zoologia da Universidade, ao lado de nomes como Cecília Amaral, Ivan Sazima, Wesley Rodrigues Silva, André Victor. No museu, também colabora esporadicamente em atividades desenvolvidas pelos biólogos Artur Furegatti e Elisabeth Bilo e pela secretária Fátima de Souza, na organização da pequena coleção de empréstimo. Como a maioria dos servidores da Universidade, Manzani conduziu a graduação e o trabalho no laboratório ao mesmo tempo. No período da manhã, biologia PUC-Campinas; à tarde e à noite, biologia Unicamp. Por mais que o cansaço possa surgir só de imaginar como seria isso, esta é a realidade do brasileiro que não pode abrir mão de um nem de outro. Mas Manzani, desde a fase escolar interessado na ciência da vida, queria mais se aprofundar no que a literatura e a prática tinham a lhe oferecer. Para isso, aceitou todo tipo de ensinamento, desafio, incentivo e apoio. Primeiramente do pai, que, embora o filho já tivesse casado, incentivou-o a pedir afastamento da Unicamp e ofereceu ajuda para pagar o cursinho pré-vestibular. De volta à Universidade, como auxiliar de laboratório, durante a graduação, vieram outros incentivadores. Um deles foi um de seus primeiros chefes no laboratório, cujo nome menciona várias vezes, hoje professor da Unesp, em Rio Claro, Augusto Shinya Abe. “Ele me estimulou sempre. Dizia que eu chegaria lá, indicava literatura, emprestava livros, e sempre me passava lições da profissão e, sobretudo, da vida.” Hoje, além de ter sido orientador de Manzani na produção da dissertação, em 1995, Abe é parceiro na vida e na produção de artigos. O biólogo assina mais de dez artigos, inclusive relacionados à descrição de três novas espécies de répteis que ocorrem no Brasil. Estudioso, sempre teve interesse diferenciado pela disciplina de biologia, principalmente zoologia e genética. A evidência fez com que o tio Antônio Frutuozo Leite, na época funcionário do Departamento de Bioquímica do IB, o incentivasse a trabalhar no instituto com o professor Paulo Friedrich Bührnhein. Quando começou o estágio em 1972, a primeira turma do curso de biologia estava no segundo ano. Manzani acompanhou a

Manzani ao microscópio e ao lado de frascos com répteis no Departamento de Zoologia: funcionário faz taxonomia de animais

evolução de muitos alunos dessa turma, que se tornaram docentes no IB. Alguns, segundo o biólogo, até aposentaram. E o ciclo continua com João Vasconcelos e Wesley Rodrigues, por exemplo, que ele viu chegar à graduação e hoje são professores e compõem, ao lado do funcionário, a lista de curadores do Museu. Ao longo do tempo, o jovem que começou no laboratório cuidando de cobras e ratos de biotério e lavando vidrarias passou a auxiliar nomes importantes da comunidade científica como Bührnhein, Mohamed Habib, Benedito Amaral Filho, Jacques Vielliard, Luiz Octávio Marcondes Machado e Wesley Silva. E também colaborou com Ivan Sazima em algumas comunicações científicas.

VERTEBRADOS

Após a graduação, foi aprovado em um concurso para biólogos e permaneceu no Departamento de Zoologia, onde foi convidado para ministrar algumas aulas sobre répteis e animais peçonhentos aos graduandos de biologia da Unicamp e pôde aprofundar seus conhecimentos sobre as espécies que pesquisaria anos mais tarde no mestrado. Manzani faz questão de rememorar a participação nas aulas da disciplina de vertebrados, ministrada por Ivan Sazima, Jacques Vielliard e Luiz Octávio. As aulas se estenderam também para o Centro de Controle de Intoxicações (CCI) da Unicamp, ao lado do professor Fábio Bucaretchi. “Lá, eles precisam ter noção de animais peçonhentos. Eu fazia as palestras teóricas e levava material para aula prática”, informa Manzani. O funcionário também acompanhou os professores

Mohamed Habib e Carlos Fernando, respectivamente, na disciplina de Ecologia e Educação Ambiental e Ciências do Ambiente. A primeira voltada a estudantes de licenciatura em biologia e a outra, aos cursos de engenharia da Unicamp. As viagens de campo tornaram a biologia ainda mais admirável e interessante para os trabalhos de própria autoria que Manzani viria a desenvolver mais tarde. Hoje, ele trabalha com história natural e taxonomia. Como curador, realiza a classificação de animais, além de atender pedidos de empréstimo de répteis, geralmente, serpentes e lagartos. “Antes de emprestar, preciso ver se os espécimes estão corretamente identificados. A maioria do que está tombado no museu está identificado e muitos ainda estão por confirmar”. Cabe a ele também conferir e identificar espécimes recebidos de doadores. No início de sua atuação como auxiliar de laboratório, além da jornada na Unicamp, Manzani chegou a estagiar uma ou duas vezes por semana com Walter Pinto, geneticista e professor aposentado do Instituto de Biologia. “Precisava complementar minha renda e o professor Walter me pegava em casa, no Jardim Independência, em Barão Geraldo, e eu ficava até as 2 horas da manhã trabalhando no laboratório de análises clínicas dele. Depois ele me levava para casa. Às 6 da manhã, eu ia para a PUC.”

ESTÍMULO

Filho de policial militar, Manzani muitas vezes conheceu mais de uma escola por ano.

A infância vivida parte no bairro Tucuruvi, em São Paulo, parte nos bairros Campos Elíseos e Vila Teixeira, em Campinas, deixou boas recordações, como a professora Amélia, a “tia” do primeiro ano primário (hoje fundamental 1). “Não esqueço. Ela foi minha professora em uma escola do bairro Campos Elíseos, em Campinas”. As idas e vindas não atrapalharam em nada os estudos, segundo Manzani, que sempre foi estimulado pelos pais. Sua trajetória ajuda a refletir sobre a importância do número imensurável de biólogos não-docentes para o desenvolvimento da ciência no Brasil. “Não sei se as pessoas reconhecem que tenho participação na formação delas da graduação ao doutorado, mas eu tenho orgulho de ter contribuído nas aulas e com resultados importantes como a descrição de três espécies de répteis e publicação de artigos, além de fazer parte de um livro de Biologia”, comemora Manzani. A profissão, em sua opinião, tem muita responsabilidade na projeção internacional que a Unicamp conquistou ao longo de sua existência. Ao tentar relembrar o número de pessoas que passaram pela sua vida, como o seu João da Zoologia e tantos outros que se mantêm vivos somente na memória, além dos aposentados, ele constata que a forma de se relacionar mudou até mesmo dentro de um ambiente fechado. “Não existia e-mail, e as pessoas tinham de ir à sala, ao laboratório das outras. Os contatos “tête-à-tête” aproximavam as pessoas, acredito. Hoje, quase tudo é tratado por e-mail. Mas mesmo com todo esse saudosismo, sou entusiasta do presente.”


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Programa potencializa autocontrole de gestantes Pesquisa mostra que grávidas têm menos ansiedade

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Fotos: Antonio Scarpinetti

RAQUEL DO CARMO SANTOS kel@unicamp.br

esquisa aponta que grávidas que participaram do Programa de Preparo para o Parto (PPP) tiveram menor risco de desenvolver incontinência urinária na gestação, problema que acomete cerca de 50% das mulheres durante a gravidez, quando comparadas às gestantes que não aderiram à iniciativa. Os resultados da avaliação do programa feita em 197 mulheres mostraram também que são várias as ações que podem diminuir a ansiedade e prevenir a dor durante o trabalho de parto. As participantes do programa relataram maior autocontrole e, consequentemente, maior satisfação com a experiência do parto. Participaram dos estudos gestantes inscritas no programa no Hospital da Mulher Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti (Caism/Unicamp) e nos postos de saúde municipais do Jardim Aurélia, Vila Padre Anchieta, Jardim Santa Mônica e Jardim São Marcos, em Campinas. Para a fisioterapeuta Maria Amélia Miquelutti Spilla, que avaliou em sua tese de doutorado a efetividade do programa, os resultados superaram as expectativas. As intervenções fizeram com que as gestantes realizassem mais exercícios físicos durante a gravidez, com atividades amplamente recomendadas para prevenir algumas morbidades. Ela destaca que a literatura mostra uma tendência à diminuição de exercícios nesta fase ainda que este tipo de atividade seja indicado por especialistas do mundo inteiro para que se tenha uma gravidez saudável e com maior autonomia no trabalho de parto, sempre com o objetivo de prevenir desconfortos físicos e combater os altos níveis de ansiedade. O programa foi desenhado para que pudesse ser incorporado na rede pública de saúde, como uma ação de melhoria na atenção à saúde da gestante. Em geral, as queixas das mulheres são recorrentes e, muitas vezes, subestimadas pelos médicos. Segundo Maria Amélia, que contou com a orientação da professora Maria Yolanda Makuch, o diferencial proposto pelo

Gestantes fazem exercício no Caism: atividades são recomendadas para prevenir morbidades

estudo foi contemplar todas as questões envolvidas na gravidez em um único programa junto às consultas de pré-natal. No Caism, o programa abrange, também, atividades com a equipe de enfermagem e psicologia. Todas as orientações são feitas por meio de palestras, além de também se realizar exercícios aeróbicos, ginástica localizada e os exercícios de assoalho pélvico. São ensinadas técnicas de alívio da dor, tais como respiração, massagem, posições verticais e exercícios na bola, visando o autocontrole no momento do parto. “Muitas informações são dadas à paciente somente nos momentos que antecedem o parto, quando a gestante já está no centro obstétrico e, dificilmente, tem condições de assimilar as orientações e manter o autocontrole. Quando a informação é passada antes, o resultado é muito melhor”, argumenta. A surpresa do estudo foi deparar com a porcentagem de mulheres que não sabiam da existência da musculatura do períneo. Cerca de

80% das gestantes nunca tinham ouvido falar e sequer sabiam dos exercícios que são simples e com resultado eficiente para uma das queixas mais comuns nas gestantes. Maria Amélia lembra que não é necessária roupa específica e os exercícios podem ser feitos em qualquer lugar, até mesmo no supermercado. “É importante dizer que apenas um relato de perda urinária já é caracterizado como quadro de incontinência”, esclarece. Maria Amélia conta que há alguns anos o programa do Caism vinha tendo baixa adesão das mulheres, que alegavam não possuir condições financeiras para se deslocar ao hospital a fim de participar das intervenções. “Muitas relatavam inúmeras dificuldades, ainda que tivessem vontade de se preparar para o parto”, explica. Neste sentido, a proposta foi alterar as datas do programa para os dias em que as mulheres comparecem à consulta de pré-natal. Desta forma, enquanto esperavam pela consulta elas participavam das palestras e realizavam

A fisioterapeuta Maria Amélia Miquelutti Spilla: resultados superaram as expectativas

exercícios físicos. A fórmula deu certo e a expectativa, segundo a fisioterapeuta, é que o programa entre em funcionamento neste formato no próximo ano. Os relatos das gestantes foram colhidos por meio de questionários em três momentos da gestação. No início, depois de 30 semanas e, ao final, quando completava 36 semanas. As técnicas para alívio da dor foram avaliadas em 21 mulheres, sendo 10 do grupo controle. O pré-requisito era o de ter passado quatro horas de trabalho de parto com contrações, sem ter tomado anestesia e tentado fazer algum procedimento instruído. “A análise mostrou que fez muita diferença a utilização das técnicas”.

Publicação Tese: “Avaliação da efetividade de um Programa de Preparo para o Parto” Autor: Maria Amélia Miquelutti Spilla Orientador: Maria Yolanda Makuch Unidade: Faculdade de Ciências Médicas (FCM)

Alunas do PIC Jr se destacam em workshop Elas têm entre 16 e 17 anos, são alunas do ensino médio de escolas públicas de Campinas e já colocam a mão na massa num laboratório de Química Analítica, no Instituto de Química (IQ) da Unicamp. Ao lado de alunos de graduação, de mestrado e doutorado, elas desenvolvem um projeto de pesquisa e conseguem colocar em prática conteúdos que são ensinados em sala de aula. Recebem uma bolsa de iniciação científica júnior, financiada pelo CNPq, além da ajuda de custo para transporte e alimentação. Só por tudo isso a experiência já teria valido a pena, pois a oportunidade de vivenciar “o diaa-dia do cientista” já é algo único para adolescentes que sonham em cursar a Universidade. Mas, as estudantes Tainara Lehn Barros, Raíssa Frasson e Vitória Zancani foram além das paredes dos laboratórios e ganharam destaque ao apresentar os resultados de pesquisa no 2º Workshop Científico de Microfluídica, que ocorreu em julho último no Laboratório Nacional de Luz Síncroton (LNLS), em Campinas. O evento contou com especialistas de renome internacional na área de microfluídica – que estuda e aplica o comportamento de fluidos em sistema de pequenas dimensões – e “as meninas do PIC Jr”, foram as únicas bolsistas de iniciação científica que conquistaram espaço para apresentação de seminário, dentre outros 12 trabalhos de mestrado e doutorado. “O assunto ganhou repercussão até mesmo em Salvador, onde eu participava de um congresso. Fiquei extremamente animada com o resultado, pois muitos participantes ficaram surpresos ao saberem que o trabalho havia sido desenvolvido por adolescentes do ensino médio”, destaca a professora Adriana Rossi, orientadora do projeto. Em sua opinião, as adolescentes causaram uma boa impressão pela apresentação que fizeram e os resultados da pesquisa foram comparáveis a trabalhos de pesquisa de pós-graduação.

A professora Adriana Rossi (à direita), orientadora do projeto, e as alunas Raíssa Frasson, Tainara Lehn Barros e Vitória Zancani (da esq. para dir.)

O Programa de Iniciação Científica Júnior (PIC-Jr) seleciona, anualmente, 300 estudantes de escola pública com o objetivo de desenvolverem pesquisas nos vários laboratórios da Universidade. Adriana Rossi afirma que o sucesso da iniciativa financiada pelo CNPq pode ser medido pelo aumento a cada ano do número de inscritos. São em média 800 inscrições de estudantes de escolas públicas da Região Metropolitana de Campinas. Para Adriana Rossi trata-se de um programa em que todos saem ganhando com a experiência: os jovens talentos que têm interesse, mas não têm oportunidade em suas escolas podem vir desenvolver pesquisa de excelência, e a Universidade, que investe de forma sistematizada naqueles que poderão ser seus futuros alunos. A apresentação oral do trabalho foi feita

pelas alunas Tainara e Vitória, pois Raíssa não pôde comparecer ao workshop. A pesquisa refere-se à determinação de íons ferro II usando a técnica de microfluídica em papel. A expectativa das futuras pesquisadoras foi desenvolver um método capaz de ser aplicado para detecção do ferro total em solo. “Nossa bolsa vai até janeiro e queremos continuar no processo para conseguirmos resultados não só com ferro total, mas também com alumínio e amônia”, declara Tainara. As estudantes fazem parte do Grupo de Pesquisa em Química Analítica e Educação (GPQUAE), coordenado pela professora Adriana Rossi. Também participaram deste trabalho outros membros do grupo: Patrícia Castro, Suryyia Manzoor, Tathiana Guizellini, William Silva e Acácia Salomão.

A pesquisa desenvolvida pelas iniciantes envolve spot testes, que são procedimentos analíticos simples, rápidos e de baixo custo, além de ter alta seletividade e consumo reduzido de amostras, gerando pouco resíduo. As soluções foram aplicadas em papel cromatográfico que os testes de Taynara, Vitória e Raissa apontaram ser uma alternativa eficiente para o sucesso dos resultados. “A cor fica mais intensa para as concentrações mais altas de ferro (II)”, esclarece Vitória, lembrando que se trata de um indicativo positivo de desempenho do método para quantificar esse cátion metálico. Segundo a professora, a ênfase do trabalho apresentado pelas garotas durante o workshop foi a simplicidade da técnica utilizada, que é muito versátil e tem potencial para o desenvolvimento de sistemas miniaturizados, de grande interesse atual. Além disso, é necessário conhecer e aplicar reações químicas. No ensino médio, argumenta a professora, muitos conceitos importantes passam desapercebidos ou poucas vezes há oportunidade de conhecê-los em experimentos. “Toda a equipe do GPQUAE esteve envolvida com as adolescentes e elas receberam todo suporte necessário para alcançarem os resultados positivos, gerando ótimas oportunidades de crescimentos para todos”, afirma a orientadora. Quanto ao futuro, Tainara e Vitória esperam cursar Química na Unicamp e já se preparam para prestar vestibular ainda este ano. Já Raíssa, que está no segundo ano, ainda não se definiu. De qualquer forma, as estudantes das Escolas Estaduais Pedro Salvetti Netto (Jardim Ipiranga), João Lourenço Rodrigues (Cambuí) e Jornalista Roberto Marinho (Vila Padre Anchieta) conseguem vislumbrar uma trajetória diferente daquela traçada antes da experiência vivenciada na Unicamp. (R.C.S.)


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Campinas, de 20 a 26 de agosto de 2012

Painel da semana  Prêmio Destaque na Iniciação Científica e Tecnológica - O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) acaba de lançar o 10º Prêmio Destaque na Iniciação Cientifica e Tecnológica com uma nova categoria: a de “Bolsista de Iniciação Tecnológica”. Ela contempla bolsistas de PIBITI e ITI. Bolsistas do CNPq das instituições têm até o dia 20 de agosto para efetuar a inscrição. O regulamento está no site http://destaqueict.cnpq.br. A cermônia de premiação ocorre de 15 a 21 de outubro. Mais informações podem ser obtidas pelo e-mail pict@cnpq.br  Comvest inicia inscrições para vagas remanescentes - A Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (Comvest) inicia em 20 de agosto, as inscrições ao Processo Seletivo Aberto para as Vagas Remanescentes 2013 na Universidade. As inscrições podem ser feitas até o dia 30 de agosto, exclusivamente pela Internet. As vagas oferecidas serão divulgadas no início das inscrições. Podem se inscrever no processo, alunos matriculados em cursos de graduação da Unicamp e de outras instituições de ensino superior, além de portadores do diploma reconhecido de curso superior diferente do curso pretendido. Leia mais: https://www.comvest.unicamp.br/vr/vr2013/vr.html  Semana de Química - A Semana de Química será realizada de 20 a 24 de agosto. Participação especial de Paul Zaloom, o Beakman, no dia 24, às 16 horas. A Semana de Química está em sua 11ª edição, conta com uma programação bem abrangente de 10 minicursos, 10 visitas a empresas do ramo, 15 palestras, exposição e avaliação de painéis de pesquisa, mesas de discussão, além da palestra especial no decorrer do evento com palestrante internacional. Mais informações: http://www. unicamp.br/unicamp/eventos/2012/07/31/beakman-euma-das-atracoes-da-semana-de-quimica  Escola São Paulo de Estudos Avançados- De 20 e 24 de agosto acontece, na Unicamp e na USP, a Escola São Paulo de Estudos Avançados sobre a Globalização da Cultura no Século XIX. Mais detalhes estão no link http:// www.unicamp.br/unicamp/eventos/2012/07/25/escolasao-paulo-de-estudos-avancados-sobre-globalizacao-dacultura-no-seculo-xix  I Simpósio Internacional sobre Língua Kaingang – Evento ocorre no dia 20 de agosto, às 9 horas, no Anfiteatro do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL). Contará com a participação de Osamu Fujimura, professor emérito na The Ohio State University. Do simpósio também participam indígenas Kaingang de São Paulo e dos três estados do Sul do Brasil. A coordenação é do professor Wilmar da Rocha D’Angelis. Site do evento: http://1stiskl. wordpress.com/. Outras informações: 19-3521-1520.  Lugares da Memória na Idade Média - O curso “Lugares da Memória na Idade Média” acontece nos dias 20, 21 e 23 de agosto. Ministrado por Monique NopréVillière Goullet, do Laboratório de Medievística Ocidental de Paris (CNRS), as aulas serão sempre às 14 horas, na Sala da Congregação do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), com organização do Programa de Pós Graduação em História da unidade. No dia 20 Monique fala sobre “Da memória na alta Idade Média”, “As hagiográficas das origenes à Legenda Aurea: transmissão, reescrita, compilações, traduções” no dia 21 e “O sentimento da paisagem na Idade Média”, no último dia do curso. Informações: 19-3521-1678, e-mail seceven@unicamp.br.  CEM Nelson Rodrigues - Em homenagem ao centenário de Nelson Rodrigues, o Letra & Ato: Grupo de Estudos em Dramaturgia, em parceria com o Departamento de Artes Cênicas da Unicamp, promove o evento: CEM Nelson Rodrigues, três dias de atividades sobre a obra de um dos mais importantes dramaturgos brasileiros. A primeira mesa-redonda ocorre no dia 20 de agosto, às 16 horas, no auditório do IA. Programação: http://www.letraeato.com/ cem-nelson-rodrigues/  Km Brasil – Evento sobre gestão do conhecimento, o

KM Brasil será realizado nos dias 22, 23 e 24 de agosto, no Bourbon Ibirapuera, em São Paulo. A organização é da Sociedade Brasileira de Gestão do Conhecimento (SBGC). Para mais detalhes entre em contato com o telefone 112387-7255 ou email analu@goena.com.br  Maré - A Galeria de Arte da Unicamp organiza no dia 22 de agosto, às 12h30, a abertura da exposição Maré, resultado do projeto em gravura desenvolvido por Ernesto Bonato com estudantes da Unicamp durante o Programa de Residência Artística. A mostra pode ser visitada até 5 de setembro, de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 17h30. Os expositores são: Adeise Pinez, Carol Vergotti, Deni Lantzman, Dio Pinez, Ernesto Bonato, Isabelle Cedotti, João Paulo Marques, Roger Soler, Wagner De Santana Silva. No sábado (25), Bonato fará uma visita especial à exposição, das 14 às 17 horas. Já no dia 29, às 15 horas, está prevista a palestra “Uma experiência comum: reflexões sobre os resultados da residência artística” (exibição da documentação do processo de trabalho). Mais informações pelo email apira@ig.com.br  Palestra com Gustavo Freire - O Núcleo de Pesquisas ForMA organiza em 22 de agosto, às 13 horas, na sala CL-14 do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), a palestra “Ideias experimentais sobre eventos e causatividade” com Gustavo Freire (Unicamp). Mais informações: 19-3521-1520.  O Latim na França, ontem e hoje - Monique NopréVillière Goullet, do Laboratório de Medievística Ocidental de Paris (CNRS), é a convidada do Programa de Pósgraduação em História. No dia 22 de agosto, às 14 horas, no auditório I do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), ela fala sobre “O Latim na França, ontem e hoje”. Informações: 19-3521.1678 ou seceven@unicamp.br.  Enumas 2012 - Com o tema “Perspectivas das atividades nucleares no Brasil: Medicina, Segurança, Direito Nuclear e Agricultura”, no dia 23 de agosto, o Núcleo Interdisciplinar de Plajejamento Energético (Nipe) organiza o III Workshop Internacional Enumas 2012. A abertura oficial será às 8h20, no Auditório da Faculdade de Engenharia Química (FEQ). Programação e outras informações no link: http://www.nipeunicamp.org.br/enumas/programacao  Fotografia e Memória - O Fórum Permanente de Arte, Cultura e Educação: Fotografia e Memória será realizado no dia 23 de agosto, das 8h30 às 16h30, no Centro de Convenções da Unicamp. É organizado por Maria Elena Bernardes. Outas informações: 19-3521-4759 ou e-mail sonia.mazzariol@reitoria.unicamp.br  Talento - No dia 23 de agosto, das 9 às 20 horas, no Estacionamento do Ginásio Multidisciplinar da Unicamp, acontece a Feira de Recrutamento “Talento”. A organização é do Núcleo das Empresas Juniores da Unicamp. Mais detalhes na página eletrônica http://www.talentounicamp. com.br/  Ciclo de palestras do IB - Dentro da programação do Ciclo de Palestras “Qualidade de Vida na Sociedade Contemporânea”, do Instituto de Biologia, será ministrada no dia 23 de agosto, das 12h30 às 13h30, por Patricia Morato Lopes, coordenadora de Recursos Humanos da Unicamp, a palestra “Relações Humanas no Trabalho: Regras básicas de ética no trabalho”. O ciclo é sempre realizado às quartas-feiras, no horário de almoço, para possibilitar a presença de funcionários, alunos e docentes. A palestra de Patricia Morato Lopes acontece na Sala IB-03 (complexo de salas do Instituto de Biologia). Mais informações: 19-3521-6359, e-mail falonso@unicamp.br  Celpe-Bras - As inscrições ao exame para a obtenção do Certificado de Proficiência em Língua Portuguesa para Estrangeiros (Celpe-Bras) devem ser feitas até 23 de agosto, no endereço eletrônico http://celpebras.inep. gov.br/inscricao. As provas (coletiva e individual) ocorrem nos dias 24 a 26 de outubro. Na Unicamp, a coordenadora de aplicações é a professora Matilde Virgínia Scaramucci, do Instituto de Estudos da Linguagem IEL. O Celpe-Bras foi desenvolvido e outorgado pelo Ministério da Educação (MEC), aplicado no Brasil e em outros países com o apoio do Ministério das Relações Exteriores (MRE). É o único certificado de proficiência em português como língua estrangeira reconhecido oficialmente pelo governo do Brasil. Internacionalmente, é aceito em empresas e instituições de ensino como comprovação de competência na língua portuguesa e no Brasil é exigido pelas universidades para ingresso em cursos de graduação e em programas de pós-graduação, bem como para validação de diplomas de profissionais estrangeiros que pretendem trabalhar no país. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone 19- 3521-1520 ou e-mail seee@iel.unicamp.br  Palestra com Jaime Mujica Sallés - O papel do conservador/restaurador na práxis arqueológica: o exemplo da Charqueada Santa Bárbara. Palestra será ministrada dia 23 de agosto, às 14 horas, no auditório II do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), pelo professor Jaime Mujica Sallés (Universidade Federal de Pelotas - UFPel). A organização é do Laboratório de Arqueologia Pública Paulo Duarte (LAP) do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam).

Tese da semana  Artes - “O croqui de concepção no processo criativo em arquitetura” (mestrado). Candidato: Rafael Peres Mateus. Orientador: professor Wilson Florio. Dia 20 de agosto, às 14h30, na sala 3 da Pós-graduação do IA. - “A voz e o campo de visão” (mestrado). Candi-

dato: Rodrigo Spina de Oliveira Castro. Orientador: professor Marcelo Ramos Lazzaratto. Dia 21 de agosto, às 10 horas, na sala AC-01 do IA. - “Rastros da tradição stanislavskiana: procedimentos para o trabalho de criação do ator” (mestrado). Candidata: Carolina Martins Delduque. Orientadora: professora Verônica Fabrini de A. Machado. Dia 22 de agosto, às 8 horas, na sala AC-011 do Departamento de Artes Cênicas. - “Natureza e cidade: a conceitualização e o tratamento do residencial na publicidade imobiliária (análise contrastiva - décadas de 1970 e 2000)” (doutorado). Candidato: Carlos Eduardo Paranhos Ferreira. Orientador: professor Ivan Santo Barbosa. Dia 22 de agosto, às 14 horas, na sala 3 da CPG do IA. - “Ambiente sonoro em jogos de computador: proposta de uma metodologia de análise” (mestrado). Candidata: Natália Monti Capello. Orientador: professor José Eduardo Ribeiro de Paiva. Dia 23 de agosto, às 14 horas, na sala 2 da CPG do IA. -“Rumo à Amazônia, terra da fartura: Jean-Pierre Chabloz e os cartazes concebidos para o SEMTA” (mestrado). Candidata: Ana Carolina Albuquerque de Moraes. Orientadora: professora Maria de Fátima Morethy Couto. Dia 24 de agosto, às 14 horas, na sala 3 do prédio da Pós-graduação do IA.  Computação - “Um framework para desenvolvimento e implementação de sistemas seguros baseados em hardware” (doutorado). Candidato: Roberto Alves Gallo Filho. Orientador: professor Ricardo Dahab. Dia 24 de agosto, às 10 horas, no auditório do IC, Sala 85 do IC 2.  Engenharia de Alimentos - “Aplicação da lipase de Geotrichum candidum para biocatálise de óleos vegetais com vistas à produção de biodiesel” (doutorado). Candidato: Rafael Resende Maldonado. Orientadora: professora Maria Isabel Rodrigues. Dia 24 de agosto de 2012, às 9 horas, na sala 31 do DEA/FEA. - “Agricultura, pastagens e mata nativa: cálculo e simulação dos valores monetários dos fluxos hidrológicos e do carbono na bacia do Taquarizinho utilizando a metodologia emergética” (doutorado). Candidato: Marcos Djun Barbosa Watanabe. Orientador: professor Enrique Ortega Rodriguez. Dia 24 de agosto, às 9 horas, no Laboratório de Engenharia Ecológica da FEA. - “Estudo da especificidade da Tanase de Paecilomyces variotii e sua aplicação na biotransformação dos polifenóis do suco de laranja” (mestrado). Candidata: Lívia Rosas Ferreira. Orientadora: professora Gabriela Alves Macedo. Dia 24 de agosto, às 14 horas, no Anfiteatro do Departamento de Ciência de Alimentos. - “Análise multiescala multicritério do desempenho energético-ambiental brasileiro” (doutorado). Candidato: Lucas Gonçalves Pereira. Orientador: professor Enrique Ortega. Dia 24 de agosto, às 14h30, no LEIA da FEA.  Engenharia civil, arquitetura e urbanismo - “Metodologia para determinação de vazões de restrição em usinas hidrelétricas com suporte de análise multicriterial” (mestrado). Candidato: Eduardo Antonio Pires Basseto. Orientador: professor Alberto Luiz Francato. Dia 20 de agosto, às 10 horas, na sala CA-22 da FEC. - “A Casa Acessível: metodologia do projeto de reforma residencial para pessoas com deficiência adquirida” (mestrado). Candidata: Laura Reily de Souza. Orientadora: professora Núbia Bernardi. Dia 20 de agosto, às 14 horas, na sala de defesa de teses da FEC. - “Avaliação da toxidade de efluente sanitário tratado e condicionado para aplicação na agricultura, utilizando Allium cepa, Daphnia similis e Vibrio fischeri como organismosteste” (mestrado). Candidata: Danila de Leone França e Freitas Torres. Orientador: professor Alexandre Nunes Ponezi. Dia 22 de agosto, às 14 horas, na sala CA-22 da FEC. - “Análise da absorção d’água de argamassa para o emprego em estaca raiz” (mestrado). Candidato: Eliézer Laister. Orientador: professor Paulo José Rocha de Albuquerque. Dia 24 de agosto, às 10 horas na sala CA-22 da FEC. - “O potencial dos espaços abertos na qualificação urbana: uma experiência piloto na cidade universitária zeferino vaz” (doutorado). Candidato: Flávia Brito Garboggini. Orientadora: professora Silvia Aparecida Mikami Gonçalves Pina. Dia 24 de agosto, às 9 horas, na sala de defesa da FEC. “Caracterização de lodo de esgotos de lagoa anaeróbia acondicionado em bags visando a sua disposição: estudo de caso - ETE Pedregulho/SP” (mestrado). Candidato: Vanderlei Pim. Orientador: professor Edevar Luvizotto Júnior. Dia 24 de agosto de 2012, às 10 horas, na sala PG-01 da CPG da FEC.  Engenharia Elétrica e de Computação - “Aplicações de corrosão por plasma usando reatores ICP e RIE para tecnologia MEMS” (doutorado). Candidato: Alcinei Moura Nunes. Orientador: professor Peter Jürgen Tatsch. Dia 24 de agosto, às 10 horas, na CPG da FEEC. - “Uma contribuição ao estudo e desenvolvimento de técnicas de controle direto de potências ativa e reativa do gerador de relutância variável para aplicação em sistemas de geração eólica de pequena potência” (mestrado). Candidato: Tárcio André dos Santos Barros. Orientador: professor Ernesto Ruppert Filho. Dia 24 de agosto, às 14 horas, na FEEC. - “Desenvolvimento e melhoria dos algoritmos de Boosting introduzindo um fator de frequência: Aplicação à detecção de faces em imagens de baixa resolução” (mestrado). Candidato: Diego Alonso Fernandez Merjildo. Orientador: professor Lee Luan Ling. Dia 24 de agosto, às 14 horas, na sala de defesa de tese da FEEC. - “Controle de admissão de chamadas Fuzzy e controle de fluxo Fuzzy com tráfegos multi-classes para redes 3G

UMTS” (mestrado). Candidata: Ana Gloria Mamani Chipana. Orientador: professor Lee Luan Ling. Dia 24 de agosto, às 10 horas, na sala PE12 do prédio da CPG/FEEC.  Engenharia Mecânica - “Resposta do manequim hibrido III 3YO instalado em dispositivo de retenção de criança grupo I e grupo II em teste dinâmico conforme ECE R44 / ABNT NBR 14400” (mestrado). Candidato: Marco Aurélio Gouvêa. Orientador: professor Antonio Celso Fonseca de Arruda. Dia 22 de agosto, às 14 horas, na sala KE2 da FEM.  Engenharia Química - “Guia de estabilidade para a indústria química - definição de prazo de validade e proposição de prazo de reteste” (doutorado). Candidata: Luciana Rodrigues Oriqui. Orientador: professor Milton Mori. Dia 24 de agosto, às 14 horas, na sala de defesa de tese, Bloco D da FEQ.  Geociências - “Tecnologias em combate: tradução e controvérsias na produção de laranja no estado de São Paulo” (doutorado). Candidata: Gabriela da Rocha Barbosa. Orientadora: professora Ieda Maria Caira Gitahy. Dia 20 de agosto, às 9 horas, no auditório do IG. - “Imperialismo e sistema internacional de propriedade industrial: implicações recentes para o Brasil, para a indústria farmacêutica local e os novos rumos anticontrafração” (mestrado). Candidata: Janaína Elisa Patti de Faria. Orientador: professor Rafael Brito Dias. Dia 20 de agosto, às 10 horas, no IG. - “Estudo ambiental participativo da comunidade do núcleo caiçaras de Pedrinhas - município de Ilha Comprida - SP” (mestrado). Candidata: Valesca Camargo dos Santos. Orientadora: professora Regina Célia de Oliveira. Dia 23 de agosto, às 9 horas, no auditório do IG. - “Os usos do território brasileiro e o imperativo da logística: uma análise a partir da Zona Franca de Manaus” (doutorado). Candidato: Leandro Trevisan. Orientadora: professora Adriana Maria Bernardes da Silva. Dia 23 de agosto, às 14 horas, no auditório do IG. - “Produção social do conhecimento na experiência” (doutorado). Candidato: Laudemir Luiz Zart. Orientadora: professora Leda Maria Caira Gitahy. Dia 24 de agosto, às 9 horas, no auditório do IG. - “Climatologia histórica de São Paulo” (doutorado). Candidato: Ricardo Araki. Orientadora: professora Lucí Hidalgo Nunes. Dia 24 de agosto, às 14 horas, no auditório do IG. - “Logística e agronegócios globalizado no estado do Tocantins: um estudo sobre a expansão das fronteiras agrícolas modernas no território brasileiro” (mestrado). Candidato: Alexandre Caselli Fornaro. Orientador: professor Ricardo Abid Castillo. Dia 24 de agosto, às 14 horas, na sala A do DGRN do IG. - “Diferenças intersetoriais na origem das oportunidades tecnológicas de empresas interativas” (mestrado). Candidata: Milene Simone Tessarin. Orientador: professor Wilson Suzigan. Dia 24 de agosto de 2012, às 15 horas, na sala B do DGRN do IG.  Linguagem - “Sujeito, escola e tecnologia: uma abordagem neurolinguística” (doutorado). Candidata: Ana Laura Gonçalves Nakazoni. Orientadora: professora Maria Irma Hadler Coudry. Dia: 22 de agosto, às 15 horas, na sala de defesa de teses do IEL. - “O funcionamento ideológico na produção da “hipercorreção” (doutorado). Candidata: Elizete Beatriz Azambuja. Orientadora: professora Eni de Lourdes Puccinelli Orlandi. Dia 24 de agosto, às 14h30, na sala de defesa de teses IEL.  Matemática, Estatística e Computação Científica - “Homologia e cohomologia de variedades Flag reais” (doutorado). Candidato: Leonardo Rabelo. Orientador: professor Luiz Antonio Barrera San Martin. Dia 20 de agosto, às 14 horas, na sala 253 do Imecc.  Medicina - “Detecção microbiológica e molecular da bacteremia causada por Bartonella spp. em sangue gatos” (mestrado). Candidata: Marina Rovani Drummond. Orientador: professor Paulo Eduardo Neves Ferreira Velho. Dia 20 de agosto, às 9 horas, no Anfiteatro da Pós-graduação da FCM. - “A influência de hábitos de vida (tabagismo, consumo nocivo de álcool e sedentarismo) associados à hipertensão arterial sistêmica na sídrome da fragilidade no idoso” (mestrado). Candidata: Ana Paula do Amaral Carvalho e Silva. Orientador: professor André Fattori. Dia 20 de agosto, às 14 horas, no Anfiteatro da CPG da FCM. - “Análise de polimorfismos em genes envolvidos no estresse oxidativo e associação com a severidade da doença em pacientes com anemia falciforme” (mestrado). Candidata: Gislene Pereira Gil. Orientadora: professora Mônica Barbosa de Melo. Dia 21 de agosto, às 9h30, no Anfiteatro da CPG/FCM. - “Convivendo com a fibrose cística. Visão dos adolescentes atendidos em um centro de referência” (mestrado). Candidata: Kátia Cristina Alberto Aguiar. Orientador: professor José Dirceu Ribeiro. Dia 22 de agosto, às 9 horas, no Auditório José Martins Filho do CIPED. - “Papel das alterações na via PI3K/AKT e MAPK no desenvolvimento do nódulo tiroidiano” (mestrado). Candidata: Aline Carolina De Nadai da Silva. Orientadora: professora Laura Sterian Ward. Dia 23 de agosto, às 9h30, no Anfiteatro da Comissão de Pós-graduação da FCM. - “Regulação do fator de transcrição MEF2C pela quinase de adesão focal: implicações na homeostase dos cardiomiócitos” (doutorado). Candidato: Alisson Campos Cardoso. Orientador: professor Kleber Gomes Franchini. Dia: 24 de agosto, às 9 horas, no Anfiteatro da CPG da FCM. - “Relação entre a composição corporal e a força muscular de idosas com osteoartrite de mãos” (mestrado). Candi-

Livro

da semana

Harmonia funcional Autor: Carlos Almada ISBN: 978-85-268-0969-7 Ficha técnica: 2 a edição, 2012; 288 páginas; formato: 21 x 28 cm; peso: 0,70 kg Área de interesse: Música Site: Música Preço: R$ 58,00 Sinopse: Este livro tem como meta apresentar o curso de Harmonia Funcional da música popular de uma maneira objetiva e clara, ao mesmo tempo em que procura consistentemente fundamentar os seus principais conceitos, propondo uma abordagem teórica aprofundada de um assunto que, em geral, é tratado apenas pelo viés da praticidade. Dividese em três partes: uma breve revisão de aspectos da Teoria Musical, o curso de Harmonia Funcional propriamente dito e uma seção de Harmonia Aplicada, na qual são apresentadas as principais características harmônicas e fórmulas de acompanhamento de dois dos mais brasileiros gêneros musicais: o samba e o choro. Autor: Carlos Almada é compositor, arranjador e autor de Arranjo (Editora da Unicamp, 2000), A Estrutura do Choro (Da Fonseca, 2006) e de diversos métodos sobre música brasileira publicados pela editora norte-americana Mel Bay. Atualmente é professor de harmonia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutorando em música pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.

data: Isabele Iartelli. Orientador: professor Ibsen Bellini Coimbra. Dia: 24 de agosto, às 9 horas, no auditório José Martins Filho do CIPED. - “SR-BI e ABCA1 no intestino delgado, fígado e rim da prole de ratas submetidas à dieta hiperlipídica” (mestrado). Candidato: Luiz Fernando Possignolo. Orientador: professor José Antonio Rocha Gontijo. Dia 24 de agosto, às 14 horas, no Anfiteatro Departamento de Farmacologia.  Química - “Sílica mesoporosas e silicatos contendo agentes organofuncionalizados - sorção e liberação controlada de fármacos” (doutorado). Candidato: Vaeudo Valdimiro de Oliveira. Orientador: professor Claudio Airoldi. Dia 23 de agosto, às 9 horas, na sala IQ-14. - “Aplicações da espectrometria de massas de altíssima resolução e da mobilidade iônica acoplada a espectrometria de massas em estudos de geoquímica orgânica” (doutorado). Candidato: Cécio Fernando Klitzke. Orientador: professor Marco Nogueira Eberlin. Dia 23 de agosto, às 14 horas, no miniauditório do IQ.

DESTAQUES do Portal da Unicamp

FCA abre as Quartas Interdisciplinares A Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp abriu no último dia 15 a série de mesas-redondas Quartas Interdisciplinares do segundo semestre. O tema da primeira mesa foi “Interdisciplinaridade, formação específica e formação geral no ensino de graduação: a proposta do curso ‘Estudos Contemporâneos’”, com a participação dos professores Francisco Foot Hardman, do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), e Silvia Figueirôa, do Instituto de Geociências. Como debatedor, o professor Álvaro D’Antona, do Centro de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (CHS) da FCA e que coordena o evento juntamente com o professor Eduardo Marandola Júnior. “A FCA é uma unidade que não possui uma estrutura departamental e onde a questão da interdisciplinaridade perpassa todas as atividades. Essas mesas-redondas, antes periódicas e que agora ocorrerão de maneira mais sistemática, são importantes para que esta discussão não se dê apenas no dia a dia, mas em momentos específicos”, afirma Eduardo Marandola, lem-

brando que a questão da interdisciplinaridade está na própria concepção da Unicamp. “Algumas características iniciais foram se perdendo com o tempo, vencidas pela estrutura universitária que é toda fragmentada. A FCA meio que retoma aqueles princípios”. A título de exemplo, o coordenador do evento explica que o CHS integra, de forma interdisciplinar, atividades de pesquisa, ensino e extensão, com métodos e conceitos das ciências humanas, ciências sociais e ciências aplicadas que sirvam de aporte crítico e de fundamento teórico metodológico, seguindo o projeto pedagógico da FCA. “Existem 28 créditos de humanidades e ciências sociais que todos os alunos dos oito cursos da FCA precisam cumprir, obrigatoriamente. Esta já é uma das ações de interdisciplinaridade, orientada para promoção de valores humanísticos e de formação geral dos estudantes.” Segundo Marandola, a escolha dos professores Francisco Foot Hardman e Silvia Figueirôa para compor a primeira mesa se deve ao fato

de ambos participarem de um grupo de trabalho que vem promovendo a discussão da interdisciplinaridade e da formação geral nos cursos de graduação da Universidade. Deste grupo também fazem parte, entre outros docentes, Marcelo Knobel, pró-reitor de Graduação, e Peter Schulz, diretor associado da FCA e idealizador das Quartas Interdisciplinares. Os eventos do segundo semestre foram organizados em torno de três temas transversais às atividades de ensino, pesquisa e extensão da FCA: interdisciplinaridade, arte e ciência, e ambiente e sustentabilidade. As próximas mesasredondas tratarão de “Interdisciplinaridade nas ciências humanas e sociais aplicadas”, em 22 de agosto; “Cinema, ciência e conhecimento”, em 05 de setembro; “Estética: música e paisagem”, em 12 de setembro; “Inovação tecnológica e mudanças climáticas: risco e mitigação”, em 26 de setembro; “Agronegócio, segurança alimentar e sustentabilidade”, em 10 de outubro; e “Saúde, qualidade de vida e políticas públicas”, em 31 de outubro. (Luiz Sugimoto)

Foto: Antoninho Perri

O professor Eduardo Marandola Júnior, um dos coordenadores: promoção de valores humanísticos


Campinas, de 20 a 26 de agosto de 2012

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Parcerias entre pesquisadores e empresas beneficiam a sociedade ADRIANA ARRUDA Especial para o JU

onhecida por possuir e formar alunos altamente capacitados, a Unicamp também atua com destaque nos âmbitos da inovação e de parcerias em projetos de pesquisa e desenvolvimento (P&D). Todos os anos, projetos em colaboração com empresas, envolvendo docentes, pesquisadores e alunos, combinam o conhecimento gerado em sala de aula às necessidades cotidianas, resultando em invenções que contribuem para superar os grandes desafios da sociedade. Como forma de facilitar a criação de parcerias que resultem em produtos ou processos benéficos à sociedade, a Agência de Inovação Inova Unicamp lançou um novo formulário para identificar os docentes e pesquisadores interessados em desenvolver parcerias em P&D com empresas (leia texto nessa página). Além da criação do formulário, outra iniciativa da agência é a busca ativa por parceiros, que proporciona não só o licenciamento de tecnologias já protegidas pela Unicamp, mas também novas formas de interação universidade-empresa, como o estabelecimento de projetos de pesquisa colaborativa. Entre os projetos colaborativos em andamento da Unicamp está o convênio com uma grande empresa do setor de Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs). A empresa atualmente realiza três projetos colaborativos em parceria com pesquisadores do Instituto de Computação (IC) da Unicamp. Com duração prevista de dois anos, têm como objetivo o desenvolvimento de atividades colaborativas entre os profissionais do setor de P&D e a Universidade. De acordo com Patricia Magalhães de Toledo, diretora de propriedade intelectual e transferência de tecnologia da Inova Unicamp, a empresa demonstrou grande interesse na formalização de parcerias com a Unicamp. “Em fevereiro de 2011, tivemos um contato próximo com essa empresa, que tinha interesse em linhas de pesquisas de diversos docentes da Universidade”, explica. A partir do contato prévio, a empresa de TICs realizou, com apoio da Inova, uma triagem de acordo com os projetos apresentados pelos próprios pesquisadores. “Ao longo do processo de articulação, foi analisada a especialidade de cada professor com o objetivo de identificar áreas nas quais seria possível estabelecer projetos de pesquisa colaborativos”, afirma a diretora. Esse processo de negociação dos termos das parcerias e do acompanhamento é realizado diretamente pela Agência de Inovação Inova Unicamp. “A agência realiza a ponte entre o pesquisa-

Formulário e projetos colaborativos estreitam relação da Universidade com o setor produtivo Foto: Antoninho Perri

Patricia Magalhães de Toledo, diretora de propriedade intelectual e transferência de tecnologia da Inova Unicamp, e Roberto Lotufo, diretor executivo da agência: benefícios mútuos

dor e a empresa com o objetivo de facilitar a interação e auxiliar os docentes no processo, permitindo que eles possam manter o foco em suas atividades de ensino e pesquisa”, afirma o professor Roberto Lotufo, diretor executivo da Inova Unicamp. Os três convênios firmados entre o IC e a empresa de TICs abordam P&D para plataformas computacionais móveis, principalmente smartphones e tablets equipados com o sistema operacional Android. O convênio relacionado a projetos na área de otimização de código será desenvolvido em parceria com o professor Guido Araújo; já o projeto sobre aprendizado de máquinas será desenvolvido pelo professor Anderson de Rezende Rocha. O professor Ricardo Dahab e sua equipe abordarão o projeto relacionado à segurança em dispositivos móveis. De acordo com o professor Dahab, os três projetos possuem ampla sinergia. “A busca por técnicas para otimização dos programas pode ser feita de forma dedicada para as aplicações de reconhecimento de imagens ou das funções de segurança, trazendo grandes ganhos de desempenho e economia de espaço e con-

sumo de energia nessas tarefas”, explica Dahab. De acordo com o docente, a empresa parceira terá participação ativa no acompanhamento das atividades desenvolvidas pelos grupos de pesquisa na forma de reuniões e seminários periódicos. “Os encontros são essenciais para a identificação de eventuais dificuldades ou para a reorientação de linhas de trabalho devido a inovações que possivelmente irão surgir”, ressalta. O docente responsável desenvolverá o projeto com uma equipe composta por pesquisadores, bem como docentes e alunos de pós-graduação da Unicamp. “Os projetos possibilitam a obtenção de recursos para a pós-graduação e infraestrutura de pesquisa, já que os convênios contemplam bolsas para os alunos e a montagem de laboratórios mais equipados”, explica Dahab. Para o professor, a realização de projetos colaborativos de empresas com universidades de ponta como a Unicamp pode trazer benefícios aos pesquisadores e docentes envolvidos e principalmente para a sociedade. “Esperamos que os ganhos advindos

se transformem não só em melhorias nos produtos da empresa, mas também, por meio da publicação dos nossos resultados, em forma de conhecimento e produtos. Os resultados de inovação na área de computação costumam ter um caminho mais ágil até sua transformação em produtos para consumo”, explica Dahab. Segundo o professor, os projetos englobam áreas de pesquisa com problemas desafiadores, de relevância teórica e, simultaneamente, de imediata aplicação prática. “Esse tipo de parceria concede a oportunidade de expandir o leque de áreas de pesquisa dos docentes. Além de trazer questões com complexidade teórica, que envolvem a nossa vocação inicial como acadêmicos, os projetos colaborativos em P&D possibilitam a aplicação prática e de impacto tecnológico, exigindo equipes multidisciplinares e uma sinergia diferenciada”, finaliza. Por ser uma universidade tradicionalmente conhecida por sua excelência de ensino e pesquisa, a Unicamp tem sido frequentemente procurada por empresas de diversas áreas com o interesse na realização de projetos como os citados acima. “Esse tipo de parceria traz benefícios mútuos: por um lado, o pesquisador desenvolve uma linha de pesquisa para atender necessidades mercadológicas e aprimora ainda mais seus conhecimentos; por outro, o investimento na pesquisa reduz os custos de P&D da empresa parceira e o resultado pode beneficiar diretamente a sociedade”, afirma Patricia. Outro resultado tangível da interação entre teoria e aplicação é a criação de tecnologias de alto potencial inovativo, que são protegidas por meio de patentes e programas de computador. A Universidade mantém o primeiro lugar entre as universidades em pedidos de patentes do país de acordo com o último ranking publicado pelo Inpi (Instituto Nacional de Propriedade Industrial), reafirmando o seu pioneirismo na área. Segundo os dados oficiais do Anuário Estatístico da Unicamp, de 2001 a 2011, a Universidade possui um total de 712 patentes requeridas e 80 patentes licenciadas. “O trabalho da Agência de Inovação Inova Unicamp, que completou nove anos de atuação, colabora para que a Unicamp mantenha a liderança em inovação entre as instituições de ensino do país e contribua para o fortalecimento do sistema nacional de inovação”, afirma Lotufo. Segundo o diretor, a primeira patente da Unicamp foi depositada em 1984 e, com a criação da Inova, o processo de proteção dos resultados de pesquisa por meio da propriedade intelectual se expandiu e houve ainda a criação de novas áreas de atuação. “Atualmente buscamos de forma ativa a transferência de tecnologias para que, dessa maneira, pesquisas oriundas da Unicamp sejam desenvolvidas por empresas na forma de tecnologias e posteriormente disponibilizadas à sociedade”.

Formulário identifica interessados em projetos de P&D Com o objetivo de aproximar o pesquisador da inovação e visar parcerias que resultem em produtos ou processos benéficos à sociedade, a Agência de Inovação Inova Unicamp lançou um novo formulário para identificar os docentes e pesquisadores interessados em desenvolver parcerias em P&D com empresas. “A Inova é frequentemente procurada por empresas interessadas em projetos inovadores. Para articular uma possível parceria, necessitamos identificar na Unicamp docentes e pesquisadores que tenham linhas de pesquisas alinhadas às necessidades das empresas. Esse formulário possibilita identificarmos

melhor as atuais linhas dos grupos da Universidade e suas áreas de interesse em parcerias em P&D”, afirma Patricia. De acordo com a diretora, o formulário foi desenvolvido como parte dos esforços da Agência de aprimorar continuamente o atendimento aos pesquisadores e docentes da Universidade. Para o professor André Gradvohl, docente da Faculdade de Tecnologia da Unicamp, a iniciativa da Inova Unicamp é o primeiro passo para a formação de parcerias promissoras. “A maioria das empresas não possui uma área de P&D consolidada. Preenchi o formulário com o intuito de realizar uma possível parceria que possa

suprir diversas necessidades, além de trazer diferenciais de inovação”, afirma. Com o preenchimento do formulário, a Inova Unicamp trabalhará na criação de um banco de competências e uma publicação como forma de registro. “A publicação será uma compilação de dados das principais linhas de pesquisa de docentes e pesquisadores interessados em estabelecer parcerias estratégicas”, destaca Patricia. “O objetivo é facilitar a interação dos pesquisadores com o ambiente externo e aumentar o número de tecnologias oriundas da Unicamp que possuam caráter inovador”, ressalta Lotufo.

De acordo com o professor Sérgio Ferreira do Amaral, da Faculdade de Educação da Unicamp, a publicação do banco de competências será essencial para a divulgação das áreas específicas dos docentes. “Com essa publicação, será possível vincular mais facilmente as necessidades do mercado com as demandas da Universidade, possibilitando a criação de novas tecnologias de inovação”, afirma. Para cadastramento, docentes e pesquisadores interessados devem preencher o formulário na página da Inova Unicamp em www.inova.unicamp.br, clicando no banner “Interessado em parcerias com empresas?”.


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Campinas, de 20 a 26 de agosto de 2012

PAULO CESAR NASCIMENTO pcncom@bol.com.br

m 1994, o historiador e professor da Unicamp Paulo Miceli publicou O ponto onde estamos – Viagens e viajantes na história da expansão e da conquista (Portugal, séculos XV e XVI). A obra, que em 2008 ganhou sua quarta edição pela Editora da Unicamp, invadia a privacidade das naus integrantes das expedições que zarpavam de Portugal na época dos descobrimentos e revelava um cotidiano muito diferente das descrições epopeicas com que se emolduravam as viagens marítimas no período da expansão europeia. Nas páginas do livro, o épico cedia lugar ao trágico e ao grotesco, relatando a rotina de desconforto, fome, sede e epidemias que assolava exércitos de homens miseráveis a bordo de frágeis embarcações. Ao concluir o trabalho, Paulo se deu conta que havia descrito viagens em um mundo imaginário, porque não tratara do cenário percorrido pelos navegadores. Nessa lacuna acabou encontrando um novo tema de pesquisa, cujo resultado é o livro O desenho do Brasil no teatro do mundo (Editora da Unicamp, 264 páginas), em que apresenta ao leitor a trajetória da representação cartográfica da Terra, desde o final da Idade Média, com ênfase nas características da cartografia produzida sobre o Brasil no período colonial. À maneira de um grande atlas, a publicação, no formato 28 x 36 cm, reúne reproduções primorosas de mais de uma centena de trabalhos desenhados a partir do século 15, como mapas manuscritos, cartas xilogravadas e outros produzidos em grandes tiragens por renomadas casas impressoras dos Países Baixos. O conteúdo visualmente impactante é o somatório de alguns anos de pesquisa em acervos cartográficos depositados em instituições brasileiras (como a Biblioteca Nacional, a Biblioteca do Itamaraty, o Museu da Marinha e o Arquivo Histórico do Exército) e do exterior, especialmente em Portugal, embora o levantamento, apoiado pelo CNPq e pela Fapesp, tenha se estendido para Espanha e França. Contribuiu também para o enriquecimento do estudo o período em que Paulo atuou como consultor do Instituto Cultural Banco Santos, onde ajudou a organizar o acervo cartográfico e publicou, em 2004, com o apoio da entidade, o livro O tesouro dos mapas. “O meu foco não foi produzir uma história da cartografia, mas evidenciar como o Brasil foi sendo reproduzido nesse esforço da humanidade em desenhar a Terra”, explica Paulo, que se inspirou para o título de seu livro na obra-prima Theatrum orbis Terrarum, (ou Teatro do Globo Terrestre) do cosmógrafo flamengo Abraham Ortelius (1527-1598), considerado o primeiro atlas moderno da História. Além da preocupação em proporcionar uma organização temática à ampla coleção de mapas publicada, ele salienta ter tomado o cuidado em produzir um texto que se distanciasse da linguagem acadêmica e tornasse o estudo acessível e de leitura agradável a qualquer leitor interessado no assunto. Colabora, para isso, o fato de ter elaborado uma obra permeada de episódios pitorescos, como os casos de plágio e até roubo de mapas entre artesãos concorrentes, reveladores de que a história da arte e da técnica da cartografia também abriga em seu interior atos pouco edificantes para algumas biografias.

Tesouros cartográficos

Fotos: Divulgação

O historiador Paulo Miceli: “A história da cartografia é um projeto que requer um esforço coletivo”

minação dada ao território em um mapa do cartógrafo alemão Georg Seutter. “A força com que essas representações fantasiosas se inscreveram na cultura europeia pode ser percebida por sua presença ao longo de séculos em algumas das mais importantes produções cartográficas relativas ao Brasil e seus habitantes”, enfatiza o docente do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. Ele observa que na segunda metade de 1600, a cartografia sobre a Amazônia e sobre outras regiões interioranas do Brasil, foi consideravelmente ampliada pelo trabalho dos missionários jesuítas.

EM BUSCA DE UM AUTOR

“America Meridionalis”, de 1606, de Gerard Mercator, que ilustra a capa do livro

“Corso del fiume dell Amazon”, de 1691, de Vincenzo Coronelli: representativo da cartografia relativa ao rio Amazonas

Mapa seiscentista “Praefecturae de Paraiba et Rio Grande”, do alemão Georg Markgraf: representativo da belíssima arte dos mapas sobre as capitanias submetidas ao domínio holandês no Nordeste brasileiro

BRASILIA BARBARORUM

O livro analisa a representação cartográfica de quatro regiões do território brasileiro: a Amazônia, as zonas litorâneas do Nordeste – no tempo da guerra entre Portugal e Holanda –, o sertão e os confins do sul. De acordo com o estudo, é possível afirmar que o crescimento da produção cartográfica na Europa foi acompanhado por uma tendência crescente de se representar, integralmente, os territórios do Novo Mundo, com seus países e continentes. Em relação ao Brasil, o território então recém-descoberto surgia como o centro instigador da curiosidade e da imaginação europeia, envolto em uma áurea de exotismo e perigos propagada por cartas e relatos fantasiosos dos viajantes. Segundo apurou Paulo, as primeiras representações cartográficas conhecidas do Brasil detiveram-se principalmente na vasta costa aberta para o Atlântico, e foi esse o espaço cujo perfil mais rapidamente se incorporou ao conhecimento geográfico europeu. “As cartas quinhentistas e mesmo seiscentistas, em seu conjunto, eram essencialmente náuticas, pois, mais do que na busca de novas terras, os esforços dos portugueses concentravam-se no estabelecimento mais preciso dos caminhos do mar, sendo importante notar que a posse das costas do Brasil e da África concedia-lhes o domínio estratégico de todo o Atlântico Sul”, lembra o autor.

Foto: Antoninho Perri

“Brasilia Barbarorum”, de 1740, do alemão Georg Seutter: mostra o detalhamento da região costeira do Brasil; o interior, ainda desconhecido, era considerado uma “terra bárbara”

“Brasilia”, de 1614, de Petrus Kaerius: nos relatos sobre o Novo Mundo, destacam-se cenas de antropofagia, com pedaços de corpos sendo assados em grelha e espeto

Outra curiosa constatação: desde os primeiros anos da colonização, por menor que fosse o grau de detalhamento dos mapas dedicados ao Brasil, o rio Amazonas sempre apareceu destacado pelos cartógrafos, em dimensões exageradas que contrastavam com a paisagem vazia que se estendia para além da moldura costeira. O vazio da imensa e desconhecida massa continental, aliás, era preenchido pela fértil imaginação dos navegadores. O interior do país ainda permanecia obscuro, retratado nos

depoimentos como uma região incógnita e inóspita, habitada por pessoas que se alimentavam de carne humana, exibiam nudez sem pudor e viviam sem respeitar as leis civilizadoras da religião e da política. Essas imagens acabaram incorporadas pelos cartógrafos renascentistas e materializadas em seus trabalhos por meio de cenas de antropofagia e demais elementos teratológicos, acrescentados às advertências escritas nos mapas, relativas à ameaçadora “terra dos bárbaros”, ou Brasilia barbarorum, conforme deno-

É necessário destacar, ainda, o capítulo dedicado à belíssima arte resultante das batalhas entre portugueses e holandeses pela ocupação do Nordeste brasileiro. A intensidade dos conflitos, observa Paulo, como não poderia deixar de ser, acabava reproduzida pelos cartógrafos, que desenhavam o extenso cenário em que se travavam as lutas pelo domínio territorial. Na representação cartográfica da região, houve importantes contribuições da família Teixeira, principal escola cartográfica portuguesa do período que vai da segunda metade do século 16 até 1675. Porém, ressalva o historiador, em que pese a importância que esses e outros registros cartográficos portugueses tiveram para compor o desenho do Brasil, é imperioso ressaltar a significativa produção gerada pela presença holandesa nas costas nordestinas, por conta da excelência de seus artistas, cosmógrafos e engenheiros (Marcgrave, Frans Post e Eckhout, entre outros), aos quais são devidas centenas de mapas, cartas, plantas, gravuras, desenhos e pinturas que mostram as capitanias submetidas ao domínio holandês e suas cidades, vilas e fortificações; as batalhas terrestres e navais; as atividades econômicas predominantes, os espécimes da flora e da fauna; e a diversidade das paisagens. Paulo enfatiza que O desenho do Brasil no teatro do mundo foi concebido também com o propósito de estimular novos estudos em uma área na qual o país não tem tradição. Parafraseando o dramaturgo e poeta siciliano Luigi Pirandello (1867-1936), com sua intrigante Seis Personagens à Procura de um Autor, ele argumenta que a cartografia, na historiografia brasileira, foi sempre uma grande personagem em busca de um autor. Iniciativas importantes nesse campo, lembra o pesquisador, foram empreendidos por nomes fundamentais na história da cartografia nacional, como o contra-almirante Max Justo Guedes (1927-2011), criador do Museu da Marinha e autor de inúmeros estudos e ensaios carto-bibliográficos, e pela geógrafa e historiadora Isa Adonias, diretora por muitos anos da Biblioteca do Itamaraty. Ambos sucederam com seus trabalhos os estudos referenciais conduzidos pelo historiador português Jaime Cortesão (1884-1960) durante o período de seu exílio no Brasil. “A história da cartografia é um projeto que requer um esforço coletivo, contínuo e multidisciplinar, já que o mapa não pode ser analisado apenas pelo viés do historiador; o mapa é um monumento cultural dos mais ricos, é uma obra de arte, é resultado de um saber estratégico, encerra valores filosóficos, políticos e religiosos. Portanto, a cartografia não pode ser um campo de estudos restrito à historiografia; deve merecer a atenção de geógrafos, artistas, etnógrafos, linguistas, sociólogos, filósofos e teólogos”, argumenta Paulo.

Serviço Título: O desenho do Brasil no teatro do mundo Autor: Paulo Miceli Páginas: 264 páginas Preço: R$ 190,00 Editora da Unicamp

JU536  

Jornal da Unicamp, edição 536

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