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artigo19 Boletim

Edição Mulheres - 8 de março de 2010

mulheres de expressão


No centenário do Dia Internacional da Mulher, a ARTIGO 19 Brasil faz uma homenagem entrevistando três mulheres de expressão, ativistas de direitos humanos que se destacam por promover a informação produzida para e por mulheres.

Thais Corral

María Esther Mogollón

Bia Barbosa

Thais se destaca pelo trabalho de desenvolvimento de lideranças, principalmente relacionado à promoção do direito das mulheres e à sustentabilidade. A empreendedora social é coordenadora do CEMINA (Comunicação, Educação e Informação em Gênero), que recebeu prêmios pelo projeto Cyberelas, concebido para capacitar mulheres de áreas afastadas dos grandes centros no uso de tecnologias de informação e comunicação para a produção de programas de rádio a serem veiculados em rádios comunitárias. Thais também é presidente do Conselho da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças (ABDL), diretora do Global Leadership Network e cofundadora da REDEH - Rede de Desenvolvimento Humano.

Jornalista peruana, María Esther atua em diversas áreas dos direitos humanos, como direitos das mulheres e direitos das pessoas portadoras de deficiência física. É fundadora do Movimiento Amplio de Mujeres Línea Fundacional – um espaço feminista de ação cidadã que defende e promove a democracia, os direitos humanos e em especial os direitos das mulheres e os direitos sexuais e reprodutivos. É assessora parlamentar no Congresso do Peru e integra o Conselho Diretivo do Instituto de Salud, Sexualidad y Desarrollo Humano da Universidad Peruana Cayetano Heredia e também o Conselho Assessor do Centro Latinoamericano em Gênero & TIC (UNESCO). María Esther possui mais de 20 anos de experiência na capacitação de lideranças de mulheres em comunicação e gênero.

Bia Barbosa tem uma longa e intensa trajetória na luta pela efetivação dos direitos humanos, principalmente na defesa dos direitos das mulheres e da liberdade de expressão. É cofundadora do Coletivo Intervozes – organização que trabalha pela efetivação do direito à comunicação no Brasil – e membro da Articulação Mulher & Mídia – uma frente de várias entidades feministas e de mulheres que luta pelo controle social e pelo respeito da mulher na mídia. Em dezembro de 2009, Bia foi uma das principais vozes e articuladoras durante a 1ª Conferência Nacional de Comunicação. A jornalista também é conselheira da ARTIGO 19 Brasil.

CEMINA: http://www.cemina.org.br ABDL: http://www.abdl.org.br

MAM Fundacional: http://www.mamfundacional.org

Articulação Mulher & Mídia: http://www.mulheremidia.org.br Coletivo Intervozes: http://www.intervozes.org.br

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Thais Corral Qual a importância do desenvolvimento de lideranças de mulheres no Brasil? Thais: Na medida em que as mulheres assumem postos de poder, levanta-se a pergunta de se são capazes de exercer uma liderança diferente da masculina. A macro-historiadora Riane Eisler, que há 40 anos estuda sociedades onde houve e há mais igualdade entre mulheres e homens, sustenta que sim. Ela argumenta que há dois modelos de liderança, o da dominação e o da parceria. No modelo da liderança pela dominação vale a regra do homem forte, o rígido domínio masculino, a institucionalização da violência e a desvalorização da mulher e do “feminino“. Neste modelo, cuidar daqueles que não são membros do grupo dominante, bem como de nosso meio ambiente, não são prioridades. Pelo contrário, todo o sistema está baseado na exploração do meio ambiente e das pessoas em benefício daqueles que estão no poder. As relações se restringem ao pertencimento ou não a determinados grupos, nos quais as diferenças –

começando com a mais fundamental das diferenças em nossa espécie: aquela entre homem e mulher – são equacionadas pela superioridade ou inferioridade, ser servido e servir, dominar ou ser dominado. No modelo da liderança marcada pela parceria, ao contrário, a diferença é valorizada, como no ideal de sociedade mais pluralista que vem ganhando terreno. Em sociedades com o modelo da parceria – na família, no trabalho ou na sociedade em geral – as chamadas qualidades e comportamentos femininos, independentemente de estarem presentes no homem ou na mulher, são não apenas altamente valorizados como também incorporados ao sistema de valores operacionais. Existe uma estrutura social mais democrática e igualitária, uma parceria igualitária entre homens e mulheres, humanos e animais e com o meio ambiente. A estrutura é menos baseada na violência, já que não é necessária para manter posições hierár-

quicas rígidas de dominação. Respondendo à pergunta, acredito que sim seja necessário formar mais homens e mulheres que tenham como referencial um modelo de liderança baseado nos valores femininos, dentro dos princípios da parceria. No seu trabalho no CEMINA como surgiu a idéia de se trabalhar rádio com mulheres de lugares remotos? Thais: O empoderamento das mulheres é muito importante. Há 20 anos, o CEMINA foi criado com a perspectiva de dar voz às mulheres através do rádio. Começamos com um programa de Rádio no Rio de Janeiro, o FALA

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MULHER, que fez escola e desdobrouse em muitos outros programas pelo Brasil afora. Chegamos a ter mais de 400 programas de rádio desenvolvidos por comunicadoras populares. Hoje o CEMINA mantém o site cemina.org.br com todo o arquivo sonoro que foi produzido pela organização ao longo de quase 20 anos. O trabalho com emissoras de rádio em lugares remotos deu-se em função da influência central que o rádio tem nesses lugares. É o ponto central de articulação nas comunidades. Nossa intenção era chegar até elas. Qual a importância do projeto Cyberelas na vida dessas mulheres? Thais: O projeto Cyberelas se desdobrou do projeto de rádio do CEMINA. A partir do ano 2000, com o processo de democratização de acesso à internet no Brasil, o CEMINA inovou com a criação dos rádio-telecentros, que associavam o trabalho em rádio com o da internet. As cyberelas, “cinderelas do cyber”, passaram a ser as gestoras desse novo espaço. O projeto ganhou prêmios e tornou-se referência nacional e continua a ser apoiado pela Fundação do Banco do Brasil e pelo Instituto da Oi como um das vertentes de inclusão digital no país.

Qual impacto desse projeto nas comunidades? Thais: As comunidades são diferentes, portanto o impacto também é diferenciado. No município de Pintadas, por exemplo, começamos pelo trabalho com a rádio e as mulheres, depois passamos ao telecentro, o telepintadas... e daí surgiu uma demanda das mulheres, elas nos diziam, “o CEMINA nos trouxe o acesso à internet, mas quando é que vamos sair do regador?”. Em 2006 iniciamos lá um projeto que levou sistemas de irrigação para a agricultura familiar. O projeto hoje é uma tecnologia social que vem sendo multiplicada em outros municípios. O Adapta Sertão venceu prêmios. O modelo vem sendo considerado uma alternativa de adaptação à mudança do clima. O que o exercício do direito à liberdade de expressão representa para a emancipação e realização de outros direitos na vida dessas mulheres? Thais: A liberdade de expressão é o primeiro passo. Exprimir-se significa poder articular o próprio lugar no mundo. Por isso apostamos vinte anos atrás no rádio. Quando as mulheres ganham confiança em si próprias muito pode acontecer, elas passam a ser agentes de de-

senvolvimento e participam de tudo que acontece na comunidade. A nossa sociedade, o nosso planeta precisam desse cuidado, precisam do feminino em ação – seja este incorporado por homens ou mulheres. Existem estudos que mostram a forte conexão entre a qualidade de vida de uma sociedade e a construção de papéis e relações baseados no gênero. Um estudo de três anos, conduzido sob os auspícios do Center for Partnership Studies (Centro para Estudos sobre Parcerias), demonstrou claramente esta conexão. Esse estudo demonstrou que, apesar de se supor que a qualidade de vida das nações seja determinada por seu grau de riqueza, a riqueza material de um país não se traduz necessariamente em uma alta qualidade de vida para seu povo. Muito depende de se a distribuição de riqueza e o sistema de valores dominante estão voltados para valores de dominação ou de parceria. E muito depende do status da mulher. Ao comparar nações com o mesmo ou com PIBs similares, descobriu-se que o status da mulher pode ser um indicador melhor das medidas de qualidade de vida do que a riqueza.

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María Esther Mogollón debido a que mucha información que circula oculta el quehacer de las mujeres en relación a los hombres y no visibiliza su verdadera condición y posición en la sociedad. Los medios de comunicación tienen esa tendencia, solo abre un periódico, o mira la televisión y casi no aparecemos, Qual foi a motivação para iniciar o solo cuando hay un asesinato o se gana trabalho como comunicadora tratan- un premio y a veces mira el tamaño que le dan a la información. do questões de gênero? María: Creo que mi vida ha estado marcada por aspectos de género y Qual foi a principal motivação para a do MAM Fundacional? defensa de los derechos de las mujeres. criação Yo primero fui activista por los derechos María: Siempre he pensado que la de la mujer en mi país, desde la base, organización es el mejor espacio para desde el barrio, enseñando a leer y emprender cualquier lucha a favor de escribir a mujeres vendedoras de los los derechos humanos y más específimercados. Luego formándome y fortale- camente los derechos de las mujeres. ciéndome como líder a través de la Soy una de las fundadoras del organización. He tenido un proceso de Movimiento Amplio de Mujeres – Línea vida muy interesante en ese sentido y Fundacional, (MAM Fundacional), que luego ya preparada en la universidad nace en 1996, en un contexto de como periodista, perfilé mi profesión, dictadura en el país cuando se trabajando las cuestiones de género aparentaba que las mujeres ganábamos

derechos y al contrario se violaban cada día. MAM desarrolló entonces un papel articulador de las organizaciones feministas y de otros espacios de mujeres en primer lugar como espacio de reflexión y acción por la democracia como condición necesaria y urgente para el ejercicio de nuestros derechos. Nacimos en un momento de repliegue del movimiento de mujeres debido a factores de violencia extremista, pero también del gobierno dictatorial de Alberto Fujimori. Al recuperar la democracia nos focalizamos en varios temas, como los derechos sexuales y reproductivos, la participación política de las mujeres y lograr justicia y reparación para las mujeres (300 mil) que sufrieron las esterilizaciones forzadas, que se efectuaron en el gobierno fujimorista. No trabalho realizado no MAM Fundacional, como você vê a importância da utilização do acesso à informação no trabalho pela promoção dos direitos da mulher?

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María: Si. Justamente, la búsqueda de la verdad sobre las violaciones de los derechos de las mujeres ha sido parte de nuestra lucha permanente. Pero esa información y documentación ha sido negada mil veces en los espacios públicos que debían brindarla, como el Ministerio de Salud y otros, un ejemplo concreto es el caso sin solucionar de las esterilizaciones forzadas, no hay historias clínicas, presupuestos gastados, médicos que operaron, etc. Asimismo, en los avances que el Estado debe mostrar cada año en relación a la igualdad de oportunidades para mujeres y hombres, al acceder a la información, hemos logrado conocer las carencias y desconocimiento de los operadores de las políticas públicas relacionadas a la perspectiva de género, con lo cual analizamos la aplicación de la ley y por ende concluimos que los avances a favor de las mujeres o no existen o son muy lentos. No seu trabalho como jornalista, como você avalia a importância e a própria cobertura da mídia de temas relacionados a direitos da mulher? María: Aunque estamos en el Siglo XXI y conmemoramos 100 años del Día Internacional de la Mujer y 15 años de la

Conferencia Mundial de Mujeres en Beijing, la cobertura de los medios en relación a los derechos de las mujeres es mínima. Solo salimos cuando hay algún asesinato de mujeres, o ellas mismas son las asesinas. En sus roles de madre, esposa, hija, como aspectos reafirmativos de roles no valorados o únicos en los que se desempeñan las mujeres. No se les entrevista en aspectos cruciales de la economía, la política o resaltando su papel en las comunidades. Menos salen las mujeres indígenas u otras marginadas en sociedades como la nuestra. Aunque en los últimos días una película peruana (La Teta Asustada) candidata al Oscar ha concitado la atención de los medios y su directora y actriz principal han copado titulares, varios días. Este es un hecho de contexto pero no es común. Un reciente informe de la Federación Internacional de Periodistas y su Proyecto Mundial de Monitoreo de los Medios (GMMP, según sus siglas en inglés), indica que las mujeres no están presentes en el 24 por ciento de las noticias en el mundo. Hay que analizar también la presencia de las mujeres periodistas en los medios y los temas que cubren. Lo relativo a que accedan a la dirección de

los medios de comunicación es otro problema y además que tengan conciencia de género para que trabajen la información sobre las mujeres y de los hombres de manera equitativa, ahí recién veremos de manera más concreta el mundo real, la desigualdad en que vivimos y las soluciones para enfrentarla. Você encontra dificuldades no exercício de sua profissão de jornalista quanto ao acesso a informações públicas? María: Quizás en este momento no tanto, pues estoy trabajando en un lugar que me permite acceder a la información pública (Congreso de la República). Pero cuando no estuve ahí, se sufría mucho para que las autoridades brindaran información veraz sobre determinada temática. Hay leyes que hablan de la transparencia y acceso a la información, inclusive obligan a ofrecer esta información en las webs institucionales y establecen plazos para entregar información a quien la solicite, pero esto no se cumple. Debo decir que en estos momentos, la libertad de información y de opinión se encuentran amenazados como una reciente norma; el artículo 139º del

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nuevo Código Procesal Penal, que viola el art 2º de la Constitución y amenaza la libertad de expresión, pues recorta el derecho de informar sobre actuaciones procesales mucho mas cuando entra-mos a procesos electorales. Esperemos que sea derogado, pues coloca en riesgo a todos los/as periodistas. Como o direito de acesso à informação pode ser instrumental para garantir os direitos da mulher em se tratando de mulheres portadoras de deficiência física? María: El derecho al acceso a la información, si es una herramienta importante para las mujeres con discapacidad, cuyos derechos son permanentemente violados u ocultados. Pero suceden dos cosas, de un lado las políticas débiles o inexistentes y el poco presupuesto dedicado al desarrollo de este sector de la población y de otro lado, el desconocimiento de sus derechos de las mismas mujeres con discapacidad. No conocen su derecho a la educación, a la salud, aun trabajo, y de las normas y leyes que las protegen, por ello la labor es primero empoderarlas y paralelamente luchar por sus derechos. Hay esfuerzos interesantes, pero limitados, mi temor es que se focalizan en cuestiones elementales de lucha contra la pobreza, afirmando aun debilidades pero por algún lado hay que comenzar. Mi propuesta en este sentido es la incidencia en mejores políticas públicas inclusivas para que las mujeres puedan acceder a la educación y trabajo, no como un favor sino como derechos.

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Bia Barbosa comunicação para a construção de estratégias reais de incidência na conjuntura para transformar a realidade das comunicações no Brasil e, assim, fortalecer a luta das mulheres. Neste caminho, o diálogo com o movimento feminista se ampliou e, para além da pauta do direito à comunicação, o Intervozes hoje participa de todo um conjunto de mobilizações das mulheres, entendendo que todos os direitos são interdependentes. Se conquistarmos uma mídia mais plural e democrática, melhoraremos a vida das mulheres; se garantirmos os direitos das mulheres O que te motivou a iniciar o trabalho em geral, certamente haverá mais como comunicadora na luta pelos pressão por transformações na mídia. É direitos das mulheres? essa relação de mão dupla, super Bia: Desde a fundação do Intervozes, positiva e motivante, que me levou e me procuramos atuar em parceria com mantém ativa na luta pelos direitos das outros movimentos sociais na defesa da mulheres. comunicação como um direito humano. E o movimento feminista, nos últimos Quais os principais avanços que as anos, demonstrou profunda sensibilida- mulheres obtiveram nos últimos anos de e comprometimento com esta pauta, quanto ao respeito aos seus direitos, avançando da análise crítica sobre a especialmente o direito à liberdade imagem da mulher nos meios de de expressão?

Bia: Como resultado de muita luta e mobilização no enfrentamento de uma sociedade ainda patriarcal e bastante conservadora, as mulheres obtiveram conquistas importantes em relação à garantia de seus direitos. Ampliaram seu espaço no mercado de trabalho, no acesso à educação, conseguiram a Lei Maria da Penha, que representou um avanço no combate à violência, entre diversas outras realizações. No campo da liberdade de expressão, além de terem se apropriado de ferramentas de comunicação e ampliado a visibilidade de suas lutas, as mulheres se organizaram nacionalmente e têm buscado incidir de forma mais contundente na exigência dos seus direitos. Assim nasceu, por exemplo, a Frente Nacional pela Legalização do Aborto, que luta para garantir que o movimento feminista seja ouvido no debate público sobre o tema. As mulheres também se organizaram em torno de redes específicas do campo da comunicação, como a Rede Mulher e Mídia, que tem trabalhado ações no campo político e

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foi além das pautas diretamente relacionadas à representação das mulheres nos meios de comunicação e à apropriação das mulheres das novas tecnologias de informação e comunicação. Defendemos novos critérios para a renovação das concessões de rádio e TV, para a distribuição das verbas publicitárias, o fim das concessões para instituições religiosas, garantindo a laicidade do Estado, a criação de mecanismos de controle social e promoção da participação nas políticas e nos serviços de comunicação e a inclusão da educação crítica para a mídia nos currículos escolares em todos os níveis, entre outros pontos. Desta forma, nos somamos a todos os movimentos que lutam por outra mídia no Brasil e Como foi participar da Conferencia passamos a integrar esta luta estraNacional de Comunicação? O que ela tégica para a democracia em nosso representou para o movimento de país. mulheres? Bia: A Conferência Nacional de Comuni- Como você avalia a importância e a cação demonstrou que as mulheres própria cobertura da mídia de temas estão organizadas para disputar esta relacionados a direitos da mulher? pauta política em nosso país. Em todo o Bia: Apesar de ter aumentado, sobretupaís, foram eleitas delegadas represen- do com a criação de novos veículos de tantes do movimento feminista, que se informação na internet, a cobertura de prepararam para apresentar e defender temas relacionados aos direitos das propostas em Brasília. A plataforma mulheres ainda é extremamente pontual defendida pelas mulheres na Confecom e esporádica, aqui no Brasil e no mundo jurídico para garantir o respeito e promoção da diversidade das mulheres nos meios de comunicação. O caminho, no entanto, ainda é bastante tortuoso. Temos questionado a invisibilidade seletiva, sobretudo das negras, indígenas e lésbicas, mas também de nossas reivindicações sociais e políticas, e de nossa pluralidade. A falta de democratização dos meios de comunicação tem representado, na história do nosso país, o crescente monopólio do setor, cujo efeito mais danoso no cotidiano das mulheres tem sido o papel da mídia na disseminação da mercantilização de nossos corpos e vidas e na reprodução da violência contra as mulheres.

como um todo. Basta olharmos os resultados das pesquisas da WACC (World Association for Christian Communication), que a cada cinco anos realiza um projeto global de monitoramento da mídia, onde mapeia a representação de mulheres e homens na imprensa. O último levantamento aconteceu no ano passado, mas a pesquisa ainda não foi publicada. Em 2005, no entanto, os resultados revelam um mundo onde a mulher é praticamente invisível. Mesmo constituindo 52% da população mundial, as mulheres aparecem em apenas 21% das notícias. Quando é feita uma análise qualitativa da presença de mulheres como fontes em reportagens, o estudo mostra que a opinião feminina é retratada em somente 14% dos artigos sobre política e em 20% sobre economia, os dois temas que dominam a agenda dos países. A voz feminina também é preterida quando se trata de ouvir a opinião de especialistas: 83% deles são homens. A própria desigualdade de gênero não é considerada digna de ser notícia: 96% das matérias do mundo inteiro não ressaltam este tema. Mesmo nesses casos, a imensa maioria dessas matérias é escrita por jornalistas mulheres.

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Quando age desta forma a mídia distorce a realidade, “inflacionando” a importância de determinados grupos e marginalizando outros. A prática jornalística faz isso de diferentes formas, desde o ângulo escolhido para abordar uma história até as questões e a linguagem usadas numa entrevista. Tudo isso contribui para mensagens subliminares passadas nas notícias. Como o direito de acesso à informação pode ser instrumental para garantir os direitos da mulher? Bia: O acesso à informação é um dos primeiros passos para qualquer movimento conhecer a realidade, compreender o mundo e seus desafios, tomar conhecimento de seus direitos, analisar as garantias implementadas e os riscos em curso para a violação desses direitos e, assim, incidirem neste universo complexo e batalharem por eles. Com as mulheres não é diferente. Sem o direito de acesso à informação plenamente atendido, a luta das mulheres por políticas públicas estruturantes para a igualdade de gênero, o combate à violência doméstica, as possibilidades de autonomia econômica e de participação política nos espaços

institucionais ou não de poder, entre tantas outras lutas, são radical e negativamente prejudicados. A informação é uma forma de exercício de poder, de transformação da realidade, e por isso garantir o direito de acesso é um instrumento central para a própria superação das desigualdades e opressões de gênero no país. O que o exercício do direito a liberdade de expressão representa para a realização de outros direitos para as mulheres? Bia: Há tempos as entidades do movimento de mulheres organizadas vêm discutindo a liberdade de expressão, o direito humano à comunicação, a necessidade de democratização da mídia e a imagem das mulheres veiculadas nos grandes meios, que alimenta e reproduz estereótipos e preconceitos. Questionamos a imagem deturpada e estreita da mulher na mídia – uma imagem que não reflete a nossa diversidade e pluralidade, que nega visibilidade a nossas demandas sociais e políticas, quando não as ridiculariza ou criminaliza, que nos desumaniza e usa como enfeite para vender produtos e valores que buscam conformar e

manter a pasteurização e a submissão à ideologia patriarcal, aos valores de mercado e da sociedade de consumo. A mulher na TV segue um padrão de beleza, tem um discurso padrão. Os programas que passam à tarde, por exemplo, vão na contramão de ensinar a mulher a ser protagonista de sua vida social, econômica e política. Inverter esta lógica e promover outras imagens da mulher nos meios de comunicação, respeitando nossa diversidade e pluralidade, é um caminho fundamental no debate público sobre o próprio lugar da mulher na sociedade brasileira e a consequente garantia de nossos direitos.

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Mulheres de Expressão 2010  

Edição comemorativa do Dia da Mulher traz entrevistas com três expoentes ativistas do direito da mulher

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