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ano 1 | nº 1 alquimiarevista.com

ENTREVISTA

body art

UMA GERAÇÃO DE PAIS TATUADOS + tatuadores contam suas histórias + veja dicas para fazer sua tattoo + galeria reúne tattoos de vários leitores + tatuagem em videoart

CRIS D’AMATO FALA SOBRE SEUS 22 ANOS DE TRABALHO NA TV E NO CINEMA NACIONAL ARTE

ORIGAMIS VÃO ENCANTAR VOCÊ! CONHEÇA A LENDA DOS TSURUS GASTRONOMIA

NA TERRA DO SOL, NINGUÉM RESISTE À GINGA COM TAPIOCA


Editorial

Expediente

Nasceu!

D

epois de meses construindo este projeto, enfrentando todo tipo de contratempos e dificuldades, finalmente Alquimia revista se tornou um sonho concreto. Nunca é demais agradecer aos que incentivaram esta publicação e àqueles que participaram como colaboradores, investindo um pouco de seu tempo para regar esta semente. Na primeira edição de Alquimia revista, levamos até você reportagens e entrevistas sobre cultura e comportamento humano. Na capa, a família do Xtreme Tattoo conta como é o dia a dia de pais body artists que dividem o estúdio de tattoo e piercing com a difícil tarefa de ser pai e mãe. E tem mais: veja como as redes sociais podem espalhar uma tatuagem pelo mundo. E que legal seria ter a sua seção no estúdio de tattoo gravada por videomakers?! Conheça o projeto “Ilha de música”, que tem transformado a vida de vários adolescentes da comunidade da África, na Redinha, através da arte. Não perca o ritmo, nem saia do passo em cima da plataforma do Pump it up. Na primeira edição do espaço “Correspondente alquimista”, Brenno Rebouças conta para você, direto do Ceará, a história da banda alternativa VS Caos.

Arthur Rocha - Diretor Geral arthurd.oliveira@hotmail.com facebook.com/arthurrocha007 A arte do origami encanta a qualquer um. Se você nunca se arriscou em fazer alguma dessas dobraduras, não perca a chance de seguir os diagramas que Alquimia revista traz para você. Fique também por dentro do projeto “Sem sobras”. Em terras potiguares, de sol o ano inteiro, a ginga com tapioca faz sucesso entre os turistas. Na seção “Check in”, a repórter Isabelle Lourenço mostra as belezas da cidade de Macau, na costa branca do Rio Grande do Norte. Não deixe de conferir, na seção “Páginas pretas”, uma visitinha básica à sexshop para ficar por dentro das últimas novidades. E nesta edição, tem ainda um artigo sobre jornal impresso na era da internet, uma crônica para descontrair a leitura, um ensaio fotojornalístico com trabalhadores autônomos de sinais e, claro, nossos colunistas Megg Thurner, Fábio Cunha e Érica Lima, falando sobre moda, gastronomia e audiovisual.

Ótima leitura!

Arthur Rocha Diretor Geral | Editor Chefe Produtor Executivo Reportagem | Fotografia Projeto Gráfico | Diagramação Cronista | Articulista Isabelle Lourenço Editora Assistente Reportagem | Fotografia Brenno Rebouças Reportagem Rafaela Batista | Wilsa Santos Manu Volkova Fotografia Bruno Bezerra | Marina Furtado Editor de Vídeo Jhonny Michel Recursos Gráficos Digitais Megg Thurner | Fábio Cunha | Érica Lima Colunistas

facebook.com/alquimiarevista contato@alquimiarevista.com www.alquimiarevista.com


Jornada do Alquimista Editorial

check in


FOTO: ISABELLE LOURENÇO

uma

ILHA de MÚSICA cercada por jovens

Projeto leva educação sócio-cultural para 42 crianças e jovens, entre 8 e 19 anos. Eles aprendem a arte do saxofone, do contrabaixo, da flauta, do trompete, do violão, da bateria e do piano. Uma orquestra de novos talentos, desabrochando para os caminhos da música.

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projeto “Ilha de Música”, realizado na comunidade da África, na Redinha, bairro da Zona Norte de Natal, foi criado em 2006. O trabalho nasceu da iniciativa voluntária do músico Gilberto Cabral sua esposa Inês Latorraca, após Isabelle Lourenço evisitas ao local, que constataram a facilidade com que os jovens poisadr_sousa@hotmail.com deriam se envolver com atividades facebook.com/isadr.sousa pouco proveitosas e até mesmo ilícitas. A escola oferece aulas gratuitas sobre teoria e prática musical, além de apoio psicológico aos alunos e familiares.

na sociedade por meio da música e da profissionalização. “Não ensinamos a música pela música. Trabalhamos com várias nuances da formação do ser humano, na qual está inserida a educação, a convivência social e as oportunidades profissionais geradas”, diz Inês Latorraca, coordenadora do projeto.

bucano, mas residente na capital potiguar há mais de 20 anos, ele integra a “Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte” e a “Banda Sinfônica da Cidade do Natal”, além de comandar blocos de rua no carnaval potiguar.

A equipe da Ilha é composta por quatro professores de técnica instrumental, um professor de teoria musical, uma professora de inglês, uma psicóloga e três monitores.

Segundo os organizadores da “Ilha”, o objetivo é resgatar crianças que vivem na zona de risco e inseri-las

O maestro Gilberto Cabral dá o tom dos arranjos e melodias apresentadas pelos adolescentes. Pernam-

Por trás de ritmos envolventes da música popular brasileira, existe muito esforço e engajamento por parte dos que fazem do projeto uma realidade. A iniciativa sobrevive do apoio de parceiros e inscrições em editais como forma de ajudar a manter a sede alugada pelo grupo, dentre outros custos.

Incentivo

A coordenadora também conta que, os alunos com maiores práticas se transformam em monitores, recebendo bolsas de R$ 300 cada. “Essa ajuda é uma forma de mantermos os participantes mais velhos atuando no projeto, já que alguns deles, após certa idade, precisam sair para trabalhar”, explica. Festivais de música O “Ilha de Música” já realizou mais de 40 apresentações em eventos no Estado. Recentemente, foi selecionado para participar da “IV Mostra Brasil”, que acontece a cada dois anos, no Rio de Janeiro. A Mostra é um evento artístico que reúne apre-

FOTOS: DIVULGAÇÃO

“Não ensinamos a música pela música. Trabalhamos com várias nuances da formação do ser humano”

Jovens da comunidade da África, na Redinha, formam orquestra no projeto Ilha de Música, iniciativa de Inês Latorraca e seu marido, coordenadores do projeto 10

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“Um amigo meu sempre me incentivava a tocar, mas nunca pensei que poderia seguir em frente. Foi quando conheci o ‘Ilha de Música’ ”

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sentações de grupos e projetos de diversas regiões do Brasil, que utilizam a arte como meio de transformação social. Dos 92 inscritos, sete foram selecionados, dentre os quais somente dois do Nordeste.

felizes e convictos de que estamos no caminho certo”, avalia a coordenadora Inês Latorraca. História do Flautista

Na flauta transversal da orquestra, está o aspirante a musicista Paulo No evento, os jovens participam Vinícius, de 15 anos. O flautista de oficinas, seminários, além de mirim conta que se apaixonou pela apresentarem repertório pró- música após ter visto uma apresenprio. “Damos a oportunidade tação do maestro Gilberto na escola dos meninos conhecerem ou- onde estudava. “Um amigo meu tras culturas e interagirem com sempre me incentivava a tocar, mas pessoas de todo Brasil. O grupo nunca pensei que poderia seguir em foi selecionado pela sua quali- frente. Foi quando conheci o ‘Ilha dade técnica, o que nos deixa de Música’ ”, conta o garoto.

Paulo Vinícius, que também toca flauta doce durante as apresentações, e pretende ingressar na faculdade de Música, incentivado por colegas e professores. “Aqui eu não aprendo apenas a tocar um instrumento, e sim, a ser um músico. É minha segunda família, agora”, destaca o adolescente. A realidade de algumas pessoas vai sendo modificada de forma positiva. O futuro pouco promissor de jovens de baixa renda se transforma e toma forma de grandes carreiras, sob luz da arte e satisfação profissional.

FOTOS: ISABELLE LOURENÇO

Teclado e saxofone são dois dos instrumentos que os integrantes do projeto escolhem se dedicar a aprender

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Banda alternativa cearense relata as dificuldades de se manter autêntica e se apresentar com músicas autorais

O custo da AUTENTICIDADE E Brenno Rebouças

m meio a tantas formas de expressão artística, talvez a música seja a mais popular delas. Num mundo musical dominado pela indústria fonográfica, ainda há quem defenda produzir seguindo suas próprias diretrizes, sem se submeter à lógica de mercado.

Correspondente Alquimista De Maranguape, cidade localizada Fortaleza/CE a 30km da capital cearense, a banda Versus (VS) Caos optou por trabrennoreboucas@gmail.com var esta luta. Há pouco mais de um facebook.com/brenno.reboucas ano, seus quatro integrantes (Jona-

than Silva, Fabrício Martins, José Willame e Henrique Bezerra) decidiram largar os projetos musicais que faziam parte para ingressar na ideia que hoje transformam em música. A VS Caos seria totalmente autoral. Essa foi a primeira decisão tomada pelo grupo. Jonathan (vocal) e Fabrício (contrabaixo) tocavam juntos numa banda anterior, também autoral, e já abordavam, nas letras, temas sociais e políticos. O desejo dos dois

era seguir a mesma linha no novo projeto, porém de forma mais madura, como eles mesmos definem. Os demais integrantes toparam. Temas polêmicos como aborto, drogas e violência estão presentes nas músicas da VS Caos, mas com uma característica específica: “escrevo sobre o que aconteceu comigo, sobre o que eu vivi”, diz Jonathan, compositor da banda. É difícil determinar o estilo da banda, eles preferem se autodenominar como “alternativos”. A justificativa para isso são as diferentes referências musicais que cada um carrega consigo. Há um respeito mútuo em relação a “gostos” e identificações de estilo. “Algumas coisas a gente compartilha, mas cada um tem uma influência diferente. Não podemos arrancar isso da gente”, explica Fabrício. É a mistura de referências que imprime uma identidade própria no som do grupo, ideia construída pelos quatro integrantes. Apesar da indefinição de estilo, a

FOTO: DIVULGAÇÃO

VS Caos tende para um som rock mais pesado. Jonathan se diz ciente de que essa linha não é a mais apropriada para atrair público em terras cearenses, mas afirma não se preocupar em atingir grandes massas a curto prazo: “Eu poderia até cantar forró, se pensasse num retorno financeiro mais rápido. Mas, abordaria os mesmos temas nas minhas músicas”, enfatiza. “É bom trocar para muita gente, mas se alguém escuta e se identifica de verdade, já está de bom tamanho”, opina Willame. Os quatro sustentam que não se trata de conformismo, mas de ter os pés no chão. Tocar autoral, explorar temas sociais nas letras e produzir música alternativa são barreiras para o crescimento de qualquer grupo musical frente à lógica do lucro, hoje dominando parte do campo artístico. Neste cenário, a VS Caos busca festivais de música autoral para apresentar seu trabalho: “Procuramos nosso nicho”, diz Jonathan. Por não tocarem músicas de outros grupos - cover - eles só conseguem espaço em eventos como estes. Fabrício relata um truque que algumas bandas utilizam em festivais comuns para mostrarem suas músicas próprias: “Eles fazem três músicas cover e uma autoral. Mas não achamos gostamos disso”, conta. Preço de um sonho

Jonathan Silva, Fabrício Martins, José Willame e Henrique Bezerra: integrantes da banda alternativa de Maranguape/CE VS Caos

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Nenhum dos quatro se sustenta com a música que produzem. O retorno financeiro não dá garantia. O sonho, porém, existe. Para manter o projeto vivo, hoje, acontece justamente o contrário. Eles acabam investindo na banda, os recursos que conseguem nos empregos convencionais, p que vai da compra de ins-trumentos até passagens para viagens quando vão tocar em lugares mais distantes. Henrique considera que isso faz deles um grupo independente não só em termos finançeiros, Ago - Set - Out 2013

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Estúdio da banda VS Caos. Alugar o espaço para outros projetos independentes é uma das forma que o grupo encontrou para manter vivo o projeto

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mas ideologicamente também.

isso tem um preço”, diz Willame. O estúdio serve também para outros grupos autorais. A VS Caos aluga o pequeno estúdio caseiro a projetos semelhantes. Foi uma forma encontrada de manter o projeto, sem pesar muito no bolso. Como não possuem vínculo com distribuidora alguma, são eles próprios que divulgam seu som, através de redes sociais, festivais e do “boca a boca”.

“Nós não mudaríamos de atitude para conseguir contrato com gravadores ou patrocinadores”, afirma Jonathan e todos são firmes em concordar. Para Fabrício, “se você se negar a fazer como eles [gravadores, patrocinadores, indústria fonográfica] querem, por ter muitos contatos, eles acabam com tudo que você já conquistou até ali, atrapalhando futuros acordos que você tenta fechar”. Apesar das dificuldades para manter a VS Caos, Jonathan, Fabrício, Produto caseiro Willame e Henrique mantém vivo o desejo de serem músicos profissioGravação não é um problema para nais. Acreditam no produto que tem a VS Caos. A banda tem um peque- e num público apto para recebê-lo. no estúdio próprio. Mas engana-se “Se for pra gente viver de música, quem pensa que foi fácil construí-lo: será neste estilo e com essas ideias”, “abrimos mão de muitas coisas”, diz são irredutíveis. Enquanto isso não Jonathan. A força para deixar cer- acontece, eles seguem batalhando, tas coisas de lado e assim conseguir mas sem se curvar às pressões da juntar dinheiro e montar o próprio grande mídia, da indústria cultural estúdio é justificada no prazer que e do dinheiro. Para VS Caos, quem os quatro encontram na música: toca o que não acredita pensando “Tocamos o que acreditamos, mas no dinheiro, será esquecido.

FOTO: MANU VOLKOVA

“Nós não mudaríamos de atitude para conseguir contrato com gravadores ou patrocinadores”

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FOTO: CEDIDA

CÂMERA AÇÃO! Por Érica Lima

O audiovisual potiguar

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ara realizar um audiovisual é necessário uma estrutura mínima de recursos financeiros, técnicos e humanos. Com as novas tecnologias e o barateamento dos equipamentos, essa realidade está mudando. É possível ver, nos últimos anos, um aumento quantitativo na produção independente. A produção audiovisual no Rio Grande do Norte, apesar de ser menos expressiva, se comparada a outros estados do Brasil, apresenta um significativo crescimento. Neste cenário, merecem destaque os alunos dos cursos de Comunicação Social do estado. Os cursos têm sido importantes celeiros para essa nova produção audiovisual. Apesar dos poucos recursos dos departamentos, produtores ativos e criativos têm sido revelados, e eles estão dando uma nova cara para a produção independente norte-rio-grandense. Algumas produções realizadas por universitários têm ultrapassado a universidade, alcançado destaque em festivais nacionais e internacionais e sendo exibidos em emissoras de TV. É o caso da série “Alma das Ruas”, produzida em 2008 como trabalho de conclusão de curso de Alexandre Santos, Érica Lima e Jurandyr França. A série já participou de 12 festivais, nacionais e internacionais, além de ter sido exibida na TV Brasil em horário nobre. Outro exemplo é o documentário “A gente se ri” (Rita Machado, 2007) premiado na Mostra Nordestina do FestNatal 2009. E o documentário “Elizeu Ventania, Rei das Canções” (Leilane Andrade, 2008), premiado na Mostra do Vídeo Potiguar do FestNatal 2008. É perceptível uma ampliação de atividades e ações voltadas para o audiovisual. No entanto, a maioria das ações são iniciativa de grupos da sociedade civil e ocorrem isoladas e descontinuadas. As ações que surgem do poder público acabam não sendo finalizadas com êxito, como o prêmio “William Cobbett” da Fundação José Augusto (2008), que não pagou os contemplados.

DIRETOR

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Dica de filme, ASSISTA! “Maré Alta” é um documentário curtíssimo filmado no distrito de Sagi, em Baía Formosa/RN, que trata dos efeitos do avanço do mar sobre as casas dos moradores da praia. O filme tem um minuto de duração e é estruturado a partir da perspectiva de Dona Jacira, moradora local. O curta foi exibido no Festival Off Plus Câmera - na Polônia, em abril deste ano. A oportunidade de apresentar o filme na Europa surgiu através da participação no III Festival Internacional de Cinema de Baía Formosa (Finc), onde “Maré Alta” conquistou o primeiro lugar dentro da temática “Minuto Verde”.

Pra quem gosta de curtas! O programa Olhar Independente da TV Universitária/RN, existe desde 2008 e é voltado à exibição de documentários, ficções, videoclipes, animações, vídeos experimentais, dentre outros gêneros e formatos de vídeo. É um espaço destinado à produção audiovisual do RN e do Nordeste. Uma ação inovadora, no que diz respeito à grade de programação das TVs abertas do estado. O programa exibe semanalmente curtas metragens e entrevista os realizadores. Saiba aqui como exibir seu curta no Olhar Independente, participe!

O Rio Grande do Norte ainda sofre com a carência de editais específicos e ausência de uma política pública de apoio ao audiovisual. A difusão da produção ainda se dá de forma não organizada. Cada realizador procura uma forma independente de distribuir seu trabalho, através de DVD, da internet, televisão e festivais locais. Atualmente, há dois festivais de cinema fixos no calendário da capital: O Festnatal e o Goiamum Audiovisual. O Cineclube Natal luta para manter viva a chama pelo cinema e pela produção audiovisual. O Goiamum Audiovisual reúne realizadores em sessões de vídeo, palestras e oficinas sobre o tema. Há também o Fórum do Audiovisual do RN, rede de comunicação que funciona através da internet. E, recentemente, foi criado a Rede Economia Criativa Audiovisual do RN.

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FOTOS: ARTHUR ROCHA

como conta Kaianne Azevedo, 19 anos, estudante de Edificações e Arquitetura e viciada em Pump. A história de Kaianne com a PiU – outra forma de chamar o Pump it up, utilizando as iniciais – começou na infância, brincando esporadicamente com as amigas, quando ainda morava no São Paulo (cidade de origem), mas sem tanta habilidade para a prática. Foi em 2009, no segundo dia de vestibular para entrar no curso de Arquitetura e Urbanismo da UFRN, que Kaianne saiu extremamente tensa das provas e aceitou o convite de uma amiga para lanchar no shopping, que acabou na pista da Pump. Daí, não parou mais, foi melhorando de nível e dançando cada vez mais rápido.

PUMP no ritmo da

“Acho que meu encantamento com a Pump aconteceu nesse dia, porque eu estava muito tensa e preocupada com a prova. Desde então, até hoje,

jogo como forma de exercitar o corpo e descontrair da tensão, para relaxar mesmo”, afirma Kaianne que conheceu na Pump o estudante de Ciência da Computação, Italo Berg Reis, de 22 anos. Por lá, os dois se viram algumas vezes e dançaram juntos algumas outras. Ambos integram uma comunidade PiU que acolhe os amantes dessa atividade na cidade de Natal. A comunidade pumper é forte e já possui uma quantidade de adeptos considerável. Os pumpers tinham grupo no MSN e comunidade no Orkut. Hoje, há um grupo no Facebook onde a comunidade se aproxima ainda mais. Combina saídas, fala sobre campeonatos, treinos e novidades na área. Italo, que se encantou a primeira vez com a Pump em 2006, considera a PiU, acima de tudo, “uma atividade física muito forte, que traz

Ítalo e Kaianne se conheceram na Pump e fazem parte da comunidade PiU em Natal.

A Arthur Rocha arthurd.oliveira@hotmail.com facebook.com/arthurrocha007

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origem do Pump it up, também chamado Pump – para os mais íntimos – é na Coreia do Sul, no finalzi-nho da década de 1990. A máquina Pump it up foi criada pela empresa Andamiro, em 1999, e possui o sistema de plataforma com cinco steps: diagonais cima-esquerda, cima-direita, baixo-esquerda, baixo-direita, e o step central ou meio. A maioria das pessoas não conhece o Pump it up por nome algum, mesmo sabendo do que se trata, não associam o nome à coisa.

Mas é quase impossível achar alguém, que more numa cidade urbana, e nunca tenha visto um pumper suando litros ao pisar nos comandos do step na coreografia de alguma música escolhida nessas máquinas, bastante presentes em shoppings, fliperamas e parques de diversão. Genericamente falando, a Pump é uma máquina de simulação de dança. Todavia, para os amantes da Pump, trata-se bem mais do que uma máquina, “é um exercício físico e mental, que exercita seu equilíbrio, agilidade e sincronia”,

FOTO: ARTHUR ROCHA

É um esporte? Será uma dança? Ou seria um jogo? Muitos consideram o Pump it up como um esporte, tem até campeonato. Outros afirmam que é uma dança, há inúmeras coreografias. Há os que dizem se tratar de um video-game, então seria um jogo. Mas há, ainda, quem ache ser duas dessas opções, ou mesmo as três juntas e misturadas. Está confuso? Então, conheça melhor o Pump it up.

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benefícios como um esporte. Eu pratico regularmente, exige condicionamento físico, se você parar, der uma trégua, fica ruim”, opina o pumper. Júlio César é caixa de um parque de diversões frequentado pelos pumpers e conhece bem esse lado pump it up. Por muitos anos foi viciado na pump e até hoje dança de vez em quando.

Nas quartas e domingos, dia de promoção, as duas Pumps do parque ficam lotadas: “É o brinquedo que mais vende aqui, sem dúvidas. Sempre tem alguém jogando nele”, afirma. Júlio diz que o público é, na maioria, jovens estudantes: “Vem muita gente da UFRN e de escolas daqui do bairro por conta da proximidade, da localização”, destaca.

Acabando os corações ou tirando nota F é game over para o jogador.

FOTO: ARTHUR ROCHA

PASSO A PASSO

CUSTOS

O jogador compra créditos no estabelecimento da máquina que deseja jogar. Passando o cartão na máquina, escolhese um álbum, para então fazer a escolha da música. Esses álbuns são grupos de músicas e não álbuns de cantores e bandas como existem na indústria fonográfica. Seleciona-se nível de dificuldade e velocidade da música. Todos esses passos são feitos com os pés em comandos na própria plataforma de dança.

A diversão também tem um preço. O crédito para jogar sai em torno de R$ 2,80 e dá direito a cinco vidas, representadas por corações. Veja os custos para cada tipo de música:

Há diversos códigos que podem ser usados na Pump para diversos efeitos. Cada código possui sua própria sequência, que deve ser inserida na tela antes de escolher a música. Alguns desses códigos são: speed, random velocity, vanish, mirror, uinion e freedom. 22

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short cut (parte da música) _________ músicas de 1’30’’ ____________________ remixadas _______________________ full (música completa) _______ Tirando um A, você ganha um coração. Em algumas Pumps, tirarando F em qualquer música é game over. Os parques costumam fazer promoções. Para quem tem carteira de estudante, há possibilidades de dobrar os créditos. E nos dias de menor fluxo, a máquina Pump it up pode ficar com até 50% de desconto. Ago - Set - Out 2013

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FOTOS: DIVULGAÇÃO

paixão por Papel na mão e muita criatividade na cabeça “Há alguns anos, eu estava num restaurante aqui em Natal, quando reparei num homem pagando a conta com um origami. A nota estava toda dobrada, era um Tsuru”, conta Fábio Lima, 29, estudante de Licenciatura em Física. Foi a partir daí, por volta de 2006, que começou o interesse de Fábio pela arte tradicional e secular japonesa do origami.

Arthur Rocha

FOTOS: ARTHUR ROCHA

arthurd.oliveira@hotmail.com facebook.com/arthurrocha007

Não deu muito tempo e Fábio estava imerso em livros sobre origami, mas a dificuldade para entender japonês e a desinformação de onde buscar conhecimento na área dificultou um pouco (bastante) absorver essa cultura mais diretamente da fonte. Dos primeiros livros que consultou, como não sabia nada do idioma, o

Fábio Lima, estudante de Licenciatura em Física, e a namorada Bruna Barca, estudante de Engenharia Química, encantam a todos com sua “arte de papel dobrado”

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jeito foi seguir os passo a passos dos diagramas e ver no que dava. Logo de início, Fábio já tentava fazer os chamados origamis modulares (com varias peças que se encaixam até formar o origami completo). Ele demorou quase um mês para fazer o primeiro - que hoje faz em poucas horas - e só foi possível concluir a peça com a ajuda de vídeos na internet. Apesar do alto nível de dificuldade do origami modular, Fábio teve boa desenvoltura, “sempre gostei de trabalhos manuais, sempre fiz muito disso durante a adolescência, acho que isso me ajudou na habilidade com os origamis”, conta o artista. Durante uns dois anos, Fábio era um iniciante no origami que havia evoluído muito nos trabalhos que construía. Sempre procurando livros na internet, diagramas e vídeos com passo a passo para este ou aquele origami, Fábio começou a fazer contatos com blogs de origami de todo o país. Foi esse pessoal e mais alguns amigos, que incentivaram muito a criação de um blog para Fábio expor sua arte. Surge então, em outubro de 2008, o blog do Sem Sobras. Mas até então tudo era parte de um hobby. A respeito de como diversão virou trabalho, Fábio lima explica que começou “fazendo e dando os origamis para pessoas próximas, foi daí

que outras pessoas viram e foram me perguntando quanto custava, se eu fazia outros modelos, se eu tinha uma loja”. O blog ajudou muito no trabalho de divulgação das artes de Fábio, mas o boca a boca sem dúvida alguma foi uma forte publicidade. “Devo muito à interação entre o meu blog e outros de fora de Natal, que interagiam, mandavam sugestões e incentivavam as postagens. Tinha também troca de informação com pessoas até de outros países”, relatava Fábio sobre a motivação para estar sempre atualizando o Sem Sobras desde o início quando ainda era pouco acessado. Fábio gosta dos origamis modulares porque acha incrível como se pode transformar um papel, plano e de espessura mínima, numa figura tridimensional, por vezes vazada, com entradas e pontas. “O origami ajuda muito na paciência, e gosto de trabalhar individualmente, ajuda no meu processo criativo, só fico com

outras pessoas quando fazemos intervenções, quando faço oficinas ou quando fazemos encontros do Sem Sobras”, conta o jovem sobre sua forma de trabalho. Fábio cria muitos novos origamis a partir da combinação de origamis já existentes e fazendo alterações em modelos tradicionais que acabam se tornando modelos novos. Os projetos para o futuro do blog são investir mais na produção de vídeos explicando como fazer alguns origamis específicos e divulgar fotos dos eventos que Fábio decora e das encomendas que recebe. Outro projeto de Fábio para expandir a sua arte que virou negócio, é decorar vitrines de lojas e restaurantes. Além de fazer origamis, vender para ornamentação de festas, casamentos, aniversários e atualizar o blog do Sem Sobras, Fábio faz oficinas de origami para ensinar novos interessados na arte japonesa de do-

MATERIAIS Para a confecção dos origamis são usados: papel, para construção do origami em si; tesoura, para cortar os papéis nas dimensões adequadas; hastes de madeira, para sustentar os que ficam em pé; linhas e barbantes, para os que são suspensos; argolas de plástico, para pendurar os origamis; pedrinhas e miçangas, para dar efeitos de brilho. Qualquer papel pode ser usado, inclusive sulfite, o mais usual no dia a dia das pessoas, e até mesmo embalagens. Mas para trabalhos mais profissionais, que precisem de maior resistência da peça, são usados papeis mais pesados, com maior gramatura. Fábio vai ao menos uma vez ao ano para São Paulo comprar papéis por lá, “são mais baratos, tem modelos bem diferentes, compro em grande quantidade e tenho familiares que moram lá”, explica o universitário.

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pelo origami quando faziam curso de japonês. Na época, Bruna tinha nove anos, Igor tinha 14 e os dois sempre adoraram animes. O curso de japonês sempre promovia eventos culturais típicos do país e foi num desses que os dois irmãos se encantaram com os origamis, participando de uma oficina. Pouco tempos depois, Bruna e Fábio se encontraram pela internet e passaram a conversar sobre origamis. Não demorou muito até os dois marcarem uma aula para Bruna aperfeiçoar as habilidades de dobraduras. E nessa aula o irmão mais velho foi junto, mesmo assim, com um mês, Fábio e Bruna já eram namorados.

INTERVENÇÕES Fábio está sempre organizando encontros com os colegas que também curtem origami. “Os encontros são para bater papo, trocar figurinha sobre papéis, aprender a fazer modelos novos”, conta Angelina Cavalcante, 22, estudante de Arquitetura e Produção Cultural. Assim como Angelina, outra que participa dos encontros de amantes do origami é Aline Souza, 23, bacharel em Direito: “os encontros são bem divertidos, é uma forma de conhecer pessoas novas com os mesmos gostos pelas dobraduras. Às vezes o ambiente se torna tão acolhedor que se

Nos encontros, a turma sempre promove algum tipo de intervenção para “quebrar um pouco a rotina das pessoas que passam por aquele lugar frequentemente no seu dia-a-dia e nem se dão conta do que está ao redor”, explica Fábio. Uma das intervenções que o grupo costuma fazer é montar vários origamis no shop- gares, para surpreender aqueles que ping e sair deixando as dobraduras as encontre. Outra bem frequente, espalhadas pelas mesas e outros lu- é decorar uma árvore com vários

origamis pendurados, chamando a atenção dos que passam e atraindo inúmeros olhares curiosos.

LENDA DOS TSURUS

FOTO: ARTHUR ROCHA

Bruna e o irmão se interessaram

FOTO:DIVULGAÇÃO

“O Sem Sobras é um projeto interessante. Procura expor essa arte tão bonita que é o origami e que infelizmente é pouco conhecida em Natal. Acho que é uma forma de levar um pouco de arte para as pessoas”, opina Aline. De fato, são poucas as pessoas na capital potiguar que fazem origamis, menos ainda os que trabalham profissionalmente com isso, pois ainda é muito visto apenas como uma atividade lúdica, um hobby.

Os diagramas são o passo a passo para que o papel se torne um origami. Veja ao lado alguns diagramas, siga as instruções e boas dobras! brar papeis. A primeira delas foi no Yujô Fest (evento de cultura pop japonesa), em 2010, e de lá para cá foram inúmeros outros eventos, como a Debulha (semana de Design da UFRN). Mas antes do Yujô, Fábio já ensinava origami para outras pessoas pela internet, dando dicas, instruções e até gravando e enviando vídeos de com fazer as dobraduras certas para formar o origami. Mas foi Bruna Barca, 21, estudante de Engenharia Química, a primeira aluna fora da internet que Fábio teve e junto com ela, o irmão Igor Barca.

FOTOS: DIVULGAÇÃO

perde a noção do tempo”, explica. Fábio e Angelina se conheceram depois de uma oficina ministrada por ele no Departamento de Artes da UFRN. Já com Aline, a oficina foi no Yujô, primeira oficina de Fábio para uma turma com muitos interessados na arte. Tanto Angelina, quanto Aline relatam que possuem pouco tempo para se dedicar a prender novos origamis, mas que os encontros acabam sendo uma forma de ajudar na aquisição de novas dobraduras para adicionar ao “currículo”.

O tsuru é uma ave, da família das cegonhas,nativa do Japão. Há uma conhecida lenda japonesa segundo a qual, aquele que fizesse mil tsurus de origami teria um pedido atendido pelos deuses. Que tal voltar, na galeria de diagramas, e ver o passo a passo de como montar um tsuru? Veja também, ao lado, a tentativa do repórter Arthur Rocha de fazer seu primeiro tsuru.

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Inksoul

FOTO: ARTHUR ROCHA

Raissa Luz tatua trecho de m煤sica nas costelas do estudante de Direito, Julio Alves.

Hist贸rias de quem tem Alma de Tinta

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IDADE

ORIGEM

Mateus Gomez

26 anos

S Paulo/SP

FOTOS: ARTHUR ROCHA

NOME

ESTILO PREFERIDO

5 anos

Old school

Passe o Mouse em nossos artistas

“O

desenho saiu legal, mas fizemos algumas coisas erradas. Pintamos o desenho usando uma agulha para traço. Foi meio às cegas, poderia ter sido menos doloroso e mais rápido”, conta, sem seguo riso, Tahiane Macedo, 22 anos, Arthur Rocha rar estudante de Jornalismo e tatuadora aprendiz. O relato é da experiência arthurd.oliveira@hotmail.com da sua primeira tattoo, feita na amifacebook.com/arthurrocha007 ga Gabriella Fonseca. 32

TATUA HÁ

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Tahiane usa a primeira pessoa do plural, “fizemos” e “pintamos”, porque essa primeira tatuagem ela não fez sozinha, fez com Gabriella. “Ela praticamente me obrigou. Ela estava mais animada do que eu, porque eu estava com medo. Eu já desenhava, mas eu não estava confiante para tatuar”, fala Tahiane abrindo o jogo. Gabiella, além de insistir para ser a primeira tatuada pela amiga, ainda deu algumas dicas para a iniciante enquanto Tahiane tatuava cinco morceguinhos pretos no seu braço.

Gabriella tem muitas tatuagens, uma delas é uma caveira mexicanaa tatuada no braço cujos morceguinhos de Tahiane vieram para complementar o desenho original. “Foi divertido. Por um lado ela confiou em mim e me deu esse voto de confiança, e eu confiei nela para me dar esse apoio. Eu ainda não estava familiarizada”, confessa Tahiane. As duas levaram quase duas horas para completar os cinco morceguinhos, que pouco tempo depois ainda foram retocados por Tahiane para garantir o resultado final.

Gabriella, 31, é jornalista e trabalha com mídias sociais, mas também já teve seus tempos de aprendiz de tatuadora. Ela chegou a ficar um ano como aprendiz num estúdio, mas não deu continuidade ao trabalho: “eu não segui o caminho de continuar tatuando, porque o povo só queria fazer desenho feio, em 80% dos casos, ai perdi o tesão”.

Tahiane acha que Gabriella insistiu em ser a primeira, pela amizade principalmente, mas também pelo fato de Gabriella já ter sido aprendiz. “Ela tinha total compreensão do risco de dar algo errado e como ela já tem várias tatuagens, se desse errado não seria tão visível”, justifica. Pode-se achar que o fato de alguém

já ter inúmeras tatuagens é decisivo para se dispor a ser tatuado por um iniciante, mas a segunda tattoo feita por Tahiane foi noutra amiga, Tamires Villar, que estava sendo tatuada pela primeira vez. Tamires desenhou o símbolo “Ohm”, gostou do resultado e fez a segunda tattoo também com Tahiane, uma rosa com tinta branca. Em quatro meses como aprendiz, Tahiane já fez uma média de 25 tatuagens, um bom número para quem está querendo exercitar a técnica. “Estou tatuando mais amigos, mas também já chegaram até mim pessoas que vieram através de amigos que eu tatuei”, conta. Ela se diz surpresa com a evolução que teve em apenas quatro meses.

não achou o ato de tatuar difícil: “acho que qualquer pessoa com treino pode aprender a técnica, mas é preciso muita responsabilidade e há coisas na tatuagem que vão além de furar a pessoa, como você saber usar bem o espaço, entender de desenho, saber como a tattoo vai ficar depois de cicatrizada, quanto de tinta usar...”, pontua.

A tatuagem está muito popularizada entre as pessoas nas grandes cidades e não é raro conhecer tatuadores aprendizes, como Tahiane e Mateus Gomez dos Santos, mais conhecido como Fofo. Mateus não é tão novo no ramo, mas diz que ainda se considera um aprendiz: “eu comecei a tatuar já tem cinco anos, mas a Para os que sempre tiveram von- frequência que eu tatuo é baixa, tade de ser tatuador, mas também diferente de quem tatua em essempre tiveram receio de colocar túdio, que faz trabalho todo dia”, a mão na agulha, Tahiane diz que justifica o jovem de 26 anos. Ago - Set - Out 2013

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FOTO: ARTHUR ROCHA

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O apelido Fofo o acompanha desde o colégio. Mateus nasceu em São Paulo, mas mora em Natal há 14 anos quando veio com toda a família para a terra do sol. “Desde molequinho lá em São Paulo eu já curtia tatuagem, sempre quis ter. Fui crescendo, conhecendo tatuadores através do rock e me aproximei mais dessa arte”, lembra Mateus de como tudo ocorreu. Atualmente, não é de tatuagem que Matheus vive propriamente, ele trabalha na cozinha de um restaurante vegano durante o dia. Mas o final da tarde e a noite ficam disponíveis para quando algum cliente procura pelo seu trabalho artístico. Ele tatua no estúdio de um amigo, já que não tem estúdio próprio. “Passo a porcentagem do estúdio [30%], porque eles me fornecem o espaço e o material descartável. Mas tintas e máquina sou eu quem tenho as minhas”, explica o tatuador, que já perdeu as contas de quantas tatuagens tem. Na verdade, é difícil achar um tatuador que saiba precisar quantas tatuagens têm espalhadas pelo corpo. Se por um lado, Natal está cheia de aprendizes no ramo da body art, por outro, há também um bom número de profissionais com bastante tempo de trabalho em estúdio e larga experiência. Alexandre Cavalcante, 35, e é um bom exemplo disso. Ele trabalha com modificação corporal há 15 anos. “Eu sempre fui diferente, sabe quando você chega da escola todo riscado, a roupa rasgada!? Demorou para eu sacar que era isso que eu iria ser e que é isso que eu realmente gosto. Pretendo trabalhar com body art até morrer”, relata. Em 2003, Alexandre abriu seu próprio estúdio de piercing e tatuagem com mais dois sócios. Depois de um ano juntos, Alexandre comprou a parte dos outros dois e ficou como proprietário único, “o estúdio vivia bem só do meu trabalho com modi-

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2 Flor com tinta branca foi a segunda tattoo de Tamires Vilar com a aprendiz Tahiane Macedo

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Morceguinhos feitos por Tahiane enfeitam caveira mexicana de Gabriella Fonseca

4 Decalques funcionam como stencil, ou carimbos, para servir de base na hora de fazer a tatuagem

Segunda tattoo feita por Tahiane foi na amiga Tamires Vilar. O símbolo Ohm representa o som do universo

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ficação corporal, mas eu tinha uns tatuadores que ficaram por um tempo aqui fazendo essa parte de tatuagem”, explica Alexandre. Esses tatuadores não demoraram muito, foi só o tempo necessário para preparar Raíssa Luz suficiente para assumir a cadeira de tatuadora do estúdio. Raíssa tem 29 anos e trabalha como tatuadora há oito, todo esse tempo no mesmo estúdio, junto com Alexandre. A sintonia entre os dois é perfeita, mas eles são bem mais que colegas de trabalho e bodyartists. Onze anos atrás, Raíssa foi até o estúdio de Alexandre colocar um piercing. Ninguém imaginava o que iria acontecer depois daquilo. Os dois não se conheciam bem, mas como explica Alexandre: “nós já tínhamos alguns amigos em comum e nos encontrávamos de vez em quando nos shows, porque a gente tem o mesmo gosto musical”. Os amigos em comum e o gosto musical foram suficientes para Alexandre e Raíssa se aproximarem mais e virarem super amigos. Tão amigos que eles passaram a compartilhar mais do que a paixão pela bodyart, estão casados até hoje e têm duas filhas.

Daniella Marques, 22, estudante de Ecologia, fez uma tatuagem no antebraço esquerdo para homenagear os pais.

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Alexandre foi o maior incentivador para Raíssa começar a tatuar, “olha, eu vou comprar o material ai você tenta, se você não gostar, tudo bem”, dizia ele, torcendo para ela aceitar. Mas foi de primeira, Raissa começou treinando em casa e com uns seis meses ela já estava pronta para tatuar no estúdio. “Quando ela chegou, completou, ficou perfeito. Eu com modificação corporal e ela trabalhando com tatuagem”, diz Alexandre todo empolgado.

tatuador. Mas eu quero ver daqui uns cinco anos. Tem que ter pé no chão, não dá para brincar de ser tatuador”. Alexandre também tem opiniões bem formadas sobre tatuadores sem tatuagens. Para ele, é inconcebível a ideia de alguém que trabalha com uma arte e não admira essa arte a ponto de tê-la para si mesmo. “Acho que tatuador tem que ser tatuado, porque se você trabalha com isso tem que ser porque gosta. E se você gosta, você vai fazer em você. Vejo muita gente hoje na tatuagem que está pelo mercado, pelo dinheiro e não pela arte”, opina. De fato, são pouquíssimos os tatuadores que não tem piercings, alargadores e tatuagens. Seguindo o raciocínio de Alexandre, é o mesmo que ser cantor e não comprar CDs ou ir a shows, ser médico e não cuidar da própria saúde, ser um dentista de dentes estragados, ou ser um cabeleireiro que não cuida do próprio visual.

Clayton Alves, 32, é um exemplo de tatuador tatuado: “Quantas tattoos você tem? Ah... já parei de contar, agora eu conto os espaços que estão vazios”, diz enquanto olha para os braços, procurando um espaço em branco na pele. Clayton já tinha muitas tatuagens antes mesmo de ser tatuador. A primeira foi um desenho animado, do Tiny Toon, feita em Vitória/ES, cidade onde morou muitos anos, até vir a Natal em 2003. “Não tenho mais. Já cobri”, diz ele Quando o assunto é o grande núme- a respeito da primeira tattoo. Na ro de novos tatuadores surgindo no época, Clayton era menor de idade mercado, Alexandre dispara: “Eu e atribui a isso o fato de ter se desvejo muita gente que vai na onda, agradado da antiga tatuagem a ponmuito jovem, larga tudo para virar to de fazer outro desenho por cima.

Natural de Brasília, Clayton tem uma mistura de sotaques de quem morou também por muito tempo em Vitória e mesclou o sotaque capixaba com o potiguar. Foi em Natal que começou a trabalhar como tatuador, em 2003. Depois de um ano na cidade do sol, ele voltou para Vitória na tentativa de conseguir um mercado melhor na área de body art, mas retornou para a capital potiguar depois de um ano em Vitória. Clayton diz que prefere ficar em Natal. Para o futuro, Tahiane pretende deixar de lado o jornalismo e se dedicar a profissão de tatuadora “é isso que eu quero fazer, acho que não estou dando passos maiores que as minhas pernas”, comenta a aprendiz com a satisfação de quem tem conquistado bons resultados em tempo tão curto. A jovem, que começou tatuando do mais simples, já enxerga grande evolução nos seus desenhos, desenvolvimento também tem atestado de Gabriella Fonseca: “com certeza ela já evoluiu muito. Mais um ano e ela vai estar profissional, isso eu garanto. Já vi muita gente começar e estagnar, mas ela vai longe”. Independente de opiniões, uma coisa é certa: Tahiane não tem mais pintado tattoos com agulhas para traço. Ago - Set - Out 2013

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Família XTREME

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ntre uma tattoo e outra, Raissa larga as agulhas e tintas para amamentar. Bela está todos os dias no estúdio, afinal, ainda é um bebê e precisa dos cuidados dos pais, que não podem se afastar do trabalho, porque no caso de Alexandre e Raissa, as licenças maternidade e paternidade não são úteis. Ficar sem trabalhar implica em não atender aos clientes e é prejuízo certo. “Logo que ela puder ir para um berçário, ela vai, porque o trabalho dos pais não é o ambiente certo para eles [filhos], eles devem ter outras rotinas”, justifica a mãe.

sempre teve vontade de ter uma tatuagem ou um piercing, mas nunca o fez por preconceito. Nesses casos, entretanto, são gerações mais velhas que agora se abrem para esta arte. Contudo,, um novo perfil de pais tem surgido nos últimos anos: aqueles que sempre tiveram tatuagens, desde antes do casamento e da chegada dos filhos. É o caso do casal de tatuadores Alexandre e Raissa.

Os dois se aproximaram através da body art e, hoje, têm duas filhas: Nicole, de dez anos, e a pequena Cada vez mais, pais, mães, tios e Bela, que ainda vai completar seu avós se rendem à body art. Para primeiro aninho. Os dois tatuadores a tatuadora Raissa Luz, isso se dá são muito apegados às filhas, e dão quando se trata de alguém que o melhor que podem para as peque38

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papai e mamãe trabalham.

nas, tanto materialmente quanto em atenção e carinho, como qualquer bom pai e boa mãe. Durante a entrevista, não foram raros os momentos em que os pais corujas relatavam os acontecimentos abraçados com Nicole ou ba-

lançando Bela no braço. Um choro aqui, outro ali, mas é só manha de Bela para falar para o pai que quer alguma coisa ou que não quer outra. Ela é muito pequenini-nha ainda para falar. O carrinho de bebê está sempre por perto, vai que Bela resolve dar um cochilo enquanto

No sábado, Nicole não tem aula, então passa a manhã com os pais no estúdio, que abre no sábado até às 13h. Nicole fica no computador, jogando e online nas redes sociais. Ela também dá uma ajuda aos pais cuidando da irmã mais nova e chamando Alexandre quando chega alguém no estúdio para ser atendido. Nicole diz que gosta de ficar no trabalho dos pais e que acha bonito os desenhos que eles tatuam. De vez em quando ela, que também gosta de desenhar, até opina nos decalques de Raissa. Tem gente que não gosta de trabalhar com o marido ou a esposa,

porque acha ruim ficar o tempo inteiro junto, “mas a gente não tem isso não, sempre foi tranquilo, nunca tivemos problema”, relata a esposa de Alexandre. No estúdio de Raissa e Alexandre só os dois trabalham fixos, mas de vez em quando vem algum tatuador de fora para passar uma temporada e logo vai embora. No mais, são só os dois, dia após dia trabalhando juntos num empreendimento compartilhado. “Eu prefiro que ela me tatue, ela é uma excelente tatuadora e nesse campo eu sou amador”, revela Alexandre, que tem engatinhado seus primeiros passos no campo da tatuagem. Tanto Raissa tem tatuagens feitas por Alexandre, quanto Alexandre tem tattoos desenhadas pela esposa. Ago - Set - Out 2013

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Clayton Alves tatua frase “Ir, sobretudo, em frente”, no estudante de jornalismo André Araújo

No princípio era a tinta

FOTOS: ARTHUR ROCHA

Desenhar na infância é algo comum, mas como saber que o ato de desenhar é mais do que uma simples brincadeira e pode virar algo profissional? Boa parte dos tatuadores, antes de desenharem na pele, desenhavam no papel. Contudo, como diz Clayton Alves, “tem tatuador que tatua, mas não desenha. Assim como tem muita gente que desenha sem precisar ser tatuagem”.

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Luvas e máscaras descartáveis são material indispensável na hora de tatuar

No caso de Tahiane, o desenho apareceu para ela desde os três anos de idade – relatos da mãe para a filha, pois Tahiane não lembra bem dessa época, então define como “desenho desde que lembro de mim”. A aprendiz fala que nunca imaginou que o desenho poderia ser algo profissional. Hoje pensa em fazer vestibular para Artes Visuais ou design, depois de se formar em Jornalismo. Foi só quando entrou na faculdade que Tahiane começou a pensar em trabalhar com o que mais gostava de fazer, desenhos. Em 2010 ela fez sua primeira tatuagem, um cogumelo colorido, foi o primeiro passo para sentir na pele o que seria tatuar. “Alguns amigos tatuadores me incentivavam muito, me davam dicas e me deixavam ficar vendo eles trabalharem no es-

túdio. Isso tudo fez diferença e contribuiu muito, lembra Tahiane. Até botar a mão na agulha, foram dois anos de leitura, estudo, pesquisas, desenhos e muitas referências, só ai Tahiane comprou seus primeiros equipamentos e se lançou num universo novo de possibilidades. O início de qualquer atividade é sempre instigante pelo novo, mas sempre incerto. Raissa Luz, incentivada pelo marido, usou a seguinte tática de aprendizado no início da profissão: “Comecei me tatuando e aproveitando a oportunidade para ver e saber como se faz, ai fui tendo noção das coisas”, relembra. Raissa montou tudo para ser tatuadora, realmente investiu todas as fixas nisso. Desde a primeira tatuagem, ela já tinha essa ideia fixa. Não abandonou o curso de Jornalismo, mas concluiu a faculdade e guardou o diploma na gaveta. Desde a época em que ainda era universitária, Raissa já trabalhava com tatuagem. É curioso ver uma história tão parecida com a de Raissa se repetindo com a recente aprendiz Tahiane. “Eu sempre gostei de desenhar, desde pequena, mas não fazia nada que preste não”, conta Raissa com bom humor. Foi só em 2003, que ela fez um curso para ajudar a desenvolver o lado direito do cérebro, “então

passei a enxergar os desenhos de forma diferente e fui praticando mais para me aperfeiçoar”, relata. Para Alexandre, sempre houve o interesse em trabalhar com o mercado. Ele sempre foi independente, de opinião e empreendedor, foi assim que colocou para frente o projeto do estúdio próprio, que passou por alguns problemas de sociedade no início, mas que hoje traz bons resultados. Ele começou colocando piercing, expandiu o campo de trabalho para outras formas de modificação corporal, e hoje em dia está dando seus primeiros passos na arte de tatuar. Nesse momento, Raissa tem sido professora. O incentivo dos pais pode ser muito significativo no desenvolvimento das habilidades dos filhos. Mateus diz que sempre gostou de desenhar, mas que sente falta de ter sido mais estimulado a essa habilidade desde a infância. “Fui me envolvendo com outras coisas e deixei o desenho de lado, só voltei mesmo a desenhar quando me aproximei da galera da tattoo e voltei já fazendo desenho de tatuagem”, explica. Fofo também teve seus Ago - Set - Out 2013

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tempos de iniciante. Ele começou a tatuar com 20 anos, como aprendiz no estúdio “Insane needles”, que não existe mais. Um estilo pra chamar de meu Todo tatuador tem suas preferências na hora de desenhar e de tatuar. O gosto é algo intrínseco à condição humana, mas no caso dos tuadores, esse gosto pode ajudar a definir um estilo próprio. “Eu gosto de colorido, eu amo fazer desenhos com cor e pretendo crescer nesse estilo... Mas, na verdade, eu gosto de tudo, só que o colorido deixa tudo mais divertido”, opina Tahiane. Quem compartilha do gosto pelas cores é Raissa: “Eu gosto de desenhos coloridos, coisas orgânicas, desenhos de coisas vivas... pessoas, animais, flores”, conta. Independente do gosto ou estilo, uma coisa é unanimidade entre os tatuadores: todos preferem tatuar seus próprios desenhos. “Eu gosto mais de tatuar os meus desenhos, mas quando as pessoas já trazem algo pronto que se identificam e não querem que seja feita qualquer alteração, ai faço do jeito que me trazem, normalmente isso acontece com símbolos e frases”, explica Raissa. A maior parte dos tatuadores está nos estúdios de body art, mas há muitos que optam por não trabalhar fixo em estúdio algum. Isso também é uma forma de delimitar um estilo próprio de trabalho. Mateus, o Fofo, diz que não costuma fazer tatuagem comercial, “faço

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mais meus desenhos mesmo, vou em estúdios de amigos só quando me aparece algum trabalho legal, não fico fixo”, explica. Apenas em casos quando Fofo está precisando muito de uma renda extra é que ele faz coraçõezinhos, borboletas, estrelinhas, pimentinhas e símbolos do infinito. “Eu defendo muito a tatuagem como arte e a tatuagem autoral, é isso que eu quero para mim, por isso que eu não fico muito em estúdio”, opina. Clayton Alves tem tatuagens feitas em Natal, em Vitória, na Europa, em São Paulo... Clayton também viaja muito para outras cidades e outros países para participar de eventos de body art e para tatuar pessoas por todos os lugares. “Eu gosto de estilo oriental, e tattoos em preto. Mas eu faço de tudo, trabalho em estúdio e cada dia tem um trabalho diferente. Eu gosto mais quando aparece um oriental ou realista. A gente se empolga mais, mas também vai muito do cliente lhe dar a liberdade para você trabalhar”, opina o tatuador. Público e Mercado No início, Raissa diz que tatuava mais jovens, de 20 a 30 anos, “hoje em dia não tem mais isso. Tenho muitas clientes senhoras”, explica ela. Parece curioso, mas a tatuadora diz que é bem recorrente jovens que vão ao estúdio levar os avós, pais e tios para colocar um piercing ou fazer uma tatuagem. Raissa começa a rir quando lembra um dia em que a avó ficou insistindo para a neta fazer uma tattoo, disse que pagava e tudo, e a moça não quis fazer de jeito nenhum, ainda retrucava com a avó

que não insistisse que ela não gostava de fazer tatuagem. A maior parte do público do estúdio de Alexandre e Raissa chega ao local procurando especificamente pelo trabalho dos dois. No geral, são pessoas que já conhecem o trabalho, gostam ou então que receberam indicação de amigo. “A galera mais madura é um público muito legal de trabalhar, e hoje em dia está muito comum”, relata Alexandre, que por ser profissional antigo em Natal, tem uma vasta e fiel clientela, conquistada ao longo de muitos anos. Há dez anos, o mercado de body art era bem complicado em Natal, cidade ainda muito pequena na época. Este cenário foi decisivo para Clayton passar um ano em Vitória na busca por um mercado mais aberto à sua arte. “Mas a cidade vai crescendo, as pessoas viajam, veem mais coisas diferentes, vão gostando e isso vai ficando mais habitual”, explica como é o processo pelo qual a tatuagem foi se naturalizando. Os clientes mais jovens, principalmente quem vai se tatuar pela primeira vez, costuma fazer desenhos prontos, normalmente encontrados na internet. A arte muitas vezes deixa de ter seu caráter artístico quando o mercado e a cultura de massa se apropriam dela, impulsionando uma reprodutibilidade desenfreada. “As vezes me perguntam, e ai, o que está saindo mais? É complicado de responder”, diz Clayton a respeito das tattoos comerciais. Frases, borboleta, estrelinha é o que mais aparece no estúdio

OLD SCHOOL As tatuagens Old School, ou “tradicionais”, tem origem na década de 1890, mas a popularização deste estilo ocorreu após os anos 1920, época em que boa parte dos tatuadores foi trabalhar perto de bases navais americanas. Foi então que a tatuagem Old School se tornou símbolo de bravura e personalidade, contando histórias e viagens dos marinheiros. Os principais desenhos deste estilo são rosa dos ventos, estrela náutica, âncoras, rosas, andorinhas, corações com flâmulas e frases, mulheres seminuas e pin-ups. Ago - Set - Out 2013

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que Clayton atende. No verão então... Nem se fala... É a época em que os tatuadores cansam o braço e as agulhas ficam a todo vapor. O que aparece de sol com metade coberto pela lua, estrelinha por trás da orelha e símbolo de infinito no pulso não está escrito. No verão todo mundo que se mostrar, as roupas são mais curtas e o lance é deixar a tattoo à mostra. Segurança e cuidados

FOTOS: ARTHUR ROCHA

Tintas e equipamentos importados ainda são considerados melhores que os de marcas nacionais

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A tatuagem é uma arte que utiliza coo suporte não o papel ou uma tela de computador, como as artes gráficas, mas sim o corpo humano. Em virtude disso, há algumas peculiaridades no que diz respeito à segurança que este trabalho exige para ser desempenhado. O número de tatuadores que não trabalham segundo as normas de vigilância, segurança e higiene é bem reduzido, mas ainda existe. Segundo Clayton Alves, este número tem reduzido, “porque está tudo muito mais acessível: materiais, tintas... Pela internet dá para comprar, antigamente era muito mais complicado, tudo vinha de fora, era preciso viajar”, explica. Hoje, há muito mais fábricas brasileiras no ramo de produtos para body art e a qualidade do trabalho destas empresas também melhorou muito, apesar dos produtos importados serem ainda muito melhores, mas também são bem mais caros. Além das questões de higiene, é muito importante atentar para um ponto destacado por Alexandre, o sério problema da pirataria no

Brasil, que não se restringe a CDs e DVDs, mas até peças de modificação corporal e produtos para tatuar são pirateados no país. “No início era difícil se conseguir comprar equipamentos para trabalhar com body art porque só existia mais fora do país e os vendedores não vendiam abertamente por conta da pirataria, era preciso ser de muita confiança, para saberem que você é realmente profissional”, explica o tatuador. Da mesma forma que hoje os produtos e materiais estão mais acessíveis, expandiu-se também o mercado pirata de body art. “Tem muita loja por ai, de bijuteria por exemplo, que vende peça barata dizendo que é aço cirúrgico, mas não é. Aço cirúrgico tem uma liga especial que não possui nenhuma substância prejudicial ao organismo, não é o que eles vendem. Mas a população não quer qualidade, só quer pagar barato, isso já me desmotivou um pouco algumas vezes”, opina. Concorrer com preços mais baixos é sempre foi difícil em qualquer segmento de mercado, e lidar com a concorrência trazida pela pirataria é uma situação que os profissionais de body art enfrentam diariamente. Os consumidores devem ficar atentos aos materiais que compram e aos locais onde se tatuam ou fazem modificação corporal, porque o barato pode não sair em conta quando trouxer prejuízos para a própria saúde. O tatuador Clayton Alves dá algumas dicas de decisões e cuidados necessários na hora de fazer uma tatuagem. Confira no vídeo.

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Quando a tatuagem vira filme “F

azer tatuagem é uma coisa interessante. A gente termina, olha no espelho e pensa: ‘vai ficar aí pra sempre’. Eu gosto disso”, relata Rafael Barbosa, 23, jornalista. Se fazer uma tatuagem pode ser algo interessante Rafael já está na segunda e pensando na próxima – imagina ter sua tattoo documentada em videoart?! O trabalho artístico do vídeo, desde filmagem até a edição, ficou a encargo de Rafaela Bernardazzi e Vanessa Paula Trigueiro. A dupla utilizou duas câmeras Canon 60D, com lentes 50mm, e o software de edição Adobe Premiere CS6 na realização do trabalho. Rafaela já havia feito uma sessão de fotos em 2010, durante a primeira tatuagem de Rafael. Mas em 2012, Rafaela e Paula se juntaram para dar forma à ideia de videoart. “A ideia surgiu no momento em que Rafael disse que faria outra tatuagem e nos chamou para acompanhá-lo”, explica Vanessa Paula. A gravação do vídeo durou o tempo de realização da tattoo e foram mais dois dias para editar o material.

As duas vídeoartists integram o projeto Maracujá Limão, que realiza vídeos de making offs de casamentos, de ensaios fotográficos, e qualquer situação em que o princípio seja acompanhar um processo que está sendo realizado por outro profissional e mostrar esses bastidores. Quanto ao resultado final, Rafael não mediu elogios: “Ficou muito bom. Não é porque são minhas amigas, mas elas se garantiram nas imagens e edição”. Para Rafaela, “o resultado foi satisfatório, tanto esteticamente quanto em relação à visualização do nosso canal [no Youtube]. O vídeo ficou leve e cumpriu bem sua proposta”, comenta. Rafael se mostrou interessado em fazer

outra videoarte com a próxima tattoo. E não é por acaso, o vídeo teve uma repercussão positiva nas redes sociais e Rafael até ficou surpreso ao ver gente que nem conhecia curtindo o vídeo e elogiando o trabalho. As videoartist dizem que a intenção não era ter muitas visualizações ou fazer qualquer tipo de promoção, mas sim “fazer o registro de um momento legal entre amigos”, explica Vanessa Paula. Apesar disso, o Maracujá Limão já está disponível para o caso de algum tatuador precisar de vídeos promocionais do estúdio de tatuagem. Confira o resultado da produção no vídeo a baixo e se inspire para o caso de você fazer a sua tattoo.

FOTOS: RAFAELA BERNARDAZZI

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1. Rafael Barbosa na seção da sua primeira tatuagem, um tribal maori 2. Segunda tattoo de Rafael, alvo das videomakers Vanessa Paula e Rafaela Bernardazzi 46

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FOTO: JEANN DANTAS

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o tengo todo calculado / ni mi vida resuelta / solo tengo una sonrisa / y espero una de vuelta” é um trecho da música “La vuelta al mundo”, da banda urbana portorriquenha Calle 13 (conheça mais da banda clicando aqui). Traduzindo, as palavras tatuadas na panturrilha de Jeann Dantas (31), jornalista, designer e estudante de Licenciatura em Espanhol, significam “Não tenho tudo calculado / nem minha vida resolvida / tenho apenas um sorriso / e espero um de volta”. Esta é a segunda tatuagem de Jeann (a primeira você pode ver na galeria de fotos desta reportagem). Ele a fez no dia em que completou 29 anos, em novembro de 2011. Jeann conheceu a banda Calle 13 por meio da esposa, Samaria Araújo, através do videoclipe da música Latinoamérica (que você pode assistir clicando aqui). Ele descreve a descoberta da banda portorriquenha como “amor à primeira escutada. Daí para baixar os álbuns da banda, foi um pulo. E cada vez me atraía mais a mescla sonora e as letras tão ácidas, inteligentes, de crítica social e de defesa do povo e da cultura latinoamericana”, explica. Dois meses depois, estavam Jeann e Samaria num show do Calle 13 na cidade de Córdoba/ Argentina. Depois de ouvir a banda ao vivo

“fiquei ainda mais absorvido pela energia da banda”, conta Jeann. Mas a ideia de tatuar um trecho de “La vuelta ao mundo” veio num dia enquanto escutava a música despretensiosamente. “Essa música, para mim, fala de alguém com ganas de escapar da rotina e buscar novos horizontes, novas experiências, e de fazê-lo ao lado da pessoa amada...” foi assim que o designer sentou de frente ao computador para desenhar a sua própria tattoo. A ideia inicial era tatuar só o trecho da música, mas quando Jeann começou a desenhá-la, veio a ideia de agregar alguns símbolos, como um sol e um homem alado, que ilustram a vontade de ir além, de buscar, de transcender. Dois dias depois do desenho pronto e uma hora e meia com as agulhas tingindo a pele, estava Jeann carregando na perna uma nova tatuagem. Jeann fotografou a nova tatuagem, postou no facebook e teve a ideia de marcar o perfil da banda na sua postagem. Não deu outra, a banda compartilhou a foto na página própria deles e os inúmeros seguidores do Calle 13 não perderam tempo em curtir, comentar e compartilhar. A tatuagem de Jeann já foi, desde então, visualizada pelo mundo todo, e inclusive copiada parcialmente e até na íntegra (veja a tattoo de Jeann na Fanpage do Calle 13, clicando aqui).

Quando a tatuagem sai da pele e ganha o mundo 48

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Uma boa história para a

primeira tatuagem

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a bancada, o papel cirúrgico, sabão, a fonte com regulagem de voltagem, o clip cord – peça que transfere energia para a máquina, álcool e tinta – pigmentos vegetais e minerais de cores variadas. Clayton vai preparando tudo para fazer a tatuagem. O decalque, cópia da imagem em papel vegetal, já foi feito há alguns minutos. Coisa rápida, com grafite e o papel por cima do desenho original, não levou mais que cinco minutos.

“O decalque vale muito para esses desenhos comerciais, é como um carimbo”,

explica ele. E o meu desenho era um desenho comercial: um avião de papel dobrado, estilo origami. O tempo para elaboração do decalque varia muito, é determinado pelo desenho a ser tatuado, quanto maior e mais cheio de detalhes for o desenho, mais trabalhoso será, nada disso foi o meu caso. Eu já estava de gravador ligado, perguntando uma infinidade de coisas. Clayton, que desde o agendamento da entrevista já havia se declarado tímido, responde tudo com poucas palavras, ainda meio inseguro. Todo repórter fica em pânico com fontes que são muito sucintas com as respostas. Por dentro eu sentia o dever de tornar a situação descontraída o suficiente para deixar o entrevistado mais a vontade e obter mais declarações. É tipo um jogo, que o repórter joga o tempo todo com a fonte, mas só quem sabe das regras é a parte que pergunta. Nunca fui que nem Alexandre, que chegava da escola todo rasgado e riscado de caneta ou hidrocor. Mas tem muito tempo que venho querendo fazer uma tatuagem. Gosto também de piercings. Tenho na orelha, já pensei em colocar no nariz, mas meu perfil alérgico 24 horas por dia a poeira e mudanças

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Em apenas dez minutos de dores suportáveis, me despeço de Clayton e deixo o estúdio com uma nova companhia para toda a vida

de tempo poderia ficar chateado com a decisão de um corpo estranho. E se eu espirrar até arrancar o piercing? Sempre me causou receio. Sou jornalista, queria uma história interessante para minha primeira tatuagem. Algo que fosse significativo para mim e me marcasse e que eu pudesse compartilhar com outras pessoas. A experiência de trabalhos e pesquisas na faculdade, sobre o ato do comunicador refletir sobre seu trabalho e contar bastidores das reportagens me inspirou a criar este espaço nesta publicação. Resolvi unir as duas coisas, fazer minha primeira tattoo e descrever isso e como foi fazer esta reportagem, com a possibilidade de compartilhar com tanta gente, quanto a internet me permitisse. E este alcance é incalculável e quase que infinito. O desenho escolhido foi pequeno, apenas em preto, num local do corpo nem muito exposto nem muito escondido, com traços e pintura. O avião de papel remete à possibilidade de transformação. O mesmo avião pode ser desfeito e o papel novamente dobrado dará origem a um mundo de novas possibilidades de uso. Eu gosto dessa característica híbrida, flexível e múltipla das coisas. Não que eu ache que tatuagem precise ter um significado para ser feita, mas a minha tem. Foi difícil decidir qual desenho tatuar, porque eu tinha – e ainda tenho – ideia para umas dez, mas a pressão do dead line foi o principal fator a me obrigar a decidir logo o tal desenho. Foi tudo rápido, em no máximo dez minutos eu tinha um desenho gravado no meu ante-

braço esquerdo. A dor é bem suportável, mas acredito que isso de dor é muito subjetivo, não dá para sair por ai quantificando dor, mas eu particularmente me considero alguém com uma boa resistência para dor. É legal quando às vezes o repórter também é personagem da sua própria reportagem, mas preferi deixar isso restrito a este espaço. Enquanto tatuava, Clayton ia me contando sobre as tatuagens que ele havia feito naquele dia, anteriormente a minha. Falava sobre que tipo de tatuagem é mais trabalhosa de fazer, e sobre os casos dele fazer o mesmo desenho em pessoas diferentes no mesmo dia. Muitos flashs, para registrar o momento, dos fotógrafos-amigos Januário Júnior e André Araújo, que também compartilhou naquele dia a novidade de exibir por ai uma tatuagem, mas dessa vez ele ganhou de mim por ter feito dois desenhos, enquanto eu fiz apenas um. Virão as próximas. Agradeço aos personagens da minha reportagem, que aceitaram fazer parte desta construção e se dispuseram a me dar o que eles têm de mais preciso, suas histórias. Adorei conhecer Alexandre, Raissa, Nicole e Bela, uma família linda que deve servir de inspiração para muita gente, como forma de quebrar preconceitos que ainda teimam em existir. Reportagem é um ato de entrega e de amor às histórias que se conta e eu me entreguei completamente a esta, que me fez dormir por algumas noites às quatro, cinco horas da manhã, mas que lembrarei sempre que olhar para minha primeira tatuagem. Ago - Set - Out 2013

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Arthur Rocha arthurd.oliveira@hotmail.com facebook.com/arthurrocha007

Perambulantes 52

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or trás da maquiagem exagerada e das roupas coloridas do Palhaço Chapeuzinho está Enaldo Lima, natural de Cuiabá (MT), atualmente morador do município de Extremoz. Casado, pai de seis filhos, Enaldo nasceu no circo e, com ele, simultaneamente, nasceu também Chapeuzinho. Quando não está fantasiado fazendo a alegria das multidões (mesmo que uma multidão de motoristas mal humorados), Enaldo atira facas, faz malabares e outros truques de circo. Faz três anos, de segunda à sexta-feira, que Chapeuzinho dá o ar da graça no sinal da Avenida Roberto Freire com a Ayrton Senna, sempre no horário de seis da manhã às quatro da tarde, é daí que ele tira o ganha pão da família.

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Cris D’amato Caminhada pela Sétima Arte C

ristiane D’amato, 50 anos, carioca, mora no Leblon com os dois filhos Marisa, 19, e Gil, 16. É assistente de direção e formada em jornalismo pela PUC-Rio em 1989. Estudava teatro paralelamente a faculdade e em 1991 montou sua própria companhia teatral - Limite 151. Fez teste para atuar em novelas, mas acabou como assistente de direção.

Após a experiência na TV, foi assistente de direção de vários filmes, como “Buena Sorte” (1997); “Tainá, uma aventura na Amazônia” (2000); “Avassaladoras” (2002); e “Se eu fosse você 2” (2009). Trabalhou como diretora assistente de Chico Xavier (2010), fez também as séries “As cariocas” (2010), “As brasileira” (2012) e “Pé na cova” (2013), da TV Globo. Está com seu segundo filme em fase de produção “SOS mulheres ao mar”. Em 2006, dirigiu seu primeiro longa-metragem, Sem controle (2007), baseado no livro A Fera de Macabu, de Carlos Marchi, que conta a história da última condenação a pena de morte no Brasil.

FOTO: ARTHUR ROCHA

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ALQUIMIA - Como foi que você iniciou sua carreira profissional antes de chegar ao cinema? Cris D’amato - Comecei como atriz, eu tinha uma companhia de teatro carioca, fundada em 1991, que existe até hoje, a Limite 151. Nessa companhia eu fiz muitos trabalhos como atriz, fiz “A comédia dos erros” e “O mercador de Veneza”, as duas de Shakespeare; fiz “As Malandragens de Scapino”, de Molière; também “À margem da vida”, de Tennessee Williams; fiz também clássicos, populares e alguns infantis premiados pelo Prêmio Shell de teatro, como “O ovo de colombo”. ALQUIMIA – E como foi que você saiu dos palcos do teatro para chegar às produções audiovisuais?

Arthur Rocha arthurd.oliveira@hotmail.com facebook.com/arthurrocha007

Cris D’amato – Resolvi tentar trabalho na TV Manchete, em 1991, queria atuar em novela. Fiz testes, mas não me aceitaram no elenco. Insisti muito para o diretor, mas ele disse que eu poderia ser sua assistente de direção. Eu dizia para ele “eu quero ser atriz, não quero ser assistente de direção, não gosto disso”, mesmo assim acabei to-

pando e fui ser assistente na novela Amazônia (1991). Mas era horrível, eu ficava com inveja de algumas pessoas, olhava para alguém atuando e dizia comigo “nossa, eu sou muito melhor atriz”, mas continuei no meu trabalho de assistente e fui gostando, gostando... até que eu passei a amar o que estava fazendo e nem me importava mais com os atores e atrizes que faziam parte do elenco da novela. ALQUIMIA – Então, antes de passar para o cinema, foi na TV que você aprendeu realmente o trabalho de assistente de direção? Cris D’amato – Sim. Quando comecei como assistente eu não tinha ideia do trabalho, meu negócio era encenar. Passei muito sufoco. Mas à medida que fui aprendendo o trabalho, fui me encantando. Só que eu fiquei em choque quando, por alguns problemas dentro da equipe que fazia a novela, o diretor deixou a direção da novela para ir para a Globo e entraram três novos diretores para ficar à frente da novela, Tizuka Yamasaki, Tânia Lamarca e José Joffily. ALQUIMIA – E depois dessa mu-

dança toda, que parecia por fim no que foi seu início de carreira fora do teatro, o que aconteceu? Cris D’amato - O diretor me disse que eu poderia ficar na mesma função, só que agora dando assistência aos novos diretores da Amazônia e eu fiquei. Terminei a novela com eles. Um tempo depois teve a retomada do cinema nacional e a Tânia Lamarca me convidou para ser assistente de direção do filme Buena Sorte, depois disso não parei mais. ALQUIMIA – Não foi difícil a decisão entre trabalhar na frente das câmeras, atuando, e trabalhar nos bastidores dirigindo e dando assistência à diretores? Cris D’amato – No início eu fui levando as duas coisas, trabalhava como assistente e fazia meus trabalhos no teatro com atriz. Mas chegou uma hora que não dava mais, tive que optar e eu optei pela carreira como assistente de direção. Mesmo depois de alguém tempo já afastada de cena eu fui atuar numa produção da Carla Camurati, mas eu gaguejei, gaguejei e falei “não, pelo amor de Deus, nunca mais me coloca” (risos). O filme chegou a

rodar, apesar de tudo, mas eu dizia “me coloca em plano geral, que eu não quero aparecer”, mas era uma participação pequena. ALQUIMIA – Como você poderia resumir o seu trabalho como assistente de direção, antes de se tornar realmente diretora de cinema? Cris D’amato – Eu costumo dizer que qualquer um pode ser um bom diretor. Se você tem um bom roteiro e dinheiro, você pode fazer um bom filme, mesmo que você não tenha feito quase nada em cinema. Mas você não pode ser um assistente de direção se você não tiver percorrido e entendido o que é o cinema. O assistente de direção dá um suporte para o diretor, que pode ser mesmo um diretor inexperiente. O assistente de direção é um dos primeiros a entrar no filme, ele tem uma importância fundamental na produção, ele faz a comunicação entre todos os departamentos que existem para produzir o filme. ALQUIMIA – O que muda quando você deixa de trabalhar como assistente de direção e passa a ser diretora propriamente?

LIMITE 151 A Cia. Limite 151 foi fundada em 2001, por Edmundo Lippi, Gláucia Rodrigues, Cristiane D’Amato, Marcelo de Barreto e Wagner Campos. O grupo estreou com a peça “Os Sete Gatinhos”, de Nelson Rodrigues, e com o infantil “Dom Quixote”. Atualmente, a companhia é formada pelos atores Gláucia Rodrigues e Edmundo Lippi e pelo compositor Wagner Campos. FOTOS: ARTHUR ROCHA

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PRÊMIO SHELL Criado em 1988, para contemplar, todos os anos, os artistas e espetáculos de melhor desempenho nas temporadas do Rio de Janeiro e São Paulo. Em sua primeira versão, era composto por seis categorias: Autor, Diretor, Ator, Atriz, Cenografia e Especial, que abrangia os demais segmentos ligados ao teatro. Em 1989, surgiu a categoria Figurinista. Em 1992, foi a vez de incluir Iluminação e, em 1996, Música.

SEM CONTROLE Sem controle (Brasil, 2007) é o primeiro filme com direção de Cris D’Amato. A trama conta a história de um diretor de teatro obcecado com a injustiça cometida contra o fazendeiro Manoel da Motta Coqueiro, caso que iniciou o processo de extinção da pena de morte no Brasil. Elenco: Eduardo Moscovis, Milena Toscano, Vanessa Gerbeli, Dirce Migliaccio, Marcelo Valle e Charles Fricks. Cris D’Amato recebeu o Prêmio “Melhor Direção” e Milena Toscano, “Melhor Atriz”, no Festival de Cinema Brasileiro de Los Angeles, 2008. Assista ao trailer clicando aqui. 58

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Cris D’amato – Agora eu escolho o que eu quero. Como assistente você faz o que o diretor escolhe. Acho que ser um bom assistente de direção está em você não querer dirigir o filme de ninguém, você está ali para colaborar com o diretor, mas ele é o diretor e não você. Foi isso que eu sempre fiz. ALQUIMIA – Como está seu trabalho agora, em que você investe seu tempo neste momento? Cris D’amato – Eu acabei o trabalho na direção de “As brasileiras”, fiz também “As cariocas”, e não tive férias. Estou no ar com a série do [Miguel] Falabella, “Pé na cova”, que tem atuação do Falabella com a Marília Pêra e paralelo a isso vou seguindo com meu segundo filme como diretora, que se chama “SOS mulheres ao mar”, as gravações são num cruzeiro na Itália. ALQUIMIA – E o que você prefere fazer? Cinema ou TV? Cris D’amato – Ah, eu gosto de dirigir, eu gosto de ator, de roteiro, eu gosto desse meio audiovisual. Estou fazendo TV agora, mas também tem o “SOS mulheres ao mar”, ai depois volto para TV, faço mais cinema... Meus filhos brincam comigo: “você adora o seu trabalho, né? Não gosta nem de tirar folga” Eu digo: “Adoro, acho ruim porque não tiro folga, mas não tiro porque é necessário, a produção do filme precisa, não é que eu não queira”. O clima nos meus sets de filmagem são ótimos, a gente ri muito, porque eu trabalho com prazer. Quando existe isso, todo mundo passa a trabalhar sorrindo e a gente diz que é tudo uma grande brincadeira. Fazer arte é uma brincadeira, eu digo que eu sou arteira (risos).

ALQUIMIA - E dentre tantas funções dentro de uma produção audiovisual, o que você gostaria de fazer além de dirigir?

pessoa especial na minha carreira, talvez o mais especial. Eu levei onze anos como assistente de direção até dirigir o meu primeiro filme.

Cris D’amato - Eu adoro me meter no roteiro, sempre me meti (risos), inclusive eu assino como colaboradora o roteiro do Chico Xavier, porque o Daniel Filho me fez assinar, mas eu realmente fiz muita coisa ali, mas os outros eu não assino. Roteiro é um dom, acho que eu não saberia escrever um de cabo a rabo. Outra coisa que eu adoraria era ser câmera e fazer as minhas tomadas do jeito que eu imagino a cena.

ALQUIMIA – Como você avalia o momento que o cinema nacional vive hoje? É possível viver só de cinema?

ALQUMIA – Como é lidar com tantos atores e atrizes, muitas vezes conhecidos em todo o país, muito assediados pela mídia e pelos fãs? Cris D’amato – Os atores que já tem muito tempo de carreira, tipo Tony Ramos e Glória Pires, são “simplérrimos”, ótimos de trabalhar. O problema é aquele que está começando, e se acha muito, mas é um iniciante, por mais que tenha talento. Mas a gente vai encaixando e mostra que para ser bom ator também tem que ser boa gente. ALQUIMIA – E com relação aos diretores que você já trabalhou, a relação depois ultrapassa o caráter profissional e acaba indo para o pessoal? Qual seu diretor preferido? Cris D’amato - Ah, eu sou amiga de todos os diretores que trabalhei, tanto é que voltei a fazer filme com todos eles. Mas eu sou fã do João Falcão, da Carla Camurati e sou muito fã do Daniel Filho, ele foi o diretor que me deu a oportunidade de dirigir. Eu me tornei diretora porque eu tive o apoio dele. É uma

Cris D’amato – Eu acho muito positivo, está indo de vento em polpa. Com ótimas produções e bem diversificado, tem a comédia, tem o lugar do drama, da aventura. Bom, até hoje eu vive de cinema, só de pouco tempo para cá que tem também a televisão. Eu nunca fiquei desempregada, e sempre trabalhando com cinema. Se você se empenha, rala, você está sempre sendo chamado para trabalhos. Já neguei trabalhar em muitos filmes porque estava trabalhando em outros, sempre fui emendando um trabalho com outro, meus filhos reclamam muito de mim por essa questão de férias, mas eu sempre tive medo de parar e ficar desempregada. ALQUIMIA – Por que você acha que o cinema ainda atrai tanta gente, com a possibilidade de ver tudo muitas vezes sem custo na internet? E o que um filme precisa para ser um estouro? Cris D’amato – Cinema tem aquele escuro, telão, os atores ficam do tamanho de uma parede, aquele som. É o clima e a dimensão mesmo. Eu não me importo de ninguém ver filme na internet, porque eu acho que nunca a internet vai ganhar do cinemão. Agora para o filme realmente decolar é preciso sorte (risos). É preciso uma conjunção, bom roteiro, bons atores, é sorte de combinar isso tudo...

“Eu costumo dizer que qualquer um pode ser um bom diretor. Se você tem um bom roteiro e dinheiro, você pode fazer um bom filme, mesmo que você não tenha feito quase nada em cinema”

“Agora eu escolho o que eu quero. Como assistente você faz o que o diretor escolhe”

“O clima nos meus sets de filmagem são ótimos, a gente ri muito, porque eu trabalho com prazer”

“Roteiro é um dom, acho que eu não saberia escrever um de cabo a rabo. Outra coisa que eu adoraria era ser câmera e fazer as minhas tomadas do jeito que eu imagino a cena”

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Cinema e gastronomia:

papo de cozinha

Clássicos em cena!

“V

atel - um banquete para o rei” é um filme obrigatório para os amantes da gastronomia e do cinema. Com fotografias belíssimas, imagens de dar água na boca e uma cultura fantástica dos tempos do império francês, “Vatel” é baseado em fatos reais e vai te prender do início ao fim.

A brasileiríssima feijoada

Título original: Vatel Lançamento: 2000 (França) Direção: Roland Joffé Elenco: Gérard Depardieu, Uma Thurman, Tim Roth, Julian Glover. Duração/Gênero: 119 min/Drama

O

prato símbolo e mais tradicional da gastronomia brasileira tem sua origem recheada de mitos. Afinal de contas, quem nunca ouviu dizer que feijoada era comida de escravos e que foi criada dentro das senzalas do Brasil colônia?

Chef de cozinha e consultor gastronômico, jornalista e apresentador de televisão. Estuda mestrado em Sociologia e tem pós-graduação em Alta gastronomia.

Feijões brancos, favas e grão de bico guarnecem o cozido português; o puchero é substancioso cozido espanhol; tem ainda o delicioso cassoulet da cozinha francesa. Todos eles utilizando de orelhas, rabos, línguas, pés, miúdos e vísceras de porco. Iguarias nobres, desde sempre muito apreciadas e valorizadas pelos europeus, que jamais desprezariam ou as utilizariam na alimentação de escravos. Recortes de jornal do final do século XIX revelam que no subúrbio carioca, o restaurante G Lobo, foi o primeiro a servir feijoada, com nome e receita já bem definida. E foram os cariocas, uma clientela inicialmente formada por estudantes, escritores e boêmios que promoveram e divulgaram esse prato já na metade do século XX. Hoje, a feijoada é mais do que uma simples iguaria da gastronomia brasileira, é um produto cultural da soma dos processos de construção da identidade do brasileiro. E é na mesa, na panela de barro, acompanhada de arroz branco, farinha, couve e laranja cortada em rodelas, que a brasileiríssima feijoada brinca com a história da gastronomia, dos costumes e hábitos alimentares do povo brasileiro.

Um drink a dois Kyr Royal - 1 dose de licor de Cassis - Espumante FOTOS: DIVULGAÇÃO

| Fábio Cunha

É 1671, o príncipe de Condé (Julian Glover), enterrado em dívidas, planeja uma solução para livrar-se a si e sua província das dívidas: decide convidar o rei Luís XIV (Julian Sands) para passar um final de semana recheado de iguarias. Se o príncipe conseguir cair nas graças do rei, toda a região será salva do desastre econônico. Apenas um homem poderá preparar um banquete a altura: François Vatel, o mordomo do príncipe. Mas, em meio ao trabalho, Vatel se apaixona pela bela Anne de Montausier (Uma Thurman), o que atrapalha os planos do Príncipe de Condé.

Mito, romance ou licença poética, tudo é válido para contextualizar a criação da rainha absoluta da mesa dos brasileiros, mas o que poucos sabem é que a brasileiríssima feijoada descende dos cozidos típicos da cozinha europeia.

Modo de preparo: Coloque uma dose de licor de cassis numa taça e complete com espumante.

O

verão no litoral do nordeste brasileiro é sempre muito sensual. Praias lotadas, sol forte, coqueiros, sobra e “bons drinks”. Homens e mulheres desfilam seus corpos malhados e bronzeados pelo sol dourado dos trópicos. O clima de conquista está sempre no ar, e tudo fica mais mágico quando rola aquele romance de verão. O cenário paradisíaco torna todos os momentos extraordinários para sedução, e não há nada melhor do que a paquera, a troca de olhares e a emoção da conquista. E para criar um clima delicioso, que tal o convite para um drink a dois? A sugestão é Kyr Royal, um drink que harmoniza o frescor e a elegância do espumante, com o sabor adocicado e romântico do Cassis. O efeito afrodisíaco da bebida está intrinsecamente ligado aos sentidos, e o lúdico é a principal ferramenta para o sucesso da conquista. Tim-tim...

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Prato tradicional de Natal é o mais procurado entre turistas que visitam a praia da Redinha

Ginga

com

Tapioca

na

Terra do s o l H

á cerca de 50 anos, um pescador cansado de ver milhares de pequenos peixes serem abandonados na praia teve a ideia de recolher alguns, tratá-los e temperá-los. Em seguida, espetou-os em um palito de coqueiro, fritou no azeite de dendê e os envolveu em uma tapioca. O resultado foi a criação da ginga com tapioca, um dos pratos mais famosos e apreciados pelos potiguares e turistas que visitam Natal.

Isabelle Lourenço isadr_sousa@hotmail.com facebook.com/isadr.sousa

A iguaria é tradicionalmente vendida no antigo Mercado Público da praia da Redinha, localizada no litoral norte do Estado. Quem nunca provou desconfia do sabor, mas quem experimenta o peixe crocante, dentro da tapioca fina e saborosa, tem uma grata surpresa. A mistura agrada o paladar de muitos, sejam moradores da região ou visitantes de outras partes do país e do exterior.

A ex-cabeleireira Cícera Nascimento trabalha há 22 anos no box 12, herança da família de seu marido. Nascida e criada no bairro da Redinha, desde pequena lembra os peixes miúdos sendo atirados no lixo ou abandonados na areia da praia pelos pescadores. “Hoje, a ginga é bem valorizada. Tem semana que chego a comprar o quilo por R$ 15”. Com habilidade, dona Cícera toma as rédeas do fogão para nos mostrar como se faz ginga com tapioca. Enquanto retira os peixes da geladeira e os envolve na farinha de rosca, ela conta que na alta estação existem muitos turistas para atender, mas não é o suficiente para o sustento de todos os vendedores. “Dependemos

sempre da população local, o ‘povão’ está sempre no Mercado”. Também conhecida como manjuba ou manjubinha, as gingas são colocadas para fritar no azeite de dendê, ao mesmo tempo em que a cozinheira começa a peneirar a goma com coco para fazer a tapioca. A ex-cabeleireira conta que tomou sozinha o comando do box 12 após a morte de seu marido, há 11 anos. “Apesar das dificuldades, não voltaria a trabalhar no meu antigo emprego. Tenho muito orgulho em administrar algo que é meu. O retorno de todo o esforço é maior do que quando se trabalha para outros”.

“Tenho muito orgulho em administrar algo que é meu. O retorno de todo o esforço é maior do que quando se trabalha para outros”

Há quem diga que vir à Redinha e não comer ginga com tapioca, é como ir às feiras livres de São Paulo e não comer pastel. Por ser muito frequentada pelos moradores da região, a dica para quem prefere degustar o prato com calma, apreciando a vista, é visitar o Mercado durante a semana. Faça chuva ou faça sol, a partir da sexta-feira o lugar está sempre lotado. FOTOS: ISABELLE LOURENÇO

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Combinação perfeita da tapioca recheada com a ginga depois de frita

Ginga na farinha de rosca para fritar no azeite de dendê

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que, para mim, são inigualáveis”.

Em menos de dez minutos a tapioca é retirada da panela para envolver a ginga no famoso “sanduíche” e pronto para ir à mesa. “Temos peixes de vários tamanhos por aqui, mas se não tiver a ginga, o pessoal vai embora. Quem chega e senta, procura imediatamente a ginga com tapioca. Não procura outros pratos”, afirma dona Cícera. Ela diz ainda que, às vezes, chega a vender cerca de 100 pratos por dia.

“Temos peixes de vários tamanhos por aqui, mas se não tiver a ginga, o pessoal vai embora

A colônia Banhada pelo Rio Pontegi e pelo oceano Atlântico, repleta de casas simples e bares rústicos, assim se caracteriza a Praia da Redinha. A antiga vila de pescadores foi, por muitos anos, o único destino de veraneio dos natalenses, que para chegar ao local precisavam atravessar o Potengi com uma balsa, que saía da rua principal de um dos bairros mais antigos de Natal, a Ribeira.

A exemplo de muitos natalenses, Genilson Emiliano Soares criou o hábito de degustar o prato. Apesar de ser morador da zona sul de Natal, há muitos anos frequenta a Redinha em busca de tranquilidade, lazer e boa comida. “O que mais me atrai é a receptividade das pessoas. Tanto os turistas quanto os potiguares são tratados muito bem por todos do Mercado. Além das belezas naturais

Não se sabe ao certo a origem do nome Redinha. No entanto, a tese mais difundida é de que a nomenclatura teve origem nas pequenas redes usadas pelos pescadores da região e que, após a pescaria, ficavam expostas próxima à praia. No entanto, segundo o historiador po-

1. Dona Cícera chega a vender 100 pratos de ginga com tapioca num único dia.

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tiguar Câmara Cascudo, o nome foi trazido pelos colonizadores portugueses, que deram à vila o mesmo nome de certa região de Portugal. Igreja de pedras Outro ponto turístico da praia é a capela feita de pedras de Nossa Senhora dos Navegantes. A história que envolve a criação da igreja data do início da colonização do lugar. Na época, alguns pescadores se encontravam em um navio prestes a naufragar. Como única saída para tentar sobreviver, eles resolveram jogar ao mar tudo que havia dentro do barco para torná-lo mais leve. Apenas uma imagem de Nossa Senhora foi preservada. Os pescadores fizeram uma promessa: caso sobrevivessem, colocariam a estátua da Santa em terra firme. A imagem passou a se chamar Nossa Senhora dos Nave-

2. Capela de Nossa Senhora dos Navegantes, padroeira da Redinha.

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gantes, por ser a protetora dos pescadores, tornando-se padroeira da então colônia Redinha. No ano de 1924, foi construída a primeira capela que homenageia a Santa, dando início aos festejos religiosos a cada último domingo de Janeiro. Somente em 1954, alguns veranistas da colônia sentiram a necessidade de construir um templo maior, tendo em vista o número crescente de pessoas na região. Para a estrutura da nova igreja, foram trazidas pedras dos arrecifes, retiradas pela própria população. Depois de conhecer um pouco mais sobre a Redinha, quando visitar Natal, não deixe de ir a essa praia e provar a Ginga com Tapioca. É um sabor inesquecível, marca registrada de um povo acolhedor, apaixonado pelo lugar.

“O que mais me atrai é a receptividade das pessoas. Tanto os turistas quanto os potiguares são tratados muito bem por todos

3. Ponte Newton Navarro é vista principal de quem vai à Redinha, se deliciar com a ginga.

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convergencia midiatica Jornalismo Impresso em tempos de

Arthur Rocha arthurd.oliveira@hotmail.com facebook.com/arthurrocha007

O progresso tecnológico transforma todo o planeta, reduzindoo às proporções de uma aldeia. Esse pensamento de aldeia global é de Marshall McLuhan, mas os efeitos práticos podem ser percebidos por qualquer um que habite a superfície terrestre. Em tempos de convergência na comunicação, proporcionado pela tecnologia, as novas mídias funcionam como laços que unem quaisquer pontos do planeta, nos fazendo habitantes dessa aldeia. Nesse contexto, desenvolve-se a cibecultura, uma cultura de convergência, em que tudo parece ser compartilhado, compactado, enviado, visualizado e postado. A cultura da convergência tem mudando completamente a forma de se enxergar, planejar e executar a produção de conteúdo para mídias tradicionais, chamadas mass media. No entanto, alguns veículos de comunicação ainda permanecem com uma venda nos olhos. Um exemplo concreto dessa cibercultura foi documentado pela antropóloga Mizuko Ito. A pesquisadora estudou o papel crescente que o celular tem assumido na juventude japonesa, como no caso de casais que moram distantes um do outro, se veem pessoalmente umas poucas vezes ao mês, mas mantém contato diário, várias vezes ao longo do dia através das tecnologias móveis. Para isso, há um termo denominado telecocooning, que seria usar a comunicação móvel e as novas tecnologias para manter contato virtual em detrimento do contato pessoal, humano, material.

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A internet pode ser considerada intrínseca a este processo de cibercultura. E o celular pode ser visto como intrínseco ao processo de cultura da convergência. Estimase que haja um bilhão de pessoas usando as mídias sociais e uma estimativa de cinco bilhões de telefones celulares em uso no mundo inteiro (World Bank, 2011 apud PAVLIK, 2011). Hoje, se qualquer um de nós for até uma loja de celulares procurando um aparelho com função única de telefone certamente se decepcionará. Os celulares fabricados e vendidos hoje são multimidiáticos. Convergem diversas mídias dentro de si próprios – TV, rádio, internet, telefonia, SMS, vídeos. Diante das novas tecnologias midiáticas, as quais permitiram que o mesmo conteúdo flua por vários canais diferentes e assuma formas distintas até chegar ao receptor, e com todo o aparato high tec no qual estamos imersos atualmente, como fica o processo produtivo da informação nos veículos impressos? A resposta para está pergunta é: mal planejados e mal executados. Falar em jornalismo impresso versus jornalismo online é mito. É o mesmo que falar em TV versus rádio ou impresso versus TV. A dimensão digital aparece como mais uma alternativa, e não como excludente ou destruidora das mídias que a precedeu e que permanecem existindo. Trata-se de segmentos diferentes. O problema é que as empresas não veem dessa forma e fazem jornalismo impresso no papel e jornalismo impresso

na internet. Ai sim, de fato, passa a existir um embate. Quando a TV chegou ao Brasil na década de 1950, muito se falou no fim do rádio, mas ele existe até hoje - 63 anos depois - e cumpre seu papel na mídia, só precisou redescobrir que papel seria este. A onipresente internet banda larga, 3G e wifi, além da tecnologia móvel sofisticada, proporcionou aos consumidores o acesso à mídia noticiosa e de entretenimento em um ambiente digital que está sempre disponível e no qual os jornais analógicos e outras mídias tradicionais têm um papel muito reduzido. Essa é uma das vantagens que a mídia digital possuiu. Mas o impresso também possui as suas: a tradição, o público consolidado, a possibilidade de maior imersão e o toque orgânico. A situação crítica dos impressos, que faz muitos pensarem ou preverem sua extinção, se dá por um processo em cadeia. As novas mídias chegaram junto com o desenvolvimento das novas tecnologias de comunicação, contribuindo para esse cenário de aldeia global. Contudo, diferente do que aconteceu com a disseminação do rádio nos anos 1920 e da TV em 1950, a internet alavancou usuários numa velocidade meteórica. Em decorrência desse frenesi high tec que se vive no século XXI, os meios de comunicação impressa não tiveram tempo cômodo para se replanejarem e reconfigurarem suas estratégias e seu processo produtivo. Sem tempo para tal e não querendo parecer ultrapassado, o impresso foi jogado na tela do computador, a fim de alcançar uma nova dimen-

são que emerge com a digitalização do simbólico e sua circulação através da rede mundial de computadores, famosa World Wide Web. Isso fez os leitores assíduos dos jornais ficarem divididos entre os dois suportes. Percebendo a queda de público dos impressos e para atingir o novo segmento, tão promissor e infinito da internet, a publicidade migrou em larga escala para o online. Os anunciantes fugiram das mídias tradicionais para colocar suas verbas destinadas a anúncios em mídias novas e de maior alcance, já que a tiragem de um periódico na internet não tem limites. A receita de anúncios da Google alcançou US$ 8,44 bilhões em 2010 (Google, 2011) enquanto a Yahoo! Teve, no mesmo ano, US$ 1,9 bilhões em receitas de anúncios (Shields, 2011) e o Facebook ultrapassou US$ 1,86 bilhões (O´Dell, 2011). Em consequência, os jornais assistiram à queda dramática nas suas receitas anuais de anúncios. Os dados são de sites norteamericanos, mas semelhante a isso acontece no Brasil. Até agosto de 2011, cerca de 28 milhões de iPads foram vendidos nos EUA (PAVLIK, 2011) e outros tantos milhões ao redor do mundo. O aumento atual de tablets e de outras tecnologias móveis estimulou a atividade empresarial no mundo jornalístico. Tais mídias permitem o que chamamos de notícias sob medida. O conteúdo é cada vez mais personalizado e isso jamais poderá ser feito – avaliandose custos – nos jornais impressos. A Internet e a mídia móvel estão

em crescente aumento como fontes diárias de notícia, especialmente para os jovens. Estas fontes são muitas vezes apenas agregadoras ou retransmissoras de notícias produzidas originalmente por outros fornecedores tradicionais de notícias, como as agências de comunicação e impressos, o que prova como meios tradicionais podem ter lugar no mercado. É preciso replanejar, reconfigurar e passar a executar o jornalismo de outra forma, com outro olhar. O mesmo vale para o profissional. Quando a TV chegou ao Brasil, não era TV propriamente dita que havia ali, era o rádio noutro suporte, era o rádio com imagens e o mesmo se deu com os profissionais, eram radialistas na TV. E a televisão se reconfigurou totalmente, com a novidade do VT, com a chegada das cores, com a high definition e com a TV digital. As empresas de jornal impresso que tiverem portais, como hoje em dia acontece, terão de fazer jornalismo para o impresso e jornalismo para a internet como produtos diferentes, sem subestimar o receptor. O jornalismo na internet deve ser visto como outro segmento, um nicho com especificidades. E a tendência é que muitas empresas fechem as portas, outras acabem com suas edições impressas, mas haverá as que deixarão de ser um jornal impresso para serem uma empresa de comunicação. O editor do The New York Times, Arthur Sulzberger Jr., afirmou que o The New York Times não é um jornal, mas uma empresa de informações, e isso reflete o crescimento do The Times na Internet.

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Olhaê, o jarro! Ênio riu baixinho quando viu, nas atualizações do Facebook, que um amigo – na verdade mal falava com Jorge, mas nessas redes sociais todo mundo é adicionado como amigo - havia curtido a fanpage “Home do jarro”. Ele estranhou, passou o mouse para rever a atualização e se certificar de que sua vista não lhe pregava uma peça, mas era isso mesmo “Home do jarro”. Não contou conversa e abriu a tal fanpage numa nova aba.

Arthur Rocha arthurd.oliveira@hotmail.com facebook.com/arthurrocha007

Foi ai que o queixo de Ênio foi mais fundo que o chão. A página já estava com quase 300 mil curtidas e ele não entendia o motivo para tal. Só pode ser mais um desses perfis de humor que todo mundo sai compartilhando freneticamente, no mesmo ritmo em que vai lendo cada postagem e se rasgando de rir, chega fica de boca mole. Mais um para virar febre na internet, do tipo Irmã Zuleide, Katilene, Cleycianne, Bode gaiato, Gina indelicada, qualquer coisa da depressão, e por ai vai... Nada disso... a página era séria, nada de piadas religiosas, travestis, ungidas, regionalistas, indelicadas ou depressivas. Tinha até uma descrição com link para o site próprio do “Home do jarro” e é óbvio que Ênio foi lá e clicou. O site tinha um logo no canto de cima, um banner colorido com umas modelos magérrimas posando com vasos de cerâmica, outros de barro... Mais em baixo, uma sequência que parecia infinita, quando Ênio deslizou por quase meia hora (ou pelo menos foi a impressão que deu) a barra de rolagem vertical... Era uma sequência de produtos do “Home do jarro”. Vale ressaltar também a informação “frete grátis para todo o Brasil” em vermelho e amarelo-marca-texto que gritava aos olhos e parecia uma daquelas pop ups chatas de propaganda que ficam aparecendo nos sites para atrapalhar a vida de qualquer internauta. Ênio ainda não estava convencido, mas toda a resistência escorreu pelo ralo quando leu o slogan: “Olhaê o jarro”. Nesse momento, como naquelas cenas de flashback dos filmes, vieram à tona inúmeras lembranças – em sépia - da época em que Ênio morava com os pais e dois irmãos mais velhos no subúrbio. “Oooo-lha-êêê o jaaarro”, ele ouvia toda manhã, quando estava se arrumando para o colégio. Várias vezes largava a mãe com a farda da escolinha na mão e corria para a varanda do apartamento só de cueca na tentativa de ver quem gritava da rua.

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Foi surpreendente! O comerciante que arrastava pelas ruas do subúrbio uma carroça com um monte de entulho/produtos gritando aos quatro ventos “olhaê o jarro”, agora era um empresário com site próprio, produtos catalogados, redes sociais ativas, fotos dos eventos da empresa no Instagram, virais rolando solto na internet, canal no Youtube e entrega de jarros - com frete grátis - para todo o Brasil! Jarros do “Home do jarro” agora enfeitavam as casa de paulistas, ornavam jardins gaúchos, embelezavam o quintal de alagoanos e abrilhantavam varandas e sobrados na Bahia. Ênio resolveu fazer cadastro no site. Digitou aquele mundo de informações pessoais que esses cadastros sempre solicitam. Ai depois foi passeando a vista pelas categorias dos produtos na webpage: “barro”; “cerâmica”; “porcelana”; “vidro”; “cristal”... voltou os olhos. Até jarro de cristal?! Curioso que só ele, deu um clique e abriu trocentros vasos de cristal. O olho ficava mais esbugalhado a cada vaso que Ênio constatava o preço: R$600; R$800; R$2 mil; $3.500; R$10mil... tinha jarro ornado com pedrarias, gemas preciosas e semi-preciosas, uns com ouro e prata tão vistosos que escorriam quilates pela tela do computador. Ênio parecia que estava querendo testar o “home do jarro”. Procurou um jarrinho de porte microscópico feito de argila, que era para não gastar dinheiro sem necessidade. Queria ver se o produto chegava no prazo, como era a facilidade da compra e aquelas coisas todas que as empresas colocam nas pesquisas de opinião com seus clientes. Pedido feito, o prazo de entrega era de cinco dias úteis. Ênio já se roía de ansiedade. Teve de desembolsar 35 conto no danado do jarro, mas ao menos o frete era grátis – esse “Home do jarro” sabe como persuadir o cliente. De cortesia, a empresa ainda enviava junto ao pedido um sachê com sementes de plantas típicas do endereço de entrega – fazendo a linha do marketing ecológico. Quatro dias depois, Ênio se surpreende com o carteiro na sua porta. Abriu o pacote ali mesmo, retirou o jarro de argila e leu, num embrulhinho que o acompanhava, “Chanana”. Não demorou muito, notou também um papel dobrado dentro do jarrinho: “Olá Ênio, quanto tempo, não tinha ideia de onde você estava. Meus pêsames por sua mãe. Mas ela me comprou um vaso fiado que está pendurado desde 94, quando eu ainda anotava os devedor num bloquinho velho de bolso. Lembro de você curioso me olhando pela varanda, espero que quite esta divida. Atenciosamente, Home do jarro”. [A produção desta crônica contou com patrocínio cultural do “Home do jarro”, curta você também a fanpage facebook.com/homedojarro e acesse www.homedojarro.com]

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FOTOS: RAFAELA BATISTA WILSA SANTOS

Encravada na Costa Branca, a cidade atrai pela paisagem singular propiciada pelo produto que move a economia local: o sal

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Nas pirâmides de Macau

erras de belezas naturais e fonte de extração salineira, Macau é famosa por sua atmosfera acolhedora, praias agradáveis e carnaval de trios elétricos, que arrastam a população local e visitantes pelas ruas, enquanto se sujam de mel no tradicional “mela-mela”.

Quem chega à cidade se depara com um grande moinho dando boas-vindas, e compondo uma paisagem típica do município, as salinas, fonte de desenvolvimento da economia macauense.

Assim pode-se definir esta cidade que fica a 180 km da capital norte-rio-grandense, Natal. Com 29 mil habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Macau possui solo do qual brota petróleo, e vegetação de caatinga e carnaubal.

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Isabelle Lourenço isadr_sousa@hotmail.com facebook.com/isadr.sousa

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nome, é uma corruptela da palavra chinesa A-ma-ngao, que significa “Abrigo ou Porto da Ama”, deusa dos navegantes, o que findou em Amacau ou Macau. Na verdade, a denominação é uma alusão à cidade homônima localizada na China e que foi administrada pelos portugueses até 1999, quando foi entregue ao governo chinês.

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A Macau brasileira tem suas origens no início do século XIX, quando ainda era conhecida por ilha de Manoel Gonçalves. Na época, era habitada por portugueses dedicados à exploração e comércio do sal. Em 1829, tornou-se impossível a permanência esses habitantes na ilha devido aos avanços das águas do mar. Decidiram então, transferir-se para a ilha de Alagamar, na foz do rio Açu-Piranhas. Em 1847, a povoação tornou-se vila, desmembrando-se do município de Angicos. Finalmente, em 1875, foi elevada à categoria de cidade. No início, a retirada do sal era uma atividade artesanal, e sua comercialização, feita em embarcações rudimentares. A melhoria na negociação do sal extraído modificou a forma como a produção era

escoada, que passo a ser feita por navios de propriedade de empresas maiores. Hoje, a economia local ainda tem como base a extração de sal. Mais de 90% da produção nacional do mineral concentra-se no Rio Grande do Norte, sendo Macau considerada a maior produtora do país, possuindo alto nível de qualidade e pureza. Em média, são extraídas cinco milhões de toneladas do produto por ano. Além do sal, o município também é responsável pela produção de petróleo e pescados, caracterizando-se como um dos maiores produtores nacionais de sardinha. Pra turista ver Macau localiza-se na região Costa Branca, que possui esse nome

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por causa das dunas e montanhas de sal que fazem parte da paisagem. De acordo com o site do Governo Federal, essa faixa litorânea se estende até a divisa com o Ceará. O local é propício à prática de esportes náuticos, devido à presença de ventos constantes. Sua geografia também possibilita que sejam feitas trilhas ecológicas e atividades de aventura com carros. Os pratos principais da culinária são feitos à base de lagosta e camarões, abundantes na região. Considerada um dos maiores produtores mundiais de sal, a cidade é cenário das pirâmides que se formam com a substância e desenham uma paisagem única às margens do rio e do mar. Macau ainda conta com ilhas, praias e rios de águas calmas. Entre as que recebem maior visitação estão a praia de Camapum, a 3 km da cidade, e a de Dio-

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go Lopes, localizada na Ilha do Tubarão, um ambiente ainda pouco explorado, cercado por vegetação nativa. Outro ponto de visitação turística é o obelisco erguido em comemoração ao 1º centenário da Independência do Brasil, na Praça da Conceição, cercado por casarões históricos que remontam aos tempos de fundação do lugar. Macau também é famosa por seus festejos culturais, tais como o carnaval de rua com o tradicional mela-mela, que atrai cerca de 100 mil pessoas à região e se caracteriza como um dos maiores carnavais do Rio Grande do Norte. Existe também a Festa do Sal, realizada durante uma semana de setembro, a festa de Nossa Senhora da Conceição, padroeira do lugar, e de Nossa Senhora dos Navegantes, homenageada pelos pescadores nativos da região.

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Já é ou já era? e aí,

A Isabelle Lourenço isadr_sousa@hotmail.com facebook.com/isadr.sousa

pimentar a relação sexual é uma alternativa que muitos casais utilizam para não deixar a rotina esfriar o relacionamento. Óleo de massagem que esquenta ou esfria, jogos de streaptease, dados com posições do Kama Sutra e fantasias eróticas, podem ser uma boa para quem busca novidades entre quatro paredes.

Esteja com o parceiro ou sozinha, ter à mão produtos como esses fazem diferença na busca pelo prazer. E o local perfeito para encontrar tais “brinquedinhos” sexuais são as conhecidas sex shops. Quem pensa que lojas de artigos sexuais vendem apenas vibradores com formatos penianos, fantasias, algemas e chicotes, nunca se deu a chance de conhecer mais de perto todas as opções que essas lojas oferecem. Cada vez mais o mercado de artigos sexuais se amplia e renova sua diversidade de produtos e serviços. A Exclusive Sex Boutique é um exemplo de loja onde qualquer pessoa pode encontrar algo que se sinta à vontade para usar. Os produtos vão desde lubrificantes com aromas, energéticos excitantes, vibradores líquidos ou com formato de batom, até artigos mais ousados. O casal pode encontrar o que mais se adapta ao seu estilo. A Exclusive Sex Boutique existe há sete anos em Natal, mas no último mês passou por uma mudança na administração. Quem está à frente do negócio é a produtora de eventos Railene Dantas, em parceria com a amiga Marta Costa. “Eu sempre convivi com o mundo da sex shop, por causa do meu ex-marido, antigo dono da loja, mas nunca administrei. Pensei que seria uma boa, pois o mercado de sex shop

FOTOS: ISABELLE LOURENÇO

“Hoje, as sex shops tem produtos para todos os níveis de erotismo”, diz Railene Dantas. 76

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Gel de massagem, óleos e lubrificantes comestíveis estão entre os produtos mais vendidos

Algemas são fetiche para os que curtem sadomasoquismo

na cidade ainda é bem restrito, mas possui um público alvo bem amplo”, conta Railene. Segundo a proprietária, a Exclusive Sex Boutique pretende ainda focar em lingeries, fantasias e acessórios ligados ao erotismo. “Muita gente ainda limita as sex shops à próteses penianas, mas queremos mostrar que não é só isso. Temos bolas com gel aromático que estouram no momento da penetração, e auxiliam mulheres que possuem pouca lubrificação. Jogos de baralho, vibradores líquidos, energético para aumentar a libido, enfim, qualquer pessoa pode encontrar um produto que ache interessante em usar sozinha ou com o parceiro”, analisa.

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cos e vencer a barreira da timidez, é as vendas online ou a entrega em domicílio. Existem sites especializados que entregam os produtos no endereço indicado, e empresas que vão até as casas dos clientes levando seus mostruários. Railene conta que recebe inúmeras ligações de procura por esse tipo de serviço, mas por estar em fase inicial, ainda precisa planejar e organizar a viabilidade. “No momento, estamos produzindo um catálogo, para divulgar nossos produtos online, via fan page no Facebook. Acredito muito na internet como poderoso meio de divulgação e venda dos nossos produtos”, conta. NAS PRATELEIRAS

Apesar da curiosidade e imaginação por trás dos produtos eróticos, ainda existe medo e preconceito em frequentar lojas de artigos sexuais. “Esse é o ponto negativo no nosso negócio. As pessoas ainda têm receio de entrar, com medo do que outras vão pensar. Mas se elas quebram a barreira e conhecem, não saem da loja sem levar algum produto”, diz a proprietária.

O “mundo dos prazeres”, como é chamada internamente a loja, está em fase de reestruturação, mas já oferece produtos novos no mercado. As linhas para massagem corporal com aromas e sabores são diversas, com destaque para a vela que, ao derreter, sua cera vira um creme massageador comestível, esquentando a pele de forma suave.

Uma saída utilizada pelas sex shops para atender a todos os públi-

Para quem sonha em voltar a ser virgem sem intervenções cirúrgi-

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Diversidade de artigos eróticos atrai público de várias idades

cas, a sugestão é um adstringente em gel aplicado de 15 a 20 minutos antes da relação sexual. Ele possui o efeito de estreitar o canal vaginal, proporcionando a sensação da primeira vez feminina. O spray Oriental é uma ótima opção para homens e mulheres. Considerado “3 em 1”, o líquido tem o poder de prolongar a ereção masculina, contribuir no prazer feminino proporcionando um aquecimento no canal vaginal, e ainda diminuir incômodos durante o sexo anal. Existem ainda as bolas de Pompuar para trabalhar a musculatura vaginal e anal. O Pompuarismo é uma técnica milenar, desenvolvida para diminuir a cólica menstrual e auxiliar durante o parto. No ato sexual, a mulher tem a capacidade de retardar a ereção masculina, prolongando assim o tempo de penetração. Sem medo do prazer Há quem tenha preconceito e vergonha de frequentar sex shop, não é o caso da bancária Fabrícia Pantoja. A jovem de 29 anos conta que sempre gostou de experimentar produtos eróticos, sozinha ou com seu parceiro. “Quando fui conhecer de perto uma sex shop foi apenas por curiosidade. Agora vou sempre, seja por sugestão de amigas sobre algum produto ou só para saber se chegou novidade”, conta Fabrícia. 80

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Spray líquidos e em gel proporcionam diferentes sensações para a mulher e para o homem

A cliente assumida, conta que se sente bem ao utilizar uma lingerie ou fantasia, e que sempre busca a novidade para seu relacionamento. “Estou sempre procurando novos “brinquedinhos”, mas com meu parceiro os utilizo esporadicamente, pois ele não é tão interessado, e eu o respeito, afinal estamos numa relação de mão dupla”, disse. Um vibrador pequeno, porém potente, é o que, segundo Fabrícia, toda mulher deveria ter. Ela indica também gel refrescante e sprays que vibram. “Esses produtos proporcionam sensações excelentes e são indicados para mulher ou para o homem utilizar sozinho e com seus parceiros”, diz Fabrícia. Para a bancária, utilizar ou não produtos eróticos não significa mais ou menos prazer, o importante é se sentir bem consigo e passar esse sentimento na relação à dois. “Existem casais que não gostam de usar nada e sentem prazer da mesma forma. O que vale mesmo é ser feliz”, analisa. A dica final é colocar de lado os preconceitos e conhecer ao menos uma vez os produtos que as sex shops tem para oferecer. “Acho muito válido que homens e mulheres tenha algum contato com esse mundo. Com a variedade de artigos, com certeza você encontra algo que lhe agrade e se encaixe com seu perfil. A pessoa pode ainda se descobrir, ou simplesmente se divertir”, avalia Fabrícia. Ago - Set - Out 2013

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Alquimia revista #1  

Primeira edição de "Alquimia revista", uma publicação digital sobre Cultura, Arte e Entretenimento, destinada a um público de jovens adultos...