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Boletim informativo nº 07, maio de 2013

entre os

FATOS e os MITOS da

“pequena floresta” Budismo e artes marciais. Esta combinação atípica destacou o mosteiro de Shaolin em todo o mundo. Suas histórias já foram retratadas em inúmeros filmes, seriados e novelas, tanto no Ocidente como no Oriente. O desafio porém é definir, ao certo, as verdades em meio às narrativas. O pesquisador Meir Sharar, em sua obra “O Mosteiro de Shaolin”, traz aos leitores uma visão histórica-científica sobre esta conexão entre espiritualidade e técnicas de combate.

Não raramente ouvimos, entre a variedade de histórias envolvendo grandes mestres e lugares da cultura kung fu, expressões como diz a lenda que, não se sabe ao certo, o lendário mestre, entre outras. Este tipo de imprecisão fática ou histórica, sempre deixou uma lacuna aos praticantes das artes marciais chinesas quando estes falam sobre, por exemplo, a origem de um estilo marcial, ou sobre a correlação entre a espiritualidade budista com algumas das rotinas praticadas, nos dias atuais, nas academias. Com o objetivo de esclarecer estas questões, o professor da Universidade de Tel Aviv, Meir Sharar, traz através de estudos contidos em O Mosteiro de Shaolin: história, religião e as artes marciais chinesas algumas respostas que desvelam as verdades por trás dos mitos do famoso mosteiro. O livro divide-se em três partes principais que detalham as origens do envolvimento militar dos monges de Shaolin com as dinastias chinesas, percorrendo a sistematização destas práticas até chegar ao autocultivo marcial como forma de iluminação. Sharar busca situar os quinze séculos de história que envolvem o mosteiro em uma linha de raciocínio que mescla religião, política e marcialidade em distintos contextos além, é claro, de não esquecer dos principais personagens e famílias, como é o caso da figura de Bodhidharma e do general Yu – que chegou a escrever um extenso manual sobre combate com o bastão – e da família Chen, a qual é atribuída a origem remota do Taiji Quan.

O Mosteiro de Shaolin Autor Meir Shahar Editora Perspectiva Nº de páginas 349 Preço médio R$ 80

Obras militares, de medicina e ginástica chinesa também serviram como fontes para o autor, que detalha algumas das rotinas e exercícios presentes em manuais que eram muito difundidos, não só entre os círculos militares, mas também entre a população chinesa em geral. Entre eles estão o “Clássico da Transformações dos Tendões”, baseado na ginástica taoísta Daoyin e o “Brocado de Oito Seções” (Baduan jin), métodos que são ensinados até hoje, não só para a finalidade marcial, como também para a promoção da saúde em amplo espectro. Sem dúvidas, a leitura de O Mosteiro de Shaolin deixa claro que, hoje, muitas das práticas que são repassadas através do sistema sino-brasileiro, gozam de respaldo histórico. Agradáveis surpresas aguardam os praticantes que lerem a obra, pois irão se deparar com diversos nomes que escutamos comumente nos treinamentos. Então, não hesite: o livro é uma ótima pedida para todos aqueles que desejam conhecer um pouco mais sobre as origens de sua prática marcial, além de revelar ótimos dados histórico-sociais da China.


Associação Sino-brasileira de Kung Fu. Florianópolis - SC. Boletim informativo nº 07, maio de 2013

Tradutores falam sobre a obra 1. Como surgiu a ideia de fazer a estudo bem específico: no final do livro, tradução da obra e como vocês em uma nota de rodapé, Shahar se refeentraram em contato com as pes- re, explicitamente, a uma unidade moquisas de Meir Shahar? nástica “Shaolin do Norte”, que seria Acho que foi uma espécie de “sincro- uma espécie de convento situado nas nicidade”: eu (Rodrigo Apolloni) havia cercanias de Beijing e não em Henan. traduzido um artigo do professor Sha- Pode ser que não seja nada além de har, que foi publicado na revista de es- uma referência sem importância; pode tudos da religião da PUC-SP e, quando ser que não seja... ele lançou o livro, em 2008, me mandou um exemplar de presente. Nesse 3. Considerando que ainda são período, o Rodrigo de Faveri estava na escassas as obras de cunho cienUniversidade de Tel Aviv fazendo um tífico-histórico, sobre a temática doutorado sanduíche; pois o Shahar é “kung fu”, que chegam ao alcanprofessor lá, ele ficou sabendo do livro e ce dos leitores brasileiros, qual resolveram conversar. Em seguida, o co- a avaliação de vocês sobre a(s) -tradutor entrou em contato e, como já contribuição(ões) que este trahavia a anuência do autor, começamos balho traz para os praticantes o trabalho. Foi muito legal – - especialmente do uma oportunidade de ouro, “Se havia qualquer shaolin do norte - e mesmo. É preciso observar estudiosos do tema? dúvida em relação um aspecto pouco visível Acho que, por seu caráde tudo isso: o Rodrigo de ao “pedigree” do ter pioneiro, essa obra é Faveri conseguiu “vender a muito importante; vale nosso estilo, não ideia” a uma das editoras observar, inclusive, que acadêmicas mais respeiela é rara no cenário dos há mais” tadas do país, a Perspectiestudos chineses interva. Eles se interessaram e bancaram o nacionais, até porque o tema ainda é projeto. Sem isso, não haveria livro – e considerado marginal deste lado do conseguir um contrato assim é uma tre- mundo. Vale observar que na grande menda dificuldade! enciclopédia de assuntos chineses, a colossal obra de Joseph Needham, a 2. Houve alguma surpresa durante marcialidade corporal fica meio “perdio processo de tradução da obra? da”, fora de uma alínea específica. Para Entre os tópicos abordados pelo os praticantes de kung fu, pensamos autor, o que mais chamou aten- que a obra pode participar de um movição de vocês? mento emancipador. Temos muitas dúPara nós, a grande e grata surpresa foi vidas que, por diversos fatores, não são encontrar referências a nomes que co- respondidas. A leitura do livro fornece nhecemos em nossa prática, como “Moi elementos interessantes que permitem, Fah” (“Mei Hua”, “Flor de Ameixeira”) inclusive, colocar a tradição oral em e “Tun Dah” (“Tuan Ta”, “Luta de Curta perspectiva e compreendê-la melhor. Distância”). Esses estilos, que conhecemos na forma de rotinas, surgiram na 4. Vocês estão com algum outro China nos séculos XVII e XVIII. Em ou- projeto semelhante a este em antras palavras: se havia qualquer dúvida damento? em relação ao pedigree do nosso estilo, No momento, não. Mas é por falta de não há mais. Outra coisa que nos dei- tempo - e não de sonho! xou encafifado, mas que mereceria um

Rodrigo Borges de Faveri Graduado em Língua e Literaturas de Língua Inglesa (1996), Mestre em Teoria e Análise Linguísticas (1999) ambos pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Doutor em História e Filosofia da Linguística (2011) pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Realizou estágio de doutorado na Tel Aviv University durante o ano acadêmico 2007/2008, vinculado ao Departamento de Filosofia daquela universidade. Atua como tradutor especializado na área de interface entre linguística, filosofia e tradução. Na atividade de pesquisa atua principalmente nos seguintes temas: Teoria das Controvérsias, Pragmática, Estudos da Tradução, Estudos das Narrativas Gráficas, História e Cultura Editorial.

Rodrigo Wolff Apolloni Possui doutorado em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR, 2011), mestrado em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP, 2004) e graduação em Direito (Faculdade de Direito de Curitiba, 1996) e em Comunicação Social/Jornalismo (UFPR, 1994). Em sua pesquisa de dissertação, estudou a transplantação da Arte Marcial Chinesa (Kung-Fu) para o Brasil. Em Sociologia da Religião, possui formação específica em: História e Teologia das Religiões Orientais, História da China, análise das diásporas chinesa e indiana para o Ocidente. É professor de arte marcial chinesa - Kung-Fu, Tai-Chi-Chuan e Chi Kung - desde 1996.


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Associação Sino-brasileira de Kung Fu. Florianópolis - SC. Boletim informativo nº 07, maio de 2013

Conhecendo nossos estilos: Chat Seng Tong Long Kuen (louva-a-deus) Este estilo muito popular e difundido em todo o mundo, foi criado em torno de 1640, por Wong Long. Natural da província de Shandong, na China, Wong Long já possuía conhecimento de técnicas de esgrima e lutava contra a opressão da dinastia Ming. Por este motivo, Wong Long viajava por todo o país em busca de novas e eficientes técnicas de combate. A lenda que deu origem ao louva-a-deus se deu quando Wong Long perdeu um combate para um monge seu colega. Confuso e perplexo com a derrota, Wong Long meditava desesperadamente, a procura de uma solução para melhorar as suas técnicas de combate. Num destes momentos de meditação, Wong Long foi distraído pelo combate entre um louva-deus e uma cigarra. O louva-a-deus, menor e mais frágil, derrotou a cigarra em poucos instantes. Wong Long capturou o louva-a-deus e começou a observar os movimentos do animal, repetindo-os passo a passo e adaptando para o combate, criando assim um estilo de arte marcial chinesa eficiente. Com o passar dos anos, o legado de Wong Long foi aperfeiçoado e desenvolvido por diversos mestres de renome, o que deu surgimento e formação de vários estilos de louva-a-deus: Chat

Seng (sete estrelas), Mui Fah (Flor de ameixa), Baan Gwong (Tábua brilhante), Lok Hap (seis coordenações), Tai Kek (Supremo), Bei Mun (recluso), Baat Bo (oito passos), Jeung Kuen (Punho Mestre Chan longo), Tung Bei, e outros menos conhecidos. O maior nome do louva-a-deus foi o Grão-mestre Wong Hon Fan, que ensinou o estilo durante muitos anos na Associação de Artes Marciais de Hong Kong, formando muitos professores. O Chat Seng Tong Long Kuen possui aproximadamente trinta formas de mãos livres e seis formas de armas, e as suas técnicas são compostas por movimentos rápidos, curtos e precisos, onde o atacante penetra por dentro da guarda do adversário, utilizando técnicas de socos, cotoveladas e chutes curtos, que quase sempre culminam com a projeção do adversário ao solo.

Parabéns! Felicidades aos colegas que completaram anos neste mês de maio!

01 - João Carlos Herden 03 - Milton de Oliveira Costa 20 - Daniel Alonso de Rio Se você ainda não preencheu nossa lista com seu nome e data, acesse aqui!

Sou

Hugo Daniel Lopez

46 anos, natural de Araçatuba-SP Quando você começou a treinar kung fu? Moro em Floripa desde os anos 70 e, em 1978, conheci o professor Rogério que, com os alunos, fez uma apresentação de kung fu durante um campeonato de judô do qual eu participei. Desde então, quis ser seu aluno. Qual a principal motivação que levou você a começar na prática? Comecei a treinar kung fu efetivamente com o Rogério, em outubro de 1984. Comecei a treinar arte marcial bem cedo: judô e karatê, depois kung fu. No início era para aprender a lutar mesmo. Depois os horizontes vão se abrindo, você cria laços, e passa a fazer parte de uma família. Os interesses mudam e o que se aprende vai muito além. Há algum estilo abrangido pelo sistema sino-brasileiro que você considere seu preferido? O sistema da “sino-brasileira”, na minha opinião, deve ser visto como um todo. Sendo cada estilo, cada kati, cada técnica ou respiração, verdadeiras joias lapidadas e transmitidas pelo Grão Mestre Chan. Mas, sem dúvida, o Shaolin do Norte é o estilo “mais refinado”, dentro do que eu conheço, é claro. Mensagem final O kung fu é vida. E vida é para ser vivida. Como diria o Grão Mestre Chan: “vai treinar” - como alguém já lembrou por aqui.

Expediente Academia Sino-brasileira de Kung Fu - Florianópolis-SC Professor Rogério Leal Soares Endereço: Colégio Catarinense. Rua Esteves Júnior, 711 - Centro.

Telefone: (48) 9104-6572 E-mail: rogeriols9@yahoo.com.br Sugestões para matérias: informativoasbfk@gmail.com


Informativo ASBKF, nº 7 , maio de 2013