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DISCÍPULOS DO SILÊNCIO (FICÇÃO/ROMANCE)

ARTHUR DUTRA

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Quanto mais esquecido de si mesmo estรก quem escuta tanto mais fundo se grava nele a coisa escutada Walter Benjamin


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O Senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais. Guimarães Rosa


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1- Apresentação Desejo declarar antes que seja tarde: sou solteiro. Acima de tudo: não tive filhos. Em lugar deles sempre tive o receio de que, se transmitisse meu legado a outros seres, terminaria por usá-los como uma aliviada satisfação a todo sentimento ruim que carrego no peito, de modo que não mais me espantaria a indiferença que ainda sinto pelas centenas de anônimos que cruzam o meu caminho diariamente, carregando nas vistas as suas desventuras e tentando, de algum escuso jeito, inculcar em minha mente um humanismo universal cujo programa nunca passou na Televisão (assim mesmo, com “T” maiúsculo) e, portanto, nunca fez grande sucesso desde que eu cheguei à terra (assim mesmo, com “t” minúsculo) na penúltima década do século passado. Os trinta anos vividos desde 2000 provam a maturidade deste século que, por si só, já obtivera a mega maioridade junto aos pesos pesados do tempo contado para frente da história da humanidade. O quero dizer com isso, meus caros, é que quando falamos do nosso Mundo não tratamos mais da criancinha irresponsável que não podia responder legalmente pelos crimes que cometia. E se até agora a terra não demonstrou o discernimento necessário para estimular a cooperação entre os povos, que não seja a internet, esta sim uma recém alfabetizada, que tenha a obrigação de fazê-lo. Não quero me tornar um nepotista de sentimentos. Por isso não tive filhos. Não desejo travestir a minha indiferença para com milhões e milhões de seres humanos com um sentimento parco e exclusivista por uma ou duas pessoinhassangue-do-meu-sangue. Tampouco pretendo disfarçar a verdade que com algum custo trago em mim, de que todos estes indivíduos próximos ou mais ou menos distantes que rondam a minha vida – alguns dos quais reconheço as faces e chamo de „amigos‟ – não são nada mais que competidores para mim. Vejo-os como termômetros do meu sucesso, que posso fazer? Por tudo isso não só não me ofendi como, em verdade, senti-me aliviado (e muito) com todas as manifestações de desprezo recebidas por ocasião da divulgação desta história. Pensei: „ufa, ainda bem que não sou o único a levar um medidor de auto-estima pregado na testa. Que bom que há outros como eu que, tendo vivido por


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quase meio século e emitido opiniões sobre as mais diversas pessoas e assuntos, não deixaram, num só instante, de falar de si mesmos‟. Para estes e outros „amigos‟, portanto, que fique claro: ao decidir escrever a minha história, nunca cogitei realizar um „grande feito‟. Absolutamente. Nunca tive pretensões tais como as do filósofo alemão que Ana Selma – esposa de meu amigo Andy – citou, de „escovar a história a contrapelo‟. Muito pelo contrário... Muito pelo contrário, Ana Selma. Nem mesmo conhecia o tal filósofo, ignoro toda teoria; não posso ter fracassado em algo que não pretendi fazer... O único momento em que tive ambições literárias em toda a minha vida foi no colégio, quando escrevi um poeminha que, em homenagem às músicas de Márcia, batizei de Teatro da Canção. Começava assim:

Cidades, seus nomes, Mapas e cores, Cenários: hangares pros mares, Amores suas cenas, pinturas, poemas Serão Flores do Mal em Atenas?

Saudade, suas juras De amores sem cura Esquinas incontáveis Contam mil segredos Relevam seus espantos Revelam mais enredos (...)

Um único instante de interesse literário esse em que, ao entregar a Márcia uma cópia do Teatro, esperava que ela reagisse com certo entusiasmo, ou que reconhecesse alguma sensibilidade especial em mim. Lera e relera o poema inúmeras vezes, concluindo que havia criado algo tão bom ou melhor do que as letras de suas músicas, mas nos dias que se seguiram só o que colhi de Márcia foi o silêncio. Nenhum olhar complacente, nenhum „parabéns, gostei do poema‟, dito em nome da surpresa do encontro, de supetão, à guisa de gentil presente... Nada. Então, ao


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retornar ao Teatro em busca de explicações, encontrei um poema muito pior do que aquele que deixara em suas mãos. Decidido a reaver o orgulho perdido, escreveria uma segunda parte para aquela letra sem música; então uma terceira e última. Estão todas ao fim, após a história... O resto fica para as músicas. Eu não sou do ramo e esse livro também não.


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I - MĂšSICAS & letras


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2- Pré-história da canção Lembro do dia em que cheguei em Nova York como se fosse hoje. Mais do que isso, como música que, ouvida, é sempre aqui e agora. Era uma terça-feira, véspera do dia de Martin Luther King Jr. Desembarquei no aeroporto de Newark às seis e meia da manhã, passei pelo oficial de imigração e encarei cinco graus abaixo de zero com a mala de rodinhas que saltitava e tombava sobre o piso irregular. Trazia o corpo encolhido pelo frio que jamais sentira e a mente povoada pelas imagens dos filmes cujos cenários eu agora visitava; livre mesmo assim. Livre das paredes enegrecidas do apartamento de minha tia, em Copacabana, e das discussões com os vizinhos do prédio. Livre dos recortes de jornal com as notícias do vestibular em que não fora aprovado e das perguntas vagas das entrevistas de emprego. Somente ao responder às perguntas e exigências do consulado americano – estas bem mais claras – pudera demonstrar a disposição necessária para arrancar elogios de tia Dolores e dos parentes mineiros. Carteira de identidade, CPF e comprovante de residência de todos os familiares vivos; atestado de óbito dos pais; carta do banco comprovando fundos necessários para a realização da viagem; histórico escolar completo; prova de laços fortes com o Brasil – que equilibrassem a disposição de sair do país com a necessidade de permanecer nele –; pagamento de inúmeras taxas; entrevista; atestado de bons antecedentes... Toda uma novela mexicana de revirar a vida da família em busca de documentos, contatar parentes longínquos, peregrinar pelos escritórios de advocacia e enfrentar filas em bancos e repartições públicas. Em poucos meses entraria no ônibus Greyhound para a Grand Central, no trem „S‟ em direção à Times Square e na rua 46 até o restaurante Lundu-Chorado, mais próximo da infância no Rio que de tudo que viveria a partir dali. Mas só depois, muito tempo depois, enxergaria de perto os anos desperdiçados até aquele momento, tanto quanto os outros, que continuariam a escorrer pelos dedos sem que a paixão da infância pudesse dar frutos; sem que o amor pela música ocupasse as horas de sono incontrolável e dúvida repentina; os momentos de fechar as cortinas do quarto e os


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outros, de acordar sem saber se é noite ou dia. Só bem depois lamentaria não haver estudado música desde que Márcia se dispôs a assentar o violão em meu colo, no tempo do colégio. Aquele medo estúpido de decepcioná-la por não aprender a contento ou não ter talento, e o outro receio, ainda maior, de que aquele amor – secreto – caísse por terra logo nas primeiras aulas, antes que a paixão pela música pudesse se realizar. Mas agora, que meditava sobre tudo que viveria a partir da chegada a Nova York, acreditava que seria capaz de colocar esta história nos trilhos justamente por estar em solo desconhecido e poder „partir de novo‟. Por não morrer de amores por nada ou ninguém que havia passado, mas apenas pelo que não tinha vivido e ainda sonhava viver. Por não temer o futuro e, ao mesmo tempo, espantar-se com a frieza do momento presente. Este frio que senti parado à porta do Lundu-Chorado, esperando pelo gerente João Ricardo; essa frieza que continuei sentindo quando ele se aproximou sem olhar para o meu rosto, respondeu em inglês às minhas perguntas e, virando-se de costas, chamou um garçom para tratar do meu caso. Logo conheceria Francisco, contratado para equilibrar, na mesma bandeja, o mau humor do gerente e o apreço da clientela. Cumprimentou-me, perguntou o meu nome, a minha experiência profissional... Respondi que fazia bicos em teatros e casas de show. Lanterninha. O público devia saber onde pisar no escuro. Tinha trabalhado em duas lojas de discos durante as férias, mas elas não existiam mais. Mostrei a minha mala debaixo da mesa, a carta da Dolores em cima dela... E fui contratado para lavar as toalhas, os pratos e o chão. Se os velhos amigos de família eram como o João Ricardo, eu não deveria confiar nos novos. Mas não conhecia ninguém na cidade e, se não quisesse passar a primeira noite na rua, teria que seguir as dicas de Francisco: ir até Queens, mais precisamente a Astoria – área que concentra boa parte da comunidade brasileira na cidade –, e procurar por anúncios de quartos disponíveis para aluguel nas vitrines dos cabeleireiros, mercearias e restaurantes. Assim encontrei um quarto no apartamento do seu Osório, ali mesmo em Astoria, onde morei por quase um ano. Já no LunduChorado fiquei até conseguir um emprego em seu concorrente direto, o Braz-Illinois. Lá eu fiz carreira, sempre motivado por um sentimento de revolta contra as humilhações a que João Ricardo submetia seus subalternos. Passei de ajudante de


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cozinha a ajudante de garçom, depois a garçom e, enfim, garçom-chefe; tudo em menos de dois anos. Chegaria à gerência do Braz-Illinois, talvez; levaria o LunduChorado à bancarrota eventualmente. Isso se, após a tragédia no World Trade Center, não tivessem falido os dois. Desempregado por quase seis meses, tinha as noites livres para voltar pensar no Brasil, assistir a shows de música brasileira e gastar tudo que economizara nos dois primeiros anos em Nova York. Quando voltei a juntar dinheiro, trabalhando de garçom num restaurante francês da rua 28, já não o fazia com o objetivo de comprar um piano ou investir numa sociedade anônima. Queria matar minha sede de Brasil, frequentando a praia de Ipanema nos dias de semana... Reservei um hotel na rua Visconde de Pirajá – Dolores e primo Leco haviam se mudado para São Paulo – e, em menos de um ano no novo emprego, voava para o Rio. * * * Revi Márcia numa apresentação de seu grupo no Spiritual de Santa Tereza; os cabelos caídos sobre o rosto e a face voltada para a guitarra. Eu sem nem ao menos reconhecer os gestos ou lembrar de suas opiniões sobre música ou quaisquer outros assuntos. Recompondo-a em frases reinterpretadas na solidão de um pátio vazio, ao fim dos recreios; no tom de voz que expressava o sentido de palavras que não chegariam a soar; no rosto que se moveria instantaneamente se meus olhos flagrassem os seus... Todo o ensaio de uma peça que não foi encenada, lembranças do que jamais aconteceu. Um teatro da imaginação, sobre cujas ruínas se construiria, lentamente, a Márcia que finalmente viria a conhecer.

* * * As primeiras notícias chegaram por e-mail. Desde que soube de minha mudança para Nova York, rompeu o silêncio de vários anos para reclamar da vida musical do Rio, relatando os desconcertos nos grupos com que se apresentava. „Queria estar aí...‟, escreveu numa mensagem em que as letras foram muitas a exaltar e poucas a contar. „Queria estudar música em Nova York‟.


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As segundas soariam ao fim do primeiro set, sob o burburinho dos clientes do Spiritual. Fui abordá-la no momento em que seus braços se voltavam novamente para o chão, após se erguerem ao teto para desatar a correia da guitarra das costas. Ela a artista que supõe conhecer os fãs, mas, agora que se vê diante deles, sente-se mais distante do que nunca. A partir dali – eu descobriria meses depois, já em Nova York – os ouvidos e sons haveriam de nos separar do início ao fim das músicas. Nunca mais cantaria com Márcia as canções do tempo do colégio; apagaria para sempre as melodias que me fizeram admirá-la e que me instigaram a escrever poemas e sonhar com a carreira de letrista... „Tudo que eu compunha naquela época‟, dizia ela, „era coisa de amador‟. Tampouco a veria empunhar um violão. Nos dois primeiros sets e intervalos daquela noite não ouvi nada além de sons de guitarra e frases de jazz e, após os lábios se descolarem e os braços se desenlaçarem, um longo discurso – sobre a escola de música a que queria se candidatar e o curso de inglês em que estudaria até a audição – tornaria a noite ainda menos musical. Em breve estaríamos juntos em Nova York, mas a Márcia que toscanejava sentada no banco do metrô não era nem sombra da que eu havia encontrado no Spiritual; muito menos a que levara o público ao delírio cantando Que país é este? no sarau do colégio. Nos últimos tempos parecia mais e mais apreensiva, e todas as minhas tentativas de aproximação foram frustradas até o dia em que recebeu a carta com o resultado da audição. Coincidência ou não, naquele dia eu não fui escalado para fazer entregas pela manhã. Mais despreocupado comigo após quase três semanas de trabalho, Owen decidira me testar num evento em Staten Island, para onde eu nunca tinha ido. A notícia não era boa; eu vararia a madrugada e voltaria a trabalhar na manhã seguinte. Mesmo assim, senti um gosto de tempo livre, coisa rara nos últimos tempos. Liguei a televisão da sala para cobrir o som da guitarra de Márcia no quarto, chequei as ratoeiras debaixo do fogão e desci para fazer umas compras na mercearia do seu Porfírio. No início do verão Washington Heights era palco de um verdadeiro carnaval caótico e fora de época. Carros de som, caminhões de sorvete, jatos d‟água, churrascos na calçada... Quando eu voltei, o carteiro – de saída – fez um comentário


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em espanhol que eu não entendi. Mas que me soou como se o verão, em nenhum outro lugar como em Washington Heights, fosse o esforço continuado de entregar cartas que só os remetentes veriam. Perguntou o número do meu apartamento, voltou atrás para reabrir a caixinha do 67, sorriu ao deixar cair uma carta para o antigo morador e outra para Márcia, jogou em mim o resto da correspondência atrasada, e despediu-se com um „cuida-te‟. Então, sem responder ao carteiro – que as respostas ele levaria muito tempo depois, para outros destinatários –; pisando naqueles degraus gastos com as compras pesadas de sempre da mercearia de todo instante, jamais poderia imaginar que aquele não seria mais ou menos um dia de uma vida que eu plagiara de terceiros; uma massa feia e disforme que eu modelava com o cabo das horas, ou o início da próxima faixa de uma coleção aleatória de músicas de estilos e épocas diversas. O tempo emprestava um corpo e dava um sentido a elas. Mas a vida com Márcia era uma série repetitiva e hermética de histórias sem a menor relação entre si; uma colagem de letras que eu roubava das manchetes de um jornal para montar o meu nome na capa. Dentro do livro eu era apenas um personagem coadjuvante – eu não concebera as músicas, nem as letras, somente os sonhos –; mas, com o passar do tempo, os relevos ganhariam contornos artísticos para mim. A massa secaria e, sem poder mais lhe modelar, eu seria enfim obrigado a distinguir suas formas... As palavras do carteiro, que eu – naquele momento, ocupado com sacolas e cartas – nem notei, encerraram um capítulo; transformaram-se em arte em vista do que aconteceu depois. A partir dali, eu aprenderia a escrever as minhas. Antes, porém, leria para Márcia outras letras, impressas em papel timbrado e escritas em língua pouco falada... Numa das poucas vezes em que Márcia me dirigira palavra após a noitada com Andy no feriado de memorial day, dissera-me que a resposta da escola só chegaria no fim de julho, motivo pelo qual eu nem desconfiei que aquela pudesse ser a tão esperada carta. Entrei no quarto, pousei-a sobre o amplificador; e antes mesmo que eu o tivesse notado, o som da guitarra parou:

Caro/a candidato/a:


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O corpo docente d‟A Melhor Escola de Jazz de Nova York lamenta informar que não pôde incluir o seu nome na lista de aprovados para o próximo ano acadêmico. Nosso processo de admissão é altamente seletivo e a cada ano apenas 10% dos candidatos conseguem uma vaga nesta que é a instituição líder na formação de profissionais de alto gabarito para o mundo de fora. Dito isto, você não deve tomar nossa decisão como reflexo de sua falta de aptidão para uma carreira no campo da...


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3 - História da canção ...Música. Larguei a carta no quarto, passei pelas portas abertas por Márcia... E quando alcancei-a, já ia pelo quarto andar; rodando o punho de um lado para o outro para se soltar; puxando o braço, cobrindo o rosto com a outra mão, deixando o cabelo cair por cima dele e virando de costas para mim. Eu estúpido, pedindo calma, e ela com a voz embargada, querendo ficar sozinha... Jamais vira Márcia daquele jeito, não ia mais tentar chegar perto e já chegava; ela dava um passo e se encolhia quando eu tentava lhe abraçar... Que eu não fosse capaz de dizer nada que lhe confortasse, que ela não me quisesse mais por perto, ou, simplesmente, que a Márcia corajosa, da adolescência, não estivesse mais ali; nem a circunspecta daqueles meses em Nova York... Eu idiota; que era „só uma prova‟, ela poderia tentar outra escola... E ela como se eu tivesse dito algo completamente sem sentido mesmo, abanando a cabeça com as mãos em concha sobre o rosto sob o cabelo. Tinha a sensação de que havia alguma coisa subentendida, algo que eu não conseguia perceber, lembrar ou nem mesmo sabia. Puxava pela memória e nós já estávamos distantes um do outro há muito tempo; eu no restaurante até tarde, seis dias por semana; agora na transportadora. Durante aquele tempo todo Márcia teria mudado, ou, bobagem, já era assim e eu não notara... Ou que a Márcia daquele momento fosse mais real, mais parecida comigo e, no entanto, desconhecida; eu o fã que imagina conviver com o ídolo, mas, agora que se vê diante dele, sente-se mais distante do que nunca, e mais do que nunca precisa se aproximar. Por isso agarrei suas mãos, olhei-a nos olhos entreabertos e lhe abracei, como há muito tempo não fazia, até que ela também o fizesse. Então já tinha certeza de que não era por escola nenhuma que ela chorava. Mas por que?... E já não tinha certeza de nada. Estava mais nervoso e tentava lhe acalmar, e mal conseguia falar e pedia que ela dissesse alguma coisa. Agora nossos rostos se tocavam, eu dedilhava o seu cabelo e sentia o fio inexplicável de uma alegria cruel por estar ali. Por ter de volta a antiga Márcia, talvez; testemunhar a reparação da injustiça cometida contra as canções da época do colégio; sentir pela primeira vez uma ponta de orgulho por estar com ela, que só agora voltava a ser artista para mim... Só agora, o instante em que


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fora reprovada pelos mestres da música distante que lhe fizera desprezar todas as outras. Parado ali, dedilhando seus fios de cabelo, tentava lembrar das canções que Márcia compusera na época do colégio. Desafinava mentalmente as melodias; não sabia as letras e criava outras improvisadas com o que vinha à mente... Naquela canção lenta que falava não-sei-o-quê de um caso perdido eu entalava uma letra que dizia que... música é o tempo que eu gasto pra aprender a ouvir, tudo que a gente ouve para aprender a amar. Tinha perdido o fio melódico há muito tempo. Sentia-me culpado por estar alegre enquanto Márcia chorava. Ouvi seu choro novamente e foi como se ligassem um aparelho de som de repente, com o volume no máximo. E tomei um susto tão grande que depois dele nada mais me assustou, como quando dona Carmem abriu nervosa a porta, gritando „o que houve‟, „o que houve‟ em espanhol, depois em inglês, e ninguém deu ouvidos a ela. Eu e Márcia abraçados, subindo as escadas de volta para casa. Lá de cima eu olhei para dona Carmem e abanei a cabeça para ela deixar pra lá e só assim ela se assustou para valer, pediu desculpas e fechou a porta. Eu ali, todo tempo do mundo, com ela, e todo tempo me faltaria. Márcia calada; eu com medo de falar e mais ainda de ouvir; que o meu pensamento estivesse distante demais do dela e ela pedisse mais uma vez para ficar sozinha. E não devia dizer nada para respeitar o silêncio – que agora as minhas palavras seriam, para ela, como a guitarra antes, para mim –, e já dizia que ela não se preocupasse porque aquilo tudo passaria; ela que se separara de mim na porta de casa e correra na minha frente, quase fugindo, talvez para recolocar aquele abraço em seu devido lugar... Agora deitada no sofá da sala, sem dar a mínima atenção ao que eu lhe perguntava sentado no chão. Eu estúpido, repetindo que não faria bem para ela ficar em casa remoendo aquelas coisas. Melhor seria que ela fosse para o curso de inglês. O curso de inglês: era motivo para ela pedir para ficar sozinha, hoje eu sei. E foi o que ela fez, com jeito, olhando nos meus olhos e agradecendo com a voz tremida de quem já não cantava há meses; perguntando depois a que horas eu deveria estar no trabalho... Corri até a cozinha e já eram quatro e meia, Owen ia me matar. Que sair dali naquela hora fosse como abandonar um filme ainda no início; que naquele instante a transportadora parecesse coisa do passado e eu me ressentisse


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de que Márcia não fizesse questão da minha presença... Com tudo isso ainda levei quinze minutos no apartamento. Antes tentei novamente confortá-la e sugeri que ela ligasse à noite para a Marian, a amiga do curso de inglês. Olhou para mim e agradeceu mais uma vez, como se eu fosse apenas um colega de turma... Do seu semblante naquele momento eu me lembro como se fosse hoje. E tanto fui pensando nisso que, ao chegar na transportadora, passei em frente ao Owen, mas só parei no terceiro ou quarto grito. Se a guitarra me deixara surdo, morar com Márcia durante aqueles meses também me cegara. Ele, que já estava irado, quase partiu para cima de mim, espantado então com a minha expressão, que já não demonstrava medo e sim indiferença. Abaixou um pouco a voz e já voltou a falar alto, para disfarçar o espanto enquanto me entregava o mapa e a lista de tarefas. Daí em diante, se eu confirmar que estive em Staten Island naquele dia, terei que inventar na próxima pergunta. Lembro apenas que fomos em direção ao Brooklyn e passamos por uma ponte enorme, a Verrazano, que me lembrou a RioNiterói e me deu uma saudade terrível. O que fiz foi ligar o automático e obedecer ao Ataíde feito um boneco, até que ele se irritou com a minha apatia; ameaçou contar para Owen que o carioca fazia corpo mole. Eu, que ligava para Márcia sem parar, estendi-lhe o celular nesse momento; que ele falasse com o Owen na minha frente, então. Pegou a máquina de calcular valores por extenso, digitou os números, ouviu o resultado e perdeu a voz. Márcia também. Saltei do metrô por volta de duas da manhã e corri para casa feito um louco. Coisa demais na minha cabeça, que o chão empurrava os pés para cima e ela para baixo; relógio no pulso e celular na mão. Joguei-o na mochila já na 168, pesquei as chaves e portei a do prédio feito uma espada. Enfiei-a na porta e a outra na outra e no outro, que se Márcia dormia tranquila, acordou assustada perguntado „que é isso?‟ só com o barulho dos batimentos das portas e sapatos. „Custa atender o telefone?‟, arfando e jogando as chaves no tapete roxo sobre o piso de tábua corrida. „Ah, não acredito...‟, fazendo o corpo desabar sobre o colchão de molas, a cara enfiada no travesseiro e a minha no chão... Em diante pendurei as palavras nos aventais e os pensamentos nos tampos dos móveis até amanhecer: aquelas haviam sido as únicas de Márcia.


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Saí às sete e meia, o rosto como folha de papel secada ao sol depois de molhada pela chuva; que nesse momento novas gotas lhe cairiam melhor do que palavras. Lembrava dos tempos de colégio, nas segundas-feiras em que era expulso da cama no meio dos sonhos e procurava distração fácil nos olhos dos entregadores de bebida, no barulho dos pássaros e no vento fresco trancado do lado de fora da noite pelo sol... Dessa vez eu fora trancado do lado de fora dos pensamentos de Márcia, expulso dos meus sonhos pela guitarra expulsa dos seus pelo silêncio exilado do amplificador pela tristeza expulsa do pulso pelo tempo. E fazia hora ouvindo o barulho das portas dos carros e caminhões cujos motores roncariam até sumir em qualquer transversal, só para matar o primeiro tempo de aula e sonhar um pouco mais até o momento de explicar o atraso e levar a bronca. Eu ali, encolhido naquele banco duro após um dia de trabalho e uma noite sem dormir; esperando há mais de uma hora pela bronca do dia, não mais da diretora da escola, mas do patrão Owen, que não faria nada além de me insultar e demitir em poucos segundos. Punha o rosto para fora do quarto-e-sala depois de tanto tempo – ao prever a demissão –, para logo em seguida voltar a pensar em Márcia e entrar nele para sempre; que até que Owen me fazia bem pela primeira e última vez. Enfim a secretária abriu a porta e apontou o meu caminho por ela, em silêncio. Owen deu uma olhadela para ligar a raiva do nome à raiva da pessoa, e voltou-se novamente para o computador. Fez a cara de esnobe de sempre, disse o meu nome com a cara de nojo de sempre, e jogou os meus atrasos na minha cara de indiferença dos dias de atraso. Diante da displicência e irresponsabilidade com que eu vinha me comportando, facilitara a sua tarefa de escolher um motorista para um trabalho de quatro dias seguidos nos Hamptons, a começar amanhã. Que eu estivesse aqui às sete em ponto, trouxesse um colchonete, pegasse o dinheiro para a comida com Aileen, e me preparasse para outros trabalhos tão ou mais duros e duradouros durante o verão, se não quisesse, é claro, perder o emprego que de todo modo já perigava. Virei as costas, voltei para pegar o envelope com o mapa e as instruções, as três notas de vinte com Aileen, e saí achando que nunca mais colocaria os pés numa transportadora. Se ligasse para o Andy e explicasse a situação, talvez ainda fosse


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readmitido no restaurante. E até melhor que não precisasse mais ver Owen cuspindo ira pela cidade inteira, que ao menos a minha eu guardava em silêncio. Um táxi em frente à transportadora; quarenta minutos e estava em casa. Parado com o ouvido encostado na porta, nem guitarra nem voz de Márcia na gritaria das crianças no prédio. O violão em cima do sofá e os estrídulos de um rato tentando se descolar da ratoeira na cozinha. A cama vazia e a guitarra semi-acústica dentro da capa; o celular de Márcia: seus monossílabos empalidecendo até a decomposição da anemia dos fonemas no esqueleto da língua. Menciono o trabalho de quatro dias nos Hamptons e a ouço articular a primeira frase completa na era pós-carta. Eu deveria ir sem preocupações, que, como já dissera, precisava mesmo ficar sozinha. Desligo o telefone e ando até a cozinha; o rato se desespera, tenta voltar para debaixo do fogão e chia mais alto. Eu o varro como se arrastasse uma daquelas crianças para o lixo, aos gritos; que o desespero humaniza os animais, não as crianças. Abro um pacote de biscoitos e deito ao lado do violão no sofá repleto de restos de comida, pontas de cigarro e pedaços de corda de guitarra. Levanto, levo o saco de lixo para o canto extremo da cozinha, fecho a porta, desabo novamente no sofá. Agora não ouço mais o rato contorcendo-se no lixo, que ao menos o meu eu guardava em silêncio. O despertador anunciava o fim do recreio das crianças. Márcia entrava na sala abraçada com o Norton e o Yuri, surfistas que viviam falando em „meio metrinho‟ na praia daqui ou „meio metrão‟ na de acolá. E a de acolá era sempre Grumari, Prainha ou Praia da Macumba, para onde eu nunca fui em toda a minha vida... Só que, de repente, Grumari parecia estar ao lado do Hawaii, Hamptons ou Guarujá e mais perto que Ipanema e Copacabana; que a distância ao desconhecido é sempre a mesma e quem volta ao passado cruza com o que não conhece na ida. Tanto que, para chegar aos Hamptons, sofri de tal modo que parecia o passado completando o caminho de volta. Um mapa girando nas mãos de Silvano – o ajudante –, outro das conclusões que Silvano tirava do mapa tremulando em suas mãos, e um terceiro do que eu conseguia captar das conclusões que Silvano tirava do mapa caindo de suas mãos. Não decifrados, eu pelejava para enxergar na paisagem ensolarada um túnel imaterial com saída para outro mundo, a escuridão das artérias levando sangue do coração e o sem sentido do espaço quando ultrapassado pelo tempo. A beleza da cidade nem me chamava atenção, o luxo das mansões nem me


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impressionava tanto; só a irritação dos contratantes e as broncas de cada dia me fizeram ver os Hamptons com meus próprios olhos. Montamos o palco e dispusemos as quarenta mesas e cento e sessenta cadeiras no gramado com quase três horas de atraso. Silvano ficou para puxar o saco das equipes de som, luz, flores, velas e enfeites, e eu fugi para o caminhão. Joguei o colchão na carroceria vazia, o peso dos últimos dias sobre ele, e a próxima coisa que me veio à cabeça foi a mão de Silvano, depois o rádio e a dublagem „acorda!...acorda!‟, e por último uma vontade de passar com o caminhão por cima dos dois, que raiva repentina como esta eu não sentia desde o dia em que o Lázaro, ex-marido de minha mãe, telefonou do Brasil para me pedir dinheiro: „cala a boca, porra, me deixa dormir!‟, e foi o bastante para o cara me atropelar com um caminhão de insultos. Eu deitado num colchão sujo, ouvindo tudo aquilo de um velho com idade para ser meu avô; era deprimente demais. Até pensei em contar para ele o motivo da minha prostração, exagerar, pedir um conselho... Mas nada adiantaria, Silvano não exprimia ações com verbos, e sim com dólares. E a moeda que circulava dentro do meu corpo só teria valor de troca se fosse com Márcia. O que fiz então foi abrir a carteira e estender o braço com duas notas de vinte e uma de dez na mão. Se era verdade que eu falava muito e trabalhava pouco – e que quando falava pouco, não trabalhava –, ao menos sabia pagar para calar a boca de quem falava muito de graça. O preço, aliás, era o mesmo todo dia; os dias diferentes demais ao longo do trabalho. No segundo deles o clube era ainda mais luxuoso, os contratantes ainda mais frescos, a praia ainda mais paradisíaca, e, para mim, tudo ainda mais infernal. Por mais cinquenta dólares, Silvano não se importaria se eu dormisse até o dia seguinte. Mas eu acordei antes, a festa ainda nem tinha acabado. Perguntei as horas a um ajudante da equipe de som e ele reconheceu meu sotaque de brasileiro, respondeu que era hora de comprar um relógio. Mineiro de Ouro Preto, de nome Leonel, sabe como é... Papo vai, papo vem e o cara era músico, gostava de „qualquer tipo de música‟ e estudava um instrumento diferente, de que Márcia já havia me falado. Um instrumento grande, tocado com baquetas como um xilofone, mas com teclas de metal e não de madeira. Seu nome eu só guardei mais tarde: vibrafone. A banda também tocava „todos os tipos de música‟ e voltaria para o último set agora; um de


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seus componentes tocava o tal instrumento e eu certamente gostaria muito se escutasse. Não, não, obrigado, eu estava muito cansado e uma hora de sono faria diferença... Até mais tarde, até mais tarde; dei as costas para o mineiro, tapei os ouvidos – com medo que a banda atacasse inadvertidamente – e voltei correndo para o caminhão. Havia sempre o lado positivo das coisas; pelo menos agora eu tinha uma desculpa para deixar um recado para Márcia caso ela não me atendesse novamente. Então deixei gravado que havia um instrumento exótico na banda dos Hamptons; eu estava curioso para saber o nome e ficaria feliz se ela pudesse me ajudar. Até cerca de um minuto após encerrar a ligação, eu ainda havia instigado Márcia a digitar meu número. Mais cinco e ela nem ouviria a mensagem (se ouvisse não daria a mínima). E em meia hora, eu havia me exposto a um ridículo sem precedentes em toda a minha vida. Entrava no caminhão para buscar o material, olhava para o colchão e era como se um imã me atraísse para ele. A carroceria cheia, vazia, e, ao fim do dia, cheia de novo; as barras de ferro, mesas e cadeiras que eu arrastava, e os minutos ao longo dos quais eu me arrastava, hora após hora. Só revi o mineiro nas últimas do dia seguinte. O cara estava exultante; tinha feito amizade com os músicos e talvez tocasse uma bossa nova no segundo set, ou cantasse um rap em português no último. Eram nove e cinquenta e o DJ comandava o show do intervalo. Após muita insistência, concordei em ouvir o terceiro set no palco, atrás das caixas de som. Fui para a tenda dos garçons e fiquei assistindo à festa dali, como bicho de zoológico lambendo a cria morta para, depois, dar com a língua nos dentes dos homens... Os rictos de passagem de som desmanchando caras pálidas e mastigando O cru e o cozido até agregar sorrisos às pregas das orelhas; a chuva de elogios e os pingos de verdade; os defeitos maquiados por nocautes técnicos, os criados cuspindo sangue e as dondocas fazendo charme com as mãos direitas sobre os ombros – como papagaio de pirata –, as palmas das esquerdas viradas para cima e os dedos indicadores apontados para trás e para frente..., para trás e para frente, para trás e para frente... Finalmente, o vento levantando as barras das saias das mães de família e os maridos de sangue azul, camisa listrada e suspensórios vermelhos olhando para o céu estrelado e discutindo política internacional como se fosse economia doméstica. A banda já voltava para o próximo set e agora eu tinha mais um


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bom motivo para me trancar na carroceria do caminhão; escondi o pescoço debaixo dos ombros e só dei as caras no fim da festa. Só não contava que, para Silvano e o mineiro, ainda não fosse a hora de dar por encerradas as malas-artes. Eles riam alto, lá do portão do clube se ouvia. Eu acelerei o passo e logo chegaria à superfície para respirar uma piada antes de afundar novamente no apartamento de Washington Heights. Quando apontei no gramado, porém, os risos cessaram para sempre e eu nunca compreendi se havia sido o início de uma piada sem graça ou o fim de uma festa de formatura. Para mim ficou sendo a chegada tardia aos Hamptons, pois daquele momento em diante eu encontraria um sentido para a viagem: faria daquela piada coisa séria. O trabalho duro. As cadeiras a postos na carroceria antes mesmo que Silvano cogitasse sentar para descansar. Eu com cara de poucos amigos, empunhando quatro barras de ferro de uma vez ou três mesas por viagem... Então a última madrugada antes do retorno a Nova York. Sem conseguir dormir, revivendo aqueles últimos dias antes da partida para os Hamptons; reinterpretando os olhares, gestos e sons de Márcia à luz de novas teorias; incapaz de compreender o porquê da economia de palavras. Por um tempo hesito em ligar para Márcia; só às sete da manhã apanho o aparelho e escolho os números. Repito para a secretária eletrônica tudo que acabara de escrever e digo „te vejo mais tarde‟, confirmando que estaria em casa às onze da noite. Oito horas da manhã e minha sinceridade seria de algum modo recompensada; mais algumas horas e minhas palavras fariam bem a Márcia (desde as três da tarde ela me esperaria ansiosamente). Sete da noite e eu já estava a caminho de casa, pois no último dia não tivemos festa; apenas um almoço de casamento. Deixava os Hamptons para trás, fantasiando os momentos felizes que ainda não pudera viver. Querendo prover de palavras sua dicção de cantora e compositora; sonhando fazer de nossa história uma experiência de vida rica – mas circunscrita no tempo e no espaço – e pronta para ser capturada por futuras melodias. A partir delas eu escreveria letras eufóricas, de alguém que não aspiraria a nenhuma mudança, pois não experimentaria qualquer carência. Seria um homem em total conjunção com os valores-correntes e, do cruzamento deles com o som de cada momento, retiraria sustento, combustível e espécies para realimentar nossa prole consangüínea.


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Entretanto, quando pus os pés em casa, pouco antes da hora combinada, achei que nossa história nunca mais fosse dar frutos. Nosso solo, improvisado no alto da cidade – agora a partir de um subúrbio de Manhattan –, não fora fértil para canções. E aquela vida longa e bela, repleta de filhos, fotos e histórias engraçadas e piegas para se contar, não estava ao meu alcance. Concebi, sem sentir, uma outra história; utilitária, composta por uma harmonia encadeada de um modo que, levado à mensagem dominante, faria crer que o fim estava próximo. Nela um homem sonolento, afogado em sonhos vazios e julgado em silêncio pelos graus de um acorde, contaria uma história evolucionista, de pesos e medidas desiguais e letras e números desconexos. Ainda nela, outro homem viveria agora distraído, embebendose na leitura de um livro escrito de trás para frente, com uns velhos fortes chorando por bebês mortos de juventude no fim. Primeiro estranhei a cozinha sem farelo de pão na mesa ou louças na pia. O chão gasto e sem ratoeiras destacando as ranhuras sujas, as manchas de ferrugem e as marcas dos pés das cadeiras e mesas. Depois a sala; o piso de tábuas corridas arranhado por estantes de partituras desaparecidas, a mochila e o colchonete postados agora no sofá sem violão ou guitarra, e a coleção de CD‟s seriamente desfalcada. Por fim o quarto; a janela de guilhotina pesando sobre o parapeito vazio, a corrente (fora) de ar e o tapete roxo estirado no chão sem amplificador, violão, ou mesmo guitarra semi-acústica. As gavetas esvaziadas, a cama arrumada e, sobre ela, um CD e uma carta. Voltei para a sala, depois à cozinha; refiz o caminho em direção ao quarto e novamente em direção à cozinha. Abri a porta, toquei a campainha de dona Carmem, lavei o rosto na pia do banheiro, gritei com Dona Carmem telefonei para os pais de Márcia dona Rosa não dizia nada... Dona Carmem lamentava muito, mas não a tinha visto; num ímpeto, amassei e arremessei a carta pela janela. Não tinha ligado para ela? Ainda não havia telefonado para seus pais? Não falava com ela há muito tempo? Que eu me acalmasse... Bati com o telefone na cara de seu Xavier ou dona Rosa; abri a janela de guilhotina; dona Carmem dizendo que lamentava muito por mim... Por que ela faria isso? Deixei mais um longo recado em alguma secretária eletrônica; que dona Carmem parasse de se lamentar imediatamente, pois não havia motivo para tal. As escadas, a mercearia do seu Porfírio, a carta que eu não achava e nunca acharia, e


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que buscava em lugar de procurar por ela, por quem talvez procurasse em vão, em lugar de encontrar o próprio caminho. O sorriso de seu Porfírio derretendo ao olhar para mim; meu rosto corroendo os assuntos com a fisionomia acabada de um início de século. Minhas frases baralhadas como em histórias diferentes contadas simultaneamente num mesmo calendário. Não a conheciam, claro; não tinham visto nenhuma moça de olhos verdes e pele morena entrando num táxi com malas azuis e instrumentos de cordas em caixões pretos. Ignoravam a mais nova versão da história da canção – ocorrida a poucas quadras de distância –, tanto quanto desconheciam as outras, mais remotas e, no entanto, famosas; nascidas modinhas e transformadas em grandes modas pelas gerações subsequentes. Ainda assim eu continuava a perguntar por ela aos vizinhos, taxistas e transeuntes; a ouvir risadas e especulações sem sentido; a ligar para companhias aéreas e acordar as amigas do curso de inglês; a investigar a direção do vento e circular para lá e para cá olhando para o chão em busca da carta; a caminhar pela Broadway, avistar a Times Square e, sobre ela, o retalho negro de uma madrugada picotada por arranha-céus e letreiros luminosos; o desfecho súbito e silencioso de um (agora ou sempre) ridículo amor de infância, o outro pela história da canção... Desde aquele primeiro „pudeste ingrata deixar-me‟ – cantado séculos antes que eu aprendesse a ler „Lereno‟ – até hoje, tempo de saudade precoce e lágrimas tardias; momento em que os braços de Márcia se voltam novamente para o chão, após serem erguidos ao teto para desatar a correia do violão das costas pela última vez... Desde os tempos do colégio. Matar a aula de biologia no banheiro, com o coração na mão. A aula de História saindo no braço com os moleques mais velhos pelas figurinhas premiadas. Rabiscar uma cruz de malta na carteira durante a prova de português. Brincar de corredor polonês num pátio ensolarado, bem longe da sala de aula de geografia. Estudar tudo isso para acabar sem documento, sob o sereno, numa praça perigosa e mal-iluminada tal qual a que agora me serve de abrigo contra a solidão do apartamento de Washington Heights: a Union Square. Para lá eu me dirigi após procurar por Andy no restaurante. Sentei e levantei de todos os bancos das redondezas sem querer mais caminhar nem conseguir descansar; entrei e saí repetidas vezes da estação do metrô sem desejar voltar para casa nem permanecer ali. Por fim deitei-me num banco próximo a um poste de


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iluminação pública e fiz o tempo passar ouvindo o zumbido dos automóveis que circulavam pela décima quarta rua... E na manhã seguinte já era tarde para procurar por ela nos aeroportos, e mesmo na casa de Marian. Naquelas horas contadas a história dava à luz minutos de silêncio: entidades decadentes, organizações temporais e funcionários fantasmas tomavam de assalto a Union Square. Uma manhã tão quente que os manifestantes carregavam os cartazes e faixas como se fossem guarda-sóis, exibindo os letreiros aos céus como a reivindicar providências divinas. Queriam digitar letras minúsculas para serem colocadas sobre os ombros dos letreiros gigantes. Para serem vistas de uma distância maior... O sol empenava o meu caminho até o outro lado da praça e de lá eu já não via os letreiros, mas um cercado onde os casais de namorados adestravam seus animais de estimação. As namoradas notavam a minha presença e me fitavam assustadas; abraçavam tão carinhosamente seus noivos trinta anos mais velhos que eu concluía que voltar para casa não podia ser pior do que estar ali. O quarto-e-sala abandonado não era tão aterrador quanto a solidão numa cidade superpopulosa; a janela de guilhotina não pesava tanto sobre o parapeito vazio quanto o sol que, varando as copas das árvores, espremia os olhares perdidos da multidão desencontrada. Desci a escadaria do metrô tal qual cavasse a derradeira estação do túnel do tempo. Os olhares resvalando nos trilhos, a sexta avenida e um grupo de jovens ocupando os últimos vagões; velhos amontoados em outros velhos e a engrenagem triste do trem “L” desacelerando até estacionar de uma vez por todas na oitava avenida. A multidão evacuando o trem e, já na plataforma, um garoto esquelético curvando-se em respeito ao movimento sincrônico das moedas rumo ao caixão do violão. Yesterday, o acorde final e, agora, You‟ve got to hide your love away sob o movimento anacrônico dos vagões do trem “L” de volta à sexta avenida e ao Brooklyn. O chiado dissipando-se no túnel escuro, os olhos pregados nos lábios do garoto e eu incapaz de dublá-lo, repassando a letra da música até a plataforma dos trens pras bandas de Washington Heights. Subi a escadaria do prédio rodando o dia para trás até retornar aos Hamptons. Dona Carmem lamentando – não havia nenhuma novidade – e eu desabando sobre o CD de Márcia sobre a cama. O disco enfim no aparelho de som, o silêncio exilado do amplificador pela tristeza expulsa do pulso pelo tempo e, de repente, imagens


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conhecidas baralhando-se na mente como letras e músicas que se tocam em movimento: uma voz em off contando „one, two, three‟, a de Márcia cantando as Cidades, seus nomes, mapas e cores, e eu correndo até a janela, depois até a sala; repassando intrigado aqueles Amores, suas cenas, pinturas, poemas... Arriscando: Serão Flores do Mal em Atenas? E chegando estarrecido à Saudade, suas juras de amores sem cura. Depois retornando ao quarto e querendo ver meu corpo estirado na cama, que Márcia tinha musicado meu poema do tempo do colégio! Voltava para a escola e continuava a rejuvenescer até chorar como no maternal. Terminava o primário e, de uma hora para outra, começava o segundo grau: a segunda música era instrumental e na faixa três a voz de Márcia reapareceu; desta em diante caberia a mim escrever as letras, se eu desejasse. Então, sem escutar mais a voz de Márcia – que novos sons me cairiam melhor do que explicações –, congelado naquele piso de tábua corrida com a calça surrada de sempre do trabalho dos Hamptons, já não tinha dúvida de que aquela não era mais ou menos uma melodia de um CD que eu copiara de terceiros; uma bolacha fina e vazada que eu queimava com o cabo das horas, ou o início da próxima revolução de um disco que há muito rodava em torno do mesmo eixo. A ausência de Márcia emprestara um corpo e dera um sentido a ela. Sua música era como a radiação de um corpo distante apontando para a expansão do universo tátil, a versão mais subjetiva de uma experiência de vida que, coletivizada pela linguagem escrita, estaria pronta para ganhar o mundo. A voz embargada e as palavras esmigalhadas de Márcia lançaram universos nas melodias que lhes seguiram. Meus versos viajaram por dias naqueles sons diferentes e ao mesmo tempo familiares de suas músicas. Pintaram fisionomias em todos os cantos da casa e enxergaram novas paisagens nas gravuras desbotadas das paredes da sala até que a letra da minha história da canção estivesse pronta:

Sempre que consulto Meu relógio, é tempo De medir seu pulso Sem consentimento


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Decorar os dias De seu calendário Com fisionomias De um instantiquário.

Eu quis dublar os seus cantores Copiar os seus compositores Eu fiz nublar seu rosto em vida Vinda de... Lágrima vertida Vi secar de dia Serenar a noite Da sua partida

Libertar ponteiro (Bricolagem-história) De seu cativeiro De óculo e memória

Pra então saltar no tempo Compondo outra canção Pra quem além do alento Dalimaginação E enfim cantar história (Volver-ter sentimento) Até ver diversão Do acontecimento:

Dar fisionomia A cantores mudos Que atravessam dias Contempontiagudos.


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4- O Nome da Música „E foi por volta da Union Square – e depois aqui mesmo – que tudo começou...‟, disse Andy ao dar o primeiro passo rumo à calçada do restaurante francês que gerenciava, quase na esquina da rua 28 com a Broadway, e apontar em direção à sexta avenida. Os sujeitos apartados dos verbos por vários segundos, os vocábulos perdidos no espaço; todos à espera de minha correção e eu pedindo para ele falar em língua nativa. „No início do século passado‟ – ele prosseguia (agora em inglês) – „as editoras se localizavam neste bloco; as canções eram impressas e vendidas por uma ninharia, mas, tocadas ao piano, podiam se manter vivas por mais tempo. Só depois o rádio e o cinema superaram a música impressa e o teatro como veículos de divulgação das canções‟. Andy e eu não nos víamos desde a noitada do feriado de memorial day. Era um dia de pouco movimento e, enquanto eu lhe contava a minha história da canção, ele rearrumava os papéis, pastas e CD‟s de jazz e música clássica nas prateleiras do escritório. Logo os fichários descansavam no alto da estante, os CD‟s intercalavam as pastas gordas e rasgadas na prateleira de baixo, e as folhas avulsas ocupavam todo o vão central do móvel, até se dobrarem nas ripas obliquas e descaírem sob as cantoneiras douradas. Então a letra da história da canção já estava escrita há tempos. Andy me assistia com a mão direita paralisada sob o queixo e eu já via algum sentido na desordem à minha volta. Cantarolava a história da canção, dava-a por encerrada... E voltava a cantarolá-la, a ler a letra nova e a ouvir a gravação de Márcia. A surpresa esmorecia e era hora de mudar de faixa. Repetia o início da música – a quarta – até não precisar mais da gravação. Memorizara-a para levar na mente a própria solitária e impregnar os rostos e paisagens com a expressão de um instantiquário... Longas as noites em que as melodias posavam nuas ao relento, muitas as letras que definhavam em rimas tão vazias quanto ruas e avenidas. Então, quando pus os pés na calçada do Restaurant e ouvi Andy dizer que tudo havia começado na Union Square – e ali mesmo na rua 28 –, já estava certo de que aquela história não daria mais frutos. Meu solo, improvisado a partir de um


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subúrbio de Manhattan, só fora fértil para uma canção. E a rapidez com que eu havia escrito a letra da história da canção era atribuída à minha „sorte de principiante‟. Voltaria a servir a comida francesa do Restaurant não fosse a recusa de Andy em me devolver o emprego de garçom, tanto quanto sua decisão de me contar um pouco da história da música americana enquanto caminhávamos pela Broadway em direção à sua casa, na rua 52. Desde que sua mão se desgrudara do queixo – ainda no escritório – até por volta da rua 35, o assunto girava em torno das canções e com elas minha mente cruzava a Broadway, às vezes em busca de um verso e outras tantas escrevendo-o com Márcia ao meu lado. Mas a partir daí as atenções de Andy se voltaram para o jazz, e o deserto emocional de um quarto-e-sala já não me assustava tanto quanto a solidão naquela cidade repleta de orquestras tocando swing. A rua 42 foi o limite. Àquela altura Andy passara ao bebop: atacava o poder instituído e tramava a „implosão do monopólio do real‟ por meio de uma „redefinição do seu conceito e de suas possibilidades expressivas‟. Não satisfeito, convocava uma greve que privaria todos – exceção feita às forças armadas – da música produzida neste „momento transitório‟. Eu senti meus dedos suados desenlaçarem seus gestos largos – e seu inglês enrolado – à beira de um abismo e abstraí-me totalmente do som de sua voz, mas não do destino de suas frases: em Nova York os artistas e intelectuais podem estar em qualquer lugar, mas começam ou acabam sempre trabalhando em bares ou restaurantes. Por isso, quando vi-o apontar para o Minton‟s – na 118 – e depois para o Monroe‟s – na 134 –, achei que não chegaria com ele ao próximo bloco. Parei na esquina da rua 48, olhei para a calçada e comentei, um pouco constrangido, que preferia um Louis Armstrong cantando a pedra a um Bird implodindo salões de dança em clubes de bebop, principalmente se conseguisse ouvi-lo de minha casa. Pousou a mão sobre meu ombro, respirou fundo, riu com o ar das narinas e os cantos dos lábios e, em vez de imitar o jeito de Márcia ao zombar da minha falta de conhecimentos musicais, abanou a cabeça com ar enigmático, dizendo: „Precisamente, Eurico, precisamente... Aqui mesmo, na 48, Louis Armstrong cantou essa pedra: As pessoas ficam curiosas com o que é novidade, mas logo se cansam com o que não é bom e não tem melodia que possa ser lembrada ou batida


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para se dançar... E é verdade que, com Bird, as palavras de Armstrong e a dureza da calçada da minha rua foram pelos ares!... Gostaria de ver?‟ Ficar acordado até tarde da noite custava caro. Deste jeito adiava o bálsamo labiríntico do sono e retardava os solavancos matinais e precisos dos merengues de Washington Heights. Além disso, „ver‟ para Andy era algo demasiado complicado e minucioso para o meu gosto. Ainda assim não neguei a ele as chaves do meu viveiro de gestos já encruados, repositório de um pássaro velho demais para voar com as próprias asas sem martelar no ar melodias agregadas a letras com um significado claro. Pelo consolo de ficar mais próximo de Márcia – ainda que apenas no gosto musical – ou pelo receio de fazer desfeita a Andy, aceitei penetrar no universo daqueles músicos de cujas obras ele se sentia herdeiro. Assim foi que, nas vitrines das lojas de instrumentos musicais da 48, perguntas e réplicas de seu passado presentearam os eventos futuros e, num clube de jazz das redondezas, pratos circularam pelas mesas com canapés de contratempos e caixas de surpresa. As melodias, contudo, entraram por um ouvido e saíram pelo outro. Apenas a boa impressão causada pela juventude e destreza do pianista, a energia do baterista e, principalmente, aquelas palavras de Armstrong citadas por Andy me agradaram e, assim, ficaram... Para contar história. Ao chegar em casa, quase às quatro da manhã, ainda tentei recomeçar a letra desta faixa 4 após cantar rapidamente a anterior. Ouvi, reouvi e escrevi letras que me pareceram belas no momento, mas logo pereceram quais compostas pelo vento. Só dois dias depois o telefone tocou. Despertei ao primeiro toque e, num flash, vi Márcia arrumando as mechas do cabelo com a mão direita, enquanto segurava o celular com a esquerda. No segundo, levantei da cama, olhei para o relógio – quatro ou cinco da tarde – e não seria mais Márcia, mas Owen – ou melhor, a secretária – enfim telefonando para tratar da minha readmissão ou avisar que o cheque estava pronto. No terceiro toque ensaiei um „alô‟ para não atender com voz de sono e, antes do quarto, Andy e Ana Selma me convidaram para assistir a mais um show de jazz. Tão pouco Andy disse àquele momento que, ao ouvir mais o tom da voz que o significado de suas frases bilíngues, talvez já tivesse começado a descobrir o nome da música. De todo modo, ainda estranharia uma ou outra nota gritante dada pelo


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trompetista aos ouvintes naquele clube de jazz cujas cadeiras enfileiradas e soltas no chão me faziam lembrar as de um curso pré-vestibular. Voltaria à rua 52 e à sala do casal Andy-Ana Selma, passaria os olhos pelos artistas e títulos dos seus CD‟s e, ao encontrar nomes que conhecia de ouvido ou da boca e mãos de Márcia, pediria para escutá-los ali mesmo, em sua casa. Então, por Ella (Fitzgerald) e (Duke) Ellington, eu começaria a admirar as canções do compositor Billy Strayhorn; a relembrar o Don‟t Explain daquela (Billie) Holiday de memorial day e a ratificar a obra prima de Bird with Strings solando sobre o clássico Just Friends... Subiria a Stairway to the stars com Bags (Milt Jackson) e o som do „instrumento favorito de Márcia‟ até revêla nas frases de Wes (Montgomery) e descobrir, no encarte do CD, que o instrumento do primeiro era o tal mencionado por Leonel nos Hamptons, do qual nem ao menos uma nota eu quis ouvir. Juntaria, portanto, o „vibrafone‟ ao seu som já familiar, assim como ligaria novos nomes a sons, vozes e pessoas que nunca fora capaz de escutar com atenção. Por fim subiria a rua 52 em direção à oitava avenida e, na estação da Columbus Circle, tomaria o mesmo Blue Train “A” dos discos de John Coltrane emprestados por Andy e Ana Selma. Como num CD-Read-Only Memory, o lirismo das faixas preferidas de Márcia – as primeiras do disco de baladas – multiplicavam aquelas palavras estampadas no encarte, de modo que os títulos não pareciam ser das músicas, mas do que elas me diziam naquele momento. Depois da faixa cinco, I wish I knew, o disco A Love Supreme dizendo tanto em tão poucas palavras que eu só pensava em recriá-las para espraiar seus sentidos; escrever letras e mais letras com tudo o que me vinha à cabeça: cenas passadas em casa, enquanto Márcia escutava aquelas músicas, imagens soltas no tempo e no espaço, livros lidos, frases tiradas de letras de canções... Tanto me diziam a respeito de Márcia os CD‟s emprestados por Andy; tanto mais eu teria a lhe dizer – e tão poucas as músicas para que pudesse fazê-lo –, que não me precipitei em atar os primeiros versos que me vinham à cabeça às suas melodias. Arranquei a folha amarelada de um caderno antigo, escrevi „Rascunho da letra da faixa 4‟ em letras garrafais e rabisquei, por linhas tortas: Tua chave um dia invento, abro a noi/te vendo, mas... Teu mistério vira o rosto pro outro hemisfério...


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5- O País da Canção Desde o início as canções de Márcia criaram o mistério do país da canção... Que nosso passeio por Jackson Heights, meses antes daquele dia, lhe tivesse despertado o interesse pela música indiana e que, a partir disso, novos bairros, colônias e músicas se tivessem seguido – até que ela absorvesse todas aquelas influências em suas canções –, era hipótese considerada plausível tanto por Andy quanto por mim. Trabalhando seis dias por semana, dez ou mais horas por dia, jamais tomaria conhecimento de suas idas e vindas pela cidade, e dificilmente conseguiria notar qualquer mudança em sua rotina. Não seriam as salsas do Spanish Harlem, os fados de Newark, os guetos gregos d‟Astoria, os merengues e bachatas de Washington Heights e os sons exóticos de quaisquer outros cantos que me fariam dar ouvidos à guitarra de Márcia. Somente a solidão e as melodias do CD deixado sobre a cama tiveram este poder. Somente os momentos de criação das duas letras me fizeram varar as noites, levado da imaginação ao barulho dos pássaros e ao vento fresco trancado do lado de fora da noite pelo sol. Até o domingo de sono profundo em que o toque do telefone e a voz de Andy preencheram as lacunas dos segundos com o nome da música. A partir daí o apartamento de Washington Heights ficaria cada vez menor para aquelas canções. Em pouco tempo rumava para Astoria, sonhando em dividir com todas as pessoas as letras e músicas que compusera com Márcia. No ápice de um delírio ingênuo e simplista, eu conseguiria inspirar até mesmo os funcionários mauhumorados e seus trabalhos repetitivos e maçantes nos escritórios, lojas e repartições públicas. Falaria do „outro mundo que existe dentro deles‟ e lhes incentivaria a transformar a vida do faz-de-conta-dinheiro dos dias de aumento ou pagamento. Contracenava com as árvores e carros daqueles cenários cinematográficos e me sentia ainda mais artista que os adolescentes de óculos escuros da praia de Ipanema. Chegaria enfim ao espaço musical Brazillions Of Sons, na rua Steinway, onde ao menos o céu não se escondia por detrás dos trilhos e do barulho dos trens arribando de Manhattan a cada dez minutos.


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O BOS-Steinway não era grande e, nos fins de semana, a fila dava quatro ou cinco voltas na calçada, ocupando toda a fachada da casa até cobrir a vitrine de uma padaria grega ao lado esquerdo. Atraídos pelos retalhos de músicas e corpos que irrompiam no passeio sob os berros dos seguranças, muitos gastavam a noite toda ali; fumando, jogando conversa fora e bebericando as vodcas ou cervejas escondidas nos próprios bolsos ou nas bolsas das mulheres. Outros permaneciam até que as garrafas voassem dos prédios e as latas fossem apalpadas pelos guarda-costas; as guimbas passassem das bocas às solas dos sapatos, a fumaça e a conversa mole se escondessem nos narizes e ouvidos dos parceiros, e os canhões de luz tapassem o céu estrelado das noites d‟Astoria num verão longínquo. Tantos eram os brasileiros reunidos assim, ao ar livre, que não parecia existir lugar melhor para divulgar a história e os nomes das músicas, distribuir CDs com as canções de Márcia, e sugerir que cada um escrevesse as próprias letras para aquelas e outras melodias... Puxava papo com uma solitária da fila, fazia o assunto descambar para a música... e a via procurar guarida debaixo do BOS-S e seu segurança. Voltava para o fim da fila, começava tudo pela décima vez... e topava com um colega falante disposto a carregar o assunto para a internet, o MP3, os CD‟s piratas, a enxurrada de artistas e o fim da canção. Abordava um senhor sentado no meio-fio, chegava enfim ao momento de sacar da mochila o aparelho de CD, e era surpreendido por sua cara amarrada e seus ouvidos tapados. Já impaciente, retornava ao fim da fila e avistava, do outro lado da rua, uma colega atriz dos tempos de Braz-Illinois. Isabela protagonizara um drama, uma comédia e inúmeras peças infantis do Circuito Alternativo de Teatro para Todos de Salvador. Mudara-se para Nova York em 2001, após dois casamentos e três temporadas de casa cheia na Califórnia. Em poucos meses as torres gêmeas desabaram sobre nossas cabeças e, em mais alguns, a falência do Braz-Illinois era dada como certa. Desempregada e desiludida com a arte da interpretação, refizera-se ao longo de um ano e meio de leituras e releituras de Paulo Freire e John Dewey numa fazenda no interior do estado do Piauí. A readaptação a Nova York vinha sendo difícil, o século XXI ainda haveria de „transformar em coadjuvantes os protagonistas das atuais peças de museu‟; em todo caso, Isabela parecia mais alegre do que nos idos de 2001. Passara a colaborar com um projeto social coordenado por uma amiga e, enquanto eu vestia o fone de ouvido


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em seu rosto miúdo, ela abria os braços teatralmente e falava em compartilhar as canções de Márcia com as crianças do projeto, uma vez que... „Mesmo que todas as línguas usassem uma só palavra para dar nome a um sentimento, ele não voltaria a existir aqui e agora, nem soaria da mesma forma em todas as bocas, ou seria apreendido exatamente da mesma maneira por pessoas diferentes. Se isto não fosse verdade, artistas nasceriam em cachos e suas vozes dariam o mesmo fruto. Ao contrário, são as notas que se reúnem para que uma única voz possa brotar, dispor as frases uma após a outra, contar algo pessoal e intransferível, e conquistar empatia por fidelidade à verdade da própria experiência de vida‟. Escutando atentamente o discurso pausado de Isabela, logo estava na mira dos canhões de luz do Brazillions of Sons-Steinway, contribuindo com um par de ouvidos feridos aos cachos de frases que a multidão cultivava sob as caixas de som e seus olhares distantes. Ela avistava a amiga „de vidas passadas‟, despedia-se balançando a mão como um limpador de pára-brisa a um demônio da garoa, e sumia por entre os chumaços de cabelos emaranhados nas mesas dos cantos da casa. A partir daí eu cobriria com goladas de vodca o vazio que a ausência de Márcia me fazia sentir a cada vez que deparava com um beijo carinhoso no bar ou um abraço apertado na pista de dança. Avivava a memória em busca de algum rosto familiar na multidão, mas já não colhia mais do que os sorrisos plácidos dos avós de Rio Novo, trazidos à baila por um ou outro casal com sotaque mineiro. Despertava com a antevisão de um aceno no canto dos olhos, mas este já não era nada além de um copo de cerveja levantado ao teto para ritualizar um brinde ou dar passagem a um garçom apressado. Roubava um banco de madeira do bar, punha-o entre Isabela e a parceira Isadora, e pedia para escutar rapidamente os sotaques baiano e mineiro de uma e outra. Falava dos avós de Rio Novo, lembrava de minha primeira e única viagem à Bahia e no instante seguinte já estava dentro de uma Kombi em Salvador, com Dolores, minha mãe, tio Aristides, meus avós e meu pai. O motorista parava a Kombi no meio de uma avenida movimentada, entrava num supermercado „para fazer compras‟ e não se ouvia uma buzina. Todo mundo olhava para trás sem acreditar no que estava vendo, o engarrafamento já ia longe e ninguém via o motorista discutindo o preço da Kombi com o sub-gerente do supermercado. Depois recordava o caso da


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funcionária do banco, que ouvia o sotaque do Aristides e resolvia conversar com a gente; perguntar sobre as praias do Rio, as escolas de samba e o Corcovado. Dois ou três clientes se interessavam pelo assunto e logo todos no banco conversavam animadamente. Eu e primo Leco queríamos porque queríamos comprar cocada na esquina e meu pai aceitava nos levar até lá. Comíamos, voltávamos, e só então os novos amigos começavam a se despedir. E tome tempo até que saíssemos do banco, pois na medida em que os grupinhos se desfaziam para dizer adeus, pessoas que até então não haviam se apresentado engrenavam novos assuntos. Descobriam semelhanças nos nomes dos parentes, apresentavam os respectivos maridos e trocavam telefones. À esta altura eu e Leco só faltávamos subir pelas paredes, mas nada que encurtasse as digressões ou restringisse os detalhes na explicação dos itinerários. De repente Isabela e Isadora se entreolharam e trocaram carícias com cara de enfado, mas nada que me fizesse parar de falar. Eu revia meu pai e tio Aristides achando graça em assuntos que me pareciam inexplicáveis, ouvindo interessados aquelas referências histórico-culturais de Salvador. Anotando os endereços de uns museus e casas de shows que depois se revelaram tão entediantes, que concluía que o mundo dos adultos tinha de ser muito mais divertido do que o meu... Neste momento Isabela e Isadora abandonaram as cadeiras e sumiram por entre os braços emaranhados na pista de dança. O mundo dos adultos era agora tão aborrecido quanto o das crianças do projeto, pois elas jamais ouviriam falar no CD com as músicas de Márcia. Cruzei o salão inúmeras vezes, olhei para um lado e para o outro, mas continuei vendo as mesmas caixas de som e seus olhares distantes. Naquela madrugada fui incapaz de escrever qualquer coisa para a faixa cinco. Só o que fiz foi ler e reler a letra da música anterior, ainda incompleta:

Tua chave um dia invento Abro a noi/te vendo, mas Teu mistério vira o rosto Pro outro hemisfério

Teus beijos cobrem a face


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Da Terra e seus disfarces Teu choro irriga o solo Que abraços não consolam Viajas... Por teu corpo corre o mundo E o ar que inspiras...

Muda esta paisagem Chega aos lares..., revolta os mares Invade o sono, leva longe..., escapa deste sonho E teu lugar eu não reponho nem descubro (Se falta ar de grito, eu escuto).

Escrevi e reescrevi inúmeros versos até acrescentar, quando já amanhecia:

Não é muda esta paisagem se cantares Que o som dos bares Invade o sono, leva longe..., incansável sonho Que em tua vida eu só componho pra te dar...

Dormi só até as dez. As próximas notas eram longas e, sobre elas, todas as palavras careciam de sentido. Então deixei que a própria melodia, despida de letras, desse nome à música. Recomecei a escrever depois dali e ao fim daquela noite já tinha:

O nome que não tens: (...) ...Acordem os versos livres, Gritos, rimas impossíveis Que as palavras deles somem Despem a voz e vestem o nome Que usas


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(Em) Todo sítio por que passas Teima em ti amarCalor que reaviva o inverno Amores se conservam

Mais uma canção estava pronta e, como de costume, lá estava eu com o casal Andy-Ana Selma; entregando-lhes uma cópia da letra, lendo-a em voz alta e cantarolando com a gravação. Esclarecendo as dúvidas de Andy; virando o rosto para o outro hemisfério sem ouvir nenhum comentário, desvirando e inventando uma chave para aquele mistério: Andy não gostava da música, e Ana Selma, de nenhuma de minhas letras. Havia algo estranho com a melodia e seu acompanhamento ao vibrafone; um certo „ar melancólico‟ – ele enfim confessou – que eu captara e transferira para a letra, tornando a música triste e chata. No domingo seguinte retornaria ao Brazillions of Sons d‟Astoria e assistiria ao show num canto do palco. Ao fim do primeiro set, veria o pianista Gazé recusar o envelope com a cópia do CD de Márcia e a apostila de minhas letras; ele não teria tempo para escrever arranjos e gravar as canções de jovens amadores, mesmo que lhe oferecessem uma fortuna. Eu não comprara ingresso no pórtico atemporal dos minutos de grife. Consumia a vida com minutos genéricos e piratas, produzidos em série por gravadoras voadoras de discos rígidos. Músicos „como eu‟, disse-me Gazé Basílio, recebem para confeccionar os próprios segundos e terceiros junto aos remediados de marcas registradas e nomes de fantasia. Que eu falasse com o „Zosório, o do violão‟, pois talvez o trabalho lhe interessasse. Aproximei-me de Zezo Osório, disse-lhe um oi demorado e, antes do envelope oferecido para dar passagem a um músico atribulado ou da mão estendida para ritualizar qualquer coisa ultrapassada, deu-me um cartão, as costas e a hora apropriada para tratar de assuntos como aquele. No dia seguinte só o que fiz foi procurar por Leonel em todos os números da cidade. Ele havia saído da empresa de som há algum tempo e a banda dos Hamptons já se dissolvera. Era um dia de muito movimento, a funcionária não podia ocupar a


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linha e não daria informações adicionais. Segundo Silvano, o trabalho dos Hamptons tinha sido o último de Leonel naquela função. Estava saindo de casa e não podia perder tempo ao telefone. „Talvez ele não estivesse mais em Nova York, mesmo, e daí?‟. A partir daí daria interpretações mirabolantes à melancolia que Andy notara no vibrafone daquela faixa. Absorveria o susto, a coincidência inoportuna do sumiço de Leonel com o de Márcia, tomaria o telefone e ouviria o „hello‟ de Zezo no terceiro ou quarto toque: que eu levasse o envelope até o BOS-S na sexta-feira. O pagamento seria antecipado; maiores informações só seriam fornecidas após a realização da gravação. Voltei a Astoria, entreguei-lhe o envelope e fiquei para assistir a outra apresentação da banda da casa. Logo receberia mais um cartão de negócios, agora do baixista Quirino. Morava nos Estados Unidos desde 92; tinha estudado numa escola de jazz de Boston e tocado em diversas bandas de jazz-rock no início dos anos 80. Paulista de Tatuí, Quirino resolvera tentar a vida no Rio em 1991, mas, em pouco mais de seis meses em Copacabana, fora incapaz de encontrar uma única pessoa disposta a uma „audição completa e sem preconceitos‟ de seu grupo musical. O destino final seria a cidade de Nova York e, com ela, todo um oceano de considerações amarguradas e dúbias: „Toda cidade tem sons misteriosos, assim como os personagens que levam, às vezes injustamente, a culpa por eles...‟, disse ele, balançando o dedo direito ao ritmo urgente dos fins dos intervalos dos sets. „Em Nova York são os ratos e possíveis terroristas; no Rio, os assaltantes e jazzistas. Entendeu?‟. Disse isto no mesmo ritmo a um só tempo pausado e tenso; caiu sozinho na gargalhada, deu dois tapinhas no meu ombro e saiu antes que eu pudesse discordar ou esclarecer um ou outro mal-entendido. Tomei o trem „A‟ para Washington Heights e segui direto para a mercearia de seu Porfírio. Em pouco tempo ele estaria falando de Santo Domingo, sua cidade natal; e dessa vez eu não ligaria se ele me lembrasse de Márcia, do emprego que ainda não encontrara e das músicas e letras que ainda não escrevera, mesmo lendo nos meus olhos as dúvidas e sabendo de antemão as respostas. Também não me importaria que ele falasse mais uma vez do quanto sonhava em voltar para a


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República Dominicana e do quão rapidamente o faria no dia em que tivesse dinheiro para viver com conforto. Mas naquela noite ele não quis saber de nada. Gritou meu nome com os braços entreabertos; correu até o aparelho de som; tirou a bachata em volume de boate e colocou aquela gravação cheira de ruídos. Os músicos ajeitavam os instrumentos e um deles perguntava: „Listo?... Listo?‟ A tambora e o güiro atacavam; o baixo... Porfírio abria os braços e saía do balcão. Já eram três os „no creo‟, seis os „gracias‟ e incontáveis os „muchas gracias‟. A música já ia pela parte „B‟ e seu Porfírio e eu confraternizávamos; ele com a voz potente dos dominicanos; que a melodia mesmo ninguém escutava e agora os dois presentes eram um abraço... Falando um monte de coisas que eu não entendia nem poderia entender, que aquilo não era mais espanhol; nem português. Quem chegava à mercearia não entendia nada e seu Quiñonez tinha que servir de intérprete; explicar o que estava acontecendo assim como tantas vezes explicara os lances dos jogos de beisebol. Porfírio tentando dizer que agora eu tinha um merengue abrasileirado para escrever uma letra: Pedro tinha tentado compor como Márcia. Do jeito que tudo aconteceu, parecia que a letra já estava pronta e eu só precisava passar a limpo. Esperei o dia amanhecer; respirei o ar puro da praça da avenida Haven e voltei para casa. Coloquei o CD de Pedro e seu Porfírio, mas não fui capaz de pensar em nada. Então pus o de Márcia, corri até a faixa cinco e, duas horas depois, escrevi no alto da folha o título da letra que acabara de aprontar, era O País da Canção. Abri o caderno de telefones, disquei os números, deixei tocar uma, duas, várias vezes e nada. Liguei novamente; uma, duas, três... e agora sim: „alô‟ „Oi, tia, sou eu. Muito cedo para te ligar? Que horas são aí?‟ „Oi Eurico. Por que... não deixou para... ligar mais tarde?‟ „O sono acabou.‟ „Quê? „O sono acabou.‟ „Que sonho, rapaz?‟ „Vou voltar para o Brasil, Dolores. Quer morar no Rio?‟


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6- O Destino de um Samba Não dormi por muito tempo; o telefonema da secretária de Serafim Fontes – gerente artístico da gravadora Sucesso, Sucessores & Associados – transportara-me para um mundo de sonhos, distante demais do conjugado recém alugado em Botafogo. Pela moldura íngreme da janela da memória, a luz da lua projetara no teto os slides azinhavres que a madrugada acessava num vértice de tempos. Eu me via ilhado num quadro encardido, enxaguado em quarto minguante pelos rufos curtos – crescendo e decrescendo – das cápsulas claras que varavam o asfalto curtido da rua Voluntários da Pátria. O sol penetrava na câmara escura, queimava os slides, e o vizinho do 102 executava a mesma peça para orquestra de câmara de todas as manhãs: o bate-estacas – o ganido da torneira – o rufo no boxe – as buzinas e sirenes na platéia – o ganido da torneira – secava o rufo e o boxe – cessava o bate-estacas – batia a porta – e bravo. O entregador de jornais deixava notícia silenciosa embaixo da porta e só então eu adormecia. Não dormi por muito tempo, pois não passava das dez horas da manhã quando levantei. A longa lista de afazeres, pregada no alto do mural de recados da ínfima cozinha, cobria os nomes dos amigos cujos paradeiros ainda não descobrira, os recortes de jornal com as ofertas de emprego do dia anterior, e as fotos de meu pai, Márcia, Dolores e Andy. A entrevista estava marcada para as duas horas da tarde, mas, para chegar à Sucesso, Sucessores & Associados a esta hora, eu deveria estar ao meio-dia em sua ex-sede – no centro da cidade, defronte ao número 2117 da rua Visconde de Itaúna –, e tomar o ônibus leito que, segundo a secretária de Serafim Fontes, percorreria um longo caminho até estacionar nos fundos da nova sede da empresa, em plena Barra da Tijuca. Às dez para as onze batia com violência a porta de casa, pisando desastrado na foto do astro e na manchete do jornal. Às onze horas, já a caminho da Sucessores, vencia pelo asfalto a lerdeza das idosas, subindo a rua Voluntários da Pátria com os carros tirando fino dos braços e os pés tirando fino da calçada estreita e desnivelada. E às quinze para o meio-dia, tendo suportado filas indianas ao lado de camelôs de CD‟s e DVD‟s piratas, avistava a ex-sede da


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Sucessores & Associados, a maior dentre as gravadoras a que enviara o CD demo preparado por Zezo Osório. Era um prédio velho, já quase em ruínas, daqueles que não interessam nem mesmo aos pichadores. Em frente a ele não havia fila, apenas um homem sentado numa cadeira escolar, rabiscando alguma coisa num caderninho de anotações; parando de quando em quando, bebericando um copo de cerveja e olhando para os lados com cara de este-filme-eu-já-vi. Estranhei que eu fosse o primeiro a chegar, quinze minutos antes da saída do ônibus; por isso me dirigi ao homem: „Oi... Oi... Oi – ele enfim me notou –; por favor, sabe se é daqui mesmo que sai um ônibus agora ao meio-dia?‟ „Ônibus? Não, mas, a esta hora? Não, o último saiu às dez‟. „Às dez?! Não tem um que sai ao meio-dia?‟ „Não, o último foi às dez. Agora não tem mais ônibus, não. Eu sei que ônibus é este; da Sucesso, é, mas o último sai às dez, não é meio-dia, não‟. „Mas a funcionária de lá me disse que tem um ônibus que sai daqui ao meiodia... E agora, como é que eu chego lá?‟ „Aí é difícil... Eu nem sei... Mas vai até aquele bar ali na esquina, está vendo? Logo ali na esquina mesmo, onde tem aquela tenda vermelha, e pergunta para a Ciatinha. Procura a Ciatinha, diz que o Hilário te mandou; que você perdeu o ônibus do Sucesso e quer saber como chegar lá agora. Diz que o Hilário te mandou, Hi-lário, e aproveita e diz que eu quero falar com ela, para ela dar um pulinho aqui. Falou?‟ Caminhei em direção ao bar. Sob o toldo vermelho onde se lia „Casa da Sobrinha Ciatinha‟, várias mesas e cadeiras de latão se amontoavam sobre a calçada de pedras portuguesas. Passei por cima delas e penetrei no bar que ainda se recuperava da noite anterior. Era estreito e fundo, o chão gasto e pegajoso, as paredes cobertas de fotos e autógrafos de artistas conhecidos. Em frente ao balcão, um sujeito de meia idade fumava um mata-rato olhando para ontem. Perguntei por Ciatinha, mas ele não desviou o olhar. Apontou para o fim do bar e disse: „senta e espera‟, ao que obedeci por quase quinze minutos. Só então ouvi uma voz de mulher vinda do balcão; caminhei em sua direção e arrisquei:


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„Dona... Ciatinha?‟ „Falando. O estritamente necessário.‟ „Só queria... pedir uma informação; o Hilário me sugeriu que viesse até aqui. Eu perdi o ônibus da SS&A e queria saber como chegar lá.‟ „O quê? Eu lá sei como você chega lá agora? Não sei e nem quero saber para onde essa corja foi.‟ „E por acaso conhece alguém que possa me informar?‟ „Não, não conheço não. Ele é que deve conhecer, ora essa. Volta lá e pergunta para o seu amigo Hilário sobre o Sinhozinho, que ele é que deve saber. Agora, quer ouvir os verdadeiros sucessores fazendo música de primeira? Dá um pulo aqui hoje à noite pra você ver...‟ Enquanto falava, Ciatinha sumiu pela porta da cozinha. Quando voltei à rua, o sujeito do mata-rato ainda esmagava a guimba contra o passeio. Poucos passos e avistei Hilário pelas frestas dos corpos que caminhavam em sentido contrário. Pensei em perguntar sobre o tal Sinhozinho, mas, quando me aproximei o bastante para ser ouvido, foi ele quem perguntou por Ciatinha: „E aí, falou com ela?‟ „Falei, mas ela disse que não sabe, não.‟ „Ah, essa Cia-tinhosa! Sabe, sim, está é de onda! Deu meu recado, para ela dar um pulo aqui?‟ „Recado?‟ Neste momento um táxi subiu o meio fio fazendo tanto estardalhaço que cobriu todas as buzinas da rua Visconde de Itaúna. Hilário largou a caneta, vincou a testa e olhou para o carro com o pavor de quem, afogado em perguntas vindas de todas as direções, pressente a resposta única a respira o sopro peremptório. Então, para alívio do Hilário que agora assistia à cena de ouvidos tapados, a máquina guinchou, estacou e morreu. A porta se abriu e de dentro do táxi fugiu uma batida tão ensurdecedora que, quando o timpanista da Orquestra Popular do Teatro do Estado – em reunião no teatro de mesmo nome, a poucos metros dali – acenou com a possibilidade de levar os instrumentos para as ruas para protestar contra os atrasos no pagamento dos salários dos músicos, os presentes não lhe deram ouvidos, mas correram para as janelas com as mãos sobre as orelhas. E, antes mesmo que a reunião


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fosse encerrada por falta de quorum, todos os tímpanos da província já haviam sido furados por funcionários do naipe de sopros do Departamento de Operações Especiais da Secretaria de Cultura do município, infiltrados no ar pesado da sala. De modo que para os que estavam na rua no momento em que o taxista abriu a porta do carro – e viram saltarem nos ouvidos das vítimas os estilhaços distorcidos daquela batida violenta –, era impossível não pensar, agora que já se recompunham do susto, que aquilo não passara de um acidente de percurso. Teriam feito a tradicional roda em torno dos envolvidos no caso, assediando-os com suas mãos leves e seu c.c. de quase dois mil; teriam permanecido ali por mais algum tempo, espalhando e comentando as notícias na medida em que elas surgissem, fresquinhas, nos plantões vespertinos do telejornal. Haveriam de fazer isto e muito mais não fosse o inesperado desfecho da batida, tirada do ar por aquele sujeito de cabelo repartido no meio, camisa desabotoada e cordão de prata afundado no peito cabeludo; o mesmo sujeito que agora saía do táxi, sob os olhares petrificados dos transeuntes esquecidos de seus rumos. E que então era saudado por um Hilário de pé e de braços abertos: ���Sinhozinho! ... „Musicão, hein?... É nova?‟ „Mal informado, hein, Hilarica. Essa está estourada já, no Brasil inteiro‟. – disse Sinhozinho, abrindo o capô do carro. „Como está Larissa?‟ ...„Bem.‟ „Por aqui a esta hora, o que houve?‟ „Cliente extra lá da Sucesso. Aliás, será que o cara debandou? Viu alguém por aí?‟ „Ah... Então é por isso... Não, seu cliente não foi embora, não; olha ele aqui‟. – E todos os olhares se voltaram para mim. „Esperando o ônibus da SS&A, colega?‟ „Não, já estou sabendo que não tem mais ônibus hoje.‟ „Seguinte: Dá para fazer uma corrida especial para você a cem pratas, vai?‟ „Mas o carro não está enguiçado?


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„A máquina está boa, colega, só morre quando para. Vai?‟ „Faz por sessenta?‟ Sinhozinho fechou o capô, religou o carro e o aparelho de som, trafegou na contramão sintonizando o rádio até quase a esquina da Casa da Sobrinha Ciatinha; atravessou um cruzamento, avançou doze sinais, e em pouco menos de duas horas de engarrafamentos e acostamentos, eu avistava o galpão semi-destruído da Sucesso, Sucessores & Associados. Situava-se numa rua de terrenos baldios e escolas mal acabadas; o mato alto trepando nas janelas, o sol furando as portas sem trinco e as noites de sereno salpicando de lágrimas o chão de estrelas. „Aqui – disse-me Sinhozinho – tudo ainda parece estar em ruínas, mas já é construção‟. Freou o carro, guardou o dinheiro, disse: „a Sucesso fica logo ali‟ e estacionou sem deixar morrer a máquina. Então só restou o burburinho e o som da música de fundo dentro do galpão. A multidão falante, esparramada por filas sem começo nem fim. À frente de cada uma delas, velhos fortes trocavam senhas por carteiras de identidade; ao meu lado uma morena escutava música com um tocador de MP3 na mão: „Quer ouvir?‟ ...„O quê?‟ „Quer ouvir?‟ – ela repete enquanto tira o fone de um dos ouvidos. Eu visto o fone, ouço a voz de um homem: „Qual é o seu nome?‟ E uma voz de criança: „Luiza‟. Ele novamente: „Vai fazer um som agora?‟ „Vou‟ „Então pode entrar!‟. A questão é repetida a outras crianças, até que uma delas lhe dá uma flauta de presente. O homem abre o presente e volta a perguntar: „Vai fazer um som agora?‟ De repente uma música linda como eu nunca tinha ouvido lhe toma a frente, como se o som das crianças tivesse enfim enchido a sala e o próprio ato de perguntar fosse inundado por respostas. As vozes das crianças desaparecem pouco a pouco e eu penso ouvir a de Márcia, depois a de uma criança respondendo: „Serafim‟... Quase ao mesmo tempo, um funcionário da gravadora grita do outro lado da sala: „Número dois mil e cem!‟ Levanto-me, tiro o fone e pergunto o nome da música à morena. Ela faz que vai me responder, mas em vez disso ouve-se a senha seguinte: „Número mil


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oitocentos e setenta e um‟. „Dois mil e cem aqui!‟, eu grito. Sigo o seu dedo e chego a uma sala dividida em vários ambientes. Num deles um homem assiste televisão de costas para um sofá de três lugares. Ele nota a minha presença: „Ah, já está aí, não é?... Você deve ser o...‟ „Eurico...‟ „Número dois mil e cem!‟ Serafim Fontes revira uma pilha de discos em cima da mesa. Busca o meu CD e o encontra com uma enorme etiqueta colada no estojo. Vasculha a papelada do lado direito da mesa até achar o que procurava: „Ah, então é você...

Sabe 2100, se não estou errado, temos muito em

comum... Lá pelos 90 do século passado eu era um jovem como você; compunha músicas diferentes e achava que elas me levariam a algum lugar. Nasci e cresci em Vitória e, motivado por amigos de última hora, resolvi me mudar para o Rio. Em breve o mundo se curvaria ao meu talento, pensei. Deslizava sobre a crista dos acontecimentos, mas no fundo as ilusões cortavam os dobrados e a cidade triturava os sonhos... Como foi duro deparar com aquela realidade, tão diferente da que eu esperava encontrar. Entrava nos restaurantes para, num ato heróico, oferecer arte e salvação aos brutos que traçavam coxas de galinha sob as caixas de som e seus olhares distantes, e era tratado como um reles candidato a garçom. Decorava os discursos empolados, digitava seus sons tintim por tintim, mas, ao menor sinal de mudança no script das maldita/duras partituras duras, músicos viravam as costas para que eu não lhes roubasse as poses dos dedos e o percurso das lágrimas no espelho de um braço por onde corriam cordas. Vivia as minhas músicas de corpo e alma, 2100... Esperando colher ao menos um dos louros postados nas mesas como saleiros entupidos por grãos de arroz de festa. Mas, quando o acorde final soava, os aplausos demoravam tanto para ganhar corpo que era como dar partida num carro a álcool numa manhã de inverno de uma cidade em chamas... Com tudo isso, querido 2100, endureci. Senti-me como um revolucionário no circuito oval de uma fórmula gasta de uma disfunção incurável. Espelhei-me nos exemplos do passado para me revoltar contra aquele presente perecível e me consolar com um outro presente, ainda mais barato, que só o futuro me daria... Até que fui apresentado ao grande gênio dos tempos vindouros, aquele que me serviria de mentor; o remediado de todas as dores


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de parto das verdades prematuras, Ivan Fillardis III. Foi ele quem ensinou – a mim e a tantos outros – o caminho das pedras. Fez-me ver que, para todos os geradores de riquezas deste mundo moderno que temos ao nosso dispor, a música que eu fazia – e que hoje você faz – é como o ventinho fresco que roça os narizes das mais agitadas crianças de uma noite de festa americana só para falar de gripes e viroses aos sistemas imunológicos.‟ „Que é isso?! Você n...‟ „Sente-se; sente-se! Músicos têm que saber ouvir!‟ „Mas...‟ „Não, não, não... Músicos têm que saber ouvir. Por favor, sente-se! Eu ainda não terminei. Quando acabar, o senhor poderá fazer as perguntas que bem entender! Pois bem, 2-100, disse tudo isso só para que você entenda que tudo o que vou falar de sua música aprendi em minha própria vida. Você pode até discordar, ficar com raiva de mim, mas não vai poder dizer que ninguém lhe avisou, e que o mundo lhe deu as costas enquanto você caminhava de mãos e olhos atados em direção a um despenhadeiro de um campo onde sentei-os, lado a lado, a realidade e o sonho. Assim como você, 2100, eu também passei a juventude pensando que arte fosse esse grito que se dá quando todas as luzes se apagam e não se pode enxergar um palmo adiante do nariz; este caminho afoito que se faz no escuro, com a mão apalpando os móveis e quebrando os objetos que estão à nossa frente, mas não podem ser vistos... Nada disso. Arte é aguardar o dia seguinte, aguardar que o sol volte a reinar, para só então agir. E quando este dia (este grande dia!) chega, seus minutos, assim como os gestos que neles se assentam, não devem de maneira alguma descumprir a promessa de alegria concreta e eterna feita ao mercado. Daí que os lançamentos imobiliários, por exemplo, sejam propagandeados por casais sorridentes postados sob letreiros como... venha morar ao lado da felicidade! E cervejas não sejam nada mais do que tônicos da alegria; subterfúgios para que as morenas de olhos verdes e lábios grossos, as mocinhas das histórias de amor e as modelos das fotos possam olhar para nós com outros olhos. E tudo isso, 21,00, nada mais é do que arte... Quem ainda não sabe que, no mundo de hoje, o marketing e a publicidade são artes sinceras, que dizem ao que vieram e que têm a humildade de provar que são úteis? Quem?... Ora, não me olhe com essa cara, vinte-e-um-zero-zero. O marketing mexe com o imaginário das


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pessoas. Aprenda uma coisa: a arte deve servir para congregar – quando não, apaziguar – os espíritos dissolutos diante do caos dos afazeres domésticos. Daí a utilidade pública da boa música, este nosso marca-passo duplo de cada dia... Ou melhor, este nosso corretor de emoções, temporizador de passos e unanimizador de mentes de cada ciclo de deificação do mercado... Isto, então, nos leva às suas músicas... Querido 21-00, você tem muito que aprender... Suas músicas não têm nada a ver com nada. Depois que iniciamos nosso programa revolucionário de formação de mão de obra capacitada para a nossa indústria, passei a prestar mais atenção no que a nossa garotada vem fazendo por aí, sabe? E – peço perdão se minha sinceridade ofender – há muitos meses que não me deparo com músicas tão hostis aos códigos de ética do bom gosto. Desculpe, mas tinha que lhe dizer isso, e digo do fundo do meu coração ajustado por todos estes anos de marca-passo. Não ouso, de maneira nenhuma, afirmar que isso reflete a sua falta de aptidão para uma carreira no campo da música – o senhor entenderá em breve onde quero chegar com tudo isso –; só o que desejo é compartilhar com você a experiência que adquiri ao longo de todos esses anos no meio artístico. Quer ver? A primeira música, por exemplo, que você chamou de... Apresentação. Tem partes sem pé nem cabeça. Se soubesse julgar corretamente aquilo que sai de você, poderia ter fabricado pelo menos uma música regular; mas, unidas, elas são alguma coisa deplorável. O problema da segunda música é oposto ao da primeira. Para começar seu nome é muito estranho: Pré-história da canção... Por que isso?... É uma música instrumental e, como tal, ressente-se da ausência de uma letra; a concatenação das melodias é artificial e parece evidente que suas frases aconteceram em épocas distantes entre si, mas foram postas lado a lado só por conveniência. Mais ou menos como se o senhor tivesse tentado reunir em poucas linhas idéias que, melhor aproveitadas, serviriam para contar várias histórias. A terceira, por sua vez, complica demais alguma coisa que acontece a toda hora, em todos os lugares e permeia toda a história da canção. Erro bastante comum entre os jovens, este, de complicar o que é simples... E os versos finais, em que você diz... Em que você diz... Como é?‟ „Dar fisionomia/A cantores mudos‟...


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„Que atravessam dias/Contempontiagudos... Contempontiagudos?... Que é isso?!... É isso mesmo? Não é possível...‟ „Bem, quer diz...‟ „Por favor, senhor 2100! Tenha a bondade de me escutar!... Canções são trilhas sonoras para a vida das pessoas; o público deve se reconhecer nelas! São teatros em que os ouvintes podem interpretar as personagens que quiserem, mas optam, quase sempre, por representar o próprio papel de diversas formas. Transportam para a vida aquelas falas – ou, se preferir, letras – e vivem-nas de acordo com a própria conveniência; porque as pessoas gostam de histórias, isto sim... Imagine você que minha ex-mulher se lembra, até hoje, das músicas que ouvíamos no momento em que nos conhecemos, no instante em que nos beijamos pela primeira vez, e no segundo em que nos abraçamos pela última, anos antes de nos separarmos. Não é incrível?... Dito isto, como você... As letras também são suas, não é?‟ „Sim, na verd...‟ „Pois

bem!

Como

você

pôde

escrever

um

verso

como...

Contempontiagudos?... Fechado dentro de si, sem acesso aos ouvintes; uma poli/palavra niilista e indecisa que tem medo de encarar as próprias limitações e em razão disso maquia-se com palavras-sósias para ultrapassar as fronteiras dos sentidos alheios sem passaporte e visto de entrada... Uma maria-vai-com-as-outras-palavras condenada a crimes de estelionato e falsidade ideológica na Justi/Semiótica... Com, ontem, tem tempo, ponte, pontiagudos, agudos; e daí? O que significa isto? Por que tamanha bobagem? Por que não simplificar e tentar... Dar fisionomia A mulheres e homens Que matam de fome Um leão por dia... Ora, 2100, não há explicação. A não ser que aceitássemos, de comum acordo, que estes versos foram escritos com o ego e não com o coração. Não foram viv... Não me olhe com esta cara, você sabe do que eu estou falando! Não foram vividos, mas cuspidos racionalmente por uma máquina fria e calculista de letras exibicionistas... Canções, seu dois e cem, nada mais são do que histórias; histórias das quais os ouvintes podem efetivamente participar, pois em dois ou três minutos


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chegam a se emocionar tanto quanto se emocionariam com um filme de duas horas de duração ou um livro lido ao longo de meses... As dores da disjunção amorosa narrada pelo cantor também podem ser as do ouvinte se ele já tiver vivido algo parecido, ou mesmo se aceitar a viagem por livre e espontânea vontade. Se o cantor diz „eu te amo‟ para a interlocutora imaginária, uma ouvinte que o escuta sozinha em seu quarto pode muito bem concluir que ele o diz somente a ela. Pode se apaixonar por esse cantor, ou, ainda, imaginar que quem lhe diz „eu te amo‟ daquela forma é o seu real amor. Se for este o caso, o nome do ídolo deixa de ser o do cantor, estampado na capa do disco, e passa a ser o do seu amado... O problema é que nada disso passa pela cabeça dos jovens que, como você, usam o conhecimento teórico – e não a vida – para fazer música. Estudam harmonia funcional e se orgulham quando aprendem que a música X resolve em lá ou acolá, ou blá-blá-blá. Ora... Quantos são os músicos, 2100, que estão acostumados a dizer que as músicas tristes resolvem em dó menor, as alegres em sol maior ou as estrangeiras em lá? E quantos são os que dizem a verdade nua e crua de que as músicas, na realidade, resolvem-se na vida dos ouvintes? Lembro-me agora das palavras do compositor norte-americano John Cage, incansável questionador da história das músicas: „Por que tenho que continuar fazendo perguntas? Por que todos me chamam de compositor se só o que faço é perguntar?... Eu não tenho nada a dizer... E estou dizendo isto‟. Não é incrível? Compor, 2100, é perguntar... Ter a humildade de deixar que os ouvintes respondam, p...‟ „Acho que eu já...‟ „Espere, espere aí. Estou quase no fim... Porque se os ouvintes não quiserem responder, a resposta já estará dada; ou talvez esperem que você mesmo os responda e calem. Portanto, enquanto você não fizer perguntas ao compor; enquanto suas perguntas não forem outras – ou, se preferir, enquanto as pessoas não prestarem atenção às perguntas que você faz –, vão continuar respondendo as antigas como se você estivesse falando grego. Não vão buscar respostas dentro de si.‟ „Tenho que...‟ „Para acabar, então. Nós da Sucesso, Sucessores & Associados estamos lançando um programa que promete revolucionar o ramo nos próximos anos; um programa de


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renovação de nossas equipes de compositores. Com ele esperamos, dentro de cinco anos, reverter as perdas que há muito nosso setor vem experimentando. Acreditamos que, com um bom treinamento, os jovens frios e os autores de troças pueris e bobagens chamativas podem chegar a fabricar músicas que desempenharão maravilhosamente bem a função primordial de tapa silêncio ou fundo de conversa, podendo até mesmo ser distribuídas como souvenirs sonoros aos visitantes de outras bandas ou como intróitos vãos às regravações das obras máximas do século XX. Estes jovens... autores... terão sobre os nossos contratados, porém, o grande benefício que o estudo – quero dizer, a repetição – dá: a vantagem de que trabalharão bem mais rápido. Veja você... Com o tempo que gastou para escrever cada uma dessas músicas e letras claustrofóbicas, poderia ter escrito inúmeras bem melhores. Ganharia um bom troco com a venda das músicas, faria sua vida e, assim, não precisaria dar aulas de música ou de línguas para se sustentar. E ouvir aquelas crianças berrando todo dia... E ter de chamá-las pelo nome e...‟ „Tenho que ir.‟ „Ainda não acabei.‟ „Por isso mesmo. Não quero chegar ao fim com o senhor.‟ „...Desculpe se eu lhe desagradei... Não é por...‟ „Já ouviu uma música assim..., diferente, em que um homem recepciona várias crianças? Elas chegam uma a uma, dizem cada qual o seu nome, e ele, novamente: Vai fazer um som agora?... A história se repete até que uma música linda invade...‟ „Sim, sei do que está falando.‟ „De quem é?‟ „É do Hermeto Pascoal. A faixa chama-se Crianças e, se não estou enganado, está num álbum chamado Só não toca quem não quer.‟ ...„Tenho que ir.‟ „Não tem mais nenhuma pergunta a fazer?‟ „Não, obrigado.‟ „Desculpe se lhe desagradei...‟ „Não... O senhor me agradou.‟


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„Ah, que bom. Posso, então, contar com você no nosso cast de aprendizes de compositores?‟ „Não. Mas pode contar comigo no nosso cast de aprendizes de ouvintes.‟ Dei boa tarde, as costas, e saí; que agora só pensava na moça ouvindo Crianças na fila. O galpão cuspindo gente pelo ladrão, que o cordão de isolamento já separava os aprendizes saídos das salas de aula dos candidatos vindos das entrevistas. Tentei parar para procurar por ela, mas seu guarda agora berrava „circulando!‟ exibindo o cassetete para dar passagem a um diretor apressado. Em frente ao galpão da SS&A, a polícia desmontava as barracas de camping de um terreno baldio. Táxis e vans faziam lotação a vinte pratas por cabeça, mas eu não quis fazer a viagem de volta. Atravessei a rua e segui adiante até avistar a placa „novo 117‟ colada num muro pichado com spray vermelho; um prédio baixo e sujo por trás de um portão escancarado e apodrecido. Passei por eles e segui as palavras e sons que procurava até encontrar a sala que queria. Instrumentos e vozes se desencontravam e, ao fim do corredor, uma mulher e um homem de uniforme e quepe azuis esticavam os braços em minha direção. „Espere, o senhor não pode entrar assim! Quem é o senhor?... Quem é o senhor?‟ A maçaneta de lado e os sons desabafados escapando pela porta. Dezenas de crianças divertindo-se com pianinhos postados no chão da sala e tocados com baquetas. O tempo de ver Sinhozinho, notar o seu estranhamento, dizer: „Você?... Aqui? Desculpe a invasão... Não sabia que...‟; e o tempo seguinte, o de encarar a expressão indignada da mulher e do porteiro de uniforme e quepe azuis, de ouvir o „silêncio, parem; parem de tocar só um minuto!‟ enérgico de Sinhozinho, e de perceber que as vozes das crianças, do guarda, da mulher e de Sinhozinho, antes tão dispersas e desordenadas, eram agora um só silêncio. Até a respiração ofegante e os olhares cortantes da mulher e do guarda; o „Podem deixar, eu conheço ele‟ de Sinhozinho... As crianças retornando à algazarra e à música; a mulher e o guarda à solidão suspeitável das portas e corredores, e eu e Sinhozinho à conversa compassada dos primeiros momentos: „Qual é o problema, colega?‟ ...„Ouvi o som dos instrumentos lá da rua... Sabia que era uma escola para crianças...‟ ...„E daí?‟


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„Engraçado... O jeito que as coisas aconteceram hoje... Como um quebracabeça, a cada minuto que passa mais uma peça surge... Agora essas Márcias em miniatura tocando vibrafones em miniatura...‟ Sinhozinho empalideceu; fez cara de gosto ruim até quase cerrar os olhos. Engoliu seco e acenou para que eu lhe seguisse até um canto da sala. Deu as costas para as crianças, respirou fundo e disse, com o mise-en-scène de explodir sem fazer barulho: ...„Escuta aqui, colega, isto aqui não é brincadeira! OK? Eu estou trabalhando, e você não podia entrar na escola assim, como se fosse sua. A aula acaba daqui a quarenta minutos e, se quiser esperar lá fora, dá para fazer uma corrida especial até o centro a cem..., sessenta pratas no mínimo. Agora é melhor você sair antes que eu chame o guarda, valeu?‟ Bateu a porta atrás de mim e, logo adiante, o guarda de quepe azul agarrava o meu braço e me punha para fora. A multidão espremida no próximo ônibus para o centro da cidade. A SS&A e seu „Programa de Recrutamento de Mão de Obra Capacitada‟ saltando das bocas de fumo e bate-papos até o ponto final na Praça Tiradentes. Então as lojas de instrumentos musicais da rua da Carioca. Seus violões de braços cruzados, trompetes grisalhos e cordas bambas; seus saxofones repintados de ouro, passando pelas vitrines como slides azinhavres que a tarde acessava noutro vértice de tempos. „O quê?... O que disse?... Vibra...fone? Nunca ouvi falar nisso... Se não achar nada parecido na Carioca, só na rua do Ouvidor‟... Agora a Ouvidor tomada por sex shops por todos os lados. Seus contrabaixos-astrais, órgãos transplantados por médico-legais, e marca-passos e bate-estacas de baterias fracas. „O quê? Vibra o quê? Vibra...fone?!... Não, não trabalhamos com gramofones... Vibrafones; como preferir! Não trabalhamos com produtos deste tipo‟... Os compradores tontos, pelejando entre bombos, biombos, tantas e tantãs. Eu voltando à Carioca para comprar um surdo, um talabarte e uma maceta; desistindo de procurar por um vibrafone nas lojas de instrumentos musicais do Centro da cidade e partindo para a rua Visconde de Itaúna para ouvir a música dos „verdadeiros sucessores‟ da sobrinha Ciatinha. Era um começo, um bom começo. Certa vez ouvi do percussionista d‟O Chuveiro Acústico, uma das primeiras bandas de Márcia, que „não há instrumento mais fácil de se tocar do que o surdo‟. Vestia um talabarte de


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couro, pendurava o instrumento, roubava a maceta de uma bolsa de baquetas – indicando o centro da pele com o dedo –, tocava uma ou duas vezes, virava para Astolfo, o baterista, e dizia: „bate, Astolfo, bate qualquer coisa. Para eu mostrar para o rapaz como se faz.‟ Então Astolfo sentava na bateria, levantava do chão um par de baquetas novo em folha, berrava „1, 2‟ correndo e, uma vez que golpeasse o prato da marca Fast Day, ninguém seria capaz de escutar coisa alguma até que Márcia ressurgisse no palco, esbaforida e descabelada, dos braços de um ouvinte mais atento aos batimentos dos corações e sapatos do que às patadas progressivas e precisas do baterista do Rush. Aparecia diante de Astolfo com os braços para o alto e os ouvidos protegidos pelos ombros. Dava a volta no palco, gritava em suas orelhas e lanhava as suas costas com unhas de violonista até tomar as baquetas das mãos calejadas do músico. Então o que se via, de parte a parte, era uma enxurrada de acusações que em três ou quatro shows poriam fim ao Chuveiro Acústico, para desespero dos contratantes. O interessante era que, sem bateria, era possível ouvir o surdo que se mantivera ali, impassível, junto a Astolfo e, depois, por trás de cada um dos palavrões de Márcia. O surdo era o centro da música, o centro do mundo; a gravidade atraindo os sons à sua volta, relegando no máximo a contratempos os que mais se distanciavam de sua recorrência inexorável. (Aqueles que mais se afastavam de seu último toque, mais próximos estariam do seguinte). Tudo isso para dizer que o mundo não „dá voltas‟, nem „é pequeno‟; eu que torno ao ponto de partida, aquele em que o início e o final se confundem. É um novo ciclo, fim da caminhada até a rua Visconde de Itaúna. O céu agora negro, o toldo vermelho e o letreiro: Casa da Sobrinha Ciatinha. Lá dentro, a roda de samba, os bêbados girando desorientados e, no centro das atenções, Paco, o percussionista que tentara me ensinar a tocar surdo ao fim dos últimos shows d‟O Chuveiro Acústico. Trazia nas mãos um chocalho apenas, um único chocalho sujo e remendado, feito com dois potinhos de Yakult empanturrados de arroz cru e mofado e vivendo em respiração boca a boca. Fui abordá-lo no instante em que pousava o corpo curvo e franzino sobre o banco alto e enferrujado e, com o dedo em riste e um cavaquinho a tiracolo, pedia um duplo sem gelo. Adivinhou o surdo no embrulho de papel pardo, lembrou das aulas improvisadas ao fim dos derradeiros shows do Chuveiro Acústico e me


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convidou para participar da oficina de criação coletiva da Casa da Sobrinha Ciatinha, a se realizar no set seguinte. Pouco sabia de Márcia, e nada do vibrafone. Nada mais fora dito ou ouvido a respeito dela desde que as últimas lágrimas roladas por Astolfo mataram a sede de vingança do músico. Se Márcia traíra Astolfo com ao menos um ouvinte por show, nos camarins, carros ou banheiros, como diziam; Astolfo a chifrara com no mínimo duas baquetas nos mais importantes palcos do Brasil e do mundo: enquanto ela seguiria adiante com uma carreira de desencontros e atropelos, afogada em barzinhos taciturnos e estudos infrutíferos, ele seria alçado à fama pelo poder e influência de seu pai, Linus Otelo, gerente artístico de uma multinacional do disco extinta nos primeiros anos do século. Levantei novamente o surdo do chão e me despedi de Paco. Ainda não sabia tocar e, portanto, não poderia participar da oficina de criação da Casa. „Mas rapaz, deixa de bobeira... Quantos sambas lindos foram compostos apenas com talento e intuição, na mesa do bar ou até na caixinha de fósforos? Vai aonde com tanta pressa? A uma hora dessas...‟ Não dei ouvidos a Paco. Atravessei a rua e olhei para trás: Casa da... Não era mais possível ler o letreiro sujo pintado sobre o toldo vermelho. A noite desbotara os tons e cores, mas avivara as lembranças à luz dos novos acontecimentos. Eu ouvia o batimento dos sapatos sobre o piso de pedras portuguesas... Atraindo os sons à sua volta; relegando no máximo a contratempos os que mais se distanciavam de sua recorrência inexorável: aqueles que mais se afastavam do último passo, mais próximos estariam do seguinte.


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7- Merengueto Contudo, só comecei a praticar vibrafone muitos meses após o dia em que visitei a Sucesso, Sucessores & Associados para nunca mais voltar. Agarrara-me à idéia de estudar o instrumento de uma hora para a outra, e poderia tê-la abandonado com a mesma facilidade se não tivesse penetrado num inusitado labirinto de coincidências, dúvidas e meias verdades que, trazidas a mim num momento de grande vazio, transformaram-se num interessante quebra-cabeça histórico-musical, um jogo infantil de esconde-esconde respostas e, acima de tudo, um jeito estranhamente consolador de tocar a vida distante e ao mesmo tempo próximo de Márcia. De início sentira-me instigado pela curiosa vida dupla que o instrumento aparentava levar. Presente nas prateleiras das lojas de brinquedos e nos cursos de musicalização para crianças, raro nas casas de shows e, como pude constatar, ausente nas lojas de instrumentos musicais, parecia lógico que a sua popularidade junto ao público infantil contribuísse para uma maior utilização de sua „versão adulta‟, mas, uma vez que a idéia não se confirmava, fui levado a crer que estava diante de um projeto tão genial quanto óbvio: contribuir para a formação de novos ouvintes através da difusão das canções de Márcia tocadas ao seu instrumento favorito. Não que, diante da enorme dificuldade de se encontrar um „vibrafone‟ fora da internet, não tivesse pensado em desistir da idéia em favor de um saxofone, uma flauta ou quaisquer dos objetos postados nas vitrines das lojas por que peregrinava em busca de um rastro de passagem pela Terra ou sinal de vida pregressa daquela possível lenda do mundo virtual. Entretanto, só conseguia sentir atração duradoura por aquilo que fizesse parte do universo das canções de Márcia e, se pusesse em questão o vibrafone, a beleza da música seria outra, talvez, mas não a que eu buscava. De volta a Nova York, a beleza da música não seria a que eu idealizava e tampouco a dos instrumentos que, segundo sir Robinson, deveria dominar minimamente até que estivesse apto a iniciar os estudos de vibrafone: a caixa-deguerra e o piano. A prática era uma enfadonha repetição de movimentos delicados e


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arbitrários, um xadrez jogado pelo professor consigo mesmo; de um lado do tabuleiro os defeitos do aluno e do outro a sua dedicação. Com a distância da Sucesso, Sucessores & Associados e dos burburinhos cariocas e suas músicas de fundo, havia deixado de pensar nas crianças e no mundo de fora para me concentrar no universo das minhas inseguranças, enclausurando-me no quarto-e-sala recém alugado em Washington Heights, a duas quadras do prédio em que vivera com Márcia. Movia mecanicamente as peças do xadrez e as folhas do calendário até o dia em que precisei chegar uma hora mais cedo à casa de sir Robinson, o professor de música, para a aula semanal. Por conta disso pedira a Oliver, dono do restaurante em que trabalhava, para transferir a folga de domingo para segunda-feira, mas, surpreendido por sua recusa, resolvera faltar ao trabalho, esperançoso de que conseguiria um atestado médico na lojinha de documentos falsos dos fundos da barbearia Pindorama. Desse jeito pude estudar por mais tempo, depois de uma semana em que praticara caixa e piano como nunca. Assim fazendo, não temia os sorrisos irônicos, as piadas em francês e as palavras de ordem em alemão de sir Robinson, muito menos o desconto em folha e a demissão por justa causa; receava, sim, que tal fosse minha última aula com aquele velho curvado de um metro e noventa e cinco de altura, regido por Karajan e guiado por um dom que a mim parecia sobrenatural. Um velho que distinguia sons musicais como quem adivinha o humor dos filhos pelo tom de voz, e que lia partituras como quem reconhece os rostos de doze amigos em ilimitadas poses do álbum de fotografias de um concerto de música de câmera. Por tudo isto resolvi tirar da gaveta o CD de canções de Márcia, prova documental do segredo que até então não ousara revelar a Robinson. Pus os pés no tapete empoeirado de sua casa e andei até o quarto, determinado a acertar na primeira tentativa todos os exercícios da semana. Pousei a mochila sobre o sofá, ergui o livro de exercícios de „Rudimentos para Caixa-clara, nível 1, volume 1, tomo 1‟, lançado pelo mestre quarenta anos antes, apontei as baquetas para a caixa de guerra, e disparei... 1, 2, 3..., 14, 15. Quinze estudos tocados do início ao fim, sem que Robinson tivesse dito um „ai‟. Guardei o par de baquetas, entreguei-lhe os exercícios teóricos e, como de praxe, corrigiu-os de costas para mim, enquanto eu executava ao piano os adversários práticos. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oi... „Stop it!‟, disse sir Robinson. Ergueu-se do banco de madeira com a dificuldade


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habitual, entregou-me as folhas com os exercícios teóricos já corrigidos, pousou a mão sobre meu ombro esquerdo e, caminhando com seu passo lento e manco em direção à porta do quarto, disse: „Siga-me. Traga seus pertences. É sua última aula neste quarto‟. Então, ao ouvir estas palavras, proferidas num inglês britânico e lustroso, esqueci-me de tudo o que tinha determinado. Não atinei com o CD que sacaria da mochila, nem com a história de amor de que lançaria mão se ele me aconselhasse a arremessar pela janela as baquetas e o sonho em forma de vibrafone. Havia decidido que, se ele assim o fizesse, tiraria vantagem do ouvido polifônico do gigante professor, contando-lhe a minha história da canção ao mesmo tempo em que a voz de Márcia, o violão e o vibrafone soassem... Então, sensibilizado com o que consideraria mais uma demonstração de dolência e criatividade do povo latinoamericano, Robinson aceitaria prosseguir com as aulas, ou ao menos indicaria um ex-aluno para que eu pudesse fazê-lo por conta própria. Entretanto, agora que dava dois passos e já tinha que parar para não chutar os calcanhares do ancião, só conseguia divagar pelas inúmeras vezes em que experimentara esta mesma sensação de impotência, este viver de rédeas puxadas e esta paralisia juvenil, justamente no instante em que mais precisava correr solto num campo onde sentei-os, lado a lado, a realidade e o sonho. Num momento em que deveria passar à frente de sir Robinson e abrir a porta de sua casa para que pudesse entrar sempre que desejasse, e que só o que fazia era frear, agora que ele já tomava a direção da sala, guinava para a direita para driblar as estantes de livros postadas no centro da sala como guarda-costas do quarto de leitura, e ganhava o corredor que me levaria à porta de casa... E que neste momento já estava a poucos passos da mesma e, enfim diante dela, erguia o braço direito, descambava para o mesmo lado e, para o meu espanto, abria uma porta lateral dizendo: „Por aqui‟. Adentrava então um cômodo amplo e arejado, ultrapassava todos aqueles instrumentos folclóricos recolhidos nas diversas viagens feitas por Robinson aos quatro cantos do mundo, desviava dos gigantescos círculos e trapézios da

percussão sinfônica, e ia estacar de costas para a janela. Segurava

duas das pontas de um cobertor de lã e descobria um vibrafone monumental, de pernas pretas e teclas douradas. Tomava um par de baquetas de marimba e dizia: „brinque um pouco, familiarize-se; volto em cinco minutos‟.


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Esfreguei os dedos nos cabos das baquetas, coloquei-as em posição de toque e, balançando-as no ar, notei que eram mais escorregadias, flexíveis e frágeis do que as de caixa... Maquiava a importância daquele instante prendendo-me em detalhes insignificantes para que sir Robinson não me surpreendesse com seu olhar perscrutador. Lia e relia a marca „Stick-King‟ e o modelo „W. Hamilton Robinson‟ gravados nos cabos, alisava as teclas metálicas do instrumento e reparava nos quadros das paredes laterais para que, se ele se dirigisse uma vez mais a mim antes de bater a porta do quarto, não notasse a minha incredulidade e não me visse tão arrebatado por tão pouco. Ele que quase sempre se mostrara insatisfeito com o meu rendimento; que não parecia estar convencido de que seria recompensador gastar tempo com um iniciante de vinte e quatro anos de idade, e que agora saía do quarto e me deixava a sós com o vibrafone, mais ou menos como dona Carmem o fizera comigo e Márcia no dia da chegada da carta de reprovação da escola de música. Era a primeira vez que estava diante do instrumento que tanto sonhara em tocar, mas só pensava em escutar mais uma vez aquele CD... Por isso caminhei pelo quarto à procura de um aparelho de som e, de repente, parado em frente a uma estante ao lado da porta, voltava à história da canção. Márcia explicava pela milésima vez que eu deveria escrever as letras desta e das próximas músicas... Logo cantava e tocava violão misturada ao som do vibrafone, ao barulho da maçaneta e à voz de sir Robinson: O que é isto? Quis ouvir esta música, sir Robinson. Foi a primeira em que realmente ouvi um vibrafone, e que me fez ter vontade de tocar... E por que está ouvindo isto em vez de se familiarizar com o instrumento, em vez de fazer o que deveria estar fazendo? Não se prenda a relações infrutíferas com a música, Eurico. Se deseja realmente aprender a tocar, precisa praticar... muito... E ouça... Ouça, Eurico. Neste estágio você já deve começar a reparar nisto: há problemas de afinação com o violão; está afinado em 440 Hz, creio, e o vibrafone em 442 Hz. Mas a corda mi... está... um pouco mais alta. Hum... A moça tem uma bela voz, se é isto o que lhe chama a atenção, mas... não é suficientemente preparada. O violonista... A garota também está tocando o violão, não? ...Sim.


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É perceptível, pela forma desatenta com que toca. E pela falta de técnica. Esbarra na quarta e na quinta cordas frequentemente... Mas... Ouça! Ouça o sol do violão no baixo, bastante desafinado. O vibrafonista executou: sol – fa sustenido – re – do – si... Wow! O si do violão soou ridiculamente desafinado em relação ao si do vibrafone duas oitavas acima. Ora, Eurico, não é possível!... Vamos! Já ouviu o bastante! Precisa treinar seu ouvido... Naturalmente que seu gosto musical se apurará na medida em que refinar seu ouvido. E vice-versa. Estamos trabalhando duro para que você seja um músico bem mais preparado, Eurico.‟ Tudo aquilo era como receber uma facada no peito; sentia um mal estar tão grande que seria capaz de gritar com Robinson assim como fazia com Márcia quando seus discos e sua guitarra de jazz entulhavam meus ouvidos e o antigo quarto-e-sala de W.Heights. Repetiria que „Música é sentimento, porra!‟, „as pessoas não estão nem aí para a técnica!‟, e tudo aquilo que provocava a fúria de Márcia, mas que, a sir Robinson, soaria como uma pausa de semibreve ou, no máximo, como a nota fundamental tocada ao tímpano para encerrar o divertimento de um estudante de composição: mais um indício de que eu não estava suficientemente aberto a adquirir conhecimentos, não tinha humildade para ouvir os mais experientes e, consequentemente, não deveria prosseguir com os estudos de caixa e piano, quanto menos iniciar os de vibrafone. Sorte a minha foi ter permanecido de frente para o aparelho de CD e de costas para ele. Sorte ainda que, após o „Já ouviu o bastante‟, sir Robinson pôs-se a caminhar em direção ao vibrafone. Graças a isto tive tempo para esbravejar em silêncio, pôr a mão no saco e tirar de lá os mais escabrosos palavrões de que alguém em sã consciência poderia lançar mão. Quando voltei a ver o instrumento, após haver demorado por um ou dois minutos para retirar o CD do aparelho e digerir a bolacha na cara, sir Robinson olhou no fundo dos meus olhos e disse, esboçando um sorriso fora de moda qualquer desenterrado da memória muscular de seu rosto atravessado por uma grande guerra, algumas cicatrizes e centenas de vincos: „Não se chateie, Euricool; falei da música, não da garota... Da música, não da garota, Euricool‟...


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Isto foi tudo o que aprendi em minha primeira aula de vibrafone. Parado, de costas para aquela janela através da qual os casais de namorados apareciam pelas frestas das árvores de um Central Park veraneio, girei uma, duas, três vezes o pescoço para a cena, e foi o suficiente para sir Robinson engatar a terceira, a quarta baqueta entre os dedos e executar uma peça de que não escutei uma nota sequer. Em vez disso perdi o olhar nas teclas douradas do instrumento até ver uma boca banguela de dentes de ouro através delas. Cantarolei mentalmente Morena boca de ouro, de Ary Barroso, lembrei daquela música em que o Caetano Veloso diz que „o antropólogo Claude Lévi-Strauss odiou a baía de Guanabara‟, porque „pareceu-lhe uma boca banguela‟, e pensava numa explicação para que duas coisas tão diferentes como um vibrafone e a baía de Guanabara pudessem parecer com uma mesma coisa – no caso a boca banguela – quando, de repente, sem que eu tivesse reparado no silêncio daquela boca sem dentes sustenidos ou bemóis entre o mi e o fa e o si e o do, sir Robinson cobriu-a com o cobertor de lã dizendo: „Feche a boca, Eurico, vai sujar o chão de baba. Guarde o seu material‟. Pousou as baquetas e, sem esboçar qualquer insatisfação, lembrou que eu não teria um vibrafone para praticar em casa e que, pensando melhor, seria mais proveitoso que eu adquirisse um instrumento para que só então prosseguíssemos com as aulas. Pedi desculpas a Robinson, anotei os telefones de algumas lojas de música especializadas em instrumentos incomuns como o vibrafone, e voltei para casa sem temer que tal fosse a minha última aula com aquele velho curvado, de um metro e noventa e cinco de altura, regido por Karajan e guiado por um dom que a mim parecia pouco natural. Dez dias depois recebia em casa um vibrafone da marca VibraPhonetic. Vinha desmembrado em três grandes caixas de papelão; os pés pretos guardados em sub-caixas de isopor cor-de-abóbora e as teclas prateadas enroladas em compridos tapetes de plástico-bolha verde limão. Em baixo de cada tecla, a letra correspondente à nota musical: A = la, B = si, C = do... Àquela altura não sentia raiva de Hamilton Robinson; apenas um leve desejo de vingança. Imaginava-me executando as canções de Márcia numa sala de concertos lotada de grandes compositores do passado, incluindo os prediletos do gigante professor. Eles viriam me cumprimentar ao fim do concerto e, pelo canto dos olhos, eu divisaria a figura aborrecida e lúgubre de sir


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Robinson, levantando e abaixando rapidamente a cabeça a cada vez que Bach, Beethoven, Varése e Boulez me estendessem a mão. Enquanto este dia não chegava, vivia e revivia cada vez mais as palavras de Paco ao me convidar para a oficina de criação da casa da sobrinha Ciatinha... „Mas rapaz, deixa de bobeira... Quantos sambas lindos foram compostos apenas com talento e intuição, na mesa do bar ou até na caixinha de fósforos?!‟ E numa madrugada destas, em que já não suportava catar milho ao vibrafone, harmonizar os ânimos ao piano, ou berrar „sentido‟ para a tropa de dedos, mãos e baquetas da caixade-guerra, apaguei a luminária da estante de partituras e tateei uma melodia simples e familiar, que soou como um grito de libertação. Busquei o caderno de música, acendi a clave de sol, vesti-a com a armadura de si menor, mas calculei que não teria munição nem para chegar ao fim do primeiro pentagrama. Agora não me via numa sala de concertos lotada de compositores do passado e do futuro. Imaginava-me na oficina de criação da casa da sobrinha Ciatinha. Eu arrancava uma folha do caderno de música como quem rasga o papel pardo e descobre aquele surdo, comprado na rua da Carioca e doado, ainda no aeroporto, a um músico nova-iorquino que visitava o Rio pela primeira vez. Libertava-me do gigante professor da mesma forma como meu samba pedia permissão para interromper momentaneamente aqueles instrumentos pousados sobre os colos e protocolos quebrados e requebrados das estátuas dos clássicos e das mulatas dos turistas. Levava o surdo e o vibrafone para aquele bar e, para desespero de sir Robinson, escrevia nas entrelinhas das pautas musicais a letra d‟O destino de um samba. Romper com sir Robinson e compor o destino de um samba foram os últimos suspiros de canção de minha vida musical antes do longo e tenebroso inverno ao fim do qual eu me tornaria um dos mais requisitados vibrafonistas das bandas de salsa e merengue da cena nova-iorquina. Gastara o resto do verão pelejando com Oliver e o vibrafone, chegara ao outono desempregado e, até que eu me visse diante da bela porta de madeira entalhada do Restauranna, entrasse como um fraco candidato a ajudante de garçom e saísse de lá quatro invernos mais tarde como um forte candidato a uma bolsa de estudos n‟A Melhor Escola de jazz de Nova York; não veria a luz do dia a não ser pelas grades das baquetas, teclas e partituras de orquestra que postava diante de mim, das 9h às 12h e novamente das 13h às 17h, todos os dias.


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A tortura psicológica, as ameaças de Oliver e o caminho até as vias de fato me impressionaram o bastante para que eu só voltasse a trabalhar em restaurantes com a condição de que tivesse as manhãs e tardes livres para praticar, e pudesse ser substituído nos dias dos shows. Tudo se passou numa noite em que apareci no trabalho quinze minutos mais tarde, após três semanas de hostilidades de Oliver e fofocas do cozinheiro Juan Pablo. Quando o tétrico dono de restaurante pôs os olhos em mim, deixou transparecer tanto ódio que os signos de um desfecho trágico se iluminaram dentro de minha figura hesitante e contemplativa. Corri até a cozinha, mas já não encontrei o Juan Pablo dos conselhos em voz baixa e revelações por leitura labial. Do contrário, vi-o saltar ofegante diante de um ajudante de cozinha de queixo caído e olhar ressabiado, pegar no meu braço e empurrar as portinholas de borracha da copa dizendo algo como: „Furioso, Yorico! Furioso‟... Então o que se seguiu foi a cena mais abominável que presenciei em muitos e muitos anos em Nova York. Oliver surgiu de repente e, com as mãos para trás e o tronco inclinado para frente, pôs-se a despejar sobre mim toda a sorte de barbaridades de que o léxico do inglês dispõe. Enquanto o fazia, eu observava com ainda mais espanto um Juan Pablo agoniado e trêmulo, que se postava ao meu lado, esticava o pescoço e berrava em espanhol: „Não vai fazer nada, Yorico? Vai ficar aí parado feito um corno, Yorico? Ora, não seja estúpid... Não! Não se afaste! Enfrente este corno que tem infernizado a sua vida! Vamos, dê logo um soco na cara deste americano insolente e burro!‟ Enquanto isto Oliver parecia sentir-se cada vez mais dono da situação. Caminhava até o bar, enchia de whisky um copo de cerveja e despejava-o em cima de mim, para gargalhadas de alguns e suspiros dos muitos empregados de mesa e cozinha que já se aglomeravam em torno de nós. Virava-se para Apóstolos, o chefe dos garçons, e mandava-o fechar as portas do restaurante, antes que algum cliente viesse preparar uma surpresa qualquer fora do cardápio especial daquela noite regada a sangue. De repente, quando eu já não dava conta da voz grave e da figura vultosa de Juan Pablo, as luzes se apagaram. Ninguém discernia os rostos que se entreolhavam na penumbra, nem reconhecia as vozes que se baralhavam no


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sobressalto. Só os braços suados que me empurravam na direção de Oliver, os objetos vidrinos que se espatifavam no chão, e a minha mão direita que roçava o pescoço delgado do dono de restaurante, e logo sua cara ossuda, e logo seu joelho rombudo... Então as luzes se acenderam, e o que surgiu mais vivamente à minha frente não foi o Oliver que me chamava de terrorista e traficante de drogas, mas novamente o Juan Pablo que empunhava um telefone celular e muitas folhas de papel, caminhava para lá e para cá e dizia: „Confirmando: evento 18B, B de bomba, Union Square, cidade de Nova York‟ em espanhol, e que discava um número e falava quase a mesma coisa em francês, e agora algo ininteligível numa língua que eu não conhecia. E que enfim sacava uma arma e pedia silêncio num inglês quase sem sotaque: „Pois bem, senhor Oliver. Acabou a brincadeira. Calados!... Calados! O que eu tenho em mãos e distribuirei a cada um é a versão que os senhores darão à polícia para este evento. Não queremos que se contradigam. Portanto estudem muito bem o que está escrito aí, se não quiserem que seus familiares sofram retaliações de nosso grupo. Não farei nenhum mal aos senhores, desde – é claro – que ajam de acordo com a nossa vontade, a vontade da Justiça Divina dos Homens de Bem... Meio irmão Apóstolos: seus filhos Kostas e Christo mandam lembranças de Atenas. Eles estarão seguros se colaborar conosco. Não se iludam, sabemos tudo sobre a vida de cada um dos senhores. Ainda que conseguissem me incriminar, não escapariam aos desígnios desta missão, presente em nada menos do que oitenta e sete países. Irmão Javier, irmão Pablito e irmão Horacio: não queremos que sejam deportados. Receberão uma folha diferenciada, por serem ilegais nesta terra de nada mais do que ilegalidades. Os senhores estavam de folga no dia de hoje. A propósito: isto não é um assalto ou coisa parecida. Muito pelo contrário, é o início de uma reparação histórica. Estamos cansados de conviver com as injustiças cometidas contra nossos irmãos oprimidos de todas pátrias... Acusações improcedentes, versões falsas... Ora, chega! Agora nós também fabricamos versões para as histórias de que participamos. O senhor Oliver acaba de me agredir em público, e será punido pela justiça de seu próprio país. Senhor Greg: na condição de gerente, escapou das garras da Justiça Divina por não ter demonstrado preconceito, sentimento de superioridade ou arrogância contra nós, pelo menos durante o período em que fui missionário nesta casa e cidade. Também


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ganhou pontos conosco por ter estado ao meu lado em todas as vezes em que adicionei excrementos aos quitutes de cem dólares solicitados por todos os canalhas exibicionistas que frequentam esta espelunca. Esperamos que continue assim! Ouviu?... Esperamos! (E encostava a arma na testa de Greg) Que continue! Assim! OK?... Pois bem. Eurico: você, como meio irmão – e de greencard ainda por cima –, deveria ser punido por se acovardar diante do mal; por não ter enfrentado o medo quando ele esteve à sua frente, em posição de combate. Teria evitado o breu na consciência de seus meio-irmãos. Sua juventude, porém, orienta-me a tratar os erros com condescendência. Sofreu e aprendeu bastante nas últimas semanas e, ademais, redimiu-se no escuro de parte de seus pecados, ao lançar os punhos contra o verme que lhe sugava as energias... A propósito, lembre-se de que tem mais motivos do que os outros para depor de acordo com a nossa versão... Ou pensa que não sei que foi o primeiro a distribuir pontapés a partir do momento em que as luzes se apagaram? Quanto a você, seu estúpido e grosseiro dono de espelunca. Denunciado à vigilância sanitária, ao ministério do trabalho e à secretaria de fazenda... Prestes a perder a licença, o direito, ou mesmo o desejo de viver entre os seus semelhantes... Saiba que Eurico não é terrorista, assassino ou coisa que o valha..., nada disso que nossa organização incutiu em sua mente podre para que ela vomitasse todos os excrementos que tem dentro de si... Veja como foi capaz de sentir ódio de um jovem de aparência pacífica como este, contra o qual não tinha as menores provas. Veja como acreditou facilmente quando lhe contaram todos estes absurdos a seu respeito... E se lhe contassem que ele é um santo?... Acreditaria?... Ajoelharia aos seus pés? Beijaria o chão em que ele pisa?... E se lhe dissessem que ele é um jovem iluminado que leva alegria a todos à sua volta, incluindo a esposa e um casal de filhos a quem dá muito amor e carinho?... Respeitaria-o por isso? Promoveria-o, aumentaria o seu salário? Não?... E por que acredita e se dispõe a lhe fazer mal quando contam que ele é um diabo?... Por quê?... Vamos, diga logo!‟... Ao dizer isto, Juan Pablo parecia próximo de um transe. Trazia a mão esquerda no peito e, com a outra, mantinha a pistola apontada para a cabeça de um Oliver vacilante, que suava copiosamente. O dono do restaurante parecia querer responder às perguntas do cozinheiro, mas, antes mesmo que o fizesse, gemia e bramia a cada vez que Juan Pablo lhe chutava com toda força a boca do estômago ou


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a batata da perna. Após uma longa série de chutes na perna direita, o cozinheiro prosseguiu: „Sabe por quê?... Sabe, verme nojento?... Porque usa os seres à sua volta como espelhos de sua personalidade doentia. Ora, chega! Chega!... Ponhamos um fim em tudo isto!‟ Então, quando todos pensavam que o pior havia passado, e que a longa doutrinação de Juan Pablo estava próxima do fim, seguiu-se o momento mais repugnante. O cozinheiro passou a agredir a si próprio, com violentos socos no próprio nariz, e pequenos cortes de peixeira na boca e no queixo. Enquanto o fazia, incitava Oliver e urrava de dor e de cólera: „Olhe para cá, seu verme estúpido! Veja o crime que está cometendo!... Tem idéia de quanto tempo passará na prisão por tudo isto?... Miserável arrogante... Ordinário covarde!‟ Logo havia tanto sangue nas roupas de Juan Pablo, espalhado pelo chão e por seu corpo, que não era mais possível reconhecer o rosto do cozinheiro, muito menos assistir a tão repulsivo espetáculo. Ao sair dali, após Juan Pablo ter chamado a polícia e esvaziado o recinto, sentia-me como se houvesse escapado de um atentado por um golpe de sorte no instante do lance decisivo. Nas noites que se seguiram, mantive as janelas fechadas, as luzes acesas e o aparelho de som ligado. Escutava atentamente os concertos e outras obras saídas da boca de Robinson, mas, ao menor ruído estranho, parava a música e auscultava o organismo debilitado daquele prédio perfurado por possíveis pés de cabras, incontáveis patas de ratos e eventuais tiros dos informantes da Justiça Divina. Ao cabo de três semanas e dois depoimentos exaustivos, desligava o som, andava até a sala e já não encarava o vibrafone com os mesmos olhos sonhadores e apaixonados apenas por Márcia e suas canções; fitava-o, sim, como um futuro ganhapão, um instrumento de pagar as contas no fim do mês e viajar pelo mundo levando arte e colhendo aplausos. Então, numa noite daquelas em que saí à busca de emprego e retornei rapidamente, sem sucesso e vontade, pus o CD de Márcia no aparelho e escutei a História da canção pela primeira vez desde o rompimento com Robinson. Havia pensado em fazê-lo por diversas vezes, porém jamais levara a idéia adiante, receoso de que minhas horas de estudo de música não desmascarassem o rosto


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franzido e os ouvidos pretensamente absolutos do professor, mas, em lugar disso, reconfirmassem a sua precisão matemática e surpreendessem Márcia mirando-se no espelho de um braço por onde corriam cordas... desafinadas. Então carreguei o aparelho de CD para a sala e corri até a faixa três. Recordava muito bem o trecho sobre o qual eu cantara „com fisionomias de um instantiquário‟ e, segundo sir Robinson, Márcia plangera um si „ridiculamente desafinado‟ em relação à mesma nota no vibrafone. Ouvi uma, duas vezes o mesmo trecho, cobrindo o vibrafonista do CD com um si de meu VibraPhonetic modelo VP35B7-Pro e concluí que o problema não era de Márcia, mas do vibrafone da gravação. Neste exato momento tomei o telefone e disquei o número de sir Robinson. Marcaria uma aula e, como na última, levaria escondido na bolsa o CD com a História da canção. Ouviria as orientações do professor, fascinando-o ao corresponder prontamente às suas expectativas. Ao fim, sacaria o CD e provaria por A mais B que Márcia fora vítima de seu amor cego e absolutamente surdo pelo vibrafone. Aos risos, a aula se encerraria com o estreitamento dos laços de amizade entre mim e Robinson, tudo aquilo de que necessitava para vencer as inseguranças e praticar com autoconfiança e determinação. Deixei o telefone tocar inúmeras vezes; desliguei, tentei novamente, mas não ouvi o „hello‟ sonoro e polido do mestre gigante. Tomei o trem „1‟, corri até o departamento de percussão d‟A Melhor Escola de Música e perguntei por Robinson a uma recepcionista estranhamente chorosa. Não, o professor emérito não se encontrava na escola, na cidade, no país; talvez nem mesmo em solo europeu ou terrestre. Estivera entre a vida e a morte num hospital de Londres, para onde havia voado para receber uma condecoração da Orquestra Sinfônica local, mas, há poucos minutos atrás, fora transferido para um outro hospital, por motivos desconhecidos. Desci desorientado as escadas sem iluminação da Escola e cheguei à calçada de cabeça baixa. Só então, ao olhar para os carros que cruzavam a Broadway, avistei, do outro lado da rua, a porta de madeira entalhada do Restauranna por trás de uma plaquinha onde se lia: „precisa-se de...‟. Os carros chegavam ao outro lado do mundo, eu atravessava a rua e lia que aqui: „precisa-se de músicos brasileiros‟.


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Apresentava-me como estudante de música e candidato a garçom, enumerava os restaurantes em que havia trabalhado e saía do Restauranna quatro invernos mais tarde como músico profissional, amante de Anna e forte candidato a uma bolsa de estudos n‟A Melhor Escola de jazz de Nova York. Ao longo destes anos, estudara vibrafone com a rigidez de um juiz e a resignação de um condenado. Já não lia livros, jornais ou revistas, fazia cooper, ou assistia televisão de pernas para o ar. Em lugar disso, corria à cata de partituras, DVD‟s e gravações de todos os músicos cujos nomes eram lançados às minhas orelhas pelos três professores de vibrafone que tivera após Robinson. O primeiro foi Steve, companheiro de quarto e grupo do pianista que se apresentava no Restauranna todas as quintas-feiras. Com Steve, não teria levado tantos meses para estreitar os laços de amizade de que necessitava se não tivesse descoberto, logo nas primeiras aulas, que Robinson não se enganara com relação à desafinação na Historia da canção. Solícito e diligente, o músico não sossegou enquanto não me fez admitir, ainda que a contragosto, que Márcia tocara com o violão ligeiramente desafinado não apenas na História, mas em quase todo o CD. Acompanhou a gravação com as baquetas, passou a música para a partitura, determinou que eu executasse as mesmas notas de Márcia. Mas só conseguiu me convencer quando arrastou um amigo violonista para a aula e tocou com ele os trechos em questão, afinando e desafinando o instrumento a cada nova tentativa. Aquilo que para mim soava quase como um recurso estilístico nada mais era do que „tocar desafinado‟. A forte impressão causada pelo momento em que não pude mais resistir às evidências e cedi à desilusão e ao desencanto ficaram tão gravadas em minha memória que desejei não ter jamais escutado aquelas músicas. Por muitos e muitos anos neguei a mim mesmo que o tal CD fora, na verdade, o motivo pelo qual lançara-me à longa e árdua tarefa de aprender a tocar vibrafone. Todos os preceitos de sir Robinson, tudo o que com ele havia aprendido sobre o amor à arte musical e a devoção que lhe é devida por todos aqueles que a praticam; toda aquela „Música‟ como aventura utópica rumo à perfeição técnica e estética, tanto quanto o esforço abnegado como instrumento de uma busca espiritual; tudo isso estava contradito na displicência de Márcia e nos problemas de afinação, andamento e falta de técnica que meu estudo de música me permitiu enfim escutar naquele CD. Como era possível?


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Como era possível que alguém que usara a música para o próprio sustento, que angariara a admiração de outras pessoas por conta dela, não fosse capaz de ter para com as próprias composições os cuidados mais elementares? O instante em que questões como esta soaram sem resposta em minha mente foi aquele em que decidi apagar Márcia e suas canções de meu passado, não por ter chegado a sentir qualquer coisa além de decepção, mas justamente por não querer senti-lo. Em razão disto, custei a simpatizar com Steve. Via-o como o detetive que, contratado para apurar as suspeitas de um crime, mistura-se aos adúlteros no instante em que os desmascara. Aos poucos, e após um breve período em que me apliquei à análise de Anna mais do que ao vibrafone, descobri em Steve um instrutor generoso e preocupado em tornar e estudo prazeroso e leve. A partir de então tive nele um amigo e pratiquei com mais autoconfiança e determinação, mas, ainda assim, nunca progredi tão lentamente como durante o período em que estive sob sua tutela. Tudo começou a mudar numa semana em que pela primeira vez assisti a um show do vibrafonista preferido de Steve. Impressionado com sua musicalidade e incrível destreza, não pude esperar até a próxima aula e telefonei para o instrutor, a fim de saber quanto tempo levaria para chegar a tocar daquele jeito. Naquele instante, parado defronte à janela do quarto, com o telefone sem fio numa mão e a pasta de partituras na outra, Steve surpreendeu-me com uma gargalhada tão sonora que as cenas de um filme negativo se concatenaram em minha mente confusa e sonhadora. Nas semanas seguintes, dediquei tantas horas meditando sobre minha vida e meu estudo de música, que os almoços, janteres e noites de sono pareceram breves formalidades do rito de existir. Praticava com mais concentração, sem perder tempo divertindo-me com aquilo que já havia assimilado. Também encarava meu sonho com mais seriedade, talvez, mais consciência de que começara a estudar música em idade avançada e, portanto, teria que progredir em dobro se quisesse reaver parte do tempo perdido. Paralelamente, Steve parecia cada vez mais satisfeito com meu desempenho. Certa tarde, ao apresentar os exercícios da semana com uma devoção tão absoluta que não mentiria quem dissesse que eu me imaginava diante de uma platéia sedenta e apaixonada, o instrutor levantou-se logo após a última nota do último exercício e, olhando no fundo dos meus olhos, pôs a mão no meu ombro e disse:


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„Eurico... Você falou com as estrelas, agora. Acabo de viver um momento importante, tanto na sua como na minha trajetória na música. Você tocou com tanta paixão que transformou estes exercícios em arte, Eurico... E teria emocionado quem quer que estivesse nesta sala‟. Ao ouvir estas palavras de Steve, senti-me músico pela primeira vez em toda a minha vida. Não estava diante de um professor, e sim de um ouvinte a quem, pela primeira vez, conseguia carregar comigo na viagem de sons e sentidos ilimitados proporcionada pela música. Pelos anos seguintes, dos primórdios de minha carreira de músico, e todos os outros, de minha maturidade, tal momento serviu de referencial. Quando sentia aquela sensação diferente, de conexão com uma outra realidade, inventada, sabia que havia feito música. Sabia que havia cumprido aquela missão, humilde, de mostrar ao público o que a música é ou pode ser para quem se dispõe a embarcar sem preguiça moral, nó nas cadeiras ou cinto de segurança. Da mesma forma, quando me recuperei de tudo o que se passou e reaprendi a ouvir sem julgamentos e traumas, só tinha a certeza de haver cumprido a minha parte no desafio de participar da música com uma presença superior se, também como ouvinte, sentisse tal sensação, de distância dos ressentimentos e das amarras pueris; de simplificação do mistério da existência e aparente solução das dúvidas existenciais. Cinco ou seis aulas depois, ao fim de um mês em que esteve alheio ao mundo à sua volta, Steve comunicava aos seus alunos que, a partir da semana seguinte, não deveriam contar com suas lições de „moral e bons costumes musicais‟. Por motivos que nunca cheguei a compreender, abandonava o sonho nova-iorquino para assumir a fábrica de armamentos de seu pai em Austin, Texas, deixando um sem-número de telefones de Sam Hobbes, seu antigo mestre, para os que ainda se dispusessem a reagir pacificamente às „mudanças que em breve vitimariam a pátria‟. Pelos próximos três meses, deixei de sentir sensações agradáveis e, até que passasse a estudar com John Bloch, não senti nada além de constrangimento naqueles encontros recheados de surpresas desagradáveis e palavras fora de lugar. À hora marcada, adentrava o estúdio de Hobbes e deparava com seus alunos adolescentes e ricos a desviar os olhares com um misto de insolência e enfado. A eles Hobbes solicitava que me escutassem com atenção, frisando sempre que tinha pouco mais de quatro anos de vida musical, e trinta e três meses de estudo de vibrafone. A certo ponto, e


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sem que fossem solicitados, sempre tomavam a frente e executavam peças quinhentas vezes mais difíceis do que aquelas sobre as quais me debruçava. Erguiam, volteavam e afundavam as baquetas nas teclas do instrumento como quem levanta e martela troféus nas cabeças dos oponentes mais petulantes. Paravam subitamente e, acompanhando meus movimentos com um revanchismo mal disfarçado, não mentiriam se dissessem que eu me imaginava diante de uma platéia agourenta e malintencionada. No silêncio daquela sala de espera, Hobbes então, sorridente e repetitivo, tomava para si as honras do show: „Muito bem, meus caros! Como são belos os orgulhos feridos! Quão humanas a vontade de vencer e o desejo de sobrepujar! Ah, se não fosse a competitividade... descortinando a ilusão fundamental e reacendendo o espírito de busca!‟... Inflado de coragem e ressuscitado por um espírito de busca qualquer roubado dos CD‟s deixados por Steve, cancelei as aulas com Hobbes e abordei John Bloch, vibrafonista de carreira internacional, ao fim de mais um de seus fenomenais concertos no Jazzsport. Cinco semanas depois iniciava a mais duradoura e frutífera de minhas eras artísticas, aquela que me alçaria à condição de músico profissional. John Bloch não tinha a didática de sir Robinson, nem a disponibilidade de Steve; passava dois terços do ano em turnês pela Europa e, nos minguados dias que lhe restavam, aceitava transmitir os seus conhecimentos aos poucos e obstinados aprendizes que se dispunham a persegui-lo por e-mails, telefones, escolas de música e clubes de jazz até fisgarem os próximos sessenta minutos disponíveis de sua agenda entremeada de compromissos profissionais e períodos sabáticos. Não obstante, a revolução causada pelo estudo com John Bloch foi tão grande que um mundo onde já não havia lugar para provincianismos se abriu diante de mim. Por muito tempo tive a nítida impressão de que estava de volta ao período inicial, em que não conhecia da arte musical nada além de sua incrível e arrebatadora capacidade de trazer paz aos espíritos atormentados pela desordem dos acontecimentos. Nos meses que se seguiram nenhum rosto familiar me sorriu, nada do que havia aprendido com Robinson e Steve me foi útil para corresponder às expectativas do novo mestre, pois já não bastava reproduzir com correção idéias musicais pré-concebidas. Agora deveria criar as próprias a partir de um universo de referências muito mais amplo do que aquele que até então me fora apresentado... Nas palavras e sons de Bloch, os


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estilos musicais tinham suas histórias, suas tradições e seus dogmas, mas, para além de todas as suas distinções, „deveriam confluir em um ponto preciso do percurso da nave-mãe Arte: a habilidade de improvisar e criar a partir de uma sensibilidade especial adquirida com dedicação e auto-conhecimento‟. Em nosso tempo, um grande músico deveria ser capaz de „transitar pelas músicas dos mais diversos países e deixar a sua marca sem prover a tradição de mais um espelho de si mesma, e sim de um modo de confundir e incomodar levemente os ouvintes para que eles sentissem num estilo musical o frescor dos outros e, assim, acostumassem os ouvidos aos sons distintos como os olhos que nada vêem no escuro e novamente se fecham para a claridade repentina até se abrirem definitivamente diante do sol que lhes aponta um horizonte de possibilidades‟. Um horizonte através do qual lancei à música um olhar cada vez mais técnico, cada vez mais próprio de um jovem profissional em busca de um lugar ao sol. Nele, eu dava valor à música na medida em que ela me inspirava respeito e devoção, causava surpresa e espanto, e me instigava a distinguir talento e competência na aridez de sua abstração e nos meandros de seu conhecimento. Por isso sentia-me cada vez mais distante de todos os estilos musicais que se pautavam na simplicidade e na fruição desinteressada e festiva dos ouvintes comuns. O hiphop, a música pop e o rock que escutava casualmente pelas ruas, rádios e aparelhos de TV de Nova York. E parte das canções brasileiras, que vez por outra me pareciam banais quando confrontadas com os grandes monumentos do choro, da bossa-nova, do jazz e da música clássica. Do jovem inseguro que adentrou o Restauranna em busca de um emprego até o músico crítico e ríspido que o abandonou anos mais tarde, toda esta transformação me foi contada por Anna, com muito mais detalhes do que eu mesmo seria capaz de fornecer. O prazer com que eu recebia os CD‟s de samba e MPB que ela trazia para o restaurante, as canções – de Bob Dylan e dos Beatles – que eu cantarolava despretensiosamente, e os olhos vidrados nos músicos que se apresentavam na casa; nada fugira à lembrança daquela mulher de beleza exótica, que caminhava por entre as mesas cumprimentando os clientes antigos e abordando os novos. Com o tempo, porém, clientes e CD‟s velhos desapareceram, músicos e mais músicos se sucederam nas noites de quinta a domingo, e eu já via defeitos demais nos discos e


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instrumentistas escolhidos por Anna para prestar atenção em quaisquer dos sons que saíam de sua boca de dentes afiados e lábios carnudos. Daí em diante Anna e eu vivemos um romance dilacerado por um marido e dois ouvidos traídos. Para onde quer que fôssemos, ao fim dos expedientes no Restauranna ou nos fins de semana de exílio do marido Enrico, a arte musical estaria sempre lá, apartando nosso amor nascente em nome de paixões diferentes por músicas opostas. Todo o tempo que passei meditando sobre como tudo seria mais fácil se Anna não temesse tanto o silêncio; não estivesse tão viciada em empanturrar suas melancolias com bate-estacas vertiginosos e acordes repetitivos... Todos estes momentos, em que também eu me via sufocado por dúvidas, usei-os para me distanciar de Anna e do mundo à minha volta. Mais do que tudo, para me embrenhar cada vez mais num estudo de redenção e mercado futuros, que adiava o prazer e guardava o melhor da vida para depois para aproveitá-lo sozinho, diante de uma multidão de expedientes encerrados e energias gastas. Os expedientes encerrados antes da hora, sempre à custa da cumplicidade do gerente Jeff... Os beijos às escondidas e as chegadas abortadas: saídas de um caso de amor que não poderia ter terminado de maneira mais catastrófica. Não foi uma noite daquelas em que Anna se escandalizava com a minha rotina de estudo de música, nos fins de semana em que eu me recusava a largar o vibrafone para viajarmos para os Hamptons ou para voarmos para Las Vegas. Também não foi daquelas em que adentrávamos os clubes de jazz contra a sua vontade e saíamos apartados por horas a fio; ela na terceira ou quarta música e eu bem depois do fim do último set. Foi numa noite em que não pude mais conviver com a certeza de que Anna era, para o meu sucesso profissional, um obstáculo ainda maior do que a escassez de ofertas de trabalho para vibrafonistas. Por aquele tempo apresentava-me eventualmente com jazzistas em início de carreira, e frequentemente com duas bandas de salsa e merengue ativas na cena nova-iorquina. Também cursava o quinto semestre de vibrafone na Melhor Escola de jazz da cidade, mas já há algumas semanas sentia-me cansado demais para praticar com a concentração e a motivação necessárias. Mais um período de ríspidas discussões com Anna estava em curso e desta vez ela falava insistentemente em abandonar o marido, mudar-se comigo para o Brasil ou promover um festival de novos talentos da MPB em Nova


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York. O Restauranna não passava de uma casa esquecida no tempo em que eu ainda era obrigado a servir clientes frescos e ouvir „música comercial‟. Naquela semana, em que além de tudo Bloch telefonara para comunicar a minha indicação para uma turnê internacional com um conhecido trompetista de jazz latino, tive tanta certeza de que vivia um momento crucial, em que estava prestes a alçar novos vôos, que Anna se desenhou diante de mim como a única explicação para que eu não conseguisse parar defronte o vibrafone sem ver a minha cabeça rodar por tudo que não parecesse com notas debruçadas sobre estantes de partituras. Por isto não quis esperar até o dia seguinte, quando nos encontraríamos no bar de sempre à hora de toda semana. Rumei para o Restauranna, avistei a velha porta de madeira entalhada da casa e atravessei o salão tirando fino das bandejas de canapés e das garfadas de bailarinas. Abri a porta do escritório de Anna e o que se seguiu foi a cena mais embaraçosa que presenciei em toda a minha vida. Lá também estava Enrico, dizendo alguma coisa que muito a desagradava. Quando Anna pôs os olhos em mim, espantou-se tanto que deixou cair sobre o marido a pasta com a qual se defendia de seus braços abertos e frases abstrusas. Este, então, virou-se para mim, despejou meia dúzia de palavrões e: „Você não tem educação, não? Quem você pensa que é?... Ponha-se daqui para fora!‟... Era tudo o que Anna precisava para pôr fim a dezoito anos de criancices e adultérios. Parado rente à porta, dividido entre a certeza da vinda e o arrependimento da volta, pude ver uma Anna enfurecida avançar sobre o pescoço de Enrico, aos gritos de: „Fique sabendo que ele é o único homem com quem eu me deito feliz! (...) Seu estúpido! (...) Saia você daqui antes que eu perca a cabeça!‟... Já havia perdido muito mais do que isso. Enrico não era só um marido, mas um financiador de tudo quanto Anna inventara nas duas últimas décadas. Desde os chafarizes do apartamento na Cidade do Cabo até as dunas artificiais da casa em Santo Domingo, Enrico jamais fora capaz de dizer „não‟ às mais estapafúrdias idéias da esposa, e não seria diferente agora, que ainda mantinha os braços estendidos, mas guardava um silêncio infinito, com a feição pesarosa da afronta e os lábios descerrados da passividade. Permaneceu assim por mais alguns instantes, inundado


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pelas verdades lancinantes da esposa; deixou os braços caírem, curvou o pescoço e, voltando a erguê-lo, disse: „Eu vou... Mas... você se arrependerá, Anna... E seu fedelho também‟ O Enrico que vincara as sobrancelhas, também pousara os olhos nos de Anna com um tom a um só tempo ameaçador e resignado. Moveu-se lentamente em minha direção, contudo não tardou a desviar-se do caminho do enfrentamento. Guinou à saída no exato momento em que eu, rompendo o silêncio, arrisquei: „Não, eu não vou me arrepender, Enrico. Por isso estou aqui... Para me despedir de Anna. É isto mesmo que você ouviu, Anna: acabou. Neste momento da minha vida preciso de dedicação integral à minha profissão... Comecei tarde, você sabe. Tenho que praticar em dobro. Não posso me dar ao luxo de viver uma vida normal, pelo menos por enquanto. Fico com a consciência pesada e, se continuar assim, aí sim, vou me arrepender depois... Vou ficar me lamentando... Dizendo que deveria ter me dedicado mais; que, se o tivesse feito, teria conseguido; estas coisas... Não posso mentir pra mim mesmo, não quero me perder‟... Disse tudo isto olhando para o chão, para o teto colorido ou para as prateleiras de vidro fumê que desembocavam nas paredes pretas e brancas do escritório; nunca para a minha amante. Divisava sua figura arqueada e estática pelo canto dos olhos, mas, a partir da „consciência pesada‟, passando pelo „continuar assim‟, até „me arrepender depois‟, Anna foi se agachando lentamente, até sumir por trás da pesada estante de granito verde-esmeralda. Assim, após o „ficar me lamentando‟, ouvi sua voz sussurrando algo bem baixinho, repetindo um mantra ininteligível... Corri com a frase e, ao chegar a „estas coisas‟, Anna já insistia em alto e bom tom que: „isso não é verdade, isso não está acontecendo; não pode ser verdade. Não: não está acontecendo‟... Então eu disse a última frase inteira daquele dia: „Não posso mentir pra mim mesmo‟ e, depois de „me perder‟, escutei-a berrar „Para! Cala a boca!‟ com tanta força que „a boca‟ cobriu de longe o barulho da primeira cadeira a rachar o tampo de vidro de sua mesa de trabalho. Daí em diante foram tantos os objetos lançados contra tantos outros que nem Enrico escapou dos estilhaços da violenta divisão dos bens que uma vez mais lhe pertenceram. Pensava em me aproximar de Anna para dizer algo em particular e despedir-me de uma vez por todas, mas àquela altura metade do restaurante resmungava à porta do escritório e, em poucos instantes,


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Jeff, seus maîtres e garçons adentravam o recinto aos gritos de „meu Deus, o que está acontecendo aqui? Dá para ouvir do salão, os clientes estão assustados!...‟ Em meio ao enorme escândalo que se anunciava, ergui o braço, disse „tchau Anna‟ à distância e girei o corpo na direção da porta. Foi o bastante para que as atenções se voltassem definitivamente para mim, pois naquele instante todo o seu corpo pareceu ter sido atingido por um grande estilhaço do destino. Levou as mãos ao rosto, emitiu sons que nunca me passaram pela cabeça e deixou transparecer tanto sofrimento nas poucas palavras que venceram seu abismo interior para vir ao mundo, que daquele momento em diante ninguém mais teve dúvidas de que Anna me amava. Num passo deixava o escritório fingindo não saber o que todos já sabiam; noutros ganhava o salão, a rua, a cidade de Nova York, as Américas e, por fim, um lugar desconhecido num mundo meu.


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8- Volvendo a Astoria Escrever letras para as músicas de Márcia me fizera visitar o mundo da criação pela primeira vez; atravessar os recônditos da mente e os limites da imaginação. Estudar música e tocar pela cidade contribuíra com as ferramentas técnicas e teóricas de que eu necessitava para trabalhar como músico profissional. O que se passou comigo a partir do momento em que abandonei Anna foi, no entanto, inteiramente novo. Atuava agora na banda de Xisto Perez – o trompetista de jazz latino a quem John Bloch me indicara – e, por conta disso, fora requisitado para trabalhos em que assumira responsabilidades muito maiores do que as dos dispersos bailes de salsa e merengue de Washington Heights e Spanish Harlem. Nos ensaios abertos no Brooklyn, nas turnês internacionais ou nas gravações em estúdios alugados por duzentos dólares por hora, tinha diante de mim músicos experientes e reconhecidos que haviam apostado no meu talento em meio a um mar de dúvidas e preconceitos. À frente deles estavam o líder Xisto e o guitarrista e arranjador Tim Z, a quem conquistara o direito de acompanhar na tarefa de emocionar, inspirar, ou pelo menos instigar uma platéia nova a cada noite. Para tanto deveria relevar o mau humor e a desconfiança dos produtores, o clima de hostilidade e competitividade dos outros músicos e, principalmente, a insatisfação com o direcionamento artístico do grupo. Estava diante de perspectivas profissionais que só vislumbrara em sonhos longínquos, porém agora que os dias seguintes se abriam num feixe de possibilidades, não mais reconhecia neles o prenuncio de alegria das noites em que me perdia por solos e temas sem começo ou fim. Do contrário, parava defronte o vibrafone, avistava a partitura, erguia as baquetas e sentia o peso dos instantes decisivos; datas e horas marcadas para pôr à prova tudo o que até então construíra na música. Voltava à sala, listava as tarefas da escola, e era como se os segundos escorressem por entre os dedos e me espreitassem pelas frestas dos instantes. Não perderia horas e horas ao telefone com Anna e seus tradicionais relatórios diários do sem sentido da vida; não ouviria queixas infundadas ou censuras estridentes; não me atrasaria para compromissos pessoais de qualquer espécie (não teria compromissos pessoais de espécie alguma). Finalmente, não influiria no comportamento de ser


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humano algum a ponto de produzir com a minha conduta qualquer coisa além de desprezo ou indiferença. Num outro extremo, o menor dos deslizes; uma palavra fora de hora, uma notinha mal interpretada, um acorde sonolento que fosse e, então, os olhares dos músicos e produtores já se cruzariam para repreender, os sorrisos de canto de lábio, para silenciar, e os suspiros e muxoxos, para debochar. Em meio a tudo isto, quando já não esperava de Xisto Perez nada além de palavras frias e cachês generosos, recebi mais um chamado urgente de John Bloch. Olivia Louden Smith, namorada e mecenas do músico, desejava prover sua filha, Kelly Louden Smith, com algo mais que a inocente audição dos precoces solos de saxofone das baladas radiofônicas. Decidira iniciá-la no estudo do jazz e, para tanto, pedira ao namorado a gentil indicação de um jovem vibrafonista disposto a enfrentar a inanição musical da primogênita por algo em torno de cento e cinquenta dólares a hora... Desiludido com o mundo do jazz, entregue a noites de orgias e bebedeiras com dançarinas de quinta categoria, e prestes a romper com Xisto Perez, aceitei a incumbência como a última chance de virar a mesa de bar sobre a qual apoiava os cotovelos e bochechas todas as madrugadas de folga. E o que aconteceu foi que Kelly só contribuiu para que minha carreira afundasse de uma vez por todas numa crise cujo desfecho me faria conhecido por músicos de jazz de várias partes do mundo. Nada disso, porém, parecia estar por vir no dia em que, pela primeira vez, adentrei o portentoso palácio dos Louden Smith, quase na esquina da octogésima sexta rua com a quinta avenida. Mostrei à menina cinco dos mais conhecidos exercícios de técnica de baquetas, indiquei CD‟s para o início de um programa revolucionário que eu chamei de „Audição Reconciliatória‟ e ela apelidou de AudRec, e saí dali como se nada de novo estivesse em curso. Três aulas mais tarde, enquanto ouvíamos o mais bombástico dos solos de um importante baterista da primeira fase do Aud-Rec, veio o primeiro baque: Kelly interrompeu a minha explanação e, puxando dois CD‟s do vestido, danou a discorrer sobre um grupo de amigos com os quais, dizia, aprendera a „amar a música‟. Falava da beleza dos solos do saxofonista, do timbre sedutor da vocalista e do swing do baixista e do baterista... Enquanto o fazia, prestes a silenciar um dos mais técnicos músicos surgidos na década de 90 do século passado, eu notava um brilho diferente em seus olhos, mas a


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afronta não me permitiu dar atenção à nova Kelly que se descortinava diante de mim. Admoestei-a que não ousasse apertar STOP antes que os músicos encerrassem aquele número, e silenciei em sinal de respeito à Arte Musical. Não obstante, os seguintes foram alguns dos mais ignominiosos minutos vividos por uma música desde a chuva de tomates recebida por Stravinsky na primeira audição da Sagração da Primavera: Kelly pousou as baquetas sobre a mesa, os CD‟s sobre as baquetas e, notando a expressão de devoção com que eu fitava o infinito de minha vaidade corrosiva, pôsse a fazer caretas a cada nova demonstração de destreza dos músicos que já partiam em debandada rumo ao sol sustenido meio-diminuto do reinício do tema. Não satisfeita, baixou a cabeça e deu início a um longo bocejo que só seria cortado por uma risada sem graça mal disfarçada por um assovio cromático-descendente „retrato de decepção‟ típico de qualquer trilha sonora de desenho animado de baixo orçamento. Pelas próximas aulas Kelly mostrou-se mais e mais rebelde e logo daria por encerrados os estudos de técnica de baquetas, permanecendo apenas com as dicas de repertório e as práticas interpretativas. Em represália, saltei à última fase do AudRec e, solicitando a Olívia duas horas extras semanais, submeti-a à audição das mais importantes obras da música atonal, dodecafônica e do free jazz. Em meio às peças, lia páginas inteiras do Ascensão e Queda da Música Popular, de Donald Clarke, e obrigava-a a repetir as mais preconceituosas e evolucionistas frases escritas por Theodor W. Adorno sobre música, tomando o cuidado de trocar por „commercial music‟ tudo que soasse como „jazz‟ nos textos. No terceiro encontro de Aud-Rec XII, cheguei à sua casa e já não encontrei os aparelhos de som e os laptops do estúdio, nem os do escritório, nem os da biblioteca, nem os do quarto de hóspedes, e nem mesmo os dos aposentos de Kelly. Haviam sido destruídos um a um pela jovem, numa explosão de revolta em que até os discos de Frank Zappa de Olívia foram partidos em dois. Neste momento, em que quedei paralisado no sofá do estúdio após quase meia hora de perambulações infrutíferas pela mansão dos Louden Smith, Kelly ressurgiu perfumada e saltitante, portando um tocador de MP3 e duas caixinhas de som trazidas do quarto da governanta. Postou-as numa cadeira defronte o vibrafone, apertou PLAY e disse: „Quero tocar estas músicas. São daqueles amigos meus. Se não quiser me ensinar, abandono as aulas de uma vez por todas. Minha mãe já concordou‟.


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Aquelas haviam sido as mais difíceis semanas vividas por um músico desde os ensaios para a primeira audição da Sagração da Primavera. Os últimos meses de estudos sem concentração ou motivação haviam culminado num mês sem estudo algum. Quase não ousava chegar perto do vibrafone e, quando o fazia, era como o reencontro frustrante de um parente mudado enxergando um desconhecido em si mesmo ou vendo no antigo conhecido a própria transformação. Já não lembrava da última vez em que havia pisado na Melhor Escola de Jazz de Nova York, nem de quantos e-mails ou ligações das secretárias e professores havia ignorado. Às vezes sentia vontade de abandonar este planeta de mãos abanando e retornar um ano depois. Caminharia por uma praia deserta ouvindo a brisa do mar farfalhando os coqueiros até que o vento fizesse a curva e já não houvesse civilização alguma por perto. Lá, finalmente, subiria no mais distante dos pedregulhos e, enfim, desejaria a música novamente. Naquele cenário paradisíaco, ela não seria de um povo, de uma cultura ou de um homem; seria a voz do universo. Eu não tocaria as peças ou solos de meu repertório e, portanto, não me sentiria culpado por estar fora de forma... Por não ter mais a técnica em razão da qual meus pares me admiravam. Ninguém ouviria aquelas notas, somente eu! O universo usaria minhas mãos e baquetas para falar; eu seria o instrumento. No entanto, não estaria ali à toa. Ouviria a música do universo atentamente e, ao retornar à Terra, repetiria-a pelo resto da vida. Faria os homens se sentirem mais parecidos ao se devotarem a ela, como discípulos ou como filhotes que se descobrem irmãos ao reconhecerem juntos o chamado da mãe. Mas como fazer o vibrafone chegar até o topo daquela pedra? Como caminhar pelas areias com um instrumento de mais de cinquenta quilos? Como tirar das costas o fardo da música se o peso do instrumento musical já havia paralisado a mente na gestação do gesto? Não parecia irracional escolher um instrumento desconhecido e exótico movido por uma paixão cega e mal correspondida por uma ex-colega de turma que, naquele momento, parecia tão distante e inacessível quanto qualquer praia deserta? Os instantes em que questões como estas soaram sem resposta em minha mente não foram aqueles em que desejei apagar Márcia e suas canções da minha vida; elas já tinham se apagado há tempos. Os instantes em que questões como estas soaram sem resposta em minha mente foram aqueles em que desejei apagar o vibrafone da minha mente, não por ter chegado a sentir qualquer coisa além de


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decepção, mas justamente por não querer senti-lo. Vivera os últimos anos sentindo um ódio descomunal dos sujeitos céticos e depressivos que apareciam ao fim dos shows e, assistindo à demorada e cansativa desmontagem do vibrafone, perguntavam em tom de chacota: „Ora, por que não toca flauta ou gaita? Do sorriso parvo e amarelo à cara amarrada e as costas dadas seriam ouvidos não mais do que dois dos meus palavrões. Logo mais um sonâmbulo estaria longe de mim para sempre, mas agora eu era como um deles; tinha que conviver com um destes sujeitos vinte e quatro horas por dia. Por isso sentia um enorme peso em prosseguir com a música, e por essa razão dispensara a Kelly tratamento tão despótico. Até que naquele momento, em que os sons do MP3 já invadiam o estúdio, o surpreendente plano de Kelly não me permitiu dar atenção ao novo Eurico que se descortinava diante da música. A introdução mal terminara e Kelly mais uma vez se desmanchava em elogios pela beleza dos solos do saxofonista, pelo swing do baixista e do baterista... O brilho em seus olhos surgia diante de mim com tanta intensidade que, por muitos e muitos compassos, deixei-me levar pelas aparências e convenci-me de que havia sido preconceituoso com Kelly e injusto com seus amigos músicos. Estaria diante de uma bela música executada com paixão. Contudo, os comentários de Kelly, solando sobre o saxofone que solava sobre os outros instrumentos, logo cobrariam toda a beleza que eu supunha ver na música. Naquele dia saí dali sem entender bem o que se passara... Ouvira apenas um dos CD‟s, tolerando os erros dos músicos à luz da paixão incondicional manifestada pela moça. Pelos dias seguintes cheguei à fronteira da sanidade e desejei como nunca vingar-me do corpo, condenado a subsistir aos desígnios da cabeça – que está por cima e governa para si – e ao suplício assíduo de deitar morto e acordar vivo. Este dispositivo de braços, pernas e cavidades, geringonça de funcionar à revelia do dono, transformou-se num parque de auto-flagelação quando, ao ingerir pílulas caseiras, vaguei à deriva e repousei nos becos cheirando a urina e ratos. Não desejava dormir nem tampouco estar acordado; enjoava ao pensar em comer, mas sentia fome; não queria parar, mas mal conseguia pôr os pés no chão, sob os olhares de espanto e desprezo dos transeuntes esquecidos de seus rumos. Quando, dias depois, retornei à mansão dos Louden Smith, deparei com uma Kelly compenetrada, que ostentava trechos das melodias dos amigos com mãos sem técnica de baquetas, ouvidos sem


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preparo e perguntas sem cabimento. Assumira o comando da aula diante de minha postura contemplativa e distante, e desde então relatava os pormenores da gravação que logo ouviríamos. Suas palavras eram tão sinceras, seu tom era tão grave, sua voz era tão penetrante e minha tristeza era tão profunda, que me deixei levar por seu caminho de mãos e pés juntos... Já não acreditava em nada então. Já não achava que os últimos anos, dedicados a ouvir o que os mais velhos tinham a dizer e a seguir o que ensinavam, tinham me levado a bom porto. Encontrar uma adolescente que amava a música de um grupo de amigos com tanta verdade soava como a única redenção possível. Afundado no sofá como uma betoneira num banco de areia, assistia à palestra de Kelly como se estivesse diante de um ser de uma cultura distante, a quem deveria me esforçar para compreender. Quanto mais volvia a atenção para os caminhos melódicos do saxofone, agarrando-me em qualquer farrapo de beleza que Kelly pintava como obra-prima, mais sentia turvarem os sentidos e a vontade de existir, e teria silenciado pelo resto dos meus dias não fosse a insistência da menina em ouvir o que eu tinha a dizer sobre os seus amigos. Naquele instante, em que já não era mais possível ignorar as frases inconclusas e a expressão interrogativa da moça, só reuni forças para agir quando fechei os olhos uma vez e os abri turvos e úmidos, já à porta do quarto. Outra vez e, então, mais úmidos, que Kelly procurava meu rosto para ganhar os pensamentos, e só encontrava o silêncio para perder as palavras. E logo não apenas Kelly, mas a governanta, o porteiro, o jardineiro e os transeuntes buscavam no meu rosto as respostas para os gritos da moça. O vexame do choro era tanto que já chorava por raiva do choro, e não sabia se tapava o rosto por vergonha de Kelly ou se tapava Kelly por vergonha do mundo. E nem uma coisa nem outra, que o que fiz foi tapar o sol com o teto da estação de metrô, que já se abria um clarão à nossa passagem quando, numa dança de mãosduplas, Kelly puxava a minha mão para um lado e eu a movia para o outro... E o lado a que se movia a roleta antes de parar era o mesmo a que Kelly rumava e, no entanto, oposto ao que ela desejaria me levar, pois que tudo na minha vida procedia da mesma forma. Tudo se dirigia à roleta tanto quanto para o lado de Kelly, que tanto se dirigia à plataforma como para o lado das roletas que, assim como os trilhos, eu e Kelly, poderiam se dirigir para um lado ou para o outro sem que nada se alterasse no destino dos transeuntes que, paradoxalmente, estacavam à nossa passagem e olhavam


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para o lado oposto ao que caminhavam... E o que eu pensei foi que Kelly também me fazia olhar para todo o caminho que eu havia percorrido desde o amor juvenil à música de Márcia, passando pelo estudo abnegado, até a curta vida de músico profissional. E me fazia ver que eu não conseguiria mais ouvir aquelas músicas como um ouvinte comum, assim como Kelly não seria capaz de ouvi-las do jeito que eu agora o fazia, pois o caminho daquele aprendizado fora como uma estrada de mão dupla, um desaprender de algo que eu já sabia, e o desenrolar de um novelo cujo fim é uma linha a que se deve retornar sempre: a mão que a segura caminha em direção oposta à que a vida quer levar. Tudo isso me veio à cabeça quando enfim parei e só assim Kelly largou a minha mão. E a tristeza que eu vi nos seus olhos era a mesma que Márcia teria visto nos meus se não houvesse partido antes que eu voltasse dos Hamptons. Se me tivesse encarado e explicado por que desejava partir. Que quando duas pessoas se fitam, de frente, tem necessariamente de olhar em direções opostas, e talvez por isso todo amor já nasça como termina, em sentido anti-horário ou contagem regressiva. Mas, por outro lado, se ao darem as mãos criam um circuito de energia e um círculo com os braços, já não encaram o mundo em mão dupla, e por isso o amor ao outro retorna para quem ama, e talvez por isso todo amor já nasça infinito e atemporal. Parados um em frente ao outro, só o que eu queria era retornar ao amor puro que em algum momento sentira pela música; encarar Kelly com os mesmos olhos iludidos e apaixonados que uma vez voltara para as canções de Márcia, e não ter que lhe dizer o mesmo que ouvira de sir Robinson... Não ter que lhe participar uma verdade que então me parecia tão repulsiva quanto a maior das mentiras... De que eu não fora capaz de ouvir uma nota sequer em que o saxofonista não demonstrasse o seu despreparo técnico, seja por soar ligeiramente desafinado, ou por escorregar na harmonia e no ritmo. Não fora capaz de escutar nota alguma que fosse bela e emocionada, e estaria absolutamente certo de minha opinião se não estivesse num momento de tanta angústia e desilusão. Se não fosse a lembrança que àquele momento me invadia, de que havia me lançado ao estudo de música em nome do amor que sentira por Márcia e suas canções. E que agora, em nome de um conhecimento que adquirira para chegar a provocar este mesmo sentimento em


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outras pessoas, eu me dispunha a desautorizar o amor de Kelly pelas músicas que mais lhe inspiravam. Quando todos os caminhos pareciam marcados pelo signo cáustico da solidão e do desapontamento, senti-me envolvido pelos braços de Kelly, e logo por suas palavras inaudíveis, e logo por confidências ou pretextos para que eu aproximasse o meu rosto do seu... E então nos beijávamos em meio à multidão que se deslocava ora em direção à plataforma, ora em direção às roletas. Nós, ilhados pela certeza instantânea de que nada poderia nos separar, e que os caminhos de pernas ou vozes jamais nos levariam tão longe quanto o caminho do silêncio. Pois quando por fim os lábios se descolaram e os braços se desenlaçaram, já não havia mais palavra que ousasse soar. Kelly não desejaria escutar coisa alguma e eu tampouco teria o que lhe dizer. Os ouvidos e sons haveriam de nos separar do início ao fim das músicas, mas um silêncio infinito tornaria a nos unir nos intervalos das faixas etárias de nossas vidas e discos... Do mesmo modo, a multidão que atravessava as roletas com Kelly à frente sonorizaria o mundo de infinitas formas ao sair da estação e se dispersar pelas esquinas, prédios e lojas até se unir, momentaneamente, no silêncio da multidão comprimida nos vagões de um trem que levava de volta a Astoria os que dela jamais deveriam ter saído.


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9- O Fim da Canção Pela próxima década, a música seria para mim nada mais do que um indesejável cobertor de silêncio. O trauma jamais fora esquecido e, por essa razão, transformara-me num fastidioso crítico da tendência a conferir à arte valor superior ao que lhe seria merecido. Como tantos outros homens de trinta ou mais anos de idade, arrancava os pioneiros fios de cabelo branco defronte os espelhos dos elevadores e também chamava de música o que tirava da cabeça quando parecia diferente ou ficava velho e pairava no ar até desaparecer por completo. Sobrepunha ao presente tantas lembranças, dúvidas e arrependimentos, que cada palavra carregava o peso de tudo que já fora dito, e cada novo gesto tinha de velar por tudo que vivera. No restaurante onde passara de garçom a gerente em três anos, e de gerente a sócio-proprietário em mais dois, submetia a clientela ora ao silêncio raso ora à música de fundo, mas nunca aos estilos musicais que eu outrora amara. O rompimento com a música de frente e o silêncio profundo, porém, não aconteceu no derradeiro e dramático encontro com a Kelly que, por medo, orgulho ou indiferença, não permiti que me amasse. Ocorreu, sim, cerca de dois meses depois, numa apresentação cujo desfecho me faria conhecido por músicos de jazz de vários países. É certo que antes, numa noite em que a ânsia de criar me foi tão insuportável quanto a aversão a quaisquer das músicas que já tocara, escreveria a letra do pretenso merengue composto anos atrás por Pedro e, surpreendido por ter sido capaz de reinventar em português os chavões esperançosos e ingênuos dos dominicanos da mercearia, sentiria um prazer cruel ao gravá-la e cantá-la ao vibrafone, numa homenagem amargurada e incoerente ao otimismo de seu Porfírio. Instantes depois, contudo, cobriria o instrumento e esconderia as baquetas como se trancasse um caixão e perdesse as chaves para sempre, de modo que talvez nunca mais as tivesse procurado mesmo se duas ou três intermináveis semanas depois não fosse surpreendido pelo toque do telefone e a voz rascante da produtora de Xisto Perez. Naquele momento, em que até as catástrofes me seriam recebidas com indiferença, pousei o gancho no ouvido, contei entre cem e duzentos carneiros, disse „tudo bem‟ e


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„sim‟ para abreviar o juízo das perguntas e evitar a punição das respostas, e afundei novamente na cama. Após quinze ou vinte duras jornadas não me violentou mais a rascância da produtora, mas a rouquidão do motorista da van que levaria a mim e ao vibrafone para o aeroporto de Newark. De lá eu voaria para o Reino Unido, mas naquele dia não desejei nada além da fúnebre viagem sem volta de um motorista que esmurrava a porta e invadia a minha casa sob a alegação de que recebera ordens para só sair dali com uma pessoa e um vibrafone. Mais duas noites e chegaria ao palco do Festival de Jazz de Londres com a mente viajando pelas desventuras do passado, e visitando a mais criativa e reconfortante dentre as possíveis perdas do futuro. Mantivera-me triste e ensimesmado por toda a viagem e, ainda assim, fora capaz de perceber o deplorável estado mental em que Xisto Perez se encontrava quando, durante a passagem de som, trompetes e segredos soprados se despiram em berros e erros muito mais gritantes do que aqueles que os meses sem estudo me fizeram cometer. Toda a culpa que Xisto depositava em mim pelas notas fora do tempo ou lugar, todas as piadas e broncas ditas ao microfone me causaram ódio ou pena, mas não prenunciaram o que estava por vir, e tudo o que eu seria capaz de sentir e fazer naquela noite. Na antipatia crescente de toda a equipe do festival, ou na arrogância declarada dos músicos e produtores, não me revoltava tanto ter de lidar com o alcoolismo de Xisto, porque vivia na pele um drama tal como o seu. Tampouco me deprimia apontar o sofrimento e o sem-sentido da vida, que o trompetista carregava nos olhos, porque tudo que o mundo me trazia à vista também parecia sem sentido, assim como tudo o que eu lhe devolvia em forma de som e que levava no corpo, em toda ação e, ao mesmo tempo, em lugar nenhum, posto que tudo era a apatia de não suportar o inesperado e de sucumbir ao mais insignificante dos acontecimentos. O que me revoltava, sim, era perceber que quem me insultava na voz de Xisto era a música. Era ela quem me desprezava nos olhares dos produtores e dos outros músicos e, portanto, era a ela que eu deveria responder. Com a coragem indiferente de quem pouco tem a perder, subi ao palco prometendo que nada me impediria de encerrar a breve carreira de músico de uma maneira digna e memorável num belo e criativo festival como o de Londres. Para tal gastara todos os minutos disponíveis antes do início do espetáculo passando e repassando mentalmente as melodias e acordes que deveria executar, de maneira que


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em todos os desencontros ocorridos nas três primeiras músicas do show senti-me seguro o bastante para não me afetar com os olhos penetrantes e os gestos largos de Xisto. Daí por diante, porém, os compassos, atos e imagens rolaram como pedras cada vez mais pesadas sobre minha cabeça, e tudo aconteceu rápido demais para que qualquer apreciação fria e isenta me fosse possível enquanto ainda sentia os baques sobre o couro cabeludo. Primeiro foi Xisto tomando o microfone e me apresentando ao público como “o garoto brasileiro”. Depois os risos do baixista Tom Oliver; as frestas do teclado do vibrafone se abrindo em abismos onde eu me esconderia até o fim da noite. Cada vez mais tinha a certeza de que todos notavam o quão distante da música eu me sentia, mas, ao pensar nisso, ainda mais longe dela eu ficava. Devia haver uma explicação para que tivesse perdido tanta musicalidade em tão pouco tempo, mas só conseguia lembrar que havia me lançado ao estudo da música aos vinte e quatro anos de idade. E foi Xisto Perez cochichando com Tim Z; voltando ao tema antes do solo de vibrafone de minha salsa favorita. O público aplaudindo os improvisos de Tom Oliver e Tim Z e cada novo gesto embrulhando o meu estômago e confundindo mais a minha mente, que no merengue seguinte solei no trecho que seria de Tim Z, pensando que aquilo que tinha dentro de mim tinha de sair em forma de música mesmo que fosse pela última vez. E de fato, foi o público aplaudindo moderadamente, tanto quanto aplaudira os demais solistas daquela música. Mas justamente aí um grande erro começou a se desenhar, pois alimentei meu desejo de vingança quando deveria ter mantido a concentração e a humildade. Quando deveria ter relevado o pior dos efeitos colaterais do alcoolismo de Xisto: a mania de, perante o público, culpar os músicos jovens ou desconhecidos pelos erros que cometia. E foi o que ele fez... Uma, duas, três vezes, até que, quando me apresentou novamente, fazendo pouco caso e dizendo só „Eurico‟, sem sobrenome, notei entre as mãos e mentes o ar pesado das palmas abafadas e dos gestos constrangidos. Então eu já não respondia por mim; a indignação que me governava não tinha um só nome ou motivo; transformara-se numa mina de sentimentos negativos e paranóias injustificadas. Era o orgulho ferido e, principalmente, o sentimento de injustiça, que me acometia por ter vivido uma infância inteira de amor à música, e a maior parte da juventude de dedicação incondicional a ela, para que tudo chegasse ao fim de um


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modo tão ultrajante. Olhava para Xisto e já queria que ele voltasse a gesticular e balançar a cabeça em minha direção. Se ele assim o fizesse, eu saberia como agir, mas para a minha surpresa Xisto se fez vítima de seu próprio veneno de um jeito bem mais criativo. Já na peça seguinte apresentou o tema e, no início do solo, desentendeu-se com a harmonização de Tim Z numa música em que apenas os dois tocariam. Num impulso levei à boca o microfone que apontava para o teclado do vibrafone e disparei: „É si bemol menor com sétima maior, Xisto, o acorde tem sétima maior... Agora vai para fa menor com sexta, Xisto. Ora, vamos! Pare de beber e acerte estas notas, ninguém mais aguenta ouvi-lo errando e me culpado por isso!‟ Já se ouviam os berros e xingamentos de Xisto, mas eu me fazia surdo a eles; solava sobre as notas de Tim Z ao mesmo tempo em que lhe cantava os nomes dos acordes e repetia: „vou lhe ensinar a harmonia dessa música‟. Sentia como que uma casca envolvendo os meus gestos, impedindo que os olhares de espanto e os gritos de „segurança, tirem esse louco do palco‟ me paralisassem. Os risos da platéia se faziam ouvir e, enquanto isso, eu e Xisto travávamos uma inusitada batalha sonora. Eu tocava insistentemente a nota que Xisto havia ignorado, mas de repente Tim Z mudava propositalmente a harmonia e minhas notas já não soavam bem. Aproveitando-se de meu deslize, Xisto misturava palavrões em espanhol e inglês, soprando notas ofegantes e desconexas entre eles. Eu corrigia as notas erradas, mas Tim Z olhava para Xisto para que mudassem novamente. Logo era a produtora subindo ao palco acompanhada de um segurança com olhos de acertar os alvos e mãos de trincar os dentes. Eu manipulava o microfone, abria a boca e: „filmem o que está acontecendo, coloquem na internet‟... Olhos no solo, ouvidos no riso, um fim surdo de frase no grave: era Tim Z à guitarra. E o fim de minha frase também surdo e grave, que agora dois seguranças apertavam os meus braços e passos para fora do palco. Lá a produtora gritando que minha carreira estaria encerrada: eu nunca mais tocaria com músico algum e haveria de responder na justiça por aquilo. Toda a produção do festival tentava acalmá-la e, entre as vozes dissonantes, ao menos uma pessoa não dava razão a Xisto. Os jornalistas me cercavam de „o que você tem a dizer sobre o ocorrido‟, „quais são os planos para a sua carreira agora‟, „acha que a


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repercussão deste show pode ser negativa para a sua carreira‟, mas eu só sabia pedir licença e abrir passagem de cabeça baixa. Com muito custo tomei um táxi para o hotel, arrumei as malas e retornei ao lobby na esperança de alcançar um aeroporto, uma Nova York e um apartamento, ainda que sem vibrafone e cachê. Pus os pés para fora do elevador e dezenas de olhos, câmeras e holofotes perfuraram o meu crânio; e mais e mais perguntas reinterpretadas com tensão e volume crescentes espetaram os meus tímpanos... Como a audição pública e rearranjada da música que latejara em minha mente pelos últimos meses, fragmentos de perguntas responderam perguntas cujos fragmentos responderam reinterpretadas perguntas cujos fragmentos serviram de respostas a novas perguntas... „Pare!‟, e assim por diante até que a morte as separe. E assim por diante até os „pare‟s! dos seguranças cutucando os ombros e apontando a recepção; a conta do hotel paga com o cartão de crédito, a passagem para Nova York paga com o cartão de crédito, e a conta do cartão de crédito paga por ninguém, o aluguel do mês pago por ninguém. A conta do telefone paga por mim até o telefonema de Sam Nonet, conhecido produtor musical radicado em Los Angeles. Sim, eu sabia que nossa batalha extra musical tinha sido noticiada pelos mais importantes jornais europeus, e até por um canal de televisão. Também sabia que o show de Xisto tinha terminado sob as vaias da platéia, e que até o momento quase oito milhões de exibições do acontecido haviam sido feitas na internet. O jazz, disseme Sam Nonet, „estava carente de eventos como este, que chegassem ao grande público e cativassem e divertissem os jovens. Eu, que já não trabalhava com música instrumental há mais de trinta anos, senti-me estimulado a voltar à ativa. Não conheço bem o seu trabalho, mas contamos com uma equipe qualificada de músicos de estúdio, entre os quais dois vibrafonistas capazes de dublar todos os caminhos de notas que não lhe forem, digamos assim, familiares... Sua atitude aguerrida teve o frescor da juventude e creio que um disco que explorasse o acontecido, com faixas em tom de desafio a Xisto e a todos os tecnocratas da música, seria um grande sucesso de vendas. Tenho o enorme prazer de lhe informar que desejo produzi-lo‟. As palavras de Sam Nonet ecoaram no mesmo abismo em que despenquei dia após dia por meses a fio. Voltava aos anos em que sonhara em gravar um disco solo. Pensava em todos os CD‟s demo deixados nos escritórios dos selos musicais especializados em artistas em início de carreira. Lembrava de todos os obstáculos e


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reveses que enfrentara, e que muitos instrumentistas em início de carreira continuariam a enfrentar. Punha os fatos na balança e concluía que, a partir do telefonema de Sam Nonet, a conta do telefone seria paga... por ninguém. O telefone cortado, o aluguel do mês seguinte pago por ninguém. A ordem de despejo esmagada entre o imã e a geladeira, e em meio a tudo isso a certeza de que nunca mais faria música. Em dois meses voltaria a trabalhar como garçom, dessa vez num restaurante brasileiro em Astoria. Em breve alugaria um quarto a três quarteirões do emprego, e deixaria que as contas de todas as idades consumissem o meu salário por mais de um ano. Às contas antigas que, saídas do casulo do mês, mudam de nome e viram dívidas (ou, como lagartas tornadas borboletas, dádivas voláteis de frágil beleza e falsa liberdade), apliquei-me com uma autoconfiança desenvolvida com a música, mas jamais usada em seu benefício. Em momento algum tive dúvidas de que chegaria a quitá-las, ainda que com o restaurante às moscas e os juros às mostras. Nunca deixei de ver o lado bom do emprego, mesmo quando os clientes viravam as mesas e batiam as portas defronte aos calcanhares. Com o fim das dívidas, esvaziava-se o desejo de fazer fortuna, mas não o de lotar o restaurante. Por muitos anos devotei-me a tal tarefa com a mesma dedicação que aplicara à música. Hoje sei. Hoje percebo que, ao me lançar ao trabalho com sinceridade e desprendimento que surpreendiam os clientes e entusiasmavam os patrões, era a música que eu louvava. Mostrara-me o quanto tinha de me empenhar para alcançar o que quer que estimasse. Fizera-me mais feliz nos sutis e abstratos acompanhamentos harmônicos que no glamour dos solos e, assim, ensinara-me a servir aos outros para alimentar a própria busca. Dera-me o dom de enfrentar apenas a mim mesmo para ganhar um mundo que, sem ela, jamais teria cinco continentes e dez restaurantes. Fora-me útil por isso e muito mais, mas carregara consigo a lembrança de tudo que me ensinara. Levara o nome dos sonhos e a autoria dos sentimentos que forjara em mim. Não obstante, todas as idéias que tinha ao longo das horas que gastava sob o toldo onde se lia Gostinho Brasileiro – Brazilian Food não me seriam tão prazerosos se não fossem atribuídos ao silêncio do restaurante. Se não fossem saudados como o prenúncio de uma nova era, e comemorados como o enterro dos ossos metálicos do vibrafone e das folhas pétreas do apartamento em que vivera


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o estranho drama de paixão e posse com a música. Grande parte do gosto de vitória que sentia por progredir e ser reconhecido pelos mineiros de Astoria como o „carioca-que-gosta-de-trabalhar do Gostinho‟ residia em transferir para a música toda a culpa pela prostração dos últimos tempos. Tirar das costas o peso do sonho que a juventude não conduziu à felicidade, mas à exaustão. Tanto assim que, ao chegar à gerência do Gostinho, sentia-me secretamente motivado pela inusitada vingança que arquitetara contra o meu passado recente. Não pensava em mudanças na equipe ou no horário de funcionamento. Entrementes, lançaria pelos ares da casa um software subliminar de introspecção e autoconhecimento; a microfísica do único antídoto eficaz contra o estrondo do metrô suspenso de Astoria, das buzinas dos carros e dos sons musicais dos aparelhos portáteis: o silêncio. Logo os alto-falantes se calariam em sinal de respeito ou protesto, enlutados pelo pó que lhes cobria o casco e entupia as ventas; televisões mudas esbugalhariam inutilmente os olhos dos clientes imaginativos com seu jogo disparatado de cores, luzes e bocas movediças; garçons levariam nos bolsos gorjetas recheadas por retalhos do feltro com que revestiriam mesas e bandejas... Todo o aparato de livrar-se do maquinário ruidoso e supérfluo do mundo para encontrar a si próprio no sagrado instante de prover o corpo de alimentos. A aparente contradição de minha estratégia (tirar partido da atmosfera tranquila do restaurante e ampliá-la) com meu objetivo final (melhorar o movimento da casa e aumentar seu faturamento) foi motivo de risos para todos os que, direta ou indiretamente, participaram da pré-história da rede de restaurantes conceituais Silence Island. Quando pela primeira vez expus minhas idéias aos dois céticos proprietários do Gostinho Brasileiro, pude sentir todo o peso do conformismo nas negativas que rebati até o momento de bater o pé e abanar a mão: eu não continuaria mais no cargo; que arrumassem outro otário disposto a gerenciar um estabelecimento à beira da falência sem poder dar idéias ou propor soluções. Que arrumassem outro idiota capaz de acreditar na possibilidade remota de reerguer uma casa antiga e mal cheirosa mudando as mesas de lugar e contratando garçonetes dóceis e sorridentes que falariam um inglês perfeito para dizer hello e oferecer os mesmos petiscos gordurosos e insossos de sempre. Se não houvesse silêncio eu não continuaria mais,


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mesmo que os risos cessassem, e fossem eternos os „não é bem assim‟ e infinitos os pedidos de desculpa ou calma. Por algum tempo escutei que seria ilógico atrair uma clientela em busca de silêncio, uma vez que se nosso objetivo se concretizasse e lotássemos a casa, o barulho da turba desagradaria aos clientes e eles não voltariam. Por certo tempo tive a impressão de que as piadas sumiam à minha chegada e soariam à minha saída, pois, como dizia o sócio Geraldo, „um dia teríamos diante de nós uma multidão em silêncio, mesmo que fosse num enterro‟. Por muito tempo gerenciei um negócio de arroz com feijão com a mentalidade sonhadora de um vanguardista. Lucas e Geraldo jamais acreditaram que o plano daria certo; aceitaram-no porque não conseguiriam contratar gerente algum por tão pouco. Usariam-no talvez como desculpa para, em cinco ou seis meses, anunciarem sem amarguras o fim do Gostinho Brasileiro. Um ano depois a casa registrava o dobro do movimento anterior, o que se devia ao silêncio, mas, principalmente, às mudanças promovidas no cardápio. Mais um ano e teria adquirido a experiência necessária para compreender os limites que o Gostinho Brasileiro impunha aos meus planos, tanto quanto os recursos suficientes para dar um passo decisivo: propor sociedade a Lucas numa casa que substituiria o velho Gostinho. Um novo estabelecimento, que ganharia revestimento acústico similar ao de um estúdio de gravação e teria três ambientes, um dos quais transformado em ilha de silêncio absoluto. Nele os pedidos seriam feitos por escrito, para garçonetes mudas ou surdas-mudas; aparelhos seriam desligados à entrada, cadeiras seriam acolchoadas nas pontas e o silêncio seria resguardado por seguranças. Nos anos que se seguiram persegui como nunca o isolamento acústico em que desejaria viver. Em perambulações por ruas sem saída e recantos desconhecidos de Queens, Washington Heights e Inwood, concebia um mundo que oferecesse ilhas de tranquilidade a todos os praticantes do tai chi chuan automotivo das filas e engarrafamentos monumentais; os condenados ao safári assíduo das vias de acesso às avenidas das grandes cidades, viajantes sem tempo e espaço, mas apocalipse e caos; desejosos por imigrar ao interior dos estados (de vida) mais elevados nos breves instantes das horas de almoço ou longos martírios das horas do rush. Anos em que planejei atrair para o Silence Island advogados, engenheiros e médicos... Formar um


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corpo de cidadãos cientes da loucura nos subterrâneos da realidade; fazê-los despertar para o silêncio antes que acordassem sob o efeito analgésico de um rádiorelógio. Anos em que projetei um espaço em que as vozes dos músicos de Xisto e dos colegas da escola de jazz não mais reverberassem em minha mente a cada vez que aventassem um trompete ou encostassem num piano; anos em que desejei criar em torno de mim uma redoma de silêncio, isolada de qualquer música e protegida das incômodas verdades de todos os músicos. Dias e anos em que, em cada passo dado para afastar-me deles, em cada gesto de mãos aos ouvidos para proteger-me das músicas e das vozes compostas pelos outros e gravadas na própria mente, só o que fiz foi descobrir novas interpretações para elas... Só o que fiz foi atrair para o Silence Island uma legião cada vez maior de músicos vindos das escolas, ensaios e shows; postando com cuidado exagerado caixões de guitarras, baixos, pratos, saxofones e trompetes sobre o piso atapetado; comunicando-se por recados escritos em folhas de papel ou computadores portáteis; divulgando o Silence Island pela internet e sugerindo os locais das novas filiais. Tal como um frustrado mecenas de si mesmo, investia em livros que não queria ler parte do dinheiro que ganhava, e em leituras desconcentradas todo o tempo disponível, num esforço inútil de fechar os olhos para a transformação silenciosa que se desenrolava diante de mim. Inauguraria a segunda filial do Silence Island dois anos após o fim do Gostinho e, movido a bons resultados e apostas arriscadas, manteria a partir daí a média de uma nova filial a cada ano. A imagem pesada e opressiva deixada por Xisto e seus músicos e produtores contrastava com o ar leve e espirituoso dos jovens artistas e estudantes que invadiam o Silence Island na ponta dos pés onde quer que ele fosse inaugurado. Neles o tempo não mais se fazia ouvir como ecos de uma era que não voltará. Era outra já a história.


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10- Discípulos do Silêncio Nunca ficou claro o momento em que Os Discípulos encontraram na primeira filial do Silence Island o espaço ideal para os lanches ou jantares de antes ou depois das reuniões. Seria impossível definir se entre os inúmeros clientes que abarrotavam o bar, o restaurante e a sala de silêncio absoluto, para o auspicioso enterro das piadas retrógradas de Geraldo, estavam alguns dos membros e frequentadores dos encontros dos subgrupos da organização Discípulos da Música, às sextas-feiras, de oito às nove e meia da noite. Dos quatro minutos e trinta e três segundos de silêncio que – em lembrança da obra de John Cage – davam início às reuniões, passando pelas matérias e estudos sobre os compositores, intérpretes e pensadores, até chegar às apresentações finais dos membros, uma nova e singela história da música se contava, sem que imprensa e meio musical fossem ouvidos. Sobre o tecido impermeável do balcão e das mesas, ou nos sofás e cabines da Sala de Silêncio Absoluto (SSA), muitos Discípulos tomariam seus drinques diante dos cenários paradisíacos exibidos nos telões; comeriam iguarias dos cardápios Vegetariano, Sem Glúten ou Étnico; permaneceriam obscuros também para mim até o reencontro com Anna, concretizado após uma longa e desgastante troca de e-mails e papéis. No susto recorrente de reconhecer na nova Anna um simulacro do ex-músico Eurico (e de notar que também ela enxergava o abismo ou a ilusão das próprias mudanças em mim), a aversão de um pelo outro se descobria nada mais que a recusa de aceitar o que cada um de fato é: o acúmulo de experiências, o eterno aprendizado de um momento refletido no momento posterior, e não o „agora‟ como negação do „antes‟ e possível álibi do „depois‟. Desde a desconfiança das primeiras reuniões – a saída sempre antes dos números musicais dos membros, a procura inconsciente por uma palavra ou ato fora do lugar, qualquer prova do crime, como se todo gesto humano fosse a superfície de um poço de mentiras –; o contato com os Discípulos da Música me fez perceber que a imagem estática e dolorosa da música não era senão minha própria foto, tirada no instante em que enterrava à força o Eurico músico. Esta imagem de empáfia e rispidez, que Anna viu ser construída sobre o jovem inseguro que adentrou o Restauranna em busca de emprego, foi a mesma com que o diretor


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geral dos Discípulos da Música em Nova York se deparou ao me conhecer, dois ou três meses antes. Só então, ao revê-lo numa das primeiras reuniões a que Anna me levara, recordaria a inauguração da filial do East Village, quando fora apresentado a um certo Gary e escapara de uma grande gafe por uma distração e dois sons simultâneos no instante em que o homem se identificava. Não o teria escutado sem os preconceitos que ainda ditavam minha (falta de) relação com a música. Não teria permitido que aquele sujeito bonachão, possível membro da rede interplanetária e utópica dos subúrbios das cidades grandes, nascido na fronteira imaginária de Washington Heights com Marechal Hermes, viesse me convidar para um encontro musical quando só o que eu queria era paz e silêncio. Entretanto, por não haver escutado a „Música‟ dos „Discípulos‟ no momento em que Gary se apresentava, sob o contraditório alarido das inaugurações das ilhas de silêncio, deixei que ele discorresse longamente sobre a clientela fiel que meus restaurantes haviam conquistado entre seus colegas de organização. Deixei que o homem filosofasse com desenvoltura sobre o silêncio, apostando que, como eu, ele seria mais um ex-artista desiludido com o meio musical. Ouvi-o de início com interesse e, por fim, com a cordialidade impessoal de um empresário do silêncio, mas em momento algum cogitei comparecer ao encontro do silêncio de John Cage com a eloquência de Gary. Somente quando Anna, cobrando o preço mais caro no bolso que mais me doía, plantou a reunião de um „grupo de amantes, amadores e ex-profissionais da música‟ entre meu passado e seu futuro, o caminho dos Discípulos foi finalmente trilhado até muito além dos amores perdidos ou esquecidos pelo caminho. Gary não era – ou era bem mais que – „um artista desiludido com o meio musical‟. Participara da reunião de fundação dos Discípulos, em 2020, e coordenara os primeiros núcleos da organização na Europa e na Ásia até o retorno a Nova York e a corrida pelos mais de duzentos subgrupos espalhados pela cidade. Para além da diplomacia exercida em nome dos Discípulos da Música, nas mais diferentes esferas, dirigia palavras de revolta e aniquilamento contra todos os que traduzissem em interrogações e cifras sua cumplicidade com os crimes de estelionato artístico ocorridos durante a segunda década do século. „Fui‟, disse-me ele, olhando fixo nos meus olhos para adivinhar minha surpresa ou censura, „asfixiado pelo pó pós-postiço do showbiz‟...


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A história completa eu só descobriria depois, no site extra-oficial da Comunidade Musical Autônoma, organização dissidente dos Discípulos da Música. Segundo o site, Gary foi „costurado por enredos megalomaníacos em posições de baixo escalão‟ e, por um salário astronômico para um músico – mas irrisório para o cúmplice de um crime federal –, participou indiretamente de um dos mais escandalosos acontecimentos da mídia americana nos anos 10, o conhecido Caso Liege. Nele atuou como pianista-dublê do diretor musical de Diana Liege, esposa do magnata árabe Al Elatrache-Liege. Diana, muda desde os quinze de idade, ocupou o posto de cantora mais popular da América por muitos e muitos dias de 2015, mas, consumida pela complexa engrenagem tecnológica da máfia do /parecer ser/, denunciou ela mesma o esquema de sete milhões de dólares por semana. Aparecia nos aeroportos cercada por microfones adulterados instantaneamente pelo vírus da máfia do Vida Irreal; apresentava-se em shows reproduzidos ilusória e mecanicamente para um público treinado em cativeiros subconscientes, e drogado pela fumaça Hit-HiTech da máfia; tinha os passos medidos sobre uma pinguela de realidade que nada tinha em comum com o ideal de liberdade que lhe fascinava na arte... Deixaria a fama irreal por uma prisão na Carolina do Norte, mas, incapaz de responder às perguntas que lhe faziam à época do julgamento, escreveria num papel de carta que jamais chegaria ao grande público: „Eu já estava presa. Não me arrependo de nada do que fiz e sinto-me livre agora‟.


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11- O show Tal como Diana, muitos Discípulos continuariam a se comunicar por escrito nas salas de silêncio absoluto dos Silence Island. Seguiriam buscando uma motivação, um rumo, uma decisão ou uma verdade qualquer, alimentando o gosto pela música que têm dentro de si. Diante de mim, nunca mais passariam despercebidos. Aprenderia a identificá-los pelos olhos com que entravam e o olhar com que saíam da casa. Notaria a certeza do caminho que seguiam pelos passos que os traziam e a firmeza que os levava de volta ao trabalho. Saberia tudo isso, mas jamais me sentiria como eles. Jamais entenderia por completo o sentido do caminho que trilhara; o conhecimento que me roubara o amor pela música; os dias inteiros gastos com as baquetas entre os dedos, defronte um instrumento musical que poucos se arriscavam a estudar. O sentimento de dever cumprido ao fim dos exercícios de técnica, a felicidade por haver aprendido mais uma música; o caminho musical ciceroneado por grandes mestres que, paradoxalmente, jamais compreenderam o gosto estranho de um caminho descoberto tardiamente e, talvez por isso, impossível de ser trilhado de um modo tal como o deles. Jamais entenderia o sentido do caminho que trilhara até aqueles dias passados no Rio anos atrás. Ainda sem o vibrafone: o instrumento a que havia dedicado boa parte da juventude e que, àquele momento, parecia tão distante da minha realidade quanto as ruas que, de volta ao Rio de Janeiro, visitava em busca do local mais adequado para a primeira filial brasileira do Silence Island. As ruas que me pareciam belas de início, que me atraíram por qualidades que por um instante, por um sopro ao menos, foram insuperáveis tal como o instrumento preferido de Márcia. Todo o exercício de voltar ao ponto de partida após mais de vinte anos. O distanciamento e o lugar-comum do „estrangeiro na cidade natal‟. Falar a própria língua com as vozes dos outros. Estar em ruas iguais e ao mesmo tempo diferentes e não saber com quem jogar o jogo dos sete erros: a cidade ou a memória. A cidade e a memória...


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Sorte foi que se tratasse de um instrumento raro, sobretudo no Rio de Janeiro; um instrumento grande e exótico, visto uma vez e lembrado para sempre. Sorte que, ao comparecer à reunião do grupo dos Discípulos da Música do Engenho Novo, tivesse me apresentado como ex-vibrafonista ao conhecer Ísis, flautista da Orquestra Popular do Teatro do Estado. Nos inúmeros grupos de Discípulos que conhecera desde a chegada à cidade, fora apresentado a vários membros-músicos, mas não a Serafim, jovem vibrafonista que Íris recordava com entusiasmo. Nesses e noutros encontros teria acesso ao público-alvo das futuras „campanhas de conscientização‟ do Silence Island, mais uma das abobrinhas filosóficas que criara para investir na renovação da clientela e disfarçar o estranho tédio que sentia pelo dinheiro fácil e crescente das franquias americanas da casa. Mas, quando o rosto ossudo da flautista se avivou ao „ex-vibrafonista‟, não podia imaginar que essa história tinha as horas contadas. Não sabia do show que lhe poria um fim e, ao mesmo tempo, mais um ponto de partida. Não lembrava que nosso solo, reencontrado no alto da cidade – agora a partir de um subúrbio do Rio –, só fora fértil para meia dúzia de canções. Não tinha em mente a vida longa, repleta de filhos, fotos e histórias engraçadas e bonitas para se contar, (eu não a valorizava mais). Concebi, sem sentir, uma outra história; melodramática, composta por uma separação de mais de vinte anos e sustentada pela distância física e pelo isolamento do mundo virtual, distância que, agora, era percorrida de uma vez, sem o sentido do espaço e a „direção‟ do tempo. Nela um homem sonolento – afogado em desilusões e condenado ao silêncio – contaria a mesma história de sempre, de pesos e medidas desiguais e letras e números desconexos. Ainda nela, outro homem viveria agora distraído, embebendo-se na leitura de um livro escrito de trás para frente, com um bebê de quase cinquenta anos chorando por um velho de vinte-e-poucos no fim. Primeiro estranhei o jovem de olhos verdes e pele morena... A coincidência trancada do lado de fora dos pensamentos; expulsa da canção algo familiar por uma canção desconhecida, expulsa do show pelos aplausos acanhados, arrancados do público por aquela canção que já tinha certeza de que ouvira de Márcia, aquela canção Volvendo a Astoria e tocada baixinho; agora expulsa por uma que se revelava linda n‟O Fim... E daí por diante o show a que assistia com meus próprios olhos era também o espetáculo de se ver na voz da artista que canta, e de se enxergar no que ela vive.


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Era a mãe violonista agora cantando e tocando com o filho vibrafonista as canções que compusera à época do colégio... O show de voltar ao palco da História da Canção, tocar nas manchas de ferrugem e rever as marcas dos pés dos amplificadores do apartamento de Washington Heights... O piso de tábuas corridas arranhado por estantes de partituras reaparecidas, o violão em que repousavam os braços erguidos ao teto para desatar mais uma vez a correia do violão das costas... Desde os tempos do colégio... Até o fim, no quarto; a janela de guilhotina pesando sobre o parapeito vazio, a corrente (fora) de ar e o tapete roxo estirado sobre o chão sob o amplificador, o violão e a guitarra semi-acústica que Márcia agora empunhava para tocar com o filho um standard de jazz „em homenagem ao falecido pai americano‟, o pai com quem Serafim „aprendera a gostar de música instrumental‟... As gavetas esvaziadas, a cama arrumada e, sobre ela, o CD e a carta cujo conteúdo eu só compreendia agora, mais de vinte anos depois. Não me reconheceram, claro. Não me notaram vagando à deriva; entrando e saindo repetidas vezes dos táxis e botequins, sem desejar voltar para casa nem permanecer ali. Tampouco sobre o banco rente ao poste de iluminação pública em que, tantos anos depois, fiz o tempo passar ouvindo o zumbido dos automóveis que circulavam pela rua vinte e quatro de maio... E na manhã seguinte já era tarde para procurar por mim no Rio de Janeiro, e mesmo em Nova York. Entre uma e outra lembrança ou cidade, o mal-estar de levar os passageiros de um lado ao outro do rio e não poder continuar com eles. Esse gosto de estender o braço na multidão para tocar um grande ídolo e vê-lo fugir justamente ao seu toque; o grito abafado por afazeres domésticos; responsabilidades fiscais, compromissos sociais, higiene pessoal... É importante recolher os cabelos para não entupir os ralos. Todo esse rito acessório me empurrando para o fosso dos teatros; para não enxergar nada além do riso acessório, rico acessório: ter o objetivo de continuar, correr atrás do rabo, e cumprir as obrigações até o fim; deixar dinheiro na conta (e procuração) para que o enterro possa ser pago. A decepção, pois parto; vazio pósparto, só. Ainda assim continuariam a perguntar por mim a Ísis, aos outros Discípulos e aos funcionários do Silence Island enfim inaugurado no Rio de Janeiro; a ouvir risadas e especulações sem sentido; a ligar para as companhias aéreas e acordar as


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secretárias eletrônicas; a enviar e-mails de agradecimento e marcar encontros que não se realizariam, pois não poderiam jamais render frutos em tão pouco tempo. ...E mesmo o investimento feito na carreira de Serafim só começaria a dar frutos anos depois. Os primeiros shows, em Londres, não seriam bem sucedidos. Nestes e em todos os outros, nós nos comunicaríamos por e-mail e eu responderia com novas perguntas os frequentes questionamentos sobre técnica, repertório e atitude profissional. Não seria, jamais, o mestre que ele, sem saber o nome, chamaria de silêncio. Seria o outro, que voltaria a praticar vibrafone em casa, não mais com pretensões profissionalizantes, mas justamente para que o jovem discípulo, cada vez mais certo do próprio caminho, pudesse continuar chamando de mestre.


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II- LETRAS & músicas


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1-Apresentação A-) Teatro da Canção Cidades, seus nomes, Mapas e cores, Cenários: hangares pros mares, Amores suas cenas, pinturas, poemas Serão Flores do Mal em Atenas?

Saudade, suas juras De amores sem cura Esquinas incontáveis Contam mil segredos Relevam seus espantos Revelam mais enredos...

Pontes, praças, brigas, Becos pros seus beijos, Cochilos em bancos ao relento, Versos habitados por seres noturnos...

B-) Incertos de seus nomes, Certos homens, Personagens sem autores, Seus romances sem amores, seus eventos sem verdade, Tantos gestos sem vontade Certos homens, suas lembranças sem saudade, (Personagens), seus atores desfilavam com sorrisos Bocas-guizos balançando, soluçando Soluções de um dia


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A noite esconde as nuvens (E as formas que escolher) O dia acende as luzes Pra todo mundo ver

Que lhes usam Como os becos servem aos beijos Ou os bancos aos cochilos, Os asilos às suas vidas Vida ida dá a Volta, cautelosa, precavida, re-partida...

C-) Nutrem-se os tempos De ventos e projetos Seus arquitetos De sonhos inconfessos Fonte de idéias (vultos de concreto) Chuva nos desertos, Músicas que versam sobre amores Como luz que realça as cores... E se alguns mais férteis ferem harpas em baladas Outras armas muitos ferem Fertilizam nada

Fotos não vivem, reacendem as saudades Fetos já vivem, não fogem à luz da idade


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2- Pré-história da Canção (Instrumental)


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3- História da Canção Sempre que consulto Meu relógio é tempo De medir seu pulso Sem consentimento

Decorar os dias De seu calendário Com fisionomias De um instantiquário.

Eu quis dublar os seus cantores Copiar os seus compositores Eu fiz nublar seu rosto em vida Vinda de...

Lágrima vertida Vi secar de dia Serenar a noite Da sua partida

Libertar ponteiro (Bricolagem-história) De seu cativeiro De óculo e memória

Pra então saltar no tempo Compondo outra canção Pra quem além do alento Dalimaginação


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E enfim cantar histĂłria (Volver-ter sentimento) AtĂŠ ver diversĂŁo Do acontecimento:

Dar fisionomia A cantores mudos Que atravessam dias Contempontiagudos.


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4- O Nome da Música Tua chave um dia invento Abro a noi/te vendo, mas Teu mistério vira o rosto Pro outro hemisfério

Teus beijos cobrem a face Da Terra (e seus disfarces) Teu choro irriga o solo Que abraços não consolam Viajas... Por teu corpo corre o mundo E o ar que inspiras

Muda esta paisagem Chega aos lares..., revolta os mares Invade o sono, leva longe..., escapa deste sonho E teu lugar eu não reponho nem descubro (Se falta ar/de grito, eu escuto)

Não é muda esta paisagem se cantares Que o som dos bares Invade o sono, leva longe..., incansável sonho Que em tua vida eu só componho pra te dar... O nome que não tens:

(...)

...Acordem os versos livres, Gritos, rimas impossíveis!


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Que as palavras deles somem Despem a voz e vestem o nome Que usas

(Em) Todo sĂ­tio por que passas Teima em ti a marCalor que reaviva o inverno Amores se conservam


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5- O País da Canção Disse tudo num instante De agora em diante ninguém vai me ouvir (Ou quem sabe algum louco resolva achar pouco e não queira sair): “Bem me quer mal me quedo, Mas pé não arredo até refulgir... Até surgir uma canção Que fale alto ao coração (E mova o chão)”

Dei pra andar de viés Redizer tudo aos dez Que chegaram depois E se eu der uma festa No tempo que resta eu convenço mais dois... A escutar com cuidado, Viajar num recado E intuir outros cem... Sem ficar deles refém, que o silêncio é presente – Quem cala é que sente –, É surpresa que guarda A chama do amor acesa... Até surgir uma canção Que fale alto ao coração:

Resgatando o amor que em todo canto espalha Fogo que só deixa palha


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Força que escorrendo por um mar de gente Tire sangue da corrente(...)

Mais bonito que ser é tornar-se Querer renascer bem melhor Descobrir novas formas nas nuvens, Saber transformar gris de cor E a Terra esculpir ao feitio dos corpos Se há mar ao redor...

Lua acolá so/lar aqui Onde se põe este país? Num quadro com giz:

Disse tudo num instante De agora em diante ninguém vai me ouvir


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6- O Destino de um samba Meu destino é o mesmo toda noite Onde é que o samba vai parar? Já é tarde para batucar na mesa Pára o samba... Traz o surdo para o bar.

Minha vida joga todo dia Todas as fichas neste bar E se o samba é o sobrenome da esperança, Com certeza em seu nome vai falar:

Meu destino é ser por toda vida Tudo aquilo que eu determinar Quem batuca um novo samba tem certeza Que os segundos podem o surdo retocar.

Vou correndo e frio quem sente é a madrugada Pois no meu caminho quem pára é a estrada Que bebe cansada o suor que eu deixei;

Vou correndo, que a vida não muda num passe de mágica, Só conta outra história quem vira esta página E canta outro samba sabendo que...

Seu destino é ser por toda vida Tudo aquilo que eu determinar Que quem ama muito, mesmo, não deseja Reescreve o destino para amar.


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Meu destino é o mesmo toda noite Onde é que o samba vai parar? Já é tarde para batucar na mesa. Para o samba, Que outro samba

vai raiar.


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7- Merengueto Meren...gueto, um grito grave Um fito suave de viver com esperança e glória... Que nascendo em cantos de Santo Domingo Um dia lindo não vá embora!

Pra partir é só cortar os laços e rir De tudo que fica pra trás, mas Pra chegar não basta um passo adiante Só há saudade em tudo que passa

Quem deitar sobre o passado ganha um sonho Em que o futuro é o presente amado Quem achar o sonho errado perde o amor Pra dar valor ao que tinha ao lado

Pra sonhar é só erguer os braços pro céu, Que o vento em torno das mãos não Vai esperar até que um dia faça sentir na pele Que o sonho é agora.

Pano desce e esconde, fim da tarde cora Mas o dia não vai embora (...) Merengueto, um grito grave, uma certeza: (Os dias lindos?) Santo Domingo


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8- Volvendo a Astoria Deixa falar que eu rio ao lembrar Deixa eu contar que Astoria é um lugar

Deixe riscar sua neve um sorriso E olhar que o conserve... lindo pra mim. Deixe Jobim dizer que lhe adora Mas que é pra mim que você olha Porque se Astoria vive de bossa, A nossa eu vivi feliz.

Deixa falar que eu rio ao lembrar Deixa eu voltar que Astoria é um lugar

Deixe riscar sua neve um sorriso E olhar que o conserve... lindo pra mim. Passam Jobim e João, mas agora É só pra mim que você olha Porque Astoria chega com bossa E nesta eu lhe fiz feliz.


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9- O Fim da Canção Nubladansarausoltarderradeira noite pra dizer: Pensocíntia-már-cia lúciacá...te a...visto Sem nome ou passado Vago, te perco ao meu lado

Ondiannamár?...se ali se car... Lá vem é...ladeira...vie-labirin... Terra.

Quem sabe seja um pássaro Que pousa antes de ousar? (Quem sabe as asas levem o ar?) Ninguém sabe o par...adeiro amar À vista, sem hora e ancoragem Viagem não vai lhe encontrar...

Mais vale cantar Abelamar...iane...larissakelliannasel... Mar.

Dia-a-di-artesão Soldarmarcom... Canção tem...po...der...reter...

terminalogoaquímicasa comestaísnamorex-missabelatris...tearafeliz... adoratris...tisaurafelísisvâniadiz... esvanecer...renascer(...) Com tant‟a-Márcia assim Será que nascerafim?


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10 - Discípulos do Silêncio Quem lhe salta aos olhos quando a noite cai Traz no rosto pálido um sorriso são Não conhece a morte na revolução Quem não vê a noite quando a noite cai

Quem não sabe o rumo enquanto ruma atrai Tudo que há nos sonhos dessa geração Dos que sempre buscam e nunca encontrarão Quem já sabe o rumo quando a noite cai

E hoje se conhecem por mensagens de um lugar Onde solitários se digitam sem tocar...

Eles não se importam por partir no ar Frases aguardadas como armas brancas Sonhos professados com desesperança Eles só se importam em poder cantar

Eles falam a língua que o silêncio inventa Pois traduzem em sonho a força mor da ausência E recolhem imagens que a canção legenda Quando raia o dia... tudo se desvenda

Pois nada do que dizem vale mais por aqui Nada do que vivem vale mais por aqui Nada do que gostam vale mais por aqui Nada do que gastam vale mais do que ouvir...

Eles falam a língua que o silêncio inventa Pois traduzem em sonho a força mor da ausência


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E recolhem imagens que a canção legenda Quando raia o dia... tudo vira lenda


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11- O Show Ouviu numa rádio nova a equação do intento: Jingle, dia, preço e local do evento Viajou por terra e mar só pra lhe ouvir cantar

Agora que há um mundo inteiro a assistir você Seja o que o transforma no que quer ver Seja o que for, melhor que o show comece...

Logo que sobe ao palco mais que um cantor, e a canção primeira já lhe inspirou (Mesmo que a seguinte não fosse bela e pusessem a venda nos olhos dela) A terceira achara interessante; não pôde ouvir, mas era dançante E da outra o início muito estranhou, só que justo esta lhe transformou Pois de agora em diante atuou sem tato, ar tocava, e voava sobre o teatro E depois a orquestra lhe fez viajar pro dia em que os homens vão se tocar... Continentes-corpos – de frente a mares – na costa em qu‟ilhas cortavam os males Amores, vértices de emoções que alcançam os dedos pelas...

Canções contam mil histórias em pouco tempo Dois ou três minutos e um fim bem lento: Agora o samba sai, depois eu falo.

Sambar dois ou três minutos pra num só gesto Aferir com o peito o que eu manifesto Se ao fim da festa o amor Canta o silêncio, eu ouço

...Tocar o palco mais que um cantor, lábios que bailavam espalhando amor Em canções como esta que achei singela – fechei os olhos e abri janela E de corpo leve e mente solta, notei que em breve estaria noutra


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Que, misteriosa, me enfeitiçou, fez-me ouvir o mundo e me transformou Pois de agora em diante atuei sem tato, ar tocava, e voava sobre o teatro E depois a orquestra me fez viajar pro dia em que os homens vão se tocar... Continentes-corpos – de frente a mares – na costa em qu‟ilhas cortavam os males Amores, vértices de emoções que alcançam os dedos pelas... Canções.


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