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UNIVERSIDADE LUTERANA DO BRASIL – ULBRA CANOAS/RS UNIDADE ACADEMICA DE GRADUAÇÃO CURSO DE LICENCIATURA EM ARTES VISUAIS

Nátia Pereira Vargas

FOTOGRAFIA E ARTE NA EDUCAÇÃO

Canoas/RS 2010


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Nátia Pereira Vargas

FOTOGRAFIA E ARTE NA EDUCAÇÃO

Trabalho de conclusão de curso apresentado como requisito para obtenção de titulo de licenciado (a) em Artes Visuais, pelo Curso de licenciatura em Artes Visuais da universidade Luterana do Brasil, sob a orientação dos professores Dr. Celso Vitelli e Ma. Ana Lúcia Beck.

Canoas/RS 2010


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Dedico este trabalho a minha famĂ­lia que durante todo o tempo de curso esteve ao meu lado me incentivando e me apoiando e, principalmente, compreendendo minha ausĂŞncia.


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Agradeço a todos aqueles que tornaram a conclusão deste trabalho possível. Aos alunos que através de suas realidades social e cultural influenciaram positivamente o rumo deste trabalho. Aos professores que mediaram a construção do conhecimento e a minha evolução pessoal e profissional. A todos os profissionais das escolas em que foram realizados os estágios. Um agradecimento especial ao meu noivo que esteve comigo durante todo o período do Curso me incentivando nos momentos difíceis e me ajudando a encontrar o caminho para o sucesso. Acima de tudo, agradeço aos meus pais que estiveram comigo, mesmo que em pensamento, me fortalecendo para enfrentar todas as dificuldades durante esta caminhada.


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“Mas, talvez, em nós, ainda exista, ou sobreviva, algum lugar fora do tempo e distante do espaço, onde sejamos sem certezas e sem medo e onde possamos representá-los com o verdadeiro espanto que os concebemos. Talvez entre nossos sonhos, talvez só aconteça quando distraídos, talvez só permitido às crianças, quem sabe aos loucos, às mulheres e às mulheres que moram em todos os homens. Aí, nesse lugar sem nome é a arte, e só ela quem governa os acontecimentos”. Kubrusly (Apud. Aurora Ferreira, 2008).


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RESUMO

O presente trabalho apresenta o projeto educativo aplicado no Ensino Fundamental EJA, na Escola Municipal de Ensino Fundamental Professor Emílio Schenk, durante o período de onze semanas, totalizando treze aulas. Como também no Ensino Médio no Instituto de Educação Estadual Pereira Coruja, durante um período de doze semanas, com quinze aulas ministradas. Ambas as escolas situamse na cidade de Taquari, aproximadamente a 90 km da capital, Porto Alegre. O tema escolhido se refere a utilização da fotografia nas aulas de Artes, com a análise de imagens no sentido histórico e social com o objetivo de aguçar o espírito crítico dos alunos, como também a evolução da arte após o advento da fotografia e a evolução da aprendizagem dos alunos após a inserção da fotografia nas aulas de Artes. As metodologias aplicadas foram trabalhos em grupos, analise de imagens e atividades que visam proporcionar aos alunos o entendimento da construção da imagem fotográfica. Os autores utilizados como referência contribuíram para o melhor entendimento do processo de construção da imagem fotográfica, bem como para o esclarecimento de questões sobre o advento da fotografia e sua influência com a arte. São eles Giulio Carlo Argan, Walter Benjamin, Philippe Dubois, Miriam Celeste Martins, entre outros. Nestas escolas foi possível observar que um mesmo tema desenvolvido em dois níveis de ensino distintos tem diferentes resultados. Este fato contribuiu para meu crescimento profissional, a medida que foi preciso buscar cada vez mais conhecimento para abordar o tema escolhido. Mas principalmente porque foi necessário reavaliar diversas vezes o planejado a fim de ir ao encontro das expectativas dos alunos e transformar a análise crítica das imagens fotográficas em um conhecimento significativo.

Palavras chave: fotografia, construção de imagem, espírito crítico.


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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .................................................................................................................................09 1. Arte e Fotografia .......................................................................................................................13 1.1. O surgimento da fotografia .....................................................................................................14 1.2. O processo histórico ...............................................................................................................14 1.3. A fotografia como arte .............................................................................................................16 1.4. As conseqüências do surgimento da fotografia na arte ..............................................................17 1.5. A relação da arte com a fotografia ...........................................................................................20 1.5.1. A arte antes da fotografia ......................................................................................................20 1.5.2. Arte depois da fotografia ......................................................................................................21 1.5.3. A repercussão da fotografia na arte da sociedade contemporânea ........................................22 1.5.4 Fotografia como processo de libertação ...................................................................................25

2. Ensino de Arte e a Fotografia .....................................................................................................32

3. Diálogo com as escolas .................................................................................................................42 3.1. Histórico e caracterização da Escola Professor Emílio Schenk......................................................43 3.2 Observações silenciosas Ensino Fundamental EJA.......................................................................44 3.3.

Análise

das

observações

silenciosas

do

Ensino

Fundamental

EJA..................................................49 3.4. Análise do questionário da professora do Ensino Fundamental EJA ............................................51 3.5. Análise dos questionários dos alunos do Ensino Fundamental EJA...............................................53


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3.6. Histórico e caracterização do Instituto de Educação Estadual Pereira Coruja ..............................55 3.7. Observações silenciosas do Ensino Médio .................................................................................57 3.8. Análise das observações silenciosas do Ensino Médio .................................................................64 3.9. Análise do questionário da professora do Ensino Médio ............................................................66 3.10. Análise dos questionários dos alunos do Ensino Médio .........................................................68

4. Prática de ensino no Ensino Fundamental EJA ..............................................................................71 4.1. Projeto educativo ...................................................................................................................72 4.2. Aula 1 ......................................................................................................................................75 4.3. Aula 2 .....................................................................................................................................80 4.4. Aula 3 ......................................................................................................................................88 4.5. Aula 4 .....................................................................................................................................95 4.6. Aula 5 .....................................................................................................................................102 4.7. Aula 06 ...................................................................................................................................106 4.8. Aula 07 .......................................................................................................................................116 4.9. Aula 08 ......................................................................................................................................120 4.10. Aula09 ........................................................................................................................................126 4.11. Aula 10 ................................................................................................................................130 4.12. Aula 11 ...................................................................................................................................135

5. Prática de ensino no Ensino Médio ...........................................................................................141 5.1. Projeto educativo .................................................................................................................142 5.2. Aula 01 ..................................................................................................................................145 5.3. Aula 02 ....................................................................................................................................149


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5.4. Aula 03 ..................................................................................................................................155 5.5. Aula 04 ..................................................................................................................................163 5.6. Aula 05 .......................................................................................................................................170 5.7. Aula 06 ..................................................................................................................................176 5.8. Aula 07 .......................................................................................................................................180 5.9. Aula 08 ...................................................................................................................................185 5.10. Aula 09 ....................................................................................................................................189 5.11. Aula 10 ...................................................................................................................................195 5.12. Aula 11 ...................................................................................................................................204 5.13. Aula 12 ...............................................................................................................................208

CONCLUSÃO ...................................................................................................................................214 REFERÊNCIAS ..................................................................................................................................225 APÊNDICES ......................................................................................................................................228 Apêndice 1 Questionário da professora do Ensino Fundamental EJA ................................................229 Apêndice 2 Questionário da coordenação do Ensino Fundamental EJA ............................................230 Apêndice 3 Questionário da direção do Ensino Fundamental EJA ....................................................231 Apêndice 4 Questionários dos alunos do Ensino Fundamental EJA ...................................................232 Apêndice 5 Questionário da professora do Ensino Médio ...............................................................237 Apêndice 6 Questionário da coordenação do Ensino Médio ...........................................................238 Apêndice 7 Questionário da direção do Ensino Médio ...................................................................239 Apêndice 8 Questionários dos alunos do Ensino Médio .................................................................240


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INTRODUÇÃO

O trabalho apresentado a seguir é resultado de pesquisas realizadas durante todo o período de formação do Curso de Artes Visuais. Como acadêmica, por diversas vezes pensava a respeito da influência da fotografia na Arte, por esse motivo surgiu o interesse de pesquisar mais sobre o assunto a fim de elucidar algumas questões, tais como entender como era a Arte antes e depois desta descoberta. É possivel afirmar a fotografia como Arte, em razão que as pesquisas bibliográficas realizadas para compor este trabalho, apontaram esta ideia através de autores como Giulio Carlo Argan que ressalta: “os pintores de visão como Coubert e Toulouse estão prontos a admitir que a fotografia, assim como a gráfica ou a escultura pode ser uma Arte distinta da pintura” (1992, pág. 79). Outro motivo pelo qual optei em trabalhar este tema está relacionado ao interesse pessoal com relação ao assunto, com o intuito de expandir meus conhecimentos e buscar o constante crescimento intelectual e profissional, como também, acredito que trabalhar a fotografia em sala de aula pode além de apresentar uma nova forma de perceber a arte, pode instigar o aluno a pensar sobre a construção das imagens. Algumas variáveis influenciaram na organização do projeto, tais como a mudança de turma. Inicialmente tinha sido observada uma turma para a elaboração do projeto, mas no ano seguinte, este grupo tinha se separado, pois o ano letivo havia terminado, e não foi possível realizar o estágio com o mesmo grupo de alunos. Este fato ocorreu nas duas escolas e implicou na necessidade de novas observações silenciosas para tentar perceber se o que estava planejado estaria de acordo com o novo grupo que havia se formado. Alguns alunos eram os mesmos outros tinham vindo de outras escolas. No entanto não foi possível muitas observações visto que as escolas no início do ano letivo não permitem que o estagiário compareça logo nas primeiras aulas para que o professor titular tenha o primeiro contato com a turma. Em razão destas observações e do desenvolvimento do projeto, este trabalho apresenta a análise das diferenças e semelhanças da


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percepção e assimilação de imagens fotográficas dos dois grupos, Ensino Fundamental EJA e Ensino Médio. No primeiro capítulo desenvolve-se a pesquisa bibliográfica sobre o tema, realizada a partir de leituras e análise de imagens. Este é um assunto de extrema importância e de grande abrangência na sociedade atual, considerando que a fotografia está sendo apresentada como arte em diversos meios de comunicação e levantando a questão de libertação da arte para novos processos de criação. É possivel perceber mais profundamente, no decorrer deste primeiro capítulo, a relação da arte com a fotografia, compreendendo melhor como a arte era expressa antes e depois deste advento tão importante para a sociedade contemporânea. Todos estes assuntos são desenvolvidos nos sub-capítulos, contendo também argumentos e citações para direcionar ao fechamento da primeira parte deste trabalho. Vários autores foram utilizados para a elaboração deste capítulo, tais como: Walter Benjamin, Philippe Dubois e H. W. Janson que afirma a fotografia como arte, deixando claro que a fotografia não se tratava de uma imitação da pintura, mas uma forma de arte. O objetivo principal desta pesquisa, contida no primeiro capítulo, é apresentar a fotografia como processo de libertação para a arte, no sentido de abrir novas possibilidades e recursos que demonstram o quão importante foi sua descoberta, resultando em novas formas artísticas e na ampliação da liberdade de expressão do artista. No segundo capítulo apresenta-se a relação da fotografia com a educação, discorrendo sobre a ideia do quanto este tema pode favorecer no ensino. Acredito que a educação só tem a ganhar, incluindo a análise de imagens fotográficas e da mídia no ensino e Artes, com o objetivo de instigar o aluno a pensar mais sobre o tema e perceber o mundo de forma crítica, como também explorar as várias possibilidades de se trabalhar a fotografia no ensino. Neste capítulo encontram-se também citações de autores como Miriam Celeste Martins, que afirmam as ideias apresentadas no decorrer do mesmo. Alguns aspectos chamaram a atenção durante as observações silenciosas que levaram a reafirmação da escolha do tema, tais como a influência digital pela qual os alunos estão passando, com aparelhos de celular e Mp4 sendo utilizados dentro da sala de aula, e mesmo com a alteração do grupo de alunos esta influência permaneceu. Estes aspectos serão desenvolvidos no terceiro capítulo, assim como o histórico escolar das escolas em que este


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projeto foi aplicado, dados que contribuíram para a aproximação da realidade dos alunos, com também para perceber o interesse e as necessidades deles. As escolas possuíam características em comum como o envolvimento dos alunos com as drogas, porém alguns diferenciais como a localização, uma estava localizada no bairro mais perigoso da cidade, a outra no centro. A gestão escolar também apresenta fortes diferenças como na questão de domínio da situação pela qual seus alunos estão inseridos. No Ensino Médio a direção tinha mais controle, e estava mais próximo dos pais, no Ensino Fundamental EJA a direção já não consegue se aproximar dos pais, a violência e o envolvimento com as drogas ultrapassaram os limites dos portões da escola. O quarto capítulo se refere ao planejamento realizado no Ensino FundamentalEJA, são doze semanas de aulas transcritas com a análise dos resultados obtidos. O planejamento refere ao tema anteriormente mencionado, porem com abordagem voltada para o publico em questão. As atividades são baseadas no trabalho de artistas como Vik Muniz, Avani Stein e Célia Jaguaribe. Através da apresentação de imagens destes artistas os alunos são levados a refletir sobre o processo de construção, bem como sobre a veracidade das imagens apresentadas. Na seqüencia o planejamento do Ensino Médio juntamente com as análises dos resultados obtidos estão presentes no quinto capítulo. Para este grupo de alunos o planejamento contou com a apresentação do trabalho de artistas como Hanna Höch e Cindy Sherman. Aos alunos são propostas atividades que direcionam para o entendimento da construção da imagem, discutindo sobre a influência das imagens transmitidas pela mídia escrita e falada, e instigando o aluno a pensar. Para os dois níveis de ensino as atividades foram semelhantes. Finalmente apresenta-se a conclusão deste trabalho, discorrendo pelos aspectos relevantes durante o processo de ensino aprendizagem que a pesquisadora vivenciou no decorrer desta prática pedagógica, tais como a necessidade de adaptação constante do planejamento para estar de acordo com as expectativas dos alunos, a busca constante do interesse dos alunos no tema do projeto e a relação da qualidade da produção com o interesse que eles tinham pelas atividades propostas. Estes aspectos serão desenvolvidos em uma analise comparativa dos dois níveis de ensino, Ensino Fundamental EJA e Ensino Médio.


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Reflexões sobre o crescimento intelectual e profissional também estão contidas na conclusão deste trabalho, pois através de busca pela resolução de situações problema foi possivel entender a importância de vivenciar ao máximo cada momento no decorrer deste processo. Certamente muito ainda poderia ser descrito ou realizado durante este período, mas infelizmente o tempo disponibilizado não possibilitou maiores considerações.


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CapĂ­tulo 1 Arte e fotografia


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1.1. O SURGIMENTO DA FOTOGRAFIA

1.2. O PROCESSO HISTÓRICO

Após cinco anos de pesquisa o francês Joseph Nicephore Niepce e Jaques Mandé Daguerre alcançaram simultaneamente o objetivo de conseguir fixar as imagens da câmara escura, esta descoberta se deu quando o francês pesquisava um método automático para copiar desenho e traço nas pedras da litografia. A câmara escura era uma caixa escura com um pequeno orifício numa das paredes, onde a luz entrava, na parede oposta formava-se uma imagem de cena exterior.

Imagens de Daguerre e Niepce Disponível em: http://www.escoladeartes.com.br/vc_sabia.htm. Acesso em: 11/06/2008.

Em 1826, foram feitas as primeiras fotos usando a câmara escura com preparados de prata sensível a luz: o filme. Eram peças únicas guardadas em estojos como se fossem jóias, em 1839 custavam 25 francos-euros. Segundo Walter Benjamin, (1994): Os clichês de Daguerre eram placas de prata, iodadas e expostas na câmara obscura; elas precisavam ser manipuladas em vários sentidos, até que se pudesse reconhecer, sob uma luz favorável, uma imagem cinza-pálida. Jaques Mandé Daguerre desenvolveu o processo de fixação de imagem que chamou de daguerreótipo. Este processo foi muito popular, pois atendeu a classe média


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durante a revolução industrial, pois a sua invenção era mais rápida e com um custo mais baixo do que os retratos pintados a óleo. Ao mesmo tempo, no Brasil, Antoine Hercules Romuald Florence, que residia em Vila de São Carlos, hoje Campinas, foi responsável por inventar a photographie em meados de 1839, suas pesquisas começaram seis anos antes da invenção de Daguerre vir a público. Segundo Maria Helena Paes, Geni Rosa Duarte e Camilo Vannuch, em pesquisa para a Coleção Êxodos, (2000) afirmam que: Seu invento era capaz de registrar o negativo da imagem em um papel revestido com nitrato de prata, conforme anotou em seu diário. Há grandes semelhanças entre o engenho de Florence e os métodos atuais: utilizou o nitrato de prata para fixar a imagem (e não o iodeto empregado por Daguerre); produziu então um negativo, por meio do qual podiam ser feitas copias positivas pelo processo de contato (por isso, Florence passou a fazer experiências de fixação sobre o vidro) (PAES, 2000, p. 11).

Assim que a invenção foi colocada em domínio público foram criadas condições para o seu desenvolvimento continuo e por volta de 1839, Willian Fox Talbot inventou o papel fotográfico e a câmara fotográfica. As pessoas não ousavam a princípio olhar para as primeiras fotografias feitas pelo processo daguerreótipo de pessoas e animais, por se assustarem com a fisionomia de pequenos rostos humanos fitando-as. Benjamin (1994) nos lembra que as primeiras pessoas fotografadas entravam nas cenas sem que nada se soubessem de suas vidas passadas, sem nenhum texto descrevendo suas identificações. O rosto humano era rodeado por um silêncio no olhar, e os jornais ainda eram artigos de luxo e pouquíssimos homens tinham seu nome impresso. Como afirma o autor, “quando os inventores de um novo instrumento o aplicam à observação da natureza, o que eles esperavam da descoberta é sempre uma pequena fração das descobertas sucessíveis, em cuja origem está o instrumento (idem, 1994, p. 92).” Nesta afirmação Benjamin transcreve o discurso do físico Arago em 1839, quando defendeu a descoberta de Daguerre de forma a indicar o verdadeiro alcance da invenção, considerando que seria o início do domínio de novas técnicas da astrofísica à filosofia, trazendo a ideia de fotografar estrelas. Desde esta época as descobertas com relação às formas de fotografar não pararam de surgir transformando o mundo e redescobrindo um novo olhar


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sobre o universo a cada dia. A palavra fotografia vem do grego, photós gráfhien, ou seja, desenhar com a luz.

1.3. A FOTOGRAFIA COMO ARTE

A fotografia assim como a pintura pode ser considerada arte a partir de que toda forma de expressão é uma forma de Arte, para Argan “os pintores de visão como Coubert e Toulouse estão prontos a admitir que a fotografia, assim como a gráfica ou a escultura pode ser uma Arte distinta da pintura” (1992, p. 79). A partir do momento em que a fotografia começou a conseguir representar a sua maneira de olhar para o mundo descobrimos que a natureza fala à câmara não é a mesma que fala ao olhar. Quando uma pessoa está caminhando nada se percebe de sua atitude no momento exato em que ela dá o passo, a fotografia revela a ação realizada na exata fração de segundo em que ocorre o seu movimento através de seus recursos como a câmara lenta e a ampliação. Toda esta descoberta é usada até os dias de hoje em exposições e bienais, afirmando que o recurso fotográfico já faz parte do mundo da arte. Assim como o artista prepara suas tintas para trabalhar em uma pintura, o fotógrafo prepara sua cena e escolhe a visão que deseja revelar em sua fotografia. Cada ângulo escolhido, cada luminosidade aplicada pode mudar o resultado que o fotógrafo deseja expressar. A fotografia está diretamente ligada ao processo histórico da arte, desde muitos anos quando, com o seu surgimento, possibilitou à arte a libertar-se de seu papel de reproduzir cenas, como quando através de movimentos dadaístas representou protestos contra a Primeira Guerra Mundial com fotomontagens. Como afirma Ostrower “as primeiras fotomontagens feitas na Alemanha representavam fileiras de soldados ajoelhados como se fossem alunos do jardim de infância e atrás os oficiais dominando como professor-mor da turma”(2004,p. 340). Estas fotomontagens eram criadas como manifestações contra a guerra e expressam a luta de um grupo de protestantes contra a violência, a arte como manifestação


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política em busca da paz mundial. O resultado foi além do protesto deu-se uma verdadeira descoberta: novos mundos de linguagens. A capacidade inventiva dos artistas revelou a existência de formas de expressão em todo tipo de materiais e combinações (...). Os próprios conceitos do que seria uma forma de arte, (forma expressiva) foram reformulados numa visão nova e produtiva (...). Só para exemplificar, nas artes visuais: as técnicas de colagem e fotomontagem, assim como flash-back, (...) tudo isso não existiria sem as sementes que foram lançadas nesta tempestade (OSTROWER, 2004, p. 341).

Fayga Ostrower com este trecho demonstra que através da utilização de fotos nas montagens de cartazes de manifestações dadaístas contra a Primeira Guerra Mundial os artistas começam a utilizar e reconhecer como arte materiais antes desconhecidos como a fotografia, que possibilita novas formas de fazer e expressar arte sem substituir o processo da pintura, mas somando-se em novas formas de arte.

1.4.

AS

CONSEQUÊNCIAS

DO

SURGIMENTO

DA

FOTOGRAFIA NA ARTE

Com o surgimento da fotografia os artistas tiveram que buscar novas formas de fazer e pensar arte, considerando que perderiam muitas de suas funções antes únicas responsáveis pelo seu sustento como a arte de representar cenas e pessoas fielmente. Segundo Giulio Carlo Argan (1992, p. 78) “Com o surgimento da fotografia, muitos serviços sociais passaram do pintor para o fotografo (retratos, vistas de cidades e de campos, reportagens, ilustrações, etc.)”. Assim, a fotografia passa por uma situação a primeira instancia, de confronto com os artistas, principalmente os pintores, que temiam o fato de serem desmoralizados pela fotografia por perderem seu espaço na realização de retratos pintados a óleo. Com o passar do tempo os pintores começam a entender que o que estava condenado era as antigas formas de se fazer arte, sendo necessária a busca de novas maneiras de desenvolver e aprimorar seus conceitos e práticas. Degas e Toulouse utilizaram largamente materiais fotográficos, e para tanto não precisaram enfrentar qualquer problema teórico. Neste sentido, é correto afirmar que a fotografia contribuiu para aumentar o interesse dos pintores pelo espetáculo social.


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Os fotógrafos, por sua vez, mesmo se deixando guiar de bom grado pelo gosto dos pintores na escolha dos objetos, jamais pretenderam concorrer com a pesquisa pictórica (ARGAN, 1992, p. 81).

A arte passa a utilizar então recursos fotográficos para representar situações que antes levavam muitas horas para serem representadas através da pintura, como retratos, vários pintores se tornaram fotógrafos sem abandonar a pintura, como é o caso de Pablo Picasso que produziu varias de suas obras com o auxilio de fotografias tiradas por ele mesmo. Guernica é um dos quadros que demonstra seu trabalho relacionado com a fotografia, pois foi concebido a partir de 63 fotos tiradas sobre o tema.

Guernica (1937) Óleo sobre tela – Pablo Picasso. COORDENAÇÃO E ORGANIZAÇÃO FOLHA DE SÃO PAULO. Coleção Grandes Mestres da Pintura. Volume 3, pg. 80, Bauri, São Paulo: Editorial Sol 90, 2007.

Outros pintores tiveram seu nome reconhecimento através da fotografia. Segundo Benjamin, “David Hill, retratista famoso, compôs seu afresco sobre o primeiro sínodo geral da igreja escocesa, em 1843, a partir de uma serie de fotografias. Ele próprio tirava as fotos” (1994, p. 93). Através das fotografias tiradas para compor este trabalho Hill teve seu nome transmitido para a história, enquanto era esquecido como pintor.


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Fotografia de David Hill. Disponível em: http://industrias-culturais.blogspot.com/2005/11/ walter-benjamin-sobre-fotografia-i.html. Acesso em 25/10/09.

Para a arte a fotografia não é apenas uma descoberta da física, mas um recurso a ser utilizado a fim de aprimorar suas práticas e torná-las de mais rápido acesso, com seus recursos pode-se conhecer o mundo intero nas páginas de um álbum ou ilustrar as manchetes de jornais antes pintadas a mão e tão raramente encontradas. Como afirma Maria Helena Paes, Geni Rosa Duarte e Camilo Vannuch no texto: Câmeras digitais e fotos pelo celular, as imagens fotográficas se espalham em grande velocidade e ilustram reportagens no mundo todo, fato que a pintura convencional não poderia realizar em tão curto espaço de tempo. [...] não só uma agência de noticias envia suas fotos digitais para todos os conveniados em poucos segundos, como o repórter pode, da rua, enviar sua imagem para a redação do jornal, sem esperar o tempo de revelação do filme, uma foto tirada às 22 horas pode ser publicada na edição do jornal do dia seguinte (PAES, 2000, p. 35).

A fotografia, portanto, tornou-se uma forma de contribuir com a arte na representação de cenas da realidade, na ilustração de revistas e jornais, como também informar a população dos fatos que acontecem no mundo de forma rápida e objetiva, por trás das lentes o fotógrafo seleciona e registra a cena que o pintor poderia levar horas para representar.


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1.5. A RELAÇÃO DA ARTE COM A FOTOGRAFIA 1.5.1 A ARTE ANTES DA FOTOGRAFIA

A arte está presente desde o começo da história da humanidade, nas pinturas rupestres, quando o homem desenhava nas paredes de cavernas representando a sua historia de vida. O retrato humano e de paisagem era o principal ofício de pintores em todas as partes do mundo. O desejo de ser retratado por um pintor vem desde a época em que a burguesia do século XIX pretendia mostrar seu poder perante o povo e representar sua aparência ou apenas como gostariam que fosse sua aparência para presentear as moças ou retratar suas famílias. Na história da arte pode-se ver claramente como a arte teve a função de representação de cenas ou de retratar pessoas, um grande exemplo disto é o retrato de Monalisa. Francisco Del Giocondo um rico mercador, encomendou a Leonardo Da Vince um retrato de sua esposa Lisa Del Giocondo a obra chamou-se Monalisa tornando-se o quadro mais célebre do pintor. A obra é cercada de grandes mistérios, algumas fontes afirmam que seria a representação do próprio pintor, e muitos estudos foram criados a partir do sorriso subliminar que é representado através da imagem da moça.

Monalisa (1503 – 1506) Leonardo Da Vince. COORDENAÇÃO E ORGANIZAÇÃO FOLHA DE SÃO PAULO. Coleção Grandes Mestres da Pintura. Volume 3, pg. 80, Bauri, São Paulo: Editorial Sol 90, 2007.


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Quando se fala em arte era facilmente citada a pergunta: Para que serve? O que é? Demonstrando seu sentido de funcionalidade, como se a arte só existisse na função de retratar fielmente cenas e pessoas e não tivesse outra finalidade a não ser satisfazer a vontade da burguesia para ser comercializada e bem aceita pelo público, como algo belo aos olhares dos outros. A arte era condicionada à reprodução de paisagens, jamais poderia se dar ao luxo de surgir da abstração do artista ou de um simples devaneio, pois este tipo de arte não teria função comercial e seria facilmente criticada como algo feio. Querer fixar efêmeras imagens de espelho não é somente uma impossibilidade como a ciência alemã o provocou irrefutavelmente, mas um projeto sacrílego. O homem foi feito a semelhança de Deus, e a imagem de Deus não pode ser fixada por nenhum mecanismo humano. No máximo o próprio artista divino, movido por uma inspiração celeste, poderia atrever-se a reproduzir esses traços ao mesmo tempo divinos e humanos, um momento de suprema solenidade, obedecendo às diretrizes superiores do seu gênio, e sem qualquer artifício mecânico (BENJAMIN, 1994, p. 92).

Na citação anterior Benjamin descreveu de um jornal chauvista Leipzger Anzeiger, demonstra como era a ideia de arte e de que maneira as pessoas se referiam a mudança proposta. Por este motivo é que a arte durante séculos teve a função de representação fiel, cópia de paisagens sempre tentando responder as perguntas: O que? Para que? Afim de agradar a burguesia e não suscita o ato de pensar em ninguém.

1.5.2. ARTE DEPOIS DA FOTOGRAFIA

Cacilda Teixeira Costa (2004, p. 52) em seu livro Arte no Brasil transcreve uma frase dita pelo poeta e crítico da modernidade Charles Baudelaire: “Essa indústria, ao invadir os territórios da arte, tornou-se sua inimiga mortal”. A autora completa ressaltando que o poeta não estava totalmente certo, pois na verdade o que estava verdadeiramente condenado eram as antigas formas de se fazer arte que seriam obrigadas a abrir novos espaços para uma pratica de desenvolvimento contínuo.


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Com a descoberta da fotografia a arte pode abrir mão do sentido de funcionalidade em que estava inserida, abandonar a representação e buscar suas verdadeiras raízes ao mesmo tempo em que ajudou a fotografia a descobrir-se e a compreender sua verdadeira natureza. Em pouco tempo a fotografia começou a expandir-se e tornou-se muito mais rápido e fácil adquirir retratos através da fotografia do que encomendar à pintores que o fizessem levando muito mais tempo, por este motivo os artistas começaram a usar a fotografia intensamente, assim como seus subprodutos. A ideia de função para a arte começa a ser insustentável. Fernando Cocchiaralle, (2006, p. 57) complementa o sentido de transformação da arte de representação para abstração, “Na busca da pureza os artistas foram obrigados a abstrair as formas naturais que escondiam os elementos plásticos, a destruir as formas natureza e substituí-las pelas formas arte”. Como afirma o autor, os artistas precisaram buscar nos elementos mais diversos um novo sentido de refazer uma visão antes pré-moldada, substituindo conceitos para instigar a percepção e continuar comercializando suas obras sob outra visão. A natureza que fala ao olho não é a mesma que fala à lente, mas as duas podem complementar-se e tornarem-se ainda mais intrigante ao passo que juntas tem a liberdade de fazer as pessoas pensarem e envolverem-se com sua arte.

1.5.3. A REPERCUSÃO DA FOTOGRAFIA NA ARTE DA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

A imagem apresentada a seguir foi retirada do documentário “Arte Educação” (2000) refere-se a fotografias feitas para uma exposição realizada em São Paulo. Na primeira imagem podemos ver o mediador da exposição diante de uma das mais curiosas obras apresentadas na ocasião, fotografias de pessoas com diferentes expressões. Várias pessoas são questionadas sobre as obras e podemos perceber o espanto e a dúvida dos expectadores diante das obras, com se sentissem necessidade de uma explicação para aqueles rostos, bocas e olhos fitando-as.


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No decorrer deste documentário são apresentadas várias obras de artistas que trabalham utilizando a fotografia como suporte. Os artistas são estudantes de Artes que afirmam o quanto a fotografia, assim como o filme e outros recursos, são de grande importância para seus trabalhos e que para apreciar a arte não é preciso entendê-la, mas estar suscetível a novas formas de ver uma obra de arte contemporânea.

Imagem do filme. FAVARETO, Celso. Arte Educação. São Paulo: Itaú cultural, 2000. 1 fita cassete (60min),color, 35mm.

Com a fotografia fazendo parte da arte em bienais e exposições de todo o mundo tem-se a nítida conclusão de que a sociedade contemporânea acolheu a fotografia como uma nova linguagem. A maioria das pessoas que freqüentam estas exposições se vê questionada pelo uso de determinadas fotografias em obras de arte que parecem sem sentido algum. É justamente este o objetivo do artista, propiciar a crítica ao expectador, transcender a contemplação da obra e passar a criar arte através de registros captados instantaneamente. A sociedade contemporânea é repleta de informações que são transmitidas diariamente pela fotografia em jornais e revistas, na maioria das vezes que se escolhe transmitir estas informações através de arte o expectador é convidado a refletir de uma maneira sutil e instigante. Atualmente a sociedade aceita, mesmo sem entender a arte contemporânea, considerando que em tempos atrás qualquer manifestação em jornais que propiciasse a reflexão eram barrados pelas autoridades.


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Cocchiaralle relata o quanto as imagens contemporâneas têm a liberdade de formar opiniões e vão além da transmissão de paisagens e retratos, mas informam a situação pela qual passa o mundo em que vivemos, e são importantes armas para enfrentar a realidade.

As imagens contemporâneas são entronizadas pela mídia, pela publicidade, etc. como, por exemplo, a fotografia da menina vietnamita nua correndo de braços abertos numa estrada após ser atingida por napalm, ou o beijo entre o marinheiro e a enfermeira registrados no fim da guerra por Robert Doisneau (COCCHIARALLE, 2006, p. 55).

Segundo a citação acima as imagens fotográficas marcam uma época, registram cenas que ficam guardadas na memória de muitas pessoas, como relata Cocchiaralle onde um beijo entre uma enfermeira e um marinheiro registra o fim de uma etapa da vida de muita gente que sofreu com os episódios da guerra. Para a sociedade contemporânea a fotografia veio com força total na divulgação de atos de violência e vandalismo, como também trouxe para a arte um novo estimulo de transmitir informação e ou reflexões sem a necessidade da compreensão imediata do publico apenas com o intuito de refletir e transformar a arte. Desde o advento da fotografia e com a chegada da arte contemporânea o artista pode expressar seu sentimento em suas obras sem precisar retratar fielmente as imagens, como salienta Cocchiaralle (2006, p. 57) com um poema do inicio do século XX de Gertrudes Stein “uma rosa é uma rosa é uma rosa”. O que ele quis dizer utilizando esta frase da poetisa é que o simbolismo das obras deixou de existir, uma rosa pode significar apenas uma rosa em uma exposição, um elemento restringi-se ao que ele significa, a arte contemporânea pode ser apenas o que ela é. A arte libertou-se para dar novos significados a elementos comuns ou apenas, expressar a singularidade de um objeto qualquer.


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1.5.4. FOTOGRAFIA COMO PROCESSO DE LIBERTAÇÃO

Após o surgimento da fotografia, segundo Celso Favareto no documentário “Arte Educação” (2000), “a arte deixa de ser um objeto de contemplação e passa a ser um objeto que pode fulgurar no espaço”. Para o autor do documentário, com a chegada da fotografia a arte pode se libertar da obrigação de ter que dizer alguma coisa à alguém, e a pergunta muito conhecida sobre o que é arte passou a ser irrelevante. A arte passa a interagir com o expectador e se libertou do processo de contemplação a qual era condicionada antes que a fotografia fosse descoberta.

Imagem do filme. FAVARETO, Celso. Arte e educação. São Paulo: Itaú Cultural, 2000. 1 fita cassete (60min), color, 35 mm.

Como salienta o documentário, a arte tornou-se mais espontânea e suscita ao público a interação com a obra, pode-se então, trabalhar a dialética de que a representação cede lugar a uma autêntica apresentação pública. Muitos pintores, após a descoberta da fotografia, deixaram seus ateliês para flagrar a vida cotidiana do mesmo modo que os fotógrafos. Pintores como Monet e Cézanne, se fizeram conhecer expondo no ateliê do fotografo Nadar.


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Gaspard-Félix Tournachon, conhecido como Nadar, nasceu em Paris, começou sua carreira desenhando caricaturas para jornais, com a fotografia ficou muito conhecido por registrar imagens das principais figuras artísticas de Paris, como ressalta Strickland (2004, pág. 94) “Ele concebia a pose, fazia a pessoa posar e iluminava a figura de modo a enfatizar seus traços de caráter. (...) Nadar esteve entre os primeiros a usar luz elétrica nas fotografias e inventou a fotografia aérea, pairando sobre Paris num balão de ar quente.” Uma das fotografias mais conhecidas de Nadar é a de Sarah Bernhardt, o artista a fotografou posando de lado, envolta em um tecido, a luminosidade esta projetada na lateral de seu rosto, a imagem tem um ar de dramaticidade transmitido através do olhar da modelo.

Retrato de Sarah Bernhardt, Nadar, 1859. STRICLAND, Carol. Arte Comentada: da pré-história ao pós-moderno. Rio de Janeiro: Ediouro, pg. 94, 2004.

Antes da fotografia o gesto do pintor era de transferir para a tela a representação da imagem contemplada. O pincel funciona como um prolongamento da mão, a representação é considerada artesanal e quase divina do artista, como se fosse dotado de um dom inigualável, artesanal e que somente ele pode transcender a cena que se passa ou o retrato que


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será meio de recordação familiar. A imagem pode estar sempre incompleta, pois qualquer pincelada pode alterar o sentido da figura representada na tela. Com a fotografia a arte passa a ter autonomia de visão, a imagem pode ser recortada e automaticamente é lançada no papel, os artistas podem ter a liberdade de expressar sua imaginação trabalhando com objetos abstratos, a imagem pode colocar em cena o procedimento da visão e não o da representação. A percepção do artista acentua-se para poder transmitir uma sensação ao expectador e não uma explicação direta, a obra passa a libertar-se da ideia de função e adotar a ideia de interação com o sujeito e com o mundo onde o expectador pode inclusive fazer parte do processo de criação do artista e ver-se na obra de arte. Para Alexandre Santos e Maria Ivone dos Santos, organizadores do livro A fotografia nos processos artísticos contemporâneos (2004), a arte é tornada fotografia a medida que a câmera fotográfica se torna parte do corpo, com o objetivo de integrar o indivíduo à imagem fragmentada: A arte tornada fotografia significa a possibilidade de expor todos e todo a uma certa semelhança universal, tecnicamente definida, voltada para a precipitação luminosa da imagem, cuja reprodução constitui nosso patrimônio comum: um álbum de imagens. Figura do mundo em alguns fragmentos, esse álbum exprime a fotogenia fundamental do visível. A arte como fotografia seria a fotogenia que se constitui na semelhança fotográfica ao tempo, em uma definição comum dos objetos e dos seres, conforme um mesmo meio luminoso (SANTOS, 2004, p.19).

A citação acima revela que a arte tornada fotografia traz muitas possibilidades para o artista e para o fotógrafo. Imaginar que por meio mecânico é possível registrar cenas, definir a imagem de objetos e seres, tornando visível um fato que acontece independente do tempo ou do espaço, a arte pode dialogar com os processos de realização de imagem da fotografia, acrescentando ao olhar fotográfico os recursos artísticos de leitura de uma imagem, reinventar o espaço, ultrapassar as barreiras da representação e criar o novo. Um grande exemplo do processo de libertação que a fotografia representa para a arte é o trabalho da artista plástica contemporânea Avani Stein, ela trabalha com fotopintura. A artista fotografa pessoas ou cenas e depois de reveladas as imagens ela interfere com pintura sobre a fotografia causando uma nova forma de interpretar a imagem apresentada.


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Com este trabalho pode-se compreender que após o surgimento da fotografia o artista pode ter a liberdade de reinventar a imagem criada, fugir da ideia de representação fiel da realidade. A imagem abaixo foi criada a partir de uma fotografia, mas como podemos ver não representa fielmente o modelo fotografado, mas interfere em seu mundo criando novas formas e linhas inexistentes na imagem original.

Autorretrato. Avani Stein. Disponível em: http://www.imafotogaleria.com.br/galeria/fotografo.php?cdFotografo=110. Acesso em 27/10/09.

A artista reflete com seu trabalho, sobre as semelhanças e diferenças entre a pintura e a fotografia, Gaúcha natural de Porto Alegre, contribuiu com seus trabalhos para importantes jornais e revistas. Hoje seu trabalho faz parte do acervo da Prefeitura de São Paulo, estado onde fixou moradia e colaborou com o jornal Folha de São Paulo. Outro exemplo deste processo de libertação das formas tradicionais de expressar a arte que a fotografia suscitou, trata-se do artista plástico Vik Muniz que faz um trabalho com alimentos que são fotografados e editados para propaganda de grandes marcas. O artista cria com os mais variados ingredientes obras de materiais orgânicos, como chocolate, massa, etc. que são fotografadas por ele para serem catalogadas como propagandas em diferentes meios de comunicação. A obra de arte que ele apresenta são as fotografias.


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Vik Muniz é natural de São Paulo, mas vive em Nova Iorque, onde conquistou o reconhecimento de seu trabalho através da série das “Crianças de Açúcar”, onde o artista fotografou varias crianças e depois refez a imagem utilizando açúcar como pigmento. Após o artista fotografava as obras novamente. A fotografia é a ferramenta central no seu trabalho.

Uma das Crianças de Açúcar. Vick Muniz Disponível em: http://www.pco.org.br/conoticias/ler_materia.php?mat=13938. Acesso em 27/10/09.

Mais uma vez pode-se ver a presença da fotografia na arte contemporânea, tentar encontrar argumentos para o reconhecimento da fotografia como arte ao que parece não é uma tarefa difícil, mas esta ideia vem sendo questionada durantes anos. E ainda precisa-se de muita pesquisa para afirmar veementemente esta questão. Como resalta H.W.Janson (2001, p. 934): A controvérsia sobre se a fotografia seria ou não arte teve seu ponto culminante nos primeiros anos da década de 1890, com o movimento secessionista, que eclodiu em 1893, com a criação em Londres do Linked Ring, um grupo rival da famosa Royal Photographic Society of Great Briain. Estimulados pelas idéias de Emerson, os


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secessionistas procuravam um pictorialismo independente da ciência e da tecnologia.

Para H. W. Janson (2001) o movimento secessionista atingiu os seus objetivos, pois em 1907 conseguiu o reconhecimento da fotografia como forma de arte, o movimento durou ainda alguns anos, deixando claro que a fotografia não se tratava de uma imitação da pintura, mas uma forma de arte. Estas são algumas idéias que baseiam a afirmativa de que a fotografia interfere na arte de forma positiva e revolucionando conceitos. Levando-se em consideração os argumentos citados, para melhor apresentar a fotografia como processo de libertação de uma forma de representação fiel da arte, segue uma tabela de como a fotografia libertou a arte de conceitos pré-fixados e tornou-a mais livre de representações.

Tabela baseada nos estudos do livro: SANTAELLA, Lucia; NÖTH, Winfried. Imagem, cognição, semiótica, mídia. São Paulo: Iluminuras, 1999.

Como se pode perceber são inúmeros os argumentos que reforçam a ideia de que a fotografia realmente contribuiu para que a arte tivesse maior liberdade de expressão. Através dela a arte pode reforçar seus estudos nas questões de movimento, iluminação e composição. Os autores, Santos e Santos (2004, p. 19) transcrevem uma frase de Benjamin do livro “Pequena história da fotografia” que descreve o sentido desta pesquisa: “A arte moderna


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já é a arte tornada fotografia, o que deixa acessória a questão de saber se a fotografia é ou não é arte.” O que interessa saber são os benefícios que a fotografia trouxe para a arte, o quanto sua descoberta libertou os artistas para trabalharem sobre outras perspectivas, tornando a arte parceira da fotografia como formas de linguagens contemporâneas.


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CapĂ­tulo 2 Ensino de Arte e a Fotografia


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ENSINO DE ARTE E A FOTOGRAFIA

O ensino de Artes nas escolas atualmente precisa dar conta de diversas problemáticas, tais como instigar os alunos a pensar sobre a disciplina e sua importância, como também transmitir os conteúdos estipulados pelo currículo da escola. Acredito que a primeira alternativa seja a de que o professor mais precisa de conhecimento e observação da realidade do grupo que está trabalhando para obter sucesso. Atualmente o professor precisa de diversas formas de linguagem para atingir os alunos e conseguir cativá-los com a sua proposta de ensino. Por este motivo acredito que levar a fotografia como tema para as aulas de Artes pode ser uma boa oportunidade de renovar as práticas pedagógicas de ensino e abrir novas possibilidades de ministrar aulas de Artes. Segundo Mirian Celeste Martins, “as possibilidades da fotografia, das mídias e as descobertas na própria produção artística revolucionam constantemente a linguagem da Arte, transcendem o caráter mimético, analógico, e exigem uma nova sensibilidade do olhar” (1998, p.26). A autora ainda afirma que é preciso ampliar a sensibilidade do olhar, perceber as diversas formar que existem para que o conteúdo programado seja transmitido, mas que esteja de acordo com a realidade dos alunos. A tecnologia está avançando rapidamente e de nada adianta exigir que os alunos não interajam com estas mudanças do mundo. Portanto, uma proposta pedagógica que valorize as produções dos alunos e o meio em que eles vivem é uma forma pertinente de ampliar o olhar para novas formas de lecionar Artes. A fotografia está presente na vida dos alunos através dos aparelhos celulares, das revistas que são repletas de imagens fotográficas, e em meio a toda esta informação tecnológica, não podemos caminhar em sentido contrário ao interesse dos alunos. A fotografia possibilitou à arte a tomar novos rumos, permitiu que o artista lançasse mão desta poderosa arma para aprimorar seus trabalhos e avançar em suas pesquisas. A medida que a representação fiel da imagem passou a ser de competência da fotografia, o artista pode transcender seus pensamentos e valorizar seus sentimentos, sem se preocupar se está sendo fiel à realidade. O avanço da tecnologia permitiu que os alunos tivessem câmeras fotográficas ao alcance das mãos. Com um celular eles utilizam o MP3 player, filmam e fotografam cenas de


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suas realidades, uma ótima “arma” para que o professor utilize e consiga adentrar em seus mundos. Segundo Maria Helena Paes (PAES, 2000, p. 35): Hoje, as câmeras digitais são tão pequenas quanto os modelos convencionais. Contêm, normalmente, uma pequena tela de cristal liquido que faz as vezes do visor. A elas podem ser acoplados chips, ou mesmo disquetes, onde ficarão armazenados os arquivos de imagem, ou seja, cada uma das fotos. Há cerca de três anos as câmeras não comportavam mais do que meia dúzia de imagens, e sua nitidez deixava muito a desejar (eram gravados poucos pixel por centímetro quadrado).

A autora ressalta a evolução dos aparelhos com a tecnologia necessária para captar imagens, atualmente é possível registrar imagens com muita mais nitidez e precisão, as máquinas fotográficas são cada vez mais compactas, e sua capacidade de armazenamento é bem maior do que os modelos convencionais. As primeiras máquinas fotográficas tinham uma quantidade limitada de armazenamento, e muitos modelos não tinham a função de filmar e fotografar no mesmo aparelho, com este avanço tecnológico tornou-se mais fácil para que cada pessoa tenha a sua maquina fotográfica, seja ela acoplada a um celular, ou mesmo em um aparelho de Mp6. Considerando todo este avanço tecnológico onde as câmeras digitais têm maior capacidade de armazenamento e qualidade de imagem, o professor não pode deixar de lado estas transformações no planejamento de suas aulas. De acordo com este projeto é possível que a fotografia seja o tema que norteará o planejamento de ensino do Ensino Fundamental EJA e no Ensino Médio, abordando questões como avanço tecnológico, libertação da Arte de forma de representação, desmistificar a ideia de funcionalidade da arte, fotografia e autorretrato, entre outras idéias que permeiam o tema. É possível trabalhar em parceria com outras áreas do ensino, como a História, trabalhando o surgimento da fotografia na história, a Geografia, situando o aluno no tempo e no espaço de cada país que descobriu simultaneamente a fotografia. Nas aulas de Educação Física os alunos poderão trabalhar montagem de cenas, a representação de movimentos congelados pela ação da fotografia, entre outras atividades que podem ser realizadas ao ar livre ou em uma quadra de esportes. Acredito que apenas durante o período de estágio existem muitas barreiras para se trabalhar em conjunto com outras disciplinas, pois é um período que passa muito rápido e não temos autonomia para interferir no trabalho dos outros professores, mas estas ideias me


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interessam para práticas pedagógicas futuras, em que este projeto será mais uma fonte de pesquisa para minha proposta de trabalho. Diversas são as formas de trabalhar a fotografia na sala de aula, utilizando os conteúdos de forma interdisciplinar. A cronologia do tempo pode ser medida e calculada nas aulas de Matemática, e poderemos elaborar uma produção textual sobre a história do advento da fotografia. É possível trabalhar Arte através de projetos em conjunto com os professores de outras áreas, e ensinar o conteúdo de forma significativa e dando liberdade aos alunos de pensar e fazer relações com as diversas áreas do conhecimento tornando a aprendizagem significativa. Segundo os PCNs: Ensinar Arte em consonância com os modos de aprendizagem do aluno significa, então, não isolar a escola da informação sobre a produção histórica e social da arte e, ao mesmo tempo, garantir ao aluno a liberdade de imaginar e edificar propostas artísticas pessoais ou grupais com base em intenções próprias (PCNs, 1996, p.47).

É possível trabalhar a história da fotografia e a sua influência na arte a partir da realidade da comunidade em que vivem os alunos, buscar na história da comunidade escolar registros fotográficos, e a produção artística local. Todas estas ideias serão desenvolvidas nas próximas páginas com a elaboração de um projeto a ser desenvolvido no decorrer do próximo semestre. A prática pedagógica dentro de uma sala de aula deve ser constantemente aperfeiçoada, com novas fontes teóricas, e novas propostas de ensino que utilizam materiais diversificados e de fácil acesso aos alunos, propiciando que eles tenham contato com diferentes materiais e possam experimentá-los e descobri-los como novas fontes de explorar sua criatividade. Este projeto visa propiciar novas perspectivas de se trabalhar em sala de aula para alunos que estão condicionados a uma prática pedagógica convencional. Trabalhando em um projeto com base nos assuntos que permeiam o tema fotografia, pretendo instigá-los a pensarem de forma diferente sobre suas aulas de Artes. Ao mesmo tempo, com este trabalho, pretendo provocar à criatividade e tentar desesteriotipar a forma com a qual os alunos estão acostumados a expressá-la, seja por meio de desenho, recorte, ou pintura.


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Através das observações percebi que os alunos estavam condicionados a uma prática educativa tradicional e repetitiva, não demonstravam interesse pelas aulas, os trabalhos propostos não cativavam a turma, apenas os distanciavam mais da disciplina, os desenhos apresentavam formas estereotipadas. Senti que eles precisavam olhar para sua realidade e encontrar a arte nas suas formas mais simples, nas atitudes cotidianas, através deste projeto pretendo propiciar atividades em que os alunos se sintam envolvidos, e que percebam que a arte pode fazer parte das suas realidades e apresentar uma nova forma de pensar sobre a disciplina. São objetivos desafiadores, mas acredito no potencial destes adolescentes, pois a forma com que o professor conduz sua proposta de ensino pode influenciar no gosto pela arte, bem como pela disciplina que trabalha estas questões. Ricardo Kubrusly na introdução do livro Arte, tecnologia e educação organizado, por Aurora Ferreira (2008), complementa a ideia da autora sobre a busca da arte em diversas fontes, abrindo novos caminhos e transformando o ensino de Artes. Mas, talvez, em nós, ainda exista, ou sobreviva, algum lugar fora do tempo e distante do espaço, onde sejamos sem certezas e sem medo e onde possamos representá-los com o verdadeiro espanto que os concebemos. Talvez entre nossos sonhos, talvez só aconteça quando distraídos, talvez só permitido às crianças, quem sabe aos loucos, às mulheres e às mulheres que moram em todos os homens. Aí, nesse lugar sem nome é a arte, e só ela quem governa os acontecimentos (FERREIRA, 2008, p. 11).

Para Kubrusly, existe um lugar onde podemos expressar nossos medos e incertezas, e este lugar é nomeado por ele como arte. Considero que as aulas de Artes podem ser este lugar, onde os alunos possam criar sem medo de errar, de se arriscar em novas propostas, onde possam pensar sobre questões que lhes interessam e torná-las parte de sua aprendizagem, aproximar a arte de suas vidas através da realidade que representam em seus trabalhos. Ferreira (2008) afirma que as aulas de Artes estão mudando, ou pelo menos devem estar em constante mudança, para alcançar a realidade dos alunos e o que eles pensam sobre arte “uma obra de arte era, há algumas décadas atrás, meramente contemplativa, e eram os humanos os únicos a lidar com elas” (2008, p.45). Para a autora, com o avanço da tecnologia, novas linguagens misturam-se com a arte, dentre elas a informática, os jogos animados, e a fotografia.


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A fotografia pode transformar o modo de ver e interpretar um fato, as imagens que são utilizadas em sala de aula precisam ser bem escolhidas e o professor deve saber introduzir uma imagem para proporcionar o pensar dos alunos e não para facilitar a cópia. Quando apresentamos uma fotografia em sala de aula ela pode ter várias interpretações dos alunos e servir de ponto de partida para uma discussão sobre o que a mídia e a tecnologia influenciam em nossa realidade. Susan Sontag (2003) relata a utilização de uma fotografia pela publicidade e as diversas interpretações que ela pode proporcionar. “toda imagem é vista em algum cenário. E os cenários se multiplicaram (2003, p. 100)”. Para a autora uma mesma fotografia pode causar diferentes impactos na sociedade, ela relata as imagens registradas durante a guerra e a utilização delas por jornais e revistas, como a interpretação de uma imagem pode formar conceitos e idealizar situações. “Certas fotos (...) podem ser usadas como advertências, como objetos de contemplação destinados a aprofundar o sentido de realidade de uma pessoa” (2003, p. 99). É um sentimento de realidade que este projeto busca aproximar dos alunos, onde eles possam expressar suas próprias realidades, trabalhando com recursos fotográficos, autorretratos, imagens que significam alguma coisa eles. Acredito que ao analisar fotografias existem muitos sentidos que podem ser relacionados sobre o que vemos, mas o que mais interessa pesquisar é como a fotografia abre novas possibilidades de trabalhar Arte se aproximando mais do cotidiano dos alunos, buscar o interesse deles, pois através dos seus interesses é que o projeto ira se basear. Durante as observações um dos principais problemas para o bom andamento da aula era a constante falta de atenção dos alunos, os temas trabalhados não instigavam os alunos a pensar e estavam distantes da suas realidades. Acredito que um projeto voltado para os seus interesses, onde a disciplina de Artes consiga entrar no mundo dos alunos e trabalhe temas cotidianos poderá ter sucesso e contara com o interesse dos alunos, é possível trabalhar a arte a partir de propostas simples obtendo sucesso. Portanto, este trabalho dependera muito da interação e aceitação dos alunos para dar certo. Não temo por isto, mas sei que é um terreno perigoso, ao adentrar em seus meios sociais e culturais, estarei também dando um pouco de mim para a aproximação de realidade em que eles vivem. Utilizar a fotografia como fio condutor deste projeto pode proporcionar


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uma aprendizagem significativa aos alunos, pois estaremos trabalhando com conteúdos que são relevantes ao currículo de ensino desta turma, aprimorando conhecimentos já existentes. A disciplina de Artes pode transformar a realidade dos alunos. Quando um projeto é bem conduzido, podemos perceber que os alunos participam mais, são mais espontâneos, e conseguem construir conhecimentos. Acredito que trabalhar com novas linguagens proporcionara aos alunos encontrar este lugar ao qual Kubrusly referia, onde a realidade pode ter uma nova roupagem, a da imaginação, um lugar que os permita sonhar, e buscar realizar seus sonhos. Ao trabalhar com autorretratos, por exemplo, os alunos podem se reconhecerem em outros lugares, ou seja, criar um cotidiano a sua volta, expressar sentimentos, escondidos ou desconhecidos sobre sua realidade, sonhar, e viver este sonho no decorrer deste projeto. Kátia Canton (2004, p.5) afirma que: “autorretrato é uma forma de registro em que o modelo é o próprio artista. O retratado é quem se retrata. (...) o autorretrato sempre acompanhou o ser humano em seu desejo de deixar uma marca de sua própria imagem, mesmo depois da passagem de sua vida.” Neste sentido, trabalhar com o autorretrato é uma forma de revelar a própria existência como ser humano. É utilizar a arte para expressar seus sentimentos sobre sua própria imagem, é retratar as verdades pertinentes a nossa existência, realizar sonhos ao transferi-los para o papel. Durante a proposta de autorretratos os alunos terão a oportunidade de estimular os sentidos, a percepção, o olhar para si mesmo, o sentimento de autocrítica, através destas propostas busco propiciar um olhar para dentro de si mesmo, encontrar suas qualidades, suas dificuldades, encontrar possibilidades para entender mais sobre a arte como também sobre sua própria existência. Muitas são as possibilidades que se abrem diante deste tema. A fotografia e o seu processo histórico estão presentes no cotidiano dos alunos. A evolução das máquinas fotográficas é de conhecimento dos alunos, visto que acompanham os avanços destas, que já passaram de grandes peças a minúsculos objetos integrantes de um celular. A utilização de celulares em sala de aula é proibida por algumas escolas, que adotam posturas radicais de recolher o aparelho e deixar guardado na sala da direção. Esta postura nem sempre resolve o problema de indisciplina dentro da sala de aula. A proposta


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deste projeto visa utilizar os aparelhos como objeto de trabalho, explorar as imagens que são possíveis de serem criadas utilizando os recursos do celular. Optar por incluir os celulares na prática de ensino, pode ser uma alternativa que contribuirá para o interesse dos alunos pelas aulas de Artes. Podemos perceber facilmente que o mundo está sendo bombardeado por informações tecnológicas e novas descobertas pertinentes à ciência e à arte. Durante o processo de aprendizagem precisamos levar em conta estas inovações e incluir estas novas descobertas no ensino de Artes. Ferreira (2008, p. 71) afirma que: “(...) as gerações criadas com as novas tecnologias demonstram um grande interesse pela arte e pela informática, uma vez que essa geração vive em completa harmonia com o sistema tecnológico”. Acredito que se as novas gerações estão tão envolvidas com novas formas de trabalhar a arte e a educação, como a informática e as novas tecnologias, que é possível conquistar o interesse dos alunos com propostas inovadoras, trabalhando com objetos que estão ao alcance dos alunos, como a sala de informática da escola com projetos de arte através de software de computador, aparelhos de áudio e vídeo com propostas de interação e instalação de luzes e sons com trabalhos criados pelos alunos, como também aparelhos de celulares, como fotografias realizadas pelos próprios alunos relatando suas vivencias, historias que descrevem a personalidade de cada um. Considerando que existe certa harmonia entre os adolescentes atualmente com as novas tecnologias, torna-se necessário que o professor não exclua de sua proposta pedagógica estes recursos que podem incluir os alunos em novo mundo, onde o conhecimento é a junção de tecnologia e arte. Como este projeto será desenvolvido em dois níveis de ensino o objetivo central será o mesmo, apresentar aos alunos novas formas de perceber a arte através da fotografia, tentar instigá-los a conhecer mais sobre a arte como também aguçar o olhar para encontrar a arte dentro de sua própria realidade, libertando-se de conceitos pré estabelecidos e propiciando a criatividade. Porém as atividades para os dois níveis serão diferentes, ao passo que são grupos muito distintos, enquanto que o EJA é uma turma que tem vontade de aprender, são participativos e interessados, o ensino médio tem alunos que estão desmotivados e desinteressados na disciplina.


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Para atender a estes dois níveis acredito que o professor precise entender que a metodologia aplicada pode mudar o interesse dos alunos. A disciplina de Artes é o espaço que o aluno tem para entender sobre novas linguagens de perceber o mundo, por este motivo precisam ser bem selecionadas as metodologias para a o sucesso de um projeto. Como salienta Martins (1998, p.14) “do mesmo modo que existe na escola um espaço destinado à alfabetização na linguagem das palavras e dos textos orais e escritos, é preciso haver cuidado com a alfabetização nas linguagens da arte”. Para a autora a alfabetização nas linguagens de arte é tão importante quanto a linguagem escrita ou oral, porém é preciso tomar muito cuidado com as metodologias utilizadas para o sucesso desta alfabetização, enquanto professor precisamos estar atento que esta alfabetização pode ser feita a qualquer altura do processo de aprendizagem. Na educação de jovens e adultos o ponto positivo é de que eles já têm uma prédisposição a aprender, estão abertos a novas linguagens, quando estes alunos chegam ao ensino médio sem esta alfabetização das linguagens de arte a disciplina fica em segundo plano, para os alunos é muito mais importante aprender Matemática e Português, para passar no vestibular, do que entender sobre arte. É por este motivo que acredito que a metodologia aplicada faz toda a diferença durante este processo de alfabetização das linguagens de arte como afirma Martins. Apresentar a arte como desenho para colorir, ou recorte de moldes, só faz distanciar o aluno do interesse de conhecer a Arte, os conteúdos programados podem ser aplicados de formas diferenciadas que irão atrair muito mais os alunos, se a turma gosta de desenhar a metodologia certa não seria desenhos livres, ou para colorir, mas quem sabe uma aula de experimentação de diferentes materiais para desenhar, propiciar aos alunos novas formas de conhecer a arte, de entender um pouco deste mundo. Acredito que é possível, alcançar resultados positivos dentro das aulas de Artes a mediada que o professor estiver buscando aprender mais para transmitir aos alunos sua metodologia estará cada vez mais se aperfeiçoando e o sucesso estará cada vez mais perto. Portanto, acredito que é possível obter sucesso ao ministrar aulas de Artes, dentre tantas as dificuldades encontradas pelo professor, como a baixa remuneração, a desmotivação dos alunos e os problemas encontrados no decorrer de um projeto, mas todos estes problemas vão continuar existindo, a única possibilidade que temos para encará-los é o trabalho. É preciso muito trabalho e dedicação para superar as dificuldades encontradas no meio do


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caminho. A desmotivação pode ser o primeiro passo para o fracasso. É possível encontrar novas possibilidades para o ensino de Artes que cative os alunos e os faça reconhecer a Arte como uma linguagem para encarar o mundo.


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CapĂ­tulo 3 DiĂĄlogo com as escolas


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3.1.

HISTÓRICO

E

CARACTERIZAÇÃO

DA

ESCOLA

PROFESSOR EMÍLIO SCHENK A Escola Municipal de Ensino Fundamental Professor Emilio Schenk, foi fundada em 1962, inicialmente localizada na Rua Aleixo Rocha na cidade de Taquari, o número de matriculas da escola logo que acorreu sua fundação era de apenas 9 alunos, residentes nos bairros vizinhos de uma comunidade carente. Eram ministradas aulas para 1ª, 3ª e 4ª séries, do ensino fundamental. Atualmente está localizada no bairro Leo Alvin Faller, a escola recebe este nome devido a personalidade que foi o professor Emilio Schenk em Taquari, como também em grandes capitais do Brasil. O professor Emilio Schenk nasceu na Alemanha em 15 de novembro de 1871, chegou ao Brasil em 1895, lecionando em Curitiba, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Publicou livros sobre apicultura, como também revistas que tiveram destaque devido a seu vasto conhecimento e estudo na área, residiu em Taquari até sua morte em 1941, a escola recebe seu nome em homenagem a personalidade e ao conhecimento deixado a cidade. Uma das direções que teve destaque foi a de Elda da Silva Nunes, que percebendo que a escola não tinha muitos alunos, constantemente visitava a casa das famílias em busca dos alunos salientando o quanto a educação era importante. Em 2002 a escola teve 516 alunos matriculados, e dispõe até os dias de hoje de Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos – EJA. A avaliação é feita de forma trimestral, sendo de 1ª a 4ª série através do código A- Apto, NA- Não Apto, AP- Apto Parcialmente, AR- Apto em Recuperação. De 5ª a 8ªsérie a avaliação também é trimestral, porém é feita através do alcance de média em cada trimestre, que tem valor de 30 pontos para o primeiro trimestre, considerando aprovado o aluno que atingir 15 pontos, 30 no segundo trimestre também com media de 15 postos para aprovação e de 40 pontos no último trimestre. Na Educação de Jovens e Adultos, a avaliação é feita através de A- Apto, e NA- Não Apto. A escola realiza reuniões pedagógicas semanalmente para a discussão da proposta de ensino e aperfeiçoamento dos professores, palestras e cursos são promovidos pela secretaria de educação municipal.


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3.2.

OBSERVAÇÕES

SILENCIOSAS

DO

ENSINO

FUNDAMENTAL - EJA

PRIMEIRA E SEGUNDA OBSERVAÇÃO SILENCIOSA Data: 03/09/09 Serie: Totalidade 3 EJA – 5ª e 6ª série. Duração: Dois períodos de 45 min. Numero de alunos: 25 Alunos presentes: 18

No meu primeiro dia com o ensino fundamental, observei um turma de EJA, denominada Totalidade 3, que corresponde a 5ª e 6ª série. A professora gentilmente me apresentou aos alunos comentando que eu observaria algumas aulas e que no ano seguinte estaria ministrando as aulas para a turma. Alguns fizeram uma cara de assustados, outros reprovaram a idéia questionando se a professora iria sair do colégio, porque passaria a turma para outra pessoa, A professora explicou que não seria o ano todo, apenas algumas aulas, pois eu estava me formando em seguida e precisava fazer o estágio supervisionado com esta turma. Após acalmarem os ânimos, e com as explicações que surpreenderam a turma, a professora começa a aula, são os dois primeiros períodos da noite, em seguida eles teriam aula de história. A professora explica sua proposta de trabalhar com decoração de vidros com EVA, flores de Biscuit e fitas. O material havia sido solicitado na aula anterior, a maioria da turma trouxe, inclusive, mais de um vidro por aluno que serviu para emprestar a alguns colegas que não tinham vidro em casa. A professora é formada em Pedagogia e trabalha em Artes com todas as turmas do colégio, afirma que gosta da área, mas se sente triste por não saber desenhar, acredita ser um dom ter esta habilidade. Sua metodologia parece ser bem flexível, combina com os alunos sobre o que eles gostam de fazer. A aula corre tranqüila, todos trabalham em silencio, apenas cantam algumas músicas calmamente. A professora tenta conseguir um rádio para que a turma


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ouça enquanto trabalha na decoração dos vidros, mas a escola não possui nenhum, então uma aluna propõe ligar o rádio do celular, todos concordam, então ouvimos todo o repertório de Vitor e Leo até que acabou a bateria do celular. A faixa etária dos alunos é de, aproximadamente, 17 a 60 anos. A professora comenta que é uma turma calma, pois os adolescentes se acostumaram com o ritmo dos mais velhos. Durante toda a aula os alunos trabalharam em um grande grupo organizado no centro da sala pela professora que senta no meio deles ajudando um aluno que tem dificuldades cognitivas. Os alunos formam um grupo bem unido, trabalham juntos ajudando uns aos outros, uma aluna tem maior influência sobre os demais, ela recorta todos os moldes distribuídos pela professora para todos os seus colegas. Durante toda a aula não fez o seu trabalho, somente reproduziu os moldes e aplicou-os com cola quente de forma padronizada em todos os vidros. A professora, pede para que todos tenham os moldes para aplicar no trabalho, ao mesmo tempo em que diz para que explorem sua criatividade. Faltam alguns materiais e a professora vai até secretaria pegar cola e tesouras para alguns alunos que não tinham. Um dos alunos, o mais jovem, fica grande parte da aula observando os demais trabalhando, só depois descobrimos que ele não tinha material. Quando a professora chega com as tesouras e colas ele rapidamente se empolga e começa seu trabalho. A aluna mais velha do grupo, com aproximadamente 60 anos, parece um pouco dispersa e comenta que se esqueceu dos óculos, e por este motivo não consegue aplicar as flores menores no vidro, fica um tempo somente observando o grupo. A aula transcorre calmamente, a turma é bem interessada, trabalham em conjunto, conversam pouco, e o mais surpreendente é que, apesar da diferença de idade, todos se relacionam bem e seguem quase o mesmo ritmo. O sinal toca, a professora anuncia que a atividade continua na próxima aula, todos guardam os materiais, varrem a sala, e organizam tudo rapidamente para a próxima aula. Eles comentam que é a revisão para a prova da semana seguinte, terminam a limpeza e organizam as classes novamente em fileiras, realizam um trabalho em conjunto.


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TERCEIRA E QUARTA OBSERVAÇÃO SILENCIOSA Data: 10/09/09 Serie: Totalidade 3 EJA – 5ª e 6ª série. Duração: Dois períodos de 45 min. Numero de alunos: 25 Alunos presentes: 12

Na aula seguinte a turma entra agitada na sala e eles começam imediatamente a organizar as mesas para um grande grupo no centro da sala. A professora havia guardado o material em sua casa e trouxe neste dia para que a turma finalizasse o trabalho para exporem em uma atividade realizada na escola no mês seguinte. Os alunos se preocupam se irão terminar a tempo, querem continuar o trabalho com outros vidros de diferentes formatos. A professora comenta que apenas dois de cada uma já é suficiente e que depois eles poderão usá-los para guardar alimentos ou doces. A sala está com diversos cartazes das aulas anteriores de outras disciplinas, está bem organizada e limpa. Um cartaz de aniversariantes está ao lado do quadro, têm poucos desenhos dos alunos, muitos são recortes de moldes de bichinhos estereotipados. A atividade da aula anterior continua desta vez a professora trouxe várias máquinas de aplicar cola quente e começa a aplicar os moldes feitos na última aula em todos os trabalhos que ainda não estavam padronizados. Observo que uma aluna de aproximadamente 35 anos sai do padrão de moldes, recorta uma árvore com uma tesoura de picotar e deixa seu trabalho bem diferente dos demais. Os colegas comentam que seu vidro ficou como um carro alegórico de carnaval, ela sorri ironicamente e comenta que “carnaval também é Arte”. Ninguém presta atenção no que ela diz e a aula continua seguindo os padrões, recorte de moldes e aplicação de flores e bichinhos de biscuit. A aluna que comandava o grupo, recortando os moldes para todos os demais, desta vez começa o seu próprio vidro, pergunta para a professora como pode fazer algumas


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folhas para aplicar junto com as flores de EVA. A professora então pega um lápis e faz um molde para ela, recorta e recomenda que distribua aos demais. Os alunos discutem sobre a combinação das cores, como por exemplo, que cor combina com o lilás, se o verde e o vermelho podem ser aplicados juntos, se não fica feio misturar cores tão diferentes. A professora somente olha e diz “faça desta forma,” “assim fica melhor.” Todos perguntam sobre a combinação das cores e recebem as mesmas respostas, não há discussão em grupo sobre o assunto. A turma se empolga quando percebe que o trabalho está ficando pronto, uma professora de outra turma passa em frente a sala olhando para ver o que a turma está fazendo. Então ela volta e pede licença, entra para ver os vidros, elogia a todos, comenta sobre a exposição que será realizada na atividade da semana da criança no saguão da escola. Os alunos se sentem importantes, comentam que nunca haviam participado de uma exposição. Todos querem mostrar seus vidros para a professora que visita a turma, eles se dispersam, alguns meninos mais jovens saem sem serem percebidos e não voltam, os outros voltam ao trabalho depois que a professora da outra turma sai. Enquanto trabalham a professora comenta que devido a chuva de hoje muitos não vieram, pois têm dificuldades para se vestir nos dias de chuva e frio. Ela atribui a evasão ao período do inverso, e quando este período passa os alunos não retornam. Na chamada são 40 alunos inscritos desde o início do semestre para aquela turma, mas somente 25 freqüentam as aulas, os demais são desistentes. Destes 25 alunos, em um dia chuvoso com hoje, somente 12 estão presentes. O sinal toca e a professora comunica que irá passar um novo trabalho na aula seguinte para aqueles que terminaram esta atividade hoje. Os alunos estão agitados pois a alua seguinte será de prova.


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QUINTA E SEXTA OBSERVAÇÃO SILENCIOSA Data: 17/09/09 Serie: Totalidade 3 EJA – 5ª e 6ª série. Duração: Dois períodos de 45 min. Numero de alunos: 25 Alunos presentes: 20

A aula começa calmante, a sala de aula é organizada pela professora e pelos alunos de forma a unir as mesas em um grande grupo. Os alunos que não haviam terminado o trabalho da aula anterior, pegam novamente seus vidros e continuam seus trabalhos. A professora anuncia a próxima atividade, com o mesmo material os alunos vão confeccionar imãs de geladeira. Ela trouxe os imãs, e utiliza as fitas e as flores de biscuit que sobraram da aula anterior. Alguns alunos reclamam, os mais velhos concordam, apesar das divergências, são convencidos pelo discurso de funcionalidade da professora, afirmando que vão ficar lindo os imãs enfeitando a geladeira ou segurando um recado em um mural. Aqueles que já haviam terminado os vidros decorados começam os imãs de geladeira. Observo que alguns comentam se não vai ter trabalho de pintar. A professora diz que vai pensar. Ela concentra por alguns momentos sua atenção somente para o aluno que possui dificuldades cognitivas, senta ao seu lado e faz alguns moldes para ele, recomenda que use a criatividade, mas recorta todas as formas para ele somente montar. A turma consegue produzir vários imãs, estão agitados na aula de hoje, e o trabalho é realizado com a colaboração de diversos moldes trazidos pela colega que normalmente coordena o grupo. Uma senhora comenta que está com muito sono, mas teria disposição para um bom “baile”. A turma toda se dispersa rindo e comentado sobre a afirmação da senhora. O trabalho segue lentamente, um pouco de desinteresse da turma, mas a professora continua tentando levantar o astral e levar seu planejamento adiante, elogia


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constantemente o trabalho de todos, opina freqüentemente sobre o que deve ser feito em cada trabalho. Antes do final da aula peço licença à professora e comento sobre a entrevista que pretendo aplicar, explico que é muito importante para mim e que eles respondam como se sentirem à vontade, podendo perguntar se tiverem duvidas com relação às perguntas. Todos me perguntam o que é gênero, alguns não respondem às perguntas e continuam seus trabalhos. Uma senhora de aproximadamente 45 anos assim que percebe a logomarca da Ulbra comenta em voz baixa um pouco constrangida, “olha, é da Ulbra, um dia eu chego lá! Será que dá tempo?!” O sinal toca e todos organizam a sala, recolhem o lixo e me entregam as entrevistas. A aula seguinte é de História, o professor entra mesmo antes da professora de Artes sair comentando com ela o resultado das provas.

3.3. ANÁLISE DAS OBSERVAÇÕES SILENCIOSAS ENSINO FUNDAMENTAL – EJA

As observações silenciosas no Ensino Fundamental ocorreram em uma turma de EJA, Educação de Jovens e Adultos, chamada de Totalidade 3, que corresponde à 5ª e 6ª série. A direção já havia me comunicado estaria me liberando para observação e futuramente para o estágio, esta turma por ser considerada por todos os professores a melhor turma do EJA. Realmente o que encontrei foi uma turma muito boa no sentido de união do grupo, concentração, trabalho em silêncio sem manter conversas paralelas, os alunos se organizam rapidamente para o início das atividades e mantêm a sala limpa. Contudo, a atividade proposta pela professora não constitui um desafio aos alunos, são trabalhos simples e baseados em moldes. A professora que é formada em Pedagogia, tem a idéia de Arte como sendo um belo estereotipado. Trabalha também com o apoio de moldes que repassa aos alunos informando como devem ser seus desenhos, ela


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acredita que saber desenhar é um dom de poucos e afirma que não sabe desenhar, por este motivo utiliza moldes de vários desenhos dentro da sua proposta pedagógica. Acredito que como professores devemos buscar a valorização das habilidades de cada aluno, incentivá-los a acreditar em suas potencialidades, e não seria através de moldes que estaríamos buscando tal finalidade. Como afirma Maria Letícia Vianna: “(...) como educadores, acreditamos no poder de criatividade das pessoas, na individualidade de cada ser humano, acreditamos na necessidade vital que a criança tem de se expressar, porque somos contra a acomodação e desejamos a transformação” (1994, pág. 3). Infelizmente a capacidade criadora dos alunos não estava sendo explorada, percebi que todas as qualidades atribuídas pelos professores à turma eram justamente devido a ordem que mantinham na sala. Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a relação dos alunos mesmo de diferentes idades, desde o mais jovem até o de mais idade realizavam o trabalho em um grande grupo, havia uma espécie de harmonia entre os alunos como se estivessem se divertindo ao realizar a atividade, alunos de 17 a 60 anos mantinham um relacionamento de interação durante a atividade. Carla Maria Fernandes Corral e Cristina Rodrigues de Amorim no texto “Novas escutas e novos olhares em Arte,” definem esta interação de jovens e adultos na educação afirmando: “A educação de jovens e adultos está configurada como um lugar de reencontros de tempos e de espaços. Os alunos são jovens e adultos que de alguma forma foram excluídos do processo escolar educacional no devido tempo, a infância” (2004, pág. 127). Como ressaltam as autoras acima podemos constatar que mesmo a diferença de idade pode unir um grupo que busca a construção do conhecimento. Pude perceber que uma das alunas mais velhas da turma ainda mantinha o sonho de chegar à universidade, o que prova que para aprender não existe restrição de idade, crença ou raça. Por estas e outras concepções que tive da turma observada é que acredito que eles são capazes de realizar um trabalho inovador, que desafie o grupo e acrescente na sua bagagem educacional. Uma proposta bem elaborada que cative os alunos tem grandes chances de dar certo em uma realidade como esta, pois todos têm interesse de aprender, estão abertos a novas atividades, apenas estão condicionados ao sistema de moldes. Quanto à união do grupo durante as atividades propostas, Amorin e Corral (2004, p.135) afirmam ainda que:


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A Arte, então, trabalha com o fazer reflexivo, com a autonomia, com o processo de trabalho e a criação. Isso pressupõe que o indivíduo esteja consciente, atento, e seja responsável por cada etapa da aprendizagem, sua e do grupo ao qual pertence. Até porque a construção do conhecimento depende do entrelaçamento entre todos do grupo, numa relação dialógica e de cooperação.

Acredito que a união do grupo tenha levado aos professores indicarem a turma como a melhor do EJA, portanto considero que este espírito de equipe aliado a uma proposta inovadora poderá proporcionar maior crescimento e desenvolvimento das habilidades dos alunos que estão escondidas atrás de uma proposta pedagógica limitadora da criatividade deles.

3.4. ANÁLISE DO QUESTIONÁRIO DA PROFESSORA DO ENSINO FUNDAMENTAL - EJA

A professora que ministrava as aulas de Artes do Ensino Fundamental EJA é formada em Pedagogia, está lecionando Artes por falta de profissionais habilitados e contratados pelo município, como também pela ideia de que esta disciplina qualquer professor pode lecionar. Ela afirma que gosta de fazer trabalhos manuais, mas me relatou em conversa durante as observações que não sabe desenhar, considera que saber desenhar é um dom que poucos têm. Sua primeira pergunta quando me apresentei como estagiária de Artes foi se eu sabia desenhar, quando respondi que para mim o mais importante seria eu saber incentivar os alunos a gostarem do desenho bem como da arte em geral, então não precisaria saber desenhar, estaria satisfeita por atingir meu objetivo de instigar os alunos a pensarem sobre o que é considerado Arte. Não fui feliz na minha resposta, pois percebi que sua expressão foi de descaso, continuou afirmando que considera importante a professora de Artes saber desenhar, e lamenta por ela não saber.


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Ao responder a entrevista a professora afirma que tem total liberdade para organizar seus projetos pedagógicos e que procura levar em conta os interesses dos alunos. Quanto a infra-estrutura que a escola disponibiliza à professora relata apenas que são possíveis a solicitação de materiais, mas percebi que não há sala especial, apesar dos alunos serem bem disciplinados e cuidarem da sala ao término das aulas. A professora afirma trabalhar com autores como Paulo Freire, Piaget e Vygotsky para embasar sua prática pedagógica, percebi que suas habilidades tem muito em comum com sua formação em Pedagogia, sua prática revela uma função gestora ao conduzir a turma, conduz as atividades de forma seqüencial e quase mecanizada. Todos trabalham em conjunto seguindo as normas da professora, ela procura trabalhar com os temas transversais além de procurar estimular a relação do homem com o meio em que vive. Cecília Zorzo, (2004, p. 247) em seu texto Pedagogia em Conexão, afirma que:

A função do pedagogo gestor, no paradigma educacional, identifica novas alternativas organizacionais que dizem respeito a heterogenia conjuntural; assim, a ação do pedagogo gestor atualiza a organização educativa, uma vez que percebe como absolutamente interagentes no seu ambiente fatores sociais, econômicos, culturais, independentemente de políticas administrativas. Os raciocínios estratégicos obrigam à interdisciplinaridade e apontam para questões bastante significativas de autonomia e cidadania.

Como afirma Zorzo, é muito importante a função de gestão em sala de aula de um pedagogo, para ampliar as alternativas existentes no âmbito educacional, e buscar atividades interdisciplinares. A professora afirma trabalhar em conjunto com os demais professores das outras disciplinas, mas durante as observações percebi que os trabalhos eram de atividades manuais e sempre seguindo o direcionamento da professora que se baseava em teóricos da pedagogia para ministrar suas aulas de Artes. Teoricamente, as respostas ao questionário revelam que na área da Pedagogia a professora tem um bom conhecimento e tenta levá-lo para as aulas de Artes. Ela afirma que tenta levar em consideração o meio em que os alunos vivem e que estas considerações são fatores importantes para a elaboração de seu projeto pedagógico. Como afirmou Zorzo na citação anterior, é importante que o pedagogo considere os fatores sociais, econômicos e culturais, na elaboração de um projeto pedagógico voltado para questões significativas e que abordem autonomia e cidadania.


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Acredito que a professora tem condições de ministrar ótimas aulas em sua área de atuação, mas para que um projeto pedagógico de Artes tenha sucesso é preciso mais do que uma forte capacidade de gestão em uma turma, não basta apenas saber conduzir o grupo e direcionar seus trabalhos, o sucesso está em saber instigar a vontade de pensar e de fazer a diferença. Como afirma Silvio Gallo, (2005, p. 222) em seu texto: Sob o signo da diferença em torno de uma educação para a singularidade, onde comenta a necessidade de como professores lutar contra as propostas de ensino que visam produzir o mesmo e criar identidades, é preciso produzir a diferença e ter atitude para mudar o conceito de escola como uma máquina de produção, “é preciso que de leões nos tornemos crianças para, de dentro da inocência e da ignorância, podermos encontrar o diferente e vê-lo com olhos curiosos e de aceitação. É preciso um exercício de paciência e de humildade”. As

palavras

citadas

por

Gallo,

diferença,

paciência,

humildade,

são

complementares ao projeto pedagógico de sucesso. Ao pensar em um projeto de Artes temos que incluir atividades que visem um trabalho diferenciado, com propostas que busquem explorar a capacidade criadora dos alunos, um caminho certo para atingi-los e revelar seus talentos. Quanto à paciência, e à humildade, são características que bom professores de precisam cultivar, inclusive os de Artes. Para elaborar um projeto interdisciplinar dar certo é precisão buscar apoio dos demais professores, apesar das dificuldades que isto implica e ter humildade para reconhecer possíveis erros e aceitar sugestões.

3.5. ANÁLISE DOS QUESTIONÁRIOS DOS ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL - EJA

Dos vinte alunos presentes na aula do último dia de observações apenas 11 responderam o questionário. A maioria dos alunos era do sexo masculino, mas neste item da entrevista todos perguntaram o que significava gênero. Eram 6 homens e 5 mulheres, entre 17 e 58 anos. A maioria da turma se sente à vontade para explorar sua criatividade nas aulas de Artes e apenas um aluno respondeu negativamente a esta pergunta.


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Os materiais que a maioria mais gosta de trabalhar foram EVA. Acredito que esta resposta é devido a este ser um dos materiais que a professora utiliza com mais freqüência, pois no que se refere ao uso de imagens e atividades diferentes os alunos responderam que a professora trabalha com “raio X” como reposta à pergunta sobre o uso de imagens. Quando perguntado se já haviam freqüentado museus, cinema ou teatro, seis dos onze alunos responderam que já haviam freqüentado o cinema, os demais nunca freqüentaram estes ambientes. Em conversa com a turma muitos me comentaram que nem sabiam se tinha museus na cidade, e que devia ser muito chato sair pra ver um museu! Surpreende-me que a esta altura do trimestre escolar nenhum professor, nem mesmo o que leciona Artes, tenha comentado da existência do museu Costa e Silva, bem no centro da cidade e que recebe visitas de turmas de alunos em horários alternativos, conforme a demanda. Acredito que está faltando nesta turma um pouco mais de informação e uma nova visão sobre o que é Arte, afinal como relata Luciana Arslan e Rosa Iavelberg (2006, p.24):

Se é difícil encontrar um museu em seu no bairro da escola, é fácil encontrar alunos que vêem televisão e outdoors próximos da escola. Todos os lugares, em maior ou menor grau, possuem monumentos e/ou seu próprio acervo – mesmo que temporário – de imagens. Preparar os alunos para ler essas imagens é ensiná-los a pensarem as imagens da arte.

Neste sentido as autoras da citação anterior nos lembram que existem várias outras alternativas para incentivar o aluno a ver Arte, a treinar o seu olhar para ver e perceber o mundo ao seu redor, precisamos buscar caminhos diferentes que nos levem a um mesmo objetivo, agregar sentido ao que é ensinado dentro da sala de aula, encontrar na própria comunidade imagens que podem trazer a sala de aula uma discussão relevante ao grupo e que torne a visão dos alunos mais ampla para o que é considerado arte nos dias de hoje. No filme a O sorriso de Monalisa, encontramos uma cena em que a professora de História da Arte pergunta as alunas: O que é arte? Quem decide o que é arte ou não e o quanto ela é boa ou ruim? Podemos levar estes questionamentos para a sala de aula. Em um grupo como este que tem poucas informações sobre arte, e que estão condicionados a moldes de desenhos e a um trabalho em EVA continuadamente, acredito ser uma ideia um tanto


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desafiadora, mas com grandes chances de obter sucesso se conduzida com base na realidade dos alunos e nos artifícios que a própria comunidade dispõe. Uma das perguntas que mais me chamou a atenção foi quanto ao conhecimento de artistas locais. A resposta mais freqüente foi que conheciam o artista Paulinho Mixaria1, e apenas três alunos responderam que não conheciam nenhum artista local, os alunos reverenciam o artista mencionado, pois têm suas origens na cidade, e em todas as festividades ele apresenta seu repertório de piadas. Quanto à interferência no ambiente escolar a maioria não se mostrou interessado. Acredito que por estarem condicionados a uma prática de trabalho muito repetitiva e sem possibilidades de crescimento, os alunos não imaginam o que poderiam fazer como interferência na escola. Por estes motivos vejo diversas possibilidades de trabalho com esta turma, todos tem algo em comum, vontade de aprender. Acredito no potencial destes alunos, apesar de estarem submersos a atividades que não proporcionam nenhum avanço no sentido cultural, é possível proporcionar aulas mais dinâmicas e que visem agregar mais conhecimento a todos eles.

3.6. HISTÓRICO E CARACTERIZAÇÃO DO INSTITUTO DE EDUCAÇÃO ESTADUAL PEREIRA CORUJA

As observações foram realizadas no Instituto de Educação Estadual Pereira Coruja, localizado na cidade de Taquari, a aproximadamente 90 quilômetros de Porto Alegre. Fundada em 21 de fevereiro de 1902, como Colégio Distrital, contava com 99 alunos e 4 professores. Em março de 1911 foi inaugurado o Colégio Elementar de Taquari,

1

Humorista gaúcho nascido na cidade de Taquari.


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substituindo o Colégio Distrital, com 162 alunos matriculados, funcionava na Rua Sete de Setembro no centro de Taquari e contava com 5 professores. Em 1938 o Colégio foi transferido para a rua atual, Rua Othelo Rosa n° 325, onde funciona ate os dias de hoje. Em 1939 passou a denominar-se Grupo escolar “Pereira Coruja” em homenagem ao professor Antonio Álvares Pereira Coruja, primeiro gramático do Brasil e um grande batalhador em prol da infância e da adolescência saudável e culta. Em 1952 passou a ser Escola Normal Regional do Estado, na 3ª Região Escolar e oferecia o curso de Formação de Regentes do Ensino Primário, em 1962 foi criado o curso de Formação de Professores de Ensino Primário Normal de Grau Colegial e chamava-se Escola Normal “Álvaro Haubert”. Dez anos depois as escolas foram unificadas, passando a denominar-se Escola Estadual de 2º “Pereira Coruja”, logo em seguida foi autorizado o Curso de Auxiliar de Laboratório de Analises Química – ALAQ a funcionar na escola. Em março de 1978 a Escola passou a chamar-se Escola Estadual de 1° e 2° Graus “Pereira Coruja”, em 1986 foi criado o Curso de Preparação para o Trabalho – PPT Ensino de 2° Grau. Em fevereiro de 1989 a Escola recebe autorização para o funcionamento do Curso Técnico em Química. Em seguida a Escola passou a denominar-se Instituto de Educação Estadual “Pereira Coruja”. Entre as muitas atividades e projetos desenvolvidos pela Escola destaca-se o coral “Os Corujinhas”, o grupo de danças Luso-Açoriana Pereira Coruja, o grupo de Teatro Attos, e o Grêmio de Alunos. Atualmente a Escola oferece os seguintes segmentos educacionais: Educação Infantil até 6 anos, Ensino Fundamental de 9 anos, Ensino Médio Diurno e Noturno, Ensino Médio Modalidade Normal, Ensino Profissional Técnico em Química, Ensino Profissional Técnico em Meio Ambiente. Os anos iniciais de Ensino Fundamental de nove anos constituem como espaço de laboratório destinado aos alunos do curso de Ensino Médio Modalidade Normal. A Educação infantil tem como finalidade o desenvolvimento integral ate os 6 anos e seus aspectos físicos, psicológicos, intelectual e social complementando a ação da família e da comunidade.


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A metodologia de ensino da escola é baseada em constantes reuniões pedagógicas com os professores, debates, encontros de estudos para aperfeiçoamento da dinâmica de trabalho dos professores, além de reuniões com a participação dos pais, da comunidade e de órgãos de cultura da cidade. Atualmente a escola tem 1.214 alunos matriculados, de acordo com o senso de maio de 2009. O processo de avaliação é feito trimestralmente, para o curso de Educação Infantil e Ensino Médio Modalidade Normal, tendo como código de avaliação, NA e A, que significam Não Aptos e Aptos. Para o Ensino Médio, Ensino Fundamental de 9 anos e para os outros cursos, a avaliação é feita de forma trimestral com obtenção de nota 20 para o primeiro trimestre, 30 para o segundo e 50 para o ultimo trimestre, considerando satisfatória a obtenção de pelo menos a metade da nota de cada trimestre, desta forma se o aluno não tiver boas notas nos dois primeiros trimestres ele tem possibilidade de alcançar a media necessária para aprovação no ultimo trimestre, considerando que é o período de avaliação de maior peso.

3.7. OBSERVAÇÕES SILENCIOSAS ENSINO MÉDIO

PRIMEIRA OBSERVAÇÃO SILENCIOSA Data: 01/09/09 Serie: 1° ano Ensino Médio Noturno Duração: 30 min. Numero de alunos: 23 Alunos presentes: 14

A primeira aula que observei foi no primeiro período de aula dos alunos. Logo que entrei a professora me apresentou à turma, relatou que estava me formando em Artes e que se sentia feliz por saber que existem pessoas que estão estudando nesta área para não permitir que a disciplina perca a sua valorização.


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A turma é pequena de quinze alunos presentes, seis são meninas e oito meninos. Ao realizar a chamada percebi que vários alunos estavam ausentes, ao questionar o motivo que uma aluna havia desistido os colegas, eles informaram que uma menina teve bebe e não tinha com quem deixar a criança. Alguns alunos trabalham durante o dia e por este motivo estavam pouco motivados, é uma turma muito dispersa, as meninas conversam muito, sobre diversos assuntos, nenhum sobre o assunto da aula. Os meninos são mais tímidos, trabalham em silêncio, ou não trabalham, apenas ficam ouvindo musica no celular, saem freqüentemente para atender o telefone. O que mais me surpreendeu foi que a aula tem duração de apenas trinta minutos, todas as terças-feiras as aulas têm período reduzido, e eles só têm aula de Artes neste dia, sem contar que a direção faz diariamente um pronunciamento pelo sistema de áudio da sala. Como estamos na semana da pátria a mensagem é sobre o amor ao nosso país, após os alunos devem ouvir o hino nacional, este pronunciamento levou nove minutos. Até que a turma se organize para voltar ao trabalho, já se passam mais cinco minutos, enfim, a aula começa, a professora esta trabalhando com colagem. A turma deve rasgar folhas de revistas de pequenos tamanhos e colar sobre uma caixa de sapato. A maioria da turma não trouxe material, tiveram que sair da sala para buscar na biblioteca revistas para elaborar o trabalho, era visível a falta de interesse. A professora me comenta que prefere fazer este tipo de trabalho, que chama de artesanato, pois a maioria da turma trabalha durante o dia e não tem ânimo para realizar trabalhos muito difíceis à noite. Ela acredita que a disciplina está muito desvalorizada e que os alunos não querem saber de mais nada, e que não adianta tentar fazer um trabalho diferente, pois eles não dispõem de tempo e nem de recursos.


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SEGUNDA OBSERVAÇÃO SILENCIOSA Data: 08/09/09 Serie: 1° ano Ensino Médio Noturno Duração: 30 min. Numero de alunos: 23 Alunos presentes: 18

Na segunda aula, a rotina do pronunciamento da direção se repete, agora são os agradecimentos pela presença nas atividades de sete de setembro, após os alunos se organizam nas classes para dar continuidade ao trabalho de colagem de revistas da aula anterior, a professora anuncia avaliação para a próxima aula, anda pela sala para dar uma olhada no andamento dos trabalhos, a maioria da turma não esta realizando o trabalho, alguns já estão com a caixa pronta sobre a mesa outros estão fazendo o trabalho de química que é a disciplina do próximo período. Ao fazer a chamada a professora constata que um aluno está faltando muito, os colegas afirmam que a direção liberou o aluno para treinamentos para o Jet, que seriam faltas justificadas nas aulas de Artes. A professora se preocupa como irá fazer a avaliação do aluno se ele não estiver presente em tantas aulas e não realizar os trabalhos. Alguns alunos continuam realizando o trabalho, outros ficam conversando, a professora reclama que o tempo ocioso dos alunos prejudica a turma, que eles deveriam trazer os materiais solicitados para a realização dos trabalhos, os alunos reclamam que o material é caro, e que não iriam comprar. A aula termina sem a conclusão dos trabalhos, e com a insatisfação dos alunos que não realizaram nenhuma atividade e ficaram o tempo todo com conversas paralelas. A turma rapidamente se dispersa ao aviso do sinal para término da aula. Alguns fazem gestos obscenos para a professora e gritam alegres por ter acabado a aula.


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TERCEIRA OBSERVAÇÃO SILENCIOSA Data: 15/09/09 Serie: 1° ano Ensino Médio Noturno Duração: 30 min. Numero de alunos: 23 Alunos presentes: 14

Na terceira aula é realizada a avaliação. Primeiramente a turma entra na sala bem dispersa, mantendo conversas sobre diversos assuntos e sentam nas laterais da sala escorados na parede. As mesas continuam uma atrás da outra e em duplas, os alunos não trabalham em grupo. O mesmo pronunciado da direção através do sistema de áudio da sala, sobre a Semana Farroupilha, os alunos escutam o hino Rio-Grandense mantendo as conversas paralelas. Após a turma começa o processo de avaliação. A professora pede para que cada aluno leve até a sua mesa o trabalho das caixas, os demais ficam conversando, mesmo com os apelos da professora pelo silêncio. A turma continua dispersa, sem nenhuma atividade escutam música no celular, entram e saem da sala livremente. Enquanto a professora avalia os trabalhos das caixas em sua mesa os outros alunos ficam conversando e caminhando pela sala e pelo corredor. O processo de avaliação é bem simples, a professora olha atentamente se o trabalho está com bom acabamento, o tamanho da caixa e o tipo de decoração, comenta sobre possíveis alterações e dá palpites de como o aluno pode usar a caixa em casa, guardando utensílios, ou jóias. A aula termina, ao sinal, os alunos entram novamente na sala e mesmo antes da professora de Artes sair eles já estão com os trabalhos de Química em mãos, trocando as repostas e falando mal da professora.


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QUARTA OBSERVAÇÃO SILENCIOSA Data: 22/09/09 Serie: 1° ano Ensino Médio Noturno Duração: 30 min. Numero de alunos: 23 Alunos presentes: 16

Na terceira aula a professora entra e tenta controlar a turma que conversa insistentemente. Após a mensagem da direção, a professora tenta passar para a turma sua proposta de trabalho, trata-se de os alunos desenharem em uma folha A1 dois tipos de praça, uma em um ambiente rural e outra em um ambiente urbano. Após, eles devem unir estes dois estilos em um só desenho, uma mistura dos elementos que usaram nos dois desenhos. O material solicitado foi lápis colorido ou lápis preto, para desenhar em uma folha ofício A1 dois ambientes. A turma não entendeu muito bem a proposta, então a professora pediu para que os alunos desenhassem, que depois ela explicaria melhor. Um aluno não sabia como começar então, ao perguntar, a professora responde fazendo um desenho no quadro como exemplo. A turma fica dispersa, poucos fazem o desenho, outros entram e saem da sala livremente, com o argumento que não tem material para realizar a atividade, outros revisam o material de Geografia, pois teriam prova no mesmo dia. Algumas meninas tentam fazer o desenho, mas afirmam que não sabem desenhar, que não tem habilidade para esta atividade. A professora insiste e lembra que o trabalho será parte da avaliação do trimestre. A aula termina sem muita produtividade.


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QUINTA OBSERVAÇÃO SILENCIOSA Data: 29/09/09 Serie: 1° ano Ensino Médio Noturno Duração: 30 min. Numero de alunos: 23 Alunos presentes: 16

A aula começa com o pronunciado da direção, a turma está muito agitada, como de costume. A professora comunica que a aula será para o término do trabalho e que na próxima semana será a avaliação. Como muitos alunos não entenderam a proposta nem trouxeram os materiais, a professora vai à secretaria e pega folhas de ofício e lápis de cor. Em seguida explica novamente como deve ser feito o trabalho, ela quer que os alunos dobrem a folha de ofício ao meio e de um lado façam um desenho de uma praça em um ambiente rural e de outro lado uma praça em um ambiente urbano. A professora pede para que eles desenhem elementos que caracterizem um ambiente urbano ou rural, e em seguida em outra folha façam um terceiro desenho unindo estes elementos. A professora pede para que os alunos usem toda sua criatividade, e faz demonstrações no quadro de um banco, com uma árvore ao lado, e explica que é desta forma que ela quer que o desenho fique. Uma menina faz o desenho de uma praça com brinquedos de crianças, escorregador e balanço, os outros colegas levantam e vão até a classe dela ver o desenho, elogiam, querem fazer igual, mas a professora diz que não quer que eles copiem da menina, e que o trabalho consiste em desenhar uma praça, e não um parque de diversão. Os alunos voltam aos seus trabalhos desmotivados, conversam constantemente entre eles e falam no celular. A professora senta em sua cadeira e fica olhando eles trabalharem. Alguns alunos entram e saem da sala, caminham na sala de classe em classe.


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Quando a professora percebe muita dispersão da turma ela, levanta e pede silêncio, e que eles trabalhem em suas classes. Percebo que alguns alunos já começam a ver o material para a próxima aula, eles comentam sobre as provas, algumas meninas conversam sobre a festa do último final de semana. A aula termina, todos saem da sala, a professora levanta calmamente e vai para sua próxima aula na turma ao lado. Antes de sair ela avisa que tragam os trabalhos prontos para a avaliação na próxima semana.

SEXTA OBSERVAÇÃO SILENCIOSA Data: 06/10/09 Serie: 1° ano Ensino Médio Noturno. Duração: 30 min. Numero de alunos: 23 Alunos presentes: 14

Na última aula observada, tudo começa como de costume, a mensagem da direção é sobre a semana da criança, a importância das crianças e dos adolescentes para a construção de um mundo melhor. Os alunos estão agitados, a professora entra e pede silêncio, pergunta se trouxeram os trabalhos para a avaliação. Uma menina diz que sua irmã mais nova rasgou o trabalho dela e não deu tempo para fazer outro. A professora pede para quem trouxe levantar e ir à frente da turma, explicar sobre o que desenhou. Alguns alunos não aceitam a proposta e poucos apresentam seus trabalhos. A menina que fez a praça com brinquedos de criança não apresenta seu desenho, entrega a folha dobrada à professora.


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Somente quatro alunos apresentam, sem muitas palavras descrevem que fizeram um banco com uma árvore no ambiente rural e bancos de concreto em frente a uma rodovia no ambiente urbano. Uma menina que apresentou fala que seria ótimo se pudesse unir os elementos que trazem toda a tranqüilidade do ambiente rural, como plantas, pássaros, e ar puro, junto com as mordomias do ambiente urbano, acesso a parque de diversões, quadras de jogos, e espaço para entretenimento dos jovens. Ela comenta que não se tem muito a fazer para se divertir nas cidades do interior, mas em contraponto tem muito ar puro e qualidade de vida. Ao final da aula pedi alguns minutos para aplicar o questionário aos alunos. A professora comunicou à turma para que respondessem o questionário com cuidado pois as respostas iriam para a universidade. Alguns alunos não quiseram responder, muitos perguntaram o que significava gênero, outros não responderam esta pergunta. A aula termina como de costume a turma se dispersa, vão para rua, caminham nos corredores, até que o próximo professor entre na sala.

3.8. ANÁLISE DAS OBSERVAÇÕES SILENCIOSAS DO ENSINO MÉDIO

Na primeira aula que observei do Ensino Médio noturno, tive uma mistura de sentimentos de decepção e raiva com vontade de enfrentar aquela realidade tão adversa do que estudamos nas teorias da universidade. Encontrei uma turma de adolescentes desinteressados nas aulas de Artes e ao mesmo tempo ávidos por novas situações, passando por um período de descobertas em suas vidas, onde o crescimento da tecnologia invade a sala de aula. Pensei no primeiro momento que deveria desistir daquela turma, que nada daria certo, mas percebi que o que poderia estar implicando no interesse dos alunos era a proposta pedagógica da professora, que formada em Belas Artes e lecionando há quase trinta anos, encontra-se desmotivada diante de tantos obstáculos para o ensino de Artes.


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Sua prática nada acrescentou aos alunos, realizou uma colagem em caixas de sapato com revistas velhas. A maioria da turma não fez o trabalho tornando as aulas de Artes um peso no currículo, podendo ser substituída, na opinião dos alunos, por Matemática. Enquanto conversávamos durante a aula, ela justifica que pensou em fazer diversas atividades com os alunos interferindo na escola, me relatou algumas idéias, mas concluiu afirmando o quanto está desmotivada devido à desvalorização da disciplina diante dos alunos. Em relação às aulas de Artes, Osowski (1999, p.62) afirma que:

[...] entre o que é proposto e o que se faz, o caminho é longo e há muitas lacunas. Depois o tempo passa, nossos alunos crescem, ou já adultos, envolvem-se cada vez mais com seu trabalho, família, sonhos ou desenganos. E a escola o que fez? Se queremos que sejam pessoas que façam diferença na sociedade, buscando formas de torná-la melhor, com mais justiça, maior amorosidade, temos, no mínimo, de sensibilizá-los para essa face da sociedade que clama por esses valores.

Naquele dia enquanto a professora realizava a chamada, muitos alunos haviam faltado, ela justifica dizendo que eles trabalham, alguns comentam sobre o caso de uma menina que teve bebê recentemente e não tinha com quem deixar a criança. Enfim problemas muito comuns na sociedade em que vivemos. Então fico pensando se não seria de extrema importância que a aula de Artes destes alunos, além de transmitir conteúdos pré-estabelecidos, não deveria prepará-los para vida, como afirma a citação acima, com o tempo os alunos se tornam adultos cada vez mais precocemente, e a escola o que fez para contribuir? Durante todas as observações tive a mesma sensação de que aqueles alunos esperavam mais das aulas, que estavam prontos para uma aventura da qual nunca tinham o prazer de participar, suas aulas tiveram sempre o mesmo planejamento, elaboração de trabalhos manuais, para serem avaliados, sempre ligando a idéia de produção de um trabalho para a aquisição de uma nota. Por vezes a professora questionava os alunos que não estavam trabalhando, lembrando que a atividade faria parte da avaliação do trimestre. As atividades não eram propostas como exercícios onde os alunos pudessem errar e aprender, construir uma linha de pensamento sobre o que estavam realizando, para então desmistificar a idéia de arte como produção em série visando sempre a avaliação do professor, como se a Arte precisasse de um motivo claro e aparente para ser realizado, um motivo para criar, e este motivo sempre era a avaliação. Quanto a está idéia de funcionalidade da arte,


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Fernando Cocchiarale (2006, p.14) ressalta a importância de não buscar uma explicação ou finalidade para o trabalho artístico: [...] a busca ansiosa pela explicação verbal de obras reais e concretas, como se sem a palavra fosse-nos impossível entende-la, a explicação assassina a fruição estética, já que ao reduzir a obra a uma explicação mata sua riqueza polissêmica e ambígua, direcionando-a num sentido unívoco.

As aulas de Artes desta turma não estavam de acordo com o grupo, e o que é pior estavam assassinando a fruição estética, como afirma Cocchiarale, e o processo criativo dos alunos, acredito que quando uma proposta não consegue cativar o interesse da turma além de não representar uma aprendizagem significativa, não instiga os alunos a pensarem, a se tornarem cidadãos críticos da realidade em que vivemos. Enquanto as aulas de Arte representarem para os alunos uma perda de tempo, onde eles fazem alguns trabalhinhos de artesanato para poder obter uma nota ao final do trimestre, estaremos impedindo de desenvolver nos alunos o interesse pela Arte como cultura, como um modo de ver o mundo. São muitas as possibilidades que temos para mudar e uma turma como esta não é diferente. Acredito em uma proposta inovadora, que instigue os alunos a buscar em seu cotidiano o que estão aprendendo, fazendo com que a tecnologia, que por vezes estava atrapalhando a aula, se transforme em um fio condutor para uma nova proposta pedagógica.

3.9. ANÁLISE DO QUESTIONÁRIO DA PROFESSORA DO ENSINO MÉDIO NOTURNO

A professora é formada em Belas Artes, e leciona a mais de vinte anos na área. Através das respostas do questionário aplicado foi possível perceber que ela tem autonomia para realizar seus trabalhos, apesar da escola não disponibilizar uma sala especial, e as aulas terem duração de apenas trinta minutos. Ela relata utilizar imagens de livros para ilustrar suas aulas e tenta fazer o melhor que pode.


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Ela não utiliza projetos e raramente trabalha de forma interdisciplinar. Percebi que enquanto conversávamos ela demonstrava extrema desmotivação quanto ao ensino e a expectativa dos alunos, argumentando várias vezes que não faz nenhum trabalho diferenciado, pois os alunos trabalham durante o dia e vem para a escola desmotivados e sem nenhum interesse pelas aulas. Percebo que ela espera dos alunos um interessem pelas atividades, mas não propõe algo diferenciado que os motive a permanecerem nas aulas de Artes. Na pergunta sobre as experiências positivas e negativas em sua prática docente, ela comenta que sente seu trabalho bem realizado quando os alunos demonstram crescimento do “ser humano em si”, quanto às experiências negativas, relata que chegar na sala e perceber que nos alunos não valorizam a disciplina como deveriam, a deixa profundamente desmotivada. A professora acredita que deve passar o conteúdo e fazer as avaliações. Enquanto conversávamos, ela comentava não encontrar outra forma de ministrar as aulas a não ser passar os seus trabalhos de artesanato, pois eles vão ter utilidade em casa, e avaliar como ficou o trabalho pronto. Percebi que ela pouco acompanhava o processo de aprendizagem dos alunos, apenas dava dicas de como devem fazer para ficar mais bonito. Para Celso Antunes (2007, p. 45): [...] educar não significa apenas transmitir o legado cultural às novas gerações, mas também ajudar o aluno a aprender o aprender, despertar vocações, proporcionar condições para que cada um alcance o Máximo de sua potencialidade e, finalmente, permitir que cada um conheça suas finalidades e tenha competência para mobilizar meios para concretizá-las, chega-se ao sentido estrutural da questão: o que significa educar.

Como afirma o autor acima, cabe ao educador desenvolver as habilidades dos alunos, proporcionar condições de que cada um deles se encontre com uma atividade e esta seja significativa para ele. Na maioria das vezes o que observei desta professora é que ela esperava que os alunos reproduzissem o que ela pedia tal qual era exposto no quadro. Durante as observações silenciosas a presenciei exemplificando um desenho no quadro e pedindo para que os alunos fizessem iguais, então me pergunto, será que este é o verdadeiro sentido de educar?


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Realmente o ensino de Artes está desvalorizado pelos alunos, sendo considerado uma atividade de artesanato, ou um desenho para pintar, mas acredito que por parte dos professores também falta um impulso maior para transformar esta realidade. Apenas com um trabalho significativo mudaremos este fato. Por mais que os alunos estejam cansados de um dia de trabalho e ainda terem que ir à escola à noite, precisamos utilizar este tempo que o aluno se predispõe de vir à aula para tornar a atividade o mais instigante possível, a fim de fazer com que eles aprendam o aprender. Como relata Antunes (2007), que eles consigam encontrar um sentido para buscar e descobrir suas potencialidades e desenvolve-las com a mediação do professor.

3.10.

ANÁLISE DOS QUESTIONÁRIOS DOS ALUNOS DO

ENSINO MÉDIO

Analisando as entrevistas dos alunos do Ensino Médio pude perceber que a maioria tem vontade de fazer coisas novas, o que ficou claro na resposta de uma das alunas: “Gostaria de trabalhos que possam ser feitos em uma ou duas aulas, porque ficam cansativos os trabalhos livres de colagem.” Assim como esta aluna a maioria respondeu que prefere aulas práticas, 9 entre dez alunos, mas afirmam ainda que se gostarem do conteúdo gostam das teóricas também. Os alunos têm entre 15 e 19 anos, a maioria são meninos, seis meninos e quatro meninas, estão em um período em que são suscetíveis a mudanças e situações diferentes, ao mesmo tempo apresentam a revolta de estar em um ambiente que ao que parece não os agrada. Percebo que as aulas de Artes destes alunos estavam em desacordo com as suas expectativas. Alguns relataram que preferiam trocar a disciplina por Matemática, e ficavam folhando o material de outras disciplinas durante a aula. Estas atitudes dos alunos para mim são tudo que eles têm a fazer diante de uma realidade que não está tornando as aulas interessantes, mas massacrantes!


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Me preocupa o fato de que com tanta gente disposta a trabalhar, professores formados e muitas vezes atuando em áreas distintas da sua, por falta de oportunidade, em contraponto professores desperdiçam um tempo tão precioso para sustentarem suas desmotivações .Continuando as análises das repostas dos alunos o autor Silvio Gallo (2005, p. 217) compara atitudes como estas, a de certos alunos em cenas de filmes, e músicas, como por exemplo: No filme de Parker, como na canção de Pinck Floyd, há uma linha de fuga: a revolta das crianças que quebram a escola e ateiam fogo à linha de montagem, como “luddistas” contemporâneos. Mas a linha de fuga pode ser produzida; a diferença pode ser posta, em meio a toda essa repetição. E aí nos encontramos frente a frente com o poder e seus efeitos.

O autor se refere às atitudes dos alunos diante de uma aula que se baseia em repetições de conteúdos e metodologias. No texto ele descreve que a educação se tornou uma máquina de produzir repetições, que não valoriza mais as diferenças dos alunos e trata todos como se estivesse formando em linha de produção, a citação justifica as atitudes dos alunos como uma revolta contra a escola que não valoriza mais as especificidades de cada um e se preocupa mais em transmitir os conteúdos de forma repetitiva. Vejo que nesta turma acontece o mesmo, a revolta dos alunos é constante por não estarem satisfeitos com suas aulas e perceberem a desmotivação do professor. Eles não chegam a atear fogo à escola, mas sentem necessidade de realizar um trabalho diferente. Na pergunta se gostariam de interferir no ambiente da escolar através das suas aulas de Artes, a maioria respondeu que sim, oito alunos dos dez entrevistados. A maioria dos alunos nunca foi a um museu, nem freqüentam o teatro ou cinema. Não encontrei muita aceitação nesta pergunta, pois percebi que os alunos não conheciam o museu da cidade por falta de informação, por acreditarem que só tem coisas velhas lá dentro. Esta foi uma das respostas que uma aluna me deu ao questioná-la verbalmente se ela sabia que a cidade tinha um museu. Quanto a artistas locais houve poucas respostas afirmativas, na concepção dos alunos artistas são os que aparecem na novela ou nos filmes. São alunos que tem muito contato com aparelhos eletrônicos, celulares, MP3, vejo várias oportunidades de interagir juntamente com eles nesta demanda de tecnologia.


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Portanto, acredito ser possível, mesmo enfrentando tantas dificuldades, falta de tempo, cansaço e desinteresse dos alunos, falta de material e de sala especial, temos o principal, a esperança! É possível interagir com a escola, tornar as aulas mais atrativas e dinâmicas, fazer o tempo render mais e, como afirma Gallo na última citação, é possível criar a diferença, fugir da repetição e proporcionar o novo, criar a esperança em nossos alunos, só assim poderemos estar frente a frente com o poder da diferença! Gallo, (2005, p. 221) afirma que: “o aprendizado é um reencontro com a verdade, com algo que já sabíamos, uma vez que a verdade está nas formas mais puras, nas idéias eternas e imutáveis”. Fazer a diferença é algo muito simples, é resgatar idéias, é buscar novas alternativas para resolver problemas antigos, basta que sejamos verdadeiros com nós mesmos e criar um plano de ensino em que acreditamos verdadeiramente que pode e vai dar certo!


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CapĂ­tulo 4 PrĂĄtica de ensino no Ensino Fundamental/EJA


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4. 1. PROJETO EDUCATIVO

DADOS ESTRUTURAIS DO PROJETO:

Áreas envolvidas: Artes Visuais Eixo Central: Fotografia Atividade inicial, de aproximação e introdução do Projeto: Autorretrato e dinâmicas de aproximação com o tema. Fechamento do Projeto: Exposição na Escola de todo material produzido durante o período de estágio e palestra com artista local. Título do Projeto: Fotografia e Arte na educação.

DADOS DE IDENTIFICAÇÃO:

Nome do autor (a) do projeto: Nátia Pereira Vargas Professora Titular: Cláudia Rosane do Canto Peres Nome e endereço da escola: Escola Municipal de Ensino Fundamental Professor Emilio Schenk. Bairro Leo Alvin Faller, Taquari, RS. Série/ciclo/turma cedida: Sétima e oitava séries, totalidade 4, turma 4B. Turno: Noturno Número de aprendizes: 37 alunos matriculados


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TEMA A utilização da fotografia nas aulas de Artes, com a análise de imagens no sentido histórico e social para aguçar o espírito crítico dos alunos, como também a evolução da arte após o advento da fotografia e a evolução da aprendizagem dos alunos após a inserção da fotografia nas aulas de Artes. Como também explorar as várias possibilidades de se trabalhar a fotografia no ensino. JUSTIFICATIVA A realização deste projeto é de grande interesse pessoal e profissional visto que o considero a fotografia um marco importante para a história da arte, como também uma nova linguagem que possibilita a libertação de antigos conceitos sobre o que é arte e como ela pode ser desenvolvida. Para os alunos acredito que o projeto será um meio de libertarem-se de uma metodologia engessada, e proporcionar a liberdade de expressar e conhecer a si, e a novas possibilidades de conhecer a arte em diversas manifestações. Trabalhar com o tema é uma forma de aproximar os alunos da arte de uma forma interativa onde eles poderão encontrar novas formas de ver e entender a arte além de conhecer um pouco mais da importância desta descoberta para a história. Através deste projeto pretende-se envolver os alunos na disciplina utilizando recursos que estão disponíveis no cotidiano dos mesmos, como celulares, fotografias suas e de familiares, revistas e jornais locais. O tema será desenvolvido no ensino fundamental Totalidade 4 do EJA, e no Ensino Médio, levando em consideração as especificidades de cada turma e os interesses do grupo, bem como a relação existente entre os alunos e os avanços tecnológicos que invadiram a escola e a sociedade, como a fotografia. OBJETIVO GERAL Apresentar a fotografia como arte e o quanto as imagens apresentadas diariamente pela mídia podem influenciar na formação da opinião pública, questionando a veracidade das imagens fotográficas e debatendo os recursos da fotografia na arte. OBJETIVOS ESPECÍFICOS • Discutir a influência da fotografia na arte.


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• Questionar a veracidade de uma imagem fotográfica e o quanto uma imagem pode influenciar na formação da opinião pública e na formação da personalidade do indivíduo. • Instigar o espírito crítico dos alunos ao perceber uma imagem. • Propor aos alunos a análise de imagens no sentido histórico e social.

AVALIAÇÃO Será considerado satisfatório se os alunos entenderem a proposta, ou pelo menos que sejam provocados por ela, bem como se envolva no processo de elaboração do autorretrato, interferência de uma imagem e desenvolvam sua percepção, entendendo a história e as influências da fotografia na arte e na vida.


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4.2. AULA 01

PLANEJADO DATA: 25/03/2010. TEMA: Fotografia e Arte na Educação. DURAÇÃO: hora/aula de 40 mim. OBJETIVOS: • Expor o Projeto educativo de Ensino. • Conhecer melhor os alunos. • Experimentação de materiais. • Aproximar os alunos da proposta do projeto educativo.

CONTEÚDOS: • Projeto Educativo de Ensino. • Recorte e colagem.

METODOLOGIA: Expositiva dialogada com recursos, dinâmica em grande grupo, atividade de reflexão individual. DESENVOLVIMENTO: Apresentação do projeto. Questionar os alunos sobre o que conhecem sobre fotografia, se costumar fotografar o que costumam registrar, o que eles sabem sobre a historia da fotografia. Dinâmica de apresentação, palavras que descrevem como você é. Em circulo os alunos irão apresentarem-se resumindo em uma palavra a pergunta: Quem é você?


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Experimentação de diferentes materiais. Os alunos em grande grupo receberão materiais diversos para experimentarem, riscar, rasgar, desenhar, em seguida escolheram alguns materiais para fazer um autorretrato. Confecção de autorretrato com recorte e colagem, pinturas, de acordo com a palavra da dinâmica de apresentação, ou seja, se o aluno resumiu sua personalidade em uma palavra como seria um autorretrato que representasse como ele é através desta palavra. Fotografar os alunos com seu autorretrato. Discutir sobre as construções de autorretrato.

RECURSOS: Folhas, lápis de cor, carvão, giz de cera, nanquim, canetas esferográficas, lápis preto, tecido, cola, maquiagem, pincel, botões, clipes, folhas de diversas gramaturas, papel de seda, gessado, cartolina, esponja de aço, lápis dermatográfico, giz pastel oleoso.

REALIZADO

A aula começa às 20 horas e 30 minutos, na aula anterior os alunos têm Educação Física, todos chegaram agitados na sala, a professora titular avisou minutos antes da aula que não viria e é a vice-diretora que me apresenta a turma. Tento começar a aula, mas a turma não pára de conversar, quando consigo começar a falar entram mais três alunos que estavam no pátio e se atrasaram para a aula devido uma briga onde um homem armado pulou o portão da escola e se escondeu no banheiro. Ninguém sabia quem ele era, mas na rua estavam um grupo de adolescentes que comercializavam drogas. Continuo, comentando o sobre o projeto, quando falo sobre fotografia percebo uns olhares desconfiados, como se me perguntando: “Fotografia na aula de Artes?”, continuo relatando as normas da escola as quais a coordenadora me pediu para comentar, saliento a proibição do uso do celular nas aulas, mas explico que nas aulas de artes ele poderá ser usado para fotografar durante a execução de alguns trabalhos, mediante autorização da direção. Os alunos questionaram se meu trabalho seria somente bolinha para colar no papel. Reclamaram da outra professora que aplicava atividades infantis, expliquei então que iríamos conhecer um pouco mais sobre a história da fotografia através da apresentação de alguns artistas que trabalham com essa imagem para criarem suas obras de arte. Foi então que


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um aluno me perguntou, “mas que obra de arte?” Questionei então o que eles conhecem sobre arte, a reposta foi “Monalisa” e “quadros”. Perguntei se eles conheciam algum artista local, e uma menina me perguntou se aquilo que se faz pintando paredes é arte? No mesmo momento um menino falou: claro, é arte de rua!! Então comentei sobre graffit. Outros perguntaram se isso era mesmo arte? Questionei sobre o que era arte para eles, e o que determina isto. Todos ficaram pensando e um menino me respondeu que a última professora que questionou sobre o que era arte ficou sem resposta. Respondi que esta era uma pergunta que não tinha uma resposta certa ou errada, depende da cultura de cada local. Lembrei então de citar que muitos autores não conceituam arte determinando um tipo de objeto ou coisa como arte. Como Jorge Coli (2007, p. 8) salienta, “é possível dizer então que arte são certas manifestações da atividade humana diante das quais nosso sentimento é admirativo, isto é: nossa cultura possui uma noção que denomina solidamente algumas de suas atividades e as privilegia.” Não citei Coli tão exatamente, apenas comentei sobre este conceito, quando uma menina levanta o braço e pergunta: “é como a cor preta que para nos é luto e em alguns lugares é o branco que representa luto?” Respondo que sim, mas que eles não se preocupassem em explicar o que é arte, apenas procurassem realizar os trabalhos propostos tentando conhecer suas possibilidades. Em seguida peço para que os alunos se apresentem dizendo o nome, a idade, se trabalham, e uma palavra, alguma coisa que descreva como eles são, algo que gostam, que representa um pouco de sua personalidade. Nenhum aluno queria começar a falar, até que um menino começa com entusiasmo, fala seu nome, que gosta de andar de bicicleta, da cor preta e trabalha como servente de pedreiro. Todos seguem as apresentações, e surgem as mais variadas palavras: família, viagem, descanso, amizade, festas, verde, azul (cor do meu time), vermelho (cor do amor), azul do mar, cerveja, computador, unhas compridas, sou brincalhona, lazer, etc. Durante a apresentação todos queriam ouvir o que as meninas iriam dizer. A turma criou um suspense sobre as apresentações de algumas meninas, assim como houve brincadeiras sobre o menino que era servente de pedreiro, os colegas gritaram, “serventão!”. A conversa se estende até as 21 horas, pois devido à confusão na entrada, perdemos muito tempo. Após esta apresentação, que demorou a ser concluída devido a reação dos alunos, pedi para que cada um se dirigisse à classe em frente ao quadro e pegasse o que quisesse. Na mesa havia diferentes papéis como papel jornal, folha de desenho, oficio, presente, seda, crepom, cartolina, cartona, papel gessado, papel celofane, papel vegetal, retalhos de EVA,


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lápis de cor, canetinhas, cola tesoura, canetas esferográficas, lápis dermatográfico, lápis 6B, grafite em bastão, carvão, giz pastel oleoso, giz de cera, tesoura e cola. Os alunos se amontoaram sobre a mesa e cada um pegou um único papel e um lápis. Pedi então que realizassem um desenho que representasse a sua personalidade, com base na palavra escolhida na apresentação. Alguns perguntam se poderiam escrever, respondo que sim, a proposta era que através das palavras relatadas eles pudessem criar um desenho, ou frases que descrevessem um pouco sobre como eles são. Meu objetivo era conhecer melhor os alunos, como eles se comportavam diante de materiais tão diferentes aos que utilizavam. Me surpreendi por que não se interessaram em pegar vários materiais, alguns ficaram com vergonha, mas todos realizaram a atividade. Percebi que para um primeiro contato foi bastante produtivo, pois senti a aceitação da turma, fizeram perguntas sobre como seriam as aulas, como iríamos fotografar, e o quê iríamos fotografar. Para mim foi uma experiência incrível, recebi orientações na entrada para que não confrontasse alguns alunos e quando eles pedissem para ir ao banheiro que eu permitisse, pois muitos iriam ao banheiro frequentemente para usar drogas. Graças a Deus ninguém pediu para ir ao banheiro! A escola já tem um histórico de confrontos com alunos que usam drogas que demonstraram comportamento violento, alunos entram armados, a polícia é chamada algumas vezes para conter brigas em frente a escola devido a disputa de ponto para o tráfico de drogas, apesar do portão se manter fechado, os traficantes pulam o portão. Não existe possibilidade de parar esta situação, os professores decidiram aprender a lidar com a ideia de que seus alunos são ao mesmo tempo bandidos e mocinhos, no processo de construção do conhecimento, a educação pode ser a válvula de escape para quem sabe mudar o destino de muitos deles. Esta realidade me faz pensar sobre a importância de uma aprendizagem significativa a estes alunos, diante desta realidade, onde o professor tem que agradecer a Deus por poder terminar a aula sem que algum aluno saia para usar drogas no banheiro, ou como ser orientada a não confrontá-los quando não quiserem realizar os trabalhos, pois uma professora já foi ameaçada de morte pelos alunos apenas por zelar pela educação. Acredito que é preciso pensar nos conteúdos como parte da realidade dos alunos para aproximá-los da construção do conhecimento. Com as orientações que me foram passadas para conseguir aplicar minhas aulas. Conforme Cecília Osowski (1999, p.62): Será que sua vida torna-se mais bela, mais colorida, mais suportável, mais criativa, com o que aprendem? Será que estendem a mão para ajudar um amigo preso pela droga, pela bebida ou mesmo pela solidão? Aprendem a


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sentir as dores do próximo, partilhando seu tempo, seus conhecimentos, seu jeito de viver, com quem não tem nem tempo, nem escola? Saboreiam a alegria de viver, gozando a ternura e fruindo a paixão? Quando é que ensinamos que a matemática tem a ver com cidadania, a linguagem com a política, a fé com a justiça, o conhecimento escolar com o dizer poético?

Como professora preciso repensar meu planejamento para avaliar se o que me proponho a ensinar está de acordo com a realidade deste grupo. Como saber se o conhecimento tem tornado melhor de alguma maneira a vida destes alunos. Como relata Osowski, quando é que sabemos se o que ensinamos está relacionado a valores de convivência na sociedade em que vivemos. Gostaria que minhas aulas fossem uma maneira de, por um momento, que os alunos esquecessem esta realidade que os cercam de trafico de drogas e violência. Mas a pergunta permanece, será que é possível encontrar uma maneira de ensinar para a vida? A escola tornou-se um ponto de comércio de drogas, o professor que deveria ser provocador da construção do conhecimento tem que controlar o que fala para não confrontar os alunos, então me pergunto: a educação está servindo para melhorar a vida destes alunos? O conhecimento esta sendo usado de forma significativa? No intuito de me aproximar desta realidade meu projeto está ligado a relação dos alunos com a influência da tecnologia através da fotografia de seus celulares, mas continua a dúvida e o medo, será que a educação pode contribuir para melhorar a vida destes alunos? Considero um grande compromisso tentar influenciar de forma positiva no processo de construção do conhecimento desta turma. Utilizamos dizer poético enquanto expressão, verbal ou não, que expressa emoções, sentimentos, afetos, tocando a sensibilidade, linguagem do coração.


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4.3. AULA 02

PLANEJADO DATA: 08/04/2010. TEMA: Fotografia e Arte na Educação. DURAÇÃO: hora/aula de 40 mim. OBJETIVOS: • Proporcionar um momento de reflexão sobre construção de um autorretrato, antes e depois da fotografia ser descoberta. • Conhecer o trabalho de Cindy Sherman. • Analisar fotografias da artista. • Construir um autorretrato com recorte e colagem. CONTEÚDOS: • Recorte e colagem. • Autorretrato. • Vida e obra de uma artista que trabalha com autorretrato. • Análise de imagem. • Arte Conceitual. METODOLOGIA: Expositiva dialogada, trabalho prático individual.

DESENVOLVIMENTO: Apresentar imagens de autorretratos de Pablo Picasso, Leonardo Da Vince, Paul Cézane, Francisco Goya e Vicente Van Gogh. Comentar sobre a construção da imagem antes da fotografia, como eram realizados os retratos, com que materiais e a posição do retratado. Em seguida apresentação de imagens de Cindy Sherman.


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Autorretrato. Pablo Picasso. COORDENAÇÃO E ORGANIZAÇÃO FOLHA DE SÃO PAULO. Coleção Grandes Mestres da pintura. Volume 6, pg. 41, Bauri, São Paulo: Editorial Sol 90, 2007.

Autorretrato. Leonardo Da Vinci. COORDENAÇÃO E ORGANIZAÇÃO FOLHA DE SÃO PAULO. Coleção Grandes Mestres da pintura. Volume 3, pg. 12, Bauri, São Paulo: Editorial Sol 90, 2007.


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Autorretrato com chapéu. Paul Cézanne. COORDENAÇÃO E ORGANIZAÇÃO FOLHA DE SÃO PAULO. Coleção Grandes Mestres da pintura. Volume 2, pg.12 Bauri, São Paulo: Editorial Sol 90, 2007.

Autorretrato. Francisco Goya. COORDENAÇÃO E ORGANIZAÇÃO FOLHA DE SÃO PAULO. Coleção Grandes Mestres da pintura. Volume 5, pg. 12, Bauri, São Paulo: Editorial Sol 90, 2007.


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Autorretrato diante do cavalete. Vicente Van Gogh. COORDENAÇÃO E ORGANIZAÇÃO FOLHA DE SÃO PAULO. Coleção Grandes Mestres da pintura. Volume 1, pg. 12, Bauri, São Paulo: Editorial Sol 90, 2007.

Untitled Film Still #58 Disponível em: http://www.cindysherman.com/art.shtml. Acesso em 28/03/10.


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Untitled Film Still #7, 1978 Disponível em: http://www.cindysherman.com/art.shtml. Acesso em 28/03/10.

Untitled Film Still #36, 1979 Disponível em: http://www.cindysherman.com/art.shtml. Acesso em 28/03/10.

Discussão sobre vida e obra da artista, sua relação arte conceitual. Relacionar o trabalho da artista com a sua época. Discutir sobre a relação de imagem com o artista, tempo e espaço em que vive. Conversar sobre as diversas formas de construir um autorretrato utilizando a fotografia como


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suporte, relacionar as imagens dos primeiros artistas apresentados com Cindy Sherman, questionar as diferenças e semelhanças, discutir a construção da imagem com o auxilio da fotografia. Com revistas os alunos serão convidados a realizar uma montagem de um autorretrato, o trabalho será realizado em folha de desenho cortada ao meio, fazendo referência e uma fotografia de tamanho 13x18. Para a próxima aula solicitar que tragam roupas e acessórios para se fotografarem. RECURSOS: Retroprojetor, lâminas, folhas de desenho, cola, tesoura, revistas, livros da coleção Grandes Mestres da Pintura volumes: 01, 02, 03, 05, 06,

REALIZADO

A aula começa com a professora titular fazendo a chamada em meio a conversas com os alunos, perdemos quase dez minutos do período. Em seguida ela senta ao fundo da sala e pede para que eu inicie a aula. Primeiramente apresento os autorretratos convencionais de Pablo Picasso, Leonardo Da Vinci, Paul Cézane, Francisco Goya e Vicent Van Gogh, questionando os alunos sobre o que eles achavam das imagens. Um menino me pergunta se todos estes artistas eram loucos devido ao jeito que eram retratados. Respondi que esta era a forma com a qual o próprio artista se percebia, expliquei o sentido de um autorretrato, como era feito e com que materiais. Questionei se os alunos fossem se autorretratar como fariam isto, com quais materiais? A resposta foi imediata: “Ah eu tirava uma foto do meu celular!” Comentei sobre como era a arte antes da fotografia, sobre o ofício dos pintores, como eram realizados os retratos, um aluno perguntou: “Isto é aula de Artes ou História? Respondi que para entender melhor a Arte era necessário que eles entendessem um pouco do que estava acontecendo no mundo como a descoberta da fotografia. Em seguida apresentei as imagens de Cindy Sherman, todos os alunos ficaram espantados, uma menina disse: “Mas isso não é arte? Arte é pintura!” Salientei que a arte nem sempre é apresentada somente como uma pintura, que a fotografia, a música, a escultura, também são linguagens de arte e cabe a nós perceber o mundo de forma a reconhecer as diversas manifestações artísticas. De acordo com os PCNs:


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A arte nem sempre se apresenta no cotidiano como obras de arte. Mas pode ser observada na forma dos objetos, no arranjo de vitrines, na música, dos puxadores de rede, nas ladainhas entoadas por tapeceiras tradicionais, na dança de rua executada por meninos e meninas, nos pregoes de vendedores, nos jardins, na vestimenta, etc. O incentivo à curiosidade pela manifestação artística de diferentes culturas, por suas crenças, usos e costumes, pode despertar no aluno o interesse por valores diferentes dos seus, promovendo o respeito e o reconhecimento dessas distinções (PCNs, 1996, p.51).

A arte pode estar em diferentes manifestações, como descreve a citação acima é preciso incentivar a curiosidade e a observação de diferentes manifestações artísticas para que o aluno reconheça e respeite estas linguagens tão distintas. Mas em tão pouco tempo de aula não sei se conseguirei instigar estes alunos a perceberem a arte na fotografia e em seu cotidiano, considerando que eles estão cursando o equivalente a sétima e oitava série, e até o momento tudo que tiveram sobre arte foi bolinhas para colar no papel e quadros como Monalisa de referência para a Arte. Continuei mostrando as imagens e comentando sobre a vida da artista, sua trajetória e o sentido de seu trabalho. Distribui uma folha para cada aluno com um resumo da vida da artista e duas imagens do seu trabalho. Então perguntei sobre o que os autorretratos vistos anteriormente tinham em comum com o trabalho de Cindy Sherman? Com que materiais a artista trabalha? A maioria respondeu que não tinha nada em comum com as primeiras imagens apresentadas, e que era uma fotografia! Expliquei então que a fotografia é uma linguagem da arte, que esta artista estava construindo personagens e fotografando no interesse de realizar uma crítica à sociedade e a posição da mulher nesta sociedade. Um aluno perguntou se a artista ainda era viva, respondi que sim, e que continuava trabalhando com fotografia, mostrei uma imagem mais recente dela de 2008, os alunos ficaram em silêncio como se questionassem com este silêncio se isto era arte ou não. Distribui aos alunos uma folha de desenho cortada ao meio em formato 13x18 lembrando uma fotografia, solicitei que eles realizassem um autorretrato sem utilizar lápis, ou borracha, apenas recortes de revistas, porém, sem recortar um rosto completo da revista, mas partes diferentes de cada rosto, recortes de texturas que lembrem o cabelo, a pele, com eles se imaginavam. Enquanto tentava esclarecer as dúvidas que surgiam a professora titular estava sentada sobre uma mesa conversando com dois meninos sobre sua dificuldade de dirigir. Todos perguntavam ao mesmo tempo: “Porque não pode desenhar?” “Como vou achar


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alguém parecido comigo nesta revista? Eu não trouxe tesoura!” Por um momento houve uma certa desorganização na sala eu não conseguia responder a tantas perguntas juntas e a professora não parava de conversar. Respirei um pouco e fiquei parada em frente ao quadro esperando que todos ficassem em silêncio. Aos poucos os alunos foram percebendo que eu estava tentando falar e ficaram em silencio. A professora titular desceu da mesa e disse que já estava indo embora, a aula tinha apenas dez minutos para acabar, então distribui as tesouras e colas que havia levado e tentei esclarecer as dúvidas.

Trabalho do aluno Samuel. Fonte: VARGAS, 2010.

Ao contrário da última aula os alunos não se preocuparam se a aula estava acabando, todos realizaram o trabalho com exceção de uma menina que mesmo com minha insistência para que ela trabalhasse, ela apenas ficava olhando os colegas, não chegava a atrapalhar a aula, mas me preocupei por não estar conseguindo motivá-la a realizar os trabalhos. A aula estava prestes a terminar, a escola não tem nenhum sinal de aviso, são os professores que tem que controlar no relógio o horário de início e término da aula. Alguns alunos conseguiram terminar, outros levaram para fazer em casa. Solicitei que para a próxima aula eles tragam acessórios e roupas. Alguns perguntaram para que serviria isto, outros demonstraram interesse em trazer acessórios e questionaram se era para tirar fotos.


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Trabalho dos alunos Marcos e Jéssica. Fonte: VARGAS, 2010.

A aula terminou super rápido, percebi que todas as disciplinas têm 45 minutos de hora/aula, mas para as aulas de Artes são apenas 40 minutos, para que o recreio fique maior, como é no terceiro período e antecede o intervalo. A aula que antecedia a de Artes era Educação Física, mas o horário foi alterado e passou a ser dois períodos de Português.

4.4. AULA 03

PLANEJADO DATA: 15/04/2010. TEMA: Fotografia e Arte na Educação. DURAÇÃO: hora/aula de 40 mim. OBJETIVOS: • Refletir sobre o registro fotográfico. • Expressar seus sentimentos.


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• Proporcionar entendimento sobre a construção de uma imagem fotográfica, as preocupações de um fotografo para obter a melhor imagem. CONTEÚDOS: • Tipos de fotografias, ângulo, seleção de cenário, preparação dos modelos. • Cindy Sherman e seu processo de criação de imagem. METODOLOGIA: Expositiva dialogada, trabalho prático em grupo DESENVOLVIMENTO: Relembrar o trabalho de Cindy Sherman, os alunos serão considerados artistas, criadores de uma obra de arte que envolve os colegas e seu poder criativo. Discutir o processo de criação de uma fotografia, a organização da cena, a escolha do ângulo, e a preparação do modelo, os tipos de fotografias como close, plano americano, etc. distribuir uma folha xerocada com explicações sobre este tipo de fotografia.

Impressão distribuída aos alunos. Fonte: VARGAS, 2010.


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Com o auxílio de roupas e acessórios trazidos pelos alunos e pela professora os alunos em grupos irão criar personagens, organizar um cenário e uma época em que se passa a cena, e se fotografarem com auxilio de seus celulares e câmera fotográfica da professora. Os alunos se reunirão em grupos para montar um roteiro para a execução do trabalho o tema escolhido, a preparação dos modelos, a maquiagem, a época em que se passa a cena. Os grupos serão compostos de cinco a seis alunos, dentre eles três serão os modelos e o restante do grupo serão os produtores para facilitar o trabalho e ganhar tempo. As fotografias serão realizadas com auxilio da câmera da professora e com celulares dos alunos. O trabalho continuara na próxima aula. RECURSOS: Máquina fotográfica, roupas e acessórios, maquiagem, celulares dos alunos.

REALIZADO

Na terceira semana de aula entramos na sala de aula, a professora titular e eu, e ela começa a oferecer trufas de chocolate para os alunos. Desde a primeira semana concordamos de que ela poderia ficar presente durante a aula e inclusive fazer a chamada, mas nesta aula passou dos limites. Vários alunos se amontoam na mesa da professora para comprar os chocolates. Neste momento respiro fundo, escrevo no quadro para os alunos se dividirem em três grupos, mas eles continuam comprando trufas então, fico parada em frente ao quadro em silêncio sem saber o que fazer apenas aguardando que a professora perceba que está atrapalhando. Enquanto ela faz a chamada distribuo as folhas com o conteúdo da aula que havia levado, os alunos vão criando os grupos e parecem empolgados com o que diz na folha. O título era: “Vamos fotografar?” Para não perder tempo enquanto arrumo em uma mesa os materiais que trouxe para que eles se fotografem como fantasias, e artigos para festa, explico o que iremos fazer. Comento que quando se realiza uma fotografia existem vários cuidados que devemos tomar como o enquadramento da cena, o fundo, os objetos que irão aparecer, e que fotografar pode ser divertido, mas é a ideia de realizar uma fotografia e todo o cuidado que temos ao registrar uma imagem, que faz com que nosso trabalho seja reconhecido como arte.


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Explico sobre como realizar uma fotografia de close, que as máquinas atuais possuem o recurso do zoom que permite que não seja necessário se aproximar dos modelos. Explico sobre a fotografia de plano americano que ficou conhecida assim devido a utilização de imagens recortadas do joelho para cima nos filmes de faroeste na década de 40, e sobre fotografias de corpo inteiro. Apresento imagens de Cindy Sherman que exemplificam estes tipos de fotografias. Em seguida proponho para que os grupos se dividam em dois subgrupos, onde alguns alunos serão os produtores das fotografias, deveram montar a cena, arrumar os colegas, e realizarem no mínimo três fotografias utilizando as explicações que foram passadas. Alguns alunos adoram a ideia e correm até a mesa onde organizei as fantasias para se arrumarem, mas um grupo manifesta sua rejeição à proposta, gritam, andam pela sala tentando desmotivar os colegas, a turma fica dispersa A professora titular interrompe pedindo silêncio e lembrando que todos receberão nota pela atividade, alguns aceitam outros continuam na recusa. Organizo o trabalho para que cada grupo fotografe de uma vez, pois nem todos tinham celular com câmera e utilizo a minha máquina. O primeiro grupo aceita a proposta e se arrumam, fazem poses, todos são meninos e mesmo assim não se preocupam em fotografar. O segundo grupo se nega a realizar a atividade. A professora titular, mais uma vez, interrompe com a ideia das notas, apenas uma aluna se levanta para realizar as fotografias, os demais ficam desmotivando o colega. Fotografo o aluno que se dispôs, os demais permanecem sentados rindo do colega, após peço para que ele sente e passo para o outro grupo, que dos sete integrantes três concordam em fotografar, enquanto realizo as fotos comento sobre que tipo de fotografia estamos fazendo e com o que precisamos nos preocupar. Os alunos comentam com argumentos da folha que distribui no início da aula.


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Imagens fotográficas dos alunos durante a atividade. Fonte: VARGAS, 2010.

Ao término os alunos pediram para se fotografarem sem as fantasias, concordo e motivo os grupos a levantarem-se. Apenas o segundo grupo não aceita a proposta, enquanto estamos fotografando, alguns alunos com celulares outros com câmeras digitais que levaram, percebo que chega a hora do recreio, mas não interrompo a atividade para dar tempo de terminarem as fotografias dos grupos, o que levaria no máximo uns dois minutos. Os alunos não percebem o horário, e vejo que eles ficaram motivados com a atividade e estão começando a gostar da ideia de se fotografar. Um aluno, inclusive, pede para que eu traga uma fotografia revelada onde ele está de close, neste momento uma aluna de outra turma abre a porta da sala e fala: “Dona Cláudia já é recreio!”. Percebo que ela quer comprar trufas, a professora titular sai com sua bolsa térmica com os chocolates para o pátio da escola, junto com aquele grupo que não aceitou fazer a proposta. Os outros alunos continuam fazendo as poses esperando que eu fotografe, peço licença à menina fecho a porta e continuo, os alunos estão empolgados. Faço mais três fotos e libero o restante da turma.


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Imagens fotográficas dos alunos durante a atividade. Fonte: VARGAS, 2010

Saio da sala com muita raiva da professora titular que como se não bastasse interromper a aula o tempo todo para lembrar das notas, ainda resolve comercializar chocolates durante as aulas. Penso que assim como o uso dos celulares, o comércio ilegal de chocolates deveria ser proibido durante a aula. Minha revolta é tanta que nem fico no recreio com os demais professores, vou em seguida para casa. A aula já é tão curta e ainda é interrompida até por alunos de outras turmas! Quando consigo a motivação de um número considerável de alunos, percebo sua empolgação, a professora titular resolve sempre lembrar as notas. E o que é pior, sem perceber, por um momento, mencionei que eles estariam sendo avaliados, para tentar chamar a atenção do grupo que não queria realizar a atividade, depois que me dei conta que estava repetindo uma ação que condeno da professora titular, que é atrelar a realização de uma atividade à nota e não pelo interesse dos alunos conhecerem e participarem por vontade própria, fiquei ainda mais revoltada! Não é possível que ela conseguiu me corromper! O professor João Luís de Almeida Machado (2010) escreve para o endereço eletrônico Planeta Educação, que a avaliação não deve ser utilizada como forma de tortura durante a aula, o aluno não precisa encarar a avaliação como um peso, realizar os trabalhos propostos apenas em busca de uma nota, devemos utilizar um processo de avaliação


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continuada onde as atividades em grupo ou debates, auxiliem na construção do conhecimento, consequentemente possibilitando a avaliação, de maneira que os conteúdos aplicados sejam fixados de forma significativa e não somente para obter a nota. “Não devemos olhar para as avaliações como instrumento em que auferimos somente os conhecimentos previamente trabalhados em sala de aula (mas também eles) e, muito menos, devemos utilizar as provas como elemento de terror, de retaliação ou de contra-ataque.” Na citação acima, Machado utiliza as provas como exemplos de como não devemos proceder no processo de avaliação, de forma a contra-atacar o comportamento indesejado dos alunos. Acredito que nas aulas de Artes a avaliação seja um processo continuado, através da construção do conhecimento dos alunos, as atividades propostas durante as aulas deverão fazer parte da avaliação mas, não devem se tornar um instrumento para chamar a atenção deles.Ao sair da escola chega a polícia para conter uma briga de alunos em frente à escola, policiais armados de cassetetes saem da viatura com ar de poucos amigos. Chego em casa com uma mistura de revolta e satisfação, consegui fazer com que pelo menos uma parte da turma se empolgassem pelo meu trabalho. As horas dedicadas à pesquisa e planejamento das atividades não foram em vão, senti que quando pelo menos um aluno consegue aprender um pouco mais sobre a disciplina e começa a ver a arte com outros olhos, sobre a ótica de que é possível encontrar a arte dentro do nosso cotidiano, de que uma simples fotografia realizada por ele mesmo poder ser considerada uma forma de expressar a arte, fico feliz por pensar por um momento que a Arte não esta perdida assim como a educação de forma geral! Quando penso que uma professora jovem, recém formada em pedagogia, como é a titular da turma, consegue sair de casa à noite para ir a um dos bairros mais violentos da cidade apenas vender trufas! Fico pensando será que ela não acredita que pode ser possível tentar mudar o destino de pelo menos um daqueles alunos se conseguisse instigá-los pela busca do conhecimento! Será utopia? Espero que não. Conforme Osowski (1999, p.62): [...] entre o que é proposto e o que se faz, o caminho é longo e há muitas lacunas. Depois o tempo passa nossos alunos crescem, ou já adultos, envolvem-se cada vez mais com seu trabalho, família, sonhos ou desenganos. E a escola o que fez? Se queremos que sejam pessoas que façam diferença na sociedade, buscando formas de torná-la melhor, com mais justiça, maior amorosidade, temos, no mínimo, de sensibilizá-los para essa face da sociedade que clama por esses valores, a fim de que, vivendo


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coerentemente com eles, promovam a pessoa e a fortaleçam a dignidade humana.

Na citação acima é possível entender o quanto a escola tem responsabilidade de fortalecer a dignidade humana, de procurar proporcionar um conhecimento significativo, mesmo que as circunstancias estejam no sentido contrário. As propostas que planejamos para nossas aulas nem sempre satisfazem a todos os alunos, mas se apenas um aluno se preocupe em aprender em mudar o sentido de sua vida estaremos cumprindo o dever da escola. Osowski comenta que se queremos que os alunos façam a diferença na sociedade precisamos mostrá-los que é possível mudar o rumo de nossas vidas a partir do conhecimento, devemos apresentá-los a caminhos diferentes aos que estão acostumados, é preciso aproveitar este momento em que estes jovens ainda estão na escola e tornar este momento suficientemente significativo para suas vidas. Evidentemente não é uma tarefa fácil, mas prefiro acreditar que é possível. No final da aula quando todos os alunos estavam saindo para o recreio um aluno voltou para me dizer: “Professora eu gostei dessa aula, bem diferente da que a gente tá acostumado.” Acredito este momento foi um dos mais importantes para mim.

4.5. AULA 04

PLANEJADO DATA: 22/04/2010. TEMA: Fotografia e Arte na Educação. DURAÇÃO: 2 horas/aula de 40 mim. OBJETIVOS: • Refletir sobre o registro fotográfico. • Analisar fotografias realizadas pelos alunos.


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• Questionar a veracidade de uma imagem. • Discutir sobre o que é arte. • Construir imagens a partir de uma fotografia. • Aproximar os alunos da ideia de fotografia como arte. CONTEÚDOS: • A importância de uma imagem no processo de formação da opinião pública • Análise de imagem. • Desenho e pintura. • A fotografia como arte. METODOLOGIA: Expositiva dialogada, trabalho em grupo. DESENVOLVIMENTO: Apresentar um PowerPoint com imagens de obras de Cindy Sherman e outros artistas sem legenda identificando seus nomes junto com as fotografias dos alunos e levar a turma a uma reflexão sobre o que é arte, com o auxilio do notebook, questionando a veracidade, questionar como a fotografia pode possibilitar diversas possibilidades de entender a arte. Discutir sobre o processo de construção de uma imagem, a preocupação do fotografo para realizar a imagem, o tema escolhido pelos alunos. Discutir sobre a veracidade de uma imagem, considerando as possibilidades de construir uma imagem utilizando roupas, e acessórios para construir a personalidade de uma pessoa como também programas de computador que realizam montagens de imagens. Como saber se o que vemos é real ou inventado? Questionar o quanto uma imagem tem influência sobre nossa opinião? Solicitar que os alunos apresentem imagens de seus celulares, comentar o que lhes interessou ao realizar aquela imagem, como escolheu o ângulo, propor para que em grupos comentem sobre suas fotografias.


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Com as fotografias reveladas da aula anterior os alunos, em grupos, irão confeccionar um painel em folha A3 com a fotografia e uma explicação do que foi realizado, qual o ângulo selecionado, que tipo de fotografia foi escolhida, que materiais utilizaram para fazer a fotografia, quem são os personagens, o nome dos integrantes do grupo, etc. Solicitar que os alunos dêem continuidade a fotografia, construindo um cenário para a imagem. Apresentar para a turma os trabalhos realizados nos grupos, cada grupo receberá três fotografias, reveladas, realizadas na aula anterior. Solicitar que os alunos tragam maquinas fotográficas antigas se tiverem em casa.

Imagens dos alunos realizadas na aula anterior. Fonte: VARGAS, 2010.

RECURSOS: Notebook, cabo para transmissão de dados, fotografias dos alunos reveladas, fotografias reveladas, folhas A3, cola, lápis de cor, canetas hidrocor, giz de cera, lápis preto, etc.

REALIZADO PRIMEIRO PERÍODO Na quarta semana, foi surpreendida com um telefonema da direção me pedindo para dar dois períodos de aula, pois duas professoras haviam faltado, seria um período antes


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do recreio e outro depois, não podia deixar de aceitar, considerando que apenas um período é realmente pouco tempo. A professora titular me encontra na entrada da escola e me pede para fazer a chamada duas vezes, antes e depois do recreio, dizendo que não vai mais permanecer na sala pois percebeu que os alunos ficam tentando conversar com ela. Comento que tudo bem se ela quiser ficar, mas ela reforça que já comunicou à direção que por opção própria prefere me deixar sozinha na sala para não tirar minha autoridade. Fico surpresa, mas aliviada, realmente prefiro ficar sozinha na sala, ainda mais depois do último encontro onde ela vendeu chocolates durante a aula, mas sei que não posso exigir nada, afinal esta foi a única escola que aceitou uma estagiária à noite e no EJA. Entro na sala e os alunos demoram a entrar porque estavam no pátio. A professora da disciplina anterior saiu mais cedo. Fecho a porta e aviso que vou fazer a chamada, todos entram. Prefiro fazer a chamada, deste modo acabo memorizando melhor o nome dos alunos, percebo que muitos estão ausentes, a turma me explica que quando vai chegando o inverno muitos alunos desistem. Peço para que os alunos peguem suas cadeiras e façam um semi circulo. Como a turma é pequena, com o auxílio do notebook apresento imagens sem subtítulo, de Cindy Sherman, Hanna Höch, misturadas com as fotografias dos alunos produzidas na última aula e uma imagem de Monalisa. Ao apresentar as imagens peço para que os alunos me apontem quais são arte para eles. Entre uma imagem e outra coloquei frases como de Celso Favaretto “A arte é uma das ações do homem. A função da arte é irrelevante”. Discutimos as frases sob o ponto de vista dos alunos, o que eles pensam a respeito desta frase. Comento que a arte não precisa ter uma ideia de funcionalidade, que antes do surgimento da fotografia a arte tinha a função de representação da realidade, através de retratos encomendados, vistas de paisagens, etc. Com o advento da fotografia esta ideia perdeu o sentido, a pintura sentiu-se ameaçada, muitos pintores de profissão acreditavam que a pintura seria substituída pela fotografia, mas na verdade o que aconteceu foi que a arte teve a possibilidade de buscar novas formas de entender o mundo, a pintura não precisava mais realizar retratos fiéis da realidade podendo libertar-se para a abstração.


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Apresento fotografias de bonecos de plástico de Cindy Sherman. Todos os alunos falam: “mas isso não é arte!” Em seguida apresento uma fotografia onde Cindy Sherman se veste semelhante a Monalisa e esta na mesma posição, alguns alunos dizem: “mas isso não é arte é só uma fotografia!” Neste momento não comento as repostas apenas deixo que eles observem as imagens e tirem suas conclusões, a próxima imagem é a de Monalisa, todos então gritam: “Agora sim, isto é arte!”. Pergunto então porque as imagens anteriores não eram arte para eles e a de Monalisa é arte? “Eles respondem que Monalisa é uma pintura e a outra imagem é só uma fotografia!” Mostro então uma fotografia realizada pelos alunos na aula anterior. A reação é geral, risos, gritos: “olha nós ali!” apresento então uma citação do filosofo Walter Benjamim:

[...] as técnicas de reprodução atingiram tal nível que estão agora em condições não só de se aplicarem a todas as obras de arte do passado e de modificarem profundamente seus modos de influência, como também de que elas mesmas se imponham como formas originais de arte (Indústrias culturais e Cultura de massa. Disponível em: http://www.scribd.com/doc/16226216/Industria-cultural-e-cultura-de-massas Acesso em: 22/04/10).

Explico então que as fotografias podem ser consideradas uma forma de expressão de arte. As técnicas de reprodução das quais escreve Benjamim são o vídeo e a fotografia, ele comenta que não somente pode ser considerados Arte como também modificam e influenciam no modo de perceber uma obras de arte. Comento que não é preciso se preocupar em denominar o que é ou não arte, que não existe o certo e o errado, que estamos juntos para aprender a treinar o olhar e para reconhecer a fotografia que está presente no dia a dia da maioria dos alunos como uma linguagem da arte, onde é possível recriar o mundo, reinventar a história. Um aluno diz: “então professora se eu tiro uma foto no meu celular e coloco na internet, as pessoas podem pensar que é uma arte, a minha obra de arte?!” Respondo que são estas influencias como a internet, a televisão, e a fotografia que estão mudando o modo de reconhecer a arte. Que podemos reconhecer Monalisa como uma obra de Arte, mas devemos reconhecer também que não somente a pintura pode ser considerada arte, mas também a fotografia e com ela todos os avanços tecnológicos que ocorreram.


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Seguimos com as imagens, apresento todas as fotografias que fizemos na última aula e depois desta discussão percebo que eles olham com outros olhos aquelas imagens. Eles pedem cópias das fotografias, querem ver novamente, mas bate o sinal para o recreio, e a turma fica dispersa novamente. Volto as imagens dos artistas que apresentei primeiro e comento um pouco sobre quem são os autores, a finalidade de mostrar estas imagens é fazer com que os alunos conheçam e apreciem imagens de arte para nutrir o interesse da turma e instigá-los a pensar sobre arte. O ser humano que não conhece arte tem uma experiência de aprendizagem limitada, escapa-lhe a dimensão do sonho, da força comunicativa dos objetos, a sua volta, da sonoridade instigante da poesia, das criações musicais, das cores e formas, dos gestos e luzes que buscam o sentido da vida (PCNs, 1996, p.21).

Acredito que apreciar imagens de obras de arte é uma das tarefas da professora, se os museus são de difícil acesso aos alunos, se nem todos tem disponibilidade de ver imagens na internet, é possível apresentá-las e discutir sobre elas com os alunos a fim de passar pela experiência de conhecer a arte, como salienta os Parâmetros Curriculares Nacionais sobre Arte, de 1996. Apostei em realizar uma aula como esta, onde o objetivo principal era uma conversa com os alunos para que eles se aproximassem da fotografia como uma forma de arte, pois percebi certa recusa na aula anterior, onde os alunos se fotografaram, como se eles estivessem se perguntando se a fotografia fazia parte da disciplina, se era arte ou não, penso que com estas imagens foi possível fazê-los pensar sobre as novas formar de perceber a arte no cotidiano em que vivem. SEGUNDO PERÍODO Ao término do recreio volto para a sala, refaço a chamada, dois alunos não retornam do recreio. Solicito que eles formem os mesmos grupos da semana passada, distribuo as fotografias reveladas de cada grupo, folhas de desenho A3, lápis de cor e canetas hidrocor para cada grupo. Um aluno me pergunta como se chama aquela folha, explico que pelo tamanho conhecemos como folha A3. Explico o significado desta sigla, os alunos ficam atentos


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ouvindo a explicação, parece que saber sobre o tamanho da folha e o porquê ela se chama assim é tão importante quanto o assunto da disciplina. Peço para que os alunos dêem continuidade à fotografia com desenho, ao colar a fotografia na folha centralizá-la de tal forma que tenha espaço para dar continuidade ao cenário podendo modificá-lo de uma sala de aula para uma ambiente ao ar livre ou uma festa, como preferirem. Coloco no quadro algumas perguntas que deveram ser respondidas na mesma folha do desenho como: quem são os personagens da fotografia, que tipo de fotografia foi realizada, que materiais utilizaram, qual o nome dos integrantes do grupo, e qual o cenário escolhido para a fotografia.

Trabalho dos alunos realizados em grupos. Fonte: VARGAS, 2010.

Uma aluna fala: “Ah professora, uma aula dessas até vale a pena vim para escola!!!” Com esta frase percebo que ganhei o dia! A aula passa rápido e passo em cada grupo para acompanhar o trabalho, até esqueço de fotografá-los. É muita emoção para um só dia, o sinal bate, e os alunos nem percebem, continuam desenhando até que uma aluna que não tinha voltado do recreio entra para pegar sua mochila, avisa aos demais que já bateu o sinal e que não vai ter o último período para nenhuma turma. Os alunos se apressam em guardar o material, antes de sairem me pedem para que eu não esqueça de revelar as fotos para eles.


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4.6. AULA 05

PLANEJADO DATA: 29/04/2010. TEMA: Fotografia e Arte na educação. DURAÇÃO: hora/aula de 45 mim. OBJETIVOS: • Construir imagens a partir de uma fotografia. • Aproximar os alunos da ideia de fotografia como arte. • Discutir sobre a veracidade de uma imagem. CONTEÚDOS: • Desenho e pintura. • A fotografia como arte. • Recorte e colagem. • Processo de revelação. METODOLOGIA: Trabalho em grupos, apresentação dos trabalhos em grande grupo. DESENVOLVIMENTO: Continuar o trabalho da última aula em folha A3. Apresentar para a turma os trabalhos realizados nos grupos. Discutir sobre a veracidade da imagem considerando que eles estão montando uma imagem. Apresentar fotografias realizadas em uma máquina polaróide, juntamente com a máquina fotográfica, para incentivar os alunos a trazerem as máquinas na próxima aula.


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Comentar sobre o processo de revelação de uma fotografia comparando as fotografias que os alunos trabalharam em folha A3 e as fotografias instantâneas da Polaroide apresentada em aula. Solicitar que os alunos tragam máquinas fotográficas antigas se tiverem em casa.

RECURSOS: Fotografias reveladas, folhas A3, cola, lápis de cor, canetas hidrocor, giz de cera, lápis preto, etc. Máquina fotográfica, fotografias reveladas.

REALIZADO

Na quinta semana de aula, a professora titular não entra na sala apenas pede para que eu faça a chamada, alguns alunos não estão presentes e outros já não vão às aula há semanas consecutivas. A coordenadora da escola já havia comentado que o maior problema da escola depois da violência é a evasão escolar, quando vai chegando o inverso os alunos desistem de ir a aula devido ao frio. Começo a aula pedindo para que os alunos façam os grupos da semana anterior para continuar o trabalho de dar continuidade à fotografia. Alguns ainda não haviam terminado o primeiro trabalho de autorretrato da aula sobre Cindy Sherman, então distribuo revistas para que eles possam continuar os trabalhos. Como já havia sido orientada pela titular, não adianta pedir para terminar algum trabalho em casa, porque eles não fazem. Então, se eu quiser que eles façam os trabalhos, preciso dar mais tempo em aula. Distribuo as folhas A3 com as fotografias para que os alunos continuem o trabalho. Os alunos não têm materiais, distribuo também lápis de cor, giz de cera, canetas hidrocor, tesoura e cola. Percebo que eles gostaram da atividade. A professora titular havia me comentado que eles falaram sobre o trabalho nas outras aulas dizendo que gostaram muito daquela aula de continuar a fotografia com o desenho.


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Imagens dos trabalhos dos alunos. Fonte: VARGAS, 2010.

Passo pelos grupos respondendo a perguntas, escrevo no quadro perguntas que deveriam ser respondidas de acordo com a fotografia que estava sendo trabalhada. Os alunos pedem ajuda para responder. Percebo que eles têm dificuldade de formar frases que tenham concordância e também há muitos erros de português. Todos copiam do quadro as perguntas, mas tem muita dificuldade em respondê-las. As perguntas eram: Qual é o tipo de fotografia, close, plano americano ou corpo inteiro? Quem são os personagens interpretados? Que materiais utilizaram para realizar as fotografias? Quem são os integrantes do grupo? Com estas perguntas os alunos se aproximavam mais do conhecimento teórico sobre a aula onde comentamos sobre a preocupação do fotógrafo ao realizar as fotografias. Percebo que temos um aluno novo, como ele não estava na chamada anoto o seu nome e converso um pouco com ele explicando as últimas atividades para que ele conheça o andamento das aulas, o aluno me responde que já tentou outros anos terminar o ensino fundamental, mas no meio do ano começa a trabalhar longe, ou não consegue mais ir à aula e acaba desistindo. Comento o quanto é importante que ele termine o ensino fundamental, mesmo para conseguir um bom emprego, e que não deve desistir, precisa inclusive fazer o ensino médio. Ele me responde: “Valeu professora o incentivo, mas é muito difícil conseguir terminar!” Os alunos me chamam constantemente para pedir ajuda para responder às perguntas, consultar se o desenho estava ficando bom. Um aluno em especial não se interessa em fazer nenhum trabalho. Faço perguntas ao grupo sobre o conteúdo das últimas aulas, sobre o artista que trabalhamos na segunda aula. O aluno desinteressado responde a todas às


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perguntas com exatidão. Percebo que ele conversa muito, não realiza os trabalhos, mas consegue captar o conhecimento, é inteligente, apenas não consegue ficar sem conversar com os colegas. Antunes (2007, p.44) no texto “Professores e Professauros”, comenta: Como conciliar a melhor educação para os melhores e a melhor educação para todos, uma vez, a boa educação, a boa escola, o bom professor e a boa aula necessitam buscar mais esse equilíbrio, jamais limitando a criatividade e nunca negando a igualdade de oportunidades. (ANTUNES, 2007, p.44)

Antunes questiona a boa educação, como o professor deve organizar sua prática pensando nas especificidades de cada aluno. Muitas vezes a aula não cativa a maioria dos alunos, mas perceber como eles absorvem o conhecimento faz parte de conseguir ministrar uma boa aula. Educar para todos exige muito jogo de cintura, tentar interagir com o grupo ao mesmo tempo de tentar organizar a aula de forma que os alunos que apresentam mais dificuldades não sejam prejudicados pela agitação de alguns alunos. A aula passa muito rápido e alguns alunos não conseguem terminar o trabalho. Percebo que eles têm um processo de construção gráfico plástico muito lento, mas acredito que a aula foi bastante produtiva, pois senti o envolvimento dos alunos. Ao sinal para o recreio eles me devolvem os trabalhos e pedem para terminar na próxima aula, não querem levar nada para casa, se desculpam dizendo que vai amassar. Para conseguir sair desta atividade na próxima aula vou ter que buscar outras alternativas para conseguir prosseguir com o projeto.


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4.7. AULA 06

PLANEJADO DATA: 06/05/2010. TEMA: Fotografia e Arte na educação. DURAÇÃO: 2 horas/aula de 45 mim. OBJETIVOS: • Proporcionar conhecimento teórico sobre a descoberta da fotografia. • Incentivar a busca pelo conhecimento através da pesquisa. • Desenvolver a habilidade de falar para o grupo. • Desenvolver um texto coletivo. • Elaborar um autorretrato no presente. • Construir um texto sobre uma imagem desenhada. CONTEÚDO: • História da fotografia. • Autorretrato. • Analise de imagens. • Pintura. METODOLOGIA: Expositiva dialogada, trabalho em grupos, discussão em grande grupo a respeito do tema, apresentação de trabalho em forma de seminário, produção de texto.


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DESENVOLVIMENTO: Propor uma pesquisa bibliográfica, em grupos, sobre a descoberta da fotografia em livros da biblioteca, supervisionada pela professora. Procurar enquanto pesquisam responder a perguntas com: Quando aconteceu a descoberta da fotografia? Quais as pessoas que ficaram conhecidas como inventores da fotografia? Como aconteceu esta descoberta? O que é fotografia?o que é câmara escura? Discutir os resultados das pesquisas em forma de seminário. Discutir sobre a invenção da fotografia e sobre as primeiras máquinas fotográficas. Apresentar imagens das primeiras máquinas fotográficas e analisar as peças trazidas pelos alunos.

Imagens de máquinas fotográficas antigas. Disponível em: http://descobrir-vilaflor.blogspot.com/2008/05/museu-maquinas-fotogrficas.html. Acesso em: 21/01/10.


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Imagem da primeira máquina fotográfica exposta no mundo. Disponível em: http://www.insidetechno.com/2009/05/24/ primeira-camera-fotografica-do-mundo-exposta-em-macau/. Acesso em: 21/01/10.

Apresentar fotografias realizadas em uma máquina do tipo Polaróide aos alunos.

Reprodução de fotografias realizadas em uma máquina Polaróide. Fonte: VARGAS, 2010.

Discutir sobre a evolução das máquinas fotográficas. Comentar sobre os responsáveis pelo advento da fotografia. Construir um texto coletivo, no quadro relacionar as respostas encontradas pelo grupo em forma de texto.


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Com base nas fotografias que os alunos trouxeram de casa, será proposta uma análise de imagem em grupos, discutir sobre o ângulo selecionado para a realização da fotografia, noções de espaço e proporção que foram aplicadas na imagem, o que sentem em ver esta fotografia, quando foi realizada. Discutir a importância do registro fotográfico para recordações da família amigos, e momentos especiais. Propor a realização de uma pequena história que descreva o momento em que foi realizada a fotografia, o quanto ela é significativa, e seus sentimentos em relação a imagem. Finalizar o texto realizando um autorretrato do aluno no presente e suas expectativas para o futuro. Relembrando o trabalho de Cindy Sherman realizar um autorretrato apresentando suas expectativas para o futuro, como se o próprio aluno fosse um personagem e descrevesse suas expectativas e sonhos. O trabalho será realizado em folha A3 com diferentes matérias. Os alunos serão fotografados com seus trabalhos. Solicitar que os alunos tragam agulha, linha, cola, tesoura, tinta guache, pincel, canetas hidrocor, retalhos de tecido, para a próxima aula. RECURSOS: Livros: O que é fotografia, Sobre fotografia, A câmera, Tudo sobre fotografia, retro projetor, lâminas, quadro negro, giz, tinta tempera, pincel, fotografias dos alunos,folhas A 3, máquina fotográfica polaróide, fotografias, etc.

REALIZADO PRIMEIRO PERÍODO Esta sexta semana foi cheia de acontecimentos, o primeiro deles foi que a coordenadora da escola esteve no meu trabalho solicitando que eu não fotografasse mais as aulas, pois a professora titular disse que estava atrapalhando o andamento das mesmas e que os alunos não gostavam. Perguntei sobre que tipo de fotografia ela estava falando? Se a aula que pedi para que eles se fotografassem, ou o fato de documentar as aulas através de fotografias que é uma prática comum no estágio.


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Ela me respondeu que a titular reclamou sobre as fotografias dizendo que eles não gostam e que seria melhor eu adaptar o meu plano de acordo com o que eles gostassem. Ela não respondeu a minha pergunta, mas informei que no meu plano havia duas aulas para os alunos se fotografarem. Como percebi que alguns eles não gostaram da atividade retirei do plano a segunda aula e reorganizei para que não houvesse mais esta atividade, mas que infelizmente eu teria que continuar documentando tudo. Ela salientou que tem conhecimento que a turma é a mais difícil do colégio, e que eles não estão acostumados a propostas diferenciadas, pois a professora titular não tem esta especialização, ela é formada em Pedagogia à distância. Ela nunca trabalhou em sala de aula, sua prática é totalmente convencional e repetitiva, os alunos já acostumaram assim, e ela não estava gostando das minhas aulas. Comentei que respeito a opinião da titular a respeito das minhas aulas, que passaria a fotografar os alunos somente no sentido de documentar as aulas e do grupo em geral, não mais dos alunos individualmente sem o consentimento deles, mas que gostaria que ela não vendesse trufas durante as aula, pois é um dos fatores que contribui para deixar a turma agitada. A escola não tem uma metodologia extremamente tradicional, percebi ao conversar com a coordenadora, os professores têm abertura para novas propostas de trabalho, mas ao encarar a recusa dos alunos a maioria dos professores não insiste, preferem uma prática pedagógica tradicional. Silvio Gallo (2005) no texto: “Sob o signo da diferença em torno de uma educação para a singularidade”, trata sobre a educação tradicional como uma máquina de guerra que opera pela repetição: “A escola como máquina de produção de subjetividade, produz identidades, identidades que se repetem, identidades que se reproduzem, identidades que, mesmo diferentes, retornam ao mesmo” (2005, p. 217). Gallo descreve a escola tradicional como uma linha de montagem, onde cada professor faz a sua parte para introduzir conteúdos e formar um indivíduo que pense igual aos demais. “Os estudantes viram bonecos, todos na mesma esteira” (idem, 2005, p.217), a educação passa a transmitir conceitos baseada no poder, o professor é detentor do conhecimento, e este poder gera a repetição, “[...] esta é a lógica da máquina de produção, para garantir sua própria reprodução” (idem, 2005, p. 218).


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A proposta pedagógica que vem sendo aplicada nesta turma é extremamente tradicional, percebo pela produção da turma que estão acostumados a desenhos para pintar, sem a construção do conhecimento através da interação com novas atividades, através da participação dos alunos na formação de um conhecimento significativo. Para Gallo a escola pode ser representada como máquina de guerra, através de propostas de trabalho como estas que implicam na repetição de atividades que não formam conceitos que não provocam os alunos a pensar. Percebo que nesta escola a coordenação não é contra um trabalho diferenciado, mas a professora não encontrar motivos para buscar atividades diferenciadas, é mais cômodo, exige menos esforço. Todos estão tão impregnados pelo tradicional, pela repetição, e pela violência do bairro que estão retraídos, acoados, com medo de praticar a diferença, de buscar novas alternativas para problemas antigos. A coordenadora pediu para que eu ministrasse duas horas aulas nesta semana devido a professora de Português precisar faltar neste dia. Nesta situação eu não iria recusar, e ao chegar à escola ela me recebeu dizendo que pediu para que a titular não vendesse mais trufas durante as aulas, e que eu ficasse tranqüila que ela entende que o meu planejamento é na intenção de inovar, mas que com uma turma de EJA estas atividades diferenciadas demoram para serem aceitas. Entro na sala e a professora titular já estava vendendo trufas, ela me entrega a chamada e diz que não vai mais assistir as aulas. Peço para que ela fique, que a aula vai ser divertida hoje, que eu gostaria que ela observasse, no intuito de mudar a minha imagem de criar atividades que os alunos não gostam. Ela fica, mas em seguida é chamada por outra professora na porta e sai da aula. Peço para que os alunos formem duplas e solicito para cada uma das duplas pegar um dos livros que deixei sobre uma mesa no centro da sala. Os livros eram: O que é fotografia, de Claudio Araujo Kubrusly, Sobre fotografia, de Susan Sontag, A câmera, de Ansel Adams, Tudo sobre fotografia, de Michel Bussalle, Arte comentada, de Carol Strickland, Fotografia com bom senso, de Leonard Gaunt e Historia Geral da arte, o mundo moderno. Muitos alunos haviam faltado, estavam presentes apenas 13. No quadro escrevo cinco perguntas sobre a descoberta da fotografia, tais como: Quem descobriu a fotografia?


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Quando aconteceu a descoberta da fotografia? O que é uma câmara escura? Onde aconteceu a descoberta da fotografia? O que é fotografia? Solicitei que os alunos escolhessem uma daquelas perguntas para tentar responder de acordo com uma pesquisa nos livros. Eu já havia consultado todos os livros, eram de fácil leitura e estavam com as respostas apontadas no enunciado, ou no índice. Enquanto eles procuravam aproveitei este tempo para fazer a chamada. A maioria dos alunos não consultou o índice, e qualquer palavra que se referia à fotografia eles achavam que era a resposta. Disse que a dupla que descobrisse primeiro uma resposta correta receberia um presente, apesar desta não ser uma forma tão correta, foi a única maneira que encontrei de aproximá-los da aula. Eles se esforçaram ainda mais depois de saber que seriam premiados, todos pesquisaram em silêncio. Quando a primeira dupla encontrou a resposta pedi para eles lerem a pergunta e a resposta para a turma. Comentei sobre a resposta e solicitei palmas à dupla vencedora. Como recompensa entreguei uma caixa de bombons à dupla vencedora. Ao restante da turma, pelo empenho, distribui pirulitos. Senti que eles gostaram desta atividade pois fizeram silêncio e se concentraram. Certamente os chocolates tiveram forte influência nesta atitude dos alunos. Um aluno não gostou da atividade e pediu para sair da sala. São sempre os mesmos alunos que não se interessam pela aula, já pensei de tudo, mas não encontro um jeito de fazê-los ficar durante toda a aula, também não proibi a sua saída, pois a coordenação já havia me avisado que é uma turma complicada, com alunos usuários de drogas e com dificuldades de adaptação à escola. Em seguida comentei as perguntas apresentando imagens em lâminas das primeiras máquinas fotográficas. Os alunos ficaram em silêncio, fizeram perguntas, principalmente quando mostrei a máquina Polaróide que tenho com as fotografias que ela realiza, eles ficaram muito curiosos sobre como a imagem saia revelada instantaneamente. Quando comentei sobre os responsáveis pela descoberta da fotografia, uma dupla que não havia encontrado esta resposta disse que teria sido Picasso que teria descoberto a fotografia. Alguns alunos riram, outros disseram que foi Dom Pedro I. Comentei então sobre Dom Pedro II ter sido o primeiro fotógrafo jovem do Brasil, e sobre os trabalhos de Picasso terem sofrido a influência da fotografia, mas que não teria sido ele quem fez esta descoberta.


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Apresentei aos alunos a imagem em retroprojetor da primeira fotografia, expliquei como ela foi realizada, e que esta descoberta aconteceu em vários países simultaneamente, mas oficialmente temos Niepce como seu descobridor. Expliquei que estudos sobre a fotografia já haviam começado desde a época em que os pintores utilizavam a câmara escura para realizar imagens pintadas. Expliquei sobre o que era uma câmara escura. Os alunos ficaram prestando atenção às explicações, e perguntaram por que a imagem da câmara escura saia invertida. Expliquei que o orifício era muito pequeno e que a luz entrava de maneira direta fazendo sombra no sentido contrário da imagem. Seguimos com a discussão sobre os negativos. Os alunos perguntaram como era revelada uma fotografia, como fazia para tirar o filme do rolinho que se colocava dentro das máquinas de filme. Expliquei mencionando os químicos que são utilizados para a revelação, como o revelador e o fixador. As perguntas foram surgindo e fui listando as respostas no quadro. A conversa é bem produtiva, percebo que a turma presta atenção Ao mesmo tempo em que respondiam às perguntas eu escrevia no quadro as respostas que as duplas encontraram. Apenas duas das seis duplas não encontraram nenhuma resposta em seu livro. Ao sinal para a terceira aula, finalizo organizando as respostas em um pequeno texto e continuo com a atividade prática. SEGUNDO PERÍODO No segundo período de aula distribui para cada aluno folhas tamanho A3, pincel, tinta guache, e um pratinho descartável para misturar as tintas. Solicitei que eles desenhassem em uma parte da folha uma imagem que representasse sua infância, seu autorretrato. Eles deveriam utilizar somente tinta branca, preto e cinza, como simbolizando as cores do negativo que havíamos comentado anteriormente, como também as primeiras fotografias realizadas na história da fotografia em preto e branco. Em seguida desenhassem em outra parte da folha seu autorretrato no presente, com suas expectativas para o futuro. Relembrei o trabalho de Cindy Sherman que trabalhava criando personagens como em um filme, ou cenário imaginário, assim os alunos poderiam criar um ambiente ou um período da sua vida para representar como eles são antes, na infância, agora e no futuro.


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Esta atividade seria realizada com fotografias que eu iria solicitar aos alunos que trouxessem de casa sobre a sua infância. Como fui surpreendida com a possibilidade de ministrar dois períodos de aula, não foi possível solicitar com antecedência as fotografias. Como os alunos disseram que estavam cansados de desenhar autorretrato, retomei a ideia do que significa um autorretrato. Não precisaria ser unicamente os rostos deles, mas também elementos que representem como eles são ou coisas que eles gostam e que identificam sua personalidade. Neste segundo desenho seria permitida a utilização de diferentes cores, representando o momento da história em que a fotografia evoluiu, com as máquinas instantâneas e as fotografias coloridas. Os alunos gostaram desta atividade, percebi que eles se concentraram, perguntaram como misturar as tintas, sobre que cores resultava da mistura de determinadas cores, e como faziam para desenhar sem utilizar o lápis. Eu havia solicitado que eles tentassem desenhar somente com o pincel. Percebi que a atividade foi interessante para os alunos, pois o recreio foi anunciado e eles ainda estavam pintando. Só depois do sinal é que começaram a guardar as tintas. Durante a atividade eu passava pelas mesas respondendo perguntas e comentando a importância da descoberta da fotografia para a arte, que os pintores tiveram que se adaptar a esta nova forma de realizar retratos e uniram-se à fotografia.

Trabalho do aluno Fabio Junior. Fonte: VARGAS, 2010.


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Trabalho do aluno Cristiano. Fonte: VARGAS, 2010.

Ao término da aula levei as pinturas para a sala dos professores para mostrar à coordenadora. Ela me perguntou sobre como eles se comportaram na aula de hoje. Conversamos um pouco até alguns trabalhos secarem, até que a professora titular pediu para guardar os trabalhos com ela, que eu não precisava levar para casa os mais molhados que ela recolhia assim que secasse. Gostei desta aula, acredito que realmente leva tempo até os alunos se interessarem em sair da rotina de atividades convencionais e repetitivas, e chego a conclusão que dificilmente com um período tão curto de estágio eu conseguiria mudar alguma coisa. Contudo este período está contribuindo para eu aprender a trabalhar novas atividades, adaptando propostas diferenciadas com uma roupagem um ainda um pouco convencional, para driblar recusas dos alunos e conseguir cativar a atenção deles, não provocar o medo de tentar, proporcionar o encontro do aluno com a construção do conhecimento, de uma forma sutil e equilibrada, nem tão diferente que atraia a recusa da professora titular e de alguns alunos, mas nem tão tradicional que continue na repetição, como ressalta Gallo: “O aprendizado é um reencontro com a verdade, com algo que já sabíamos, uma vez que a verdade está nas formas puras, nas ideias, eternas e imutáveis (2005, p.221).”


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4.8. AULA 07

PLANEJADO DATA: 13/05/2010. TEMA: Fotografia e Arte na educação. DURAÇÃO: hora/aula de 45 mim. OBJETIVOS: • Conhecer o trabalho de artistas que trabalham fotopintura. • Explorar a criatividade. • Interferir em sua própria fotografia. • Construir uma imagem com diferentes materiais. CONTEÚDOS: • Conhecer a vida e obra de artistas que trabalham com fotopintura e impressão de fotografia em tecido. • História da fotografia. • Fotopintura. METODOLOGIA: Expositiva dialogada, trabalho individual, discussão em grande grupo, apresentação das produções em grande grupo. DESENVOLVIMENTO: Terminar o trabalho da última aula. Apresentar o trabalho de Avani Stein e Célia Jaguaribe com o auxílio do notebook e imagens de PowerPoint. Discutir sobre a fotopintura.


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Selecionar imagens fotográficas de revistas e jornais. Realizar uma fotopintura com diferentes materiais, como linha, tinta, agulha, giz de cera, caneta hidrocor, etc. tendo retalhos de tecido como suporte, relembrando o trabalho das artistas e relacionando com o trabalho de Cindy Sherman, onde ela cria um cenário e uma narrativa para um personagem. Apresentar para a turma e discutir em grande grupo sobre o trabalho. Solicitar que os alunos tragam materiais orgânicos como grãos, folhas, raízes, etc. para a próxima aula. RECURSOS: Retroprojetor, imagens em lâminas, reprodução de obras, tesoura, cola, linha, agulha, lápis de cor, tinta, revistas, sucatas, giz de cera, pincel, etc.

REALIZADO Nesta semana ao chegar na escola a professora titular me chamou para que eu fizesse uma avaliação com eles para entregar a ela na próxima aula. Logo pensei que não estava em uma boa semana, pois a titular do ensino médio também havia me surpreendido com esta solicitação. Não esperava logo nesta semana ter que avaliá-los, o objetivo da aula de hoje era terminar as pinturas da última aula e seguir com o projeto apresentando as imagens de Avani Stein e Célia Jaguaribe. Como não tinha outra alternativa, resolvi incentivá-los a melhorar seus trabalhos, misturar mais cores, preencher melhor a folha, explorar mais os desenhos para que durante este processo eu pudesse ir passando em cada mesa e acompanhando o processo de construção de cada aluno. Desta forma eu anotaria os nomes, já que a titular não havia permitido que eu fizesse a chamada desde o início do projeto, dificultando a memorização do nome de cada aluno.


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Trabalho do aluno Gabriel. Fonte: VARGAS, 2010.

Durante a aula um menino que terminou o trabalho rapidamente e se recusou a explorar mais o desenho como eu havia sugerido à turma, me chamou para fazer uma reclamação: “Olha aqui, tu dá muito trabalho pra nós, porque não faz como as outras que dão qualquer desenhinho pra gente pintar, ao invés de encher a gente de coisa? Tu não vê que eu to no meu terceiro turno, trabalhei o dia inteiro para chegar aqui e tu me encher de trabalho!” Fiquei parada pensando o que responder. Outros alunos que perceberam o tom de voz do aluno ficaram parados observando, alguns gritaram: “Fica na tua Marivan, se tu não quer trabalhar a gente quer!” Tentei conversar com o aluno sem me exaltar, comentei que eu entendia que ele devia estar cansado por trabalhar o dia inteiro, e que realmente é difícil ter que trabalhar e estudar, mas que eu conheço esta realidade e também trabalho durante o dia, e estudo à noite. Se ele estava tão cansado com os trabalhos talvez fosse melhor ele descansar como estava fazendo, pois passou a aula inteira sentado sem fazer nada, apenas observando os colegas trabalharem. Comentei que a aula estava sendo totalmente destinada à realização desta pintura que havíamos começado na aula anterior e que ele tinha sido o primeiro a entregar antes mesmo da aula terminar. Disse a ele também que tentaria diminuir a quantidade de trabalhos nas próximas semanas, oferecendo mais tempo para que eles terminassem os trabalhos em aula, mas que se fosse possível que ele me contribuísse aproveitando o tempo para realizar os trabalhos com calma.


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Não sei se fiz certo em ter esta conversa com este aluno, até porque senti um tom de ameaça enquanto ele falava, mas não consegui evitar. Em seguida falei para toda a turma, que o projeto poderia receber sugestões dos alunos, se eles achavam que não estavam gostando das atividades a gente poderia conversar e tentar adaptar os conteúdos em atividades diferentes, que eles podiam me falar o que estavam pensando. Uma aluna levanta a mão e responde: “Ah professora, eu só não gosto de ser fotografada, o resto eu gosto das aulas da senhora.” Outro aluno disse: “Não tem galho sora a gente tá curtindo!” Outro menino responde: “Não liga não professora, não dá bola pro Marivan.” Continuei acompanhando os alunos durante o término do trabalho, o sinal para o recreio anuncia o final da aula e todos saem. Alguns alunos ainda não terminaram e pedem para terminar na próxima aula. Recolho as pinturas e as levo para a sala da coordenação até secarem para poder levar embora. Ao chegar na sala da coordenação encontro a coordenadora que me pergunta como foi a aula. Conto o que aconteceu e ela me tranqüiliza que o aluno é viciado em drogas e não tem participado em nenhuma aula. Os outros professores não tentam conversar com ele, apenas passam o conteúdo e fazem provas, quando os alunos não passam na prova eles desistem de estudar naquele ano. Mas que eu ficasse calma que isto é assim mesmo, quando uma professora chega com um projeto diferente custa a conseguir a aceitação de todos os alunos. Se a maioria está participando já estava bom. Salienta ainda para eu não contrariar este tipo de aluno, pois ele pode representar uma ameaça mais tarde se me encontrar na rua. Não sei se sai da escola mais calma ou mais nervosa ainda com todas estas explicações da coordenadora. Sinto que ela quer me ajudar, mas ao mesmo tempo pede para não confrontá-los para não ter mais problemas. Percebo, no ponto a que chegamos, que a educação está falida moralmente. Os professores não podem confrontar os alunos, eles trabalham se quiserem, a gente tem que aprender a conviver com a violência e o consumo de drogas em meio ao ambiente escolar. Fico pensando o que vai ser destes alunos? Se a gente não pode ajudar com educação e cultura, o que podemos fazer? Ainda acredito que a Arte pode mudar o rumo da vida destes alunos, que é possível, mas já não sei que atitude tomar diante destas circunstâncias. Como comenta Carla Maria Fernandes Corral e Cristina Rodrigues de Amorim: “A arte sensibiliza, amplia e aprofunda o olhar que temos do homem, da vida, do outro. É um olhar para além das letras das palavras, frases, textos, números, mapas. O olhar da sensibilidade do saber sentir a beleza


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(2004, p.128).” Acredito que é possivel que as aulas de Artes sejam momentos de educar para aprimorar o olhar, para transformar o meio em que vivemos, através da busca do conhecimento mudar o rumo dos acontecimentos e recuperar estes alunos através da arte, eu gostaria que existisse uma fórmula que descrevesse como conseguir fazê-los aprender a olhar para além das atividades propostas, como uma oportunidade de conhecimento, de crescimento, de aprender a encarar a vida.

4.9. AULA 08

PLANEJADO DATA: 13/05/2010. TEMA: Fotografia e Arte na educação. DURAÇÃO: hora/aula de 45 mim. OBJETIVOS: • Conhecer o trabalho de artistas que trabalham fotopintura. • Explorar a criatividade. • Interferir em sua própria fotografia. • Construir uma imagem com diferentes materiais. CONTEÚDOS: • Conhecer a vida e obra de artistas que trabalham com fotopintura e impressão de fotografia em tecido. • História da fotografia. • Fotopintura.


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METODOLOGIA: Expositiva dialogada, trabalho individual, discussão em grande grupo, apresentação das produções em grande grupo. DESENVOLVIMENTO: Apresentar o trabalho de Avani Stein e Célia Jaguaribe com o auxílio do notebook e imagens de PowerPoint. Discutir sobre a fotopintura. Selecionar imagens fotográficas de revistas e jornais. Realizar uma fotopintura com diferentes materiais, como linha, tinta, agulha, giz de cera, caneta hidrocor, etc. tendo retalhos de tecido como suporte, relembrando o trabalho das artistas e relacionando com o trabalho de Cindy Sherman, onde ela cria um cenário e uma narrativa para um personagem. Apresentar para a turma e discutir em grande grupo sobre o trabalho. Solicitar que os alunos tragam materiais orgânicos como grãos, folhas, raízes, etc. para a próxima aula. RECURSOS: Retroprojetor, imagens em lâminas, reprodução de obras, tesoura, cola, linha, agulha, lápis de cor, tinta, revistas, sucatas, giz de cera, pincel, etc.

REALIZADO Nesta semana cheguei na escola mais cedo para perguntar sobre a avaliação que a professora titular comentou que eu fizesse. Como fiquei em dúvida sobre o conceito aplicado resolvi perguntar antes de concluir a avaliação, já que a escola trabalha com a nomenclatura A, R e NA. Quando me dirijo à professora ela me responde que eu precisava apenas escrever sobre cada aluno um parecer. Ela já havia informado à turma que quem iria avaliá-los seria ela. Não entendi a postura da professora, pois na última semana ela havia solicitado frente à coordenadora que eu fizesse a avaliação. Agora ela informa à turma que eles não precisam se preocupar, porque a avaliação não será feita através dos meus trabalhos.


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Na sala de aula a professora me acompanha, passo uma lista de presença que eu fiz para ter um controle comigo, já que não fico com a chamada. A professora titular, discretamente, começou a vender trufas de chocolate para os alunos, quando percebo ela esconde os chocolates. Acredito que esta postura, bem como a de dizer a eles não para se importarem com os meus trabalhos, que ela é quem iria avaliá-los, tira a minha autoridade diante dos alunos. Assim enquanto eu peço atenção para começar a aula, ela vende trufas, enquanto eu solicito para que eles realizem os trabalhos, ela estimula os alunos a não participarem, pois quem os avalia é ela. Deste jeito a situação fica complicada. Quando consigo ter a atenção da turma, peço para que todos se reúnam em frente a uma mesa com o meu notebook para que assistam a uma apresentação de slides sobre Avani Stein e Célia Jaguaribe. Os alunos sentam em frente ao computador e observam as imagens. Comento sobre a vida das artistas, sobre o trabalho delas, os alunos observam atentamente. Um aluno pergunta quando elas faziam aqueles trabalhos. Respondo que as artistas são contemporâneas. Célia Jaguaribe, por exemplo, começou seus trabalhos com fotopintura em tecido em 2006. Percebo o interesse dos alunos ao observarem as imagens. Nos primeiros slides sobre Avani Stein, apresento imagens de retratos que ela interferiu com pintura. Ao lado do trabalho final apresento a imagem que deu origem à fotopintura. Os alunos perguntam: “Mas é tudo riscado por cima da foto professora?” Respondo que são interferências que a artista realiza usando diferentes materiais, ora riscando, pintando, ora manchando, a fim de chegar a um resultado que represente a imagem, bem como um pouco da personalidade do artista retratado. Comparei o trabalho da artista a uma proposta semelhante que realizamos em sala de aula, quando distribui a turma as fotografias realizadas na aula sobre Cindy Sherman para que eles continuassem a fotografia desenhando o fundo e fizessem interferências sobre a fotografia. Alguns alunos tiverem dificuldade de entender o processo de construção do trabalho da artista. Por este motivo, para me aproximar mais da realidade deles, comparei com a proposta realizada anteriormente salientando, que a interferência da artista é realizada sobre a fotografia. Em reportagem publicada no endereço eletrônico da USP em 18 de fevereiro de 2010, podemos perceber o quanto o trabalho da artista é relevante: “Interferências sobre a fotografia, em que o gestual, pictórico e onírico, sobrepostos ao fotográfico, potencializam a


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contemporaneidade. É assim a pesquisa que Avani Stein vem realizando desde 1995”. O trabalho da artista é mencionado como uma inovação no campo da arte, uma nova forma de perceber a arte e as possibilidades de ser apresentada. Na imagem realizada a partir da fotografia do paisagista Burle Marx, Avani acrescentou desenhos de flores e linhas que permitem a impressão de plantas, imagens alusivas à profissão do retratado. Os retratos chamaram bastante atenção, mas o que mais impressionou os alunos foram as imagens do trabalho de Célia Jaguaribe. Quando eu apresentei a primeira imagem de uma fotografia pintada da artista e comentei que o resultado final vira roupa, os alunos ficaram impressionados. A imagem que mais intrigou o grupo foi a representação de uma floresta na qual a iluminação foi criada a partir da pintura. Uma rede e a sombra de uma casa foram criados, impressionando os alunos. Os comentários foram os mais inusitados. Uma aluna questionou se a sombra da casa era real ou pintada sobre uma fotografia. Os colegas responderam que deveria ser uma pintura. Alguns argumentaram dizendo que a sombra projetada no chão estava muito inclinada e não poderia ser uma casa de verdade. A conversa foi bem produtiva, percebi que eles gostaram das imagens e ficaram intrigados com a ideia de imprimir uma fotopintura em roupa. Fizeram muitas perguntas, e durante todo o tempo de observação ficaram tentando imaginar como o trabalho foi realizado. Após as observações e questionamentos dos alunos finalizei este momento da aula comentando que as aulas de Artes não são apenas para pintar, desenhar e ganhar uma nota por tudo isto, são também para a gente aprender que é possível através de ideias simples porem inovadores descobrir uma fonte de renda, encontrar uma profissão, pensar em novas possibilidades de encarar o mundo através do conhecimento. Senti necessidade de fazer estas colocações, pois senti um apego muito grande da turma em realizar trabalhos somente se “valem nota”. Como a professora titular já havia mencionado aos alunos que a avaliação dos meus trabalhos não valeriam para a nota do trimestre, havia sentido uma certa desmotivação da turma, alguns alunos nem participavam mais das aulas. Enquanto eu argumentava a importância das aulas de Artes inclusive para a vida profissional de cada aluno, percebi que eles me olhavam atentamente. Considerando que esta etapa do EJA é conclusiva para o término do ensino fundamental, senti que meu comentário


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foi pertinente. Salientei que estando eles concluindo o ensino fundamental, certamente já estavam pensando em arrumar um emprego. Então, para ser um profissional criativo e com boas ideias é muito importante no mercado de trabalho, atualmente, e por este motivo nossas aulas de Artes poderiam contribuir para instigá-los a pensar. Acredito que é meu dever enquanto professora destes adolescentes tentar provocar a curiosidade, pelo novo, a busca do conhecimento, a possibilidade para novas oportunidades na vida, estimular a autoconfiança e a esperança para um futuro melhor. Como salienta Maria Letícia Vianna: “[...] como educadores, acreditamos no poder de criatividade das pessoas, na individualidade de cada ser humano, acreditamos na necessidade vital que a criança tem de se expressar, porque somos contra a acomodação e desejamos a transformação (1994, p.3)”. No segundo momento da aula distribui a cada aluno um retalho de tecido de diferentes cores, uma revista e organizei uma mesa no centro da sala com cola, tesouras, agulha, linha, lápis de cor, giz de cera, lápis dermatográfico, grafite em bastão, canetas esferográficas e canetas hidrocor. Solicitei que os alunos primeiramente colocassem o nome no seu trabalho, pois já haviam sido entregues vários trabalhos sem nome na ultima aula, e em seguida expliquei a proposta de trabalho. Cada aluno deveria encontrar na revista um retrato que lhe interessasse e fixá-lo no tecido, com cola ou através de costura. Após eles deveriam interferir na figura com os materiais apresentados, criando um fundo, e acrescentando elementos que representassem a personalidade que imaginam para aquele personagem recortado da revista. Fiquei impressionada com os resultados, os meninos foram os primeiros a pegarem agulha e linha para realizar o trabalho. Um aluno que utilizou o lápis dermatográfico ficou impressionado com o material e com a forma que ele era apontado. Ele mostrou para os colegas e todos queriam usar um pouco. Um aluno utilizou a ponta da agulha para riscar a figura selecionada, e o resultado ficou ótimo. A turma se empolgou com o resultado do colega e se empenhou em realizar o trabalho, tanto que já haviam passado cinco minutos do horário do recreio e ninguém havia pedido para sair.


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Trabalho dos alunos Juliana e Junior. Fonte: VARGAS, 2010.

Quando a professora titular percebeu o horário levantou e me disse que precisava ir pois já estava na hora do recreio. Neste momento uma aluna, de outra turma bateu na porta chamando a professora para comprar trufas. Assim, os alunos perceberam o horário e alguns inclusive lamentaram a falta de tempo para terminar, me pedindo para terminar na próxima aula. Um aluno pediu para levar e fazer em casa. Mencionei que permitiria que eles continuassem na próxima aula, que não precisavam se preocupar nem correr com o andamento do trabalho, apenas pensar em como explorar as possibilidades do material.


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4.10. AULA 09

PLANEJADO DATA: 27/05/2010. TEMA: Fotografia e Arte na educação. DURAÇÃO: hora/aula de 45 mim. OBJETIVOS: • Conhecer o trabalho de Vik Muniz. • Construir um autorretrato com diferentes materiais orgânicos. • Experimentar diferentes materiais. CONTEÚDOS: • Autorretrato. ��� Vida e obra de Vik Muniz. METODOLOGIA: expositiva dialogada, trabalhos em grupo, questionamento sobre a construção de uma imagem, experimentação de materiais. DESENVOLVIMENTO: Apresentar reproduções da obra de Vik Muniz, através de imagens do livro Vik Muniz de A a Z e com um documentário sobre o artista. Discutir sobre o trabalho do artista, suas influências e período em que vive. Propor a realização de um autorretrato sem a utilização de cola, tesoura ou lápis de cor¸ apenas com materiais orgânicos trazidos pela professora, como alimentos, folhas de árvore, raízes, grãos, ervas, etc. Realizar os trabalhos sob lâminas transparentes e colocar sobre o retro projetor, fotografar a imagem refletida na parede.


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Experimentar as diversas possibilidades de apreciar e apresentar um trabalho artístico. Fotografar os trabalhos dos alunos. RECURSOS: Retroprojetor, lâminas, materiais orgânicos, alimentos, folhas, raízes, grãos, sementes, maquina fotográfica, reproduções fotografias de trabalhos de Vik Muniz, livro Reflex: Vik Muniz de A a Z.

REALIZADO A aula não correu como havia planejado inicialmente, devido aos alunos demorarem a terminar um trabalho, utilizei a aula para finalizar o trabalho da aula anterior. Ao chegar na sala retomei o que estudamos na aula anterior para alguns alunos que haviam faltado, apresentei novamente as imagens da última aula das artistas Avani Stein e Célia Jaguaribe. Um dos alunos que haviam faltado elogiou o trabalho, comentou: “Como pode com uma ideia tão simples de pintar uma foto foi possível conseguir ganhar a vida, como estas artistas aí, né professora?” Concordei com o aluno e incentivei que é preciso criar o hábito de pensar em coisas novas, tentar descobrir novas possibilidades de progredir e adquirir conhecimento, comentei que é possivel através de uma grande ideia, descobrir uma profissão, ou uma forma de sobreviver. Enquanto passava as imagens notei que a turma estava agitada, comentavam da prova que teriam na aula seguinte. Um aluno não participou da aula, como não estava presente na aula anterior disse que nem iria começar, pois não iria ter tempo para terminar, por este motivo ficou copiando o conteúdo da prova que teriam do caderno de uma colega. A professora titular não participou da aula, apenas foi até a sala pegar a avaliação, perguntou se estava indo tudo bem, e saiu vendendo trufas nas outras salas. Passei no quadro uma lista de materiais para a próxima aula, comentei com os alunos sobre o trabalho que faríamos e que aprenderíamos sobre um artista brasileiro que trabalha com fotografia no exterior. Os alunos ficaram curiosos, comentei um pouco sobre a vida do artista enquanto eles realizavam os trabalhos.


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Um aluno pede para que eu fotografe o trabalho dele antes e depois de terminar, para ver a diferença, fico surpresa, pois um dos problemas era justamente o fato de eu fotografar os alunos enquanto faziam seus trabalhos, para ter como documento de comprovação do projeto, como também para que eu pudesse saber na hora de avaliar quem era o aluno que havia desenvolvido determinado trabalho. Então fotografei o trabalho do aluno e elogiei os resultados que estava obtendo com a mistura da de tintas com a costura.

Trabalho do aluno Paulo Henrique. Fonte: VARGAS, 2010.

Um aluno levou para casa o tecido e pediu para a sogra costurar na máquina de costura o recorte que ele havia escolhido para trabalhar, mostrou o trabalho orgulhoso para os colegas, alguns alunos reclamaram: “Não vale pedir ajuda para a sogra!” “Ah professora, isso é golpe baixo!”. Um menino me pergunta frequentemente: “Ô dona, tá ficando bom?” Elogio o trabalho dele e oriento para que continue para ficar ainda melhor. A maioria dos alunos não tem o hábito de trabalhar o fundo do desenho, como o suporte era tecido, poucos tomaram a iniciativa de pintar com tinta guache que eu havia levado.


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Trabalho do aluno Deives. Fonte: VARGAS, 2010.

A aula passa rápido, a maioria da turma considera o trabalho concluído, ao sinal do recreio, libero a turma e fico na sala organizando o material que havia trazido. Ao sair da sala os alunos me encontram dizendo: “Ô dona tá dando o maior brigueiro aí na rua, já chamaram até a policia!” Como já estou até um pouco acostumada, esperei passar a confusão na sala dos professores para poder ir embora, os alunos ficaram com o portão da escola trancado e com um policial em frente a escola até o termino da aula. Como afirma Ostrower (Apud. Amorin, 2004) “[...] todos os conhecimentos que possamos adquirir revertem, em última análise, em nosso próprio beneficio, uma vez que nos enriquecem espiritualmente (p.133).” Acredito que neste período de estágio estou aprendendo muita coisa, mais do que transmitir conhecimento, aprendi que ensinando a gente aprende muito e principalmente conhece a sobre a realidade da vida. Acabei me acostumando com o ritmo de violência pelo qual a comunidade escolar está inserida, como a autora descreve nossos conhecimentos revertem em nosso beneficio, aprendi que a realidade é bem diferente da contada nos livros didáticos, mas nem por isso devemos perder a esperança, este é o conhecimento que gostaria de transmitir a estes alunos e percebo que eu mesma estou aprendendo com eles.


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4.11. AULA 10

PLANEJADO DATA: 10/06/2010. TEMA: Fotografia e Arte na educação. DURAÇÃO: hora/aula de 45 mim. OBJETIVOS: • Comparar a imagem fotografada com a obra. • Questionar a importância do registro fotográfico para a posteridade de uma obra de arte. • Aproximar o aluno da ideia de ser um artista criador de obras de arte contemporâneas. • Incentivar a criatividade. CONTEÚDOS: • Analise de imagem. • Arte contemporânea e a fotografia. METODOLOGIA: Expositiva dialogada, discussão em grande grupo e trabalho em grupo. DESENVOLVIMENTO: Apresentar as imagens fotográficas realizadas na aula anterior, com o auxílio do notebook. Analisar as imagens com os alunos, discutir as diferenças da imagem representada em fotografia e vista pessoalmente, questionar as diversas formas de ver a arte.


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Apresentar imagens de obras de Vik Muniz e sua inspiração, seu processo criativo como as fotografias e o resultado de sua obra. Propor uma discussão sobre o que os alunos estão percebendo sobre a obra. Propor que os alunos em grupos selecionem uma imagem de seus celulares ou de revista, para criar uma nova imagem utilizando cobertura de sorvete, relembrando o trabalho de Vik Muniz e explorando sua criatividade a partir de uma imagem fotografada. O trabalho será realizado sobre um suporte plástico, e fotografado posteriormente. Ao término da aula organizar os trabalhos dos alunos para uma exposição em sala de aula simultânea a palestra da próxima aula. RECURSOS: Notebook, arquivo de imagens realizadas na aula anterior, cobertura de sorvete, pratinhos de plástico, celular dos alunos, revistas.

REALIZADO Não foi possivel realizar a aula como estava no planejamento, devido ao atraso na conclusão dos materiais dos alunos, por este motivo não será realizado no projeto a aula com cobertura de sorvete inspirada pelo trabalho de Vik Muniz, já que a palestrante vira na próxima semana e será o encerramento do projeto. Nesta semana percebi que os alunos estão cada vez mais acostumados com o meu ritmo e eu com o deles, quando inicio as atividades uma aluna comenta: “Iiii, lá vem ela com estes trabalhos difíceis”. Percebi em sua voz que ela já esperava uma atividade diferente, mas não estava se opondo a realizá-la, para mim soou como uma brincadeira, e toda a turma levou o comentário na brincadeira também. Primeiramente apresentei em PowerPoint imagens dos trabalhos de Vik Muniz, comentando um pouco da vida do artista e sua relação com a fotografia. Os alunos comentam que o trabalho do artista parece com algumas imagens apresentadas na abertura da nova novela das 21 horas, e questionam que deve ser muito difícil fazer este tipo de trabalho. As imagens que mais surpreenderam o grupo foram as feitas de materiais diversos como sucata e lixo, e as imagens que Vik Muniz faz com diamante representando a fotografia de algumas artistas.


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A professora titular observa a aula atentamente, os alunos participam com comentários e perguntas sobre o artista, percebo que ficaram interessados. Apresento o livro Vik Muniz de A a Z, para que os alunos possam olhar outras imagens como o autorretrato do artista realizado com materiais plásticos, o livro passa pelos alunos que folham em duplas, enquanto eu explico as diversas possibilidades que o artista nos apresenta de entender e perceber a relação da arte com a fotografia. Um aluno me pergunta: “Mas professora se ele era do interior como ele conseguiu ir para os EUA e ganhar dinheiro com isto?” Respondo que através de muito trabalho o artista começou trabalhando em outras áreas, estudando, desenvolvendo esculturas, até que foi descoberto quando relacionou seu trabalho à fotografia. Mas no começo de sua carreira passou por diversas dificuldades. Sobre sua chegada em Chicago Muniz (2007, p.13):

Deixei o Brasil e cheguei em Chicago no dia de outubro mais frio que a cidade havia tido em dezesseis anos. Eu não falava inglês e tive que ficar com uma irmã de minha mãe no subúrbio de Nothbrook. Lá ajudava minha tia a cuidar dos filhos, trabalhava no estacionamento do supermercado local e freqüentava um curso de inglês a noite [...] no supermercado sempre aprendi as coisas visualmente.

O artista comenta o quanto precisava manter sua mente desperta, através da observação, enquanto trabalhava no supermercado procurava memorizar os tamanhos das embalagens em relação ao conteúdo das mesmas, assim conseguia realizar seu trabalho e aprender sobre a cultura, e o idioma local visualmente. Após comentar um pouco sobre a trajetória de vida do artista, iniciamos a atividade prática. Distribui à turma lâminas de retroprojetor, grãos, e materiais diversos para que eles fizessem um autorretrato sobre a lâmina e em seguida colocassem no retro projetor para apresentar para os colegas. Alguns alunos reclamaram que estavam cansados de fazer autorretratos e perguntaram se podiam fazer outro desenho, respondi que sim, pois não adiantava lutar contra isso, eu queria mesmo era aproveitar o interesse e a curiosidade dos alunos diante do produto final de seus trabalhos no retroprojetor, e contrariá-los neste momento poderia frear o processo de criação deles. Como comenta Amorim e Corral, (2004, p.134): A ação sobre qualquer matéria vai construindo os produtos em arte. Processo e produto, produto e processo, um alimenta o outro. É difícil saber onde acaba um e onde começa o outro. O produto não como um fim em si mesmo,


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como uma mercadoria, mas como a possibilidade de criação que aquele grupo ou individuo conseguiu num dado momento.

O interesse dos alunos no produto final de seus trabalhos os levaria a passar pelo processo de criação mais motivados, como comenta a citação acima, o produto neste sentido empregado como a finalização do trabalho do aluno, o resultado, a conseqüência de um processo que quando bem sucedido nem é possivel perceber a diferença de produto e processo pois o processo sustenta a construção do conhecimento. Por este motivo decidi alterar um pouco o projeto e permitir sair do autorretrato.

Imagem do trabalho do aluno. Fonte: VARGAS, 2010.

Um aluno de outra turma observava a aula através de uma fresta da porta, quando percebi, convidei ele para entrar e observar os trabalhos dos outros alunos, ele entra e fica sentado perto de um grupo de meninos, em seguida ele pergunta se pode fazer também, me surpreendo, mas entrego a ele o material necessário para realizar o trabalho, e continuo a aula. Durante a realização dos trabalhos orientei que os alunos poderiam trocar os materiais com os colegas para diversificar a composição, a maioria se preocupava com as cores, em colocar nos olhos grãos mais escuros representando a cor dos olhos e dos cabelos,


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mas quando viram o resultado no retroprojetor se surpreenderam por não aparecer nenhuma cor. A medida que os alunos foram terminando foram apresentando para a turma seus trabalhos, a cada trabalho apresentado eu fotografava, e os alunos queriam ver como ficou na máquina fotográfica. A aula passa muito rápido e sem perceber já estamos no horário do recreio e as apresentações continuavam, mais dois alunos pedem para entrar para ver os trabalhos. Quando terminamos de fotografar os alunos saem para o recreio, alguns pedem para que eu leve na próxima aula as fotografias para eles verem na próxima aula.

Trabalho de um aluno. Fonte: VARGAS, 2010.

Considero muito satisfatório o resultado desta aula, os alunos demonstraram interesse e até mesmo os alunos mais agitados participaram realizando as atividades por completo. Lamento que seja a penúltima aula, pois os resultados do projeto começam a aparecer, os alunos começam a reconhecer a arte nas atividades mais simples realizadas na aula e estão gradativamente mudando o conceito que tinham sobre aulas de Artes, como um momento para conversar e descansar das aulas de Matemática, para um período de realizar atividades diferenciadas.


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Comento com a turma ao termino da aula que a próxima semana será a ultima aula do projeto, e brinco que eles ficaram livre de mim. Um aluno comenta: “Ah não dona, já vai terminar as aulas com a senhora? Agora que eu tava gostando!” Com esta frase percebo que meu trabalho não foi em vão!

4.12. AULA 11

PLANEJADO DATA: 17/06/2010. TEMA: Fotografia e Arte educação. DURAÇÃO: 2 horas/aula de 45 mim. OBJETIVOS: • Aproximar os alunos de artistas locais. • Discutir sobre o processo de criação e revelação de uma fotografia. • Clarear a ideia da fotografia como arte na sociedade contemporânea. • Expor o trabalho dos alunos. CONTEÚDOS: • Construção e revelação da fotografia. METODOLOGIA: Discussão em grande grupo, apreciação de palestra com fotógrafa. DESENVOLVIMENTO: A convite da professora, uma fotografa da cidade fará uma palestra sobre a construção da fotografia, o processo de revelação, e a relevância desta descoberta para a


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historia como também sobre as influências na forma de pensar a arte após aos avanços da fotografia e a fotografia como arte contemporânea. Na sala será organizada a apresentação dos trabalhos da turma para a palestrante, professores e alunos convidados. Discutir em grande grupo com a palestrante possíveis dúvidas da turma, e a ideia da fotografia ser apresentada como arte. RECUSROS: Retro projetor, microfone, trabalhos dos alunos, fotografias do processo de criação dos alunos.

REALIZADO Na última semana de aula organizei uma palestra para a turma com uma fotografa da cidade graduada em fotografia formada pela Ulbra e proprietária de um estúdio fotográfico no centro da cidade, Alice Sulzbach. A primeira ideia seria de uma palestra para a turma que aplico o projeto, sobre a relação da arte com a fotografia e o processo de revelação, mas os professores da escola assim que souberam por quem a palestra seria realizada me pediram para juntar todas as turmas do noturno. Portanto conversei com a palestrante e resolvi adaptar o tema da palestra para que os alunos que não estavam trabalhando comigo também se sentissem envolvidos pelo assunto. Alguns fatores contribuíram para esta escolha, senti durante toda a prática de estágio que os alunos estavam enxergando todos os artistas que apresentei como pessoas em uma realidade muito diferente da que eles vivem, além da preocupação de terminar o ensino fundamental para conseguir um emprego e de realizar os trabalhos somente para ganhar nota. Por este motivo sugeri a palestrante que colocasse um pouco sobre seu encontro com a fotografia, sua experiência de vida, como conseguiu cursar a faculdade, e hoje ser um nome tão reconhecido na cidade, realizar cursos de especialização no exterior, palestras em São Paulo, enfim, contar um pouco aos alunos como encontrar novas possibilidades através da arte e da fotografia. Como a palestra seria ministrada para toda a escola, decidimos que começaríamos as 19 horas e 30 minutos, cheguei na escola uma hora antes para ajudar na organização da sala


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onde ocorreria o evento. Devido a um incêndio no ano passado a escola não está com todas as suas dependências concluídas ainda, parte das salas estão destruídas e o auditório está interditado. A sala utilizada é uma capela da comunidade, uma funcionária da escola realizou a limpeza e eu organizei todos os trabalhos dos alunos pendurados em uma espécie de varal, como uma fotografia secando em um estúdio. Assim que os alunos chegam vou até a sala de aula e questiono um pouco o que eles acharam das aulas. Um aluno, o mais agitado da sala, pede para falar: “Ah professora eu gostei muito dos trabalhos, o conteúdo era legal, a gente fez bastante coisa diferente, a única coisa ruim é que tinha gente que não gostava que a senhora fotografasse a gente, eu não, eu gosto de tirar foto, mas tem gente que não, ai complicou um pouco!” Uma menina levanta a mão e diz: “É mas logo agora que a gente tava gostando termina!” Solicito que a turma responda um breve questionário de avaliação do projeto, onde constavam três perguntas: Como você avalia o conteúdo trabalhado em aula? O que você achou das atividades propostas nas aulas? Como você avalia o desenvolvimento das aulas pela professora estagiária? As respostas estavam sinalizadas por smiles indicando ótimo, bom, regular e péssimo. Explico as perguntas e distribuo as folhas impressas com o questionário. Duas meninas não quiseram colocar o nome, pois indicaram as atividades como regular. Todos os alunos presentes responderam o questionários, totalizando quinze alunos, o resultado está apresentado no gráfico a seguir:

Gráfico do grau de satisfação dos alunos diante do projeto.


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A todo o momento eles perguntavam ansiosos se todo mundo iria ver os trabalhos realizados por eles. Comentei que estavam expostos no local da palestra, mas que eles não se sentissem envergonhados do que fizeram, que todos os trabalhos ficaram excelentes e não deveriam ter vergonha. Comento o quanto foi gratificante para mim este período de estagio, agradeço a colaboração de todos, faço elogios, e oriento para que eles não parem de estudar, continuem o ensino médio, busquem uma profissão, e quem sabe uma faculdade, pois todos têm um potencial enorme. Uma aluna fala: “Ah professora não é fácil continuar a estudar, a gente trabalha e faculdade é muito caro!” Comento que hoje em dia existem muitos cursos profissionalizantes que não são tão caros, e que existem possibilidades de se conseguir bolsas de estudos através de programas sociais. Em seguida encaminho a turma para assistir a palestra. Para dar inicio ao evento apresento a palestrante comento um pouco sobre seu currículo, solicito a colaboração de todos com silêncio e desligando seus celulares. A palestrante comentou sobre como começou a trabalhar com fotografia, a presença da arte em todas as áreas do conhecimento, a importância de estudar cada vez mais, ter bons relacionamentos, buscar sempre novas possibilidades para conquistar seus objetivos, ter motivação, ter espírito empreendedor, comentou também, como foi difícil conseguir cursar a faculdade, sua influência com a cultura açoriana através de pesquisas e publicações fotográficas.


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Imagem realizada durante a realização da palestra. Fonte: VARGAS, 2010.

Ao término de sua fala a palestrante convida o grupo a realizar perguntas, e vários alunos levantam a mão. Uma menina pergunta quanto custa para fazer uma faculdade, Alice responde que depende do curso que ela escolhe, e que varia muito a partir de 150 reais cada cadeira. Outro menino pergunta o que é cadeira, ela complementa explicando que são disciplinas do curso. Uma menina levanta a mão e comenta: “É verdade tudo isso aí que a senhora falou, a gente não pode desistir, tem que continuar, eu estou tentando abrir uma lojinha de acessórios, brincos, artesanato, e sei que é muito difícil, mas não é impossível, só não adianta ficar esperando as coisas cair do céu!” Dentre todas as perguntas da noite apenas uma foi de um aluno da minha turma que queria saber por que a palestrante escolheu fotografia para trabalhar e porque ela achava que tinha relação com a arte. Para responder esta pergunta Alice retomou os conceitos de fotografia como arte, explicou que quando a fotografia foi descoberta muitos pintores acreditavam que a arte morreria, e que com o passar do tempo a fotografia acabou se tornando uma aliada, comentou que sempre teve muito interesse em estudar este tema e que o mais fascinante para ela na fotografia era a possibilidade de registrar acontecimentos na vida da gente que jamais iremos esquecer.


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Ao término da palestra que durou cerca de uma hora, a palestrante elogiou os trabalhos realizados pela turma e agradeceu o convite para falar de um tema que a interessa muito. Após as palmas presenteio a palestrante com flores como agradecimento em nome da minha turma de estágio e de toda a escola. Para a coordenação e a professora titular também entrego flores agradecendo a oportunidade de realizar o estágio, e a colaboração de todos. A coordenadora em nome da direção me parabeniza pelo trabalho e encerramos o evento. Percebo que este momento foi bem apropriado para a realidade da escola, os alunos prestaram atenção ao tema, fizeram perguntas, e de certa forma me sinto com uma missão cumprida. Consegui despertar o interesse da turma em assuntos relacionados às aulas de Artes e envolver toda a escola neste projeto, de forma que a disciplina se tornasse parte integrante e de igual importância para a escola, visto que as professoras das outras disciplinas e de outras turmas se sentissem influenciadas pelo projeto e motivadas a participarem do evento final.

Diretora da escola, palestrante Alice Sulzbach, e estagiaria no encerramento da palestra, em frente à exposição dos alunos. Fonte: VARGAS, 2010.

Concluo então com uma frase que gosto muito que descreve esta experiência, de Amorim e Corral, 2004: “A arte sensibiliza, amplia e aprofunda o olhar que temos do homem, da vida, do outro. É um olhar para além das letras, palavras, frases, textos, números, mapas, o olhar da sensibilidade (p.128).”


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Capítulo 5 Prática de ensino no Ensino Médio


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5.1. PROJETO EDUCATIVO

DADOS ESTRUTURAIS DO PROJETO:

Áreas envolvidas: Artes Visuais Eixo Central: Fotografia Atividade inicial, de aproximação e introdução do Projeto: Autorretrato e dinâmicas de aproximação com o tema. Fechamento do Projeto: Exposição de todo material produzido pelos aluno em forma de um jornal da turma, no museu Casa Costa e Silva, na cidade de Taquari. Título do Projeto: Fotografia e Arte na educação.

DADOS DE IDENTIFICAÇÃO:

Nome do autor (a) do projeto: Nátia Pereira Vargas Professora Titular: Maria Edite Borba Nome e endereço da escola: Instituto de Educação Estadual Pereira Coruja. Bairro Centro, Taquari, RS. Série/ciclo/turma cedida: 2° ano do Ensino Médio, noturno, turma única. Turno: Noturno Número de aprendizes: 37 alunos matriculados


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TEMA A utilização da fotografia nas aulas de Artes, com a análise de imagens no sentido histórico e social para aguçar o espírito crítico dos alunos, como também a evolução da arte após o advento da fotografia e a evolução da aprendizagem dos alunos após a inserção da fotografia nas aulas de Artes. Como também explorar as várias possibilidades de se trabalhar a fotografia no ensino. JUSTIFICATIVA A realização deste projeto é de grande interesse pessoal e profissional visto que o considero a fotografia um marco importante para a história da arte, como também uma nova linguagem que possibilita a libertação de antigos conceitos sobre o que é arte e como ela pode ser desenvolvida. Para os alunos acredito que o projeto será um meio de libertarem-se de uma metodologia engessada, e proporcionar a liberdade de expressar e conhecer a si, e a novas possibilidades de conhecer a arte em diversas manifestações. Trabalhar com o tema é uma forma de aproximar os alunos da arte de uma forma interativa onde eles poderão encontrar novas formas de ver e entender a arte além de conhecer um pouco mais da importância desta descoberta para a história. Através deste projeto pretende-se envolver os alunos na disciplina utilizando recursos que estão disponíveis no cotidiano dos mesmos, como celulares, fotografias suas e de familiares, revistas e jornais locais. O tema será desenvolvido no Ensino Médio, levando em consideração as especificidades de cada turma e os interesses do grupo, bem como a relação existente entre os alunos e os avanços tecnológicos que invadiram a escola e a sociedade, como a fotografia. OBJETIVO GERAL Apresentar a fotografia como arte e o quanto as imagens apresentadas diariamente pela mídia podem influenciar na formação da opinião pública, questionando a veracidade das imagens fotográficas e debatendo os recursos da fotografia na arte. OBJETIVOS ESPECIFICOS • Discutir a influência da fotografia na arte.


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• Questionar a veracidade de uma imagem fotográfica e o quanto uma imagem pode influenciar na formação da opinião pública e na formação da personalidade do indivíduo. • Instigar o espírito crítico dos alunos ao perceber uma imagem. • Propor aos alunos a análise de imagens no sentido histórico e social.

AVALIAÇÃO Será considerado satisfatório se os alunos entenderem a proposta, ou pelo menos que sejam provocados por ela, bem como se envolva no processo de elaboração do autorretrato, interferência de uma imagem e desenvolvam sua percepção, entendendo a história e as influências da fotografia na arte e na vida.


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5. 2. AULA 01

PLANEJADO DATA: 13/04/10 TEMA: Fotografia e Arte na educação. DURAÇÃO: hora/aula, período de 45 mim. OBJETIVOS: • Conhecer melhor os alunos. • Expor o projeto educativo aos alunos. CONTEÚDOS: • Projeto educativo. METODOLOGIA: Expositiva dialogada, dinâmica de apresentação. DESENVOLVIMENTO: Apresentação do projeto. Mencionar sobre a ideia da criação de um jornal da turma que será exposto na Casa de Cultura Costa e Silva. Dinâmica em grande grupo para conhecer melhor as expectativas dos alunos. Será distribuído aos alunos pedaços de papel de diferentes tamanhos e com recortes variados. Os alunos deverão desenhar algo que represente como eles são coisas que gostam, suas expectativas sobre as aulas, de forma que olhando para o desenho seja possível conhecer um pouco mais sobre o aluno. Esta atividade servira como um exercício, após cada aluno diz seu nome e apresenta seu desenho. Questionar sobre o que os alunos conhecem sobre fotografia, o que costumam fotografar, se conhecem como surgiu a fotografia, etc. RECURSOS: Material da dinâmica de apresentação: folhas tamanho oficio recortadas de diferentes formas, lápis de cor, lápis preto, canetas esferográficas, canetas hidrocor.


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REALIZADO No primeiro dia de aula a diretora me apresenta aos alunos, pois a professora estava numa reunião de pais. A turma tem trinta e sete alunos matriculados, mas estavam presentes somente vinte e dois. Algumas classes estavam com a mochila dos alunos que saíram, pois não queriam assistir a aula. Comecei falando sobre o projeto, os alunos me ouviam sem demonstrar muito interesse, alguns faziam um desenho para entregar para a professora titular, outros conversavam despreocupados. Comento que poderemos utilizar o celular para fotografar em algumas aulas com o consentimento da direção, enquanto isso um aluno estava falando no celular, saliento que falar ao celular durante a aula é proibido na escola, que utilizaremos somente quando trabalharmos fotografando os trabalhos que realizaremos. Um aluno levanta a mão e pergunta: “Que tipo de trabalho a gente vai fazer?” Respondo comentando sobre algumas atividades que realizaremos durante o projeto, que se tudo sair bem iremos apresentá-lo em uma exposição na Casa de Cultura da cidade. Pensei em finalizar o projeto com uma exposição, e quando surgiu a oportunidade de expor na Casa de Cultura acreditei que seria a melhor opção. A maioria dos alunos não conhece este lugar, e seria uma ótima oportunidade de fazê-los conhecer mais sobre arte. Como prescrevem os Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensinar arte com arte é o caminho mais eficaz, em outras palavras, o texto literário, a canção e a imagem trarão mais conhecimento ao aluno e serão mais eficazes como portadores de informação e sentido. O aluno, em situação de aprendizagem, precisa ser convidado a se exercitar nas práticas de aprender a ver, observar, ouvir, tocar e refletir sobre elas (PCNs, 1996, p.48).

Desta forma os alunos conhecerão um pouco da cultura local, ao mesmo tempo que terão a oportunidade de apresentarem seus trabalhos. A Casa de Cultura funciona como um museu que abriga os móveis do presidente Costa e Silva, o local era a casa do presidente, e encontra-se preservado ate hoje. Também funciona uma biblioteca municipal em uma das salas, abrigando no segundo piso uma sala de exposições. Acredito que conhecer este lugar repleto de cultura seria como conhecer mais sobre arte e incentivá-los a ter o trabalho reconhecido.


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A turma não pergunta muito, quando termino de falar sobre o projeto todos ficam me olhando sem falar nada, começo então a dinâmica de apresentação. Distribuo aos alunos folhas com recortes diferenciados e peço para que eles façam um desenho representando como eles são, podendo utilizar palavras e desenhos, alguns alunos ficam parados me olhando sem entende a proposta. Comento então que com a fotografia é possível realizar um autorretrato, mas se tivéssemos que realizar este autorretrato sem a máquina fotográfica e descrevendo ainda sua personalidade, como seria? Saliento que utilizem as figuras geométricas das folhas para criar seu trabalho. Aos poucos os alunos começam a realizar o trabalho, alguns permanecem com o trabalho da professora titular. Neste momento a professora entra na sala sem bater a porta, pergunta como estou indo, questiona os alunos sobre o que estão achando da aula. Ela começa a explicar porque estou trabalhando com eles, após alguns minutos de conversa com os alunos, ela me pergunta o que eles estão fazendo, diz que se interessa em aprender mais comigo já que saiu da faculdade há muito tempo.

Trabalho de um aluno. Fonte: VARGAS, 2010.

Alguns alunos terminam o trabalho, peço para que os alunos que terminaram apresentem seu trabalho dizendo o nome e como utilizaram aquelas formas para realizarem seu autorretrato. Cada aluno que vai apresentando à turma dá uma salva de palmas, incentivo as palmas a cada apresentação elogio os resultados encontrados para realizarem o trabalho. A


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professora titular comenta que não deixa que eles batam palmas, pois cria uma desordem e depois que eles começam não param mais. Diante deste comentário apenas sorrio levemente sem saber o que dizer. Em seguida a professora sai da sala.

Trabalho de uma aluna. Fonte: VARGAS, 2010.

As apresentações seguem com as mais variadas interpretações, para resolver um losango do lado da folha o aluno realizou seu próprio rosto escrevendo a palavra hip hop, uma folha em formato de uma seta vira uma casa com um carro na garagem, corações, flores, sorrisos, etc. A aula termina rápido são 45 minutos, ao sinal os alunos se levantam e saem, peço para me entregarem os trabalhos, todos saem. Acredito que para um primeiro contato a aula foi produtiva, porém considero os alunos pouco participativos. A turma é grande, agitada, e conversam bastante.


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5.3. AULA 02

PLANEJADO DATA: 20/04/10 TEMA: Fotografia e Arte na educação. DURAÇÃO: hora/aula, período de 45 mim. OBJETIVOS: • Conhecer a história da fotografia e as primeiras máquinas fotográficas. • Entender o processo de construção da imagem, bem como a revelação. CONTEÚDOS: • História da fotografia. • Processo de revelação de imagem. • Autorretrato. METODOLOGIA: Expositiva dialogada com recursos trabalhos em equipes, trabalho prático em grande grupo. DESENVOLVIMENTO: Apresentar imagens das primeiras máquinas, discutir sobre o processo de formação da imagem, fazer questionamentos sobre como uma fotografia é revelada. Discutir sobre o processo de revelação (revelador/água/fixador).


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Imagens de máquinas fotográficas antigas. Disponível em: http://descobrir-vilaflor.blogspot.com/2008/05/museu-maquinas-fotogrficas.html. Acesso em: 21/01/10.

Construção de texto sobre a história da fotografia através de dinâmica em grande grupo. Os alunos serão divididos em cinco grupos que receberão pedaços de papel em forma de quebra-cabeça, contendo um breve texto sobre a história da fotografia, ao sinal de uma música deverão encontrar as peças certas entre seus colegas para formar o texto completo. No verso do texto possui uma imagem relacionada à descoberta da fotografia. Discussão em grande grupo sobre as possibilidades que a fotografia possibilitou para a arte e para a forma de documentar uma imagem. Construção de texto coletivo. Solicitar que os alunos tragam para a próxima aula materiais diversos como tampinhas, grãos, linhas, etc. RECURSOS: Quebra cabeças, máquinas digitais e analógicas, retro projetor, lâminas.


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REALIZADO Na segunda semana a professora titular não permaneceu na sala de aula, apenas entrou e pediu para que eu anotasse quem estava ausente e saiu se colocando à disposição caso eu precisasse de alguma coisa. Inicio as atividades pedindo para que a turma se divida em cinco grupos. Alguns alunos resistem, mas todos acabam formando os grupos, passo pelos grupos pedindo para que eles escolham um envelope. Junto com o envelope distribuo laminas de retroprojetor, peço para que eles montem um quebra-cabeças que está dentro do envelope sobre a lâmina com as peças do lado do que está escrito. Os quebra-cabeças têm um texto de um lado e uma imagem relacionada do outro lado. A lâmina serve para que os alunos levantem as peças sem desmontar o quebra-cabeça para ver a imagem que formou do outro lado após montarem o texto.

Alunos montando o quebra-cabeça. Fonte: VARGAS, 2010.

Solicito que após a montagem do quebra-cabeça cada grupo leia seu texto, para conseguir o silêncio da turma enquanto um grupo fazia a leitura pedi para que o outro grupo comentasse o que foi lido, e fazia perguntas relacionadas ao assunto para alguns alunos selecionados conforme o comportamento, quando percebia que estavam conversando. Desta


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forma consegui concluir esta atividade com toda a turma prestando atenção ao que estava sendo lido pelos colegas. Durante a atividade eu fazia comentários sobre o conteúdo que era sobre a descoberta da fotografia, os inventores da máquina fotográfica, a câmara escura, as primeiras máquinas fotográficas, etc. Um aluno diz irritado e em voz alta: “Ah professora isso é aula de História ou de Artes? A gente não precisa saber disso?! Para que serve saber isso?” Com esta pergunta percebo que o aluno não está encontrando sentido para as aulas de artes, seu comportamento é alienado ao que esta acontecendo durante a aula, talvez por estar acostumado com uma metodologia engessada com base em desenhos para pintar, que é o que pude perceber até o momento. Lembrei que estando no segundo ano, estes alunos deveriam pensar que logo irão terminar o ensino médio e estarão em busca de uma profissão, e o conhecimento deveria estar em primeiro lugar. Os PCNs, 1996, esclarecem o quanto a arte é significativa: “A arte está presente na sociedade em profissões que são exercidas nos mais diferentes ramos da atividade; o conhecimento em artes é necessário no mundo do trabalho e faz parte do desenvolvimento profissional dos cidadãos” (1996, p.20). Explico para o aluno que a arte está presente no seu dia a dia através da fotografia e para entender melhor a Arte é preciso conhecer um pouco da história do que estamos trabalhando. Comento que muitas profissões utilizam conhecimentos que iremos trabalhar durante o projeto, e que estando no segundo ano do ensino médio certamente ele estaria pensando em uma profissão a seguir, portanto todo conhecimento adquirido é importante para seu futuro, e no momento para reconhecer a fotografia como arte é preciso entender um pouco de História. Outros colegas comentam: “não dá bola professora esse aí é um caso perdido!”. Apresento algumas lâminas com imagens das primeiras máquinas fotográficas, os alunos ficam curiosos, comentam que tem máquinas antigas em casa, perguntam se podem trazer na próxima aula, um aluno pergunta: “esse caixote aí é aqueles que quando a gente aperta sai fumaça como nos desenhos?” ele se refere à uma imagem de uma máquina feita de madeira em um tripé que apresentei nas lâminas. Comento que é uma caixa que nos remete à ideia da câmara escura. Pergunto se alguém sabe o que é isto, mas todos ficam calados. Então explico o que é câmara escura, complemento com um simples desenho no quadro, explicando


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porque a imagem dentro da câmara escura fica invertida, explico que era muito usada por pintores para retratar uma imagem. Apresento uma máquina do tipo Polaróide que parte do processo de revelação instantânea. Os alunos ficam surpresos, apresento uma fotografia realizada pela máquina, comento sobre outros tipos de máquinas usadas profissionalmente enquanto se usava filmes, como as marcas Kapsa de fabricação brasileira e Rolleiflex de fabricação alemã, através de imagens, comento que a evolução das máquinas fotográficas aconteceu juntamente com a indústria cinematográfica, como o fabricante das máquinas Leicas que com suas descobertas contribuiu para testar películas cinematográficas, até chegar nas máquinas digitais.

Imagem da primeira máquina fotográfica exposta no mundo. Disponível em: http://www.insidetechno.com/2009/05/24/primeira-camera-fotografica-do-mundo-exposta-emmacau/. Acesso em: 21/01/10.

Percebo que com estas explicações os alunos se interessam pelo assunto, fazem perguntas, e querem ver as imagens apresentadas, repreendem os colegas que estão conversando, reclamam com os que passam na frente das imagens. No início da aula passei uma folha pedindo o nome completo, telefone, e e-mail de quem tivesse, com o intuito de realizar uma chamada, pois a professora queria saber que estava presente com alista de nomes poderia memorizar cada aluno. Uma aluna me perguntou se eu não podia passar estas imagens por e-mail para ela, pois o retroprojetor é precário, concordei e outros alunos também demonstraram interesse, fiquei surpresa, mas muito contente, pensei em ter os e-mails e telefones para as vezes lembrá-los dos materiais solicitados, mas com esta atitude de alguns alunos da turma percebi que eles estavam realmente motivados.


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Relembro que todo o trabalho da turma será apresentado em uma exposição, pois muitos alunos não haviam estado na ultima aula, os alunos ficam a surpresos, perguntam se vai aparecer o nome deles, se bastante gente vai ver, quando será esta exposição, todos falam ao mesmo tempo. Quando consigo acalmá-los e continuar as explicações, entre na sala sem bater uma pessoa que eu não conheço, não é professora, se identifica como funcionária da prefeitura, pedindo para dar um recado a turma. Como ela já havia entrado sem bater não tive alternativa se não concordar, mas confesso que fiquei muito contrariada pelo fato de ela ter invadido a aula sem ao menos pedir licença. Penso que estas atitudes cortam a linha de raciocínio dos alunos, e principalmente neste período que estou em férias do meu trabalho, estou me dedicando a estudar durante as tardes sobre o que quero apresentar, mas percebo que a aula é tão curta que não há tempo para transmitir muito conteúdo, pois corro o risco de os alunos não entenderem nada, e ainda me aparece uma pessoa para dar recado, porque não vai durante outra disciplina! Bom, o recado era sobre o projeto pró jovem, do governo federal que abre espaço para que os jovens realizem cursos com o auxilio do governo. Quando consigo retomar as explicações, o sinal bate, os alunos já dispersos saem para o recreio, alguns ficam me perguntam mais sobre a exposição, até quando vou ficar ministrando as aulas deles, respondo as perguntas e os alunos saem para o recreio. Ao sair procuro a titular para passar a lista de presença dos alunos, mas ela estava envolvida em vender perfumes importados para as outras professoras e não me dá muita atenção. Mas vou embora satisfeita, pois percebi que hoje consegui cativar a atenção dos alunos.


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5.4. AULA 03

PLANEJADO DATA: 27/04/10 TEMA: Fotografia e Arte educação. DURAÇÃO: hora/aula, período de 45 mim. OBJETIVOS: • Conhecer o artista Vik Muniz. • Analisar imagem do artista. • Compreender como a fotografia influência a arte. CONTEÚDOS: • Autorretrato. • Vida e obra de artista Vik Muniz. METODOLOGIA: Expositiva dialogada, com trabalho em duplas, análise de imagens. DESENVOLVIMENTO: Apresentar imagens de autorretratos de Pablo Picasso, Leonardo Da Vince, Paul Cézane, Francisco Goya e Vicente Van Gogh. Comentar sobre a construção da imagem antes da fotografia, como eram realizados os retratos, com que materiais e a posição do retratado. Apresentar um vídeo de Vik Muniz artista que trabalham com fotografia. Questionar o que as imagens têm em comum. Comparar estilos e época em que o artista trabalha. Discutir o impacto destas obras para a época. Apresentar autorretratos deste artista.


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Autorretrato. Pablo Picasso. COORDENAÇÃO E ORGANIZAÇÃO FOLHA DE SÃO PAULO. Coleção Grandes Mestres da pintura. Volume 6, pg. 41, Bauri, São Paulo: Editorial Sol 90, 2007.

Autorretrato. Leonardo Da Vinci. COORDENAÇÃO E ORGANIZAÇÃO FOLHA DE SÃO PAULO. Coleção Grandes Mestres da pintura. Volume 3, pg. 12, Bauri, São Paulo: Editorial Sol 90, 2007.


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Autorretrato com chapéu. Paul Cézanne. COORDENAÇÃO E ORGANIZAÇÃO FOLHA DE SÃO PAULO. Coleção Grandes Mestres da pintura. Volume 2, pg.12 Bauri, São Paulo: Editorial Sol 90, 2007.

Autorretrato. Francisco Goya. COORDENAÇÃO E ORGANIZAÇÃO FOLHA DE SÃO PAULO. Coleção Grandes Mestres da pintura. Volume 5, pg. 12, Bauri, São Paulo: Editorial Sol 90, 2007.


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Autorretrato diante do cavalete. Vicente Van Gogh. COORDENAÇÃO E ORGANIZAÇÃO FOLHA DE SÃO PAULO. Coleção Grandes Mestres da pintura. Volume 1, pg. 12, Bauri, São Paulo: Editorial Sol 90, 2007.

Construir sob lâminas seus autorretratos utilizando materiais diversos trazidos pelos alunos e pela professora, como grãos, linhas, esponja de aço, tampinhas, palitos, conchas, etc. o trabalho será realizado em grupos. Fotografar as imagens que serão refletidas das lâminas para o retroprojetor. Solicitar que os alunos tragam materiais de recorte e colagem. RECURSOS: Lâminas, retroprojetor, linha, grãos, sementes, esponja de aço, tampinhas, palitos, conchas, folhas, raízes, areia, pedras, alfinetes, clips, tachinhas, grampos, joaninhas, botões, etc. Video Vik Munix, livro Reflex: Vik Muniz de A a Z, Livros da Coleção Grandes Mestres da Pintura Volumes: 01, 02, 03, 05, 06. Vídeo documentário sobre Vik Muniz.


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REALIZADO Ao chegar à escola encontro a titular que me avisa que vai entrar na sala pra fazer a chamada e tomar nota do conteúdo que eu estou trabalhando. Vou até a sala levar o retroprojetor e retorno à sala dos professores para buscar o restante do meu material. Ao entrar na sala percebo que a turma está quase toda presente, passo uma chamada para que os alunos assinem a presença para não perder muito tempo. A professora titular não entra na sala no primeiro momento. Começo a aula conversando com o grupo sobre o que discutimos na última aula. Como percebo que muitos alunos não estavam presentes na semana anterior, solicito para que alguns alunos relatem o assunto trabalhado aos demais colegas. Enquanto eles descrevem o que aprenderam eu escrevo no quadro tópicos do que está sendo relatado, como os inventores da fotografia, as descobertas a partir do daguerreótipo, a chegada ao Brasil da fotografia, a evolução das câmeras fotográficas, a invenção do filme, etc. A conversa é bem produtiva, pois percebo que a dinâmica do quebra-cabeças da última aula ajudou a turma a fixar o assunto. Três alunos me mostram máquinas fotográficas antigas que tinham em casa. Peço para que eles expliquem aos colegas como funcionavam. A turma fica em silêncio prestando atenção aos colegas. Como eu levei novamente a minha máquina Polaróide e as fotos que nela são realizadas, podemos retomar o conteúdo e os alunos ausentes da última semana se interaram do assunto.


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Imagem de uma máquina Polaróide. Fonte: VARGAS, 2010

Reprodução de fotografias realizadas em uma máquina Polaróide. Fonte: VARGAS, 2010.

Neste momento a professora titular entra na sala e pede que eu de a lista dos alunos que estavam na última aula. Como ela senta no fundo da sala, pego a lista de presença que fiz e apresento a ela. Continuo a conversa, um aluno me pergunta se a gente vai fazer uma exposição só de máquinas fotográficas antigas também. Repondo que é uma ideia que pode ser acrescentada à exposição na Casa de Cultura, mas para isto teria que ver se eles têm estrutura para manter as câmeras em segurança.


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A titular mais uma vez me interrompe pedindo o conteúdo que trabalhei na última aula, pois ela não participou. Levo até ela a cópia do meu planejamento que tem os conteúdos e continua as explicações. Como alguns alunos estão chegando pela primeira vez na minha aula, perguntam que exposição é esta da qual estou falando, quando vou responder à titular me chama novamente dizendo que não entendeu o que estava escrito no plano, que é para eu tomar nota em um papel os conteúdos e entregar para ela. Retomo a pergunta dos alunos sobre a exposição e respondo explicando um pouco do projeto. Para começar o assunto que tinha planejado para esta aula apresento livros com imagens de autorretratos de artistas consagrados como Pablo Picasso, Vicente Van Gogh, Michelangelo e Leonardo Da Vinci. Pergunto sobre o que eles percebem de semelhança entre as imagens, como eles imaginam que foram realizadas, o que era necessário para conseguir retratar uma pessoa sem o auxílio de uma máquina fotográfica, mesmo com todas estas perguntas poucos alunos respondem, comentam que todas as imagens parecem ser pinturas e geralmente só aparece o rosto das pessoas. Comento o quanto a arte tinha a função de representação fiel da realidade antes da fotografia. Uma pessoa, para conseguir um retrato, precisava posar para um pintor durante horas até que ele estivesse concluído a obra, os pintores tinham o oficio de realizar retratos e vistas de paisagens. Questiono se eles precisassem realizar um retrato de alguém e não tivéssemos máquinas fotográficas nem no celular o que eles fariam? A maioria responde que faria um desenho. Continuo comentando que com a chegada da fotografia muitos críticos chegaram a pensar que seria o fim da Arte, já que com a fotografia simplificava a forma de realizar retratos deixando-os prontos bem mais rápido do que na pintura, como afirma Charles Baudelaire no livro de Cecilda Teixeira Costa (2004) Arte no Brasil 1950-2000: “Essa indústria, ao invadir os territórios da arte, tornou-se sua inimiga mortal (p.52)”. Mas na verdade os artistas buscaram alternativas, e a fotografia acabou por se unir a arte manifestando uma nova linguagem. Como comenta Costa (2004, p.52):

Quando ocorreu a invenção da fotografia foi vista pelos artistas (principalmente os pintores) como a descoberta de um instrumento que facilitaria seu trabalho, libertando-os da necessidade de retratar pessoas, cenas ou paisagens. As possibilidades de obter imagens não construídas por um processo de síntese como a pintura e, sim, tomada, surpreendidas de repente por um artefato mecânico.


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Os alunos, de modo geral, não são de fazer perguntas, mas com estes comentários eles pareciam prestar bastante atenção. Até que a professora começa a conversar com um grupo no canto da sala pedindo alguns trabalhos que eles ainda não tinham terminado. Tento continuar a discussão até que perco a atenção dos alunos para a titular e espero para que eles combinem a entrega do material. Em seguida apresento uma imagem do autorretrato de Vik Muniz com o auxílio do livro: Vik Muniz de A a Z. Os alunos ficam admirados perguntam o que é aquilo, passo pelos grupos apresentando a imagem mais de perto. Questiono o que esta imagem tem de semelhante com as últimas apresentadas? Como ninguém responde comento que este é o autorretrato de Vik Muniz, os alunos dizem nunca ter ouvido falar deste artista. Comento que esta imagem foi realizada a partir de uma montagem utilizando brinquedos, e pequenos objetos de plástico, depois foi fotografada e apresentada em um tamanho considerável. Neste momento peço para que a turma pegue suas cadeiras e se aproxime do centro da sala onde apresento imagens com o auxilio do notebook do artista onde ele esta em frente ao seu autorretrato.

Autorretrato: Estou triste demais para te contar. Fonte: MUNIZ, Vik. Reflex: Vik Muniz de A a Z. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

Os alunos ficam curiosos, repreendem os colegas que estão conversando. Apresento mais alguns slides e passo para o filme, peço silêncio, apago algumas luzes e


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apresento um pequeno documentário sobre o processo de construção das obras de Vik Muniz. Os alunos ficam em silêncio prestando bastante atenção nas imagens, até que a professora titular se levanta interrompe novamente a aula e diz que vai sair pois já esta quase na hora do intervalo. Os alunos continuam vendo o vídeo, perguntam se ele é rico para fazer imagens até com diamante, discutem sobre a aparência do artista uma aluna diz: “ele é mais bonito nas fotografias que ele faz dele mesmo com brinquedos de plástico do que ao vivo!” comenta quando o artista aprece dando entrevista no vídeo. Ao término do vídeo percebo que já faltam poucos minutos para o recreio e a próxima atividade pratica que faríamos não teremos tempo, comento sobre os materiais que solicitei se todos trouxeram a maioria não havia trazido. Então solicito para que na próxima aula tragam objetos diferenciados, como grãos, linha, clips, palitos, etc. Uma aluna pergunta se pode ser grãos de soja, outro mostra os clips que havia trazido. Peço para que tragam na semana seguinte. É dado o sinal para o intervalo, uma aluna me devolve a chamada, pergunto se todos assinaram, e libero a turma.

5.5. AULA 04

PLANEJADO DATA: 04/05/10 TEMA: Fotografia e Arte na educação. DURAÇÃO: hora/aula período de 45 mim. OBJETIVOS: • Experimentar materiais. • Construir retrato do colega. CONTEÚDOS:


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• Retrato. • Recorte e colagem. METODOLOGIA: Trabalho em grupos, discussão em grande grupo. DESENVOLVIMENTO: Relembrar o trabalho de Vik Muniz com materiais diversos. Organizar uma mesa no centro da sala com materiais diversos trazidos pelos alunos e pelo professor, como papel de várias gramaturas, jornal, papelão, cartolina, tecido, linha, cola, tinta, lápis de cor, giz de cera, carvão, canetas, etc. Propiciar a experimentação dos materiais, que todos os alunos vão até a mesa e escolham materiais para riscar, pintar, desenhar, para que conhecem os materiais. Solicitar que os alunos fotografem o colega com o auxílio do celular e com recortes de revistas e outros materiais trazidos, montem o retrato do colega em uma folha. Fotografar os alunos autores do retrato com o colega retratado. RECURSOS: Jornal, papelão, cartolina, tecido, linha, cola, tinta, lápis de cor, giz de cera, carvão, canetas esferográficas, canetas hidrocor, tesoura, folhas de papel jornal A3, revistas para recorte.

REALIZADO Na quarta semana cheguei em casa muito feliz com o resultado da aula! Quase não me contive e fui logo contando para toda a minha família, o que para mim, tinha sido um sucesso! Antes de sair de casa pensei que gostaria de mais empolgação da turma, como eles são pouco participativos, na última aula percebi que eles se mantinham a uma certa distância do que estava sendo proposto, como se não acreditassem que poderiam realizar um trabalho diferente, como se não fossem capazes. Alguns alunos comentaram que a professora titular só pedia para que fizessem desenhos para pintar. Por este motivo pensei em uma atividade inicial que motivasse a turma.


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Logo que soou o sinal para o início da aula eu já estava em frente à sala. Os alunos abriram a porta para ir para a rua e quando me viram exclamaram: “Mas já professora, para que a pressa!” Passei uma lista com seus nomes para que eles assinassem a presença para a chamada não tomar tempo da aula, a titular não apareceu. Quando tentei iniciar a aula todos estavam em constante conversa, alguns alunos de pé na classe dos colegas. Decidi não gritar, fiquei em frente ao quadro em silêncio esperando que eles percebessem que a aula já havia começado. As outras professoras, quando soa o sinal para o início da aula, ainda ficam um tempo na sala dos professores, possibilitando a turma se dispersar pelos corredores. Percebi que eles não estavam acostumados com o meu ritmo. Logo todos perceberam que eu estava esperando para iniciar as atividades e uns reprendeeram os outros para ficarem em silêncio. Consegui então dar início à aula. Comecei retomando o que havíamos falado na última aula sobre o trabalho de Vik Muniz. Perguntei quem lembrava do assunto e o que acharam do trabalho do artista. Todos gostaram, alguns disseram que ele parecia um pouco maluco. Questionei se eles acreditavam que poderíamos realiza hoje alguns trabalhos com a mesma proposta do artista, realizando retratos com materiais diversos, como grãos, linhas, clips, etc. Todos responderam: “Capaz professora!” “Não tem como, o cara tem o dom!” Então consegui o que precisava deles para a atividade inicial. Pergunto à turma porque eles acreditavam que o artista tinha um dom para realizar aquele trabalho? Os alunos responderam: “Porque a gente não sabe fazer, a gente não tem o dom!” Como já imaginava que a conversa iria por este caminho eu tinha me preparado, levei pirulitos com um recorte de papel colado que continha a palavra “Dom”. Pedi para que todos fechassem os olhos e estendessem a mão, apaguei as luzes e distribui um pirulito para cada aluno. Quando acendi as luzes todos disseram: “Que papel é este aqui?” “É a marca do pirulito?” Respondi à turma que se eles acreditavam que só quem tinha um dom poderia realizar trabalhos diferenciados e criativos como o artista que havíamos conhecido, então não faltava mais nada, todos já haviam recebido o dom. Para pesquisadores americanos o dom não existe, mas um potencial que o indivíduo desenvolve com treinamento e dedicação, como salienta a reportagem realizada pela revista Super Interessante (2000) onde pesquisadores analisaram músicos brasileiros e


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americanos para avaliar se existiria realmente o dom: “Agora a Ciência está descobrindo, tal como no caso do maestro brasileiro, que o ouvido absoluto não é um dom divino, mas algo que pode ser adquirido por meio de treinamento, desde que feito na infância.” A reportagem se refere a ter o dom para a música, e afirma que na verdade todas as pessoas podem desenvolver habilidades com treinamento constante. Assim como na música a arte também não precisa de um dom para ser desenvolvida, basta treinamento e dedicação para desenhar, pintar, ou cantar. Portanto acreditar que a dedicação, concentração e o treinamento, podem levar a realizar um bom trabalho, é importante para incentivar os alunos a arriscarem mais, participarem e não desistir antes de tentar. Os alunos ficaram surpresos exclamaram: “Ah professora, agora falta a habilidade!” Respondi que não há nada que com muita dedicação e estudo não seja possível realizar. Senti que a turma ficou pensativa, alguns sorriram, outros franziram a testa. Distribui uma lâmina para cada aluno e instalei o retroprojetor. Pedi para que a turma realizasse um autorretrato ou um retrato do colega utilizando materiais diversos que havia solicitado na última aula, como grãos, linha, palitos, grampos, clips, alfinetes, botões, etc. Alguns alunos não haviam trazido o material, então distribui alguns potes de grãos de lentinha, arroz e pipoca, juntamente com pedaços de linha de tricô e crochê. Todos ficaram empolgados e perguntaram se podiam trocar os materiais com os colegas para misturar na imagem. Expliquei que poderiam usar quantos materiais quisessem em uma mesma imagem e poderiam fazer grupos para dividir o material. Um aluno gritou: “A professora Maria Edite nunca faz essas aulas legais com a gente, é só desenho para pintar!” A turma ficou esperando uma resposta minha, mas decidi não comentar a exclamação do aluno.


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Trabalho de um aluno. Fonte: VARGAS, 2010.

A turma realiza o trabalho com entusiasmo, me chamam para mostrar como está ficando, para perguntar se está bom, se pode desenhar o boné do colega, etc. Passo pelas mesas incentivando os alunos, elogio, registro com fotografias o andamento do trabalho. Sinto uma enorme satisfação de ver uma turma de trinta e dois adolescentes quase do meu tamanho concentrados realizando o trabalho. Solicitei para que os alunos que já haviam terminado colocassem seu trabalho no retroprojetor. Os alunos se aproximam na parede a qual estava sendo projetadas as imagens. No primeiro trabalho o aluno explica que desenhou a colega do lado, então pergunto à turma o que eles acharam de ver a imagem refletida e pessoalmente na mesa do colega? Eles respondem: “Ficou tudo preto, não aparece a cor dos grãos que eles usou!”


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Trabalho de um aluno projetado na parede. Fonte: VARGAS, 2010.

Comento que podemos perceber que a imagem refletida não tem as mesmas características do que vista pessoalmente porque são apenas sombras, e se o aluno desorganizar a colocação dos grãos a imagem nunca vai ficar exatamente igual, mesmo se realizada pelo mesmo aluno e com os mesmos materiais. As imagens que levo para a turma conhecer o trabalho dos artistas nunca representam exatamente o que seria a obra vista pessoalmente, a textura, o volume, as linhas vistas pessoalmente sempre causam uma nova sensação ao expectador. Com a fotografia foi possível que as obras de arte fossem vistas por mais pessoas ao mesmo tempo, o que serve para divulgar o trabalho do artista. Sem a fotografia não seria possivel conhecer uma obra de arte que estivesse em um museu em outro país, a menos que fossemos até lá. Percebo que a turma presta atenção no que estou explicando, todos ficam em volta do retroprojetor, queriam conhecer o trabalho dos colegas de perto. Nos próximos trabalhos sigo questionando as soluções encontradas por cada aluno para realizar a atividade. Alguns preferiram realizar um contorno com os grãos, outros preencheram a lâmina com os materiais e afastaram com o dedo as linhas que gostariam de criar. Questiono as diferenças entre um trabalho e outro, o quanto as linhas que aparecem na imagem projetada, dão a impressão de ser realmente o que são, como eles percebem as


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diferenças pelos tamanhos dos grãos que formam as linhas, e o que significa um olho, ou uma boca.

Imagem do trabalho de um aluno refletido na parede com o auxílio do retroprojetor. Fonte: VARGAS, 2010.

A aula passa muito rápido, quando soa o sinal para o recreio, a maioria da turma permanece na sala para ver o resultado do trabalho dos colegas. A cada imagem projetada fotografo com a minha máquina. Alguns alunos pedem para que eu mande por e-mail, fotografo os trabalhos que faltam e libero a turma. Como a professora titular não apareceu procuro a diretora e mostro as fotografias da aula. Ela pede que grave em um CD para ficar arquivado na escola. Ela não comenta o que aconteceu para a professora titular não ter comparecido à aula hoje. Não me preocupo de estar sozinha na sala, até prefiro, mas a professora me cobra sempre a lista de presença dos alunos e o conteúdo que foi realizado. Chego em casa e logo vou enviar algumas fotografias da aula para os alunos. Fiquei realmente muito satisfeita com o resultado, percebi que é possivel cativar a atenção dos alunos com atividades simples, porém diferenciadas. Assim eles realmente participam. A turma tinha trinta e dois alunos presentes e todos realizaram a atividade, do mais concentrado, ao mais agitado da turma. Acredito que esta tenha sido a melhor aula até o momento, onde pude sentir a resposta positiva dos alunos e o entusiasmo em realizar as atividades.


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5.6. AULA 05

PLANEJADO DATA: 11/05/10 TEMA: Fotografia e Arte educação. DURAÇÃO: hora/aula, período de 45 mim. OBJETIVOS: • Conhecer o trabalho da fotógrafa Hanna Höch. • Refletir sobre a importância do registro fotográfico. • Analisar imagens fotográficas. • Discutir sobre a fotomontagem a partir do trabalho da artista. CONTEÚDOS: • Fotomontagem. • Arte antes e depois da fotografia. • Recorte e colagem. METODOLOGIA: Expositiva dialogada, trabalho em grupos. DESENVOLVIMENTO: Discutir sobre fotomontagem e a as possibilidades de construir uma imagem através da fotografia digital. Apresentar imagens de Hanna Höch com o auxílio do notebook, em Power Point. Discutir a vida e obra da artista sua influência com o Dadaísmo, e suas obras de fotomontagens, relacionar com o período histórico pelo qual a artista passava na Alemanha. Discutir a arte antes e depois da fotografia.


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Discutir sobre a manipulação das fotografias, comparar com o processo de documentação da historia através das imagens. Questionar a veracidade de uma imagem, considerando que atualmente uma fotografia pode ser facilmente manipulada, podendo manipular a formação da opinião pública. Solicitar que os alunos realizem a terceira pagina do jornal, com uma fotomontagem com o auxilio de recortes de revistas, um retrato do colega, o aluno pode fotografar o colega com seu celular para auxiliar na realização do trabalho. RECURSOS: Notebook, arquivo de imagens da artista, revistas, folhas de papel jornal, cola, tesoura.

REALIZADO Na quinta semana, logo que cheguei na escola a professora titular me chamou na sala em que ela estava em aula para pedir que até a semana seguinte as notas estejam prontas. Me surpreendi, pois no início do projeto ela havia me dito que eu deveria entregar as notas na última semana de maio. Fiquei sem saber o que fazer, pois ainda não conheço os alunos pelo nome para avaliá-los à distância apenas com trabalhos que eles venham a me entregar. Pois como eu só tenho um período de aula até então não tinha material suficiente para fazer isto, sem contar que são trinta e sete alunos! Mas não tinha jeito, a avaliação tinha que ser entregue até dia 18 de maio. E valeria cinco pontos, pois o restante da pontuação ela já havia avaliado. Na aula de hoje eu havia planejado realizar um trabalho de experimentação com mais calma, mas como não tinha mais tempo tive que improvisar, considerando que a avaliação precisava ser feita de qualquer maneira. Carlos Henrique Habe (2010) Mestrando em Psicologia da Educação na PUC-SP, escreve para o endereço eletrônico Arte na Escola sua visão sobre avaliação. Sendo o principal objetivo das aulas de arte (e das demais disciplinas) a alfabetização, através da produção e leitura de um determinado texto (visual, literário, etc), a avaliação deve partir de como os alunos se apropriam dessas linguagens, observando como eles percebem e não limitando a sua percepção, acontecendo durante todo o desenvolvimento da experiência artística e também no final, mas não unicamente no final (HABE, 2010. http://www.artenaescola.org.br/pesquise_artigos_texto.php?id_m=28.Acesso em:16/05/10).


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Concordo com Habe no sentido de que a avaliação precisa ser feita observando os alunos durante todo o processo de experiências artísticas, e não somente no final do semestre. Mas como a turma é de trinta e sete alunos, em apenas 45 minutos de aula fica muito difícil conseguir observar cada um deles durante os processos de aprendizagem. Assim, a avaliação para a disciplina de arte torna-se uma tarefa complexa e que exige muito comprometimento do professor. Apresentei as imagens realizadas no retro projetor na última semana, inspiradas no trabalho de Vik Muniz. Solicitei que cada aluno identificasse seu trabalho para que eu pudesse completar o Power Point que fiz com seus nomes e facilitar a avaliação. Apresentei as imagens fotografadas comentando as diferenças entre ver uma obra de arte pessoalmente e através da mídia, questionando as diferenças e semelhanças. Alguns alunos quase não reconheciam as imagens de seus trabalhos, quando eram apresentadas as imagens das projeções na parede, apenas quando apresentava as imagens fotografadas diretamente do trabalho na mesa do aluno é que eles reconheciam, através das cores e materiais utilizados, como na projeção através do retroprojetor a imagem aparecia como uma sombra, os alunos ficaram impressionados com tamanha diferença. A discussão foi produtiva, os alunos gostaram de ver seus trabalhos através dos slides. Alguns já haviam visualizado através do arquivo que mandei por email, outros pediram cópias em CD. Em seguida apresentei o trabalho de Hanna Höck apresentando um Power Point com imagens de obras da artista e sua influência dadaísta. Comecei perguntando se eles já tinham ouvido falar sobre o Dadaísmo. Todos me responderam que nunca tem aula sobre história da arte. Achei estranho, pois a titular havia me pedido para incluir a história da arte no meu projeto, pois era um dos requisitos da escola. Como percebi que a conversa neste sentido iria tomar muito tempo e eu precisava que eles terminassem o trabalho prático para que pudesse avaliá-los durante o processo e em casa com o material, expliquei um pouco sobre o Dadaísmo, seus princípios, onde foi fundado e sobre seus integrantes. Passei para o trabalho da artista, apresentei imagens do trabalho dela comentando sua trajetória de vida, como eram realizados seus trabalhos e sobre o que significava fotomontagem. Os alunos se interessaram no assunto, fizeram perguntas, comentaram sobre as imagens. Ficaram curiosos sobre o que a arte tinha a ver com a primeira guerra mundial,


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quando comentei que o Dadaísmo, era um movimento que, como explica Carol Strickland, 2004, “muitas vezes parecia mesmo sem sentido, mas tinha um objetivo de não-sem-sentido: protestava contra a loucura da guerra” (p.148). Um aluno exclamou: “Ah professora, lá vem a senhora com aula de História de novo? O que as aulas de arte tem a ver com guerra?” Quando comentei alguns objetivos do movimento dadaísta contra a guerra e expliquei um pouco sobre o que foi a Primeira Guerra Mundial, alguns alunos ficavam me olhando atentos, pareciam que nunca tinham ouvido falar sobre a Primeira Guerra. Comentei que a extrema violência de uma guerra influenciou a arte em mostrar às pessoas novos horizontes, encarar a vida com outros olhos, bem como alertar a população e fazer as pessoas pensarem. “Os Dadaístas tinham um objetivo mais sério do que causar escândalo: queriam acordar a imaginação. Falamos de Dadá como uma cruzada para a terra prometida da Criatividade” (idem, 2004, p.148). Em seguida distribui à turma uma folha de jornal partida ao meio, revistas, cola e tesoura, pois os alunos não levam nenhum material para a aula. Solicitei que em duplas, eles retratassem o colega do lado utilizando recortes de revista, interferindo no fundo do retrato aproveitando as cores, imagens e palavras que o suporte de jornal lhes oferecia. O trabalho seria realizado com folhas de papel jornal, mas na minha cidade não encontrei este material e não tinha tido tempo para procurar em outra cidade. Alguns alunos fotografaram com o celular o colega para facilitar o trabalho, outros três alunos saíram da aula.

Alunos realizando o trabalho. Fonte: VARGAS, 2010.


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Durante o trabalho passei pelas mesas fotografando e anotando o nome de cada aluno, estava preocupada em não ser injusta na minha primeira avaliação. Alguns fizeram trabalhos excelentes vazando o rosto da figura retratada e utilizando as palavras que o jornal tinha escritas para fazer os cabelos.

Imagens dos trabalhos dos alunos. Fonte: VARGAS, 2010.

Infelizmente a aula passa muito rĂĄpido, e apesar do sinal ter anunciado o recreio, dos trinta alunos presentes, dez ficaram terminando o trabalho durante o recreio, outros entregaram sem terminar e alguns terminaram as pressas e nem colocaram o nome.


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Imagem dos alunos com seus trabalhos. Fonte: VARGAS, 2010.

Cheguei em casa com os trabalhos e fui tentar avaliar alguma coisa para não esquecer do andamento da aula. Utilizei os slides da semana anterior como parte da nota, estipulando três pontos para o trabalho sobre as lâminas inspirado em Vik Muniz e dois pontos para este último trabalho sobre fotomontagem. Foi difícil, pois alguns alunos faltaram em uma ou outra aula, e os que não faltaram não participaram da aula de hoje. Utilizei a chamada que tinha elaborado para analisar a assiduidade dos alunos, julguei o interesse, e a participação durante os trabalhos e tentei colocar isto em números. Não me senti no direito de zerar a nota de alguns alunos que não estavam na aula de hoje, devido aos últimos trabalhos que eles participaram, tentei avaliar as aulas como um todo, mas confesso que se fosse uma prova com peso integral, seria bem mais fácil!


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5.7. AULA 06

PLANEJADO DATA: 18/05/10 TEMA: Fotografia e Arte educação. DURAÇÃO: horas/aula, período de 45mim. OBJETIVOS: • Construir ilustração de uma reportagem. • Discutir a fotografia enquanto arte. • Refletir sobre como era a arte antes da fotografia. CONTEÚDOS: • Recorte e colagem. • Desenho e pintura. • O impacto de uma imagem fotográfica. METODOLOGIA: Trabalho em grupos, discussão sobre a arte antes da fotografia, trabalho prático individual. DESENVOLVIMENTO: Discutir sobre fotomontagem e o processo de construção de uma imagem a partir de outras imagens. Em grupos, construir uma imagem através de desenho, e/ou colagem de revista a partir de uma reportagem extraída de um jornal local, distribuída pela professora, em folha de tamanho A3. Relacionar o trabalho de Hanna Höch com fotomontagem à construção de uma imagem para um jornal. Questionar a manipulação de imagens pela imprensa.


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Discutir o impacto de uma imagem para a imprensa e o quanto a fotografia possibilitou o registro instantâneo de um acontecimento. Questionar como eram as publicações antes da fotografia, como a arte representava uma reportagem antes da fotografia, a quem pertencia este ofício de ilustração de revistas e jornais. Solicitar a organização destas imagens para a formação de um jornal. RECURSOS: Revistas, colas, tesouras, lápis de cor, giz de cera, canetas hidrocor, folhas de papel jornal A3.

REALIZADO Nesta semana percebi que a turma já está se acostumando com o meu ritmo, e eu com o deles. Ao entrar na sala eles já estão me esperando, o que normalmente não acontecia. Espero uns minutos até que a turma se acalme, enquanto isto passo a chamada e escrevo alguns avisos no quadro para o material da próxima aula. Aos poucos a turma se acalma e vão chamando a atenção dos colegas. Relembro o que estudamos na semana passada através de questionamentos. Pergunto se eles se lembram o nome da artista, qual o movimento que influenciou seus trabalhos? O que é fotomontagem? Conforme os alunos vão respondendo escrevo no quadro em tópicos. O nome da artista ninguém lembrou, mas o movimento dadaísta e a influência da Primeira Guerra Mundial que havíamos comentado, sim. Questionei sobre a influência da fotografia na imprensa, para o registro histórico de acontecimentos. Levantei questionamentos sobre a fotomontagem realizada por Hanna Höch e as possibilidades de se construir uma imagem com os recursos atuais. Perguntei à turma se hoje eles gostariam de fazer uma fotomontagem de alguém e como eles fariam. A maioria me respondeu que usaria o photoshop. Através destes comentários, questionei quanto à veracidade de uma imagem, até que ponto poderíamos considerar uma imagem publicada em um jornal ou revista é real. Um aluno me respondeu: “É muito fácil copiar uma foto do Orkut de alguém e montar com outra pessoa e dizer que é verdade! Se a montagem foi bem feita!” Através deste


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comentário a turma começou a falar (todos ao mesmo tempo) questionando o aluno se ele já havia feito isto. Ao conseguir falar novamente expliquei a proposta de trabalho do dia. Solicitei à turma que formassem duplas. Distribui para cada dupla uma folha de papel jornal tamanho A3. Um aluno de cada dupla foi a minha mesa escolher a reportagem de um jornal local que havia levado (já recortada). Pedi para que as duplas se imaginassem como profissionais de uma empresa jornalística que recebeu uma matéria e precisavam ilustrar para publicar na edição do jornal do mês. Um aluno levantou a mão e disse: “Mas se eu trabalhasse como jornalista eu ia tirar uma foto dos artistas para publicar no jornal e não desenhar!” Concordei com o aluno sob o ponto de vista que um jornalista faria uma fotografia sobre a matéria, mas se ele fosse este jornalista e não tivesse uma máquina fotográfica o que ele faria? Ele respondeu: “Ah, sora aí eu teria que desenhar!” Após esclarecer as dúvidas sobre a proposta a turma começa a realizar o trabalho. O objetivo era que eles conseguissem criar uma imagem através de uma reportagem, proporcionar ao grupo a sensação de como seria a nossa vida sem a fotografia. Maria Helena Paes, Geni Rosa Duarte e Camilo Vanuch, comentam na Coleção Êxodos sobre o quanto a fotografia está presente na nossa vida, formando uma civilização da imagem, ou seja, uma sociedade que percebe o mundo através de imagens fotográficas:

Desde a invenção da fotografia, no século passado, o mundo passou a viver numa “civilização da imagem”. Essa representação penetra todos os meandros da vida diária, e seria difícil pensar em nosso cotidiano sem ela. A imagem incorporou-se também nos meios de comunicação, de tal maneira que hoje é quase impossível imaginar uma revista ou jornal que prescinda dela (PAES, 2000, p.50).

Os autores comentam o quanto a imagem é importante, ao mesmo tempo em que se tornou imprescindível para a imprensa, é preciso abordar em sala de aula o olhar crítico, perceber a realidade a sua volta e discernir até que ponto uma imagem está influenciando positivamente. “Ao realizar um trabalho com jornais, é necessário que o professor traga esses questionamentos a seus alunos. Afinal se existe uma intencionalidade ao escrever um texto, o mesmo se pode dizer com a escolha das fotos” (idem, 2000, p.50).


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Como todas foram extraídas de um jornal local, eram notícias familiares à maioria da turma. Como poucos alunos haviam trazido material para desenhar, distribui para as duplas canetas hidrocor, lápis de cor, giz de cera, tinta guache e pincel. Alguns alunos só desenham utilizando régua, outros fizeram um rascunho a lápis em folha de ofício.

Imagem do trabalho dos alunos. Fonte: VARGAS, 2010.

A aula segue tranquila, passo pelos grupos esclarecendo perguntas. Nesta semana nenhum aluno saiu da sala no meio da aula. A direção havia me avisado antes de entrar na sala, no mesmo dia, que descobriram que alguns alunos estão saindo da sala para usar drogas, e que já haviam marcado uma reunião com os pais. A vice diretora se colocou à disposição para o que eu precisasse. Ela pediu para que eu fizesse uma exposição na escola com os trabalhos deles ao término do projeto. A maioria das dúvidas dos alunos é saber se o que estão fazendo vai ficar bonito. Esclareço que não importa se vai ficar bonito aos olhos da turma ou não, o que importa é a criatividade deles. Como são reportagens que eles conhecem, eles podem criar personagens diferentes, reinventar o cenário, aproveitar ao máximo o espaço da folha, sem medo de errar.


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Uma das perguntas era se poderia misturar (na pintura) lápis de cor e tinta tempera, ou se poderiam escrever algumas palavras junto aos desenhos. Concordei com todas as sugestões e solicitei que a turma não precisava correr na elaboração do trabalho, que nós poderíamos terminar na próxima aula. Muitos alunos já estavam reclamando que não iria dar tempo, que se pintassem com tinta não iria secar. Percebi que o fato de faltar tempo estava fazendo com que eles terminassem as pressas os trabalhos sem se preocuparem em explorar mais o processo. Um dos grandes problemas que estou encontrando nesta turma, e acredito que é um problema que se repete em muitas escolas nas disciplinas de Artes, é a dificuldade de que os alunos consigam começar e terminar um trabalho em tão pouco tempo. O processo criativo dos alunos se desenvolve em um período de tempo diferente, enquanto alguns demoram para pensar o que vão fazer, e ainda fazem rascunhos com medo de errar, outros são mais rápidos, desenham direto sobre o papel, e usam mais a borracha para corrigir o que consideram errado. Portanto, em um período de aula, fica quase impossível fazer com que os alunos experimentem mais os materiais, explorem suas possibilidades, e concluam seus trabalhos dentro do tempo limite.

5.8. AULA 07

PLANEJADO DATA: 25/05/10 TEMA: Fotografia e Arte na educação. DURAÇÃO: hora/aula, período de 45 mim. OBJETIVOS: • Conhecer o trabalho da artista Cindy Sherman. CONTEÚDOS:


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• Autorretrato. METODOLOGIA: Expositiva dialogada, discussão em grande grupo. DESENVOLVIMENTO: Apresentar imagens de Cindy Sherman, com auxilio do PawerPoint. Discutir sobre o processo de autorretrato através da fotografia. Discutir a ideia de se interpretação no trabalho da artista, como a fotografia é utilizada para dar sentido a um personagem criado pela artista. Discutir sobre enquadramento, tipos de fotografia, close, plano americano, etc. Solicitar que os alunos tragam roupas, acessórios, e objetos, para se fotografarem na próxima aula. Como tema de casa os alunos deverão se fotografar com seus celulares e apresentar na próxima aula. RECURSOS: Data show, imagens da artista.

REALIZADO O planejado para a sétima aula não aconteceu exatamente como havia imaginado ao elaborar o projeto, mas de certa forma as mudanças aconteceram para melhor. Devido ao convite para exposição na Casa de Cultura da cidade, o projeto recebeu também o convite para realizar uma exposição em uma grande empresa da cidade que possui uma sala de exposições e apóia a cultura. A empresa Duratex, tem sede em São Paulo, e por intermédio da diretora da Casa de Cultura ficou sabendo do projeto e decidiu receber nossa exposição. Por este motivo percebi que precisava dar um pouco mais de atenção ao processo de construção do jornal, levei para a sala folhas tamanho A1 de papel jornal e dividi a turma em três grupos. Após uma discussão retomando o que havia sido aprendido até o momento os alunos terminaram o trabalho da última aula de construção de imagem a partir de uma reportagem de jornal, e começamos a montagem do jornal da turma.


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Distribui a cada grupo um dos trabalhos que havíamos realizado em aula, ou seja, o grupo primeiro grupo recebeu novamente as peças do quebra cabeças sobre a história da fotografia, juntamente com imagens impressas em papel jornal relacionadas aos textos do quebra cabeças. O segundo grupo recebeu os retratos realizados com recorte e colagem inspirados no trabalho de Hanna Höch. O terceiro grupo recebeu todos os desenhos realizados a partir das reportagens dos jornais locais realizados na última aula. Expliquei que cada grupo estaria montando uma parte do jornal da turma, como se os alunos recebessem imagens e precisassem publicá-las organizando em um jornal e agregando sentido a cada uma das imagens. Passei em cada grupo auxiliando no processo e respondendo a perguntas dos alunos.

Imagem dos alunos montando as páginas do jornal da turma. Fonte: VARGAS, 2010.

Comentei sobre a influência da fotografia para as publicações de jornais e revistas, sobre o impacto da imagem fotografada e a velocidade de reprodução que a evolução deste processo proporcionou, neste sentido a fotografia passa a fazer parte de um marco histórico para a sociedade em geral, enquanto as publicações de jornais e revistas do século XVIII precisavam reproduzir imagem através de gravuras ou pintura, com a chegada da fotografia a velocidade de divulgação e impressão de uma imagem contribuiu para que os jornais e revistas se utilizem cada vez mais de uma imagem para complementar um assunto ou mesmo representá-lo. Como dizem os fotojornalistas: “uma imagem vale mais do que mil palavras”.


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Quanto a importância da fotografia e as transformações e ela ocasionou na história da imprensa escrita como na vida das pessoas, a Coleção Êxodos comenta com o texto de Tereza Aline Pereira de Queiroz, (2000, p.44): A arte fotográfica passou por um período de rápidas e profundas transformações a partir da segunda metade do século XIX. A possibilidade de reprodução ilimitada alterou o sentido das imagens. Até então as fotografias eram peças únicas, daguerreótipos, e os jornais e as revistas usavam gravuras. A afirmação desses periódicos como veículos de massa e a diminuição dos custos do material fotográfico propiciaram uma nova modalidade de captação e apresentação da realidade, o fotojornalismo. Curiosamente, num primeiro momento, a fotografia foi rejeitada pela imprensa de elite. Revistas e jornais populares perceberam com maior rapidez seu alcance e suas possibilidades como elemento de atração e reforço da mensagem para seus leitores.

Com estas colocações os alunos perceberam o sentido de finalizar nosso trabalho com a elaboração de um jornal da turma, que alem de ser um instrumento de comunicação em muito eficaz e contemporâneo, possibilita a aproximação dos alunos com a leitura e com o conhecimento sobre a história da arte e da fotografia. No primeiro grupo salientei a importância de retomarem tudo que aprendemos até o momento quanto a história e a importância da fotografia para a arte, comentei que eles estariam realizando a parte em que o leitor estaria se aproximando do assunto, conhecendo melhor o projeto realizado na turma, ou seja eles deveriam utilizar uma linguagem pensando que o leitor do jornal não conhece o conteúdo do projeto. Distribui canetas hidrocor preta para os grupos realizarem o trabalho escrito. No segundo grupo expliquei que os retratos que foram realizados pela turma deveriam compor as páginas do jornal de uma forma criativa, os alunos poderiam criar seções para o jornal como aniversariante do dia, página de sociais, festas, eventos, montando as imagens de forma que o leitor reconheça a ligação entre a imagem e o texto aplicado. No terceiro grupo solicitei que eles organizassem as imagens criadas a partir das reportagens por conteúdo, criando manchetes para as imagens. Um aluno me perguntou se não podia deixar uma parte para falar sobre a copa no nosso jornal, respondo que sim, e que eles poderiam trazer na próxima aula imagens de jogos de futebol e dos jogadores da seleção para realizarmos uma seção sobre este assunto.


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Durante todo o período de aula os alunos trabalharam com esta proposta, distribui tesouras, cola, lápis de cor, tinta guache, pincel, canetas hidrocor e lápis dermatográfico, para a turma finalizar os desenhos da última aula, todos participaram da proposta com interesse, alguns alunos inclusive pediram para tirar foto com seus trabalhos, nenhum aluno saiu da aula como acontecia nas semanas anteriores. Um aluno me chamou e perguntou quantos pontos eu iria considerar pelos trabalhos realizados até o momento, expliquei que o primeiro trimestre eu já havia entregue para a professora titular a avaliação no total de cinco pontos, e que os trabalhos realizados de agora em diante teriam peso maior para o segundo trimestre, mas que o mais importante além da nota seria a participação dos alunos durante as atividades, bem como a assiduidade e o interesse. A aula passa rápido, mas mesmo não seguindo meu planejamento de apresentar a fotografa Cindy Sherman, acredito que a aula foi produtiva. Ao término da aula a professora titular veio falar comigo para me oferecer uma aula dela de religião para dar continuidade no projeto se eu achasse que não teria tempo de terminar antes da exposição, aceitei principalmente porque na próxima semana dia 01/06, a escola tem conselho de classe e a diretora pediu para que eu participasse. Considero super interessante a posição tanto da direção como da professora em me convidar para o conselho, e me ceder uma aula, acredito que com a participação de todos poderemos alcançar ótimos resultados em benefício dos alunos, se todos os professores tivessem esta interação, a educação seria bem mais valorizada.


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5.9. AULA 08

PLANEJADO DATA: 07/06/10 TEMA: Fotografia e Arte na educação. DURAÇÃO: hora/aula, período de 45 mim. OBJETIVOS: • Conhecer o trabalho da artista Cindy Sherman. CONTEÚDOS: • Autorretrato. METODOLOGIA: Expositiva dialogada, discussão em grande grupo. DESENVOLVIMENTO: Apresentar imagens de Cindy Sherman, com auxilio do Pawer Point. Discutir sobre o processo de autorretrato através da fotografia. Discutir a ideia de se interpretação no trabalho da artista, como a fotografia é utilizada para dar sentido a um personagem criado pela artista. Discutir sobre enquadramento, tipos de fotografia, close, plano americano, etc. Solicitar que os alunos tragam roupas, acessórios, e objetos, para se fotografarem na próxima aula. Como tema de casa os alunos deverão se fotografar com seus celulares e apresentar na próxima aula. RECURSOS: Data show, imagens da artista.


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REALIZADO Nesta semana a professora titular me cedeu a aula de Religião que ela ministra na segunda-feira para recuperar a semana anterior que não teve aula devido ao conselho de classe. A aula acontece no último período da noite, seguida da aula de História. Logo que entro na sala os alunos se surpreendem: “Ué professora, fizeram um brique?” pergunta um menino. “O que a gente vai fazer hoje sora, dá pra terminar o jornal?” Respondo que iremos conhecer o trabalho do último artista do projeto, e na próxima aula terminaremos o jornal. Solicito para que os alunos se reúnam próximo a uma mesa diante do quadro onde apresento imagens de Cindy Sherman. Comento sobre a vida da artista e sua trajetória como fotógrafa e artista. Os alunos ficam curiosos, comentam sobre as fotografias, perguntam se ela está fazendo este tipo de trabalho hoje em dia, comentam que ela parece uma pessoa diferente em cada fotografia. Explico que o objetivo da artista e provocar as pessoas a pensarem e encontrarem algo de si mesmas no resultado de seu trabalho. Distribuo duas folhas xerocadas para cada aluno, uma com um resumo sobre o trabalho da artista e outra com os tipos de fotografia. Esclareço sobre as preocupações que tem o artista ao realizar uma fotografia, o ângulo, o cenário, a produção do modelo, comento sobre três tipos de fotografias: plano americano, close e corpo inteiro apresentando imagens dos trabalhos da artista. Em seguida organizei uma mesa no centro da sala com fantasias. Decidi adiantar esta atividade que seria da próxima semana, pois na terça-feira não teríamos aula. Pedi para que os alunos formassem grupos e alguns integrantes se fantasiassem e os outros organizassem o cenário e fotografassem com seus celulares. Neste momento os alunos ficaram eufóricos, falavam todos ao mesmo tempo, comentam sobre as fantasias, e logo se organizam para realizar as fotografias, os comentários eram os mais diversos: “Ah, esta vai pro meu Orkut!” “Professora depois me dá esta máscara?” “Iiii, maquiagem eu não uso, não!” “A gente nunca ia fazer isso com a nossa professora!”.


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Imagem dos alunos com fantasias. Fonte: VARGAS, 2010.

Assim que os grupos se organizaram com as fantasias começamos a sessão de fotos, com o auxílio da minha maquina fotográfica e dos celulares dos alunos. Um menino me perguntou: “Professora estas fotos não vão para o jornal né?” Não respondi nada, minha intenção era fazer uma pagina com as fotografias deles, mas talvez não seria uma boa ideia para não invadir a privacidade dos alunos, já que todos colaboraram e não mantiveram nenhuma objeção perante a proposta. Antes mesmo da aula terminar alguns alunos disseram que precisavam pegar o ônibus e precisavam sair mais cedo. A professora titular já havia me avisado que é difícil conseguir segura-los na sala até o término da aula devido a relação com as drogas que alguns meninos têm, eles saem mais cedo para vender ou comprar drogas.


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Imagem dos alunos. Fonte: VARGAS, 2010.

Assim que terminamos de realizar as fotografias liberei os alunos. Faltavam poucos minutos para o sinal, alguns ainda ficaram me ajudando com a organização da sala e do material. Um menino me pediu para levar a mascara, outro a gravatinha que havia trazido. Liberei o material, pois fiquei satisfeita com o interesse do grupo mesmo percebendo os problemas que temos que enfrentar com as drogas, e a aula sendo no último período, percebi que grande parte da turma estava presente, saindo apenas depois do término das atividades. O planejamento contemplava apenas a apresentação do trabalho da artista nesta semana, mas achei pertinente incluir a atividade da semana seguinte, pois a turma não terá outra aula nesta semana como havia imaginado que teria a aula de terça-feira, dia 8 de junho, devido a atividades da olimpíada de matemática que a escola participa.


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5.10. AULA 09

PLANEJADO DATA: 15/06/10 TEMA: Fotografia e Arte na educação. DURAÇÃO: 2 hora/aula, período de 45 mim. OBJETIVOS: • Organizar o jornal da turma. • Analisar imagens realizadas pelos alunos na aula anterior. • Discutir sobre a utilização de objetos variados na criação de uma imagem, registro fotográfico e na arte. • Discutir sobre a construção de um personagem e o registro fotográfico. • Questionar a veracidade da imagem fotografada. • Discutir a influência das imagens fotografadas na formação da opinião pública e na vida das pessoas. • Discutir como uma imagem contribui para transmitir uma informação. CONTEÚDOS: • Jornal da turma. • A fotografia como registro de personalidade e interpretação. • Pintura. • História do jornal impresso. • História da utilização da fotografia em jornais. METODOLOGIA: Expositiva dialogada, trabalho em grupos.


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DESENVOLVIMENTO: Apresentar as fotografias realizadas na aula anterior. Discutir o que elas representam, o que sentem em relação a obra que realizaram, como foi possível revelar a personalidade dos alunos através das fotografias. Discutir sobre o processo de criação do jornal impresso, a influência da imagem fotografada para a formação da opinião pública. A imagem como transmissora de informação, a evolução do processo de construção e divulgação da imagem fotográfica. A evolução jornalismo impresso desde o início da utilização de imagens ate a notícia sendo transmitida através da Web. Continuar o trabalho de construção do jornal da turma. Propor a escolha de um nome para o jornal. Solicitar que os alunos realizem um autorretrato utilizando elementos presentes na obra dos três artistas, Vik Muniz, Cindy Sherman, e Hanna Höch em folhas tamanho A4 de papel jornal. Os alunos devem trabalhar com materiais diversos, expressar sua personalidade através do trabalho, seus sonhos, medos, objetivos para o futuro, com recorte e colagem, pintura, etc. Lembrando que esta será a ultima página do jornal da turma. RECURSOS: Fotografias, notebook, celulares, folhas A4 de papel jornal, lápis preto ou caneta, canetas hidrocor, tinta guache, giz de cera, lápis dermatográfico, lápis 6B, etc.

REALIZADO Nesta semana a diretora me surpreendeu ao telefonar às 7horas e 15 minutos, pedindo se eu poderia ministrar duas horas de aula hoje, pois uma professora havia faltado. Concordei, até porque em dois períodos a aula pode se desenvolver com mais tranqüilidade, mas eu deveria estar na escola em apenas trinta minutos. Este foi o primeiro desafio do dia, sair correndo e tentar organizar meu planejamento para estes dois períodos.


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A turma já me esperava, a professora que estava na sala e ao sair me disse: “Hoje eles estão alvorossados! Mas vai duma vez que eles estão adorando a tua aula!” Ao entrar na sala solicitei à turma que se reunisse em frente a uma mesa no centro da sala para mostrar as imagens realizadas na última aula sobre Cindy Sherman, onde os alunos se fotografaram. Primeiramente retomei todos os artistas trabalhados até o momento, através de questionamentos fui escrevendo no quadro os nomes e pontos importantes do trabalho de cada um deles. Ao comentar sobre Vik Muniz um aluno levantou a mão e disse: “professora tá passando na abertura da novela um trabalho igualzinho ao dele!” Os colegas comentaram que haviam visto. Todos falaram ao mesmo tempo, alguns disseram: “Ah vai ver que era o mesmo, não tem como pois o cara tá lá nos Estados Unidos!” Comentei que o processo de construção do trabalho que aparece na abertura da novela é o mesmo de Vik Muniz, inclusive as imagens são mesmo de autoria do artista. Todos estavam ansiosos para ver as imagens, retomei o que estudamos, sobre tipos de fotografia, a preocupação do fotógrafo, as influências das imagens na vida das pessoas, como o fotógrafo pode selecionar as cenas para causar determinada impressão. Expliquei que as empresas utilizam imagens para influenciar aquisição de produtos, assim como nosso modo de pensar através da apresentação de imagens. Como escreve Maria Helena Paes, na coleção Êxodos, 2000: “(...) ao mesmo tempo somos bombardeados com imagens, nas revistas e jornais, na propaganda, na televisão, nos rótulos dos produtos que consumimos. São imagens fragmentadas que trazem informações, mas que também moldam e impõem hábitos e visões dos acontecimentos.”( 2000, p.50) Paes salienta o quanto a mídia, de maneira geral, influência na formação de opinião das pessoas, o quanto uma imagem pode transmitir uma informação e inclusive impor a um determinado público alvo um conceito do que é bom, do que deve ser consumido, da forma que devemos pensar ou agir. Neste sentido é preciso estimular o senso crítico dos alunos, a percepção do que realmente é importante para eles, incentivá-los a filtrar as informações que interessam para eles sem permitir que suas personalidades sejam alteradas, diferenciar o quanto uma imagem pode ser interessante e ao mesmo tempo estimular atitudes e pensamentos. Um aluno levanta a mão e diz: “Ah professora é que nem essa chuteira nova da Nike, só porque tá na copa, agora todo mundo vai quere comprar eles foram espertos, né!”


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A conversa tinha por objetivo esclarecer como as imagens fotográficas, e da mídia, influenciam na vida das pessoas e através delas podemos obter informações. Como em um jornal, as imagens contribuem para a transmissão da mensagem, sem as fotografias as páginas dos jornais não chamariam tanta atenção e o leitor talvez não se sentisse tão influenciado pela matéria. Para a imprensa escrita, como os jornais, a evolução do processo de construção e transmissão de imagens influenciou positivamente não somente no processo de formação da opinião pública, como também na facilidade de divulgação das imagens, como explica Paes, (2000, p. 35): [...] Não só uma agência de notícias envia suas fotos digitais para todos os conveniados em poucos segundos, como o repórter pode, da rua, enviar sua imagem para a redação do jornal, sem esperar o tempo de revelação do filme, uma foto tirada às 22 horas pode ser publicada na edição do jornal do dia seguinte.

Ou seja, as imagens atravessam fronteiras do pensamento humano, moldando opiniões, divulgando informações e influenciando atitudes, desta forma precisamos aprender a perceber as diversas possibilidades que uma imagem apresenta. Apresentei as imagens fotográficas realizadas na última aula enquanto questionava os alunos sobre a atividade e levantavam questões sobre a importância do registro fotográfico, e como ele pode manipular o sentido da realidade. Nas fotografias todos estavam fantasiados, usavam acessórios, óculos, chapéus, representavam suas personalidades, como atores, reinventando o modo de ver a sua própria imagem. A turma ficou exaltada ao ver as imagens, riam e comentavam sobre os colegas. Alguns comentavam que já haviam visto pelo e-mail, outros pediram para eu gravar em um cd para ficar com eles. Um aluno ficou envergonhado e queria sair da sala, pois os colegas estavam ironizando por ele ter fotografado com óculos e acessórios cor de rosa. Passei as imagens rapidamente e prossegui com o planejado para evitar mais comentários desagradáveis, comentei que não era motivo para ironia, afinal o trabalho tinha o objetivo utilizar fantasias, não necessariamente representando sua personalidade, mas reinventando, criando personagens.


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Em seguida distribui uma folha fotocopiada com uma breve história sobre o jornal impresso e o surgimento da fotografia nas publicações de jornais. Comentei sobre o assunto, e destaquei a influência que a imagem fotográfica causou desde o século XVI com a ascensão do jornalismo impresso. SEGUNDO PERÍODO Após estes comentários distribui os jornais que havíamos começado há duas semanas para que fossem concluídos. Alguns alunos justificaram que já haviam feito a parte deles. Então aproximei duas mesas no fundo da sala, coloquei uma folha A4 de papel jornal e pedi para que cada aluno, que, utilizando o processo de construção dos artistas trabalhados até o momento, realizasse sua assinatura em forma de imagem no papel, utilizando materiais diversos. Sobre outra mesa distribuí tintas guache, pincel, canetas hidrocor, giz de cera, revistas, tesouras, colas, canetas hidrocor, lápis 6B, lápis dermatográfico, para que os alunos realizassem um registro utilizando o que conheceram até o momento para a última página do jornal. Um aluno disse: “Professora posso usar uma coisa só pra fazer o meu desenho, é que estes artistas usavam várias coisas misturadas, mas eu quero fazer só de tinta!?” O aluno não queria misturar os materiais, como percebi o interesse de realizar o trabalho permiti que ele escolhesse fazer só com tinta. Desta forma foi possível envolver todos os alunos na atividade. Cada grupo trabalhando seu capítulo do jornal, e alguns alunos que já consideravam sua parte concluída trabalhando na contracapa, realizando seu registro com materiais diversos. Durante esta atividade repassei imagens dos artistas trabalhados anteriormente com o auxílio do notebook para que alguns alunos relembrassem seus trabalhos. Os capítulos do jornal estavam divididos em história da fotografia, notícias gerais, através de imagens construídas a partir de reportagens extraídas de jornais locais, e um terceiro capítulo, onde os alunos iriam utilizar os autorretratos realizados com recorte e colagem sobre uma folha de jornal para montar páginas de livre escolha. Os alunos escolheram trabalhar com páginas policiais, aniversariantes do dia e fatos sociais.


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Imagens do trabalho dos alunos. Fonte: VARGAS, 2010.

Enquanto todos trabalhavam sugeri que escolhêssemos o nome do jornal da turma. Uma menina se manifestou dizendo: “Só não vamos colocar os corujinhas tá!” O nome da escola é Pereira Coruja e todas as iniciativas de grupos de apresentação de danças, corais, teatros, etc. são intitulados com esta palavra, Coral os Corujinhas, Grupo de danças Os Corujinhas, etc. Um aluno grita: “Vamo colocar os chavecantes da notícia, a gente chaveca a notícia, e publica no jornal!” Toda a turma fica agitada, rindo, mas aprovando a ideia. Sugiro que façamos uma lista no quadro com todas as sugestões e em seguida façamos uma votação. Surgiram os nomes mais variados: Informativo Pereira Coruja, Fifa Pererense, Diário Corujense, Jornal da comunidade Pereira Coruja, Jornal da Colônia Portuguesa, neste caso o aluno justificou que nossa cidade é descendente de Portugal, etc. Apesar de diversas sugestões a maioria da turma optou por Os Chavecantes da Notícia. As justificativas foram que: “Toda a informação é de certa forma um chaveco em alguém”. “Um nome diferente pra, divertir que ler.”


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A aula já estava quase acabando, quando uma menina pede licença para falar: “Professora a gente queria te fazer um convite, quer ser nossa coordenadora na gincana da escola?” A escola realiza uma vez por ano uma gincana envolvendo todas as turmas, as equipes têm que responder perguntas, realizar atividades artísticas, resolver situações problemas sugeridos pela comissão da escola. Toda a turma começa a gritar: “Aceita, aceita!” Comento que meu projeto só vai até o final do mês e a professora titular retorna a ministrar as aulas de Artes. Um aluno fala: “A gente junta um dinheiro e paga o seu salário!” Fiquei surpresa, mais um desafio para esta noite, como responder isto sem desmotivá-los. Expliquei que estou trabalhando como estagiária e certamente a direção vai exigir um professor que esteja mais tempo com eles para poder ajudar na resolução dos problemas da gincana. Mesmo com diversas justificativas, os alunos disseram que vão falar com a direção para pedir a minha participação na gincana. A aula passa rapidamente, os alunos saem assim que soa o sinal do recreio. Alguns ainda me ajudam a recolher o material, vou para casa satisfeita apesar de ser necessário fazer algumas alterações no projeto inicial, a aula está evoluindo bem, os alunos manifestam interesse, querem saber sobre como será a exposição no Museu da Cidade, se muita gente vai ir até lá ver o trabalho deles, querem receber o material por e-mail. Considero uma experiência muito gratificante até o presente momento, perceber que minhas aulas estão cativando os alunos.

5.11. AULA 10

PLANEJADO DATA: 22/06/10 TEMA: Fotografia e Arte educação. DURAÇÃO: hora/aula, período de 45 mim. OBJETIVOS:


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• Organizar o material para a exposição. • Anexar todos os trabalhos em um único jornal da turma. CONTEÚDOS: • Jornal da turma. • Fotografia como processo de documentação da história dos alunos durante este projeto. METODOLOGIA: Expositiva dialogada, trabalho em grupos. DESENVOLVIMENTO: Discutir o quanto a fotografia possibilitou a documentação da realização dos trabalhos da turma, revelou a personalidade, os sonhos e os desejos para o futuro dos alunos. Organizar todos os trabalhos dos alunos em um grande jornal da turma em folha A3. Em grupos, os alunos organizarão as matérias, cada grupo fica encarregado de uma página, organizar as imagens e o texto para determinada página. Solicitar que os alunos escolham um nome para o jornal. Organizar exposição para o lançamento do jornal, e para apresentação dos trabalhos não anexados no jornal. RECURSOS: Imagens do celular dos alunos, fotografias, trabalhos realizados nas ultimas aulas, folhas A3, cola, tesoura, etc.

REALIZADO Nesta semana a diretora da Casa de Cultura Costa e Silva, Bruna do Carmo, esteve na sala reforçando o convite à turma para a exposição do nosso trabalho no dia 06/07/10. Ela comentou a importância desta exposição, pois a casa ainda não havia recebido nenhuma turma de escola para expor seus trabalhos, e que por este motivo, a turma estaria entrando para a história da casa assim como para a história do município. Ressalta que serão


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convidadas todas as outras escolas, a Secretaria de Educação do Município, as autoridades e os jornais locais e regionais para acompanharem o evento. Percebi que os alunos ficaram empolgados com a ideia, fizeram perguntas à diretora da casa. Alguns pediram para que suas fotos não aparecessem, outros comentaram sobre o trabalho que estavam realizando. Após a saída da diretora da sala, começamos as atividades. Apresentei à turma fotografias reveladas das obras dos artistas trabalhados até o momento, como um autorretrato de Vik Muniz, uma fotografia de Cindy Sherman, e uma reprodução fotográfica da obra de Hanna Höch.

Autorretrato. Vik Muniz. Disponível em: http://www.vikmuniz.net/www/index.html. Acesso em : 22/06/10.


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Untitled, 1975. Imagem disponível em: http://www.cindysherman.com/art.shtml. Acesso em 28/03/10.

Schnitt mit dem Kuchenmesser, 1919. Disponível em: http://www.ricci-arte.biz/pt/Hannah-Hoch.htm. Acesso em: 22/06/10.


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A cada imagem apresentada eu fazia questionamentos aos alunos como: de quem era o trabalho, o que eles acharam da imagem, se consideravam arte, se gostavam ou não da imagem apresentada. Em seguida apresentei as fotografias dos próprios trabalhos deles. Os alunos ficaram surpresos de verem suas fotografias na atividade em que eles trabalhavam com a artista Cindy Sherman. Alguns riam, outros ficaram constrangidos e pediram para não mostrar para mais ninguém estas fotos. Apresentei fotografias dos trabalhos realizados no retroprojetor das reproduções na parede com materiais diversos. Questionei sobre qual artista as imagens tinham relação. Todos conseguiram relacionar os seus trabalhos com os artistas apresentados, uma aluna disse: “Ah professora, aquela aula que a gente se fantasiou, foi quando a senhora deu aula sobre a Cindy, e as fotos dos desenhos na parede são sobre o Vik Muniz!” Questionei sobre o que eles consideravam arte entre aquelas imagens, um menino respondeu: “É claro que as fotos dos artistas, né professora?” Outra menina respondeu: “Mas a gente também pode ser artista!” Comento que todas as imagens podem ser consideradas uma forma de expressão de arte, que não somente os artistas apresentados durante o projeto podem nos revelar o que é arte ou não, podemos considerar que a arte está presente no processo de construção dos nossos trabalhos até o momento, onde passamos tudo que aprendemos para um suporte concreto como o jornal. A arte faz parte da nossa cultura, como afirma Fernando Cocchiarale, fazendo referência ao pensamento de Gombrich:

Para Gombrich se não existe arte em todas as culturas – no sentido que nós conhecemos -, pelo menos, podemos dizer que todas as culturas possuem artistas. Porque mesmo em objetos cuja função não era simplesmente contemplativa, eles usaram a simetria, puseram questões simbólicas, então, ele concorda que podemos falar de artistas desde a origem do homem (COCCHIARARALE, 2006, p.44).

Cocchiarale afirma com esta frase que em todas as culturas podemos encontrar artistas, que a arte não é privilégio de alguns, apenas precisamos aprender a contemplar cada forma de arte. Os alunos ficaram surpresos: “Ah professora então a gente é artista? O nosso jornal é uma obra de arte?” Afirmo que toda nossa produção em sala de aula estaria reunida neste jornal e que a exposição seria uma forma de apresentar à sociedade que também somos artistas, pois somos capazes de pensar e produzir arte utilizado a fotografia e conceitos relacionados à arte como fotografia.


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Um menino pergunta: “Mas professora pra que toda essa gente pra ir ver a nossa exposição, daqui a pouco vão chamar até a RBS!” Comento que o nosso trabalho estava com um grande compromisso, apresentar o melhor que possamos realizar, pois estaríamos expondo no único museu da cidade, o local que residia o antigo presidente Costa e Silva, por este motivo nossa exposição estava tomando esta proporção. Distribuo os jornais para que eles continuem o trabalho, um grupo trouxe um jornal com imagens da copa do mundo e pediram para fazer um capítulo sobre este tema. Outro grupo continuou o trabalho de recorte e colagem com os trabalhos realizados na aula de Hanna Höch. Para outro grupo, que já estava terminando sua parte, entreguei as fotografias reveladas para que fizessem um capítulo no jornal sobre os artistas e os trabalhos que realizamos sobre eles.

Imagens das páginas dos jornais em construção. Fonte: VARGAS, 2010.

Percebi que os alunos ficaram bem mais motivados após a visita da diretora do museu. Sentiram a necessidade de apresentar um trabalho bem feito, chamavam a atenção dos colegas que não estavam ajudando. Uma aluna pediu para que eu ficasse com eles no último período de aula para que eles pudessem terminar o jornal, pois seria um momento que eles teriam livre para se organizarem para a gincana.


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Outra menina pediu para ir falar com o professor do quarto período para ver se ele emprestava a aula para terminar o trabalho. Assim, no último período, eles poderiam realizar as atividades da gincana. Neste momento soa o sinal para o recreio, alguns alunos ficam na sala terminando o trabalho e eu desço para falar com o professor dos próximos períodos. O professor concorda em emprestar os dois últimos períodos, pois tinha muitos cadernos de chamada para organizar. A direção pede para que eu mude de sala com os alunos, pois o segundo andar estava sendo organizado para a visita da governadora no dia seguinte. Pediram para que eu ficasse com os alunos no último período ajudando nas tarefas da gincana. SEGUNDO PERÍODO Assim que o sinal anuncia o final do recreio me dirijo à sala de aula para buscar os alunos e levá-los para outra sala. Eles ficam contentes em continuar trabalhando no jornal no quarto período. Um menino comenta: “Ainda bem professora, se não a gente não ia conseguir terminar”. A semana seguinte não terá aula de Artes, pois será a apresentação da gincana. Os alunos farão uma passeata pelas ruas da cidade com faixas e cartazes sobre o tema da gincana. Portanto, o próximo encontro será no dia da exposição. Os alunos se reúnem nos grupos para concluir o jornal. Um menino resolve escrever um texto sobre a situação do atendimento nos hospitais, tema que ele leu em um dos jornais que os colegas trouxeram sobre a copa. O grupo decide escrever sobre a situação da saúde pública do município. Um aluno pede para que as fotografias dele que serão anexadas ao jornal não levem o seu nome verdadeiro, que seja um personagem, pois ele se sente envergonhado em estar fantasiado com chapéu de palha e acessórios cor de rosa no pescoço. Comento que eles podem criar personagens, inventar nomes, escrever historias sobre os personagens, mas que ele não precisava ficar envergonhado, pois as fotografias haviam ficado ótimas. Solicito à turma que tragam para a próxima aula de Religião, que será na segundafeira, as máquinas fotográficas antigas que eles têm em casa para levarmos para à exposição, pois eu iria pedir para a professora titular um momento da aula dela neste dia para pegar as máquinas. Sugeri que decidíssemos o nome do oficial do jornal. Questionei se todos gostaram da alternativa da semana anterior: Os Chavecantes. Os alunos começam a discutir,


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um aluno levanta a mão e diz: “Ah professora, se vai ter todas estas autoridades na exposição, e jornal de tudo quanto é lugar, não podia ser esse nome, tinha que ser uma coisa mais séria, como Jornal informativo da comunidade Pereira Coruja.” Uma menina comenta: “Aí de novo vamos ser chamados de corujas!” Neste momento a turma discute, todos ao mesmo tempo. Percebo que não vamos conseguir chegar a uma decisão final agora. Resolvo deixar as coisas como estão e pesquisar mais sobre os nomes dos primeiros jornais da cidade, para conversar com eles em outra oportunidade. Queria aproveitar a motivação do grupo para realizar o conteúdo do jornal. TERCEIRO PERÍODO A aula passa super rápido, e ao sinal para o último período os dois grupos que já haviam terminado pedem para realizar as tarefas da gincana. Uma das tarefas era pesquisar uma prosa brasileira para apresentar na festa junina da escola. Outra tarefa consistia em confeccionar uma roupa com materiais reciclados para uma menina que seria eleita a rainha da equipe. A turma realizou uma votação para escolher a rainha, após ser eleita a menina precisava de uma roupa. Os alunos pedem minha opinião sobre como fazer uma roupa reciclada. Comento que o material que estamos trabalhando para a exposição poderia inspirar a roupa da rainha. Sugiro confeccionar com jornal um vestido para a rainha. Como um grupo havia trazido jornais para recortar, e eu também havia levado vários jornais com matérias sobre a copa do mundo, as meninas se reuniram e começaram a tentar fazer uma saia com as folhas de jornal e com as imagens da copa. Elas resolveram recortar e colar no centro do vestido. Os meninos tinham a tarefa de fazer uma banca de venda de rapadura para a festa junina. Neste momento solicito que façamos um circulo de cadeiras no centro da sala, onde sentamos para discutir as tarefas, enquanto uma aluna anotava tudo que fosse importante entre os comentários realizados. Os meninos achavam difícil fazer uma barraca, principalmente, porque alguns trabalhavam durante o dia e a barraca precisava estar pronta durante à tarde. Sugiro que os alunos peçam uma sala de aula que não estivesse sendo usada durante a festa e fizessem a barraca dentro da sala, utilizando as mesas e decorando com bandeirinhas. Uma menina vai


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perguntar para a diretora se a barraca pode ser uma sala de aula. A diretora acha a ideia ótima e sugere para outras equipes. Um grupo se reúne em um canto da sala para ensaiar um passo de dança para apresentar na festa. Depois que conseguimos resolver vários problemas durante a discussão no centro da sala, com a maioria dos alunos, todos pararam para assistir a dança que seria apresentada. Tratava-se de um dança caipira que teria que ser apresentada junto com o casamento caipira. A aula termina, os alunos recolhem o material e pedem para que eu esteja na festa junina da escola para ver eles se apresentando, e se possível, que eu viesse outros dias para ajudá-los nas outras tarefas. Um menino comenta: “Professora tem que ter algum pra botar ordem nessa bagunça, quando a gente se reúne não consegue decidir nada, as gurias ficam num griteiro. A senhora tem que vir mais vezes pra dar uma força que nem fez hoje.” Percebo que os alunos estão se identificando comigo, participam das aulas e querem fazer trabalhos diferentes. A turma é grande mas tem um jeito bem particular de realizar as atividades. Se eles estão motivados participam, trabalham, querem ver as coisas acontecerem. A escola tem se referido a mim “como professora” dos alunos, me convidando para o conselho de classe, solicitando a minha presença na gincana. Os alunos pedem a minha ajuda nas tarefas, sugerindo que eu seja a coordenadora deles. Percebo o quanto o apoio da Direção e Coordenação está sendo importante para o posicionamento dos alunos em sala de aula e para o bom andamento do projeto.


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5.12. AULA 11

PLANEJADO DATA: 28/06/10 TEMA: Fotografia e Arte educação. DURAÇÃO: hora/aula, período de 45 mim. OBJETIVOS: • Organizar o material para a exposição. • Escolher o nome do jornal da turma. • Apresentar os nomes dos primeiros jornais da cidade. CONTEÚDOS: •

Jornal da turma.

• A história do jornal impresso na cidade. METODOLOGIA: Expositiva dialogada. DESENVOLVIMENTO: Apresentar os primeiros jornais do município, em arquivo cedido pela Casa Costa e Silva. Discutir os nomes dos jornais e como as imagens apareciam nestas publicações. Escolher um nome para o jornal da turma. Realizar no quadro uma lista de sugestões para que os votem no melhor nome.


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Imagem do jornal local O Vagalume, 1930. Fonte: VARGAS, 2010.


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Imagem do jornal local O Vagalume, 1930. Fonte: VARGAS, 2010.

Organizar as máquinas fotográficas dos alunos para a exposição, separando por data que o proprietário adquiriu o produto e realizando pequenos cartazes para esclarecer sobre o modelo da máquina. RECURSOS: Arquivo dos primeiros jornais da cidade, máquinas fotográficas.

REALIZADO - AULA 11 Nesta semana fui até a escola para ministrar a aula de Artes na segunda-feira, no último período, como havia combinado com a professora titular, que iria me ceder a aula de


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Religião. Ao chegar à escola constatei que os alunos haviam sido liberados pela direção para realizar as atividades da gincana da escola, que terá encerramento na terça-feira. A maioria dos alunos foi embora, os que ficaram estavam na sala sem nenhum professor, pintando faixas e cartazes para um desfile no centro da cidade, que seria realizado no encerramento. Como já estava na escola decidi ficar para ajudá-los. Comentei com os alunos sobre o nome do jornal da turma, pois teríamos que decidir nesta semana, mas todos estavam voltados para as atividades da gincana. Os alunos reclamavam sobre uma atividade da gincana onde ocorreu uma irregularidade que teria prejudicado a equipe deles e beneficiado outra equipe. Um aluno me pediu para ajudar a escrever uma carta de reclamação à direção para pedir para rever uma situação onde eles consideravam que haviam sido prejudicados. Tive que encontrar uma maneira de contribuir com a equipe sem afrontar a direção, buscar um equilíbrio entre orientar os alunos para a realização das tarefas da gincana e tentar captar alguma coisa deles para o nosso jornal. Como comenta Cecilda Zorzo, 2004: “É na vivência do equilíbrio crítico e reflexivo que se constrói a harmonia das possibilidades mediadoras de situações das mais diversas” (p.248). Percebi que nesta situação nada do que eu havia planejado estava apropriado para esta aula. Resolvi, como comenta Zorzo, buscar um equilíbrio diante desta situação, li a carta que o aluno escreveu, corrigi alguns problemas de ortografia, orientei para que a carta fosse um convite à direção para conversar sobre o assunto e não uma reclamação. A aula termina quando acabam as atividades, e quase sem ninguém na escola antes do término do período vamos embora.


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5.13. AULA 12

PLANEJADO DATA: 29/06/10 TEMA: Fotografia e Arte na educação. DURAÇÃO: hora/aula, período de 45 mim. OBJETIVOS: • Apresentar o jornal da turma. CONTEÚDOS: • Fotografia. METODOLOGIA: Expositiva. DESENVOLVIMENTO: Visita ao museu, abertura da exposição na Casa de Cultura Municipal. Entrega do trabalho da turma para exposição. RECURSOS: Jornal da turma, autorização para saída dos alunos até a Casa de Cultura Costa e Silva e materiais para a exposição.

REALIZADO Na última aula levei a turma para expor os trabalhos no museu da cidade, a Casa Costa e Silva. Juntamente com a diretora da casa organizei o local para a exposição. Na entrada os convidados foram recepcionados com um coquetel, as autoridades do município foram chamadas, assim como a direção da escola e os jornais locais. Assim que o local estava pronto fui à escola buscar os alunos. Enquanto esperava que todos chegassem, expliquei à turma como estava organizado o local da exposição e solicitei que respondessem um questionário de avaliação sobre o projeto. As perguntas faziam


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referência às atividades propostas, ao conteúdo e ao desenvolvimento da aula pela professora estagiária, tais como: Como você avalia o conteúdo trabalhado em aula? Como você avalia as atividades propostas durante o projeto? Como você avalia o desenvolvimento das aulas pela professora estagiária? Dos trinta e sete alunos matriculados vinte e nove responderam ao questionário. O resultado da entrevista está no gráfico a seguir:

Gráfico do grau de satisfação dos alunos diante do projeto.

A maioria dos alunos considerou os conteúdos trabalhados, as atividades propostas e a desempenho da professora estagiária, muito bons. Nenhum aluno escolheu a opção insuficiente como resposta para as perguntas dos questionários. As respostas foram apresentadas aos alunos em forma de “smiles”. Antes de nos dirigirmos ao museu para fazer a abertura da exposição, convidei a direção da escola para nos acompanhar. A professora titular não pode acompanhar os alunos na exposição, pois tinha aula no mesmo período com outra turma. A coordenação da escola sugeriu que a turma em questão também fosse com os demais alunos na abertura da exposição. Assim a professora titular poderia nos acompanhar. Mas mesmo assim ela titular não quis, pois estava com o conteúdo atrasado. Mesmo acompanhada somente pela vice diretora da escola, encaminhei os alunos até o museu. Logo na chegada fomos recebidos pela diretora da casa que iniciou a cerimônia


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de abertura. Ela agradeceu a presença de todos e colocou a casa à disposição para novas exposições. Afinal esta é a primeira exposição de uma escola na casa. Após, ela passou a palavra à coordenadora de educação do município, que agradeceu o convite parabenizou a iniciativa da casa de acolher esta amostra. Em seguida a diretora da escola chega e é convidada a falar. Ela comenta o quanto o projeto desenvolvido com a turma foi satisfatório. Agradeceu o meu empenho e dedicação durante o período de estágio. Principalmente por estar presente durante as atividades da gincana da escola, parabenizou os alunos, comentou que a turma é uma das maiores da escola, por ter trinta e sete alunos matriculados e todos adolescentes, enfatizando o quanto foi um desafio conseguir cativar o interesse deles. A vice diretora complementou o discurso da diretora, com elogios aos alunos e ao desenvolvimento do projeto. A próxima pessoa a falar foi um vereador que representava a Câmara de Vereadores, que em poucas palavras, incentivou outras iniciativas como esta. Em seguida uma aluna foi convidada a falar sobre o projeto. A aluna Carolina foi a representante escolhida pela turma. Ela comentou que para a turma foi muito satisfatório participar deste projeto. Explicou como foi realizado o trabalho no decorrer destes três meses e o quanto a turma gostou de realizar este trabalho. Segundo ela todos sentirão muitas saudades da professora estagiária. Totalmente lisonjeada pelos elogios declarados ao meu trabalho, eu agradeci a todos os alunos. Comentei que todos têm um potencial enorme e que o projeto só foi possível graças a colaboração de todos, inclusive da direção e coordenação da escola, que sempre esteve à disposição durante o período de realização do projeto. Com o auxílio do uma aluna, entrego flores às autoridades presentes, bem como à diretora da casa e à diretora e vice diretora da escola, agradecendo em nome de todos os alunos pela oportunidade de apresentarmos o nosso trabalho. A última pessoa convidada a falar foi o prefeito que agradeceu a todos. Elogiou o trabalho e declarou aberta a exposição. Após o seu discurso, todos se dirigiram à sala de exposições, onde o trabalho estava organizado. Os jornais entrevistaram os alunos, perguntaram o que eles acharam das aulas, como foi realizar este trabalho, do que eles mais gostaram, etc. Uma aluna comenta a aula que realizamos sobre Cindy Sherman, onde os alunos se fantasiaram para realizar fotografias. Salientou o quanto gostou desta atividade, mostrando para o jornalista as imagens do jornal.


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Os alunos folhando o jornal durante a exposição. Fonte: VARGAS, 2010.

Alguns alunos da turma, entre a diretora da Casa Costa e Silva, que está à direita, em pé vestida de preto. Abaixado, de camisa branca, à direita está o colunista do jornal local Davi Schaffer.Fonte: VARGAS, 2010.

Presente na exposição estava um dos colunistas de um jornal local, ele se dirige a mim elogiando o trabalho e comenta que viu uma de suas colunas nas páginas do nosso


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jornal. Uma das atividades propostas aos alunos foi realizar um desenho a partir de uma matéria de um jornal local. Foram apresentadas várias reportagens e um dos grupos realizou a imagem a partir da coluna de Davi Schaffer, que mesmo sem saber deste fato, foi um dos convidados pela casa para prestigiar o evento. Antes do término do evento fomos todos convidados a fotografar para os jornais presentes. Alguns alunos não quiseram ser fotografados, outros adoraram. Um menino pergunta para um jornalista: “Tem certeza que vocês vão mesmo publicar as nossas fotos?” Uma menina comenta baixinho no meu ouvido: “Professora, eles perguntam tanta coisa, fotografam, mas no fim, sai só uma ou duas linhas sobre a gente!”. Ao término da abertura da exposição acompanho a turma no retorno à escola. A próxima aula seria com a professora titular. Uma menina comenta: “Mas profe quem sabe a tu dá mais algumas aulas pra gente, ou pelo menos a aula de hoje, entra na sala e fica comentando com a gente sobre o nosso trabalho pra gente não ter que ter aula com ela!” Explico que o meu projeto já encerrou, mas que ainda voltarei à escola para matar as saudades deles. A coordenadora da escola me chama em sua sala para pedir desculpas em nome da professora titular pelo não comparecimento na abertura da exposição. Ela comenta que a escola estará sempre aberta para que eu realize qualquer atividade que precisar e que precisa de mais professores que tenham prazer pelo que faz. Antes de sair eu entrego as flores que tinha comprado para a professora titular. Percebo que ela demonstra interesse em saber como foi o evento, se os alunos gostaram, faz perguntas sobre o comportamento dos alunos. Acredito que a professora titular não compareceu na atividade de culminância do projeto por falta de interesse e mesmo, de conhecimento. A própria direção concorda que ela adota uma prática de ensino extremamente tradicional, e que esta atitude coincide com sua postura diante da disciplina. Quanto aos alunos, percebo que eles gostaram de participar do projeto. O resultado da entrevista mostra que o grau de satisfação deles foi determinante para o sucesso do trabalho. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (1996) descrevem o quanto o ensino de arte tem função determinante para que o aluno conheça mais sobre a arte e compreenda o quanto ela é importante para a formação de um ser humano crítico. O sucesso deste projeto se deve ao empenho dos alunos em descobrir novos horizontes para perceber a arte.


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O ser humano que não conhece arte tem uma experiência de aprendizagem limitada, escapa-lhe a dimensão do sonho, da força comunicativa dos objetos à sua volta, da sonoridade instigante da poesia, das criações musicais, das cores e formas, dos gestos e luzes que buscam o sentido da vida (PCNs, 1996, p.21).

Alguns alunos comentaram durante o retorno à escola que nunca tinham visitado o museu, e que nem sabiam que tinha tanta coisa lá dentro. Acredito que o projeto conseguiu envolver a escola e a comunidade como descreve o PCNs, apresentar aos alunos uma nova forma de ver a arte e principalmente reconhecê-la como parte de suas vidas.


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CONCLUSÃO

Fazendo uma reflexão sobre todo o meu trabalho, acredito ser relevante realizar algumas últimas considerações. Após a pesquisa, que deu origem ao primeiro capitulo, percebo o quanto é importante a descoberta da fotografia para a arte, pois no decorrer de minhas leituras pude compreender melhor o seu processo histórico e suas conseqüências na sociedade atual. Acredito que a arte libertou-se do dever de representar fielmente a realidade e teve a possibilidade de se tornar mais espontânea e expressar ainda mais os sentimentos do artista. Evidentemente que a fotografia não forçou a pintura e outras formas artísticas a serem abstratas. Mas propiciou o salto para que o artista seguisse em direção a um constante desenvolvimento de suas técnicas e conceitos, libertando a arte do aspecto funcional para que o artista não precisasse criar com a preocupação de dar uma explicação sobre a obra, mas que sua criação interaja com o expectador e transmita o interesse de pensar sobre as questões do mundo ou apenas sobre si mesmo. Liberdade de expressão e de comunicação, disponibilidade de conhecer novos objetos de trabalho, conhecimento de novas linguagens, e a interação com o mundo, são fatores que foram aprofundados na arte, a partir da descoberta da fotografia e mais especificamente a partir do momento em que a fotografia passou a ser considerada pelos artistas uma forma de somar possibilidades ao invés de anular conceitos. A partir destes conhecimentos, pude elaborar o projeto educativo a ser aplicado nos níveis fundamental e médio. Meus objetivos eram apresentar aos alunos novas possibilidades de trabalhar arte na escola através da fotografia, instigá-los a pensar mais sobre a construção de imagens e sobre o quanto elas influenciam nossa vida, aguçar o senso crítico de cada aluno apresentando a fotografia como arte e comentando o mundo de imagens que a mídia nos apresenta diariamente. Portanto, tive que buscar conhecer os alunos para poder elaborar as aulas. Os dois níveis escolhidos para aplicar o projeto, Ensino Fundamental – EJA e Ensino Médio, tinham características em comum, tais como a relação dos alunos com a tecnologia em aparelhos de celular e mp3 dentro da sala. Decidi repetir algumas metodologias, e passar de atividades


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participativas para aulas mais expositivas a fim de me aproximar e conhecer melhor a realidade dos alunos. Porém algumas diferenças importantes mudaram o rumo do projeto, a forma dos alunos, dos dois grupos, de entender e elaborar as atividades eram muito diferentes. Precisei encarar situações que nunca imaginei vivenciar dentro de uma sala de aula, tais como: violência, envolvimento com drogas, desinteresse dos alunos e professores. Por estes motivos acredito que aprendi muito durante este período. Considero alguns fatores relevantes no decorrer deste caminho. E são sobre eles que este texto tomará por base para comentar os resultados atingidos, tais como: • O fato de precisar estar atenta aos interesses dos alunos e por conseqüência tentar instigá-los ao tema do projeto. • A adaptação constante do projeto de acordo com os interesses dos alunos. • A relação entre o interesse dos alunos e a qualidade do resultado final do trabalho deles. • A relação do conteúdo com o sentido que cada indivíduo remete a este conteúdo. • A importância de se trabalhar a imagem dentro de um contexto histórico e social.

Na sequência, vou discorrer sobre estes fatores, analisando o resultado obtido com o Ensino Fundamental – EJA, que será apresentado como EJA, e Ensino Médio, descrito como EM. Primeiramente tentar instigar os alunos a pensar mais sobre fotografia, e cativálos para o tema do projeto não foi uma tarefa fácil, hoje percebo que quanto mais interesse no tema os alunos, de ambos os níveis, tinham, mais desenvolveriam suas capacidades. Através de diferentes metodologias, tentei instigá-los a pensar mais sobre o tema, mas cada indivíduo tem seu tempo. Mesmo tentando adaptar o conteúdo para a realidade deles, era impossível prever em que momento eu conseguiria encontrar suas expectativas. Portanto, foi necessário muita observação, e principalmente praticar a paciência para voltar atrás sempre que o planejamento precisasse de ajustes. Nos dois níveis o ritmo dos alunos era totalmente diferente. Mesmo estando praticamente na mesma faixa etária os alunos do EM estavam estagnados, desmotivados, com


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um visível desinteresse por tudo e qualquer coisa que lhes fosse apresentada. Agiam como se estivessem no automático, sem envolvimento com o tema, sem sequer perceber o que estavam fazendo. No EJA sempre havia uma desculpa de que estavam cansados e encaravam as aulas de artes como uma oportunidade para descansar. Para vencer estes desafios, tentei diferentes metodologias no intuito de cativar a atenção dos alunos, tentar proporcionar momentos de descontração ao mesmo tempo em que se apropriavam do conteúdo e desenvolviam suas particularidades. Foi o que tentei desenvolver na terceira aula do EJA, quando solicitei que os alunos se fotografassem com o auxílio de seus celulares aplicando o conteúdo apresentado sobre tipos de fotografia, como close, plano americano e corpo inteiro. Para isso, levei acessórios para que eles se fantasiassem acreditando que eles se divertiriam com a brincadeira. Alguns alunos gostaram e realizaram a tarefa, mas outros se recusaram a participar e desmotivaram os colegas com vaias e risos desagradáveis. Esta foi sem dúvidas, uma das aulas mais difíceis deste processo. Mas como já mencionei, cada individuo tem seu tempo e não foi possivel atingir a todos neste curto período de tempo. Já no EM os alunos adoraram a ideia, todos participaram e demonstraram aceitação da proposta, usaram seus celulares para se fotografarem e pediram para incluírem estas imagens em sites de relacionamentos como o Orkut. Outro fator importante que aprendi durante este processo trata-se do quanto um projeto precisa sofrer adaptações para estar de acordo com a realidade dos alunos. Por mais observações que fizesse não era possível perceber o que e quando estaria ao encontro do interesse dos alunos construindo assim um conhecimento significativo. Passei por vários períodos de observação nas turmas, isto porque antes de começar as práticas as turmas mudaram e tive que realizar novas observações, muitas vezes em horário de aula de outras disciplinas, para tentar compreender o processo de aprendizagem dos alunos. Mesmo aplicando as mesmas metodologias, e mesmo os alunos dos dois níveis tendo a mesma faixa etária, entre 17 a 25 anos, a resposta foi totalmente diferente. Na terceira aula do EJA citada anteriormente, que julgava que a aula seria um sucesso, me decepcionei, pois além de sofrer com influencias externas que não estavam no meu controle, os alunos não se identificaram com a atividade, se recusaram a participar da aula, e tive que alterar o


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planejado para estar dentro das expectativas deles. Já com os alunos do EM a mesma atividade foi aceita e praticada com êxito pelos alunos que se divertiram ao mesmo tempo que se apropriaram do conhecimento. Percebo que não existe conhecimento sem adaptação, nem sucesso sem fracasso, um está diretamente ligado ao outro. Foi necessário para mim, enquanto professora, me deparar com situações em que eu não atingi meus objetivos, para então perceber que a mesma atividade se, conduzida de forma diferente no outro nível de ensino, poderia obter sucesso. Como a atividade a que me refiro exigia o registro fotográfico dos próprios alunos, que seriam sujeitos co-autores da proposta, envolvia muito do interesse de cada um deles. Por este motivo aquilo que hoje percebo como um momento difícil no decorrer deste processo de ensino aprendizagem, com certeza foi decisivo para meu crescimento e aprendizagem. Na terceira aula do EJA solicitei que eles se fotografassem com auxilio de fantasias e acessórios alusivos a copa do mundo para que entendessem o processo de construção da imagem e como Cindy Sherman, uma das artistas apresentadas durante o projeto, realizava seu processo criação. O que eu acreditava ser uma aula perfeita, descontraída e diferente do que eles estavam acostumados, não atingiu as minhas expectativas. Acredito que exatamente por ser diferente demais, não estava dentro dos padrões compreendidos pelos alunos do EJA. A maioria da turma conseguiu desmotivar alguns pousos alunos que estavam de acordo com a proposta. A aula não saiu como esperava. Acredito que um dos fatores que leva a este desfecho se refere ao fato de esta atividade ter sido aplicada logo nas primeiras aulas do projeto. Ainda não estávamos entrosados o suficiente para invadir particularidades. Os alunos se recusaram para não se exporem diante da turma. Não estavam interessados na atividade e eu não podia forçá-los, pois os resultados não seriam os mesmos. Em contraponto a esta realidade, a mesma atividade realizada no EM teve resultados bem diferentes. Como já comentado anteriormente, a turma que costumava ser acomodada, desmotivada diante das atividades habituais das aulas de artes, respondeu muito bem a esta atividade. Participaram, se identificaram com acessórios e fantasias. Alguns alunos pediram para ficar com algumas fantasias, outros comentaram o quanto foi divertido e que nunca imaginavam que uma aula de Artes poderia ser assim.


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Acredito que um dos motivos para esta atividade obter sucesso no EM foi o fato de ter sido aplicada na oitava aula, quando eu já estava mais entrosada com os alunos e por ter a experiência do desenvolvimento da mesma atividade no EJA, quando enfrentei a recusa dos alunos. Normalmente não conseguia começar e terminar a aula no EM com os mesmos alunos, pois no início da aula alguns demoravam para entrar, outros saiam mais cedo para vender drogas em frente a escola. A sugestão da professora titular era trancar a porta e não permitir que ninguém saíssem antes do término da aula. Mas decidi que não iria forçá-los a participar das aulas, tentaria envolve-los nas atividades ao ponto de que eles próprios se interessassem em permanecer até o final. Por este motivo tive muitas dificuldades, temia acabar sem ninguém na sala, mas nesta atividade todos os alunos, pela primeira vez, participaram e permaneceram na sala até o término da aula. Percebo que mesmo se tratando de alunos com interesses aparentemente comuns, no EJA e no EM, as atividades desenvolvidas tinham diferentes resultados e precisavam de diferentes abordagens para serem concluídas com êxito. Grande parte desta compreensão obtive com a experiência da terceira aula no EJA. Por este motivo percebo o quanto alguns equívocos no decorrer deste processo foram decisivos para o sucesso nas aulas em ambos os níveis. Quando conhecemos melhor o público alvo do projeto é possível entender suas necessidades e preparar a abordagem para a atividade mais adequada para aquele grupo. A relação da qualidade da produção dos alunos com o interesse que eles tinham por determinadas atividades, é mais um fator interessante no decorrer deste processo. Uma das minhas preocupações, enquanto estagiária de Artes foi o processo de produção dos alunos dos dois níveis, pois acredito que esta produção é um dos fatores a serem analisados para medir a qualidade da ação e da metodologia escolhida por mim enquanto professora. Percebo que o interesse dos alunos pelas atividades esteve constantemente ligado ao desenvolvimento de suas capacidades. Quanto mais a atividade conseguia cativá-los, mais suas produções demonstravam o quanto o aluno aprendeu e desenvolveu suas habilidades. Logo nas primeiras aulas do EJA, comentei com a professora titular que estava preocupada com o fato de uma menina não realizar as atividades, ela ficava quieta em seu lugar apenas observando tudo. A professora tentou me tranqüilizar dizendo que eu não me preocupasse com isso, pois pelo menos ela não atrapalhava a minha aula. Mas eu não estava


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contente com esta situação e tentei a partir daquele momento observá-la para saber mais sobre o que ela gostava de fazer, sobre sua vida, com o intuito de encontrar um jeito de cativá-la para participar das aulas. Nos dois níveis de ensino tive dificuldades de vencer a acomodação dos alunos. Percebo que o tema inspirava o interesse da turma, mas não era o suficiente. Precisava de muito mais para conseguir movimentá-los, a cada aula tentava trazer assuntos que envolvessem a turma e que estivessem de acordo com seus interesses. Tratando-se de adolescentes prestes a se formarem nos dois níveis, no EJA estavam concluído o ensino fundamental, na etapa final, e no EM estavam no segundo ano, momento em que a maioria dos adolescentes começa a pensar em que caminho seguir ou mesmo que atividade profissional buscar. Enquanto comentava a vida e obra dos artistas selecionados no projeto dos dois níveis, alguns alunos perguntavam como aquele artista tinha conseguido chegar a este ou aquele resultado, o que ele tinha feito. Como aconteceu enquanto apresentava Vik Muniz no EJA e Cindy Sherman no EM, na décima segunda e oitava aula, respectivamente. Um aluno do EJA me perguntou como Vik Muniz tinha conseguido ter sucesso no seu trabalho se ele era uma pessoa simples do interior. Percebo a preocupação dos alunos com relação a sua condição de vida e às dificuldades encontradas na escolha de uma profissão. Por estes motivos percebo que o projeto tinha compromissos ainda mais significativos, orientar estes dois grupos na leitura de imagens para a vida. Instigá-los a pensar, buscar o espírito crítico de cada individuo frente ao mundo de imagens que os rodeia. Cada grupo tinha características marcantes e precisei aprender a lidar com cada uma delas de forma a adaptar as atividades ao interesse dos alunos dos dois níveis. O processo de construção da maioria dos alunos era muito lento, portanto percebi que se eles estivessem realmente interessados no que estavam fazendo a atividade renderia mais, mas para isto foi preciso muita observação e jogo de cintura. No EJA percebi que se tratava de um grupo passivo. Assistiam as aulas expositivas mas demonstravam recusa em participar das atividades práticas. Reclamavam para a coordenação que eu estava passando trabalho demais. Como na oitava aula, quando um menino reclamou em um tom agressivo que eu estava passando muitas atividades e ele estava cansado pois havia trabalhado o dia todo. Por um momento fiquei com medo do tom de voz


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do menino, um tanto ameaçador. Mas os demais colegas acalmaram o aluno e pediram para eu não me preocupar, pois ele costumava reclamar de tudo. No EM, os alunos estavam condicionados a serem obrigados a realizar determinadas atividades. Portanto estavam desmotivados diante das aulas de Artes. Meu objetivo principal foi reconquistá-los para as aulas de Artes, tentar incentivá-los a participar das aulas por interesse e não por pressão. Somente elaborando atividades que estivessem de acordo com seus interesses poderia alcançar tais objetivos. Outro fator que me chamou atenção durante este processo foi a relação do conteúdo com o sentido que cada aluno atribui ao significado do que esta aprendendo. Por mais que estivesse atenta aos interesses dos alunos diante do projeto, o resultado final dependeu em parte do quanto os alunos encontraram sentido em tudo que estavam aprendendo. E como este fator é totalmente imprevisível, passei por momentos difíceis durante este percurso. Por mais que acreditasse que trabalhar com fotografia nas aulas de Artes é uma maneira de buscar novas possibilidades para uma prática de ensino, que está ligada ao processo pelo qual estes dois grupos vem passando, com a influência digital e com a explosão de imagens introduzidas pela mídia, possibilitando assim uma nova visão de ensino, que combate as metodologias engessadas e convencionais e inibe o espírito crítico do aluno, nada disto bastava se não conseguisse que os alunos empregassem um sentido para determinada atividade. Não estivesse de encontro com os interesses deles. Portanto, a cada aula, em ambos os níveis, eu retomava todos os conteúdos e amarrava as ideias dos alunos aos assuntos trabalhados. Tentava anotar tudo o que eles me diziam para tentar aprimorar a próxima aula, e quando percebia através de um comentário que as práticas estavam dando certo, encontrava novamente um sentido da escolha que fiz quando comecei o curso de Artes Visuais. Assim como eu estava cada vez mais reafirmando o sentido pelo qual estava nesta situação de professora hoje, buscando ampliar e aplicar meus conhecimentos de modo significativo dentro da comunidade escolar. Para os alunos os conhecimentos construídos estavam se tornando significativos para suas vidas, e reforçando o sentido pelo qual eles estavam na escola concluindo o Ensino Fundamental, adquirindo conhecimento que com certeza seriam validos no futuro.


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Percebi um retorno positivo no EJA somente próximo ao término do projeto, quando finalmente consegui entrar no ritmo deles e cada vez mais adaptar as atividades aos interesses dos alunos. Na palestra final que havia planejado ser apenas para minha turma sobre um tema centrado no processo de construção de imagem através da fotografia, devido ao convite da direção de organizar a atividade para toda a escola, o tema foi adaptado para atingir o interesse da maioria dos alunos e atribuir sentido a todos. Os alunos da minha turma demonstraram interesse, participaram com perguntas, demonstrando que realmente encontraram sentido no conteúdo trabalhado. Hoje penso que poderia ter resultados ainda melhores se tivesse proposto um debate entre os alunos da turma em que estava realizando o estágio, a palestrante o os alunos das outras turmas. Como em um jogo de perguntas e respostas, para que os alunos da minha turma se sentissem ainda mais a vontade para exporem suas ideias. Certamente estas experiências serviram para aprimorar ainda mais minha prática enquanto professora na realização de projetos futuros. O último fator a ser analisado trata da importância de se trabalhar a imagem fazendo relação com o contexto em que ela esta inserida. Durante toda a minha prática no estágio, quando mencionava para as professoras das escolas que estava estagiando e mesmo para as colegas do Curso de Artes Visuais, todos me perguntavam: “Tá trabalhando com fotografia! Então tu vais fazer o Pinhole?”. Todos se assustavam com a minha resposta: “não!”. Ao escolher como tema para o estágio a fotografia percebi que este tema iria muito mais longe do que trabalhar com os alunos a construção de uma máquina fotográfica. Como professora, principalmente de dois grupos com particularidades tão distintas e ao mesmo tempo vivendo uma realidade em comum: a finalização de um período de ensino que desencadearia uma nova fase na vida de cada indivíduo. Decidi que este tema deveria estar voltado a análise crítica do aluno diante de uma imagem, ao entendimento da construção de uma imagem e o quanto ela se torna significativa dentro de um determinado contexto social e histórico. Portanto acredito que trabalhar a fotografia em sala de aula pode, além de apresentar uma nova forma de perceber a arte, pode também instigar o aluno a pensar sobre a construção das imagens que o rodeia, e por conseqüência perceber o mundo a sua volta, mais


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do que ver, trata-se de perceber o quanto as imagens são formadoras de opinião, introduzem uma cultura, formas de pensar e agir que muitas vezes o indivíduo não está pronto para deglutir todas estas informações. Trabalhar imagens partindo do princípio da crítica a sua construção pode muitas vezes dar mais trabalho, provocar decepções e equívocos ao longo do processo, mas pode também ser um meio de provocar o aluno a pensar e se perceber no mundo. Portanto, a diferença de realidade social e cultural dos dois níveis de ensino em que este trabalho foi aplicado, serviu para aprimorar o planejamento, direcionando melhor as atividades dentro daquilo que cada grupo estava vivenciando, além de contribuir para meu crescimento profissional enquanto professora. No EJA a prática do professor estava muito condicionada à realidade social na qual os alunos estavam inseridos. A escola está localizada no bairro mais perigoso da cidade, alguns alunos tem antecedentes criminais e forte envolvimento com drogas. Os professores não costumam instigar os alunos a pensar de forma crítica a realidade da sociedade atual, pois temem a revolta dos mesmos. A gestão escolar se via obrigada a não solicitar aos professores a mudança de suas práticas conservadoras para novas metodologias, mais significativas, pois temia a reação dos alunos. Tudo o que o corpo docente queria era conseguir começar e terminar a aula sem presenciar mais um assalto ou brigas entre traficantes dentro da escola, pois sabiam que não contavam com o apoio da polícia local. Minha prática provocou nos alunos sentimentos distintos. Alguns reclamavam, outros elogiavam, eu contava com o apoio discreto da coordenação da escola que elogiava meus trabalhos, mas não acreditava que eu iria muito longe. Mas precisei correr o risco para novamente encontrar sentido para minha escolha de ser professora, buscar transformar minha prática educativa em resultados significativos na vida dos alunos. Sentia que este era o sentido que tinha empregado nesta profissão. No EM, a realidade era totalmente diferente, a gestão escolar ainda tinha controle sobre a situação de violência e envolvimento das drogas, pela qual a sociedade de forma geral vem passando. Sentia que meu projeto estava sob o respaldo da direção que me incentivava a continuar este trabalho que com certeza teria bons resultados. Os alunos estavam acostumados a se sentirem obrigados a realizarem as atividades, e me arrisquei novamente na busca do interesse dos alunos.


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A grande diferença na aplicação deste projeto nos dois períodos foi a receptividade dos alunos. No EJA tive que percorrer um longo caminho para então conseguir cativar o interesse dos alunos, adaptar os conteúdos com a realidade deles, buscando identificar o sentido que os alunos estavam aplicando para determinado conteúdo, além de enfrentar a violência de perto e torcer para que o projeto fosse aceito. No EM os alunos estavam mais receptivos, se identificaram logo de início com o tema, e eu sentia o respaldo da direção para contornar possíveis situações problema. Neste sentido o projeto teve possibilidade de alçar vôos mais altos, como a exposição que atraiu o interesse de toda a comunidade, revelando e reforçando o significado atribuído pelos alunos ao projeto, expressando seus interesses e sentimentos através das atividades propostas em aula. A forma como os alunos dos dois grupos assimilaram o trabalho com imagens fotográficas foi bem diferente. No EJA os alunos não se sentiam a vontade em analisar imagens fotográficas, eu sentia que entrava em um campo que não era de domínio dos alunos, eles simplesmente aceitavam o mundo de imagens que a mídia escrita e falada impõe diariamente, como verdade absoluta. Mesmo nas imagens de obras de arte dos artistas que trabalhamos durante o projeto, eles não se apropriavam daquele contexto para tentar imaginar o que estaria acontecendo com o artista ou no mundo para uma determinada obra ter sido criada. Portanto a abordagem sobre este assunto com este grupo precisou ser bem diferente. Um longo e minucioso caminho precisou ser percorrido para que ao final deste processo eles pudessem se dar conta do quanto as imagens que nos são apresentadas são passíveis de serem analisadas e questionadas. Acredito que em parte, consegui atingir meus objetivos. Percebi isto durante a atividade final, quando, durante a palestra, os alunos presenciaram seus trabalhos expostos e mesmo envergonhados participaram da palestra fazendo perguntas e mostrando seus trabalhos aos colegas das outras turmas. No EM os alunos perceberam o trabalho com imagem de forma bem diferente. Eles estavam mais acessíveis e assimilavam o conteúdo das imagens de forma a buscar entender o porquê do artista ter realizado determinada obra. Percebia isto pelas perguntas que faziam enquanto apresentava as imagens, tais como: “Nossa sora [sic] como é que o cara [sic] conseguiu fazer isso!” Durante as discussões sobre imagens fotográficas introduzidas pela imprensa escrita e falada no nosso dia a dia, percebia que os alunos se questionavam diante do


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que estavam vendo. Questionavam a veracidade das imagens e o quanto o objetivo delas era apenas vender ou convencer o indivíduo de determinado assunto. O trabalho com imagens nesta turma possibilitou aguçar a percepção dos alunos propiciando momentos em que eles próprios criaram imagens e discutiram sobre até que ponto estariam fazendo parte da formação da opinião do público. Percebi isto enquanto finalizávamos o jornal da turma. Trabalho que foi exposto no museu da cidade chamado Casa Costa e Silva. Eles estavam interessados em realizar um bom trabalho, e se questionavam se o leitor que tivesse acesso a este jornal entenderia com clareza a mensagem que eles estavam tentando passar. O interesse foi tamanho que, na última página, um grupo de alunos escreveu um pequeno texto explicando quais eram os objetivos do jornal, isto sem eu ter solicitado. Continuei em contato com ambos os grupos para avaliar melhor o quanto este processo tinha sido realmente significante para os alunos. No EJA os alunos tiveram seus trabalhos expostos em uma exposição organizada pela coordenação na semana da criança. Percebi que os alunos sentiam-se motivados por esta atitude da escola. No EM retornei também para mostrar a reportagem e as fotos dos alunos publicadas no site da Ulbra, e para minha surpresa os alunos me receberam com saudades e contentes pela repercussão do trabalho deles. A direção da escola expôs a matéria no mural da escola e sempre que encontro os alunos na rua ouço comentários do quanto a participação neste projeto foi significativa para eles. Portanto, permanece o interesse de continuar a pesquisa, para compreender ainda melhor o quanto os alunos podem assimilar os conteúdos das aulas de Artes, quando são relacionados com imagens fotográficas. E o quanto a fotografia contribuiu para este processo de libertação do individuo no sentido de perceber melhor o mundo a sua volta. Enfim, as diferenças transformaram-se em semelhanças, as dificuldades em aprendizado e a recusa aparente dos alunos transformaram-se em novas possibilidades de se trabalhar os conteúdos de Artes. Estas novas possibilidades por sua vez, transformaram-se em motivação para continuar no caminho, pois sei que esta é apenas uma batalha vencida. Novas turmas vão surgir e com elas novos alunos e novas situações terão que ser contornadas. Não se trata de entrar numa guerra mas de vivenciar a luta pelo o ensino e pela Arte.


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REFERÊNCIAS

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APÊNDICES


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Apêndice 1 Questionário da professora do Ensino Fundamental - EJA


239

Apêndice 2 Questionário da coordenação do Ensino Fundamental – EJA


240

Apêndice 3 Questionário da direção do Ensino Fundamental – EJA


241

Apêndice 4 Questionários dos alunos do Ensino Fundamental – EJA


242


243


244


245


246

Apêndice 5 Questionário da professora do Ensino Médio


247

Apêndice 6 Questionário da coordenação do Ensino Médio


248

Apêndice 7 Questionário da direção do Ensino Médio


249

Apêndice 8 Questionários dos alunos do Ensino Médio


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Fotografia e arte na educação