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UNIVERSIDADE LUTERANA DO BRASIL – ULBRA Canoas /RS UNIDADE ACADEMICA DE GRADUAÇÃO CURSO DE LICENCIATURA EM ARTES VISUAIS Daniela Karg

O Olhar Além da Contemplação

Canoas, 13 de junho de 2011.


Daniela Karg

O Olhar Além da Contemplação

Trabalho de Curso apresentado como pré-requisito parcial para obtenção de titulo acadêmico de Licenciada(o) em Artes Visuais, pelo Curso de Licenciatura em Artes Visuais da Universidade Luterana do Brasil, sob orientação dos professores Prof. Dr. Celso Vitelli Prof.ª Me. Ana Lúcia Beck

Canoas, 27 de junho de 2011. 1


Agradeço ao Magnus, por sua presença e força em todos os momentos dessa caminhada, a minha família que sempre me apoiou e a meus professores, por todo aprendizado, dedicação e amizade, serei sempre grata. 2


ATA DE AVALIAÇÃO

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RESUMO

Meu tema de pesquisa em Artes Visuais é Imagem e para compor minha pesquisa, busquei a autora Analice Dutra Pillar, que foi fundamental para compreender a importância da leitura de imagens, que inicia-se na infância, em nosso lugar social. Também utilizei o autor John Berger, importante para estabelecer uma visão mais ampla sobre as relações existentes entre a imagem e suas reproduções na contemporaneidade. E a autora Maria Lúcia Betezat Duarte contribuiu para fundamentar a necessidade de explorarmos criticamente os conteúdos da Arte na escola. Estes autores auxiliaram no estudo do conceito de que a leitura do mundo precede a leitura das palavras, estamos inseridos em um mundo visual no qual as imagens fazem parte de sua leitura e muitas vezes equivalem à escrita e fazem parte de nossa formação social. Também fundamentam que o estudo da Arte, através do uso e leitura de imagens, promove o enriquecimento pessoal e nossa singularidade é a peça chave a ser explorada na Arte educação. O projeto de ensino elaborado a partir de minha pesquisa tem como tema O Olhar além da contemplação. Para fundamentar meu projeto, busquei autoras como a já citada Analice Dutra Pillar, Aurora Ferreira e Tânia Callegaro. A justificativa deste projeto encontra-se fundamentada no princípio de que a imagem é um importante campo de estudo das Artes, que merece ser investigado de forma crítica e prazerosa na escola. Conhecer a história por trás de uma imagem e ir além da mera contemplação com uma conversa significativa, pode ser o caminho para as muitas possibilidades de exercício do olhar. Como objetivo geral do projeto de ensino, proponho ampliar o olhar através da imagem, buscando uma postura crítica e autônoma. Conduzir os alunos a uma reflexão dos sentimentos em relação às imagens, promovendo uma discussão sobre os motivos que os levam a gostar ou não de determinadas práticas, técnicas, imagens ou movimentos artísticos. Pensar que relações existem entre a História da Arte com as imagens contemporâneas. A prática de ensino foi realizada no segundo semestre de 2010, na Escola Estadual de Ensino Médio Margot Terezinha N. Giacomazzi, em Canoas, com a turma 301 do Ensino Médio. As aulas foram baseadas nas práticas de leitura de imagens da Arte e da Mídia, comparações, relações e identificações entre as imagens foram algumas práticas realizadas com os alunos, que criaram produtos e símbolos a partir de nossas discussões. Através das aulas realizadas com o Ensino Médio, pude reavaliar o interesse dos alunos sobre Arte e meu desenvolvimento como arte educadora a partir da prática. Para finalizar as questões discutidas na conclusão do TC, abordo pontos de cunho avaliativo, na análise de minhas experiências em sala de aula. Palavras chave: Imagem. Leitura. Associações.

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SUMÁRIO

Introdução ................................................................................................................... 5 Capitulo I ..................................................................................................................... 9 1. Reconhecimento do espaço de ensino ................................................................. 10 1.1. Dados da escola observada ............................................................................. 10 1.2. Observações Silenciosas Ensino Médio ........................................................... 15 1.2.1. 1ª Observação Silenciosa ............................................................................. 15 1.2.2. 2ª Observação Silenciosa ............................................................................. 18 1.2.3. 3ª Observação Silenciosa ............................................................................. 20 1.2.4. 4ª Observação Silenciosa ............................................................................. 23 1.2.5. 5ª Observação Silenciosa ............................................................................. 25 1.2.6. 6ª Observação Silenciosa ............................................................................. 26 1.3. Análise das Observações Silenciosas .............................................................. 27 1.4. Análise do Questionário Respondido pelo Professor ........................................ 29 1.5. Análise dos Questionários Respondidos pelos Alunos ..................................... 31 Capítulo II .................................................................................................................. 33 2. O OLhar Além da Contemplação .......................................................................... 34 2.1. Leitura do Mundo através de Imagens .............................................................. 34 2.2. Alinhavo de Histórias Visuais ............................................................................ 45 Capitulo III ................................................................................................................. 60 3. Projeto e pratica de ensino em artes visuais ......................................................... 61 3.1. Projeto Educativo de Ensino ............................................................................. 61 3.2. Dados gerais do projeto de ensino ................................................................... 61 3.3. Pratica de Ensino .............................................................................................. 64 3.3.1. Primeira Aula ................................................................................................ 64 3.3.2. Segunda Aula ............................................................................................... 70 3.3.3. Terceira Aula ................................................................................................ 76 3.3.4. Quarta Aula .................................................................................................. 84 3.3.5. Quinta Aula ................................................................................................... 89 3.3.6. Sexta Aula .................................................................................................... 94 3.3.7. Sétima Aula .................................................................................................. 98 3.3.8. Oitava Aula ................................................................................................. 101 3.3.9. Nona Aula ................................................................................................... 106 3.3.10. Décima Aula ............................................................................................... 112 3.3.11. Décima primeira Aula ................................................................................. 117 3.3.12. Décima segunda aula ................................................................................. 126 Conclusão ............................................................................................................... 139 Refêrencias ............................................................................................................. 146 Apêndice 1 .............................................................................................................. 149 Apêndice 2 .............................................................................................................. 150 Apêndice 3 .............................................................................................................. 152

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INTRODUÇÃO

Apresento em meu TC as etapas de meus estágios em Artes Visuais. Para planejar meu projeto de ensino, realizei observações silenciosas na Escola Estadual de Ensino Médio Margot Terezinha N. Giacomazzi, em Canoas. Essas observações foram feitas com duas turmas, uma sexta série do Ensino Fundamental e um terceiro ano do Ensino Médio. A partir das observações e das análises dos questionários das duas turmas, escolhi a turma 301 do Ensino Médio, para realizar minha prática de ensino. Alguns fatos ocorridos com a turma que discorro a seguir, foram pertinentes para a escolha do Tema de pesquisa nas Artes Visuais. Os alunos não sabiam e nunca realizaram uma leitura de imagem, para a maioria dos alunos, “releitura” significava copiar uma obra de arte. Tanto no Ensino Fundamental quanto no Ensino Médio, os professores trabalhavam imagens através do uso de seus livros didáticos, mostrando-os para os alunos, sem preocupação com uma maior definição visual. Os professores explicavam sem conhecimento prévio e sem exemplos visuais a elaboração de técnicas utilizadas durante o processo de criação de imagens. A escola não realizava projetos voltados para Artes Visuais com os alunos, suas produções eram baseadas apenas em técnicas, além do manuseio de folhas de ofício, cadernos de desenho e lápis de cores como principais materiais de uso comum em sala de aula. Também percebi que os alunos não se detinham em conversas, exercícios e questionamentos sobre as imagens da Arte. A maior parte dos alunos afirma ter participado de visitações à museus de Arte durante o Ensino Fundamental e Médio. As informações recebidas durante as saídas da escola, não eram aproveitadas no decorrer das aulas práticas de Artes de uma forma que abrangesse seus interesses como expectadores durante as visitações. Tendo em vista estes principais fatos observados, pretendi trabalhar com a temática da imagem em meu projeto de ensino, para propor uma reflexão que 6


fosse além do que os alunos já estavam acostumados, o hábito de observar imagens da Arte, através de visitações em museus e da manipulação do livro didático. Tais hábitos eram praticados sem uma investigação mais aprofundada sobre o que era observado e os saberes visuais dos alunos. A partir de uma pesquisa sobre imagens, realizei o projeto que trabalha o uso de imagens da História da Arte e da mídia como pontos de partida na discussão em sala de aula sobre os conceitos de leitura de imagens da Arte Contemporânea e do passado. Quis propor uma reflexão sobre os sentimentos dos alunos em relação às imagens. Levá-los a uma discussão sobre os motivos que os levam a gostar ou não de determinadas práticas, técnicas, imagens ou movimentos artísticos e pensar que relações existem entre a História da Arte com as imagens contemporâneas. Sobre as imagens da mídia, quis propor a reflexão sobre o que é verdadeiramente real, que conceitos estão dentro dessas imagens e se somos consumidores ou consumidos por elas. Para compor minha pesquisa, busquei a autora Analice Dutra Pillar, que foi fundamental para compreender a importância da leitura de imagens, que inicia-se na infância, em nosso lugar social. Também citei o autor John Berger, importante para estabelecer uma visão mais ampla sobre as relações existentes entre a imagem e suas reproduções na contemporaneidade. E a autora Maria Lúcia Betezat Duarte contribuiu para fundamentar a necessidade de explorarmos criticamente os conteúdos da Arte na escola. Esses conceitos relacionam-se com a importância do uso da Metodologia Triangular no ensino da Arte, ferramenta ainda desconhecida pela Escola que precisa ser explorada de modo a desmistificar o objeto da imagem, a sua utilização, o seu conceito, a sua elaboração e significado. A prática de ensino ocorreu durante doze semanas, com um período de aula a cada encontro, totalizando uma carga-horária dez horas. O tema do projeto (O Olhar além da contemplação) foi desenvolvido a partir da imagem e suas possibilidades de ressignificação, através da exploração de exercícios que transitam por temas como História da Arte, Design, Mídia, Arte

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Contemporânea, busca uma visão mais crítica sobre esse universo, coloca o aluno como agente transformador de sua visão. Como justificativa da escolha do tema, afirmo que a imagem é um importante campo de estudo das Artes, que merece ser investigado de forma crítica e prazerosa na escola. Conhecer a história por trás de uma imagem e ir além da mera contemplação sem uma conversa significativa, pode ser o caminho para as muitas possibilidades de exercício do olhar. O objetivo geral do projeto de ensino é ampliar o olhar através da imagem, buscando uma postura crítica e autônoma perante a vida. Os objetivos específicos do projeto de ensino estão voltados para a leitura e identificação formal de imagens, perceber como as imagens foram produzidas e aprofundar conhecimento sobre seus autores. Praticar e analisar outras formas de produção de imagens além daquelas que já estão acostumados a praticar e apropriar-se do uso de imagens da Mídia e da História da Arte, utilizando recursos de comum acesso. Fazer relações entre o contexto histórico estudado, com a sua própria realidade, tomando como base o seu cotidiano. Durante a realização da prática de ensino, alguns fatores que discorro a seguir me ajudam a pensar hoje sobre a minha prática docente. O aluno deve ser estimulado não apenas por palavras de incentivo, mas com exemplos de produções artísticas vindas do próprio professor. Demonstrar interesse ao que os alunos têm a dizer pode ser enriquecedor para as aulas. Buscar relacionar os interesses dos alunos com o tema abordado durante o projeto faz toda a diferença, muito mais do que ganhar notas pelas atividades, eles atribuem significado ao aprendizado. Hoje, posso afirmar que o professor de Artes não pode ter vergonha de expor seus gostos, dar opiniões e admitir sua ignorância em algum assunto sobre o qual for interrogado. A conversa com os alunos é definitivamente a melhor maneira de interagir em sala de aula, sem cobranças de atividades que não façam sentido.

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CAPITULO I

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1. RECONHECIMENTO DO ESPAÇO DE ENSINO 1.1. Dados da escola observada

Histórico Os dados referentes ao módulo I foram retirados do regimento escolar (2003). A Escola Estadual de Ensino Médio Professora Margot Terezinha Noal Giacomazzi foi fundada em 12 de Julho de 1990 pelo decreto lei Nº. 33600 como Escola de Ensino Fundamental Professora Margot Terezinha Noal Giacomazzi. Com o decreto lei Nº. 39332, em 12 de Março de 1999, recebeu a denominação que hoje apresenta. A escola está organizada de forma seriada em consonância com as Diretrizes Curriculares Nacionais e com o Projeto Político Pedagógico, no qual, são organizadas por disciplinas, onde as mesmas apontam para uma ação interdisciplinar contextualizando a realidade do conjunto dos seus 1 alunos .

Os professores da escola desejam realizar um trabalho interdisciplinar no sentido de estabelecer uma relação de totalidade nas diferentes áreas do conhecimento. Para isto, a escola prevê uma carga horária para além das oitocentas horas mínimas (800h), com o objetivo de realizar formação contínua para os trabalhadores em educação.

Caracterização Nome: Escola Estadual de Ensino Médio Margot Terezinha Noal Giacomazzi Endereço: Rua Arroio do Sal, Nº. 55 Bairro: Jardim Atlântico Cidade: Canoas/RS Telefone: 0XX 51 3467-25-53 Fax: 0XX 51 3467-25-53 CEP: 32032-040

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Regimento Escolar pag. 08, 2003.

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Data de Fundação: 12 de Julho de 1990 Decreto de Criação Nº. 33600 de 12/07/1990 (Anexo 1)

Filosofia da Escola A Escola Estadual de Ensino Médio Professora Margot Terezinha Noal Giacomazzi tem por filosofia “Educar para uma vida participativa, consciente e responsável” 2, dentro dos princípios de democracia e justiça, através de uma educação interdisciplinar que valorize o ser humano em sua autonomia, desenvolvendo seu espírito crítico e cidadania norteando a construção do saber. Para tanto, todas as atividades pedagógicas estão presentes os princípios definidos nas Diretrizes Nacionais: ● Princípios Éticos da Autonomia, da Solidariedade, da Responsabilidade e do Respeito do Bem Comum; ● Princípios Políticos dos Direitos e Deveres de Cidadania, do Exercício da Criticidade e do Respeito à Ordem Democrática; ● Princípios Éticos da Sensibilidade, da Criatividade, da Ludicidade e da 3 Diversidade de Manifestações Artísticas e Culturais .

O processo educativo desenvolve-se com permanente intervenção do professor, com os profissionais da escola, com os familiares e com demais agentes da sociedade.

Objetivos do Estabelecimento A Escola Estadual de Ensino Médio Margot T. N. Giacomazzi tem por objetivos proporcionar ao aluno uma educação interdisciplinar onde o mesmo tenha liberdade de agir, falar, criar, se expressar, tornado-se, assim um ser critico, agente de sua historia, capaz de transformar o que precisa ser mudado, oferecendo um ambiente voltado para a realidade respondendo aos anseios da comunidade a qual esta inserida. Ensino Fundamental – tem como finalidade:

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Regimento Escolar pag. 09, 2003. Regimento Escolar pag. 09, 2003.

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I – a capacidade de aprendizagem do aluno, possibilitando a livre expressão, clareza de pensamento, aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores; II – a compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade para que o aluno possa inserir-se de forma participativa na comunidade em que 4 vive .

Ensino Médio – tem como finalidade: I – a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no Ensino Fundamental; II – preparação básica para o trabalho e para a cidadania, dando ao educando condições de adaptar-se a novas situações de ocupação ou aperfeiçoamento posteriores; III – aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a forma ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento critico; IV – a compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos produtivos, relacionando a teoria com a pratica, no ensino de cada 5 disciplina .

Metodologia de Ensino A Escola tem por fundamento, dentro da realidade local, oportunizar um trabalho de qualidade, voltado a resultados de crescimento e desenvolvimento a toda comunidade educativa. Embasamos sua proposta na visão de não somente educar o indivíduo, mas colocá-lo, também, em harmonia com a sociedade e apto a enfrentar todos os desafios, fazendo exercícios da autonomia e da cidadania consciente. Sua proposta é na linha progressista, numa perspectiva epistemológica sócio-interacionista. Os princípios destas propostas nos levam a preparar o aluno para exercer sua cidadania de maneira que: respeite as diferenças; utilize o conhecimento em seu processo de formação como individuo critico 6 e realizador; estabeleça relações de cooperação e troca .

Para que isso ocorra à escola busca motivar a participação da comunidade, relacionando o reconhecimento da realidade; confiando e valorizando a capacidade do educando (auto-estima), proporcionando a descoberta da capacidade de modificar situações. A proposta pedagógica devera oportunizar a apropriação ativa e critica do conhecimento cientifico, historicamente produzido e acumulado pela humanidade, numa visão interdisciplinar. 4

Regimento Escolar pag. 09, 10, 2003. Regimento Escolar pag. 09, 10, 2003. 6 Regimento Escolar pag. 14, 15, 2003. 5

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Avaliação A avaliação é processual e continua relacionando-se com o compromisso com efetiva aprendizagem de todos os alunos, levando em consideração as diferenças individuais, o conhecimento prévio de cada aluno e os ritmos diversificados de trabalho escolar. O importante é que o aluno evolua na construção dos novos conhecimentos, no seu ritmo e tempo. As principais funções da avaliação são a investigativa e a diagnostica, enfocando o processo de aprendizagem do aluno e servindo como base para futuras intervenções do professore com o mesmo, a fim de que ele possa evoluir. A partir da identificação das dificuldades e possibilidades do aluno, o professor propõe desafios, garantindo condições adequadas para 7 que a aprendizagem ocorra .

Além disso, a avaliação deve ser cumulativa e global, ou seja, deve acumular dados sobre desempenho do aluno em todas as etapas da aprendizagem, considerando aspectos cognitivos, afetivos e psicomotores, servindo de referencia para a continuidade dos estudos através de atividades diversificadas. Paralelamente deve haver uma articulação entre a avaliação da aprendizagem e a do ensino, já que ela envolve não somente o rendimento dos alunos, mas também toda a metodologia utilizada e o currículo oculto que permeia o projeto político-pedagógico da escola. O

trabalho

docente

será

repensado

constantemente

buscando

aperfeiçoamento da pratica pedagógica, para que esta seja realmente significativa e para que possa contribuir também na avaliação dos educandos com um olhar a mais sobre suas possibilidades de aprendizagem.

Arte Conforme o Regimento págs. 39, 40, 41, os objetivos são: -conhecer as diferentes áreas da manifestação artística como expressão da percepção, da imaginação, da emoção, da sensibilidade e da reflexão; -interage com materiais, instrumentos e procedimentos, conhecendo-os e experimentando-os em seus trabalhos pessoais;

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Regimento Escolar pag. 15, 16, 2003.

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-desenvolve relação de autoconfiança com sua expressão artística pessoal; -respeita as manifestações artísticas dos colegas; -identifica e reconhece as manifestações artísticas históricas como elemento de construção do patrimônio cultural; -reconhece e utiliza elementos básicos do processo de criação artística; -organiza informações sobre manifestações artísticas quando aos autores, suas criações e seu significado, utilizando visitas a teatros, pinacotecas, museus e outros locais, bem como recortes de jornais e revistas, leitura de textos de livros; -estabelece relação entre as diferentes formas de expressão artística, através do tempo e nas diversas culturas e etnias; -identifica elementos estéticos de seu meio.

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1.2. Observações Silenciosas Ensino Médio

1.2.1. 1ª Observação Silenciosa

A turma 301 entrou na sala de aula após o penúltimo período, de Educação Física. Entrei na sala com o professor e pedi licença para me apresentar. Sentei no fundo da sala, composta por cadeiras com mesas embutidas. A sala é bem iluminada e há dois ventiladores, porém as classes não são organizadas, os alunos sentam em grandes grupos. Quando o professor iniciou a chamada, foi interrompido pela diretora e a orientadora da escola, que explicaram para a turma que alguns alunos deveriam mudar de sala, devido ao maior número de meninas em aula. Segundo ela, não há problemas em ter mais meninas em aula, elas são mais estudiosas. Porém uma sala com maior número de meninos (o caso da turma ao lado) seria motivo para bagunças. Ela não entende o fato de haver apego entre os alunos que não aceitam a saída dos colegas para outra sala de aula. Fala que ao irem para uma universidade, eles não terão sempre a companhia dos mesmos colegas e já devem se acostumar com esse fato. Após realizarem a troca de algumas meninas por meninos da turma 302, as alunas amigavelmente pediram para a diretora que a sala tivesse mais meninos, ela prometeu cumprir o pedido e saiu da sala, deixando muitas conversas sobre o assunto em questão. O professor quase não conseguiu terminar a leitura da chamada, ele pediu mais atenção, mas as conversas seguiram, embora respondessem a chamada. Após terminar, o professor levantou de sua mesa e disse aos alunos que agora sabe a denominação correta da disciplina. Ao contrário de Educação Artística, é História da Arte. As conversas diminuíram de intensidade e o professor definiu no quadro, os assuntos que serão abordados durante os trimestres, segundo o livro didático. A conversa continuou, um dos alunos troca de camiseta enquanto o professor escrevia, o que não foi motivo para nenhuma alteração de comportamento da turma. 15


O professor disse à turma que não é professor de Artes e é interrompido por uma aluna que perguntou quando eles começarão a desenhar. O professor respondeu dizendo que terão uma avaliação teórica e um aluno reclamou. O professor continua falando, considerando dois aspectos na Arte: o histórico e como se deu a expressão artística na história e os alunos deverão registrar no caderno alguns desses aspectos. Tentando explicar uma peculiaridade envolvida no aspecto artístico, o professor diz que nossa assinatura tem conotação artística, que na vida há convenções que seguimos, como escrever nossa assinatura e momentos que podemos ou não, agir livremente. Ele disse que acabara de receber o livro didático da disciplina. Alguns alunos suspiraram ao ouvir o professor, que prosseguiu, dizendo que a Arte é um instrumento que o homem utilizou para manifestar sentimento. Faltando quinze minutos para o término da aula, dois alunos apresentaram autorizações para saírem mais cedo. Após se retirarem, o professor perguntou quais foram os fatos marcantes do século XX. Uma aluna respondeu sobre a queda do muro de Berlim, e outro aluno, brincando, respondeu que foi o Descobrimento do Brasil. O professor seguiu a aula, dizendo que existe expressão artística dentro da música. Um aluno sentado ao fundo da sala diz que o professor é “chato pra caralho” após ouvi-lo dizer que pouco entende de música. Segundo o professor, o caderno de desenho é um modo mais simples para apresentar um trabalho. A mesma aluna que o questionou anteriormente falou: “se não vamos desenhar, pra quê caderno de desenho?”. A diretora retornou à sala e comunicou que houve uma troca de alunos e que o aluno que virá da turma 302, a partir da próxima aula, fará parte da turma 301. Após a diretora retirar-se, os alunos conversaram sobre a troca, tornando impossível continuar a aula, o professor não retomou a sua fala e pediu que os alunos aguardassem o horário de saída, que não há necessidade do uso de caderno de desenho na próxima aula. Faltando cinco minutos para o término da aula, os alunos guardaram o seu material, pegaram suas mochilas, enquanto o professor apagou o quadro.

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Após bater o sinal, os alunos saíram com pressa da sala, três alunos cumprimentaram o professor e ele me procurou para dizer que agora precisará planejar suas aulas para os próximos encontros.

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1.2.2. 2ª Observação Silenciosa

Os alunos entraram na sala, vindos da aula de Educação Física. O professor pediu calma. Aos poucos, a turma sentou em suas cadeiras e o professor pediu mais calma para fazer a chamada. As cadeiras estavam organizadas, não mais distribuídas em grupos. Haviam trinta alunos presentes, todos responderam a chamada enquanto conversavam e utilizavam os cadernos para se abanarem. Após a chamada o professor pediu que a turma traga um caderno de apontamentos, além de um caderno de desenhos. A mesma aluna que na aula anterior perguntou sobre os desenhos, retornou a perguntar se eles irão desenhar. O professor perguntou se gostariam que ele ditasse o texto, para terminar as conversas, ele falou mais alto e mais sério. Começou a escrever no quadro o texto Arte no Brasil após a segunda metade do século XX, copiando-o de uma página de caderno. Segundo o professor, não cabe a eles saberem como foi a Arte brasileira, mas identificarem como foi essa mudança de expressão. Houve uma mudança de hábitos que mudou a expressão das pessoas e a Arte foi um canal para manifestar as expressões e os conflitos através da pintura, da escultura e da fotografia. O professor disse aos alunos que o livro utilizado por ele para conhecer as obras está na biblioteca para quem estiver interessado. Ele irá desenvolver uma forma bem própria para sua aula, tentará reproduzir de forma mais prática o trabalho. Os alunos conversavam baixo enquanto ele falava e poucos copiavam com atenção. Durante a sua fala, o professor me olhou, procurando auxílio ou aprovação para suas palavras. Ele seguiu a aula dizendo que hoje temos uma forma de expressão mais aberta e escreveu no quadro o Subtítulo A Pintura e a Escultura Contemporânea. Duas alunas no fundo da sala conversam sobre seus locais de trabalho. Alguns alunos sentados nas cadeiras da frente da sala, parecem incomodados com a minha presença. 18


Somente três alunos trouxeram cadernos de desenho. A aluna que disse querer desenhar falou que tinha lápis de cor e canetinhas, seus colegas riram. As conversas ficaram mais intensas quando o professor voltou a escrever no quadro. Ele voltou a pedir silêncio e destacou que a Arte só será plena se além da pessoa que tem o dom de transmitir idéias dessas formas, exista alguém que possa interpretar uma obra. “Do que adianta alguém que faz uma música que ninguém entende?” A aluna que gostaria de desenhar respondeu: “Adianta pra mim.” O professor acrescentou que é preciso alguém que aproxime a Arte das pessoas. A mesma aluna disse que escreve versinhos só pra ela e o professor disse que no fundo gostaríamos que alguém lesse o que escrevemos. O professor prosseguiu dizendo que nos dias atuais somos movidos por recursos tecnológicos e é difícil se abstrair. Isso não quer dizer que não há capacidade de apreciar a Arte, mas é difícil se desligar do cotidiano para contemplar a Arte ou o que ela representa. Ele complementou pensamento, dizendo que talvez poderão fazer uma saída de campo para algum museu e terem contato com alguma expressão. O professor disse que não sabe se eles irão fazer desenhos, ao ser novamente questionado sobre essa prática. Ao perguntar se havia algum comentário sobre a aula, alguns alunos debocharam da colega: “Queremos desenhar!” Para a próxima aula o professor pediu o caderno de desenho e que pensassem no tema que será objeto do desenho livre. Muitos alunos não gostaram. A turma começou a guardar seus materiais e conversaram enquanto esperavam o sinal tocar. Poucos minutos antes do horário da saída, uma das alunas que precisava ir para o trabalho saiu antes da sala. Ao toque do sinal, todos saíram conversando pelo corredor.

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1.2.3. 3ª Observação Silenciosa

Entrei na sala com o professor, estavam presentes vinte e nove alunos. O professor começou a fazer a chamada enquanto a turma conversava. Não haviam alunos sentados no fundo da sala, como também não há um espelho de classe. Um aluno cobrou do professor um trabalho com desenho. O professor respondeu que pensou em sugerir um desenho com orientação e disse: “Não se comparando como uma tarefa de obrigação como as demais disciplinas e passar o que vocês sentem em relação a esse movimento.” Poucos alunos trouxeram folhas de ofício. O professor tentou ter um diálogo com a turma: “estamos no terceiro ano, vamos tentar atribuir um termo mais apropriado, ao invés de falar em desenho, vamos falar em gravura.” Em seguida, escreveu no quadro: “Gravura- O sentimento contemporâneo que influencia a escola e a tendência moderna”. Após escrever, ele tentou falar sobre a pintura moderna e perguntou: “o que vocês sentem em relação à escola? ...É um laboratório de sentimentos, muito abstrato.” Um aluno perguntou: “o que é pra desenhar?” O professor seguiu sua explanação: “se eu puder ajudar, vamos estabelecer um critério: para toda a aula teórica vamos tentar materializar numa atividade prática que vai valer pontos”. Enquanto os alunos pensavam sobre o que iriam desenhar, o professor disse: “se vocês quiserem algum modelo do próprio livro, eu tenho.” E mostrou o livro didático para alunos sentados nas primeiras cadeiras. Enquanto os alunos conversavam, o professor falou: “A construção da cidade de Brasília é bem avançado, não se vê nada parecido...” Perdido em suas explicações, o professor não conseguiu definir o que a turma deveria fazer. Novamente o professor questionou: “O que a escola está influenciando para a tendência da cultura moderna?” Em seguida, disse à turma que poderiam fazer formas definidas, não abstratas. 20


Os alunos que não tinham folhas de ofício, pediram emprestadas aos colegas, a turma continuou em dúvidas sobre o que poderiam desenhar. De forma confusa, o professor perguntou: “quem já foi a um museu?...Aquele sentimento foi transportado pra época. Falando francamente, isso causa até uma crítica, na verdade talvez a escola seja o seguimento da sociedade que mais mostra o sentimento dos desajustes da sociedade.” A turma começou a rir e uma aluna falou: “tá sor, a gente já entendeu”. Novamente, o professor me pediu ajuda sobre como proceder em aula. Eu pedi desculpas e repeti que não posso ajudá-lo nesse momento do meu estágio. O professor perguntou para a turma se eles têm vontade de trabalhar com outros materiais. Um aluno falou: “Argila!” O professor disse que fez muitas peças interessantes quando estava na escola e trabalhou com argila. A turma continuou com dúvidas, fizeram margens nas folhas de ofício. Dois colegas conversaram sobre os piercings e tatuagens que querem fazer, enquanto o professor voltou a falar: “Eu me lembro, tinha uma série na televisão, Viagem ao fundo do mar, eu fiz aquele Surrealismo italiano. Peguei um pedaço de argila e pensei, como se deu o Modernismo? O homem foi feito de barro, fiz um rosto, ficou perfeito, se eu fosse desenhar, talvez não ficasse tão bom.” A turma continuou conversando. Uma aluna mostrou o seu desenho da rua e da escola para o professor, que em seguida falou: “Se não der tempo de terminar hoje, não tem problema, se vocês preferirem assim, mas é importante que eu registre o trabalho de vocês.” Enquanto observava as atitudes da turma, percebi que uma das alunas mostrou para sua colega a cobra que desenhou com grafite. Outro aluno fez um conjunto de linhas abstratas, utilizando canetas hidrocores. Uma aluna comentou sobre sua performance na aula de Educação Física, enquanto três alunas riram da dificuldade por não saberem desenhar. Outra aluna falou de filmes que havia assistido no cinema. Um dos alunos pediu giz de cera emprestado para terminar o desenho de coqueiros e um pôr do sol. A turma diminuiu a intensidade das conversas à medida que começaram a elaborar seus trabalhos. 21


O professor comentou com a turma que em Abril eles farão um passeio ao Instituto [sic]Iberê Camargo, porém, ele não poderá acompanhá-los. Uma aluna brincou: “que pena!” Outra aluna comentou que o melhor passeio da turma foi a exposição do Corpo Humano. O professor disse que quer que eles tenham acesso a sala de informática. “para ver algum site de música ou coisa assim, ou sala de vídeo.” O aluno que desenhou os coqueiros mostrou ao professor seu desenho pronto e pediu uma tesoura emprestada para cortar a margem da folha que estava utilizando. Os alunos guardaram seus materiais e o professor me falou sobre assistir vídeos de música na sala de vídeo e ficou esperando a minha aprovação ou opinião.

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1.2.4. 4ª Observação Silenciosa

Esperei tocar o sinal e entrei na sala com o professor, que esperou todos os alunos voltarem do banheiro após a aula de Educação Física. Depois que todos voltaram, haviam vinte e oito alunos presentes. O professor iniciou a aula com a leitura da chamada, em meio a conversas sobre a atividade anterior e a insatisfação de algumas alunas por terem suado durante o período de Educação Física. Com muita dificuldade, o professor conseguiu terminar a chamada e retomou o assunto da aula anterior, citando o capítulo do livro que abordou com a turma, em forma de “gravura”. O professor perguntou se todos haviam terminado seus trabalhos em casa. Mesmo antes de questionar à turma, alguns alunos já estavam com seus desenhos sobre as classes. Uma aluna disse que não entendeu o que deveria desenhar, portanto fez o que teve vontade. Depois dessa afirmação, outros alunos também disseram que não entenderam a atividade. A maioria dos trabalhos foram feitos com margem e o uso de lápis de cor, com temas variados, como casas, a escola, paisagens de praias e cenários urbanos. Porém, nenhum aluno quis falar mais profundamente sobre o significado do seu desenho. O professor não pediu que a turma falasse mais sobre os trabalhos, chamou cada aluno pela ordem da chamada e conferiu rapidamente cada desenho para marcar quem fez. Poucos alunos não fizeram, um deles disse que não fez por não ter entendido nada. O professor falou que, aqueles que não mostraram seus trabalhos, poderiam falar com outros colegas sobre “o que fazer” e até a próxima aula deveriam mostrar a ele. Um grupo de alunos pareceu não ter gostado do que o professor disse, falaram que também queriam entregar seus trabalhos na próxima aula, que não era justo eles desenharem a tempo e os outros colegas não. 23


O professor não respondeu aos alunos e, com uma folha de caderno nas mãos, copiou no quadro o texto: “Pintura, Escultura e Arquitetura na primeira metade do século XX”. Aos poucos, a turma começou a copiar e conversar menos, enquanto alguns alunos ainda terminavam seus desenhos. O professor ainda estava escrevendo no quadro e disse que eles teriam um novo texto na próxima aula, que deveriam copiar tudo para um próximo trabalho. Com a proximidade do final do período, os alunos começaram a arrumar seus materiais e guardaram seus cadernos. O professor disse que ainda não havia respondido o meu questionário. Eu perguntei se havia alguma dúvida nas questões, e o professor respondeu que se tiver alguma dúvida, deixará em branco para me perguntar.

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1.2.5. 5ª Observação Silenciosa

A aula iniciou com muita agitação. Todos os alunos estavam presentes, quase não conseguiram responder a chamada, enquanto conversavam sobre a eleição para o grêmio da escola. O professor pediu silêncio para a turma, disse que veriam um texto sobre o Expressionismo e o Fauvismo. Enquanto a turma conversava e muitos alunos reclamavam por estarem em aula, o professor começou a escrever no quadro o texto comentado anteriormente. O professor disse: “Sei que vocês estão agitados, mas precisamos continuar nosso cronograma de aulas...” Os alunos que não haviam mostrado os desenhos na aula passada, disseram que haviam entregado na aula de química, na semana anterior, quando o professor questionou se ainda faltavam trabalhos para serem avaliados. O professor voltou a perguntar se todos os alunos irão no passeio ao “Instituto” Iberê Camargo. Alguns alunos responderam que sim, em coro e sem entusiasmo. Enquanto copiavam o texto, dois alunos olhavam pela porta a movimentação nos corredores, o professor pediu que eles voltassem aos seus lugares. A aula foi interrompida pela diretora e uma aluna da escola. Elas pediram licença ao professor para liberar os alunos para participarem da reunião com os representantes do grêmio estudantil. Rapidamente os alunos começaram a guardar seus materiais, mas a diretora pediu que a turma deixasse tudo na sala de aula, para buscarem no final do período. O professor não conseguiu terminar de escrever o texto no quadro, guardou o seu material de trabalho enquanto os alunos deixavam a sala.

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1.2.6. 6ª Observação Silenciosa

Conforme o combinado com o professor, a turma 301 não terá aula de Artes na próxima semana. A supervisora destinou um período reduzido de História para eu aplicar o questionário com os alunos. O professor de História disse que eu era bem-vinda e poderia ficar na sala de aula o tempo que fosse necessário, aproveitou minha presença para dar uma aula e reforço em outra turma. Os alunos estavam ansiosos pela minha chegada, após o comunicado da supervisora. Sentados, me ouviram atenciosamente enquanto eu me apresentei novamente a eles, expliquei a importância da minha pesquisa e pedi que todos organizassem as classes em fila para começarmos a fazer os questionários. Após ler todas as questões, esclareci as dúvidas de alguns alunos e esperei que todos devolvessem seus questionários para uma breve revisão. Ao término da atividade, agradeci a todos pela colaboração. Todos os alunos que falaram comigo dirigiram-se a mim como professora e senhora. Duas alunas perguntaram se eu darei aulas de Arte para eles, outra aluna perguntou onde comprei minha calça, ela queria uma calça igual. E uma quarta aluna perguntou se sou irmã do Pedro, disse aos colegas que ele é um artista fotógrafo.

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1.3. Análise das Observações Silenciosas As aulas observadas revelaram um completo despreparo por parte de todos os envolvidos: tanto do professor Rogério, que leciona aulas de Química, quanto da direção da escola, que nem ao menos o orientou sobre como iniciar sua prática no ensino de Artes, apenas indicou o livro didático destinado às aulas. Assim como o desconhecimento dos alunos quanto à prática dos poucos trabalhos indicados pelo professor. Sobre a preparação do professor em sala de aula, Vitelli afirma que, “É necessário conhecer o público que vai assistir à aula.” (informação verbal)¹ Eu poderia comparar a sala de aula como um navio a deriva, no qual todos estavam perdidos, sem saber o que e a quem seguirem. Baseado no livro didático, o professor utilizava textos com o intuito de gerar trabalhos práticos decorrentes do entendimento do que foi copiado pelos alunos. O mesmo não acontecia, pois os textos e seus conteúdos eram totalmente desconhecidos do professor e dos alunos, o que dificultava o diálogo entre ambos que, buscavam a seu modo, uma forma de orientação. Os alunos pediam trabalhos práticos, perguntavam o que iriam fazer diante da incompreensão do professor, que não conseguia tomar decisões concretas em seu planejamento. Tentava planejar a aula com os alunos, durante o único período semanal, que passava rápido, sem direcionamento. Sobre o aprendizado das lições ocultas, Menezes (2008, p. 114) diz que, Mais do que as palavras, a atitude do professor promove participação ou passividade, cooperação ou individualismo, esperança ou desalento. [...] devemos ter consciência das mensagens implícitas em nossas atitudes e expressões e de que isso pode ser mais importante que as outras sabedorias, pois os alunos também buscam sentidos, e não apenas informações. [...] A imagem que projetamos atinge os alunos mais profundamente do que os conceitos que explicamos. Por isso, a coerência entre nossa confiança na vida e nosso apreço pela cultura são essenciais.

O material levado pelos alunos era composto basicamente por folhas de ofício, lápis de cor e caderno de desenho. Os trabalhos realizados que pude acompanhar, pareceram muito com os dos alunos do Ensino Fundamental, não 27


apenas graficamente, mas no modo como encaram as aulas de Arte, à espera de técnicas. Segundo Omar, (1998) um dos papéis da arte, seria abandonar as idéias pré-concebidas, as idéias cristalizadas. Abrir possibilidades de trabalhar com qualquer coisa! Era evidente a frustração dos alunos durante as aulas, diante do desempenho do professor, que me procurava com o olhar, buscando aceitação em suas falas e orientação em sua prática. Com o intuito de dar notas pelos trabalhos realizados (mesmo sem saber exatamente quais atividades a turma faria) o professor concordava com todos os pedidos dos alunos, prometendo a prática de trabalhos com argila, videoclipes e filmes, transparecendo a incerteza sobre a realização de tais atividades. Sobre o perfil do professor de Arte, Trindade diz que “Se vocês querem conhecer o que o professor entende sobre Arte, assista a aula dele!”. (informação verbal)²

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1.4. Análise do Questionário Respondido pelo Professor Foi realizado um questionário baseado em minhas dúvidas e curiosidades sobre as atividades do professor. As questões elaboradas para o professor da Escola Estadual de Ensino Médio Margot Terezinha N. Giacomazzi, tiveram o objetivo de pesquisar sua atuação em sala de aula e seu processo de ensino de Artes. O professor não tem formação acadêmica especializada em Artes e iniciou neste ano o trabalho com ensino de Arte. Sua formação é Licenciatura em Ciências/Ciências Jurídicas e Sociais. Questionado sobre as metodologias que conhece e aplica em sala de aula, o professor respondeu que trabalha com o conhecimento histórico da Arte, aplicada, quando possível, em práticas de reproduções de técnicas, segundo sugestões do material didático empregado. Sobre os conteúdos desenvolvidos em sala de aula, o professor do Ensino Médio relatou o uso principal da pintura e da escultura relacionada à História. Perguntei sobre a existência de autonomia para o desenvolvimento das aulas perante a direção. Ele respondeu que existe autonomia, desde que as aulas sejam relacionadas com o conteúdo programado; Sobre a utilização de imagens em sala de aula, o professor utiliza o livro didático adotado pela escola. O livro didático da autora Graça Proença é o único material envolvido no processo de ensino aprendizagem, segundo o professor. Os materiais utilizados nas aulas de Arte são adquiridos pelos alunos, segundo o professor, nem todos os alunos atendem às solicitações dos materiais escolares. Na questão sobre como é percebido o interesse pelos conteúdos trabalhados, o professor do Ensino Médio respondeu que não há limites estabelecidos para a compreensão e a percepção das formas de expressão artística; Conforme afirma Ferreira (2008, p. 12/13), A partir da segunda metade do século XX, a concepção de arte na educação passa por algumas mudanças. Entre elas, a concepção da autoexpressão. A auto-expressão orientava os alunos para criações espontâneas, para a sensibilidade, e para a experimentação artística, o que não ocorria no ensino tradicional (PCN/Arte, 2000).

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Apesar de valiosas contribuições, esses princípios inovadores resultaram na banalização do “deixar fazer”. A arte continuou sendo uma disciplina desvalorizada no currículo escolar.

Sobre o processo de avaliação da disciplina, o professor considera o conhecimento do conteúdo expresso de acordo com o próprio entendimento do aluno, de modo prático. A última questão trata da possibilidade de haver um trabalho para ser desenvolvido com os alunos, mas que não é possível por falta de estrutura ou apoio da escola. O professor acredita que poderia trabalhar com atividades que necessitem, por exemplo, de argila e madeira, se a escola apresentasse um local apropriado para tal.

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1.5. Análise dos Questionários Respondidos pelos Alunos O questionário para o Ensino Médio foi igualmente elaborado com as mesmas questões do Ensino Fundamental, com o objetivo de traçar um paralelo entre as turmas, em relação às suas vivências e expectativas para o ensino da Arte. O resultado foi surpreendente, visto que seus gostos, preferências e experiências são muito próximos, independente da diversificada faixa de idade entre as turmas. De um número regular de trinta alunos presentes durante as observações, trinta e dois alunos participaram desta entrevista. Assim como o Ensino Fundamental, os alunos demonstraram interesse na utilização dos seguintes materiais: tintas, lápis de cor e canetinhas, seguidos por um número menos expressivo de preferências pelo uso de argila, música, grafite e caderno de desenho nas aulas de Arte; A música e o teatro foram assuntos de maior destaque no ranking de interesses, seguidos pelo cinema, a moda e a literatura; Os meios de comunicação que na visão dos alunos são divulgadoras de Arte, também são filmes, músicas, videoclipes, novelas e Orkut; Quanto aos aspectos analisados em filmes, os alunos elegeram maquiagem/efeitos especiais e trilha sonora como itens de interesse, seguidos da animação e figurino; Há uma significativa diferença nas respostas da questão sobre seus gostos em aulas de Arte. As obras de diversos artistas estão como principal item que mais gostaram até hoje, assim como desenhar. Assim como o Ensino Fundamental, a maioria dos alunos de Ensino Médio não gosta de copiar textos, e destaco um dado importante em algumas respostas obtidas, a falta de professores preparados para o ensino da Arte; Grande parte da turma já teve contato com algum artista plástico e gostaria de conhecer mais artistas, assim como saber mais sobre a vida e a obra de Leonardo Da Vinci. Quase a totalidade da turma disse nunca ter feito uma leitura de imagem e não entendem sobre releitura de obras;

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A maioria dos alunos afirmou que a Arte tem significados em suas vidas, novamente vê-se lembranças de Arte relacionadas a trabalhos escolares e passeios escolares. Cada aluno tem suas histórias, tanto pelo que aprendeu na escola, e também pelo que a vida lhe ensinou. Assim, terão significado para ele os problemas referentes ao seu contexto, uma vez que o aluno só aprende se estiver motivado por um desafio, ou se reconhecer a importância e a aplicação da aprendizagem. Cabe ao professor ampliar esses conhecimentos mobilizando-os para o seu desenvolvimento pessoal. (FERREIRA, 2008, p. 9).

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CAPÍTULO II

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2. O OLHAR ALÉM DA CONTEMPLAÇÃO 2.1. Leitura do Mundo através de Imagens Para que uma imagem exista é necessário que tenhamos um olhar sobre determinado objeto. Imaginemos o planeta em formação: seres rastejantes, bactérias, mares de lava incandescente e todo o fenômeno conhecido como a Gênesis, o início dos tempos. Nosso planeta certamente sofreu as mais incríveis transformações que foram vistas por olhos supostamente incapazes de perceber, analisar e formular olhares diante das mais importantes imagens do tempo.Temos hoje uma idéia do que tenha sido, através de telescópios de avançada tecnologia que, assim como o universo, estão em plena expansão. Sim, já existiram imagens sem expectadores. Diríamos que a imagem só existe diante de um olhar concreto? Estamira, segundo Prado (2006) afirma: A criação toda é abstrata. O espaço inteiro é abstrato. A água é abstrata. O fogo é abstrato. Tudo é abstrato. [...] Tem o eterno, tem o infinito, tem o além, tem o além dos além. O além dos além vocês ainda não viram. Cientista nenhum ainda viu o além dos além.

Nebulosa planetária (Fonte: MACEDO, 2010)

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O sentido da visão evoluiu de forma espetacular, a partir de poucas células capazes de perceber a luz nas algas primitivas. Mas o olho, enquanto um órgão complexo com função dedicada exclusivamente à visão, surgiu a partir dos peixes, há cerca de 500 milhões de anos. Os olhos humanos guardam resquícios do passado de animais caçadores. De acordo com Saunier e Lefebvre (1995), a qualidade da visão é determinada pela concentração de células na retina, a membrana no fundo dos olhos. No homem, há de 30 000 a 40 000 cones, células que captam as cores, no centro da retina. Nas laterais, há 130 milhões de bastonetes, células ótimas para detectar movimentos.

Fotografia de um feto com 10 semanas. (Fonte: NILSON, 2010)

As pálpebras estão semi-fechadas e irão se formar completamente em poucos dias. Conforme

estudos

arqueológicos

sobre

as

primeiras

sociedades

primitivas, afirma Diegues (1995, p. 54), A arte custou um tempo enorme para ser inventada. Demorou algo em torno de 60.000 anos. A conta é feita da seguinte forma: do ponto de vista anatômico, o homem moderno tem pelo menos 100.000 anos. O problema é que, durante a maior parte desse tempo, ele permaneceu na África ou no Oriente Médio. E nesses lugares, aparentemente, não houve uma explosão artística, nos moldes da que aconteceu na Europa, há 40.000 anos [...] Sociedades maiores, mais complexas, dependem muito da comunicação. E arte é comunicação do mais alto grau.

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Núcleo Policrômico (Fonte: ABAR, 2010)

O que dizer do Mito da Caverna, de Platão, que narra hipóteses de imagens compostas por sombras de uma realidade distorcida aos olhos humanos? Seriam manchas, seriam sombras em movimento, carregadas de significados por serem acompanhadas de sons e, por que não dizer, expectativas dos prisioneiros da caverna. Isso tornaria Platão um dos primeiros pensadores que trouxe uma reflexão filosófica do mundo a partir da leitura de uma imagem pictórica.

Busto de Platão (Fonte: ESTRELAS, 2010)

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Segundo Scheiner (2008, p. 39), O mundo das aparências para Platão é o mundo sensível, é o contorno externo de todo e qualquer processo simbólico e de visualização. É mais cômodo e fácil estar atento, pura e simplesmente ao externo do que buscar o que realmente é o fator decisivo nessa demonstração visual.

A História da Arte poderia muito bem ser chamada de História da Vida, pois trata-se de um verdadeiro convite à viagem histórica de povos através de imagens. Cada registro visual que hoje preservamos, é parte da história de homens e mulheres que, anônimos ou reconhecidos, em determinado momento de suas vidas, foram instrumentos de seus olhares, idealizados ou não, solitários, em massas ou grupos, porta vozes visuais de idéias e ideais. Inicialmente ligada à Arquitetura, as imagens da Arte eram pensadas e executadas para ornamentar tumbas, palácios, igrejas, castelos e mesmo moradias populares, como símbolos de poder e hierarquia social.

Pintura do arquiteto Nebabón dedicado à caça. (Fonte: TORRENS, 2010)

Existem artefatos de guerra, de uso doméstico, religioso, de caça e para tantos outros fins, que foram produzidos manualmente, com elaborado estudo de formas, cores, materiais, hoje são expostos como obras de Arte, mesmo que não tivessem, inicialmente, caráter contemplativo.

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Tesouro Anglo -Saxão da Grã - Bretanha que pode datar do século VII. Artefatos de guerra em ouro e prata adornados com pedras preciosas. (Fonte: TERRA, 2010)

Um grande exemplo dessa transição encontra-se no Renascimento que, trouxe-nos, além de invenções para o domínio da produção de imagens, a idéia do estilo individual e coerência como um valor do artista, a valorização da vida sóciocultural, as tendências e gostos individuais. Foi a época em que a arte se tornou Arte, surgindo a tradição mimétrica no desenvolvimento das imagens, a função autoral, que mudou o sentido da produção de objetos com valor de culto, que passaram a ter valor de exibição. Tanta racionalidade para pensar a vida contida no Renascimento, contrapõe-se à arte contemporânea, que é o reflexo da vida de hoje, em que a formação do público é uma preocupação essencial ao jogo de regras não lineares, desdobradas em redes e relações possíveis ou não de serem estabelecidas pelo artista contemporâneo.

Botticelli, O Nascimento de Vênus (1485 – 86) (Fonte: LEITAO, 2010)

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Lia Menna Barreto, Fábrica (2003) (Fonte: LATINART, 2010)

Duby, citado por Gibson (2006, p. 7), Eu apresento-lhes “mentalidades” como sistemas de imagens, conceitos de juízos informulados, ordenados variamente nas suas diferentes classes sociais: sistemas em movimento e, por conseguinte, objectos de estudo para a história, mas que não se deslocam sempre ao mesmo passo nos diferentes níveis de cultura, e que ordenam o comportamento das pessoas e as conduzem sem darem por isso.

Nossa vida é composta por imagens, que, carregadas de significados e lembranças, formam nossa bagagem intelectual e afetiva. Como viver sem as imagens como partes integrantes de nossas observações, produções, consumo e lazer? Para o bebê recém nascido, a imagem central de sua vida é a figura materna, que, aos poucos é compartilhada com tantos outros momentos de cunho afetivo. A família, os amigos, a escola, a vida em sociedade, que comumente são retratados e transformados em acervo pessoal de imagens. No texto de Pillar (1999, p. 14), Parafraseando Paulo Freire, Luiz Camargo diz que a leitura da imagem precede a leitura da palavra. Nesse sentido, o primeiro mundo que buscamos compreender é o da família, a casa onde moramos, o quintal onde brincamos, a pracinha, o bairro onde vivemos, a cidade, o estado, o país. Tudo isto marcado fortemente por nosso lugar social, nossa origem social. E, ao buscar compreender, estamos fazendo leituras desse mundo. Leitura crítica, prazerosa, envolvente, significativa, desafiadora: Leitura, que inserida num contexto social e econômico, é de natureza educativa e política,pois nossa maneira de ver o mundo é modelada por questões de poder,por questões ideológicas.

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O dicionário Luft, (2001, p.375) define imagem como: s. f.1. Representação de pessoa, coisa, etc. por desenho, pintura, escultura e outros processos. 2. Representação mental. 3. Visão do objeto pela utilização de espelho, lente ou outro sistema óptico.

Inúmeras imagens às quais temos conhecimento foram concebidas por artistas, que fizeram da produção de suas imagens, um singular documento estético, político, artístico, religioso, ideológico de fatos, momentos vividos através da história. O público acaba estabelecendo relações com as obras, de seu próprio modo, pois a Arte não é um campo fechado de especialização, abrange muitos conteúdos nos quais é desenvolvida, interferindo em nossa noção de sujeito, de indivíduo, de identidade e unidade, que estão em constante crise. Essa identidade migra na rede que nos conecta, da invenção e da idéia, de bens utilitários, de ferramentas e máquinas, fortemente alavancados pela industrialização, que estabeleceu a multiplicação em massa, condenando o artesanato através das linhas de montagem, que transformaram as relações socioeconômicas. Para aprender sobre a arte da pintura, da escultura, da gravura, da cerâmica e determinadas técnicas artesanais é necessário dedicação ao estudo das mesmas, para obter o domínio de linguagens estéticas da produção de imagens. Inovações como a fotografia, o cinema e o vídeo, são exemplos de que a invenção ou a idéia qualificam a autoria. Quando o artista compõe uma imagem, desdobrando os vários elementos visuais, dispõem de duas modalidades básicas para fazê-lo: relacionar as formas por semelhanças ou contrastes [...] as opções [...] serão intuitivas [...] (OSTROWER, 1996, p. 125).

Hoje vistos com maior destaque na contemporaneidade, o vídeo e a fotografia, são meios de produção visual que além de exigirem os mesmos cuidados de execussão, podem ser meios de produção de imagens acessíveis a qualquer público, sem conhecimento específico e domínio total de um estudo avançado sobre o uso de aparelhos fotográficos e de gravação. Vendidas em lojas especializadas e até redes de supermercados, as máquinas fotográficas em formato descartável popularizaram a fotografia, ganhando 40


mais força com o mercado digital, que transformou câmeras fotográficas, filmadoras e principalmente os telefones celulares em artigos de uso pessoal, quase indispensáveis para parte da população que se globaliza, comunicando-se através destas fortes ferramentas visuais.

Máquina fotográfica descartável (Fonte: BUSSAINCHAINS, 2010)

Também indispensáveis, nesse contexto, são as imagens da mídia, que tornaram a sua exploração o ponto central da sociedade contemporânea. Sua força é tanta, a ponto de educar uma sociedade tornando-a, de certo modo, empobrecida intelectualmente e viciada em seu efeito fascinante e sedutor. A fotografia tornou possível o acesso a reproduções de obras de Arte em materiais como posters, revistas, enciclopédias, quadros e livros, divulgando e ampliando o acesso a imagens de Arte e seu conteúdo. Muitas imagens e suas reproduções tornaram-se ícones da história da Arte e tiveram seus significados modificados a partir dos diversos olhares que compartilham essas imagens. Berger (1999, p. 31) nos diz que: Consequentemente, uma reprodução, ao mesmo tempo que faz suas próprias referências à imagem do original, torna-se ela própria o ponto de referência para outras imagens. O significado de uma imagem muda de acordo com o que é imediatamente visto ao seu lado, ou com o que imediatamente vem depois dela. Essa autoridade que ela detém é distribuída por todo o contexto em que aparece.

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Essa apropriação coletiva de imagens da Arte identificou seus autores e popularizou-os como gênios da Arte. Nomes como Leonardo da Vinci, Van Gogh, Michelângelo e Picasso são reconhecidos facilmente através de obras como a Monalisa, Os Girassóis, o teto da Capela Sistina e Guernica.

Leonardo Da Vince, “Mona Lisa” (1503) (Fonte: ARTOFFER, 2010)

Vincent Van Gogh, “Girassóis” (1888) (Fonte: SAKALL, 2010)

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Vista do teto da Capela Sistina, na Cidade do Vaticano projetada por Michelangelo (Fonte: VAZ, 2010)

Pablo Picasso, Guernica (1937) (Fonte: LAROUSSE, 2010)

Porém, poucas pessoas têm conhecimento de que é possível buscar compreender as obras, além de apenas identificá-las como um retrato, uma natureza morta, uma reprodução que conta a história da Bíblia ou a visão de um artista perante a guerra. Frases curtas como explicações de obras deixam um raso conhecimento, que são levadas como verdades absolutas a locais como a escola e transmitidas como uma “receita de bolo” acerca dos seus significados. Segundo Pillar (1999, p. 16), O que se pode observar nas leituras, feitas por professores do Ensino Fundamental e médio, é que, numa primeira instância de apropriação dessas diferentes leituras, há um certo encantamento por autores ou artistas que abordam uma determinada concepção de leitura. Isto, em muitos momentos, faz com que a leitura aprisione a obra, crie significados fechados, torne-se uma atividade técnica e não prazerosa.

Complementando o que já foi abordado anteriormente, as imagens da Arte, de uma forma geral, foram idealizadas a partir de figuras concretas, da 43


realidade comum a todos: pessoas, animais, paisagens, objetos, moradias. Que foram, a princípio, distribuídos em planos visuais que, racionalmente são interpretados pelos expectadores, que fazem suas próprias leituras dos mesmos. Mesmo na abstração de imagens, o ser humano busca uma lógica no que está observando, como uma maneira de explicar o que vê e aceitar determinadas imagens. Muitas pessoas ao julgarem uma obra, têm o senso crítico a serviço daquilo que conhecem e que sabem fazer. Quantas vezes já nos deparamos com expectadores de obras de Arte falarem frases como esta: “isso eu posso fazer melhor!”. Ao passo que, deveríamos voltar nossa atenção para as críticas e pensarmos, por exemplo, o que significa o “fazer melhor”. Ao falarmos sobre a possibilidade de reproduzir melhor o trabalho de um artista, devemos antes de mais nada, saber o que o artista quis dizer, ter conhecimento da sua trajetória plástica, do seu processo criativo. Os artistas modernos e contemporâneos são os maiores alvos de críticas neste sentido, evidenciando o gosto estético de grande parte dos expectadores e fazendo pensar sobre os ideais de beleza clássicos, tão trabalhados na História da Arte e que ainda hoje são parâmetros de julgamento, justificando a idéia de que somente o belo é bom e, consequentemente, considerado Arte.

Davi – Michelangelo (Fonte: FAGUNDES, 2010)

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2.2. Alinhavo de Histórias Visuais Se partirmos do princípio de que a leitura da imagem precede a leitura das palavras, o uso da imagem foi fundamental para a história da Educação. As primeiras sociedades primitivas narravam suas histórias através de pinturas e desenhos. Com a necessidade de ampliar sua comunicação, criaram símbolos capazes de transmitir frases inteiras, desenhos que continham significados de valor místico, passados a gerações que seguiriam aprendendo sua história, enquanto deixariam o registro de suas vivências aos futuros aprendizes. Com o surgimento da escrita, os “desenhos” tomaram as formas simbólicas as quais denominamos alfabeto. O texto ganhou o espaço da imagem, ao mesmo tempo que a enriquecia. Segundo Trindade (2002, p. 21), As representações pictográficas e os ideogramas encontrados nas rochas e paredes de cavernas são notícias de que toda a história da imagem inicia ainda em tempos primitivos. Também os antigos hieróglifos eram constituídos de pequenas figuras significativas.

Hieróglifos egípcios (Fonte: NETTO, 2010)

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Temos como exemplo de união do texto à imagem, parte da educação na Idade Média, chamada Idade das Trevas. O domínio da palavra pertencia a Igreja e seus representantes, que, mesmo sem grande estudo da execução de imagens, tornaram possível a educação do povo através de seus trabalhos, ilustrados em livros, que tinham como base, os escritos evangélicos. Religiosos, tornaram-se produtores de imagens bíblicas, que também passaram a compor a leitura visual de pessoas iletradas. Estas ilustrações tiveram a mesma força das palavras escritas, compunham verdadeiras “cartilhas”de educação e conduta, permitindo a leitura no mundo medieval. Sobre a educação na Idade Média, Jélvez (2008, p. 31) diz, Por longo tempo temos os mosteiros como quase os únicos espaços educativos da época. Os homens que optavam por seguir uma vida religiosa iam para essas instituições, onde ficavam sujeitos a regras rígidas de conduta. Leigos também freqüentavam os mosteiros e recebiam a mesma educação dos futuros padres, mas, aos dezoito anos, poderiam optar entre o sacerdócio e o matrimônio. Esses mosteiros tiveram um papel importante no que tange à cópia e à conservação de manuscritos antigos.

Exemplo de iluminura encontrada em livro da Idade Média (Fonte: RICARDO, 2010)

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Independente de toda a História da Arte, cada um de nós tem o que tomo a liberdade de chamar de, “livro de imagens” pessoal, enquanto iniciantes no processo de leitura de imagens. Esclareço que ainda não me refiro a métodos de aprendizagem do ensino da Arte, porém ao conjunto de informações, a “bagagem afetiva” citada no capítulo I. Nossos primeiros educadores estão na família. As experiências vividas principalmente na infância, podem ser consideradas norteadoras, refletidas em nossas vivências posteriores. Lembranças como a memória musical, sabores, odores, brinquedos, jogos, comemorações, hábitos domésticos, religiosos, programas familiares e objetos pessoais fazem parte de um universo que é guardado ou compartilhado com nossas amigos, amores, colegas, criando nossa identidade. Pessoas nascidas e criadas sob a mesma cultura e até a mesma família, podem ter visões diferentes da vida apesar de vivenciarem determinados hábitos em comum. A forma como lançamos nosso olhar sobre o mundo é que nos torna únicos. E essa singularidade é a peça-chave a ser explorada no estudo da Arte. À medida que atuamos na sociedade, estabelecemos uma constante troca de informações, captamos novas, divergentes e semelhantes interpretações sobre um mesmo assunto ou conteúdo, formando uma teia de memórias, que deve ser renovada. O estudo da Arte, através do uso de imagens, promove esse enriquecimento. Porém, para estudarmos Arte através das imagens, e atingirmos esse grau de renovação da “rede de riquezas” são necessárias mudanças significativas na prática do ensino. Sobre as interferências inconscientes e afetivas no processo de criação artística dos alunos, Duarte (1993, p. 4/5) diz que, É fundamental que o professor de Arte compreenda que todo processo de criação em Arte mexe, revolve, tumultua, experiências passadas, a história de vida de cada um. De posse deste conhecimento, e sem ser psicólogo ou especialista em psicologia, compete-lhe permanecer no seu espaço de trabalho, evitando experiências para as quais eventualmente não esteja preparado.

Exemplificando o que ocorre em uma determinada escola, considera-se o ensino da Arte uma “atividade” secundária para os alunos, o que deveria ser 47


encarado como qualquer outra disciplina da escola, passa a ser um período vago na grade de horários semanais, que pode ser ministrado por professores encarregados de outras disciplinas. Sem interesse e conhecimento das mudanças provocadas pelos PCNs, o “período”, que ainda é chamado de Educação Artística também passa a ser usado para passeios escolares, conforme o calendário da escola. Diria que estão nesses “passeios” as raras oportunidades que os alunos têm de interagir com o meio cultural, assistindo espetáculos teatrais, visitando museus de Arte, ciência e tecnologia. O fator preocupante dessa modalidade de ensino, está na falta de comprometimento dos professores encarregados pelo “passeio”. Não há nenhum estudo ou esclarecimento prévio aos alunos sobre o local a ser visitado, e, principalmente a temática, o motivo, o conteúdo, a razão pelo qual deslocaram-se da escola. Os resultados dessa prática são muitos, como a falta de estudo, anterior e posterior ao que viram, criando um acúmulo de informações que não são divididas em aula, como se o museu e as próprias imagens de Arte pudessem substituir o diálogo, a interpretação, o conhecimento do que foi visto, tornando a volta para sala de aula uma experiência vazia e desestimulante. O que quero destacar deste exemplo, entre tantas outras escolas de Ensino Fundamental e Médio, é o notável abismo que existe entre Arte e educação. Essa falta de motivação para trabalhar com imagens da Arte e seus autores, é lamentável, diante de todo o conhecimento, a cultura, as vivências dos alunos, que estão à espera de um agente transformador, que acione o potencial criativo e crítico por tanto tempo contido. A escola deve considerar o convívio com a diversidade, que é um valor positivo da contemporaneidade e vai de encontro com a vida dos alunos, a medida que o artista também utiliza objetos retirados de sua própria vida, vivências, experiências e atitudes. Somos diariamente bombardeados pelas mais diversas formas de divulgação da mídia: filmes publicitários, catálogos de perfumaria, vestuário, eletroeletrônicos, panfletos, chamadas de televisão e rádio, gingles, outdoors, capas e editoriais de revistas,cartazes. 48


Imagem publicitária da Coca-Cola da África do Sul (Fonte: YPSILON, 2010)

A mídia divulga o que consumimos, como o cinema, a moda, a música, produtos alimentícios. Os pontos de captação da mídia estão a nossa disposição e fazem parte da nossa rotina diária. A televisão, o rádio, a Internet com seus jogos, sites de divulgação e relacionamento, as bancas de revistas e jornais, as livrarias, as vitrines de lojas, os supermercados. Toda a manifestação publicitária e artística divulgada pela mídia, como o cinema e o vídeo, estão apoiadas na pesquisa e no estudo da criação, manipulação e consumo da imagem, permitindo que nós, consumidores através da imagem, façamos uma leitura das propostas que nos são direcionadas. Toscani, citado por Calligaris (1996,p.89), afirma: A publicidade é hoje mais formadora de nossa subjetividade do que o ensino escolar. Ela é a maior expressão de nossa época, quantitativamente pelos investimentos que mobiliza, e qualitativamente por seu protótipo cultural, pois o consenso da razão contemporânea parece ser feito de imagens de sonho que nos convidam: „sejam como nós, imagens publicitárias‟.

Aproveitando esse momento de sedução e encantamento pelas imagens da publicidade, podemos redirecionar o ensino da arte, trabalhando a leitura de imagens através dos meios de produção e divulgação de imagens. A facilidade com a qual captamos mensagens e formamos opiniões diante das imagens da mídia contemporânea, abre a possibilidade para trabalhar a leitura de imagens da Arte na educação. 49


Vitrine da loja de vestuário C & A (Fonte: ELER, 2010)

No texto de Pillar (1999, p. 12), segundo Gadotti no texto O que é ler? (1982, p.16 e 17), diz que: Por meio do código lingüístico o autor comunica-se, em qualquer tempo e espaço, com o leitor. Esse código é normalmente representado pelo “texto”. Por isso, para saber o que é ler, tenho que saber, antes de mais nada, o que é um texto e o que é compreender um texto. Texto vem do latim, “textus”, que significa “tecido, trama, encadeamento de uma narração, etc.” De “texere, tecer”. Um texto é, portanto algo acabado, uma obra tecida, um complexo harmonioso.

Além de apresentar para os alunos as modalidades de leituras de imagem, é necessário que haja uma seleção de imagens a serem “lidas”. Oportunizar o acesso a materiais de ensino, como livros, revistas e vídeos, que permitam ao aluno ter, mesmo que pela primeira, ou última vez na escola (no caso de uma turma de terceiro ano de Ensino Médio) um contato com a história e reproduções de obras de Arte. Algumas escolas de Educação Infantil, têm por hábito comemorarem datas como a Semana da Criança, levando seus alunos a passeios aos principais pontos da cidade, com autorização de pais e responsáveis, como uma maneira de privilegiar as crianças, que recebem nesta ocasião, um “mimo”. O que infelizmente pude observar, em um desses casos, foi a visita dos alunos a um shopping Center, com parada em uma lanchonete representante de uma conhecida rede de fast-food. Inevitavelmente me questionei sobre qual a finalidade de reunir crianças que, ao julgar serem de uma escola da rede particular, já deveriam estar 50


acostumados com programas familiares dessa natureza, poderiam comemorar com um banquete nutritivo na própria e escola, além de aproveitarem o que de melhor o estabelecimento oferece. Nunca deparei-me com passeios escolares em livrarias, que em alguns shoppings são como verdadeiros parques temáticos da literatura, cuidadosamente preparados para receber os diversos públicos de leitores, inclusive os pequenos alunos entre quatro a dez anos de idade. Seria esta, uma excelente oportunidade para que as escolas, desde cedo, cultivassem o hábito e o gosto da descoberta pela leitura, neste caso, especialmente a leitura de imagens. As próprias escolas poderiam reavaliar a organização de seus acervos literários, possibilitando, ao invés de dificultar o acesso dos alunos às suas bibliotecas, como por exemplo, abrirem estes espaços nos intervalos “recreios”, ou mesmo em dias chuvosos, quando não é possível executar atividades ao ar livre. Deixar que os alunos leiam sobre Arte, conheçam romances e seus autores, observem ilustrações, são alguns hábitos que ampliam o leque de relações que podem fazer com seu próprio mundo subjetivo, fazendo com que não fiquem à margem do conhecimento. Quando lemos sobre a vida ou obra de um artista, podemos compreender ou mesmo ter uma noção ampliada de sua prática, o que somente a observação de certas reproduções não é capaz de informar através do olhar. Como exemplo pessoal de relações subjetivas, cito um trecho da obra de Spohr e Faria (1997, P.78), Matisse e eu e uma blusa romena Visitando o museu Nacional de Arte Moderna (cujo acervo encontra-se hoje no Centro Georges Pompidou), apaixonei-me pela obra de Henri Matisse , principalmente por seu colorido, pelas figuras de odaliscas. Uma tela em especial, La Blouse Roumaine, tocou-me de tal modo que eu voltaria a admirá-la inúmeras vezes, sempre demoradamente, pois o quadro é a própria essência da simplicidade e originalidade: dá a expressão a uma mulher jovem, mãos cruzadas à frente, trajando uma blusa de traje típico da Romênia. O tecido da blusa que não é mais que a própria tela do quadro. O fato do artista ter usado a trama e a cor naturais do tecidoda tela para fazer as vezes do pano da blusa romena representou para mim um verdadeiro choque. Eu estava diante da criatividade, com “C” maiúsculo. Comprei, no próprio museu, um cartão postal desse quadro, que guardo até hoje. Os bordados da blusa são representados em traços quase infantis tipo pintura ingênua. A cor azul empregada na saia é característica da obra de Matisse e aparece sobre um fundo vermelho ocre, combinação de cores que muito impressionou-me.

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Henri Matisse, A Blusa Romena (1940) (Fonte: ALTRI, 2010)

A partir do início da década de 1990, o ensino da Arte foi marcado com a inserção de áreas fundamentais para a educação: o Fazer, a História da Arte, a Estética e a Crítica, denominada Metodologia Triangular, pela Professora Dra. Ana Mae T. Bastos Barbosa. Sobre o esclarecimento da Metodologia Triangular no ensino da Arte, Duarte (1993, p.1) diz, Esta proposta implica numa retomada com ênfase nos conteúdos “tradicionais” de ensino, visando a democratização do saber e vendo o saber erudito como um modo de ascensão e igualdade social. Mas, como indica o próprio modo como foi denominada a nova pedagogia, trata-se de um trabalho “crítico” com os conteúdos.

Poderíamos dizer que, trata-se de um importante marco na história do ensino das Artes, provando que a aprendizagem da Arte implica em sério compromisso com todas as áreas do conhecimento envolvidas, que, de maneira holística, complementam a construção do saber. Trabalhar com o ensino da Arte é trabalhar o exercício da leitura, da escrita, da oralidade, da observação, da crítica e do compartilhamento desses conhecimentos. Embora o ensino da língua oral esteja previsto nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) há mais de uma década, esta prática está longe de ser

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prioridade. Ela é confundida com atividades de leitura em voz alta e conversas informais, que não preparam para os contextos de comunicação. (SANTOMAURO, 2010, p. 43).

Abro um parêntese para uma lembrança pessoal ocorrida em minha adolescência. Em conversa com um estilista gaúcho, à procura de orientações para ingressar no trabalho com moda, obtive uma resposta que me acompanha constantemente, principalmente em minha vida acadêmica. Eu esperava ouvir dicas diretamente relacionadas ao ofício do corte e costura, da realidade de um atelier, orientações práticas para o ingresso no mercado de trabalho. As orientações que recebi, não foram de como manusear uma tesoura, uma máquina de costura ou como montar um currículo, mas sim as de aculturar-me, numa constante busca por diversas fontes de informação. Ir ao cinema, assistir espetáculos teatrais, rever o mesmo filme mais de uma vez, procurando estabelecer uma conversa entre a fotografia, o figurino, a maquiagem, a edição e todos os elementos que narram a história, ler livros e revistas, não somente de moda, mas de outras áreas, para entender os diversos contextos do que se passa no mundo. Se eu pudesse resumir a resposta para minha busca, foi a de que eu deveria fazer uma leitura do mundo para poder alinhavar as imagens que compõem o meu trabalho. Saí dessa conversa por uma busca de respostas, que foram respondidas com uma série de perguntas a mim, sobre quem eu queria ser, o que eu queria fazer além de desenhar, modelar e costurar tecidos. Trazendo este episódio para a realidade escolar, o que eu espero da proposta Triangular? (O Fazer, a História da Arte, a Estética e a Crítica). Existe uma função transversal nessa prática. A expectativa que profissionais de outras áreas do conhecimento têm sobre o ensino da Arte, volta-se para eles, para o foco que disciplinas como a História, a Geografia, a Literatura, a Língua portuguesa e as Ciências trabalham. Ou seja: o conhecimento que os alunos adquirem dessas disciplinas, a forma como são trabalhadas suas particularidades das diversas linguagens do ensino, também são peças chaves na formação da compreensão das linguagens da Arte. Não quero aqui transferir a responsabilidade sobre a falta de entendimento dos alunos nas aulas de Artes a professores de outras disciplinas. Ao 53


contrário, quero ressaltar a importância do ensino de todo o currículo escolar para o bom andamento das aulas de Arte. Cortella, citado por Paganotti (2010, p.88), em um texto sobre análises de equívocos de educadores diz que, Esqueci a lição básica de que não existe ensino sem aprendizagem. Faltou criar condições para que os alunos pudessem refletir antes de mergulhar nos textos filosóficos, trazendo questionamentos e contrapontos para provocar e preparar os jovens. Como diria Paulo Freire, (1921-1997), com quem tive a honra de trabalhar por 17 anos, é preciso fazer primeiro a leitura do mundo para depois fazer a leitura da palavra. [...] não se aprende com os erros - mas com a correção deles.

Vejamos o quanto pode ser enriquecedora uma leitura de imagem, como exemplo, a da obra Rodeio (1908), de Pedro Weingärtner, que já foi exposta no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), um dos locais visitados por alunos de escolas de Ensino Fundamental e Médio.

O Idílio (1889), Pedro Weingartner ( 1953-1929) (Fonte: MARGS, 2010)

Além de discutir os assuntos como os aspectos formais da obra, o uso das cores, a luminosidade, o realismo quase fotográfico da imagem, a vida e obra do artista ou o que a obra sugere aos expectadores, podemos trabalhar o que era a realidade e as relações de trabalho campeiro no início do século XX, a evolução da pecuária riograndense até os dias atuais, os hábitos e costumes do gaúcho, assim como o relevo, os planos, a vegetação, o clima e como nossa história foi retratada.

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Enfim, são muitos os pontos de vista a serem analisados em uma só obra. E quanto mais conhecimentos forem trabalhados com os alunos no seu currículo escolar, mais enriquecedora pode se tornar a aula de Artes. O desestímulo ao estudo, de uma maneira geral, cria uma falta de opinião e um conhecimento raso sobre as temáticas que a Arte pode oferecer. Toda a escola tem a ganhar com o bom desenvolvimento de suas disciplinas. Comentando em aula sobre a prática da Metodologia Triangular, Vitelli diz que é necessário, [...] mostrar interesse, ajudar os alunos nas aulas [...] quanto à estética, se gosto, porque gosto? Não posso fazer uma leitura “rasa” das coisas. (informação verbal)¹

Vivemos um intenso trânsito de linguagens da Arte, que trazem questionamentos como: “Qual o limite da arte para o artesanato? Ou da arte para o design?” Caracterizando esse momento contemporâneo, esse trânsito de linguagens e informações que estamos vivendo, a tecnologia está a serviço dessas linguagens e é um recurso muito usado por jovens alunos de Ensino Fundamental e Médio, que em geral, adquirem mais conhecimento e contato com esses recursos do que seus professores, que acabam perdendo oportunidades de trabalhar conteúdos em aula com tais recursos.

Produto de Design feito com sacolas plásticas (Fonte: DESIGNTHEROCKS, 2010)

Uma amostra do que muitos alunos de Ensino Médio costumam realizar, são videoclipes dos melhores momentos da turma, com a edição de imagens e gravações de aparelhos digitais, através de

softwares de computadores, 55


sonorizados com trilhas que traduzem os registros vividos pela turma, com suas legendas, efeitos visuais e sonoros devidamente elaborados, postados em sites de divulgação e relacionamento da Internet. Eis um bom exemplo de como é possível abordar a Leitura de imagens de acordo com seus próprios referenciais de (fazer, de estética, de crítica e de conhecimentos da História da Arte), através de suas habilidades tecnológicas. No texto de Callegaro (2002, p. 140), Na utilização de softwares gráficos para o ensino da Arte, no desenvolvimento de atividades artísticas propostas na Internet junto a jovens de uma escola estadual, apoiados na reflexão dos artistas da telemática e dos arte-educadores que integram o computador em suas aulas, consideramos que:, se nos trabalhos de Arte realizados no computador a autoria, a identidade, a expressão individual, a subjetividade são questionadas e ganham uma dimensão partilhada e social, na Arte da telemática essa dimensão torna-se o propósito da Arte, porque acentua as condições funcionais do intercâmbio e do circuito de mensagens;

É possível abordar a história do retrato trabalhando a vida de artistas que antes do advento da máquina fotográfica, procuravam ser fiéis à realidade. Assim como a evolução das obras após a criação da fotografia, que auxiliava-os em pesquisas de bases para os modelos de suas imagens, como exemplo em obras do artista Mucha. Formas de captação e reprodução da luz influenciaram muitos artistas, como os do movimento Impressionista, que trabalhavam com os novos ângulos de visualização de imagens, trabalhados em obras como as do artista Degas.

Hans Holbein, Retrato do Mercador Georg Gisze (1532) (Fonte: OLIVEIRA, 2010)

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Alfonse Mucha, foto estudo como base para o desenho (Fonte: RR, 2010)

No texto da Coleção Folha Grandes Mestres da Pintura, (2007, p. 6), sobre Edgar Degas, [...] Fascinado pela fotografia, explorou-a como técnica e linguagem. Segundo Paul Valery, “foi um dos primeiros a entender o que a fotografia poderia ensinar ao pintor, e o que o pintor deveria tomar emprestado dela”. Sua pintura, muitas vezes, revela a percepção do olhar fotográfico, o flagrante do instante e o enquadramento do espaço e das figuras.

Eduard Degas, A Estrela (Ballet) detalhe (1876-1877) (Fonte: WIKIMEDIA, 2010)

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Outro tema que procura ser trabalhado pelo ensino da Arte é o “combate” ao uso de imagens estereotipadas, que tornou-se uma ferramenta comum, utilizada vastamente, em escolas de Educação Infantil, no Ensino Médio e Fundamental, em cursos profissionalizantes da área da educação e mesmo em Universidades. Os desenhos estereotipados que as crianças aprendem a fazer desde os primeiros anos de ensino, geralmente são compostos por formas simplificadas de traçar personagens e objetos, que erroneamente são dotados de “vida”, contendo expressões sorridentes, além de hábitos humanos em animais e objetos. Árvores, montanhas, sol, lua, casas e flores esquematizadas da mesma forma em desenhos de inúmeras crianças de diferentes pontos do país, são a prova de que há um equívoco na prática artística de alunos, que nem poderíamos citar como um percurso de processo criativo, pela falta desse processo. Os educadores que hoje divulgam o estereótipo, foram as crianças de ontem, que aprenderam a interpretar o mundo graficamente de maneira simples, através de livros didáticos, enfeites, desenhos de familiares e professores. Completando o esse círculo vicioso, esses educadores continuam enfeitando suas salas de aula, o caderno dos alunos e seu próprio material de trabalho, reforçando aos alunos e seus pais, a normalidade dessa prática. A busca de educadores da área das Artes, pela normalização de um sistema distorcido de tais imagens, gera conflitos nas escolas, principalmente na Educação Infantil, no qual o professor de Artes é visto como um decorador do espaço escolar, a serviço de caprichos do apelo visual que essas imagens proporcionam: de que desenhos de formas arredondadas do mundo, podem sorrir, criando uma cansativa fantasia. O que ocorre no ensino da Arte, com raras exceções nas escolas, é, além da falta de professores especializados, um despreparo das instituições para receber a Arte. Os desenhos estereotipados empobrecem a percepção e a imaginação da criança, inibem sua necessidade expressiva, embotam seus processos mentais, não permitem que desenvolva naturalmente suas potencialidades. Estereotipar quer dizer simplificar, esquematizar, reduzir à expressão mais simples (VIANNA, 1994, p. 1/4).

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Ovelha de presĂŠpio (Fonte: MACEDO, 2010)

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CAPITULO III

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3. PROJETO E PRATICA DE ENSINO EM ARTES VISUAIS 3.1. Projeto Educativo de Ensino Título do Projeto: O Olhar além da Contemplação Nome do autor do Projeto: Daniela Karg Nome e endereço da Escola: Escola Estadual de Ensino Médio Margot Terezinha N. Giacomazzi, localizada na rua Arroio do Sal, nº 55, bairro Estância Velha, Canoas/RS. Professor: Rogério Madeira Calvetti Série: Terceiro ano do Ensino Médio Turma: 301 Turno: Manhã: das 11h. 15min. até as 11h. 55min.

3.2. Dados gerais do projeto de ensino

Justificativa: A justificativa deste projeto encontra-se fundamentada nas observações e entrevistas com alunos e professores. Para saber mais sobre uma imagem, é necessário que tenhamos o hábito de analisar e identificar sua estrutura formal, saber sobre a história de quem produziu, assim como o contexto em que foi criada.

Objetivo Geral: Para entender o mundo das imagens no qual estamos inseridos, é preciso ter um olhar especializado, além da mera contemplação, ter opinião de forma crítica, para decodificar as imagens e dar-lhes um novo significado, relacionando a visão com os outros olhares sobre diversos temas.

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Objetivos específicos: Identificar o título do Projeto e apresentar uma visão geral do tema a ser trabalhado; Comparar e relacionar imagens da Arte e da Mídia; Perceber como as imagens foram produzidas e por quais autores; Praticar e analisar outras formas de produção de imagens; Ler e identificar imagens formalmente; Perceber como foram produzidas e por quais autores; Fazer relações entre o contexto estudado, com a sua própria realidade; Comparar e relacionar imagens da Arte e da Mídia. Criar uma imagem publicitária ou produto com base em imagens da História da Arte. Analisar outras formas de produção de imagens; Criar ou reproduzir símbolos, dando-lhe significado pessoal.

Conteúdos envolvidos: Apresentação do Projeto – O Olhar além da contemplação; Vik Muniz; História da Arte; Releitura; Leitura de imagem; Publicidade; Mídia; Consumo; Cow Parade; Símbolos;

Metodologias: Expositiva dialogada; Análise de imagens da Arte; 62


Apresentação e apreciação de imagens e vídeos projetados por multimídia; Trabalho em grupos; Análise de imagens publicitárias; Criação de imagens e produtos; Apresentação de imagens e produtos; Arte Contemporânea; Pratica do ensino

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3.3. Pratica de Ensino

3.3.1. Primeira Aula TEMA: O Olhar além da contemplação Duração: 50 min Série: Terceiro ano do Ensino Médio

Objetivos Identificar o título do Projeto e apresentar uma visão geral do tema a ser trabalhado Comparar e relacionar imagens da Arte e da Mídia

Conteúdo Apresentação do Projeto – O Olhar além da contemplação

Metodologias Expositiva dialogada. Análise de imagens: “As três espiãs” (desenho animado) e “As três Graças”, de Rubens. “Davi”, de Michelangelo e o “Super Homem”. “Mona Lisa”, de Leonardo da Vinci e a fotografia de uma “menina afegã”, por Steve Mccurry.

Desenvolvimento Apresentação de Projeto ressaltando a diferença entre olhar imagens e estudá-las. O olhar deve ser acostumado a ir além da contemplação, que consiste em olhar, admirar, apreciar, meditar, refletir, levar em consideração uma imagem. Podemos ampliar as possibilidades de entender uma visualização, procurando desvendar o que compõem a imagem, do que é feita, como foi

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elaborada e podemos, nesta procura, encontrar elementos que também fazem parte da nossa história visual e afetiva, entre outros aspectos. O ato de olhar é algo que fazemos mecanicamente, porém o ver está mais próximo da proposta do projeto, que consiste em captar as imagens não apenas através dos olhos, mas fazer-se presente no contato com a imagem. Como objetivo maior do meu projeto, teremos o princípio de um estudo para fazermos relações de nossa vida com o que o mundo tem a comunicar através de imagens. Entender imagens, buscando entender nossas escolhas. Assim, pergunto: Em que a História da Arte ou a mídia podem

influenciar, direcionar,

entorpecer e até bombardear nossa visão? Mostrarei para a turma imagens da Arte, ao lado de imagens da Mídia e pedirei que os alunos falem sobre relações existentes entre as duas imagens, comparando-as: “As três espiãs” (desenho animado) e” As três Graças”, de Rubens “Davi”, de Michelangelo e o “Super Homem” “Mona Lisa”, de Leonardo da Vinci e a fotografia de uma “menina afegã”, por Steve Mccurry

As Três Graças, de Rubens. (Fonte: MANIERO, 2010) As Três Espiãs. (Fonte: JULII, 2010)

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Davi, de Michelângelo. (Fonte: FAGUNDES, 2010) Super Homem. (Fonte: BOTELHO, 2010)

Mona Lisa. (Fonte: ARTOFFER, 2010) Menina afegã. (Fonte: McCURRY, 2010)

Recursos/Técnicas Reproduções de imagens de obras de Arte e de imagens da Mídia

Realizado: Data: 16/08/10 Entrei na sala de aula da Turma 301 com o professor Rogério. Dei “bom dia” aos alunos e pedi licença para ir à sala de vídeo preparar o Datashow. Enquanto o professor faria a chamada para levá-los até a sala de vídeo. 66


Com o auxílio da secretária da escola, organizei as cadeiras da sala e instalei o Datashow. Assim que os alunos entraram na sala, acompanhados pelo professor Rogério, sentaram em grupos, formando fileiras distintas de organização pessoal. Haviam 30 alunos presentes. Perguntei se haviam alunos novos, apenas uma aluna se manifestou, e essa eu ainda não conhecia. Apresentei-me novamente e dei início à introdução do meu projeto. Expliquei para a turma o nome do meu projeto (O olhar além da contemplação), ressaltando a importância de educarmos nosso olhar, principalmente agora, que vivemos com o avanço da tecnologia e da indústria da imagem. A Arte e a mídia invadem nossas vidas com mais frequência, não mais apenas em museus ou livros e revistas específicas. Questionei a turma sobre o fato de sermos induzidos ao consumo através de imagens, somos nós os consumidores, ou os consumidos? Pedi a todos que colaborem durante nossos encontros, disponibilizando seus trabalhos para meu registro de imagens, que serão divulgados em meu trabalho

acadêmico,

assim

como

a

aquisição

dos

materiais

que

pedir

posteriormente. Perguntei se havia alguma dúvida sobre as minhas palavras, ou alguma pergunta. Todos permaneceram em silêncio. Expliquei que as imagens que seriam projetadas lado a lado, fariam parte do início de um exercício de percepção. Que eles não deveriam se preocupar em falar o que vissem ou o que sentissem diante das imagens. As primeiras duas imagens projetadas foram: “Mona Lisa” e “A menina afegã”. Imediatamente houve uma explosão de comentários, todos falavam ao mesmo tempo, entre risos e espanto. Pedi que, com calma, todos pudessem falar, ouvindo cada colega. A menina afegã foi a imagem mais comentada. A maioria dos alunos ficou com medo, afirmando que ela tinha um olhar de pânico, de terror, de ódio, que estava olhando pra eles. Um dos alunos, o que mais participou, disse que se tratava da imagem de uma menina pobre, miserável, com as roupas rasgadas e sujas, o local no qual ela estava era tão feio, que no segundo plano poderiam ser vistas pichações. 67


A imagem da Mona Lisa foi apontada como uma mulher de ar superior e mistério, rica, sem sobrancelhas, com uma paisagem ao fundo. Questionei sobre como eles sabiam que ela era rica. A resposta foi apontada por suas roupas da nobreza, sua postura elegante e as suas mãos. A segunda sequência de imagens foram: “As três graças” e “As três espiãs”. Muitos risos e olhares de aprovação. A maioria das alunas ficaram radiantes ao verem as personagens do desenho animado, segundo uma delas, “o único desenho bom que ainda passa na TV Globinho”. Ao questioná-los sobre a imagem das “Três graças”, o mesmo aluno que havia falado sobre a menina afegã, perguntou se aquelas também seriam “Graças” de Botticelli. Ao responder que não eram, o aluno logo concordou. Disse que apesar delas serem feias, estavam felizes, pois dançavam. Todos queriam falar ao mesmo tempo, as palavras mais ditas foram: gordas, celulite, feias, horrorosas. Uma aluna disse que aquela era a “beleza da época”, outros ficaram tentando decifrar o que havia nos outros planos da imagem. Quando questionados sobre “As Três espiãs”, as respostas foram quase que unanimes, poucos alunos não falaram nada. Disseram que elas eram lindas. Perguntei como eram seus corpos? “Esculturais!”, falou uma das alunas. Outra aluna disse que a espiã ruiva parecia dançar, pela posição de suas mãos e, uma outra aluna disse que elas eram más, podiam fazer qualquer coisa. Ao perguntá-los porque elas podiam fazer qualquer coisa, a resposta foi: “pelos olhos delas, são poderosas!”. Conforme descreve Mc Robbie, (1995, p. 49), sobre telenovelas, as expectadoras (mulheres) se perdem nos sujeitos com as quais os sentimentos mais íntimos elas se identificam, como formas de auto-questionamento sobre quem eu sou e como eu quero ser, ou como eu espero ser. As últimas duas imagens projetadas foram “Davi” e o “Super Homem”. Todos riram muito. A nudez de Davi os deixou curiosamente envergonhados, mas insisti que falassem sobre a imagem. Uma aluna afirmou que ele estava dentro de um museu, outro aluno disse que ele era “narigudo”, todos riram. Porém, riram mais ainda quando outra aluna falou que ele tinha um “pinto pequeno”. 68


O aluno que considerei mais participativo, foi muito crítico, disse que ele era loiro, estava pensando como iria matar o gigante com uma pedra na mão. Perguntei a ele se realmente, do ângulo em que estava posicionada a mão de Davi, era possível ver a pedra. Percebi que, o que estava em evidência era o conhecimento prévio que aquele aluno tem sobre as imagens, porêm, ele pouco as observava. Perguntei se mais alguém “via” que Davi era loiro. Alguns alunos disseram que ele era moreno. Sobre a teoria de Piaget, segundo Pillar (1999, p. 13), Desse modo, o observável tem sempre a marca do conhecimento, da imaginação de quem observa, ou seja, depende das coordenações do sujeito, das estruturas mentais que ele possui no momento, as quais podem modificar os dados. Assim, duas pessoas podem ler uma mesma realidade e chegar a conclusões bem diferentes. Isto porque, o que o sujeito aprende em relação ao objeto depende dos instrumentos de registro, das estruturas mentais, das estruturas orgânicas específicas para o ato de conhecer, disponíveis naquele momento.

Quanto à imagem do Super Homem, alguns alunos disseram que era “sem graça”, porque só tinha uma coisa azul e branca no fundo (o planeta Terra envolto por nuvens). Uma aluna disse que ele estava pairando no ar, com sua capa “pra cima”. Outra disse que era “muito gay”, novamente, risos. Perguntei o quê era “muito gay” naquela imagem. Ela respondeu que as duas imagens juntas (Davi e Super Homem) eram gays, as posições deles, assim como a roupa colada do Super Homem eram gays. O professor Rogério observava todos com muita admiração. Ao final do período pediu que os alunos voltassem para a sala de aula, eles saíram aos poucos, sem arrumar a sala, despedindo-se de mim. Arrumei meu material e o data show com a ajuda do professor, em seguida, outra turma já estava entrando na sala.

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3.3.2. Segunda Aula TEMA: O Olhar além da contemplação Duração: 50 min Série: Terceiro ano do Ensino Médio

Objetivos Perceber como as imagens foram produzidas e por quais autores; Praticar e analisar outras formas de produção de imagens;

Conteúdos Vik Muniz; História da arte; Releitura.

Metodologias Expositiva dialogada. Apresentação e apreciação de imagens e vídeos projetados por multimídia.

Desenvolvimento Apresentar para os alunos a vida e obras do artista plástico Vik Muniz, explicando o desenvolvimento de suas técnicas de reprodução de imagens a partir de outras imagens, os temas dos seus trabalhos, alguns da História da Arte, com materiais não convencionais, retirados do cotidiano contemporâneo.

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Auto-retrato, de Vik Muniz. (Fonte: SANTâ€&#x;ANNA, 2009)

Imagens de lixo. (Fonte: CAETANO, 2007)

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Sucata de brinquedo. (Fonte: CAVALCANTE, 2010)

Narciso depois de Caravaggio, por Vik Muniz. (Fonte: JUNK SERIES, 2005)

Recursos/TĂŠcnicas Datashow; Material de uso comum.

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Realizado: Data: 23/08/10 Entrei na sala de aula da turma 301 enquanto os alunos se acomodavam em suas classes. Cumprimentei-os. Enquanto o professor Rogério não chegava para irmos à sala de vídeo, adiantei o assunto que trataria com eles, as obras do artista plástico Vik Muniz, sobre o qual nenhum aluno tinha informações prévias. Assim que o professor chegou e cumprimentou a todos, perguntei a ele sobre a chamada da turma, se ficaria sob minha responsabilidade? Respondeu que poderia ficar com ele. Fomos todos para a sala de vídeo, mas antes, solicitei que os alunos levassem materiais para anotações durante a aula, caso necessário. A secretária da escola já estava instalando o Datashow, pediu o meu notebook para ligar os cabos e, antes que eu solicitasse, um aluno levantou-se e me auxiliou na instalação. Rapidamente, todos sentaram nas cadeiras, não mais em grupos distintos como na aula anterior, mas num grande grupo horizontal, bem próximos a mim, sem que eu pedisse para que se organizassem. O professor Rogério terminou de fazer a chamada e pediu licença para sair da sala. Fechei a porta e apaguei as luzes para começar a aula. Expliquei para a turma que optei por não fazer um Power point com textos para a aula não ser cansativa, ao invés disso, mostraria três vídeos nos quais o próprio artista falaria de seu trabalho, o processo criativo, assim como amostras de suas exposições entre outros dados. Durante toda a apresentação dos vídeos, o silêncio e a concentração da turma me impressionaram. Pude fazer a contagem de trinta alunos presentes, muito atentos às informações apresentadas. O que pude perceber, foram sorrisos, não vi anotações, mas exclamações de surpresa. Depois da visualização dos vídeos, perguntei se eles tinham dúvidas ou gostariam de falar sobre o trabalho de Vik Muniz. Nenhuma manifestação.

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Conforme Arslan (2004, p. 10), “muitos adolescentes sabem pouco sobre as imagens cotidianas, que utilizam recursos visuais semelhantes ao da produção artística oficial. A vida contemporânea não permite essa interpretação.” Passei para a apresentação de mais imagens de obras do artista, para que fossem observadas e comentadas com mais atenção. O mesmo aluno que me auxiliou na instalação do notebook, já estava posicionado ao lado do aparelho, e começou a passar as imagens para que eu pudesse ficar à vontade, enquanto falava sobre elas. As série de trabalhos “Crianças de açúcar”, foi vista com suspiros de satisfação: “que lindo... que amor” . A série “Imagens de lixo” logo foi identificada com o trabalho mostrado na abertura da novela “Passione”, assim como a imagem da capa do CD do grupo “Tribalistas”, confeccionado com chocolate, deixou-os mais familiarizados com o artista, situando-os no contexto de imagens conhecidas pela turma. As imagens da série “A bela Terra” foram vistas como sem graça, por uma aluna que posteriormente perguntou se o artista comprou todos aqueles diamantes usados para as obras da série “Imagens de Diamantes”. Respondi que provavelmente sim, considerando o longo tempo dedicado na confecção das obras e o poder aquisitivo que Vik Muniz adquiriu durante sua trajetória como artista, com obras vendidas a altos valores, já arrematadas em leilões por até 150 mil dólares. Expliquei que suas obras de grandes proporções são confeccionadas por muitas pessoas que trabalham na colaboração de seu processo criador, fato cada vez mais visto entre os artistas contemporâneos, e também por artistas da História da Arte que, apesar de serem autores das idéias de seus trabalhos, utilizam-se do auxílio de mais pessoas. Ao verem uma imagem do artista fotografando em um “lixão”, alguns alunos citaram o passeio que fizeram com o outro terceiro ano em um “lixão”. Estamos constantemente em contato com informações e estímulos visuais que fazem parte do nosso cotidiano, sejam objetos de uso doméstico, escolar ou de trabalho. Imagens que pela lógica e a razão por tanto tempo acostumadas a fazerem as mesmas relações, entram em conflito e abrem suas possibilidades de interação, quando relacionadas à Arte contemporânea.

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Segundo Cocchiarale (2006, p.14), “O artista contemporâneo nos convoca para um jogo onde as regras não são lineares, mas desdobradas em redes e relações possíveis ou não de serem estabelecidas.” A última imagem do Power point foi mostrada assim que acabou o período. Os alunos levantaram-se lentamente e dirigiram-se para a sala de aula, enquanto se despediam. O professor Rogério chegou em seguida, com instruções para que o Datashow permanecesse na sala de vídeo.

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3.3.3. Terceira Aula TEMA: O Olhar além da contemplação Duração: 50 min Série: Terceiro ano do Ensino Médio

Objetivos Ler e identificar imagens formalmente. Perceber como foram produzidas e por quais autores. Analisar outras formas de produção de imagens. Fazer relações entre o contexto estudado, com a sua própria realidade.

Conteúdos História da arte. Leitura de imagem.

Metodologias Expositiva dialogada. Apresentação e apreciação de imagens. Trabalho em grupos.

Desenvolvimento Pedir para que os alunos formem grupos para receberem reproduções de obras dos artistas: Gauguin, Klimt, Vincent Van Gogh, Frans Marc e Rubens. Após, escreverei no quadro as etapas de uma leitura de imagem, segundo o autor Edmund Feldman, explicando cada uma delas. Solicitarei que cada grupo faça uma leitura da imagem recebida.

Recursos/Técnicas Material de uso comum Reproduções das obras: O Beijo (1907-1908), de Klimt;

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Dança das Quatro Camponesas da Bretanha (1886) e Passatempo “Arearea” (1892), de Gauguin; Dança dos camponeses (c.1636), de Rubens; Cavalo na Paisagem (1910), de Frans Marc; Os Girassóis (1888), de Vincent Van Gogh.

O Beijo (1907-1908), de Klimt. (Fonte: KARG, 2010)

Dança das Quatro Camponesas da Bretanha (1886), de Gauguin. (Fonte: KARG, 2010)

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Passatempo “Arearea”(1892), de Gauguin. (Fonte: KARG, 2010)

Dança dos camponeses (c.1636), de Rubens. (Fonte: KARG,2010)

Cavalo na Paisagem (1910), de Frans Marc. (Fonte: KARG, 2010)

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Os Girassóis (1888), de Vincent Van Gogh. (Fonte: KARG, 2010)

Realizado: Data: 30/08/2010 Entrei na sala da turma 301 e me dirigi à mesa do professor. Cumprimentei os alunos, que sentaram em suas classes. Esperei que todos entrassem na sala para fechar a porta e explicar como seria nossa aula. Pedi que formassem grupos, que não ultrapassassem cinco integrantes. Lentamente todos foram formando seus grupos, estavam com mesas e cadeiras, não mais com cadeiras de mesas “embutidas”. Um grupo no fundo da sala formou-se com seis participantes, pedi que um deles fosse para outro grupo, para uma melhor distribuição de alunos. Brinquei, explicando: “É um procedimento simples, no qual não caem cabelos, nem unhas, não machuca ninguém, não engorda, mas também não emagrece!” Todos riram, um aluno do grupo levantou-se para trocar de grupo dizendo: “Que pena que não emagrece!” Distribuí entre os grupos as reproduções das obras dos artistas: Gauguin, Klimt, Van Gogh, e Franz Marc. Perguntei onde estavam as canetas para o quadro? 79


A aluna líder da turma pediu licença para buscá-las na secretaria. Enquanto isso, eu disse para todos que iríamos exercitar a prática da leitura de imagem, mas que ninguém se preocupasse com o exercício, já que seria a primeira vez que todos fariam tal experiência. Pedi que todos escrevessem em seus cadernos, cada etapa do trabalho, pois cada aluno tem a sua própria visão da imagem, para montarem um único texto no final. A líder da turma voltou para a sala com duas canetas. Expliquei no quadro a teoria de Edmund Feldman. Resumidamente, disse que ele é um dos autores que estudou sobre como ler imagens, e que escolhi sua teoria para fazermos o exercício. Porém, lembrei-os de que não existem regras fechadas para lermos imagens, como etapas de uma receita de bolo, mas que aquelas que eu explicaria, auxiliariam a compreender uma leitura, de acordo com o formato de nossas aulas, com pouco tempo para explorar mais as possibilidades de leitura. Escrevi no quadro as principais etapas de uma leitura, segundo Edmund Feldman: Descrição, análise formal, interpretação e julgamento. Enquanto eu escrevia, os alunos anotavam as informações em seus cadernos. Sobre a descrição das imagens, pedi que os alunos anotassem o título das obras, o nome dos autores, as técnicas utilizadas nas pinturas, as épocas as quais foram feitas, mas principalmente, o tipo de representação (figurativa, ou abstrata), o modo como pareceu serem elaboradas, com quais ferramentas lhes pareceu terem sido feitas. Como são as formas, as cores, o espaço, os volumes observados? Como tais objetos estão dispostos? Em quais direções foram distribuídos os elementos da obra? Enfim, pedi que listassem tudo que fosse observado atentamente nas reproduções. Quanto à análise formal, pedi que eles observassem apenas as relações entre os elementos e formas da imagem, como estão dispostas, as cores, as texturas, as manchas, os volumes. Como estão dispostas as formas, na horizontal ou vertical, ou diagonal? Quais relações existem entre esses elementos da superfície da imagem? Existem contrastes de luz e sombra? As cores são sobrepostas? A superfície dos objetos é tratada da mesma forma em toda a imagem? Existe contorno definido nos objetos?

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Pedi que os alunos me perguntassem qualquer dúvida sobre o que eu estava falando, pois era normal o fato de não entendermos ou não conhecermos mais sobre essa prática. Alguns alunos concordaram com o que eu falei, acenando com a cabeça, nenhum deles perguntou algo, apenas anotavam o que eu falava. Gombrich, segundo Ferreira (2008, p.5) afirma: Nunca se acaba de aprender no campo da arte. Há sempre novas coisas a descobrir. As grandes obras artísticas parecem ter um aspecto diferente cada vez que nos colocamos diante delas. Parecem ser tão inexauríveis e imprevisíveis quanto seres humanos de carne e osso. É um mundo excitante, com suas próprias e estranhas leis, suas próprias aventuras. Ninguém deve pensar que sabe tudo a respeito delas, pois ninguém sabe.

Para o estágio da interpretação, pedi que a turma não tivesse receio de se arriscar em terem opiniões sobre as imagens, que tentassem organizar suas observações dando significado, independente do que para eles o artista realmente quis dizer com sua obra. Que sentimentos a imagem lhes passa? Neste momento, busquei exemplificar o que geralmente ocorre com nossas escolhas por determinadas capas de cadernos, de livros, de posters de filmes, de estampas de tecidos, ou mesmo o que nos faz não gostar de certas imagens. A forma como os elementos de tais imagens

são

organizadas,

pintadas,

fotografadas,

dispostas,

iluminadas,

esfumaçadas, coladas, recortadas, enfim, o conjunto que observamos, nos dá sempre uma opinião sobre a imagem. Percebi que neste momento da minha fala, os olhares da maioria da turma se voltaram para mim, e suas expressões já não eram mais tão sérias, como se estivessem entendendo o que eu queria dizer sobre interpretar imagens. No estágio do julgamento, expliquei que a imagem pode ser justificada por três filosofias: formalista, expressivista ou instrumentalista. Novamente, orientei-os sobre cada uma das três filosofias. A primeira, como uma forma de ressaltar o modo como foram tratados os elementos que compõem a imagem, se essas formas são importantes visualmente, dando harmonia, ou atenção especial à técnica utilizada pelo artista.

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A segunda, como o próprio nome sugere, quando a obra expressa a profundidade ou intensidade que estão relacionados ao modo como o artista trabalhou seus matérias. Perguntei se algum aluno já havia visto obras de Van Gogh ou Iberê Camargo. Um aluno levantou a mão e disse que esteve na exposição do MARGS, na qual uma obra do artista Van Gogh foi exposta (o mesmo aluno que trocou de grupo e que, na primeira aula, foi o mais participativo). Seu raciocínio pareceu concordar com minha explicação, pois ele disse que é possível “sentir o jeito que ele usou o pincel”, referindo-se aos volumes e formas de marcar as tintas em suas composições. Embora todos estivessem rindo do colega, que também achou engraçada a forma como se expressou, usei a sua frase como exemplo para concluir a explicação, pedi que a turma pudesse “sentir os pincéis”, buscando observar as emoções que parecem ter sido usadas ou provocadas nas imagens. Finalmente, na etapa instrumentalista, utilizei outro exemplo para que a turma pudesse compreender esse termo. Percebi que ao falar de outras situações para chegar a um mesmo fim, os alunos compreendem e de certa forma até interagem com minha explanação. Lembrei-os das ruas do centro de Porto Alegre. Perguntei: “Quem já reparou na quantidade de prédios históricos que vemos na cidade?” Todos afirmaram com a cabeça que sim. Disse que, como expressão artística, que a arquitetura realmente foi considerada, as casas, prédios, igrejas, palácios, teatros e outros tantos estabelecimentos, indicam hoje a importância social para a qual foram criadas em sua época. A beleza ou o estranhamento de suas fachadas estão relacionadas aquelas instituições as quais eram destinadas. Segundo Santos (2008, p. 11), “À medida que implicamos os alunos a entrar no corpo da cidade alteram-se igualmente as práticas de ensino, ampliando procedimentos pedagógicos ao trazer a realidade urbana para o leque de possibilidades e assuntos da arte.” Semelhante fato ocorre ao analisarmos uma imagem. Qual utilidade a imagem tinha para sua época? Para quem ou qual sociedade ela foi realizada? Podemos considerar a imagem analisada como documento de pesquisa histórica, 82


social, que retrata valores educacionais, religiosos, ou de hábitos, costumes e trabalho de determinadas pessoas? Acreditei que os alunos tenham compreendido minhas palavras, o tempo já estava curto para seguirmos o trabalho, enquanto a turma observava suas imagens, fui chamada pelo grupo do aluno “participativo”, que me questionou a forma como as figuras retratadas em sua imagem estavam vestidas, por que motivo as mulheres estavam com seios à mostra (Dança dos camponeses). Disse-lhes que Rubens, em seu estilo barroco de pintar, mostrava toda a sensualidade de motivos mitológicos que ele trabalhava. O estilo clássico dos gregos e romanos dominava as obras de seu tempo. Ao falar isso, o aluno apontou para a figura arquitetônica no último plano da imagem e disse: “claro!”, enquanto sinalizava as colunas que formavam a casa. A forma como se vestiam, também condizia com os hábitos e as ações que as figuras mitológicas eram retratadas (naquele caso, as camponesas que dançavam com sátiros). Ao término do período, o professor Rogério entrou na sala, disse que não quis me atrapalhar durante a aula e começou a fazer a chamada com a turma, que já estava dispersa, devolvendo as imagens. Disse aos alunos que na próxima aula voltaremos ao trabalho em grupos.

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3.3.4. Quarta Aula TEMA: O Olhar além da contemplação Duração: 50 min Série: Terceiro ano do Ensino Médio

Objetivos Ler e identificar imagens formalmente. Perceber como foram produzidas e por quais autores. Analisar outras formas de produção de imagens. Fazer relações entre o contexto estudado, com a sua própria realidade.

Conteúdos História da arte. Leitura de imagens.

Metodologia Expositiva dialogada. Apresentação e apreciação de imagens. Trabalho em grupos.

Desenvolvimento Continuando a aula anterior, distribuirei cópias de um resumo sobre Leitura de Imagens, segundo o autor Edmund Feldman. Pedirei que os alunos formem grupos e façam as leituras das reproduções de obras dos artistas: Gauguin, Klimt, Vincent Van Gogh, Frans Marc e Rubens.

Recursos/Técnicas Material de uso comum. Texto fotocopiado. Reproduções das obras: “Dança das Quatro Camponesas da Bretanha” (1886) e “Passatempo „Arearea‟” (1892), de Gauguin; 84


“Dança dos camponeses” (c.1636), de Rubens; “Cavalo na Paisagem” (1910), de Frans Marc; “O Beijo” (1907-1908), de Klimt; “Os Girassóis” (1888), de Vincent Van Gogh.

Realizado: Data: 08/09/2010 Entrei na sala de aula da turma 301 e percebi que haviam poucos alunos, apenas dezoito. Cumprimentei-os e pedi que fizessem seus grupos. Apenas dois grupos estavam completos e uma aluna de outro grupo ficou sozinha representando seus colegas. Distribui as reproduções aos respectivos grupos, assim como um resumo dos “passos” de uma leitura de imagens, segundo Edmund Feldman, a cada aluno:

Leitura de imagem, segundo o autor Edmund Feldman 1º passo- Descrição: -Identificação do título da obra; -Artista que o faz; -Lugar e da época em que a imagem foi criada; -Material utilizado (tinta óleo, tinta acrílica, giz pastel, etc.); -Tipo de representação (figurativa ou abstrata); -A técnica usada no trabalho (pintura, desenho, gravura, colagem, etc.); 2º passo- Análise: Serve para observarmos as relações entre os elementos formais da imagem (o que essas relações formam e criam entre si, como se influenciam); O modo como as formas estão dispostas (relações de tamanho, entre as formas, relação, de cor e textura, de superfícies texturadas ou lisas, de espaço e volume); As formas podem estar dispostas (na diagonal, na horizontal, na vertical, etc.);

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Os tamanhos dos objetos na obra podem ser parecidos ou diferentes, isso pode dar informações a cerca da importância dos objetos no trabalho; O contorno das formas também pode ser analisado quanto a sua qualidade (forte, suave, uniforme ou irregular); Cores e texturas das formas podem ser identificadas pelas diferenças ou similaridades, os contrastes ou nuanças, à luminosidades das águas, etc.; É importante analisar os espaços criados pela perspectiva, as relações de claro-escuro ou cores, etc. 3º passo- Interpretação: Ele decide o que significa a imagem, procura dar um sentido às observações visuais. É importante arriscar-se a dar uma interpretação, testar uma idéia mesmo que esta não se ajuste aos fatos visuais. Interpretar é organizar as observações de modo significativo, ou seja, é conectar idéias que explicam sensações e sentimentos que se tem frente a uma imagem. Quando interpretamos uma imagem podemos estabelecer sua intenção ou seu propósito. Isto não quer dizer que sejam as mesmas intenções do artista. Estamos nos baseando não no que os outros nos disseram sobre a imagem, mas no que vemos e sentimos. Assim, interpretar é confiar em si mesmo, é revelar sua intenção, inteligência e imaginação e combiná-las com os conceitos e as observações realizadas. Enfim, é apropriar-se de uma imagem num sentido próprio e especial. 4º passo- Julgamento: Decidir sobre a qualidade de uma imagem é o foco desse estágio. Podemos optar por uma filosofia da Arte para justificar o julgamento. Formalista: esta filosofia realça a importância dos elementos formais ou visuais da obra. O prazer em Arte, nesta visão formalista, vem da beleza dos próprios objetos, da maneira como foram utilizados os materiais e feitas às formas. Expressivista: filosofia que enfoca “a profundidade e a intensidade da experiência que se tem quando se observa uma imagem”. A Arte, segundo esta visão, comunica idéias e sentimentos que estão relacionados ao modo como o artista de forma ao material.

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Instrumentalista: filosofia que se interessa pela utilidade da Arte para um fim determinado, “espera que a Arte sirva a propósitos determinados pelas necessidades do ser humano através das poderosas instituições sociais.” A Arte deve estar a serviço de uma causa maior, como os interesses da Igreja, do Estado, do Comércio, etc. Para não atrapalhar suas leituras, deixei os grupos livres para terminarem a tarefa, falando com eles apenas quando meu auxílio foi solicitado. Os alunos perguntaram sobre como escrever Gauguin e Rubens? O que era giz pastel? Que citei como exemplo de material utilizado; como relacionar as formas das imagens? O que significava nuanças e se precisavam descrever os motivos que os levaram a escolher as filosofias de Arte em seus julgamentos? (Formalista, Expressivista e Instrumentalista). Apenas um grupo estava mais à vontade com o exercício, fazendo comparações entre os objetos da imagem, dizendo o que sentiam ao vê-la e até questionando o modo como eram retratadas as pessoas “que mulheres bem gordas...todas são loiras!”. Este mesmo grupo foi o único que quis falar sobre a sua leitura, mostrando a sua imagem aos demais colegas “Dança dos camponeses” (c.1636), de Rubens,

que

ficaram

envergonhados

quando

pedi

para

que

também

compartilhassem com a turma suas impressões. Segundo Trindade (2002, p.1), “Uma imagem, ao contrário de um texto, propicia uma infinidade de leituras devido às relações que seus elementos sugerem.” A princípio, os alunos estavam bem dispersos, conversavam bastante sobre o “feriadão”, trabalhos de História e um grupo de alunos (que encontrei praticando vôlei num parque de Canoas durante o feriado) pediu que eu falasse mais sobre a exposição que eu havia comentado com eles. Deixei os minutos finais da aula para divulgar a exposição coletiva do Projeto de Extensão no qual estou participando, sugerindo que a visitação do mesmo seja considerada como parte das nossas aulas. Segundo Menezes, (2008, p. 114), [...] devemos ter consciência das mensagens implícitas em nossas atitudes e expressões e de que isso pode ser mais

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importante que outras sabedorias, pois os alunos também buscam sentidos, e não apenas informações. Ao término do período, recolhi as anotações feitas pelos grupos. De um modo geral, todos os grupos realizaram uma leitura descritiva das imagens, baseados apenas nos “passos” indicados no texto. Não buscaram uma leitura realmente significativa, não desafiaram suas potencialidades do olhar. Outro ponto significativo, é a falta de vocabulário dos alunos, que parecem deixar de escrever mais sobre o que vêem, por não conseguirem expressar em palavras suas interpretações. Esses aspectos estão evidentes nas leituras dos seguintes grupos: Grupo A1-Descrição: “Nesta imagem há um cavalo na paisagem, essa imagem é horizontal, foi feita em óleo. É uma pintura de 1910, seu pintor foi Franz Marc”. Grupo A2-Análise: “Formam girassóis; A imagem é vertical, cores amarelas, verdes e a mesa parece ser marrom de verniz, liso”. Grupo A3-Interpretação: “Diversão; Paisagem apreciável; Influência grega na obra; A dança parece de difícil execução, causando grande desconfortabilidade aos camponeses”. Grupo A4-Julgamento: “O nosso julgamento da pintura é que ela tem pontos expressivista e instrumentalista”.

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3.3.5. Quinta Aula TEMA: O Olhar além da contemplação Duração: 50 min Série: Terceiro ano do Ensino Médio

Objetivos Analisar outras formas de produção de imagens; Comparar e relacionar imagens da Arte e da Mídia.

Conteúdos História da arte. Publicidade. Mídia. Consumo.

Metodologias Expositiva dialogada. Análise de imagens publicitárias.

Desenvolvimento Os alunos irão observar imagens publicitárias que são relacionadas com imagens da Arte. Durante a observação, discutiremos sobre como a publicidade interfere na Arte, assim como a Arte também é incorporada à publicidade, seus padrões estéticos, nossas necessidades de consumo, a força dos slogans na publicidade, etc. Após, solicitarei que formem grupos para a criação de um produto, a partir de imagens da Arte.

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Mondrian. (Fonte: PORCEL, 2010)

Mon Bijou. (Fonte: ALBUQUERQUE, 2008)

Picasso Malboro Man. (Fonte: SANTA, 2008)

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Air Bouguereau. (Fonte: SANTA, 2008)

Recursos/Técnicas Material de uso comum. Reproduções de imagens publicitárias que são relacionadas com imagens da Arte. Data show.

Realizado: Data: 13/09/2010

Entrei na sala da turma 301, cumprimentei-os e solicitei que todos fossem para a sala de vídeo. Ao chegarmos à sala todos os alunos presentes acomodaramse nas classes e esperaram que eu iniciasse a aula. Liguei o aparelho de Datashow e mostrei dezoito imagens publicitárias, de design e de moda, elaboradas a partir de obras ícones da História da Arte. Pedi que os alunos falassem de suas impressões ao verem as imagens. De um modo geral, todos os alunos entenderam as mensagens transmitidas pelas imagens, um deles mencionou o fato das propagandas dizerem que a Arte é o melhor meio para chamar a atenção, dizer que o produto “é bom”. Destaco a conversa que tivemos sobre uma imagem baseada em um autorretrato de Pablo Picasso. Ao mostrar a imagem publicitária do Marlboro, uma aluna disse que o Picasso “não tinha nada a ver com cigarro”, e logo foi interrompida 91


por outro aluno que falou que se ele fumava, tinha “tudo a ver com cigarro”. Um terceiro aluno falou que ele devia fumar Marlboro, e uma aluna o interrompeu para dizer que era óbvio que aqueles que gostam de Arte, vão gostar daquele cigarro. Segundo Kellner (1995, p. 114), Essas imagens simbólicas na publicidade tentam criar uma associação entre os produtos oferecidos e características socialmente desejáveis e significativas a fim de produzir a impressão de que se o indivíduo quiser ser um certo tipo de pessoa, por exemplo, se quiser ser um “verdadeiro homem”, então deve fumar cigarros Marlboro. [...] Numa cultura pósmoderna da imagem, os indivíduos obtêm suas próprias identidades a partir dessas figuras e a publicidade se torna, assim, o mecanismo importante e negligenciado de socialização, assim como um manipulador da demanda de consumo.

Aproveitei as observações dos alunos e perguntei se eles lembravam do vídeo publicitário do automóvel Citroen Xsara Picasso. A maioria disse que sim. Eu perguntei o que aquela propaganda poderia ter em comum com a imagem que estavam observando. Um aluno disse que eles utilizaram máquinas que pintavam os carros e a imagem do Marlboro era uma pintura do Picasso. Outro aluno disse que o vídeo era uma propaganda de um “baita carrão!” Alguns alunos riram e comentaram de pessoas conhecidas que compraram o mesmo automóvel, com destaque para um desses alunos que observou que certa pessoa que possui o automóvel em questão, “nem gosta de Arte”. Eu perguntei para este aluno, e estendi para todos os demais a questão: O que torna o “Xsara” tão especial? A resposta foi que o “Xsara” era comparado com uma obra de Arte e com “coisas boas”. Novamente voltando a dar exemplos sobre arquitetura, como em outra aula, mas sem perder o assunto sobre a valorização da Arte através da propaganda. Perguntei para a turma como eram as moradias de alguns condomínios fechados que estão construindo no município de Canoas? Pedi que pensassem nos nomes dos lugares que conhecessem. Em pouco tempo, ouvi risos de alguns alunos, que falaram nomes como: Vida Bela, Residencial Barcelona, Solar Milão, Privilege, Villa Leonardo Da Vinci e Moradas de Vivaldi. Uma aluna falou: “pior sora, se fosse nomes normais, ninguém ia morar!”.

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Segundo Bonumá (2009, p. 18), Na construção da concepção de belo participam desde aspectos socioculturais e pessoais até questões ligadas ao religioso e financeiro, sempre permeados pelo pano de fundo histórico. [...] Porém, há também outras questões mais subjetivas e atemporais que participam da percepção do que é atraente.

A aula foi interrompida pelo professor Rogério, que pediu licença para me dar a chamada que eu havia solicitado dias atrás. O fato foi comemorado por alguns alunos que brincaram: “até que enfim sor, vamos fazer a chamada!” O professor saiu da sala depois de entregar a chamada e pedir que eu entregasse alguns dos últimos trabalhos de pesquisa que a turma fez com ele. Pela primeira vez realizei a chamada com a turma e pude anotar as faltas no caderno de controle. Haviam vinte e nove alunos presentes. Após a chamada, entreguei os trabalhos de pesquisa, sobre música e teatro brasileiro. Perguntei a eles se fizeram mais atividades além das pesquisas. Um aluno respondeu que não, era “tudo do livro de Arte”. Como já havíamos visto todas as imagens selecionadas para a aula e não havia mais tempo para aprofundarmos as discussões, pedi que a turma formasse grupos e me dessem os nomes dos integrantes por escrito, para na próxima aula, continuarem o trabalho que poderia ser iniciado durante a semana. Eles deveriam escolher uma imagem da Arte (pintura, escultura, desenho, entre outros), que poderia ser também as imagens que já haviam sido trabalhas anteriormente, para criarem as propagandas de produtos elaborados pelos grupos. Propus que os produtos também tivessem um slogan publicitário, uma mensagem marcante para “vender” a idéia do produto. Uma aluna falou, “tipo: Consul, parte da sua casa!”. Ao término do período, os alunos saíram da sala, recolhi meu material de aula enquanto um dos alunos me ajudou a guardar o projetor.

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3.3.6. Sexta Aula TEMA: O Olhar além da contemplação Duração: 50 min Série: Terceiro ano do Ensino Médio

Objetivos Analisar outras formas de produção de imagens; Comparar e relacionar imagens da Arte e da Mídia; Criar uma imagem publicitária ou produto com base em imagens da História da Arte.

Conteúdos História da arte; Publicidade; Mídia; Consumo.

Metodologias Expositiva dialogada; Criação de imagens e produtos em grupos.

Desenvolvimento De acordo com as orientações da aula anterior, os alunos seguirão seus trabalhos de criação de imagens publicitárias, ou de produtos, a partir de pesquisas em reproduções e livros que contenham imagens da História da Arte.

Recursos/Técnicas Material de uso comum; Livros sobre História da Arte; Reproduções de obras.

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Realizado: Data: 21/09/2010 Entrei na sala da turma 301 no último período destinado à aula de Sociologia, que foi cedido pelo professor Samuel, devido ao feriado da Revolução Farroupilha, no dia 20/09. Os alunos ficaram surpresos com minha presença na sala. Cumprimenteios e iniciei a aula anotando duas faltas na chamada, de acordo com o caderno de controle. Cumprimentei-os e expliquei que eles iriam iniciar suas pesquisas de imagens da Arte para a elaboração de seus produtos. Mesmo que seus produtos já existam no mercado, como por exemplo um automóvel, ou um acessório, solicitei que eles busquem fazer a diferença em suas criações, pensando o que os seus produtos terão em inovação. Os alunos formaram seus grupos, eu dispus os materiais de pesquisa em duas classes no centro da sala, para que todos manipulassem os livros e reproduções. Segundo Abramovich (1990, p.95), Um novo novo está aí. O do Novo Milênio. Insistir que as crianças, os jovens, aprendam segundo as normas do século XIX ou dos meados do século XX é absurdo. O ano 2000 está chegando. Exigindo posturas contemporâneas dos ensinantes. Pedindo que se sintonizem com o que já chegou e está se renovando velozmente e abertura para se colocar a cada fato, situação, instrumento. Eles, e as mudanças que trazem junto, não são necessariamente, provocadores de terremotos ou maremotos, podem ser tranqüilas e facilitadoras.

Rapidamente um dos grupos retirou as reproduções das classes para verem antes dos outros colegas. Expliquei novamente o objetivo da atividade para duas alunas que haviam faltado a aula anterior. Pedi que os grupos copiassem as informações das obras escolhidas, com títulos, autores e datas, para pesquisarem sobre elas durante a semana e prosseguirem os seus trabalhos. Todos os grupos estavam concentrados enquanto observavam as páginas dos livros e conversavam sobre suas idéias para a confecção de produtos do setor de beleza, alimentício, vestuário, odontológicos, e outros seguimentos de consumo. 95


Pedi que cada grupo me entregasse no final da aula um resumo de suas pesquisas na folha com os nomes dos integrantes de cada grupo. Atendi cada grupo que solicitou minha presença, à medida que me chamavam. Desta vez, não estipulei um número específico de integrantes por grupo, para que ficassem mais à vontade durante as aulas. Um grupo estava em dúvida, pois um dos integrantes queria fazer uma propaganda de shampoo com a imagem da “Vênus” de Botticelli, mas também queriam criar um vestido estilo “Jacques Leclair”8 , utilizando uma imagem de Gustav Klimt. Outro grupo, formado por meninas, decidiu usar duas imagens de Auguste Renoir para criarem uma trufa com o slogan: “Você faz a encomenda ela vai voando até você” e um creme emagrecedor. Um grupo composto inicialmente por três meninas me chamaram para dizer que tinham dúvidas. Durante a semana anterior elas escolheram a imagem do “Quarto de Van Gogh”, porém, gostaram da imagem do “Davi”, de Michelangelo. Logo depois me chamaram para dizer que decidiram fazer a propaganda publicitária com a segunda opção, de uma pomada ativadora de hormônios que aumenta de dois a dez centímetros o órgão sexual masculino, batizado de “Pedynegão”, o produto é composto por ervas naturais. As alunas me questionaram se haveriam problemas em criar esse produto. Eu perguntei a elas qual o produto que elas realmente gostariam de criar, deixando claro que se um “problema” já havia sido encontrado antes mesmo de iniciarem o trabalho, elas poderiam reavaliar suas escolhas e criarem novas possibilidades para a escolha de sua imagem da Arte. Segundo Fischer (2001, p. 11), [...] a idéia de que as obras de arte de certa forma “nos olham”, nos convidam a olhá-las; se fecharmos os olhos, diante delas, percebemos o quanto o ato de ver nos remete a uma série de lembranças, desejos, sentimentos, como se aquela pintura ou escultura, por exemplo, nos olhasse, nos perseguisse, nos provocasse, nos constituísse também, produzisse algo em nós. Essa relação única do sujeito com aquilo que olha é certamente plena de elementos sociais e culturais.

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Personagem da novela Ti-ti-ti, da emissora Rede Globo de Televisão.

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A terceira componente do grupo disse que não gostou da proposta de suas colegas, já tinha feito sua pesquisa em casa e a idéia para a sua propaganda era outra. Perguntou se poderia fazer o trabalho sozinha. Eu disse que ela poderia procurar outro grupo para não ficar sozinha, mas ela fez questão de seguir com a sua própria pesquisa. Outro grupo teve idéias variadas para o trabalho. Escolheram as imagens de “Mona Lisa” e “Estudos Anatômicos” de Leonardo Da Vinci, e “Mulher penteandose”, de “Edgar Degas”. A escolha do sexto grupo, foi a imagem de “São João Batista”, de Leonardo da Vinci. Já o oitavo grupo resumiu seu trabalho da seguinte forma: “Nosso trabalho vai apresentar um aparelho dentário para a figura “A Morsa” (aquarela de Dürer. Museu Britânico de Londres). E demonstraremos ele antes, durante e depois do aparelho.” Muitos alunos perguntaram se poderiam fazer os produtos, com suas respectivas embalagens. Já o grupo que fará a “trufa”, perguntou se poderão demonstrar com amostras “de verdade” para a turma. Ao término da aula, os alunos saíram da sala, depois de arrumarem suas classes.

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3.3.7. Sétima Aula TEMA: O Olhar além da contemplação Duração: 50 min Série: Terceiro ano do Ensino Médio

Objetivos Analisar outras formas de produção de imagens; Comparar e relacionar imagens da Arte e da Mídia; Criar uma imagem publicitária ou produto com base em imagens da História da Arte.

Conteúdos História da arte; Publicidade; Mídia; Consumo.

Metodologias Expositiva dialogada; Criação de imagens e produtos em grupos.

Desenvolvimento De acordo com as orientações da aula anterior, os alunos seguirão seus trabalhos de criação de imagens publicitárias, ou de produtos, a partir de pesquisas em reproduções e livros que contenham imagens da História da Arte.

Recursos/Técnicas Material de uso comum; Reproduções de Obras; Lantejoulas; Pistola e bastões de cola quente; Fitas de presente; 98


Bolas de isopor; Giz pastel oleoso; Alfinetes; Palitos de picolé; Pedaços de E.V.A. colorido picado; Papel camurça; Sucata de componentes eletrônicos; Recortes de pet colorido; Rolos de papel de parede; Retalhos de tecido; Palha colorida.

Realizado: Data: 27/09/2010 Continuando os trabalhos da aula passada, distribui sobre duas classes materiais diversos para os grupos utilizarem na confecção de seus produtos. Os alunos formaram seus grupos e começaram a conversar sobre os trabalhos. Realizei a leitura da chamada, todos os alunos estavam presentes. Os grupos analisaram os materiais que distribui sobre as classes e manusearam lantejoulas, pistola e bastões de cola quente, fitas de presente, bolas de isopor, giz pastel oleoso, alfinetes, palitos de picolé, pedaços de E.V.A. colorido picado e papel camurça. Outros materiais (cola, folhas de papel sulfite, sucata de componentes eletrônicos, recortes de pet colorido, rolos de papel de parede, retalhos de tecido e palha colorida) não foram manipulados. Uma aluna pediu que eu mandasse a ela por e-mail a imagem da obra escolhida para o trabalho com sua dupla “desenho de uma Morsa”, de Dürer, pois tal imagem era muito pequena no livro onde foi pesquisado. Ela me mostrou o produto que já estava confeccionado, guardado em seu material para surpreender os colegas, um aparelho ortodôntico feito de arame e revestido com massa de biscuit e miçangas. Anotei o endereço eletrônico da aluna para enviar sua imagem com maior qualidade de resolução, segundo ela, só tinha acesso à Internet nos finais de

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semana e não conseguiu procurá-la porque esqueceram de anotar os dados da imagem na aula anterior. Segundo Callegaro (2002, p. 143), [...] o espaço da Internet aponta, para o ensino da Arte contemporânea, os projetos colaborativos – em parceria, coletivos e interculturais – [...] mediados pela máquina. [...] Portanto, não é possível pensar a identidade sem pensar a relação com o outro; pensar o espaço sem pensar nas relações e ações que os indivíduos realizam nesses espaços; pensar as tecnologias sem identificar as ações que as envolvem.

Outro grupo de meninas estava montando uma trufa, utilizando uma bola de isopor revestida com papel colorido. Elas pediram para levar palitos de picolés e lantejoulas para a continuação do trabalho. O grupo que faria um vestido para a “Vênus”, de Botticelli, me mostrou o esboço de um vestido vermelho e estavam criando um logotipo para sua marca. Perguntaram se eu sabia desenhar um laço de fita. Pedi que, logo o maior grupo, pudesse usar toda a sua criatividade e se ajudassem. Dois grupos pediram que eu levasse para a próxima aula o notebook, para que eles possam apresentar seus trabalhos em formato de vídeo (a sala de vídeo está reservada para outra turma). Segundo Tatit, (2006, p. 10), Dar o devido crédito ao que o aluno expressa é, sem dúvida, valorizá-lo. Nesse sentido, portanto, todo o curso deve estar aberto para os possíveis desvios construtivos. É o que podemos chamar de aprendizado vivo, do qual o professor é um mediador de idéias, um captador de recursos da classe, alguém que reconhece as habilidades e ansiedades de seus alunos e procura tirar o melhor proveito delas. Isso não quer dizer que ele tenha de mudar o curso de suas aulas, nem tampouco seu objetivo, que deve estar claro ao propor suas atividades, mas simplesmente ser flexível à participação dos alunos.

Anotei o que cada grupo realizou em aula. Quando o término do período se aproximou, pedi que todos ajudassem a recolher os materiais utilizados na aula e combinei com a turma que as apresentações fossem realizadas na próxima semana.

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3.3.8. Oitava Aula TEMA: O Olhar além da contemplação Duração: 50 min Série: Terceiro ano do Ensino Médio

Objetivos Analisar outras formas de produção de imagens; Comparar e relacionar imagens da Arte e da Mídia; Criar uma imagem publicitária ou produto com base em imagens da História da Arte.

Conteúdos História da arte; Publicidade; Mídia; Consumo.

Metodologias Expositiva dialogada; Apresentação de imagens e produtos em grupos.

Desenvolvimento Os alunos apresentarão seus trabalhos de criação de imagens publicitárias, ou de produtos, a partir de pesquisas em reproduções e livros que contenham imagens da História da Arte.

Recursos/Técnicas Material de uso comum; Imagens e produtos criados a partir de imagens da História da Arte.

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Realizado: Data: 04/10/2010 Entrei na sala da turma 301 e todos estavam sentados em suas classes. Realizei a leitura da chamada, quatro alunos haviam faltado, anotei no caderno de controle. Dei início às apresentações dos trabalhos em grupos. O primeiro grupo a apresentar-se foi o das meninas que haviam elaborado uma “trufa voadora”. Porém, segundo elas, não conseguiram realizar o trabalho como gostariam e fizeram outro produto. A partir de uma “releitura” da obra “Os Girassóis”, de Van Gogh, o grupo elaborou uma caixa de chicletes com a marca “Alliens – O chiclete que abduz a sua fome”, sabor óleo de girassol.

Trabalho de alunas Andreia, Giovana e Mariana. (Fonte: KARG, 2010)

A turma pediu amostras gratuitas do produto para as colegas do grupo, formado por três meninas. O segundo trabalho a ser apresentado foi o da dupla de meninas, conforme a seguinte gravação: 102


A1: “Eu tava olhando o livro da sora e a gente achou esse bichinho e ele foi escolhido. Aí a gente pensou: Coitado do bicho né? Com esses dente não deve arrumar nenhuma namorada né? Então o quê que a gente pensou, em levar ele no dentista. Só que daí nenhum dentista atendia ele. Daí a gente pegou e produziu um aparelho ortodôntico pra ele. Aí, ele aceitou e colocou. (Mostrou a reprodução da imagem da morsa e outra reprodução com o animal utilizando o aparelho). A2- (Mostrando o aparelho aos colegas): “planejamos o aparelho”... A1: “... com aço especial porque os dentes dele eram bem fortes e depois de dois anos, ele pôde retirar o aparelho... (Mostrou a terceira imagem da morsa sem os dentes de marfim)... e ele ficou assim! (Os alunos riram). Se a gente conseguiu concertar o dente de uma morsa, o que a gente não faz com o dente de um ser humano né? Então eu acho que o nosso aparelho é o mais indicado para o uso hoje em dia”. A2: “Esse aqui é o nosso aparelho, tem poderes!”.

Trabalho de alunas Luana e Daiane. (Fonte: KARG, 2010)

Segundo Ferreira, (2008, p. 9), Cada aluno tem suas histórias, tanto pelo que aprendeu na escola, e também pelo que a vida lhe ensinou. Assim, terão significado para ele os

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problemas referentes ao seu contexto, uma vez que o aluno só aprende se estiver motivado por um desafio, ou se reconhecer a importância e a aplicação da aprendizagem.

O terceiro grupo a apresentar-se foi o maior, composto por sete alunos, porém, o idealizador do “vestido” não compareceu. A1- (Segurando a reprodução da obra “O Nascimento de Vênus”, de Sandro Botticelli, com um vestido preto inserido no corpo da “Vênus”): “ Tá, primeiro a gente escolheu a obra dele... e vimos que ela estava nua, daí a gente resolveu fazer a nossa marca (D‟cafragajorô), francês é claro... a gente fez um modelo de vestido porque a obra né, estava necessitada... a nossa marca a gente... tá muito no mercado, se vocês não usam é porque não é pro bolso de vocês ainda (risos da turma). O nosso slogan é um laço (referindo-se ao desenho criado para o logotipo)... na verdade, a gente ia fazer diferente, só que não deu certo, a gente fez no computador, mas é isso aí! (Eles pensaram em fazer o vestido para mostrar o produto em tamanho natural). Para Hernández, [...] a Cultura Visual e os novos campos disciplinares, como os estudos culturais, o estudo dos meios, e etc., podem enriquecer a escola na medida em que apresentam novas abordagens metodológicas e trazem à rotina escolar problemas contemporâneos e até então não abordados por ela. (2007, p.36)

Trabalho de alunos Caroline, Danielle, Douglas, Franciele, Gabriela, Jonas e Rômulo. (Fonte: KARG, 2010)

Os outros quatro grupos que iriam apresentar-se em seguida não conseguiram devido às faltas de componentes dos grupos que estavam com partes dos trabalhos que seriam apresentados em vídeo. 104


Nos minutos que seguiram, perguntei aos alunos como foi para eles fazerem seus trabalhos. Todos disseram ter gostado das pesquisas e confecçþes, mesmo aqueles que não apresentaram e que mudaram seu planejamento.

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3.3.9. Nona Aula TEMA: O Olhar além da contemplação Duração: 50 min Série: Terceiro ano do Ensino Médio

Objetivos Analisar outras formas de produção de imagens; Comparar e relacionar imagens da Arte e da Mídia; Criar uma imagem publicitária ou produto com base em imagens da História da Arte.

Conteúdos História da arte; Publicidade; Mídia; Consumo.

Metodologias Expositiva dialogada; Apresentação de imagens e produtos em grupos.

Desenvolvimento Os alunos apresentarão seus trabalhos de criação de imagens publicitárias, ou de produtos, a partir de pesquisas em reproduções e livros que contenham imagens da História da Arte.

Recursos/Técnicas Material de uso comum; Imagens e produtos criados a partir de imagens da História da Arte.

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Realizado: Data: 18/10/2010 Entrei na sala da turma 301 e fui recebida pelos alunos que estavam indo para seus lugares. Realizei a chamada, quatro alunos faltaram e uma aluna foi transferida para o período noturno. Liguei o notebook e pedi que os alunos iniciassem as apresentações de seus trabalhos. A primeira dupla de meninas apresentou uma imagem publicitária baseada na obra de Leonardo da Vinci (São João batista). A idéia da dupla foi criar um produto para quem, como elas, deseja “cachos perfeitos”. Resolveram “apostar” no seu produto, o Babyliss Caichinhos de anjo, com o slogan: “Cachos com alta definição o dia inteiro de perfeição”. “Com alta duração e a tecnologia que deixam os cachos perfeitos”. Uma aluna perguntou se o resultado do produto era a prova d‟água. A aluna que apresentava disse que sim, “com duração de dois dias!”.

Trabalho de alunas Tanise e Kelly. (Fonte: KARG, 2010)

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O segundo grupo a apresentar o trabalho era composto por seis meninas que criaram um power point para o seu produto de uma linha de cosméticos (Belle Femme): Todas as alunas: “Por que deixar sua vida em preto e branco se você pode colorir?”. A1: “Nós pegamos uma obra de Daniela Karg...” A2: “... feito com produtos naturais!” As alunas criaram uma linha de maquiagens baseado em duas imagens de uma obra de minha autoria, (Marés, 2010), vistas durante a visitação ao museu de Tecnologia da ULBRA na exposição coletiva da Semana Interamericana da Água.

Desenhos da obra Marés. (Fonte: KARG, 2010)

A linha é composta por produtos ecologicamente corretos, em formato de globo, representando o planeta Terra e seus continentes. O logo da marca é formado pelo “símbolo do meio ambiente, com uma árvore e as cores da maquiagem”. Um creme hidratante esfoliante e removedor de maquiagem acompanha o estojo de maquiagem com espelho e outra esfera representando a Terra, com lantejoulas azuis e douradas.

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Trabalho de alunas Cariny, Claudia, Daniela, Mariélli, Thainara e Dienifer. (Fonte: KARG, 2010)

Trabalho de alunas Cariny, Claudia, Daniela, Mariélli, Thainara e Dienifer. (Fonte: KARG, 2010)

Trabalho de alunas Cariny, Claudia, Daniela, Mariélli, Thainara e Dienifer. (Fonte: KARG, 2010)

Um aluno perguntou se poderia tornar-se revendedor da marca. As meninas responderam que irão montar uma empresa e contam com a ajuda dos demais colegas. 109


Elas sugeriram que fosse produzido um desfile da marca do vestido, criado por outro grupo (Dicafrahjorrô), com o patrocínio do chiclete Alliens (criado por outro grupo) formando um kit completo de beleza. Segundo Vianna (1994, p.3), “Ao se descobrirem com seres criadores os professores passam a acreditar no potencial criador de seus alunos e a oferecerlhes maior espaço para expressão.” Outro trio de meninas não queria apresentar seu trabalho, devido a falta de uma imagem que segundo elas, seria a Mona Lisa com os cabelos cacheados. A aluna que estava com um cartaz, negava-se a apresentar, disse que o trabalho foi feito apenas por ela e não queria falar sozinha. Todos começaram a insistir para que a aluna apresentasse, até que outra aluna, do grupo anterior, se ofereceu para falar em nome dela. Com autorização da colega e uma rápida explicação do produto, a aluna cedeu o seu cartaz, que foi apresentado como o “Insticlér- Ontem, hoje e sempre, o Produto de toda a Mulher”. Com fotografias da aluna que fez o trabalho, mostrava o antes e o depois de seu produto, uma cápsula que após ser ingerida, cacheava cabelos lisos.

Trabalho de aluna Jessica e Priscila. (Fonte: KARG, 2010)

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Segundo Duarte (1993, p. 4), Arte na educação é um modo de conhecimento e de expressão. É uma possibilidade de linguagem, de comunicação através de formas, formas plásticas, como a Arte do artista. Mas a produção em sala de aula está isenta dos mecanismos de mercado, não é mercadoria.

Faltou apenas um grupo para apresentar seu trabalho, que não levaram seu CD, mas prometeram mandar por e-mail para eu avaliar. Nos minutos finais da aula, um aluno me perguntou se eu tinha visto as vacas expostas nas ruas de Porto Alegre. Logo, todos os alunos falavam sobre as obras que viram e me perguntaram detalhes sobre a exposição. Outra aluna perguntou se eu poderia mudar meu planejamento para falar sobre o “Cow Parade” na próxima aula. Prometi falarmos mais sobre o “Cow Parade”, sem problemas para mudar o planejamento das nossas aulas.

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3.3.10. Décima Aula TEMA: O Olhar além da contemplação Duração: 50 min Série: Terceiro ano do Ensino Médio

Objetivos Analisar outras formas de produção de imagens; Comparar e relacionar imagens da Arte Contemporânea e da Mídia;

Conteúdos Cow Parade Arte Contemporânea.

Metodologias Expositiva dialogada; Apresentação de imagens em multimídia e de embalagens de produtos relacionados à “Cow Parade”.

Desenvolvimento Mostrarei aos alunos algumas imagens da exposição coletiva (Cow parade), realizada em diversos países e vou propor uma conversa sobre as obras e suas curiosidades.

Recursos/Técnicas Imagens da “Cow Parade”. Embalagens de caixas de leite.

Realizado: Data: 25/10/2010 Entrei na sala da turma 301 e montei o notebook para a aula. Realizei a chamada, dois alunos faltaram. 112


Antes de iniciar a aula, a secretária da escola entrou na sala para dar recados aos alunos sobre a rematrícula, que deverá ser feita mesmo com os alunos do terceiro ano, segundo a lei ainda é necessária para fazer o certificado de conclusão do Ensino Médio. Depois do recado, ainda distribuiu bilhetes para alguns alunos que precisavam do RG dos pais na lista de dados dos alunos. Este recado durou muitos minutos. Para começar a aula, passei para os alunos verem duas embalagens do leite “Mu-mu”, que está patrocinando o “Cow Parade” (Parada das Vacas) em Porto Alegre e divulga alguns trabalhos no verso das embalagens do leite.

Caixas de leite. (Fonte: KARG, 2010)

Perguntei para a turma quem havia recebido meu recado pelo Orkut. Mandei o link do site do “Cow Parade” durante a semana anterior para que os alunos soubessem mais detalhes sobre o evento. Aqueles que receberam o recado, mandaram para outros colegas, que não haviam recebido, para que todos pudessem acessar o site. Todos queriam falar ao mesmo tempo sobre as “vacas” que haviam visto em Porto Alegre e gostado, além de contar aos colegas como acessar o Google Maps no site do “Cow Parade” e ver todas as vacas produzidas pelos artistas da mostra. No texto: É o maior e mais bem sucedido evento de arte pública no mundo. As esculturas de vacas em fibra de vidro são decoradas por artistas locais e distribuídas pelas cidades, em locais públicos como estações de metrô, avenidas e parques. 113


Após a exposição, as vacas são leiloadas e o dinheiro é entregue para instituições de beneficentes. Disponível em: http://www.cowparade.com.br/poa/cowparade.php. Acesso em: 25 Out. 2010. Expliquei para a turma que havia recebido por e-mail, imagens de outros trabalhos do “Cow Parade” expostos pelo Brasil e em outros países, e iríamos ver algumas imagens, conforme o tempo de nossa aula. As imagens das vacas produzidas pelos artistas contemporâneos da mostra estavam expostas em países como: Estados Unidos, Espanha, África do Sul, Argentina, Bélgica, Rússia, Inglaterra, Japão, México, França, Irlanda, Itália e Hungria. A cada imagem apresentada, os alunos se manifestavam a favor ou contra a obra produzida. Um aluno disse que certas obras ele poderia ter feito melhor do que os artistas. Outro aluno perguntou o que acontece com as vacas depois da exposição. Respondi que os trabalhos são leiloados para fundos de caridade, como o (Programa Alimentar Mundial) PAM da ONU, (Organização das Nações Unidas). Fiz um comentário breve sobre cada obra, apresentando os títulos, seus artistas e deixando que os alunos falassem sobre elas, mesmo que rapidamente. Me detive mais na obra “Cowdí”, do artista Estêvão da Silva da Conceição, falando sobre como o trabalho deste brasileiro tem semelhanças estéticas com a obra de Gaudí.

Cowdí (Fonte: DELZA, 2010)

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Segundo Duarte (1993, p.3), É na história da Arte que se encontram exemplos (visuais) para clarear explicações sobre técnicas e materiais utilizados, sobre modos de pensar a Estética e a Crítica da Arte, sobre a função social da Arte em períodos específicos. Em Artes Plásticas, ver Arte através de exemplos cunhados pela história, ainda que através de reproduções fotográficas, é um modo dos mais seguros de aprender Arte.

Mesmo com poucos minutos para falarmos de cada obra, consegui mostrar todas as quarenta e sete imagens do power point.

Cowmen (Fonte: DELZA, 2010)

Marilyn Moo-nroe (Fonte: DELZA, 2010)

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Cown Got‟a (Fonte: DELZA, 2010)

Cowpotter (Fonte: DELZA, 2010)

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3.3.11. Décima primeira Aula TEMA: O Olhar além da contemplação Duração: 50 min Série: Terceiro ano do Ensino Médio

Objetivos Praticar e analisar outras formas de produção de imagens. Fazer relações entre o contexto histórico estudado, com a sua própria realidade. Criar ou reproduzir símbolos, dando-lhe significado pessoal.

Conteúdos História da Arte; Publicidade; Símbolos.

Metodologias Apresentação e apreciação de imagens e vídeos projetados por multimídia; Expositiva dialogada; Desenho; Análise de imagens.

Desenvolvimento Apresentarei aos alunos um breve histórico do uso dos símbolos na História da Arte, como foi a passagem do uso de desenhos e/ou hieróglifos até chegarmos ao uso do alfabeto, assim como o uso de logotipos, associados à produção gráfica.

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Pintura do arquiteto Nebabón dedicado à caça. (Fonte: TORRENS, 2010)

Núcleo Policrômico (Fonte: ABAR, 2010)

Pedirei que os alunos utilizem o seu próprio material para que reproduzam ou criem, com base nas informações recebidas, um símbolo, uma marca, ou um personagem que o represente. O aluno deverá fazer relações dos elementos formais de seu símbolo de acordo com a sua subjetividade, sua personalidade.

Recursos/Técnicas Material de uso comum; Folhas de papel sulfite; Reproduções de imagens através de símbolos.

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Realizado: Data: 08/11/2010 Entrei na sala da turma 301 e os alunos acomodaram-se em seus lugares. Depois de cumprimentá-los, realizei a chamada e anotei a falta de dois alunos no caderno de controle. Para iniciar a aula, pedi a colaboração da turma com mais atenção, estavam todos conversando bastante. Mostrei a eles algumas imagens para ilustrar o uso dos símbolos na história da Arte e na escrita, que teve início a partir de desenhos e pinturas nas cavernas. Para não ocupar muito tempo de nossa aula, “pulei” minha conversa sobre os símbolos das cavernas, egípcios e o alfabeto grego, até a Revolução Industrial e com ela, a evolução da imprensa para a comunicação. Expliquei sobre o processo de impressão da tipografia, que mais tarde chamou-se de estereotipia, para a produção de páginas de jornais. Com base nessas informações, expliquei que os logotipos são frutos de todo esse processo da tipografia, um símbolo que caracteriza determinada marca e usado na publicidade. Segundo Vianna (1994, p.2) A página fundida em placa dura funcionava como uma matriz e, ao ser adotada pelos europeus, no século XVIII, recebeu o nome de esteriótipo ou clichê, enquanto que esteriotipia passou a ser a designação do novo processo tipográfico.

Pedi que os alunos mantivessem suas classes afastadas para que ficassem sozinhos durante o exercício seguinte. Distribuí folhas de papel sulfite para os alunos, que ficaram curiosos sobre o que fariam a seguir. Uma aluna me perguntou se eu iria distribuir desenhos de “papai noel” para eles. Eu disse que seria algo melhor do que decoração de natal. Aproveitei a pergunta da aluna para perguntar se alguém saberia dizer quem criou a imagem do “papai noel” que hoje conhecemos. Nenhuma resposta foi dita. Mencionei que a imagem do velhinho gordinho, de barba branca e roupas vermelhas foi criada pela “Coca-Cola”, para suas campanhas publicitárias. Todos ficaram surpresos com a

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informação, enquanto conversavam entre si. Uma aluna disse: “Nossa, como a Coca-Cola é velha!” [...] está sendo construída, atualmente, uma nova relação entre escolarização e a mídia. Mas existe uma justificativa ainda mais óbvia para reavaliar, urgentemente, essas instituições, suas práticas e as correspondentes interrelações entre elas. É que não se trata apenas da crescente penetração da mídia no processo de escolarização, mas também, de forma mais geral, da importância da mídia e da cultura da informação para a escolarização e para formas cambiantes de currículo e de alfabetismo, com todos os problemas daí decorrentes. Uma questão relacionada, embora ainda um pouco clara e compreendida, é a de um importante deslocamento da escola para a mídia como o “aparelho ideológico de estado” dominante [...] o currículo tende a se desvincular da escola, o que impõem uma reconceptualização tanto do currículo quanto da escola, uma reconceptualização que seja feita de acordo com as condições modernas e para as condições pós-modernas. (GREEN; BIGUN, 1995).

Continuando a aula, pedi que os alunos lembrassem das nossas aulas anteriores, em suas vidas, e silenciosamente, reproduzissem com seus materiais, imagens ou símbolos que os representassem, como uma espécie de logotipo. Uma aluna perguntou se poderia escrever o significado do seu desenho, eu disse que todos estavam livres para se expressarem no papel. Com poucas conversas entre os alunos, houve um clima de concentração durante o exercício, alguns alunos ficaram na tentativa de criarem algo, mas não conseguiram. No término do período, pedi que os alunos me devolvessem seus trabalhos, para serem retomados na próxima aula. Apenas cinco alunos realizaram a atividade da maneira proposta, criando símbolos a partir de iniciais dos seus nomes e rostos, de forma estilizada, mas não utilizaram todo o espaço da folha em tamanho A4, desenhando nas extremidades ou no meio da folha. Todos os alunos utilizaram lápis para desenhar, quatorze alunos utilizaram bem o espaço da folha, distribuindo seus símbolos de forma organizada. As alunas fizeram muitos estereótipos que se repetiram: corações, estrelas, flores e pássaros.

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Trabalho da aluna Gabriela. (Fonte: KARG, 2010)

Além de palavras e siglas, muitos alunos escreveram para explicar suas produções:

Trabalho da aluna Yasmim. (Fonte: KARG, 2010)

A1: Família C. (legenda da placa desenhada com imagem da família) seguida pelas frases: Não é o Papai Noel, é o meu pai. Que é tão bom quanto. Minha trilha é Pai Herói.

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Trabalho da aluna Daiane. (Fonte: KARG, 2010)

A5: Estou pressa dentro de mim, mas minha estrela brilha. Sou uma pessoa que fico presa ao meu quarto e só tenho o celular para escutar o rádio. Queria poder ser livre como um pássaro...

Trabalho do aluno Leonardo. (Fonte: KARG, 2010)

A2: Não tema, com o L. não há problema! (Super L.) Gosto de me sentir necessário, importante... Gosto de me sentir procurado e de me acharem importante... assim como o Super Man Super Herói preferido! Ele ajuda mesmo sem receber nada em troca, e é o que procuro fazer... Sempre. 122


Trabalho da aluna Kelly. (Fonte: KARG, 2010)

A3: O que eu criei, nas flechas são as decisões que temos que fazer, mas se alguma foi perdida ela voltava como um ciclo e as outras são a minha família.

Trabalho da aluna Giovana. (Fonte: KARG, 2010)

A4: Cuida do meu sentimento eu tive medo de me apaixonar...

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Trabalho do aluno Douglas. (Fonte: KARG, 2010)

A6: A liberdade é um bem precioso demais não esqueça dela

Trabalho da aluna Mônica. (Fonte: KARG, 2010)

A7: Pra mim representa o “blackout” (“apagão”) vivido, seja por mim ou por outras pessoas. O “blackout” da realidade, do verdadeiro, mantendo às escuras a sua verdadeira identidade. 124


A8: “Eu sou uma incógnita. Não tenho como me definir em apenas um símbolo!! Era isso.” (seguido pelo desenho de um ponto de interrogação maior). A9: “Não consigo me „definir‟ em desenhos ou em alguma coisa escrita.” (ao lado de desenhos de corações e flores). Apenas um aluno não produziu nada, disse-me que não conseguiu fazer.

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3.3.12. Décima segunda aula TEMA: O Olhar além da contemplação Duração: 50 min Série: Terceiro ano do Ensino Médio

Objetivos Praticar e analisar outras formas de produção de imagens. Fazer relações entre o contexto histórico estudado, com a sua própria realidade. Criar ou reproduzir símbolos, dando-lhe significado pessoal.

Conteúdos História da Arte; Publicidade; Símbolos.

Metodologias Apresentação e apreciação de imagens e vídeos projetados por multimídia; Expositiva dialogada; Desenho; Análise de imagens.

Desenvolvimento Os alunos irão terminar os trabalhos desenvolvidos na aula anterior, após, irão comentar suas produções e assistirão ao vídeoclipe da música 70 Milions, da banda inglesa “Hold Your Horses”.

Recursos/Técnicas Material de uso comum; Material de pintura; Folhas de papel sulfite; 126


Reproduções de imagens através de símbolos; Vídeoclipe da música 70 Milions, da banda inglesa “Hold Your Horses”.

Realizado: Data: 22/11/2010 Entrei na sala da turma 301 e os alunos foram sentando-se em seus lugares. Pedi que todos fizessem um círculo com suas classes. Enquanto a turma organizava a sala, eu realizei a chamada, e anotei as faltas no caderno de chamada. Haviam vinte e quatro alunos presentes. Distribui os trabalhos iniciados na aula anterior a cada aluno e pedi que utilizassem seus materiais de pintura para a continuação do mesmo. Enquanto coloriam seus trabalhos, a turma conversava amigavelmente, rindo e trocando impressões sobre a viagem ao parque temático do Beto Carreiro que a turma fez no último “feriadão”. Pedi autorização para fotografá-los enquanto trabalhavam. Alguns alunos perguntaram se era preciso escrever em seus trabalhos. Respondi que não, somente se achassem necessário. Aos poucos, eles foram terminando e me comunicando. Pedi que ficassem com os trabalhos nas suas classes. Eu disse que os alunos que quisessem falar sobre seus trabalhos poderiam comentá-los após o término da atividade. Apenas um aluno disse que queria falar sobre seu trabalho, os demais disseram que não iriam mostrar o que fizeram, nem falar sobre eles, com vergonha. Um aluno me contou que viu várias vacas do “Cow Parede” em Porto alegre, logo, todos os alunos começaram a lembrar da exposição e também falaram sobre as vacas que viram e de quais gostaram de ver. Questionei os alunos sobre os seus trabalhos. Por que é tão difícil criar algo para si e falar sobre si próprio. Uma aluna falou que é mais fácil falar dos outros e comprar o que os outros fazem, para não olhar os próprios defeitos. Sua resposta foi seguida de várias afirmações de colegas que concordaram com ela. Um aluno complementou dizendo: “É que temos um photoshop mental!”, referindo-se à forma como buscamos mascarar as próprias “imperfeições”. Outro aluno disse que só usa

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o Photoshop para o seu melhor ângulo (brincando com uma espinha Ao lado direito do seu rosto), todos riram. Perguntei para a turma se a Arte não seria uma forma de trabalhar as “imperfeições”, mostrando através de obras completamente avessas às nossas idéias de beleza, a verdadeira beleza que é interagir, questionar, ter reações a partir de diversas manifestações. Enquanto concordavam gesticulando silenciosamente, o aluno que queria falar sobre seu trabalho manifestou-se. Mostrou a todos o seu logotipo, disse que ele se inspirou no Super Homem, que é seu super herói preferido. Como o Super Homem ele gosta de ajudar as pessoas sem cobrar por isso, além de gostar de sentir-se necessário. Segundo Martins (2010, p. 74), [...] devemos escutar o que o adolescente tem a dizer – valorizar sua voz é abrir as portas do diálogo [...] a melhor saída é chamar a atenção para aquilo que há de positivo no comportamento do próprio jovem. Assim, ele poderá começar a reconhecer nele mesmo traços da identidade que constrói.

Os colegas aplaudiram e vibraram com suas palavras. Já estava terminando o período. Ao tentar passar o videoclipe no notebook para apreciação do nosso encerramento, o vídeo não pode ser acessado por problemas técnicos no programa de visualização do notebook. Prometi aos alunos que iria mandar o vídeo pelo Orkut, nosso meio de comunicação durante o período do estágio. Aproveitei para pedir ajuda aos alunos para pendurar um varal de poesias que preparei para eles, como lembrança. Agradeci a todos pela forma como fui recebida e pelo auxílio deles no meu estágio. Fui aplaudida por eles, que foram logo olhar as lembranças no varal. Pedi que tirássemos uma fotografia em grupo, após registrar a turma, a aluna líder da 301 me abraçou e disse que sentirão saudades das nossas aulas. Oiie! Nossa! Imagina, eu é que agradeço por vc ter se dedicado tanto a nossa turma e por ter me ensinado o que realmente é a arte, não tinha noçao do quanto pode ser divertido estudar artes : ) De uma coisa vc pode ter certeza, toda vez que eu olhar para uma fotografia, uma pintura, um texto, uma musica até mesmo a arquitetura de um local, vou ver atravez do real, vou viajar imaginando o significado. E vou lembrar de vc pra sempre : ) Vou pendurar minha lembrancinha no meu quarto com muito carinho,

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obrigada mesmo pela sua dedicação e paciência :D Beijoos e sucesso sempre!

Disponível em: http://www.orkut.com.br/ Acesso em: 24 Nov. 2010.

Trabalho da aluna Mariélli. (Fonte: KARG, 2010)

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Trabalho da aluna Luana. (Fonte: KARG, 2010)

Trabalho da aluna Cariny. (Fonte: KARG, 2010)

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Trabalho da aluna Suzane. (Fonte: KARG, 2010)

Trabalho da aluna Franciele. (Fonte: KARG, 2010)

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Trabalho da aluna Tanise. (Fonte: KARG, 2010)

Trabalho do aluno Claudio. (Fonte: KARG, 2010)

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Trabalho do aluno Jonas. (Fonte: KARG, 2010)

Trabalho da aluna Tuane. (Fonte: KARG, 2010)

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Trabalho da aluna AndrĂŠia. (Fonte: KARG, 2010)

Trabalho da aluna Thainara. (Fonte: KARG, 2010)

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Trabalho da aluna Dienifer. (Fonte: KARG, 2010)

Trabalho da aluna turma 301. (Fonte: KARG, 2010)

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Trabalho do aluno Douglas. (Fonte: KARG, 2010)

Trabalho da aluna Claudia. (Fonte: KARG, 2010)

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Trabalho da aluna M么nica. (Fonte: KARG, 2010)

Trabalho do aluno Leonardo. (Fonte: KARG, 2010)

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Trabalho da aluna Mariana. (Fonte: KARG, 2010)

Trabalho do aluno R么mulo. (Fonte: KARG, 2010)

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CONCLUSÃO

Após a finalização da prática de ensino, realizei um trabalho avaliativo de análise de minhas experiências. Minhas impressões e vivências foram anotadas em um diário pessoal, que foi fundamental nessa etapa de conclusão do período de estágio. As minhas expectativas em relação às aulas, aos alunos e à escola, como eu me senti diante das respostas deles, vivenciando pequenas conquistas com os alunos e grandes decepções com a instituição, reforçando minhas certezas e renovando minha visão sobre a educação e seus agentes. A retomada da leitura das aulas realizadas junto aos escritos pessoais foi fundamental para estabelecer um olhar apurado do que pareciam equívocos, mas que hoje considero exemplos fundamentais para minha conduta profissional. Após uma revisão da prática de ensino realizada no período de estágio, apresento alguns pontos que ocorreram durante o percurso das aulas, além de considerações que surgiram a partir de reflexões sobre minha abordagem em sala de aula. Discorro sobre a reavaliação da metodologia empregada de acordo com o planejado, a necessidade de avaliar a produção dos alunos, durante as aulas e no término de cada encontro. Ponto 1: Reavaliando a metodologia a partir da prática Ponto 2: Análises mais profundas do trabalho dos alunos: Existem muitos pontos a serem considerados sobre minha prática de ensino, que ocorreram sem eu perceber e dar a verdadeira importância. Fatos que foram fundamentais para os alunos e para meu aprendizado como Arte educadora. Gostaria de ressaltar fatos, como os que ocorreram no segundo encontro com a turma. Ao fazer questionamentos sobre as imagens que ilustraram nossa aula, não me dei conta que por vezes as perguntas que eu fazia aos alunos eram muito abertas ou fechadas demais. O que me fez pensar que talvez não teriam o que discutir. Em seguida, ao vê-los identificarem algumas imagens do artista Vik Muniz, não utilizei essa resposta dos alunos para então prosseguir com os questionamentos e propor relações além das que eles já estavam fazendo em seus comentários. Hoje percebo que o equívoco foi a maneira que abordei o artista e suas 139


obras aos alunos, sem especificar as perguntas, direcionando minhas intenções ao questioná-los. No terceiro encontro com a turma, além de distribuir reproduções de obras para iniciarem uma leitura de imagens, tentei explicar as etapas de uma leitura, segundo Edmund Feldman. Escrevendo no quadro em forma de tópicos, enquanto os alunos copiavam as informações, não percebi o quanto minha aula havia se tornado técnica, com muitas informações no mesmo dia. Em poucos minutos de aula, sem exemplos mais práticos, e sem dar um tempo mais flexível para que os alunos aproveitassem as imagens e fizessem suas próprias leituras iniciais. Promover uma conversa sobre as imagens ou sobre questionamentos dos alunos seria uma alternativa pertinente. No quarto encontro, percebi que apenas um grupo estava interagindo enquanto realizavam o trabalho de leitura de imagem, comparando os elementos da obra e questionando suas formas, até serem os únicos que quiseram apresentar seu trabalho ao grande grupo. Nesse mesmo grupo de alunos, houve interesse pela exposição de Arte em que eu iria participar. Esse momento de associações entre leitura de imagens e o meu trabalho de Arte, que os alunos observaram fora da sala de aula, pode ter sido o desafio que eu sabia que não havia oferecido durante a aula para uma leitura de imagem. O estímulo, que eu não proporcionei a eles, curiosamente, eles direcionaram para o meu trabalho. Expliquei sobre a exposição, porém não utilizei esse momento para exemplificar toda a aula e conversar sobre algo que teve muito mais valor para eles do que a minha preocupação em vencer a falta de tempo para terminar mais uma etapa do trabalho em grupos, tornando assim a aula muito técnica. No quinto encontro, apesar do bom desempenho ao conduzir as conversas que surgiram durante a aula, faltou uma avaliação final com a turma sobre o que eles realmente entenderam sobre o assunto em questão, valorização da Arte através da propaganda. Não oportunizei um momento para mostrar o quão interessante foram os trabalhos e não tive tempo de pensar sobre a avaliação. No sexto encontro com a turma, não estipular um número específico de alunos por grupos pode ter prejudicado o andamento da aula novamente. O mesmo grupo que se sobressaiu na aula anterior manteve-se unido, tiveram idéias bem variadas para o novo trabalho e penso que poderiam ter ajudado os outros colegas 140


se fossem misturados a outros grupos. Faltou uma análise final com todos os grupos e seus projetos para criação de um produto. Os alunos poderiam ter mais espaço para falarem sobre seus trabalhos, para trocarem impressões sobre o que produziram, para discutir suas escolhas e o processo de criação, modificando a maneira de produzir trabalhos em aula, contando com a participação do aluno nesse processo avaliativo. Na sétima aula, não houve relação entre os materiais que levei aos alunos com suas escolhas, novamente nenhuma análise ao final da aula sobre os fatos ocorridos, apesar de eu ter auxiliado os alunos quando solicitada. No oitavo encontro, não analisei profundamente as obras realizadas pelos alunos, poderia ter feito relações com as citações que fundamentaram o encontro, corrigindo de forma avaliativa. Muitas observações devem ser feitas no nono encontro. Os alunos apresentaram trabalhos muito bem elaborados, porém não me detive nos pontos mais interessantes da aula. Muitas alunas propuseram em seus trabalhos produtos para cachear os cabelos. Percebi que a maioria dos alunos confeccionou trabalhos que tinham como tema a estética, mas não me detive nesse curioso fato, que poderia ter rendido conversas e observações muito significativas para todos. Um grupo composto por meninas, entre elas três alunas que participaram da noite de abertura da exposição da qual fiz parte, apresentou um trabalho baseado em dois desenhos de minha autoria. O trabalho das alunas foi minuciosamente elaborado, com riqueza de pesquisa e significado. Surpreendida com a escolha delas, realmente não esperava esse retorno após nossas conversas sobre a exposição e meu convite. Não houve uma avaliação constante da produção feita pela turma e poderíamos ter mais conversas sobre suas escolhas, analisando os trabalhos, assim como na décima primeira e décima segunda aula. O período das aulas poderia ser dedicado a observações relevantes, não apenas à preocupação em cumprir tarefas no prazo estipulado para a conclusão do estágio. De um modo geral, a metodologia deveria ter sido corrigida no aspecto avaliativo do que os alunos produziram em aula, tanto nos trabalhos práticos, quanto em suas observações e atitudes em geral, para dar sentido às suas pesquisas e questionamentos criados a partir de minhas perguntas e que também surgiram a partir de seus trabalhos. 141


Ponto 3: Citações bibliográficas em acordo com o realizado e desacordo com o internalizado: Este ponto sobre as citações bibliográficas mostra que durante a execução da prática, tive preocupação em citar bibliografias que estivessem em acordo com as situações de cunho metodológico ocorridas em aula. Mas havia um descompasso pessoal, que me impediu de verdadeiramente viver o que as citações por mim escolhidas propunham. Teoricamente eu sabia o que deveria relacionar com fatos ocorridos nas aulas, porém, não vivenciei na prática, o que as citações propunham. Sete citações mais significativas foram selecionadas, em relação às citações e em relação às questões relacionadas a partir delas. Um exemplo dessas situações pode ser observado segunda aula. Conforme Arslan (2004, p. 10), “muitos adolescentes sabem pouco sobre as imagens cotidianas, que utilizam recursos visuais semelhantes ao da produção artística oficial. A vida contemporânea não permite essa interpretação.” Utilizei a seguinte citação porque durante esse encontro, apresentei aos alunos o trabalho do artista plástico Vik Muniz, julgando ser um artista sobre o qual a turma não teria nenhum conhecimento prévio sobre sua produção artística, segundo informações obtidas durante as observações silenciosas. Acredito que o fato de utilizar vídeos com a explanação do próprio artista sobre sua obra, foi fundamental. Não apenas como um sinal de curiosidade da turma, o fato oportunizou essa “interpretação” segundo Arslan, sobre imagens cotidianas relacionadas à produção artística, além de aproximar os alunos do artista, levando-os a conhecer quem está por trás da obra, conhecendo seu processo de criação. A partir deste episódio, iniciaram as questões sobre as quais faltou um olhar mais apurado de minha parte. A metodologia utilizada em sala de aula foi o ponto de partida do interesse dos alunos. A conversa do artista com os expectadores poderia ter sido um exemplo de metodologia a ser considerada durante as aulas posteriores. Já na terceira aula, outra situação importante ocorreu quando selecionei a seguinte citação:

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Segundo Cocchiarale (2006, p.14), “O artista contemporâneo nos convoca para um jogo onde as regras não são lineares, mas desdobradas em redes e relações possíveis ou não de serem estabelecidas.” Essa citação ratifica a importância das relações que começaram a ocorrer em aula, de acordo com os comentários da turma sobre as imagens produzidas por Vik Muniz e suas memórias cotidianas. Novamente, os alunos reforçam a importância do que poderia ser a chance de introduzir uma abordagem do meu trabalho como artista em sala de aula, o que mais tarde ocorre de forma inesperada para o meu planejamento de estágio, conforme o ocorrido na quarta aula: Segundo Trindade (2002, p.1), “Uma imagem, ao contrário de um texto, propicia uma infinidade de leituras devido às relações que seus elementos sugerem.” O episódio ocorrido fora da sala de aula, quando alguns alunos me encontraram desenhando no parque da cidade, foi o ponto chave para as leituras e relações sobre imagens que um grupo de alunos passou a estabelecer durante as aulas. A metodologia técnica utilizada nesse encontro foi um contrassenso ao que os alunos já estavam fazendo, ainda que inconscientemente. Fato observado somente após essa aula, motivo pelo qual busquei as citações anteriores. Na sexta aula, utilizei uma citação que falasse sobre a forma de pesquisa que propus aos alunos. Segundo Fischer (2001, p. 11), [...] a idéia de que as obras de arte de certa forma “nos olham”, nos convidam a olhá-las; se fecharmos os olhos, diante delas, percebemos o quanto o ato de ver nos remete a uma série de lembranças, desejos, sentimentos, como se aquela pintura ou escultura, por exemplo, nos olhasse, nos perseguisse, nos provocasse, nos constituísse também, produzisse algo em nós. Essa relação única do sujeito com aquilo que olha é certamente plena de elementos sociais e culturais.

Essa citação foi escolhida por sua importância metodológica, devido ao uso de livros e reproduções de obras para iniciar uma pesquisa de criação. Porém, a falta da avaliação sobre as escolhas das obras e os respectivos produtos criados pela turma, é repleto de elementos sociais e culturais trazidos pelos alunos através de suas vivências, exatamente os pontos sobre os quais a avaliação poderia ser considerada. 143


Semelhante fato ocorreu durante a oitava aula, na qual citei mais um episódio sobre o uso da Internet com os alunos. Para Hernández, [...] a Cultura Visual e os novos campos disciplinares, como os estudos culturais, o estudo dos meios, e etc., podem enriquecer a escola na medida em que apresentam novas abordagens metodológicas e trazem à rotina escolar problemas contemporâneos e até então não abordados por ela. (2007, p.36)

Durante o período de estágio, utilizei a Internet como ferramenta de comunicação com os alunos para otimizar nossos encontros, de modo que todos recebessem meus recados e assim acompanhassem cronograma de atividades. Essa forma de comunicação criou uma proximidade entre nós, fazendo com que as aulas fossem, de certa forma, construídas com afetividade e colaboração. Numa espécie de segundo plano, fora da escola. Hoje percebo a importância desta proximidade com os alunos, que também ressaltei na sétima Aula. Segundo Callegaro (2002, p. 143), [...] o espaço da Internet aponta, para o ensino da Arte contemporânea, os projetos colaborativos – em parceria, coletivos e interculturais – [...] mediados pela máquina. [...] Portanto, não é possível pensar a identidade sem pensar a relação com o outro; pensar o espaço sem pensar nas relações e ações que os indivíduos realizam nesses espaços; pensar as tecnologias sem identificar as ações que as envolvem.

A seguinte citação foi utilizada para ilustrar o fato de ter auxiliado uma aluna na conclusão de seu trabalho, mantendo um contato por e-mail. Mas não percebi a totalidade desse ato, que tornou-se um forte aliado na prática de ensino. O uso da Internet, através do correio eletrônico e uma rede social de relacionamento, foi o meio utilizado para manter contato com os alunos durante as semanas de estágio, prática que obteve resultados muito além da praticidade em comunicar-me com a turma. Na nona aula, recebi o resultado obtido pelos alunos, vendo alguns trabalhos realizados feitos a partir de minha produção artística. Segundo Vianna, (1994, p.3),

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“Ao se descobrirem como seres criadores os professores passam a acreditar no potencial criador de seus alunos e a oferecer-lhes maior espaço para expressão.” Neste ponto do estágio, confrontei-me com o receio de expor minha produção artística para a turma e tive uma grata surpresa. Ao ter a certeza de que, tardiamente (considerando a proximidade do término das aulas), consegui estabelecer um laço de afetividade, identificação e produção de significado para estes alunos. Para finalizar, gostaria de colocar que meu posicionamento inicial como pessoa e enquanto professora, foi de que meu olhar foi além da mera contemplação. Fazendo um comparativo com o título de meu projeto de estágio, percebo que esse processo foi de muito mais aprendizado pessoal. Tentei fazer com que os alunos não apenas absorvessem informações sobre imagens da Arte, mas que de alguma forma, produzissem significados para o seu conhecimento além da sala de aula. Sinto que na realidade, quem realmente aguçou o meu olhar foram os alunos, os verdadeiros agentes da mudança que pensei que pudesse fazer em nossas aulas, estimulando-me hoje para essa retomada de meus equívocos e tornando-os exemplos de aprendizado para minha realidade profissional. Educar e fazer Arte são exemplos que caminham juntos, não apenas no discurso do Arte educador, mas em sua prática, tornando viva a troca de conhecimento. Como parte da vida de quem compartilha seu saber, está o acolhimento do resultado dessa troca, que dá sentido para o seu trabalho e certeza para sua escolha de vida, como artista e educador.

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REFÊRENCIAS

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APÊNDICE 1

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APÊNDICE 2

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APÊNDICE 3

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O olhar além da contemplação  

Trabalho de Curso apresentado por Daniela Karg em julho de 2011.

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