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Outro inglês se juntaria à dupla na revolução dos quadrinhos dos anos 90 – e, para muitos, se tornaria o seu grande artista do período: era Neil Gaiman, que de 1989 a 1996 publicou Sandman, uma das mais ambiciosas e luxuosas graphic novels da história, freqüentemente premiada por suas qualidades literárias e de muito sucesso comercial ao longo do mundo. Fantasia, terror, mitologia e elementos da literatura clássica se misturaram nas histórias do Mestre dos Sonhos criadas por Gaiman, que assim ajudaram a consolidar o mercado dos quadrinhos adultos nos anos 90. O artista ainda seria reponsável ao longo da década por trabalhos como Death: The High Cost of Living (a irmã gótica de Sandman), Livros da magia (um Harry Potter antes do Harry Potter), Stardust (de 1998, que se tornou filme nove anos depois) e Mr. Punch (1994), talvez sua obra-prima em se tratando de graphic novels. Outro nome que daria o que falar no mundo dos quadrinhos nos 90 foi o escocês Grant Morrison, que escreveu o Asilo Arkham (1989), uma das mais perturbadoras aventuras de Batman. Autor de vários títulos iniciados no final dos anos 80, mas que tiveram seu ápice nos 90, como Animal Man (uma releitura de um personagem clássico da DC) e Doom Patrol (reorganização de um grupo também clássico), ele entraria com tudo no mercado das graphic novels com Invisibles (1994). Era a saga de um exército anarquista e revolucionário, às voltas com ETs e terrorismo na Inglaterra, misturando ficção-científica, filosofia e música punk, surrealismo e referências clássicas dos quadrinhos. A obra, que tinha como um de seus personagens um travesti brasileiro (Lord Fanny), acabou se tornando uma referência de qualidade em HQs. Tanto Invisibles quanto o Sandman de Neil Gaiman foram lançados pelo selo Vertigo, departamento da DC Comics voltado para os produtos mais maduros, cada vez mais distanciados do universo dos super-heróis e mais próximo das livrarias. Pelo selo saíram ainda o V de Vingança de Alan Moore e o Hellblazer, série de terror estrelada pelo mágico John Constantine (personagem criado por Moore dentro das histórias do Monstro do pântano), que fez bastante sucesso ao longo dos anos 90 e virou filme em 2005 (Constantine, estrelado por Keanu Reeves).

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A REVOLTA DOS AUTORES Outro grande nome a despontar no final dos anos 90 foi o americano Todd McFarlane. Ele, que ilustrara revistas do Batman e do Hulk ao longo dos 80, foi chamado em 1988 para cuidar, junto com o roteirista David Michelinie da revista The Amazing Spider Man, o título mais popular do Homem Aranha, da Marvel Comics. McFarlane logo tratou de revolucionar o herói, tornando-o bem mais aranha do que homem, com olhos grandes, uma postura mais contorcida e uma teia toda estilizada. Em 1990, depois de 29 números da revista, ele disse que estava cansado de ilustrar histórias dos outros – a Marvel lhe deu então um novo título, Spider Man, que ele escreveu e ilustrou. O primeiro número bateu um recorde, com mais de 2,5 milhões de cópias vendidas, em parte pela estratégia de sair com várias capas diferentes – o que deixou os colecionadores de quadrinhos em polvorosa. Em 1992, McFarlane liderou uma revolta de desenhistas da Marvel por causa do pouco retorno financeiro que tinham em relação à popularidade de seu trabalho. Assim, ele, Jim Lee (desenhista que ajudara a revista X-Men#1 a vender oito milhões de exemplares em 1991, batendo novo recorde nos quadrinhos), Rob Liefield (da revista X-Force), Marc Silvestri, Erik Larsen, Jim Valentino e Whilce Portacio deixaram a editora para fundar a Image Comics, que deu liberdade artística a todos os autores. Os grandes sucessos da Image foram as revistas Spawn (de McFarlane), Youngblood (de Liefield) e WildC.A.T.S. (de Lee) – ainda no universo dos super-heróis e seres fantásticos, só que com traços e temáticas bem mais adultas. Em 1994, Todd McFarlane criaria uma linha de bonecos de ação, reproduzindo personalidades do esporte, do cinema e até mesmo do rock – sua linha baseada nos integrantes da banda Kiss virou objeto de desejo de crianças e marmanjos nos 90. Criada ainda nos anos 80, a partir de uma rede de lojas de histórias em quadrinhos, a Dark Horse foi outra editora importante dos 90 (disputando mercado com Marvel, DC e Image) que ficou conhecida por acolher artistas dissidentes e fora dos padrões – sendo o caso mais visível o de Frank Miller. Lá, prosperaram quadrinhos ácidos como O Máskara (sobre um sujeito que ganha força para realizar todas as suas vinganças ao vestir uma máscara que o transforma num incontrolável ser verde) e Hellboy, de Mike Mignolla, sobre um demônio que é trazido do inferno, ainda criança, pelos nazistas, mas acaba sendo resgatado pelos aliados, cresce e vira um agente paranormal do governo americano. Ambos os personagens virariam filmes, respectivamente em 1994 (com Jim Carrey) e 2004. As ligações da Dark Horse com o cinema são bem estreitas – eles adaptaram para os quadrinhos muitos filmes (Aliens, Guerra nas estrelas) e produziram para as telas as adaptações de seus próprios quadrinhos.

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Brasileiros na Marvel e DC A debandada de artistas para as novas editoras abriu caminho para uma série de desenhistas brasileiros. Entre eles, Rogério Cruz (o Roger Cruz, que desenhou o Hulk e os X-Men), Marcelo Campos (Liga da justiça), Luciano Queirós (o Luke Ross, do Homem Aranha 2099), Deodato Filho (Mike Deodato, do Hulk), Benedito José Nascimento (o Joe Bennett, de Amazing Spider-Man e Captain America) e Edilbenes Bezerra (o Ed Benes, de Flash).

Caos no mundo dos super-seres Diante da nova concorrência, as tradicionais editoras de quadrinhos tiveram que criar eventos para badalar os seus velhos super-heróis. A DC Comics, por exemplo, promoveu em 1993 o impensável: A morte do Super-Homem. Anunciada pela editora para o número 75 da revista Superman, ela aconteceu pelas mãos de um brutal monstro vindo do nada, o Apocalypse. Logo após o funeral do herói (na série Funeral para um amigo), quatro seres reivindicaram o direito de ocupar o seu lugar em mais uma série: O retorno do Super-Homem. Mas aí, eis que ele ressuscitou e foi atrás de sangue em Super-Homem versus Apocalypse – a revanche, série na qual o velho personagem voltou de cabelos compridos e a violência correu solta, como nunca antes em nenhum dos seus gibis. Outro astro da DC que passou maus bocados nos anos 90 foi Batman, na série A queda do morcego, de 1993, em que o vilão Bane – uma assustadora massa de músculos – quebra a espinha do herói e o deixa paralítico. Até ele se recuperar (sim, ele volta a andar), quem assume o uniforme de Batman é Azrael, ex-assassino, treinado por ele para combater o crime. Outra reviravolta mirabolante se deu na Marvel, em 1994, quando o Homem Aranha passou um bom tempo vivendo o que ficou conhecido como A saga dos clones. Tudo aconteceu porque o vilão Chacal conseguiu criar uma cópia do herói e mil confusões aconteceram, a ponto de o clone achar que era o verdadeiro Aranha e depois o Aranha verdadeiro passar seu uniforme para o clone combater o crime enquanto tentava levar uma vida normal. Durante dois anos, cabeças fundiram tentando entender o que acontecia na(s) vida(s) do(s) Homem(ns) Aranha(s) – e as vendas das revistas só melhoraram depois que Peter Parker, o original, voltou ao uniforme. Ainda em 1994, a DC apresentou a série Zero hora, uma saga espaço-temporal que promoveu uma faxina no enorme e confuso quadro de superheróis da editora.


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A era dos anti-heróis Rebelde, sarcástico, impulsivo e dado a ataques de selvageria com suas garras de adamantium (um metal indestrutível), Wolverine foi o mutante mais carismático dos quadrinhos nos anos 90. Ainda nos 80, ele se destacou entre os seus companheiros X-Men e ganhou sua revista própria – a partir daí, viveria aventuras mirabolantes em que o controle de seu instinto animal seria posto à prova das mais diferentes maneiras. Na fronteira entre o herói e o anti-herói, ele não estaria sozinho nos novos e violentos tempos dos quadrinhos de super-seres. Tome-se, por exemplo, o maior sucesso da história do quadrinho independente: o Spawn que Todd McFarlane criou para a Image Comics. O cara era um agente do FBI, assassinado por seu chefe corrupto, que fez um pacto com o diabo para voltar à Terra, a fim de rever a mulher. Mas aí ela já estava casada com o seu melhor amigo e ele tinha que escapar de sua sina de ser um soldado do inferno. Também tiveram grande popularidade nos 90 anti-heróis como o Hellboy, Justiceiro e Lobo (herói da DC, fanfarrão, palhaço e ultraviolento, espécie de paródia muito exagerada do Wolverine), John Constantine (de Hellblazer) e o Marv de Sin City. No departamento do quadrinho underground, quem representou com galhardia a turma foi a Tank Girl, uma garota que pilotava tanques numa Austrália pós-apocalipse e curtia sexo, bebida, violência, humor doentio e zoofilia – seu namorado era um canguru mutante. Com muito espírito punk, a série foi criada pelo roteirista Alan Martin e por Jamie Hewlett – artista gráfico inglês que, já nos anos 2000, elaboraria todo o visual da banda de desenho animado Gorillaz – e virou filme em 1995, com trilha sonora selecionada pela roqueira Courtney Love. O velho mundo dos super-heróis reagiu a essa onda, é claro! Em 1996, chegou às lojas, pela DC Comics, a série de quadrinhos O reino do amanhã. A situação era a seguinte: vinte anos no futuro, Super-Homem e Mulher Maravilha se vêem num mundo povoado por novos heróis, sem moral, que não hesitam em matar seus oponentes. Já cinqüentões, eles acabam tendo que voltar à ativa para dar um jeito naquela balbúrbia – tentam recrutar outros heróis da velha guarda (como um reticente Batman) e assim recuperar alguma dignidade para os super-seres. A série foi desenhada por Alex Ross, que dois anos antes fizera Marvels, um dos mais belos quadrinhos dos anos 90, retratando como teria sido, segundo a visão do homem comum, o aparecimento dos super-heróis nos anos 60. Com seus traços ultra-realistas, Ross inauguraria um estilo amplamente copiado pelos quadrinhos no fim dos 90 e início do século atual.

O quadrinho independente americano Floresceu na editora Fantagraphic Books, que publicou obras de uma duplinha que daria o que falar. Peter Bagge apareceu por lá em 1990 com Hate, uma revista que fazia graça com a chamada Geração X e os cultores da filosofia grunge. Já Daniel Clowes veio em 1993 com Ghost World, quadrinho cheio de irônicas reflexões sobre as vidas vazias dos jovens americanos. Sexo, drogas, rock’n’roll, humor negro... o que poderia ser mais anos 90?

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A explosão dos mangás Dá para acreditar que no Japão, por volta de 1994, as revistas de histórias em quadrinhos – de produção nacional! – vendiam mais que os jornais de maior circulação ou mesmo qualquer outro tipo de revista? Foi o auge do fenômeno do mangá: quadrinhos feitos em séries para todas as idades, sexos e gostos (do mais inocente ou poético ao mais violento e erótico). Personagens com olhos exageradamente grandes, tramas com muitos lances de ação espetacular, cenas desenhadas segundo um olhar bastante cinematogáfico, em diferentes planos... essa combinação fez com que, aos poucos, os japoneses incorporassem o mangá ao seu dia-a-dia e comprassem, em 1994, nada menos que 6,53 milhões de exemplares de uma única edição da revista Shonen Jump. O Ocidente estava atento – Frank Miller foi um dos artistas que mais se deixaram influenciar pelos quadrinhos japoneses – e logo alguns mangás estavam sendo editados do outro lado do mundo. O Brasil, que começou timidamente com títulos como Lobo solitário e Akira, se renderia de vez à novidade após o estouro na TV, em 1995, dos animes (desenhos animados japoneses) Cavaleiros do zodíaco e Dragon Ball.

O inferno corporativo Todo mundo que teve um chefe imbecil nos 90 ficou com um sorriso no canto da boca e se sentiu vingado ao ler Dilbert, a tirinha mais célebre da década. Criada pelo americano Scott Adams para passar o tempo nas reuniões chatas do banco em que trabalhava, ela acabou resumindo tudo o que havia de errado na cultura corporativa americana. Dilbert era o empregado com uma gravata erétil e uma grande curiosidade, tendo que lidar com seus colegas neuróticos e um chefe que era um acúmulo de inveja, egoísmo e burrice. A empresa é um purgatório, parecia sugerir a tirinha. Scott Addams foi adiante na missão de denunciar as falácias gerenciais também em livros de administração. Em O princípio Dilbert, por exemplo, ele diz que as empresas tendiam sempre a promover a gerentes os seus empregados mais incompetentes – tudo para minimizar o estrago que eles pudessem vir a causar. Addams recebeu os principais prêmios dados a tiras de quadrinhos e seus trabalhos foram publicados em 65 países.

EZoémais tirinhas dos 90: & Zezé (Rick Kirkman e Jerry Scott) ::: Robô (Jim Meddick) ::: Doonesbury (Garry Trudeau) ::: Non Sequitur (Wiley Miller) ::: Na prancha bamba (Chip Dunham).

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ENQUANTO ISSO, NO BRASIL... Os quadrinhos infantis de Maurício de Souza (Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali) entravam em mais uma década de prosperidade. E os independentes, bem adultos, seguiam firmes na revista Chiclete com banana, que durou de 1985 a 1995, trazendo os talentos de Angeli (o editor, das tirinhas do Bob cuspe, Rê Bordosa, Wood & Stock, Meiaoito e Os skrotinhos), Glauco (do Geraldão, Dona Marta, Casal neuras e Doy George) e Laerte (de O condomínio, Fagundes o Puxassaco, Overman e Piratas do Tietê, que virou revista em 1990). O espírito iconoclástico do trio também encontrou guarida na série Los 3 amigos, em que os cartunistas viram personagens para viver um amalucado faroeste repleto de sexo, drogas e rock’n’roll. Em 1993, num lance de puro surrealismo, o trio, junto com o ilustrador Luís Gê e o cartunista Fernando Gonsalez (da tirinha Níquel náusea, outra assídua do Chiclete com banana) passou a cuidar do TV Colosso, programa infantil que a Globo pôs no ar no lugar da Xuxa. Já Angeli ainda se destacaria nos 90 como chargista político: sua produção foi reunida nos livros FHC – Biografia não-autorizada (1995) e O presidente que sabia javanês (2000, de Carlos Heitor Cony). Outro front de renovação para os quadrinhos brasileiros foi a revista Animal que, apesar da curta vida (de 1988 a 1991), apresentou aos brasileiros ícones da independência estrangeira (Tank Girl, Love & Rockets) e novos talentos, como o cartunista gaúcho Adão Iturrusgarai (das célebres tirinhas Aline, a garota moderna com dois namorados; e Rocky & Hudson, sobre dois caubóis gays) e André Toral.

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Adão participou ainda de duas iniciativas de quadrinistas gaúchos, as revistas Dum Dum e Big Big Bang. Também do Rio Grande do Sul, veio Allan Sieber, dos personagens Garoto Terminal e Bola Oito, cujas histórias foram publicadas entre 1996 e 1997 na tirinha Bifaland, do caderno Zap do jornal O Estado de S. Paulo. Junto com Caco Galhardo (das tirinhas Os pescoçudos, crítica à vida neurótica nas grandes cidades), Adão e Allan ajudaram a dar prosseguimento à produção brasileira de quadrinhos. Um grande impulso à arte seqüencial no país foi dado em 1991, com a realização da primeira Bienal Internacional de Quadrinhos, no Rio de Janeiro (a segunda aconteceria em 1993 também no Rio, e a terceira em 1997, em Belo Horizonte). Esse evento inaugural contou com a presença de artistas internacionais (como Moebius e Bilal), debates e inesquecíveis exposições. Quem despontou, premiado, nessa bienal foi Lourenço Mutarelli, com Transubstanciação, sua primeira graphic novel. Escatologia, depressão, vermes, demônios, traições, membros amputados, estupros e suicídios pulavam das páginas desse perturbador trabalho, que revelou um dos grandes nomes do quadrinho underground brasileiro. Outros nomes ainda sairiam dos subterrâneos ao longo dos 90: Marcello Gaú (de Granadilha e outras histórias passadas na periferia carioca), e a dupla de Fábios Zimbres e Cobiaco, que também se destacariam no mercado das ilustrações junto com nomes como Macarrão e Jaca. Os trabalhos fortes, sujos e coloridos dessa nova geração abriram novos caminhos estéticos – e também uma série de oportunidades artísticas, que seriam aproveitadas por grafiteiros como Speto e os gêmeos Gustavo e Otávio Pandolfo, nomes que saíram das ruas para as galerias de arte. Em termos de mercado, os anos 90 também trouxeram boas novidades para o quadrinho brasileiro. Importadora e distribuidora de gibis, a Devir se consolidou como editora, publicando desde livros de Laerte, Angeli, Adão Iturrusgarai e Lourenço Mutarelli até as mais consagradas graphic novels da DC e Marvel Comics. Em 1994, chegou às bancas a revista Herói, que aproveitou a onda dos animes para falar de quadrinhos em geral – e mais tarde, graças ao sucesso, se desdobrou na editora Conrad, que editou muitas revistas e livros de comics. Ao mesmo tempo, as lojas de quadrinhos se multiplicaram no país e as bancas de jornal continuaram a receber os mais variados títulos – dos mais adultos até os mais pueris, como a revista do Senninha, lançada em 1994, pouco antes da morte do piloto de Fórmula 1 que a inspirou. Na realidade repleta de videogames e desenhos animados dos 90, as crianças continuaram a ler histórias em quadrinhos. E os quadrinhos definitivamente deixaram de ser somente coisa de criança.

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Tecnologia

Quando o assunto é tecnologia, o que acontece entre janeiro de 1990 e dezembro de 1999 parece não caber em apenas dez anos de memória. Foi algo próximo de um turbilhão, no qual milhares de máquinas mirabolantes surgiram, hábitos foram radicalmente modificados e quem não se adaptou ficou em meio ao pó da estrada. O primeiro CD, o primeiro computador, o primeiro e-mail, a primeira ligação num celular... grandes chances há de que essas experiências tenham sido vividas pelo leitor nos anos 90. Para alguns, o monstro tecnológico passou a ter outra cara. De repente, ele não era tão feio assim, e até dizia: “não tenha medo, não viemos para assustar, mas para facilitar a sua vida”. Ele anunciou para a humanidade a revolução digital. Nunca as pessoas tiveram que se apegar e se descartar de objetos em tão curto espaço de tempo – máquinas de escrever, aparelhos de fax, fitas cassete e VHS, discos de vinil, mimeógrafos, papel de carta, tudo isso teve a sua obsolescência decretada nos 90. Em dez anos, muito do que se conhecia foi para o museu, bastante do que era ficção científica virou realidade e outros desafios tecnológicos até então inimagináveis apareceram. O Admirável Mundo Novo bateu à porta e entrou.

A revolução musical do CD Cuide bem do seu player

Entre outras providências, proteja-o da luz solar e de vibrações. O player deve ficar em local plano e livre de vibrações ::: Proteja o aparelho contra a luz solar, umidade, poeira e chuva ::: Mantenha-o longe de fontes de calor e de campos magnéticos ::: Nunca desligue o aparelho com a gaveta aberta ::: Para limpeza, use pano macio, ligeiramente umedecido; jamais utilize produtos que contenham álcool, benzina, amoníaco ou abrasivo ::: Desligue o player da tomada durante tempestades com trovoadas ou quando for se ausentar por longos períodos ::: De preferência, utilize os comandos para colocar a gaveta em funcionamento caso ela também possa ser acionada manualmente.

Cuidados com o CD Importante: produtos usados para limpar discos de vinil não servem para os CDs ::: Não toque no CD com os dedos; segure-o sempre com a mão aberta ::: Retire e coloque o CD com delicadeza na gaveta ou embalagem, para não alterar as dimensões do furo central; após o uso, guarde-o na embalagem ::: Não escreva ou coloque etiquetas sobre o CD ::: Proteja seus discos contra a exposição à luz solar; ou de condições de temperatura elevada por longos períodos ::: Para limpar o CD, use pano macio ligeiramente umedecido, fazendo movimentos em linha reta, do centro para as bordas ::: Nunca utilize detergentes, solventes ou produtos indicados para a limpeza de discos de vinil. ARTIGO – CUIDANDO DIREITO, NÃO DÁ DEFEITO REVISTA DO CD NÚMERO 4, JULHO DE 1991

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Acostumados, ao longo de quase quatro décadas, a consumir música em LPs de vinil, os brasileiros se viram, no começo dos anos 90, diante de um novo objeto de desejo: o compact disc, também conhecido como CD. De uma hora para outra, lá estavam as pessoas diante de um disquinho de 12 centímetros de diâmetro, que podia conter de 74 a 80 minutos de áudio (bem mais do que um LP) e que, ainda por cima, vinha em uma bela caixinha de acrílico, com encarte de papel, formando um conjunto cerca de quatro vezes menor que o do long-play. Poucos foram os que resistiram a se mirar na bela face espelhada daquela novidade tecnológica – recoberta por plástico de policarbonato, lá dentro estava uma fina camada de alumínio, que, ao ser lida por um feixe de raio laser, revelava uma enorme seqüência de números 0 e 1. Decodificada por um diodo no interior do aparelho, esta seqüência se transmutava em som puro – sem ruídos e com altíssima fidelidade, garantida pela tal qualidade digital de gravação. Nascido em 1979, quando as multinacionais Philips e Sony juntaram seus engenheiros para desenvolver um novo formato de áudio, completamente digital, o compact disc chegou ao mercado em 1983. Os primeiros CDs de MPB e rock brasileiro apareceram ainda em meados dos anos 80 – mas só nos 90 eles se tornariam um fenômeno de massa. Em 1991, acreditava-se que o velho LP teria uma sobrevida de cerca de 10 anos – seis anos depois, ele nem seria mais produzido no país. Em 1993, o CD se tornaria o principal formato fonográfico no Brasil: foram vendidas 21 milhões de unidades, ao lado de pouco mais de 16 milhões de LPs e quase 7 milhões de cassetes. A estabilidade econômica pósPlano Real, os vários relançamentos de discos de sucesso e o fato de o preço do CD ter caído bastante colaboraram para um festival de consumo de música. Em 1997, o país foi alçado à posição de sexto maior mercado fonográfico do mundo, com quase 108 milhões de unidades vendidas – cerca de 107 milhões de CDs, nenhum LP (que deixara de ser fabricado no ano anterior) e uma quantidade residual de fitas cassete. Depois que o CD passou a fazer parte no dia-a-dia do brasileiro, as inovações não cessaram. O país deu adeus aos trambolhos com toca-discos, receiver, amplificador e caixas de som robustas e adotou, de vez, os três-em-um miniaturizados. No lugar do walkman, da fita cassete, entrou o discman, que permitiu as pessoas andarem por aí ouvindo seus CDs. Com algumas adaptações, os aparelhos portáteis podiam ser ligados ao som dos carros, mas também ficaram populares, na época, os próprios para automóveis, que acabaram sepultando os velhos toca-fitas. Ainda nos anos 90, foi se disseminando também uma tecnologia que aumentou em muito a difusão do CD mas, por outro lado, também sinalizou o começo do fim do formato: a dos discos graváveis (CD-R) e regraváveis (CD-RW). O mesmo feixe de laser que lia os discos passou a ser usado também para imprimir as informações em uma trilha sensível ao calor. A indústria fonográfica logo deu o alerta – surgia ali um instrumento de pirataria de discos. Em poucos anos, o CD estava por todo canto, banalizado. Paralelamente ao fim da luade-mel com os disquinhos, surgiria um movimento de revalorização dos discos de vinil, levado adiante por colecionadores e DJs (apreciadores do som quente das bolachonas, que as tecnologias digitais aparentemente não conseguiram reproduzir). Em dez anos, o mundo do disco deu uma volta completa – e a saga do CD foi apenas um capítulo no desenvolvimento da música digital.

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Curiosidades: Caetano Veloso foi o primeiro artista da MPB a ter toda a sua discografia toda lançada em CD em 1991 ::: Em 1997, o cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro lançou em seu primeiro CD, Por onde andará Stephen Fry?, a música “Kid Vinil”, provocação ao roqueiro paulistano da banda Magazine e velho cultor das bolachonas: “Kid Vinil quando é que tu vai gravar CD?” ::: Enquanto o compact disc consolidava o seu reinado, três outros formatos de música digital buscaram, sem tanto êxito, o seu lugar ao sol: o Digital Audio Tape (DAT, que só vingou mesmo nos estúdios de gravação), o Mini-Disc (que tinha a mesma qualidade sonora do CD e a vantagem de ser regravável quando o CD-R ainda não era acessível ao grande público) e o Digital Compact Cassete (DCC, que tentou ser um sucessor das fitas cassete, mas só foi produzido entre 1992 e 1996).

E surge o MP3... Quem achava que a revolução digital da música dos anos 90 estaria circunscrita aos limites do CD, enganou-se. Redondamente. Em 1995 surgia o MP3, um sistema de compressão de arquivos musicais que iria torná-los pequenos o suficiente (e sem grande perda de qualidade sonora) para serem armazenados no hard disk ainda relativamente pequeno dos computadores pessoais de então. A idéia era de que as músicas pudessem ser ouvidas no próprio micro, por intermédio do programa Winplay3, também lançado em 95. Só que o MP3 acabou servindo para bem mais do que isso. Assim como os arquivos do sistema antecessor, o MP2, ele era perfeito para fazer a música circular pela internet. Inicialmente, a troca de músicas era feita através de serviços de comunicação eletrônica como o IRC, o Hotline e o USENET. Em 1997, houve o muito comentado caso da música “Given to Fly”, do Pearl Jam, que só sairia no ano seguinte, no disco Yield, mas vazou na rede e começou a ser tocada nas rádios. Em 1998 foi lançado o primeiro bem-sucedido tocador portátil de MP3, o Rio PMP3000 – o aparelho prenunciava a morte do CD player portátil, bem como toda uma nova relação do consumidor com a música digital. Mas o pior (ou melhor, dependendo do ponto de vista) ainda estava por vir: em 1999, um estudante universitário americano de 18 anos chamado Shawn Fanning passou dias e dias no escritório do seu tio, com o amigo Sean Parker, desenvolvendo um programa de troca de arquivos musicais. De lá, em junho, ele sairia com o Napster, o primeiro serviço descentralizado de busca por MP3s, que ajudava os usuários a localizar os arquivos uns nos computadores dos outros. Simples de baixar e de operar, o Napster promoveu abalos sísmicos desde que foi lançado, em setembro de 1999. Com ele, qualquer pessoa com uma boa conexão de internet tinha acesso a um acervo musical de tamanho incalculável – praticamente toda a música gravada – e assim, em poucos meses, o serviço chegou a 20 milhões de usuários. As gravadoras não gostaram nada, alguns artistas muito menos – o Metallica chegou a processá-lo. O Napster foi fechado nos anos 2000, mas abriria o caminho para outros programas como o AudioGalaxy (o primeiro para o qual os órfãos do Napster correram), KaZaA, eMule e SoulSeek... Não deu para segurar.


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NOVIDADES NA TELINHA A velha televisão também passou por muitas transformações ao longo dos anos 90. No Brasil, as mais perceptíveis foram a chegada da TV por assinatura e a explosão da compra de aparelhos a partir do Plano Real, que acabou criando todo um novo (e grande) público telespectador dos canais abertos. Para os consumidores mais abastados, a grande onda a partir de 1994 foi o home theater, complexo contendo uma TV de tela com mais de 27 polegadas (cada vez mais se beneficiando da tecnologia do plasma, que permitiu a confecção de telas grandes e planas), videocassete (ou videolaser) e caixas acústicas – tudo para recriar em casa, com a maior aproximação possível, a experiência do cinema. Era algo que custava, então, cerca de 10 mil dólares, mas que, aos poucos, barateou bastante ao longo da década. Como era de se esperar, a revolução digital também chegou ao mundo da TV. Enquanto não chegava o sistema de transmissões com alta definição de imagem (a HDTV, que exigiria novos aparelhos), a coqueluche foi o DVD. Lançado em 1997 no mercado americano, ele trazia a tecnologia digital de imagens do laserdisc, só que com um disco menor – 12 centímetros, o mesmo de um CD, contra 30 centímetros do rival, que era maior que um LP. Além disso, no DVD, cabiam filmes inteiros de um só lado (os discos laser tinham que ser virados no meio da exibição) e a qualidade de som era superior à do concorrente (ele vinha com o Dolby Digital, inaugurado em 1996 nos cinemas). Foi um duplo assassinato anunciado: aos poucos, o DVD acabaria tanto com o laserdisc (que no Brasil teve poucos adeptos por conta do elevado preço do aparelho e dos discos) quanto com o popular VHS – além do som e a imagem serem melhores (e o preço, cada vez mais acessível), ninguém precisava rebobinar um disco antes de devolvê-lo à locadora. Lançado no Brasil em 1998 (junto com os primeiros discos de fabricação nacional), o aparelho de DVD não demorou muito a virar sucesso – e os discos, com recursos de cenas em multiângulo (nos shows), mais cenas deletadas e making offs (nos filmes), acabaram aos poucos conquistando um público até maior que o do videocassete. Em 1999, ainda foram comercializados no Brasil cerca de 3 milhões de títulos em VHS contra 350 mil em DVD. Em 2002, o disco digital passaria a fita magnética – mais alguns anos e o país pararia de fabricar aparelhos de videocassete. Bem antes disso, em 2000, os Estados Unidos fariam seus últimos lançamentos em laserdisc. Um fenômeno da era VHS, as câmeras de vídeo (camcorders) também caminhariam para a extinção depois da chegada, no fim dos anos 90, do MiniDV – um aparelho bem mais leve, que gravava com qualidade superior (digital) de som e imagem numa fita bem menor que a VHS. Muito se comentou, ainda nos anos 80, que com o advento das camcorders, as famílias deixaram de fotografar suas férias e festas, optando por filmá-las em vídeo. Mas a fotografia amadora começaria a dar sua volta por cima ainda nos 90, com o advento das câmeras fotográficas digitais. Em 1999, depois de muitos modelos que mais se assemelhavam a brinquedos, produzindo fotos pequenas, foi lançada a Nikon D1, a primeira com boa resolução de imagem (2.74 megapixel), uma estrutura compatível com as lentes das máquinas comuns e um preço abaixo de 6 mil dólares. Logo, nos anos 2000, surgiriam câmeras mais baratas, na medida para o consumidor padrão fotografar como nunca, sem se preocupar com filmes e revelação.


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Os computadores tomam o mundo

Há quem ache que foi o fim da Guerra Fria que forçou os fabricantes a procurarem cada vez mais usos não-militares para suas máquinas. Mas seja lá qual for a razão, o fato é que os anos 90 viram um vertiginoso processo de desenvolvimento dos computadores pessoais, também conhecidos como PCs. Surgido nos anos 70 (o Apple II foi a primeira máquina do gênero a invadir os lares americanos) e aperfeiçoado nos 80 (com a criação do PC, em 1981, pela IBM, que em alguns anos deixaria de ser uma marca para virar sinônimo de computador pessoal), ele viu a sua presença no mundo ser multiplicada a taxas imprevisíveis entre 1990 e 1999, graças a uma prodigiosa combinação de estratégias comerciais e avanços tecnológicos. Daí, vieram lances de uma história que entraria para os livros como as Grandes Navegações e a Revolução Industrial, episódios capitais para a humanidade. O aumento da capacidade e da velocidade do processamento de dados, o desenvolvimento de recursos gráficos e sonoros, a miniaturização dos seus componentes, a incrível expansão da memória e, principalmente, o seu barateamento fizeram do computador pessoal, no fim dos 90, um eletrodoméstico indispensável – e mais do que isso, uma referência cultural. Num espaço de 10 anos, aquela máquina que servia, quando muito, para produzir textos e tabelas, além de jogar videogames, transformou-se num ponto para onde telefone, TV, rádio, bibliotecas e todos os sistemas de transmissão de informação iriam acabar convergindo. A quantidade de tarefas que se podia realizar no fim de 1999 com um PC conectado na internet era algo que beirava a ficção científica de poucos anos antes. Durante os anos 80, houve computadores pessoais que se tornaram marcos, como o Commodore 64, o Amiga 500 (também da Commodore, que inovou em 1985 com uma enorme paleta de cores), o Macintosh (da Apple) e o Atari 800 XL. Mas, enquanto isso, o PC foi ganhando lugar de destaque não tanto por conta da IBM, mas pelas evoluções conquistadas por seus parceiros, a Microsoft (firma que cuidava dos programas e do sistema operacional, o Windows) e a Intel, que produzia os microprocessadores – daí ter surgido o termo Wintel para designar a arquitetura seguida pelos PCs, que nos 90 passaram a ser produzidos também por uma série de outros fabricantes, como a Compaq, Dell e Hewlett-Packard.


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O WINDOWS Lançada em 1985, a primeira versão do sistema operacional Windows apontava para a simplificação do uso dos computadores com uma organização dos programas de forma gráfica – eles apareciam em pequenas janelas na tela (uma idéia que a Apple criou para protótipos do Macintosh e a Microsoft aproveitou). As duas primeiras versões (a 2.0 saiu em 1987) fizeram lá algum sucesso, mas a importância delas foi mesmo ajudar a empresa a preparar a sua grande invasão, que aconteceria em 1990. No dia 22 de maio, com uma campanha publicitária de 10 milhões de dólares, a Microsoft fez o lançamento do Windows 3.0, o sistema operacional para PC que permitia o uso de uma quantidade relativamente grande de memória e gerenciava os novos recursos gráficos disponíveis em placas de vídeo – em suma, punha o PC à frente dos concorrentes Macintosh e Amiga. Em um ano, essa versão vendeu mais de três milhões de cópias, solidificando o domínio da Microsoft no mercado de programas para computador – ela terminaria 1990 como a primeira empresa de software para computadores pessoais a faturar mais de um bilhão de dólares em um ano. Em janeiro de 1992, a Microsoft foi tão bem cotada na bolsa de valores, que o seu maior acionista (além de um fundador e programador), Bill Gates, tornou-se o homem mais rico dos Estados Unidos, aos 36 anos de idade, com uma fortuna de 6,4 bilhões de dólares. A segunda grande investida de Gates aconteceria em 24 de agosto de 1995, com o lançamento do Windows 95, sistema operacional com novo formato gráfico de apresentação (praticamente inalterado nos anos seguintes), adaptações para as evoluções tecnológicas do PC e programa de acesso à internet, o Microsoft Network (mais tarde substituído pelo Internet Explorer). A campanha publicitária custou cerca de 250 milhões de dólares – 12 milhões

só para comprar os direitos da canção “Start M Up”, dos Rolling Stones, usada em um comercial. Mas o investimento valeu: no primeiro dia, 300 mil cópias do programa foram vendidas – as filas nas lojas dobravam as esquinas, com pessoas que, muitas vezes, nem tinham computadores. Mais três dias, o Windows 95 bateria a marca do milhão de unidades vendidas. Em outubro, Bill Gates seria anunciado pela revista Fortune como o homem mais rico do mundo, com 15 bilhões de dólares. Mas a carreira de Bill Gates não foi livre de contratempos. A Microsoft foi processada pela Apple por questões de direitos sobre alguns softwares adotados pelo Windows – a querela acabaria em agosto de 1993 com a vitória da empresa de Gates. Em maio de 1998, poucos meses antes do lançamento do Windows 98, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos convocaria o empresário para depor numa ação em que a Microsoft estava sendo acusada de monopólio. Segundo a acusação, o Windows teria seu funcionamento prejudicado caso o usuário optasse por algum outro programa de navegação na internet diferente do Internet Explorer, que vinha junto com o sistema operacional. O empresário deu um depoimento considerado evasivo e inconclusivo, mas a coisa ficou por aí mesmo. Mas nem só de Gates e Windows foi feita a lista de nomes célebres do mundo computadorizado nos anos 90. O que seria deles sem o Pentium, o processador que a Intel lançou em 1995 para deixar na poeira o que ela mesma havia conseguido com os 386 e 486? Com cerca de 5,5 milhões de transistores miniaturizados em seu interior (contra apenas 855 mil de um 386 lançado em 1990), o novo processador foi uma das grandes estrelas dos anos 90 – ajudado muito por um comercial em que Homer, o pai bobão do desenho Os Simpsons instala um Pentium II em sua cabeça e vira professor. Por sua vez, a Apple, que passou a década com fracos resultados (embora sua linha de micros Macintosh tivesse muitos admiradores, principalmente entre os artistas gráficos), deu a volta por cima em 1998 com o seu iMac, computador compacto, com design revolucionário e um precinho camarada de 1.299 dólares.


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A queda de preços combinada com melhoria do desempenho e redução nos tamanhos também atingiu uma série de periféricos de computador, como as impressoras (que passaram dos modelos matriciais, com agulhas e fita de impressão, para as laser e depois para as de jato de tinta), os scanners e os dispositivos de memória. Já em declínio no começo dos 90, os disquetes de 5 1/4 polegadas deram lugar aos de 3 1/2, estes ao zip drive, estes ao CD-R e estes aos pen drives. Os laptops, os computadores portáteis que no fim dos anos 80 eram um símbolo de status dos empresários, se popularizaram a partir do PowerBook que a Apple lançou em outubro de 1991. Ao longo dos 90, ganhariam telas coloridas, baterias mais duradouras, dispositivos de CD-ROM, processadores Pentium, melhores hard disks, modems (para conexão com a internet), portas USB e um design ainda mais compacto. Essas inovações estariam no ThinkPad 570 que a IBM lançou em 1999, mas a grande sensação entre os laptops naquele mesmo ano foi o iBook, da Apple, que ainda veio com um design arrojado e o preço de 1.599 dólares.

Inovações dos 90, ano a ano: 1990 Em fevereiro, a firma Adobe apresenta o Photoshop, software revolucionário de edição de imagens ::: Em maio, a Microsoft leva para o Windows o Power Point, programa que substitui os slides fotográficos nas exposições de trabalhos acadêmicos ::: 1991 Em maio, a Creative Labs lança o Sound Blaster Pro Deluxe, primeira placa de som estéreo para o PC. ::: 1992 Em Janeiro, a Symantec vem com o programa Norton AntiVirus 2.0. O preço é de 129 dólares ::: Em maio, é lançado o Corel Draw, programa para fazer desenhos no PC. Custa 595 dólares ::: Em novembro, a Apple anuncia para o Windows o QuickTime, software que permite a execução de arquivos sonoros e vídeos. ::: 1994 A Iomega lança seu Zip drive e seus Zip disks, que permitem armazenamento de arquivos num total de 25 MB e de 100 MB ::: Em maio, a versão integral da Enciclopédia Britânica (32 volumes, com 44 milhões de palavras e muitas ilustrações) passa a ser comercializada em CD-ROM. ::: 1995 Em janeiro, a Apple apresenta o QuickTime VR, que leva a realidade virtual ao Macintosh e ao PC ::: Nesse ano, foi lançada a primeira versão do RealPlayer, programa que permite tocar arquivos de áudio à medida em que são baixados, através de uma tecnologia conhecida como streaming. Foi o programa usado inicialmente para se ouvir rádios transmitidas pela internet. ::: 1997 A Creative Labs chega ao mercado com o drive Creative PC-DVD, o primeiro a permitir a execução de DVDs (além de CDs e CD-ROMs). O preço é de 500 dólares. ::: 1998 Em novembro, na feira Comdex, a Sony apresenta o seu bastão de armazenamento de dados. Em um dispositivo de uma polegada e meia, que custa 40 dólares, cabem nada menos que 8 MB. ::: 1999 Em abril, a Apple lança para o Macintosh o programa Final Cut Pro, que permite a edição profissional de vídeos e filmes. Ele cai como uma luva para o cinema independente do começo dos anos 2000 ::: Em junho, a IBM lança o Deskstar, o maior hard drive já feito para um computador pessoal. Armazena até 37.5 GB.

ENQUANTO ISSO, NO BRASIL... Os anos 90 começaram ainda sob a vigência da Política Nacional de Informática, que estabelecia uma reserva de mercado para as empresas de capital nacional. Aprovada pelo Congresso em 1984, com um prazo de vigência de oito anos, ela ajudou os fabricantes brasileiros de computadores, mas também foi alvo de muitas críticas – a mais séria era de que obrigava os consumidores brasileiros (exceto os que recorriam ao contrabando) a adquirir equipamentos obsoletos por preços exorbitantes. Em 1991, uma nova lei, alterando o conceito de empresa nacional, foi aprovada pelo Congresso. Mas o fim da reserva de mercado só aconteceu em outubro de 1992.

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