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Campinas, 28 de maio a 10 de junho de 2012 - ANO XXVI - Nº 528 - DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

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FECHAMENTO AUTORIZADO PODE SER ABERTO PELA ECT

Foto: Lula Marques/ Folhapress

Projeto de pesquisa coordenado pelos professores Rachel Meneguello e Bruno Speck, do Departamento de Ciência Política do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), revela que é baixa representação de mulheres e negros no parlamento brasileiro. A investigação, cujo foco foram as eleições de 2006 e 2010, ouviu 42 parlamentares filiados a nove partidos.

Ilustrações: sxc.hu

Páginas 6 e 7

Agricultores recorrem cada vez mais ao crédito privado

Da mãe para os seus 5 filhos (e para os filhos dos outros)

Página 3

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Sistema híbrido promete ampliar alcance do WiFi

Engenheiro de alimentos dá toque brasileiro ao umê

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Página 9

Biocomputação põe na web legado de Jacques Vielliard

Com mudanças, UPA espera visita de 35 mil estudantes

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A

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Campinas, 28 de maio a 10 de junho de 2012

ARTIGO

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por: Renato Dagnino

Tecnologia Social como ferramenta de mudança

em crescendo o entendimento a respeito do que é Tecnologia Social (TS). Ou seja, de que se trata de algo relacionado ao trânsito da economia informal para a Economia Solidária (ES) e seus empreendimentos, e não para o setor formal e às empresas. Gerar inclusão social, trabalho e renda não é o que se pode esperar das empresas e da finalidade que têm: extrair mais valia de quem vende sua força de trabalho e gerar lucro para o proprietário dos meios de produção. Uma empresa pode, no máximo, gerar empregos; e com um salário sempre menor do que aquilo que o trabalhador efetivamente produz. Ganha força a noção de que TS é muito diferente de tecnologia convencional (ou da tecnologia capitalista, para ser mais claro) que a empresa desenvolve, usa e precisa para gerar lucro e para deslocar outras empresas do mercado. Não vou falar em inovação social: inovação é um conceito específico e restrito ao ambiente empresarial. Tampouco em tecnologias sociais, no plural; quero ressaltar que se trata, mais do que um conceito novo, de uma utopia a ser construída. E não é colecionando iniciativas que julgamos coerentes com algum dos “conceitos” de tecnologia social que estão “na praça” que vamos chegar a um modo de desenvolver tecnologia alternativo àquele que satisfaz os valores e interesses capitalistas. Também não aceito a ampliação do conceito de TS para incluir metodologias que, embora gerem inclusão social, não estão ligadas à produção de bens e serviços. O leitor deve estar ansioso, a esta altura, para saber como elaborar uma política para fomentar a ES e a TS. Estamos ainda longe de ter um marco analítico-conceitual, uma estrutura institucional, etc.; elementos imprescindíveis para formular uma política pública. Não sei se todos já viram um ferreiro trabalhando. Ele alterna, “dando uma no cravo e outra na ferradura”, com a finalidade de ajustá-la corretamente. Vou fazer como ele. Primeiro vou “dar uma no cravo”, criticando a política de ciência e tecnologia (C&T) por ser pouco aderente ao projeto político de democratização que estamos vivendo no país. Ela é a que menos mudou depois que exorcizamos o fantasma do neoliberalismo: continua orientada para o fomento à tecnologia convencional, a serviço do capital e da empresa, da exploração, do lucro. Depois, outra na ferradura, pois não se pode só criticar. Temos que aterrissar e materializar a crítica propondo uma estratégia de desenvolvimento tecnicocientífico alternativo à que está sendo implementada.

No cravo, as críticas O capital possui uma plataforma cognitiva de lançamento muito bem projetada e fabricada; por isto é que esse foguete voa tão bem! Cerca de 70% do gasto em pesquisa no mundo é realizado em empresas; e, destes, 35% (ou seja, a metade) em multinacionais. Essa, diga-se de passagem, é a tecnologia que nossas empresas importam, em geral na forma de máquinas e equipamentos. Mas os 30% que em todo o mundo são gastos nas universidades e institutos de pesquisa públicos também estão a serviço da empresa. Para se ter uma ideia do que se gasta no Brasil com desenvolvimento de TS – a plataforma cognitiva de lançamento da ES –, pode-se desagregar o orçamento de C&T nas quatro agendas políticas que atende: da

Segundo Dagnino, o programa “Minha casa, minha vida” reservou apenas 3% dos seus recursos para autoconstrução

comunidade científica, das empresas, do governo e dos movimentos sociais. O gasto em cada uma, como é de se esperar, é proporcional ao peso político de cada ator: 40% vão para a P&D na empresa, 37% para os programas de interesse do próprio governo, 21% para a comunidade de pesquisa e 2% para a TS. O que mostra como nós, que defendemos a “dobradinha” ES-TS somos fracos; e como é necessário lutar para que este gasto aumente. Mas, ao mesmo tempo, somos fortes. Há 190 milhões de brasileiros e 160 milhões em idade de trabalhar. Desses, apenas 40 milhões têm carteira assinada. Há 120 milhões no setor informal. Ou que são “candidatos” a ele e à exclusão. A ES hoje ocupa 2 milhões de pessoas. O que quer dizer que existem 118 milhões de pessoas que precisam nela ingressar para sair da exclusão e fugir de uma “inclusão” injusta no setor formal. Apesar de nossa política de C&T estar focada nas empresas, elas inovam pouco; e quase não fazem P&D. Apenas 31% delas (cerca de 30 mil) são inovadoras. Quando perguntadas “como é que você inova?”, 80% dizem que inovam comprando equipamento. O que não é de estranhar. Como dizia um especialista latino-americano em política de C&T, em qualquer época, as empresas e países farão três bons negócios com tecnologia: roubar, copiar e comprar. E nenhuma empresa vai desenvolver tecnologia se puder realizar um desses três negócios. Muito menos o farão empresas localizadas num país periférico como o nosso, em que a dependência cultural faz com que os bens e serviços que aqui se demandam já teve a tecnologia necessária para sua produção desenvolvida nos países centrais. Nos Estados Unidos, cerca de 70% dos pós-graduados vão para empresas fazer P&D. No Brasil, de 2006 a 2008, foram formados 90 mil mestres e doutores em ciências “duras”. Se nossa proporção fosse a estadunidense, 63 mil deles iram fazer P&D nas empresas “brasileiras” (nacionais, estrangeiras e estatais). Mas só 68 pessoas de 90 mil foram empregadas para fazer P&D.

Enquanto a empresa, apesar de todo o estímulo que vem recebendo do governo, não faz pesquisa, os empreendimentos solidários só se poderão viabilizar se puderem contar com o potencial tecnocientífico que temos. Mas para isso ocorrer temos que orientar a política de C&T para o desenvolvimento de TS e, as outras políticas públicas, para alavancar a demanda dos bens e serviços que a ES pode proporcionar.

Na ferradura, a proposta Para ilustrar, vou dar um exemplo. O programa “Minha casa, minha vida” reservou apenas 3% do seu recurso para autoconstrução; 97% foram para as empreiteiras. Entretanto, 54% das casas brasileiras são construídas pelos seus próprios moradores. Por que uma parte maior do recurso não foi para mutirões? É claro que isso não ocorre por “falta de tecnologia”. Mas seria mais difícil que isso ocorresse se pudéssemos contar com tecnologia para que os empreendimentos da ES pudessem completar a cadeia de reciclagem de modo a fazer com que latas de alumínio não sejam vendidas a atravessadores e sim destinadas a produzir esquadrias para equipar aquelas casas que são feitas pelos seus próprios moradores, fazendo com que eles não precisassem recorrer a empresas. Para se ter uma idéia do que poderia ocorrer se uma parte do poder de compra do Estado fosse orientado para a ES, vou dar outro exemplo. O Estado arrecada 40% do PIB em impostos. Desses, 25% são destinados a comprar das empresas os bens e serviços necessários para implementar as políticas públicas que proporcionam aos cidadãos saneamento, habitação, saúde, transporte, educação, etc., a que têm direito. A idéia é que o governo estimule a ES entendendo-a como um dos eixos se sua política pública com uma importância pelo menos semelhante àqueles que a proposta hoje hegemônica do neodesenvolvimentismo vem privilegiando. E, por esta via e por consequência, a TS. Temos que pensar em possibilidades que vão desde a indução de demanda, em

Foto: Antoninho Perri

particular a relacionada com os bens e serviços produzidos com TS que podem ser alvo do poder de compra do Estado, até a articulação da TS com políticas públicas, especialmente as políticas sociais. Essas políticas-fim pouco se relacionam com a política-meio – de C&T. É necessário que elas se articulem crescentemente de modo a induzir demanda de TS. A qual proporcionará a base cognitiva e produtiva que as políticas sociais precisam. É muito importante, também, pelo lado da “oferta” o fomento ao desenvolvimento de TS em Institutos de Pesquisa e Universidades Públicas. As cem incubadoras tecnológicas de cooperativas populares têm uma participação ainda pequena no desenvolvimento de TS. Uma possibilidade seria, por exemplo, o incentivo à fixação de profissionais universitários em empreendimentos solidários. Hoje, um empresário manda um projeto para o Ministério e, “no outro dia”, pode contar com um mestre, um doutor, ou um graduado para fazer pesquisa em sua empresa. Há que lutar por uma medida de política de apoio tecnológico à ES para colocar em cada incubadora, cooperativa ou empreendimento solidário um profissional para dar suporte cognitivo àquilo que precisa ser feito. Para superar a pobreza é necessário gerar trabalho e renda. É ilusão o que propõe o neodesenvolvimentismo, que vai gerar emprego e salário para os 120 milhões de brasileiros que não têm carteira assinada; para a metade da nossa população que sobrevive com 12 reais por dia. A empresa e sua tecnologia convencional não irão conseguir isso. Incluir os excluídos na ES, em empreendimentos solidários dotados da sua plataforma cognitiva de lançamento, a TS deve ser o foco, nos campos econômicoprodutivo e tecnológico, das políticas públicas que nos levarão ao país mais justo que queremos. Renato Dagnino é professor do Departamento de Política Científica e Tecnológica, do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp.

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Campinas, 28 de maio a 10 de junho de 2012

Foto: Fernando Canzian/Folhapress

Rumo ao

crédito privado

Área sendo preparada para o plantio da soja, no Centro-Oeste: região é onde estão concentrados os novos modelos de crédito Foto: Antoninho Perri

Dissertação identi�ica a expansão de mecanismos alternativos de �inanciamento agrícola no país

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MANUEL ALVES FILHO manuel@reitoria.unicamp.br

om a redução do volume de recursos oficiais destinados ao financiamento agrícola no Brasil, uma das consequências da crise fiscal da década de 1980, novos mecanismos foram criados para atender à crescente demanda do setor. Entre as alternativas surgidas neste contexto está a concessão de crédito por parte de fornecedores de insumos, agroindústrias e tradings diretamente aos produtores. Este novo modelo, que segue em expansão, já é predominante no financiamento da agricultura da região Centro-Oeste, a maior produtora de grãos do país. As constatações fazem parte da pesquisa feita para a dissertação de mestrado do economista Felipe Prince Silva, apresentada recentemente ao Instituto de Economia (IE) da Unicamp. O orientador do trabalho foi o professor Pedro Ramos. De acordo com Silva, os novos mecanismos de custeio da agricultura surgiram da necessidade do setor de buscar opções ao financiamento público, principalmente o oferecido pelo Banco do Brasil. Por causa da crise fiscal, explica o economista, os recursos públicos começaram a minguar. Percebendo a situação, as multinacionais e as empresas nacionais ligadas ao segmento, como exportadoras, beneficiadoras de grãos, fornecedoras de insumos etc, resolveram elas próprias conceder empréstimos aos produtores rurais, como forma de garantir mercado. “Foi uma iniciativa pautada pela necessidade. Se os agricultores não obtivessem financiamento, eles não poderiam produzir. Sem produção, essas empresas não teriam como se manter em atividade”, detalha. O primeiro modelo estabelecido foi a concessão de financiamento atrelado à comercialização da safra. Ou seja, as empresas privadas começaram a adiantar o dinheiro necessário ao plantio e à colheita, tendo como garantia de pagamento parte da safra. O mecanismo ficou tão conhecido, que passou a ser chamado de “soja verde”, numa associação do grão com o dólar. “A partir dessa experiência, outros instrumentos foram criados. Em 1994, por exemplo, o próprio Banco do Brasil entendeu que teria que criar uma linha de crédito nos mesmos moldes. Assim, a instituição lançou a Cédula de Produto Rural [CPR], que passou a fazer

Felipe Prince Silva, autor da dissertação: tendência é de que os mecanismos alternativos de custeio agrícola cresçam no país

a compra antecipada da safra”, diz o autor da dissertação. As ações, continua Silva, se concentraram no Centro-Oeste, justamente por ser a região que mais produz grãos no Brasil e onde foi registrada a maior taxa de crescimento da produção a partir da década de 1980. Seguindo a tendência, outros instrumentos foram desenhados, como o denominado de “troca”. Por este mecanismo, as empresas fornecem os insumos aos agricultores, que depois pagam o crédito com parte da produção. “A alternativa foi tão bem recebida que, no início da década de 2000, cerca de 30% da soja produzida no Mato Grosso era negociada através desse mecanismo”, informa o economista. Nesse modelo de financiamento, prevalece uma negociação triangular, que envolve o fornecedor de insumo, o produtor e o comprador de grãos. Assim, o primeiro firma um contrato com o terceiro, com o compromisso de receber sua parte no momento da entrega da safra por parte do segundo. Inicialmente, diz Silva, esses instrumentos de financiamento eram mais voltados aos grandes produtores. Com o decorrer do tempo, no entanto, eles passaram a ser acessíveis também aos médios e pequenos agricultores. “O interessante é que essa solução não é encontrada em lugar nenhum do mundo. Muitos executivos de multinacionais ligadas ao setor agroindustrial, quando visitam o Brasil, ficam surpresos e se mostram curiosos para saber como essas transações funcionam”, conta o autor da dissertação, que é sócio de uma consultoria de gerenciamento e análise de riscos na área do agronegócio. A despeito de o financiamento agrícola não oficial estar mais fortemente concentrado no CentroOeste, assinala o pesquisador, ele começa se espalhar para outras regiões. No Paraná, por exemplo, as cooperativas de produção e os distribuidores de insumos também passaram a adotar esse sistema. Uma das vantagens dessa alternativa, de acordo com Silva, é que os produtores

diminuem o risco proporcionado pela volatilidade do preço das commodities. “No financiamento convencional, o agricultor toma um valor emprestado, tendo por base o preço de momento da soja. Ocorre, porém, que na ocasião de vender a safra, e de pagar o empréstimo, meses depois, pode ser que o preço tenha caído. A consequência, nesse caso, é o prejuízo ou no mínimo uma quebra importante do faturamento. Isso ocorre com menor frequência nos financiamentos alternativos, já que a garantia de pagamento é a própria produção. Se o produtor levantou recursos equivalentes a mil sacas de soja, são as mil sacas que ele vai entregar. O risco econômico é mitigado”. As vantagens de recorrer ao crédito privado não param por aí, na avaliação de Silva. Ele lembra que o produtor pode contratar até R$ 650 mil junto ao Banco do Brasil, para pagar uma taxa de juros de 6,75% ao ano. Acima disso, a taxa é maior. “Esse é um fator limitante importante. O produtor que tem dois mil hectares para plantar, o que é comum no Cerrado, vai precisar de algo em torno de R$ 2,5 milhões. Ou seja, quatro vezes mais. No financiamento não oficial, não há esse limite. A limitação, nesse caso, é a sua capacidade de produzir. É por isso que os próprios agricultores preferem tomar o empréstimo privado”. Mas, e as taxas de juros cobradas no financiamento não oficial, compensam? Conforme o economista, embora as taxas sejam superiores às do crédito subsidiado do Banco do Brasil, ainda assim são vantajosas, por conta dos demais benefícios. “O que acontece é que a taxa oficial do Banco do Brasil para crédito de custeio subsidiado é de 6,75%. Na prática, entretanto, às vezes o banco obriga o agricultor a contratar outros serviços, como seguro de vida, título de capitalização etc, para poder ter acesso ao dinheiro. Isso faz com que, no final das contas, a taxa fique entre 10% e 11% ao ano. Atualmente, as fornecedoras de insumos, tradings e beneficiadoras de grãos oferecem taxas na faixa de 14% e 15% ao ano. Isso

sem falar que o crédito é disponibilizado sem tanta burocracia”, compara. Não por acaso, o Banco do Brasil responde atualmente por apenas 8% do financiamento da safra de grãos no Mato Grosso. A situação é diferente no Paraná, onde o crédito não oficial começa a se expandir. Lá, o crédito oficial ainda representa 65% da safra. Questionado se acredita que esses mecanismos alternativos de custeio agrícola ainda crescerão no país, Silva afirma que sim. De acordo com ele, a concorrência representada por esse tipo de opção tem sido positiva para o setor. “Tanto é assim que, mesmo com a redução do crédito oficial, o Brasil ampliou significativamente a sua produção de grãos nas últimas décadas”. Uma consequência adicional dessa concorrência, observa o economista, foi a melhoria da gestão por parte do produtor. Segundo Silva, a figura do agricultor desinformado e que não tem acesso a modernas tecnologias está cada vez mais distante da realidade. “Hoje, esse produtor tem muita informação. No momento de contratar um financiamento, ele joga todos os dados na planilha do computador, para saber qual proposta é mais vantajosa”, sustenta. E não há qualquer desvantagem nesses mecanismos alternativos? Na opinião do autor da dissertação, não. “Como disse, considero essa concorrência saudável para o mercado. Alguns críticos são contrários aos modelos de financiamento privado, alegando que eles, ao cobrarem taxas mais elevadas que as do Banco do Brasil, tiram dinheiro do produtor para transferir às multinacionais. Sinceramente, não entendo assim. O BB consegue cobrar taxas menores porque são subsidiadas. Ou seja, o recurso está saindo de algum outro setor de interesse da sociedade”. Silva também avalia que, em face da expansão do financiamento não oficial, o Banco do Brasil deverá se reposicionar em relação à concessão de crédito para a agricultura. “Alguns analistas consideram que o banco vai voltar suas linhas para os pequenos produtores, que enfrentam mais dificuldades e que têm pouco acesso a equipamentos e técnicas de manejo. Na prática, o BB já começou a mudar. Nas duas últimas safras, por exemplo, a instituição passou a oferecer o seguro de preço para alguns produtores. Ou seja, se o produtor toma empréstimo no momento em que a saca da soja está a R$ 40, mas cai para R$ 30 na ocasião de quitar a dívida, o seguro cobre parte dessa diferença. Trata-se de um movimento na direção do que as empresas privadas já fazem, uma vez que a garantia de preço está naturalmente presente na operação”, analisa.

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Dissertação: “Financiamento da cadeia de grãos no Brasil: o papel das tradings e fornecedores de insumos” Autor: Felipe Prince Silva Orientador: Pedro Ramos Unidade: Instituto de Economia (IE)

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Campinas, 28 de maio a 10 de junho de 2012

O WiFi

que vai mais longe Fotos: Antoninho Perri

Tecnologia híbrida viabiliza a distribuição de zonas com acesso à internet

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PATRÍCIA LAURETTI

patrícia.lauretti@reitoris.unicamp.br

de julho de 2014. 16 horas. A seleção brasileira desponta no gramado do Maracanã, no Rio de Janeiro. O Brasil conseguiu chegar à final da Copa do Mundo contra a Espanha, depois de uma vitória suada contra a Itália. Milhares de espectadores rememoram o passado. Em 1950, na final contra o Uruguai, perdemos por 2 a 1. Mas desta vez será diferente. É no que acredita o administrador João Oliveira, que está no estádio e, ao mesmo tempo, acompanha a transmissão da partida em alta definição (full HD) no seu smartphone. Ele tem a intenção de compartilhar suas experiências “postando” várias fotos em redes sociais, registradas por meio de seu celular. Mas, quando o juiz apita início da partida, João não consegue enviar mais nada. 13 de julho de 2014. 16 horas. A seleção brasileira desponta no gramado do Maracanã, no Rio de Janeiro. O administrador João Oliveira consegue compartilhar sua experiência de estar no Maracanã quando o Brasil se torna hexacampeão. Primeira hipótese: as empresas de telecomunicação investiram intensamente e cada uma delas instalou Estações Rádio Base (ERBs) de última geração nas proximidades do estádio, o que garante a qualidade da transmissão em banda larga. Hipótese dois: está em operação a tecnologia híbrida Rádio sobre Fibra (Radio over Fiber – RoF) que permite compartilhar a mesma infraestrutura entre todas as operadoras celulares locais e o sistema de transmissão de alta velocidade da rede WiFi do estádio. A solução tecnológica, ou “arquitetura” WiFi-RoF, foi estudada na Unicamp na pesquisa de mestrado do tecnólogo em telecomunicações Daniel Grandin Lona, apresentada à Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC) e orientada pelos professores Arismar Cerqueira Sodré Junior (Inatel) e Hugo Enrique Hernández Figueiroa (Unicamp). O projeto teve apoio do Fotonicom (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Fotônica para Comunicações Ópticas), CNPq, Fapesp e CePOF (Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica). A tecnologia RoF já foi utilizada com sucesso nas Copas da África do Sul e Alemanha e Olimpíadas de Sidney para a distribuição de sinais de telefonia celular. A combinação com o WiFi viabiliza a distribuição de zonas com acesso à internet, (hotspots) que são interligadas por fibra óptica. Neste caso, o sistema RoF recebe os dados de radiofrequência (RF) do roteador WiFi, e os transporta em forma de luz via fibras ópticas, criando uma arquitetura de longo alcance e alta taxa utilizando antenas distribuídas, sendo capaz de atender a milhares de usuários. Segundo o autor do trabalho, o processamento de dados pode ser feito em uma central que poderia estar quilômetros distante do estádio. A infraestrutura pode ser compartilhada entre as empresas de telecomunicações de diversos segmentos, tais como operadoras de telefonia celular, de telefonia fixa, emissoras de televisão e de rádio nacionais e estrangeiras. A área de cobertura de uma rede WiFi tradicional varia de acordo com o ambiente de propagação, o qual pode conter obstáculos e paredes. Geralmente é possível atingir distâncias de algumas dezenas de metros. De acordo com o pesquisador, “cobrir a região de um estádio de futebol com roteador WiFi seria um grande desafio por causa da possibilidade da perda de sinal devido à longa extensão, e interferências. Com a tecnologia RoF é possível estender o alcance de redes WiFi para até quatro quilômetros partir de uma central. Com isso as antenas podem ser

Arismar Cerqueira Sodré Junior (à esq.), coorientador, e Daniel Grandin Lona, autor da dissertação

Rádio sobre Fibra: à esq., entrada de sinal de RF e, à dir., saída para o domínio óptico

espalhadas observando-se a distância limite”. Toda a extensão do local estaria coberta a partir de um único ponto de distribuição, o que facilita a manutenção, a operabilidade e atualização do sistema. O sistema RoF converte o sinal de radiofrequência para o domínio óptico e utiliza a fibra a fim de criar uma área de transmissão próxima ao usuário. Segundo Lona, um problema bastante comum nas redes de WiFi é a interferência que ocorre quando vários roteadores são colocados próximos uns dos outros. Redes instaladas em vários apartamentos de um edifício, por exemplo, contribuem não só para a redução da velocidade de transmissão, mas também no alcance. Desta forma, a arquitetura híbrida WiFi-RoF pode ser aplicada para eliminar estas interferências e maximizar o desempenho do sistema. “As estações de transmissão próximas ao usuário permitem melhores níveis de sinais, evitando ‘gargalos’ na transmissão e aumentando a velocidade de conexão. Além disso, o custo operacional é reduzido, uma vez que as estações de transmissão são simples, utilizam infraestrutura compartilhada e estão prontas para as tecnologias de próxima geração, como o 4G.”, afirma Lona. O tecnólogo acrescenta que esta arquitetura tem grande potencial para aplicações em estádios de futebol, aeroportos, centros de convenções, hospitais, shoppings, ou qualquer outro espaço onde haja aglomerações e demanda por acesso à internet, principalmente durante os eventos esportivos mundiais de 2014 e 2016. No trabalho foram testados dois equipamentos de RoF: um norte-americano mais barato e outro britânico, de alta performance. O objetivo foi verificar a relação custo/ benefício e o desempenho dos equipamentos conforme os componentes aplicados em cada sistema. Isto permitiu criar uma metodologia de projeto, definindo, assim, qual sistema RoF utilizar para dado alcance, taxa de transmissão e tecnologia de comunicação sem-fio. Na aplicação com WiFi, o modelo de alta performance britânico se mostrou bem mais vantajoso por causa do uso de um laser de alta qualidade, permitindo um sinal cem vezes superior em relação ao sistema norte-americano.

Monitoramento remoto A segunda etapa da pesquisa realizada por Lona foi verificar a aplicação do RoF

em redes de sensores sem-fio, as chamadas Wireless Sensor Networks – WSNs. Estas redes representam atualmente a soluçãochave para monitoramento e controle. Elas são constituídas por vários sensores sem-fio distribuídos em um ambiente, capazes de obter informações tais como temperatura, umidade e pressão. Durante o monitoramento, os sensores trocam informações entre si via radiofrequência, concentrandoas em um sensor principal (mestre). Este fica responsável por reenviar os dados até o usuário, que pode visualizar as informações em tempo real em um computador, celular ou tablet. O desempenho da WSN foi analisado experimentalmente utilizando a arquitetura híbrida WSN-RoF ao longo de enlaces ópticos de três quilômetros. Os resultados demonstraram com sucesso a aplicação da tecnologia RoF, ampliando o raio de cobertura do sensor mestre - tipicamente de 150 metros para 3.010 e 3.030 metros, ou 25 vezes maior que a arquitetura convencional para o melhor caso. “Um problema das WSNs é o consumo de bateria. Caso a bateria falhe devido ao uso excessivo, a cadeia de comunicação entre os sensores pode ser interrompida, prejudicando a durabilidade da rede. Quando distribuímos via fibra óptica o sinal do sensor mestre até outro sensor, aumentamos o alcance e a vida útil destas redes, podendo também criar diferentes regiões de monitoramento através de uma central”, diz Lona. De acordo com o professor Sodré, coorientador da pesquisa, é mais fácil entender quando imaginamos a aplicação em sistemas de distribuição de energia elétrica. “Hoje, se a energia é interrompida, o técnico precisa procurar de poste em poste para verificar onde está o problema e trocar o transformador e/ou reativar a chave. Geralmente, essas redes não são monitoradas ou o são precariamente, principalmente devido ao alto nível de interferência eletromagnética oriunda da alta tensão e aos altos custos das soluções atuais, que se baseiam na comunicação via satélite. Com a arquitetura WSN-RoF, cada transformador teria um sensor monitorado e controlado remotamente por uma central física. Nesse caso, se der qualquer problema, o técnico saberá exatamente onde é preciso fazer a manutenção e por muitas vezes poderá executá-la remotamente”. Segundo Sodré, hoje em dia, a maioria

dos cabos de energia elétrica são do tipo OPGW (OPtical Ground Wire), os quais já possuem fibras ópticas incorporadas no processo de fabricação. Desta maneira, as companhias de energia elétrica investiram nos últimos cinco anos, com o objetivo inclusive de poder alugar a rede óptica para empresas de telecomunicações. Com a arquitetura WSN-RoF, o controle da rede poderia se estender inclusive por milhares de quilômetros, sem o problema da interferência eletromagnética. “A fibra óptica é imune a este tipo de interferência e tem capacidade de transmissão um bilhão de vezes maior que um par telefônico metálico”, afirma. O professor comenta o ineditismo do trabalho de Lona. “Ele fez uma análise de desempenho detalhada e verificou a aplicabilidade de equipamentos RoF em diversas áreas, dentre elas, telecomunicações, sistemas de energia elétrica e agronegócios. Estudou as vantagens e desvantagens de cada um, propôs um modelo e depois testou experimentalmente em uma rede real. Ele propôs uma metodologia de projeto para sistemas RoF, uma ‘receita de bolo’ que poderá ser utilizada por muitos engenheiros e profissionais da área. Nesse sentido é um dos primeiros trabalhos realizados no Brasil e até em nível mundial”. Em 2008, o grupo de pesquisas da Unicamp publicou uma prova de conceito no periódico internacional Microwave and Optical Technology Letters, quando foi proposta a convergência dos sistemas. O trabalho de mestrado de Lona deu continuidade às pesquisas e foi objeto de publicação em 9 periódicos e congressos, sendo a maioria deles internacional. Enquanto a primeira parte do trabalho do pesquisador está voltada para transferência de dados com a criação de áreas de acesso WiFi e celulares, esta segunda parte é direcionada para o que os especialistas chamam de Internet das Coisas (Internet of Things ou IoT), ou seja, a identificação, monitoramento e controle de objetos de forma sensorial e remota. “Existe uma demanda mundial hoje para você visualizar e controlar as coisas remotamente e preferencialmente via internet”, complementa Sodré.

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Dissertação: “Implementação e análise de desempenho de sistemas rádio sobre fibra em redes WSN e Wi-Fi” Autor: Daniel Grandin Lona Orientação: Hugo Enrique Hernández Figueroa Coorientador: Arismar Cerqueira Sodré Junior Unidade: Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC)

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Campinas, 28 de maio a 10 de junho de 2012

5 Fotos: Antoninho Perri

Claudia Bauzer Medeiros, coordenadora do projeto: “A Unicamp está sendo mais uma vez pioneira”

O bolsita Daniel Cintra Cugler: “Nosso objetivo é cada vez mais aprimorar as funções oferecidas pelo sistema”

O pesquisador Felipe Toledo. “Com as ferramentas, desenvolveremos pesquisas e saberemos mais sobre as espécies”

Cantos (e outros sons)

A pesquisadora e gerente técnica da Fonoteca, Milena Corbo: “Tudo que tem sido feito era uma vontade do Jacques”

para todos os cantos

Projeto de biocomputação põe na rede patrimônio de vocalizações de animais legado por Jacques Vielliard SILVIO ANUNCIAÇÃO

O

silviojp@reitoria.unicamp.br

relevante patrimônio de vocalizações de animais deixado pelo ornitólogo e professor da Unicamp Jacques Marie Edme Vielliard, falecido em 2010, pode, agora, ser acessado gratuitamente pela internet por pesquisadores e interessados em todo o mundo. Vocalizações são sons emitidos pelos animais para se comunicarem, como os cantos dos pássaros e baleias, os uivos dos caninos, o bramir dos elefantes e crocodilos e os ruídos dos insetos. Antigo sonho do cientista, o acervo virtual pertence à Fonoteca Neotropical “Jacques Vielliard” (FNJV), do Instituto de Biologia (IB). Incrementada constantemente com novas gravações pelos seguidores do ornitólogo e demais estudiosos, a Fonoteca está, atualmente, entre as cinco maiores coleções sonoras do mundo. Há gravações de todos os grupos de vertebrados, como peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos, e de alguns grupos de invertebrados, como insetos e aracnídeos. Ao todo, são cerca de 40 mil vocalizações, das quais mais de 11 mil já estão digitalizadas e disponíveis no endereço http://proj.lis. ic.unicamp.br/fnjv. O acervo virtual, que passa por processo de aprimoramento, foi viabilizado com o emprego de pesquisas de ponta na área da computação e da biologia. O projeto promete produzir efeito facilitador e multiplicador na pesquisa científica em bioacústica por meio do uso de ferramentas computacionais e conceitos relacionados à preservação, compartilhamento e enriquecimento de dados. A coordenação é da docente Claudia Bauzer Medeiros, do Instituto de Computação (IC), e do pesquisador Luís Felipe Toledo, colaborador do Museu de Zoologia do IB e um dos curadores da Fonoteca. As três principais agências de fomento de pesquisa do país – Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) – estão financiando o projeto.

Claudia Medeiros explica que o sistema online permite o acesso às vocalizações e aos dados ou elementos sobre elas, entre os quais, os nomes das espécies, locais, datas e horas das gravações. Uma singularidade do projeto, de acordo com a docente, é a possibilidade do “enriquecimento destes dados”. Este enriquecimento permite que novas informações sejam geradas ao integrar os elementos das vocalizações a outras bases. Será possível, assim, atrelar os sons emitidos pelos animais a diversas variáveis do meio ambiente. Ela esclarece que a partir dos dados já armazenados, os usuários poderão coletar informações adicionais, disponíveis, por exemplo, nos portais da Nasa (National Aeronautics and Space Administration), Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). Deste modo, os dados das vocalizações podem ser relacionados com a temperatura da época em que foi gravado determinado som, com a velocidade do vento daquele momento e com uma série de elementos climatológicos associados àquela época. Essas informações serão primordiais para futuras pesquisas na área da bioacústica e biodiversidade porque, essencialmente, as espécies são influenciadas pelos fatores climáticos, complementa o pesquisador Felipe Toledo. “Há bichos que só cantam se estiver chovendo. Mas só sabemos isso a posteriori, ou seja, depois da observação. Se não temos estes dados fica difícil inferir qualquer análise. Muitos bichos param de cantar enquanto está ventando muito. Até terremoto estimula a vocalização de animais, como é o caso dos elefantes. Com as novas ferramentas, conseguiremos desenvolver pesquisas e saber mais sobre a história de vida das espécies”, exemplifica o cientista. “Para pesquisadores interessados no efeito do clima sobre o comportamento animal isso será muito importante. Eventualmente, eles nem precisarão ir a campo para coletar os dados que já estarão disponíveis aqui na coleção. Isso facilita, agiliza e potencializa a pesquisa científica”, prevê Felipe Toledo. Estudos sobre a comunicação sonora dos animais são imprescindíveis para a preservação da biodiversidade. O biólogo da Unicamp explica que, conforme a ciência desvenda aspectos do comportamento dos animais, criam-se cada vez mais condições para propor ações no sentido de preservá-los. “Temos em nosso acervo gravações de pássaros muito comuns em nosso entorno, como os pardais, mas também de bichos raros, que poucas pessoas conseguiram gravar. É o caso de uma onça parda gravada na natureza. Em muitos dos nossos registros antigos, talvez não se encontre mais o bicho naquela localidade em que o seu som foi gravado devido à devastação do meio ambiente”, expõe.

Web (www) há oito meses para testes, o acervo virtual já foi acessado por pesquisadores de mais de 40 países. Há versões para o português, inglês e o francês - a língua materna de Vielliard. A pesquisa para o desenvolvimento do acervo online já gerou dois artigos científicos. “Organizar todos os dados para que pudéssemos desenvolver pesquisa em computação foi o primeiro passo do nosso trabalho. Agora, nós estamos focados no enriquecimento destes dados. Nosso objetivo é cada vez mais aprimorar as funções oferecidas pelo sistema”, afirma Cugler. O pesquisador garante que estarão disponíveis, até o final deste ano, novas ferramentas para permitir o enriquecimento e a integração dos dados. Conforme Cugler, por enquanto, o sistema permite o acesso às informações sobre o acervo a qualquer pessoa. Além disso, pesquisadores e demais interessados podem também solicitar aos curadores, via formulário eletrônico, os sons digitalizados. É possível ainda fazer o depósito de novas vocalizações. Para o público não especializado em ciência, mas interessado nas vocalizações, há amostras de gravações disponíveis, como a do sabiá-laranjeira, nome popular da espécie Turdus rufiventris. Gravado por Vielliard, o pássaro é um dos mais conhecidos do Brasil, identificado pela cor de ferrugem do ventre e por seu canto melodioso durante o período reprodutivo.

O professor e ornitólogo Jacques Vielliard durante gravação e em seu laboratório (no destaque); abaixo, sabiá-laranjeira: vocalizações disponíveis também para leigos Foto: Jefferson Silva

E-Science De acordo com Claudia Medeiros há muitos estudos de fronteira envolvidos no desenvolvimento do sistema online. “A Unicamp está sendo mais uma vez pioneira com esta iniciativa, pelas características inovadoras do sistema, talvez o primeiro no mundo a se preocupar com alguns tipos de enriquecimento de dados. Na verdade, a disponibilização digital do acervo já era prevista pelo professor Vielliard, mas o projeto está acrescentando funcionalidades muito além do que ele imaginava. A digitalização é extremamente importante, inclusive para efeito de preservação das gravações que foram feitas. E, agora, nós não só estamos disponibilizando o acervo digital, mas criando e oferecendo métodos relacionados ao que chamamos de e-Science”, revela.

O termo empregado pela docente refere-se à utilização de pesquisas em computação para a obtenção de resultados científicos aplicados a outras áreas do conhecimento. “Na e-Science pesquisadores da computação realizam investigações para ajudar cientistas de outras áreas a desenvolverem suas pesquisas de forma melhor, mais rápida ou mais eficiente e até diferente. Ao mesmo tempo, a pesquisa em computação é acelerada pelos desafios apresentados na colaboração com outros cientistas. Um dos aspectos chaves em e-Science é o compartilhamento, porque compartilhando dados, outras pessoas, de outras áreas, vão poder fazer usos nunca esperados”, conceitua a docente, que coordena no IC o Laboratório de Sistemas de Informação.

Aprimoramentos Para se chegar ao sistema atual foram quase dois anos de pesquisas conduzidas pelo doutorando do IC Daniel Cintra Cugler, bolsista Fapesp orientado por Claudia Medeiros. Na World Wide

Rigor O procedimento de impedir o acesso direto às vocalizações, de certo modo restritivo, é um rigor que certamente seria elogiado por Vielliard. A pesquisadora e gerente técnica da Fonoteca, Milena Corbo, lembra que essa era umas das grandes preocupações do professor. Corbo trabalhou com o ornitólogo por cerca de seis anos, sendo, inclusive orientada por ele na sua pesquisa de mestrado. No momento, ela é a responsável pelo trabalho meticuloso de converter as gravações analógicas para o formato digital, atividade que desenvolve desde o final de 2007. “Tudo que tem sido feito era uma vontade do Jacques. Esse desejo dele está acontecendo até com muito mais incremento do que ele esperava. Isso é muito importante porque era sua vontade disponibilizar este rico material, porém com certa restrição. Ele não gostaria de ver o seu acervo sendo usado indiscriminadamente, sobretudo para fins comerciais”, lembra.

............................................................. ■ Publicações

- Cugler D. C., Medeiros C. B., Toledo L. F. Managing animal sounds - some challenges and research directions in Proceedings V eScience Workshop - XXXI Brazilian Computer Society Conference, 2011. - Cugler D. C., Medeiros C. B., Toledo L. F. An architecture for retrieval of animal sound recordings based on context variables in Concurrency and computation: practice and experience.

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Campinas, 28 de maio a 10 de junho de 2012

Pesquisa revela baix de mulheres e neg

Investigação, cujo foco foram as eleições de 2006 e 2010, in LUIZ SUGIMOTO

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sugimoto@reitoria.unicamp.br

Brasil tem apenas de 13% de mulheres no parlamento, ocupando o final da fila na América Latina. O dado é divulgado pela Inter-Parlamentary Union (IPU), órgão que reúne todos os legislativos do mundo e que compila estatísticas sobre a presença de mulheres nestas casas. Por que as mulheres candidatas não conseguem se eleger na mesma proporção que os candidatos homens? Por que as mulheres se apresentam menos na política? Ou, quando se apresentam, o que acontece para que não tenham tanto sucesso? Por que os financiamentos de campanha são sempre menores para as mulheres? São estas as principais questões colocadas por Rachel Meneguello e Bruno Speck, professores do Departamento de Ciência Política da Unicamp e pesquisadores do Centro de Estudos de Opinião Pública (Cesop), no projeto de pesquisa “Mulheres e Negros na Política – Estudo exploratório sobre o desempenho eleitoral em quatro estados brasileiros”. Financiada pela Unifem, órgão das Nações Unidas para Empoderamento das Mulheres (agora ONU Mulher), a pesquisa incluiu entrevistas em profundidade com 42 parlamentares e membros de partidos do Pará, São Paulo, Santa Catarina e Bahia, com o objetivo de avaliar os constrangimentos e obstáculos que poderiam explicar a baixa representação de mulheres e negros no parlamento. O foco esteve nas eleições de 2006 e 2010 e em nove partidos: PT, PSB, PP, PMDB, PSDB, PSOL, PCdoB, PDT e DEM. “Durante as entrevistas com as mulheres candidatas ou parlamentares, algumas dimensões relativas ao acesso à política ficam muito claras. Uma delas é a trajetória política. Boa parte delas tem uma trajetória muito convencional e tradicional na política brasileira, que é a relação de família: o marido, o pai, o avô e até o bisavô político. E, quando não existe esta tradição de família, vemos os casos de mulheres com uma militância importante nos movimentos sociais, como de mulheres, negros, estudantes e agricultores, e o ingresso em partidos de esquerda”, afirma Rachel Meneguello, que é diretora do Cesop. Segundo a pesquisadora, a hipótese de que as mulheres teriam menos interesse pela política, está presente na própria fala de algumas entrevistadas, que culpam as demais pela baixa representatividade no parlamento. “Ainda existe este preconceito em relação a si mesmas. O que de fato acontece – e aí entra outra dimensão da nossa pesquisa – tem a ver com a presença do machismo. Sobretudo as casadas e com filhos, que têm atribuições domésticas, enfrentam grande dificuldade para dar conta de uma carreira política e do casamento. Dentre as entrevistadas, mais de 20% são separadas. Eleita, a mulher não se ocupa apenas de legislar, ela tem uma vida dentro do partido e precisa compatibi-

lizar as atividades com sua vida privada.” Rachel Meneguello ressalta que os partidos são estruturas consagradas como de domínio masculino, onde é difícil que mulheres se destaquem, mesmo em São Paulo, que apresenta outro grau de competição política e abertura para o ingresso de novos atores. “Como exemplo, Marta Suplicy, apesar da imagem pública de destaque como mulher de televisão, entrou na

política com o apoio de Eduardo Suplicy – são relações que não acontecem somente no Nordeste, onde se supõe que concentra traços da política tradicional e familiar. Na vida parlamentar, o preconceito aparece contra as mulheres, principalmente as negras. Dezesseis entrevistadas que se declararam negras foram tratadas com diferença, primeiro como mulher, na pouca importância dada às suas opiniões, e também por meio de um racismo velado,

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fe po ho gu ne

Dinheiro míngua para candidatas O professor Bruno Speck, juntamente com a pesquisadora Teresa Sacchet, participou de um projeto anterior financiado pela Secretaria de Mulheres da Presidência da República, que envolveu mais de dez organizações, entre elas o Cesop. “Esta pesquisa é consequência e sequência da outra, que analisou o desempenho das mulheres nas eleições de 2010 focando aspectos como da propaganda política e do financiamento de suas campanhas. Nós do Cesop analisamos especificamente a questão do financiamento das candidatas, chegando ao resultado de que elas recebiam menos recursos e menos votos em relação aos homens. Esta pesquisa atual foi mais qualitativa, sobre as razões e o pano de fundo desta desvantagem, incluindo entrevistas com as mulheres e estendendo o trabalho aos negros.” Um dado básico e sempre interessante, na opinião de Bruno Speck, é a proporção de mulheres eleitas entre as candidatas. Ele atenta para a similaridade dos gráficos para a Câmara dos Deputados e as Assembleias Legislativas após as eleições de 2010, que trazem na primeira barra a média da população feminina no Brasil (em torno de 50%). Na tabela de candidatos a deputado federal, a segunda barra mostra que a proporção de mulheres foi de 11,9% na Bahia, 18,6% no Pará, 25,2% em Santa Catarina e 18,8% em São Paulo. “Aqui, já vemos uma sub-representação das mulheres, decorrente do filtro partidário para obtenção das legendas”, observa. Entretanto, na terceira barra, de candidatas eleitas, nota-se uma diminuição brusca para respectivos 2,6% (BA), 5,9% (PA), 6,3% (SC) e 8,6% (SP). “Se as mulheres candidatas tivessem a mesma chance de se eleger do que os homens, a segunda e a terceira barras deveriam

ter igual tamanho. Mas não é assim, há uma nova queda. A questão é: por quais razões elas têm menor chance de se eleger?”. O pesquisador não dispõe de informações que expliquem por que tão poucas mulheres se candidatam, principalmente havendo a Lei de Cotas, determinando que cada partido ou coligação destine pelo menos 30% das vagas a candidatas mulheres. “O dado mais citado no caso brasileiro é de 18% de mulheres entre os candidatos, ou seja, a maioria dos partidos e das circunscrições não cumpre a legislação. Um comentário recorrente nos movimentos feministas diz respeito à pouca penalização por este descumprimento nas eleições passadas.” Naquela pesquisa em que analisou a questão do financiamento, ficou claro para Bruno Speck que as mulheres recebem menos recursos que os homens. Os gráficos mostrando a média de arrecadação por mulheres e homens, para deputado estadual e deputado federal, tornam clara a discrepância. “É um quadro que se repete nas outras eleições, com exceções como do Pará, onde o conjunto de candidatas arrecadou mais ou menos o mesmo valor dos homens – o que se reflete também no resultado eleitoral.” Segundo o pesquisador do Cesop, um aspecto que não era objeto da pesquisa, mas bem conhecido em campanhas eleitorais, é a estreita relação entre arrecadação e voto: o candidato que se elege sempre consegue arrecadação bem maior do que os não eleitos. “Tomo o cuidado de não definir isso como uma causalidade, pois não sabemos se é a percepção do doador de que o candidato tem grande chance de se eleger que causa o financiamento, ou se o financiamento é que causa o resultado eleitoral, ou seja: se dinheiro

rende voto ou se a expectativa de voto rende arrecadação. Entretanto, a correlação é estreitíssima e induz a pensar que o financiamento é corresponsável pelo baixo desempenho das mulheres.”

santinhos e cartazes. “Então, novamente, de onde poderia vir uma solução: com as mulheres estando presentes nas instâncias partidárias que distribuem recursos, garantindo pelo menos o acesso também para elas.”

Candidata laranja Bruno Speck considera a hipótese de que os financiadores realmente não acreditam que as mulheres têm chance de se eleger, visto que elas geralmente apresentam um histórico político-eleitoral bem mais curto. “Tipicamente, para se eleger a um cargo de alto nível como de deputado federal ou senador, é preciso uma longa história política. Portanto, a Lei de Cotas não vai resolver, hoje, a baixa presença das mulheres e melhorar seu desempenho. Antes da lei, havia menos candidatas, mas aquelas que conseguiram emplacar na lista partidária tiveram desempenho de igual a melhor que os homens. A partir do momento em que os partidos foram obrigados a inchar suas listas com mulheres, este desempenho caiu. E a chamada ‘candidata laranja’ virou fenômeno”. A esse respeito, a professora Rachel Meneguello afirma que algumas entrevistadas colocam claramente que seu papel no partido é o de preenchimento de cotas. “E há o fato de que esta lei não prevê qualquer sanção, caso seja descumprida. Talvez venha a ter nas próximas eleições, com o Ministério Público acompanhando o preenchimento das listas e criando uma reprimenda ou outro tipo de medida.” A diretora do Cesop recorda que as mulheres reclamam muito da distribuição interna dos recursos de campanha, havendo casos de candidatas que, mesmo casadas com companheiros de partido, não receberam sequer

Horário eleitoral Bruno Speck ousa especular que a eleição municipal seja, talvez, o momento mais importante para incentivar mais mulheres a disputar cargos de vereança e de prefeito, depois a de deputado estadual e assim por diante. “É preciso pensar em como alimentar esta cadeia com mais incentivos às mulheres. Num sistema eleitoral de listas abertas como do Brasil, obrigar os partidos a incluir mulheres entre os candidatos tem impacto muito limitado, já que quem decide, no final das cotas, é o eleitor. Mais de 90% dos votos no país são depositados nos candidatos, e não em partidos. Mas, voltando à questão dos recursos, acho que o partido tem um papel importante em relação a um recurso indireto, que não é em dinheiro: o horário eleitoral gratuito.” O cientista político lembra que a lei obriga o partido a dividir seu tempo no horário eleitoral equitativamente entre os vários cargos, não sendo permitindo beneficiar, por exemplo, mais o candidato a prefeito e menos os pretendentes ao legislativo. “O partido possui ampla margem de manobra e nem sempre usa esta margem de forma aberta entre os candidatos, promovendo alguns nomes em detrimento de outros. Se o partido adotar uma política de incentivo à participação feminina, vejo este funil do horário eleitoral como um veículo mais fácil de ser utilizado do que o financiamento. É complicado pedir ao empresário que financie mulheres.”

Os profess do projet


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ixa representação gros no parlamento

ncluiu entrevistas com 42 parlamentares de quatro Estados Foto/Arte: Luis Paulo Silva

ifícil de medir.” Outro aspecto observado na pesquisa, de acordo com a proessora, é a visão essencialista da diferença que a mulher faz na olítica, em que as próprias entrevistadas se colocam como mais onestas e mais capazes para tratar determinadas questões. “Aluns dizem o tempo todo que Dilma Rousseff não tem liderança em traquejo político e, quando ela coloca mulheres em cargos-

sores Rachel Meneguello e Bruno Speck, coordenadores to de pesquisa: partidos estão sob domínio masculino

chave, desperta preconceitos dos mais variados. Entretanto, todos os entrevistados chamam a atenção para a importância pelo menos simbólica da presença de uma mulher na Presidência. Não se tem a ilusão de que isso mudará a dinâmica da política nacional, mas vai se criando a percepção de que as mulheres podem ter acesso a outras instâncias, seja de trabalho, seja de representação política.”

Paridade estatutária Rachel Meneguello informa que o PT é o primeiro partido a tomar seriamente a questão das mulheres e negros, incluindo mudanças fundamentais na reforma do seu estatuto, em fevereiro deste ano. “A primeira mudança é a paridade de homens e mulheres nos cargos de direção. Mais: o novo estatuto define um levantamento sobre raça e idade dos filiados e, havendo determinado número de negros, por exemplo, pelo menos 20% deles terão lugar em cada um dos órgãos de direção. Estes órgãos também terão ao menos 30% de jovens, o que implica renovação de quadros.” Outra mudança no PT destacada pela diretora do Cesop, na mesma reforma estatutária, é a limitação de três mandatos para cada cargo, ou seja, se um candidato se eleger três vezes deputado estadual, terá que mudar de esfera no pleito seguinte. “Isso tem um impacto para as mulheres, pois se os quadros devem ser renovados estatutariamente, abre-se outra porta de ingresso para que elas, por exemplo, obtenham legendas. Esse impacto não virá na próxima eleição, mas merece ser observado nas futuras, porque pode começar a mudar a cultura masculina dentro das estruturas partidárias.” A pesquisadora não identifica em outros partidos considerados progressistas a inclusão de medidas semelhantes em seus estatutos. “O PSB menciona bastante o estímulo à participação de mulheres e negros na política, mas apenas mencionar é muito pouco. Embora os partidos possuam secretarias da mulher e de combate ao racismo, não veem o tema como central, não existe uma diretriz política para isso. Mesmo PCdoB e PSOL, que estão mais à esquerda, defendem a prioridade de uma luta política mais ampla de transformação social – e as questões da mulher e do negro iriam de carona nesta luta mais ampla.” Rachel Meneguello aponta, afinal, o que a pesquisa colheu de essencial. “Se fosse para resumir esta entrevista, duas grandes questões aparecem. Uma delas é que os constrangimentos fundamentais do acesso às mulheres e negros na política estão no domínio masculino desta dinâmica de representação. Do outro lado, temos uma grande reclamação em relação às estruturas partidárias, havendo a necessidade de mudanças, inclusive legais, que levem à participação efetiva de mulheres e negros na dinâmica interna dos partidos. O sucesso da politica de cotas, já implantada mas menos exitosa do que se esperava, parece depender mais de mudanças na organização interna dos partidos do que da reforma do sistema eleitoral”.

Foto: Antoninho Perri

O círculo vicioso da estagnação Indicadores internacionais compilados pelo Cesop mostram que a baixa presença de mulheres e negros na política não é um problema exclusivamente brasileiro, mas generalizado no mundo. Bruno Speck aponta os Estados Unidos como um dos exemplos negativos, com 17% de mulheres no Congresso e 22% nos parlamentos regionais. “A Alemanha tem 30% de deputadas no parlamento e, atualmente, só duas mulheres ocupando o governo de dois dos 16 estados; nos partidos de esquerda, o Partido Verde é o que traz 50% de mulheres em seus quadros.” O pesquisador observa que esta baixa representação das mulheres se dá em diferentes patamares, dependendo do país. “A Alemanha do pós-guerra tinha 10 ou 12 mulheres no parlamento e agora avançou para 30%. No Brasil, há certa estagnação neste momento. Vínhamos tendo certo crescimento na participação, mas agora não vemos sinais de que se está avançando para os 50%, que seria a taxa normal, considerando a proporção de mulheres e de homens na população brasileira.” Rachel Meneguello, por sua vez, busca parâmetros históricos para ressaltar que o voto feminino no Brasil foi aprovado em 1932 (o primeiro caso na América Latina) e, na Suíça, somente em 1972. “Como explicar isso? Há um terreno muito positivo de possibilidades de representação feminina, mas também uma estagnação que advém desta política tradicional. E, ainda em relação aos Estados Unidos, estudos mostram que, historicamente, os negros têm muito mais sucesso do que as mulheres na política.” Por outro lado, a professora recorda que o Cesop organizou um seminário sobre o sistema eleitoral brasileiro e a mudança da lista aberta de candidatos para a fechada, apresentando dados de outros países onde estudos indicam que esta mudança beneficiou a participação das mulheres de alguma forma e que sua implantação vem sendo uma tendência. “Eu, particularmente, acho que a lista fechada ainda não é a melhor solução para o Brasil, não pela sua adoção em si, mas pelas estruturas partidárias ainda muito oligárquicas. Alguns partidos têm claramente seus caciques, enquanto outros contam com lideranças consagradas que detêm votos e cadeiras há muito tempo – tais lideranças, num primeiro momento, talvez não abram espaço para as mulheres.” Rachel Meneguello também se mostra descrente quanto a outra mudança pretendida na reforma partidária, que é o financiamento público da campanha eleitoral. “Em quase todas as entrevistas da pesquisa, o financiamento público aparece como uma grande solução para o acesso de mulheres e negros à política. Isso me parece um mito. Destinar recursos do Estado ao partido pode funcionar como equilíbrio e controle de fundos em geral, mas se não houver controle sobre a distribuição dentro do partido, o círculo vicioso se repete.”

Componentes demográficos são levados em conta

No que se refere à metodologia utilizada para desenvolver o projeto “Mulheres e Negros na Política – Estudo exploratório sobre o desempenho eleitoral em quatro estados brasileiros”, Rachel Meneguello explica que, por se tratar de uma amostra no país, a questão foi tratada de maneira política e de maneira demográfica. “Buscamos dados do IBGE sobre populações de Estados para medir a representação política dos negros, no caso a Bahia, com 17% em 2010; e, como contraprova, Santa Catarina, com 3%. São Paulo, por sua vez, é o distrito eleitoral mais competitivo do país, onde todos os 29 partidos estavam representados (agora são 30). Por fim, o Pará, que até pouco tempo tinha Marisol Brito no Senado e Ana Júlia Carepa como governadora, buscando um universo menos próximo de nós do Sudeste e mais representativo da política tradicional brasileira.” Elaborado um elenco de nomes a serem entrevistados, a professora conta que em boa parte das vezes foi bastante difícil contatá-los, ou por que não aceitavam passar por uma hora e meia de entrevista (que era qualitativa, em profundidade) ou por que a agenda não permitia. “No final das contas, conseguimos entrevistar 42 parlamentares, candidatos ou membros de partidos, sendo oito homens. Em termos de participação efetiva das mulheres nos cargos internos partidários, como por exemplo, nas comissões executivas, o PT possuía a maior percentagem, 20% (oito cargos); nos demais a participação ficou entre 8% e 10%, demonstrando a dificuldade de acesso das mulheres à própria dinâmica interna dos partidos”. Os pesquisadores do Cesop também decidiram abordar o espectro partidário: direita, centro e esquerda. “Alguém dirá que é difícil fazer tal distinção no Brasil, mas não é tanto assim, há uma série de estudos acadêmicos cujo esforço é entender como os partidos se localizam neste espectro ideológico. Uma das hipóteses era de que estar à esquerda ou à direita também faria diferença na inserção de mulheres e negros na política. Por um lado, indica uma relação com movimentos sociais, o que não é privilégio brasileiro, faz parte de todas as democracias representativas. Partidos como PT, PCdoB e PSB têm intensa relação com os movimentos negros, bem como uma secretaria de mulheres em suas estruturas – o que não é por acaso, pois chega um momento em que a Lei de Cotas começa a ser absorvida.”


Campinas, 28 de maio a 10 de junho de 2012

A trajetória de Cecília Parra da Silva, professora de creche que se dedica ao voluntariado MARIA ALICE DA CRUZ

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halice@unicamp.br

erônica (2), Maria Angélica (4), Ana Clara (6), Luís Miguel (8) e Vicente (10) aprendem na infância a partilhar o que têm, seja uma roupa, um brinquedo ou até mesmo um tempo. A doação de tempo também foi estimulada cedo na vida da mãe dessas crianças, Cecília Alejandra Rodríguez Parra da Silva, pedagoga formada pela Unicamp, professora do Centro de Convivência Infantil da mesma Universidade e voluntária na Associação dos Amigos da Criança (Amic). Na infância, em São Paulo, quando o destino do passeio era um asilo que costumavam visitar, Cecília e os irmãos caprichavam no preparo de bolos e lanches, sob condução da mãe, Nancy Cecília Parra Morales Rodriguez, falecida em 9 de dezembro de 2011. “Minha mãe sempre trouxe essa experiência para nós. Ela dizia que não imaginávamos o bem que fazíamos doando nosso tempo àquelas senhoras abandonadas, que há anos esperavam seus filhos irem buscá-las”, relembra Cecília. Em 1994, ao descarregar a mudança no bairro Village, em Barão Geraldo, Campinas, a família Rodriguez rapidamente atentou para a sede da Amic na rua em que passariam o resto da vida. Em poucos dias, todos faziam parte do grupo de voluntários da associação, que atende mais de 900 crianças na cidade de Campinas, no Village, no Parque Oziel e no Monte Cristo. Um presente para as adolescentes grávidas dos bairros Parque Oziel e Monte Cristo, que tiveram seus enxovais confeccionados pelas mãos voluntariosas de Nancy e de suas companheiras de artesanato. Secretária comercial, ela também proporcionou anos de alegria para as crianças de zero a 3 anos com seu “faz de conta”. Cecília dedica à mãe o trabalho voluntário realizado atualmente na Amic. O tempo doado é para ela um presente quando encontra na sala de seus filhos, no Educandário da Amic, crianças atendidas por elas no berçário. “Faz parte de minha vida. Recordo do relacionamento deles com minha mãe. Isso tudo carrega uma história”, acentua. Na creche, ela também tem o papel de captar recursos. Nesse aspecto, consegue adesão de pessoas dos mais variados ambientes que frequenta, inclusive de amigos da Divisão de Educação Infantil e Complementar (DEdIC), onde Cecília trabalha desde 2004. Outra parte de seu tempo é doada ao atendimento telefônico, três horas por semana, para garantir auxílio em dificuldades emocionais enfrentadas por famílias atendidas pela instituição. Quando desembarcou em Campinas, Cecília tinha 12 anos e começou, ao lado dos irmãos, a ajudar na preparação de cestas distribuídas pela Amic. A saca de 50 quilos de arroz era dividida em pacotes de 1 quilo por jovens do Village, que já sabiam da miséria das pessoas, como diz Cecília, embora fizessem o trabalho pela alegria de estarem juntos. É o que Cecília chama de adolescência produtiva. Morar num bairro afastado como o Village, onde o intervalo entre um ônibus e outro era longo, não permitiu levar uma adolescência movida a baladas. Mas quem se importa? “Éramos felizes ali,

Pequenos gestos,

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grandes ações

A pedagoga Cecília Alejandra Rodríguez Parra da Silva com quatro de seus cinco filhos, preparando bolo na creche onde trabalha na Unicamp e sendo abraçada por seus alunos

cantando juntos, fazendo coral, serenata na casa um do outro. E tínhamos esse comprometimento de ir ensacar alimentos depois da aula”, relembra com satisfação. Nessas reuniões juvenis, conheceu Diego Luís da Silva, com quem se casou aos 19 anos. Quando se uniram, já compartilhavam dois sonhos importantes: construir uma família e continuar contribuindo para a construção de um mundo melhor. Juntos, transmitem para os cinco filhos as ações solidárias dentro e fora de casa. Todos participam da organização do dia. Quando o Natal se aproxima, Verônica, Ana Clara, Maria Angélica, Luís Miguel e Vicente já se movimentam à procura de brinquedos em condições de ser doados, pois sabem que muitas crianças com as quais convivem, na mesma rua, pode-

rão não ganhar presentes. “Mostramos que, às vezes, aquela pessoa que está ao lado pode estar dormindo debaixo da ponte sem que saibamos”, alerta A realidade dos mais necessitados sempre traz exemplos de solidariedade, na opinião de Cecília. Certa vez, em um dos natais da Amic, durante a distribuição de brinquedos, uma criança entrou várias vezes na fila. Mas diante do alerta de um dos voluntários, a atendente disse para entregar os objetos. Ao final da festa, o menino foi visto levando os brinquedos para uma criança que estava com a perna quebrada. “Vejo que reclamamos, mas olha o coração dessas pessoas. Nossa sociedade tem muita gente boa. Temos de acreditar no trabalho de cada um. Se cada um se preocupasse em fazer seu melhor, o mundo seria diferente.

em escolas da rede pública estadual de Campinas, porém, o encantamento com a educação infantil foi rápido. “A educação me encanta. É a faixa etária que dá devolutiva de carinho muito boa. Eles são muito afetivos”. E, para ela, afetividade é um aspecto a ser trabalhado na relação entre professores e alunos. “Gosto muito de escola, da descoberta da escrita, dos cálculos, Fotos: Antonio Scarpinetti mas me encontrei na educação infantil por ser a base da formação do caráter. Encanta-me muito trabalhar com a moral e o diálogo com a família. Acho que é a maneira de a gente contribuir com o mundo”, reflete. Para Cecília, os pais estão perdidos na missão de direcionar seus filhos, e a DEdiC permite que a escola se aproxime da família e oriente sobre o comportamento da criança. Na Unicamp, a autorização das chefias para que os pais atendam ao chamado da escola é muito importante, mas isso não ocorre em outras empresas e pode deixar marcas no adulto que a criança se tornará, na opinião de Cecília. O reencontro com ex-alunos é sempre afetuoso. E quando observa um deles fazendo algo errado, a mestra logo pensa que pode ter falhado com a criança. “Onde foi que eu errei?, me pergunto. Eles fizeram parte de minha história. É uma troca. A gente não pode vir aqui e sair do mesmo jeito que entrou, e eles não podem passar por nós como se tivessem passado por um livro em branco”, reflete. Para Cecília, é no dia a dia que o educador experimenta, de fato, as relações escolares. “Independentemente da história que a criança carregue, sei que um pouco mais de amor vai fazer a diferença. E o amor é bom para qualquer um, não é porque tem bastante amor em casa que não vou dar na escola. Antes pecar pelo excesso que pela falta. Procuro ter olhar sobre cada criança. Refletir sobre o contexto em que ela está. Eu tenho de ser um diferencial na vida de meu aluno”, acrescenta. Para ela, a valorização da prática (experiência diária) no currículo de graduação ajudaria o educador a chegar mais preparado à escola. “Para mim, seria impossível trabalhar com papéis. Porque os papéis não beijam, não me dedicam desenhos nem cartinhas. A criança é o retorno. Podemos chegar aqui pensando numa série de problemas, mas eles nos envolvem”, responde sobre a escolha certa. Ela lembra que no final do ano, enquanto preparava a festa de encerramento com as crianças, a mãe estava no leito de morte, e a direção a aconselhou a se afastar, mas Cecília disse que iria até o fim pelo que aprendeu com Nancy. “Minha mãe nunca quis que parássemos para lamentar. E ela não ficaria feliz comigo se eu parasse para ficar triste. Ela dizia que a cada manhã temos de deixar as dificuldades de lado e nos entregar para aquele dia que está amanhecendo.” Tudo o que acontece hoje em sua vida tem as mãos de Nancy, segundo Cecília. No Dia das Mães de 2011, ela teve oportunidade de dizer: “Mãe, você foi Deus para mim”. Hoje, ela pode se considerar uma jovem sonhadora, que conseguiu realizar muitos dos sonhos guardados nainfância: “Sonhava com uma casa cheia de filhos, todos reunidos na mesa tomando café da manhã. Sonhava desde o primeiro dia em que avistei a Unicamp em estudar um dia aqui. Sonhava, brincando com minhas bonecas ou com colegas do condomínio, em ser professora.” Agora, ela sonha em ver seus filhos Então por que vou falar da presidência, trilhando bons caminhos e fazendo o dos outros, se no meu dia eu mesma bem. Quer ser cada dia alguém melhor. tenho de deitar com a cabeça em paz “Ser um pouquinho daquela que foi no travesseiro e dizer: ‘Estou feliz com tudo para mim, alguém que foi um exemplo vivo, minha mãe.” Enquanto o que eu fiz?’” Para chegar ao curso de Pedagogia muitas pessoas buscam seus ídolos enda Unicamp, Cecília também teve de tre rankings, best sellers e premiações doar parte de seu tempo à preparação internacionais, Cecília elege alguém para o vestibular. Aluna de escola que doou grande parte do tempo à pública nos ensinos fundamental e felicidade de outrem: “Costumamos médio, estudou em casa e recorreu admirar grandes ícones de amor e a amigos professores em caso de bondade, mas minha mãe me mostrou dúvida. Em 2004, tornou-se mais que a importância dos pequenos gestos, pedagoga, educadora, professora, mas das atitudes de cada dia, honrando também aliada de algumas famílias, seus compromissos, colocando o trapois acredita que a tarefa de educar balho, os outros acima de si e de suas dificuldades, silenciando tantas vezes tem de ser compartilhada. Apesar de sempre sonhar em estu- para não ferir. Vivenciei a importância dar na Unicamp e querer ser professo- de um bom exemplo em minha vida ra, Cecília não esperava trabalhar com e desejo sê-lo aos que passarem por crianças de zero a 6 anos. Trabalhou mim”.


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Abrasileirando o

Foto: Antoninho Perri/Divulgação

umê

Pesquisador busca a produção do néctar do fruto e sua mistura com o suco de pêssego LUIZ SUGIMOTO

O

sugimoto@reitoria.unicamp.br

umê (Prunus mume) é um fruto praticamente desconhecido dos brasileiros, mas bastante consumido nos países asiáticos (e por seus imigrantes), menos pelo sabor e mais por suas propriedades nutracêuticas – alimentos nutracêuticos são aqueles que comprovadamente fazem bem à saúde. Tradicionalmente, o fruto é consumido ainda verde, sobretudo na forma de uma conserva extremamente salgada e azeda (umeboshi) e de um licor encorpado considerado relaxante (umeshu). Japoneses, chineses e coreanos são convictos de que o umê melhora a fluidez do sangue, reduz o risco de problemas cardíacos e combate a formação de radicais livres e a multiplicação de células cancerosas. O engenheiro de alimentos Ernesto Quast viu pés de umê pela primeira vez quando trabalhava em Capão Bonito, como pesquisador científico da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA). Sem saber direito como prepará-los, primeiro procurou retirar o amargor dos frutos verdes fermentando-os em solução de salmoura. Sem sucesso e sem equipamentos para o controle do processo, levou cerca de 10 quilos de umê para Campinas. “Esqueci os frutos dentro do carro por três dias, sob o sol. Maduros, os frutos adquiriram coloração amarela e odor semelhante ao do pêssego, mas mais intenso”, recorda. Foi a esposa do pesquisador, ao experimentar os frutos, que observou a diminuição considerável no amargor e na acidez. “Assim, os frutos maduros foram utilizados para produzir geleia. Ao contrário da maior parte das geleias de frutas, que precisam ser concentradas, o umê teve de ser diluído para diminuir sua acidez. Mesmo assim, o sabor, o aroma e a consistência ficaram bons, sem a necessidade de adição de pectina”, assegura. Só depois, pesquisando, descobriu a forma tradicional de consumo pelos orientais e, também, que a literatura brasileira aborda o umê apenas como porta-enxerto de culturas de maior importância econômica: pêssegos, nectarinas e ameixas (todas igualmente do gênero Prunus). “Uma característica importante do umê é sua rusticidade agrícola e facilidade de adaptação, podendo ser cultivado até mesmo comercialmente sem o uso de defensivos químicos”. Não havendo estudos sobre o processamento do umê maduro, foi justamente este o foco de Ernesto Quast na tese de doutorado defendida em abril, sob a orientação do professor Flávio Luís Schmidt, na Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp. “Como a acidez e o amargor estão acima do aceito por nossos consumidores, busquei uma forma de abrasileirar o fruto – o processamento industrial possibilita

ajustar suas características originais. A geleia tinha ficado boa, mas o consumo continuaria restrito. Por isso, apostei minhas fichas no néctar, que teria mais aceitação no mercado. E o suco também ficou bom, agradou aos membros da banca”, brinca. O principal trabalho de Ernesto Quast foi de caracterização e de avaliações físico-químicas e reológicas (como de viscosidade) da polpa de umê nacional, com dois propósitos: a produção do néctar propriamente dito e, aproveitando as semelhanças de sabor e aroma, a sua mistura com o suco de pêssego. “Analisei o teor de compostos fenólicos do umê verde e do maduro, comparando esses dois valores com os encontrados na literatura internacional – China e Japão estudam bastante o umê verde, mas desconheço trabalhos sobre o fruto maduro. Em minha pesquisa, constatei que o umê maduro apresenta uma queda de 20% no nível de compostos fenólicos, variação pequena que não afeta o forte apelo de mercado por sua capacidade antioxidante.” Quanto à ideia do blend, segundo o engenheiro de alimentos, pode ser boa para diminuir os custos de produção do néctar de pêssego, bastante comercializado no país. “A última informação que obtive, dois anos atrás, é que a indústria importa 100% da polpa de pêssego do Chile, já que o fruto nacional não apresenta características favoráveis para a produção de néctar, como coloração, teor de açúcares e acidez total titulável. Promover uma mescla reduziria o custo do suco nacional e adicionaria vantagens nutricionais do umê. Mas meu foco está mesmo no néctar: quero chegar a um produto diferenciado, melhor que o de pêssego, pois o mercado se encontra em expansão, com o lançamento de novos sabores de frutas. Também desenvolvi uma versão contendo polpa micro reestruturada, a fim de oferecer uma experiência sensorial diferente.”

Produtividade O autor da tese analisou frutos de umê provenientes de quatro localidades diferentes no Estado de São Paulo, a fim verificar a variação entre as cultivares trazidas há mais de 20 anos por descendentes de japoneses e chineses e comparar estes frutos nacionais com aqueles dos países asiáticos, que realizam trabalhos de melhoramento genético para o aumento de rendimento, produtividade e propriedades nutracêuticas. “O umê nacional fica bem atrás em termos de dimensão e massa, com 6 a 16 gramas, enquanto o asiático tem entre 15 e 30 gramas. Minha sugestão, no caso de investimento no plantio, é a importação de mudas já melhoradas geneticamente.” Por outro lado, o pesquisador colheu relatos na literatura brasileira sobre as diversas vantagens agronômicas para o cultivo de umê no país, tais como a menor susceptibilidade a doenças comuns em culturas de frutos de caroço e a redução do porte da planta, que possibilita um maior adensamento da cultura. “A resistência desta planta é impressionante. No início da pesquisa, conheci um agricultor que introduziu 40 pés de umê em suas terras, mas para que servissem como corta-vento na sua plantação comercial de ameixas. Ele garantiu que não usou qualquer defensivo nos pés de umê. Os pés de umê resistiram e os de ameixa morreram todos.” Ernesto Quast acrescenta que, do ponto de vista econômico, seria precipitado afirmar que a produção em escala do umê é viável, mas ele acredita que sim, a começar pela dispensa de defensivos agrícolas. “Sem qualquer cuidado, a planta

O engenheiro de alimentos Ernesto Quast: fruto pode ser cultivado sem o uso de defensivos químicos

de umê produz cinco vezes menos que a de pêssego; com um cultivar mais adaptado e cuidados maiores, é muito provável que a produtividade aumente consideravelmente. Devido a esta ordem de grandeza, um produto de umê terá maior valor agregado, na ordem de 20% a 50%, com a justificativa de ser orgânico e benéfico à saúde.” De acordo com o pesquisador, também é necessário observar se a produção em maior escala do umê não estimularia o desenvolvimento de alguma praga específica da cultura, o que seria uma questão agrícola, fora da sua área de conhecimento. “O fato é que não vamos ficar no papel. No momento, estou trabalhando na Universidade Federal da Fronteira do Sul (UFFS) e já conversei com colegas do curso de

agronomia para iniciarmos experimentos visando o cultivo do umê, com ênfase em agroecologia. Há uma concentração nos Estados de São Paulo e do Paraná, visto que seu cultivo é exclusivamente japonês ou chinês. Ainda não encontrei quem tenha um pé de umê e que não seja descendente.”

Compostos O engenheiro de alimentos Ernesto Quast acredita que os resultados obtidos na tese de doutorado defendida na Unicamp podem auxiliar no direcionamento de trabalhos futuros para a valorização de alimentos produzidos a partir de frutos maduros de umê, bem como de melhoramento genético das variedades nacionais. Como já foi dito, o fruto verde de umê já é bastante

Diferentes fases do umê: muito apreciado em países asiáticos, fruto tem propriedades nutracêuticas

estudado nos países orientais, por conta das propriedades nutracêuticas. Entretanto, o autor conclui na tese que o teor de compostos fenólicos e a atividade antioxidante não apresentaram variação significativa durante a maturação dos frutos. Para a tese, Quast colheu informações publicadas em artigos científicos internacionais de que o suco concentrado de umê tem a capacidade de aumentar a fluidez do sangue humano, em parte pela presença de ácidos orgânicos em elevada quantidade e de uma substância chamada mumefral, formada durante o aquecimento do extrato para a sua concentração – isto pode auxiliar na prevenção de doenças cardiovasculares e de exercer ação anticâncer. Segundo o autor, outras pesquisas mostram que a ingestão de extrato concentrado de umê pode inibir a formação endógena de nitrosaminas, substâncias carcinogênicas formadas no organismo humano após uma refeição rica em aminas e nitratos. O pesquisador aponta, ainda, estudos registrando que a adição de extrato de umê pode inibir a formação de radicais livres na fase de iniciação da oxidação de óleos e gorduras insaturadas em carnes, durante o armazenamento. A aplicação do extrato, como por exemplo, em frangos pré-cozidos e resfriados, diminuiria a incidência de odores desagradáveis decorrentes de reações de oxidação de lipídeos (warmedover flavor). “Assim, com a produção de derivados a partir do umê e com o conhecimento de suas características físico-químicas em função de parâmetros de processo, é possível o desenvolvimento de produtos seguros e prontos para o consumo, aliando baixa necessidade do uso de defensivos agrícolas, sabor agradável e benefícios à saúde”, conclui o autor da pesquisa.

.............................................................. ■ Publicação

Tese: “Avaliação das propriedades físico-químicas e funcionais no processamento integral de umê (Prunus mume)” Autor: Ernesto Quast Orientador: Flávio Luís Schmidt Unidade: Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA)

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10 Vida Teses da semana Painel da semana Teses da semana Livro da semana Destaques do Portal da Unicamp

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Campinas, 28 de maio a 10 de junho de 2012

Painel da semana  Segeu - Graduandos do Curso de Geologia do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp organizam, de 28 de maio a 1 de junho, a 6ª edição da Semana de Geologia da Unicamp (Segeu). Com o tema “Novos horizontes da Geologia no Brasil”, as palestras serão realizadas no auditório da Agência para a Formação Profissional da Unicamp (AFPU) e na sala da Congregação da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC). Minicursos também estão previstos na programação. A abertura oficial ocorre no dia 28, às 8 horas, no auditório da AFPU. Outras atividades podem ser conferidas na página eletrônica www.visegeu.com. Mais informações: 193521-5150  Transição agroecológica – O primeiro “Aulas Abertas”, evento da Rede de Agroecologia da Unicamp (RAU), terá como tema “Transição Agroecológica: ações e perspectivas da sociedade civil para o desenvolvimento rural sustentável”. O encontro ocorre no dia 28 de maio, às 9 horas, no auditório da Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri). No “Aulas Abertas”, os professores da Unicamp (vinculados à Rede) promovem, em suas disciplinas, aulas para interessados em discutir e trocar saberes em Agroecologia. O evento é coordenado pela professora Maristela Simões do Carmo em colaboração com Sonia Bergamasco e Angela Fagnani. Serão convidados: Beatriz Stamato e Rodrigo Machado Moreira, do Giramundo Mutuando, e Ricardo Borsatto (Movimentos sociais). A professora Marlene Schiavinato, do Instituto de Biologia (IB), é a coordenadora geral do “Aulas abertas”. Mais informações no site http://www.cisguanabara.unicamp. br/rededeagroecologiadaunicamp  Encontro de Pesquisa de Graduação

em História - O Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp organiza, dia 28 de maio, o IV Encontro de Pesquisa de Graduação em História “Oficios e lugares do Historiador”. A abertura do evento ocorre às 14 horas, no Auditório I do IFCH. Na ocasião, os professores Luiz Marques (IFCH), Solange Ferraz de Lima (Museu Paulista/USP) e Claúdia Valladão de Mattos (IA/Unicamp) falam sobre “Museus entre História e arte”. Outras informações: 19-3521-1601.  30 anos do Nepo - Nos dias 30 e 31 de maio, o Núcleo de Estudos de População (Nepo) realiza um seminário em comemoração aos seus 30 anos de existência. Intitulado “Reprodução das Gerações”, a abertura oficial do evento acontece às 16 horas, no Auditório do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (Imecc). Na primeira mesa-redonda, a professora Estela Cunha, coordenadora do Nepo, aborda o tema “Fazendo histórias, construindo parcerias”. O segundo dia de evento contará com a presença das professoras Elza Berquó e Maria Coleta de Oliveira. Elas participam da mesa-redonda “Reprodução das gerações no mundo”. Francois Héran, Joseph Potter, Jorge Rodriguez Vignolli, entre outros, são os professores convidados para o seminário comemorativo. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone 19-3521-5893.  Quartas da Antropologia - O Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) recebe no evento “Quartas da Antropologia”, a professora Luisa Elvira Belaunde, da Pontificia Universidad Católica del Perú. No dia 30 de maio, às 16 horas, no auditório II do IFCH, ela fala sobre “Trampas de Diseños: la estética de la envoltura del Kené Shipibo-khonibo”. A organização é do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social do IFCH. Mais informações: 19-3521-1678.  Seminários do DRCC - O Departamento de Raios Cósmicos e Cronologia (DRCC) do Instituto de Física (IFGW) organiza no dia 30 de maio, às 16 horas, no Auditório Mesón Pi-Prédio Pierre Auger, um seminário com o filósofo Antônio Augusto Videira (UERJ). Aborda: “A fisica teórica de 1930 a 1968”. Site do evento: http://portal.ifi.unicamp.br/drcc/seminarios-do-drcc?lang=br. Mais informações: 19-3521-5275 ou e-mail orlando@ifi.unicamp.br  Holografia - Aberta ao público em geral e com uma hora e meia de duração, a exposição didática de Holografia é organizada pelo professor José Lunazzi, do Laboratório de Óptica do Instituto de Física (IFGW). A mostra contempla aula sobre óptica de imagens e demonstrações de hologramas e televisão holográfica. A exposição pode ser visitada pelo público, até o final do semestre, no Museu Dinâmico de Ciências da Prefeitura Municipal de Campinas (ao lado do Planetário Municipal), no Parque Portu-

gal (Taquaral). Entrada franca. Contatos: lunazzi@ifi.unicamp.br ou 19-3521-2451.  Programa de capacitação do Nepo - O Núcleo de Estudos de População (Nepo) recebe, até 31 de maio, as inscrições para o III Programa de Capacitação: População, Cidades e Políticas Sociais. O programa será realizado de 13 a 18 de agosto, no Nepo. Outras informações: 19-3521-5917.  Fórum de Ciência e Tecnologia - Com o objetivo de informar e discutir diversas perspectivas da biodiversidade sob o foco do patrimônio genético, no dia 31 de maio, a partir das 9 horas, no Centro de Convenções da Unicamp, acontece uma edição do Fórum Permanente de Ciência e Tecnologia com o tema “Biodiversidade: desafios e perspectivas”. Programação, inscrições e outras informações na página eletrônica http://foruns.bc.unicamp.br/foruns/index. php?idArea=3%20  Fórum de Ensino Superior - “Antiguidade clássica e a educação atual”. Este é o tema do próximo Fórum Permanente de Ensino Superior. O evento será realizado no dia 31 de maio, às 9 horas, no Centro de Convenções da Unicamp, Mais detalhes no link http://foruns.bc.unicamp.br/foruns/ index.php?idArea=8  Moedas criativas - A Faculdade de Educação (FE), através do Laboratório de Novas Tecnologias Aplicadas na Educação (Lantec), organiza um debate com o professor Gilson Schwartz, da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP). Será no dia 31 de maio, às 10 horas, na Sala ED 06. Schwartz debaterá o projeto “Moedas Criativas”, criado na USP, visando promover unidades monetárias virtuais que poderão ser convertidas em reais e deverão ser usadas para financiar projetos de educação e cultura, como a produção de filmes. O fundo batizado de “Fundo de Moedas Imaginárias” está com patrimônio de R$ 150 mil, e será gerido pela FUSP. Para viabilizar os projetos, a meta é captar R$ 7 milhões em três anos, por meio de mecanismos de doações a investimentos. Mais informações: 19-35215678 ou e-mail amaral@unicamp.br  Músicas francesas - O Centro de Estudos de Línguas (CEL), através de sua área de francês, organiza no dia 31 de maio, às 18 horas, no Espaço Multiuso da Casa do Lago (Rua Érico Veríssimo 1011), uma soirée de músicas francesas inspirada no evento Fête de la Musique. Na ocasião, alunos do CEL e do Curso de Música do Instituto de Artes (IA) da Unicamp interpretarão músicas francesas de vários gêneros e estilos. A apresentação é apoiada pelo Consulado Geral da França no Brasil. A primeira edição do evento ocorreu na França (1982), quando Jack Lang era ministro da Cultura. A ideia era atrair músicos profissionais e amadores, de todos os gêneros musicais, para que par-

ticipassem de manifestações populares, espontâneas e gratuitas. Com o passar dos anos, tornou-se uma das maiores manifestações culturais francesas e já acontece em mais de 100 países.  Exposição - A Coordenadoria de Desenvolvimento Cultural (CDC) e o Centro de Saúde da Comunidade (Cecom) organizam, até 1 de junho, a exposição Pintura Seca, da artista Sílvia Matos. A mostra, composta por fotografias de pigmentos em tecido, pode ser visitada no Espaço de Arte do Cecom, de segunda a sexta-feira, das 9 às 17 horas, na Rua Vital Brasil 150, no campus da Unicamp. A curadoria é de Sandra Caro Florio (CDC). Sílvia é graduada em Artes Plásticas pelo Instituto de Artes (IA) da Unicamp (1987). Desde então tem participado de exposições coletivas e individuais no Brasil e Argentina. Entrada franca. Outras informações: 19-3521-1732 ou 3521-1738. Conheça algumas obras da artista http://www.silviamatos.art.br/ colecoes.htm  Caminhada da Saúde - No dia 2 de junho, às 8 horas, será realizada a Caminhada da Saúde. O evento é promovido por meio de parceria entre a Associação Atlética Acadêmica Adolfo Lutz (AAAAL) e Faculdade de Ciências Médicas (FCM). A saída ocorre no Centro de Vivência da Área da Saúde (Avenida Prefeito José Magalhães Teixeira 615), no campus da Unicamp. Inscrições: 1 Kg de alimento não perecível. No ato da inscrição os participantes receberão camisetas e farão alongamento para o corpo. Todos os mantimentos arrecadados serão doados para uma instituição beneficente do município. O trajeto é de aproximadamente 5 Km. No final da caminhada haverá uma apresentação da Bateria da Medicina da Unicamp. Inscrições: mktaaaal@gmail.com.  Domingo no Lago - A cultura caipira será levada pela Troupe Per Tutti para a próxima edição do Domingo no Lago. No dia 3 junho, a partir das 10h30, a Rua Érico Veríssimo receberá o espetáculo “Arraial de Pertuttina”. No elenco, Alexandre Cartianu, Eponina Machado, Juliana Portes Thiago, Marta Jardim, Rafael Magalhães e Aline Santos prometem arrancar gargalhadas do público. Além disso, crianças e adultos poderão se deliciar com jogos, brincadeiras e com uma quadrilha ‘prá lá de animada’. Outro destaque do Domingo no Lago será o espetáculo “Teatro Senhora”, peça de José de Alencar, adaptada por Adriano Franco. Ela será apresentada às 10h30, na Sala de Cinema. Para o encerramento, a direção programou uma apresentação de Taiko – Okinawa, às 11h30. Todas as atividades são gratuitas. A Casa do Lago fica na Rua Érico Veríssimo 1011, no campus da Unicamp. Mais informações: 19-3521-7017.  Cuidadores informais - Nos dias 5 e 6

de junho, das 9 às 17 horas, acontece no auditório da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, o ”XIV Seminário de cuidadores informais na assistência domiciliar”. Organizado pelo Departamento de Clínica Médica da FCM e pelo Serviço Social do Hospital de Clínicas (HC), o seminário traz oficinas com especialista que discutirão o cuidado de pacientes com doenças neurológicas, oncológicas, geriátricas e os direitos dos idosos. As inscrições custam entre R$ 50 e R$ 80 e podem ser feitas no site http://www.funcamp. unicamp.br/eventos/XIV_Simposio/index. asp. Vagas limitadas. Programação: http:// www.fcm.unicamp.br/fcm/sites/default/ files/XIV_SEMINARIO_DE_Cuidadores. pdf. Outras informações: 19-3521-7878.

Tese da semana  Economia - “Reforma do Sistema de Seguridade Social na República Democrática do Congo: introduzindo o programa de transferência de renda no combate à pobreza” (mestrado). Candidato: Ngoma Charles Kumbi. Orientador: professor Alexandre Gori Maia. Dia 28 de maio, às 10 horas, na sala 23 do Pavilhão de aulas da Pós-graduação do IE.  Educação - “Desenvolvimento psicomotor de alunos na educação infantil” (mestrado). Candidata: Thalissa Lara Crispim Santi Maria. Orientadora: professora Gislene de Campos Oliveira. Dia 28 de maio, às 9 horas, na FE.  Educação Física – “Modelo para análise do ataque no futebol” (mestrado). Candidato: Fernando Santana Ziskind. Orientador: professor Sergio Augusto Cunha. Dia 28 de maio, às 14 horas, na sala 03 da FEF.  Engenharia Elétrica e de Computação - “Análise e controle de sistemas com folga” (doutorado). Candidata: Talía Simões dos Santos. Orientador: professor Yuzo Iano. Dia 29 de maio, às 14 horas, no PE11 CPG/ FEEC. - “Proposta de um método sub-ótimo para estimação espectral do modelo ARMA” (doutorado). Candidato: Manoel Ivanildo Silvestre Bezerra. Orientador: professor Yuzo Iano. Dia 31 de maio, às 10 horas, na CPG/FEEC.  Matemática, Estatística e Computação Científica - “Modelos de predição utilizando lógica Fuzzy: uma abordagem inspirada na inferência bayesiana” (mestrado). Candidato: Felipo Bacani. Orientador: professor Laécio Carvalho de Barros. Dia 29 de maio, às 9 horas na sala 253 do Imecc. - “Existência e homogeneização para um problema elíptico com fronteira livre não estacionária” (mestrado). Candidata: Fernanda Pereira da Silva Almeida. Orientador: professor Olivâine Santana de Queiroz. Dia 31 de maio, às 14 horas, na sala 253 do Imecc.

DESTAQUES do Portal da Unicamp

Adib Jatene propõe reforma no ensino e residência médica 21/05 – O médico Adib Jatene abriu na noite do dia 20 as comemorações dos 50 anos da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp. Jatene proferiu a aula magna “Saúde e educação médica”. Ele disse que no Governo Federal está em discussão uma estratégia para a ampliação do número de vagas e de novas faculdades de medicina, além da proposta de “importar” médicos e flexibilizar a validação de diplomas estrangeiros. O médico cardiologista e ex-ministro da Saúde dos governos Collor e Fernando Henrique Cardoso disse que isso “seria um desastre”. Acostumado a enfrentamentos públicos, o diretor do Hospital do Coração de São Paulo disse que todos gostam de criticar, mas ninguém tem coragem de propor alternativas. Para ele, nada melhor do que estar dentro de uma faculdade pujante e reconhecida nacionalmente para discutir novas ideias. Segundo Jatene, a função das escolas médicas – pelo menos as públicas – é formar médicos para o atendimento da população. Entretanto, o que se vê são alunos do quinto ou sexto ano do curso de medicina se preparem para prestar concurso para a residência médica e se tornarem especialistas numa determinada área da medicina. “Minha proposta é que o aluno, após o sexto-ano, fique dois anos no Progra-

ma Saúde da Família sob supervisão da faculdade de origem e no Estado ou região onde se formou. Este seria o prérequisito para depois ir para a residência médica”, disse Jatene. Após apresentar dados sobre o investimento do Brasil na área da saúde, a distribuição de médicos pelo território brasileiro e o número de candidatosvaga por faculdades de medicina, Jatene disse que, muitas vezes, o responsável pela graduação se vê confrontado com os professores titulares sobre a carga horária para ensinar especialidade. Na sua opinião, para resolver esse impasse, o especialista pode ensinar, na graduação, o que o médico geral precisa saber para atender a população. “Isso requer uma mudança significativa no ensino e na formação de profissionais que possam suprir a demanda dos pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A faculdade de medicina passa a se responsabilizar por ele nos dois anos primeiros depois de formado. Só então ele ingressa na residência médica. Essa é a grande mudança que proponho, além de continuarmos lutando por mais recursos para a saúde”, enfatizou Jatene, aplaudido de pé por autoridades, professores, ex-alunos, funcionários e convidados que lotaram o auditório da FCM. Rogério Antunes Pereira Filho, aluno da primeira turma do curso de me-

Foto: Mário Moreira

O cardiologista Adib Jatene durante a abertura das comemorações dos 50 anos da FCM

dicina e professor do Departamento de Clínica Médica, disse que a escolha de Jatene foi unânime dentro da comissão organizadora dos 50 anos, pelo fato de o médico cardiologista ser um ícone da medicina brasileira. Antes da aula magna, um vídeo retrospectivo dos 50 anos e o logotipo oficial, que marcará todas as comemorações, foram apresentados ao público. “Durante este ano de comemorações, teremos cursos, atualizações, palestras, apresentações culturais e esportivas. A programação está aberta a sugestões”, disse Pereira Filho. Mario José Abdalla Saad, diretor da FCM, disse que o objetivo em antecipar as comemorações do Jubileu de Ouro foi refletir o que aconteceu nesses 50 anos e discutir o futuro da faculdade. “Essa história de sucesso foi construída pelo trabalho de professores,

funcionários, residentes e alunos. Nós não seguimos nenhum modelo. O nosso modelo é ter o melhor ensino, a melhor assistência e a melhor pesquisa”, disse Saad. O ex-reitor da Unicamp e ex-diretor da FCM, José Martins Filho, falou emocionado da sua satisfação em participar da abertura das comemorações dos 50 anos da faculdade. Para ele, só sabemos o tamanho de uma árvore quando nos distanciamos e vemos a sombra de sua copa. “Estamos escrevendo um pedaço da história do ensino médico do Brasil. Quando nos distanciamos um pouco da FCM é que vemos a dimensão do que está sendo feito aqui”, relatou Martins. Das histórias dos 50 anos da FCM, o pró-reitor de Graduação da Unicamp, Marcelo Knobel, tem muitas para contar. Seu pai, Maurício Knobel, foi

professor do Departamento de Psiquiatria e Psicologia Médicas da FCM; sua irmã fez medicina na Unicamp. Nas suas lembranças de infância, está o convívio com André Pinotti, filho do médico José Aristodemo Pinotti, que hoje dá nome ao Hospital da Mulher (Caism), onde sua mãe trabalhou. “A FCM nos recebeu de braços abertos. Parte dessa história eu acompanhei. A Unicamp é muito jovem, mas é impressionante o que construiu em tão pouco tempo. Ainda enfrentamos dificuldades. Mas como dizia Zeferino Vaz, o que importa são as pessoas. Se depender da tradição, a FCM terá um futuro promissor”, disse Knobel. Para acompanhar as comemorações dos 50 anos da FCM, a Comissão de Apoio Didático, Científico e Computacional da FCM criou um site com depoimentos e histórias da faculdade, fotos e a programação anual. A construção do site é coletiva e todos podem participar, enviando imagens, relatos ou sugestões para o e-mail ba@fcm.unicamp.br. Uma exposição fotográfica também foi montada por historiadores do Centro de Memória da FCM no saguão de entrada do auditório. Antes do encerramento da solenidade, o trio Mario de Andrade fez uma apresentação especial em homenagem à FCM. O trio é composto pelo violinista e professor do Departamento de Psiquiatria e Psicologia Médica da FCM Joel Giglio; a pianista Aci Meyer e a violoncelista Rita Borro. As músicas foram cantadas pela cantora lírica Maria Carolina Galdames. (Edimilson Montalti)


Campinas, 28 de maio a 10 de junho de 2012

Tese mostra como Pompéia priorizava crianças e jovens em sua prosa �iccional

A

ISABEL GARDENAL bel@unicamp.br

prosa ficcional do escritor e jornalista Raul Pompéia (1863-1895) reflete um discurso científico sobre a infância, a adolescência e a juventude, diferentemente de sua poesia e da prosa romântica e realista. Foi o que concluiu o especialista em literatura brasileira Danilo de Oliveira Nascimento em sua tese de doutorado, defendida no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL). Ainda que sendo temas recorrentes na literatura, o pesquisador conseguiu identificar a importância de Raul Pompéia no cenário literário ao representar essas faixas etárias. Ficou claro que os textos do autor sempre fizeram referência à corporeidade, alteridade, erotismo, instintos, perversidades e perversões da infância e da adolescência. “Tal período, que comporta discursos educacionais, filosóficos, históricos e psicológicos, também comporta o discurso da ficção, tão esclarecedor quanto os demais. Neste sentido, se nele é reconhecida a história social da sua infância e adolescência, também é preciso admitir a ficção nessas áreas que iniciam no Romantismo e que se configuram no Realismo e no Naturalismo”, defende o doutorando. A personagem como elemento do texto de ficção é um desses modos de representação, tal como comparações metafóricas, imagens, citações e referências às características da juventude, e como indicativos de inovações e renovações nas diferentes esferas sociais. A tese, orientada pelo docente do IEL Mário Luiz Frungillo, não se restringiu a descrever uma acepção do termo “representação” porque este, aplicado à análise e interpretação do texto literário, consideraria só a identificação e a classificação das personagens. “Buscamos atentar para as formas que apontariam os conceitos, discursos e significações de criança e adolescente entre os planos da enunciação e do enunciado, e do texto e do contexto de produção”, conta Danilo. Ele entendeu as imagens da infância, adolescência e juventude como decodificadoras de discursos e práticas de poder, controle e autoridade que ecoam e se instauram nas relações com o adulto. “Colaboramos para as meias e falsas verdades, equívocos e falácias sobre eles: pré-conceitos, preconceitos e mitos sobre essas faixas etárias, como a ingenuidade infantil, a infância como um paraíso ou desprovida de instinto sexual e de agressividade”, expõe. Raul Pompéia viveu a efervescência política e cultural no Brasil do século XIX, ao longo do processo de Proclamação da República e da Abolição da Escravatura. O momento foi de intensa produção literária realista e naturalista, significativo para a política e para as letras. Publicou a maioria de suas crônicas, contos, novelas, poesias e romance no Jornal do Commercio e na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, e no Diário de Minas, de Juiz de Fora. Como Machado de Assis, Raul era um escritor de ficção arredio às classificações periodistas literárias, apesar dos rótulos de naturalista ou de impressionista. Foi um autor que se singularizou no meio literário de então em parte pela publicação de seu único romance – O Ateneu (1888), obra tida como autobiográfica. A escolha de Raul Pompéia para avaliar, relata Danilo, começou com a leitura desse romance, “que é sempre impactante para qualquer leitor, tanto pela história de um pré-adolescente matriculado em um colégio interno quanto pela linguagem poética”. Mas outros fatores pesaram nesta escolha – a sua fortuna crítica, cujos ensaios e artigos acadêmicos e de jornais, livros e teses preferenciam aquele romance como objeto de estudo, ao invés dos contos e novelas. Isso motivou o pesquisador a se debruçar sobre esses textos ficcionais do autor, considerados pela crítica literária de questionável qualidade estética e literária. Da leitura de contos, novelas e crônicas, observou a grandiosidade de O Ateneu diluída neles: da linguagem do romance às suas personagens, da história aos modos de tratamento da infância e da adolescência pelos narradores e personagens adultas. A primeira impressão de Danilo na leitura dos contos Microscópicos (1888) e de novelas como Uma tragédia no Amazonas (1880) e As joias da coroa (1882) foi a de que eles teriam “servido” de laboratório à criação daquele romance. No entanto, leituras mais atentas levaram, na tese, a verificar sua produção ficcional e não ficcional como decorrentes dessa proximidade.

Critérios O doutorando optou por uma análise histórica e sociológica para dar relevo a Raul Pompéia na tradição literária da temática estudada e situar sua produção ficcional e não ficcional no contexto da “invenção” da infância e da adolescência. A localização do autor em ambos os contextos serviu para elucidar até que ponto uma literatura “realista” poderia representar os

Retrato do personagem quando jovem

Raul Pompéia: escritor era arredio às classificações literárias

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discursos sociais e científicos, bem como o conceito e a imagem da criança, do adolescente e do jovem, e as situações vividas por essas faixas etárias. A análise e interpretação de crônicas, contos e novelas mereceram um capítulo à parte. A temática serviu para selecioná-las, enquanto isso subtemas como “orfandade”, “república e juventude”, “erotismo juvenil”, “educação e profissionalização da infância e da adolescência pobres”, entre outros, serviram para agrupar os textos. Mediante esses critérios, a tese teve dois capítulos dedicados às crônicas e um às novelas e contos. No primeiro capítulo, ao considerar o empenho discursivo político do escritor, foram interpretadas crônicas sobre a juventude e sua relação com o movimento de Proclamação da República, a educação artística e política da juventude, e também seu exercício de crítica literária e de arte visando à descoberta de “meninos prodígios” ou “gênios artísticos”. No segundo, foram discutidas as crônicas sobre festas sagradas, cívicas e carnaval, nas quais verificou-se uma expressiva presença de crianças: crimes contra a infância e a adolescência ou crimes cometidos por elas. No último capítulo, foram analisados e interpretados contos e novelas, destacando a recorrência às situações narrativas da orfandade e do abandono da infância e sua aproximação com melodramas e folhetins. Notou-se também a valorização de personagens pintores, poetas ou do mundo das artes plásticas e da imagem da adolescência, ora como bicho para espetáculo, ora como anjo e tema de pintura de quadro para a decoração do ambiente familiar e para a adoração paterna, dos narradores e das personagens masculinas do mundo adulto. Os processos de composição artística e poética dessas imagens se movimentavam entre o esconder e o manifestar dos desejos de posse sexual, de exposição do corpo e da intimidade do adolescente e da prática da sevícia do corpo infantil e juvenil.

Crítica A princípio, a pesquisa apenas contemplaria a prosa ficcional de Raul Pompéia, com as crônicas servindo de respaldo à discussão entre ficção e realidade. Ocorre que, com a leitura de tais textos, as crônicas passaram a ser corpus fundamental de análise e de interpretação, uma vez que sinalizaram um escritor pouco conhecido como cronista dos problemas sociais, econômicos e educacionais da infância e adolescência brasileiros do final do século XIX, via de regra no Rio de Janeiro e em Niterói. Não raro, muitas crônicas, publicadas entre 1886 e 1895, abordaram a escolarização, profissionalização e educação política e artística da infância e da adolescência pobres; a necessidade de engajamento político da juventude em prol da República; as festas cívicas e populares profanas e sagradas; as crônicas sobre campanhas filantrópicas para criação e manutenção de orfanatos, creches e escolas; a exploração da mão de obra infantil e os crimes contra essas faixas etárias ou cometidos por elas. Danilo reparou em dois fatos nas crônicas que noticiavam crimes: o modo declarado como o cronista ironizava o ritmo comercial de notícias e a constante recorrência aos temas da infância e da adolescência, assim como a presença acentuada de crianças e adolescentes na ficção. “Não se tratava de um caso de patologia do escritor, como sugeria a crítica literária, e sim de conformação a um sistema de imprensa que valorizava o interesse do público leitor pelo consumo de crônicas e folhetins com temas e padrões textuais que se repetiam diária e semanalmente.” A imagem que se tem de Raul Pompéia, pela sua biografia e pelas crônicas políticas e sociais, é a de um moralista, ardente orador político e a de um homem de hipersensibilidade e aguçado senso de justiça. O Ateneu foi a sua obra mais acessível, embora não projetada para alcançar sucesso de público e de crítica. Foi um romance escrito às pressas, em ritmo de produção de folhetim, comenta o pesquisador. A obra parecia responder, naquele contexto, aos interesses da imprensa e do público pela produção e consumo de crônicas sociais, folhetins e noticiários. Só que fugiu ao padrão de ficção publicado em jornal, tornando-se um dos romances paradigmáticos da prosa ficcional brasileira oitocentista. Nesse período, o escritor estava ocupado com as crônicas políticas e Canções sem Metro, livro de prosa poemática que levou quase 12 anos para nascer, um projeto de vida o qual ele pensava que seria um marco na história da poesia brasileira. Aconteceu um fracasso editorial e pessoal. “Entretanto, se Canções sem Metro não obteve o sucesso almejado, se fez presente na linguagem altamente poética daquele romance; se Alma Morta, espécie de tratado filosófico, também não obteve sucesso como obra de fôlego intelectual, suas concepções de mundo e as relações sociais ecoam em Sérgio, narrador em O Ateneu”, menciona. A ficção de Raul Pompéia tem algo de pessoalíssimo quando são reconhecidas tais considerações, ou fatos da vida pessoal e escolar – idênticos à vida escolar de Sérgio – ou ainda quando se percebe que não se trata de um autor adulto distanciado da adolescência e da juventude que representa, mas que escreveu a sua ficção ao longo destas faixas etárias, o que também o distingue dos demais.

........................................................................................... ■ Publicação Danilo de Oliveira Nascimento, autor da tese: opção pela análise histórica e sociológica

Tese de doutorado: “Representações da infância, da adolescência e da juventude nas crônicas e na prosa ficcional de Raul Pompéia” Autor: Danilo de Oliveira Nascimento Orientador: Mário Luiz Frungillo Unidade: Instituto de Estudos da Linguagem (IEL)

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12 Jornal daUnicamp Campinas, 28 de maio a 10 de junho de 2012

PORTAS ABERTAS PARA LUIZ SUGIMOTO

A

sugimoto@reitoria.unicamp.br

UPA – Unicamp de Portas Abertas de 2012 vai ser realizada em um único dia, no sábado de 1º de setembro, e não em dois dias como ocorria tradicionalmente. A mudança foi anunciada dia 23 pelo professor Edgar Salvadori De Decca, coordenador-geral da Universidade, na reunião de lançamento do evento deste ano, quando os representantes das unidades e órgãos participantes são informados de detalhes sobre a organização. O importante é que as visitas e atividades nos laboratórios das faculdades e institutos, tão cativantes para os milhares de estudantes que vêm anualmente ao campus, estão asseguradas na programação juntamente com as palestras e apresentações artísticas. A UPA foi idealizada pela Coordenadoria Geral da Universidade (CGU) para mostrar, principalmente a alunos e professores do ensino fundamental e médio, como funciona a Unicamp, apresentando os cursos técnicos e de graduação, as unidades e os projetos que desenvolve, além de informações sobre bolsas sociais e de mobilidade estudantil. Toda escola pode participar do evento, sendo que uma prioridade é mostrar aos estudantes de baixa renda que também são capazes de ingressar em uma das instituições mais respeitadas do país – muitos deles sequer tentam o vestibular. A UPA 2012 tem o slogan “Faça-se presente. E ganhe o futuro”. O site do evento estará no ar agora em junho, com todas as orientações para inscrições e mapas indicando como chegar e se deslocar pela Universidade. A previsão é de 35 mil inscritos, sendo que o público deverá alcançar 40 mil pessoas, considerando que muitos familiares aproveitarão o sábado para acompanhar os estudantes no passeio. São esperados entre 700 e 800 ônibus fretados pelas escolas, somados aos veículos particulares, o que vai exigir um esquema especial envolvendo a Prefeitura do campus, a Prefeitura de Campinas, a Polícia Rodoviária e as concessionárias de rodovias no entorno. Foi por causa do trânsito registrado no ano passado que a CGU decidiu concentrar as atividades da UPA 2012 no sábado. “É a contragosto que to-

mamos esta decisão. No ano passado, tivemos grandes problemas na sextafeira, quando a capacidade de tráfego nas estradas e avenidas que circundam a Universidade não conseguiu fazer frente ao número de veículos e ônibus que vieram para o evento. Se antes era perfeitamente exequível acolhermos grandes públicos, que chegaram a 60 mil pessoas em dois dias, o crescimento do volume de veículos e a saturação das vias expressas tornou impossível enfrentar esta nova realidade”, justificou o professor Edgar De Decca. Segundo o coordenador-geral da Unicamp, um dado adicional que comprometeria o bom funcionamento da UPA 2012 são as mais de 100 obras de infraestrutura em andamento. “As próprias vias do campus estão ocupadas por estas obras, o que dificultaria atender número tão grande de estudantes na sexta-feira, quando a Universidade funciona normalmente. A Unicamp também cresceu, com mais cursos, estudantes, professores e, principalmente, mais carros. Este é um prenúncio do que pode acontecer em alguns anos e precisamos buscar alternativas, como bolsões de estacionamento e o uso de bicicletas, para viabilizar inclusive as atividades intracampus.” De Decca observa que a restrição da UPA ao sábado, dia em que o trânsito dentro da Unicamp é pequeno e cai muito a frequência nos cursos e laboratórios, torna possível montar um esquema logístico que permita a afluência do público à Universidade sem prejuízos à população, até porque o movimento na região é aliviado pelo fechamento das empresas. O prefeito do campus, professor Roberto Paes, informou sobre as medidas adotadas pela administração para evitar que transtornos se repitam. “No ano passado, tivemos problemas também porque o acesso ao campus, pela maioria dos veículos, se deu por uma portaria só; agora serão duas portarias para entrada e duas para saída. Haverá um longo corredor para desembarque e embarque dos ônibus, que serão identificados logo na chegada e direcionados a um local de estacionamento. Ocorre que medidas internas, apenas, não resolvem. Por isso, haverá uma ação integrada com a Polícia Militar, Emdec e administradoras das rodovias – que estarão sinalizadas antes mesmo que os veículos cheguem próximo à Universidade”.

35 MIL

Fotos: Antonio Scarpinetti

O professor Edgar Salvadori De Decca, coordenador-geral da Universidade: destacando a importância das unidades

A professora Carmen Zink Bolonhini, coordenadora da UPA: monitores acompanharão os visitantes

O prefeito do campus, professor Roberto Paes: ação integrada com PM, Emdec e administradoras de rodovias

Estudantes durante a edição da UPA do ano passado

Do CB para as unidades Outra alteração na UPA 2012, esta provocada por uma grande reforma no Ginásio Multidisciplinar, é que os estudantes de ensino médio serão recepcionados no Ciclo Básico, dispersando-se depois pelas unidades da Unicamp. “O Ginásio, que sempre foi o espaço mais nobre da UPA por concentrar e agregar os alunos, está sendo fechado para uma intervenção de porte, como no piso e nos banheiros, e deverá ser reaberto no final do ano. Agora, o papel das unidades terá importância bem maior, pois será graças às atividades que elas prepararem que os estudantes terão contato com a Universidade”, explicou Edgar De Decca. Mesmo o Ciclo Básico está passando por reformas, mas elas deverão estar concluídas até setembro, permitindo que ali sejam realizadas atividades de divulgação dos programas institucionais da Unicamp, como o Profis (Programa de Formação Interdisciplinar Superior) e o Paais (Programa de Ação Afirmativa e Inclusão Social), bem como a instalação de estandes de unidades que ficam fora do campus de Barão Geraldo. Já os auditórios do Centro de Convenções continuarão sendo utilizados para palestras. A professora Carmen Zink Bolonhini, assessora da CGU e coordenadora do evento, disse que cada unidade ou órgão terá toda a liberdade para elaborar a sua programação de atividades, que deverá ser entregue até o dia 10 de agosto para divulgação no site da UPA 2012. “Vamos manter como símbolo a mascote Tiba. O site vai trazer a Revista Eletrônica de 2011, com versão em inglês, e estamos produzindo a Revista de 2012. Também repetiremos o Caderno de Informações e Anotações, contendo jogos relacionados a nomes que batizam espaços como o Instituto de Física Gleb Wataghin e a Biblioteca Central Cesar Lattes.” Ainda de acordo com Carmen Zink, serão criadas rotas internas de ônibus para pontos mais distantes do Ciclo Básico, como a Faculdade de Ciências Médicas (FCM), a Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) e o Museu Exploratório de Ciências. “Teremos cerca de 20 ônibus cobrindo essas rotas, com o cuidado de não ocupar as mesmas vias de acesso dos ônibus fretados pelas escolas. Os monitores acompanharão os visitantes nas rotas a pé para as imediações.”

JU528  

Jornal da Unicamp, edição 528

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