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Reprodução

Novos caminhos para o tratamento do infarto

As propriedades funcionais de três frutas do Cerrado

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Como as jovens brasileiras veem o seu corpo Página 5

Os efeitos da Crise de 1929 na indústria nacional

Direitos – O Paço Imperial visto por Debret em 1830. Tese de André Peixoto de Souza mostra que, no Império, o cidadão ficava à margem do arcabouço político oriundo das escolas de direito. Página 3

Jornal daUnicamp www. unicamp. br / ju

Campinas, 7 a 20 de novembro de 2011 - ANO XXV - Nº 513 - DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

Página 9 IMPRESSO ESPECIAL 1.74.18.2252-9-DR/SPI Unicamp

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Foto: Marc Ferrez/Casa Editorial G. Ermakoff/Divulgação

Raízes da insurgência Trabalhadores da colheita do café no Vale do Paraíba, em 1885

A reedição do clássico Na senzala, uma flor, de Robert Slenes, e a publicação de Senzala insurgente, de Ricardo Pirola, revelam a importância dos laços de parentesco e da herança cultural centro-africana nos movimentos pela alforria que eclodiram em SP no século XIX. As obras integram a coleção Várias Histórias, da Editora da Unicamp

Páginas 6 e 7 Fotos: Divulgação

Arquitetura – Museu da Memória, em Santiago, cujo projeto é do Estúdio América. A Unicamp sedia, de 8 a 11 de novembro, o XIV Seminário de Arquitetura Latino-americana. Página 2

Zé Pereira – O artista plástico Edson Antonio Gonçalves recriou bonecos dos antigos carnavais de Atibaia, como este que percorre a cidade no início do século XX. Página 12


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Campinas, 7 a 20 de novembro de 2011

ARTIGO

por: Maria José Marcondes Santiago Moreno

Prédio do Parque Biblioteca España, na cidade colombiana de Medellín, cujo projeto de arquitetura foi feito por Giancarlo Mazzanti

Seminário de Arquitetura Latino-americana e a construção de um pensamento crítico

O

s Seminários de Arquitetura Latino-americana (SAL) exerceram importante papel na construção do pensamento crítico sobre arquitetura e urbanismo no continente latino-americano nas últimas décadas, conforme aponta a historiografia e a crítica do citado seminário presente em diversas publicações ibero-americanas. Esse evento surge, em 1985, em um período marcado pela redemocratização de alguns países do continente e pela permeabilidade crescente de ideais neoliberais nas políticas culturais vigentes, contaminando diversas esferas da cultura, sobretudo, a arquitetônica e urbanística. Neste contexto foram fomentadas estratégias de resistência de determinado grupo de arquitetos latino-americanos sobre o pensamento e obra arquitetônica local frente às tendências internacionais, no sentido da construção de uma capacidade latente para resistir às forças culturais dos processos de dominação global. No Seminário fundacional foram definidos os temas da modernidade e identidade como questão central da arquitetura latino-americana, temas esses que permearam as edições seguintes, constituindo um corpo de doutrina que pode ser considerado uma “teoria da arquitetura latino-americana”, como designado na historiografia existente sobre esse evento. A pauta da primeira reunião versou sobre as heranças pré-colombianas e europeias e sua influência na arquitetura latino-americana; a incidência do estilo internacional na região, a arquitetura como resposta à identidade regional, a confrontação das tecnologias próprias e importadas e balanço e prospectiva da arquitetura latino-americana1. Essas abordagens irão marcar as três próximas

edições deste evento, apresentando-se diversas narrativas discursivas sobre as temáticas da modernidade e identidade latino-americana. Na terceira edição do SAL, em Manizales, Colômbia, foi amplamente divulgada a concepção teórica do conceito de “modernidade apropriada”, desenvolvida pelo arquiteto chileno Cristián Fernándes Cox, propondo conceitualmente a existência de modernidades culturalmente diferenciadas, em contraposição à ideia eurocêntrica de uma modernidade universal. Para Cox existe um triplo sentido para o termo apropriação, derivado do conceito “modernidade apropriada”, no sentido de ser adequada a um determinado lugar, objeto ou sujeito, em outros termos ser pertinente ao território latino-americano; no sentido de transferir do outro, de abarcar elementos de outras culturas e utilizá-las como próprias, e finalmente no sentido de um devir próprio, correspondente ao sentido etnográfico de cultura, da relevância dos elementos identitários. Em Manizales, a chamada terceira geração do movimento moderno, que “alcança paulatinamente seu valor de obra de arte universal a partir a partir de sua síntese entre modernidade e a cultura do lugar” 2 é destacada, como ilustra o Prêmio América atribuído a Luis Barrágan, criado nesta edição com a finalidade de valorizar trajetórias de arquitetos comprometidas com a América Latina e que possam servir de exemplos para as novas gerações. Outro tema recorrente nas edições do SAL, nesse período, foi o do regionalismo na arquitetura em “contrapartida crítica às soluções universais na arquitetura e também como parte do reconhecimento mundial da pluralidade das culturas” 3

tema esse controverso nos debates do SAL. Como apontou Waisman: “pode significar desde a reinterpretação criativa de correntes mundiais, até, no extremo oposto, a atitude reacionária de um conservadorismo máximo ou de um revivalismo folclórico” 4. Os temas da identidade, regionalismo e universalismo presentes nas primeiras edições do SAL, são revisitados no presente, relacionados às abruptas mudanças ocorridas nas sociedades latino-americanas nas últimas décadas e as evidências da diversidade latino-americana, ressaltando-se a necessidade de relacionar o continente latino-americano e a região do Caribe e delinear pautas convergentes. A atualização dos discursos latinoamericanos em arquitetura e urbanismo presentes nas últimas edições do SAL intenta rechaçar determinada geração vinculada ao internacionalismo da arquitetura, com uma linguagem arquitetônica e urbanística enfatizando a incorporação da alta tecnologia de forma acrítica. Como apontou Toca Fernández, “a nova arquitetura latino-americana deixará de ser uma possibilidade para converter-se em realidade , quando houver um esforço coletivo no qual os arquitetos atuem como verdadeira vanguarda cultural fazendo obras, que respeitando e valorando nosso passado, incorporem, também, os valiosos avanços da técnica moderna” 5. Nas últimas edições observa-se, também, o deslocamento dos seminários centrados em obras e autores para a apresentação de grupos de pesquisa, com a ampliação dos temas relativos ao urbanismo e da escala de abrangência das análises, algumas voltadas para a macrometrópole; bem como o compromisso com a con-

temporaneidade, expressa em análises de novas propostas arquitetônicas para o continente, relativas à noção de público e comunitário. A realização no Brasil do XIV Seminário de Arquitetura Latino-americana, de 8 a 11 de novembro, na Unicamp, inserese em um contexto marcado por outros paradigmas na arquitetura e urbanismo contemporâneo em relação à fase fundacional, de resistência do local frente ao global, e por novas concepções da noção de identidade cultural. Sua proposta é a de analisar as contribuições do SAL à crítica da arquitetura e urbanismo latino-americano, decorridos 25 anos de existência do citado Seminário. Por outro lado, refletir sobre projetos de arquitetura pública para a cidade contemporânea. 1 Lala Méndez Mosquera . Identidad y Modernidad, Revista Summa, número 212, Buenos Aires, maio de 1985, pp.23-25 2 MONTANER, J.M.La Modernidad Superada: Arquitectura, Arte y Pensamiento del Siglo XX, Barcelona: Editora Gustavo Gili, 1997, p.22 3 WAISMAN, M.Arquitectura argentina: identidad y modernidad. TOCA FERNÁNDEZ, A.(Ed.) Nueva Arquitectura en América Latina: presente y futuro. México DF: Editora Gustavo Gili, 1990, p.252 4 Idem, op. cit., p. 252 5 TOCA FERNÁNDEZ, A.(Ed.). Nueva Arquitectura en América Latina: presente y futuro. México DF: Editora Gustavo Gili, 1990. Maria José de Azevedo Marcondes, arquiteta, é professora do Instituto de Artes (IA) da Unicamp e coordenadora-geral do XIV SAL. Seminário de Arquitetura Latino-americana. Este artigo foi originalmente publicado na revista Nossa América, edição 43. MAIS INFORMAÇÕES www.iar.unicamp.br/xivsal

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Campinas, 7 a 20 de novembro de 2011 Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

Ruy Barbosa (à esq.), que foi candidato a presidente, e Joaquim Nabuco, posando após ser reeleito deputado (1885-1888): representantes da “geração de 1870”

O direito de (e para) poucos Foto: Antoninho Perri

Tese mostra que cidadão era alijado na formação de arcabouço político no Império MARIA ALICE DA CRUZ

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halice@unicamp.br

ese do advogado, professor e historiador André Peixoto de Souza sobre a história do direito mostra que não existiu um sujeito político no Brasil imperial. Intitulado “Pensamento jurídico brasileiro, ensino do direito e a constituição do sujeito político no Império (1824-1891)”, o trabalho foi apresentado na Faculdade de Educação (FE), a partir do Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação, Cultura Escolar (Civilis), sob orientação da professora Ediógenes Aragão Santos. Segundo o autor da tese, o estudo aborda o período em que o ensino de direito estava plenamente atrelado à formação de um arcabouço político, ocasião em que o cidadão, verdadeiro destinatário dessas regras, nunca esteve representado. “Até porque, num primeiro instante, o ensino de direito era restrito a pessoas de família de classe alta”. No cenário atual, ele afirma que não houve muitos avanços, pois o sujeito político pode participar politicamente no Estado, mas por meio de uma representação, “visivelmente falha”. Essa prática também é analisada por Souza nos tribunais, em que a defesa de um acusado somente pode ser feita por representação. “Qualquer cidadão brasileiro deveria ter o direito de postular em juízo. Em causa própria ou para intervenção de terceiros. Por uma questão de cidadania! Mas, até hoje, se alguém tem um problema, é obrigado por lei federal a contratar um advogado”, pontua. De acordo com Souza, a democracia representativa coloca em cena todos os sujeitos. “Estes sim, os sujeitos políticos.” Para ele, este já é um motivo para se questionar os critérios de exclusão acerca da representação democrática. Como encontrar um sujeito político num lugar em que as legislações são feitas com foco nas necessidades dos governantes, que eram justamente os egressos dos cursos de direito no Império? Souza enfatiza que grandes nomes do direito no academicismo, como Ruy

O advogado, professor e historiador André Peixoto de Souza: “Qualquer cidadão brasileiro deveria ter o direito de postular em juízo”

Barbosa, Joaquim Nabuco e outros da chamada “geração de 1870”, anos depois se tornaram os grandes baluartes da política nacional, candidatando-se a presidente, deputados, senadores, ministros do Império e da República. Entre inúmeros dados levantados pelo autor estão as relações estatísticas entre aquilo que era produzido nas faculdades de direito e, logo em seguida, no âmbito burocrático e político. Para compreender o processo de formação desse sujeito político “escondido”, Souza valeu-se da própria experiência como historiador e advogado e passou a analisar o direito pelos olhos da história. A “viagem” aos tempos de Joaquim Nabuco e Tobias Barreto (segunda metade do século 19) revela o quanto o ensino jurídico estava comprometido com a formação do estamento burocrático imperial. As normas e as regras eram claramente feitas de forma a perpetuar o próprio poder das elites, o que afastava cada vez mais a ideia de um sujeito político, segundo o autor. “De que maneira todos os cidadãos podem ser esclarecidos, especialmente quando as regras, conciliadas pelo alto, são ao mesmo tempo inacessíveis, complexas e atreladas a interesses determinados?”, questiona Souza. Na tese, ele catalogou e analisou os efeitos da produção jurídica doutrinária do século 19. Entre os autores da época, analisou doutrinadores desde José Bonifácio de Andrada e Silva até Ruy Barbosa de Oliveira, estabelecendo as críticas cabíveis às Constituições imperial e republicana. Dentre os temas em destaque, ressaltou o constitucionalismo imperial, a administração pública, os ditames criminais e a filosofia do direito. Na mesma pesquisa, ele faz a conexão

possível entre as academias de direito, especialmente em São Paulo e no Recife, com os parlamentos e gabinetes ministeriais. Mesmo sem a pretensão de fazer conexão entre passado e futuro, Souza percebeu nos textos dos códigos produzidos na época um vício de origem na formação jurídica brasileira. “Um vício de origem que não estava necessariamente retratado pelas falhas do ensino, e sim no comprometimento da formação. Era um comprometimento político atrelado a elites dominantes daquela ocasião”, acrescenta. Para o contexto atual, as condições em que as escolas de direito foram criadas e mantidas devem ajudar os bacharéis a compreender melhor a formação contemporânea totalmente mercadológica na área do direito, comprometida com interesses do capital. Segundo o autor, o incômodo diante desse enfoque dado em algumas escolas de direito atuais o levou a buscar justificativa histórica. “Não adianta simplesmente orientar o graduando em direito a decorar os códigos; devemos estimulá-lo a refletir sobre os textos e buscar o contexto histórico em que foram produzidos”. O historiador faz uma reflexão sobre as cartas constitucionais de 1824, de 1891 e de 1988. Esta última tão complexa quanto as constituições imperial e republicana, em sua estrutura, apesar de trazer em seu conteúdo a informação de que o poder emana do povo. “Uma sociedade como a brasileira, completamente dividida desde sempre, plena de concentração de renda e riquezas, de centralização familiar do poder, mesmo com uma Carta Constitucional, parece não merecer o crivo de uma sociedade completamente formada. Ainda resta

a essa sociedade, especialmente no Império, constituir seu sujeito político”, reforça Souza. As falhas da carta de 1988, em sua opinião, começam na tripartição de poderes. Souza chama a atenção para o fato de que o cenário atual não se limita aos Poderes Executivo, Judiciário e Legislativo, como propunha o artigo 2º da Constituição de 1988. “Para além dos poderes constitucionais, contamos hoje com outros poderes dissipados pela república, mas travestidos de órgãos subsidiários aos poderes: o Ministério Público, as Agências Reguladoras, o Banco Central, a Receita Federal, os Tribunais de Contas, o Conselho Nacional de Justiça e, especialmente, a mídia”, reflete. Em sua opinião, o Conselho Nacional de Justiça tem se comportado como verdadeiro “poder moderador” do século 21, pairando sobre tudo e sobre todos e dando a última voz acerca dos direitos do pretenso cidadão. Mas como acontece desde 1817 (Revolução Pernambucana), afirma Souza, a voz do sujeito político pode estar nos movimentos sociais, que podem fazer com que cidadãos partícipes ainda sonhem com a plena configuração da cidadania. “Isso poderá se realizar não com a minimização do Estado, mas com a minimização da representação, que é um problema permanente na história política e jurídica nacional”, acrescenta Souza. A metodologia utilizada pelo pesquisador tem sido uma novidade no Brasil. Trata-se da “Escola de Florença”, fundada na década de 1960 por Paolo Grossi, em que historiadores do direito desempenham papel fundamental na formação de novos profissionais do direito. A escola, segundo ele, espalhou frutos pelo mundo todo, como a “Escola de Curitiba”, liderada por Ricardo Marcelo Fonseca, no município de Curitiba. Entre esses multiplicadores estão Paolo Cappellini, Pietro Costa, Bernardo Sordi, Giovanni Cazzetta, Mario Sbriccoli, Ricardo Marcelo Fonseca, Arno Dal Ri Junior, entre outros. Para Souza, iniciativas como essa são importantes para a formação do bacharel em direito, e contribuem sobremaneira com a investigação acerca do sujeito político. “Porque ele, que seria o destinatário de todo o arcabouço legislativo de uma nação, não é sequer olhado por esse estamento burocrático, que faz a lei de si para si, de acordo com os seus interesses, e não primando pelo cidadão”, pontua.

................................................................... ■ Publicação

Tese: “Pensamento jurídico brasileiro, ensino do direito e a constituição do sujeito político no Império (1824-1891)” Autoria: André Peixoto de Souza Orientação: Ediógenes Aragão Santos Unidade: Faculdade de Educação (FE)

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Campinas, 7 a 20 de novembro de 2011 Foto: Antoninho Perri

O professor Andrei Sposito (à direita) e o pós-graduando Luiz Sérgio Fernandes de Carvalho: identificando marcadores de risco

Para atenuar os efeitos do infarto Pesquisas apontam novos caminhos para o tratamento de problemas cardíacos

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EDIMILSON MONTALTI

divulga@fcm.unicamp.br

s doenças cardiovasculares representam 30% de todas as causas de morte no mundo e de 65% de indivíduos entre 30 e 69 anos de idade no Brasil. A doença cardíaca isquêmica e a doença cerebrovascular representam 21% de todas as causas de morte e o número de casos vem aumentando. Seguindo a mesma tendência, o infarto do miocárdio é hoje uma das mais frequentes causas de óbito e a maior de morte súbita. O infarto do miocárdio é popularmente conhecido como ataque cardíaco e é causado pela redução do fluxo sanguíneo do coração. Tratamentos para diminuir o tamanho do infarto e reduzir as complicações envolvem cuidados gerais como repouso, monitorização intensiva da evolução da doença, uso de medicações e procedimentos invasivos, como angioplastia coronária e cirurgia cardíaca. O tratamento é diferente conforme a pessoa, já que áreas diferentes do coração podem ser afetadas. Duas pesquisas do Grupo Brasileiro de Estudo do Coração, também conhecido como Coorte Brasil, liderado pelo médico cardiologista e professor Andrei Sposito, do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, estudaram os efeitos, em pacientes infartados, das estatinas – lipoproteínas empregadas para tratar os altos níveis de colesterol – na inflamação durante e após o infarto do miocárdio e a ação do HDL – lipoproteína conhecida como colesterol bom capaz de limpar as artérias de placas de gordura. Ambos os estudos foram premiados no XXXII Congresso da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo nas categorias pesquisador sênior e jovem pesquisador e publicados nas re-

vistas Aterosclerose, Trombose e Biologia Vascular, da Associação Americana do Coração, e Aterosclerose da editora Elsevier. Além de pesquisadores da Unicamp, participam da Coorte Brasil pesquisadores da Universidade de Brasília, da Universidade Federal do Paraná, Universidade Federal do Rio Grande do Sul e do Instituto do Coração de São Paulo e de outros países. “Quando o indivíduo tem um infarto, o risco de morte ou recorrência no primeiro ano varia de 15% a 30%. No Brasil, nos últimos 50 anos, copiamos e acompanhamos a produção científica feita nos países do primeiro mundo. Era a mesma coisa que vestir um paciente com uma roupa larga demais. Com a Coorte Brasil, criamos novas linhas de investigação a partir da colaboração de especialistas em trabalhos multicêntricos. Pegamos indivíduos brasileiros infartados atendidos na rede pública e acompanhamos esses pacientes por até quatro anos. Fazemos o tratamento modelo do que se faz no mundo e tentamos descobrir o que deu certo ou errado”, explica Sposito.

Estanina A primeira pesquisa denominada “Tempo e dose da terapia com estatina define o impacto sobre a inflamação e resposta endotelial durante o infarto do miocárdio” é o resultado de uma linha de investigação que Sposito estuda há dez anos. A partir da revisão de estudos internacionais, o pesquisador verificou duas lacunas: a dose de estatinas aplicadas nos pacientes variou muito entre os estudos e o tempo de aplicação do medicamento também. Segundo Sposito, a fase aguda do infarto dura 48 horas. Em 24 horas após o início do infarto, a atividade inflamatória aumenta 30 vezes e pode deixar sequelas, cicatrizes no músculo cardíaco, que não são reparadas. Em pacientes crônicos, as estatinas reduzem de 2% para 1% o risco anual de infarto e deve ser dada até 12 horas após o início dos sintomas. Com base em estudos clínicos, as sociedades norte-americanas, europeias e brasileiras dizem que não se deve dar estatinas até dez dias após o infarto ou pré-alta. “As estatinas foram criadas para reduzir o colesterol e um dos paraefeitos é diminuir a formação de trombos e a atividade inflamatória do coração. Alguns estudos mostravam que havia benefício, outros não, mas a metodologia não era padronizada. Resolvemos,

então, refazer os estudos em 125 pacientes com infarto do miocárdio”, explica Sposito. Os pacientes foram divididos em quatro grupos. Nas primeiras horas após os sintomas da crise de infarto do miocárdio, um grupo não tomou estatinas e os outros tomaram, respectivamente, 20, 40 e 80 miligramas do medicamento. Depois de sete dias, todos os pacientes receberam uma dose equivalente de 20 miligramas de estatinas e foram avaliados 30 dias depois. De acordo com a pesquisa, nos primeiros sete dias, os pacientes que não usaram estatinas tiveram um aumento da atividade inflamatória do coração, e essa inflamação foi cada vez menor conforme o aumento da dose do medicamento. Nos pacientes que receberam 80 miligramas de estatina, essa inflamação quase não aconteceu. Após 30 dias, foi avaliada a função vasomotora do coração dos pacientes e os que não foram tratados intensamente na fase aguda tinham pior função vasomotora. Essa pesquisa responde duas questões: primeiro, quanto mais intenso o tratamento, maior a atenuação da inflamação; segundo, a redução da atividade inflamatória tem impacto a médio prazo, independentemente do que o paciente fizer depois da alta. “O ideal é introduzir a dose mais alta de estatinas quando o paciente chega e não como orientam as diretrizes mundo afora, na pré-alta. Se você não tratar bem no início, ele vai carregar uma sequela. Aquilo que você faz na fase aguda, fica”, alerta Sposito.

HDL e hiperglicemia As lipoproteínas de alta densidade (HDL) são uma família de partículas heterogêneas que variam de tamanho, densidade e composição química. O HDL apresenta ações bem descritas sobre mecanismos protetores contra a aterosclerose – placas de gordura que se formam nas paredes dos vasos sanguíneos. No infarto do miocárdio, elevados níveis de radicais livres são produzidos logo após o rompimento da artéria. Estudos internacionais mostram que o estresse oxidativo no pós-infarto contribui direta e indiretamente para resistência à insulina e resposta inflamatória. A pesquisa “Nível plasmático elevado de HDL-C atenua a hiperglicemia de estresse durante a fase aguda do infarto do miocárdio”, desenvolvida pelo médico e pósgraduando Luiz Sérgio Fernandes

de Carvalho, avaliou 183 pacientes infartados não-diabéticos atendidos no Hospital Base de Brasília. Os níveis de glicose, colesterol total, triglicérides, HDL, proteína C reativa e insulina dos pacientes foram medidos nas primeiras 24 horas e no quinto dia após infarto. As análises bioquímicas foram feitas no laboratório do Departamento de Patologia Clínica da FCM da Unicamp pela professora Eliana da Cotta Faria. Após o infarto do miocárdio, a atividade inflamatória eleva-se progressivamente. O pico da atividade inflamatória correlaciona-se, temporalmente, com a incidência de complicações, como a extensão e expansão da área infartada, que promove precocemente arritmias, formação de aneurisma ventricular esquerdo e rotura cardíaca. A hiperglicemia é o aumento da glicose no sangue e ocorre em situações de estresse ou quando o organismo fica doente. Ela é determinada por um desequilíbrio entre a produção hepática de glicose, a redução na sensibilidade à insulina e a incapacidade de compensar tais eventos. “A pesquisa focou nos baixos níveis de HDL – colesterol bom – como fator de desenvolvimento de hiperglicemia na fase aguda. A hiperglicemia tem sido relacionada a maiores chances de óbito e outras complicações no primeiro ano após o infarto. Ao mesmo tempo, em modelos animais em condições estáveis, o HDL é capaz de reduzir a hiperglicemia. Entretanto, esse dado jamais havia sido testado em humanos sob estresse agudo”, explica Luiz Sérgio. Segundo Sposito, orientador da pesquisa, existem trabalhos que provam conceitos e outros que criam novas linhas de investigação. É o caso dessa pesquisa, pois mostra pela primeira vez que indivíduos infartados com HDL baixo desenvolvem hiperglicemia de estresse e resistência à insulina mais facilmente, abrindo novas possibilidades para o tratamento clínico desses pacientes. “Nós demonstramos pela primeira vez que níveis mais elevados de HDL se relacionam a uma acelerada recuperação da hiperglicemia e sugerimos alguns dos mecanismos. Isso se deve a uma acelerada recuperação da sensibilidade à insulina e da capacidade de secreção pelo pâncreas promovidas pelo HDL. Este trabalho representa, por um lado, uma compreensão mais detalhada sobre o HDL baixo como um fator de piora do infarto e, por outro, o entendimento de mecanismos para a relação entre

o HDL e a hiperglicemia de estresse em pacientes infartados. Resumindo: pacientes infartados com HDL baixo têm mais chance de desenvolver hiperglicemia e resistência à insulina, o que aumenta os riscos de morte no primeiro ano da doença”, explica Luiz Sérgio. De acordo com Sposito, há ainda uma relevância social, médica, biológica e econômica em identificar alterações bioquímicas nas fases mais precoces do infarto. Qualquer pessoa que atender um paciente infartado, com HDL baixo, saberá que esse indivíduo tem um risco maior de ter hiperglicemia. O médico deve, então, redobrar a atenção e ponderar se deve usar ações mais invasivas ou não. “Cateterismo tem risco de complicação. Cirurgia tem risco de complicação. Identificando marcadores de risco, o médico pode escolhe o melhor tratamento para o paciente”, explica Sposito. A pesquisa abre a perspectiva do HDL como alvo-terapêutico, mas suscita perguntas como: será que vale a pena aumentar o HDL do paciente infartado uma vez que o HDL baixo é pior para o paciente? “Para se provar uma evidência científica, é preciso que várias pessoas ou grupos testem. A partir do alerta deste estudo, isso será pesquisado. Daqui a pouco, alguém vai juntar tudo isso e teremos um panorama completo da glicemia na fase agudo do infarto”, explica Sposito. A pesquisa foi apresentada no Congresso Europeu de Cardiologia, em Paris, e no Congresso da Associação Cardíaca NorteAmericana, em Orlando. “O próximo passo da pesquisa será estudar mais profundamente as funções do HDL no infarto, com foco em suas capacidades antioxidantes, anti-inflamatórias e proteção do endotélio vascular”, revela Carvalho.

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Artigo: “Tempo e dose da terapia com estatina define o impacto sobre a inflamação e resposta endotelial durante o infarto do miocárdio” Revista: Arteriosclerosis, Thrombosis, and Vascular Biology, da American Heart Association Autor: Andrei Sposito Unidade: Faculdade de Ciências Médicas (FCM) Artigo: “Nível plasmático elevado de HDL-C atenua a hiperglicemia de estresse durante a fase aguda do infarto do miocárdio” Revista: Atherosclerosis Autor: Luiz Sérgio Fernandes de Carvalho Orientador: Andrei Sposito Unidade: Faculdade de Ciências Médicas (FCM) e Universidade de Brasília (UnB)

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Campinas, 7 a 20 de novembro de 2011

Autoestima molda imagem corporal de jovens brasileiras, demonstra tese Engenheira de alimentos ouve 127 adolescentes para fundamentar pesquisa de doutorado MARIA ALICE DA CRUZ

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halice@unicamp.br

grande absurdo entre adolescentes convidadas a responder questões sobre imagem corporal é o acompanhamento de dietas drásticas divulgadas na mídia. Com elas, sempre vem a imagem de uma pessoa com o corpo considerado ideal, vestida em grife desde a maquiagem até o salto do sapato. Muitas vezes, na imaginação dessas adolescentes, vale até suprimir uma das refeições diárias, segundo a engenheira de alimentos Jane Palermo. Uma pesquisa de doutorado desenvolvida por ela na Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp (FEA) resultou em uma escala eficiente para avaliação da imagem corporal de mulheres brasileiras. Desenvolvida com base em padrões corporais de indivíduos brasileiros, a escala apresentou correlação positiva com métodos internacionais. A escala foi desenvolvida a partir de questionário realizada com 127 adolescentes do sexo feminino do Colégio da Unicamp (Cotuca) e, segundo Jane Palermo, autora da tese, foi capaz de revelar que a imagem corporal das entrevistadas em relação ao próprio olhar e o olhar da família e da sociedade está associada à autoestima. “De acordo com as respostas dadas por elas, não dá para estabelecer um padrão de satisfação ou insatisfação pelo peso. Depende muito da autoestima da pessoa”, ressalta. Apesar de não ser um trabalho desenvolvido no âmbito da psicologia, as questões estão relacionadas com o que elas pensam sobre seu próprio corpo,

sempre focando o nível de satisfação ou insatisfação quando as meninas olham para seu corpo e o que almejam para este corpo. A escala, segundo ela, permite que, de cada cem pessoas, 95 deem resposta dentro do esperado com o questionário. Jane observou que as meninas dentro dos padrões de medidas estabelecidos se consideram bastante satisfeitas. Mesmo entre as entrevistadas com Índice de Massa Corpórea (IMC) maior, consideradas em sobrepeso, há aquelas que se consideram satisfeitas, gostam do corpo. Mas também tinha algumas que se consideravam insatisfeitas. Assim como entre as muito magras algumas gostam e outras não. A insatisfação corporal é muito pessoal, na conclusão da engenheira de alimentos. Jane cita uma pesquisa anterior à dela na qual foi feita uma avaliação do consumo alimentar dos alunos. A autora, segundo ela, percebeu que os alunos tinham dieta desequilibrada, o que poderia estar associado ao fato de estarem saindo de casa pela primeira vez, focando na escola o dia todo e, dessa forma, livres para escolher o que queriam comer. Outros porque não gostam da comida, outros adeptos a regimes drásticos, pulando refeições. Em muitas respostas, Jane pode observar uma atitude dos pais em relação às filhas. Muitas responderam que “os pais pegam no pé”, dizendo que estão gordinhas, precisam perder peso e se alimentar direito. Outras acham que os pais nem se importam, comem o que querem. Com relação à sociedade, acreditam que a discriminação existe, pois acham que as oportunidades de emprego, principalmente no momento da entrevista, muitas vezes estão relacionadas com a aparência física. “Acreditam que para conseguir um bom emprego precisam ser bonitas e ter boa aparência”, acentua. O corpo, para algumas delas, é motivo de piadas na escola e marginalização. Outras se acham bem-aceitas do jeito que são, pela própria personalidade. “Estas já acreditam que por ser bem-humoradas e participativas, o corpo não interfere”, explica Jane. Segundo a autora, apesar de ter sido testada com um público restrito, a ferramenta pode favorecer a ampliação da pesquisa em nível nacional, com a diversificação socioeconômico-cultu-

Jane Palermo, autora da tese, desenvolveu escala para avaliação da imagem corporal de mulheres brasileiras

ral. “Ela é aberta, para ser adequada ao público a ser avaliado. Se algum pesquisador acreditar que uma frase possa ser melhorada ou suprimida, pode interferir “na escala e aperfeiçoála”, informa. A expectativa é de que a escala seja aplicada em outras escolas públicas de outros Estados, com padrão diferente do Cotuca. Além disso, a escala está disponível para profissionais da área médica, psicológica ou de educação física e também para avaliação de pessoas do sexo masculino. “Na área da Educação física trabalham bastante com a forma do corpo, bem-estar, e o modelo seria interessante para eles, mas é preciso ampliá-la”. O interesse foi criar um método dentro da realidade brasileira, o que não foi encontrado por Jane na literatura. Antes de desenvolver o doutorado, ela percebeu que as escalas usadas para avaliação da imagem corporal de adolescentes brasileiras eram internacionais, traduzidas e validadas para língua portuguesa. Diante disso, desenvolveu um método que tem interesse maior de adolescentes, utilizando terminologia brasileira e habitual aos adolescentes para levantamento de suas crenças, atitudes e opiniões com relação ao próprio corpo e aparência física. Muitos psicólogos e profissionais da área da saúde, segundo Jane, utilizam a escala do BSQ de Peter Cooper (1967) para avaliar insatisfação corporal, a qual é reconhecida internacionalmente. Apesar de ser eficiente, o método foi desenvolvido para mulheres norte-americanas. “Aqui no Brasil, a composição étnica da nossa população

advém de distintas fontes migratórias, tornando-a muito complexa e variada. Com isso, o padrão de corpo ou beleza geral é bastante diversificado. Cada um tem sua satisfação e crenças, nem todas as medidas internacionais se aplicam ao nosso biotipo”, enfatiza. O primeiro passo da investigação, segundo Jane, foi fazer um levantamento das percepções e crenças das próprias adolescentes sobre o corpo para, em seguida, formular as questões. “A partir das percepções delas, agrupamos as frases semelhantes para formular as questões da escala”, explica. Ela esclarece que sua escala não tem questões, mas sim sentenças positivas e negativas, para que haja um equilíbrio de respostas, e se obtenha um resultado eficiente da avaliação corporal. Foram utilizadas medidas do IMC e das circunferências da cintura e do quadril e da relação entre essas duas partes do corpo. O IMC é uma medida utilizada para avaliação da distribuição da massa corporal. Enquanto a relação cintura-quadril determina a distribuição da massa gordurosa na região abdominal, considerada pelos cardiologistas como uma região de risco à saúde, segundo Jane. “A relação cintura-quadril é questionável para investigar distúrbios metabólicos, uma vez que seus valores são variáveis com a idade e condições de saúde. O mais indicado seria utilizar a circunferência da cintura para mostrar a distribuição do tecido adiposo central. Porque ela sofre mais transformações com o avanço da idade, principalmente na mulher”. Ao chegar à menopausa, os hormônios femininos estão menos

ativos e determinam maior acúmulo de gordura principalmente na região da cintura. E isso se torna perigoso por contribuir para o aumento de risco de diabetes, hipertensão e problemas cardiovasculares. Então a circunferência da cintura seria uma medida importante para avaliação da adiposidade corporal feminina. Ela acrescenta que também a relação cintura quadril (RCQ) não é estudada no Brasil, relacionada à satisfação corporal, enquanto em outros países esta medida é utilizada inclusive para mediar estudos voltados à avaliação da proatividade feminina e também ligados à atratividade. “Pesquisas sobre atratividade, em que homens e mulheres foram consultados, encontrou-se RCQ de 0,70 como aquele que promovia percepção de maior atratividade em mulheres. Mas este valor não se aplica no Brasil”, analisa. Ela acrescenta que, mesmo em algumas adolescentes consideradas eutróficas pelo IMC (dentro da faixa de normalidade do estado nutricional), quando avaliadas pela RCQ apresentavam valores maiores ou menores que o índice estipulado, indicando que este valor pode ser inalcançável. As dietas drásticas e a mídia estão entre os principais incentivadores da preocupação com a imagem corporal. Segundo Jane, as adolescentes acreditam que seguindo as dietas propostas pela mídia, com apresentadores participando de programas de reeducação alimentar e atividades físicas, elas podem atingir um “corpo perfeito”. “Elas acreditam que o que está sendo apresentado serve para elas e acabam seguindo”, revela. Ela acrescenta que muitas vezes a relação de beleza nem é feita com toda a estrutura corpórea, mas com os cabelos, as pernas, o nariz, barriga, vestuário. O que importa é a aparência. Isso é muito importante para elas. “Mas o grande absurdo é a dieta. Às vezes, deixam de comer por achar que estão engordando”.

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Tese: “Atitude com relação ao corpo, autoestima e perfil nutricional de adolescentes brasileiras” Autora: Jane Rizzo Palermo Orientação: Maria Aparecida Azevedo Pereira da Silva Unidade: Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA)

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Adolescentes a caminho da escola: metodologia levou em conta a composição étnica da população brasileira


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Livros revelam como l de parentesco semearam

Editora da Unicamp reedita Na senzala, uma �lor, de e Ciências Humanas (IFCH), e lança Senzala insurgente, d coleção Várias Histórias, enriquecem o debate

SERVIÇO Título: Senzala insurgente Autor: Ricardo Figueiredo Pirola Edição: 1a Páginas: 304 Preço: R$ 58,00

PAULO CESA

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Senzala-pavilhão. “Avant le départ pour la roça [Antes da partida para a roça]”, litografia de Ph. Benoist a partir de fotografia de Victor Frond, in Charles Ribeyrolles, Brazil pittoresco: historia-descripções-viagensinstituições-colonisação, edição bilíngue (francês-português), 2 vols. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1861, vol. II (álbum de litografias) s.p. Fonte: Biblioteca do Instituto de Estudos Brasileiros da USP

Senzalas-compartimentos/cabanas dispostas em grupo. “Cases à nègres [Senzalas]”, litografia de Ph. Benoist a partir de fotografia de Victor Frond, in Charles Ribeyrolles, Brazil pittoresco... Fonte: Biblioteca do Instituto de Estudos Brasileiros da USP

Historiador rastreia trajetória de insurgentes d Nas primeiras décadas do século 19, durante as investigações do plano de uma grande rebelião escrava na Província de São Paulo, uma pintura encontrada em poder de um cativo deixou lívidos os senhores de engenho e as autoridades encarregadas de interrogar os insurgentes: a imagem representava um negro sendo coroado por um homem branco. A ousada figura, concebida pelo escravo pintor Manoel Rebolo, expressava um dos maiores temores senhoriais – a inversão completa da ordem social então vigente – e refletia a ardente esperança de alforria que alimentava o motim, até a sua descoberta e completa desarticulação. A insurreição sufocada de 1832 mobilizou centenas de cativos de nada menos que 15 engenhos de açúcar da localidade de São Carlos (hoje município de Campinas) e contou com a participação de um liberto conhecido como João Barbeiro, morador da cidade de São Paulo. O episódio da frustrada revolta e a história dos principais conspiradores são temas abordados pelo historiador Ricardo Pirola no livro Senzala insurgente (Editora da Unicamp, 304 páginas). A obra deriva da dissertação de mestrado defendida pelo autor no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, em 2005. No estudo, em que analisa a trama dos revoltosos e reconstrói suas trajetórias de vida até a conspiração, Ricardo demonstra que a família constituía o centro da organização política do grupo: os laços de parentesco estabelecidos, bem como a preservação do legado cultural centro-africano na rotina das senzalas, entre outros aspectos peculiares do perfil dos insurretos, deram coesão e sustentação ao movimento subversivo. Na historiografia sobre o passado escravista brasileiro, inúmeros já foram os temas de análises, as fontes de pesquisa e as interpretações apresentadas. A própria insurgência na Campinas de outrora fora objeto de estudo conduzido pela pesquisadora da USP Suely Robles de Queiroz em 1977. Na ocasião, lembra Ricardo, Suely questionava a visão abrandada do cativeiro apresentada por alguns autores, responsável pela construção da imagem de um senhor de escravos benevolente e de um cativo fiel, submisso, resignado à sua sorte. A existência da trama de 1832 – que Suely

resgatou a partir dos depoimentos transcritos do processo crime a que os revoltosos foram submetidos – demonstrava que os escravos não haviam sido figurantes mudos nos processos de transformações históricas em curso no Império. A diferença fundamental entre os dois trabalhos acadêmicos separados por um arco de tempo de quase três décadas é que, enquanto Suely limitou-se a reconstituir a estruturação do plano da rebelião, Ricardo utilizou a mesma fonte como ponto de partida para uma investigação inédita acerca daquela ampla mobilização coletiva das senzalas, em que procurou reconstruir a trajetória dos escravos rebeldes até o levante. Para elaborar a biografia coletiva dos principais dirigentes do plano, entre os 32 indiciados como os mais envolvidos no movimento, o historiador utilizou a metodologia da ligação nominativa de fontes, cruzando os nomes registrados no processo crime com as informações disponíveis nos censos populacionais local e nos registros de batismo e casamento escravo. Recorreu também aos inventários post-mortem, (documentos contendo a lista nominativa de avaliação dos escravos existentes na hora de sua morte) abertos entre os anos de 1801 e 1835. “Dessa forma, foi possível rastrear o paradeiro dos revoltosos de 1832 em diferentes fontes e em diferentes épocas da vida deles antes do envolvimento com a trama”, conta o autor do estudo.

Vínculos sólidos Ao acompanhar as trajetórias dos rebeldes de 1832, Ricardo pode trazer à tona características pessoais dos insurgentes e revelar como o conluio foi solidariamente urdido nas senzalas. Os conspiradores não eram cativos que haviam acabado de desembarcar, tentando escapar o mais rápido possível da escravidão. A maioria aportara em Campinas no final da década de 1810 e início da década seguinte, e quando da articulação da rebelião, conheciam bem a língua portuguesa, as estratégias de controle senhorial, as matas e terras da região. A pesquisa também apontou que boa parte dos revoltosos de 1832 conseguiu se casar e formar família durante os anos de cativeiro em Campinas.

Portanto, a união dos cativos das propriedades envolvidas no plano da revolta não ocorreu apenas momentaneamente para a organização do movimento. Na verdade, desde os primeiros anos do século 19, se estabeleceu entre eles sólidos vínculos de parentesco a partir das alianças em casamentos e do compadrio em batismos que contribuíram para conectar diversos grupos de africanos entre si. Desse modo, esposas, filhos, compadres e comadres ajudavam a compartilhar a dura rotina do cativeiro. Mais que isso: unidos em torno de tradições e valores próprios, consolidavam uma identidade e se fortaleciam na resistência à política senhorial. Semeava-se, assim, o terreno da insurreição. Ele também constatou que alguns dos conspiradores, com o decorrer dos anos, conseguiram ocupar cargos especializados nas propriedades em que viviam, como o de ferreiro, tropeiro e cozinheiro. Pelas próprias características dos trabalhos que desempenhavam, desfrutavam de maior autonomia de movimento e de proximidade com a casa senhorial. Tinham, por isso, maiores chances de acumular pecúlio e, eventualmente, de alcançar a alforria, quando comparados com os escravos trabalhadores da roça. A investigação traz importantes contribuições ao debate historiográfico sobre a influência de fatores como aqueles identificados por Ricardo – a formação de famílias, a ocupação de cargos de confiança e a herança cultural africana – na mobilização coletiva dos negros em torno de revoltas. Diferentemente das interpretações que enxergam no casamento escravo e nas políticas senhoriais de incentivo de aproximação com a casa-grande (via trabalho especializado e doméstico) motivos para a formação de uma espécie de casta pacificada na comunidade escrava, o estudo esclarece que, pelo menos nas propriedades campineiras da primeira metade do século 19, a existência de grupos escravos socialmente distintos não levou ao racha das senzalas. “Na verdade, o casamento e o trabalho especializado não só não inibiram um projeto de revolta, como foram importantes para amarrá-lo e estruturá-lo. Foi justamente a mobilidade dos tropeiros que permitiu

nas senzalas, eles não viraram a aos demais membros. Uma das h capaz de explicar essa solidarieda compartilhamento de uma origem africana”, interpreta Ricardo. “Nã apenas os limites entre as propried os escravos derrubaram para a form plano de insurreição.”

Ricardo Pirola: “O casamento e o trabalho especializado não só não inibiram um projeto de revolta, como foram importantes para amarrá-lo e estruturá-lo”

a união do projeto entre as cidades de Campinas e São Paulo, assim como foram as habilidades do ferreiro que ajudaram no fornecimento de armas para a revolta”, ilustra o autor de Senzala insurgente. Ele ainda observa que o fato de grande parte dos envolvidos no projeto de insurreição encontrar-se mais próxima do mundo dos livres do que dos demais cativos, fosse pela ocupação de uma tarefa da confiança senhorial, fosse pela rede de parentesco em que estavam inseridos, não os impediu de arriscar essas conquistas ao se unirem ao resto do grupo para arquitetar a conspiração. Mesmo quem já havia alcançado a liberdade tão almejada, como João Barbeiro, não se furtou de lutar contra a escravidão ao lado de seus conterrâneos ainda cativos. Do mesmo modo que as diferenças sociais, as distinções étnicas não impuseram fronteiras intransponíveis para a união dos conspiradores. Escravos do Congo Norte, de Angola e de Moçambique se misturaram aos crioulos tanto na revolta como fora dela, revela a pesquisa. “Embora os revoltosos formassem uma comunidade, digamos, mais diferenciada

Poder espiritual Heranças religiosas trazidas d Central e que permaneceram sen vadas nas senzalas em rituais co também tiveram reflexo na aglu do grupo insurgente. Isso fica mu na análise do perfil das principais da revolta, o escravo Diogo Reb liberto João Barbeiro, salienta o his Ambos eram grandes lideranças ais, respeitados por suas habilid comunicação com o outro mundo e penhavam papel fundamental de da comunidade cativa. A influência espiritual exercid tudo por Diogo Rebolo fez com tornasse também o principal art do plano para toda a Vila de Ca Responsável por presidir as reun amotinados e ser o caixa principa nheiro arrecadado, “pai” Diogo tin na organização da trama a função parar as “mezinhas” (chás à base d que os escravos acreditavam ter o “fechar o corpo” nos confrontos p na rebelião) que eram vendidas pa recursos necessários à compra d ou trocadas com outros objetos de Principal cenário da trama reco por Ricardo, a Vila de Campinas j início do século 19, uma das princip produtoras de cana-de-açúcar do p população escrava passava da casa d superando o número de habitantes frequentemente suspeitas de insurre xavam a cidade em alerta, comenta O risco de uma revolta escrava causa de temor e apreensão nas autoridad e, principalmente, nos senhores de e Para estes, uma rebelião representav da escravaria (devido às prisões de sos) e o consequente comprometim produção agrícola. Por isso, a desco plano de revolta de 1832 reacendeu que fora vivenciado pela cidade e


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legado cultural e laços m revoltas em senzalas

e Robert Slenes, professor do Instituto de Filoso�ia do historiador Ricardo Pirola. As obras, que integram a e historiográ�ico acerca da escravidão no país

SERVIÇO Título: Na senzala, uma flor Autor: Robert W. Slenes Edição: 2a , revista Páginas: 304

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@bol.com.br Divulgação/Reprodução

Senzala-barraco. “Habitation de nègres [Habitação de negros]”, litografia de I. L. Deroi com base em um desenho de Rugendas, in Johann Moritz Rugendas, Voyage pittoresque dans le Brésil. Paris: Engelmann & Cie., 1835, 4a divisão, prancha 5, s.p. Fonte: Biblioteca do Instituto de Estudos Brasileiros da USP

de 1832

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ameaças de insurreição, na década de 1820 e em 1830. O que se conclui da leitura dos depoimentos no processo crime, de acordo com Ricardo, é que o plano de revolta de 1832 estava muito bem organizado em termos de armamento, comando e divisão de tarefas. Conforme ele apurou, no momento em que foi descoberto, o plano já possuía ramificações em 15 grandes fazendas de Campinas, pertencentes a 11 distintos proprietários. Como exemplo da estratégia montada, cada uma delas possuía um escravo intitulado “capitão”, que tinha a função de convidar outros parceiros para a revolta e também a de arrecadar dinheiro. As investigações das autoridades mostraram também que o liberto João Barbeiro estava convidando outros escravos moradores da cidade de São Paulo para se juntarem ao levante. As informações extraídas dos interrogatórios dos escravos também não deixam dúvidas acerca do objetivo principal dos revoltosos, conforme as palavras de um deles ao responder sobre a finalidade dos ajuntamentos noturnos que faziam escondidos dos senhores: “levantar afoitamente, matar [os brancos] e ficarem eles pretos todos forros”. Para frustração dos revoltosos, porém, nem tudo saiu como o planejado: o comportamento insubordinado de alguns dos envolvidos acabou despertando a atenção senhorial. O plano foi abortado antes de sua eclosão, impedindo “pai” Diogo e seus empolgados seguidores de levar adiante os intentos de liberdade. Da vasta documentação a que teve acesso para elaborar a minuciosa dissertação agora publicada em livro, Ricardo só lamenta não ter localizado a pintura da coroação do negro retirada das mãos do escravo Joaquim Congo, embora originalmente a obra tivesse sido anexada ao processo crime. Informações transcritas de uma cópia do processo é que lhe permitiram descrever a figura e narrar as circunstâncias de seu aparecimento no episódio de 1832. Não se sabe o paradeiro da imagem. Talvez, assim como as esperanças de liberdade que se volatizaram com o fracasso da insurgência, o desenho que materializava em seus contornos a ambicionada ascensão social dos negros tenha também se desvanecido.

Senzalas-barracos. “Feitores corrigeant des nègres à la roça [Feitores corrigindo (sic) negros na roça]”. Aquarela sobre papel: 15 x 19,8 cm, J.-B. Debret, Rio de Janeiro, 1828. Fonte: Museus Castro Maya

Clássico de Slenes joga por terra visão eurocêntrica Senzala insurgente vem a lume em muito boa companhia, já que seu lançamento ocorre simultaneamente à reedição de um clássico da interpretação histórica a respeito da instituição familiar escrava no Brasil. Na senzala, uma flor (Editora da Unicamp, 304 páginas) fora publicado em 1999 e há muito se esgotara, de modo que a segunda edição sai agora para atender a enorme demanda de leitores ávidos por conhecer uma obra que impactou fortemente o debate historiográfico acerca da escravidão no país. Seu autor, o professor Robert Slenes, do Departamento de História da Unicamp, vem influenciando e formando, com seus estudos focados na família cativa, gerações de historiadores, como Ricardo Pirola, a quem orienta desde a iniciação científica, e cuja dissertação em muito corroborou os principais argumentos defendidos pelo mestre nas páginas da publicação relançada. O título refere-se à metáfora utilizada pelo viajante francês Charles Ribeyrolles, que ao relatar suas observações de uma visita ao Brasil, em 1859, comparou os escravos a “ninhadas”, que viviam de maneira promíscua e desprovidos das condições mínimas capazes de permitir a constituição de famílias, sem qualquer perspectiva de passado e de futuro. “Nos cubículos dos negros, jamais vi uma flor: é que lá não existem esperanças nem recordações”, escreveu. Contrapondo-se a visões limitadas como essa sobre o cotidiano das senzalas não só difundidas por visitantes estrangeiros no século 19, mas que inclusive permearam parcela significativa da produção acadêmica nacional nos anos 1970, Slenes resgata, ao longo dos quatro capítulos de sua obra (complementados por vasta bibliografia), os

significados da família e do parentesco – a metafórica “flor na senzala” – para os próprios escravos, revelando a influência da herança cultural africana na organização do espaço familiar no cativeiro. E o faz de maneira meticulosa, por meio da revisão de conceitos elaborados pela historiografia brasileira, por meio da releitura crítica dos relatos dos viajantes, e amparado por um profundo processo investigativo acerca da demografia da escravidão no Brasil desenvolvido durante mais de duas décadas, desde o seu doutorado em 1976 na Stanford University (EUA). “Slenes discute a família escrava à luz da cultura africana, mas suas conclusões e métodos vão muito além do tema específico. Argumenta que tradições centroafricanas fundamentaram identidades e solidariedades que marcaram a luta de classes no Sudeste escravista. Muitos adeptos e estudiosos das tradições banto encontrarão aqui fogo bom para sua panela cultural. Além disso, essa meticulosa investigação dos sentidos culturais da família escrava é uma lição de método para quem pretenda estudar qualquer outra “tradição” da África em terras brasileiras”, escreve o historiador João José Reis na apresentação do livro. Na obra, Slenes documenta a significativa presença de família escrava nas grandes fazendas e propriedades medianas das áreas de cultivo de cana-de-açúcar do Sudeste, desde o final do século 18 até a Abolição. A existência de uniões estáveis por mais de 10 anos, envolvendo parte significativa da população escrava, evidenciou-se na análise pormenorizada de inúmeros arquivos, entre registros de batismos e casamentos da Igreja Católica, matrículas de escravos e inventários post-mortem em muni-

Fotos:Antoninho Perri

Slenes: “Não era mais sustentável o argumento de que as condições do trabalho forçado e as decisões maquiavélicas dos senhores haviam destruído as famílias dos cativos”

cípios nos quais esses dados estavam disponíveis, como Campinas, no antigo Oeste Paulista. Segundo Slenes, o esforço da empreitada justificava-se, “já que não era mais sustentável o argumento, comum na bibliografia clássica sobre a escravidão no Brasil e especialmente no Oeste Paulista, de que as condições do trabalho forçado e as decisões maquiavélicas dos senhores haviam destruído as famílias dos cativos”, minando a capacidade de mobilização política dos escravos contra seus opressores e os anulando como sujeitos históricos. Até a década de 1970, as interpretações da historiografia da escravidão no Brasil haviam sido fortemente influenciadas pelo olhar parcial dos viajantes europeus, para quem a vida nas senzalas, impregnada pelo desregramento e pela promiscuidade, aniquilaria com a possibilidade da existência familiar – entendimento este sintetizado so-

bretudo na vertente de pensamento que caracterizou a chamada “escola paulista de sociologia”, onde pontificavam as análises de Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso, entre outros. Para Florestan, por exemplo, a destruição da família havia empurrado os cativos africanos e seus descendentes a um completo estado de “anomia”, ou seja, a uma vida sem normas e nexos sociais, “perdidos uns para os outros”, por isso o papel do negro na abolição da escravatura e na revolução burguesa no Brasil estava relegado a um plano secundário. Nas décadas seguintes, um conjunto de novos estudos – no qual se inserem as ricas e reveladoras pesquisas apresentadas em Na senzala, uma flor – promoveu uma reavaliação desses conceitos com o intuito de resgatar o escravo como protagonista de sua própria história. Como reflexo, a historiografia deixou de negar a existência da família escrava, sendo também desconstruída a tese da promiscuidade natural entre os cativos. Slenes confessa ter resistido à tentação de fazer modificações maiores ou mais substanciosas na segunda edição, que deixa o prelo “apenas com pequenas correções no texto”. Ele ponderou que seria melhor reservar para outro volume as “muitas coisas novas” que tem a contar sobre os temas do livro, “após uma década de pesquisas, minhas e de outros”. O certo é que dará continuidade às análises de Na senzala, uma flor, mas com o enfoque direcionado às instituições político-religiosas dos escravos centro-africanos e seus descendentes nas fazendas do Sudeste, como resultado do que ele classifica de “viagem” rumo à África Central. Ansiosos, seus leitores torcem para que o retorno dessa jornada seja o mais breve possível.


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Nas n bas propriedades ca

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Estudo comprova funcionais de frutas do Cerrado Foto: Antoninho Perri Foto: Antoninho Perri

Gabiroba, guapeva e murici podem ser usadas pelas indústrias farmacêutica e alimentícia MARIA ALICE DA CRUZ

G

halice@unicamp.br

abiroba, guapeva e murici são frutas comumente saboreadas no Cerrado brasileiro, mais precisamente na região Centro-Oeste. Apesar da crença popular de que teriam efeitos positivos na saúde humana, nunca foi descrito na literatura o potencial anti-inflamatório e antioxidante dessas espécies. Um estudo pioneiro associando ciência de alimentos e saúde apresenta resultados positivos em relação ao potencial biológico destas frutas. Diante da comprovação, se utilizadas nas indústrias farmacêutica, alimentícia e cosmética, as frutas devem contribuir no combate ao desenvolvimento de doenças crônico-degenerativas, tais como câncer e diabetes. “As frutas podem ser usadas tanto na forma in natura ou como ingredientes funcionais nessas indústrias”, ressalta Luciana Malta, autora da tese. Essas pequenas, mas poderosas, frutas devastadas durante o processo mecanizado de “limpeza” e adubo da terra no Cerrado poderiam mudar a história de muitas pessoas na luta contra o câncer e outras doenças. Comparadas a outras drogas já conhecidas no mercado, as frutas apresentaram alto potencial, segundo Luciana, podendo ser usadas no enriquecimento de produtos comestíveis pela indústria alimentícia. “Além disso, seus compostos ativos poderiam ser retirados e encapsulados pela indústria farmacêutica, já que não observamos nenhum nível toxicológico ao testar os extratos

Luciana Malta, autora da tese, e extratos de frutas típicas do Cerrado (destaque): abrindo caminho para outros testes

em animais”, enfatiza. Ao aplicar os extratos das frutas em diferentes células cancerígenas humanas, obtidas no banco de células do Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA), Luciana também observou um alto potencial anticâncer. “As plantas impediram o crescimento celular”, reafirma. Esse resultado motivou o desenvolvimento de pesquisas com pacientes com câncer do Hospital das Clínicas da Unicamp, em um projeto de pós-doutorado também orientado por Gláucia Pastore. Por não terem sido tóxicas aos animais utilizados na pesquisa e fazerem parte da alimentação da população da região do Cerrado, as frutas podem ser testadas em seres humanos com segurança, se consumidas na dose certa, segundo Luciana. As espécies também demonstraram potencial superior quando

comparadas com frutas estudadas nos Estados Unidos, onde Luciana realizou doutorado-sanduíche pela Universidade de Cornell, sob coorientação do professor Rui Hai Liu. “Algumas atividades mostraram que as espécies analisadas são cem vezes mais potentes que outras tidas como frutas de alta atividade”, acrescenta Luciana. De acordo com a pesquisadora, o extrato da casca de guapeva demonstrou alto potencial nos testes in vivo, enquanto a gabiroba foi eficiente em avaliações in vitro. A parte da pesquisa realizada nos Estados Unidos é inédita, segundo Luciana, e permite que os resultados de experimentos com células sejam obtidos em 24 horas, utilizando uma quantidade mínima de extrato de frutas. “Não é considerada uma análise in vivo, mas ofereceu os mesmos resultados das análises realizadas em animais. Então por que utilizar tanto

animal e extrato, se com as células consigo o mesmo resultado?” O método utilizado nos Estados Unidos foi trazido por ela ao Brasil para testar frutas e vegetais brasileiros. Diante dos resultados, Luciana acentua que a pesquisa não pode ser engavetada, mas sim abrir caminho para que outros testes sejam realizados e os resultados aprimorados até chegarem à fase de produto disponível para a população. Um dos próximos passos é definir a quantidade ideal a ser consumida. “Tudo tem um limite para ser consumido, senão o organismo pode sofrer também com o excesso de algumas propriedades contidas nos alimentos. Então, é preciso avançar na pesquisa”, esclarece.

Devastação Assim como gabirobas e guapevas, outros vegetais podem estar em processo de extinção no Cerrado, devido

Psicóloga propõe pré-consulta em extração de ‘dentes do siso’ Dissertação sugere procedimento preparatório para que paciente �ique mais seguro RAQUEL DO CARMO SANTOS kel@unicamp.br

Oferecer informação ao paciente pode ser uma arma para diminuir a ansiedade e resposta de dor no momento de extrair os terceiros molares ou “dentes do siso” como são conhecidos popularmente. Isto foi o que apontou pesquisa desenvolvida na Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP) pela psicóloga Juliana Zanatta. Ela propõe incorporar um procedimento preparatório ao protocolo do cirurgião-dentista

antes de começar o processo de extração desses dentes, que não têm utilidade na mastigação. A ideia, segundo ela, é transmitir ao paciente um conjunto de informações para esclarecer todas as questões que envolvem a extração, o porquê do procedimento e as possíveis reações no período pós-operatório. Segundo Juliana, nesta préconsulta que acontece no mesmo dia da cirurgia, em uma sala diferente daquela a qual a mesma seria realizada, o paciente deve ficar confortável para responder questões e assistir aos vídeos contendo perguntas e respostas mais frequentes nesta situação. “A proposta é que o cirurgião tenha um contato face a face com o paciente antes de iniciar a cirurgia para fornecer informações necessárias e, assim, realizar o procedimento de forma mais segura para ambos. Nesses casos, os níveis de ansiedade costumam ser altos e isto pode comprometer o atendimento odontológico. Sem contar que se trata de um direito do paciente receber todas as informações sobre o assunto”, justifi ca a pesquisadora.

O estudo foi realizado com 123 pacientes atendidos na FOP subdivididos em dois grupos: controle e experimental. Foram aplicados questionários sobre ansiedade e dor e aferidas medidas fisiológicas, tais como pressão arterial e frequência cardíaca. Este processo foi realizado antes e após a cirurgia, três dias depois da extração e no dia em que o paciente retornava para retirar os pontos. “Acompanhei todos os pacientes ao longo de uma semana para poder descrever e analisar os comportamentos e as mudanças fisiológicas”, explica Juliana No estudo proposto pela psicóloga, foram desenvolvidos vários vídeos de curta duração. Por exemplo, Juliana questionava se o paciente saberia dizer o que são os terceiros molares. O voluntário respondia à questão e, em seguida, assistia ao vídeo com a informação correta. Ela explica que optou pelo vídeo explicativo para padronizar o nível de informação a ser recebida por todos os pacientes. Isto porque, se ela mesma respondesse poderia dar respostas diferenciadas para cada perfil de paciente e, assim,

Foto: Cesar Maia

ao processo acelerado de ocupação agrícola e à exploração extrativista e predatória. As baixas são significativas nas safras dos produtos e há dados de que cerca de 40% do bioma já tenha sido desmatado. A grande chamada do trabalho, na opinião de Luciana, é para a biodiversidade brasileira. “Estamos perdendo esses vegetais e a cura de muitas doenças pode estar nessa biodiversidade”, enfatiza Luciana. Ela informa que nos últimos 35 anos, mais de metade da extensão original do Cerrado foi substituída por plantações de soja e por pastos para a criação de gado de corte. De acordo com um relatório técnico da Conservação Internacional – Brasil, os desmatamentos anuais na região chegam a 1,1%, representando uma perda de 2,2 milhões de hectares ao ano. “Se esse ritmo for mantido, o bioma será eliminado por volta do ano 2030”, adverte. Ela acredita que os cientistas também precisam chamar atenção para a devastação do bioma do Cerrado. “Para o Centro-Oeste, principalmente para fazendeiros, vale mais a pena devastar a vegetação e fazer um pasto que manter as frutas. O próximo passo é fazer com que a população se conscientize da importância da manutenção deste bioma. Agora temos dados científicos para chamar atenção tanto da população como também do próprio governo do Centro-Oeste”. Luciana acrescenta que o bioma Cerrado possui uma diversidade grande de frutos importantes na sustentabilidade da região. Com esta enorme biodiversidade criou-se uma tradição de uso de espécies alimentícias, medicinais, madeireiras, tintoriais e ornamentais. As frutas nativas são comercializadas e consumidas in natura ou beneficiadas por indústrias caseiras na forma de sucos, geleias, sorvetes e licores. “O Brasil precisa conhecer melhor sua biodiversidade. Muitos dos frutos do país ainda são desconhecidos ou pouco utilizados”, pondera.

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Tese: Avaliação biológica de frutas do Cerrado brasileiro: guapeva, gabiroba e murici Autora: Luciana Malta Orientação: Gláucia Pastore Unidade: Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA)

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não garantir a informação básica para todos. A orientação da pesquisa esteve a cargo do professor Antonio Bento Alves de Moraes. Uma pesquisa anterior desenvolvida na Faculdade de Ciências Médicas (FCM) por Maylu Botta Hafner, no início do ano, serviu de base para o estudo de Juliana Zanatta. Nela, Maylu Hafner, orientada pela professora Angélica Maria Bicudo Zeferino e coorientada por Moraes, produziu um vídeo animado sobre a exodontia de terceiros molares para também ser adotado como um procedimento preparatório. “O meu trabalho avançou em termos de incluir a presença do pesquisador e promover um contato mais humanizado”, esclarece a pesquisadora.

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A psicóloga Juliana Zanatta: analisando os comportamentos e as mudanças fisiológicas

Dissertação: “Procedimento preparatório face a face e respostas de ansiedade e dor em jovens submetidos à exodontia de terceiro molar” Autor: Juliana Zanatta Orientador: Antonio Bento Alves de Moraes Unidade: Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP) Financiamento: Capes e Fapesp

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Campinas, 7 a 20 de novembro de 2011

A indústria nacional pré e pós-29: prelúdio, ruptura ou continuidade? Foto: Divulgação

Estudo mostra que, ao longo da década de 1920, padrão de desenvolvimento industrial tornou-se mais complexo CARMO GALLO NETTO

E

carmo@reitoria.unicamp.br

xiste certo consenso entre especialistas de que dois períodos foram cruciais para o processo de industrialização do Brasil. A década de 20, após a Primeira Guerra Mundial – que impôs a necessidade de substituir importações, e a década de 30, que sucedeu à Grande Depressão de 29 – que impulsionou a ampliação e extensão da indústria nacional. Em relação à trajetória do desenvolvimento da atividade industrial em São Paulo, os estudos desses períodos suscitam polêmicas. Há os que defendem a continuidade dos dois períodos, pré e pós 1930, e os que entendem que ocorreu uma ruptura e que o crescimento anterior à década de 1930 foi diferente ao que o sucedeu. A década de 20 teria sido um prelúdio para o momento de modificação. Com o objetivo de revisar essa polêmica e explorar evidências empíricas desses períodos, Tatiana Pedro Colla Belanga realizou pesquisa que gerou uma tese apresentada ao Instituto de Economia (IE) da Unicamp. O estudo foi orientado pelo professor Pedro Paulo Zahluth Bastos. Para a autora, o trabalho contribui principalmente para o incremento do debate acadêmico acerca da polêmica sobre a continuidade ou descontinuidade do desenvolvimento industrial entre as duas décadas e apresenta elementos que permitem revisar se a Crise de 1929 marcou efetivamente um período de ruptura. Ela se propôs a reverificar se a Grande Depressão determinou uma transição entre o crescimento industrial atrelado ao setor agrícola (década de 20) e um processo de industrialização propriamente dito (década de 30), em que a diversificação já alcançada pela indústria propiciava-lhe subordinar a agricultura ao invés de ser por ela subordinada, mesmo com a industrialização restringida pela falta de um setor de bens de capital mais amplo. Contornando a inexistência de um Censo Industrial de1930 – os trabalhos disponíveis baseiam-se nos censos de 1920 e 1940 – ela recorreu aos dados das Estatísticas Industriais do Estado de São Paulo e principalmente aos balanços contábeis de quatro empresas, uma do setor têxtil, uma do setor de máquinas e duas metalúrgicas. É na utilização destes dados primários que o estudo se revela inovador. Com base nos dados coletados, o estudo mostra que a partir da Primeira Guerra Mundial, e principalmente no decorrer da década de 1920, o padrão de desenvolvimento industrial tornouse mais complexo. Os investimentos industriais se expandiram em direção ao ramo de bens intermediários – notadamente cimento, aço, papel e celulose, borracha e derivados, produtos químicos – além de setores vinculados ao ramo de bens de capital – tais como máquinas e equipamentos. Em síntese, diz Tatiana, “a diversificação industrial a partir da Primeira Guerra e ao longo dos anos 20 inicia uma mudança estrutural na economia brasileira que marcaria a década de

Vista aérea da Companhia Mac Hardy, cujos balanços, publicados no Diário Oficial, foram analisados pela autora da tese

30”. A pesquisa ancorou-se na análise da indústria paulista e adotou, como parâmetros, crescimento, estrutura produtiva setorial, produtividade, financiamento, fontes de crescimento, investimento e lucratividade das empresas estudadas. Paralelamente, identificou a velocidade da diversificação e o crescimento do setor metalúrgico nesse parque industrial. Instada a mostrar possíveis implicações da pesquisa, Tatiana afirma que “o trabalho de certa forma permite um entendimento da crise de 2008. Marc Bloch, historiador da Escola dos Annales, levanta a importância do passado para a compreensão do presente, assim como o inverso. O Brasil, nos anos 30, diferentemente de todos os outros países, aplicou uma política anticíclica – expressão cunhada por Keynes para o gasto público efetuado em momento de crise para reverter ou atenuar seu efeito – injetando dinheiro na economia através da compra e queima de excesso de estoque de café. Foi graças a essa política que o Brasil foi capaz de promover uma recuperação bem mais rápida que outros países e que possibilitou o processo de industrialização. Essa experiência certamente serviu para que na crise atual os governos tentassem aplicar políticas anticíclicas injetando dinheiro público na economia para evitar uma quebradeira geral do sistema”.

O processo A primeira fase do desenvolvimento industrial paulista (1880-1920) teve como característica a subordinação da indústria ao complexo cafeeiro e este

às demandas externas. Manifestava-se no Brasil um processo de capitalismo tardio e o capital industrial estava vinculado a uma atividade mercantil exportadora, principalmente o café. Essa primeira fase do desenvolvimento industrial consolidou principalmente as indústrias de bens de consumo não duráveis, enquanto na Europa e nos Estados Unidos já se alavancavam outras formas de indústrias tecnologicamente mais avançadas. Os anos 20 marcaram uma nova fase da indústria. Embora ainda impulsionada pelo comportamento das exportações agrícolas, a indústria que se sedimenta então em São Paulo já é mais complexa e diversificada. Entende-se a atividade industrial desse período como a preparação do processo de industrialização restringida – assim chamada pela limitação de bens de capital, consolidada a partir da década de 30. Os ramos e os setores industriais implantados anteriormente maturaram no período subsequente. A autora afirma ainda que “a Crise de 1929, mais do que a crise do complexo exportador cafeeiro, representou a precipitação da crise da economia exportadora capitalista, na medida em que estavam já criadas pelo próprio desenvolvimento do capitalismo mercantil as condições fundamentais para a negação de seu predomínio”. O estudo dedica-se a analisar o desempenho industrial no estado de São Paulo, principalmente dos setores têxtil e metalúrgico durante as décadas de 20 e 30, abrangendo a Crise de 1929 e a Grande Depressão. A partir daí visa avaliar os possíveis impac-

tos decorrentes da crise na indústria brasileira sob uma nova perspectiva, diferentemente dos estudos existentes embasados em geral em análises de dados gerais e agregados. Após perpassar algumas teorias sobre o crescimento industrial da década de 1920 e o significado de 1930 para o processo de industrialização, o trabalho apresenta dados que corroboram a teoria de que a década de 1930 teve seu caráter revolucionário, ao contrário do que afirmam alguns autores, sem deixar de mostrar a importância dos anos 20 como preparação do processo de industrialização restrita, consolidada a partir da década de 1930. Para a autora, “a ruptura ocorrida na Primeira Guerra Mundial talvez não encontrasse naquele momento uma diversificação industrial e condições econômicas e sociais suficientes que permitissem a ocorrência desse salto”.

Balanços Além das estatísticas industriais do estado de São Paulo, a pesquisadora utilizou os balanços publicados no Diário Oficial pela Fábrica de Tecidos Labor, do setor têxtil; pela Companhia Mac Hardy, fabricante de máquinas; e pelas metalúrgicas Companhia Industrial e Mercantil Casa Fracalanza & Metalúrgica Fracalanza e Sociedade Anônima Souza Noschese. Os critérios de escolha levaram em conta a extensão e importância dessas atividades na época, o fato de essas empresas publicarem ininterruptamente balanços durante os anos dos períodos estudados e que, além disso, permitiam o estabelecimento de uma metodologia Foto: Antoninho Perri

única, já que, diferentemente de hoje, essas prestações de contas não eram padronizadas. Na tese são ainda comparados os setores têxtil e metalúrgico. O primeiro, já consolidado, e o segundo, ainda relativamente pequeno. Este começou a se desenvolver principalmente a partir da Primeira Guerra face às barreiras de importações e mais amplamente depois da crise de 29, passando a adquirir particular importância na fase em que a indústria se diversificava e se autofinanciava e não era mais subordinada ao complexo agrário exportador. Este é o ponto crucial do estudo. Contextualizando, a pesquisadora lembra que até os anos 20 a renda do país dependia das exportações agrícolas, principalmente o café, e que a maioria dos produtos industrializados era importada. A crise mundial, ao provocar forte contração das importações, proporcionou notável estímulo para a indústria. Isso é sabido. A inovação do trabalho está no desenvolvimento de uma metodologia que utiliza balanços contábeis de empresas para estabelecer alguns índices que permitem analisar produção, investimentos e financiamentos, lucratividade e fontes de crescimento delas. “A evolução desses índices permite comprovar que a partir de 1929 passamos a um processo de industrialização propriamente dito em que a atividade industrial torna-se a atividade principal da economia”, diz Tatiana. Ela lembra que a Companhia Mac Hardy, sediada em Campinas e uma das empresas estudadas, fabricava inicialmente equipamentos para a produção de algodão e café, mas a partir de um certo momento passa também a produzir máquinas metalúrgicas básicas. Seus produtos não se destinavam mais apenas à agricultura, mas também à própria indústria. Apesar disso, o processo não se completou pela falta de desenvolvimento do setor de bens de capital, responsável pela produção de máquinas e equipamentos para a própria indústria, sem o que um país não tem consolidado seu parque industrial. A comparação dos setores têxtil e metalúrgico mostra que o primeiro sofreu muito mais com a Crise de 29 e teve recuperação bem mais lenta que o segundo que vinha se diversificando desde a década de 20. A propósito, ela acrescenta que o crescimento da indústria metalúrgica apoiou-se bem mais na tecnologia do que o da indústria têxtil, o que a transformou no motor da própria industrialização. Com efeito, a recuperação do setor têxtil se deu principalmente por utilização de capacidade ociosa, o que não produz um incremento tecnológico. Para a pesquisadora, este é mais um dado que dá suporte à tese de que ocorria modificação da produção industrial na década de 1920 como a preparação do processo de industrialização restringida. Os anos 30 seriam, então, um marco da consolidação do capitalismo no Brasil: embora a industrialização permanecesse restringida por barreiras técnicas e financeiras. Esta é a principal conclusão. Tatiana entende que o estudo dá suporte às teorias já existentes e adquire consistência com a agregação de dados primários. Ela espera incentivar novas pesquisas que utilizem balanços contábeis de empresas de outros períodos para a análise de momentos de crise importantes para entender o hoje e que ajudam a compreender o que pode vir a acontecer amanhã.

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Tatiana Pedro Colla Belanga: agregação de dados primários e contribuição ao debate acadêmico

Tese: “Indústria brasileira nas décadas de 1920 e 1930: revisão da polêmica e exploração de evidências empíricas”. Autora: Tatiana Pedro Colla Belanga Orientador: Pedro Paulo Zahluth Bastos Unidade: Instituto de Economia (IE)

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10 Vida Teses da semana Painel da semana Teses da semana Livro da semana Destaques do Portal da Unicamp

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Campinas, 7 a 20 de novembro de 2011

Painel da semana  Workshop de Petróleo da Unicamp - O 4° Workshop de Petróleo da Unicamp, evento que acontece de 7 a 10 de novembro, apresentará as tendências tecnológicas nas áreas abrangidas pela Engenharia de Petróleo, além de questões pertinentes ao futuro do setor. As palestras abordarão os seguintes assuntos: reservatórios e gestão, exploração, economia, sistemas marítimos de produção, geologia, entre outros. O workshop ocorre na Faculdade de Engenharia Química (FEQ). A organização é do Unicamp SPE Student Chapter http://www.speunicamp.org.br/  MultiTrad organiza simpósio nacional - O Grupo de Pesquisa MultiTrad Abordagens Multidisciplinares da Tradução (IEL) organiza, de 7 a 9 de novembro, o seu primeiro simpósio nacional. A conferência de abertura será realizada às 14h15, no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL). Inscrições e outras informações: grupo.multitrad@gmail.com  SLACA – De 5 a 8 de novembro, na Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA), acontece o Simpósio Latino-americano de Ciência de Alimentos (Slaca). Mais detalhes na página eletrônica http://slaca.com. br./index.php  Carlos Vogt no Aulas Magistrais - O professor Carlos Vogt é o próximo convidado que participará do Aulas magistrais, evento organizado pela PróReitoria de Graduação (PRG). Em palestra no dia 9 de novembro, às 12h30, na sala CB-06 do Ciclo Básico, Vogt mostrará ao público o quanto a linguagem verbal é gestual na sua dimensão semântica e o quanto essa gestualidade, sendo estruturalmente funcional, é responsável pela dimensão pragmática da linguagem. Mais informações no link http://www. prg.unicamp.br/aulas/index.php/aulas  Óleos essenciais - O VI Simpósio Brasileiro de Óleos Essenciais será realizado de 9 a 11 de novembro, no Instituto Agronômico de Campinas (IAC). O evento é organizado pelo Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA) da Unicamp, IAC e Embrapa. Outras informações: 19-2139-2868.  Síndrome de Burnout - Dentro de seu ciclo de palestras sobre qualidade de vida na sociedade contemporânea, no dia 9 de novembro, das 12h30 às 13h20, o Instituto de Biologia (IB) recebe a professora Maria Elenice Quelho Areias, coordenadora do Laboratório de Saúde Mental e Trabalho da Faculdade de Ciências Médicas (FCM). Em palestra, ela fala sobre Síndrome de Burnout.  Fórum Extra 1- “Educação medicalizada: Dislexia, TDAH e outros supostos transtornos”. Temas serão abordados no dia 10 de novembro, das 9 às 17 horas, no auditório da Faculdade de Ciências Médicas (FCM). Mais detalhes em http://foruns.bc.unicamp. br/extras/foruns_extras.php  Fórum Extra 2 - “Doenças Transmissíveis de Interesse em Saúde Pública na Região de Campinas”. Este é o tema da próxima edição dos Fóruns Extras. O evento ocorre no dia 11 de novembro, a partir

das 8h45, no auditório da Faculdade de Ciências Médicas (FCM). Programação e outras informações: http://foruns.bc.unicamp.br/extras/foruns_extras.php n Vestibular - A Unicamp realiza no dia 13 de novembro, a primeira fase de seu Vestibular Nacional 2012. Veja o calendário completo http://www.comvest. unicamp.br/vest2012/calend2012.html  Multiathlon na FEF - Nos dias 15 e 16 de novembro, a Faculdade de Educação Física (FEF) recebe a décima edição do Multiathlon (http://www. multiathlon.com./). No evento haverá 47 provas a serem disputadas no prazo de 24 horas. Elas estão divididas em três modalidades obrigatórias (ciclismo, corridas e natação), que lembram um triatlo generalizado, e mais oito em que o competidor escolhe à vontade (apneia, escalada, saltos e lançamentos, levantamento de peso, náutica, disparos e patinação/ skate). Vence aquele que acumular mais pontos. O desafio começa às 9 horas, na FEF. A competição deve se estender até às 8 horas do dia 16, quando será servido um café da manhã aos participantes. Durante o evento os competidores participarão de um estudo piloto sobre alterações cognitivas em eventos de longa duração. Mais informações: 19-8818-7396.  Fórum de Desafios do Magistério - As diferentes faces do racismo e suas implicações na escola. Tema estará em debate no dia 16 de novembro, a partir das 9 horas, durante a realização do Fórum Permanente de Desafios do Magistério. O evento ocorre no Centro de Convenções da Unicamp. Programação detalhada e outras informações: http://foruns.bc.unicamp.br/ magis/foruns_magis.php  Fórum de Ciência e Tecnologia - Próximo evento com o tema “Avaliação Continuada de Educação Superior e CT&I” acontece no dia 17 de novembro, a partir das 9 horas, no Centro de Convenções da Unicamp. Mais detalhes na página eletrônica http:// foruns.bc.unicamp.br/tecno/foruns_tecno.php  Fóruns de 2012 - A Coordenadoria Geral da Universidade (CGU) recebe, até 17 de novembro, as propostas de Fóruns Permanentes para o calendário de 2012. Os interessados devem preencher o formulário eletrônico no link http://www. unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/divulgacao/ cgu/propostaforumcgu2012.doc e encaminhá-lo para o e-mail forunspermanentes.cgu@reitoria. unicamp.br. Os contemplados serão notificados por e-mail e convidados para uma reunião no dia 23 de novembro, das 12h30 às 13h15, na Coordenadoria de Desenvolvimento Cultural para esclarecimentos sobre a rotina dos Fóruns.  Vestibulinho do Cotil - O Colégio Técnico de Limeira, o Cotil, já está recebendo as inscrições para o seu Exame de Seleção de 2012. As provas serão aplicadas no dia 27 de novembro, a partir das 14 horas, nas cidades de Campinas, Americana, Limeira, Araras, Cosmópolis, Piracicaba e Rio Claro. A lista com os cursos oferecidos pelo Cotil pode ser consultada no link http://www.cotil.unicamp.br/ cursosoferecidos.php  Inovações Curriculares - O III Seminário de Inovações Curriculares acontece de 12 a 14 de dezembro, no Centro de Convenções da Unicamp. A abertura oficial será realizada às 8h30. As inscrições são abertas à comunidade em geral e podem ser feitas até 11 de dezembro, no site http://www. prg.unicamp.br/inovacoes/2011/. A organização é da Pró-reitoria de Graduação e da Faculdade de Educação (FE) da Unicamp.  Fé, Festa e Memória - O Grupo de Pesquisa Memória e Fotografia (GPMeF) promove até 30 de novembro, no saguão do Ciclo Básico Básico I da Unicamp, a exposição fotográfica ‘Fé, Festa e Memória’. A mostra apresenta 23 fotografias coloridas (30x45 cm) que revelam diferentes olhares de pesquisadores sobre aspectos da tradição e da memória da religiosidade popular. O trabalho integra o calendário oficial do V Festival Hercule Florence de Fotografia realizado em Campinas durante o mês de outubro de 2011.

Eventos Futuros  Processamento de Alto Desempenho - A Unicamp, através do Centro Nacional de Processamento de Alto Desempenho (Cenapad), organiza, de 21 de novembro a 2 de dezembro, no Cenapad, um workshop sobre processamento de alto desempenho e suas

aplicações em simulação computacional. O workshop, que ocorerá em dois auditórios e em uma sala de treinamento do Centro de Computação (CCUEC), está dividido em 4 módulos. O primeiro abordará o tema “Introdução ao método de elementos finitos de alta ordem”. O segundo será sobre uma “Visão geral, Estudos de Caso e Tendências - Computação de Alta Performance (HPC)”. No terceiro ocorrerão aulas práticas em computação de alto desempenho. O quarto módulo será sobre “Aplicações de computação de alto desempenho para elementos finitos”. Como pré-requisito é desejável que o participante tenha alguma base em análise de elementos finitos e MPI. As inscrições para os módulos e a programação detalhada estão no link https://www-950.ibm.com/events/ wwe/grp/grp029.nsf/v16_agenda?openform&semina r=E9DKCXES&locale=pt_BR. O workshop é apoiado pela IBM Brasil. Mais informações: 19-3521-2196.  TEDxUnicamp - No dia 21 de novembro, das 9 à 12 horas, no Centro de Convenções, acontece o evento TEDxUnicamp (http://www.ted.com/tedx/events/2114) com o tema “As Fronteiras entre as Ciências e as Artes”. Todas as palestras serão proferidas por professores da Unicamp, de diversas áreas do conhecimento. Cada palestra ocorre nos moldes do TED (www.ted. com) com apresentações de 15 minutos, cobrindo tópicos multidisciplinares de pesquisas e áreas de conhecimento. No período da tarde, das 14 às 16 horas, será acontece o TEDxYouth@Unicamp (http:// www.ted.com/tedx/events/3472), evento direcionado ao público jovem. Outras informações sobre os eventos ligue: 19-3521-7923.  Palestra e workshop com Jorge Manilla - O Programa de Pós-graduação em Artes Visuais do Instituto de Artes (IA) organiza no dia 23 de novembro, uma palestra com Jorge Manilla, artista de grande reconhecimento no cenário da arte-joalheria. A palestra será realizada das 9 às 12 horas, no auditório da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC). O workshop ocorre no Instituto de Artes (IA). Mais informações pelo e-mail ws.manilla@gmail.com.  Enfoco - O Grupo de Estudos e Pesquisas Formar Ciências da Faculdade de Educação (FE) da Unicamp organiza no dia 25 novembro, a partir das 8h30, no Centro de Convenções da Unicamp, o VII Encontro de Formação Continuada de Professores de Ciências (Enfoco) com o tema “Políticas e práticas de reformas curriculares oficiais de ciências na escola fundamental”. O evento, que prossegue até o dia 26, tem como público-alvo professores da educação básica de Campinas-SP e municípios da região, graduandos de cursos de licenciatura e pós-graduandos em educação e áreas afins. Para participar do Enfoco, as inscrições devem ser feitas até o dia 20 de novembro, no endereço eletrônico http://www.fe.unicamp.br/enfoco/ inscricoes.html. O Enfoco ocorre a cada dois anos e conta com o apoio do Fundo de Apoio ao Ensino, à Pesquisa e Extensão (Faepex), da Faculdade de Educação (FE), da Prefeitura Municipal de Campinas e da Secretaria da Educação de Itatiba-SP. O professor Edilson Duarte dos Santos, doutorando pela FE, é um dos integrantes da comissão organizadora. Acesse a programação completa no hotsite http://www. fe.unicamp.br/enfoco/. Outras informações podem ser obtidas pelo e-mail edilson.santos@uol.com.br.  Senabraille - O evento ocorre de 27 a 30 de novembro, no Centro de Convenções da Unicamp. Terá como tema central Bibliotecas: espaços acessíveis a múltiplos usuários. A organização é da Unicamp e da Febab. Outras informações na página eletrônica http://www.sbu.unicamp.br/senabraille/ ou telefone 19-3521-6504.  Fórum de Empreendedorismo e Inovação - No dia 28 de novembro, das 9 às 17 horas, acontece mais uma edição do Fórum Permanente de Empreendedorismo e Inovação. A Mentoria Empresarial para Inovação é o tema central do evento. Programação e outras informações na página eletrônica http://foruns. bc.unicamp.br/empreen/foruns_empreen.php

Tese da semana  Computação - “Uma variação do protocolo DCCP para Redes de Alta Velocidade” (mestrado). Candidato: Carlos Augusto Froldi. Orientador: professor Nelson Luis Saldanha da Fonseca. Dia 11 de novembro, às 14 horas, no auditório do IC. - “Estudo de um caso de localização de um software ERP de código livre” (mestrado). Candidato: Luís Alfredo Harriss Maranesi. Orientador: professor Hans Kurt Edmund Liesenberg. Dia 11 de novembro, às 14 horas, no auditório do IC.

 Engenharia Elétrica e de Computação - “Sistema embarcado para monitoramento do conforto em transporte público” (mestrado). Candidato: Juan Camilo Castellanos Rodriguez. Orientador: professor Fabiano Fruett. Dia 16 de novembro, às 9 horas, na FEEC. - “Esquema de transmissão usando MIMO com múltiplas antenas” (mestrado). Candidata: Carmen Lúcia Avelar Lessa. Orientador: professor Gustavo Fraidenraich. Dia 18 de novembro, às 14 horas, na sala da congregação da FEEC. - “Técnica heteródina para geração de sinais de microondas multi-amplitude no domínio óptico” (mestrado). Candidato: Tomas Powell Villena Andrade. Orientador: professor Hugo Hernandez Figueroa. Dia 16 de novembro, às 14 horas, na FEEC.  Engenharia Mecânica - “A influência da microestrutura na usinabilidade do ferro fundido cinzento” (mestrado). Candidato: Luiz Roberto Munõz Dias. Orientador: professor Anselmo Eduardo Diniz. Dia 16 de novembro, às 10 horas, na FEM - “Modelamento de Nanocristais pelo uso de técnicas avançadas de QHRTEM” (doutorado). Candidato: Daniel Grando Stroppa. Orientador: professor Antonio José Ramirez Londono. Dia 7 de novembro, às 14 horas, no bloco K da FEM.  Engenharia Química - “Consumo de potência para impelidores rápidos aplicados em processos de agitação e mistura” (doutorado). Candidato: Edimilson Souza. Orientador: professor José Roberto Nunhez. Dia 8 de novembro, às 9h30, na sala de defesa de teses (bloco D) da FEQ.  Física - “Aplicação da radiografia por contraste de fase na visualização de articulações e cartilagens” (mestrado). Candidata: Thaís Diniz de Souza. Orientador: professor Carlos Manuel Giles de Mayolo. Dia 7 de novembro, às 10 horas, no auditório da Pósgraduação do IFGW.  Geociências - “O “Marketing ambiental” na sociedade capitalista. O Shopping Center e o consumidor” (mestrado). Candidato: Atílio Marchesini Junior. Orientadora: professora Regina Célia Bega dos Santos. Dia 11 de novembro, às 14 horas, no DGRN (sala B) do IG. - “Nova abordagem para os estudos paleobotânicos neopaleozoícos da borda leste na porção brasileira da Bacia do Paraná utilizando Sistemas de informações geográficas” (mestrado). Candidata: Isabel Cortez Christiano de Souza. Orientadora: professora Frésia Soledad Ricardi Torres Branco. Dia 18 de novembro de 2011, às 14 horas, no auditório do IG.  Linguagem - “Ordem de palavras, movimento do verbo e efeito V2 na história do espanhol” (doutorado). Candidato: Carlos Felipe da Conceição Pinto. Orientadora: professora Charlotte Marie Chambelland Galves. Dia 7 de novembro, às 13 horas, na sala de teses do IEL. - “Metamorfoses de Venus na poesia de Ovídio” (mestrado). Candidata: Gabriela Strafacci Orosco. Orientadora: professora Isabella Tardin Cardoso. Dia 7 de novembro, às 14 horas, na Sala de Colegiados do IEL. - “Aquarelas de um país tropical: Brasil, que país é esse?” (doutorado). Candidata: Marli Aparecida Rosa. Orientadora: professora Carmen Zink Bolonhini. Dia 7 de novembro, às 14 horas, no auditório do IEL.  Matemática, Estatística e Computação Científica - “Sobre o uso de regiões de confiança para minimização com restrições lineares” (doutorado). Candidata: Larissa Oliveira Xavier. Orientadora: professora Sandra Augusta Santos. Dia 9 de novembro, às 10 horas, na sala 253 do Imecc.  Medicina - “Qualidade de vida relacionada à deglutição na esclerose lateral amiotrófica” (mestrado profissional). Candidata: Andressa da Costa Franceschini. Orientadora: professora Lucia Figueiredo Mourão. Dia 7 de novembro, às 9 horas, no anfiteatro da CPG/FCM. - “Variabilidade da função autonômica em pacientes com hipertensão arterial resistente” (doutorado). Candidato: Leandro de Mattos Boer Martins. Orientador: professor Heitor Moreno Júnior. Dia 8 de novembro, às 14 horas, no anfiteatro do Departamento de Farmacologia da FCM. - “Avaliação do Tlics (Thoracolumbar Injury classification system) em 458 pacientes com traumatismo da coluna torácica e lombar” (doutorado). Candidato: Andrei Fernandes Joaquim. Orientador: professor Helder Tedeschi. Dia 18 de novembro, às 10 horas, no anfiteatro do Departamento de Neurologia da FCM.  Química - “Microextração em fase sólida e cromatografia gasosa convencional e bidimensional para classificação de méis” (doutorado). Candidata: Sandra Regina Rivellino Marques. Orientador: professor Fabio Augusto. Dia 17 de novembro, às 14 horas, no miniauditório do IQ.

Livro

da semana

John Maynard Keynes Autor: Hyman P. Minsky Tradução: Beatriz Sidou ISBN: 978-85-268-0939-0 Ficha técnica: 1a edição, 2011; 224 páginas; formato: 16 x 23 cm Áreas de interesse: Economia Preço: R$ 56,00 Sinopse: A publicação do livro John Maynard Keynes, em 1975, garantiu a Minsky posição de destaque no desenvolvimento do paradigma pós-keynesiano, em uma versão talvez mais bem nomeada: “keynesianismo financeiro”. Neste livro, Minsky faz um grande esforço para acrescentar à teoria do investimento de Keynes uma teoria financeira do investimento, ao discutir a importância do financiamento do investimento, sobretudo na gestação da instabilidade, inerente a economias capitalistas marcadas pela presença de sistemas financeiros organizados. Autor: Hyman Minsky (19191996) dedicou grande parte de sua pesquisa ao entendimento da gestação de crises financeiras, assim como de seu enfrentamento. Foi professor de economia em diferentes universidades: Brown (19491955), Berkeley (1957-1961?), Washington (1965-1990) e Levy Economic Institute of Bard College (1990-1996). Sua obra, consubstanciada em uma ampla gama de artigos e três livros, John Maynard Keynes (1975), Can “it” Happen Again (1982) e Stabilizing an Unstable Economy (1986), tem influenciado economistas e estudantes de econonomia há gerações, e continuará a influenciar por muitas outras.

DESTAQUES do Portal da Unicamp

Nepp apresenta estudos sobre a Renda Básica de Cidadania e Proteção Social 31/10/2011 – “Renda Básica de Cidadania e Proteção Social” foi o seminário promovido no último dia 31 pelo Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (Nepp) da Unicamp, com as presenças do senador Eduardo Suplicy e da professora Ana Maria Medeiros da Fonseca, secretária extraordinária para Superação da Extrema Pobreza do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS). Após o evento, Suplicy compareceu ao almoço oferecido pelo reitor Fernando Costa. Realizado no auditório da Biblioteca Central Cesar Lattes, o encontro teve o objetivo de trazer a público um projeto de apoio e implementação da Renda Básica de Cidadania (RBC) no município de Santo Antonio do Pinhal (SP), além de discutir propostas de distribuição de renda em execução no país. O projeto de lei instituindo a RBC, de autoria de Suplicy e sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em janeiro de 2004, assegura a todo cidadão o direito incondicional de partilhar da riqueza da nação e de ter o mínimo para sua subsistência.

“É o direito de qualquer pessoa – não importando sua origem, raça, sexo, idade, condição civil ou condição socioeconômica – participar da riqueza do país através de uma renda que atenda às suas necessidades vitais. A Lei 10.835 diz, em seu primeiro parágrafo, que a Renda Básica de Cidadania será instituída por etapas, a critério do Poder Executivo, começando pelos mais necessitados”, explica o senador. O que se prevê, segundo Eduardo Suplicy, é a transição gradual de um programa como o Bolsa Família – que hoje já atende a mais de 13 milhões de famílias (ou 51 milhões de brasileiros) – para a RBC, tornando-a cada vez mais universalizada, inclusive para os estrangeiros aqui residentes há cinco anos ou mais. “Da mesma maneira que os primeiros programas de renda mínima associados à educação (cuja origem está em Campinas em 1995 e no Distrito Federal), nós podemos iniciar a Renda Básica de Cidadania com experiências locais.” O senador ressalta que mesmo ele, assim como Pelé, Xuxa ou o empresário Antonio Ermírio de Moraes

terão direito à renda básica. “Em relação aos programas de transferência de renda existentes, acaba-se com a burocracia para se saber quanto o cidadão ganha e quanto precisa de complemento, e elimina-se o fenômeno da dependência, em que a pessoa desiste de iniciar uma atividade por causa do risco de receber menos que no programa. Do ponto de vista da dignidade e da liberdade do ser humano, hoje temos a jovem sem outra alternativa de sobrevivência se não vender seu corpo, o jovem que se torna ‘avião’ da quadrilha de entorpecentes, o trabalhador que se sujeita à condição de semiescravidão; essas pessoas poderão rejeitar tais alternativas e aguardar um tempo até que surja um trabalho de acordo com sua vocação e vontade.” Na prática, de acordo com a professora Ana Fonseca, ainda são pouquíssimas as experiências similares à Renda Básica de Cidadania pelo mundo. “No estado do Alaska, criou-se um fundo em que parte dos dividendos é destinada aos moradores, com certas condições como não possuir antecedentes criminais ou lá residir por no

mínimo um ano. Na Namíbia (África) foi implantado um projeto em Otjivero, mas é uma comunidade muito pobre onde a transferência de renda é uma necessidade para todos. E temos uma pequena experiência em Mogi das Cruzes, contemplando trinta pessoas no bairro Quatinga Velho, por meio de doação.” Santo Antonio do Pinhal

Mais recentemente, o prefeito de Santo Antonio do Pinhal, José Augusto Guarnieri Pereira, enviou à Câmara Municipal um projeto instituindo a RBC, que foi aprovado por unanimidade. A medida atendeu a um desafio lançado por Eduardo Suplicy alguns anos antes. “Durante uma palestra na Universidade do Vale do Paraíba, perguntei aos estudantes o que achavam de propor ao prefeito, ali presente, que fizesse da sua cidade um exemplo pioneiro de Renda de Cidadania. Ele perguntou o que precisava ser feito e iniciamos uma série de diálogos a partir do Ministério do Desenvolvimento Social.” Foi Ana Fonseca, antes de assumir seu posto no MDS, quem ini-

ciou os estudos pelo Nepp naquele município, agora coordenados pela professora Lilia Montali, com apoio da Corporação Andina de Fomento (CAF). Santo Antonio do Pinhal tem 6.500 habitantes e uma economia baseada no turismo e na pequena e média agricultura. “Quem não conhece a cidade pode pensar que priorizamos este projeto porque temos muitos problemas sociais. Na verdade, nem temos favelas e a pesquisa da Unicamp mostra índices expressivos em relação ao PIB e à renda per capita, além de 31 programas sociais. Preferimos trabalhar sob a ótica da engenharia inversa: ao invés de buscar a solução para um problema, aproveitamos a estabilidade para evitar que o problema surja, além de servir de modelo para outras cidades com maior desigualdade”, afirma o prefeito José Guarnieri Pereira. Ao final do seminário, houve o lançamento do CD “Transferência de renda no âmbito municipal no Brasil: Renda Básica de Cidadania em Santo Antonio do Pinhal”, resultado do convênio entre CAF e Unicamp. (Luiz Sugimoto)


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Campinas, 7 a 20 de novembro de 2011 Foto: Antoninho Perri

O professor Álfio Tincani (à esq.), orientador, e Fernando Fabrício Franco, autor da tese: cirurgias estão sujeitas a complicações

Lipoaspiração associada à lipoenxertia aumenta possibilidade de embolia Tese revela risco de mobilização de gordura sistêmica de um local do corpo para órgãos vitais ISABEL GARDENAL

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bel@unicamp.br

associação das técnicas de lipoaspiração e de lipoenxertia – que consiste na retirada da gordura de uma região (por meio de um pequeno orifício na pele) para injetá-la em outra – apresenta uma maior incidência de embolia gordurosa para os pulmões, caso ocorra, podendo ser até causa de morte após estes procedimentos. Apesar de complicações como essas não estarem devidamente registradas nos órgãos competentes de saúde, na tese de doutorado do cirurgião plástico Fernando Fabrício Franco, defendida na Faculdade de Ciências Médicas (FCM), ficou claro que essa associação cirúrgica mostra risco de mobilização de gordura sistêmica de um local do corpo também para outros órgãos essenciais como o fígado, os rins e o cérebro. Ainda que raro (ocorre em menos de 0,1% dos indivíduos submetidos à lipoaspiração), este evento pode comprometer a recuperação após a cirurgia ou acidente por trauma. A investigação, realizada entre os anos de 2008 e 2010, indicou em experimentos animais que a incidência dobrou no pós-operatório de até 48 horas, saltando nos casos apenas lipoaspirados de 30% para 60% nos lipoaspirados e lipoenxertados, descoberta que foi publicada há pouco na revista Annals of Plastic Surgery, de alto impacto na área de cirurgia plástica. Essa é a primeira pesquisa brasileira a considerar tais implicações.

De acordo com o orientador da tese e docente do Departamento de Cirurgia da FCM, Álfio Tincani, a grande preocupação é que essas cirurgias na maioria das vezes são voltadas à estética e mesmo assim são sujeitas a complicações que acabam subnotificadas. Essas podem se mostrar menos graves, como irregularidades de contorno, alterações de sensibilidade e de coloração da pele, e equimoses (infiltração de sangue na malha dos tecidos com dois a três centímetros de diâmetro); ou, sendo mais graves, são capazes de evidenciar intoxicações anestésicas, perfurações de vísceras, arritmias cardíacas, tromboembolismo pulmonar, culminando até em óbito. Há igualmente a Síndrome da Embolia Gordurosa, uma complicação multissistêmica advinda da mobilização da gordura na corrente sanguínea, que também pode levar à morte em poucas horas no pós-cirúrgico. Assim sendo, o objetivo do especialista foi avaliar se de fato ocorria mobilização de gordura após a lipoaspiração (para remoção do tecido adiposo das regiões do abdome e flancos), associada ou não à lipoenxertia.

Associação A lipoaspiração no Brasil é o segundo procedimento mais comum da especialidade de cirurgia plástica, com mais de 90 mil cirurgias por ano, vindo atrás da mamoplastia de aumento (próteses de mama). Este número, no entanto, não corresponde totalmente à realidade, por somente constar das estatísticas os membros da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) que responderam a um questionário enviado entre 2007 e 2008, dele excluindo-se as instituições de ensino em cirurgia plástica e os procedimentos realizados por não cirurgiões plásticos. O Brasil, depois dos Estados Unidos (EUA), lidera o ranking das lipoaspirações globalmente. “Não se sabe, portanto, a população submetida à lipoaspiração e a quantidade de gordura necessária para acarretar complicações graves como a Síndrome da Embolia Gordurosa. Agora, existe a chance de acontecer um leve desconforto respiratório, que melhora em pouco tempo”, contextualiza Álfio Tincani.

A lipoaspiração pode vir ainda associada à abdominoplastia, para melhora do contorno corporal; e à mamoplastia redutora, bem como nos casos de refinamento em reconstrução mamária. A gordura retirada de uma lipoaspiração pode ser empregada para aumento dos glúteos e cirurgias reparadoras como em sequelas por traumas, entre outras indicações. Os procedimentos de lipoaspiração associada ou não à lipoenxertia cresceram muito após a década de 1970 com a ajuda de especialistas italianos e franceses, sem falar na melhora da sua qualidade e dos resultados satisfatórios para médicos e pacientes, reconhece o docente. Entretanto, ele relata que hoje a lipoaspiração tende muito a ser feita ambulatorialmente, tanto é que o paciente se submete à cirurgia de manhã e recebe alta à tarde. Horas depois, pode ser surpreendido por um malestar, que varia de 24 a 48 horas. “E a indisposição pode ser fatal, como já relatado em revistas e jornais, sem ter uma explicação clara da sua relação com a embolia gordurosa, nos casos onde não foram feitas autopsias.” Nos experimentos com ratos Wistar, nos quais foram analisados os seus órgãos após lipoaspiração e lipoenxertia, notou-se a presença de gordura à microscopia nos pulmões. Porém, não se sabe a repercussão que essa poderá acarretar nesses animais e em humanos, já que se trata de um evento não habitual. “Agora, tem potencial de ocorrer na associação com diversos tipos de cirurgias, não exclusivamente na lipoaspiração com ou sem lipoenxertias”, contribui o pesquisador. O pior, salienta, é a ausência de um tratamento específico para a mobilização de gordura. Existem apenas medidas de suporte. E, quando ela é maciça então, pode levar ao óbito antes mesmo que se firme o diagnóstico ou que se desenvolva a Síndrome da Embolia Gordurosa.

Precauções “O que se enfatiza, nesse caso, são precauções quanto ao tempo cirúrgico, uma vez que a lipoaspiração prolongada pode induzir a um maior índice de mobilização de gordura”, informa Fernando Franco. Preconiza-se atual-

mente que a lipoaspiração seja feita num prazo máximo de cinco horas em ambiente apropriado e com aparelhagem e monitorização adequadas. Outra precaução consiste em evitar esse procedimento associado a outros (na revisão de literatura os casos de embolia gordurosa grave estavam associados com outras cirurgias estéticas), por haver um maior risco de sangramentos, anemias agudas e mais complicações. “Como quaisquer cirurgias são sujeitas a riscos, sobretudo se o paciente é idoso e com Índice de Massa Corporal (IMC) elevado, seria recomendável que exames pré-operatórios mais completos fossem encorajados, além de uma avaliação cardiológica”, afirma o cirurgião plástico. Mas, por se tratar apenas de uma cirurgia estética, muitas vezes isso não é observado. A Síndrome da Embolia Gordurosa, contudo, não aparece só em cirurgias plásticas. Também ocorre após cirurgias ortopédicas e em outras decorrentes de acidentes por trauma com múltiplas fraturas em que haja mobilização de gordura medular óssea. O que não é possível sustentar é que a mobilização de gordura causa as mesmas repercussões em humanos e em animais. Pela falta de estudos clínicos e experimentais na área inclusive, não se verifica uma investigação que permita quantificar hoje o volume de gordura responsável por causar esse dano ao organismo. O pesquisador e o orientador da tese lançam aqui um alerta aos cirurgiões plásticos e à comunidade sobre o risco de mobilização de gordura. O ideal, opina Álfio Tincani, é documentar os casos, publicá-los em revistas científicas ou relatá-los em eventos da área. “Muitas notícias de morte por lipoaspiração que saem na mídia dificilmente indicam a causa, que poderia ser a embolia gordurosa”, completa o cirurgião plástico. A sua sugestão é fazer uma autopsia para reconhecer a Causa mortis. Outras causas mais comuns de complicações em lipoaspiração são a trombose venosa profunda (TVP) e o tromboembolismo pulmonar, esse resultante de êmbolos provenientes dos vasos dos membros inferiores. “Por isso a profilaxia contra a TVP

deve ser sempre considerada e, as medidas profiláticas, utilizadas consoante cada caso. Enfatizamos isso porque a apresentação clínica inicial é similar à da embolia gordurosa para os pulmões, dificultando o diagnóstico diferencial, porém os tratamentos são variados”, esclarece o cirurgião plástico. “Mas não pretendemos causar pânico na população, muito menos levar à desistência da lipoaspiração, já que, sem dúvida, ela tem tido ótimos resultados”. Por outro lado, acentua ele, não se deve banalizar o papel da gordura no corpo humano. Ela assume importantes funções, seja para armazenamento de energia, isolamento térmico, proteção ou regulação de fatores hormonais. Há muitos pontos ainda por serem elucidados sobre a embolia gordurosa, além do que foi publicado no artigo da revista Annals of Plastic Surgery. Há apenas outras três publicações do gênero no mundo, originárias dos EUA, o que demonstra o quão o assunto foi pouco explorado. O trabalho de Fernando Franco, relata o seu orientador, é relevante por dizer primeiro que, se houver indicação, a lipoaspiração e a lipoenxertia devem ser feitas, desde que com parcimônia, levando-se em conta os problemas que poderão sobrevir. “Afinal, não se trata de cirurgias inócuas e muito menos simples”, acentua. Esse estudo, que obteve apoio da Disciplina de Cirurgia Plástica e do grupo do Núcleo de Medicina e Cirurgia Experimental da FCM, agora prossegue com alunos de iniciação científica, que farão uma investigação ampla a fim de detectar o volume de gordura na lipoaspiração, contando gotículas na circulação sanguínea. Este novo passo iniciará no mês que vem.

.............................................................. ■ Publicações

Artigo Franco, F.F.; Tincani, A.J.; Meirelles, L.R., Kharmandayan, P.; Guidi, MC. Occurrence of fat embolism after liposuction surgery with or without lipografting: an experimental study. Ann. Plast. Surg., 67 (2):101-5, 2011. Tese: “Incidência de embolia gordurosa pós-cirurgia de lipoaspiração com ou sem lipoenxertia – estudo em animais” Autor: Fernando Fabrício Franco Orientador: Álfio Tincani Unidade: Faculdade de Ciências Médicas (FCM)

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12 Jornal daUnicamp Campinas, 7 a 20 de novembro de 2011

Fotos: Antoninho Perri

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ISABEL GARDENAL bel@unicamp.br

é Pereiras são bonecos vestidos e carregados por populares que percorrem as ruas da cidade correndo atrás das crianças. Vindo de uma tradição portuguesa, a tradição “à la brasileira” sempre foi forte na cidade paulista de Atibaia, na época do carnaval. “Lembro-me de bonecos gigantes como se fosse um filme em preto e branco, saindo na penumbra da noite a passos lentos.” Esta descrição está na memória do artista plástico Edson Antonio Gonçalves que, em sua dissertação de mestrado apresentada ao Instituto de Artes (IA), conseguiu recuperar a história dos bonecões que há 20 anos tinha se perdido. Professor de Artes Visuais do Ensino Fundamental, ele propôs um desafio de arte-educação a alunos do nono ano do Centro de Educação e Formação Integrada (Cefi). A ideia era criar novos bonecos com material reciclado. Missão cumprida. “A cultura da cidade foi revigorada. As poucas pessoas que frequentavam a praça pública no carnaval voltaram a visitá-la, assim como retornaram os bonecos. Os foliões testemunham hoje que esta festa centenária tem sido memorável”, constata o pesquisador. Segundo ele, foi colocado em prática um trabalho com a cultura popular dentro da sala de aula, que seria um lugar para a cultura mais erudita, sem uma atrapalhar a outra. As duas se entrelaçam como uma faixa de Moebius, salienta Edson, se integrando perfeitamente. O que mais contou, além do conhecimento da técnica, foram as recordações do pequeno Edson, nascido em Atibaia. Em sua infância, os bonecos gigantes povoaram o seu imaginário e o dos moradores de lá. Sem saberem o motivo, quando deram conta do seu desaparecimento na década de 1980, ninguém mais entendia para onde eles tinham ido e nem quem os tinham confeccionado. O desfile dos bonecos acontecia três sábados antes do carnaval. Conforme Edson,

saíam os bonecos acompanhados por um grande contingente de populares e de uma banda que seguia a marcha em animado cortejo. Do Zé Pereira, saía uma boneca gigante, a Maria Madalena, sua parceira, ao lado de outros bonecos, personagens saídos dos estúdios de Walt Disney, como o Pateta, o Pato Donald, o Tio Patinhas. As lembranças, contudo, eram apenas vagas. Faltavam registros fotográficos de época. Com o trabalho de criação na escola, alguns antigos integrantes da manifestação do Zé Pereira assistiram a uma exposição organizada por Edson. Eles viram dois bonecos semelhantes aos que carregavam no passado e os pediram emprestado, reaparecendo no carnaval de 1999. Em 2000, foram providenciados mais bonecos na escola. E a cada ano eles aumentavam. Hoje são mais de 100 deles, verdadeiros gigantes de dois metros de altura que chegam a 3,5 metros quando “vestidos”. O resgate da tradição começou mais intensamente a partir de 2001. E os bonecos atuais são idealizados tendo como modelo personalidades da cidade e das histórias em quadrinhos. De certa forma, realiza-se um trabalho semelhante ao da Pop Art, movimento artístico que floresceu na década de 1950, sobretudo nos Estados Unidos, refletindo a sociedade de consumo e a abundância na forma de representar. Também houve uma preocupação em traçar um paralelo com os antigos bonecos homenageando os ídolos do cinema. Na nova versão, o passeio dos bonecos acontece nas tardes de carnaval, isso nos quatro dias de festa. Eles circulam pelas ruas do centro da cidade e se concentram na praça da matriz. O espaço congrega os antigos foliões, os amigos de infância de Edson e os seus alunos.

Memória Como era difícil encontrar documentos de época sobre o tema, da memória das pessoas surgiram lembranças enquanto se confeccionavam os bonecos. “Vieram, depois, as fotografias. Outras vezes as

pessoas apareciam fantasiadas”, conta o artista plástico. Um dia ele se surpreendeu quando um pesquisador da cidade, Jamil Scatena, foi entrevistá-lo sobre a volta dos bonecões ao carnaval. Mencionou que sabia de uma fotografia de um boneco tirada em 1915. Edson foi falar com Ari André, cujo pai foi autor da imagem. Logo viu que essa tradição era de fato antiga em Atibaia, que hoje tem uma população de 120 mil habitantes e uma das histórias mais interessantes de resgate do carnaval. “Os bonecões de Olinda, tão famosos, apenas saíram às ruas na década de 1930”, acrescenta o professor do IA João Francisco Duarte Jr., orientador da tese. Edson lembrava em parte dos bonecos de sua infância e adolescência. Eram bonecos rígidos, revela, não mamulengos (é provável que o termo se originou de mão molenga, ideal para dar movimentos vivos ao fantoche) como se vê no Nordeste. Mas, de acordo com ele, atualmente as crianças têm poucos momentos de brincarem na rua, de estarem com a vizinhança e de saírem de casa sozinhas. O pesquisador afirma que a criança que fica na frente do videogame está praticamente fazendo percussão no teclado e não está usando a mão para pôr em execução os exercícios de coordenação motora fina. Isso o levou a fazer uma proposta para trabalhar com o folclore. E, como os bonecos gigantes são esculturas que andam e dançam com o apoio da música, os alunos se envolveram muito com o projeto. Essa pesquisa vem demonstrar, ressalta o orientador do mestrado, que o trabalho com artes nas escolas precisa ser vivo e dinâmico, integrado à vida e à realidade, e não se perder no viés teórico, no qual se fala muito mais sobre arte do que se a toma como uma experiência a ser vivida individual e coletivamente. Edson leciona Artes Visuais há quase 30 anos e acredita que, compartilhar em sala de aula as boas experiências que teve, o ajudou a criar uma conexão com o passa-

do. Ele lembrou inclusive que Atibaia, em 1996, tinha um lixão situado na beira do rio, o qual era despejado ali sem tratamento. Vendo algumas embalagens, intuiu que elas poderiam virar esculturas. O passo seguinte foi pedir essas embalagens aos alunos. Através delas, foram feitas as assamblages – esculturas com colagem de objetos retirados do lixo –, que deram origem aos bonecões. Os pais acharam maravilhoso reciclar o lixo para transformá-lo em arte. Hoje Atibaia vive outra realidade: possui até usina de separação de lixo. As oficinas de bonecões saíram daquela escola e, ganhando as ruas e a população, passaram a ser ministradas em centros comunitários e em outras escolas de Atibaia. O pesquisador passou a capacitar professores de artes, e quase todos os bairros foram atingidos pela ação. Alguns participantes agora fazem artesanato e tiram o seu sustento disso. A produção de bonecos gigantes já soma 12 anos. O professor Edson já levou sua experiência a municípios como Piracaia, Bragança Paulista e Joanópolis. A expectativa dele é publicar a sua dissertação, como indicado pela banca examinadora, a fim de compartilhar seus conhecimentos e incentivar educadores a notarem a viabilidade de buscar uma atividade próxima da realidade dos alunos. Quanto ao seu objetivo de vida, ele deve se dedicar ao desenho, à pintura acrílica e às esculturas com cera de abelha e papel machê. “Todo tempo que eu tinha para me dedicar à arte, deixei de lado para estudar”, relata. “Mas valeu a pena”, garante. Uma prova disso são os bonecões que continuam proporcionando as emoções dos antigos carnavais e das festas do presente.

.............................................................. ■ Publicação

Tese: “Os bonecões no carnaval de Atibaia: uma experiência em arte-educação” Autor: Edson Antonio Gonçalves Orientador: João Francisco Duarte Júnior Unidade: Instituto de Artes (IA)

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Foto: Divulgação

Boneco na Atibaia do início do século 20: resgate de tradição centenária

Os reis da

folia

O artista plástico Edson Antonio Gonçalves ao lado de suas criações no campus da Unicamp: emoções dos antigos carnavais

Jornal da Unicamp - Ed. 513  

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