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UNIVERSIDADE LUTERANA DO BRASIL – ULBRA/Canoas/RS UNIDADE ACADÊMICA DE GRADUAÇÃO CURSO DE LICENCIATURA EM ARTES VISUAIS Gabriela Rodrigues

A ESCOLA QUE DESENHA: Reflexões sobre aprender e ensinar.

Canoas, 30 de junho de 2011.


Gabriela Rodrigues

A ESCOLA QUE DESENHA: Reflexões sobre aprender e ensinar.

Trabalho de Curso apresentado como pré-requisito parcial para a obtenção de título acadêmico de Licenciado/a em Artes Visuais, pelo Curso de Licenciatura em Artes Visuais da Universidade Luterana do Brasil, sob orientação dos professores Prof. Dr. Celso Vitelli e Profª. Me. Ana Lúcia Beck.

Canoas, 30 de junho de 2011.


ATA DE AVALIAÇÃO


Dedico este Trabalho de Curso à minha família por todo apoio recebido, mas em especial ao meu pai João pelo incentivo constante, minha mãe Aida pelo carinho inspirador e ao meu noivo Leonardo pelo companheirismo, paciência e amor.


Agradeço aos meus professores Celso e Ana pelas orientações e conselhos, Nico pela amizade e o gosto pela fotografia, Renato por ter me inspirado a voltar a desenhar e Jurema pelo conhecimento em Moda que tanto me acrescentou. À Profª Dóris por ter confiado em mim e acreditado no Projeto. Aos colegas pelo carinho e companhias constantes nestes seis anos de Universidade.


“O fato de me perceber no mundo, com o mundo e com os outros me põe numa posição em face do mundo que não é de quem nada tem a ver com ele. Afinal, minha presença no mundo não é a de quem a ele se adapta mas a de quem nele se insere. É a posição de quem luta para não ser apenas objeto, mas sujeito também da História” (FREIRE, 1996, p.31). “Antes eu desenhava como Rafael, mas precisei de toda uma existência para aprender a desenhar como as crianças” Pablo Picasso (VENEZIA, 1996, p.21).


Resumo O presente Trabalho de Curso reúne a trajetória dos meus Estágios Curriculares Obrigatórios em Artes Visuais, I, II, III e IV, apresentando a Pesquisa realizada que teve como tema central “o uso do desenho dentro da sala de aula”. O tema escolhido contempla a necessidade dos alunos em retomar a prática de desenhar, mostrando que todos podemos fazê-lo, desmistificando a idéia de “dom” nas aulas de Artes. Seu objetivo foi apresentar aos alunos a importância desta disciplina no ambiente escolar, propondo o estudo do desenho como tema norteador. Ainda na pesquisa são apresentados os artistas: David Hockney, Kara Walker e Edgar Koetz, trazendo o desenho como obra de Arte. Contribuíram para a compreensão e elaboração do tema desta pesquisa alguns autores como: Rosa Iavelberg, Edith Derdyk e Betty Edwards. O trabalho mostra também o Projeto Educativo de Ensino que foi composto por aulas expositivas, dialogadas e práticas. Seu tema foi o mesmo do trabalho de pesquisa e teve como justificativa a importância de estudar a linguagem do desenho para o entendimento da Arte e seu contexto histórico, permitindo-se ir além de simples linhas rabiscadas e descobrindo-as como produção e manifestação artística. O Projeto Educativo de Ensino, foi primeiramente idealizado no Estágio I e foi sendo alterado durante a Prática de Ensino, devido às necessidades apresentadas principalmente pela realidade e preferências dos próprios alunos nos estágios seguintes. Com estas mudanças, o tema central desdobrou-se em novos eixos de análise apresentando uma reflexão do papel fundamental do professor de Artes nos dias de hoje. As Práticas de Ensino foram realizadas na Escola Estadual de Ensino Médio Setembrina, com a turma nº 64, de 6ª série do Ensino Fundamental, composta por 36 alunos, faixa etária entre 10 e 16 anos e com a turma nº 102, de 1º ano do Ensino Médio, composta por 27 alunos, faixa etária entre 14 e 17 anos. Ambas as turmas foram cedidas pela professora titular Dóris Wolff de Paris. O projeto de ensino foi desenvolvido em sete encontros semanais com a turma de Ensino Fundamental (14 aulas), que ocorreram do dia 31/08/10 ao dia 09/11/10 e doze encontros semanais com a turma de Ensino Médio (12 aulas), que ocorreram do dia 01/09/10 ao dia 24/11/10. A prática de ensino escolhida para fazer parte deste Trabalho de Curso foi a do Ensino Fundamental porque seu desenvolvimento foi mais difícil, mas ao mesmo tempo mais desafiador. Foi trabalhado com esta turma o artista contemporâneo Edgar Koetz como inspiração para as atividades a partir do quinto encontro, momento de grande significação para elaborar a conclusão deste Projeto. As considerações finais mostram as dificuldades encontradas, as superações de algumas delas e os resultados alcançados.

Palavras-chave: Desenho. Arte. Educação.


Sumário Introdução .................................................................................................

09

Capítulo 1. O Desenho Possível ................................................................

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1.1. Alguns Artistas e seus Processos de Desenho..............................

18

1.2. David Hockney ...........................................................................

21

1.3. O Esboço .....................................................................................

23

1.4. Apresentando Koetz ...................................................................

26

1.5. As Silhuetas de Kara Walker ......................................................

28

Capítulo 2. O Desenho na Sala de Aula ..................................................

29

2.1. Pensando o Desenho ...................................................................

32

2.2. Desenho e Diversidade ...............................................................

37

Capítulo 3. Reconhecimento do Espaço de Ensino ...................................

40

3.1. Dados gerais da Escola observada ...............................................

41

3.2. Observações silenciosas ...............................................................

42

3.3. Análise das observações silenciosas ............................................

44

3.4. Análise do questionário respondido pela professora ...................

46

3.5. Análise dos questionários respondidos pelos alunos ...................

48

3.6. Motivos da escolha/definição do tema de pesquisa em Artes Visuais Capítulo 4. Projeto Educativo de Ensino ..................................................

49

4.1. Dados Gerais da Escola e Turma .................................................

51

4.2. Dados Gerais do Projeto ..............................................................

51

4.3. Prática de Ensino .........................................................................

53

4.3.1. Primeiro Encontro - Aulas 1 e 2 .......................................

53

4.3.2. Segundo Encontro - Aulas 3 e 4 ........................................

59

4.3.3. Terceiro Encontro - Aulas 5 e 6 ........................................

64

4.3.4. Quarto

Encontro - Aulas 7 e 8 ........................................

68

4.3.5. Quinto

Encontro - Aulas 9 e 10 ......................................

71

4.3.6. Sexto

Encontro - Aulas 11 e 12 ....................................

80

4.3.7. Sétimo

Encontro - Aulas 13 e 14 ....................................

85

Considerações Finais .................................................................................

91

50


Referências Bibliográficas .........................................................................

97

Apêndice 1 ................................................................................................. 100 Apêndice 2 ................................................................................................. 101 Apêndice 3 ................................................................................................. 102 Apêndice 4 ................................................................................................. 104 Anexos ....................................................................................................... 114


Introdução Este Trabalho de Curso apresenta a síntese de uma pesquisa acerca da importância e do uso do desenho dentro da sala de aula, analisando desde o processo construtivo dos desenhos dos alunos até chegar a reflexão do papel fundamental do professor de Artes nos dias de hoje. Sou estudante do curso de Licenciatura em Artes Visuais na Universidade Luterana do Brasil e escolhi a Escola Estadual de Ensino Médio Setembrina, situada em Viamão, para realizar os Estágios Curriculares Obrigatórios do Curso, sendo o Estágio I realizado no primeiro semestre do ano de 2010, orientado pelo Prof. Dr. Celso Vitelli e os Estágios II e III realizados no segundo semestre do ano de 2010, orientados pela Profa. Me. Ana Lucia Beck. A Escola Setembrina, como é conhecida, está inserida no bairro centro do município e é composta por uma comunidade de classe média à baixa. A escolha desta escola se deu pelo carinho que tenho com todos os funcionários e professores que trabalham na mesma e, mais do que isso, pela inspiração à carreira de Arte-Educadora que a Professora Dóris Wolff de Paris me transmitiu quando lá me formei no Ensino Médio. O Estágio IV, realizado no primeiro semestre do ano de 2011, orientado pela Profª. Me. Ana Lúcia Beck, tratou da elaboração do presente Trabalho de Curso e foi motivo de diversas leituras de textos e capítulos de alguns livros de Arte, história da educação, da pedagogia e didática, bem como a análise da minha experiência em sala de aula e releitura de trabalhos de semestres anteriores. Estes livros (que constam nas Referências ao final do trabalho) e a experiência vivida nos estágios foram de grande importância, sendo fortes aliados no papel de orientadores do meu processo de “evolução” da compreensão de uma prática de ensino qualificada. Além de tudo, foram importantes na construção de uma visão engajada e comprometida, possibilitando a construção do Projeto que visou à mudança no pensamento dos alunos em relação, não só em relação à disciplina Arte e aos assuntos nela trabalhados, mas também do seu pensamento crítico, fazendo-os entender melhor para que servem determinados conhecimentos. Pensando assim, o Projeto Educativo de Ensino, que foi primeiramente idealizado no Estágio I, foi sendo alterado durante a Prática de Ensino, devido às 9


necessidades apresentadas principalmente pela realidade e preferências dos próprios alunos, como é possível verificar nos descritivos das aulas realizadas que seguem no Capítulo 4. As mudanças ocorridas foram analisadas de maneira mais intensa na Conclusão deste Trabalho de Curso. No Estágio I ocorreram quatro encontros semanais com a turma nº 64, de 6ª série do Ensino Fundamental, composta por 36 alunos entre 10 e 16 anos e seis encontros semanais com a turma nº 102, de 1º ano do Ensino Médio, composta por 27 alunos entre 14 e 17 anos. Com ambas as turmas foram feitas observações e aplicados questionários que serviram como base para construção do Projeto Educativo de Ensino do presente Trabalho de Curso. Um dado bastante significativo foi o fato de que 72% dos alunos do Ensino Fundamental nunca haviam ido a um museu ou exposição de Arte e 55% deles não tinham interesse em aprofundar seus conhecimentos na disciplina, pois acreditavam que não haveria ligação nenhuma com as profissões que pretendiam seguir no futuro. Além disso, tinham preferência pelos trabalhos realizados com o uso do desenho (47%) e os do Ensino Médio ficaram divididos entre o desenho e a pintura (33% cada uma das linguagens). Mesmo assim, seus discursos eram constantemente seguidos pela frase “eu não sei desenhar”, contradizendo o que estava sendo respondido nos questionários aplicados neste período inicial de estágio, o que vem a justificar o Tema da Pesquisa ser o desenho propriamente dito. Dos principais fatos observados nas aulas, que também me instigaram a pensar no desenho como Tema, posso citar um episódio em que ouvi um aluno dizendo que não iria desenhar porque não sabia fazer e porque seus desenhos ficavam “feios”. É claro que alguns alunos tem mais facilidade para desenhar do que outros, mas a realidade é que o desenho não depende apenas de técnicas para ser bom. Foi pensando nisso, que comecei a me perguntar como poderia mostrar a eles que todos podem desenhar, desestereotipando esta idéia que tinham sobre o assunto, propondo atividades de sensibilização do aluno com o desenho. Então minha reflexão se voltou em mostrar que todos os indivíduos são capazes de desenvolver a arte do desenho e o quanto esta linguagem é importante ser trabalhada dentro da sala de aula. A autora Edith Derdyk escreve em seu livro Formas de Pensar o desenho (2003) que o desenho como linguagem para a Arte, para a ciência e para a técnica, é um instrumento de conhecimento, possuindo grande capacidade de abrangência como meio de comunicação e de expressão. O desenho é a linguagem artística universal, compreendida em diversos lugares do mundo independente da raça, etnia ou língua 10


falada/escrita e que ainda serve como suporte para outras linguagens artísticas como pintura e

escultura, por exemplo. Assim, não poderia iniciar a minha prática

profissional com outro Tema que não com o desenho. No segundo capítulo fundamentamos o pensamento sobre o uso do desenho nas aulas de Artes dentro do contexto escolar, trazendo Betty Edwards, Edith Derdyk e Rosa Iavelberg como grandes autoras colaboradoras para elaboração deste Projeto Educativo de Ensino. Edwards (1984) contribuiu com variadas técnicas para estimular o cérebro a desenhar a partir do que realmente vemos, deixando de racionalizar o processo de desenho de observação. Ela propõe desconstruir o desenho através de atividades de observação, trabalhando de maneira mais intuitiva, como fazemos quando criança, não tendo o realismo como meta, mas sim a percepção de mundo, sem racionalizar o ato de desenhar. Apresentou ainda, teorias fundamentadas em suas pesquisas sobre a importância do desenho no processo criativo. Edith Derdyk (2003) por sua vez, nos colocou o desenvolvimento do desenho ao longo da vida escolar dos alunos e sua capacidade expressiva. Por fim, Rosa Iavelberg (2003) nos estimulou à busca por atividades afinadas com o cotidiano dos alunos, além de mostrar o papel fundamental que a Arte exerce sobre a recuperação da cultura deles. O objetivo do Projeto tornou-se assim, possibilitar que os alunos praticassem o desenho, desenvolvessem o senso crítico, fazendo-os compreender a necessidade da construção do conhecimento e não do “aprender para ganhar nota”, além da importância de vivenciar a Arte na escola e, acima de tudo, que todos somos capazes de desenhar, desmistificando que quem sabe tem “dom”. Através da análise sobre todo o trabalho desenvolvido com os dois níveis de ensino, optei em relatar neste Trabalho de Curso a experiência obtida com a 6ª série do Ensino Fundamental, na turma 64. Foi nela que consegui entender os pontos em que eu estava falhando como professora e tive a oportunidade de melhorar a Prática de Ensino, buscando as alternativas que estavam ao meu alcance para promover uma aula mais interessante e motivadora. Também foi nesta turma que tive meus maiores desafios e, com isso, dediquei mais de mim na elaboração e execução das aulas, podendo fazer de maneira efetiva uma avaliação constante do meu papel como professora de Arte. Esta última consideração foi de vital importância para a análise deste Projeto de Ensino sendo salientada na Conclusão deste Trabalho de Curso. Será apresentado, no primeiro capítulo, um apanhado geral acerca do desenho e suas mais variadas possibilidades de execução, dados sobre o seu uso na 11


história da Arte e alguns artistas contemporâneos que trabalham com esta linguagem. Dentre eles, foi escolhido para nortear a construção dos trabalhos desenvolvidos com a turma de Ensino Fundamental, o artista contemporâneo Edgar Koetz. Ele se apropria do desenho como meio de exprimir a sua Arte e sua história serviu como exemplo de como a obra pode ser direta ou indiretamente influenciada pelo contexto em que está inserido o artista. O trabalho desenvolvido por Koetz é parte integrante de uma Pesquisa muito mais ampla (que segue no Capítulo 1) e conta com outros artistas que também utilizam o desenho como base para suas obras plásticas, dos quais destaco Kara Walker e David Hockney. Estes últimos, porém, foram apresentados e trabalhados somente com a turma de Ensino Médio constando as atividades a eles relacionadas apenas no CD que segue em anexo no final deste Trabalho de Curso. No terceiro capítulo, seguem as descrições dos planejamentos das aulas e o que foi realizado com os alunos, refletindo sobre os fatos e os resultados obtidos em cada encontro. Ao total foram sete encontros de dois períodos de 45 minutos cada um. Dentre eles, destaco o terceiro encontro como sendo o momento em que foi preciso retomar a pesquisa sobre a realidade dos alunos, suas necessidades, interesses e reelaborar as atividades dos encontros seguintes para possibilitar que os objetivos gerais deste Projeto Educativo de Ensino fossem alcançados. No quinto encontro, é apresentado o momento em que os alunos rompem os limites da sala de aula quando são levados para desenhar nas dependências externas da escola. Este encontro foi fundamental no processo construtivo dos alunos e serviu como parâmetro para a elaboração da Conclusão deste Projeto. Também foi interessante perceber, que foi o momento em que houve o rompimento com a necessidade de seguir um modelo pronto, retomando a criatividade como foco nas atividades. Além disso, os alunos puderam perceber que não há desenho “belo” ou “feio”, mas, há diferenças entre si e que a Arte de cada um deve ser respeitada. Nas Considerações Finais, seguem as reflexões sobre as mudanças mais relevantes ocorridas desde o idealizado do Projeto até a Prática de Ensino propriamente dita. Seguem também os eixos de análise, alguns já citados acima, que se criaram com a mesma a partir dessas mudanças, colocando em foco a realidade dos alunos e a relação de vínculo que se constrói ao longo da Prática de Ensino entre o professor e o seu aluno. Assim, ao final do Trabalho de Curso, foi possível perceber que este Projeto Educativo de Ensino se tornou muito mais amplo, trazendo a tona novas questões a serem trabalhadas e que vão além das paredes da sala de aula. 12


CapĂ­tulo 1. O Desenho PossĂ­vel 13


1. O Desenho Possível

O desenho é uma atividade possível para todos os indivíduos. Está extremamente ligado com o ato de ver, pois na maioria das vezes desenhamos aquilo que enxergamos ou que já experimentamos em nossa vida. Adquirimos conhecimento desde o momento que nascemos através das imagens. O simples abrir e fechar de olhos gera, em segundos, várias e várias imagens que servirão como modelo desde o início da vida. A grande maioria das crianças adora desenhar. Começam a fazer seus desenhos muito antes de entrar no ambiente escolar. Representam seus pais, seus irmãos e seus amigos com rabiscos que nem sempre lembram as pessoas ou objetos retratados, mas que, mesmo assim, cumprem o objetivo de comunicar uma mensagem (VERGUEIRO, 2009). Para as crianças não há distinção de técnicas ou beleza, simplesmente é uma maneira de reproduzir e registrar estes conhecimentos adquiridos, com seus momentos e experiências. Elas exploram o mundo com seus espíritos aventureiros. Experimentam. A criança enquanto desenha canta, dança, conta histórias, teatraliza, imagina, ou até silencia... O ato de desenhar impulsiona outras manifestações, qua acontecem juntas, numa unidade indissolúvel, possibilitando uma grande caminhada pelo quintal do imaginário (DERDYK, 2003, p.19).

Mas com o passar dos anos as crianças perdem esta liberdade do traço e acabam na maioria das vezes abandonando este hábito de rabiscar imagens. São bombardeadas com a idéia de que saber desenhar é muito difícil, demanda estudo em escolas caras, muita dedicação e tempo, o que normalmente não se tem. É correto afirmar que para chegarmos a um bom desenho precisamos de dedicação. Betty Edwards (1984), nos mostra isso em seus estudos, relatando que a maioria das pessoas para qual ensinou técnicas de desenho, já sabiam desenhar antes de conhecê-la, mas velhos hábitos de visão interferiram nesta habilidade e as bloquearam. Com isso, é possível pensar que o ato de desenhar está intrínseco no ser humano. Derdyk (2003, p.51 e p.59) salienta que, o desenho manifesta o desejo da representação, mas também o desenho, antes de mais nada é medo, é opressão, é alegria, é curiosidade, é afirmação, é negação. Ao desenhar, a criança passa por um intenso processo vivencial e

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existencial. [...] além de ser fruto de uma ação motora, manifesta um ritmo biopsíquico de cada indivíduo, encadeado com uma repetição proveniente de uma ordem imperiosa que vem lá de dentro. A repetição visa automatizar, incorporar, dominar um gesto adquirido, um movimento inventado, um rabisco criado.

Porém, antes de partirmos para esta repetição evolutiva, seria necessário um estudo de como desprender este desenho racional, na qual pensamos o que vamos desenhar, raciocinando acerca do objeto observado e buscarmos trabalhar o desenho de maneira mais intuitiva, em que desenharemos o que vemos de fato, treinando o trabalho em conjunto entre o olhar e a mão que desenha. Pensando nisso, podemos citar o livro Desenhando com o lado direito do cérebro de Betty Edwards (1984), pois nele ela apresenta diversas teorias apontando que o lado direito do cérebro está diretamente relacionado com este novo olhar sobre o mundo e suas formas e isto nos leva ao aperfeiçoamento do traço no ato de desenhar. Escreve que este hemisfério cerebral não é verbal, pois é onde percebemos as coisas com um mínimo de conexão com palavras. Também é o lado que vê de maneira espacial, agrupando as coisas para formar um todo e concebendo cada coisa tal como ela é naquele momento em que a estamos visualizando. Compreende relações metafóricas e não tem senso de tempo e nem de razão. É o hemisfério intuitivo que apreende as coisas de uma só vez, integralmente. É o lado do cérebro que os artistas utilizam no momento em que desenham, se desconectando do mundo ao redor e passando o que o olho está vendo, para a ponta do lápis e para o papel. Nesta modalidade “vemos” coisas que talvez sejam imaginárias [...] ou relembramos coisas que talvez sejam reais [...]. vemos como as coisas existem no espaço e como as partes se unem para formar o todo. Usando o hemisfério direito, compreendemos metáforas, sonhamos, criamos novas combinações de idéias. Quando algo é complexo demais para ser descrito, podemos lançar mão de gestos comunicativos. [...] somos capazes de desenhar imagens daquilo que percebemos (EDWARDS, 1984, p.48).

Quando a autora começou a pesquisar a respeito do assunto, não imaginava o grande progresso que estava fazendo para o melhor entendimento do desenho, seu processo e o nosso olhar. Edwards (1984) escreve que se você for capaz de “enxergar da maneira especial que os artistas experientes enxergam então você será capaz de desenhar”. Ela seguiu um estudo profundo a respeito dos hemisférios direito e esquerdo do cérebro. Afirma que este estudo pode ser aplicado em sala de aula e mostra com exemplos e imagens alunos que nunca haviam desenhado, fazendo ao final do curso, 15


desenhos da figura humana com bastante realismo. Estes métodos que ela utiliza foram pensados para pessoas que não sabiam desenhar e por isso o resultado é tão surpreendente. Para aprender a desenhar, portanto, é fundamental estabelecer condições que provoquem em nós a transição mental para uma modalidade diferente de processamento de informações [...] que nos permita ver corretamente. Nesse estado de consciência para o desenho você será capaz de desenhar o que percebe, ainda que jamais tenha estudado desenho (EDWARDS, 1984, p.16).

Abaixo poderemos visualizar duas reproduções de desenhos do aluno de Betty Edwards, Ken Darnell. O desenho da direita, Darnell fez em 05.02.1974 e o da esquerda podemos ver o desenho que ele fez cerca de um ano depois de ter terminado o curso original:

Autor: Darnell, 1974. (Fonte: EDWARDS, 1984, p.24)

O que Betty traz é uma preocupação com a maneira que nós nos acomodamos a ver as imagens. Esquecemos que não podemos desenhar 4 faces de um cubo se estamos vendo apenas 3 delas ou que se o desenhista não puder enxergar o que está sobre uma superfície, o mesmo não poderá aparecer no seu trabalho. Ela utiliza estudos médicos para desenvolver a técnica de como podemos reaprender a “enxergar” de maneira correta e desenhar com o olho e não com o raciocínio lógico, nos desfazendo de nossos estereótipos e símbolos. É para realmente ver, ver cada vez mais profundamente, cada vez mais intensamente e, portanto, para estar plenamente consciente e vivo, que eu pinto o que os chineses chamam “As Dez Mil Coisas” que há em torno de mim. O desenho é a disciplina mediante a qual eu constantemente redescubro o mundo. [...] Aprendi que, quando não desenho uma coisa, não chego a vê-la

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realmente; e que, quando passo a desenhar uma coisa comum, verifico quão extraordinária ela é, o milagre que ela é (FRANCK, apud EDWARDS, 1984, p.15).

Dentre as atividades que a autora sugere no livro, a grande maioria é um preparo para os desenhos figurativos. Mas não há como negar que temos certa preferência por reproduzir nossos semelhantes através da Arte. O uso da figura humana é a chave da paixão ou da decepção com o desenho na maioria dos casos. Tive uma experiência semelhante na Universidade, em aula relativa ao tema, na qual fizemos um “treinamento da mão para com o olho” em que deveríamos desenhar de maneira bastante rápida um modelo vivo em movimento. Como acontece no ambiente escolar em geral, havia colegas que chegavam com o discurso de “não sei desenhar”, ou “estou aqui para aprender a desenhar” e muitas vezes acabavam se bloqueando. A professora Ana Lucia Beck aplicou diversos exercícios para que esse desbloqueio acontecesse. A meu ver, os principais, foram os iniciais: deveríamos ouvir música e riscar no papel, de maneira aleatória, para que pudéssemos descobrir até onde o nosso braço nos permitia desenhar e outro era para desenhar rapidamente os modelos, sem se preocupar com detalhes, apenas acompanhar o movimento que o corpo deles fazia. Acontece que depois de alguns rabiscos, começava a aparecer a figura humana nos desenhos, como se de repente parássemos de pensar no que estávamos fazendo e desenhássemos de maneira intuitiva como Betty escreve em seu livro. Achei interessante que Edwards chama a atenção para que em dado momento do processo, racionalmente descobrimos como utilizar este lado do cérebro que não costumamos usar. É um processo que varia de pessoa para pessoa, mas que quando ocorre, é possível percebê-lo. Estes exercícios que tivemos na Universidade foram de extrema valia, pois de uma maneira simples, conseguimos aos poucos nos libertar do que a mente imaginava ver e deixar os olhos nos mostrar o que estávamos vendo de fato. De um modo geral houve bons resultados até para aqueles alunos que não tinham nenhuma experiência. A seguir é possível visualizar a sequência de desenhos das aulas de Figura Humana no curso de Artes Visuais na ULBRA/Canoas:

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À esquerda, desenho realizado em 12/03/2009 a partir de um modelo vivo. À direita, desenho realizado em 28/05/2009 a partir de um modelo vivo. Autor: Rodrigues, 2009. (Fonte: RODRIGUES, 2010)

À esquerda, desenho realizado em 04/06/2009 a partir de um modelo vivo. À direita, desenho realizado em 01/07/2009 a partir de reproduções de obras. Autor: Rodrigues, 2009. (Fonte: RODRIGUES, 2010)

Acredito que tal experiência de desenhos, só teve sucesso porque nos forçou a agir desta forma não verbal, como comanda nosso lado cerebral direito.

1.1. Alguns Artistas e seus Processos de Desenho

A representação da figura humana na história da Arte acompanhou muitas vezes o estudo da anatomia humana o que sempre foi muito importante para os artistas. 18


Leonardo da Vinci deixou registros de suas tentativas em acertar a figura e estes são utilizados até hoje como base no ensino, como podemos ver a seguir.

À esquerda: estudo do ombro humano e do úmero. À direita: cabeças grotescas. Autor: Vinci, sem data. (Fonte: http://odesenho.no.sapo.pt/ls_desenho3.html, em 15/05/2010)

À esquerda: Fetos no útero. À direita: O homem Vitruviano. Autor: Vinci, sem data. (Fonte: http://www.drawingsofleonardo.org/, em 25/05/2010)

Segundo artigo publicado na Revista Científica Eletrônica de Medicina Veterinária da ACEG - Associação Cultural e Educacional de Garça - FAEF / UNITERRA (GOMES, Ivy Tasso; et al., 2009), a figura à direita chama-se o Homem Vitruviano, e é um dos desenhos mais famosos de Da Vinci. Ele o fez em torno de 1490 num dos seus diários, representando duas figuras masculinas simultaneamente desnudas, unificadas, em duas posições sobrepostas com os braços inscritos num círculo e num quadrado. Este desenho foi inspirado nos livros do arquiteto romano Marco Vitrúvio Polião e é considerado um cânone das proporções do corpo humano, seguindo um determinado raciocínio matemático e se baseia, em parte, na divina proporção. Este redescobrimento das proporções matemáticas do corpo humano no século XV é considerado uma das grandes realizações que conduzem ao Renascimento italiano. 19


Assim como Da Vinci contribuiu com seus estudos para que hoje tenhamos melhor entendimento do desenho da figura humana, existe outros mecanismos e ferramentas que nos auxiliaram a entender o processo de construção do desenho. Ao longo das décadas foi se descobrindo que os grandes artistas se apropriavam da óptica para criar projeções fiéis das imagens com a qual estavam trabalhando. A câmara escura é uma dessas técnicas e foi muito utilizada. É possível visualizá-la nos trabalhos de Caravaggio, Velázquez e Holbein por exemplo. Chamada de caixa obscura, ou câmara escura, este mecanismo segue um formato bastante semelhante ao que chamamos de Pinhole, utilizado na fotografia. Os dois são muito parecidos, porém na parte interna da câmara escura, tem um espelho que reflete para baixo a imagem, onde vai haver um orifício, ao invés de ser fechado e conter um papel fotográfico ou um rolo de filme como no pinhole. Trata-se de uma caixa, pintada de preto em toda parte interna, com um orifício em uma de suas paredes, na qual passará uma imagem do exterior, alcançando o espelho posicionado diagonalmente dentro dela, que por sua vez, este refletirá a imagem no papel que estará abaixo da caixa, por outro orifício em sua parte inferior. Como podemos ver a seguir na figura abaixoà esquerda, o artista deverá estar em um ambiente também escuro que pode ser conseguido com um tecido que o cubra junto com o papel na qual desenhará.

Na figura à esquerda, os desenhos reproduzindo uma câmara escura e acima à direita a primeira ilustração de uma câmara escura em 1544 mostrando como a imagem chega invertida na tela posicionada na parede interna do ambiente. Logo abaixo, mostrando como ocorre o processo da imagem dentro do pinhole. (Fontes: http://www.fotodicas.com/historia/primeira_camera_escura.html e http://www.eba.ufmg.br/cfalieri/cfalierinova/camescura.jpg, em 25/05/2010)

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A imagem, no pinhole, chega invertida e espelhada no papel fotográfico que está em seu interior. Considerando uma pessoa em frente a uma câmara escura, o raio de luz que parte de sua cabeça atravessará o orifício e irá projetar-se na parte inferior da tela da câmara escura, pois os raios de luz seguem trajetória retilínea. Os raios de luz que parte dos pés projeta-se na parte superior da tela. Ou seja, a imagem vai se invertendo. Porém quando colocamos o espelho no seu interior, a imagem refletida é transportada para o papel também de ponta a cabeça, mas virada agora para o lado certo.

1.2. David Hockney

David Hockney em seu livro O Conhecimento Secreto (2001), apresenta a câmera escura como uma nova forma de ver as imagens. Ele baseou-se em diversas pinturas e obras para afirmar que a existência destes mecanismos já era conhecida entre os artistas desde o início do século XV. Ele escreve sobre outras técnicas além da câmera escura, entre elas, o uso da câmera-lúcida e o que ele chamou de “lenteespelho”. Conforme Hockney descreve na prova documental deste livro, a câmara lúcida é um dispositivo óptico, variante da câmara escura, destinada a facilitar a realização de esboços pelos artistas, inventada pelo opticista, físico, químico e fisiologista William Hyde Wollaston. Foi patenteada em 1806 e tem sua característica central um prima com duas superfícies refletoras a 135º que transmite uma imagem da cena em ângulos retos ao olho do observador situado acima. O desenhista com a ajuda de um pequeno visor posiciona cuidadosamente a orbita ocular pode ver a imagem e ao mesmo tempo tangenciar a face do prisma para visualizar a superfície do desenho embaixo. Com este mecanismo, se pode desenhar através da imagem refletida no papel. Não é um instrumento de fácil manuseio, mas esta característica era compensada em sua portabilidade. Exige duas lentes auxiliares, articuladas que possam deslocar-se abaixo do prisma, para auxiliar nos vários problemas de foco. Apesar de menos prático do que seu predecessor, este aparato teve entre seus usuários William Henry Fox Talbot (18001877), um dos inventores da fotografia.

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Desenhista utilizando câmara lúcida em 1830 e nos dias de hoje. (Fontes: http://visaoglobal.org/2008/01/08/origens-e-evoluo-histrica-da-fotografia/ e http://painting.about.com/od/oldmastertechniques/ss/camera_lucida_4.htm, em 23/05/2010)

Para a lente-espelho, Hockney mostra nas páginas 74, 75 e 76 do mesmo livro, como adaptou fazendo uso de materiais bem usuais. Ele fez um buraco num pedaço de papelão grande, tal como uma pequena janela e posicionou, este papelão, no vão de uma porta. Colocou um espelho quase de frente para esta abertura combinado com o posicionamento de um papel ao lado desta “janela”. Com este procedimento bem simples, percebeu que poderia ver o rosto de seu amigo que estava sentado ao lado de fora deste ambiente sob luz do sol forte, conforme virava ligeiramente o espelho na direção deste papel. Como uma projeção de retroprojetor sob o papel, ele pode desenhar com nitidez a figura do lado de fora. Mais uma vez, a figura estava de ponta cabeça, mas como utilizou o espelho, estava refletida do lado correto. Certamente este foi um dos mecanismos utilizados para pinturas de muitos artistas na históra da Arte e ele mesmo fez bastante uso deles.

À esquerda: Hockney, 1956. My Father. Lápis e tinta sobre papel. À direita: Hockney, 1999. Ron Lillywhite. Lápis, carvão e guache sobre papel cinza com uso da câmera lúcida. (Fonte: http://www.hockneypictures.com/, em 20/05/2010)

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Hockney aprofundou-se neste assunto devido a sua vivacidade como observador crítico de arte e curiosidade em saber como os grandes mestres da arte conseguiam fazer pinturas e desenhos com tal realismo e perfeição em épocas que não existia muitos recursos tecnológicos. Ele é um dos maiores artistas de todos os tempos e suas obras e experiências, nos serve de referência no assunto. Ele, sem dúvida, se encaixa no quesito da novidade. Se apodera do realismo, abstracionismo e ainda apresenta em suas obras o que hoje chamamos de Pop Art. Os seus trabalhos foram muitas vezes criticados e considerados apelativos por reproduzir cenas de sua vida e inclusive sobre sua opção sexual. Retratou de maneira sublime a figura humana e animais nos seus desenho e pinturas. Reconhecido mundialmente como grande professor, ele é também um exímio artista. Seus traços em muitos desenhos são quase imperceptíveis e ao longo dos anos pode-se verificar em suas obras, como ele vai aprimorando até chegar ao desenho realista, muitas vezes fotográfico.

Para mim, passar a pintar com maior naturalismo representou uma liberdade. Pensava: se eu quiser, posso pintar um retrato; é isto que eu quero dizer com liberdade. Amanhã, se eu quiser, posso começar o dia desenhando alguém, desenhar minha mãe de memória, posso até pintar um quadrozinho abstrato e estranho. Tudo isto estaria dentro do meu conceito de pintura como arte. [...] Muitos pintores não conseguem fazer isto. [...] Muitos não sabem desenhar, como Frank Stella me disse que não sabe. [...] Para mim, muitos pintores estavam armando uma cilada contra si mesmos: escolhiam um aspecto muito estreito da pintura e se especializavam nele. E isso é uma armadilha. Naturalmente, a armadilha é inócua quando se tem coragem de sair dela, mas isso exige um bocado de coragem (HOCKNEY, apud EDWARDS, 1984, p.19).

1.3. O Esboço

Assim como Hockney, outros artistas trabalham com desenhos até hoje e muitos deles com os esboços que tem presença constante no universo da Arte. O uso dos mecanismos citados anteriormente aumentaram o número de esboços feitos pelos artistas na história. Considerado hoje como obra artística de grande importância, um desenho esboçado, era a forma na qual o artista estudava uma imagem para fazer uma obra. Através dele é possível ver as tentativas de acertar a forma, visualizamos o processo 23


utilizado para chegar até sua obra final e muitas vezes esta simplificação da forma apresentada no esboço acaba tornando-se o próprio objeto artístico. Ele é fundamental no ateliê de quem projeta, independente de sua área de atuação. Posso citar os arquitetos, designers, cineastas, coreógrafos, cenógrafos e muitos outros profissionais que partem dele para executar algum projeto. Encontramos detalhes riquíssimos nos desenhos mais esboçados dos cavalos de Leonardo da Vinci, por exemplo.

Desenhos dos estudos que Leonardo Da Vinci fazia sobre cavalos. (Fonte: http://www.drawingsofleonardo.org/, em 23/05/2010)

Com o desenho de esboço é possível formular hipóteses, recolher dados e descobrir formas ainda não percebidas ou inventadas. O desenho de esboço é feito praticamente por todas as pessoas, organizando o raciocínio, na elucidação de fatos, constatações, estudos, percursos e fases de trabalho. Além deste, o touro de Picasso marca o processo de sintetização da imagem, uma das bases do cubismo e é também representada por um desenho que vai do esboço à estilização.

Primeira etapa, 05/12/1945

Quarta etapa, 22/12/1945

Segunda etapa, 12/12/1945

Quinta etapa, 24/12/1945

Terceira etapa, 18/12/1945

Sexta etapa, 26/12/1945

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Sétima etapa, 28/12/1945

Décima etapa, 10/01/1946

Oitava etapa, 02/01/1946

Décima primeira etapa 17/01/1946

Nona etapa, 05/01/1946 Onze estágios da mesma litogravura. Picasso, 1945. “Touro” (Fonte: http://venice-is-not-sinking.blogspot.com/2009/12/as-metamorfoses-de-um-touro.html, em 20/05/2010)

Observando a série de touros de Picasso podemos perceber, que se o desenho IX lembra o traço de uma criança, porém o seu processo para chegar a este traço só foi possível a partir das estruturas mentais de um adulto (MOREIRA, 2002, p.39).

O esboço é o início do desenho, no seu aspecto mais livre. Certamente, no mesmo, poderão aparecer as diversas técnicas que o artista está pesquisando naquele momento de sua vida e o que normalmente acaba aparecendo nas suas obras. O desenho ainda é mais amplo se explorado em todas as suas possibilidades e técnicas. O estudo da perspectiva utiliza fortemente do desenho a ponto de unificar-se. Normalmente quando se fala em perspectiva logo se pensa em desenho. Isto ocorre porque a perspectiva trata da representação de um espaço, objeto ou figura humana em uma superfície bidimensional dando a idéia da tridimensionalidade. Qualquer que seja o objeto observado, o mesmo terá que se valer da perspectiva para ser apresentado de maneira realista no desenho. Isto só é alcançado levando em consideração o ângulo de visão escolhido pelo observador, e o chamamos de ponto de fuga. Ele determinará em que direção todas as formas e as figuras terão que ser desenhadas na obra. É para ele que todas as linhas irão convergir (VERGUEIRO, 2009). Segundo a teoria da perspectiva, pode haver um ou dois pontos de fuga na mesma imagem. Na figura abaixo, por exemplo, pode-se visualizar um estudo de Leonardo da Vinci sobre a técnica da perspectiva na época do Renascimento.

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Estudo de Leonardo Da Vinci sobre perspectiva. (Fonte: http://odesenho.no.sapo.pt/ls_desenho2.html, em 15/05/2010)

Estes são aspectos muito mencionados nos estudos de Hockney e serve de grande referência para o entendimento do desenho. Além da perspectiva, o uso da luz e sombra também é muito importante. Este trata da representação da luz na imagem pra fim de dar volume, textura e muitas vezes até o movimento.

Desenhos de David Hockney, com uso da luz e sombra como volume e textura. À esquerda: Sketch Book London, Bruges June 2002. Esferográfica sobre papel. À direita: Timber Gone, 2008. Carvão sobre papel. (Fonte: http://www.hockneypictures.com/, em 20/05/2010)

1.4. Apresentando Koetz

Pesquisando a respeito desta linguagem artística, é possível encontrar diversos profissionais que se destacam no meio, como o gaúcho Edgar Koetz, nascido 26


em Porto Alegre, em 1914, ele tem obras suas expostas no acervo de arte do Museu de Artes do Rio Grande do Sul. Muito jovem ingressou na Editora Globo e, como tantos outros artistas de sua geração, aprendeu o ofício de litógrafo com Ernest Zeuner. Participou de movimentos artísticos importantes e foi um dos fundadores da Associação Francisco Lisboa e, na década de 50, ao lado de Carlos Scliar, Danúbio Gonçalves e Glênio Bianchetti, integrou o Clube da Gravura. Trabalhou em editoras como ilustrador e foi premiado pela Câmara Argentina do Livro. Foi um dos idealizadores da Escola de Propaganda do MASP. Seus pincéis registraram casarios, calçadas e praças, apresentando uma síntese da paisagem urbana porto-alegrense em meados do século XX. O que me chamou a atenção neste artista foi sua série de desenhos, intitulada “Alienados” que ele fez em 1964, durante uma internação de trinta dias no Hospital Psiquiátrico São Pedro. Ele retratou em nanquim os pacientes do antigo Hospital do bairro Partenon, numa série de vinte e quatro desenhos. Estes deram origem à exposição, que levou o mesmo nome, apresentada no MARGS em 2004. Em 1965 adoeceu gravemente, vindo a falecer em Porto Alegre, aos 55 anos de idade. Koetz é mais um artista que mostra através de sua arte, que se pode ser também bastante expressivo através do desenho.

Desenhos da série alienados. Koetz, 1964. Nanquim sobre papel. (Fonte: http://www.margs.rs.gov.br /ndpa_dossies_artista_imagens.php?par_id=139)

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1.5. As Silhuetas de Kara Walker

Em contraponto, podemos mencionar a afro-americana Kara Walker, uma artista no cenário contemporâneo que utiliza-se de uma linguagem bastante pessoal para representar estereótipos racistas e sexistas, contando a história dos conflitos raciais nos Estados Unidos. Com recortes de papel predominantemente preto sobrepostos em paredes brancas, gravuras e projeções, a artista mostra silhuetas em tamanho real, contando a história da escravidão e do racismo, onde ficam explicitados preconceitos típicos. Dessa forma, simplifica personalidades complexas e individuais, tornando-as figuras caricaturais e fáceis de digerir. Walker conduz, através da linguagem visual, o observador ao tempo da Guerra de Secessão, nos EUA. Suas obras referem-se também aos shows de minstrel, em que brancos pintavam suas faces de preto e parodiavam a vida dos afro-americanos. Kara Walker nasceu em 1969, na Califórnia e é nome de peso em diversas exposições ao redor do mundo.

Walker trabalhando. (Fontes: http://www.barbarakrakowgallery.com/kara-walker e http://www.pbs.org/art21/artists/walker/index.html, em 14/04/2010)

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CapĂ­tulo 2. O Desenho na Sala de Aula 29


2. O Desenho na Sala de Aula

Analisando as aulas da professora Dóris Wolff de Paris, eu pude perceber a falta que faz buscar atividades diferenciadas que renovem o método de ensino na disciplina de Arte. Muitos alunos repetentes, por já terem visto aquele conteúdo no ano anterior, não tinham interesse nas aulas e nem nas atividades propostas. A professora, por sua vez, acaba por desanimar-se e a aula se torna muitas vezes pouco produtiva. No momento que isso ocorre, significa que algo no método utilizado não está funcionando. Algo deve ser feito para obter-se novamente atenção destes alunos, buscando práticas atualizadas e que contextualizem a realidade deles. Conforme a pedagoga Christiane Martinatti Maia (2009, p. 105): Os brinquedos mudaram, os jogos mudaram, as músicas mudaram, os programas televisivos mudaram, as roupas mudaram, e nossas crianças e jovens também. Assim, cabe a nós professores e futuros professores, também mudar, para problematizar, questionar e perguntar.

Os jovens de hoje estão em permanente movimento e estão cercados de imagens por todos os lados. Assim como nossos alunos, nós também somos reféns de uma avalanche de imagens a todo instante. Se apoderar delas para utilizar na sala de aula é tirar proveito deste meio de comunicação de tão elevado potencial. Para Anamélia Buoro (2002, p. 35): Imagens impõem presenças que não podem persistir ignoradas ou subestimadas em sua potencialidade comunicativa por editores e educadores, mas que, ao contrário, devem ser devidamente exploradas e lidas, o que implicaria ganho evidente para o processo educacional.

Seguindo este conceito, a imagem se torna fundamental dentro da sala de aula e nos métodos de ensino. Pude perceber nas observações que os alunos sentem sede de imagens. A didática, quando prevalece a parte teórica, acaba dispersando a atenção deles para as “imagens” que estão acontecendo naquele instante ao seu redor. Temos que ensiná-los a ler as imagens e não apenas mostrar-lhes como exemplos para serem copiados. Temos diversas obras de arte, as quais podemos aproveitar amplamente no ensino da Arte e que oferecem temas interessantes para estes jovens. Ainda sobre o estudo das imagens, as famosas “releituras” devem ser revistas pelos professores. Com certeza o aluno se sentirá muito mais estimulado se 30


tiver ao seu alcance a oportunidade de construir um diálogo entre suas experiências e a obra de arte. A construção de novas obras a partir deste encontro será válida já que foi re-significada. A proposta de releitura da imagem como exercício de cópia, contudo, tem predominado como modelo de trabalho nas salas de aula (...) termina ainda por discriminar aquelas crianças que se sentem menos capazes de realizar reproduções mais precisas, ou seja, representações semelhantes ao objeto apresentado, o que gera frustração e um conseqüente afastamento das imagens originais, diante da evidente dificuldade de reproduzi-las (BUORO, 2002, p. 23).

O mesmo ocorre quando falamos em desenhar. Os alunos, já acostumados a fazer a “releitura da cópia”, muitas vezes rejeitam o que é proposto pelo professor se colocando numa postura de incapacidade em desenhar. Criou-se nas escolas um tabu a respeito do assunto, onde alunos e alunas não se consideram bons o suficiente para produzir desenhos. Em geral, pelo que ouvi e observei nas escolas cada vez mais professores de arte ensinam aos seus alunos que, mesmo com as diversas técnicas de desenho, eles só chegarão a um desenho perfeito, com muita dedicação, esforço e prática. Porém, na maioria das vezes, o aluno precisa aprender a “ver” antes de aprender técnicas de desenho. Poucos conseguem superar esta barreira e se aperfeiçoar no tema. Prevalece a idéia de que quem sabe desenhar é porque tem dom. Hernández (2000, p.85) problematiza o “dom” em arte relacionando-o com a teoria de Burke (1993) que diz: Na medida em que os mitos são relatos do passado que se podem considerar como falsos ou enganosos, que, com um conteúdo simbólico, narram as vicissitudes de alguns personagens sobre-humanos (...) sua função não é outra que tratar de explicar ou justificar alguns aspectos da realidade atual. Deste ponto de vista, é um mito pensar que uma pessoa possa chegar a ser artista como fruto de um dom da natureza ou sob as influências de circunstâncias excepcionais.

É claro que alguns têm mais facilidades para aprender certas técnicas, e isso ocorre em todas as aéreas do conhecimento, mas o que pretendemos com esta pesquisa é mostrar que todos os indivíduos são capazes de desenvolver a arte do desenho e o quanto isso é importante ser trabalhado na sala de aula. A pergunta é: Como ensinar isso aos alunos? Como já citei na introdução deste trabalho, Edith Derdyk escreve em seu livro Formas de Pensar o desenho (2003) que o desenho como linguagem para a arte,

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para a ciência e para a técnica, é um instrumento de conhecimento, possuindo grande capacidade de abrangência como meio de comunicação e de expressão.

2.1. Pensando o desenho

O estudo do desenho é de extrema importância no ambiente escolar, pois influenciará na maneira em que o aluno começará a observar o mundo a sua volta após a experiência de desenhar. Quando fazemos um desenho de observação, fazemos uma análise do objeto a ser desenhado, e, quando colocamos o registro no papel, captamos uma estrutura, não uma estrutura simples, sintética, mas uma estrutura rica em detalhes, que os olhos desprevenidos não captariam (SZPIGEL, 1995, p.39).

Seguindo este raciocínio, o desenho deve ser trabalhado além de suas visões artísticas e estéticas. Apresentar a importância do mesmo para os alunos e como ele poderá usá-lo em sua vida é o primeiro passo. As mesmas técnicas de desenho que são utilizadas para as artes plásticas, também são estudadas para aqueles que querem se formar em arquitetura, web designer ou cinema. Na criminologia, por exemplo, o seu uso funciona como um desenho científico, descrevendo e explicando o fenômeno ocorrido no local de um crime. Poderá também ser utilizado na execução de retratofalado, que é a tentativa de identificar e caracterizar um sujeito criminoso pelo depoimento de uma vítima. O aluno deve saber que o ato de desenhar pode servir para sua carreira profissional, mas que também vai fazer parte de sua formação como indivíduo observador do mundo. Pode ensiná-lo a ver de forma crítica as imagens que a sociedade e a mídia impõem para todos nós. Porém, fazer isso não é tão simples assim. Para conquistarmos a atenção e o interesse destes “novos observadores” não podemos repetir imagens, nem tão pouco didáticas de ensino, podemos ser contemporâneos e recorrer ao passado se preciso for, mas sem esquecer-se da importância de também respeitar a realidade de cada um.

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Volto a citar a autora Betty Edwards (1984) como ponto de partida para este processo. No seu livro Desenhando com o lado direito do cérebro, ela sugere que iniciemos com nossos alunos, numa sequência de quatro desenhos primordiais: um desenho de memória de uma figura humana; o desenho de outra figura humana, só a cabeça, mas desta vez de alguém que se está vendo neste instante ou pode ser o desenho de nós mesmos olhando no espelho; o desenho de nossa mão (a que não utilizaremos para desenhar) e por último desenhar uma cadeira. Não podemos usar foto como modelo, tem que ser um modelo real. Todos estes desenhos devem ser datados e cada um deve escrever o que sente e pensa sobre cada trabalho nas costas da folha. Este tipo de processo de desenhos iniciais será importante para que os alunos possam visualizar, no decorrer das aulas, o seu progresso e o de seus colegas, possibilitando assim, maior percepção sobre seu trabalho, mostrando onde deve melhorar e o estimulando a desenhar cada vez mais. O desenho, seja qual for o tema que será trabalhado, segue algumas premissas básicas que os alunos devem estar cientes quando vamos trabalhar esta linguagem. Os elementos visuais dependem de um ou de outro para existirem. São eles: a linha, a forma, as texturas, o volume, o movimento, a cor, a perspectiva, a composição e também a luz e sombra. A linha é a maneira mais antiga de nos expressarmos além da mais simples. Segundo Edith Derdyk (2003, p.24): A linha, elemento essencial da linguagem gráfica, não se subordina a uma forma que neutraliza suas possibilidades expressivas. A linha pode ser uniforme, precisa e instrumentalizada, mas também pode ser ágil, densa, trepidante, redonda, firme, reta, espessa, fina, permitindo infindáveis possibilidades expressivas. A linha revela a nossa percepção gráfica.

Usamos a linha para escrever o dia inteiro e ela ganha mais valor ainda quando utilizada para desenhar. Na composição plástica, a linha pode ser usada para definir a direção do olhar que o artista quer que o expectador tenha ao se deparar com sua obra, criar impressão de espaço e distância. Pode ainda querer chamar nossa atenção para uma direção ou ponto da obra, realçando formas, mostrando a altura das figuras e isso nos permite unificar o ensino de técnicas variadas como de profundidade, luz e sombra por exemplo. As linhas não precisam estar desenhadas para nos fazer vê-las. Podem estar sugeridas como uma sequência de objetos dispostos em fileira, ou por um trecho da obra com maior incidência de luz. O aluno, tendo conhecimento sobre estas 33


variações, será capaz de perceber as impressões do artista e produzir suas próprias obras de maneira mais rica. Os artistas as empregam para expressar idéias, criar formas, transmitir sentimento, sensação, para reproduzir texturas, movimento e espaço. Como artista de grande importância no assunto, podemos citar David Hockney, que utiliza o desenho como objeto de estudo e meio para experimentar novas técnicas e mecanismos. Suas obras possuem variadas características que podemos utilizar na sala de aula desde linhas paralelas que dão volume, luz e sombra, como também sugerir texturas. No trabalho do artista também podemos encontrar diversos desenhos de paisagem na qual o uso da linha apresenta bastante profundidade e o desenho da figura humana com extremo realismo. Além disso, o artista faz uma importante abordagem sobre o uso da câmara escura em seus trabalhos de desenho que pode servir de idéia para um futuro projeto escolar, iniciando pela construção do mecanismo da câmara e depois trazendo o pinhole e a história da fotografia. Estes podem ser instrumentos valiosos para tornar as aulas mais interessantes. Abaixo, segue alguns desenhos de Hockney:

Hockney, 1990. Stanley, grafite sobre papel. (Fonte: http://www.hockneypictures.com/)

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Hockney, 1993. Boodgie, grafite sobre papel. (Fonte: http://www.hockneypictures.com/)

À esquerda: Hockney, 1994. Jeff Burkhart, grafite sobre papel. À direita: Hockney, 2000. Cactus and Wall, carvão sobre papel. (Fonte: http://www.hockneypictures.com/)

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Hockney, 2008. Big Trees Near Warter II, carvão sobre papel. (Fonte: http://www.hockneypictures.com/)

Hockney, 2008. Cut Trees - Timber, carvão sobre papel. (Fonte: http://www.hockneypictures.com/)

O desenho, como obra de arte, tem muitas formas de ser representado. Cabe ao artista descobrir qual das suas linguagens se encaixa ao seu processo criativo e ao professor de Arte, compartilhar com os alunos este conhecimento, tornando-os multiplicadores do fazer artístico. “O desenho é uma atividade perceptiva, algo que não se completa, mas que nos convida, sugere, evoca” (Derdyk, 2003, p. 43).

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2.2. Desenho e diversidade

Proporcionar aos alunos estilos variados de trabalhos de desenho através de artistas diferentes pode ser uma saída para esta problemática. Sendo assim, em contraponto à Hockney podemos citar o artista gaúcho Edgar Koetz que tem um trabalho mais gestual e desprendido do realismo. Suas obras, como já vimos no capítulo anterior, foram criadas em um momento marcante da vida do artista, na qual desenhava os pacientes no São Pedro que, assim como ele, lá estavam tentando se restabelecer e voltar para o convívio dos entes queridos. Neste sanatório eram desenvolvidos diversos trabalhos artesanais com os internados e algumas destas pessoas que foram desenhadas por Koetz, tiveram suas obras expostas em vernissages. Por ser gaúcho, este artista acaba trazendo não apenas uma nova forma de ver e trabalhar o desenho da figura humana, como também mostra a realidade daqueles que, mesmo com dificuldades psíquicas, podem desenvolver um projeto artístico criando obras de arte e ainda trazer aos alunos um pouco da história de nosso Estado proporcionando uma didática multidisciplinar de rica cultura. Conforme Rosa Iavelberg escreve no livro Para gostar de aprender Arte (2003, p. 22): Estudar as particularidades de cada região e estabelecer relações com contextos comunitários próximos e distantes produz motivação de aprender, promove a educação ética, a cidadania, as práticas de inclusão social e amplia a visão crítica sobre questões do cotidiano no tempo e no espaço. A Arte tem papel fundamental na recuperação da cultura dos alunos, favorecendo sua identificação com os conteúdos da aprendizagem.

Trabalhar o desenho em sala de aula não tem uma regra definida e pode ser uma atividade muito prazerosa e reveladora para os alunos. Fazer desconexão dos desenhos estereotipados e começar a “treinar o olhar” dos educandos como sugere Edwards (1984) pode ser o ponto chave para o início do trabalho. Analisando os questionários que apliquei com os alunos no Estágio, observei a necessidade que eles tem de experimentar coisas novas, seja no material ou no tema proposto. Porém, acredito que utilizar linguagens diversificadas e mais atuais também é bastante importante. Pensando assim, começou a surgir as Histórias em quadrinhos como possível atividade ou como projeto na criação de obras para o ensino do desenho dentro do ambiente escolar. Segundo Vergueiro (2009, pág 8 e 131):

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De certa forma, pode-se dizer que os quadrinhos vão ao encontro das necessidades do ser humano, na medida em que utilizam fartamente um elemento de comunicação que esteve presente na história da humanidade desde os primórdios: a imagem gráfica. [...] Todos os principais conceitos das artes plásticas estão embutidos nas páginas de uma história em quadrinhos.

Aproveitando o que foi citado, penso que as HQs possuem todos os requisitos básicos e até mesmo os mais avançados para se fazer um desenho além de estudar seus aspectos técnicos e culturais. Assim como trabalhar variadas linguagens, utilizar uma metodologia multidisciplinar será também importante na sala de aula e poderá auxiliar na construção do trabalho artístico. Promover trabalhos de dança e música podem auxiliar no estudo das percepções corporais, assim como estudar as partes do corpo pela disciplina de biologia poderá ser utilizado na hora de desenhar a figura humana na disciplina de Arte por exemplo. Certamente tornará mais fácil e possível para os alunos desenvolver o desenho com propostas deste tipo. Entendemos por interdisciplinaridade o trabalho com diversas áreas de conhecimento e sua articulação. Em Arte, podemos planejas sequências de atividades articulando as diversas linguagens: artes visuais, dança, música e teatro ou ensinar os conteúdos de cada linguagem separadamente. Do mesmo modo, as linguagens de arte podem ser planejadas em articulação com as demais áreas de conhecimento do currículo em múltiplas associações (IAVELBERG, 2003, p.68).

Outra artista que podemos citar neste projeto de ensino é Kara Walker. Ela apresenta um processo de criação baseado na realidade racista em que viviam os negros nos EUA na época da Guerra de Secessão como já vimos no capítulo anterior. O trabalho desta artista pode ser introduzido na sala de aula por seu teor histórico e social já que aborda temáticas que são normalmente encontradas na realidade dos alunos como o racismo, preconceito, abuso de menores entre outros. Sua perspectiva pode servir e muito no contexto escolar. O formato na qual ela faz a exposição das obras produzidas é uma questão a parte. Seu trabalho mistura técnicas de desenho em que ela tem que abordar através das imagens toda uma história, como é exemplo da obra chamada "Gone” um Romance Histórico que retrata uma história de amor em meio a Guerra Civil e faz referência a Margaret Mitchell's do romance E o vento levou. Este tipo de formato, também encontradas nas HQs, são facilmente absorvidas pelos alunos e podem resultar em exposições na propria comunidade escolar.

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À esquerda: Fotografia da obra Gone. À direita: Detalhe da obra. Walker, 1994. (Fonte: http://www.pbs.org/art21/artists/walker/index.html, em 14/04/2010)

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Capítulo 3. Reconhecimento do Espaço de Ensino 40


3. Reconhecimento do Espaço de Ensino

3.1. Dados gerais da escola observada Criada pelo decreto 2.073/1914 de 30 de março de 1914 com o nome de “Colégio Elementar de Viamão”, o Setembrina, como é chamado popularmente pelos viamonenses, traz uma história que confunde-se com a do município a partir de sua inauguração. Ela esteve situada em diversos lugares da cidade, mas foi na década de 30 que se iniciou a construção do prédio que a abriga atualmente e que, na época, era um local tranqüilo fora da zona urbana e destinava-se também a colônia de férias. O grupo escolar recebeu o nome de Setembrina em homenagem a Vila Setembrina, cenário de gloriosas páginas da epopéia Farroupilha. Vale lembrar que na década de 40 o novo prédio do Grupo Escolar, também abrigou a Escola para Débeis Físicos e conforme registro em termo de abertura do livro de atas de 1946, consta com o nome de “Grupo Escolar e Escola para Débeis Físicos Setembrina”. Em 1972 a escola passa a ter o Ensino Supletivo e na década de 80 recebe a autorização para o funcionamento da 7ª e 8ª séries, Classe Especial e Ensino Supletivo de 2º Grau. No início do ano de 2000, a escola é transformada em Escola de Ensino Médio Setembrina e no final de 2002 ocorre a formatura das 3 primeiras turmas de Ensino Médio da escola, na qual eu era uma das formandas. O Setembrina hoje recebe em torno de 2.300 alunos de classe média à baixa, 92 professores, 12 funcionários, tem como Diretor o professor Marco Antonio Sozo e como Coordenadora Pedagógica, a pedagoga Eloá Silva Prado. A escola oferece Ensino Fundamental, Ensino Médio e Educação para Jovens e Adultos a nível Médio a toda comunidade da região central da cidade de Viamão.

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3.2. Observações silenciosas Primeiro encontro: Observação das aulas 1 e 2. Realizado em: 09/03/2010 das 15h às 16h45min. A professora Dóris apresentou a professora estagiária Gabriela à turma. Falou um pouco sobre o que vai ser trabalhado retomando com o que foi feito na aula anterior. Começou a escrever no quadro o objetivo geral e avaliação do trimestre. A turma é bem agitada, composta por 16 meninas e 16 meninos. Todos copiam o que é passado. A professora não deixa um aluno entrar na sala de aula após o fechamento da porta e mantém isso como regra. As classes são dispostas nas laterais da sala com um espaço vazio no centro. Por sua vez, a sala é um pouco suja, tem as paredes riscadas e a porta é fechada com cadeado para evitar invasão de terceiros ou possíveis furtos. Há armários aéreos que não são utilizados pelos professores e acabaram virando depósitos. As janelas dão acesso à rua e isso por vezes desvia a atenção dos alunos que sentam no fundo da sala. A avaliação se da através de critérios. Este método é utilizado pela professora Dóris em todas as suas turmas. Avisa que também avalia o caderno de cada um. É feita a chamada e todos respondem e avisam quando o colega não veio ou ficou na rua. Após, a professora fala a respeito de como será a avaliação e relembra o que foi dado na 5ª série. Acrescenta assunto sobre cores e simetria. Exige 5 trabalhos e explica sobre tabela de critérios que entregará no final do trimestre. Existe um horário de merenda intercalado entre as turmas, antes do recreio, para não aglomerar no horário do mesmo. Descemos para o refeitório. Neste meio tempo, a professora comentou um pouco sobre alguns casos especiais que há na turma como alunos repetentes. Há também alunos com problemas familiares e que são excluídos pelos colegas inclusive por falta de higiene e mau cheiro. Relata que estes muitas vezes não têm o acompanhamento dos pais na vida escolar. Voltamos para a sala e a Professora retoma a matéria, passando no quadro os textos e todos copiam. Bate para o Recreio. Voltamos para a sala e os alunos ficam bem agitados. A professora circula pela sala fazendo contato com os alunos. Sua postura é séria. Volta à matéria e

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contextualiza citando outras disciplinas como exemplo. Tem uma certa dificuldade em falar pelo barulho dos alunos. Sugere um trabalho de desenho no caderno. Tema livre.

Segundo encontro: Observação das aulas 3 e 4. Realizado em: 16/03/2010 das 15h às 16h45min. A professora Dóris e professora estagiária Gabriela entram na sala. A turma ainda está bastante agitada e demora a se acalmar. A sala não está disposta da mesma maneira, na qual havia um vazio em seu centro, mas continua desorganizada. Parece haver mais integração entre os alunos. Professora retoma o conteúdo que estava sendo trabalhado na aula anterior e passa matéria e atividade no quadro. O agito da turma não para, assim como as conversas paralelas neste meio tempo. Diminui apenas quando Dóris começa a falar a respeito do que esta sendo proposto. Começa a inclusão do pensamento crítico e da reflexão sobre Arte na disciplina. A chamada é feita e começa novamente o barulho. A professora cobra o trabalho da aula passada e verifica quem o fez. Parada para merenda e recreio. Volta do intervalo. Os alunos começam a copiar a matéria do quadro e aos poucos se acalmam, mas dura pouco. A professora começa o trabalho com as cores e passa toda a teoria a respeito. O agito é grande e a professora intervém e muda um aluno de lugar, mas eles estão muitos inquietos e não conseguem se concentrar no que fazem. Isso aumenta com o fim do conteúdo. É dada explicação sobre o conteúdo que foi passado, sobre o que vai ser feito na próxima aula e é solicitado material para o mesmo.

Terceiro encontro: Observação das aulas 5 e 6. Realizado em: 23/03/2010 das 15h às 16h45min. Chegada na sala e início da aula. Os alunos estão muito agitados, precisando a interferência da professora varias vezes. Ela retoma o assunto trabalhado na última aula e apresenta uma atividade. Fala sobre composições plásticas baseadas em flores e o uso das cores frias e quentes. Apresenta duas composições que fez para mostrar como exemplo e propõe aos alunos que confeccionem obras como as suas também baseadas nas cores e no tema floral, em seus cadernos de desenho. Aproveitei o momento e 43


perguntei para a professora sobre estes trabalhos que são feitos nos cadernos e ela me informou que recolhe os mesmos e avalia o que é produzido. A professora retira dois alunos da sala de aula, o que não faz com que os outros se acalmem. Pausa para merenda e recreio. Retornando, a turma continuou a atividade. Solicitei ao aluno Luan para trazer o caderno do ano passado na qual não tiveram aula com a professora Dóris e sim com licenciados em outras disciplinas para que eu pudesse ver o que eles aprenderam nos anos anteriores. A professora pediu tempera para a próxima aula.

Quarto encontro: Observação das aulas 7 e 8. Realizado em: 13/04/2010 das 15h às 16h45min. Após a entrada na sala e os alunos sentarem, é explicado e aplicado o questionário da estagiária no 1º período. Conforme os mesmos vão sendo terminados, também vão sendo entregues. Noto que foi feito o espelho de classe na turma separando alguns alunos mais inquietos. Parada para merenda e recreio. O professor Luis segurou os alunos de todas as turmas no pátio até a chegada de suas respectivas professoras na sala de aula. Retornando, a professora passa teoria no quadro. Trabalha composições simétricas e assimétricas. Como não houve observação nas duas últimas aulas, a professora explicou o que foi trabalhado. Conversas paralelas no fundo da sala ainda continuam e na lateral, começa a haver agressão leve com palavras, “tapinhas” e “soquinhos” entre os alunos.

3.3. Análise das observações silenciosas Analisando a turma de 6ª série, nº64, da Escola E. E. M. Setembrina, pude verificar desde a primeira aula observada, o quão agitados são estes alunos. A postura dos mesmos atrapalha bastante o aprendizado da disciplina em Arte. A professora Dóris 44


segue uma metodologia bastante teórica o que faz aumentar ainda mais a inquietude dos alunos. Os conteúdos baseiam-se principalmente nos estudos das linhas, texturas e outros conceitos básicos de Arte. A falta do uso de reproduções de imagens, o contato com materiais diversificados e aulas mais práticas, restringe os trabalhos dos alunos ao desenho colorido com lápis de cor e giz de cera. Conforme um os Objetivos Gerais de Arte descritos nos Parâmetros Curriculares Nacionais: Arte Ensino Fundamental (2000, p.100), “interagir com materiais, instrumentos e procedimentos variados em artes (Artes Visuais, Dança, Música, Teatro), experimentando-os e conhecendo-os de modo a utilizá-los nos trabalhos pessoais”. Esse tipo de método auxilia no desenvolvimento do aluno, dando-o a possibilidade de escolher os materiais que mais se identifica o que poderá tornar o seu trabalho mais rico e ainda possibilitará que ele aprenda a reconhecer as variadas técnicas utilizadas nas obras de arte, aumentando sua autoconfiança e seu pensamento crítico. Outro aspecto que considero fundamental é o fato de a professora interagir com os alunos, passando de mesa em mesa quando os mesmos estão realizando alguma atividade, o que possibilita que a educadora possa avaliar o processo individual de cada um respeitando suas dificuldades e pude ver claramente o quanto isso é importante para os alunos. Como seguem as Orientações para avaliação em Arte descrita nos PCN’s: Arte Ensino Fundamental (2000, p.100), “aprender ao ser avaliado é um ato social em que a sala de aula e a escola devem refletir o funcionamento de uma comunidade de indivíduos pensantes e responsáveis”. A professora ainda recolhe os trabalhos que foram desenvolvidos em sala de aula, assim como os cadernos de desenho e o de conteúdo teórico, que são utilizados também na avaliação, na qual a professora analisará o interesse e comprometimento do educando. Como ela explica a regra de critérios que utiliza para avaliá-los no primeiro dia de aula, os alunos sabem como a professora chega à nota que é informada no final de cada trimestre. Citando novamente os PCN’s: Arte Ensino Fundamental (2000, p.100), Ao avaliar, o professor precisa considerar a história do processo pessoal de cada aluno e sua relação com as atividades desenvolvidas na escola, observando os trabalhos e seus registros (sonoros, textuais, audiovisuais). O professor deve guiar-se pelos resultados obtidos e planejar modos criativos de avaliação dos quais o aluno pode participar e compreender: uma roda de leitura de textos dos alunos, ou a observação de pastas de trabalho, escuta de

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músicas ou vídeos de dramatizações podem favorecer a compreensão sobre os conteúdos envolvidos na aprendizagem.

Acredito que, apesar da agitação constante, a turma pode produzir trabalhos fantásticos, mas que necessita de propostas que prendam mais a atenção deles assim como atividades que estimule a integração e o coleguismo no grupo.

3.4. Análise do questionário respondido pela professora A professora Doris Wolff de Paris trabalha com alunos do Ensino Fundamental ao Médio na Escola Estadual de Ensino Médio Setembrina, tem Licenciatura Plena em Educação Artística e atua na profissão há 21 anos e é a única na Escola com esta formação específica. Seu método de ensino se enquadra numa tendência tradicional, na qual utiliza textos sintetizados, aulas expositivas dialogadas, painéis e folhas de exercício (CAPELLÃO, 2007), porém, ela mostra bastante preocupação em buscar novidades e novas técnicas de ensino estimulando os seus alunos. Esta postura me faz pensar em sua metodologia como a utilizada na Escola Crítico-social dos conteúdos, cujo objetivo era obter uma escola pública com competência, propiciando aos alunos o acesso aos conteúdos fundamentais (IAVELBERG, 2003). A educadora mostra-se bastante desmotivada e diz não acreditar no interesse dos alunos na disciplina e que a grande maioria deles faz os trabalhos somente para garantir nota no final do trimestre. Ela informa ainda que não tem o costume de fazer uso de ferramentas tecnológicas como o computador e internet em suas aulas. Este postura, de certa forma, a desfavorece, pois estamos lidando com alunos totalmente informatizados e cada vez mais críticos com o que os é ensinado. Conforme Adriana Capellão (2007, p.163) cita Papert (1994), as tecnologias de informação, desde a televisão até os computadores e todas as suas combinações, abrem oportunidades sem precedentes para a ação a fim de melhorar a qualidade do ambiente de aprendizagem. [...] Atualmente os alunos tem mais agilidade em utilizar o computador, nós, professores, trocamos experiências com eles.

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Através do questionário que agora analisamos, a educadora descreve que não costuma participar de cursos de capacitação, mas mostra-se bastante interessada quando há oportunidade. Acredita que não são comuns estes cursos na área de Arte e que os mesmos deveriam ocorrer com mais frequência. Como escreve Adriana Capellão (2007, p. 159):

Coordenar ações voltadas à formação continuada de professores, [...] é sinônimo de entender essa formação como elemento indispensável no dia-adia do trabalho docente e buscar estudos que facilitem ou diminuam a distância entre a teoria, com base na qual nos respaldamos, e a nossa prática em sala de aula.

Como a escola não possui acervo de material como livros e revistas na biblioteca para auxiliar no ensino de Arte, a professora recorre a seu acervo pessoal. Ela baseia-se em conteúdos pré-estabelecidos por séries e projetos e são relacionados e contextualizados com a realidade dos alunos em seu dia-a-dia. Todo o planejamento do currículo de Arte da Escola, para todas as séries, foi a profª Dóris que organizou e os outros professores que assumem a disciplina (e que não são licenciados em Arte), recorrem a ela para organizar o material que será dado aos alunos. A maioria dos alunos não conhece um museu e a educadora me informou que as saídas de campo se tornaram difíceis de ocorrer devido à falta de incentivo do governo e o fato dos alunos não terem condições financeiras de participar destes eventos e que muitas vezes não trazem, nem mesmo, o material solicitado em aula. A professora trabalha em geral a releitura de imagens, trazendo obras de artistas, trabalhos de outros alunos e na maioria das vezes feitos por ela mesma para mostrar com exemplo, o que ela está propondo. A avaliação ocorre analisando os trabalhos práticos feitos diariamente pelos alunos e observando os cadernos que devem estar com os conteúdos copiados. Para isso a professora utiliza critérios de avaliação se valendo dos símbolos (+), (+ -) e (-) para estabelecer a nota de cada um.

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3.5. Análise dos questionários respondidos pelos alunos Analisando a turma de 6ª série do Ensino Fundamental, nº64, da Escola Estadual de Ensino Médio Setembrina, pude verificar desde a primeira aula observada, o quão agitados são estes alunos. A postura dos mesmos atrapalha bastante o aprendizado da disciplina em Arte. A professora Dóris segue uma metodologia bastante teórica o que faz aumentar ainda mais a inquietude dos alunos. Os conteúdos baseiam-se principalmente nos estudos das linhas, texturas e outros conceitos básicos de Arte. A falta do uso de reproduções de imagens, o contato com materiais diversificados e aulas mais práticas, restringe os trabalhos dos alunos ao desenho colorido com lápis de cor e giz de cera. Como já citado acima, os alunos precisam interagir e experimentar materiais diversificados nas aulas de Arte. Esse tipo de experiência auxilia no desenvolvimento do aluno, dando-o a possibilidade de escolher os materiais que mais se identifica o que pode tornar o seu trabalho mais rico e ainda possibilita que ele aprenda a reconhecer as variadas técnicas utilizadas nas obras de arte, aumentando sua autoconfiança e seu pensamento crítico. Outro aspecto que considero fundamental é o fato de a professora interagir com os alunos, passando de mesa em mesa quando os mesmos estão realizando alguma atividade, o que possibilita que a educadora possa avaliar o processo individual de cada um respeitando suas dificuldades e pude ver claramente o quanto isso é importante para os alunos. A professora ainda recolhe os trabalhos que foram desenvolvidos em sala de aula, assim como os cadernos de desenho e o de conteúdo teórico, que são utilizados também na avaliação, na qual a professora analisará o interesse e comprometimento do educando. Como ela explica a regra de critérios que utiliza para avaliá-los no primeiro dia de aula, os alunos sabem como a professora chega à nota que é informada no final de cada trimestre. Acredito que, apesar da agitação constante, a turma pode produzir trabalhos fantásticos, mas que necessita de propostas que prendam mais a atenção deles assim como atividades que estimule a integração e o coleguismo no grupo.

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3.6. Motivos da escolha/definição do tema de pesquisa em Artes Visuais Nas quatro semanas em que acompanhei a turma de Ensino Fundamental e nas seis semanas que acompanhei a turma de Ensino Médio, pude presenciar nas atividades de desenho em que alguns alunos solicitavam para outro colega fazer os seus trabalhos. Quando perguntava a estes alunos por que eles próprios não faziam os seus desenhos, obtive respostas como: “não sei desenhar”, “o desenho dele é mais bonito que o meu”, “o meu desenho é feio”. Porém, nos questionários aplicados, a maioria dos alunos respondeu que nas aulas de Artes o que mais gostavam de fazer é desenhar. Isso me fez refletir sobre o tema desenho, analisando sua importância na vida de todos os indivíduos e pensando o seu uso nas aulas de Arte, os estereótipos, o mito do “dom”, entre outros aspectos, considerando os alunos que temos na sociedade atual. Conforme é apresentado por Edith Derdyk (2003, p.19), “a criança enquanto desenha canta, dança, conta histórias, teatraliza, imagina, ou até silencia...”, é o momento em que a imaginação e a criatividade andam livres. O desenho é base para a maioria das atividades plásticas, dos planejamentos, dos projetos arquitetônicos. Ele pode ser um esboço, uma anotação gráfica, mas ele próprio também pode ser uma linguagem artística. Reconhecê-lo como tal e passar esse conhecimento para os alunos, se tornou o maior desafio deste Projeto e por isso o desenho foi escolhido como Tema não somente da Pesquisa em Artes Visuais, mas do Trabalho de Curso como um todo.

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CapĂ­tulo 4. Projeto Educativo de Ensino 50


4. Projeto Educativo de Ensino A Escola que Desenha: Reflexões sobre aprender e ensinar

4.1. Dados Gerais da Escola e Turma

O presente Projeto Educativo de Ensino foi realizado na Escola Estadual de Ensino Médio Setembrina, situada na Avenida Bento Gonçalves, nº1452, na Cidade de Viamão / RS. Refere-se ao Projeto idealizado no primeiro semestre de 2010 e executado no segundo semestre do mesmo ano, com a turma nº64, de 6ª série do Ensino Fundamental. A observação inicial e a Prática de Ensino tiveram supervisão da Professora Titular desta turma: Dóris Wolff de Paris.

4.2. Dados Gerais do Projeto

Título do Projeto: A Escola que Desenha: Reflexões sobre aprender e ensinar. Nome do(a) Autor(a) do Projeto: Gabriela Rodrigues. Justificativa do Projeto: Grande parte das atividades artísticas e profissionais são iniciadas pelo desenho. Ele está presente no cotidiano das pessoas e serve de base para muitas das didáticas de ensino que temos nas escolas. Estudar o desenho é permitir-se ir além das simples linhas rabiscadas e descobri-las como produção e manifestação artística. O aluno que tem conhecimento das técnicas de desenho poderá reconhecer, de maneira eficaz, as variações de traçados, a intenção do artista em uma pintura, se esta existir, o processo de construção de obras de arte, projetos arquitetônicos, leitura de HQs e livros de histórias ou mesmo de imagens publicitárias. 51


Poderá perceber melhor as texturas de objetos, plantas, etc. ou o que é melhor, poderá reproduzi-las, recriá-las e transformá-las através desta anotação gráfica do que está sendo observado. O desenho instiga imaginação, ajuda no desenvolvimento da coordenação motora e psíquica além de tornar o aluno um indivíduo mais sensível e crítico com o mundo à sua volta.

Objetivo Geral do Projeto: Apresentar aos alunos a importância da disciplina Arte no ambiente escolar, propondo o estudo do desenho como linguagem artística possível a todos os alunos, desmistificando a idéia do “dom”, do “belo” e do “feio”.

Conteúdos Envolvidos:  Fundamentos do desenho, premissas básicas;  O estudo do desenho utilizando variadas técnicas;  Leitura de imagem;  A criatividade como fonte de inspiração para o desenho;  Outras formas de desenhar figura humana;  Desenho de observação;  Montagem, exposição e instalação de arte.

Metodologias utilizadas:  Expositivas, dialogadas e práticas.  Apreciação de imagens e apresentação de vídeo.

Avaliação do Projeto: A professora irá avaliar o processo desenvolvido por cada aluno, considerando sua evolução e comprometimento. Será feita também uma pasta contendo as atividades desenvolvidas pelos alunos durante o projeto. Esta pasta servirá como “caderno de Arte” ou “Diário de bordo” na qual os alunos poderão ao final do processo, fazer sua auto-avaliação, refletindo sobre tudo que foi aprendido.

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4.3. Prática de Ensino

4.3.1. Primeiro Encontro - Aulas 1 e 2

Identificação da aula: Apresentando a disciplina e o desenho nas profissões Realizada em: 31/08/2010 das 13h30min às 15h00min.

Conteúdos desenvolvidos:  O desenho nas profissões;  Retrato falado.

Lista de atividades:  Conversa a respeito da disciplina de Arte;  Desenho de retrato falado criado pelo coletivo.

Duração da aula:  Dois períodos de 45min cada, totalizando 90min de atividades.

Tempo estimado para cada atividade:  Nos primeiros 15min eu me apresentarei e falarei sobre o trabalho que iremos desenvolver ao longo do projeto. Nos próximos 20min apresentarei as reproduções com as imagens que se utiliza a Arte como linguagem. Após começaremos com a atividade de desenho do retrato falado.  Indicar ao final da aula o site http://pimptheface.com/create/ para que trabalhem em casa com programa específico.

Objetivos específicos:  Apresentar a importância da disciplina;  Possibilitar o estudo do desenho nas variadas áreas do conhecimento instigando a criatividade e o fazer artístico.

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Metodologias:  Expositiva, prática e dialogada.

Recursos/materiais:  Lápis de desenho 6B e papel sulfite 75g tamanho A4.

Algumas imagens utilizadas na atividade:

(Fontes: http://eb1peareeiro.blogspot.com/2010_10_01_archive.html, em 25/05/2010, http://www.arcoweb.com.br/arquitetura/rangel-moreira-arquitetura-edificio-residencial-01-07-2000.html, em 23/05/2010 e http://www.clickmoda.com.br/categoria/portifolio/page/3/, em 25/05/2010)

Avaliação:  Os alunos serão avaliados por critérios, de acordo com os objetivos específicos desta atividade. Para uso de tais critérios será levado em consideração: o Se houve interesse em relação à proposta de trabalho e aprendizagem com a atividade do dia, atingindo os objetivos propostos desta aula; o Interesse e concentração dos alunos na realização da atividade; o Se houve interação com o grupo.  Aqueles alunos que não participarem da atividade não pontuarão, ficando com nota zero no final do trimestre.

Dinâmica planejada para o encontro: 1) Iniciar com um diálogo, conversando sobre a importância da disciplina no currículo escolar, o estudo do desenho e os diversos materiais que podemos utilizar; 54


2) Apresentar reproduções de imagens que contenham exemplos das diversas profissões que se utilizam de linguagens artísticas, dando ênfase para as quais podemos utilizar as técnicas de desenhos; 3) Distribuir folhas de papel sulfite a4 uma para cada aluno juntamente com lápis 6B; 4) Propor aos alunos a realização de um desenho de retrato falado, conforme a criminologia, na qual os alunos terão que fazer um desenho de figura humana, informando as características de uma pessoa imaginada pelo coletivo. A professora vai solicitar aos alunos, sorteando-os pelo número da chamada, que descreva uma característica da pessoa imaginada e os outros irão desenhando conforme estas informações; 5) Solicitarei que os alunos deem detalhes das características, fazendo-os pensar em como completar o detalhe que o colega anterior propôs e conversarei a respeito das diversas formas de executar um desenho como este, trazendo o uso da luz e sombra, proporção, coloração com escalas de cinza já que o mesmo será feito apenas com grafite. Tentarei contextualizar com técnicas que eles já aprenderam nas aulas anteriores com a profª titular e com informações conhecidas do contexto em que eles vivem. Ao final da aula, recolherei todos os desenhos.

O que foi realizado: Após a professora titular Dóris Paris fazer minha breve apresentação, comecei a conversar com os alunos. Entreguei a eles as imagens contendo os diversos desenhos relacionados às profissões, contendo no verso das mesmas, algumas curiosidades ou informações a respeito do profissional que trabalha com aquele tipo de linguagem artística. Falei a respeito de cada uma delas e trouxe exemplos de como a Arte está interligada ao mundo profissional. Conversei sobre a importância do ensino da disciplina na escola como um momento de expor sua criatividade na construção de projetos. Informei também que os concursos vestibulares e do ENEM hoje tem obrigatoriamente questões vinculadas a Arte. Salientei do dever de dedicar-se sempre ao que é proposto pelos professores lembrando que todas as disciplinas contribuirão de alguma forma no futuro e que com a de Arte não será diferente. Finalizei então, ressaltando de algumas respostas dos questionários entregues à turma no semestre anterior, na qual alguns alunos descreveram as aulas de Arte como desnecessárias, alegando que não seguiriam em 55


profissões relacionadas em suas vidas e comparei-as com o que estávamos aprendendo nesta aula. Pude perceber que os alunos responderam positivamente à conversa, contribuindo com perguntas pertinentes ao assunto e mostrando bastante interesse e curiosidade pelas imagens e pelo conteúdo contido no verso das mesmas. Relacionei-as com atividades que eles executaram em aula nas séries anteriores e também a outras disciplinas como, por exemplo, o croqui de localização de marco de coordenadas geográficas, na qual se relaciona com a disciplina de geografia; ou ainda a imagem do esqueleto humano que exemplifiquei com a disciplina de ciências e biologia, mostrando que o estudo do desenho também serve para ilustração do corpo humano e que se torna imprescindível até para quem se interessa em medicina e áreas afins. Esta ligação multidisciplinar, que aparece muito no ensino da Arte, facilita o entendimento do conteúdo estudado, faz com que os alunos associem com os conhecimentos pré-existentes, auxiliando sua compreensão. Como descreve a professora Noêmia Varella (2001) a arte-educação é muito mais abrangente, envolve o todo, se tornando fundamental no contexto educacional em que estamos inseridos. O espaço da arte-educação é essencial à educação numa dimensão muito mais ampla, em todos os seus níveis e formas de ensino. [...] É território que pede presença de muitos, tem sentido profundo, desempenha papel integrador plural e interdisciplinar no processo formal e não-formal da educação (FUSARI e FERRAZ, apud VARELA, 2001, p. 20).

Seguindo na atividade, propus que fizessem o desenho do retrato falado criado pelo coletivo e expliquei como seria a dinâmica. Fui chamando os alunos um a um e solicitando que contribuíssem com alguma característica, instigando que eles descrevessem “a pessoa imaginária” dando detalhes cada vez mais minuciosos como por exemplo, texturas, cor, tipo, tamanho, etc. Os alunos chamados nesta atividade foram: Bruna, Bruno S., Fernanda, Gabriel F., Giovane, Jaíne, Johnny, Luan, Maiara, Mélany, Natália e Thauã. A turma começou a desenhar a figura, com o material que eu forneci a eles, seguindo as características que iam sendo ditadas pelos colegas e mostraram-se contentes com a atividade. Inicialmente os alunos quiseram desenhar o cantor “Justin Bieber” e estavam dando as características deste “ídolo”, porém aos poucos a imagem foi se modificando deste estereótipo e se tornando uma figura diferente. Houve alguns alunos que não gostaram desta mudança, pois fugia da imagem idealizada, mas que não deixaram de fazer a atividade e no final acharam-na divertida. A turma finalizou a atividade dando o nome de “Lucas Bittencourt Peixoto” e 56


descrevendo que era o desenho de um fugitivo da polícia. Com esta proposta, eles fizeram uma leitura de imagem invertida, na qual a figura ia sendo construída por eles a partir das descrições fornecidas. Falei a eles sobre como conseguir variação tonal com o lápis 6B, introduzindo o uso de luz e sombra nos desenhos.

Trabalhos dos alunos: Giovane, Thauã e Massao, respectivamente. (Fonte: RODRIGUES, 2010)

Como podemos visualizar nas imagens acima, os alunos passaram para o desenho as mesmas características uns dos outros, conforme o que foi proposto, porém, ficam evidentes ao final de cada trabalho, seus diferentes processos de execução do desenho e suas diferentes visões sobre a mesma figura. O aluno Giovane preocupou-se mais com os detalhes do rosto do personagem, tendo um cuidado em não borrar e não sair da linha que delimita o desenho. Já os alunos Thauã e Massao utilizaram do esfumaçado para obter o tom negro da pele do personagem e tiveram maior atenção para o desenho como um todo, dando a figura imaginada não apenas traços faciais, mas também físicos. Após recolher os trabalhos combinei com a professora a atividade que será executada na próxima aula. Como não tivemos mais tempo, não pude passar a indicação do site http://pimptheface.com/create/ para que trabalhassem em casa como estava planejado. Mesmo assim, acredito que atingi o principal objetivo da aula 1 e 2 deste projeto que era de mostrar o valor da disciplina de Arte para a turma e a importância de dedicar-se nas atividades propostas pelo profº de Arte. Também iniciamos o estudo do desenho, que é o tema principal do projeto e apresentamos algumas de suas linguagens. Além disso, consegui instigar o interesse dos alunos para as próximas aulas e pude 57


proporcionar a eles um momento descontraído na qual a criatividade pode ser trabalhada e explorada. Conforme Ostrower (1987, p. 10) “o homem cria, não apenas porque quer, ou porque gosta, e sim porque precisa; ele só pode crescer, enquanto ser humano, coerentemente, ordenando, dando forma, criando”.

Encaminhamentos: Para a próxima aula, pretendo trabalhar a figura criada pelos alunos, introduzindo novos aspectos e a colorindo com materiais diversos como lápis de cor, pastel seco e oleoso para a construção dos mesmos. Farei também a indicação do site http://pimptheface.com/create/ que havia sido planejado para aula 1 e 2.

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4.3.2. Segundo Encontro - Aulas 3 e 4 Identificação da aula: Apresentando os materiais para colorir um desenho Realizada em: 21/09/2010 das 13h30min às 15h00min

Conteúdos desenvolvidos:  Conhecendo os materiais de desenho;  Fundamentos do desenho.

Lista de atividades:  Escrever nova história para o personagem “Lucas Peixoto” criado na aula anterior;  Ilustrar a história utilizando materiais diversificados.

Duração da aula:  Dois períodos de 45min cada, totalizando 90min de atividades.

Tempo estimado para a atividade:  Nos primeiros 10min explicarei como será a atividade e a seguir mostrarei os materiais. Após começaremos com a atividade de desenho conforme o que foi proposto até o final do período.

Objetivos específicos:  Instigar a criatividade e a reflexão sobre o contexto social em que vivem;  Possibilitar o manuseio e experimentação de materiais ainda não conhecidos e suas possibilidades.

Metodologias:  Expositiva, prática e dialogada.

Recursos/materiais:  Lápis e canetas de desenho de variados formatos, papel sulfite A4, giz de cera, pastel seco, pastel oleoso, lápis de cor, carvão. 59


Avaliação:  Os alunos serão avaliados por critérios, de acordo com os objetivos específicos desta atividade. Para uso de tais critérios será levado em consideração: o Se houve interesse em relação à proposta de trabalho e aprendizagem com a atividade do dia, atingindo os objetivos propostos desta aula; o Interesse e concentração dos alunos na realização da atividade; o Se desenvolveu de forma criativa a atividade proposta; o Se houve interação com o grupo.  Aqueles alunos que não participarem das atividades não pontuarão ficando com nota zero no final do trimestre.

Dinâmica planejada para o encontro: 1) Propor aos alunos que escrevam uma história para o personagem criado pelo coletivo na aula anterior, dando novo rumo à “vida criminal” do mesmo e ilustrem esta história com um desenho, porém agora, utilizando cores. Terão que caracterizá-lo social e profissionalmente; 2) Falar e mostrar os diversos materiais que podemos utilizar para desenhar, distribuir folhas de papel juntamente com o material; 3) Introduzir os efeitos de luz e sombra e algumas técnicas para colorir e criar uma figura humana; 4) Recolher todos os desenhos; 5) Conversar com os alunos sobre os materiais que mais gostaram de trabalhar.

O que foi realizado: Chegando à escola fui conferir os horários das aulas e soube de antemão que havia sido feito espelho de classe na turma 64 e também a troca de sala. Ao entrar na aula, após o recreio, pude perceber o quanto estas modificações ajudaram a melhorar o comportamento dos alunos. A turma estava calma. Os alunos, que normalmente são mais agitados, estavam sentados com outros mais tranquilos e isso influenciou para que produzissem um bom trabalho nas atividades que se seguiram. Relembrei-os do desenho desenvolvido coletivamente na aula anterior. Solicitei que eles escrevessem uma nova história para o personagem do retrato falado 60


criado, chamado por eles de “Lucas Bitencourtt Peixoto”, detalhando sua vida profissional, social e pessoal. Pedi a eles que dessem outro rumo à história criminal da figura, sendo que este novo desfecho para a vida do personagem, teria que seguir apenas um pré-requisito: O personagem deveria largar a vida de crimes. Com esta atividade, houve um momento chave no processo criativo dos alunos, ao repensarem esta história. Eles puderam trabalhar o pensamento lógico buscando soluções para uma situação onde havia um problema social conhecido por todos, neste caso, o mundo do crime. Eles descreveram esta nova realidade do personagem, de acordo com o que eles acreditam que seja possível ocorrer com um indivíduo em tais circunstâncias, levando em consideração as possibilidades que eles mesmos vivenciam em sua comunidade. Conforme Ostrower (1987, p. 43), toda atividade humana está inserida em uma realidade social, cujas carências e cujos recursos materiais e espirituais constituem o contexto de vida para o indivíduo. São esses aspectos, transformados em valores culturais, que solicitam o indivíduo e o motivam para agir. Sua ação se circunscreve dentro dos possíveis objetivos de sua época.

Assim, logo percebi que histórias bem criativas começaram a surgir e foi possível entender porque algumas saíam parecidas com o contexto em que alguns educandos estão inseridos. Pude perceber a diferença existente entre as realidades destes alunos, na qual, aqueles que vivem mais próximos ao mundo do crime, deixaram evidente em suas histórias estas vivências e a perspectiva que eles tem de que ainda pode haver uma mudança. Já os alunos que contam com o carinho e a atenção dos pais, descreveram histórias mais tranquilas e felizes, apresentando entre seus personagens uma harmonia familiar, social e principalmente, de realização pessoal e profissional. Os alunos tiveram a oportunidade de expor através da Arte o que sentem e o que gostariam de mudar em sua realidade. Como descreve Ostrower (1987, p. 16), ao se tornar consciente de sua existência individual, o homem não deixa de conscientizar-se também de sua existência social [...] O modo de sentir e de pensar os fenômenos, o próprio modo de sentir-se e pensar-se, de vivenciar as aspirações, os possíveis Êxitos e eventuais insucessos, tudo se molda segunda idéias e hábitos particulares ao contexto social em que se desenvolve o indivíduo.

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A respeito do assunto, eu já havia conversado com a professora titular no Estágio I e na época esta me relatou a dificuldade em que vivem alguns alunos. Hoje pude perceber visivelmente estas questões em suas produções artísticas como podemos ver na reprodução a seguir:

Trabalho do aluno Bruno. (Fonte: RODRIGUES, 2010)

O desenho e a história acima são de um aluno, na qual há em seu histórico familiar, um caso de tiro com arma de fogo, que levou o tio dele à prisão e deixou uma terceira pessoa vegetativa em cadeira de rodas. Assim, ficou visível a influência de sua realidade particular no trabalho desenvolvido em sala de aula. Talvez se eu não conhecesse o contexto deste aluno, não poderia identificar tal peculiaridade em sua produção. Com isso, pude mais uma vez perceber a importância de nós professores nos colocarmos acerca do mundo em que vivem nossos alunos. Dando continuidade na aula, circulei entre as classes e fui auxiliando alguns alunos que tinham maior dificuldade em escrever. A professora titular Dóris Paris deixou a docência da classe comigo a aula toda, se dirigindo até a secretaria com uma das alunas que não se sentia bem. Havia outra aluna que não estava na aula anterior e para ela não ficar com o trabalho atrasado, repassei as informações da atividade e ela logo começou a fazer o desenho inicial seguindo para a história como os colegas já estavam fazendo. Os alunos levaram o primeiro período para escrever a nova história e quando observei que a maioria já havia escrito a sua, segui o trabalho explicando a eles 62


que faríamos um novo desenho, porém agora seria ilustrando a história que acabavam de criar. No instante em que fui para pegar as folhas sulfite A4 e lápis 6B, vários alunos se ofereceram para distribuir para mim este material e isso me deixou bastante contente, pois mostra o quanto eles estão abertos às propostas do projeto. Os alunos se dirigiam a mim quando tinham dúvidas mesmo com a professora titular presente e isso também me fez os sentir mais próximos. Apresentei a eles alguns materiais para colorir como lápis de cor, giz de cera, pastel seco e oleoso. Alguns desenhos foram tomando forma de HQ como se contassem a história através de momentos marcantes do personagem em questão. A grande maioria dos alunos conseguiu concluir seu desenho e à medida que foram terminando eu recolhia juntamente com o material emprestado. A professora titular me auxiliou.

Encaminhamentos: Para a próxima aula, pretendo apresentar as técnicas e os formatos padrões para construção de uma história em quadrinhos. A idéia é construir um livro coletivo de “estória”.

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4.3.3. Terceiro Encontro - Aulas 5 e 6 Identificação da aula: Apresentando os fundamentos do HQ Realizada em: 28/09/2010 das 16h00min às 17h30min

Conteúdos desenvolvidos:  Criação de história em quadrinhos;

Lista de atividades:  Transformar a história de “Lucas” em formato de HQ.

Duração da aula:  Dois períodos de 45min cada, totalizando 90min de atividades.

Tempo estimado para a atividade:  Iniciarei comentando a diferença entre charge e HQ. Falarei a respeito dos fundamentos para criar uma história em quadrinho. No momento seguinte, explicarei como será desenvolvida a atividade e a seguir distribuirei os materiais. Após começaremos com a atividade de desenho conforme o que foi proposto até o final do encontro.

Objetivo específico:  Possibilitar o estudo do desenho e da leitura através das histórias em quadrinhos.

Metodologias:  Expositiva, prática e dialogada.

Recursos/materiais:  Lápis de desenho tipo 6B, papel sulfite A4, pastel oleoso.

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Algumas imagens utilizadas na atividade:

(Fonte: TRANSGAARD e FONTES, 2010, p.4 e 5)

Avaliação:  Os alunos serão avaliados por critérios, de acordo com os objetivos específicos desta atividade. Para uso de tais critérios será levado em consideração: o Se houve interesse em relação à proposta de trabalho e aprendizagem com a atividade do dia, atingindo os objetivos propostos desta aula; o Se desenvolveu de forma criativa a atividade proposta.  Aqueles alunos que não participarem das atividades não pontuarão ficando com nota zero no final do trimestre.

Dinâmica planejada para o encontro: 1) Iniciar a aula apresentando os fundamentos do HQ; 2) Distribuir folhas de papel sulfite A4 uma para cada aluno; 3) Transformar o texto escrito e ilustrado na aula anterior em uma história em quadrinhos sobre a vida do personagem “Lucas B. Peixoto”; 4) Recolher todos os trabalhos.

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O que foi realizado: Entrei na sala junto com a professora titular Dóris Paris e percebi imediatamente a agitação extrema em que os alunos se encontravam. Eles não estavam respeitando o espelho de classe e isso acarretou em mais barulho ainda devido os grupinhos “bagunceiros” formados. Após os alunos se acomodarem em seus lugares, iniciei o encontro conversando sobre as histórias escritas na aula anterior, devolvendo-as temporariamente para que fizessem a atividade prevista para a aula do dia. Entreguei sulfite A4 e lápis 6B a todos. Solicitei a eles que transformassem a história escrita em uma história em quadrinhos, utilizando-se da primeira, como roteiro. Passei no quadro branco alguns formatos básicos de história em quadrinhos, explicando o que são as onomatopéias, como utilizar os balões para transcrever falas, entre outros detalhes. Tivemos que retomar questões como medição e enquadramento, pois percebi que eles tinham dificuldade e estavam com dúvidas. A professora titular me auxiliou explicando como se utiliza os centímetros da régua para fazer os quadrinhos do HQ. Surpreendendo minha expectativa, a aula não foi produtiva, pois os alunos estavam muito dispersos e agitados. Senti dificuldade em me comunicar com tamanho barulho e várias vezes eu tive que pedir intervenção da professora Dóris para conseguir prosseguir na atividade. Acredito que na aula anterior eu já havia esgotado o assunto do personagem “Lucas” e ao repetir a temática da atividade gerou na sala de aula um sentimento de insatisfação e desinteresse da parte dos alunos. A média de idade desta turma circula entre 10 e 16 anos sendo um momento em que eles estão em transição da fase infantil à adolescência. Seus gostos começam a se diversificar e eles tendem a ter maior facilidade de perder o interesse em aula se dispersando com o assunto do colega ao lado. A aula de hoje me fez perceber que o caminho que estou seguindo não está mais sendo produtivo com este grupo e chego ao ponto onde devo ter sensibilidade de aprender com os meus alunos. Assim, considero que, é na pratica da educação que o educador se educa. Ele não se educa antes para exercer, depois, a prática da educação. Se isso é verdade, a função de educar é particularmente relevante e exige um esforço constante de atenção e renovação de si mesmo. Ele tem que se educar com cada educando (MOREIRA, 2002, p. 127).

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Então, comecei a repensar as próximas atividades previstas neste projeto numa tentativa de reconquistar a atenção e o bom desempenho da turma. Como já estávamos ao final da aula, ainda circulei entre as classes e tentei auxiliá-los com a distribuição dos quadrados na folha e montagem da história para aqueles que mostraram interesse no trabalho como o da aluna abaixo.

Trabalho da aluna Amanda (Fonte: RODRIGUES, 2010)

Com os alunos dispersos, tentei conversar sobre o que sentiam a respeito do que havia sido proposto e procurando saber o que os desagradava. Poucos deles reconsideraram e fizeram a atividade e por isso, propus que aqueles que não haviam me terminado e me entregado, poderiam fazê-lo na aula seguinte.

Encaminhamentos: A turma não conseguiu terminar o trabalho e, portanto, terei que ceder um momento da próxima aula para que eles possam concluir esta atividade. Posteriormente iniciaremos alguns aspectos técnicos de perspectiva e faremos um desenho de localização.

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4.3.4. Quarto Encontro - Aulas 7 e 8

Identificação da aula: Utilizando o desenho como meio de informar um lugar / mapa e revisão sobre bases do desenho Realizada em: 05/10/2010 das 16h00min às 17h30min

Conteúdos desenvolvidos:  Desenho explicativo;  Fundamentos do desenho.

Lista de atividades:  Desenho de mapa de localização.

Duração da aula:  Dois períodos de 45min cada, totalizando 90min de atividades.

Tempo estimado para a atividade:  Terminaremos a atividade da aula anterior nos primeiros 15 min e após, explicarei como será desenvolvida e a seguir distribuirei os materiais. Após começaremos com a atividade de desenho conforme o que foi proposto até o final do encontro.

Objetivos específicos:  Estudar o desenho através das linhas;  Instigar a criatividade e o fazer artístico.

Metodologias:  Expositiva, prática e dialogada.

Recursos/materiais:  Lápis e canetas de desenho de variados formatos, papel sulfite A4, giz de cera, pastel seco, pastel oleoso, lápis de cor, carvão, guache.

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Avaliação:  Os alunos serão avaliados por critérios, de acordo com os objetivos específicos desta atividade. Para uso de tais critérios será levado em consideração: o Se houve interesse em relação à proposta de trabalho e aprendizagem com a atividade do dia, atingindo os objetivos propostos desta aula; o Se desenvolveu de forma criativa a atividade proposta.  Aqueles alunos que não participarem das atividades não pontuarão ficando com nota zero no final do trimestre.

Dinâmica planejada para o encontro: 1) Distribuir folhas de papel sulfite A4 três para cada aluno; 2) Propor aos alunos que desenhem um mapa informando um lugar da qual eles gostem muito de ir, que poderá ser sua casa, de um amigo, etc. Este desenho terá a escola como ponto inicial e deve chegar até o destino escolhido, apresentando informações como pontos de referência que descrevam os lugares por onde passe o viajante; 3) Breve diálogo sobre as linhas e os efeitos dos traçados, propondo para que eles utilizem uma destas folhas para a experimentação destas variações ao desenhar; 4) Propor que façam um desenho com bastante linhas induzindo-os a percepção de volumes que poderão causar; 5) Recolher todos os desenhos.

O que foi realizado: Cheguei com atraso na escola neste dia e por isso a professora entrou sem mim na sala de aula. Quando lá entrei, os alunos estavam em pé em circulo e aparentemente bem agitados. A profª Dóris então me informou que a turma havia solicitado a ela para ensaiar uma peça de teatro que está sendo desenvolvida pelo professor Cléverson da disciplina de Geografia. Como eu estava com o material que eles terminariam, a professora cedeu o primeiro período. Aproveitei então para combinar com ela a atividade do encontro seguinte e agendei a sala de vídeo para desenvolvermos a nova temática que será trabalhada. Observei-os com atenção afim de tentar perceber mais alguma questão que pudesse me auxiliar para os próximos encontros. Notei que em alguns alunos há um forte espírito de liderança e estes acabam influenciando os colegas, o que nem sempre é bom. 69


Uma das alunas me solicitou a sua história em quadrinhos para terminar já que não estava participando do teatro. Passado o início do segundo período, eles terminaram o ensaio e voltaram a seus lugares. Não havendo muito tempo restante, entreguei ao resto da turma seus HQ’s para que terminassem o trabalho. Conversei com alguns alunos que não haviam feito as atividades das aulas anteriores e orientei-os para que as iniciassem naquele momento, que eu os auxiliaria no que se fizesse necessário. Poucos alunos terminaram a história em quadrinhos e me solicitaram para entregar na aula seguinte, porém, como na próxima semana é feriado na cidade, solicitei que terminassem em casa e me trouxessem no dia seguinte (quarta-feira), pois seria o único dia em que estaria presente na escola. Lembrei-me que se deixasse passar mais de uma semana para a entrega, eles poderiam se esquecer do trabalho em casa e isto acarretaria mais atraso no projeto. Eles logo aceitaram e combinamos que eu iria me dirigir até a sala deles para recolher os trabalhos prontos nos dois últimos períodos. Como não tivemos muito tempo disponível devido ao ensaio do teatro, não executamos os desenho como forma de orientar lugar (mapa), prevista para o dia de hoje. Com isso, ocasionou em uma alteração no planejamento e esta atividade não será mais realizada. Tal proposta serviria como um exercício de desenho e a não execução do mesmo não prejudicará o desenvolvimento dos alunos. Visto também que o tempo para execução deste projeto não poderá ser estendido e as atividades seguintes são de maior pertinência ao objetivo do projeto. Sendo assim, passaremos a trabalhar o processo criativo do artista Edgar Koetz como temática nas atividades seguintes.

Encaminhamentos: Para a aula seguinte, apresentarei o artista Edgar Koetz para trabalharmos a respeito de sua obra. Vou alterar o planejamento inicial de apresentar reproduções de obras do artista por apresentar um vídeo que narra a história de vida de Koetz. Além disso, a aula que seria de desenho dentro da sala de aula será realizada na rua no segundo período do encontro.

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4.3.5. Quinto Encontro - Aulas 9 e 10

Identificação da aula: Apresentando Edgar Koetz Realizada em: 19/10/2010 das 16h00min às 17h30min

Conteúdos desenvolvidos:  Série de desenhos de Edgar Koetz intitulada “Alienados”;  Fundamentos do desenho de observação;  Fundamentos do desenho da figura humana.

Lista de atividades:  Reproduções de obras do artista;  Desenho de observação e de figura humana;  Vídeo sobre o artista.

Duração da aula:  Dois períodos de 45min cada, totalizando 90min de atividades.

Tempo estimado para a atividade:  No primeiro período do encontro, apresentarei o vídeo intitulado “Alienados” que fala a respeito do artista. Após, iremos para o pátio da escola e executaremos a atividade de desenho de observação e de figura humana individualmente até o final do encontro.

Objetivos específicos:  Estudar a série de desenhos intitulada “Alienados” do artista Edgar Koetz e seu processo construtivo;  Desenvolver o desenho de observação e de figura humana a partir da percepção da realidade que nos cerca fazendo a leitura das cenas / imagens que enxergamos no nosso cotidiano.

Metodologias:  Expositiva, prática e dialogada. 71


 Apreciação de imagens e apresentação de vídeo.

Recursos/materiais:  Lápis e canetas de desenho, papel sulfite A4, pastel seco, pastel oleoso, lápis de cor, carvão, pranchetas de desenho e vídeo no formato VLC media file (.avi).

Algumas imagens utilizadas na atividade:

Desenhos da série alienados. Koetz, 1964. Nanquim sobre papel. (Fonte: COUTINHO (Org), MARGS, 2002)

Avaliação:  Os alunos serão avaliados por critérios, de acordo com os objetivos específicos desta atividade. Para uso de tais critérios será levado em consideração: o Se atenção na apresentação do vídeo; o Se houve interesse em relação à proposta de trabalho e aprendizagem com a atividade do dia, atingindo os objetivos propostos desta aula; o Se desenvolveu de forma criativa a atividade proposta.  Aqueles alunos que não participarem das atividades não pontuarão ficando com nota zero no final do trimestre.

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Dinâmica planejada para o encontro: 1) Levarei os alunos à sala do vídeo e apresentarei o vídeo Histórias Extraordinárias - “Alienados” que conta a história de Edgar Koetz; 2) Após a apresentação, falarei a respeito do trabalho do artista e seu contexto histórico; 3) Em seguida, farei a proposta de descermos para o pátio da escola para que eles desenhem algum ambiente da mesma retratando as pessoas (se houver) que encontrarem, os móveis, objetos, exatamente como estão apresentadas aos seus olhos; 4) Distribuirei papel A4, material e prancheta para desenho uma para cada aluno; 5) Voltaremos para sala de aula e conversaremos a respeito da atividade; 6) Recolherei todos os desenhos.

O que foi realizado: Ao chegar à escola, fui até a sala dos professores e esperei até que a professora Dóris chegasse de sua aula. Quando a encontrei, falei como seria a atividade prevista para o dia e combinamos de ela buscar os alunos da turma 64 na sala de aula, enquanto eu me dirigia até a sala de vídeo que fica no segundo andar da escola. Quando eu subia para a sala, encontrei alguns alunos desta turma que me perguntaram o que seria a aula de hoje. Respondi que iríamos ver um vídeo e para minha surpresa a reação deles foi ótima com direito a exclamação do tipo “Feito!”, “Eba!” e avisei-os que a professora Titular estava indo encontrá-los na sala de aula, o que fez com que eles corressem para lá a esperar. Já na sala de vídeo, liguei o data-show e os demais aparelhos para passar o vídeo. Não demorou e os alunos começaram a chegar se acomodando nas cadeiras da sala. A grande maioria sentou nas classes do fundo e poucos na parte central da sala. Quando todos estavam acomodados e a professora titular me fez sinal de que não faltava mais ninguém, iniciei o vídeo. O mesmo ocorreu tranquilamente, apesar do leve ruído causado pela conversa paralela do grupo que sentou bem no fundo da sala. Mesmo assim, percebi que todos olhavam o vídeo com atenção e até riram quando na história apareceu Natália, uma ex-interna do Hospital São Pedro, que o artista Edgar Koetz pintou quando lá esteve há aproximadamente 40 anos atrás. Depois de transcorrido os 15min25seg de vídeo, fui até a frente da turma e perguntei o que eles acharam do filme. Alguns disseram que gostaram, outros ficaram 73


na dúvida do que responder. Sendo assim, questionei-os novamente sobre o que eles entenderam do vídeo. As respostas foram variadas, mas me chamou atenção quando alguém disse: “Um cara que desenhava os loucos lá do São Pedro em Porto Alegre”. A partir desta resposta comecei a contar um pouco da história do artista, explicando como ele ficou doente e foi parar no São Pedro, o que levou-o a desenhar as pessoas com quem lá conviveu e finalizei falando da ex-interna Natália, que hoje faz trabalhos artísticos e participa de exposições. Comecei então a explicar como seria nossa atividade para o segundo período. Expliquei que iríamos entregar, eu e a profª Dóris, as pranchetas com as folhas para um aluno de cada vez e que este escolheria um material de desenho e iria para o pátio. Pedi que fizessem isso sem correria para não atrapalhar as outras turmas que estavam em aula. Assim foi feito e, após entregar material para o último aluno, também nos dirigimos até o pátio para acompanhar a atividade com a turma. Este grupo, que em atividades anteriores me deixou frustrada pela falta de motivação e empenho, desta vez me deixou muito satisfeita. Todos os alunos, incluindo aqueles que normalmente são muito agitados, trabalharam bastante, desenhando com riqueza de detalhes, concentração e criatividade na escolha da cena a ser retratada. Circulei entre eles, dispostos hora em grupo, hora separados, e fui instigando-os a preencher mais os espaços em branco da folha. A intenção era fazer com que eles percebessem que havia mais planos ao fundo das figuras observadas, seus diversos elementos e texturas que eles visualizavam de onde se encontravam. À medida que eles começavam a perceber essas variações na perspectiva, na sobreposição dos planos, eles comentavam com entusiasmo tais descobertas. Conversei com alguns sobre profundidade, perspectiva, outros sobre luz e sombra. Foi uma troca muito gratificante. Eles ouviam atentamente as orientações que eu dava e com isso fizeram com que me sentisse professora deles de verdade. A professora Dóris até veio me comentar que um dos alunos, mais agitado em aula, falou para ela “As nossas aulas poderiam ser sempre assim né professora? Diferente, ao ar livre, é bem mais legal” o que a deixou bastante contente. Circulei mais um pouco entre eles e combinei com todos que iríamos até a sala de aula quando fosse 17h10min para dar tempo de conversarmos na sala. Quando chegou este horário fiz sinal a eles e nos dirigimos à mesma. Na sala, combinei com os alunos para que selecionem materiais diversos como sucatas, cola, revistas, tinta entre outros para trabalharmos em grupos na próxima 74


aula. Imediatamente eles já começaram a resolver quem seria de que grupo e deixamos definido que seriam 6 grupos de cinco componentes cada. Após recolher todos os desenhos, liberei a turma. Posteriormente, ao verificar os trabalhos dos alunos, pude perceber a mudança de comportamento que eles tiveram e o quanto essa alteração refletiu em seus desenhos. Vou começar comentando o trabalho do Leo Ilha e do Alex. Estes são alunos normalmente agitados e que faltam a aula com frequência.

Trabalhos dos alunos Leonardo I. e Alex M., respectivamente. (Fonte: RODRIGUES, 2010)

Neste dia eles estiveram bastante interessados na atividade e isso ficou evidente em seus desenhos. O Leo Ilha estava com dificuldade de conseguir resolver a árvore que ele escolheu para retratar e eu sugeri que ele entrasse mais nos detalhes de textura e perspectiva da imagem, trazendo para o desenho a ordem de galhos que estavam mais à frente. Era uma árvore desfolhada e com muitos galhos quebrados. O que achei mais interessante foram os brotos que ele conseguiu retratar em seu desenho tal qual estava na árvore real. Ao retratá-la, ele conseguiu um resultado muito 75


semelhante a do touro de Picasso, na qual delimitou a essência do objeto observado com linhas claras e objetivas. Já o Alex retratou outra árvore da escola, porém conseguiu ir mais longe em seu desenho. Ele a registrou acrescentando o plano de fundo da cena com um tom mais escuro, além de colocar as árvores menores que também serviram para que pudéssemos entender a idéia de distância entre as figuras.

Trabalhos dos alunos Giovane e Bruno C., respectivamente. (Fonte: RODRIGUES, 2010)

O Giovane foi um dos alunos que no primeiro dia de aula me disse que não queria desenhar porque não sabia. Após alguns pedidos e um pouco de insistência de minha parte, ele começou a rabiscar os primeiros traços e foi logo a sensação da turma. Seus desenhos são tidos como exemplos para os colegas e ele tem sido muito disputado quando há trabalhos em grupo. O Bruno tem sido o meu maior desafio. Desde a aula em que trabalhamos os quadrinhos, ele não tem demonstrado interesse em nenhuma atividade. Conversei com a professora titular e ela inclusive me garantiu que ele sempre foi um aluno exemplar e que não entende o porquê desta postura hoje. Ele estava desenhando o mesmo cenário que o Giovane, porém quando eu cheguei perto para ver os desenhos de todos que lá estavam, ele se levantou e disse que não queria mais fazer e que o desenho dele estava uma “droga”. Tentei argumentar para que não desistisse, tentando incentivá-lo. Num primeiro momento ele aceitou em continuar. Porém, quando eu estava com outro grupo 76


do outro lado do pátio, a profª Dóris foi ao meu encontro para me relatar que ele havia amassado e colocado o desenho no lixo. Ela, ao saber disso resgatou o desenho desamassando-o e recolocando-o de volta na prancheta sob protesto do aluno que dizia que estava feio e que eu, estagiária, não iria aceitar aquele desenho daquela maneira. Dóris por sua vez, o informou que todos os desenhos são válidos e que certamente eu iria querer ver o seu trabalho estando da forma que estivesse. Ainda pediu a ele para tentar desenhar mais um pouco caso sentisse vontade. Ainda não sei o que ocorre com este aluno, mas algumas alterações que fiz nas atividades previstas para esta turma um pouco foram na tentativa de reconquistar o interesse dele entre outros alunos. Um exemplo disso foi a aula de hoje que havia sido inicialmente pensada para se fazer dentro da sala de aula e que com o andar do trabalho acabou sendo modificada. Como professora iniciante, eu imaginava que deveria seguir a risca os planos de aula até o fim, porém com a orientação da Professora Ana Lucia Beck, pude entender a respeito da sensibilidade de sabermos o momento de mudar e partir para o plano B. Temos que estar preparados para estas mudanças e partir ao encontro delas quando se fizer necessário. Para a aula de hoje senti que deveria fazer uma dinâmica diferente da que vinha fazendo e deixei as coisas acontecerem. O resultado foi fantástico e ficou registrado no trabalho de muitos alunos.

Trabalhos dos alunos Caroline e Luan, respectivamente. (Fonte: RODRIGUES, 2010)

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Um exemplo disso foi a aluna Caroline que apresenta bastante dificuldade de aprendizagem, nas produções em sala de aula e em se relacionar com os colegas. Porém nas atividades deste projeto ela tem se mostrado interessada e muito esforçada. A profª Dóris está bastante surpresa com o seu desempenho e tem tentado aproveitar o momento para se aproximar dela. O desenho do Luan apresenta mais elementos apesar de pequenino. Ele conseguiu dar perspectiva para o bar da escola com riqueza de detalhes dos produtos que estavam em cima do balcão. Se tivéssemos mais tempo nesta aula certamente ele teria feito o restante do prédio e as pessoas que começavam a chegar para fazer seus lanches. Pude sentar e conversar com ele enquanto desenhava. Percebi que este aluno tem muita vontade de trabalhar, mas que às vezes precisa de um pouco mais de atenção para que suas produções enriqueçam. Este tipo de percepção que ocorre como uma troca entre professor e aluno é muito importante para o crescimento de ambos. É uma relação em que não somente o professor é capaz de ensinar, mas também o aluno o faz, ao mostrar seus conhecimentos, angústias, receios e alegrias. O professor deve ter sensibilidade para perceber a necessidade do aluno e instigá-lo a continuar esta interação com a Arte cada vez mais. Conforme Fusari e Ferraz (2001, p. 53): O que é ser professor de Arte? É atuar através de uma pedagogia mais realista e mais progressista, que aproxime os estudantes do legado cultural e artístico da humanidade, permitindo, assim, que tenham conhecimento dos aspectos mais significativos de nossa cultura, em suas diversas manifestações. E, para que isso ocorra efetivamente, é preciso aprofundar estudos e evoluir no saber estético e artístico. Os estudantes tem o direito de contar com os professores que estudem e saibam arte vinculada a vida pessoal, regional, nacional e internacional. Ao mesmo tempo, o professor de arte precisa saber o alcance de sua ação profissional, ou seja, saber que pode concorrer para que seus alunos também elaborem uma cultura estética e artística que expresse com clareza a sua vida na sociedade. O professor de arte é um dos responsáveis pelo sucesso desse progresso transformador, ao ajudar os alunos a melhorarem suas sensibilidades e saberes práticos e teóricos em arte.

Para mim, está sendo muito importante poder ensinar e aprender com esta professora titular e seus alunos, podendo perceber suas dificuldades e anseios. Temos que estar preparados para mudar de estratégia e partir para um plano “B” a qualquer momento, o que só se consegue com diálogo e muita troca de idéias. Foi visível uma mudança no estado de espírito desta turma, como se houvesse um rompimento com os “pré-conceitos” de desenhar. Eles executaram a 78


atividade sem a preocupação de como estaria esteticamente o trabalho. Apenas desenharam o que visualizavam e, o que era melhor, estavam felizes por fazê-lo. Penso que para a turma, esta mudança de didática e na forma de pensar o desenho foi como um grande desafio a ser superado. Quebraram a rotina de desenhar entre as paredes da sala de aula, tendo a oportunidade de trabalhar um artista ainda não conhecido através da linguagem audiovisual, estar em contato com materiais de desenho diferenciados e ainda desenhar observando seu contexto, interagindo com ele e se tornando muitas vezes personagem dele na obra do outro colega. A disciplina Arte deverá garantir que os alunos conheçam e vivenciem aspectos técnicos, inventivos, representacionais e expressivos em música, artes visuais, desenho, teatro, dança, artes audiovisuais. [...] Entendemos que é possível atingir-se um conhecimento mais amplo e aprofundado da arte, incorporando ações como: ver, ouvir, mover-se, sentir, pensar, descobrir, exprimir, fazer, a partir dos elementos da natureza e da cultura, analisando-os refletindo, formando, transformando-os (FUSARI e FERRAZ, 2001, p. 24).

Enfim, a aula de hoje mostrou o quanto é importante para o aluno ter a possibilidade de contextualizar a arte e sua realidade, experimentar materiais e didáticas diferentes do que o de costume e ainda o quanto a relação professor e aluno deve ser sempre preservada.

Encaminhamentos: Para a aula seguinte, trabalharemos mais um pouco do artista Edgar Koetz utilizando materiais diversos.

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4.3.6. Sexto Encontro - Aulas 11 e 12

Identificação da aula: Criando como Edgar Koetz Realizada em: 26/10/2010 das 16h00min às 17h30min.

Conteúdos desenvolvidos:  Trabalhando com a série “Alienados” de Edgar Koetz;  Utilizando material misto.  Desenvolvendo um trabalho em grupo.

Lista de atividades:  Desenho de observação e da figura humana;  Colagem e fundamentos do desenho e de figura humana.

Duração da aula:  Dois períodos de 45min cada, totalizando 90min de atividades.

Tempo estimado para a atividade:  Na sala de aula, criaremos um cenário de como seria a escola dos sonhos utilizando material variado misturado com desenho da figura humana. O trabalho será em grupos, conforme o que foi proposto, até o final do encontro.

Objetivos específicos:  Entender o processo criativo do artista;  Retratar a realidade idealizada comparando com a sua.

Metodologias:  Expositiva, prática e dialogada.

Recursos/materiais:  Lápis e canetas de desenho de variados formatos, papel sulfite A3, giz de cera, pastel seco, pastel oleoso, lápis de cor, carvão, guache. 80


Avaliação:  Os alunos serão avaliados por critérios, de acordo com os objetivos específicos desta atividade. Para uso de tais critérios será levado em consideração: o Se houve interesse em relação à proposta de trabalho e aprendizagem com a atividade do dia, atingindo os objetivos propostos desta aula; o Se houve interação entre o grupo.  Aqueles alunos que não participarem das atividades não pontuarão ficando com nota zero no final do trimestre.

Dinâmica planejada para o encontro: 1) Distribuir papel A3 e material variado para desenho; 2) Propor a eles que desenhem a escola dos sonhos utilizando o material diversificado; 3) Recolher todos os desenhos.

O que foi realizado: Chegando à sala de aula esperei todos os alunos entrarem para fechar a porta e iniciar a aula. Quando todos se acomodaram em suas classes, solicitei que organizassem os grupos como combinado na aula anterior. Como faltaram alguns alunos à aula e a grande maioria não havia levado o material solicitado, tivemos que reduzir para 5 grupos de 6 componentes cada. Iniciei relembrando a aula anterior em que havíamos trabalhado no pátio, desenhando os espaços da escola, os alunos que circulavam nestes ambientes e fiz referência ao artista Edgar Koetz que retratou os internos do São Pedro na época de sua estadia no Hospital. Falei sobre a maneira como o artista encontrou de retratar de forma artística o sentimento, expressões e a essência daquelas pessoas em um lugar tão sombrio. Propus então que, a partir do que foi observado na aula anterior, cada grupo desenvolvesse um desenho retratando a idéia de como seria a escola dos sonhos para eles. Lembrei que o mesmo deveria reunir o desejo de todos do grupo, tendo que haver um consenso entre eles. A professora Dóris conseguiu pincéis emprestados com a pré-escola e revistas com a biblioteca. Separamos em copinhos tipo cafezinho tinta guache nas cores primárias, branco e preto e entregamos o conjunto das cinco cores em cada grupo 81


juntamente com pincel e uma folha A3. Na medida em que eles solicitavam outros materiais nós íamos entregando e conversando com eles. A turma estava bastante agitada, porém demonstrava estar entusiasmada com a atividade. Logo no início da aula, alguns comentários me chamaram a atenção como “Ah profª que folha pequena, dá pra juntar duas e fazer uma grande?”. Naquele instante me dei conta do anseio que eles estavam em produzir e colocar a criatividade no papel. A aula que tivemos no pátio estava me trazendo frutos e recordei-me quando trabalhamos o desenho de HQ, e o quanto me senti frustrada com aquela aula. Imediatamente pensei que ao limitar o tamanho do papel estava também limitando o processo criativo deles. Com isso permiti que utilizassem a outra folha para fazer do desenho uma imagem em três dimensões. Alguns fizeram temas rurais para descrever a escola dos seus sonhos, outros criaram uma história de terror por detrás do terreno onde a escola poderia ser construída, todos muito criativos. Em geral, porém, a “escola dos sonhos” era a própria Escola Setembrina, que mostra o carinho que estes alunos tem pela própria escola.

Autores: Giovane, Mateus, Paulo, Bruno C., Alex e Johnny (Fonte: RODRIGUES, 2010)

As modificações que fizeram em seus desenhos quanto à realidade da escola, nos apresentam alunos críticos capazes de analisar o ambiente em que estão

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inseridos e como se apresentam as imagens neste ambiente. Houve também um desenho na qual a escola idealizada disponibilizaria camisinhas em máquinas para os alunos.

Autores: Desyrré, Danilo, Gabriel J., Mélany, Gabriel A. e Leonardo P. (Fonte: RODRIGUES, 2010)

Com isso, mostra o quanto estes mesmos alunos estão sendo paralelamente estimulados pela cultura visual atual que banaliza a sexualidade. Mais uma vez a Arte se torna o meio para que o pensamento crítico possa ser desenvolvido, possibilitando ao professor preparar estes alunos para enfrentar este bombardeio de imagens que muitas vezes os induzem precocemente a pular etapas e fases de suas vidas. Trataríamos de considerar a Arte, os artefatos que integram a cultura visual, como formas de pensamento, com um idioma que deva ser interpretado, como uma ciência, ou um processo diagnóstico, no qual se deva tentar encontrar o significado das coisas a partir da vida que os rodeia (HERNÁNDEZ, 2000, p.53).

Com relação ao comportamento, os alunos estavam mais prestativos e interessados na atividade. Penso que consegui conquistar a atenção e carinho deles depois da aula de desenho que tivemos no pátio, pois os alunos puderam sair da rotina da sala de aula além de interagir com o desenho se tornando parte da imagem observada. Alguns inclusive perguntaram-me se ainda iríamos desenhar na rua antes de acabar meu estágio e senti muito em não poder executar uma nova atividade deste tipo novamente. Mesmo assim eles fizeram a atividade de hoje com êxito. 83


No decorrer da aula trocamos idéias sobre quais materiais eles poderiam utilizar. Sugeri para alguns grupos experimentarem materiais que ainda não haviam trabalhado como o pastel seco e o lápis de cor aquarelável. Eles ficaram surpresos e contentes com a descoberta destas novas possibilidades para fazer o desenho. Foi uma aula muito satisfatória e ao final quando fui recolher os trabalhos, muitos alunos solicitaram-me uma oportunidade de terminar aqueles desenhos na próxima aula. Em função disso, modificarei o que estava sendo planejado para a aula posterior para dar continuidade nesta atividade, propondo que introduzam elementos e figuras novas para montarmos uma maquete a partir de seus desenhos.

Encaminhamentos: Levarei os desenhos executados nesta aula para que possam terminá-los propondo a montagem de uma maquete a partir dos mesmos.

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4.3.7. Sétimo Encontro - Aulas 13 e 14

Identificação da aula: Transformando bi em tridimensional Realizada em: 09/11/2010 das 16h00min às 17h30min.

Conteúdos desenvolvidos:  Transformando o desenho bidimensional em projeto tridimensional, utilizando material misto.  Desenvolvendo o trabalho em grupo.

Lista de atividades:  Pintura, colagem e desenho de observação e da figura humana.

Duração da aula:  Dois períodos de 45min cada, totalizando 90min de atividades.

Tempo estimado para a atividade:  Na sala de aula, transformaremos o desenho criado em uma maquete tridimensional formando um cenário de como seria a escola dos sonhos utilizando material variado misturado com desenho da figura humana. O trabalho será em grupos, conforme o que foi proposto, até o final do encontro.

Objetivo específico:  Perceber o desenho bidimensional tridimensionalmente.

Metodologias:  Expositiva, prática e dialogada.

Recursos/materiais:  Lápis e canetas de desenho de variados formatos, papel sulfite A3, giz de cera, pastel seco, pastel oleoso, lápis de cor, carvão, guache.

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Algumas imagens utilizadas na atividade:

Desenhos da série alienados. Koetz, 1964. Nanquim sobre papel. (Fonte: COUTINHO (Org), MARGS, 2002)

Avaliação:  Os alunos serão avaliados por critérios, de acordo com os objetivos específicos desta atividade. Para uso de tais critérios será levado em consideração: o Se houve desenvolvimento no trabalho plástico; o Se houve interesse em relação à proposta de trabalho e aprendizagem com a atividade do dia, atingindo os objetivos propostos desta aula; o Se houve interação entre o grupo.  Aqueles alunos que não participarem das atividades não pontuarão ficando com nota zero no final do trimestre.

Dinâmica planejada para o encontro: 1) Distribuir papel A3 e material variado para desenho; 2) Propor a eles que construam a escola dos sonhos em três dimensões a partir dos desenhos criados na aula anterior, utilizando o material diversificado; 3) Recolher todos os desenhos. O que foi realizado:

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Chegando à escola, fui até a sala dos professores para encontrar a Dóris e de lá nos dirigimos para a sala de aula. Chegando lá, os alunos estavam bastante agitados e dispersos. Solicitei que se dividissem em seus grupos, conforme na aula anterior. Algumas alunas não quiseram voltar para o mesmo grupo por divergências ocorridas no decorrer daquela semana. Tive que montar três novos grupos com estas meninas e com os alunos que não haviam vindo na aula anterior. Estes grupos tiveram que fazer todo o trabalho do zero desde o desenho da escola dos sonhos. Seguindo com a atividade prevista para o dia, expliquei que eles iriam transformar os desenhos realizados em maquetes e citei o trabalho do grupo da aluna Ariani como exemplo, já que o mesmo na aula anterior já apresentava esta característica. Distribui mais duas folhas sulfite A3 para cada grupo e expliquei mais especificadamente conforme o caso. Alguns trabalhos precisaram de mais folhas e fui entregando conforme a necessidade. Os alunos conseguiram com a direção uma caixa de papelão para fazer os suportes das casas e árvores da maquete. Os trabalhos começaram a se estruturar e já no final do primeiro período tínhamos muitos trabalhos em fase de acabamento. Para auxiliá-los, levei tintas e outros materiais diversificados e a profª Dóris conseguiu novamente pincéis e copinhos para trabalharmos com estes materiais. Algumas maquetes sofreram alterações da versão original e ganharam novas temáticas, como foi o caso do trabalho a seguir que, inicialmente era uma escola agrícola e hoje se transformou em uma escola urbana. O cavalo desenhado anteriormente, foi substituído por uma cancha de esportes.

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Autores: Amanda, Ariani, Gabriele, Bruna, Natalia e Thauã (Fonte: RODRIGUES, 2010)

A perspectiva obtida pela escola em três dimensões e a cerca na frente da “Escola Seis Estrelas” também auxiliam para um resultado satisfatório na fotografia do trabalho. Outro trabalho que merece destaque foi o do grupo a seguir, que apresentou uma nova leitura da escola fazendo uso principalmente das cores: verde, amarelo, azul e branco. Eles fizeram o jogo de perspectiva apenas através do desenho e pintura das imagens sobrepostas. Todos estavam bastante empolgados e contentes com a atividade.

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Autores: Giovane, Mateus, Paulo, Bruno C., Alex e Johnny (Fonte: RODRIGUES, 2010)

Este foi um dos grupos que me solicitou para terminar o trabalho na aula anterior e apresentaram certa resistência quando hoje cheguei informando que terminariam os trabalhos de forma diferente do que eles haviam previsto. Porém, com diálogo, consegui passar para eles que deveriam enfrentar a atividade do dia como um desafio. “Nem na arte existiria criatividade se não pudéssemos encarar o fazer artístico como trabalho, como um fazer intencional produtivo e necessário que amplia em nós a capacidade de viver” (OSTROWER, 1987, p.31). Em contrapartida, um aluno de outro grupo denominou a atividade de hoje como “Um trabalho importante” e com isso pude perceber o êxito obtido com este projeto. Relembro que, na primeira aula que tivemos propus aos alunos uma atividade que mostrava a importância da disciplina em diversos campos profissionais e hoje, fazendo o parâmetro com esta última aula e o empenho que os alunos demonstravam em sala, pude fazer esta constatação. Percebi que eles estavam vivenciando um momento pleno em seus processos criativos, no fazer e criar Arte. Hoje os alunos da turma 64 da escola Setembrina encaravam as atividades e a disciplina de Arte com mais interesse e dedicação.

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Informei a eles que os trabalhos seriam expostos na Mostra de Arte que ocorrerá no dia 20 próximo e eles ficaram muito entusiasmados, o que também contribuiu para toda esta dedicação experimentada na aula de hoje. Havia entrosamento entre nós e saber que conquistei a confiança e o carinho deles depois de sentir vontade de desistir da turma em aulas anteriores, fez muito bem para mim como profissional. Hoje eu já não era a professora estagiária, mas sim a “Sora Gabriela”. Ao final da aula me despedi deles entregando os trabalhos produzidos nas aulas anteriores, em envelopes, um para cada um, juntamente com um bombom e a seguinte mensagem:

Olhando as crianças brincando Comecei a pensar Talvez quando eu era criança Adulta eu queria ficar… E mil lembranças Voltam em minha mente De quando eu era pequenina Uma criança somente….. Muitas recordações… Dias felizes….as emoções E ate das tristezas Que um dia tive…. Será mesmo que aproveitei? Será que eu valorizei? A grandeza…… a alegria.. Aquela vivencia em plena “folia”? Será que o adulto eu analisei? Será que eu acreditei? Que tudo seria melhor quando eu crescesse? E adulta eu fiquei!!!!! E hoje quero confessar Que a infância me fascina… E que eu daria tudo…. Pra ficar de novo pequenina! Célia Piovesan (Fonte: http://pensador.uol.com.br/autor/celia_piovesan/, em 01/11/2010)

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Considerações finais Desde o início, o objetivo principal do Projeto Educativo de Ensino era mostrar aos alunos a importância da disciplina Arte em suas vidas. Foram pensadas atividades que pudessem fazer um caminho que iniciava em lembrar o que já conheciam, acrescentar novos conhecimentos e por fim estimular que eles dessem continuidade ao processo criativo. As aulas pensadas com este propósito seguiam algumas curiosidades levantadas de maneira valiosa no Estágio I, como a preferência dos alunos pelas atividades ligadas ao desenho. Como já indicado na Introdução, tive quatro semanas para fazer a observação das aulas ministradas pela professora titular Dóris Wolf de Paris na turma 64 de Ensino Fundamental, das quais foi possível retirar considerações muito relevantes sobre a turma, auxiliando, dentre outras coisas, na escolha do Tema da Pesquisa. Como já foi apresentado anteriormente, a maioria dos alunos havia tido pouco contato com Arte fora da sala de aula e grande parte deles não tinham interesse em aprofundar seus conhecimentos na disciplina, pois acreditavam que não haveria ligação nenhuma com suas possíveis profissões no futuro. Estas informações comprovam o distanciamento deste grupo escolar das Artes de um modo geral, assim como a necessidade de trabalhar primeiramente o processo de sensibilização e fruição dos alunos com a disciplina. Nas artes, a fruição está relacionada ao desenvolvimento dos sentidos e da sensibilidade. Apreciar uma obra de arte pode ser uma oportunidade de ampliação do olhar, da escuta e da percepção como um todo: seja ouvindo música, visitando um museu ou assistindo a uma peça de teatro ou a uma apresentação de dança, temos a possibilidade de vivenciar novas perspectivas e recontextualizar ou ampliar a forma de ver mundo e a nós mesmos (PC/RS1, 2009, p. 38).

Este seria o ponto de partida do Projeto Educativo de Ensino, para a partir dele consolidarmos o processo criativo propriamente dito, saciando por fim a ansiedade dos alunos em trabalhar a experimentação de materiais novos, além de atividades que fugissem da rotina das aulas de Arte tidas até então. Logo que iniciaram as aulas, surgiram novos eixos a serem trabalhados no decorrer da Prática do Projeto Educativo de Ensino. O planejamento foi sendo alterado 1

Parâmetros Curriculares do Estado do Rio Grande do Sul: Linguagens, Códigos e suas Tecnologias. Artes – Ensinos Fundamental e Médio. Referenciais desenvolvidos pela Secretaria de Estado da Educação.

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na medida em que me deparei com duas questões principais: a realidade dos alunos e a relação de vínculo que se constrói ao longo da Prática de Ensino entre o professor e o seu aluno. Porém a união destes dois primeiros trouxe um terceiro eixo, que foi a maneira como o conceito que eu tinha a respeito do que é ser professor, influenciou nas aulas que ministrei para esta turma. Isso me fez perceber, ao final do estágio, que o foco deste Projeto Educativo de Ensino tornou-se muito mais amplo. Para melhor elucidar estas questões, vou discorrer primeiramente sobre a realidade dos alunos, que foi um fator que se apresentou de maneira marcante desde o início da prática. Como já descrito anteriormente, no terceiro encontro, devido à infeliz escolha de repetir a atividade sobre o personagem Lucas Peixoto no formato de Histórias em Quadrinhos, alguns alunos não quiseram fazer o que havia sido proposto deixando visível o descontentamento com o meu trabalho junto à turma. Estes alunos precisavam ser instigados constantemente para que isso não ocorresse, porém a atividade foi demasiadamente repetitiva gerando revolta, indignação, impaciência e, consequentemente, frustração. Este foi o momento em que surgiu o primeiro desafio do Projeto: aceitar o que havia saído errado, rever todo o planejamento, a pesquisa, e buscar uma solução para o problema. O que necessitavam estes alunos? Este era o questionamento constante durante a Prática de Ensino. Pensando numa resposta a esta pergunta, voltei à análise e observação da turma e percebi que o planejamento não estava aproximando a Arte da realidade deles. Ao contrário, estava tornando a disciplina “uma coisa chata”. Faltava contextualizar a prática com a realidade dos alunos. Reitero a citação de Fayga Ostrower (1987, p.43) que afirma “toda atividade humana está inserida em uma realidade social, cujas carências e cujos recursos materiais e espirituais constituem o contexto de vida para o indivíduo”. Mais do que isso, temos que entender que estes não eram alunos com o hábito de ler Histórias em Quadrinhos e sim de navegar na internet e em redes sociais. O perfil do aluno que temos na escola hoje em dia é outro. Segundo Marisa Vorraber Costa (2005, p.117) “é porque hoje nossos alunos e alunas passam mais tempo em frente à televisão do que na escola (mas não apenas por isso), que o sentido de realidade foi incrivelmente expandido”. Eu acreditava que eles iriam gostar da atividade anterior por se tratar de um assunto comum entre os jovens. Porém percebi que o interesse pelos assuntos midiáticos, notícias que se passam nas revistas adolescentes e o que está na moda da televisão, teriam sido mais aproveitados neste momento, pois é nesta sintonia que eles estavam. É na cultura da mídia, da 92


tecnologia que estava totalmente inserida esta turma e se o Projeto Educativo de Ensino visava aproximar o ensino de Arte dos alunos, não poderíamos distanciá-los desta cultura. Por isso, houve a mudança no planejamento e na prática e, no quinto encontro, como já foi descrito no realizado do mesmo, recursos midiáticos foram inseridos para trabalhar o desenho que ainda era a temática do Projeto, trazendo a vida de Edgar Koetz através do formato vídeo. A atividade idealizada inicialmente era a análise de reproduções das obras de Edgar Koetz e realização de desenho dentro da sala de aula se apropriando do processo do artista. Porém, a mesma foi alterada para ocorrer no primeiro período de aula na sala de vídeo e no segundo período no pátio, desconstruindo a idéia que eles tinham do espaço da sala de aula. Assim, os alunos trabalharam motivados e mostraram muito mais interesse nas propostas que se seguiram, tendo este contentamento explícito em seus trabalhos dia após dia. Penso que o professor deve estar constantemente atento aos gostos e preferências do aluno, visando possibilitar o diálogo entre ele e a Arte. A contextualização, a aproximação de sua realidade com a disciplina são imprescindíveis para que o aprendizado dos alunos aconteça. Conforme Rosa Iavelberg (2003, p.10), “contextualizar é situar as criações no tempo e no espaço, considerando o campo de forças políticas, históricas, sociais, geográficas, culturais, presentes na época de realização das obras”. Perceber o diferencial desta turma foi fundamental para o trabalho ter sido desenvolvido com êxito. Refletindo acerca destes fatos, percebo também que outras atividades fazendo uso da mídia poderiam ter sido mais exploradas. Afinal, as aulas não poderiam motivá-los se não através dos valores culturais que eles tem. Para tanto, é de extrema importância que os professores conheçam seus alunos e o “mundo em que eles vivem” para perceber estes detalhes sutis aos olhos desavisados, mas que carregam um mundo de informações sobre suas vidas. A arte praticada pelo aluno pode mostrar suas alegrias, tristezas e muitas vezes até traumas que podem ter ou estar sofrendo. Como foi possível perceber no quinto encontro, no caso da aluna Carolina, que sofria com a rejeição dos colegas e falta de amigos na escola. Sabendo de suas dificuldades e de sua realidade, eu tive o cuidado de conversar com ela mostrando o quanto era importante para mim que ela fizesse as atividades. Sua postura e aparência foram mudando, o que acredito, em grande parte, ter ocorrido devido ao carinho e incentivo que ela recebeu nas nossas aulas, o que antes não acontecia. Seu contentamento ficou ainda mais aparente nos trabalhos que ela desenvolveu após o período do meu estágio na escola, como relatado 93


posteriormente pela Professora Dóris. Até relações de amizades ela criou, sendo chamada para fazer parte de alguns grupos de jovens. Fazendo referência à sensibilidade necessária para o professor de Arte desempenhar seu trabalho nos dias de hoje, acabo introduzindo o segundo eixo analisado na Prática de Ensino, tratando da relação de vínculo que se constrói ao longo da prática docente entre o professor e o seu aluno. Entendo que o professor tem que estar disposto a mudar de estratégia e adequar os objetivos das aulas com as possibilidades que se apresentam no decorrer da prática, como vimos acima, procurando contextualizar a Arte à realidade do aluno. Porém, também é necessário que o professor busque a troca de idéias, conseguida muitas vezes através de um diálogo mais informal, criando a relação de vínculo então referida. Este foi justamente o meio encontrado para buscar a confiança e o interesse de um dos alunos desta turma cujas atividades não atingiram nas aulas anteriores ao quinto encontro. Como descrito no realizado do mesmo, houve um aluno que motivou a mudança de toda a estratégia planejada até aquele momento, através de suas atitudes e discursos, permitindo que eu percebesse o quanto estava tornando a aula do terceiro e quarto encontros massacrantes. Foi percebendo suas inquietações e ouvindo seus comentários que modifiquei a atividade, como já discorri acima. Assim, começaram as nossas conversas e trocas de aprendizados. Posso dizer que foi utilizando um aluno como “termômetro” da turma, que as atividades foram sendo repensadas, ocasionando a desconstrução da aula tradicional entre quatro paredes. Por outro lado isso também permitiu alinhavar a atividade com o interesse da turma sobre os assuntos da atualidade veiculados pelas mídias. Esta mudança refletiu-se de maneira positiva no processo criativo de toda a turma. A partir dela começamos a compartilhar as idéias e houve aproximação entre os alunos, além do que a liberdade de expressão pôde ser mais explorada e eles começaram a acreditar verdadeiramente na proposta do Projeto. As relações comigo e com a professora titular Dóris Paris também se tornaram mais estreitas, possibilitando mais do que o diálogo, uma relação de troca entre o professor e o aluno. O professor aprende com seu aluno, pensando acerca de suas necessidades, como afirma Moreira (2002, p.127): É na prática da educação que o educador se educa. Ele não se educa antes para exercer, depois, a prática da educação. Se isso é verdade, a função de educar é particularmente relevante e exige um esforço constante de atenção e renovação de si mesmo. Ele tem que se educar com cada educando.

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Nas aulas finais, no sexto e sétimo encontros, já foi possível perceber nitidamente que a mentalidade acerca da prática do desenho havia sido alterada entre os alunos. No sexto encontro, ao estabelecer que seus desenhos finais fossem em uma folha A4, percebi que estava indo contra a caminhada construída com eles e que a escolha do tamanho da folha não havia sido a melhor. Quiseram mais folhas, mais espaço, e mais uma vez o Projeto Educativo de Ensino teve que ser adequado às suas necessidades. Eles estavam fazendo uma redescoberta acerca do desenho, se permitindo, estavam revendo o limite de espaço para criação do mesmo e isso foi bastante produtivo para as construções finais nas quais trabalhamos o desenho tridimensional. Não havia como querer que eles desenhassem de forma expressiva impondo apenas regras e esta forma de pensar foi crucial para atingir o objetivo das atividades, também influenciando na minha Prática de Ensino como professora de Arte, conforme comentarei a seguir. A esta altura, não havia mais comentários como: “não sei fazer”, “não sei desenhar” ou “meu desenho é feio”. Eles mostravam vontade de desenhar, se conscientizaram que todos são capazes de fazê-lo e que não é preciso ter uma técnica definida. Cada um tem suas particularidades e isso deve ser valorizado e respeitado. Não há trabalhos bons ou ruins, mas sim, diferentes entre si. É refletindo sobre todos estes acontecimentos e constatações que introduzo o último eixo desencadeado na Prática de Ensino que veio ampliar a minha visão acerca do arte-educador. A maneira como as atividades foram sendo remontadas viabilizaram, além de toda desconstrução do pensamento sobre o desenho por parte dos alunos, também a desconstrução do estereótipo que eu tinha do que é ser um professor de Arte. Veio a confrontar com o meu próprio “pré-conceito” de que os alunos não me aceitariam facilmente, não me levariam a sério por eu não ser o estereótipo de professora a que estão acostumados ou simplesmente por não ser a professora titular deles. Ou ainda, pela disciplina Arte ser considerada como algo fútil por muitos adultos, o que me levava a crer que os alunos pensariam da mesma forma. De certa maneira eu estava pensando em todas as possibilidades possíveis para me assegurar de que o Projeto Educativo de Ensino daria certo, de que conseguiria convencê-los da minha competência como professora e como poderia fazer para que isso ocorresse. Mas fui percebendo que era a mim quem eu precisava convencer. Era também para me proteger 95


das críticas que planejei estas primeiras atividades. E, no decorrer do processo, já não era somente o meu aluno quem estava se desconstruindo e se sensibilizando de que poderia fazer Arte, mas também eu me desconstruí ao dar aula a este grupo, me tornando mais sensível e mais disposta, para então me considerar realmente uma professora de Arte. Posso considerar que o ápice no aprendizado ocorreu durante a Prática do Projeto com a mudança na metodologia desde o quinto encontro até o final do período de Estágio não somente para os alunos, mas também para mim. Acredito que daqui em diante minha postura será menos engessada, estarei mais atenta às preferências e necessidades dos meus alunos, além de procurar ter sempre uma 2ª alternativa para executar quando perceber que a primeira proposta pensada não é a melhor escolha. Tentarei manter a observação que fizemos no estágio I como uma prática constante para que isso possa acontecer, além de propiciar a análise da realidade deles tornando o trabalho proposto mais próximo de seu contexto e consequentemente mais atrativo. Procurarei atividades conjuntas com os alunos que terei no futuro, propondo pesquisas de seus temas de mais interesse, trazendo para discutir em aula e, quem sabe, promovendo que eles, de vez em quando, façam o planejamento de uma atividade. Acredito que deveria ter discorrido em maiores detalhes sobre os comentários e atitudes dos alunos nos realizados de cada aula, pois agora os mesmos fazem falta para elucidar como o processo de mudança na Prática de Ensino aconteceu. Creio também que questões como esta, em que o professor ouve seu aluno e aprende com suas necessidades, para assim os alunos aprenderem, serão trabalhadas de maneira mais constante em todos os projetos de ensino nos quais eu estiver engajada daqui para frente. É desta forma, na troca de experiências que ocorre na Prática de Ensino, que o verdadeiro conhecimento acontece. Percebi que nada é imutável. Tudo deve ser discutido, duvidado, criticado e redefinido numa concepção dialética do processo educacional, mesmo que alguns professores não gostem de ser inquiridos acerca de seu conhecimento, esse questionamento se faz necessário para a construção do verdadeiro saber. Como descrito por Maria Clara Ramos Nery (2008 p.163), “ser professor, no contexto de uma realidade social como a nossa, uma dura realidade, envolve questionar-se acerca do desempenho de seu trabalho e acerca da própria realidade social vivenciada”. 96


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Anexo

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A escola que desenha: reflexões sobre aprender e ensinar