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colet창nea de Ensinamentos de Meishu-Sama

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vol.

A Religi찾o eo Mundo Espiritual

colet창nea de Ensinamentos de Meishu-Sama

vol. 3

A Religi찾o eo Mundo Espiritual

Copyright by Sekai Kyussei Kyo – Atami

A religião e o mundo espiritual

Publicação da Igreja Messiânica Mundial de África Sede Central Rua da Escola 28 de Agosto – Futungo 2 Kawelele – Luanda – Angola Cx. Postal: 1310 E-mail: ascom@johreiafrica.com 1a edição / Angola – Agosto de 2011 Tiragem: 1 mil exemplares Execução: Assessoria de Comunicação da IMMA, Sector Editorial Impressão: Gráfica Damer

www.johreiafrica.com

Apresentação Este terceiro volume da série “Coletânea de Ensinamentos de Meishu-Sama” reúne textos que enfocam a relação do homem com a religião e o Mundo Espiritual. Uma relação intrínseca, que conduz os fatos, os pensamentos e os sentimentos do ser humano, conforme Meishu-Sama explicou detalhadamente. Neste volume, foram reunidos Ensinamentos em que Meishu-Sama escreve sobre a missão da religião, com suas inúmeras faces e características. A finalidade é única: levar o homem ao caminho da felicidade. Além disso, Ele descreve Suas pesquisas a respeito do Mundo Espiritual, bem como os relatos congruentes sobre este “universo” rico e misterioso, responsável pelos passos do homem na esfera cotidiana. O Seu maior objetivo, como é do conhecimento público, é a concretização do Paraíso Terrestre, um mundo de Verdade, Bem e Belo. Para isso, forneceu parâmetros para o homem progredir espiritual e materialmente, alicerçando a sua evolução no altruísmo e no espiritualismo. Afinal, na atualidade, existe cada vez mais urgência em se alcançar essa evolução. É fundamental o indivíduo refletir profundamente sobre sua vida presente e passada, rever seus valores e crenças, alicerçando espiritualmente as bases do seu futuro. Ele precisa abrir a mente para o novo, ampliar suas fronteiras interiores, ganhando percepção, intuição e inspiração para se tornar realmente útil a Deus nesta grandiosa construção do Paraíso Terrestre. Porque

à medida que colocar “um tijolo” nesta construção, paralelamente, estará construindo um novo SER, apto a habitar esta nova era. Como ensina Meishu-Sama, a época atual é a da mudança da velha para a nova cultura. Fazer uma profunda reflexão sobre como será essa nova cultura que ocupará o lugar da velha é fundamental. Incontestavelmente, trata-se de algo que não pode ser compreendido, ainda que em pequena parcela, pela inteligência do homem contemporâneo. Portanto, mais do que apenas ter uma religião ou adquirir conhecimentos sobre o Mundo Espiritual, é necessário compreender a Vontade de Deus.

Índice A Igreja Messiânica Mundial NASCIMENTO DA IGREJA MESSIÂNICA MUNDIAL

11

O que é a Igreja Messiânica Mundial?

18

Doutrina da Igreja Messiânica Mundial

20

Eu e a Igreja Messiânica Mundial

21

A Nossa Religião e o Universalismo

27

Igreja Abrangente

29

UltraReligião

30

O que é a Verdadeira Salvação

32

A Religião Eu Escrevo a Verdade

37

A RELIGIÃO PRECISA SER UNIVERSAL

40

A VERDADEIRA RELIGIÃO

41

A LÓGICA EM RELIGIÃO

42

COMO ENCARAR A RELIGIÃO

43

RELIGIÃO À LUZ DA VERDADE (RELIGIÃO DAIJO)

46

A VERDADEIRA RELIGIÃO DAIJO

47

RELIGIÃO ATIVA

49

RELIGIÃO CRIADORA DE PESSOAS FELIZES

52

RELIGIÃO PRAGMÁTICA

55

RELIGIÃO PROGRESSISTA

56

RELIGIÕES NOVAS E RELIGIÕES TRADICIONAIS

58

O QUE É UMA RELIGIÃO NOVA?

60

RELIGIÃO ANTIGA E RELIGIÃO MODERNA

63

RELIGIÃO E SEITAS

65

PRÁTICAS ASCÉTICAS

66

RELIGIÃO E OBSTÁCULO

68

RELIGIÃO E MANDAMENTOS

71

RELIGIÃO ARTÍSTICA

72

RELIGIÃO E ARTE

74

RELIGIÃO, EDUCAÇÃO E POLÍTICA

76

RELIGIÃO E POLÍTICA

78

OSTENTAÇÃO RELIGIOSA

79

o mundo espiritual A EXISTÊNCIA DO MUNDO ESPIRITUAL

83

CONSTITUIÇÃO DO MUNDO ESPIRITUAL

85

PREFÁCIO DO LIVRO “O MUNDO ESPIRITUAL”

98

MISTÉRIO DO MUNDO ESPIRITUAL

100

MUNDO ESPIRITUAL E MUNDO MATERIAL

102

A SITUAÇÃO DO MUNDO CONTEMPORÂNEO E DO MUNDO ESPIRITUAL

105

MATERIALISMO E ESPIRITUALISMO

107

A RESPEITO DOS SONHOS

109

ANÁLISE DO MILAGRE

111

ATEÍSMO É SUPERSTIÇÃO

114

DEUS EXISTE?

116

O JUÍZO FINAL

119

A ADVERTÊNCIA DOS ANTEPASSADOS

122

EXISTEM FANTASMAS?

124

ATUAÇÃO DOS DEMÔNIOS

127

DERROTA DO DEMÔNIO

131

INCORPORAÇÃO

132

INCORPORAÇÃO E ENCOSTO

134

INCORPORAÇÃO E ENCOSTO DE ESPÍRITO ENCARNADO

138

VIDA E MORTE VIDA E MORTE

143

O QUE É A MORTE?

148

MORTE NATURAL E MORTE ANTINATURAL

150

AS DIVERSAS EXPRESSÕES APÓS A MORTE

152

A IRRESPONSABILIDADE DOS SUICIDAS

156

JULGAMENTO NO MUNDO ESPIRITUAL

158

A REENCARNAÇÃO

162

A GRANDE NATUREZA O MUNDO DESCONHECIDO

167

O PODER DA NATUREZA

168

OS ELEMENTOS FOGO, ÁGUA E SOLO

171

A TEMPESTADE É UMA CALAMIDADE HUMANA

174

CONSIDERAÇÕES ESPIRITUAIS SOBRE OS INCÊNDIOS

177

INCÊNDIO E JOHREI

179

A Igreja Messi창nica Mundial

a religião e o mundo espiritual

Nascimento da Igreja Messiânica Mundial Por que foi criada a nossa Igreja? Quando analisamos a cultura moderna, que há milhares de anos a humanidade vem edificando com incansável esforço e dedicação, ficamos deslumbrados ante o seu aspecto esplendoroso e o incrível progresso que ela apresenta externamente. É desnecessário dizer que os homens da atualidade dispensam os maiores elogios a tudo isso. Entretanto, ao observarmos o outro lado dessa cultura, isto é, o seu conteúdo, deparamos com algo inesperado: ele é exatamente o contrário da parte externa. O que se opõe a esta é, naturalmente, a parte espiritual, onde não se vê nenhum progresso, a ponto de pensarmos que os homens do passado eram até superiores. No presente, se pesássemos numa balança o bem e o mal que existe no coração dos seres humanos, veríamos que, infelizmente, o mal tem muito mais peso. A influência maléfica que esse fato exerce sobre a sociedade humana é muito maior do que poderíamos imaginar. Isso se torna bem claro ao constatarmos que a guerra – o maior dos sofrimentos humanos – a doença, a pobreza, o crime, as calamidades naturais, enfim, todas as ocorrências desagradáveis, ao invés de diminuírem, tendem até a aumentar. Assim, é estranho que a cultura espiritual não acompanhe o progresso da cultura material e as pessoas não manifestem nenhuma desconfiança a respeito; pelo contrário, vão se deixando viciar pela cultura material, incrementando-a cada vez mais. Mas por que será que os religiosos, os escolásticos, os políticos e o grande número de intelectuais existentes em todos os países não despertam para essa realidade? Dentre eles talvez haja algumas exceções, mas tais pessoas nada fazem, pois, não conhecendo os fundamentos da questão, consideram que o fato é inevitável. Parece que elas estão resignadas, achando que se trate de uma condição inata da humanidade. O principal desejo do homem é ser feliz, e ele veio empregando 11

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toda a sua inteligência e utilizando-se dos mais diversos meios para concretizá-lo. Mas a aspiração de um mundo ideal acabou se tornando um sonho utópico. Nesse sentido, inicialmente, a humanidade procurou apoio na religião. Entretanto, como a possibilidade de atingir seu objetivo unicamente através da religião tornava-se pequena, procurou alcançá-lo através do ensino, da moral, da filosofia e de outros meios surgidos no Oriente e no Ocidente a partir do século 0. No Oriente, apareceram sábios como Confúcio, Meng-tzu e Chu-tzu; no Ocidente, educadores como Sócrates e filósofos como Kant, Hegel e outros. Logicamente a humanidade depositou neles suas esperanças. A partir do século XVII, porém, começou a surgir, no Ocidente, a ciência materialista, e foram se promovendo revoluções gradativas em todos os setores. O progresso da tecnologia mecânica deu origem à revolução industrial, e o mundo inteiro ficou encantado pela ciência. Assim, ao invés de continuar seguindo caminhos tortuosos e longos como o da religião e da moral, considerouse que, para aumentar a felicidade do ser humano e construir o mundo ideal, não havia meio mais eficiente que a cultura científica – visível, palpável e comprovável. Além do mais, constatando que, quanto mais adiantada é a cultura de um país, mais rico e próspero ele é, mais armamentos possui, mais abençoada é a vida de sua população, mais ele é respeitado pelo mundo, chegando o seu poder a influenciar as nações vizinhas, os países, disputando entre si, procuraram imitá-lo. Por esse motivo, a cultura científica foi evidenciando um rápido progresso, até chegar ao estágio atual. Entretanto, como a humanidade se deslumbrou demais com ela, depositando-lhe excessiva confiança, sua parte espiritual acabou ficando debilitada, e seus preceitos morais decaíram. Assim, buscando apenas as coisas visíveis, os homens, inconscientemente,acabaram por se tornar escravos da ciência. O ser humano, que na verdade deveria dominá-la, passou a ser dominado por ela. É o que se percebe atualmente. Por esse motivo, podemos dizer que estamos a um passo da catástrofe mundial e que o futuro da humanidade corre um sério perigo. 12

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A felicidade e até o mundo ideal, que eram a aspiração inicial de todos os homens, foram esquecidos, não se sabe quando, tendo-se chegado a um momento em que não se vai nem para frente nem para trás. Assim, quanto mais a cultura progride, mais o homem se distância da felicidade. É um resultado extremamente irônico. Parece uma gangorra: quando um dos lados sobe, o outro desce. Em termos mais concretos, inicialmente se tentou construir o Paraíso Terrestre com a cultura espiritual, mas, como a sua concretização parecia impossível, apelou-se para a cultura científica. Os homens avançaram com força total. Entretanto, como foi exposto anteriormente, ao invés de se alcançar o Paraíso, chegouse a um estado pior que o do próprio inferno: a iminência da destruição da humanidade, com a descoberta da bomba atômica. O fato, porém, é que, embora se tenha chegado a uma época tão perigosa como a atual, os homens ainda não despertaram, continuando a venerar a ciência materialista. Em poucas palavras, eles fracassaram recorrendo à cultura espiritual e também à cultura material, mas infelizmente ainda não se cansaram das coisas ruins. Como solucionar esse problema? A tarefa mais importante de toda a humanidade é reconhecer os erros cometidos até agora e recomeçar da estaca zero. Ou seja, a solução é formar uma cultura cruzada, que não pende nem para o espírito nem para a matéria, mas funde e iguala ambas as partes. Somente assim estará concretizado o Paraíso Terrestre. Por tudo que vimos até agora, podemos dizer que a época atual é a época da mudança da velha para a nova cultura, a era da grande transição mundial a que sempre nos referimos. Será que, na história da humanidade, já foi registrada uma mudança tão grande? Em verdade, é um fato inédito. E como será essa nova cultura que ocupará o lugar da velha? Incontestavelmente, trata-se de algo que não pode ser compreendido, ainda que em pequena parcela, pela inteligência do homem contemporâneo. E quem se encarregará de criá-la? Neste momento que estamos vivendo, independentemente de 13

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crermos ou não, é imprescindível começarmos a admitir a existência do ser conhecido como Deus. Por conseguinte, darei explicações a respeito. Embora falemos simplesmente Deus, na verdade existem níveis – superior, médio e inferior – com inúmeras funções. O xintoísmo admite a existência de uma infinidade de deuses. Até hoje, quando se fala em Deus, pensa-se no monoteísmo cristão ou no politeísmo xintoísta. Entretanto, ambas são visões arbitrárias. Na verdade, existe um único e verdadeiro DEUS, que se subdivide, transformando-se em vários deuses. Por isso, Ele é um e muitos ao mesmo tempo. Cheguei a essa conclusão através de longos anos de pesquisas sobre o Mundo Divino. Trata-se de um pensamento que já existia, mas parece que não se conseguiu dar maiores explicações a respeito. Até aquele Deus que veio sendo adorado como Supremo está abaixo da segunda classe. DEUS está muito além e só veio sendo venerado de longe pela humanidade. Mas quem é Ele, então? Não é outro senão o Senhor e Criador do Universo, ou seja, o Princípio de tudo. Aquele a quem os povos vêm se referindo como Jeová, Logos, Deus, Tentei, Mukyoku, Segunda Vinda de Cristo, Messias, etc. O objetivo de DEUS é a construção do Mundo Ideal de perfeita Verdade, Bem e Belo, e, para tanto, era necessário que todas as condições fossem preenchidas. Ele estava aguardando o tempo certo. Essa hora chegou: é a época atual. Sendo assim, é preciso, antes de mais nada, que a humanidade se conscientize disso e que se processe a revolução espiritual de cada indivíduo. Darei uma prova do que escrevi acima. Nos Estados Unidos, começou a usar-se, ultimamente, a expressão Nação Universal. Obviamente, representa o Mundo Ideal, que eles julgam possível graças ao progresso alcançado pela civilização material. Entretanto, por mais que se fale em construir o Paraíso Terrestre, se a cultura for inferior, se os países estiverem isolados uns dos outros e as condições de transporte forem deficientes, o mundo continuará conturbado e, o que é fundamental, será 14

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impossível unificar o pensamento da humanidade. Visto que finalmente chegamos à época da criação da nova cultura, é preciso conhecermos de antemão como é esse grandioso plano. Naturalmente, para que ele se concretize, Deus se utiliza de um ser humano. Considerando que a pessoa escolhida sou eu, não é nada difícil entender a razão pela qual foi criada a Igreja Messiânica Mundial. DEUS revela-me, a cada hora, o Plano do Paraíso e eu o ponho em prática conforme Suas ordens. Ao mesmo tempo, o que houver de útil na velha cultura será mantido, e o que não tiver utilidade será reformulado. Esse é o grande amor de DEUS. Aquilo que não puder se tornar útil, infelizmente terá de ser destruído para sempre. E o que é isso senão o Juízo Final? Realmente, constitui um motivo de gratidão e também de temor. Lamentavelmente, porém, embora eu apresente os fatos tal como eles me foram revelados por DEUS, os materialistas os interpretam de forma herética, fazendo severas críticas. Mas isso é natural, pois durante longo tempo os homens só tiveram a experiência de viver uma das formas da cultura – a espiritual ou a material – de modo que eles não podem compreender facilmente uma cultura cruzada, que não pende para nenhum dos lados. As pessoas que estão do lado da cultura espiritual, dizem que as graças materiais manifestadas por nós são realizações de uma fé de nível inferior, que busca apenas as coisas materiais. Elas acham que a fé superior busca unicamente a satisfação espiritual, e sentem satisfação sozinhas, enfileirando, escolasticamente, palavras difíceis. Entretanto, os resultados obtidos pelas religiões teóricas para salvar um grande número de pessoas são insignificantes e eu creio que essa é a causa da estagnação das religiões tradicionais. Já os que estão do lado da cultura material, devido à valorização exagerada do materialismo; afirmam que, além das coisas visíveis, tudo não passa de superstição. Naturalmente, não vêem motivos para crer na existência de Deus. E o pior é que, sobretudo entre a classe dirigente e a classe intelectual do Japão, é grande o número de pessoas desse tipo. Assim, elas olham supersticiosamente para a nossa Igreja, contestando-a com palavras orais e escritas. Os mais

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extremistas chegam até a pedir que o povo se acautele, evitando aproximar-se dela. Influenciadas por essa atitude, as pessoas hesitam em conhecê-la e, assim, não conseguem apreender a sua verdadeira imagem. Consequentemente, a maioria dos intelectuais, sem o saber, constitui um empecilho para a nova cultura. Sempre que nasce algo novo, fatalmente surgem opositores. Isso acontece tanto no Ocidente como no Oriente. Podemos dizer que é a triste predestinação de todos os anunciadores de uma nova época. O mais engraçado é que, quando surge uma teoria de nível não muito superior ao da cultura da época, os intelectuais a elogiam em coro. Isso ocorre porque as pessoas que receberam uma educação representativa da cultura tradicional têm maior facilidade para entender teorias desse nível. Os detentores do Prêmio Nobel enquadram-se em tal categoria. Todavia, quando surge uma teoria muito elevada, distante do nível cultural da época, os intelectuais consideram-na herética, combatem-na e tentam neutralizá-la. Isso também se evidencia entre os ocidentais, como podemos constatar pelos sofrimentos infligidos a inovadores como Jesus Cristo, Sócrates, Copérnico, Galileu, Lutero e outros. A teoria exposta por mim é muito mais inédita que a desses inovadores, adiantada um ou dois séculos com relação à época atual. Por isso as pessoas que a ouvem pela primeira vez e aquelas que estão bitoladas pela cultura tradicional, ficam boquiabertas e não pensam em analisá-la devidamente: anulam-na, afirmando de forma taxativa que se trata de mera superstição. Mas, reflitamos: se ela não passa de uma teoria evasiva, por que será que, sem sofrer o menor abalo, a nossa Igreja continua aumentando a sua expansão, embora receba tantas censuras, tantos ataques, e sofra opressões por parte das autoridades? Deve existir alguma razão. Não sei quantas vezes ela percorreu caminhos espinhosos e atravessou chuvas de flechas. Apesar de tudo, a obra de construção do Paraíso Terrestre está avançando bem mais rápido do que se esperava. Inegavelmente, isso é ininteligível para o raciocínio humano. O fato é que, uma vez se tornando membro da Igreja Messiânica 16

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Mundial, qualquer pessoa consegue manifestar um poder semelhante ao do fundador de uma religião. Um simples fiel manifestar milagres é coisa mais do que comum em nossa Igreja; é, realmente, uma extraordinária graça material. Além disso, através dos nossos ensinamentos, esse fiel consegue captar a essência da vida, despertar para a Verdade, melhorar sua vida cotidiana e ficar mais alegre; sustentado por inabalável fé, pode até mesmo vislumbrar o futuro. Assim, ele passa a viver com verdadeira segurança e tranquilidade. A prova mais evidente é que, com o decorrer do tempo, suas feições e sua pele melhoram. Isso acontece porque, uma vez que seu sangue se torna mais puro, sua saúde aumenta, desaparecem suas incertezas quanto ao futuro, seu caráter se eleva, e ele se torna uma pessoa virtuosa. Dessa forma, ganha maior confiança de terceiros e por eles é respeitado. A condição fundamental para se construir o Paraíso Terrestre, objetivo de nossa Igreja, é que o indivíduo se eleve e adquira a qualificação de ente celestial. Como o mundo é um agrupamento de indivíduos, se aumentar o número de pessoas com essa característica, obviamente surgirá o Paraíso Terrestre. 20 de Novembro de 1950 (Extraído de “Noções sobre a Igreja Messiânica Mundial”)

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O que é a Igreja Messiânica Mundial? A Igreja Messiânica Mundial tem por finalidade construir o Paraíso Terrestre, criando e difundindo uma civilização religiosa que se desenvolva lado a lado com o progresso material. Não há dúvida de que “Paraíso Terrestre” é uma expressão que se refere ao mundo ideal, onde não existe doença, pobreza nem conflito. O “Mundo de Miroku”, anunciado por Buda, a chegada do “Reino dos Céus”, profetizada por Cristo, a “Agricultura Justa”, proclamada por Nitiren, e o “Pavilhão da Doçura”, idealizado pela Igreja Tenrikyo, têm o mesmo significado. A diferença é que não se fez indicação de tempo. Mas eu cheguei à conclusão de que o momento se aproxima. E o que significa isto? É hora da “Destruição da Lei”, prevista por Buda, e do “Fim do Mundo” ou “Juízo Final”, profetizado por Cristo. Seria uma felicidade se o Paraíso Terrestre pudesse ser estabelecido sem que isso afetasse o homem. Antes, porém, é indispensável destruir o velho mundo a que pertencemos. Para a construção do novo edifício, faz-se necessária a demolição do prédio velho e a limpeza do terreno. Deus poupará o que for aproveitável – e a seleção será feita por Ele. Eis a razão pela qual é importante que o homem se torne útil para o mundo vindouro. Ultrapassar a grande fase de transição significa ser aprovado no exame divino, e a fé é o único caminho para obtermos aprovação. As qualificações para ultrapassar essa fase são as seguintes: a) tornar-se um homem verdadeiramente sadio, e não apenas na aparência; b) um homem que se libertou do sofrimento da pobreza; c) um homem que ama a paz e detesta o conflito. Deus resguardará aqueles que tiverem essas três grandes qualificações e deles se utilizará como entes preciosos, no mundo que vai surgir. Certamente não há discordância entre os desígnios de Deus e os 18

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ideais do ser humano. Portanto, haverá um caminho que permita estabelecer as condições requeridas. Mas como poderemos obtê-las? Nossa Igreja tem por objetivo orientar as pessoas e transmitir-lhes a Graça Divina, possibilitando-lhes criar tais condições. 25 de Janeiro de 1949

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Doutrina da Igreja Messiânica Mundial Nós, messiânicos, cremos em Deus, Criador do Universo. Cremos que, desde o início da Criação, Deus objetivou estabelecer o Céu na Terra e tem atuado continuamente para a concretização desse objetivo. Com tal propósito, fez do ser humano o Seu instrumento para servir ao bem-estar da humanidade, condicionando a ele todas as demais criaturas e coisas. Cremos, portanto, que a história humana do passado constitui estágios preparatórios, degraus para se alcançar o Céu na Terra. Para cada época, Deus envia o Seu mensageiro e as religiões necessárias, cada qual com sua missão. Cremos que, no presente, quando o mundo vagueia em tão caótica situação, Deus enviou o Mestre Meishu-Sama, fundador da Igreja Messiânica Mundial, com a suprema missão de realizar o Seu sagrado objetivo de salvar toda a humanidade. Por conseguinte, visando à concretização do Mundo Ideal, de eterna paz, perfeitamente consubstanciado na Verdade-Bem-Belo, empenhamo-nos em fazer sempre o melhor, erradicando a doença, a pobreza e o conflito, as três grandes desgraças que assolam este mundo. 11 de Março de 1950

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Eu e a Igreja Messiânica Mundial A Igreja Messiânica Mundial é completamente diferente das outras religiões, e quem nela ingressar entenderá por quê. Mas em que aspecto ela difere das demais? No momento ainda não posso entrar em detalhes, mas falarei em linhas gerais. Em primeiro lugar, observando bem as religiões existentes, parecenos que elas se classificam em dois tipos. A umas nem cabe o nome religião, tal a sua simplicidade; trata-se, em poucas palavras, de fé passiva. É aquela que consiste em ir ao templo rezar de vez em quando, receber talismãs e amuletos, queimar incenso, ver a sorte e, se a pessoa tem posses, mandar executar músicas sacras, fazer doações e oferendas e voltar para casa agradecida, sentindo-se bem. É uma fé popular, que se costuma chamar de devoção. Entretanto, esse tipo de fé pode ser considerado religião, pois, no fundo, possui normalmente uma estrutura religiosa. O outro tipo poderia ser chamado de fé pura. Nela se faz o registro de todos os fiéis, havendo dirigentes, funcionários, ministros e até encarregados de difusão, que se dedicam profissionalmente às atividades religiosas. Constitui, portanto, genuinamente, uma religião. Ao contrário da fé passiva, seus fiéis agem com seriedade e, quando se aprofundam, dedicam-se fervorosamente, de corpo e alma, às suas tarefas. Entre essas religiões, existem as recentes e as antigas. As antigas, em sua maioria, são pouco atuantes, devido, talvez, à mudança dos tempos; algumas, segundo dizem, só a muito custo conseguem manter-se na atual posição. As recentes foram fundadas aproximadamente do fim do Xogunato ao início da Era Meiji (1867), e são as que apresentam maior atividade e progresso. Entre elas, destaca-se o xintoísmo. No campo do budismo, só uma seita – a Nitiren – apresenta algum fôlego; as demais são praticamente inativas. Num rápido exame das religiões, observamos que elas apresentam várias formalidades, mas em geral têm como alicerce os Ensinamentos de seu fundador ou o espírito que norteou sua fundação, os quais são divulgados e transmitidos aos fiéis. Estes, por sua vez, oferecem-lhes sua devoção, em agradecimento pela

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proteção recebida de Deus. Obviamente não se pode generalizar, pois até mesmo na fé existem altos e baixos. Concordamos plenamente que todas as religiões têm como objetivo a concretização de um mundo melhor e por isso tentam satisfazer o conceito de felicidade do homem. A maioria, entretanto, toma como principal fator o aspecto espiritual, demonstrando pouco interesse pelos benefícios materiais. A VERDADEIRA SALVAÇÃO Na Igreja Messiânica Mundial, não negligenciamos de maneira alguma a salvação do espírito, mas julgamos que, salvando o homem apenas espiritualmente, sua salvação não é perfeita, ou seja, ele não está realmente salvo. Temos de salvar-lhe também a parte material, e neste ponto é que reside a grande diferença entre a nossa religião e as demais. Ainda que como ser humano seu espírito esteja salvo, essa ideia não basta para ele ser verdadeiramente feliz. Numa sociedade complexa como esta em que vivemos, não se sabe quando tal felicidade será destruída, e isso está claramente provado pela realidade que nos cerca. Exemplificando, há pessoas que adoecem, que são roubadas, que têm prejuízos, que são enganadas por indivíduos inescrupulosos, que sofrem devido a elevadas taxações de impostos, etc. No caso dos impostos elevados, podemos apontar, entre outras causas, a existência de malfeitores, que justifica a necessidade de polícia e tribunais; o surto de muitas doenças, cujo combate requer a aplicação de dinheiro; uma pessoa errada que provoca uma grande guerra, acarretando despesas decorrentes de indenizações, e assim por diante. Devido a tais fatores, atingir um estado de segurança e de paz espiritual torna-se utopia. Portanto, num mundo como este, se não houver salvação espiritual e material, não se poderá obter a verdadeira felicidade. A nossa Igreja promove a salvação em ambos os aspectos. Individualmente, isso se expressa através de benefícios materiais; socialmente, através do progresso da cultura. 22

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Entretanto, segundo a Revelação Divina, há um grande erro na cultura moderna, apesar de, até agora, ninguém o ter percebido. É um erro tão surpreendente, que o que se faz pensando ser bom, na verdade é o contrário, e por causa disso a humanidade tem sofrido sérios danos. Em poucas palavras, o que se julgava contribuir para o aumento da felicidade acabava por resultar em aumento da infelicidade. Os fatos, melhor do que qualquer outra coisa, comprovam o que estamos dizendo. Houve um grande progresso da cultura, mas a felicidade deixou de acompanhar esse ritmo; aliás, o sofrimento do homem é cada vez maior. Se a cultura moderna foi edificada graças ao esforço conjunto de sábios, santos e outros grandes personagens que vêm se sucedendo há milênios poder-se-á dizer que se trata de uma cultura do mais elevado nível. É difícil, portanto, imaginar que em seu conteúdo possa existir um erro marcante. Como eu já disse, conhecendo o grande erro da cultura moderna, desejo, o mais breve possível, não só fazer com que o maior número de pessoas o compreendam, mas também compartilhar com elas dessa felicidade e, ao mesmo tempo, mostrar-lhes as diretrizes para a formação do Novo Mundo, caracterizado por uma cultura nova, ideal. Essa é a Vontade de Deus. Agora vou falar sobre mim. Pelo que já passei em minha vida, sou uma pessoa comum, igual a tantas outras. Tenho, porém, uma vida tão mística, que não encontra paralelo na história de toda a humanidade. Digo isso porque me fizeram nascer com a grande missão de salvar o mundo, completamente diferente da missão de famosos religiosos como Sakyamuni. Cristo e Maomé. Ou seja, fui investido do poder de executar aquilo que esses grandes personagens não puderam realizar. Isso é absoluta verdade, como todos os fiéis estão cientes. Por exemplo, qualquer coisa que eu desejar saber, eu fico sabendo. Tomo conhecimento de tudo que for importante, a começar dos três mundos – Divino, Espiritual e Material – assim como também do passado, do presente e do futuro. É claro que isso está limitado 23

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ao que concerne à salvação da humanidade e à construção do Paraíso Terrestre. Antevejo como será o mundo daqui a um ano ou a vários anos, e também o meu próprio destino. É até engraçado. E note-se, pela experiência que tenho tido até agora, que geralmente os fatos previstos por mim acabam acontecendo, isto é, as visões tornam-se realidade. Tenho elaborado e executado vários planos, e tudo tem corrido conforme os meus desejos. Com relação à literatura, se penso em escrever um artigo, as palavras me fluem naturalmente, o quanto eu desejar. Como todos sabem, dedico-me também à composição de poemas e não encontro nenhuma dificuldade nisso; componho cerca de cinquenta em uma hora. Gostaria, inclusive, de escrever haicais, poemas satíricos, obras de ficção, dramas, etc., mas não o tenho feito por falta de tempo. Além desses gêneros, escrevo sátiras e comédias; como elas têm sido publicadas, os leitores devem conhecê-las. As orações entoadas pelos fiéis também são de minha autoria, e parece-me que, apesar de eu não ter tido, anteriormente, qualquer experiência nesse sentido, elas ficaram muito boas.

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Por outro lado, já é do conhecimento de todos que estou construindo um protótipo do Paraíso Terrestre de grande porte; nessa obra, as pedras, as árvores, as flores, enfim, tudo sou eu quem escolho e planejo. Naturalmente, o projeto do jardim e dos prédios e até a ornamentação também são trabalhos meus. O Templo Messiânico, que se erguerá no Solo Sagrado de Atami, mas que ainda está em fase de projeto, seguirá um estilo mais moderno que o do arquiteto suíço Le Corbusier, estilo esse que nos últimos anos se tornou moda arquitetônica no mundo inteiro. Portanto, quando o templo for inaugurado, deverá ser alvo da atenção mundial. Só de estar no local e olhar o terreno, os prédios e os jardins se projetam aos meus olhos, não havendo necessidade de pensar. Na verdade nunca estudei esses assuntos, nem ninguém me ensinou nada a respeito; entretanto, se quero fazer algo, imediatamente brotam, dentro de mim, excelentes ideias. Além disso, faço vivificações florais, escrita a pincel e pinto quadros. Dessas atividades, a única que estudei um pouco foi pintura, mas

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nas outras sou totalmente leigo. Com relação à política, educação, economia, filosofia e medicina, sei das coisas que irão acontecer até daqui a um século. Sei principalmente o erro em que está baseada a cultura atual e fico impaciente quando penso que, se ele fosse logo corrigido, a humanidade seria salva e a felicidade reinaria no mundo. Nada, porém, pode ser feito enquanto não chegar o tempo certo. Atualmente, seguindo a ordem Divina, estou apenas apontando o problema da doença e os erros da agricultura, questões fundamentais para a construção do Paraíso Terrestre. UTILIZAÇÃO DO ESPÍRITO O que eu acho mais misterioso em mim é que, utilizando o espírito, estou fazendo com que os fiéis erradiquem as doenças. Os resultados são realmente excelentes. Cristo e muitos santos e profetas também praticaram milagres em relação às enfermidades; entretanto, na maioria das vezes eram curas de uma pessoa para outra. Ora, uma só pessoa não poderia salvar milhões; para salvar toda a humanidade é preciso que seja concedida a cada indivíduo uma força ilimitada, capaz de eliminar as doenças. É o que estou fazendo atualmente, com resultados admiráveis. A expansão da nossa Igreja é a melhor prova do que digo. Como já falei, é uma obra que nem Cristo nem Buda puderam realizar. Não pretendo dizer que a minha força seja superior à dos grandes santos, mas expresso a realidade tal como ela se apresenta, e isso por que, chegado o tempo, Deus me faz falar sobre o assunto. Quando penso que uma força tão grandiosa foi concedida à minha pessoa, sinto a enorme importância da minha missão. Naturalmente Deus não cria nada além do que é preciso. Tudo é criado e eliminado de acordo com as necessidades. Sendo essa a Verdade, que eu sempre afirmo, fica bem clara a minha missão, determinada pelos Céus. A mim é dado conhecer todos os mistérios, sendo-me atribuído, de maneira ilimitada, o poder da Inteligência Superior. Sob a Orientação Divina, estou trabalhando para levar esse fato ao 25

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conhecimento de toda a humanidade e edificar a nova cultura, a cultura ideal. Todavia, como o homem da atualidade possui uma inteligência muito desenvolvida, ele não iria aceitar que lhe dessem uma explicação de maneira simples como nos tempos antigos. Segundo a Vontade de Deus, é necessário mostrar-lhe milagres comprobatórios e, ao mesmo tempo, transmitir-lhe as teorias de forma que elas possam ser aceitas. É por essa razão que Ele faz ocorrer milagres em grande quantidade. Nesse sentido, por um lado apontam-se os erros; por outro, dão-se provas através de milagres. Sinto-me, portanto, extremamente grato e sensibilizado pela grandeza da Providência de Deus. Observando-se a Divina tarefa que no momento estou executando, não haverá qualquer margem para dúvidas sobre a veracidade de minhas palavras. Provavelmente a humanidade jamais sonhou com uma obra de tão grande porte e de absoluta salvação. Por conseguinte, se uma pessoa, tomando conhecimento dela, não consegue despertar, é porque é cega de alma e não tem possibilidade de ser salva pela eternidade. Além disso, se forem submetidos, no futuro próximo, ao supremo perigo representado pelo “Fim do Mundo”, aqueles que não estiverem preparados serão tomados de pânico e irão se arrepender, mas aí já será demasiado tarde. 25 de Novembro de 1950

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A Nossa Religião e o Universalismo Observando o mundo atual, constatamos a existência de pessoas que, dizendo-se esquerdistas, direitistas ou neutras, vivem criando conflitos. É fácil o aparecimento de choques, entre esses grupos, em virtude de cada um se firmar em sua ideologia e tentar impô-la aos demais. Existem alguns cujo propósito é justamente provocar tais choques, mas isso não vem ao caso no momento. Após a Segunda Guerra Mundial, o objetivo do povo japonês é a democracia, que, obviamente, visa o máximo de felicidade para o maior número de pessoas. Entretanto, se cada um insistir em suas ideologias e “ismos”, isso resultará em conflitos e, ao invés de se proporcionar felicidade às pessoas, se estará acarretando o máximo de desgraças. Quem o diz não sou eu apenas. Dentro do quadro social da atualidade, é uma tendência que realmente aparece clara em todos os setores. Vejamos, por exemplo, os partidos políticos. Num mesmo partido, existem alas, ocorrem choques entre seus componentes, devido à diferença de pontos de vista, e há sempre o perigo de desagregação. Qualquer coisa que fuja a esses pontos de vista é considerada como inimiga, por isso não é fácil manter-se a coesão do partido. Planeja-se derrubar gabinetes que acabaram de ser compostos e até se insiste para que um gabinete formado apenas há dois ou três meses concretize as medidas políticas propostas por ocasião das eleições. Raciocinemos. Por melhor que seja um político, é impossível ele cumprir suas promessas no prazo de seis meses ou mesmo um ano. É por esse motivo que o Gabinete Japonês muda tão rapidamente que nem dá tempo para esquentar as cadeiras. Nesse aspecto, assemelha-se ao da França. Na Inglaterra, o gabinete trabalhista saiu-se muito mal no primeiro ano de posse; se fosse no Japão, seria fortemente criticado, mas a tolerância dos ingleses é de fato extraordinária. Chegou a impressionar-nos a confiança que eles depositaram em Sir Attlee e a paciência com que ficaram aguardando os resultados. Passado o referido período, as coisas 27

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começaram a melhorar. Hoje em dia, parece que a situação da Inglaterra é muito boa, inclusive economicamente. Nos Estados Unidos acontece o mesmo. Como o mandato presidencial é de quatro anos, é possível fazer uma política arrojada. Vencedores da Segunda Guerra Mundial, os americanos demonstraram grande tranquilidade econômica, logo após o término do conflito, quando deram aquele magnífico exemplo que foi o Plano de Salvação da Europa e do Leste Asiático. Isso se deveu também às quatro eleições consecutivas do Presidente Roosevelt, o qual, governando durante dezesseis anos, pôde tomar medidas ousadas, tendo obtido bons resultados. Como expus anteriormente, a realidade atual do Japão é que ele não consegue deixar de comportar-se como país bitolado. Portanto, neste momento, todos os japoneses devem empenhar-se, antes de qualquer coisa, em cultivar o espírito de tolerância. É aquilo de que mais necessitamos. Se o objetivo da nossa Igreja é a construção de uma sociedade sem conflitos, primeiramente precisamos livrar-nos do estreito sentimento de orgulho que nos faz menosprezar os outros. Tornase necessário caminharmos sem levar em conta se os ideais são da esquerda, da direita ou do meio, mas fundindo-os num ideal grande e nobre, que abranja tudo e ao qual se possa realmente chamar de mundial. Batizamo-lo de Universalismo. 8 de Abril de 1949

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Igreja Abrangente Poderão compreender melhor a nossa Igreja, se a compararmos com uma loja de departamentos. A comparação talvez não seja muito apropriada, mas considero-a a mais adequada e de mais fácil compreensão. Eis os motivos. Sempre tenho afirmado que a Igreja Messiânica Mundial abrange o cristianismo, o xintoísmo, o budismo, o confucionismo, a filosofia, a ciência, a arte, enfim, todas as expressões da cultura. Entre elas, dedicamos especial atenção aos problemas concernentes à doença, à saúde e à agricultura, no campo da ciência, e também às artes. Logicamente, como o seu nome está mostrando, a nossa Igreja tem por objetivo empreender a grandiosa obra de Salvação do Mundo. É natural, portanto, que apontemos as falhas existentes em todos os setores relacionados com a vida do homem, dispensando a este a mais elevada orientação. Não obstante o maravilhoso progresso da cultura contemporânea, as falhas apresentadas por ela são tão numerosas que causam espanto. As falhas superficiais não são muito graves, porque a própria sociedade as percebe e pode corrigi-las; as falhas interiores, no entanto, por não serem divisadas a olho nu, só podem ser corrigidas por um meio: desvelando-as através da luz de Deus. Por essa razão, estamos dissecando todos os setores da cultura atual, a fim de que, trazendo à tona a verdadeira natureza de cada um deles, possamos planejar a concretização de um mundo melhor. Somente dessa forma poderemos alimentar esperanças quanto ao advento da era da Civilização Celestial. Eis, em breves palavras, o sentido da expressão “Igreja Abrangente”. 28 de Março de 1951

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UltraReligião Qualquer pessoa tomará por um sonho descabido o objetivo da nossa Igreja – construir um mundo sem doenças, pobreza e conflitos, ou seja, o Paraíso Terrestre, que corresponde ao “Advento do Reino dos Céus”, pregado por Cristo, ou à “Vinda do Messias”, da religião judaica. Sakyamuni disse que, depois de sua morte, surgiria um mundo perfeito. Não afirmou, entretanto, que esse mundo estivesse iminente; ao contrário, disse estar infinitamente longe – 5.670.000.000 de anos. Todas essas profecias foram de grande utilidade. Se não houve referência a um plano de execução, devemos interpretar que ainda não era chegado o tempo, mas sabemos que a aceitação e a prática dos ensinamentos pregados pelas religiões antigas tornaram-se o alicerce das religiões atuais. Naturalmente, cada religião criou e divulgou os seus protótipos, formas e métodos, adaptáveis aos diferentes povos e países. Evidentemente, as religiões foram criadas sob o desígnio de Deus, para serem condicionadas a determinadas épocas, localidades, povos, tradições, costumes, etc. Graças a essa força, a cultura alcançou o deslumbrante progresso que hoje apresenta. Não fossem as religiões, o mundo estaria à mercê de Satanás, ou talvez, destruído. Ao refletirmos sobre esses assuntos, não podemos deixar de levar em consideração os grandes méritos dos fundadores de religiões. Todavia, embora estas últimas hajam evitado a destruição do mundo, é duvidoso que o seu poder seja eficiente para o mundo atual ou para o futuro. Isto porque a humanidade padece de um sofrimento infernal, o que comprova a deficiência das Igrejas, as quais não conseguem conduzir os sofredores ao estado celestial. Só um número restrito de povos participa dos benefícios da civilização moderna. Presentemente, a humanidade carece muito do espírito de paz. Uma observação sobre o mundo atual faz com que as pessoas prudentes sintam a necessidade do aparecimento de uma grande luz 30

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que dissipe as trevas, isto 辿, o poder salvador de uma ultrareligi達o. Nesse sentido, consciente da responsabilidade que lhe cabe como sendo esta ultrareligi達o, nossa Igreja vem apresentando resultados surpreendentes. 20 de Julho de 1949

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O que é a Verdadeira Salvação Hoje em dia, a crítica mais frequente com relação à nossa Igreja é que, tratando-se de uma entidade religiosa, não deveria empenharse na cura de doenças. Entretanto, se pensarmos bem, concluiremos que não há nada tão sem sentido como essa observação. Ela provém do pensamento limitado dos críticos, segundo os quais a religião deve ocupar-se apenas da salvação do espírito, não lhe cabendo a salvação da matéria. Para eles, a cura de doenças é uma questão material, e por isso acham que ela não compete à religião. Excluem das atribuições religiosas a salvação material, limitando a essência da religião à parte espiritual. Logicamente, de acordo com o seu conceito, a salvação espiritual, em síntese, consiste na renúncia. Não tendo o Poder da Salvação para eliminar materialmente o sofrimento e não encontrando outro recurso, as religiões, pelo menos, tentam diminuí-lo espiritualmente, através da renúncia. Essa é a maneira como muitas pessoas têm encarado a religião até agora. Não obstante, se a religião excluir a matéria e preocupar-se unicamente com a salvação do espírito, ela não estará promovendo a verdadeira salvação, pois a crença na possibilidade da solução dos problemas materiais é que nos permitirá obter a verdadeira tranquilidade espiritual. Quando sentimos fome, por exemplo, só podemos ficar tranquilos se tivermos certeza de que alguém nos trará comida; se soubermos que ninguém o fará, é natural que fiquemos desesperados, temendo morrer de inanição. O mesmo acontece com relação à doença, dificuldades financeiras e outros problemas. Só pelo reconhecimento de que tudo será solucionado através da fé teremos tranquilidade absoluta. Dessa forma, a salvação das duas partes – a material e a espiritual – é que nos fará sentir-nos salvos, alcançando o estado de verdadeira paz e segurança.

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A base da salvação material e espiritual – aquela que é a mais perfeita – consiste, portanto, unicamente, em eliminar a doença, tornando as pessoas sadias. Por maior que seja a nossa fortuna ou a

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quantidade e variedade dos mais saborosos alimentos, provenientes do mar e da terra, em nossas refeições, por maiores honrarias e por mais elevada posição social que tenhamos isso de nada adiantará, se estivermos sofrendo com doenças. A primeira condição para a salvação da humanidade é, antes de qualquer coisa, alcançar a saúde. Por esse motivo, a meta de nossa religião é formar indivíduos e sociedades saudáveis. 24 de Dezembro de 1949

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Eu Escrevo a Verdade Comecei a escrever há mais de dez anos; naturalmente, apenas sobre assuntos relacionados à fé. Ao contrário de outros fundadores de religiões, procurei eliminar formalidades e palavras difíceis, utilizando uma linguagem que todos pudessem compreender facilmente. Todavia, em matéria de textos religiosos, há um inconveniente. Os oitenta e quatro mil sutras de Sakyamuni, por exemplo, assim como a Bíblia cristã, os mistérios de Shingon, o “tan-ni-sho” de Shinran, os textos de Nitiren, o “mikagurauta” da Tenri-Kyo, o “Ofudessaki” da Oomoto, etc., falando em sentido negativo, todos eles cheiram a religião. De modo geral, as religiões são boas. Entretanto, se por um lado elas possuem o que poderíamos chamar de característica peculiar a toda religião, por outro lado têm certo mistério que ora julgamos entender, ora nos parece incompreensível, e talvez seja por isso mesmo que elas exercem atração. Sendo difícil compreendê-las, as religiões podem ser interpretadas de várias maneiras, dependendo da pessoa, o que facilita a formação de seitas. Além disso, quanto mais adeptos tiver uma religião, mais probabilidade ela terá de subdividir-se. A história nos mostra a luta que travaram entre si essas facções. Assim, não conseguindo captar a essência da fé, os fiéis sentem frequentes dúvidas, tornando-se difícil alcançarem a verdadeira paz e iluminação espiritual. Através dos métodos utilizados até agora, não conseguiremos obter a unificação harmoniosa nem mesmo de uma só religião. Consequentemente, a unificação de todas elas torna-se uma utopia. Esse deve ser, também, o motivo do aparecimento de novas religiões a cada ano que passa. Observando somente o Japão, notamos que a tendência atual é aumentar o número de religiões proporcionalmente ao aumento da população. Jeová, Deus, Logos, Tentei, Mukyoku, Amaterassu-Ookami, Kunitokotati-no-Mikoto, Cristo, Shaka, Amida e Kannon constituem o alvo da adoração de diversas religiões. Além destes, que são os principais, poderíamos citar Mikoto, Nyorai, Daishi e

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inúmeros outros. Sem dúvida alguma, não levando em conta Inari, Tengu, Ryujin e mais alguns, que pertencem a crenças inferiores, todos eles são divindades de alto nível. Remontando às origens, é óbvio que só existe um deus verdadeiro, isto é, DEUS. Até hoje, contudo, cada religião se considera mais elevada que as demais, havendo, também, certa dose de discriminação entre elas. Dessa forma, é impossível promover-se a união de todas. Apesar disso, o objetivo final de todas as religiões é o mesmo; não há uma sequer que não deseje o Céu ou o Paraíso neste mundo, ou melhor, a concretização do Mundo Ideal, um mundo onde todas as criaturas sejam felizes. Mas o que é preciso para que esse mundo se concretize? É preciso que surja uma religião universal, que englobe o mundo inteiro. Deverá ter as características de uma ultrareligião, ser tão grandiosa que toda a humanidade possa crer nela incondicionalmente. Não quero dizer que essa religião seja a Igreja Messiânica Mundial, mas a missão de nossa Igreja é ensinar o meio que possibilitará a realização do Mundo Ideal, ou seja, mostrar como elaborar o plano, o projeto para a construção desse mundo. Na medida em que aumentar, em cada país, o número de intelectos conscientes disso, estaremos marchando passo a passo para atingir nosso objetivo. Em síntese, será a concretização da verdade. Através dela, todos os erros se tornarão claros e serão corrigidos, surgindo o Mundo de Luz, claro e límpido. Naturalmente, a humanidade se libertará do mal; o bem, que estava subjugado por ele, triunfará, e o homem alcançará a felicidade. Portanto, em primeiro lugar, é fundamental que a verdade seja conhecida pelas pessoas do mundo inteiro. Então, as pessoas poderão afirmar: “Desde os tempos antigos, todos os grandes homens vieram ensinando a verdade”. E talvez digam: “Para que, a essas alturas, há necessidade de fazer isso?” Entretanto, isto é um problema, pois, se a verdade tivesse sido revelada, ela teria se manifestado concretamente, e o mundo paradisíaco ou teria se concretizado ou estaria prestes a sê-lo, porém não há 38

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qualquer indício disso. Realmente podemos dizer que estamos nos aproximando passo a passo do Paraíso, mas, por outro lado., espiritualmente não há qualquer progresso, ocorrendo justamente o contrário. Se a situação continuar como está, não sabemos e nem temos ideia de quando será concretizado verdadeiramente o mundo paradisíaco. Sendo assim, poderão se conscientizar de que aquilo que até agora acreditávamos ser verdade, na realidade não era. Como melhor prova do que dizemos, basta observar a situação do mundo. Tudo está por demais distante do Paraíso: a doença, o maior sofrimento do homem, não diminui; a pobreza, que representa um sofrimento na vida, continua, bem como o conflito entre os indivíduos; e no âmbito nacional, isto é, a guerra, também é um fato real. Isto é a prova de que a verdade não está sendo praticada de forma alguma. Aquilo que até agora se pensava ser verdade, na realidade era inverdade; portanto, não sendo útil, tornava-se até mesmo uma interferência na construção do Paraíso. Todavia, chegou finalmente o momento em que Deus, através da minha pessoa, esclarece a verdade a toda a humanidade. Esse é o motivo do aparecimento da nossa Igreja. Por conseguinte, os textos que eu escrevo, são ordenados por Deus, para que sejam compreendidos por todos. Tudo o que eu escrevi até agora são verdades. Espelhando-me na verdade, vou revelar os erros da inverdade e ensinar a forma de corrigi-los. Mostrarei a distinção entre a verdade e a inverdade, e, mais do que isso, vou mostrá-la baseado na realidade. Isso vem a ser o já referido tratamento através do Johrei, o cultivo natural, a elevação da Arte e a construção do protótipo do Paraíso Terrestre. Dessa maneira, o empreendimento que agora estou realizando – um grande esforço para revelar a Verdade através de explanações escritas – constitui uma fase importantíssima para a concretização desse mundo. 25 de Setembro de 1951

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A RELIGIÃO PRECISA SER UNIVERSAL Não adianta uma religião ter todas as condições; se não tiver base universal, não será uma religião verdadeira. Caso ela se restrinja a uma nação ou povo, ocorrerá aquilo que vemos no mundo atual: surgirão motivos para conflitos. Cada qual se orgulhará da superioridade da sua religião e rebaixará as outras, acabando por haver atritos. Pode acontecer, também, que as religiões sejam utilizadas na política governamental. A exploração exagerada do xintoísmo pelo exército japonês, durante a Segunda Guerra Mundial, e as Cruzadas da Europa exemplifica o que estamos dizendo. Os exemplos não são poucos, e a causa está no fato de que as religiões se restringiam a determinados povos. Mas não havia outro recurso, pois, naquela época em que a civilização ainda estava engatinhando, não existiam os rápidos meios de transporte que existem atualmente, e as relações internacionais estavam limitadas a pequenas áreas. Hoje, tudo se tornou mundial e internacional, e as religiões também deveriam seguir esse caminho. É por isso que passamos a chamar nossa Igreja de Igreja Messiânica Mundial, e não mais de Igreja Japonesa, como antes. 11 de Fevereiro de 1950

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A VERDADEIRA RELIGIÃO A verdadeira religião deve fundamentar-se no universalismo. Não será verdadeira se for limitada a um país, povo ou classe, porque tal limitação provoca disputa de poderes, o que contraria a própria essência das religiões, cuja missão é eliminar conflitos e promover a paz. Qualquer hostilidade significa afastar-se do objetivo da Religião. Por isso, é estranho que a História registre tantas lutas religiosas. Chamamos “Shojo” a religião limitada, e “Daijo”, a de objetivos universais. Logo se vê que só esta última pode ser considerada verdadeira. 5 de Novembro de 1949

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A LÓGICA EM RELIGIÃO O critério para distinguirmos se uma religião é ou não é boa e correta, o método mais simples e que apresenta menos margem de erros, consiste em averiguar se ela é de natureza lógica ou ilógica. Nesse ponto, as religiões mediúnicas são perigosas; entretanto, não estou dizendo que todas elas devam ser evitadas. Na verdade, entre os fundadores de religiões que hoje são consideradas grandes, muitos eram médiuns. Mesmo se tratando de religiões mediúnicas, cada uma é boa ou má de acordo com a sua própria natureza. Sendo assim, para distinguir as religiões, o melhor é começar a analisá-las pelo senso comum. 23 de Julho de 1949

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COMO ENCARAR A RELIGIÃO Tenho observado que, quando as pessoas analisam a religião, não compreendem o ponto mais importante – sua posição. A religião está acima de qualquer outro valor. A filosofia, a moral e a ciência ocupam uma posição inferior. Entretanto, por ignorância dessa verdade, usam-se expressões como “Religião Filosófica” e outras parecidas, baseadas na interpretação filosófica da religião, o que é absolutamente errado. Explicar a religião sob o ponto de vista da filosofia é tentar explicar algo que não possui forma através de algo que a possui. A religião foi criada por Deus e a filosofia, pelos homens. A moral também difere da religião. Tal como a filosofia, ela foi criada pelo homem, mas há uma diferença entre ambas: a filosofia é de caráter ocidental e científico, ao passo que a moral é de caráter oriental e psicológico. Comparada com a filosofia e a moral, a ciência é muito mais materialista, sendo patente a distância que há entre ela e a religião. Por todas essas razões, podemos perceber como está errado o conceito que os intelectuais da atualidade têm sobre esta última. Todavia, se analisarmos mais profundamente, veremos que a filosofia é o conjunto das teorias criadas pelo homem até hoje, e por isso, quando a comparamos com a religião, a importância desta revela-se por si mesma. Se tentamos descobrir, através da filosofia, o ponto mais profundo de uma questão, encontramos barreira e nada conseguimos. Uma prova disso é que, quanto mais pesquisamos através dela, mais confusos ficamos. Uma dúvida puxa outra, e na maioria das vezes não recebemos resposta para as nossas perguntas. A consequência é nos cansarmos facilmente da vida, havendo pessoas que chegam ao extremo de pensar que a única solução para tal angústia é o suicídio. Esse é um fato que ninguém desconhece. Quanto à moral, não se pode negar que tem contribuído muito para o bem da sociedade. Entretanto, embora ela tenha surgido com o objetivo de melhorar a conduta do homem por meio de 43

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códigos, não conseguiu dominar-lhe totalmente o espírito, pois também nasceu do cérebro dos intelectuais. No antigo Japão, talvez fosse possível aceitá-la, mas hoje em dia, tendo a moral caráter oriental e estando tudo dominado pela cultura ocidental, ela já não consegue convencer as pessoas e, obviamente, tende a desaparecer. A respeito da ciência materialista, que nós sempre criticamos, não há necessidade de maiores comentários. Atualmente, falar em cultura é o mesmo que falar em ciência; interpreta-se progresso cultural como progresso científico. É duvidoso, porém, que o homem tenha se tornado mais feliz com o progresso da ciência. Ao contrário, somos levados a pensar que a infelicidade cresceu proporcionalmente a ele. Ante a terrível ameaça de guerra nuclear que paira sobre a humanidade, não é preciso dizer mais nada. Evidentemente, o desejo dos homens, excetuando-se uma parte, é alcançar a felicidade. A expansão e o progresso da ciência também têm esse objetivo. Mas é muito triste constatar que na realidade acontece justamente o oposto. Urge, portanto, averiguar a causa disso. Se a filosofia, a moral e a ciência, como acabei de expor, não têm força suficiente para resolver o problema, o que é que poderá resolvê-lo a não ser a religião? Certamente, os intelectuais têm consciência do fato, mas na verdade, enquanto o consenso geral tomar como padrão as religiões tradicionais, acho que o problema continuará sem solução. Dessa forma, não é possível prever quando se concretizará a felicidade do ser humano. Vemos, pois, que são muito sombrias as condições da sociedade atual. Todavia, neste mundo resignado, apareceu a nossa ultrareligião, com enorme poder salvador. Talvez seja difícil aceitá-la, pois ninguém poderia imaginar uma religião semelhante, mas o fato é que não se pode negar aquilo que é evidente. Uma vez conhecendo a sua verdadeira essência, como os cegos que experimentam a alegria de ver a luz, todos despertarão. A prova do que dizemos está nos relatos cheios de alegria que enchem as nossas publicações. Por isso, aqueles que desejam a verdadeira felicidade, façam uma 44

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experiência, entrem em contacto com a nossa Igreja! Por mais saborosa que seja uma comida, é impossível avaliarmos seu sabor apenas ouvindo explicações sobre ela ou olhando-a; antes de tudo, é preciso prová-la. Tenho a certeza de que todos ficarão satisfeitos com o sabor jamais experimentado até então. 29 de Abril de 1950

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RELIGIÃO À LUZ DA VERDADE (RELIGIÃO DAIJO) Embora se saiba que existe a classificação “Daijo” e “Shojo” referente às religiões – classificação usada principalmente no budismo – até nossos dias ainda não foi divulgada uma explicação radical sobre o assunto. Procurarei expor o meu ponto de vista. Resumindo, “Daijo” significa natureza e refere-se às atividades de criação e desenvolvimento de todas as coisas existentes no universo. Portanto, “Daijo” abrange tudo, nada lhe escapa. De acordo com este sentido, falarei não sobre o “Daijo” búdico, mas sobre o “Daijo” universal. Isto é, não somente religião, filosofia, ciência, política, educação, economia e arte, mas também a guerra e a paz, o bem e o mal. Podemos observar uma ordem natural nas atividades de todo o universo. Considera-se realmente homem o indivíduo que reconhece a obediência à ordem como fator natural do progresso. Por essa razão, o desvio da ordem acarreta, infalivelmente, obstáculos, estacionamento ou destruição. A obediência ou a desobediência à ordem constrói ou destrói, e a realidade mostra que no mundo sempre tem ocorrido construção e destruição. As religiões podem servir como exemplo. Embora os homens as condenem, tachando-as de supersticiosas ou heréticas, elas progredirão se forem necessárias à humanidade; caso contrário submeter-se-ão à seleção natural. Devemos confiar até certo ponto na ação da natureza. Se as religiões tiverem realmente vida e valor, a perseguição humana contribuirá para o seu progresso. Temos um exemplo vivo no cristianismo. Quem objetará contra a sua predominância atualmente, apesar da crucificação do seu fundador? O homem moderno possui uma visão demasiadamente estreita e curta, cujo erro, creio eu, deve ser analisado seriamente. 25 de Outubro de 1949

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A VERDADEIRA RELIGIÃO DAIJO É do conhecimento de todos que há religiões de caráter universal e outras de caráter restrito. As opiniões dos religiosos e filósofos a esse respeito são extremamente ambíguas e quase se acham desviadas da verdade. Portanto, exponho o assunto, aqui, de maneira mais clara. Primeiramente, precisamos conhecer a natureza de todas as religiões existentes no mundo. Elas diferem entre si, possuindo suas próprias formas e meios doutrinários, baseados nos princípios dos respectivos fundadores. Basta uma simples reflexão para sentirmos o absurdo da existência de seitas, com características próprias, dentro de religiões consideradas universais, como o budismo, o cristianismo e, no Japão, o xintoísmo. Pensemos no que vem a ser a religião. Se ela tem por princípio, como sabemos, o amor fraternal e o espírito de conciliação e paz, todas as religiões devem possuir um único objetivo. Não seria sensato, portanto, estabelecer unidade nos sistemas doutrinários? A separação influi na ideologia da humanidade, tornando-se uma das causas da confusão social. Como a força dos que estão ao lado da religião, ou seja, do bem, é dispersada, os homens perdem, também, a resistência contra o poder do mal. A realidade mostra frequentemente a vitória do mal. No fim, Deus vencerá, por ser onipotente, mas imaginemos a luta que terá de ser travada pelo bem. Como o mal é prepotente e controla quase tudo, fica à espreita, aproveitando a menor oportunidade para influenciar-nos. Parece que as conhecidas relações entre Cristo e Satanás, e entre Buda e Daiba (Devadatta), não sofreram nenhuma modificação até a presente data. Vemos, portanto, que a religião precisa ter maior poder que o mal; do contrário, não conseguirá transformar este mundo num mundo feliz, onde triunfe o bem. Somente assim haverá unidade religiosa, dando lugar a um mundo de felicidade, isento de inquietações. Será uma obra difícil, mas não impossível. Isso, porque está 47

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próximo o advento do Paraíso Terrestre, que é o objetivo de Deus. A condição básica para a sua concretização é substituir o espírito restrito pelo universal, ou melhor, desenvolver uma superatividade cultural que abranja todos os setores: religião, ciência, política, economia, arte, etc. É também necessário que, para desempenhar a função de liderança, apareça um gigante com poder e sabedoria sobre-humanos. 6 de Janeiro de 1954

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RELIGIÃO ATIVA Os leitores poderão estranhar quando eu disser que há religiões ativas e religiões inativas. É justamente o que pretendo explicar agora. Religião ativa é aquela que está relacionada com a vida prática, e a inativa ou morta, exatamente o oposto. Infelizmente, é raro encontrar uma religião, dentre as muitas existentes, que esteja perfeitamente entrosada com a vida prática. As doutrinas são elaboradas com perfeição, mas não podemos esperar muito do seu poder doutrinário. No período da fundação de muitas religiões, há centenas ou milhares de anos, talvez suas doutrinas estivessem de acordo com a situação social da época, exercendo sobre ela grande influência. Sabemos, no entanto, que esse poder foi enfraquecendo com o passar do tempo, até atingir o estado em que hoje se encontra. Lamentavelmente, esta é a ordem natural das coisas; tudo sofre essa mudança, que acabou ocorrendo também no âmbito da religião. O surto de novas religiões adaptadas à época no decorrer destes anos é um fato inegável, observado em todos os países. Mas essas religiões acabam sempre desaparecendo, por faltar-lhes poder suficiente para superar as anteriores. Exemplifiquei as mudanças ocorridas nas religiões; agora desejo falar sobre as características das religiões modernas. É do conhecimento geral que o desenvolvimento da ciência, a partir do século XVIII, vem constituindo uma verdadeira ameaça para as religiões, e não se pode negar que ele tenha contribuído para a sua decadência. A ciência dominou a tal ponto a mente humana, que o homem só aceita aquilo que tem explicação científica. O fato ainda seria desculpável, se não tivesse dado origem ao pensamento ateísta e à corrupção moral sem fim, criando confusão social e transformando este mundo num verdadeiro caos. Ainda há religiões antigas que se esforçam para doutrinar o povo com ensinamentos, os quais foram sendo aperfeiçoados após a sua elaboração, centenas de anos atrás. Mas falta poder doutrinário 49

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a essas religiões, distantes da atualidade, e a carência de realismo torna sua existência equivalente à das antiguidades. Na época em que surgiram, elas foram úteis, mas hoje seu valor não vai além de uma preciosidade histórica e cultural. Dentre as novas religiões, há algumas que se aproveitam dessas preciosidades históricas adornando-as ricamente, para atrair as pessoas; mas, com certeza, terão seus dias contados. Diante de tudo isso, é admissível que a religião tenha ficado abandonada por muito tempo, sendo superada pelo maravilhoso progresso da cultura. Exemplificando, é como se quiséssemos usar carro de bois numa época em que nos servimos de aviões, automóveis e telégrafo. A nossa Igreja respeita a história, mas não se prende a ela, progredindo de acordo com a Vontade Divina e através dos seus próprios métodos. As atividades relativas à obra que estamos realizando, abrangem a reforma da agricultura e da medicina, apontam as falhas de todas as culturas e adotam como princípio orientador, o ideal de uma nova civilização. Uma de suas principais realizações vem a ser a construção do protótipo do Paraíso Terrestre e do Museu de Arte. Além de servir-se dessas construções como recintos sagrados, onde os espíritos maculados e exaustos possam se sentir reconfortados, a Igreja pretende, visando o enobrecimento do caráter do homem, torná-las um baluarte contra os divertimentos fúteis e pecaminosos de hoje em dia. De acordo com o exposto acima, a atividade da Igreja Messiânica Mundial, no plano individual, consiste em salvar o homem da pobreza e contribuir para a sua saúde física e mental; no plano social, a sua finalidade é construir uma sociedade sadia e pacífica. Sentimo-nos imensamente felizes ao saber que, ultimamente, o nosso trabalho está sendo reconhecido pelos eruditos e tornandose alvo de suas atenções. Embora, no momento, seja uma obra insignificante, no dia em que ela for ampliada e difundida no mundo inteiro surgirá em todos os países a ideia de um mundo ideal, repleto de paz e felicidade. Afianço que isso não é um sonho. 50

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Que vem a ser, portanto, uma religião ativa, viva, senão a nossa, com todos esses exemplos? Infelizmente, a sociedade atual olha as novas religiões com indiferença e desprezo, e isso se acentua principalmente na classe dos intelectuais, que assumem uma atitude cautelosa perante o povo, mesmo quando se referem à nossa Igreja. Entretanto, eu compreendo perfeitamente a razão dessa atitude. As religiões antigas geralmente contam com um espantoso número de adeptos, mas estes, na maioria, são pessoas de pouca cultura. Entre as religiões novas, há algumas que não despertam nenhum interesse, devido às suas palavras e práticas excêntricas; outras possuem elementos supersticiosos em grande proporção, que o bom senso nos leva a repelir. Creio que isso não durará por muito tempo, mas desejo que os responsáveis por essas religiões usem de reflexão. Há também, teólogos que, para adaptá-las à época, reproduzem e vestem de uma nova roupagem as doutrinas dos antigos santos, sábios e mestres. Isso confere a elas uma aparência progressista e de fácil aceitação pela classe intelectual, mas resta dúvida quanto à sua validade com relação à vida prática. O assunto me faz recordar o pragmatismo de William James, o famoso filósofo americano. Essa doutrina filosófica preconiza a “filosofia em ação”, e eu pretendo estendê-la também à religião, isto é, a religião deve ser prática e ativa. 4 de Novembro de 1953

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RELIGIÃO CRIADORA DE PESSOAS FELIZES A religião não é nada mais do que a cristalização do amor de Deus para guiar os infelizes ao caminho da felicidade. Ninguém ignora que muitos lutam em vão para conseguir a felicidade almejada; raras são as pessoas que a conseguem, depois de uma vida inteira de lutas. É de pouca utilidade colocar em prática a teoria que nos foi legada através da instrução e de biografias e leituras referentes aos exemplos de grandes personagens. A teoria bem formada merece admiração, mas todos sabem, por experiência própria, que é difícil pô-la em prática. Tem-se como crédulo ou simplório aquele que age com honestidade; entretanto, se a pessoa procede diferente, cai no descrédito social e nas malhas da Lei. Por fim, o indivíduo não sabe como agir. O que os homens consideram bem-viver e se apressam por adotar, é a vida desonesta sob a capa da honestidade. Os melhores adeptos dessa filosofia tornam-se os campeões dos bem-sucedidos, razão por que as pessoas tendem a seguir tais exemplos e o mal social não diminui. Dizem que os honestos levam desvantagem, e tudo nos faz chegar a tal conclusão, a julgar pelo aspecto do mundo, de modo que quanto mais honesto for o indivíduo, tanto mais ele se arrisca a cair no conceito de “antiquado”. Observa-se com frequência que os homens que proclamam a justiça são repelidos e fracassam na sociedade. É enorme o meu esforço para manter constantemente o conceito de justiça diante de semelhante mundo. O homem comum escarnece das minhas palavras, que ele considera crendices. Julga-me caprichoso e covarde, porque não sou interesseiro. Sente-se importunado por enfrentarmos o mal e destemidamente escrevermos a respeito, e também pelo nosso rápido progresso. Ultimamente, porém, em vista da firmeza de atitude com que nos temos mantido, apesar de todas as pressões – atitude que visa 52

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unicamente o bem – está despertando certa consideração por nós no espírito das pessoas. Alegra-nos, acima de tudo, que a situação tenha abrandado, facilitando o nosso trabalho. Isso se deve à resistência que oferecemos a todas as perseguições, tendo Deus por nosso apoio, e ao fato de a Igreja Messiânica Mundial possuir o Johrei, inexistente nas demais religiões. Felizmente alcançamos a liberdade religiosa com o advento da democracia. O ambiente ficou favorável, em comparação com o do Japão anterior à guerra, tornando possível, através da justiça, eliminar o mal e caminhar ao encontro do bem. A seguir, tratarei do problema concernente à felicidade do homem. Naturalmente, o bem constitui a base da felicidade, sendo óbvio insistir sobre a necessidade de ele ter força suficiente para vencer o mal. Até agora, entretanto, na sua maioria, as religiões careciam dessa força; por conseguinte, não proporcionavam a felicidade desejada. Sendo assim, tiveram de pregar a Iluminação para satisfazer o povo, no seu desejo de atingir, pelo menos, a paz espiritual, uma vez que não conseguia obtê-la na sua totalidade, isto é, espiritual e materialmente. Ou então pregaram a resignação, através do espírito de expiação e do princípio de não resistência contra o mal. Criaram, portanto, a teoria da negação da graça na vida presente, o que explica ser classificada de superior a religião que visa à salvação do espírito, e de inferior àquela que consegue obter, também, os benefícios do mundo. Mas essa teoria não passou de um recurso para determinada época. Darei exemplos. Há pessoas que, embora torturadas por uma doença prolongada, dizem-se alegres, alegando estarem salvas quando na realidade estão apenas resignadas, sufocando seus verdadeiros sentimentos. Isso é uma espécie de autotraição. Por natureza, a verdadeira satisfação nasce com o restabelecimento da saúde, se for esse o caso. Em todos os tempos houve famílias que, não obstante o ardor de sua fé, não foram agraciadas materialmente, permanecendo vítimas de desgraças. Dessa forma, acabaram por se iludir, julgando que a essência da religião só objetiva a salvação espiritual.

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A Igreja Messiânica Mundial salva tanto o espírito como a matéria. Podemos afirmar que vai além disso. As obras de construção dos protótipos do Paraíso Terrestre em diversas localidades, assim como a construção de museus de arte que estamos realizando dependem inteiramente dos donativos dos fiéis. A Igreja abomina a exploração, contando apenas com recebimento do donativo espontâneo. Apesar disso, é realmente milagroso o fato de se conseguir a quantia necessária para o empreendimento de uma obra de tal envergadura. Isso prova a prosperidade dos fiéis. O donativo, longe de ser temporário, tende a aumentar, razão por que nunca me preocupei com dinheiro. Na época em que apareceram as religiões antigas, os ensinamentos podiam ser de caráter limitado, de fé “Shojo”, mas hoje a realidade é outra. Tudo adquiriu caráter universal, de modo que é preciso uma organização grandiosa, para salvar a humanidade. Quanto maior a organização, maior o número de pessoas salvas. Por isso, ao tomar conhecimento dos seus objetivos, ninguém deixará de reconhecer a importância da nossa Igreja. 10 de Junho de 1953

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RELIGIÃO PRAGMÁTICA O pragmatismo, doutrina sustentada inicialmente por Charles Sanders Peirce, famoso filósofo americano (1839-1914), chegou a ser uma filosofia de âmbito mundial, propagada por William James, que hoje é considerado seu criador. Dizem que pragmatismo significa utilidade prática; creio, entretanto, ser mais adequado aplicar o termo “ativismo”. Acho desnecessário falar muito a respeito, porque se trata de uma teoria conhecida por todos aqueles que se interessam pela filosofia. O que desejo falar agora é sobre o pragmatismo religioso. Já me referi uma vez a esse tema, mas torno a abordá-lo, para melhor compreensão. Quando falamos em ativismo religioso, temos a impressão de que todas as religiões estejam praticando ações de fé. Todos conhecem propagandas por escrito, sermões verbais, orações, cultos, rituais religiosos, ascetismo e mortificações; infelizmente, porém, as religiões ainda não atingiram a vida prática. Em verdade, não passam de cultura mental. O pragmatismo filosófico introduz a filosofia na vida prática, acentuando, neste ponto, o caráter americano. Pretendo fazer o mesmo, com uma diferença: fundir a religião e a vida prática, tornando-as íntimas e inseparáveis. Deixemos, pois, de ostentar virtudes, de isolar-nos, de ser teóricos como foram até hoje os religiosos, e sejamos iguais às pessoas comuns. Para tanto, é preciso que eliminemos toda afetação religiosa e procedamos sempre de acordo com o senso comum, a ponto de tornar a fé imperceptível aos outros. Isso vem a ser a apropriação completa da fé. Com essa explicação, creio que puderam entender o que vem a ser ativismo religioso. 30 de Maio de 1951

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RELIGIÃO PROGRESSISTA Observando atentamente a sociedade atual, constato que tudo progride rapidamente; não há nada que não esteja acompanhando esse progresso. Entretanto, por incrível que pareça, a religião, entidade que tem a mais profunda relação com a humanidade, continua da mesma forma, não apresentando nenhum progresso. Pelo contrário. Como prova, as religiões tradicionais nos ensinam a voltar ao início, ao ponto de partida dos seus fundadores. Ora, se devemos voltar à origem, é porque saímos do caminho certo; caso o fato se repita várias vezes, não progrediremos nada, ficando em total desacordo com a cultura. Tais religiões nos mostram isso claramente na medida em que perdem o poder de atrair pessoas e teimam em permanecer na situação em que se encontram. De fato, todas as religiões que existem, sofreram perseguições e pressões na época de sua fundação. Podemos mesmo dizer que esse é o destino de toda religião nova. Apesar disso, com fôlego renovado, expandiram-se vigorosamente, passando por épocas maravilhosas. A verdade, porém, é que, com o tempo, a maioria das religiões tende a estacionar. Vamos analisar por que isso acontece. Sem dúvida alguma, as religiões entram em decadência por não acompanharem a marcha do tempo. Quando cumprem rigorosamente os ensinamentos do seu fundador, considerando-os como as mais sublimes e importantes determinações, mas não dão atenção a outros fatores, tornam-se anacrônicas. Como a brecha vai ficando cada vez maior, passam a ser acusadas de incapazes, conforme está ocorrendo atualmente. Se todas as coisas estão sujeitas à Lei de Causa e Efeito, faz-se absolutamente imprescindível que as religiões tradicionais reflitam muito sobre o assunto, pois não há motivos para elas continuarem eternamente transcendentais. Um dos princípios básicos de nossa religião é que tudo deve progredir e acompanhar o tempo. Essa é a razão pela qual não damos atenção às formalidades das religiões tradicionais, dispensando o tempo e os gastos que elas requerem. 56

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Na realidade, as formalidades não trazem benefício algum. Assim, não há motivo para as divindades ficarem contentes com elas. Em face do que dissemos, a missão da verdadeira religião é dar orientações no sentido de melhorar, cada vez mais, a vida do homem atual. Resumindo, só uma religião progressista poderá realmente salvar a humanidade. 5 de Novembro de 1950

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RELIGIÕES NOVAS E RELIGIÕES TRADICIONAIS Quando analiso o comércio da atualidade, observo que existem dois tipos de lojas – as novas e as tradicionais. As primeiras são dinâmicas, objetivando expandir-se amplamente, mas ainda não ganharam plena confiança do povo, pois este desconhece a qualidade das suas mercadorias, não sabendo se os preços são razoáveis. Preocupadas, as pessoas compram nelas apenas a título de experiência, ou para atender às suas próprias necessidades. Entretanto, se a loja é tradicional, merece absoluta confiança dos fregueses. Para eles, sendo artigos dessa loja, por certo são bons. Ao invés de comprar na incerteza, em outros locais, preferem ir a um lugar de confiança, ainda que seja mais distante. No caso de uma compra de certo vulto, é certo se dirigirem às lojas tradicionais, pelo nome que elas possuem, conseguido através de um longo tempo de vendas. Em face disso, as lojas novas empenham-se arduamente para atrair pelo menos algumas pessoas acostumadas a comprar nas casas tradicionais. Trata-se de uma situação que todos conhecem, e por isso dispensa maiores comentários. Interessante é que no campo religioso ocorre o mesmo. O aparecimento de uma nova religião ainda é cercado de dificuldades maiores que o das pequenas lojas comerciais. De imediato, ela é tachada de supersticiosa e maléfica, ou até mesmo de trapaceira. É realmente cruel. Existem, sem dúvida, muitas religiões novas às quais se possam atribuir esses adjetivos, mas, de vez em quando, aparecem religiões verdadeiras. Também não podemos esquecer que todas as religiões respeitadas atualmente já foram novas; com o passar do tempo é que elas ganharam tradição. A loja nova, esforçando-se para oferecer preços e mercadorias equivalentes aos das lojas tradicionais, acaba tornando-se uma delas. Sendo assim, é errado tachar de trapaceiras e maléficas todas as religiões que surgem. Pelos motivos expostos, creio que o primeiro dever das pessoas 58

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que criticam as religiões novas é analisá-las bastante, para poderem classificá-las de “boas” ou “más”. Só depois é que devem escrever a seu respeito. 30 de Março de 1949

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O QUE É UMA RELIGIÃO NOVA? Atualmente, em vários setores sociais, fala-se sobre o tema Religião Nova, sendo ele também abordado, com muita seriedade, em jornais e revistas. Isso é bastante animador. Observamos, entretanto, que esses órgãos de comunicação consideram nova uma religião apenas porque ela surgiu recentemente, sem se interessar pelo seu conteúdo. E é muito triste constatar que até mesmo as pessoas que fazem parte de tais religiões pensem assim. A propósito, devo dizer que não tem sentido uma religião apresentarse com o nome de nova e seu conteúdo não corresponder a essa designação. Se a religião apenas mudar ou acrescentar, de acordo com o entendimento do seu fundador, algumas interpretações ou sentidos às palavras que há muito tempo vêm sendo ditas em livros ou ensinamentos muito conhecidos, revelados pelo fundador de uma religião antiga, não se poderá dizer que ela é uma religião nova. Aliás, conservando as mesmas formas e construções e chegando ao ponto de aconselhar a volta aos ensinamentos desse fundador, ela se distancia cada vez mais da época atual. É impressionante haver quem não ache estranho esse procedimento. Se tivermos de lidar com pessoas inteligentes, de nível cultural elevado, principalmente entre a camada jovem, certamente elas não aceitarão uma doutrina cheirando a mofo. Assim, podemos dizer que, atualmente, a maioria dos seguidores das religiões tradicionais é arrastada apenas pelas tradições e costumes. Quanto às religiões novas, seus adeptos ingressam nelas à procura de algo novo; parece, todavia, que os crentes verdadeiramente firmes são muito poucos. Por conseguinte, para fazermos com que o homem da atualidade creia sinceramente, é preciso oferecer-lhe uma teoria baseada na razão e acompanhada de insofismáveis Graças Divinas; caso contrário, de nada adiantará tentar convencêlo. Diante de tudo isso, é muito natural ser efêmera a fé daqueles que seguem uma religião apenas como seguem a moda. Não quero dizer que o homem contemporâneo seja destituído 60

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de sentimentos religiosos, mas, observando a realidade que nos cerca, constatamos que não existem muitas religiões nas quais possamos crer. Se houvesse alguma, quase todos, indubitavelmente, a procurariam; não a encontrando, as pessoas tornam-se descrentes, por não terem alternativa. Uma vez que a ciência é mais compreensível, pelo fato de ser concreta e satisfazer os desejos humanos, essas pessoas apóiam-se nela naturalmente. Por isso eu acho que não podemos censurar os descrentes. Analisemos a questão. Como, inúmeras vezes, nem a ciência, na qual têm tanta confiança, nem a própria religião conseguem resolver-lhes os problemas, as criaturas ficam num dilema. Entre os intelectuais, alguns, não podendo prever os acontecimentos futuros, passam a duvidar; outros, sentindo-se fartos da vida, perdem o gosto de viver ou vivem apenas para o momento presente; outros, ainda, em melhores condições financeiras, procuram mais divertimentos. Além disso, a crença de que não mais aparecerá um líder na história religiosa também contribui para o desespero das pessoas. Algumas estão quase desistindo, quase desligadas da realidade, pesquisando doutrinas ultrapassadas. Essa é a realidade da época em que vivemos. O pensamento do mundo atual está totalmente confuso, não se encontrando uma saída. Contudo, no meio desta confusão, repentinamente surgiu a Igreja Messiânica Mundial, que, com muita coragem, pretende alertar todos os setores da cultura tradicional, apontar um por um de seus erros e mostrar como deve ser a verdadeira civilização. Como essa grande força de atuação já está sendo manifestada continuamente, podemos afirmar, sem nenhuma parcialidade, que ela é o assombro do século XX. Tal afirmação fundamenta-se naquilo que sempre digo: o mundo, até agora, estava na Era da Noite, iluminado unicamente pela fraca luz da Lua, mas surgiu a luz do Sol, e todas as coisas desnecessárias e prejudiciais que estavam encobertas começaram a aparecer abertamente. Eis o significado da expressão “Luz do Oriente”, 61

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usada pelos antigos. Atualmente, estamos atravessando a fase da aurora; com o passar do tempo, o Sol se levantará até o centro do Céu e iluminará o mundo inteiro. Por esse motivo, as teorias que venho divulgando, desconhecidas por todos até o momento, causam espanto e até muitos mal-entendidos. Como o mundo esteve durante longo tempo na Era da Noite, não é de se admirar que os olhos tenham se acostumado à escuridão e fiquem ofuscados ante a repentina revelação da Cultura do Dia. Existe, no entanto, um problema: uma vez chegado o Mundo do Dia, Deus aproveitará da Cultura da Noite apenas as coisas úteis, não havendo outro recurso senão eliminar as inúteis. Além do mais, sendo a luz do Sol sessenta vezes mais clara do que o luar, até as doenças não identificadas ou consideradas incuráveis serão facilmente solucionadas. Os fatos reais evidenciados diariamente através do Johrei de nossa Igreja mostram isso muito nitidamente. Falando com mais clareza, assim como a Lua perde seu brilho ante o esplendor do Sol, também a civilização sofrerá uma grande transformação. Com o que acabo de dizer, creio que poderão entender a grandiosidade dos empreendimentos da Igreja Messiânica Mundial. 8 de Abril de 1953

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RELIGIÃO ANTIGA E RELIGIÃO MODERNA Embora simples, os princípios religiosos utilizados por mim na obra salvadora que venho empreendendo, diferem grandemente dos princípios religiosos existentes até hoje. Os antigos fundadores ou pregadores de religiões adotavam a frugalidade na alimentação, vestiam-se sumariamente e levavam uma vida simples. Para se aperfeiçoarem, faziam penitências, permanecendo isolados em montanhas quase inacessíveis, debaixo de cascatas (ato considerado purificador), lendo os livros sagrados dia após dia. Dessa maneira, entre Verdade, Bem e Belo, este último era negligenciado. Poucos religiosos se interessavam pelas artes. O milagre era vagamente conhecido; entretanto, eles tinham especial consideração pelos princípios dos livros búdicos, apreciavam as formalidades e as celebrações religiosas e procuravam salvar a humanidade unicamente com a pregação. Essa análise limita-se ao budismo. Tomei-o como exemplo porque o xintoísmo e o cristianismo são religiões modernas. Deixo de fazer referência ao antigo xintoísmo, anterior à introdução do budismo, porque quase não consta da história nem da tradição. O trabalho que estou realizando, é bem diferente do que era feito pelos antigos. Em primeiro lugar porque, objetivando o mundo isento de doença, pobreza e conflito, proclamei, audaciosamente, a construção do Paraíso Terrestre, o que já é suficiente para evidenciar a grande diferença entre a Igreja Messiânica Mundial e as demais religiões. Como primeira meta para atingir o nosso objetivo, estamos libertando o homem do seu maior inimigo – a doença – e os resultados são cada vez mais evidentes e indiscutíveis. A condição fundamental para a concretização do Paraíso Terrestre, é ser saudável de corpo e alma, o que, por sua vez, elimina a pobreza e o conflito. Os fiéis da nossa Igreja estão trabalhando dia e noite, 63

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unidos por esse princípio. Assim, a construção do Paraíso Terrestre, longe de ser um mero ideal, é uma realidade que está apresentando surpreendentes resultados. Projetamos o protótipo do Paraíso Terrestre escolhendo locais maravilhosos, em Atami e Hakone, onde estão sendo edificados magníficos edifícios e jardins. Com a conclusão dessas obras, pretendo mostrar ao mundo a sublimidade e formosura do Supremo Céu. O Paraíso Terrestre pode ser considerado, essencialmente, o Mundo da Arte, razão por que a nossa Igreja confere às manifestações artísticas uma atenção toda especial. Paralelamente à marcha do Plano Divino, pretendo publicar projetos mais recentes, elaborados sob a Orientação de Deus, os quais abrangem política, economia, educação, etc. Através deles, os leitores poderão reconhecer a magnitude dos objetivos da Igreja Messiânica Mundial. 9 de Julho de 1949

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RELIGIÃO E SEITAS As religiões estão subdivididas em seitas. O cristianismo, por exemplo, entre outras seitas, subdivide-se em catolicismo e protestantismo, que se destacam sobre as demais. Quanto ao budismo, só no Japão existe o Shingon, Jodo, Shinshu, Zen, Nitiren e outras, as quais, por sua vez, também estão subdivididas; atualmente, há cinquenta e oito subseitas. No xintoísmo, excetuado o Shinto de Templo, há treze seitas principais: Taisha, Mitake, Fusso, Missogui, Tenri, Konko, etc. A subdivisão das religiões parece ilógica, mas vejo o caso da seguinte maneira: será que a causa não está nos cânones? Isto porque tanto a Bíblia como os preceitos búdicos contêm muitos pontos incompreensíveis, cuja interpretação varia de pessoa para pessoa, contribuindo forçosamente para a criação de várias seitas. Quanto ao xintoísmo, não possui um fundador como o cristianismo e o budismo. Formou-se baseado nos livros clássicos, entre os quais o “Kojiki” e o “Nihon Shoki”, ou através de ensinamentos transmitidos por médiuns. Embora as religiões citadas sejam religiões por natureza, sua subdivisão em seitas tende a ocasionar conflitos, prejudiciais à obra educacional de fraternidade, que é a missão principal da religião. A causa da subdivisão, sem dúvida alguma, está na dificuldade de interpretação dos ensinamentos. Entretanto, se a finalidade das religiões é salvar toda a humanidade, creio que tudo deveria ser claro para todos. Para evitar tais dificuldades, pregarei a doutrina por um novo método, de modo que ela possa ser facilmente assimilada pelas pessoas. Pretendo, ainda, do ponto de vista da religião, publicar, gradativamente, interpretações novas sobre política, economia, educação, arte, etc. 25 de Janeiro de 1949

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PRÁTICAS ASCÉTICAS Desde a antiguidade, a fé e as práticas ascéticas são vistas pelo povo como se tivessem íntima relação entre si. As práticas ascéticas tiveram origem no bramanismo, que predominava na metade da antiga Índia, antes do nascimento de Sakyamuni (Buda). A pintura e a escultura “Arhat” revelam a crueldade dessas práticas. Por exemplo: os praticantes suspendiam algo só com um braço, sentavam-se entre a bifurcação de dois galhos, ou chegavam ao cúmulo de praticar o “Zazen” (meditação profunda, com as pernas cruzadas) sentados numa tábua cheia de pregos. Houve religiosos que se mantiveram anos seguidos na mesma posição. Eles acreditavam que, perseverando em tais sofrimentos, conseguiriam atingir a Iluminação, ou melhor, sentirse-iam iluminados. É muito famoso o martírio de Dharma, o qual abraçou a Verdade no momento em que se sentiu profundamente iluminado pelo luar, que ele estava contemplando numa noite de prática ascética. Segundo a tradição, Dharma não tem pernas porque elas ficaram atrofiadas, deixando de funcionar durante os nove anos que ele passou sentado diante de uma parede, em estado de meditação. Dizem que ainda há muitos ascetas brâmanes na Índia, os quais chegam a operar milagres. A meditação do falecido Rabindranath Tagore, nas profundezas de uma floresta, e o jejum praticado diversas vezes por Mahatma Gandhi devem ser práticas ascéticas brâmanes. A ascese era amplamente praticada na época em que surgiu Sakyamuni. Não contendo sua compaixão por aqueles que se entregavam ao martírio da autotortura, ele pregou a possibilidade de qualquer pessoa tornar-se mais iluminada através da leitura das escrituras búdicas. Emocionado com a eminente virtude de Sakyamuni, o povo hindu fez dele objeto de adoração. Assim, pela lógica, os budistas que praticam a ascese estão contrariando as boas-novas de Sakyamuni. 66

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Não posso concordar com os religiosos japoneses que ainda persistem nas práticas ascéticas brâmanes. Isto porque os fiéis da nossa Igreja abraçam a verdade, seguem o Caminho e conseguem cumprir sua missão sem fazer prática ascética de espécie alguma. 25 de Janeiro de 1949

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RELIGIÃO E OBSTÁCULO Desde a antiguidade, costuma-se dizer que os obstáculos são inerentes à religião. O maior deles, talvez, tenha sido aquele que foi imposto a Cristo. Os obstáculos impostos a Buda por Daiba também são famosos. No Japão, registram-se os de Honen, Shinran, Nitiren e outros, os quais são do conhecimento de todos. Mais próximo de nossos dias, podemos citar as pressões feitas às Igrejas Tenrikyo, Oomotokyo, Hito-no-Miti, etc. Nossa Igreja também não constitui exceção; já foi pressionada inúmeras vezes, enchendo as páginas dos jornais, onde ocupou o desagradável lugar de honra entre as religiões novas. O interessante é que, quanto mais brilhante se anunciar o futuro de uma religião e quanto mais alto for o seu valor, maiores serão os obstáculos enfrentados por ela. Vou explicar por quê. Pela Lei do Espírito Precede a Matéria, as divindades do Mundo Espiritual, cumprindo as determinações de Deus, procedem à salvação da humanidade através das religiões, de acordo com o tempo, o lugar e o povo. O cristianismo, o budismo e o islamismo são os exemplos mais importantes. Naturalmente, toda religião ensina o bem e tem como objetivo transformar o mundo em paraíso. Isso é ótimo para os homens, mas, para os demônios, é justamente o contrário, pois seu objetivo é criar homens maus, a fim de construir uma sociedade infernal, repleta de angústias e sofrimentos. Para atingir esse propósito, eles lutam incessantemente com as divindades. Essa é a realidade do Mundo Espiritual, que se reflete no Mundo Material, e por isso este é um mundo diabólico, como podemos constatar.

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Para um pequeno bem, surge uma ação contrária praticada por um demônio de pouca força; para um grande bem, surge a ação de um demônio muito poderoso. Assim, a Igreja Messiânica Mundial vem enfrentando contínuos obstáculos provocados pelos chefes do mundo satânico. Sendo ela a mais elevada de todas as religiões que já existiram desde o começo da história, aquele mundo está em pânico. Para mim, o fato não requer maiores explicações,

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mas os messiânicos de todos os lugares podem comprová-lo, em parte, através de encostos espirituais ou fenômenos semelhantes. Atualmente, os demônios que atuam com mais força são o chefe dos dragões vermelhos e o chefe dos dragões pretos; utilizando-se de seus sequazes, eles estão criando obstáculos em conjunto. Essa luta é travada de uma forma que vai além da imaginação. Gostaria de escrever tudo a respeito, porém, como não tenho a permissão de Deus, deixarei para uma próxima oportunidade, quando tiver chegado o tempo certo. Entretanto, por mais que os chefes dos demônios tentem nos atrapalhar, nós temos ao nosso lado o Supremo Deus, o qual manifesta um poder absoluto; mesmo que estejamos perdendo a batalha por uns instantes, ao final sairemos vencedores, não havendo, portanto, motivo para preocupação. O sofrimento até lá será intenso, mas percebe-se claramente que estamos crescendo de forma considerável, apesar dos contínuos obstáculos. Convém conhecer a característica dos demônios. Eles possuem uma persistência assustadora e, ainda que falhem inúmeras vezes, não se arrependem nem desistem de seus objetivos de maneira nenhuma. Tentam atingi-los por estes e aqueles meios, insistentemente, utilizando-se de artifícios que nem podemos imaginar. Não há adjetivos para definir sua impiedade, barbárie e crueldade. No entanto, sendo esta a própria natureza dos demônios, o que fazer? Os mais poderosos escolhem e encostam-se nas pessoas que ocupam posições de destaque na sociedade, nos intelectuais e nos jornalistas. Todo mundo ficaria aterrorizado se conhecesse a extensão desta verdade. Embora a luta entre Deus e esses terríveis demônios seja travada incessantemente, não tomamos conhecimento dela, por se tratar de um fato ocorrido no invisível Mundo Espiritual. É por esse motivo que o homem – o Rei da Criação – é manejado como se fosse um boneco. Estando diretamente relacionado com o assunto, entendo perfeitamente essa luta, mas creio que é difícil alguém compreender o meu estado espiritual em relação a ela, pois, àsvezes, sinto medo, outras vezes, acho graça e até me divirto.

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A luta entre o bem e o mal, na Obra Divina, nunca foi tão intensa e variada como atualmente. Ela constitui uma grande peça teatral formada de verdades e falsidades, a qual só pode ser qualificada de misteriosa. Há, porém, um fato muito importante a considerar: a grande transformação do mundo. Na luta travada até hoje entre Deus e o demônio, quando Deus cedia algum terreno, porque se estava na Era das Trevas, era necessário bastante tempo para Ele reconquistar o que perdera; agora, como todos os fiéis sabem, esse tempo está se encurtando consideravelmente. Encontramo-nos na transição para o Mundo do Dia, e a força dos demônios está enfraquecendo cada vez mais. Por essa razão, a rapidez com que vem se efetuando a reconquista, em algumas ocasiões até nos traz vantagens, e a realidade nos mostra isso. Em Maio do ano retrasado, recebemos um golpe que, por um momento, parecia fatal à nossa organização. Pensamos até que jamais conseguiríamos nos recuperar. Hoje, porém, passados apenas dois anos, o progresso da construção dos protótipos do Paraíso Terrestre, em Hakone e Atami, e a expansão da fé são tão grandes como ninguém poderia imaginar. Essa é uma prova de que o poder de Deus está sendo manifestado com maior intensidade e de que estamos a um passo do advento do Mundo do Dia. Logo virá o tempo em que a Igreja Messiânica Mundial será procurada pelo mundo inteiro. Portanto, uma vez que ela desenvolve uma obra tão grandiosa para a salvação da humanidade, acho até natural que enfrente obstáculos de grandes dimensões. 3 de Setembro de 1952

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RELIGIÃO E MANDAMENTOS Assim como a política, as religiões também podem ter características liberais ou despóticas. A maioria das religiões tradicionais é do segundo tipo. Os inúmeros mandamentos que possuem, preconizando o que deve ser feito, comprovam-no. Elas são de caráter “Shojo”, ao contrário da Igreja Messiânica Mundial, que é de caráter “Daijo”, liberal, quase não tendo mandamentos. Os mandamentos religiosos assemelham-se às leis da sociedade. É falso que os homens só conseguem conter o mal pela força da lei. Se um homem for realmente íntegro, esteja ele onde estiver, mesmo num local onde não haja leis moderadoras, jamais praticará o mal, porque é um homem verdadeiro. Os mandamentos constituem as leis das religiões. Caso só se consiga um comportamento bom e correto por meio deles, é porque a fé professada não é verdadeira. Apesar dessa observação, sabemos que no tempo dos homens primitivos e selvagens, sendo bem precária a inteligência humana, não havia condições de se compreender realmente a religião. Por isso foi necessário prevenir o mal através dos mandamentos. Está claro, pois, que a religião de uma época altamente civilizada, na qual os homens conseguirão evoluir a ponto de compreenderem profundamente a Vontade Divina, prescindirá dos castigos estabelecidos pelos mandamentos. Ela será de fato uma religião capaz de construir o Paraíso Terrestre, mundo de autêntica e eterna paz. 17 de Dezembro de 1949

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RELIGIÃO ARTÍSTICA Sempre se pensou que não há muita relação entre arte e religião. Entretanto, no Japão, as manifestações artísticas tiveram início com a arte budista, não obstante se limitassem a simples quadros, estátuas, tecelagem, etc. No que se refere à música, existiam instrumentos tais como “sho”(1), “hitiriki”(2), “mokugyo”(3) e “dora”(4) e os sons emitidos na leitura dos sutras budistas. Por isso, podemos dizer que se tratava de uma arte primitiva. Mais tarde, estimulada pela introdução das artes chinesa e coreana no país, a arte japonesa passou por um período de imitações, até que conseguiu criar um estilo próprio. Atualmente, com a importação da cultura ocidental, também foi introduzida a arte do Ocidente. Principalmente após a Era Meiji (1868-1912), afluíram, com grande intensidade, as artes dos Estados Unidos e da Europa. Em consequência, no panorama artístico japonês da época atual, encontram-se as melhores obras de todo o mundo, as quais estão sendo absorvidas e assimiladas, de modo que, aos poucos, vai se criando uma arte universal. Por isso, talvez possamos afirmar que o Japão é um centro cultural. Não existe, ou melhor, nunca existiu uma religião que desse tanta importância à arte quanto a Igreja Messiânica Mundial. Isto porque o Paraíso Terrestre – nosso objetivo último – é o Mundo da Arte. Obviamente, se ele é um mundo isento de doença, pobreza e conflito, isto é, o mundo de perfeita Verdade, Bem e Belo, o homem seguirá a Verdade, amará o Bem e odiará o Mal; assim, todas as

(1) Instrumento musical de cano. É constituído de dezessete canos de bambu, longos e curtos, dispostos verticalmente. Dois deles não emitem som; os quinze restantes possuem orifícios na parte anterior e na parte posterior. (2) Instrumento musical de cano, semelhante à flauta. (3) Instrumento que se bate na hora de ler os sutras. É feito de madeira oca, arredondado, esculpido em formato de cabeça de peixe. Para se produzir o som utiliza-se um pequeno bastão coberto por um pedaço de pano ou couro. (4) Instrumento musical semelhante ao gongo. 72

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coisas se tornarão belas. Nesse sentido, a arte não será apenas um deleite indispensável; ela constituirá a própria vida e se desenvolverá intensamente. Ou seja, o Paraíso Terrestre será o Mundo da Arte. Eis o motivo pelo qual tenho grande interesse por ela e pretendo incentivá-la bastante, no futuro. Como primeiro passo, estou construindo o protótipo do Paraíso Terrestre, em Atami; quando ele estiver concluído, atrairá ainda mais a atenção da sociedade, recebendo muitos elogios. Infalivelmente, merecerá consideração em nível mundial. Portanto, estamos dando prosseguimento aos planos sob essa diretriz. 6 de Junho de 1951

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RELIGIÃO E ARTE Sempre dizemos que o objetivo de Deus é construir o Paraíso Terrestre. Ora, se o Paraíso Terrestre é um mundo sem conflitos, um mundo de eterna paz e absoluta Verdade, Bem e Belo, a arte terá um desenvolvimento extraordinário. Segundo diz um antigo ditado, a religião é a mãe da arte; é óbvio, portanto, que ambas estão profundamente relacionadas. Todavia, é interessante notar que, entre os fundadores das inúmeras religiões que surgiram até hoje, foram poucos os que demonstraram interesse artístico. Dos religiosos que se destacaram nesse campo, podemos citar – no Ocidente, o pintor Leonardo da Vinci e os compositores Bach e Hendel; no Japão, a arte budista do príncipe Shotoku, Gyoki, as esculturas de Kukai, etc; na China, durante a Era So-Guem, e no Japão, durante a Era Tempyo, as pinturas de alguns bonzos. Vou explicar a causa do desinteresse dos religiosos pela Arte. Como o mundo se achasse completamente mergulhado na Era da Noite e a Era da Luz estivesse longe demais, não havia necessidade de preparativos para a concretização do Paraíso Terrestre. Em outras palavras, estava-se na época infernal. Encontrando-se em condição infernal e não em situação celestial, os fundadores de religiões, para difundir seus ensinamentos, tiveram de percorrer caminhos espinhosos e passar por enormes sofrimentos. Sendo assim, não havia motivo para se falar em Paraíso ou arte, e até podemos dizer que nenhum deles afirmou que iria construir o Paraíso Terrestre. Contudo, houve profecias sobre o advento de um mundo ideal, embora não se esclarecesse quando. Entre elas, podemos citar o “Mundo de Miroku”, anunciado por Buda; o “Reino dos Céus”, profetizado por Cristo; a “Agricultura Justa”, de Nitiren; o “Pavilhão da Doçura”, do fundador da Igreja Tenrikyo, e o “Mundo dos Pinheiros”, do fundador da Igreja Oomotokyo. Foi-nos revelado, porém, que finalmente o tempo é chegado. Como o Paraíso está prestes a nascer, queremos anunciar o seu advento para toda a humanidade. 74

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Naturalmente, seria impossível imaginar que um projeto tão grandioso – que poderíamos considerar um sonho – pudesse ser concretizado com a força humana; entretanto, como se trata do Plano de Deus, Todo-Poderoso, não resta a menor dúvida que ele se tornará realidade. Atualmente, Deus está manifestando inúmeros milagres para demonstrar Sua força e, dessa maneira, infundirnos uma sólida fé. Poderão compreender isso ao ver que todos os messiânicos, experimentando tais milagres, vão adquirindo uma fé inabalável. Visando à concretização do Plano Divino, a Igreja Messiânica Mundial não mede esforços para promover a arte. E é para iniciar essa promoção que estamos construindo os protótipos do Paraíso Terrestre de Hakone e Atami, em locais de magnífica paisagem. Se as pessoas não estiverem conscientes desses pontos, não conseguirão entender o verdadeiro significado do nascimento de nossa Igreja. Em resumo, as religiões existentes até hoje tiveram a missão de preparar os alicerces para a construção do Paraíso Terrestre, e a missão da Igreja Messiânica Mundial é concretizá-la. 6 de Maio de 1950

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RELIGIÃO, EDUCAÇÃO E POLÍTICA Atualmente, a sociedade está repleta de males. Por toda parte ocorrem fatos desagradáveis, uns após outros; a intranquilidade das pessoas alcança o auge. É urgente, portanto, meditar muito para encontrar a causa dos males sociais. De onde eles provêm? A quem responsabilizar? Obviamente, a culpa não poderia deixar de ser da religião, da educação e da política. A chave para a solução do problema é saber em que ponto está localizado o gravíssimo equívoco. Em primeiro lugar tratarei da religião. Excetuando o cristianismo, as outras religiões tradicionais estão muito atrasadas. Inclusive o budismo, que nasceu há mais de dois mil e seiscentos anos, visando o povo hindu, já não condiz com a nossa época, por mais importante que tenha sido Sakyamuni e por mais profundos que sejam os seus ensinamentos. Naturalmente, a situação é ainda mais grave com a sociedade japonesa atual. Os hindus daquela época faziam meditações diárias no interior das matas e liam milhares de livros sagrados para encontrarem a verdade. Para os homens atuais, no entanto, que precisam trabalhar da manhã à noite, a fim de ganhar o pão de cada dia, isso é impraticável. É mesmo natural que, apesar de todos os seus esforços para se manterem ativas, as religiões tradicionais nada consigam fazer além de proteger os túmulos e lamentar a situação em que se encontram. Se elas se valem da assistência social como único meio para sobreviver, ninguém poderá negar que estão fora dos campos da atuação religiosa. Quanto à educação, também está muito distante do verdadeiro caminho. Seu real objetivo é formar homens íntegros, isto é, homens que façam da justiça o seu código de fé e se esforcem para aumentar o bem-estar social, contribuindo para o progresso e a elevação da cultura. Na situação atual, porém, até mesmo os que se formam nas melhores escolas superiores praticam crimes e outras ações que prejudicam a sociedade. Urge fazer algo para 76

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modificar essas condições. O maior erro da educação é ser totalmente materialista. Estamos cansados de dizer que, se ela não evoluir juntamente com o espiritualismo, não lhe será possível nem mesmo sonhar em atingir seu verdadeiro objetivo. Entretanto, como esse erro vem de longa data, estamos conscientes de que enfrentaremos muitas dificuldades se tentarmos eliminá-lo bruscamente. O ideal espiritualista é fazer reconhecer a existência do espírito, o que significa fazer reconhecer a existência de Deus. Sem isso, o espiritualismo não teria fundamento. Naturalmente, a religião encarregou-se disso até hoje, mas não obteve resultado visível, porque não havia uma religião com força suficiente para tanto. Nasceu, então, a nossa Igreja, dotada de força para fazer com que todos reconheçam o espiritualismo e com que a religião e a ciência caminhem lado a lado. Dessa forma, nascerá um mundo de eterna paz, onde todos poderão viver uma vida celestial. Se o progresso da cultura, por maior que ele seja, não promove, paralelamente, o aumento da felicidade, a culpa cabe ao próprio homem, que ficou preso apenas à cultura material. A humanidade precisa perceber isso o quanto antes. No que concerne à política, sua situação também é calamitosa. Tomarei por base exclusivamente a política japonesa, que, mesmo sob domínio estrangeiro, é assaz medíocre. Sendo ela materialista, seu conteúdo torna-se mais medíocre ainda. Podemos afirmar que não existem muitos políticos de visão ampla e que a maioria se restringe às tarefas do dia a dia. Isso acontece porque seus espíritos estão maculados, de modo que, embora sejam políticos, eles não conseguirão, de maneira alguma, manter um desempenho desejável se não tiverem por base a fé. Como as religiões tradicionais não têm força suficiente para modificá-los, a única solução é o aparecimento de uma religião nova e poderosa. 27 de Agosto de 1949

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RELIGIÃO E POLÍTICA Apesar de haver uma estreita relação entre religião e política, é estranho que isso não tenha despertado muito interesse. Na realidade, até o término da Segunda Guerra Mundial, a política, longe de apreciar a participação da religião, vivia oprimindo-a. Desde a antiguidade este fenômeno se fez notar em vários lugares, registrando-se não poucos casos da quase extinção de religiões devido à violência das perseguições. No entanto, por mais que a religião tente realizar o seu objetivo, que é a construção de um Mundo Ideal, para incrementar a felicidade do homem, torna-se evidente que ela jamais atingirá essa meta se a política não for justa. Sendo assim, uma Política escrupulosa requer políticos íntegros e, para preencherem essa condição, eles devem ser dotados de religiosidade. No Japão – desconheço a situação no estrangeiro – um erro no qual os políticos têm inclinação para incorrer é a corrupção. Pode-se dizer que isso acontece porque eles são escravos do materialismo, cuja origem está na falta de religiosidade. É desejável o aparecimento de políticos dotados de espírito religioso, pois só assim poderemos alimentar esperanças quanto ao futuro, aguardando o bom desenrolar dos destinos da nação. No que se refere à construção de um novo Japão, é necessário, sobretudo, incutir espírito religioso nos políticos, para que seja realizada uma política arraigada no senso religioso. Atualmente o povo vive criticando, e com razão, a degeneração da política, as fraudes eleitorais, a prevaricação dos funcionários públicos, a degradação dos educadores, etc. Os próprios políticos, os órgãos competentes e o povo empenham-se com unhas e dentes na solução purificadora dos problemas dessa lamacenta sociedade. Infelizmente, na prevenção do crime, conta-se apenas com a força da Lei, mas esta não atinge o âmago da questão, pois a causa dos crimes está no interior do homem, ou seja, na sua alma. Purificar a alma é o método verdadeiramente eficaz. Estou convicto de que isso só poderá ser conseguido através de uma fé verdadeira. 78

25 de Janeiro de 1949

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OSTENTAÇÃO RELIGIOSA Todos que vêm a mim pela primeira vez, dizem a mesma coisa: “Antes de conhecê-lo, eu pensava que o senhor fosse uma criatura pouco acessível, que sempre estivesse rodeado de pessoas. Imaginava que, para dirigir-me ao senhor, deveria fazê-lo com o maior protocolo. Foi com muito medo que resolvi visitá-lo, mas, ao contrário do que esperava, tudo foi tão simples e fácil que fiquei surpreso”. Realmente, quando se trata de um fundador de religião ou de um chefe, a tendência geral é pensar que eles vivem cercados de aparato. Em tempos passados, vários de meus subordinados quiseram que eu procedesse dessa forma. Entretanto, eu não sentia vontade alguma de agir assim e continuei a ser a pessoa simples que sempre fui. Muita gente deve estar curiosa, perguntando a si mesma por que eu não assumo uma atitude ostentosa, comportando-me como se fosse um deus. Vou explicar a razão. Talvez pelo fato de ter nascido em Tóquio, jamais gostei de exibicionismo. Como detesto a falsidade, acho que aparentar aquilo que não sou e criar diversos aparatos é uma forma de mentir; além do mais, à vista dos outros, pode ser até uma atitude desagradável. Afinal de contas, o melhor é a pessoa se mostrar como realmente é. Na posição em que me encontro, talvez fosse melhor eu ficar no fundo da nave, junto ao altar, como um deus, e ali dar audiências, porque assim eu me valorizaria muito mais. Não gosto disso, porém. Àqueles que não aprovam meu procedimento, eu sempre digo que não precisam permanecer comigo. Todavia, com o passar do tempo, como a realidade mostra a constante expansão da nossa Igreja, constato que o número de pessoas que aceitam minha maneira de agir é cada vez maior, e isso me deixa muito satisfeito. Devo acrescentar que considero minha natureza muito diferente da de outras pessoas. Detesto imitar o que os outros fazem. Esse é um dos motivos pelos quais não me porto com ostentação. Quero 79

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ter sempre a aparência de pessoa comum. Agindo assim, também estou quebrando a tradição geral, mas esta característica contribuiu muito para que eu pudesse descobrir a forma revolucionária de curar todos os males: o Johrei. Como os fiéis sabem, manifesto o poder de curar doenças através do Ohikari, que confecciono escrevendo uma letra numa folha de papel, não diferencio Deus de Buda, estou construindo o protótipo do Paraíso Terrestre, empenho-me na promoção da arte, evito a ostentação religiosa, etc. Se eu quisesse, poderia enumerar uma infinidade de realizações minhas que realmente quebram a tradição. A propósito, dias atrás, fui visitado por uma jornalista do Fujim Koron, que me disse ter ficado surpreendida ao chegar à entrada da Sede Provisória e não ver nenhum aparato que lembrasse uma Igreja. Ela achou muito estranho. Daqui por diante pretendo realizar uma intensa atividade religiosa em todos os campos da sociedade, mas de forma absolutamente inédita. 13 de Maio de 1950

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A EXISTÊNCIA DO MUNDO ESPIRITUAL Em primeiro lugar é preciso entender a finalidade do nascimento do homem. Deus criou o homem para construir o Mundo Ideal, que é o objetivo do Seu governo na Terra, concedendo-lhe missões específicas e utilizando-o conforme Sua vontade. A evolução da era primitiva para a brilhante era cultural de hoje e também o desenvolvimento da inteligência humana até chegar ao estágio atual, foram dirigidos exclusivamente para esse fim. Não só o homem – criatura de nível mais elevado – mas todas as outras criaturas, inclusive os vegetais e minerais, enfim tudo aquilo que tem forma, está constituído de dois elementos fundamentais: espírito e corpo. Havendo separação desses elementos, o ser deixa de existir, seja ele qual for. Mas pretendo falar apenas sobre o homem. Quando o corpo carnal se torna inútil, por velhice, doença, perda de sangue, etc., o espírito o abandona e dirige-se ao Mundo Espiritual, onde passa a viver. Esse fenômeno é idêntico no mundo inteiro, seja qual for a raça. Há muitas obras de autores famosos tratando do assunto, entre elas a que se intitula “Raymond”, da autoria de Sir Oliver Lodge (1851-1940), editada na Inglaterra logo após a Primeira Guerra Mundial. Ele registra as mensagens que lhe foram enviadas do Mundo Espiritual por um filho seu que falecera na Bélgica, durante uma batalha daquela guerra. Na época, o livro foi lido por muitas pessoas de diversos países, surgindo daí inusitado movimento de pesquisa do Mundo Espiritual e também grandes médiuns. Também o famoso autor de “O Pássaro Azul”, o belga Maurice Maeterlinck (1862-1949), tornou-se um estudioso dos fenômenos sobrenaturais após reconhecer a existência do espírito. Com a publicação, logo a seguir, do livro “Exploration in the Spiritual World”, do Dr. Ward, as pesquisas tomaram um impulso ainda mais extraordinário. Nesta obra ele descreve minuciosamente o 83

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Mundo Espiritual. Conta que, uma vez por semana, entra em estado de transe, sentado numa cadeira, e se transporta para lá. Nessas ocasiões, o espírito de um tio seu acompanha-o para mostrar-lhe todos os aspectos daquele mundo, orientando-o sobre a sua verdadeira natureza. Também os espíritos de seus amigos e conhecidos desempenham papel de instrutores, enriquecendo sobremaneira os conhecimentos que lhe são ministrados. Trata-se de uma obra muito interessante, que pode ser de grande validade para o conhecimento da vida no Mundo Espiritual, razão pela qual espero que os leitores a leiam. Inegavelmente há alguns aspectos diferentes entre o Mundo Espiritual do Ocidente e o do Japão. Pretendo posteriormente, através de diversos exemplos, explicar os fenômenos de um e de outro. Notícias procedentes da Inglaterra há mais de dez anos, dizem que surgiram naquele país centenas de sociedades de pesquisas psíquicas desenvolvendo intensas atividades, e que até foi fundada uma universidade para esse fim, mas eu gostaria de saber a situação presente, porque, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, não tive mais notícias a respeito. 25 de Agosto de 1949

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CONSTITUIÇÃO DO MUNDO ESPIRITUAL Como explanei em outras oportunidades, o Mundo Espiritual está constituído dos planos Superior, Intermediário e Inferior, cada um formado de três níveis, perfazendo um total de nove. A diferença entre eles é determinada por dois fatores – a luz e o calor. No nível mais alto do Plano Superior, a luz e o calor são extremamente intensos; o nível mais baixo do Plano Inferior caracteriza-se pela ausência desses elementos; o Plano Intermediário situa-se entre os dois, correspondendo ao Mundo Material. Neste mundo existem pessoas felizes e pessoas infelizes; isso equivale a estarem respectivamente nos Planos Superior e Inferior. Como no nível mais alto do Plano Superior a luz e o calor são muito fortes, seus habitantes vivem quase nus. Poderão ter uma ideia disso lembrando que, nas estatuetas búdicas, Nyorai e Bossatsu são representados no estado de seminudez. À medida que se desce para o Segundo Céu, Terceiro Céu, etc., a luz e o calor diminuem. Se um espírito fosse repentinamente elevado do Plano Inferior para o Superior, seria ofuscado pela luz intensa e não suportaria o calor; preferiria, então, retornar ao Plano Inferior. Isso é idêntico ao que acontece no Mundo Material: uma pessoa de baixa categoria elevada a uma posição alta sem ter merecimento, tem mais sofrimentos do que satisfação. No Plano Superior, a divindade mais alta e mais sagrada é Deus. Toda organização religiosa tem uma divindade padroeira e também um fundador. Exemplifiquemos com o xintoísmo: na seita “Taisha-Kyo”, o padroeiro é Okuninushi no Mikoto; na seita “Ontake-Kyo”, é Kunitokotati no Mikoto; na seita “Tenri-Kyo”, é Tohashira no Kami. O budismo também serve como exemplo: na seita “Shinshu” é Amida Nyorai; na seita “Zen-Shu” é Daruma Daishi; na seita “Tendai” é Kanzeon Bossatsu, etc. Os fundadores de seitas, como Kobo, Shinram, Nitiren, Honen e outros, situamse na classe de líderes de cada comunidade. Assim, ao entrarem no Mundo Espiritual, os espíritos das pessoas que tinham religião 85

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durante a vida terrena ligam-se à organização a que elas pertenciam, e não se pode calcular o quanto são mais felizes que os espíritos dos descrentes. Estes, não tendo uma organização à qual filiar-se, ficam perdidos, extremamente confusos, vagando pelo Mundo Espiritual. Desde épocas remotas fala-se sobre “espíritos errantes”, porque tais espíritos ficam perambulando pelo Plano Intermediário. Uma vez passando para o Mundo Espiritual, aqueles que não reconhecem a sua existência e não crêem na vida após a morte, não podem se fixar em nenhum lugar, ficando privados de inteligência e juízo durante certo tempo. Como exemplo, citarei um caso ocorrido há alguns anos. Numa reunião de pessoas que pesquisavam fenômenos espirituais, o espírito de um homem muito famoso manifestou-se, através de um médium. Chamaram, então, a esposa do falecido, a qual, pela maneira como o espírito falava e agia, confirmou que realmente se tratava do marido. Fizeram-lhe muitas perguntas, mas as respostas não eram corretas nem lúcidas, apesar do seu nível de cultura no Mundo Material. Isso acontecia porque aqui neste mundo ele não acreditava na existência do Mundo Espiritual. Vemos, pois, que é necessário o homem crer na existência do Mundo Espiritual e, assim, preparar-se para a vida após a morte. Mas será que existe realmente aquilo que chamo Plano Superior, mais conhecido como Céu ou Paraíso? A maioria das pessoas pensa que não passa de fantasia dos homens de eras passadas, porém eu estou absolutamente convicto de que ele é uma realidade. Há uma estória nesse sentido. Faz muito tempo, um sacerdote budista de alta categoria e um catedrático discutiam sobre a existência do Inferno e do Paraíso após a morte. Ao final da discussão, o sacerdote concluiu que eles existem, e o catedrático, que não existem. Enfim, alegando que para ter certeza não havia outro meio senão morrer, o religioso sugeriu que ambos se matassem, e em vista disso o catedrático se rendeu. O assunto não é para brincadeira, mas, embora o sacerdote budista 86

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estivesse com a verdade, se pudermos conhecer o Mundo Espiritual sem recorrer a esse extremo, será muito melhor, não é mesmo? Citarei alguns fenômenos que pude comprovar através das minhas próprias experiências. Uma senhora de trinta anos, esposa do diretor de uma empresa, solicitou a minha ajuda por estar gravemente enferma. Como já havia sido desenganada pelo médico, seus familiares me suplicaram que a salvasse. Ela residia a cerca de quarenta quilômetros de distância, razão pela qual não me era possível visitá-la com a frequência que o caso requeria. Por isso, trouxemo-la imediatamente para a minha casa. Pensando na possibilidade de acontecer o pior durante a viagem, o marido também veio com ela no carro. Eu, ao mesmo tempo em que a segurava com uma das mãos, ministrava-lhe Johrei com a outra. Chegamos sem que houvesse acontecido nada daquilo que nos estava preocupando, mas, pela madrugada, fui tirado da cama pelo acompanhante da doente. Fui vê-la imediatamente. Segurando minha mão com força, ela me disse: “Sinto que algo vai sair de mim e estou com muito medo. Deixe-me segurar sua mão. Tenho o pressentimento de que vou morrer hoje. Chame meus familiares com urgência.” Telefonei-lhes incontinenti, e, quando eles chegaram, acompanhados do médico da firma onde o marido da senhora trabalhava, já tinha decorrido uma ou duas horas. A essa altura, ela estava em coma e com o pulso bastante fraco. O médico examinou-a e disse que era questão de horas. À noite, rodeada pelos familiares, a enferma continuava em estado de coma. De repente, mais ou menos às vinte horas, abriu os olhos e começou a olhar à sua volta, como se não estivesse entendendo nada. Por fim explicou: “Fui para um local muito bonito, tão maravilhoso que nem sei como descrevê-lo. Era um jardim todo florido, onde estavam muitas pessoas de rara beleza, e lá no fundo 87

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divisei um senhor de ares nobres, semelhante à figura de Kanzeon Bossatsu que se vê em pinturas sacras. Ele olhou na minha direção e sorriu. Fiquei tão grata, que me prostrei no chão, mas logo recobrei os sentidos. Agora estou me sentindo muito bem, como não acontecia desde que adoeci.” No dia seguinte, ela não tinha mais nenhum sofrimento; estava salva, embora continuasse fraca. Após um mês mais ou menos, recuperou completamente a saúde. Esse exemplo nos mostra que o espírito daquela senhora se separou do corpo por alguns instantes e foi para o Céu, sendo purificado dos seus pecados por Kanzeon Bossatsu. Outro exemplo. Uma jovem de aproximadamente vinte anos foi curada de tuberculose pulmonar em estado gravíssimo, mas, depois de aproximadamente um ano, teve uma recaída e faleceu. Essa jovem tinha um irmão mais velho, vadio e viciado em bebida. Um dia, dois ou três meses depois que ela morreu, estando sentado no seu quarto, ele notou uma espécie de fumaça ou neblina roxa a uns dois metros à sua frente, no alto. Essa nuvem começou a descer devagarzinho, e acima dela, de pé, ele viu sua falecida irmã. Olhando bem, notou que ela estava muito mais bonita do que quando era viva; vestia-se elegantemente e irradiava uma nobreza divinal. Ela, então, lhe disse carinhosamente: “Vim para aconselhá-lo a abandonar a bebida. Pense no bem da nossa família e no seu próprio e deixe o álcool.” Dizendo isso, subiu novamente na nuvem e começou a elevar-se até desaparecer. Decorridos alguns dias, aconteceu a mesma coisa, e o fato tornou a se repetir pouco tempo depois. Na terceira vez, surgiu diante do rapaz uma bela ponte curva, toda pintada de vermelho, e a irmã, descendo da nuvem, atravessou essa ponte e lhe disse: “É a terceira vez que venho. A partir de hoje não terei mais permissão para vir. Esta é a última vez”. Depois disso, o fato não se repetiu. Através desse caso, vemos que é possível ter “visões” temporariamente. 88

Mais um exemplo.

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Um rapaz de vinte e poucos anos sofria de uma doença que poderíamos classificar de psíquica. Nessa época, ele estava loucamente apaixonado por uma mulher que trabalhava num bar noturno, e os dois iam suicidar-se juntos. Entretanto, a um passo da tragédia, tive a grata felicidade de salvá-los, pois encontrei, no bolso do rapaz, o veneno que ambos iam tomar. Levando o casal para minha casa, examinei-os espiritualmente. Segundo constatei pelas palavras do próprio rapaz, um espírito de raposa encostara-se nele para levá-lo ao suicídio. Nuns vinte minutos terminei o exame, não sem antes ter advertido aquele espírito. O jovem, no entanto, continuava na postura anterior, de olhos cerrados e com as palmas das mãos unidas à altura do peito. Virando-se para a esquerda, inclinou a cabeça como se não compreendesse algo. Passados uns três ou quatro minutos, abriu os olhos, mas continuou de cabeça inclinada. Disse então: “Vi uma coisa bastante estranha. Alguém ao meu lado estava tocando “koto”(5), e o som desse instrumento era extraordinariamente belo e nobre. Embevecido, eu olhava à minha volta e notei que estava num lugar que me pareceu o interior de um santuário muito espaçoso. No fundo havia uma escada que levava a uma sala toda acortinada. Aí, o senhor, vestido com trajes litúrgicos, subiu a escada suavemente e entrou na sala”. Ouvindo isso, eu comentei: “Se você viu a pessoa de costas, não podia ter reconhecido quem era”. Mas ele confirmou: “Tenho a certeza de que era o senhor”. E descreveu a indumentária que, segundo disse, era constituída de chapéu, blusa azul e calça vermelha. Ele pôde “ver” isso porque, momentaneamente, teve a faculdade de visão espiritual. Esse rapaz era empregado de uma loja e não professava nenhuma fé, não tinha nenhum conhecimento sobre assuntos espirituais; portanto, creio que o seu relato merece ainda mais confiança. Ressalta-se que à esquerda do lugar onde ele estava sentado ficava o altar.

(5) Instrumento musical de corda, tipicamente japonês. 89

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Os três exemplos citados poderão servir de ilustração para o conhecimento do interior e do exterior da morada celeste, e também para comprovação da descida de seus habitantes. Em seguida, escreverei sobre as condições do Paraíso Búdico. Uma moça virgem, de dezoito anos, serviu de médium, incorporando o espírito de um de seus ancestrais, um samurai que falecera numa batalha travada há mais de duzentos anos. Fora ardoroso adepto do budismo e pouco depois de falecido entrou na seita fundada por Kobo Daishi. Em resposta às minhas perguntas, ele disse: “Quando eu cheguei aqui, havia uns quinhentos ou seiscentos espíritos, mas, ano após ano, reencarnavam mais espíritos do que entravam, de modo que agora só existem mais ou menos cem. Moramos numa casa grande, mas não há serviço propriamente dito, e passamos as horas divertindo-nos. Tocamos ‘koto’, ‘shamissen’(6), flauta, tambor e outros instrumentos musicais; pintamos, esculpimos, lemos, escrevemos, jogamos xadrez, cartas etc., ou divertimo-nos de outras maneiras que também existem no Mundo Material. De vez em quando há palestras feitas pelo próprio Kobo Daishi e por outros espíritos, e isso constitui a maior das alegrias para nós. Às vezes, Kobo Daishi encontra-se com Buda, mas este, segundo ele diz, está num nível acima do Paraíso, onde a luz é muito intensa; quase não se pode olhar para cima, de tão ofuscante que ela é. Fora da casa, há um grande lago em cuja superfície bóiam inúmeras folhas de lótus, tão grandes que nelas cabem duas pessoas. A maioria é ocupada por casais, que nem precisam remar para se dirigir ao local aonde desejam ir. Não há noite; é sempre dia, e a claridade é um pouco inferior à do dia claro. O sol é semelhante ao do Mundo Material, e seus raios luminosos, purpurinos e suaves, provocam uma sensação agradável”. Em muitas oportunidades ouvi os espíritos que habitam o Paraíso (6) Instrumento musical com três cordas, parecido com o banjo. 90

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Búdico dizer que se sentem entediados quando já se encontram ali há muito tempo. Como estão sempre se divertindo, acabam perdendo o interesse e por isso manifestam o desejo de serem transferidos do Mundo Búdico para o Mundo Divino. Não foram poucos os espíritos que transferi para este último, atendendo a seus pedidos. Tal desejo é motivado pelo fato de saberem que o Mundo Divino entrou recentemente numa fase de grande atividade e que todas as divindades e espíritos estão extremamente atarefados. Não preciso dizer que isso se deve à aproximação da Era do Dia, que é regida por Deus, ao passo que a da Noite era regida por Buda. Passemos, agora, ao Plano Inferior. O mais baixo dos três níveis que constituem o Plano Inferior é chamado pelos xintoístas “Nezoko no Kuni” (Reino do Fundo da Raiz); os budistas o chamam de “Gokukan Jigoku” (Inferno de Frio Extremo), e no Ocidente dão-lhe o nome de Inferno. Mas, seja qual for a designação, é um local completamente escuro e gelado. O espírito que cair aí, fica sem enxergar nada durante dezenas ou centenas de anos; petrificado pelo frio intenso, não pode se mover nem um centímetro. Sua situação é tão lastimável, que não encontro adjetivos para descrevê-la. O que eu ouvi de um espírito salvo desse local fez-me arrepiar os cabelos. O gélido Inferno retratado por Dante Alighieri na “Divina Comédia” não é absolutamente nenhuma fantasia. O nível médio do Plano Inferior é o local onde existe carnificina, desejo carnal animalesco, fome, monte de agulhas, lagoa de sangue, poço de serpentes, sala das abelhas e das formigas e outras coisas de que se costuma falar. Os demônios encarregados da vigilância assemelham-se àqueles que vemos nos desenhos, pintados de verde ou vermelho. Um dos castigos do Inferno consiste em açoitar os espíritos com barras de ferros cheias de espinhos. Segundo eles relatam, a dor é muito maior do que se fosse no corpo carnal, porque, sem a proteção deste, a parte espiritual correspondente aos nervos é atingida diretamente. 91

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Darei mais alguns exemplos de sofrimentos infernais. Monte de agulhas, a própria expressão já está dizendo o que é: os espíritos são obrigados a andar descalços em cima de agulhas, e a dor que sentem é algo indescritível. A lagoa de sangue é o lugar para onde vão obrigatoriamente os espíritos das pessoas cuja morte foi motivada por gravidez ou parto. Pelo que ouvi de muitos espíritos, eles ficam submersos até o pescoço nessa lagoa, o ar está impregnado do cheiro de sangue, e continuamente uma infinidade de insetos e vermes sobem até o seu rosto, provocando uma sensação tão horrível que eles se vêem incessantemente obrigados a tirá-los com a mão. Esse sofrimento geralmente dura mais ou menos trinta anos. Quanto à sala de abelhas, foi descrita pelo espírito de uma gueixa que incorporou no empregado de um salão de beleza. Os espíritos são colocados dentro de uma caixa onde mal cabe uma pessoa, e inúmeras abelhas picam todo o seu corpo, causando-lhes um sofrimento espantoso. O castigo do fogo é infligido àqueles que morreram queimados ou se atiraram na cratera de um vulcão ativo. Vou relatar um caso sobre esse castigo. Um homem de meia-idade sofria de epilepsia causada por fogo. Ele conta que, à noite, deitava-se na cama e adormecia, mas à meianoite despertava. Então, a uns dez metros de distância, enxergava labaredas que cada vez se tornavam mais próximas. Quando chegavam bem perto, ele tinha um espasmo e ficava com uma febre altíssima. Sentia todo o corpo queimar e entrava em transe. Isso havia começado no ano seguinte ao Grande Terremoto, razão pela qual se pode concluir que, em outra vida, ele morrera carbonizado por ocasião de um terremoto. Relações carnais impuras entre homem e mulher fazem com que os espíritos caiam no Inferno, mas a situação varia de acordo com a gravidade do caso. Por exemplo: quando eles se suicidam por amor, os espíritos de ambos ficam ligados e não podem se separar. 92

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Isso é causado pelo desejo que tiveram de permanecer sempre juntos. Os que se suicidam abraçados ficam grudados, sentindo uma vergonha tão grande, que se arrependem seriamente. Às vezes, lemos nos jornais a notícia do nascimento de gêmeos ligados por uma parte do corpo; geralmente se trata da reencarnação de um casal que se suicidou por amor. Em casos de amor abomináveis – por exemplo, entre pais e filhos, entre irmãos, entre alunos e professores, etc. – os espíritos também ficam grudados, mas, enquanto um permanece de pé, o outro fica de cabeça para baixo. O incômodo e a vergonha a que os espíritos se expõem levam-nos a um profundo arrependimento. Diante de tudo isso, é possível entender o equívoco daqueles que, por causa de um amor impossível, recorrem ao suicídio acreditando poderem alcançar a felicidade no Céu. Pode-se, também, compreender claramente a justiça reinante no Mundo Espiritual. É preciso saber ainda o que acontece com os que são avarentos no Mundo Material, apesar de possuírem muito dinheiro. Tratase de pessoas materialmente ricas, mas espiritualmente pobres. Passando para o Mundo Espiritual, ficam numa situação de penúria e reconhecem seu erro. Outros, porém, no Mundo Material, têm um nível de vida inferior ao da classe média, mas se contentam com o que têm, vivendo a vida cotidiana cheios de gratidão e empregando suas economias em obras que visam à salvação da humanidade. Ao entrarem no Mundo Espiritual, tornam-se ricos e vivem muito felizes. Mas existe outra causa para o empobrecimento dos milionários. Há pessoas que não desembolsam o dinheiro que deveriam desembolsar ou não pagam o que deveriam pagar, e isso constitui uma espécie de roubo; espiritualmente, estão acumulando dinheiro furtado, a que se acrescentam juros. O resultado é que os bens vão se esgotando, e, pela Lei do Espírito Precede a Matéria, um dia essas pessoas acabam perdendo tudo o que têm. Muitas vezes vemos o herdeiro de um novo-rico esbanjar toda a fortuna da família por incapacidade ou imoralidade, mas, conhecendo o princípio acima 93

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referido, poderão compreender porque isso acontece. Falemos agora sobre o nível mais alto do Plano Inferior. É o local para onde vão os espíritos que estão prestes a alcançar o Plano Intermediário, após terem sofrido os castigos infernais. Por conseguinte, os trabalhos a que estão submetidos são de natureza leve, como, por exemplo, servir os alimentos oferecidos nas Moradas dos Ancestrais, consagrados nas casas dos seus descendentes, levar mensagens, dar assistência a outros espíritos, etc. A propósito, convém saber algo a respeito dos alimentos ofertados aos espíritos. Embora desencarnado, o espírito sente fome se não se alimentar. Mas em que consiste esse alimento? O espírito serve-se do espírito dos alimentos; entretanto, ao contrário do que acontece no Mundo Material, ele se satisfaz com pouca quantidade de comida. Sua alimentação diária consta de uns três grãos de arroz. Portanto, a comida comumente ofertada nos lares dá para um grande número de espíritos e ainda sobra muito. As sobras são dadas àqueles que se encontram na camada dos famintos. Graças a isso, os espíritos ligados a essa família elevam-se mais rapidamente. Sempre que possível devemos oferecer alimentos aos Antepassados, pois, levados pela fome, eles podem se ver forçados a roubar para comer, e, consequentemente, cair no Inferno ou encostar-se em animais, como cão ou gato. Quando o branco se mistura com o vermelho, fica vermelho, e o mesmo acontece quando o espírito humano encosta-se em animais: vai se degradando progressivamente até que se animaliza. Quando ocorre a reencarnação de um espírito híbrido de homem e animal, o corpo toma a forma desse animal. Existem cavalos, cães, gatos, raposas, texugos e serpentes que entendem o que os homens dizem: trata-se da reencarnação de espíritos híbridos. Sob forma animal, eles são obrigados a certo grau de aprimoramento, terminado o qual, voltam a nascer sob forma humana. Há ocasiões em que, após matarem cobras, gatos, etc., as pessoas são 94

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perseguidas por grandes sofrimentos. Muitos os atribuem àquele ato e, na maioria das vezes, têm razão. Tratando-se de espírito humano sob forma de animal, ele se vinga; se não for o caso, isso não acontece. Na casa de famílias tradicionais, às vezes, existe uma cobra de cor verde chamada comumente de “Aodaisho”. Nela está reencarnado o espírito híbrido de um ancestral e de uma cobra, o qual está protegendo seus descendentes. Se estes a matarem, ela se zangará e fará sérias advertências. Caso não se dê atenção a essas advertências, poderá ocorrer a morte de um dos descendentes ou chegar-se ao extremo de ver extinta a família, razão pela qual se deve tomar muito cuidado. O mesmo pode acontecer quando se destrói o “Inari”(7) ou quando se deixa de realizar cerimônias que nele vêm sendo realizadas há muito tempo. Citei vários exemplos, e entre os leitores provavelmente há alguém que conhece ou ouviu falar de casos que se enquadram dentro daquilo que acabo de explicar. Vou contar uma das experiências que tive. Uma vez fui ministrar Johrei numa casa onde havia um cão de grande porte. O dono da casa esclareceu: “Esse cão não é normal. Nunca sai para a rua, vive a maior parte do tempo dentro de casa e só se senta em almofada de seda. Se uma pessoa da família o chama, ele atende, mas o mesmo não acontece se for um empregado. Com relação à comida também é cheio de luxo, e jamais come coisas vulgares. Entende perfeitamente o que lhe falam e não gosta de ficar na cozinha nem nas salas e cômodos inferiores; em tudo, enfim, é idêntico a um ser humano”. Então eu dei a seguinte explicação: “Esse cão é um ancestral seu que se degradou ao nível de vida dos irracionais, reencarnando em forma de cão. Pela afinidade espiritual, foi parar na sua casa. Por isso ele faz questão de que lhe dispensem o tratamento devido a um ancestral.” O dono da casa entendeu a explicação e ficou satisfeito.

(7) Numa crença popular japonesa, é a capelinha onde se cultua o espírito de raposa. 95

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O caso seguinte, também verídico, foi vivido por um dos meus discípulos. Eis o que ele contou. “Há uns vinte e cinco anos, tendo tomado conhecimento de que uma senhora de meia-idade, residente em Yokohama (principal porto do Japão), estava sofrendo uma tortura incomum, fiquei muito curioso e fui visitá-la. Ela usava um pano branco em volta do pescoço, e qual não foi a minha surpresa quando ela o tirou: havia uma cobra enroscada em seu pescoço! Essa cobra entendia o que lhe falávamos, e na hora das refeições a referida senhora pedia permissão para se alimentar, dizendo que limitaria a comida a uma ou duas tigelas. Nesse caso, a cobra afrouxava a pressão, mas, quando o limite prometido era ultrapassado, pressionava novamente e não a deixava comer de forma alguma. Foi a própria senhora que me contou porque aquilo acontecia. Pouco depois do seu casamento, a sogra adoeceu, e ela não lhe dava comida, para que morresse logo. De fato a sogra acabou falecendo, mais por falta de alimento do que pela própria doença. Por esse motivo, seu espírito foi tomado de grande ódio e, para vingarse, reencarnara sob forma de cobra e torturava a nora daquela maneira. Assim, esta queria alertar as pessoas o mais possível sobre a temeridade daquele pecado, a fim de redimir-se um pouco que fosse”. A respeito do trabalho dos animais há um pensamento errado. O erro consiste em colocá-los no mesmo nível do ser humano. Os trabalhos que deles são exigidos, podem parecer muito cruéis do ponto de vista humano, mas não tanto como se está pensando. Bois e cavalos, por exemplo, até desejam ser maltratados, por isso caminham devagar, propositalmente, desejando ser chicoteados. Não correm por causa da dor, mas para saborear o prazer do açoite. Entre os homens, existe uma anomalia sexual conhecida como sadismo, em que as pessoas atingem o orgasmo maltratando o corpo do outro. Isso é motivado pelo encosto do espírito de animais como bois e cavalos. Sendo assim, é muito bom defender os animais, mas antes deveríamos pensar em defender os homens que são tratados desumanamente. 96

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Para finalizar, acrescento uma explicação sobre a Moradia dos Ancestrais do Lar, do tipo budista. Seu interior representa o Paraíso, e para ali são convidados os ancestrais. No Paraíso, a comida e a bebida são fartas, há todos os tipos de flor, cujo perfume impregna o ar, e soam as músicas mais belas e suaves, de modo que se deve copiar tudo isso, oferecendo aos ancestrais alimentos, flores e incenso. Mesmo nos templos, o bater do bloco de madeira ou de pratos de metal, o toque de flautas, etc., têm efeito de música. O bater do sino na ocasião em que se oferece a comida, serve de chamada para os espíritos. 5 de Fevereiro de 1947

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PREFÁCIO DO LIVRO “O MUNDO ESPIRITUAL” Neste volume estão coligidos os Ensinamentos que escrevi sobre os fenômenos do Mundo Espiritual, como resultado de estudos e pesquisas efetuados durante mais de vinte anos. Não há fantasia nem exagero em minhas palavras. Dizem que a cultura humana progrediu muito, mas o que houve foi apenas o progresso da parte material; a parte espiritual, lamentavelmente, progrediu muito pouco. E o que é progresso da cultura? Em verdade, progresso da cultura significa o desenvolvimento paralelo do concreto e do abstrato. Apesar do propalado avanço cultural, o homem até hoje não conseguiu alcançar a felicidade, e a razão principal é que o progresso se efetuou num único sentido. Em outras palavras, porque a cultura material se desenvolveu muito, mas a cultura espiritual não acompanhou esse desenvolvimento. Diante disso, eu desejo despertar a humanidade imprimindo um extraordinário progresso à cultura espiritual. Visto que os fenômenos espirituais, em decorrência de sua própria natureza, não podem ser percebidos pelos cinco sentidos do homem, torna-se muito difícil apreendê-los. Mesmo assim, como não vou evidenciar o que não existe, e sim mostrar o que de fato existe, tenho absoluta certeza de que esse objetivo será alcançado. Crendo nos fenômenos espirituais, torna-se claro que poderemos apreender a causa fundamental da verdadeira felicidade. Em outras palavras, para se obter a perfeita paz de espírito, é necessário profundo conhecimento de tais fenômenos, seja qual for a fé que se professe.

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O homem não pode evitar a morte, mas conhece muito pouco sobre a vida após a morte. Meditemos. Embora possa viver muito tempo, geralmente o homem não passa dos setenta ou oitenta anos. Se isso representa o fim de tudo, a vida não é realmente vã? Caso ele pense assim, é porque desconhece totalmente que, após a

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morte, existe a vida no Mundo Espiritual. Suponhamos, entretanto, que o homem chegue a adquirir profundo conhecimento a esse respeito: viveria uma vida feliz neste mundo e tambÊm depois de morrer. Existe, portanto, a possibilidade dele se tornar eternamente venturoso. É pelos motivos acima expostos que escrevi o presente volume. 25 de Agosto de 1949

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MISTÉRIO DO MUNDO ESPIRITUAL O Mundo Espiritual é algo realmente extraordinário e misterioso, e pelo senso comum do homem da atualidade é difícil compreendê-lo. Vejamos como o pensamento do homem se reflete nele. O Mundo Espiritual é o mundo do pensamento; ali, as existências surgem do nada e voltam ao nada. Tudo é extremamente mutável. Imaginemos, por exemplo, que dois escultores façam imagens da mesma divindade. De acordo com a personalidade de cada um, haverá diferenças entre as divindades que assentam nessas imagens. Se a personalidade de um deles for elevada, descerá um espírito Divino de alto nível, coerente com o autor. Entretanto, mesmo que o formato da outra imagem seja igual, se a personalidade do escultor for baixa, virá um espírito representante daquela divindade, ou uma partícula sua. Outro exemplo: a divindade diante de cuja imagem as pessoas oram com sinceridade, manifesta seu poder, isto é, sua luz, com força total; ao contrário, se o pensamento das pessoas for apenas formal, faltando a elas respeito e convicção dos sentimentos, o poder do espírito Divino será reduzido proporcionalmente. Além disso, quanto mais gente estiver orando, mais aumentará esse poder, mais intensa se tornará a luz. Há um antigo provérbio que diz: “Se houver espírito de fé, até cabeça de sardinha fará milagres”. Expliquemos o sentido dessas palavras. Suponhamos que uma pessoa vulgar, que não possui nenhuma qualificação, faça a imagem de uma divindade e comece a promovê-la utilizando-se de hábeis métodos de propaganda. Se durante algum tempo muitas pessoas a adorarem, por esse ato de fé criar-se-á uma imagem dessa divindade no Mundo Espiritual, manifestando-se, então, considerável poder, através da concessão de muitas bênçãos. É realmente espantoso, mas as coisas só irão bem durante algum tempo, pois não se trata de poder verdadeiro, e sim de produto da força do pensamento humano; é um poder temporário, que um dia acabará. O fato acontece frequentemente, todos o sabem. Assim é 100

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que surgem os chamados “deuses da moda”. Eu me referi aos espíritos Divinos, agora falarei sobre os espíritos satânicos. O que mais existe no mundo são pessoas corruptas que, por ambição desmedida, aborrecem, fazem sofrer e levam os outros à desgraça. Isso é produto das ideias materialistas, que negam o invisível, mas, analisando do ponto de vista espiritual, é algo realmente terrível. Como tais pessoas fazem os outros sofrer, os que são atingidos ficam cheios de rancor, de ódio por elas e procuram retribuir-lhes o mal que receberam. Esses pensamentos são transmitidos à pessoa visada através do elo espiritual. A imagem espiritual do ódio e do rancor é tão pavorosa, que, se pudesse enxergá-la, qualquer perverso morreria instantaneamente. Entretanto, se as pessoas atingidas não são apenas uma ou duas, mas milhares ou milhões, forma-se um monstro ainda mais horripilante, que circunda esse perverso de diversas maneiras e tenta destruí-lo. A situação dele, portanto, é insuportável. Mesmo sendo um bravo ou um grande herói, terá um fim miserável. Relembrando os grandes personagens da história, desde a antiguidade, vemos que todos eles, sem exceção, tiveram esse destino. Observando também o drama dos políticos perversos, a ruína dos que se tornaram ricos repentinamente e, ainda, o fim dos que seduziram e enganaram muitas mulheres, poderemos compreender muito bem por que tiveram tal destino. Ao contrário, se a pessoa praticar um grande número de boas ações e despertar em muita gente gratidão e alegria, estes sentimentos a envolverão em forma de luz, e ela, então, se tornará cada vez mais virtuosa. Como Satanás e os maus espíritos, amedrontados por essa luz, também não poderão se aproximar, a pessoa será muito feliz. A auréola que se vê nas imagens das divindades simboliza essa luz. Com o que acabo de dizer, poderão compreender quanta importância o homem deve atribuir ao pensamento. 25 de Outubro de 1949

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MUNDO ESPIRITUAL E MUNDO MATERIAL Se alguém se interessa por religião e deseja compreendê-la a fundo, é-lhe indispensável, antes de tudo, conhecer a relação entre o Mundo Espiritual e o Mundo Material. Isso porque o alvo da fé é Deus, e Deus é espírito, invisível aos olhos humanos; querer apreender a Sua essência apenas teoricamente é tão inútil como procurar peixe numa árvore. Deus existe; é impossível negá-lo. No entanto, assim como é difícil fazer com que aborígines reconheçam a existência do ar, também é difícil fazer com que a maioria dos homens da era contemporânea reconheça a existência do espírito. Em primeiro lugar, tentarei explicar a estrutura do Mundo Espiritual, a vida de seus habitantes e outros aspectos desse mundo. O homem é formado por dois elementos: o corpo carnal e o corpo espiritual. Com a morte, os dois se separam e o espírito imediatamente entra no Mundo Espiritual, onde começa a viver. No momento da separação, o espírito das pessoas muito bondosas sai pela testa; o espírito dos perversos, pela ponta dos dedos do pé, e o das pessoas de nível mediano, pela região umbilical. Os budistas referem-se à morte com a expressão “vir para nascer”. Analisando do Mundo Espiritual, é realmente “vir para nascer”. Eles também dizem “antes de nascer”, ao invés de “antes de morrer”. Pelas mesmas razões os xintoístas usam as expressões “voltar para o Mundo Espiritual” ou “transmutação para voltar”. Ao passar para o Mundo Espiritual, o espírito primeiramente atravessa um rio e, a seguir, dirige-se para o Fórum. É um fato incontestável, pois coincide com o que ouvi de muitos espíritos. Quando o espírito acaba de atravessar o rio, a cor de suas vestes se altera. As vestes dos que têm menos máculas tornam-se brancas; as dos outros tomam cores diferentes, de acordo com o peso das máculas: amarelo, vermelho, azul ou preto. Entre as divindades, elas tomam a cor violeta. 102

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O Fórum do Mundo Espiritual é semelhante ao do Mundo Material. Nele, o juiz e seus auxiliares procedem ao julgamento do espírito, decidindo o prêmio e o castigo de cada um. Nessa ocasião, os muito bondosos são conduzidos ao Plano Superior; os perversos caem no Plano Inferior; os que se situam entre uns e outros ficam no Plano Intermediário, que no xintoísmo chamam de “encruzilhada de oito direções” e no budismo “esquina de seis caminhos”. A grande maioria vai para este plano e aí faz um curso de aprimoramento, cuja parte principal consta de ensinamentos transmitidos pelos sacerdotes da respectiva religião. Esse aprimoramento dura mais ou menos trinta anos. Decorrido esse tempo, é determinado o local a que o espírito será destinado. Aqueles que conseguem arrepender-se vão para o Plano Superior; os demais, para o Plano Inferior. O Mundo Espiritual é constituído de três planos, cada um dos quais também está subdividido em três níveis, formando, ao todo, nove níveis. O Plano Superior é o Céu; o do meio é o Plano Intermediário; o Inferior é o Inferno. Como o Plano Intermediário corresponde ao Mundo Material, no budismo ele é designado com a expressão “esquina de seis caminhos”, pois se liga aos três níveis do Plano Superior e também aos três níveis do Plano Inferior. No xintoísmo, além desses, acrescentam, acima do Plano Superior, o “Céu Superior”, e, abaixo do Plano Inferior, o “Fundo do Abismo”. Daí designarem o Plano Intermediário como “encruzilhada de oito direções”. A seguir descreverei sucintamente o Céu e o Inferno. Quanto mais próximo do ponto mais alto do Céu, mais intensa é a luz e o calor, e os espíritos, na sua maioria, vivem quase nus. Por isso, na maior parte das pinturas e esculturas budistas, as divindades são representadas sem vestes. Ao contrário, quanto mais próximo do ponto mais baixo do Inferno, mais fraca é a luz e o calor; o ponto extremo é completamente escuro e gélido. Portanto, ao deparar com esses sofrimentos, mesmo os espíritos mais perversos são levados ao arrependimento. 103

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Talvez as pessoas da atualidade achem que essa descrição, feita em termos genéricos, seja produto da minha imaginação, mas em verdade trata-se de pontos coincidentes entre levantamentos e estudos que fiz durante mais de vinte anos com inúmeros espíritos, através de médiuns e de todos os meios possíveis. Por isso podem estar certos da veracidade do que lhes estou transmitindo. O Céu e o Inferno pregados por Buda, e o Paraíso, Purgatório e Inferno da “Divina Comédia” de Dante Alighieri (1265-1321), tenho certeza, não são fantasias. Pode-se mais ou menos deduzir para que plano vai o espírito observando-se a face do morto. Os que não apresentam expressão de sofrimento e cuja pele permanece corada e fresca, como se ainda estivessem vivos, vão para o Plano Superior; aqueles cuja expressão é triste e sombria, e cuja pele se apresenta pálida, sem sangue, ou azul-amarelada, como ocorre com a maioria, vão para o Plano Intermediário; os que ficam com uma expressão de profunda agonia e com a pele escura ou preto-azulada, vão, logicamente, para o Plano Inferior. Estas explanações têm por objetivo dar-lhes conhecimentos básicos sobre o Mundo Espiritual, mas em outras oportunidades voltarei a falar sobre diversos fenômenos espirituais constatados através de minha própria experiência. 25 de Agosto de 1949

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A SITUAÇÃO DO MUNDO CONTEMPORÂNEO E DO MUNDO ESPIRITUAL A situação do mundo contemporâneo apresenta-se realmente periclitante, talvez como jamais se tenha visto na história. O temor pela Terceira Guerra Mundial domina quase toda a humanidade. É um problema seríssimo, pois o conflito envolveria todos os países, e não apenas os litigantes; seria inédita, portanto, a extensão da sua influência. Essa é a imagem do mundo atual, que se projeta à vista de qualquer um; todavia, se não conhecermos a verdade sobre o Mundo Espiritual, onde está a origem de tudo que acontece neste mundo, não poderemos descobrir a causa do problema. Só depois disso conseguiremos prever o futuro e ter tranquilidade de espírito. É sobre esse tema que vou escrever agora. O Plano de Deus é construir o Paraíso Terrestre, e para isso era necessário que a cultura material progredisse até certo ponto. Com esse objetivo, Ele criou o bem e o mal, e foi pelo atrito entre ambos que alcançamos o extraordinário progresso material da atualidade e estamos agora a um passo do advento do Paraíso. Já expliquei isso muitas vezes, mas vou tornar a fazê-lo, caso contrário, as pessoas que nunca ouviram falar sobre o assunto teriam dificuldade de compreender aquilo que hoje pretendo expor. A luta entre os homens iniciou-se no Mundo Espiritual a partir do momento em que o ser humano foi criado. Os mais fortes queriam apoderar-se de todas as regiões conhecidas àquela época, governandoas conforme sua vontade. Para isso, recorriam à violência, sem distinguir o bem e o mal, tal como vemos presentemente. Assim, pouco a pouco, a inteligência do homem foi se desenvolvendo, e, paralelamente ao aumento da população, ampliou-se a escala da luta, tendo-se chegado, enfim, à situação atual. O plano de conquista da supremacia mundial foi elaborado há 105

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cerca de três mil anos, e seu chefe era um dragão possuidor de grande poder no Mundo Espiritual. Esse dragão incorporou numa divindade e, através dela, quis apoderar-se do mundo, tendo utilizado os métodos mais atrozes. Durante algum tempo a divindade se saiu bem, recorrendo a tudo para atingir seu objetivo, mas, quando já estava prestes a atingi-lo, falhou e recebeu severa punição de Deus. Arrependendo-se, voltou ao seu estado natural. A partir daí, o dragão passou a incorporar nas grandes personalidades de cada época, procurando despertar nelas a ambição de dominar o mundo. Fracassou sempre, mas não aprendeu, e até hoje está lutando tenazmente, com toda a força. Muitos homens considerados importantes estão nesse caso. A história nos mostra que, embora eles tivessem grandes poderes na época, acabaram tendo um triste fim. César, Napoleão, Guilherme II, Hitler e outros podem servir de exemplo. Creio que agora já podem ter mais ou menos uma ideia da origem da situação atual. Referindo-me a personagens como os que mencionamos acima, eu sempre digo que são chefes dos demolidores do mundo, pois até agora este não era verdadeiramente civilizado, ainda restando ao homem cerca de cinquenta por cento de características selvagens. Espiritualmente falando, significa que o homem pecou muito e acumulou máculas; portanto, surge de vez em quando a necessidade de uma ação purificadora. Como para isso é preciso haver demolidores e também limpadores, compreendemos que o aparecimento deles sob forma de grandes personagens é apenas uma manifestação do Plano de Deus. De nada adianta nos aborrecermos ou nos desesperarmos. 25 de Fevereiro de 1951

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MATERIALISMO E ESPIRITUALISMO A maioria dos comentários que fazem sobre a nossa Igreja é que se trata de uma religião supersticiosa. Mas qual a razão dessa afirmativa? A verdade é que o ponto de vista daqueles que tecem tais comentários difere do nosso. Eles analisam as questões espirituais tomando por base a matéria. Material, como o próprio nome está indicando, é aquilo que podemos perceber claramente através da visão ou dos demais sentidos, e por isso qualquer pessoa consegue compreender. O espírito, todavia, não é visível, consequentemente torna-se fácil negar a sua existência. Assim, se fizermos uma simples comparação, teremos de concordar que o espiritualismo encontrase em situação desvantajosa em relação ao materialismo. A visão materialista está limitada pelos cinco sentidos; tem, portanto, uma existência pequena, ao passo que a visão espiritualista não tem limites. É como se fosse o tamanho da Terra comparado com o tamanho do Universo, que é um espaço sem fim. Daqui onde estou só consigo ver até o Monte Fuji, e olhe lá... Não passam de algumas dezenas de quilômetros. O pensamento, entretanto, que não podemos ver, num instante pode estender-se até o infinito. Diante dele, a imensidão da Terra é insignificante. É como se a visão espiritualista fosse o oceano, e a visão materialista fosse o navio que nele flutua. Baseados nisso, podemos comparar o materialismo com o macaco Songoku, o qual, tentando fugir dos domínios espirituais de Buda, percorreu milhares de milhas, mas, quando percebeu, ainda estava na palma da mão de Buda, e se arrependeu do que fizera. Entre outros conceitos espiritualistas sobre o materialismo, podemos citar: “Tudo é nada”, “Tudo que nasce está condenado à extinção” e “Todo encontro está fadado à separação”, de Sakyamuni, ou, segundo o zen-budismo: “As coisas que possuem forma infalivelmente desaparecerão”. Pela exposição acima, acredito que entenderam como está errado analisar as coisas espirituais do ponto de vista da matéria, pois esta é finita, enquanto aquelas têm vida eterna e são infinitas. É a mesma coisa que querer colocar um elefante dentro de um pote

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ou ver todo o céu através de um orifício, ou seja, é ter uma visão limitada das coisas. Materialistas! Depois de conhecerem esta verdade, ainda têm algo a dizer? Pensem no que farão! 20 de Dezembro de 1949

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A RESPEITO DOS SONHOS Constantemente me fazem perguntas a respeito dos sonhos, por isso vou falar sobre esse tema. Talvez não haja uma só pessoa que não sonhe, ao dormir. Os sonhos podem ser de vários tipos: mensagens das divindades, avisos do Espírito Guardião, sonhos com pessoas nas quais nem pensamos, sonhos que vêm a se concretizar de forma idêntica ou contrária ao que se sonhou, etc. A palavra “Yume” (sonho) é resultante da condensação de “Yumei”, palavra com que se designa o nebuloso mundo após a morte. Isso quer dizer que o espírito se liberta do corpo enquanto dormimos e vai para esse mundo nebuloso. Nessa ocasião, aquilo que temos no nosso subconsciente e os nossos desejos constantes aparecem nas formas mais variadas, sem sentido algum. Quando o espírito se evade para o Mundo Espiritual, fica ligado ao corpo pelo elo espiritual; quando a pessoa acorda, ele volta instantaneamente. A mensagem das divindades através de sonhos restringe-se às pessoas que têm fé. O espírito Divino que é alvo de sua fé dálhes avisos sempre que houver alguma necessidade. Os avisos do Espírito Guardião aparecem geralmente sob forma de alegoria, precisando ser interpretados. Como já disse muitas vezes, o Mundo Material é um reflexo do Mundo Espiritual, onde tudo acontece primeiro. Por isso, nosso Guardião, que está neste último, utilizase dos sonhos para nos alertar. Os pressentimentos que temos comumente são avisos seus. Há alguns pontos que devemos esclarecer. Dizem que não sonhamos quando dormimos profundamente, mas é um engano. Naturalmente, quando estamos muito cansados, não sonhamos; no caso de sono não muito profundo, podemos sonhar. Contudo, não devemos nos preocupar com isso, pois, se sonharmos mesmo nessa circunstância, é porque estamos realmente dormindo. Às vezes, eu até chego a sonhar durante um ou dois minutos quando converso com as pessoas, e também quando estou dormindo em 109

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pé, no ônibus, porém isso não quer dizer nada. As pessoas que sonham ficam preocupadas, achando que não são inteligentes, mas isso não é verdade. Eu, por exemplo, quando era jovem, quase não sonhava, e acho que naquela época era menos inteligente do que hoje. 25 de Janeiro de 1949

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ANÁLISE DO MILAGRE Em poucas palavras, chama-se milagre a realização daquilo que achamos impossível, mas na verdade, nada acontece por acaso. Quem pensa de forma diferente, está redondamente enganado. Parece um tanto complicado, contudo vou mostrar por que estou fazendo essa afirmativa. A ideia preconcebida de que determinada coisa nunca poderá acontecer, já constitui um erro, pois leva em consideração apenas aquilo que se manifesta exteriormente, isto é, as aparências. Como até agora o pensamento da maioria dos homens baseava-se em conceitos materialistas, se às vezes sucede algo diferente, eles pensam que se trata de milagre. Por exemplo: uma criança cair de um penhasco e não sofrer nada; um carro bater numa bicicleta e não haver ferimentos nem prejuízos; uma pessoa se salvar por ter se atrasado e perdido um trem que depois descarrilou, virou ou colidiu com outro; um ladrão que estava entrando numa casa fugir, pela ministração do Johrei; uma pessoa recuperar o que lhe foi roubado; um incêndio que havia se alastrado até à casa do vizinho ser desviado, devido à repentina mudança de direção do vento, por efeito do Johrei. Com os fiéis da nossa Igreja ocorrem constantemente grandes e pequenos milagres, isto é, fatos fora do comum. E por que motivo eles ocorrem? Onde está a causa? Creio que todos querem sabê-lo. É claro que a verdadeira razão do milagre está no Mundo Espiritual. Entretanto, há milagres decorrentes da força pessoal de cada um e outros decorrentes da força de terceiros. Inicialmente falarei sobre o primeiro tipo. O homem possui aquilo a que chamamos aura, que é como se fosse a vestimenta do espírito. Ela tem o formato do corpo, que parece coberto por uma espécie de névoa branca, e não é visível às pessoas de sensibilidade comum. Sua largura é variável, e isso se deve ao grau de pureza do espírito; quanto mais puro ele for, mais larga é a aura. Nas pessoas comuns, ela varia de três a seis 111

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centímetros; a dos virtuosos tem de sessenta a noventa centímetros; nos salvadores da humanidade, ela é infinita. Ao contrário, se o corpo e o espírito são impuros, a aura é estreita e tênue. Em caso de desastre, por exemplo, na hora exata em que um carro – que também possui espírito – vai bater numa pessoa, não conseguirá atingi-la se for alguém de aura larga. Ela se salva, porque é afastada para o lado. Pessoas assim, quando caem de um local alto, mesmo indo de encontro ao espírito da terra ou de uma pedra, não se machucam, apenas batem de leve. As casas também possuem espírito, de modo que, se o dono for virtuoso, a aura da casa será larga; no caso de incêndio, o espírito do fogo não a atinge, pois é barrado pela aura. Por isso, na ocasião do grande incêndio de Atami, a sede provisória da nossa Igreja foi milagrosamente poupada. Se ocorre o contrário – o que é difícil – é porque há necessidade de queimar impurezas; por conseguinte, o fato obedece ao Plano de Deus. Vejamos, a seguir, os milagres decorrentes da força de terceiros. O homem tem três espíritos – o Primordial, o Guardião e o Secundário. Vou me abster de maiores explicações sobre a relação existente entre eles, pois já falei sobre isso em outras oportunidades. O Espírito Guardião é escolhido entre os ancestrais; ele salva seu protegido no caso de um perigo, ou lhe faz avisos importantes através de sonhos. Quando se trata de pessoa que tem missões especiais, há casos em que uma divindade vem em seu socorro (em geral, o padroeiro do local onde a pessoa nasceu). Por exemplo, se um trem está prestes a colidir com outro, como essa divindade tem conhecimento do fato, pode fazer parar o espírito do trem instantaneamente. Mesmo que o fato esteja ocorrendo a milhares de quilômetros, ela chega ao local numa rapidez extraordinária. Como vemos, o milagre não ocorre absolutamente por coincidência ou por acaso; há sempre uma razão. Se compreenderem isso, verão que ele não tem nada de sobrenatural. Para mim, o natural é haver milagres; se não houver é que eu acho estranho. 112

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Às vezes, quando me encontro diante de um problema difícil, cuja solução está demorando, começo a esperar que repentinamente aconteça um milagre e geralmente ele acontece, solucionando o problema. Isso é muito frequente. Creio que aqueles que têm fé profunda e acumularam virtudes, já passaram por muitas experiências nesse sentido. Portanto, se o homem pensar e praticar o bem, acumular virtudes e fizer esforços para tornar mais larga sua aura, jamais lhe acontecerão desgraças inesperadas. Em nosso contacto com as pessoas, quanto mais espessa for sua aura, mais calor sentiremos, surgindo, daí, grandes afeições. Tais pessoas sempre cativam outras, que se reúnem à sua volta em grande número, e assim elas terão êxito e progresso no trabalho. 5 de Junho de 1951

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ATEÍSMO É SUPERSTIÇÃO O problema do suborno de funcionários públicos tem ocupado os noticiários jornalísticos. Surge um caso após o outro e parece que a coisa não tem fim. Isto nos mostra que o serviço público está completamente corrompido. Assemelha-se a um sifilítico purulento em terceiro grau. Jamais vi, até hoje, tanta corrupção. A polícia estuda novos meios para prevenir o problema, mas não encontra solução, embora venha aplicando severamente os recursos legais. Todas as medidas revelam-se provisórias, pois não se conhece a raiz do mal, e por isso é impossível evitar que surjam problemas dessa espécie. Dentro da mesma ordem de fatos, temos os aproveitadores dos serviços públicos, cujas atividades obscuras vêm se tornando notórias nos últimos tempos. Tais indivíduos convidam funcionários para reuniões em restaurantes ou casas noturnas e, após oferecer-lhes magníficas recepções, conseguem concluir negócios altamente vantajosos para si próprios. Desse modo, enfraquecem todas as resistências. As despesas que isso acarreta são geralmente consideráveis, e é o povo que vai pagá-las através do aumento do preço das mercadorias e dos impostos. O problema em questão exige solução radical e urgente. Infelizmente, nada poderá ser feito enquanto a polícia e os especialistas ignorarem as causas do fato. Vou sugerir um meio infalível para solucioná-lo. De início, parece-nos contraditório que pessoas de cultura superior ou, pelo menos, de nível médio, cometam crimes. Entretanto, o povo se engana, julgando que os homens mais instruídos sejam incapazes de praticá-los. Talvez o homem culto não use métodos violentos, mas recorre às sutilezas da inteligência. Consequentemente, seus delitos serão mais graves, pois ele exerce maior influência social. E qual é o motivo que o leva à prática de crimes revoltantes? A causa principal é uma falha psicológica – sua visão materialista, 114

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que o faz crer no êxito da ação culposa executada com habilidade, às ocultas, sem o testemunho de outrem. Acontece, porém, que, quando menos se espera, o crime é descoberto. Então, o culpado se surpreende e se põe a pensar. O que se passa em seu íntimo deve ser mais ou menos o seguinte: “Infelizmente fui descoberto, apesar de minha habilidade. Conhecendo a lei como conheço, não deixei nenhuma pista. Como vieram a saber? É inútil ficar me lamentando. Farei o possível para fugir às consequências e, da próxima vez, serei mais esperto”. Esta é a tendência geral. Há também os que caem em si e refletem: “Eu não devia ter burlado a lei. Vou cumprir a pena e me regenerar”. Entretanto, com o decorrer do tempo, tal decisão poderá enfraquecer e o culpado reincidir no erro. Isso acontece porque ele não crê em Deus. O único meio de resolver estes problemas é a fé. É através dela que vislumbramos a existência de Deus. Creio na força da fé para resolver tais casos, porque a psicologia do delinquente se baseia na convicção de que Deus não existe. Quase todos eles acreditam que, acima da Terra, existe apenas o ar e mais nada. É um conceito simplista. Além disso, julgam-nos supersticiosos, por crermos num Deus invisível. Embora crentes, não somos nós os supersticiosos. Só há uma perigosa superstição: a do ateísmo, que se oculta sob a obstinada negação da existência de Deus. Os ateus merecem realmente piedade. Se destruirmos a base da psicologia do criminoso – a descrença em Deus – teremos solucionado o problema. Mas por que tantos homens da atualidade caíram nas garras desse fanatismo? O fato se deve à educação materialista que desde o berço lhes veio sendo ministrada. Nossa missão é convertê-los, isto é, reeducá-los. Não há outro meio para formar cidadãos honestos. Se os políticos e educadores não tomarem consciência da base do problema, tudo o mais que fizermos será provisório. É nossa tarefa fazer os delinquentes compreenderem que, embora ocultem seus crimes aos olhos do mundo, jamais poderão enganar a Deus. 12 de Dezembro de 1951 115

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DEUS EXISTE? Pude intuir esta maravilha que é o Johrei graças ao conhecimento que tive sobre a existência do espírito e ao princípio fundamental de que, com a purificação do espírito, o corpo volta à normalidade. Esse princípio deve ser considerado como um prenúncio da cultura do futuro. Realmente ele representa uma grande revolução para a ciência, e, se o aplicarmos em todos os setores da vida, o bem-estar da humanidade aumentará incalculavelmente. E não é só isso. Aprofundando-se a pesquisa desse princípio fundamental, pode-se prever que ele influenciará até a essência da própria religião. A controvérsia sobre a existência de Deus é uma questão que tem desafiado os tempos e continua sempre presente. E isso se justifica porque, apenas do ângulo de visão materialista, obviamente as pessoas nada podem compreender a respeito de Deus, que é espírito, o qual, para elas, equivale ao nada. Mas, pela Ciência Espiritual que estou propondo, é possível reconhecer a existência de Deus e, ao mesmo tempo, responder a indagações sobre problemas como a vida após a morte, a reencarnação, a verdade sobre o Mundo Espiritual, os fenômenos de encosto e incorporação e outras questões relativas ao Mundo Desconhecido, que chamo também de Mundo Intemporal. Primeiramente devo explicar como se processou a evolução do meu pensamento. Quando jovem, eu era extremamente materialista. Até mais ou menos quarenta anos nunca entrei em templo algum. Achava tolice adorar ou rezar para uma pedra, um espelho ou um papel escrito, que constituem a imagem de Deus nos templos xintoístas e são colocados num recipiente com formato de caixa, feito por carpinteiros, com tábuas de cânfora, e chamado “Omiya”. Nos templos budistas também se adora um Buda desenhado em papel, ou as estátuas de Kannon, Amida e Buda talhadas em madeira, pedra ou metal. Eu costumava afirmar que Kannon e Amida só existiam na imaginação do homem; por conseguinte, achava que era uma adoração ainda mais sem sentido, não passando de idolatria. 116

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Naquele tempo, li a tese do famoso filósofo alemão Rudolf Eucken (1846-1926), o qual diz que o homem possui o instinto inato de adorar qualquer coisa e, assim, criou e adora os seus próprios ídolos, caindo na autosatisfação. Como prova disso, acrescenta ele, todas as oferendas depositadas no altar estão voltadas para o lado dos homens e não para o lado de Deus. Senti-me perfeitamente identificado com a tese e até considerava que a existência de templos era prejudicial ao progresso da pátria, porque as nações que possuíam muitos templos estavam em declínio e aquelas que quase não os tinham achavam-se em franco desenvolvimento. Apesar disso, mensalmente eu contribuía com uma modesta quantia para o Exército da Salvação, e por esse motivo era visitado por um sacerdote que sempre insistia em que eu me convertesse ao cristianismo. Ele me dizia: “As pessoas que contribuem para o Exército da Salvação geralmente são cristãs. Por que o senhor contribui, se não é cristão?”. Então expliquei: “O Exército da Salvação trabalha para a recuperação de ex-presidiários, transformando-os em pessoas de bem. Se não existisse, talvez um deles tivesse entrado em minha casa para me roubar. Portanto, se o Exército da Salvação está impedindo que isso aconteça, é natural que eu seja agradecido e colabore nas suas obras”. Houve muitos casos semelhantes, porém, na época, apesar de fazer o bem, eu não acreditava em Deus nem em Buda. Sendo assim, poderão compreender quão forte era a minha tendência a jamais acreditar naquilo que não se pode ver. Naquele tempo, as minhas atividades comerciais iam muito bem, e eu estava no auge da autoconfiança, mas um de meus empregados me fez perder tudo. A sorte adversa, manifestada através do falecimento de minha primeira esposa, dos embargos judiciais sofridos da falência e de outras desgraças, arrastou-me para o fundo do abismo. Como resultado, acabei recorrendo àquilo a que todos recorrem nessas ocasiões: a religião. Também eu fui à procura da salvação no xintoísmo e no budismo, como era de praxe, e assim tive conhecimento da existência de Deus, do Mundo Espiritual, da vida após a morte, etc. Refletindo sobre o meu passado, arrependi-

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me da vida inútil que levara até então. Após esse despertar, meu conceito sobre a vida deu uma volta de cento e oitenta graus. Compreendi que o homem é protegido por Deus e que, se ele não reconhecer a existência do espírito, não passa de um ser vazio. Também entendi que, mesmo na pregação moral, se não fizermos com que as pessoas reconheçam a existência do espírito, ela não terá nenhum valor. Por isso, caros leitores, faço votos de que “abram os olhos” para os esclarecimentos que darei sobre os fenômenos espirituais. 5 de Fevereiro de 1947

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O JUÍZO FINAL Os cristãos e todas as pessoas em geral devem estar muito interessados em saber quando e como virá o Juízo Final, profetizado por Cristo. Visto que está se aproximando a hora, vou esclarecer a questão parcialmente. Não se trata de interpretação minha, e sim de um conhecimento que me veio totalmente por intuição espiritual. Por isso, quero que tomem minhas palavras apenas como mais uma referência ou teoria. Em primeiro lugar, é necessário definir se realmente haverá um Juízo Final. Ora, um ser Divino como Cristo, que hoje é alvo da fé de milhares de seguidores no mundo inteiro, entre os quais se contam povos de nações superdesenvolvidas, não profetizaria algo que não acontecerá. Caso sua profecia não se concretize, ele não passará de um simples mentiroso. Portanto, embora não sejamos cristãos, acreditamos nela piamente. As palavras do fundador da Religião Oomotokyo: “O que Deus diz não tem qualquer margem de erro, nem sequer da largura de um fio de cabelo”, sem dúvida alguma podem ser aplicadas à profecia sobre o Juízo Final. Sobre o bem e o mal também existem as seguintes profecias: “Destruirei o mal pela raiz e construirei o Mundo do Bem”; “O Mundo do Mal já acabou”; “O Mundo do Mal atingirá o seu ápice aos noventa e nove por cento, e, com a ação de um por cento, será transformado no Mundo do Bem”; “Finalmente está chegando a hora da transição do mundo”. Todas elas, creio eu, não podem dizer respeito a outra coisa senão ao Juízo Final. É aquilo a que estamos nos referindo constantemente como sendo a Transição da Noite para o Dia. Há uma frase também relacionada a essa transição: “O momento crítico deste mundo está prestes a chegar; por isso, nosso espírito precisa estar polido”. Tais palavras significam que é impossível o ser humano transpor esse período estando cheio de máculas. Tomando a Bíblia como base e analisando o sentido das profecias citadas, podemos afirmar que nos encontramos na iminência de um 119

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grande perigo; para ultrapassá-lo, precisaremos estar com o espírito purificado. Isso quer dizer que o homem mau será eliminado para sempre. Se assim for, torna-se imprescindível purificarmos nosso espírito através de uma fé correta, a fim de que possamos transpor essa fase com segurança. Os materialistas podem não acreditar, podem dizer que é um absurdo, que Deus é apenas fruto da imaginação do homem; entretanto, quando chegar o momento decisivo e, aflitos, eles quiserem voltar-se para Deus, já será tarde demais. Isso é mais claro que a luz do dia. Naturalmente, o amor de Deus é infinito e Seu desejo é salvar o maior número possível de criaturas. Nós, que seguimos a Sua vontade, estamos repetidamente advertindo os homens, através da palavra oral e escrita. Sobre o mesmo assunto existe outra advertência: “Deus está querendo salvar os homens, mas, se eles não tomarem cuidado e não derem importância a tantos avisos, encarando-os simplesmente como o canto do galo que estão acostumados a ouvir, chegará a hora em que, prostrados, terão de pedir perdão a Deus. No entanto, quando chegar essa hora, Deus não poderá ficar se ocupando dos homens. Assim, eles terão de resignar-se ante a situação criada pelas suas próprias mãos”. Acho que essas palavras têm exatamente o mesmo sentido daquilo que eu acabei de explicar. A propósito, falarei resumidamente sobre o Dilúvio e a Arca de Noé. O fato deve ter acontecido há milhares de anos, num antigo país europeu, onde viviam dois irmãos de nome Noé. No estado que hoje chamamos de “transe”, o mais velho foi avisado sobre a iminência de um dilúvio e por isso deveria alertar seu povo. Muito apreensivos, eles anunciaram aos homens o perigo iminente, mas ninguém acreditou em suas palavras. Passados alguns anos, finalmente eles conseguiram convencer seis pessoas. Então Deus lhes ordenou que construíssem uma arca, e as oito entraram nela. Pouco tempo depois, começou a chover ininterruptamente. Uns 120

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dizem que choveu durante quarenta dias; outros dizem que cem. O certo é que foi um longo período de fortes chuvas. As águas subiam cada vez mais, inundando as casas; apenas o cume das montanhas ficava de fora. Os homens tentavam entrar na arca ou refugiarse nas montanhas, mas os animais ferozes e as cobras venenosas, querendo salvar-se, faziam o mesmo. Como a arca possuía tampa, ninguém conseguiu entrar. Famintos, os animais devoravam todos os homens; salvaram-se apenas as oito pessoas que estavam na arca. Elas são consideradas antepassados da raça branca. No Novo Testamento, existe uma passagem na qual se diz que João faria o batismo pela água e Cristo faria o batismo pelo fogo. Se o Dilúvio representou o início do batismo pela água, o batismo pelo fogo, atribuído a Cristo, só poderá ser o Juízo Final que está prestes a chegar. Acontece que a água é material, e o fogo é espiritual. Por isso, aquilo que estamos realizando atualmente – a purificação do espírito através do espírito – nada mais é que o batismo pelo fogo. Como o espírito se reflete na matéria, a influência que esse batismo exercerá sobre ela deverá produzir uma mudança extraordinária. Mas precisamos saber que existe perigo apenas para o mal, e não para o bem. Este artigo, eu o ofereço às pessoas descrentes. 20 de Janeiro de 1950

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A ADVERTÊNCIA DOS ANTEPASSADOS Os antepassados desejam a felicidade de seus descendentes e a prosperidade de sua linha familiar. Por conseguinte, não negligenciam sua guarda um instante sequer, impedindo-os de cometerem erros e pecados, ou seja, evitando que trilhem o mau caminho. Se um descendente, induzido pelo demônio, comete uma má ação, aplicam-lhe castigos na forma de acidentes ou doenças não só como advertência, mas também para a limpeza dos pecados cometidos anteriormente. No caso do enriquecimento ilícito por parte do descendente, fazem com que este tenha prejuízos, ocasionando, por exemplo, um incêndio ou outras formas de perda, que lhe esgotam a fortuna. Conforme o pecado, aplica-se também a doença como processo de purificação. Suponhamos que uma criança contraia gripe. Uma gripe comum seria facilmente solucionada através do JOHREI; nesse caso, entretanto, não se verificam bons resultados. A criança tem vômitos frequentes, perda de apetite, acentuado enfraquecimento em poucos dias e acaba morrendo. É uma situação estranha, que se enquadra justamente no que falamos acima: advertência dos antepassados. As causas podem ser várias, entre elas o relacionamento amoroso do pai com outra mulher. Se ele não perceber na primeira advertência, poderão ocorrer-lhe sucessivas perdas de filhos. Estes são sacrificados por um prazer passageiro; trata-se, portanto, de uma conduta bastante reprovável. Os antepassados evitam sacrificar o chefe da família por ser ele o seu sustentáculo, de modo que os filhos tomam o seu lugar.

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Vejamos outro exemplo. O chefe de uma família, homem de aproximadamente quarenta anos, nunca havia rezado perante o oratório de antepassados que havia em sua casa. Sua filha, preocupada, conversou com um tio, irmão do pai, e transferiu o oratório para a casa dele. Pensando no futuro, o tio foi à casa do irmão e pediu-lhe que reconhecesse, por escrito, a transferência do oratório, que havia sido transmitido por várias gerações e que estava agora sob a sua guarda. O irmão concordou, mas, quando

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pegou a caneta, sua mão começou a tremer em espasmos, sua língua contraiu-se e ele não conseguiu mais falar nem escrever. Tentaram vários tratamentos sem nenhum resultado, e por fim vieram a um discípulo meu em busca de cura. Lembro-me de ter ouvido dele a história que a filha desse homem lhe contara. No caso em questão, os antepassados não admitiram que o oratório fosse retirado definitivamente da casa do primogênito, que, por tradição, deveria guardá-lo. Se isso acontecesse, a linhagem da família ficaria alterada, podendo, então, ocorrer a sua extinção. 5 de fevereiro de 1947

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EXISTEM FANTASMAS? Desde épocas remotas há controvérsias sobre a existência de fantasmas, mas eu afirmo que eles existem. Trata-se de uma realidade que ninguém pode negar. Creio que a tese do Inferno e do Paraíso, pregada por Buda, assim como a do Inferno, Purgatório e Céu, da “Divina Comédia” de Dante Alighieri (1265-1321), não são teses sem fundamento, absurdas ou ilusórias. Que é o Mundo Espiritual? Em síntese, o Mundo Espiritual é o mundo da vontade e do pensamento. Sem o empecilho da matéria, há uma liberdade que não existe no Mundo Material. O espírito pode ir aonde quiser, e mais rapidamente do que uma aeronave. No xintoísmo, as palavras “Tome assento nesse templo, vencendo o tempo e o espaço”, proferidas nas cerimônias litúrgicas, significam que um espírito pode cobrir a distância de mil léguas em alguns minutos ou até segundos. Entretanto, a rapidez com que ele se move depende da sua hierarquia. Os espíritos elevados, isto é, aqueles que conseguiram atingir os níveis de hierarquia Divina, são mais velozes. O espírito do nível mais alto da hierarquia Divina pode chegar ao local mais distante num espaço de tempo menor do que a milionésima parte de um segundo, mas o espírito de nível inferior leva algumas dezenas de minutos para cobrir mil léguas. Isso porque, quanto mais baixo o nível do espírito, mais pesado ele é, devido às suas impurezas. Além disso, por sua própria vontade, o espírito pode aumentar ou diminuir de tamanho. Numa Morada dos Ancestrais com mais ou menos trinta e cinco centímetros de largura, podem tomar assento várias centenas de espíritos. Nessa oportunidade, é rigorosamente observada a ordem, isto é, cada um ocupa a posição adequada ao seu nível, dentro da maior disciplina e com a indumentária apropriada. No budismo, eles assentam no seu nome intemporal, escrito numa placa de madeira ou de qualquer outro material; no xintoísmo, assentam num espelho, numa pedra, numa letra ou no “Himorogui” (cruz feita de fibras de linho). 124

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Logicamente, os espíritos ficam muito satisfeitos pelos cultos que lhes são oferecidos de coração, mas o mesmo não acontece se são atos apenas formais. Assim, nas ocasiões de culto, as pessoas devem colocar o máximo de sentimento e realizá-lo de forma ideal, de acordo com as condições materiais do momento. Desde épocas remotas fala-se em pessoas que ocasionalmente vêem fantasmas, mas na maioria dos casos trata-se de espíritos com poucos dias de desencarnados. O grau de densidade das células espirituais dos recém-falecidos é elevado, razão pela qual esses espíritos podem ser vistos por algumas pessoas. Nada há de estranho, portanto, no fato de muitos terem visto a Ressurreição e Ascensão de Cristo. Porém, como o espírito de Cristo era elevado, Divino, ascendeu ao Céu. Com o passar do tempo, o espírito é purificado, ficando menos denso, e, assim, mais difícil de ser visto. Um fantasma pode entrar e sair livremente por um orifício do tamanho do buraco de uma agulha, pois não tem corpo carnal que lhe estorve a passagem. Em vista disso, muitos podem pensar que o Mundo Espiritual seja o lugar ideal para quem ama a liberdade, mas não é bem assim. Nele existem leis que são aplicadas rigorosamente, e a liberdade é limitada. Agora falarei rapidamente sobre a expressão facial dos espíritos. Os fantasmas geralmente são retratados com a expressão facial dos instantes da morte. Entretanto, com o decorrer do tempo a expressão do espírito vai mudando lentamente, amoldando-se à índole da pessoa. Por exemplo, os tímidos, os pessimistas e os solitários tomam um aspecto lúgubre, raquítico; os possuidores de natureza diabólica e animalesca tomam a aparência do próprio demônio; os de pensamento vil ficam com a face disforme, e os que têm bom coração adquirem uma expressão bondosa e bela. Neste mundo, é possível encobrir o pensamento, pela configuração chamada corpo carnal, mas no Mundo Espiritual tudo é revelado, aparecendo exatamente como é. Essa imagem verdadeira aparece mais ou menos um ano após a morte. 125

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Num livro da autoria de um grande religioso, há mais ou menos esta referência: “Quando o homem falece, seu espírito se extingue. O espírito não é eterno, nem tampouco existe Mundo Espiritual; se existisse, já estaria repleto, pois o número de pessoas que faleceram atinge vários bilhões”. Esse autor, apesar de ser um expoente do budismo, desconhece o poder de elasticidade do espírito. 5 de Fevereiro de 1947

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ATUAÇÃO DOS DEMÔNIOS O universo inteiro movimenta-se pela Lei do Espírito Precede a Matéria. Todos os fenômenos surgem primeiramente no Mundo Espiritual e depois são projetados no Mundo Material em maior ou menor tempo, dependendo da grandeza do fenômeno. A projeção pode ocorrer em alguns dias ou após alguns anos. Entretanto, esse tempo será abreviado à medida que for se aproximando a Era do Dia, o que de fato está acontecendo. Isso, contudo, não é nada em comparação ao Mundo Espiritual, que, atualmente, acha-se numa situação confusa como nunca esteve. A rapidez com que ocorrem as transformações, por sua vez, também evidencia claramente o Final dos Tempos. Intensificação das atividades dos demônios Hoje em dia, o que mais se pode observar é a atuação desesperada dos demônios. Eles exerceram grande influência durante milhares de anos, e à medida que se aproximam seus derradeiros momentos estão se debatendo desesperadamente. Entre os espíritos satânicos existem chefes; quem está atuando mais, agora, é o dragão vermelho e o dragão preto, e sua família chega a somar quase um bilhão de componentes. Entre eles também há classes – superior, média e inferior – e as tarefas são determinadas de acordo com elas. Os demônios se esforçam bastante para executar fielmente os trabalhos que lhes são ordenados, pois se sentem estimulados ante a possibilidade de subir de classe e receber prêmios, conforme seu mérito. De sua sede, o chefe emite ordens que são transmitidas ao Espírito Secundário do homem, através dos elos espirituais. Nesse caso, atuam os demônios que correspondem à posição 127

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ou classe das pessoas aqui neste mundo, e sua missão é encaminhar o homem cada vez mais para o mal, utilizando-se de todos os meios. É lamentável, mas isso se manifesta claramente na sociedade. Os métodos são de fato extremamente hábeis e cruéis. Por exemplo: os demônios fazem os homens de nível baixo cometer crimes perversos, como assassinatos, assaltos ou violências; se a pessoa está num nível mais elevado, induzemna à fraude, à falsificação de dinheiro, de títulos, de obras de arte, etc. Fazem também com que o homem se divirta ludibriando mulheres e mocinhas por meio de palavras hábeis, praticando adultério e outras ações condenáveis. Quando a pessoa está acima desse nível, vê-se induzida à prática de crimes astuciosos, embora aparente ser pessoa de bem: usurpar a fortuna alheia, ganhar dinheiro enganando o próximo, subornar, sonegar, esconder produtos, negociar no mercado negro e outros atos escusos. Também é hábito desses demônios levar os homens a embriagar mulheres, a fim de abusar delas. Todos esses casos representam infração da lei; se as pessoas forem descobertas, serão consideradas criminosas. Contudo, há ocasiões em que elas são induzidas a praticar ações que parecem boas, mas que em verdade não o são. Isso ocorre mais frequentemente entre as pessoas de nível médio para cima e, como nesses níveis existe um grande número de intelectuais, é preciso muito cuidado. Para inspirar confiança, eles sempre defendem teses orais ou escritas que à vista de qualquer um parecem corretas, mas secretamente fazem o contrário do que pregam. Tratando-se de indivíduos demasiadamente hábeis, todos confiam neles, e por essa razão torna-se difícil avaliar a justeza do que dizem. Isso acontece muito entre os políticos, entre os homens renomados, que gostam de polêmicas, e também entre aqueles que têm certa posição social, de modo que é necessário estar sempre prevenido. 128

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O bem, do ponto de vista de Deus Não há nada pior do que alguém se dedicar devotadamente a uma causa que acredita ser justa e os resultados mostrarem exatamente o contrário. As pessoas envolvidas nos incidentes de 15/05/1932 e 26/02/1936 incluem-se nesse caso, assim como aquelas que, por ocasião da Segunda Guerra Mundial, cometeram atos pelos quais foram julgadas criminosas de guerra e executadas há pouco tempo. Eis um crime que geralmente passa despercebido: uma pessoa devotar-se à prática de uma teoria, julgando-a maravilhosa e, na realidade, estar causando desgraça aos seus semelhantes. Tais criaturas são dignas de pena porque, com o cérebro bitolado pela ciência, não têm possibilidade de compreender que são manipuladas pelo demônio. Entretanto, existem pessoas de nível superior, como fundadores de religiões, grandes cientistas que descobriram novas teorias, pensadores renomados, etc., que estão acima da natureza humana e por isso, frequentemente, tornam-se ídolos, sendo venerados e respeitados durante muitos séculos após sua morte. Evidentemente, não têm nenhuma parcela de maus pensamentos, nenhuma partícula de egoísmo, e entregam sua vida a uma causa; são dignos de admiração. Todavia, mesmo nessas realizações há pontos que beneficiaram a humanidade e pontos que lhe causaram danos. Por isso mesmo não são poucos os casos em que é impossível determinar méritos e deméritos. Torna-se desnecessário dizer que tais pessoas não têm nenhuma relação com o demônio, mas pode acontecer que suas obras sejam úteis até certa época e depois venham a ser prejudiciais. Entre os cientistas e os religiosos isso ocorre com frequência. É comum chegar ao nosso conhecimento o caso de religiões que eram magníficas na época de sua fundação, mas que, com o tempo, acabaram relaxando, nelas surgindo conflitos e corrupção, de modo que se tornaram nocivas. Idêntico é o que acontece com certas teorias e teses, algo que na ocasião de sua descoberta era de grande importância para o mundo, muitas vezes, 129

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com o passar dos anos, podem vir a ser prejudiciais. Em suma, tudo faz parte do Plano de Deus, e para o progresso da cultura lutam o bem e o mal, intercalam-se o claro e o escuro, o belo e o feio. Assim, aproximamo-nos passo a passo do ideal, que é o profundo Propósito Divino, insondável pela inteligência humana. 25 de Dezembro de 1950

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DERROTA DO DEMÔNIO Assim como Cristo foi tentado por Satanás e Buda foi atormentado por seu primo Daiba, no caso da nossa Igreja, Satanás e Daiba também nos espreitam insistentemente. O interessante é que, com o passar do tempo, os demônios estão cada vez mais desesperados; atualmente, eles agem com vigor e força leonina. Todos poderão comprovar a veracidade das minhas palavras através dos fatos que nos últimos tempos estão sendo frequentemente publicados pelos jornais. Por isso pode-se imaginar que a derrota do demônio está iminente, o que significa que estamos atravessando a véspera do “Fim do Mundo” profetizado por Cristo. Falando-se em demônio, tem-se a impressão de que seja um só. Na verdade, existem vários, de grande, médio e pequeno poder. Quanto mais máculas o ser humano tiver, mais livremente será manipulado por eles, através de elos espirituais maléficos. Dessa forma, inconscientemente, o homem tomará atitudes que se opõem a Deus. Como os demônios vêm agindo à vontade há milhares de anos, continuam com sua maldade e pensam que nada mudou, porque desconhecem a transição do Mundo Espiritual. Entretanto, como essa transição está se processando, é com razão que eles estão confusos e ainda não despertaram. À medida que o Mundo Espiritual vai clareando, a luz vai se tornando mais intensa. Quer dizer que está chegando a época de terror para o demônio, pois Luz é o que ele mais teme; diante dela, ele se encolhe e perde a força de ação. É por isso que até nas experiências mediúnicas, se não apagarem a luz, esses espíritos não podem atuar. Só ocorre o contrário quando se trata de um espírito muito elevado. Por esse motivo, como os espíritos satânicos temem a luz que emana do Poder de Deus, fazem tudo para interromper-lhe o fluxo, procurando criar obstáculos para nossa Igreja. 20 de Novembro de 1949

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INCORPORAÇÃO Desde épocas remotas são numerosos os casos de incorporação, cujos tipos também variam bastante. Atualmente, as pessoas consideradas intelectuais julgam que se trata de superstição; além de não darem atenção ao fato, dão à palavra um sentido pejorativo. Entretanto, segundo meus estudos, a incorporação não é absolutamente superstição, podendo ser de espírito do bem ou de espírito do mal. O importante é distinguir exatamente quando se trata de um caso ou de outro. Há três tipos de incorporação – de divindades de nível elevado, médio ou baixo; de espíritos de animais, que fingem ser divindades, e de espíritos de seres humanos. No primeiro tipo, inclui-se, por exemplo, o espírito dos fundadores de religiões, como a Sra. Miki Nakayama, da religião Tenri-Kyo, a Sra. Naoko Deguti, da religião Omoto-Kyo, os fundadores das seitas Reimyo-Kyo, Konko-Kyo, Kurozumi-Kyo e Hito no Miti, e, ainda, os iniciados Kobo, Nitiren, Honen e En-no Gyodja, dos velhos tempos. No segundo tipo, situam-se as incorporações observadas em muitas crenças vulgares, existentes em grande número na sociedade, tais como “Inari Kudashi no Gyodja”, “Iizuna-Tsukai” e outras. O terceiro tipo, isto é, a incorporação de espíritos de seres humanos, refere-se principalmente aos espíritos dos ancestrais, de parentes mais próximos e recém-falecidos. Se desenvolvêssemos a capacidade de discernir os tipos de incorporação e soubéssemos dispensar-lhe as devidas cautelas e orientações, a incorporação seria muito útil à sociedade humana. Mas deixo claro que, além desse discernimento ser quase impossível, se o conhecimento sobre o assunto for apenas superficial, as consequências poderão ser desastrosas. Na Europa e na América, estão realizando ativas pesquisas de Parapsicologia. Na Inglaterra e em vários outros países, já existe até Faculdade de Estudos Parapsicológicos, e também estão se desenvolvendo pessoas de alto potencial mediúnico. Como transmissoras de mensagens emitidas do Mundo Espiritual, são 132

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dignas de nota as obras do americano Woodrow Wilson (1856-1924) e de Sir Northcliffe (1868-1940), ex-editor do “The London Times”. Entretanto, em todos os lugares a situação é idêntica e, na verdade, mesmo na Europa ou nos Estados Unidos, aqueles que se dedicam a esse tipo de pesquisas estão sempre lutando contra o ceticismo das pessoas obstinadas, intituladas intelectuais, e contra a descrença dos cientistas bitolados no materialismo. Mas a vantagem é que, como naqueles países as leis não são medievais, a pesquisa é livre. Se fizermos uma comparação, concluiremos que, pela opressão do governo e pela descrença dos cientistas, até hoje, lamentavelmente, ainda não foram realizadas pesquisas consideráveis no Japão. 5 de Fevereiro de 1947

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INCORPORAÇÃO E ENCOSTO Embora eu esteja sempre alertando sobre o perigo da incorporação, muita gente continua praticando-a. Vou explicar detalhadamente por que isso não é recomendável. Oitenta ou noventa por cento dos casos de incorporação são de espíritos de raposa, e noventa e nove por cento deles são maus. Enganam as pessoas instintivamente, fazendo-as praticar o mal, e divertem-se muito com isso. Entre eles, há os de nível superior, que, quando incorporam em alguém, dizem ser Nyorai, Bossatsu, Dragão, etc. Tais espíritos, ao mesmo tempo em que fazem a pessoa crer, empenham-se, através dela, em que outras também creiam. Essa pessoa passa, então, a ser endeusada e a viver cercada de luxo. Frequentemente vemos desses casos. Entre os espíritos de raposa, os mais velhos possuem considerável poder. Ao visarem um homem, como conhecem tudo que ele pensa, traçam planos baseados nesses pensamentos. Se for pessoa que gostaria de ser venerada como se fosse uma divindade, dela se apossam sorrateiramente e começam a trabalhar nesse sentido. Tais pessoas dizem ser uma nova manifestação de determinada divindade muito conhecida. Não há quem não conheça casos semelhantes. De maneira extremamente ardilosa, os referidos espíritos procuram formar um elo espiritual com a criatura visada e, como também manifestam alguns milagres, os ingênuos se deixam enganar. Isso acontece muito na sociedade. “Deuses da moda”, que surgem em vários lugares, são desse tipo; evidentemente, trata-se de espíritos extraordinariamente hábeis. Tendo conhecimento de que uma pessoa deseja ser rica a todo custo, eles incorporam nela e trabalham com inteligência ardilosa, fazendo-a ganhar muito dinheiro. Porém não escolhem os meios, e em geral induzem-na a cometer crimes. Durante algum tempo as coisas vão bem com a pessoa, mas depois tudo começa a dar errado, havendo muitos que até vão presos. 134

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Se um homem deseja conquistar uma mulher, esses espíritos, habilmente, fazem com que ele se aproxime dela e, para despertar-lhe o interesse, utilize métodos e palavras galantes; às vezes, até o levam a recorrer à violência. São, portanto, muito perigosos. Tratando-se de espíritos de animal, para eles não existe mal nem bem. Eles ficam contentes fazendo o homem dançar a seu gosto, como se fosse um boneco. Assim, o ser que é considerado superior a todos os outros se encontra numa situação lastimável. Se pudesse entender isso, o homem não teria razão para se orgulhar. Além dos espíritos de raposa, também os espíritos de texugo, de dragão, de “tengu”, etc. podem incorporar no ser humano e enganá-lo. Entre eles, o mais temível é o de dragão. Por sua grande inteligência e poder, lhe é muito fácil utilizar o homem à sua vontade e, conforme a situação, feri-lo ou até tirar-lhe a vida. Por ocasião daquele incidente ocorrido no ano passado, atuaram muitos desses espíritos perversos, que agiram com extrema crueldade. Como são muito inteligentes também dominam o homem ideologicamente. Essa é a causa da maioria dos crimes hediondos, cometidos a sangue frio, em nome desta ou daquela ideologia, com influências maléficas sobre a sociedade. Comparados aos espíritos de dragão, os de texugo e de “tengu” não têm grande poder. Entretanto, como a maioria destes últimos possui muita força e cultura, apoderam-se dos ambiciosos, manejam-nos, fazem-nos subir na vida e tornar-se renomados na sociedade. Além disso, eles gostam de se gabar. Desde a antiguidade, são muito comuns os casos de incorporação desses espíritos entre os sacerdotes Zen, cientistas e fundadores de religiões, mas raros são aqueles cujo poder tem longa duração. Abordei vários aspectos concernentes à incorporação, mas é preciso saber que os demônios não realizam seus trabalhos maléficos como bem querem. Há um chefe que os dirige, e este é o mais temível. Perante sua força, a maior parte das divindades fica sem ação. Clara ou ocultamente, ele estorva as atividades da nossa Igreja. Como ela representa uma grande ameaça para o mal, quem a combate é 135

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o chefe dos chefes. Essa luta é uma manifestação da grande guerra entre o bem e o mal. Entretanto, existe algo importante do qual devem se precaver: ficar desprevenidos e tranquilos, julgando que, como os messiânicos têm muita proteção, não há perigo de os espíritos de animal encostarem ou incorporarem tão facilmente. Se o fiel pensa dessa maneira eles aproveitam a oportunidade. Além disso, caso a pessoa pratique a Fé Shojo, quanto mais ardorosa ela for, mais fácil será a incorporação, razão pela qual estou sempre alertando sobre o perigo desse tipo de fé. Quando tais espíritos se apoderam de um indivíduo, este procura mostrar que a Fé Shojo é um bem, apresentando razões persuasivas e exaltando suas qualidades. Eles enganam as criaturas com muita astúcia, e em geral elas acreditam piamente que a Fé Shojo é realmente um bem, passando a trabalhar com entusiasmo. No entanto, como a base está errada, quanto mais elas trabalham, mais negativos são os resultados. Então as pessoas vão ficando cada vez mais nervosas. Chegando a esse ponto, os conselhos dos outros nem entram em seus ouvidos, e elas vão se confundindo mais e mais. Não podendo avançar nem recuar, acabam fracassando. Existem muitas criaturas assim, mas não há problema se elas despertarem logo; caso contrário, ficam completamente perturbadas e perdem a proteção de Deus. Creio, portanto, que entenderam como é temerário professar a Fé Shojo e porque eu sempre falo que o bem de Shojo é o mal de Daijo. O que melhor distingue a pessoa de Fé Shojo é que ela sempre foge ao que é aceito por todos, e esse ponto fraco é visado pelos demônios. Seja lá o que for, nunca erramos quando julgamos de acordo com o senso comum. Como este é o ponto fraco dos demônios, eu sempre aconselho as pessoas a valorizá-lo. Encontramos muitos exemplos na sociedade. Crenças que dão valor às atitudes excêntricas, teorias e ideologias também excêntricas, crenças mediúnicas, tudo isso gera problemas, e frequentemente vemos e ouvimos falar de ocorrências que tumultuam a ordem social. Do ponto de vista espiritual, podemos compreender muito 136

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bem o porquê de tais ocorrências. Se o homem venera espíritos de baixa categoria, de animais como raposa, texugo, etc., é porque sua posição está sob a terra, abaixo, portanto, da condição dos quadrúpedes, cujo lugar é sobre ela. Isso significa que, no Mundo Espiritual, ele se encontra na “Esfera dos Animais”. Como todas as coisas do Mundo Espiritual se refletem no Mundo Material, essa pessoa está no Inferno. Entretanto, nem todos os espíritos de raposa são maus. Embora raros, alguns são corretos e pertencem ao Mundo Divino, do qual são mensageiros. São espíritos de raposa branca e estão se esforçando no trabalho daquele mundo, sendo muito úteis. Há, por conseguinte, dois tipos de espíritos de raposa: os maus e os bons. Estes últimos também possuem muita força e fazem bons trabalhos. 5 de Dezembro de 1951

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INCORPORAÇÃO E ENCOSTO DE ESPÍRITO ENCARNADO Falei a um universitário sobre espírito e fenômenos espirituais, mas ele não se convencia. Como que me desafiando, disse: “Então veja se há algum espírito incorporado em mim”. Imediatamente procedi ao exame espiritual e, não demorou muito, o rapaz entrou em transe e começou a falar com jeito de mulher jovem. Havia incorporado o espírito de uma pessoa viva – o da empregada de um bar noturno que dele se enamorara e com quem de vez em quando ia passear. O espírito fez este pedido: “Faz tempo que ele não vem me ver. Gostaria que lhe dissesse para vir, pois estou com muita saudade.” Apesar de o pedido ter sido feito por espírito de gente viva, fiquei constrangido ao ser solicitado para transmitir o recado. O universitário voltou a si sem compreender o que estava se passando, e eu então lhe perguntei: “Como foi?” Ao que ele respondeu: “Não sei se entrei em transe, não entendi nada”. Quando lhe contei o que acontecera, espantou-se e, envergonhado, coçando a cabeça embaraçado, teve de admitir a existência do espírito. Também fiz exame espiritual numa jovem gueixa que incorporou o espírito do amante. Depois de lhe fazer várias perguntas, compreendi que se tratava do espírito do proprietário de uma casa que vendia açúcar por atacado. Ele disse o seguinte: “Combinei encontrar-me com esta gueixa hoje à noite, mas, como surgiu um compromisso, peço-lhe o favor de dizer-lhe que só posso encontrar-me com ela amanhã”. Suas palavras e gestos eram de um homem de quarenta a cinquenta anos, não havia dúvida. Quando transmiti o recado à jovem, ela se espantou. Disse que entrara em transe e não sabia absolutamente o que falara, mas que realmente havia combinado aquele encontro. Certa vez, fui procurado por uma moça de mais ou menos vinte anos, a qual me disse que lhe parecia ter sido acometida de hipocondria, e que estava achando o mundo muito sem graça. Então eu lhe fiz várias perguntas, dizendo, entre outras coisas, que não havia razão 138

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para uma pessoa de aparência tão sadia estar assim, além do mais sendo tão bonita. Acrescentei que devia haver um motivo especial. Finalmente, compreendi que a causa de tudo era um rapaz da vizinhança, o qual se apaixonara por ela. “Ele tenta me conquistar através de cartas e vários outros meios” – disse a moça – “mas eu não gosto dele e já lhe disse não várias vezes; entretanto, ele fica sempre postado perto da minha casa e, de medo, eu quase não saio”. Então eu expliquei à jovem que o espírito daquele rapaz estava encostado nela. Sabendo disso, ela ficou tranquila, pois compreendeu que não estava doente. A partir daí, foi melhorando pouco a pouco e acabou por se recuperar completamente. Se é difícil fazer uma pessoa compreender a existência de espírito desencarnado, muito mais difícil ainda é fazê-la compreender o encosto de espírito encarnado. Todavia, trata-se de uma verdade indubitável, e eu gostaria que lessem conscientizados disso. Ainda poderia citar vários exemplos, mas acho que esses três são suficientes. Acrescento, porém, que o fato geralmente ocorre nas relações amorosas entre homem e mulher. Quanto à hipocondria daquela moça, era motivada pelo pessimismo do rapaz, gerado pelo amor não correspondido. Esse estado refletia-se nela, através do elo espiritual. Como se pode concluir, encosto de espírito encarnado significa o reflexo do pensamento de outra pessoa. Quando, ao contrário do caso que citei, os dois se amam, os elos espirituais de ambos se inter-relacionam, produzindo uma sensação extremamente agradável. Se a ligação se torna inseparável é, em grande parte, devido a essa sensação. O encosto de espírito desencarnado provoca uma sensação de frio; o encosto de espírito encarnado, uma sensação de calor. Tratando-se de espíritos encarnados como os dos casos citados, não há grande problema, mas existem os que são terríveis. É o que ocorre, por exemplo, no triângulo amoroso. Quando duas mulheres disputam um homem, os ciúmes de ambas se materializam e lutam entre si. Em geral a esposa sai vencedora, porque é natural o justo vencer; sua obstinação fará com que a amante acabe se afastando, 139

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acometida por doença, falecendo ou arranjando outro amante. Se o espírito encarnado for de gente, a incorporação não é tão grave; pior é quando se trata do espírito de “kudaguitsune”. Desde a antiguidade, quem pratica esse tipo de incorporação são ascetas aos quais se dá o nome de “iizuna-tsukai”. Eles aceitam todos os trabalhos que lhes pedem, como, por exemplo, fazer vinganças. O “kudaguitsune” é um tipo de raposa pouco menor que um melão e tem um pêlo branco e macio; seu espírito é muito obediente ao homem e faz qualquer maldade que lhe ordenem. Desde tempos remotos há muitos “iizuna-tsukai” na região sul, e aí se aconselha que ninguém se case com eles, porque, se lhes desagradarem na menor coisa que seja, eles se vingarão. Há, também, a incorporação do espírito encarnado de outros tipos de raposa. Seu corpo permanece no “Inari” (8) ou nas matas, e só o seu espírito atua. 25 de Agosto de 1949

(8) Vide rodapé à pág. 101. 140

VIDA E MORTE

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VIDA E MORTE Para a vida humana, talvez não haja problema tão premente quanto o da morte. Não será, pois, uma grande felicidade se o homem tiver esclarecimentos comprobatórios, e não fantásticos, a respeito dessa questão? Desejo esclarecer as dúvidas existentes transmitindo a todas as pessoas o resultado dos meus estudos sobre os fenômenos espirituais. Com relação ao problema da vida após a morte, existem no Ocidente muitas obras famosas, tais como as de Sir Oliver Joseph Lodge (1851-1940) e do Dr. Ward, que são autoridades no assunto. No Japão temos Wazaburo Assano, um profundo pesquisador com quem eu tive certo relacionamento e que deixou vários trabalhos. Infelizmente, ele faleceu há alguns anos. Falando sobre os fenômenos espirituais, no entanto, quero deixar bem claro que, na medida do possível, me basearei apenas na minha própria experiência. Agirei assim para garantir a exatidão do que digo, pois, como esses fenômenos são invisíveis, é difícil apresentá-los de forma concreta, sem cair em dogmas. Desprendido do corpo, que se tornou inútil, o espírito retorna ao Mundo Espiritual, onde passa a habitar, começando uma nova vida. Descreverei, inicialmente, como se processa o instante da morte, observado do Mundo Espiritual. Geralmente o espírito se desprende do corpo pela testa, pela região umbilical ou pela ponta dos dedos do pé. O espírito puro sai pela testa; o que tem muitas máculas, pela ponta dos dedos do pé; o mediano, pela região umbilical. Isso se explica porque o espírito puro praticou o bem enquanto vivia, somou méritos e foi purificado; o que tem muitas máculas somou muitos pecados, e o mediano situou-se entre os tipos mencionados. Tudo está fundamentado na Lei da Concordância. O exemplo que se segue é a experiência de uma enfermeira que “viu” a morte de um doente; sua descrição é tão perfeita, que serve de ilustração. É um exemplo ocidental, porém, tanto no Ocidente como no Japão, existem pessoas que têm a faculdade de ver espíritos. 143

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Não guardei os pormenores da descrição, mas vou reproduzir as partes mais importantes. Certa vez, disse ela: “Fitando um doente prestes a morrer, notei que de sua testa subia algo branco, uma espécie de névoa que, espalhando-se lentamente pelo espaço, tornou-se uma massa disforme, semelhante a uma nuvem. Pouco a pouco, entretanto, começou a tomar a forma humana; minutos depois, apresentou-se exatamente com as mesmas características físicas da pessoa. De pé, no espaço, olhava atentamente seu corpo inerte, junto do qual os familiares choravam. Parecia que desejava mostrar-lhes sua presença, mas desistiu, por saber que estava em dimensão diferente; mudou, então, de posição, dirigiu-se para a janela e saiu suavemente.” Realmente, a descrição acima retrata muito bem os instantes da morte, que os budistas designam pela expressão “vir para nascer”. De fato, se analisarmos do Mundo Material, é “ir para morrer”, mas, se o fizermos do Mundo Espiritual, é “vir para nascer”. Da mesma forma, ao invés de dizerem “antes de morrer”, eles dizem “antes de nascer”. Assim, o espírito vive no Mundo Espiritual durante determinado tempo, às vezes dezenas, centenas ou milhares de anos, para nascer novamente. Desse modo, o homem nasce e morre muitas vezes. Para se referirem a esse nascer e renascer, os budistas usam a expressão “Rin-ne Tensho”. Qual a relação entre o Mundo Espiritual e o homem? O homem vem ao Mundo Material para cumprir a missão que lhe foi determinada por Deus, tenha ou não tenha consciência disso. No cumprimento dessa missão, acumula máculas no seu corpo espiritual. Chega, porém, um momento em que, por doença, velhice ou outros motivos, torna-se difícil continuar a cumpri-la. Quando isso ocorre, o espírito abandona o corpo e retorna ao Mundo Espiritual. Nesse sentido, desde tempos remotos chama-se “Nakigara” (invólucro vazio) ao corpo sem espírito, e “Karada” (invólucro) ao corpo carnal de uma pessoa viva. Na ocasião em que o espírito entra no Mundo Espiritual, inicia-se, 144

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na maioria deles, o processo purificador das máculas. Dependendo do peso e da quantidade destas, logicamente ele vai ocupar um nível mais elevado ou mais baixo. O período de purificação é variável. Os períodos mais curtos duram poucos anos, às vezes dezenas, e os mais prolongados, centenas ou milhares de anos. Os espíritos que foram purificados até certo ponto reencarnam por determinação de Deus. Essa é a ordem normal, porém, de acordo com a pessoa, há situações em que não se obedece a ela. Isso acontece com aqueles que, na ocasião da morte, têm forte apego à vida. Eles reencarnam antes de terem sido suficientemente purificados no Mundo Espiritual. Geralmente têm destino infeliz, porque lhes restam consideráveis máculas da vida anterior, que precisam ser eliminadas. Por essa razão é que muitos praticam o bem, mas vivem perseguidos pelos infortúnios. São pessoas que na vida anterior cometeram muitos pecados e, quando morreram, arrependeram-se seriamente, tomando a firme decisão de não persistir no erro. Esse propósito ficou impregnado em seu espírito, mas, como reencarnaram sem terem sido suficientemente purificadas, vivem sempre cercadas de sofrimento, apesar de detestarem o mal e praticarem o bem. Entretanto, não são poucos os exemplos de pessoas que, passando um período de infelicidade e tendo redimido os seus pecados, tornam-se subitamente felizes. Há homens que se orgulham de não conhecerem outra mulher além de sua esposa, e outros que não desejam casar-se, terminando a vida solteiros. São indivíduos a quem as mulheres causaram muita infelicidade na vida anterior, e por esse motivo morreram com uma espécie de temor ao sexo feminino, sentimento que deixou marcas em seu espírito. Algumas pessoas têm especial aversão ou receio de aves, insetos ou outros bichos. Isso tem origem na morte que tiveram, causada por um desses animais. O mesmo pode ser dito com relação àqueles que temem a água, o fogo ou os lugares altos. Outros têm medo de lugares onde se aglomera muita gente. Quando alguém sente isso, é porque em outra vida morreu pisoteado pela multidão. É interessante 145

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o pavor que certas criaturas têm de ficar sozinhas. Ministrei Johrei numa pessoa assim. Ela não podia ficar sozinha dentro de casa. Nessas ocasiões, saía para a rua e ficava esperando alguém chegar. Provavelmente, na vida anterior, tais pessoas faleceram de um mal súbito, quando estavam sozinhas. Pelos diversos exemplos mencionados, concluímos que, no dia a dia da sua vida, o homem deve se esforçar para morrer em paz, sem apegos, temores e outras preocupações. Quando uma pessoa nasce deformada ou aleijada, geralmente é porque reencarnou antes de estar suficientemente purificada no Mundo Espiritual. Por exemplo: antes de ser curada de fratura nas mãos ou nas pernas, provocada pela queda de um lugar alto. Além do apego do próprio falecido, há outro motivo para a reencarnação prematura: a influência do apego dos familiares. É comum o caso de mulheres que engravidam logo após o falecimento de um filho querido. Esse novo filho é aquele que morreu e reencarnou prematuramente, em virtude do apego da mãe. Geralmente essas crianças não são muito felizes. Existem pessoas sábias e pessoas ignorantes. Por quê? Pela diferença de idade entre suas almas: as primeiras têm alma velha; as segundas têm alma nova. A alma velha, por ter reencarnado muitas vezes, possui uma larga experiência do mundo, ao passo que a nova, por ter sido criada recentemente no Mundo Espiritual, tem pouca experiência, motivo pelo qual é mais ignorante. Como vemos, também há um processo de procriação no Mundo Espiritual. Ainda podemos citar algumas experiências pelas quais muitos já passaram. Certas pessoas, ao encontrarem alguém que nunca viram, têm a impressão de tratar-se de pessoa já conhecida. Sentem uma grande emoção, como se fossem pai e filho, ou irmãos; podem até experimentar um sentimento mais profundo. A razão é que na vida anterior eram parentes bem próximos ou tinham laços de estreita amizade; a isso se convencionou chamar de INNEN (afinidade espiritual). 146

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Também, por ocasião de uma viagem, encontramos lugares pelos quais sentimos especial simpatia ou atração e onde desejaríamos residir. É porque em outra vida residimos ou passamos muito tempo nesses locais. No relacionamento entre homem e mulher, há casos em que ambos ficam em idílio ardente, que progride até se tornar um amor cego. A explicação é que na vida anterior, apesar de enamorados, eles não conseguiram unir-se. Entretanto, na vida atual, apresentando-se essa oportunidade, cria-se entre os dois um amor apaixonado. Ao lermos ou ouvirmos falar de determinados personagens ou acontecimentos históricos, podemos sentir simpatia ou até ódio. Isso acontece porque já vivemos na época em que aqueles fatos ocorreram, ou porque tivemos algum relacionamento com aqueles personagens. 5 de Fevereiro de 1947

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O QUE É A MORTE? Entre as questões relacionadas à vida humana, nenhuma é tão séria quanto o problema da morte. Todos o reconhecem; apesar disso, é a questão mais difícil de ser compreendida. Eu cheguei a uma conclusão a respeito da morte depois de prolongados estudos e pesquisas em todos os campos incluindo diversas religiões, experiências espirituais realizadas no Ocidente, etc. Começarei minha explanação falando sobre a constituição do homem. O homem não é formado apenas pela matéria, ou seja, pelo corpo físico, como afirmam os cientistas. É constituído por duas partes essenciais: espírito (elemento fogo) e matéria. Esta, por sua vez, compõe-se dos elementos água e terra. Entretanto, apenas com estes dois últimos elementos o homem não atua como ser vivo. Juntandose a eles o espírito, sem forma definida, é que se inicia a atividade vital. O espírito assume, então, a forma do próprio corpo da pessoa. No momento em que ele se separa do corpo, ocorre aquilo a que chamamos morte. E por que ocorre a separação? É porque o corpo se torna inútil, seja por velhice, por doença, por ferimento ou por hemorragia intensa; no instante em que isso ultrapassa certo parâmetro, entra em vigor a lei que obriga a separação. Com a morte, imediatamente o corpo esfria e o sangue se coagula em determinado local. O esfriamento é decorrente da anulação do elemento espírito, isto é, do elemento fogo. O que acontece, então, com o espírito? Ele vai para o Mundo Espiritual com a forma exata do corpo. A esse respeito li, há algum tempo, o relato de uma experiência realizada no Ocidente; como se trata de um exemplo bem ilustrativo, vou reproduzi-lo a seguir. Certa vez, fitando um doente prestes a morrer, uma enfermeira observou que de sua testa começou a subir uma fumaça esbranquiçada, como se fosse vapor d’água, o qual se tornava cada vez mais denso. A princípio essa fumaça tomou o formato de uma elipse no espaço, mas gradualmente foi adquirindo a forma de um 148

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corpo humano; por fim, assumiu as mesmas características físicas da pessoa. O espírito permanecia a uma distância de aproximadamente um metro acima do morto e parecia querer dizer alguma coisa aos familiares que choravam à sua volta; logo, porém, flutuando, saiu do quarto silenciosamente. Em geral o espírito se desprende do corpo pela testa, pela região abdominal ou pelos pés. No caso de morte por explosão, instantaneamente ele se espalha em todas as direções, na forma de inúmeros corpúsculos, mas torna a se reunir de maneira centrípeta, reassumindo o formato humano; assim, não difere nem um pouco da morte por doença. Quando os espíritos se deslocam, por vontade própria, para determinado local, tomam a forma esférica. É com esse formato que muitas pessoas afirmam tê-los visto. Com relação à visão da enfermeira de quem falamos, trata-se de uma capacidade excepcional; aliás, existem criaturas que já nasceram com essa capacidade e outras que a adquiriram através de treinamento. No Japão, desde a antiguidade registram-se casos verídicos desse tipo, e eu mesmo já tive inúmeras oportunidades de contatar com médiuns. Conheci uma senhora possuidora de percepção espiritual fora do comum, a qual me foi de grande valia nas experiências que realizei. 1939

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MORTE NATURAL E MORTE ANTINATURAL O que vem a ser a morte? Obviamente, é a extinção da vida. Isso significa que o corpo material não consegue mais viver. É como uma árvore que seca e morre. A morte tem várias causas, mas podemos dividi-la em dois grupos: morte natural e antinatural. A primeira é causada pelo esgotamento natural da vida; a segunda, por doença, assassinato, acidente ou suicídio. O certo é que ocorra morte natural, podendo-se dizer que a morte antinatural constitui uma anomalia. Um fato realmente incompreensível é que, apesar do avanço da cultura, venha diminuindo cada vez mais a morte natural e aumentando a incidência de morte antinatural, principalmente a motivada por doença. E por que razão, embora se registre um grande progresso em todos os campos culturais, só na questão referente à vida humana ocorre exatamente o inverso? Deve existir aí uma enorme falha... Entretanto, ao invés de levantar dúvidas, o homem, que mostra um interesse ilimitado por outros assuntos, permanece totalmente apático, conformado, acreditando, talvez, que na questão da morte não existem alternativas. Tal atitude se explica pelo fato de, até agora, como todos sabem, nenhuma religião ou ciência ter conseguido resolver o problema. Portanto, é de se imaginar que o homem pensa em deixá-lo à mercê da natureza, como única solução. Mas, pensemos: Deus Todo-Poderoso criou o homem como animal do mais elevado nível, e não há nada mais conflitante com a Vontade Divina que o reduzido número de mortes naturais com relação às mortes antinaturais, número esse que está diminuindo progressivamente. Ora, se Deus é Todo-Poderoso, cedo ou tarde Ele deverá trazer o homem de volta à sua hierarquia espiritual de origem. Evidentemente, Deus não fechará os olhos, por muito tempo, à anomalia ocorrida com a vida humana. Refletindo sobre tudo isso, não será motivo de espanto que Izunome-no-Okami, isto é, Kanzeon Bossatsu, o deus que recebeu do Supremo Deus a 150

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incumbência de salvar o homem, esteja prolongando a vida humana, isto é, erradicando a morte antinatural. Pelas razões expostas, o homem deve conscientizar-se de que está próxima a chegada do Mundo da Divina Luz, ou seja, o mundo isento de doenças pelo qual a humanidade vem ansiando há milênios. 19 de Junho de 1936

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AS DIVERSAS EXPRESSÕES APÓS A MORTE A morte pode ocorrer de muitas formas. Uns morrem de repente, por hemorragia cerebral, apoplexia, ataque cardíaco, desastre, etc., e quem nada conhece sobre o assunto diz que essas pessoas é que são felizes, porque não passam pelas angústias nem pelas dores da doença. Entretanto, nada mais errado; ninguém é mais infeliz do que elas. Como não estavam preparadas para morrer, mesmo habitando o Mundo Espiritual não têm noção de que faleceram e continuam pensando que estão vivas. Além do mais, como os elos espirituais se mantêm após a morte, o espírito, através desses elos, tenta encostar-se num parente consanguíneo. Geralmente encosta-se em criança ou em pessoas fisicamente enfraquecidas, como senhoras anêmicas em consequência de parto, visto que nelas o encosto se torna mais fácil. Essa é a causa da paralisia infantil autêntica e também pode ser a causa da epilepsia. É por isso que a paralisia infantil frequentemente apresenta sintomas semelhantes aos da hemorragia cerebral. A epilepsia manifesta os sintomas dos instantes da morte. Por exemplo: quando a pessoa espuma, é porque se trata da incorporação do espírito de alguém que morreu afogado; se tem ataque ao ver fogo, trata-se da incorporação do espírito de uma pessoa que morreu queimada. Há diversos outros casos em que se manifestam condições relacionadas com morte antinatural. O sonambulismo também tem a mesma causa, assim como muitas doenças de origem espiritual. Sobre mortes antinaturais, há um aspecto que convém conhecer. Os espíritos daqueles que morreram assassinados, que se suicidaram, etc., durante algum tempo não podem sair do local em que ocorreu a morte e são chamados de “espíritos presos à terra”. Geralmente eles ficam circunscritos a um espaço mais ou menos exíguo (de dez a cem metros) e, não suportando a solidão, tentam atrair companheiros. É também devido à solidão que se tornam frequentes as mortes nos locais onde aconteceram desastres, como estradas de rodagem e de ferro, nos locais onde houve afogamentos, como lagos e rios, ou onde alguém se enforcou. 152

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Os “espíritos presos à terra” não podem desligar-se desses locais durante cerca de trinta anos, mas, de acordo com a atenção e o carinho que seus familiares lhes dispensam, oferecendo-lhes cultos para sua elevação, esse tempo pode ser muito abreviado. Por isso, devem dispensar uma atenção toda especial aos espíritos daqueles que não tiveram morte natural. Todos os mortos, especialmente os suicidas, continuam no Mundo Espiritual com as dores e as angústias do momento em que morreram. Os suicidas se arrependem seriamente porque o Mundo Espiritual é a continuação do Mundo Material. Por essa razão, se a morte ocorre em meio a sofrimentos, o espírito vai para o Plano Intermediário ou para o Plano Inferior, mesmo que se trate de uma pessoa bondosa. Quem era solitário antes de morrer, continua solitário no Mundo Espiritual; os que não tinham sorte continuam sem sorte. Contudo, há casos particulares em que a situação no Mundo Espiritual torna-se o oposto do que era no Mundo Material. É o que acontece, por exemplo, com aqueles que enriqueceram à custa do sofrimento alheio. É também o caso dos avarentos. Indo para o Mundo Espiritual, eles ficam paupérrimos e se arrependem enormemente. Ao contrário, pessoas que no Mundo Material gastaram grandes somas para o bem da humanidade, acumulando méritos pelo altruísmo praticado, no Mundo Espiritual tornam-se ricas e afortunadas. Criaturas que aparentavam uma dignidade que não tinham, poucos meses ou um ano depois da passagem para o Mundo Espiritual tomam uma aparência de acordo com seu verdadeiro caráter. Isso se justifica porque o Mundo Espiritual é o mundo do pensamento e aquilo que esconde o pensamento, ou seja, o corpo carnal, já não existe. Os pensamentos malévolos e indignos fazem com que o espírito tome um aspecto feio ou até horrível; já o espírito daqueles que acumularam méritos pelo seu altruísmo, toma uma aparência bondosa e agradável. Podem, pois, compreender a diferença entre o Mundo Espiritual e o Mundo Material. Realmente, no Mundo Espiritual não há parcialidade de forma alguma. Anos atrás havia entre meus subordinados um jovem chamado 153

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Yamada. Um dia, ele me disse: “Peço licença para ir a Ossaka tratar de um assunto”. Sua expressão e seu comportamento não eram normais. Perguntei-lhe que assunto ele tinha a tratar naquela cidade, mas suas respostas foram evasivas e confusas. Decidi, então, examiná-lo espiritualmente. Nessa ocasião, eu estava pesquisando os fenômenos espirituais com grande interesse. Fiz com que o rapaz se sentasse e cerrasse as pálpebras. Quando iniciei o exame espiritual, ele começou a se contorcer de dor. Manifestou-se, então, um espírito que se identificou como sendo o de um amigo seu. “Quando eu era empregado de uma firma de Ossaka” – disse ele – “fui despedido por um dos diretores, que acreditou nas calúnias de certo indivíduo. Fiquei num tal estado de inconformismo e desespero que me matei, tomando veneno. Pensava que, suicidando-me, estaria pondo fim na minha existência, que voltaria ao nada, mas, ao invés disso, os sofrimentos dos instantes da morte continuavam indefinidamente. Fiquei deveras surpreso e me arrependi seriamente do que havia feito. Ao mesmo tempo, pensei em vingar-me do diretor da firma, que fora o causador de tudo, e por isso me encostei em Yamada, para levá-lo a Ossaka, e, por suas mãos, assassinar aquele homem”. O espírito parecia estar padecendo intensamente e me suplicou que lhe aliviasse o sofrimento. Então eu lhe fiz ver seus erros e lhe ministrei Johrei. Imediatamente ele se sentiu aliviado e me agradeceu muitas e muitas vezes. Prometendo desistir do seu intento, retirou-se. Durante o tempo em que o espírito esteve incorporado em Yamada, este ficou completamente inconsciente; depois, não se lembrava de nada do que tinha falado. Quando retornou a si, contei-lhe o que se passara. Ele ficou surpreso e, ao mesmo tempo, muito contente por se ver salvo de um grande perigo. Pelo exposto, devem compreender que, embora esteja enfrentando o maior dos sofrimentos, o homem jamais deve cometer suicídio. Os casais que se suicidam por amor estão completamente afastados da realidade. Muitos pensam que, morrendo, vão para o Céu, onde 154

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deslizarão por um lago tranquilo, sentados numa folha de lótus, e viverão na maior felicidade. Isso é um grande engano. Vou explicar com mais detalhes. Quando um homem e uma mulher se suicidam abraçados, os espíritos de ambos, ao entrarem no Mundo Espiritual, ficam grudados um ao outro sem poder separar-se, sujeitos a grandes incômodos. Como essa situação vergonhosa é vista pelos demais espíritos, não é pequeno o seu arrependimento. Casais que se matam por amor, geralmente ficam colados costa com costa, ou barriga com costa, etc., conforme o pensamento e a atitude do momento da morte, e perdem toda a liberdade, o que torna tudo mais difícil. Os espíritos daqueles que tiveram relações sexuais imorais e abomináveis, como por exemplo, o incesto, além de ficarem grudados, se um fica de pé, o outro fica com a cabeça para baixo, de modo que a sua dor e desconforto estão além da imaginação. Quando se trata de relações imorais de eclesiásticos, professores e outras pessoas que devem dar exemplo às demais, evidentemente a pena é mais pesada. 25 de Agosto de 1949

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A IRRESPONSABILIDADE DOS SUICIDAS Todos sabem que sempre existiram suicidas, mas parece que, ultimamente, o número deles é maior. Sendo assim, podemos perceber que não há relação entre suicídio e progresso da cultura. Creio que os suicídios ocorridos no Japão têm motivos bem diferentes dos suicídios ocorridos em outros países. A nosso ver, o que leva os estrangeiros a esse ato extremo é o sofrimento espiritual, mas no Japão parece não ser assim. Na época do feudalismo, havia motivos espirituais muito nobres para o suicídio. Muitos sacrificavam a vida como expressão de desculpas, como forma de advertência ao senhor feudal ou como prova de inocência. Por essa razão, chegava-se a ter certo respeito pelos suicidas, às vezes, levando-se isso ao exagero, como aconteceu no caso do General Nogui (1849-1912), que foi consagrado como um ser Divino. Ultimamente, entretanto, podemos dizer que quase não existem motivos como esses. O estudante e agiota Yamazaki, por exemplo, que se suicidou não faz muito tempo, por um momento fez todo mundo vibrar com o sucesso econômico que obteve através da agiotagem, mas acabou num beco sem saída e, talvez para fugir do sofrimento ou então para se desculpar, não viu outro recurso a não ser o suicídio. Analisando bem, foi um ato de extrema irresponsabilidade. Depois de ter causado grande prejuízo ao próximo, ele fugiu para o Mundo Espiritual sem ao menos pagar um pouco pelo mal que fez. É o cúmulo. Pode-se até dizer que foi um ato condenável. Na verdade, Yamazaki deveria ter feito tudo para viver o mais possível e pagar, ainda que em pequena parte, o prejuízo que causou. Se não o fez, pode até ser chamado de covarde. No caso tão comentado, atualmente, do suicídio de um literato, também não há como fugir da acusação de irresponsabilidade. Talvez ele tenha praticado aquele ato para acabar com o sofrimento causado pela sua própria imoralidade; mas o caso é que sua morte causou muita infelicidade, muitos problemas aos seus familiares e às pessoas de suas relações. 156

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Numa parte da sociedade, existem pessoas que até elogiam esse tipo de suicidas, mas podemos afirmar que elas estão criando um mal, uma espécie de pecado. Como prova, citamos o exemplo do Sr. Hidemitsu Tanaka, que se suicidou há pouco tempo em frente ao túmulo do Sr. Dazai. Talvez ele tenha feito isso pela admiração que este último lhe inspirava. Mas não foi apenas ele. Mais tarde, do mesmo local de onde o Sr. Dazai se jogou – no alto do Rio Tamagawa – dezenas de pessoas se atiraram também, o que nos deixa pasmados. Também podemos citar o caso de Missao Fujimura, que há vários anos se atirou da cascata de Kegon. Ainda hoje muitas pessoas seguem o seu exemplo, o que é uma prova evidente daquilo que estamos dizendo. A seguir, falarei sobre a intoxicação por meio de drogas como a heroína e a cocaína, uma das principais causas dos suicídios da atualidade. O caso requer uma grande reflexão. É preciso fazer as pessoas entenderem perfeitamente que, embora elas comecem tomando pequenas doses, os narcóticos vão lhes custar a vida, no futuro. Atualmente, as autoridades estão percebendo a gravidade do problema e começaram a fazer proibições, infelizmente tardias. Aconselho especialmente aos jornalistas que não façam o menor elogio ao suicídio; pelo contrário, frisem categoricamente que ele é um ato da maior irresponsabilidade e covardia. Na verdade, do ponto de vista religioso, não se deve criticar os mortos; mas, como eu estou advertindo sobre o mal representado pelo suicídio com o objetivo de evitar novos suicídios, creio que os espíritos daqueles que praticaram esse gesto também ficarão satisfeitos. 14 de Janeiro de 1950

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JULGAMENTO NO MUNDO ESPIRITUAL Enquanto vive no Mundo Material, o homem deve se esforçar para cumprir plenamente a missão que lhe foi concedida por Deus, contribuindo para o bem da sociedade. A maioria das pessoas, no entanto, fica atenta apenas aos aspectos exteriores das coisas e, inconscientemente, pratica ações subordinadas ao mal. Em consequência, no seu corpo espiritual vão se acumulando máculas. Passando para o Mundo Espiritual, nele se efetua uma rigorosa eliminação dessas máculas. Realizei minuciosos estudos e pesquisas procurando ouvir o maior número possível de espíritos desencarnados, através de médiuns. De tudo que esses espíritos disseram, eliminei aquilo que pode não ser verdade, transcrevendo apenas os pontos coincidentes entre os muitos depoimentos que ouvi. Por isso, tenho certeza de que não há erros em minhas explanações. Ao entrar no Mundo Espiritual, a maioria dos espíritos é conduzida para o local a que dou o nome de Plano Intermediário. No xintoísmo, chamam-no de “Yatimata” (encruzilhada de oito direções); no Budismo, “Rokudo no Tsuji” (esquina de seis caminhos), e no cristianismo, Purgatório. Entretanto, desejo chamar a atenção para um fato: o Mundo Espiritual do Oriente é mais verticalizado que o do Ocidente, e o Mundo Espiritual do Japão é o que se apresenta mais vertical. Por isso é que a sociedade japonesa é particularmente constituída de muitos níveis hierárquicos, e a sociedade ocidental, menos hierarquizada, mais propensa à igualdade. O objeto de minhas pesquisas foi o Mundo Espiritual do Japão; espero que não esqueçam esse fator, ao lerem minhas palavras. Fundamentalmente, o Mundo Espiritual é constituído de nove níveis, pois tanto o Plano Superior, quanto o Intermediário e o Inferior são formados de três níveis. Após a morte, o espírito das pessoas comuns vai para o Plano Intermediário, mas o espírito daqueles que foram muito bons sobe imediatamente ao Plano Superior, e o dos perversos desce incontinenti ao Plano Inferior. 158

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Podemos ter mais ou menos uma ideia disso observando a forma como ocorre a morte. Aqueles cujo espírito vai para o Plano Superior, sabem a data aproximada em que vão morrer e, nessa ocasião, não sentem nenhum sofrimento; chamam os mais chegados, expressam seus últimos desejos e morrem em paz, como se a morte fosse a coisa mais natural. Ao contrário, aqueles cujo espírito vai para o Plano Inferior têm morte muito dolorosa, agonizando em meio a sofrimentos extremos. Os que vão para o Plano Intermediário estão sujeitos a sofrimentos menos dolorosos. A maioria dos espíritos vai para este plano, e podemos deduzir isso observando a face do cadáver. Se o espírito foi para o Plano Superior, não há nenhuma expressão de sofrimento; pelo contrário, a pessoa fica como se estivesse viva. Se for para o Plano Inferior, a face do cadáver se apresenta escurecida ou preto-esverdeada, com uma expressão de agonia. A face daqueles cujo espírito foi para o Plano Intermediário, em geral mostra-se amarela, como é o caso da maioria dos cadáveres. Falarei primeiramente sobre os espíritos que se destinam ao Plano Intermediário. Para chegarem lá, eles têm de atravessar um rio. Nessa ocasião, um funcionário examina-lhes a roupa; se esta é branca, o espírito passa, mas se é de cor, ele é obrigado a trocá-la por uma de cor branca. Há duas versões: segundo uns, o espírito passa por uma ponte; segundo outros, não há ponte, e ele atravessa o próprio rio. Estes últimos falam ainda que o rio não tem água e que as ondas que se tem impressão de ver nada mais são que as ondulações dos corpos de inúmeros dragões se movimentando. Quando o espírito acaba de atravessar o rio, a veste branca apresentase tingida; a cor varia de acordo com a quantidade de máculas. A dos espíritos mais maculados tinge-se de preto. A seguir, por ordem decrescente de máculas, a veste pode tornar-se azul, vermelha, amarela, etc., sendo que a dos mais puros permanece branca. Em seguida, de acordo com a tese budista, o espírito vai para o Fórum, onde é julgado. O julgamento é bem diferente do que ocorre no Mundo Material: caracteriza-se pela imparcialidade, não 159

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havendo o mínimo de favoritismo nem de equívocos. Na hora do julgamento, os espíritos vêem de forma diferente a face de Enma Daio, o juiz. Para os perversos, ele se apresenta com os olhos brilhando assustadoramente, abre a boca até às orelhas e, quando fala, cospe fogo; só de vê-lo o espírito já fica atemorizado. Entretanto, os bons vêem-no com uma expressão afável, branda e afetuosa, mas sóbria; o espírito, naturalmente, sente simpatia e respeito por ele. Um por um, os pecados são refletidos num espelho de cristal puro e, em seguida, julgados. O julgamento é precedido de uma investigação, procedendo-se, em seguida, à comparação das condições presentes do espírito com os outros registros seus existentes no Fórum. Quem exerce a função de juiz no fórum do Mundo Material, também a exerce no Mundo Espiritual. Segundo o xintoísmo, o fiscal dos promotores é “Haraido no Kami” (deus da purificação), e o Enma Daio é a divindade chamada “Kunitokotati no Mikoto”. Após receber a sentença, o espírito dirige-se para um dos três níveis do Plano Superior ou do Plano Inferior. Portanto, a “esquina de seis caminhos” a que aludimos, como o próprio nome indica, é a encruzilhada para ele ir a um daqueles níveis. Todavia, embora tenha ficado decidido que o espírito vai para o Plano Inferior, concedese a ele mais uma oportunidade – fazer aprimoramento no Plano Intermediário, para a sua elevação. Aqueles que se arrependem e se convertem, ao invés de irem para o Plano Inferior como estava determinado, vão para o Plano Superior. O trabalho de orientação é realizado pelos eclesiásticos das respectivas religiões, como faziam no Mundo Material. Tais eclesiásticos, após seu falecimento, recebem ordem para cumprir essa missão. No Plano Intermediário, o período de aprimoramento vai de alguns dias até trinta anos, e aqueles que não conseguem arrepender-se, descem ao Plano Inferior. Há um outro fator ainda. Se os parentes, amigos e conhecidos lhe oferecem cultos após a morte – cultos feitos de coração, com toda a sinceridade – ou somam méritos e virtudes praticando o bem, fazendo feliz o próximo, a purificação do espírito desencarnado será acelerada. Por essa razão, a dedicação aos pais, a 160

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fidelidade ao c么njuge, etc., aqui no Mundo Material, revestem-se de grande significado mesmo ap贸s a sua morte, e eles ficam muito contentes com os cultos feitos em sua mem贸ria. 5 de Fevereiro de 1947

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A REENCARNAÇÃO O tempo que o homem leva para reencarnar é bastante variável, podendo a reencarnação ocorrer cedo ou tarde. A rapidez ou atraso são determinados pela própria vontade da pessoa. Quando alguém morre e tem muito apego a este mundo, reencarna mais cedo. Mas isso não traz bons resultados porque no Mundo Espiritual a purificação é mais rigorosa e, quanto mais tempo o espírito lá permanecer, mais será purificado. Quanto mais purificado estiver, mais feliz será ao reencarnar. No caso de reencarnação prematura, a purificação não foi completa, restando impurezas que deverão ser purificadas neste mundo. Ora, a purificação no Mundo Material traduz-se em sofrimentos como doenças, pobreza, acidentes, etc., obviamente, a pessoa terá um destino infeliz. O fato de uma pessoa ser feliz ou infeliz desde o seu nascimento, na maioria das vezes deve-se ao que acabamos de expor. Perceberão, portanto, que a felicidade ou a infelicidade não são mero acaso, existindo razões para ambas. Contudo, existe outra explicação. Quando a família do falecido lhe presta homenagens póstumas e ofícios religiosos, ou quando seus descendentes praticam o amor ao próximo e trabalham em benefício da sociedade e da nação, somando o bem e a virtude, isso ajuda a acelerar a purificação dos espíritos dos antepassados. Por esse motivo, o amor e a devoção filial devem ser praticados não só quando os pais ainda estão neste mundo, mas muito mais através de ofícios religiosos e do altruísmo, quando eles já se encontram no Mundo Espiritual. Costuma-se dizer: “Os filhos querem colocar em prática a devoção filial quando seus pais já não existem”. Quem diz tais palavras, desconhece como é aquele mundo. Há pessoas que já nascem com anomalias físicas. Isso significa que houve reencarnação antes de ser completada a purificação no Mundo Espiritual. Exemplificando, no caso de uma pessoa cair de um lugar alto e fraturar os braços ou as pernas, se ela morrer e reencarnar antes da cura completa, poderá apresentar anomalia nesses membros. Entretanto, a reencarnação prematura explica-se não só pelo apego 162

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da própria pessoa, como também pelo apego dos seus familiares. Por exemplo: quando uma mãe perde um filho muito querido, pode acontecer que ela engravide logo em seguida, provocando-lhe a rápida reencarnação devido ao seu forte apego. Em tais casos, normalmente esse filho não terá uma vida muito feliz. 23 de Outubro de 1943

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A GRANDE NATUREZA

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O MUNDO DESCONHECIDO Vivemos e respiramos no Mundo Material, o Mundo Temporal, mas, com a morte, tornamo-nos habitantes do Mundo Espiritual, o Mundo Desconhecido, isto é, o Mundo Intemporal. O Mundo Espiritual é invisível, impalpável. Não sendo perceptível pelos sentidos, torna-se difícil crer na sua existência apenas por meio de palavras, através de uma simples explicação. Entretanto, visto que se trata de uma realidade e não de um vazio, seria impossível ele não se manifestar por algum fenômeno, sob qualquer forma. Com efeito, os fenômenos espirituais – grandes, médios ou pequenos – apresentam-se em todos os aspectos da vida humana, nos seus mínimos detalhes e em todos os locais do mundo. Só que o homem não os percebe. Essa falta de percepção é causada pelo desinteresse da educação da cultura tradicional em relação ao espírito, em decorrência da fase noturna que o mundo atravessava. No escuro da noite, com a luz da Lua, só se consegue enxergar escassamente, mas de dia, com a luz do Sol, é possível distinguir claramente todas as coisas, de forma global e instantânea. Num futuro bem próximo, o Mundo Conhecido, que era regido pela Lua, será o mundo regido pelo Sol, isto é, o mundo sob a Grande Luz. Como resultado dessa mudança de regência, serão revelados todos os segredos, falsidades e erros. 5 de Fevereiro de 1947

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O PODER DA NATUREZA Segundo meus estudos, a Grande Natureza, isto é, o mundo em que respiramos e vivemos, está constituída de três elementos – o Fogo, a Água e o Solo – conforme já explanei em outra oportunidade. Atualmente, a ciência e o homem, pelos seus cincos sentidos, têm conhecimento do eletromagnetismo, do ar, da matéria, dos elementos, etc., mas o meu propósito é falar sobre a energia espiritual, que a ciência e os cinco sentidos do homem ignoram. A expressão “energia espiritual” ou “espírito” tem sido usada até hoje circunscrita à religião ou à metafísica. Por isso, na maioria das vezes, é associada à superstição. A tendência é considerar intelectual aquele que nega a existência do espírito, mas como estão enganados os que pensam assim. A essência daquilo a que dou o nome de espírito é a fonte do grandioso poder que dirige tudo que existe neste universo e do qual dependem o nascimento, o crescimento, o movimento e a transformação de todas as coisas. Chamo-o de Poder Invisível. Sendo assim, daqui por diante chamarei o mundo conhecido simplesmente de Mundo Material, e o desconhecido, de Mundo Espiritual. Como lei fundamental de tudo que existe, todos os fenômenos ocorridos no Mundo Material são projeções daquilo que já foi gerado e acionado no Mundo Espiritual. Isso pode ser exemplificado pelos movimentos das mãos ou das pernas, os quais são precedidos pela nossa vontade. Até agora, contudo, os estudiosos têm procurado soluções analisando apenas os fenômenos do Mundo Material, e é por essa razão que embora se diga que houve progresso na cultura, ele não trouxe bem-estar à humanidade. Portanto, para resolver qualquer problema, é necessário solucioná-lo primeiro no Mundo Espiritual; inclusive as doenças, cujo verdadeiro método de tratamento consiste em tratar o espírito por processos espirituais. Mesmo nos seres vivos, o corpo espiritual está subordinado ao Mundo Espiritual, e o corpo físico, logicamente, ao Mundo Material. A doença, como já tenho explicado, é a eliminação de 168

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toxinas acumuladas, ou melhor, o processo de dissolução das toxinas solidificadas. Relacionando matéria e espírito, a acumulação de toxinas numa determinada região representa a existência de máculas na correspondente região do corpo espiritual, e o processo de dissolução significa a eliminação das máculas. Por conseguinte, todo e qualquer tratamento que se proponha a curar apenas o corpo físico é método contrário, não levando à verdadeira solução da doença. Se o método fundamental para a erradicação das doenças é a eliminação das máculas do corpo espiritual, qual é o poder que dissipará essas máculas? É a luz emanada de Deus e irradiada através do corpo humano. A profunda compreensão desse princípio só se tornará possível através da prática do Johrei por vários anos. No momento, creio que os leitores poderão obter apenas uma noção geral; por isso, peço-lhes que leiam com esse espírito. Antes de explicar o que é o corpo espiritual do homem, torna-se necessário explicar o que é a morte. Quando o corpo material fica imprestável, por velhice, doença, ferimento, perda de sangue, etc., o corpo espiritual e o corpo material se separam. A esta separação é que chamamos morte. Ela ocorre quando o corpo espiritual se liberta do corpo material. O primeiro regressa ao Mundo Espiritual e, passado algum tempo, reencarna; o segundo, como todos sabem, apodrece e retorna à terra. Pelo exposto, compreende-se que o corpo espiritual tem vida infinita, e o corpo material, vida finita, existência secundária. Consequentemente, quando se trata de questões relativas ao homem, o verdadeiro alvo é o corpo espiritual. Na ciência contemporânea, está se tornando conhecida a existência de uma espécie de radioatividade em todos os seres, inclusive nos minerais e nos vegetais. Meus estudos revelaram que a radioatividade do corpo humano é de qualidade superior. É como se falava nos velhos tempos: “espiritualmente, o homem é superior a todos os outros seres”. Quanto mais elevado o espírito, maior é o seu grau de rarefação (pureza), e quanto mais aumenta o grau de rarefação, mais difícil se torna detectá-lo através de instrumentos. Portanto, opondo-se 169

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aos conceitos materialistas, é muito mais fácil captar a presença de espíritos de níveis inferiores, assim como acontece com o rádio, entre os minerais, e a fosforescência, em alguns vegetais. Todavia, é importante compreendermos este princípio – quanto mais rarefeito (puro) é o espírito, maior é o seu poder de atuação. A irradiação do corpo humano é a mais poderosa, mas a grande diferença que há de umas para outras pessoas, está além da imaginação. Quanto mais poderosa for essa irradiação, maior será a atuação do Johrei. Assim, para irradiá-la com maior potência, concentrei-a numa parte do corpo, alcançando, com isso, pleno sucesso na eliminação das máculas. Consegui, também, aumentar ainda mais a força da irradiação que cada um possui, através de um método todo peculiar. Aplicando esses dois métodos, conhecendo o seu princípio e somando experiências, consegue-se manifestar um poder extraordinário. 5 de Fevereiro de 1947

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OS ELEMENTOS FOGO, ÁGUA E SOLO Tudo que existe é composto de três elementos básicos. O nascimento e o desenvolvimento de todas as coisas dependem da energia destes três elementos: o Sol, a Lua e a Terra. O Sol é a origem do elemento Fogo; a Lua, a origem do elemento Água; a Terra, a origem do elemento Solo. As energias do Fogo, da Água e do Solo movem-se, cruzam-se e fundem-se em sentido vertical e horizontal. Verticalmente, significa que do Céu à Terra há três níveis: o Sol, a Lua e a Terra. Isso pode ser claramente observado por ocasião de um eclipse solar. O Céu é o Mundo do Fogo, centralizado no Sol; o espaço intermediário é o Mundo da Água, centralizado na Lua; a Terra é o Mundo do Solo, centralizado no globo terrestre. Horizontalmente, significa a própria realidade em que nós, seres humanos, estamos vivendo na face da Terra, ou melhor, o Mundo Material, constituído do espaço e da matéria. A existência da matéria é perceptível por meio dos cinco sentidos do homem, mas por algum tempo o espaço foi considerado vazio. Com a evolução da cultura, nele se descobriu a existência do meio-matéria (digo provisoriamente meio-matéria) conhecido como ar. Entretanto, nesse espaço em que até há pouco se pensava existir apenas o ar, identifiquei a existência de mais um elemento – denominei-o de “espírito”. Algumas religiões falam sobre o Mundo Espiritual, sobre espírito dos vivos, sobre espírito dos mortos, sobre encostos. etc. Ascetas e médiuns também falam a respeito dos espíritos. Com a evolução da ciência espiritual nos Estados Unidos e na Europa, as pesquisas sobre o assunto estão em franco desenvolvimento e, até certo ponto, podemos crer nas explanações de obras como “Raymond”, da autoria de Sir Oliver Joseph Lodge (1851-1940), e “Exploration in the Spiritual World”, do Dr. Ward. Mas o objetivo do meu estudo situa-se num campo completamente diverso. Por princípio, o elemento da matéria é o Solo. Qualquer pessoa sabe que toda matéria surge do Solo e retorna ao Solo. O elemento 171

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Água, que é meio-matéria, procede da Lua e está contido no ar. O espírito, entretanto, não é matéria nem meio-matéria; irradiado do Sol, é imaterial, e por esse motivo sua existência até hoje não foi comprovada. Resumindo: o Solo é matéria; a Água é meio-matéria; o Fogo é imaterial. Da união desses três elementos surge a energia. Cientificamente, quer dizer que os três, como partículas atômicas infinitesimais, tão pequeninas que estão além da imaginação, fundem-se e agem conjuntamente. Eis a realidade do universo. Portanto, a existência da umidade e a temperatura adequada para a sobrevivência das criaturas no espaço em que respiramos, são decorrentes da fusão e harmonização do elemento Fogo e do elemento Água. Se o elemento Fogo se reduzir a zero, restando apenas o elemento Água, o Universo ficará congelado instantaneamente. Ao contrário, se restar apenas o elemento Fogo, e o elemento Água se reduzir a zero, haverá uma explosão e tudo se anulará. Os elementos Fogo e Água unem-se com o elemento Solo, e dessa união produzse a energia que dá existência a todas as coisas. Por essa razão, o fogo, pela sua natureza, arde em sentido vertical, e a água corre em sentido horizontal; o fogo arde pela ação da água e a água se move pela ação do fogo. Desde a antiguidade o homem é considerado um pequeno universo, porque o princípio acima se aplica ao corpo humano. Isto é, o Fogo, a Água e o Solo correspondem, respectivamente, ao coração, ao pulmão e ao estômago. O estômago digere o que é produzido pelo Solo; o pulmão absorve o elemento Água; o coração, o elemento Fogo. Sendo assim, podemos compreender por que esses órgãos desempenham papel tão importante na constituição do corpo humano. Entretanto, até hoje o coração é visto apenas como órgão bombeador do sangue, o qual, cheio de impurezas, é levado ao pulmão para ser purificado pelo oxigênio. Assim, ele é tido unicamente como órgão do sistema circulatório, pois se desconhece por completo a existência do elemento Fogo.

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Como dissemos, o estômago digere o alimento, ou melhor, o elemento Solo ingerido pela boca; o pulmão aspira o elemento Água pela respiração; e o coração absorve o elemento Fogo pelas contrações

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cardíacas. Portanto, a febre que sobrevém quando se adoece, tem por finalidade dissolver as toxinas solidificadas na parte enferma, e o calor necessário ao corpo, isto é, o elemento Fogo, é absorvido do Mundo Espiritual pelo coração. Isso quer dizer que as contrações cardíacas são movimentos bombeadores por meio dos quais esse elemento é retirado do Mundo Espiritual. O aumento das contrações cardíacas, ou melhor, da pulsação, antes de surgir a febre, deve-se à aceleração da aspiração do elemento Fogo. Os calafrios que se têm na ocasião são motivados pelo desvio de calor necessário ao processo de purificação, e assim, provisoriamente, diminui-se a quantidade de calor que mantinha a temperatura do corpo. A diminuição da febre significa o fim do processo de dissolução das toxinas. Sendo assim, a temperatura do corpo é resultante da aspiração incessante do elemento Fogo do Mundo Espiritual, por meio do coração. Também o pulmão absorve incessantemente, através da respiração, o elemento Água do Mundo Atmosférico, e por essa razão, além do volume de líquido ingerido pela boca, a água existente no corpo humano também é absorvida, em grande parte, por intermédio dos pulmões. É graças a esse processo que, tão logo a pessoa falece, imediatamente sua temperatura cai, o corpo fica gelado e perde a umidade, o sangue coagula e o cadáver começa a secar. Explicando melhor, com a morte o espírito separa-se do corpo carnal e entra no Mundo Espiritual. Como desaparece o espírito, que é o elemento Fogo, a parte líquida solidifica-se. Em outras palavras, o espírito retorna ao Mundo Espiritual; a parte líquida, ao Mundo Atmosférico, e o corpo carnal, ao solo. 5 de Outubro de 1943

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A TEMPESTADE É UMA CALAMIDADE HUMANA Desde tempos remotos os tufões e as inundações são considerados calamidades naturais. Todo mundo os aceita como fenômenos inevitáveis. No meu ponto de vista, entretanto, são calamidades humanas. Vou explicar por quê. Atualmente, os cientistas objetivam a diminuição de tais ocorrências através da pesquisa e do progresso da meteorologia. No Japão, são aplicadas anualmente enormes quantias em instalações adequadas a esse fim. Vem se desenvolvendo um esforço constante, e de fato se têm obtido alguns resultados, mas parece que dificilmente se atingirá o objetivo final. Somente no Japão, os prejuízos anuais causados por tufões e inundações elevam-se a uma soma realmente alta. No recente tufão perderam-se 6.500.000 sacos de arroz, 4.229 casas ficaram danificadas ou foram carregadas pela água, 144 pessoas desapareceram ou morreram, e o número de feridos atingiu vários milhares. Além disso, os prejuízos com plantações, estragos nas rodovias, construções e instalações, segundo declaração do órgão competente, atingiram mais de 250 milhões de dólares. Vemos, pois, a enormidade dos prejuízos. Somando-se, também, os danos materiais e morais causados por grandes e pequenos tufões, várias vezes ao ano, creio que o resultado será gigantesco, difícil de calcular. Em face de tal situação, mesmo que não haja possibilidade de exterminar essas calamidades, é necessário fazer todo o esforço para que os danos sejam os menores possíveis. O Governo e o povo estão empregando todos os métodos praticáveis, mas há falta de verbas e a aparelhagem não chega nem de longe ao montante previsto. Se as deficiências persistirem, é claro que não se encontrará solução para o problema. Nas condições atuais, em que se depende apenas da pesquisa meteorológica, é impossível prestar auxílio em casos de urgência. Dizemos impossível porque as pesquisas científicas estão baseadas no materialismo, isto é, pesquisa-se somente a parte superficial das 174

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coisas, sem se procurar descobrir o seu interior. Para solucionar o problema, só há um recurso: apreender a essência desse interior e providenciar a prevenção das calamidades. Mas aí surge a pergunta: é possível conhecer as causas fundamentais do problema? Eu gostaria de provar que sim. Inicialmente direi que a tempestade é a ação purificadora do espaço acima da Terra, isto é, daquilo a que chamamos de Mundo Espiritual, pois até nele há uma constante acumulação de impurezas. Materialmente falando, é como acumular poeira numa cidade ou numa casa. Só que, como o Mundo Espiritual é invisível, o homem não percebe o acúmulo de impurezas. Se até hoje essa percepção não foi possível é porque a educação está voltada apenas para a matéria, negligenciando os estudos espirituais. Sempre falamos que essa é a maior falha da humanidade. Se ela não reconhecer a existência do Mundo Espiritual e não fizer pesquisas baseadas nesse conhecimento, não lhe será fácil compreender o princípio da tempestade. Sendo assim, a missão original da religião é fazer reconhecer a existência do Mundo Espiritual, ignorado e negado por quase todos. Entretanto, parece-me que as antigas religiões sempre se mostraram desinteressadas com relação ao assunto, o que eu acho muito estranho. Mas deixemos isso de lado. Como já expliquei em outras oportunidades, quando se acumulam impurezas no Mundo Espiritual, surge naturalmente uma ação purificadora. O vento dispersa as impurezas e a água as lavam – eis o que é a tempestade. Realmente, não há nenhuma diferença entre ela e a limpeza que se faz diariamente no Mundo Material. Portanto, identificar a causa dessas impurezas é a única chave para solucionar o problema. A impureza é a mácula criada pelo pensamento, pela palavra e pela ação do homem. Isto é, os maus pensamentos, as más palavras e as más ações do ser humano influenciam o Mundo Espiritual, gerando máculas. Por essa razão, em face da frequente ocorrência de grandes tufões, podemos compreender como os pensamentos se tornaram maus, quantas más palavras são pronunciadas e quantas 175

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más ações são praticadas. Direi, entretanto, que há uma maneira extremamente fácil de eliminar as máculas – basta que a situação se inverta, ou melhor, que os pensamentos, as palavras e as ações do homem se tornem bons. Em outros termos – através do bem, purificar o Mundo Espiritual maculado pelo mal. Nesse caso, o bem se transforma em luz para eliminar as máculas. Os hinos cristãos, os sutras budistas e as orações xintoístas são preces de Amor e Louvor e por isso contribuem para a limpeza do Mundo Espiritual. Se elas não existissem, os tufões seriam ainda mais violentos. Diante do exposto, podemos afirmar que quem gera o tufão é o homem, e ele próprio sofre com isso. Realmente, a natureza é perfeita. A tempestade é um fenômeno semelhante ao processo de purificação conhecido como doença, o qual surge no corpo humano quando nele se acumulam impurezas. Portanto, como método para prevenir a tempestade, basta que compreendam esse princípio e deixem de praticar o mal, passando a praticar o bem. É preciso reconhecer que, além deste, não há outro método que apresente soluções radicais. 24 de Setembro de 1949

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CONSIDERAÇÕES ESPIRITUAIS SOBRE OS INCÊNDIOS Todos sabem como surgem os incêndios. Os jornais estão sempre publicando notícias de incêndios causados por fósforo, cigarro, aquecedor elétrico, etc. Geralmente eles acontecem por descuido do homem, não vamos negar que isso seja verdade. Mas creio que, na posição de religiosos, devemos procurar descobrir a causa espiritual dos incêndios. A doença, como sempre explicamos, é a ação purificadora do corpo humano. Quando as toxinas que nele se acumulam atingem certa quantidade, causam distúrbios à saúde, surgindo, então, a ação para eliminá-las, isto é, a ação de limpeza. Sem ela, não é possível o homem manter a saúde; é uma lei universal e, realmente, uma grande dádiva de Deus. Como a ciência ainda não conseguiu descobrir esse princípio, interpreta a doença de forma completamente errada. Apesar de todo o progresso, o fato é que a humanidade continua sofrendo, pois a ciência mostra-se impotente ante o elevado número de pessoas enfermas. Talvez achem incoerência falar de doença para explicar as causas do incêndio, mas, na verdade, a causa de ambos é a mesma, visto que o incêndio também é uma ação purificadora. O mesmo podemos dizer com relação à tempestade. Nesse caso, há um acúmulo de impurezas no Mundo Espiritual, isto é, máculas motivadas pelos maus pensamentos, más palavras e más ações do homem, e a tempestade sobrevém como ação purificadora dessas máculas. Quer dizer, as impurezas dispersas pelo vento, são lavadas e carregadas pela água e secas pelos raios solares. Assim se processa a purificação. Como esclareci, a doença é a ação purificadora do corpo humano, e a tempestade é a purificação do espaço acima da terra. Mas as casas, os edifícios e outros tipos de construções, quando as máculas neles acumuladas atingem certo ponto, também sofrem uma ação purificadora: o incêndio. A origem de tais máculas é o dinheiro impuro que se empregou nessas construções ou o acúmulo de más 177

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ações praticadas por aqueles que as utilizam. Sobre isso, outrora ouvi um caso interessante, relatado por uma senhora vidente. Alguns anos antes do grande terremoto que atingiu a Região Leste, andando pelas ruas da cidade de Tóquio, ela viu rústicos barracões enfileirados, em lugar dos altos prédios. Achou esquisito, mas, quando ocorreu o terremoto, entendeu o significado do que vira. Como sempre falamos, tudo acontece primeiro no Mundo Espiritual, isto é, pela Lei do Espírito Precede a Matéria a purificação ocorre primeiro no Mundo Espiritual e depois se reflete no Mundo Material. Por ocasião do último incêndio de Atami, o edifício onde funcionava a sede provisória da nossa Igreja foi salvo, apesar de ter sido envolvido pelas chamas. Isso aconteceu, naturalmente, porque nele não havia impurezas. Assim, se materialmente fizermos construções à prova de fogo e nos esforçarmos espiritualmente para não maculá-las, elas não se incendiarão, deixando de oferecer qualquer perigo. A esse respeito, talvez surja uma dúvida: que não há razão para cidades à prova de fogo, como as do Ocidente, virem a incendiar-se, mesmo havendo impurezas. Entretanto, não existe outra explicação para o fato de muitas cidades terem sido destruídas por bombardeios durante a Segunda Guerra Mundial, a não ser o princípio que acabamos de expor. É preciso saber que realmente as leis do universo são absolutamente invioláveis. 20 de Maio de 1950

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INCÊNDIO E JOHREI São frequentes as experiências de fé relatadas por pessoas que, por ocasião de um incêndio, conseguiram fazer mudar a direção do vento ministrando Johrei, quando as chamas já haviam atingido a casa do vizinho. Isso acontece porque o incêndio é a ação purificadora através do fogo. Quando se acumulam impurezas na matéria, o espírito também está impuro; consequentemente, o fogo alastra-se com facilidade. Ao se ministrar Johrei, essas máculas desaparecem; deixando de existir aquilo que deveria ser queimado, o fogo muda de direção. Realmente a natureza é perfeita. Portanto, para acabar com os incêndios, é preciso, antes de tudo, evitar que o espírito da matéria se macule; não há outro processo para exterminá-los radicalmente. Assim, em primeiro lugar, devemos entronizar a Imagem da Luz Divina em nosso lar, para purificar o mundo espiritual da família. Nos últimos tempos tem havido incêndios em várias regiões. São muitas as casas destruídas pelo fogo, numa época em que já há grande falta de residências, de modo que, embora se esteja construindo muito, o problema continua sem solução. E o incêndio não causa apenas danos materiais, mas também grandes danos morais. Além disso, sabemos que não é pequena a mão de obra necessária para reconstruir aquilo que foi destruído, nem são poucos os prejuízos com a suspensão do trabalho, no caso de uma empresa. Diante de tal situação, as autoridades competentes estão fazendo um esforço desesperado para solucionar o problema, mas inutilmente, porque não compreendem as bases espirituais acima explicadas. Para terminar definitivamente com os incêndios no Japão, é preciso que a grande maioria de seus habitantes se tornem fiéis da nossa Igreja. Todavia, como creio que isso é impossível atualmente, não há outro recurso senão utilizar métodos materiais contra os incêndios e esperar, dando tempo ao tempo, pois acredito que, futuramente, Deus solucionará o problema. 20 de Fevereiro de 1952

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