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ARTES PLÁSTICAS / DESIGN / MODA / CINEMA / ARQUITECTURA / LIVROS

N.30 ABRIL 2011 - PREÇO: 3,00 EUROS

GRAFFITI OS ARTISTAS DE RUA EXPRESSAM SONHOS OU POSIÇÕES POLÍTICAS

MERYL STREEP PAULA REGO FAZ DE EM FILME DE SOFIA COPPOLA

ANTÓNIO PRATES / ANTÓNIO OLE / GONÇALO BYRNE / MICHAEL SNOW


SORVIL / ARUTCETIUQRA / AMENIC / ADOM / NGISED / SACITSÁLP SETRA

1102 LIRBA

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03.N

Paula Rego por Daniela Anghel, 2005

ITIFFARG AUR ED SATSITRA SO UO SOHNOS MASSERPXE SACITÍLOP SEÕÇISOP

PEERTS LYREM OGER ALUAP ED ZAF ALOPPOC AIFOS ED EMLIF ME

WONS LEAHCIM / ENRYB OLAÇNOG / ELO OINÓTNA / SETARP OINÓTNA


artes plásticas / design / moda / cinema / arquitectura / livros

N.30

abril 2011

Antoni TÀpies da mina do lápis à arte da escrita

corto maltese casa-museu em veneza

graffiti os artistas de rua expressam sonhos e posições políticas

antónio prates / antónio ole / gonçalo byrne / michael snow


índice

Artes Plásticas - Pág.8 Arte Mix Pág.10

ARTES E LEILÕES N.30 abril 2011 07 08 10 12 13

Arte Pública Pág.36

14 16 20 24 28 30 34 32

Gonçalo Byrne Pág.14

36 38 40 42

Crónica: Antoni Tàpies – Da mina do lápis à arte da escrita por Ana Marques Gastão Artes Plásticas por Miguel Matos Art Mix por Jorge dos Reis Cinema por Diogo Varela Silva Moda por Maria José Sacchetti Arquitectura: Gonçalo Byrne – Arquitecturas de luz por Maria João Fernandes Capa: Nascidos na rua Artista: Entrevista a António Ole Filmes: Um retrato do cineasta Michael Snow por José Cabrita Saraiva Colecções: António Prates Eventos Exposições Destaques de agenda Arte Pública: Um Marquês imponente Livros Antiguidades Opinião: O Curador por Pedro Portugal

Colecções, António Prates - Pág.28


Nascidos na rua - Pรกg.16

Eventos, Art Brussels - Pรกg.30

Antonio Ole - Pรกg.20

Moda - Pรกg.13

Livros - Pรกg.38


edito rial O mercado internacional de arte continua de vento em popa. A Christie’s teve o seu melhor ano de sempre em 2010, depois de dois anos maus. A China duplicou, em 2010, o seu volume de negócios de 2009 e ultrapassou a Inglaterra pela primeira vez, posicionando-se em segundo lugar, logo a seguir aos Estados Unidos. Maastricht, na Holanda, foi um sucesso de vendas. Em Portugal, a crise soma e segue em contraciclo. A L + Arte fecha por falta de patrocínios e verbas publicitárias. As galerias agonizam, as leiloeiras reduzem as despesas com pessoal e multiplicam os leilões a preços mais baixos. Valha-nos Santa Paula (Rego), padroeira das artes lusas, com uma retrospectiva a decorrer na Pinacoteca de São Paulo, Brasil, e com uma obra de grandes dimensões, Looking Back, da colecção de Kay Saatchi, ex de Charles, a aventurar-se na casa do milhão de euros em Junho na Christie’s. Depois de nos chegarem as notícias de que Al Pacino iria fazer de Matisse, soube-se que Meryl Streep vai encarnar Paula Rego no grande ecrã, num filme de Sofia Coppola, (Meryl Streep vai também fazer de Margaret Thatcher, antes ou depois – ou concomitantemente – de encarnar Paula Rego). No plano doméstico, Jorge Silva Melo, num projecto da Midas Filmes, adiciona Bartolomeu, Nikias e Ângelo de Sousa à sua colecção de documentários.

Neste número entrevistamos António Prates, galerista, coleccionador e fundador, e apresentamos algumas obras da sua vasta colecção. António Ole, estandarte angolano das artes plásticas, é o nosso artista convidado, a seguir a Cabrita Reis e Julião Sarmento. E o casamento com o SOL (união de facto – 32.000 exemplares de facto distribuídos com este semanário na última sexta-feira de cada mês, à excepção deste número, que sai a 1 de Abril) continua com José Cabrita Saraiva a entrevistar Michael Snow a propósito da sua exposição na Culturgest. Maria João Fernandes inicia a sua colaboração com a Artes & Leilões a falar-nos de Gonçalo Byrne, inaugurando uma rubrica mensal sobre arquitectura. Para sobreviver tornámo-nos mais generalistas. A Artes & Leilões foi a primeira revista de artes plásticas em Portugal com carácter comercial (publicou-se pela primeira vez em Outubro de 1989) e torna-se a última, a resistente. Design, moda, cinema, arquitectura, livros, graffiti são as munições com que carregámos as nossas canetas (figura de estilo - já ninguém escreve com caneta) para alistar os leitores e anunciantes numa cruzada contra a crise e a desistência.

ARTES & LEILÕES Número 30 – Abril 2011

José Pedro Paço d’Arcos jpdarcos@arteseleiloes.com

JMToscano Rua Rodrigues Sampaio, 5 2795-175 Linda-a-Velha Tel.: 214 142 909 – Fax: 214 142 951 jmtoscano.com@netcabo.pt

convidados

Director José Pedro Paço d’Arcos jpdarcos@arteseleiloes.com Redacção Ana Albuquerque info@arteseleiloes.com Teresa Pearce de Azevedo teresapearceazevedo@arteseleiloes.com Produção Editorial Maria Correia mariacorreia@arteseleiloes.com Director de Arte Pedro Mascarenhas atelier@pedromascarenhasdesign.com Fotografia Ana Paula Carvalho anacarvalho@anacarvalhophoto.com Revisão de Conteúdos Raquel Dionísio info@arteseleiloes.com Comunicação, Marketing e Publicidade Alexandre Lopes alexandrelopes@arteseleiloes.com Tel 217 225 040 - Fax 217 225 049 Assinaturas

Administração José Pedro Paço d’Arcos Diogo Madre Deus Propriedade José Pedro Correia da Silva Sede Rua Artilharia 1, nº 67 – 1º dto. 1250-038 Lisboa Tel.: 217 225 040 – Fax: 217 225 049 Impressão e Acabamento Sogapal Estrada das Palmeiras - Queluz de Baixo 2745-578 Barcarena

Diogo Varela Silva Licenciado em Cinema pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Realizador e Produtor independente.

Maria João Fernandes Crítica de arte, ensaísta e poeta. Foi responsável pela organização de grandes exposições e colóquios de dimensão internacional na Fundação de Serralves. Como professora universitária, dedicou-se ao estudo da antropologia do imaginário, no âmbito da literatura e das artes plásticas. Em 2009 foi proposta para o Prémio Pessoa pelo conjunto da sua crítica de arte e pela sua defesa da Arte Nova.

Pedro Portugal Foi presidente da Associação de Estudantes da ESBAL, co-fundador da Homeostética, dos Ases da Paleta, da Associação para a Investigação Etno-Estética e da Academia de Vanguarda. Pintor, escultor e realizador. Obras nas principais colecções públicas e privadas em Portugal.

Periodicidade Mensal Tiragem 35.000 exemplares Registada com o Nº ISSN 1646-8139 É proibida a reprodução da revista, em qualquer língua, no todo ou em parte, sem a prévia autorização escrita de Artes& Leilões. Todas as opiniões expressas são da inteira responsabilidade do autor. Website www.arteseleiloes.com Desenvolvido com o apoio de Mediacode


crón ica

↓ Antoni Tàpies, Àgape (Banquete), 1990, técnica mista sobre madeira, 195 x 260 cm.

co r tes i a F und a c i ó Anton i T a p i è s de B a r ce l on a

/ ana marques gastão

Da mina do lápis à arte da escrita Ágape, de Antoni Tàpies, fala do amor e relembra-nos a busca empreendida por Ísis em torno de Osíris, seu companheiro e irmão, que vem a ressuscitar. Densamente matérico, o quadro é símbolo que parte da cruz e do caduceu. Uma cruz que não é uma cruz, um quadro que não é um quadro. Um para onde vamos?) ao túmulo, da Terra ao Céu, da letra ao mistério do paradoxo. Àgape (1990), de Antoni Tàpies (n. 1923), exprime a reali- alfabeto. Da árvore a madeira, da madeira a cruz, do carbono a grafite, dade que transcende a consciência. Mostra e esconde, revela e oculta. desta à mina do lápis, diamante da arte da escrita, nome desta série Como um epitáfio, diz que o amor mata; como uma epifania, clama: inserida num outro ciclo, intitulado Celebració de la Mel, que esteve exsem ele estamos mortos, seja de que tipo for: amor paixão, amor ami- posto, em 1991-1992, na Fundação de Serralves e no Centro de Arte zade, amor maternal, amor do mundo, amor cósmico-metafísico ou Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian. amor a Deus, terreno ou celeste – que leva ao conhecimento. A palavra Poderia dizer-se que o pintor escreve com uma simbólica tinta de adquire um significado central com Platão, daí que o subtítulo da pin- “água-pura”, que a chuva molhou, sendo a tela, de algum modo, divitura seja Banquete, onde se faz o elogio do amor enquanto desejo do dida em quatro partes: a cruz, feita da liquidez do sangue e do suor. De Bem e do Belo, representados pela estrangeira de Mantinea, Diotima, uma forma mais subtil, visualiza-se neste quadro um caduceu, bastão eternizada por Hölderlin em Hipérion A imagem remete-nos para uma em torno do qual se entrelaçam duas ou o Eremita da Grécia: “Sim! o homem forma de coroação oca, fixa e serpentes combatendo-se (antagonisé um sol que tudo vê, tudo transfigura, redonda, que suporta a matéria e a mo, equilíbrio, nocturnidade, diurniquando ama, e se não ama é uma casa oferece, em esplendor espinhado, dade, Lua, Sol) e cuja parte superior é escura, onde arde uma candeia fuligino- como um vaso materno, onde um “X” adornada com asas. Trata-se do emblesa.” (Assírio, 1997, tradução de Maria – inicial de Xristos – o sol invictus, ma de Hermes, mensageiro dos deuses, discretamente predomina. Teresa Dias Furtado). símbolo de paz, da justa medida e do Ágape dir-se-ia também um dos nomes equilíbrio dinâmico das forças opostas, de Ísis, ágape theon, a amada dos deuses evocando, até pela sua dualidade, uma e a mais ilustre das divindades egípcias, associada à fertilidade, e cujo exigência de sublimação capaz de enfrentar a complexidade e impersímbolo é a cruz ansata (anhk) com a haste superior vertical transfor- feição humanas. A imagem remete-nos para uma forma de coroação mada em alça ovalada. Tàpies sabia-o, claro, a imagem que nos ofere- oca, fixa e redonda, que suporta a matéria e a oferece, em esplendor ce faz-se de terra-dourada (roubada aos mortos que a deusa protege), espinhado, como um vaso materno, onde um “X” – inicial de Xristos relembrando a busca em torno de seu irmão e companheiro, Osíris, – o sol invictus, discretamente predomina. A cruz oblíqua existe, todaque ressuscita, graças ao seu sopro, sob asas de pergaminho ocre bor- via, enquanto símbolo, desde a Antiguidade, na China ou em Creta dadas a gotas de sangue. Se invertermos o quadro, olhando-o de baixo (Cnossos). Nesta imagem densamente matérica, Tàpies chama-nos a para cima, a aparência é a desta representação que, na escrita hieroglí- atenção para duas letras mínimas: um “a” e um “o”: são, decerto, alfa e fica, significa vida, fonte mágica de toda a transmutação e da fecundi- ómega, primeira e última letras do alfabeto grego clássico, extremidadade interior. des próximas que contêm a chave do universo, a demanda do saber no Tàpies trabalhou sobre a madeira de onde se vai do círculo (imagine- caminho de uma espiritualização progressiva dos seres e da consciên-se o corte do tronco de uma árvore) à cruz, da morte (de onde vimos, cia. Mas haveria que re(ler) Teilhard de Chardin. ¶


aRTes PLás Ticas Henry Moore, The Egg, 1934.

/ miguel matos

Banksy pinta a parede! Estreia dia 14 de Abril o polémico documentário assinado pelo artista de rua Banksy, que cartografa a história de um movimento artístico de rua. O filme acompanha vários artistas e tenta mostrar ao público as razões que levam a que criadores como estes atinjam a fama. O próprio Banksy, aqui no papel de realizador, é, apesar de ainda ninguém ter conseguido identificá-lo, uma das estrelas da street culture britânica. Com o título original de Exit Through the Gift Shop, o documentário faz uma reflexão sobre o valor da arte e o que é ou não considerado autêntico hoje em dia – ou se é que isso ainda importa...

ximam do registo paisagístico em vertentes gestuais, líricas e abstractas, dão conta da diversidade do seu percurso que abrange aproximações à arte pop e à BD. A exposição segue a ida do artista para Paris como bolseiro da Gulbenkian e acompanha os posteriores desenvolvimentos plásticos.

Paula Rego no Brasil 110 obras de Paula Rego estarão expostasnaPinacotecadeSãoPauloaté 5 de Junho, numa exposição retrospectiva. É a primeira vez que Paula Rego expõe no Brasil em nome individual. Pinturas, gravuras, desenhos e colagens são reunidos sob o comissariado do historiador de arte inglês Marco Livingstone. Um importante Manuel Batista núcleo da exposição compõe-se de Ao mesmo tempo que o Museu da obras cedidas pela Fundação Paula Electricidade mostra as esculturas Rego, como por exemplo as icónicas de Manuel Baptista, a Fundação peças Pillowman, Anjo e Love. Carmona e Costa apresenta até 28 de Maio outra faceta do artista. De- European Museum of the Year senhos provenien- Até 21 de Maio ficaremos a saber tes das mesmas qual é o melhor museu da Europa em décadas (1960 e 2011. Quem decide o prémio é o Eu1970) que se apro- ropean Museum Forum e este ano há três museus portugueses nomeados: o Museu do Douro, em Peso da Régua; a Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais; e o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, em Coimbra. A cerimónia de atribuição do prémio terá lugar em Bremerhaven, na Alemanha, no Centro de Imigração, vencedor do galardão em 2007.

Paula Rego, Love, 1995.

O júri nomeou 34 museus de 15 países. De entre estes, o vencedor será reponsável pela cerimónia de 2012 e até lá poderá exibir a escultura The Egg, do artista britânico Henry Moore. Construir la Revolución A arquitectura e a arte na Rússia nos anos de 1915 a 1935 é posta em revisão neste museu até 17 de Abril. Funcionalidade, simplicidade e economia eram palavras de ordem para uma nova linha de pensamento e produção plástica. Esta exposição descortina os primeiros tempos do Estado soviético num dos períodos mais férteis da história da arquitectura e das artes visuais. A criatividade e o atrevimento das propostas russas marcaram a produção artística das décadas seguintes e do modernismo em especial, mas o que resta hoje dessa influência? As perguntas e respostas colocam em destaque os Samuel Rama, Arquitectura reflexiva

T o r r e S h a b o l ovk a © R i ch a r d P a r e - S a mue l R a m a , A r qu i tectu r a r ef l e x i v a # 3 . © V a l te r V i n a g r e

↗ Bansky, fotografia do filme Exit Through the Gift Shop. ↓ Manuel Baptista, Paisagem, 1976.


Isidro Ferrer, Contra la violenza nella copia, sem data.

Isidro Ferrer 116 Carteles A Escola Superior de Arte e Design – ESAD – aliou-se à Camara Municipal de Matosinhos para a abertura do Espaço Quadra. A parceria tem como objectivo criar uma programação cultural dedicada à valorização da cultura do projecto e design. O primeiro momento expositivo começou com o designer gráfico e ilustrador espanhol Isidro Ferrer. Actualmente a funcionar numa galeria no Mercado Municipal de Matosinhos desenhada por Siza Vieira, o Espaço Quadra instalar-se-á definitivamente em 2012 num edifício requalificado na Rua Brito Capelo. Dentro da programação associada à exposição “Isidro Ferrer – 116 Carteles” realiza-se no dia 29 de Abril o lançamento da Revista Pli, uma publicação experimental da ESAD sobre arte e design.

Vladimir Shújov, Torre Shabolovka, Moscovo, 1922.

artistas do movimento construtivista, como Alexandr Ródchenko ou Kazimir Malévich, e arquitectos russos como Konstantín Mélnikov, Moisei Guínzburg, Alexandr Vesnín, para além de outros europeus, como Le Corbusier e Mendelsohn.

Land Art Cascais FernandaFragateiroeSamuelRama são os artistas que marcam a paisagem na terceira edição deste evento, situado na Quinta do Pisão de Cima. Com instalações de carácter efémero e todo um cardápio de actividades à sua volta, a zona está transformada não só com as artes visuais como com o teatro e a música num festival abrangente e com tentáculos que se estendem até ao Centro Cultural de Cascais, onde são expostas algumas obras de Robert Smithson cedidas pelo Institut Valencià d’Art Modern. Até 30 de Abril. Leilão em Almada Para sobreviver face aos cortes orçamentais impostos pelo Ministério da Cultura, o Teatro Municipal de Almada organizou um leilão com o apoio de uma importante lista de artistas plásticos. As receitas deste Teatro Municipal de Almada

leilão, que decorre até 17 de Abril, destinam-se a manter a mexer a programação deste teatro que tanto tem contribuido para a dinamização da vida cultural almadense (e não só), tanto a nível das artes cénicas como das artes visuais, através da sua galeria de exposições. Das obras disponíveis fazem parte trabalhos cedidos por Pedro Calapez, Rui Sanches,

Orla Barry, Five Rings, sem data

Rui Chafes, Cristina Ataíde, Jorge Martins e Ana Vidigal, entre muitos outros. Rui Chafes e Orla Barry no Museu Colecção Berardo “Five Rings” é uma exposição há muito planeada para o Museu Colecção Berardo e por isso a expectativa é grande. Trata-se da segunda vez que Rui Chafes e Orla Barry trabalham em conjunto num projecto e este tem como habitáculo as salas mais escuras do museu, onde a intimidade é acomodada numa atmosfera de obscuridade. Aqui o visitante pode ouvir vozes que falam sobre memórias perdidas ou guardadas. ¶


ART MiX / jorge dos reis

Jenny, please protect me from what I want! A mensagem de Jenny Holzer “protect me from what I ↖1 want” colocada em Times Square, Nova Iorque, em 1982, num spectacolor que competia com todas as luzes da Jenny Holzer nasce em 1950, em Gallipolis, Ohio, tendo frequentado a noite da Broadway, marca o percurso da artista e Universidade do Ohio, nas disciplinas de Gravura e Pintura. Em 1975 inicia constitui uma obra de arte de luz gráfica conhecida um mestrado em Pintura na Rhode Island School of Design, em Providen- por grande parte da sociedade americana. ce, onde introduz pela primeira vez a escrita no seu trabalho. Vai viver para Nova Iorque em 1977 e nessa cidade cria a obra Truisms, totalmente constituída por tipografia. Nesta obra inicial a tipografia é ainda pintada em papel e disseminada pela cidade em múltiplos anónimos. Assim, Holzer vai desenvolver a sua obra em painéis electrónicos onde dispõe os seus textos atingindo uma larga camada da sociedade que não indo a museus se confronta com a obra de arte. Pela forma como Holzer age no espaço urbano podemos considerá-la uma language artist, embora ela se considere a si própria uma public artist. A artista faz a sua formação durante a década de 1970 e terá vivenciado os momentos fundadores da transformação da arte do pós-guerra, a arte pop e o conceptualismo, bem como o minimalismo, que terão sido assimilados por si de forma a produzir um trabalho profundamente inovador. Holzer trabalha sobre a agenda do feminismo encontrando uma linguagem que enfoca o plano autoritário da ordem masculina. A sua obra parte deste pressuposto para pôr em causa todos os tipos de directrizes subterrâneas com que a sociedade capitalista cerca os indivíduos. A pintura masculina que faz da mulher um bibelô contemplativo encontra na tipografia um contraponto e Holzer recorre ao elemento tipográfico e à literatura para gerar um aparato crítico. Na sua obra encontramos registos de uma certa loucura linguística, lado a lado com uma abordagem directa e com sentido. Por um lado o delírio e, por outro, a objectividade – em simultâneo – são uma das características fundamentais do seu trabalho. Jenny Holzer considera-se uma leitora que quer “escrever coisas fantásticas” e que tenta escrever como se ↙6 ↙7

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fosse “louca, num estado de exaltação”. A manipulação tipográfica é outro dos aspectos que Holzer explora, tirando real partido da carga visual dos diferentes tipos de letras, tendo em conta o estilo e a escala. O seu trabalho utiliza os tipos de letra disponíveis para painéis electrónicos e, neste sentido, apropria-se da matéria de comunicação verbal da sociedade, fazendo uso de um artefacto automatizado e que pertence ao quotidiano do meio urbano. O seu trabalho adaptou-se e integrou-se na teia e na parafernália de registos simultâneos das fachadas das cidades. Entre outros, Holzer utiliza painéis electrónicos luminosos onde a tipografia desliza de forma dinâmica tendo em conta as suas frases curtas constituídas por truísmos, marcadamente impessoais, com uma linguagem que tende para a vulgaridade, mas que na verdade é construída com extremo cuidado. A sua primeira utilização de painéis electrónicos constitui um momento fundamental para a realização da luz tipográfica. No spectacolor de Times Square, em 1982, Holzer podia disseminar os seus truísmos num dos espaços urbanos mais movimentados do mundo: “Tive a oportunidade de assinalar Times Square. Agora está morto – que descanse em paz. Depois de usar o meio underground do poster, pensei que seria interessante colocar um conteúdo pouco usual num meio oficial – o meio oficial sendo o painel electrónico que normalmente tem publicidade ou os anúncios de serviços públicos ocasionais. A minha peça em Times Square tinha diversos textos e Private Property Created Crime era provavelmente o melhor. Funcionou durante duas semanas, a cada 20 minutos.” Em 1986, o projecto Protect Me From What I Want (Las Vegas) permite à artista americana colocar a sua tipografia em diferentes lugares de uma mesma cidade. Os seus textos ganham a legitimidade e a autoridade dos espaços onde se colocam. São instâncias morais de reconhecimento da mensagem. Esta metodologia de arte pública seria retomada em 1996 na sua 6. Florença, 1996 7. London CityPoem. Comemorações do centenário de Samuel Beckett com poemas de Szymborska e Mahmoud Darwish. 8. Keds desenhados para o Whitney Museum of American Arts. 9. Truisms, Inflammatory Essays, Living, Survival, Under a Rock, Laments, Mother and Child , Guggenheim Museum, 1989

jenn y ho l z e r © wh i tne y museum , a tt i l i o m a r a n z a no , guggenhe i m fund a t i on , b eto fe l i c i o , S t a dtw a l d

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1. Truisms, Times Square, Nova Iorque, 1982. 2. Jenny Holzer em frente de Monument, 2008. 3. T-Shirt slogan. 4. Louco, Rio de Janeiro, 1999. 5. Instalação Electronic Signs, 2008 com textos tirados de documentos desclassificados do Estado.

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LUIS GERALDES

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Mural de Cerâmica com 52 m2 Inaugurado em Março 2011, Sydney, Australia

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mais recente instalação realizada em Florença, na bienal Il Tempo e la Moda, onde Holzer constrói mensagens que interpelam os turistas da cidade, transformando a urbe num espaço de luz tipográfica. Luzes de Xenon poderosíssimas e de grande definição tipográfica são projectadas ao longo do rio Arno. Nas fachadas dos edifícios junto às margens do rio podemos ler “I smell you on my skin / I say the word / I say your name” ou “I am losing time”. A sua manipulação dos espaços com luz tipográfica far-se-ia também no espaço museológico interior. Em cada um dos três vigorosos e arrasadores projectos realizados em museus entre 1988 e 1990 podemos perceber a tensão textual e de luz tipográfica envolvida no processo: Laments, na Dia Foundation, em 1988, uma retrospectiva no Solomon R. Guggenheim Museum (ambos em Nova Iorque), em 1989, e o pavilhão dos Estados Unidos da América na Bienal de Veneza de 1990. Nestes espaços interiores Holzer optou por convocar um registo tipográfico do exterior. Realizou composições com spectacolors onde a tipografia feita de pequenas células de luzes (leds) se movimenta ao longo de cada faixa, na vertical ou horizontal, criando espaços feéricos que assustam, construindo interiores quase aterradores. De Holzer retiram-se, como ideias principais, a extrapolação tipográfica do espaço do museu, a natureza cinética da tipografia e a aceitação de tipos de letra adaptados a formatos electrónicos. A utilização de estruturas de luz tipográfica como o spectacolor vai permitir que a tipografia se infiltre no quotidiano e, nesse sentido, Holzer utiliza as mesmas ferramentas do publicitário ou do designer, neste caso de forma subversiva. ¶

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Para ler jenny holzer contemporary artists Jenny Holzer é uma artista que trabalha com os novos media em lugares públicos. Este livro mostra todas as suas instalações incluindo os seus trabalhos na web. Os seus poéticos e complexos textos podem ser chocantes, humorísticos e intrigantes. O livro é parte de uma série de estudos de importantes artistas do final do século XX. Jenny Holzer (Contemporary Artists) Editora: Phaidon Press Páginas: 160 Preço: $45.00 www.amazon.com

“O Mural retrata a importância das viagens pessoais e colectivas nos vários processos de desenvolvimento e etapas que se fazem na vida. Descreve as aventuras e dificuldades sentidas e experimentadas durante esse percurso sublinhando o impacto traumático que experimentamos na vida.” Luís Geraldes “His latest Art works have contributed to the development of awareness for justice. The works appear powerful and confronting showing the pain and cruelty of human suffering…” Julie Adam; Latrobe Art Gallery

AN ANGEL OUT THERE, 2003 Óleo sobre tela, 1520x1220mm

Estreia em leilão CHRISTIE’S 20 Abril 2011 Post-War & Contemporary Art South Kensigton, Londres www.christies.com

AUSTRÁLIA +61 411 401 738 835, Jumbuk Road Yinnar South VIC 3869, Austrália

PORTUGAL +351 914 543 842 Rua dos Faisões, 3, 5 Esq Belas Clube de Campo 2605-200 Belas lgeraldes@gmail.com www.geraldes.com


cinema

↙ The Turin Horse de Béla Tarr venceu o Grande Prémio do Júri.

/ diogo varela silva

↓ Cartaz de apoio à libertação do realizador iraniano Jafar Panahi.

Festival BerlinalE 2011 Esta edição da Berlinale foi marcada pela forte contestação à prisão do realizador iraniano Jafar Panahi, condenado pelo regime do seu país a seis anos de prisão e a vinte sem poder filmar. O grande vencedor desta edição do festival foi Nader and Simin, A Separation, de Asghar Farhadi, um realizador também iraniano que já tinha vencido o Urso de Prata em 2009 por About Elly. Nader and Simin recebeu também os Ursos de Prata para o desempenho de melhor actriz e actor, respectivamente. Dois outros filmes que se destacaram foram The Turin Horse de Béla Tarr, que ganhou o grande prémio do júri e If Not Us, Who de Andres Veiel, que levou para casa o prémio Alfred Bauer, por um trabalho de particular inovação. ¶ Humberto Delgado

↑ O vencedor do festival foi Nader and Simin, A Separation, de Asghar Farhadi.

↑ Cartaz do festival .

Operação Outono o assassinato do general humberto delgado Assinalou-se a 13 de Fevereiro a data da morte de Humberto Delgado, assassinado há 46 anos pela PIDE, nas cercanias de Olivença, numa operação intitulada “Operação Outono” destinada ao “cerco e aniquilamento” do General sem Medo que se apresentou como candidato à Presidência da República em 1958 contra o regime de Salazar. Operação Outono é também o título do filme de Bruno de Almeida que já está em fase de rodagem. Baseado no livro Humberto Delgado, Biografia do General Sem Medo de Frederico Delgado Rosa, neto do general, e com um guião de Bruno de Almeida, Frederico Delgado Rosa e John Frey, este filme retrata os detalhes da operação que levou a brigada da PIDE, chefiada pelo agente Rosa Casaco, a cometer um dos assassínios mais brutais do Estado Novo. O papel de Humberto Delgado é desempenhado pelo actor americano John Ventimiglia, conhecido da série Os Sopranos, e com o qual Bruno de Almeida já fez três filmes. Operação Outono, produzido por Paulo Branco, conta no elenco com os actores Renata Batista, Nuno Lopes, Ana Padrão e Diogo Dória, entre muitos outros. Conta também com uma participação especial de Camané, que fará o papel de António Semedo, um agente da PIDE.  As filmagens estão a decorrer entre Portugal e Espanha e estreará nos cinemas no final de 2011. ¶

Anna Glogowski

DocLisboa anna glogowski assume direcção A próxima edição do festival, a decorrer entre 20 e 30 de Outubro, será a primeira com a direcção de Anna Glogowski, que durante quase vinte anos (1984-2002) foi commissioning editor do Canal Plus e da France Télévisions. Desde 2007 que participa na selecção e programação dos documentários portugueses do DocLisboa. Seleccionada por concurso, Anna substitui Sérgio Tréfaut à frente do mais importante festival de cinema português dedicado ao documentário. ¶


mODA http://thesartorialist.blogspot.com/2011/01/sartorialist-visual-life.html

/ maria josé sacchetti

Scott Schuman autor de "The Sartorialist" A Visual Life é um pequeno documentário sobre Scott Schuman, autor do internacionalmente conhecido blog de moda denominado “The Sartorialist”, já anteriormente nomeado um dos “Top 100 Design Influencers” pela Time Magazine. Apresentado pela Intel Visual Life e dirigido por Tyler Manson, o documentário é falado pelo próprio fotógrafo, que explica o modo como trabalha, ao mesmo tempo que singulariza os motivos, inspirações e motivações que o levam a liderar uma vida fundamentalmente construída à base de imagens. Citando como inspiração o fotógrafo Lartigue e as suas fotografias de caminhantes nas ruas de Paris, cerca 1910, estas novas imagens, que começaram nas ruas de Nova Iorque, captam essencialmente indivíduos que projectam um estilo individual de vestir ou que são, de alguma forma, autores de um acto intervencionista e altamente pessoal, a nível da forma como comunicam através de determinadas peças de vestuário. As primeiras imagens já deram origem a um livro editado pela Penguin Books. ¶ http://thesartorialist.blogspot.com/

The Sartorialist de Scott Shuman Páginas: 512 Editora: Penguin Books Preço: $16,50 www.amazon.com

"Os Suprematistas" no Porto “Os Suprematistas” é um excelente projecto conjunto de Carla Dourado, Pedro Rodrigues, responsável pelo design do espaço, e Maria Rodrigues . É uma loja que recupera uma antiga garagem de aluguer de automóveis, com nível conceptual internacional, onde se fundem as vendas de pés de flores frescas, plantas e objectos de design, num ambiente ecléctico que aproxima este espaço do de uma galeria de arte. O seu nome é uma apropriação da denominação do movimento artístico russo do início do século XX, em

que um dos princípios serve de motto à direcção que os proprietários querem implementar no espaço: “O suprematismo é a supremacia da pura emoção.” (Malevich e Mayakovsky, 1915). É patente a originalidade, quer na escolha de plantas, flores e suas exposições, quer na selecção dos objectos de design, predominantemente de designers europeus. Como curiosidades, temos os jardins verticais montados numa parede e em crescimento, sob a orientação do engenheiro agrónomo José Pedro Fernandes, ou as hortas de varanda, que são caixas preparadas para cultivarmos em casa os nossos

próprios legumes. Numa tendência de mercado a que nos vamos habituando, é possível ainda uma pausa para tomar um chá acompanhado, por exemplo, de uma fatia de bolo verde feito com agrião e coberto de chocolate. A partir deste mês, prevê-se a realização de algumas oficinas para adultos e crianças, cujos temas versam sobre hortas de varanda, plantas aromáticas, flores comestíveis e construção de marionetas, entre outros. ¶ Os Suprematistas Rua do Rosário, 211, 4050-524 Porto Tel.: 222 014 376 www.ossuprematistas.com


Gonçalo Byrne Arquitecturas de luz Gonçalo Byrne (n. 1941), por diversas vezes premiado, com uma vasta carreira de docência em Portugal e no estrangeiro, um dos grandes nomes da arquitectura portuguesa contemporânea, é actualmente alvo de importante consagração na mostra que lhe é dedicada, com o título “Urbanidades”, na Fundación Pedro Barrié de la Maza na Corunha onde expuseram já alguns dos ícones da arquitectura do século XX, como Le Corbusier, Frank Lloyd Wright e Mies van der Rohe. Apresentado como “um dos mais ilustres modelos de sólido pensamento e coerente percurso profissional”, Byrne tem aí oportunidade de documentar alguns dos aspectos fundamentais do seu percurso e da sua linguagem plástica. A obra do arquitecto cresceu no respeito de um vasto palimpsesto como acontece em algumas das cidades que mais admira, Lisboa, o seu modelo, Nápoles, Palermo ou Argel, em busca de uma harmonia perdida, onde tem fundamental papel a luz. Ouçamos o seu discurso: “É de facto na luz, por excelência a matériaprima da arquitectura, e na sua capacidade reveladora/epifânica que reside o principal vínculo temporal do espaço.”. A ligação ao património é um dos as-

pectos marcantes do diálogo com a luz que define nesta obra uma componente plástica e poética. Uma acção exemplar neste contexto é a requalificação da zona envolvente da Abadia de Santa Maria de Alcobaça (2002-2006) onde se partiu do estudo da sua génese e da sua interacção com o território ao longo dos últimos séculos, procurando e conseguindo restaurar “a relação de complementaridade entre cidade e abadia”. O edifício recorta-se hoje na claridade e despojamento do vasto terreiro, recuperada a serenidade hierática que lhe pertence. Outro notável projecto de requalificação urbana é o da Vila de São Martinho do Porto (20052008), igualmente documentado, que revela todo um ideário da arquitectura. Jogando sabiamente com os desníveis da vila, miradouros fragmentados da sua beleza, o arquitecto une a cota baixa e a cota alta do centro histórico convidando o olhar à fruição do espaço e diluindo as fronteiras entre o público e o privado, o interior e o exterior, o vazio e o cheio numa harmonia onde se exaltam a luz e o esplendor do espaço. No Edifício Sede do Governo da Província do Brabante Flamengo (1998-2003) em Lovaina, na Bélgica, a elegante torre e os seus diversos corpos funcionais com a leveza das suas fachadas interagem num bailado de reflexos onde a nota verdejan-

Edifício Sede do Governo da Província do Brabante Flamengo, Louvaina

te dos pátios parece desvanecer os limites da realidade. Neste espaço, transparência e opacidade, interior e exterior respondem à paisagem de modo quase cinematográfico e permitem que esta o integre. Ritualização do espaço e do olhar em volumes simples, linhas de uma depuração absoluta, tornam-se meditação da forma dinâmica e suspensa no horizonte do mar no edifício do Centro de Coordenação e Controlo de Tráfego Marítimo do Porto de Lisboa (1997-2001). Numa inclinação que mimetiza a da Torre de Pisa, o edifício mira-se simbolicamente ao espelho do tempo e dos elementos numa voluntária tensão entre o ser e o não ser, a materialidade da terra onde se enraíza e a desmaterialização que sugere o seu revestimento. Pura poesia plástica e simbólica. A dinâmica entre as formas e o espaço é particularmente expressiva (implicando a construção de um terreno artificial) no projecto de 16 moradias em Óbidos, cada uma com seu pátio privado, em negativo, dando acesso simultaneamente à rua e à plataforma ajardinada a norte, com a sua fresca intimidade e os seus perfumes, apelando “a vivências meridionais”. Aconsonânciaplásticaepoéticacom o espírito do lugar é uma constante noutros edifícios como o da Agência Bancária da Caixa Geral dos Depósitos em Arraiolos (1982-1992). No

interior marcado pela tensão entre o movimento das linhas e a estabilidade de volumes muito simples, “a luz esculpe o espaço” (G.B.). Já na Reitoria da Universidade de Aveiro (1992-1998) o conteúdo programático do edifício condicionou toda a sua organização, com grande destaque para os espaços servidores, pátio exterior monumental, que realça a majestade do conjunto. A presença da história é outra das marcas fundamentais do estilo de

- A b a d i a de S a nt a M a r i a de A l co b a ç a , fotog r a f i a J osé M a nue l Rod r i gues - C ent r o de C oo r den a ç ã o e C ont r o l o de T r á fego M a r í t i mo do P o r to de L i s b o a , fotog r a f i a D a n i e l M a l h ã o

/ maria joão fernandes

E d i f í c i o S ede do G ove r no d a P r ov í nc i a do B r a b a nte F l a mengo , Louv a i n a , fotog r a f i a And r é N u l l ens

aRqUiTe cTura


Abadia de Santa Maria de Alcobaça

Byrne especialmente revelada na Remodelação e Ampliação do Museu Nacional de Machado de Castro em Coimbra (1999-2010), testemunha de mais de dois mil anos. O diálogo que esta obra propicia com os vários estratos do tempo traduz-se numa simbiose entre arquitectura e arqueologia. Os edifícios sobrepõem-se, “cruzando-se, destruindo-se ou fragmentando-se, gerando

(2003-2009) onde o que se pretende, “negando qualquer protagonismo visual”, é harmonizar formas de tempos diversos. A actual mostra da obra de Gonçalo Byrne na Corunha afirma-o incontestavelmente, dentro de uma linhagem pósmodernista, na esteira de Oscar Niemeyer ou Frank Lloyd Wright como um dos grandes nomes do panorama nacional e

Centro de Coordenação e Controlo de Tráfego Marítimo do Porto de Lisboa

residualidades e hesitações, firmezas, abusos ou revelações de transcendência,fascinantes…” A leveza de arquitecturas que parecem imponderáveis refaz neste espaço um tempo simbólico de 2000 anos, recriando as formas num “sistema de vazios e de emergências” (G.B.). A relação com a história é parte fundamental da ampliação e remodelação da Pousada Histórica do Palácio de Estói

internacional, verdadeira lição de arquitectura como desenvolvimento das formas na luz, como filosofia de um espaço feito não apenas para habitar, mas para viver e sonhar, para contestar os limites de uma vida em constante metamorfose. ¶ Gonçalo Byrne, “Urbanidades” Fundación Pedro Barrié de la Maza Corunha.


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Nascidos na rua Graffiti, street art, style writing são nomes para designar a mesma coisa ou coisas muito parecidas. Quer sejam letras, desenhos ou só assinaturas, os artistas da rua entraram em nossa casa, expressando sonhos, opiniões, pensamentos ou posições políticas.

Entre os vários filmes nomeados para os Óscares deste ano encontrava-se o documentário “Exit Through the Gift Shop”. Tinha a particularidade de contar a história de Bansky, um reputado artista de graffiti nascido em Bristol que se notabilizou pela qualidade das suas obras e também pelo facto de ninguém conhecer a sua identidade. Em 2007 ganhou o

prémio “Art’s Greatest Living Briton” e não apareceu para o receber. Supostamente terá nascido em 1974 e no seu estilo artístico, que se manifesta num stencil subversivo, cria mensagens anti-guerra, anticapitalismo, que se cristalizam em ratos, macacos, polícias, soldados, crianças ou adultos. Combina uma técnica de stencil com graffiti e durante 2008 as suas obras foram a leilão na Sotheby’s e Keep it spotless, uma charge a Damien Hirst, atingiu mais de um milhão de dólares. E é a ele que muitos imputam a responsabilidade de ter trazido a street art para os espaços das galerias de arte.

O mercado da arte contemporânea está bem atento ao graffiti, e leiloeiras como a Bonhams ou galerias como a   Lazarides, de Londres, têm uma palavra a dizer. Gareth Williams, especialista da Bonhams não tem dúvidas de que “é uma arte que veio para ficar”. Arnaud Olivier, da Artcurial, acrescenta: “É uma arte nova e fresca e veio trazer muitos mais agentes para as casas leiloeiras”. Mas para Aroe, um outro artista de graffiti, mais purista, que já pintou edifícios em São Francisco e Brighton, bem como comboios na Índia ou na Europa de Leste, “só há três maneiras da carreira de um artista de graffiti terminar, ser apanhado, ficar ferido ou desistir”. O risco físico parece ser uma realidade que atinge e muitas vezes fere os artistas – como Ozone que foi morto e atropelado por um comboio. O que foi outrora uma arte banida e escorraçada pelas cidades em que nasceu parece merecer honras inesperadas. Em 2008, Cedar Lewinsohn (artista e curador) organizou na

Tate Modern a exposição  “Street art” onde reuniu nomes internacionais como Nunca, os Gémeos (Brasil), Blu (Itália), o colectivo Faile (EUA), JR (França) e Sixeart (Espanha). E conseguiu esboçar as diferenças entre as várias realidades conhecidas. O Brasil é mais descontraído, a street art em França é mais cerebral e com contornos filosóficos, e o sentido de humor britânico é bem representado pela ironia de Bansky. “Em algumas zonas da Austrália são como o Reino Unido, odeiam o graffiti e os tags nos camiões e em comboios mas, em Melbourne, os camionistas competem uns com os outros, e quem está mais decorado ganha”. A galerista Magda Danysz considera que “tudo o que diz respeito ao style writing, graffiti e à street art é o movimento artístico mais interessante na viragem deste século”. E para ela “é como um primo da revolução cubista que sucedeu há cinquenta anos. Para mim, o style writing abanou o mundo da arte

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RA M © S a r a M a tos / S O L

1. Cans Festival, 2008 2. Graffiti de RAM na av. da Liberdade, Lisboa. Integrado no projecto "Crono" (http://cronolisboa.tk/). 3. Cartaz do Cans Festival. 4. Graffiti de Banksy 5. Alexandre Farto, stencil recortado na parede. 6. Banksy, Kissing copers,

Brighton, Inglaterra. 7. Graffiti do artista francês Zevs, famoso pelos seus trabalhos liquidated logos. 8. Recorte do jornal London Evening Standard que acha finalmente ter descoberto o rosto do artista Banksy. 9. RAM num bairro social.

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Exit Through the Gift Shop (2010), de Rhys Ifans, Banksy, Shepard Fairey e Thierry Guetta, Formato Blu-ray: $14,99 Formato DVD: $24,83 www.amazon.com

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1 e 7. ARM. o projecto da fábrica chama-se Time Traveller, fábrica de Sintra. 2. Video Love para os Orelha Negra, 2011, DVD. 3.. Branksy, Soldier-beth. 4. Cartaz para os pais ingleses identificarem se os seus filhos são graffiters. 5. Exposição de Alexandre Farto em Londres, 2010. 6. Banksy, Polland street. 8. ARM, bairro Sta. Filomena 9. ARM, ir e voltar

tão fortemente como o cubismo fez com a pintura da época, criando um caminho para uma nova era moderna levando a um outro capítulo da história da arte”. É uma arte que pode ter muitos nomes desde street art até style writing, graffiti, arte do metropolitano, arte do stencil. O nome que se lhe dá não parece ser o mais importante. O ter“Só há três maneiras da carreira de um artista de graffiti terminar, ser apanhado, ficar ferido ou desistir”. Aroe, artista que já pintou edifícios em São Francisco, bem como comboios na Índia.

mo graffiti é sempre muito usado, e veio substituir “a arte da lata”. Os artistas começaram a usar cada vez mais técnicas, e a desenvolver a sua arte, o que pode fazer com que a expressão graffiti não consiga abarcar toda esta realidade. Como Danysz explica “conhecemo-la por arte urbana, ou street art” e o que a torna forte são “os seus efeitos específicos e mensagens de grande impacto,

desde simples assinaturas pessoais até ao activismo”. Nascida no ambiente citadino, reúne técnicas como spray, colagem e stencil e é “indiscutivelmente uma cultura comum, que ultrapassa fronteiras”. Pioneiro português

Portugal descobriu o graffiti. O projecto internacional Crono, apoiado pela Câmara Municipal de Lisboa, apostou na pintura de fachadas de prédios devolutos nas principais ave-

nidas da cidade (como a avenida

Fontes Pereira de Melo ou avenida da Liberdade), tendo para isso convidado artistas internacionais como Os Gémeos, Blu, Sam 3, entre outros. Há também artistas nacionais envolvidos na iniciativa. Alexandre Farto é um deles, tal como o colectivo ARM (RAM e MAR) convidados a participar no evento, pintando uma fachada de um prédio da avenida da Liberdade. Alexandre Farto – aka Vhils – é o mais internacional e um dos mais jovens dos nossos artistas de street art. Nascido em 1987, muito in-

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fluenciado por Bansky, reside em Londres, é artista da galeria Lazarides e, em Portugal, expõe na Agência Vera Cortês e na Galeria Presença. Fez recentemente o explosivo vídeo dos Orelha Negra, para Love. Segundo nos explicou, o seu trabalho (baseado em retratos de desconhecidos) prende-se com uma lógica própria. “Porque é que as pessoas não podem todas ser ícones? Não se trata das pessoas, trata-se de um confronto, ou justaposição entre a nossa cultura consumista – necessidades criadas pela publicidade – e a nossa individualidade”. “Tinha dez anos quando me interessei pelo graffiti e comecei a pintar na rua três anos mais tarde. Foi esse o meu background artístico. Primeiro, nas paredes e depois em comboios, com amigos ou sozinho. Nesses primeiros anos, pintar comboios tornou-se a minha principal actividade, viajava pela Europa para ir pintar comboios”, recorda-nos. Senhor de grande mestria técnica, acrescenta: “Comecei a ter vontade de partir para outras direcções e explorar novas técnicas e caminhos. Encontrei no stencil uma fer-

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ramenta que abria inúmeras novas possibilidades e comecei a explorar outras ferramentas e processos que me vieram permitir alargar a comunicação a pessoas que não estavam dentro do meio do graffiti, que é, por natureza, muito fechado, tal como o da arte contemporânea”, destaca. “Tornou-se interessante alargar o meu trabalho a um público muito mais abrangente. No entanto, toda a minha base está no acto de sair à rua e trabalhar lá, é o sitio onde não há limites nem barreiras e sempre que trabalho em espaços fechados, mesmo que inconscientemente, trago sempre algo de toda essa escola, que me deu a auto-estima e matou o polícia mental que todos temos (às vezes) na cabeça”, ironiza. Sobre Bansky, faz uma leitura quase ideológica: “Nunca o conheci, mas acho-o muito inteligente. Acima de tudo, é um artista com preocupações sociais e sabe o que fazer para enfatizar os problemas sobre os quais trabalha”. “Underdogs” é também o nome da exposição na Agência Vera Cortês que integrou obras dos principais artistas nacionais ligados à nova expressão gráfica e visual produzida


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O que foi outrora uma arte banida e escorraçada pelas cidades em que nasceu parece

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merecer honras inesperadas. Em 2008, Cedar Lewinsohn (artista e curador) organizou na Tate Modern a exposição “Street art” onde reuniu nomes internacionais. 11

10. Aroe a trabalhar um projecto. 11. Ari Stein, Berlim, 2008 12. Monumento em alfabeto graffiti esculpido em 3 dimensões. 13. Vista do tunel onde os artistas convidados do Cans Festival poderam executar os seus trabalhos. 14. Vista da entrada da Tate Modern em 2008 quando a exposição foi dedicada à street art. 15. Alexandre Farto, Utopia Descartável, 2011, posters recolhidos da rua e tinta branca, 170x139 cm.

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no contexto urbano. Kusca, MAR, RAM, VHILS, Sphiza e Tosco foram alguns dos nomes envolvidos. Pintar a dois

O recém-assumido colectivo ARM, formado por RAM e MAR, também integrou “Underdogs” e o programa Crono de Lisboa. Em 2006 “nós os dois, RAM e MAR,  começámos a trabalhar juntos, a fazer pinturas”. São graffiters assumi-

dos e vivem exclusivamente do graffiti.  RAM “estava cansado de um sistema burocrático” porque “a partir do momento em que pintas ao ar livre e podes viver, pintar e conhecer pessoas novas todos os dias, conhecer sítios novos em vez de estar no atelier, é tudo muito melhor. E faço-o há dez anos”. Para MAR, só em 2006 a exclusividade começou: “A minha grande guerra era fazer com que as pessoas também percebessem que isto era uma profissão, um trabalho tão digno como outro”. A postura é profissional. São patrocinados por uma marca internacional, a Eastpak. “Eles respeitam o nosso

trabalho e a nossa interpretação e corre tudo bem. Já perceberam que conseguem chegar a outras pessoas através do nosso trabalho”. O trabalho mais recente dos ARM Collective, Time Traveller, a pintura de uma fábrica na zona de Sintra representa aquilo que eles são. “Temos um universo nosso,

“Tinha 13 anos quando comecei a pintar na rua. Nesses primeiros anos, viajava pela Europa para ir pintar comboios”. Alexandre Farto - aka Vhils

procuramos espaços, atacamo-los com o nosso universo”. As fábricas abandonadas fazem parte do historial destes dois artistas, mas esta apareceu há um ano e meio quando “numa altura de chuva, queríamos pintar e mostrar trabalhos grandes”. A grande dificuldade residiu, sobretudo, na manutenção do segredo, porque é difícil manter a coisa fechada, anunciar e manter o

anonimato. O segredo vai-se manter até sair um vídeo (de 14 minutos) que irá ser mostrado via Internet ou Youtube. ParaosARM,“Oex-libriséafábrica, o prédio da avenida da Liberdade é um cartão-de-visita”.   No trabalho do projecto Crono falavam do tempo, de personagens históricas e nobres que navegam em barcos de papel e que andam atrás do ovo de ouro. Fizeram uma crítica e retrataram um povo. E assim se dizem “agentes imobiliários” e, como na história que contaram, “estamos a pintar prédios, andamos a tapá-los, mas o ovo de ouro está lá”. Sobre a exposição “Underdogs”, sentem-se em casa. “Era a galeria certa para nós estarmos. Havia uma ligação por intermédio do Alexandre Farto, ele era da nossa crew há muito tempo”. O nome da exposição surgiu como se fosse “uma definição do que fazemos naquele universo de agência/galeria. Ali, somos os underdogs, aqueles a quem as pessoas não dão o devido valor mas que, obrigatoriamente, representam uma arte que se impõe”. RAM e MAR são hoje, também individualmente, imediatamente

associados à street art, e isso também se deve à VSP – ou visual street performance – criada em 2005, e a cuja génese estão intimamente ligados. Para trás ficou um percurso de intervenção no espaço da cidade que começou com “um colectivo de artistas de uma ocupação de espaços devolutos que seriam transformados de acordo com a visão artística de cada um”. Daí, resultou um livro de quilo e meio, da autoria de Miguel Moore, onde se contou um pouco da história do graffti em Portugal. Sabem-se e entendem-se como precursores. “Estamos sempre na linha da frente dos projectos mais novos que estão a acontecer, no mundo do graffitti ou da street art”. Assim são os ARM ou “We Arm not alone”, nas palavras de RAM. Envolvidos em projectos com forte conotação social como o programa Escolhas, ou em workshops de universidades (como em Angola), ainda complementam a sua actividade com iniciativas de team building patrocinados por grandes multinacionais: “Acabamos por ser o arroz doce para todas as festas”. ¶ Teresa Pearce de Azevedo


artista

António Ole

"o ensino da arte é o mais urgente em angola" Luandense de berço e espírito, é fruto do encontro cultural entre a tradição portuguesa e a aura africana. Inspirado pela arquitectura popular do musseque, sem esquecer as marcas da arte ocidental, e o bombear das tradições africanas, constrói a sua obra. É precisamente sobre a sua obra e a sua terra que fala à Artes&Leilões.


Da esquerda para a direita: Animal ferido, 1985. Instalação na National Galerie, Berlim. Township wall 611, 2001, Museum of Contemporary Art – Chicago.

Para António Ole, o gosto pela arte vem desde os seus tempos de liceu, através da rádio, como locutor e escritor de artigos sobre arte contemporânea. Enquanto filho de uma terra que fervilhava em todos os planos e cantos, a discussão, a reflexão, as leituras de grandes pensadores, formaram-no também enquanto artista. Um intérprete de linguagens, através das quais compõe as suas perspectivas sobre o mundo. Admirador de Picasso e Braque, que o professor de Desenho do liceu lhe deu a conhecer, mas também de fotografia e de cinema que o leva a percorrer os bairros de lata de Luanda, captando rostos e casas. Dos Estados Unidos da América traz um diploma de realizador de cinema do prestigiado American Film Institute e a proximidade com a banda desenhada e a pop art. Para os portugueses, a imagem da arte angolana está sobretudo assente na literatura, com nomes como Pepetela ou Agualusa. É um problema da lusofonia em geral ou tem que ver com aspectos particulares do meio artístico angolano? António Ole: Deve-se sobretudo ao facto de os escritores no período pós-independência se terem adiantado no processo de reflexão e consolidação de uma identidade angolana, mais vasta e mais complexa. Todo o processo de afirmação das outras artes levou mais tempo a ter visibilidade. A&L: Qual é o potencial de crescimento das artes plásticas e visuais em Angola? AO: O potencial de crescimento, como se pode imaginar, é enorme. Também me recuso a ver sempre as coisas à escala de Luanda, que normalmente absorve todo o investimento, toda a cultura. Há que pensar as coisas à escala de Angola e esperar resultados mais animadores. Artes & Leilões:

A&L: As cores e os temas fortes podem ser considerados um traço comum a muitos artistas angolanos. Estas características podem funcionar como elo, ou é uma leitura redutora? AO: Muitos artistas angolanos, e não só, só buscam alimento/inspiração nas tradições que já de si são fortes. É provável que desse encontro surja uma arte contrastada pela cor e por traços que marcam de certo modo esse lado ancestral. A&L: Na sua obra isso acontece por opção pessoal ou por “imperativo ambiental”? A crítica política também o motiva enquanto artista? AO: Fica um pouco dificil descodificar uma prática artística, no meu caso muito assente na ideia de errância, da procura instintiva de temas, que venham ao encontro de ideias e que muitas vezes as pessoas interpretam como tendo uma motivação política. Nem sempre isso é muito evidente. Preocupa-me mais a intensidade e qualidade artística do objecto. A&L: Pode dizer-se que existe uma comunidade sólida de artistas plásticos ou visuais em Angola? Como tem acontecido o aparecimento de novos artistas em Angola desde que começou a sua actividade? AO: Não sei se podemos falar de uma comunidade sólida. Existem muitos artistas, cada um com a sua experiência. Uns mais ligados a estruturas corporativas do passado, outros procurando uma afirmação nos mercados e na circulação internacional. Ultimamente um grande número de novos artistas tem contribuído de uma forma inovadora na renovação das artes em Angola. A&L: Que estruturas culturais fazem mais falta: as de ensino da arte, as da sua divulgação ou as do seu comércio? AO: Acho que todas as estruturas culturais são importantes, embora me pareça que o ensino da arte é mais urgente no nosso caso específico. ¶ Ana Albuquerque


filmes

Aprendiz da animação - Mestre do underground Retrato do cineasta Michael Snow Nasceu em Toronto, em 1929. Foi um pioneiro do cinema avant-garde e o seu Wavelenght tornou-se um marco no género, tendo entrado numa lista dos cem melhores filmes do século XX. Em 2003, o próprio Snow pegou nesse filme, cortou-o em três, e sobrepôs as três películas. Daí resultou a obra WVLNT, em frente à qual se desenrolou a conversa…

Um dia antes da inauguração, Michael Snow, desconhecendo a tradição portuguesa de deixar tudo para a última, começava a ficar ansioso por a montagem de uma das peças da sua exposição na Culturgest ainda não estar terminada. A peça consistia em várias cordas (fios de nylon usado para pesca) esticadas de um lado ao outro da sala. Suspensos nelas, rectângulos de acetato colorido fazendo lembrar roupa num estendal. Faltava substituir as lâmpadas dos dois focos que iriam projectar as sombras coloridas na parede do fundo. “Repare como o verde se mistura com o amarelo. Ali os tons são mais arroxeados. A ideia é que as pessoas passeiem pela sala e as cores se projectem em cimadelaspróprias,enquanto andam. Cada movimento vai mostrar uma combina-

"O Wavelenght está no YouTube e parece péssimo. Achei que haveria pessoas a fazer colagens com o meu filme, por isso pensei: se alguém vai vandalizar o meu filme, essa pessoa devo ser eu! " ção de cores diferente. Mas ainda faltam as luzes…” As luzes dos focos vão projectar cores na parede, como numa sala de cinema. “Há um jogo de luz a atravessar uma série de transparências. É uma peça muito cinemática, sem dúvida.” Não acha que este ruído da banda sonora pode ser irritante? [desconfiança] Este não é o original. O original é melhor. Tem 45 minutos. Então eu dividi-o em três partes iguais e ficou com 15 minutos. Poupa-lhe meia hora. É uma versão comprimida. O título inteiro é WVLNT, Wavelenght for people who don’t have the time (Wavelenght para pessoas sem tempo). É feito de três camadas de película, como a instalação da outra sala, onde os vários rectângulos coloridos se sobrepõem. Sim. O curador também quis estabelecer uma relação entre este filme e outro ainda, Condensation, que está noutra sala e é acerca do que acontece à imagem entre a lente da máquina e o cenário ao fundo. Está sempre a mudar por causa do nevoeiro, da bruma. A câmara capta a atmosfera em constante mudança.

Voltando a WVLNT. A palavra wavelenght (comprimento de onda) remete para sons… A luz também se propaga em ondas. Esta versão curta, de 15 minutos, é para pessoas que hoje andam sempre com pressa? Este trabalho é uma espécie de suicídio irónico. Quando o fiz, em 2003, tive a noção de que a Internet estava a tornar tudo mais acessível, tanto os filmes como as ferramentas de edição. Pode encontrar os meus filmes na Internet. O Wavelenght está no YouTube e parece péssimo. Achei que haveria pessoas a fazer colagens com o meu filme, por isso pensei: se alguém vai vandalizar o meu filme, essa pessoa devo ser eu! [gargalhada] Tinha o direito de fazê-lo. Tem formação em Belas-Artes? Como deu o salto para os filmes? Comecei por ser músico. Tocava piano, sobretudo, sintetizador e trompete. No liceu tínhamos um prémio de arte, o que me levou a ir para uma escola de arte para me candidatar ao prémio e a querer ser pintor. Mas continuava a tocar. Então fiz uma exposição de desenhos e daí

resultou que arranjei um emprego a aprender a fazer animação para a indústria do cinema. Fui convidado por um tipo distinto que dirigia uma companhia, isto em 1954, ou por aí, há muito tempo. O nome dele era George Dunning. Ele gostou dos meus desenhos, que nada tinham que ver com cinema, e ofereceu-me o emprego. O que é interessante no George Dunning é que ele contratou artistas que não sabiam fazer desenhos animados para serem treinados. Além disso dizia que, se as câmaras de animação, que eram enormes, estivessem disponíveis e o operador de câmara também, podíamos fazer os nossos próprios filmes, desde que isso não custasse dinheiro à empresa. Issopermitiu-mefazermuita pesquisa. Foi lá que fiz o meu primeiro filme artístico. E foi assim que tudo começou. A minha entrada no mundo do cinema foi por dentro, a fazer filmes. Para mim é interessante ter começado a fazer pintura e música por haver modelos, pessoas que admirava, e querer fazer o mesmo que eles. No cinema não foi assim. Comecei simplesmente a trabalhar sem essas referências. Quem eram os seus modelos na pintura e na música? Em primeiro lugar, Picasso. E na música começou como uma espécie de conversão religiosa ao early jazz, Louis

M i ch a e l S now , © fotog r a f i a R a que l W i se / S o l

/ josé cabrita saraiva


Armstrong e outros. Mas depois isso mudou. Considero-me essencialmente um compositor. Só toco a minha própria música. Antes disso pensava tornar-se pintor? Sim. Mesmo enquanto trabalhava no cinema continuei a pintar. Esteve muito mergulhado no meio artístico? Mudei-me para Nova Iorque em 1962. Nessa altura estava a começar a cena underground e eu tornei-me parte desse movimento. Gosta que os seus filmes sejam considerados "underground"? É um bom rótulo. Sabe, o mundo dos filmes tinha pouca, ou nenhuma, ligação ao mundo da arte. Eu exibia os meus filmes em galerias, mas sobretudo em caves, casas e espaços desocupados. Era uma coisa à parte. Nessa altura a pintura e escultura estavam a conhecer um sucesso estrondoso. Havia grandes obras a ser feitas e também havia muito dinheiro. Os coleccionadores começavam a investir e portanto havia uma certa aura de glamour à volta do meio artístico. No mundo dos filmes não havia nada disso.

Por isso, em certo sentido, era muito puro. As pessoas faziam-no porque gostavam daquilo. Num museu os espectadores não vêem o filme de início, apanham-no a meio. Há problema nisso? Este trabalho foi feito para ser apresentado assim, numa caixa, com o espectador sen-

"A minha entrada no mundo do cinema foi por dentro, a fazer filmes. Para mim é interessante ter começado a fazer pintura e música por haver modelos, pessoas que admirava, e querer fazer o mesmo que eles. No cinema não foi assim."

tado no lugar onde você se encontra. Também tenho peças feitas para galerias, como Condensation. E filmes que são exibidos em salas de cinema, com um horário e tudo isso. São públicos muito diferentes. O público da galeria é um público ambulatório, o do cinema é sedentário – as pessoas entram e sabem que vão ver uma coisa com uma dada duração. São coisas diferentes e tenho consciência disso. Aqui podemos ir ou ficar. É como quando estou a ver televisão em casa. De vez em quando mudo de canal. E às vezes até vejo duas ou três coisas ao mesmo tempo (não conte isto a ninguém!). Aqui o loop é parte da solução. Tem um filme famoso que se chama "Two Sides for Every Story", que consiste na mesma cena filmada de dois pontos diferentes e projectada na frente e nas costas de uma tela. Como lhe surgiu a ideia para isso? Sempre pensei que pintar é pôr uma coisa colorida numa superfície. Depois apercebi-me de que também a fotografia e o cinema são bidimensionais, e tentei juntar as duas coisas. O meio no cinema é a luz, mas a luz quase não tem dimensão, é etérea. Queria mostrar a imagem tão reduzida quanto possível, porque a tela quase não tem espessura. E a pessoa vê uma coisa, dá a volta e do outro lado da tela vê outra coisa. Seria como olhar para as costas de uma pintura. É isso mesmo. ¶ Culturgest Lisboa 19FEV > 22 MAI (mais informações na p.35 )


colec çõEs


possuo também uma enorme colecção de livros de artista e outra de manuscritos originais de grandes escritores. Tenho também cerca de uma centena de garrafas com rótulos criados ou intervencionados por artistas. Mas o importante é a alegria e a satisfação que sinto em coleccionar coisas. Hoje em dia tento incutir esse vício aos meus filhos. A sua colecção de arte começou com a compra de serigrafias... A criação do Centro Português de Serigrafia é o resultado dessa experiência. Estávamos nos anos 1970, e na altura, como director-geral de uma multinacional americana, fazíamos várias edições de livros sobre arte onde eu era o responsável pelos contactos com António Prates os artistas. Foi nesse contexto que, ao visitá-los nos Desde a Galeria São Bento à seus ateliers pude conviver num ambiente peculiar e Galeria António Prates, passanpelo qual me apaixonei. De dia para dia a visita aos do pelo Centro Português de ateliers ia sendo mais frequente e comecei a comprar Serigrafia, António Prates algumas serigrafias, e depois originais. Eram artistas construiu um percurso singular portugueses, ainda no início de carreira, bastante no meio da arte contemporânea. acessíveis. Eu era muito jovem e estava fascinado Pelo caminho juntou uma com este mundo, ainda não comprava nomes, nem colecção de arte abrangente movimentos ou correntes; passou a ser um hobby que que começa no pós-guerra e se tornou num vício. detém-se em alguns movimentos Isso é uma questão interessante: a mudança de percepção específicos. Mas o vício de coda obra e o gosto que muda com o passar do tempo, em relaleccionar, esse vem de criança. ção com as questões da importância histórica da obra e do António Prates é um coleccionador nato. Faz parte dos seus seu valor monetário. Sente isso? genes juntar objectos. Não colecciona só arte pois não? O gosto é o inimigo de quem compra. Qualquer coÉ verdade, comecei em miúdo com os cromos. Hoje, leccionador, quando começa a comprar obras de arte, para além de uma colecção com 266 rádios antigos, acaba por escolher algo com que se identifica e que

compreende melhor. Ora, por detrás de uma obra está um artista, uma carreira que leva normalmente muitos anos a construir. Um bom artista não surge de um dia para o outro. O seu posicionamento histórico e valor estão muitas vezes de acordo com a importância que lhe é atribuída por uma crítica especializada, pelos museus e pelo trabalho da galeria que o representa, o divulga e promove. Todo este trabalho do galerista é importante na medida em que tem de estar actualizado com o que se está passar no mundo da arte, para depois aconselhar os seus coleccionadores a apostarem na compra de determinados artistas. É fundamental que exista confiança no trabalho que o galerista desenvolve. Quando lhe acontece comprar uma peça e perder o interesse por ela mais tarde, consegue desfazer-se dela? Pode acontecer, a minha colecção é muito vasta e naturalmente há peças de que gosto mais, mas com uma experiência de 30 anos ligado a este meio já tenho conhecimento suficiente para fazer as minhas escolhas. No entanto, por vezes também adquiro obras sem me preocupar com o valor que possam ou não atingir. Ao longo do tempo, a sua colecção foi tomando forma e direcção. Como é que isso aconteceu e quais foram os interesses principais? Quando abri a Galeria de São Bento em 1984, optei Em cima: António Prates no seu escritório. À esquerda: Júlio Resende, Banho em Maré Negra, Óleo sobre tela, 200 x 130 cm, 1990. Em baixo: Julião Sarmento, sem título, acrílico, colagem sobre papel, 155 x 200 cm, sem datado.


colec çõEs


por organizar exposições com performances de artistas ligados à pintura, à poesia e à música. Por ali passaram grandes nomes associados à cultura portuguesa, tal como António Ramos Rosa, José Saramago, Natália Correia, Vitorino de Almeida, Constança Capdeville, Olga Prats, Mário Cesariny, Artur Bual, Luís Dourdil, António Palolo, entre muitos outros. Sempre que organizava uma exposição acabava por ficar com obras para a minha colecção. E quando tinha um artista que pertencia a um determinado movimento, eu queria ter os outros. E assim cresceu a minha colecção, por oportunidades, por ambição, mas com muita paixão e criatividade. Pegando num dos aspectos da sua colecção, há um núcleo de artistas espanhóis, muitos deles ligados ao grupo El Paso. Essa ligação vem da época em que teve uma galeria de arte em Espanha? Comecei a trabalhar com artistas espanhóis antes de abrir a galeria Blanca de Navarra em Madrid no início dos anos 1990, nomeadamente com Rafael Canogar, de quem hoje sou amigo. A arte espanhola sempre me interessou bastante. Ao longo dos séculos, vários artistas espanhóis importantes se notabilizaram, e hoje são muito apreciados, desde Goya a Velázquez, passando por Picasso, Tàpies, etc. Os anos 1980 foram uma boa época para investir em arte espanhola, em nomes como Canogar, Luis Feito, ou seja o Grupo El Paso, do informalismo. Os preços ainda eram acessíveis e o grupo era uma novidade para Portugal. O nosso país era um meio pequeno e alguns dos artistas portugueses já atingiam preços muito elevados. Eu tinha que internacionalizar a minha galeria de alguma forma, e vi na arte espanhola uma oportunidade. No seu seguimento, surgiu a Galeria António Prates nos anos 1990. É desta forma que hoje possuo uma colecção de arte espanhola invejável, desde os artistas mais “clássicos” aos jovens emergentes. Mas o que caracteriza melhor a sua colecção talvez seja o grande conjunto de obras de artistas ligados à figuração narrativa... A minha colecção de arte tem várias vertentes. Representa vários movimentos e, como já disse, foi sendo construída por oportunidades. O meu contacto com Erró, Peter Klasen, e outros pintores da figuração narrativa deve-se a um quadro que comprei no Porto, em meados dos anos 1990, de Peter Klasen. Essa obra entusiasmou-me de tal forma que escrevi uma carta a apresentar-me ao artista. Mais tarde, ele recebeu- -me em Paris no seu atelier, onde me apresentou a um amigo seu, o artista islandês Erró. Iniciámos a colaboração nessa altura, com uma exposição colectiva de ambos na Galeria António Prates. A colaboração com outros artistas da figuração narrativa surgiu após o convite que me foi feito para acompanhar um grupo de amigos de Erró à Islândia, aquando da inauguração do seu museu de arte contemporânea em Reykjavik, onde estavam presentes Bernard Rancillac, Jacques Monory, Vladimir Velickovic e outros. Para além do contacto profissional que mantenho, existe a amizade e admiração que tenho por todos eles. Dá muita importância às relações de amizade, não se limita a comprar e apreciar as obras? Há pouco tempo, em Paris, fui visitar o artista Antonio Seguí, e encontrava-se no seu atelier um grupo de Em cima: Andy Warhol, Sem título, acrílico sobre tela, 20 x 25 cm, sem data. Em baixo à esquerda: António Palolo, Sem título, óleo sobre tela, 120 x 120 cm, 1970. Em baixo à direita: Erró, Sem título, acrílico sobre tela, 93,5 x 100 cm, 1991/1992

amigos artistas, entre eles Pat Andrea, que me disse: “Eu já o conheço de nome, tenho ouvido falar muito em si. Você é o galerista português que é amigo de todos os artistas aqui em Paris”. Na verdade, para representar um artista na minha galeria, eu tenho que o conhecer muito bem, estabelecer alguns laços de amizade, de forma a fortalecer esse relacionamento para que exista confiança entre as duas partes. Perante a minha honestidade e profissionalismo, os artistas têm à-vontade comigo e sabem que têm o meu apoio. De tal forma que, por exemplo, em Paris todos estes artistas com que me relaciono me prestaram uma homenagem em casa de Peter Klasen. Foi muito gratificante sentir esse reconhecimento. Mas voltando à questão anterior, a figuração narrativa não é o grande núcleo da minha colecção. Também fazem parte dela núcleos importantes do nouveau réalisme, no qual existem obras de Arman, César, Yves Klein e Mimmo Rotella; do neo-expressionismo alemão no qual existem obras de Markus Lüpertz, Penck, Gerhard Richter, Baselitz, e Joseph Beuys... Tenho tido a preocupação de expor e coleccionar os movi-

"A fundação antónio prates Foi um projecto com o qual sempre sonhei: dar à minha terra um contributo no sentido de crescer e ser conhecida, por possuir algo de diferente e único. Não resultou porque a população, e a própria Câmara Municipal de Ponte de Sor entendiam que se criava um museu e de um dia para o outro este teria visibilidade e o reconhecimento de todos. mentos do pós-guerra, que no fundo se inspiram e interligam com a pop art. Também tenho alguns artistas dessa época ligados à op art. Para além desses movimentos, a colecção estende-se até aos dias de hoje e aos artistas portugueses. Como é que a actualiza? A minha colecção de arte portuguesa inicia-se nos anos 1950, com obras de Manuel Pavia ou Júlio Pomar, passando depois pelos surrealistas Cesariny, Cruzeiro Seixas, Vespeira, António Dacosta, Eurico Gonçalves... Nos anos 1980 tenho obras de Álvaro Lapa, João Vieira, Joaquim Bravo, Helena Almeida, José Escada, Noronha da Costa e Alberto Carneiro, entre outros. Nos anos 1990 tenho obras de Fernando Calhau, José Pedro Croft, Rui Chafes, Pedro Calapez, Rui Sanches, Julião Sarmento, entre outros. O Centro Português de Serigrafia, de que sou proprietário, desempenhou um papel muito importante na divulgação da arte portuguesa ao editar obras de alguns deles. A colecção também cresceu porque fico quase sempre com os originais. Hoje continuamos a dar oportunidades aos jovens artistas para se tornarem conhecidos. A colecção não tem fim, é um testemunho sempre actualizado e contextualizado no seu tempo. A sua colecção deu origem e está ligada à Fundação António Prates, que esteve aberta ao público durante um ano em Ponte de Sor. O que aconteceu para ter encerrado tão rapidamente? Foi um projecto com o qual sempre sonhei: dar à

minha terra um contributo no sentido de crescer e ser conhecida, por possuir algo de diferente e único. Descentralizar a cultura, criando um pólo de interesse acessível a todos. A arte é uma manifestação universal, para ser admirada e cultivada. Trabalhei arduamente durante nove anos neste projecto em que fui o único “arquitecto”. Das ruínas que eram a antiga fábrica de descasque de arroz, passou a existir um espaço reabilitado, como museu, e recuperado com um espaço expositivo de cerca de seis mil metros quadrados, auditório, bilbioteca, ateliers para os artistas trabalharem, centro educativo e restaurante. Durante o período de reconstrução e de funcionamento enquanto Fundação António Prates, Ponte de Sor recebeu a visita e o apoio de muitos artistas importantes, portugueses e estrangeiros, e foi falada e apreciada pelos quatro cantos do mundo. Não resultou porque a população, e a própria Câmara Municipal de Ponte de Sor que esteve desde o início envolvida no projecto, entendiam que se criava um museu e de um dia para o outro este teria visibilidade e o reconhecimento de todos. Tudo leva o seu tempo... Roma e Pavia não se fizeram num dia... A comunidade teria de se envolver mais, os dirigentes locais teriam de auxiliar na sua sustentabilidade e acreditar neste projecto. A falta de visão local e a deterioração do diálogo com a câmara levaram à conclusão indesejada deste sonho. A situação chegou ao limite quando foram circuladas informações na imprensa local de que a câmara teria intenção de se apoderar indevidamente da totalidade da colecção da fundação. Isto levou-me a tomar a decisão de retirar do local todas as obras da colecção. Hoje o meu sentimento é de tristeza, e lamento o facto de ter trabalhado tanto para um projecto que seria importante para todos. Mas considero que no ano em que lá esteve a colecção, fizemos um trabalho meritório. No entanto, a fundação não terminou, simplesmente deixou de funcionar naqueles moldes e naquele local. Quais são os projectos para o futuro da colecção e da fundação? A fundação continua a existir, até porque é detentora de uma colecção de arte de grande prestígio em qualquer parte do mundo. Para além de contar com grande parte das obras que eu fui coleccionando, também beneficiou da generosidade de um grande número de artistas. Continua a viajar para ser vista em museus, no estrangeiro e em Portugal. Tenho sido abordado por algumas entidades no sentido de podermos chegar a um acordo e voltar a colocar a colecção num espaço museológico de maior visibilidade. São contactos e ideias que estão a amadurecer e que num futuro próximo pode ser que dêem frutos. Neste momento, e dado a crise que o país atravessa, continuo com o meu trabalho de galerista, que vivo apaixonadamente, apresentando novas propostas e seguindo as novas tecnologias. Foi o primeiro galerista em Portugal a expor um projecto só com artistas ligados à bioarte, com nomes como Leonel Moura, Susanne Anker, Ken Rinaldo, Harold Cohen e outros... Foi, aliás, a primeira galeria no mundo a expor bioarte e eu fui o primeiro a expor trabalhos feitos com robôs. Tenho feito exposições, ultimamente, ligadas a esse movimento tecnológico, mais recentemente a de Novembro passado, de Miguel Chevalier. Tudo o que é novo é difícil de impor, mas tem havido aceitação e os grandes museus têm avançado com projectos inovadores neste âmbito. ¶ Miguel Matos


eventos Corto Maltese dá nome a casa-museu em Veneza Por detrás da gabardina escura e do chapéu de capitão está Hugo Pratt – o autor de banda desenhada que nunca se popularizou tanto como a sua personagem – que viveu a infância na cidade de Veneza. Corto Maltese e o seu criador ocupam, desde Fevereiro, La Casa di Corto Maltese, onde se encontram fotografias a preto e branco, retratos do artista no estúdio e em casa, aguarelas, esboços, desenhos, objectos ligados às histórias criadas por Hugo Pratt e às suas viagens pelo mundo e a biblioteca pessoal do artista italiano. É intuito da direcção da casa-museu torná-la um “laboratório”, um local de aprendizagem e crescimento, e, por isso, convidaram Guido Fuga e Lele Vianello a dinamizarem actividades ligadas a este género literário. Manuela Marchesani, directora da instituição, admite ter-se inspirado na Casa-Museu de Sherlock Holmes, em Londres, e confessa que “hoje, mais do que nunca, precisamos de personagens corajosas como Maltese, sobretudo os jovens”. Visitar gratuitamente a casa-museu por crianças entre os cinco e os nove anos dependerá da sua perícia em resolver o mistério apresentado à entrada. ¶ Ana Albuquerque La Casa Di Corto Maltese – Casa Museo 20 FEV > 20 OUT Cannaregio, 5394/B, Rio Terà dei Biri, Veneza, Itália 4ª a 2ª das 10h às 18h Encerra 3ª www.lacasadicorto.it

1. Gil Heitor Cortesão, Círculo, 2011, Óleo sobre acrílico, 150 x 150 cm 2. Vasco Araújo, Trabalhos para Nada “Maria Helena”, 2011, Painel de madeira forrado a cartão prensadoperfurado e pintado, cinco fotografias (c-print sobre k-line, dimensões variáveis), textos, fotografia com moldura de madeira, 165,5 x 145 cm / 93 x 64 cm 3. Adam Pendleton, System of Display, A (GENERATE/ Godard, Made in U.S.A., 1966), 2010 Serigrafia em vidro e espelho, 122 x 122 x 8 cm

Hugo Pratt

MUSEU 1

Pedro Cera e Filomena Soares na 29 edição da Art Brussels Entre 28 de Abril e 1 de Maio, Bruxelas recebe cerca de 30 mil coleccionadores, críticos, jornalistas, curadores, artistas e amantes da arte. É a Art Brussels, uma plataforma que pretende dar espaço a novos talentos no campo da arte contemporânea. Galerias de peso apresentam uma selecção do que de melhor se pode encontrar em pintura, escultura, fotografia, vídeo e instalação. Estarão representadas 170 galerias, com obras criteriosamente seleccionadas e uma forte presença de trabalhos de jovens criadores de arte contemporânea, aos quais o comité de selecção internacional dará especial destaque. “A feira tem um perfil mais internacional do que qualquer outra feira na Europa, em que 80 por cento dos seus participantes provêm de 25 países”, precisa a organização. De Portugal viajarão a Galeria Filomena Soares com Ângela Ferreira, Helena Almeida, João Pedro Vale, João Penalva, José Pedro Croft, Vasco Araújo, entre outros, e a Galeria Pedro Cera com Pedro Barateiro, Gil Heitor Cortesão, Adam Pendleton e Tobias Rehberger. ¶ Ana Albuquerque ART BRUSSELS 2011 28 ABR > 1 MAIO Brussels Expo – Halls 1 & 3 Place de Belgique, 1, Bruxelas, Bélgica 27 ABR: Preview das 12h às 16h 27 ABR: Vernissage das 16h às 22h 28 ABR > 1 MAI Das 12h às 19h www.artbrussels.be

2


Comédia à italiana na 8 1/2 Festa do Cinema Italiano Rir é o lema da quarta edição da 8 ½ Festa do Cinema Italiano, que decorrerá entre os dias 14 e 21 de Abril. Este ano, comédia e cinema popular são os géneros em destaque no certame que apresenta anualmente antestreias da produção cinematográfica transalpina. O Cinema Medeia Monumental, o Cinema Nimas e a Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, serão os primeiros palcos do festival que se estenderá ao Porto, a Coimbra e, com presença inédita, ao Funchal. ¶ 8 ½ Festa do Cinema Italiano 14 > 21 ABR Cinema Medeia Monumental, Cinema Nimas, Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema www.festadocinemaitaliano.com

G i l H e i to r C o r tes ã o © T e r es a S a ntos e P ed r o T r op a - C o r to M a l tese , de H ugo P r a tt © H ugo P r a tt / C a ste r m a n

CINEMA

múSica FEIRA d'ART E

3

Música no CCB – “Da Europa ao Novo Mundo” O ano da morte de Wagner e o ano em que terminou a Segunda Grande Guerra balizam o espaço temporal desta edição dos Dias da Música em Belém. O tema é “Da Europa ao Novo Mundo” e a programação vai centrar-se entre 1883 e 1945. Em menos de um século, a Europa dividiu África a “régua e esquadro”, o extremismo nazi dominou a Alemanha e por duas vezes o velho continente fragmentou-se em guerras fratricidas. Luís de Freitas Branco (Paraísos artificiais fará as honras de abertura do festival) e Ravel merecerão destaque na programação dedicada a diferentes espaços geográficos. Haverá música para todos os gostos, da Europa às Américas, do espírito-livre aos mal-amados e aos modernistas; e uma perspectiva geral de diversidade (da música sinfónica ao jazz, dos recitais ao swing, da música de câmara ao ragtime – género percursor do blues) sobre os cinco continentes. ¶ Dias da Música em Belém 2011, 15 > 17 ABR Centro Cultural de Belém, Praça do Império, Tel.: 213 612 400 www.ccb.pt


eXPOsições a não perder em abril ↓ Estoril

↓ Lisboa

↓ Lisboa

↓ Lisboa

Domingos Loureiro, Cegueira V (dentro), 2011

Neves e Sousa, Rebita

Foi assim que me ensinaram, 2011

Sem título, 1974

Untitled da Série Grandes Mestres da Literatura Policial, 2010

CASA DA CERCA Colectiva “Sobre-Natural 10 Olhares sobre a Natureza” 26 MAR > 4 SET Rua da Cerca Tel.: 212 724 950 3ª a 6ª das 10h às 18h, Sáb. e Dom. das 13h às 18h Encerra 2ª e Feriados

GALERIA DE ARTE DO CASINO ESTORIL Colectiva “Artistas de Angola” 16ABR > 11 MAI Av. Dr. Stanley Ho Tel.: 214 667 700 2ª a Dom. das 15h às 24h

CARPE DIEM ARTE PESQUISA Flávio Cerqueira “Foi assim que me ensinaram” 12 MAR > 21 MAIO Rua de O Século, 79 (Bairro Alto) Tel.: 210 966 274 4ª a Sáb. das 14h às 20h

FUNDAÇÃO CARMONA E COSTA Manuel Baptista “Escrever Paisagem. Manuel Baptista Desenhos 1960 - 1970” 26 MAR > 28 MAIO Rua Soeiro Pereira Gomes, Lote 1, 6º A e D Tel.: 217 803 003/4, 217 803 000 4ª a Sáb. das 15h às 20h Encerra Dom. a 3ª

GALERIA MIGUEL NABINHO Ana Jotta “Grandes Mestres da Literatura Policial” 4 MAR > 30 ABR Rua Tenente Ferreira Durão, 18-B Tel.: 213 830 834 3ª a 6ª das 11h às 20h, Sáb. das 12h às 20h Encerra Dom. e 2ª

↓ Aveiro

↓ Lisboa

↓ Lisboa

↓ Lisboa

↓ Lisboa

Sofia Areal, Sem título, 2008

Overtime #1, 2010

Unfinished Project 7, 2010-2011

Sem título, 2011

Sem título, 2010

MUSEU DE AVEIRO Colectiva “Quatro” 19 FEV > 30 ABR Av. Santa Joana Tel.: 234 423 297 / 234 383 188 3.ª a Dom. das 10h às 17h30 Encerra 2ª e Domingo de Páscoa

3+1 ARTE CONTEMPORÂNEA Daniela Krtsch “Overtime” 4 MAR > 23 ABR Rua António Maria Cardoso, 31 Tel.: 210 170 765 3ª a Sáb. das 14h às 20h Encerra Dom. e 2ª

CRISTINA GUERRA CONTEMPORARY ART Daniel Malhão “Exposição” 22 MAR > 30 ABR Rua Santo António à Estrela, 33 Tel.: 213 959 559 3ª a 6ª das 11h às 20h, Sáb. das 15h às 20h Encerra Dom., 2ª e Feriados

GALERIA 111 Pedro A.H. Paixão “Studies In Red - the century flows silently through the rocks” 24 FEV > 16 ABR Campo Grande, 113 Tel.: 217 977 418 3ª a Sáb. das 10h às 19h Encerra Dom. e 2ª

MUSEU BORDALO PINHEIRO António Vasconcelos Lapa “Vicente” 4 MAR > 22 MAIO Campo Grande, 382 Tel.: 218 170 667 3ª a Dom. das 10h às 18h Encerra 2ª e Feriados

↓ Cascais

↓ Lisboa

↓ Lisboa

↓ Lisboa

↓ Lisboa

O Naufrágio, 2008

Jardim Botânico de Lisboa, sem data

Miguel Ângelo Rocha, Para purificar a palavra, 2010

Carlos Cardoso em frente ao Piri-Piri, Av. 24 de Julho, Maputo, 1995

Five Rings

CENTRO CULTURAL DE CASCAIS Carlos Dugos “Pintura” 25 FEV > 25 ABR Av. Rei Humberto II de Itália Tel.: 214 848 900 3ª a Dom. das 10h às 18h Encerra 2ª

BAGINSKI Joana Escoval “De tempos a tempos a terra treme” 2 MAR > 16 ABR Rua Capitão Leitão, 51-53 Tel.: 213 970 719 3ª a Sáb. das 11h às 19h Encerra 2ª e Dom.

ESPAÇO ARTE TRANQUILIDADE Colectiva “O Consolo da Pintura” 1 MAR > 8 ABR Rua Rodrigues Sampaio, 95 Tel.: 213 503 500 3ª a 6ª das 12h30 às 19h Encerra 2ª e Feriados

GALERIA FILOMENA SOARES Ângela Ferreira “Carlos Cardoso – directo ao assunto” 24 MAR > 21 MAIO Rua da Manutenção, n.º 80 (Xabregas) Tel.: 218 624 122/3 3ª a Sáb. das 10h às 20h Encerra Dom. e 2ª

MUSEU COLECÇÃO BERARDO Orla Barry & Rui Chafes “Five Rings” 18 ABR > 19 JUN Praça do Império Tel.: 213 612 878 2ª a Dom. das 10h às 19h, Sáb. das 10h às 22h

J o a n a E scov a l © A l e x a nd r a M e l ã o - F l á v i o C e r que i r a © F e r n a ndo P i ç a r r a - G ed i S i b on y C o r tes i a G r eene N a ft a l i G a l l e r y , N ov a Io r que - Â nge l a F e r r e i r a © S e r g i o S a nt i m a no - O r l a B a r r y & Ru i C h a fes © C o r tes i a O r l a B a r r y

↓ Almada


An a J ott a © G a l e r i a M i gue l N a b i nho - P ed r o C a b r i t a Re i s © R i t a Bu r meste r - J osé B a r r i a s © M a r i o T edesch i F o

↓ Lisboa

↓ Loulé

↓ Porto

Ras Al Khaimah Gateway project

Pedro Calapez , projecto para desenho da parede, 2011

Abertura, 2007 (pormenor)

MUSEU DA ELECTRICIDADE Snohetta “arquitectura – paisagem – interiores” 4 MAR > 24 ABR Av. Brasília, Central Tejo Tel.: 210 028 190/130 3ª a Dom. das 10h às 18h Encerra 2ª

GALERIA DE ARTE CONVENTO ESPÍRITO SANTO Pedro Calapez e Ana Manso “Conversation Piece” 23 FEV > 24 ABR Praça do Mar Tel.: 289 313 275 2ª a 6ª das 9h às 17h30, Sáb. e Feriados das 10h às 14h Encerra Dom.

MUSEU DE SERRALVES José Barrias “In Itinere” 15 ABR > 3 JUL Rua Dom João de Castro, 210 Tel.: 226 156 500 3ª a 6ª das 10h às 17h Sáb., Dom. e Feriados das 10h às 19h Encerra 2ª

↓ Lisboa

↓ Oeiras

Artistas Portugueses no Mundo

↓ Porto

Pedro Cabrita Reis › Lovaina (Bélgica) M – Museum Leuve “One after another, a few silent steps” 24 FEV > 22 MAIO

Máscara Facial (sōmen), Japão, período Momoyama (1573-1615)

Pedro Cabrita Reis, Cabinet d’Amateur, 1999

O Sorvete, a. 11, n.º 1, (1 Jan. 1888)

MUSEU DO ORIENTE Colecções públicas e privadas “Encomendas Namban. Os Portugueses no Japão da Idade Moderna.” 17 DEZ > 31 MAIO Av. Brasília, Doca de Alcântara (Norte) Tel.: 213 585 200 3ª a Dom. das 10h às 18h, 6ª das 10h às 22h Encerra 2ª

CENTRO DE ARTE MANUEL DE BRITO Obras da Colecção da Fundação de Serralves “Livre Circulação” 20 MAR > 26 JUN Palácio Anjos – Alameda Hermano Patrone, Algés Tel.: 214 111 400 3ª a Dom. das 11h30 às 18h Última Sexta de cada mês das 11h30 às 24h Encerra Dom. de Páscoa e 1 Mai

MUSEU NACIONAL DA IMPRENSA – GALERIA INTERNACIONAL DO CARTOON Sebastião Sanhudo “Sanhudo: o sorvete do humor” 20 FEV > 15 JUN Estrada Nacional 108, 206 Tel.: 225 304 966  2ª a Dom. das 15h às 20h

↓ Lisboa

↓ Porto

↓ Redondo

Alfredo Luz | Mário Botas, Sem título, 1970-2010

Série-Brancos-15, 2010

Sem título, 2011

PERVE GALERIA Alfredo Luz, Cruzeiro Seixas e Jorge Pé-Curto “Eu-próprio os outros” 15 MAR > 16 ABR Rua das Escolas Gerais, 17, 19, 23, (Junto à Igreja de Santo Estêvão), Alfama Tel.: 218 822 007/8 2ª a Sáb. das 14h às 20h Encerra Dom.

SERPENTE – GALERIA DE ARTE CONTEMPORÂNEA Maria Caldas Ribeiro “Paisagens VI” 12 MAR > 16 ABR Rua Miguel Bombarda, 558 Tel.: 226 099 440 3ª a Sáb. das 15h às 19h Encerra 2ª e Dom.

CONVENTO DE S. PAULO ESPAÇO ARCANA Maria Leal da Costa “O Contorno Elementar” 19 MAR > 5 JUN Aldeia da Serra Tel.: 266 989 160 2ª a Dom.

Diogo Pimentão › Noisiel (França) Centre D’Art Contemporain de La Ferme du Buisson “Chambres Sourdes” 5 MAR > 8 MAIO ‹ manuel caeiro (colectiva) Rio de Janeiro (Brasil) Museu de Arte Moderna “Terceira metade” 18 FEV > 17 ABR José Loureiro › (Colectiva) Santiago de Compostela (Espanha) CGAC – Centro Galego de Arte Contemporánea “Abstracción racional” 25 FEV > 8 MAIO ‹ Paula Rego São Paulo (Brasil) Pinacoteca de São Paulo “Retrospectiva de Paula Rego” 19 MAR > 5 JUN ‹ Fernanda Gomes São Paulo (Brasil) Sala Tarsila do Amaral – Centro Cultural São Paulo “Fernanda Gomes – Monográficas” 19 FEV > 8 MAIO


destaques das exposições de abril

Vista da Exposição

Aqui e Além Não se pode dizer que a exposição “Aqui e Além” de Rui Sanches e Michael Biberstein se confine ao Pavilhão Branco do Museu da Cidade. Na verdade ela tem lugar também no jardim, o espaço natural. As peças destes artistas estão dispostas como que numa enorme vitrine e nessa instalação encontram o enquadramento orgânico que elas próprias sugerem. Mas esta afirmação não é, contudo, original pois qualquer exposição que se realize neste espaço goza da propriedade de se abrir ao meio circundante. No entanto, voltemos a essa mesma afirmação, por mais que ela seja um lugar-comum. Se a obra de

Rui Sanches, racional, arquitectónica e geométrica se complementa com a condição etérea e indefinida das telas nebulosas de Michael Biberstein, também a arquitectura de cimento e vidro do Pavilhão Branco se encontra em simbiose com a vegetação descontrolada e idílica do jardim. Dito isto, e após o encontro no exterior, o visitante penetra no refúgio do espaço interior. Aí dentro, não se opera uma surpresa de novas obras, pois nenhum dos artistas apresenta peças que quebrem a sua produção habitual. Reconhecese imediatamente um e outro nas suas idiossincrasias plásticas. O diálogo é que é novo, e fala-se de um verdadeiro diálogo pois fica estabelecida uma relação recíproca. E

não só se põem lado a lado ou frente a frente peças de anos diferentes e já pré-existen-tes, como se mostra uma instalação a duas mãos que dá o nome à exposição. Aqui e Além é uma escultura habitável e uma pintura visível a partir de dentro da estrutura de madeira – a madeira em tronco e a madeira em tábua. O romântico e o racional entre Biberstein e Sanches. Se a exposição “Aqui e Além” se equilibra com o encontro de obras divergentes, é também possível encontrar pontos em comum nos dois conjuntos de obras. Primeiro que tudo há uma activação e expansão do espaço, tanto através da escultura como da pintura. Enquanto a pintura de Biberstein amplia o campo de visão

para algo que está para além da tela, Rui Sanches traz o corpo à condição de matéria através do apelo físico dos materiais (madeira, metal e vidro) e das volumetrias que utiliza, ora geométricas, ora orgânicas. Por outro lado, nos dois artistas há uma aproximação a um género clássico na arte: a paisagem. É entre a paisagem natural (mas controlada pelo homem) e a paisagem construída ou pintada dentro de paredes e janelas que nasce a viagem que vai entre o aqui e o além. ¶ Miguel Matos Museu da Cidade , “Aqui e Além”, até 10 Abr Campo Grande, 245, Tel. 217513200, Ter a Dom das 10h às 13h e das 14h às 18h.


Manuel Baptista, Camisa com gravata (alumínio), (1973) 2011, alumínio, 172,,5 x 120 x 5,5 cm

Fora de Escala A exposição “Fora de Escala” constitui a revelação de uma faceta desconhecida de Manuel Baptista (Faro, 1936). Reúne desenhos e esculturas datadas das décadas de 60 e 70 do século XX, embora as esculturas só tenham sido concretizadas agora, 40 anos após a sua concepção. Pelos materiais utilizados (néons, alumínios, contraplacados, plexiglas, fibra de vidro, etc) e grandes dimensões, a sua onerosa produção terá sido adiada durante décadas e só agora foi levada a cabo com o apoio da Fundação EDP, por sugestão do curador João Pinharanda. O público tem assim acesso a 20 esculturas, que se inserem nas linguagens formais típicas de alguma produção artística dos anos 60 e 70 (recorde-se o vasto uso do plexiglas por Lourdes Castro). Também o apelo cinético de algu-

mas peças obriga ao movimento físico do espectador para apreender as suas várias dimensões, o que se relaciona com a arte criada nessa época. Manuel Baptista junta-se a Ângelo de Sousa e Jorge Pinheiro, artistas que também esperaram 40 anos para concretizarem obras projectadas nos anos 60 e 70. Não se pense que estamos perante uma exposição revivalista ou uma mostra de curiosidades históricas. As obras de Manuel Baptista valem por si – umas mais do que outras, naturalmente. O diálogo que estas esculturas estabelecem no espaço, coordenado com as escalas absurdas de algumas delas, provoca um desconcerto entre o familiar e o inusitado. Estão lá elementos do quotidiano como as camisas com gravatas a roçar o kitsch, as frutas feitas de réguas graduadas e os arbustos recortados. Tudo “coisas” do dia-a-dia que já adivinhávamos nas suas

pinturas e desenhos mas que vemos finalmente realizadas. O resultado é exuberante, como um parque de diversões com peças que, pela reunião de formas, luzes e cores, deslubram o visitante. A disposição geral das obras contribui para a confusão visual ao primeiro vislumbre. Mas essa profusão de elementos parece propositada e faz sentido no contexto dos objectos extravagantes que marcam presença. Os desenhos de Manuel Baptista que acompanham as esculturas incluem muitas vezes recortes e colagens, cujas linhas e arestas se aliam às composições de linhas geométricas, orgânicas e por vezes paralelas, criando ilusões de tridimensionalidade. Essas ilusões transitam, assim, com naturalidade, para o domínio do real, concretizando a insinuação tridimensional em afirmação escultórica. Os seus desenhos e pinturas de leques e outras formas aparecem

em espaços ambíguos num conjunto de obra com características decorativas mas requintadamente complexas. Não saindo do campo da pintura, o trabalho de Manuel Baptista inclina-se sempre para um sentido de objectualidade. As suas telas nem sempre são quadradas ou rectangulares, como é o clássico formato da pintura. Assumem formas triangulares, em losângulo, hexagonais ou em forma de leque. O resultado constitui uma pintura pensada como objecto em que a forma é tão soberana quanto a linha ou a cor. ¶ Miguel Matos

Museu da Electricidade , “Fora de Escala” Até 15 MAI Avenida Brasília, Central Tejo, Lisboa Tel.: 210 028 130, Ter a Dom das 10h às 18h


destaques

Osmosis, 2009, Três aquários, três tripés de ferro, sistema de osmose, termóstato digital, bombas de água, um peixe de água doce e outro de água salgada, filtros e temporizador, 350 x 250 x 200 cm

Little Boy, 2007, Turbina, modelo de avião, estrutura em ferro, instalação eléctrica, 280 x 500 x 500 cm

Miguel Palma em “Linha de Montagem” na Gulbenkian Carros, berbequins, aquários, turbinas, painéis solares, projectores, tripés... Alguns destes objectos combinados farão sentido em determinado contexto, mas encontrá-los juntos numa exposição é motivo para convidar o público a descobrir como é que com esses elementos se faz arte. A partir de 15 de Abril, Miguel Palma abre a sua “Linha de Montagem” aos visitantes do Centro de Arte Moderna (CAM). Este artista, que vem grangeando os olhares internacionais, cria simbioses e plataformas de convergência entre o mecânico e a sua potencialidade artística. As suas esculturas e objectos resultam do imiscuir da engenharia, da arquitectura, da arte, da mistura entre o “natural e o artifícial”, explica o CAM. É uma centena de esculturas, instalações e vídeos para ver até 26 de Junho. ¶ Ana Albuquerque Miguel Palma, “Linha de Montagem”, 15 ABR > 26 JUN, Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian, Rua Dr. Nicolau de Bettencourt, Lisboa , Tel.: 217 823 474 / 217 823 483, 3ª a Dom. das 10h às 18h, Encerra 2ª

M i gue l p a l m a © co l ec ç ã o do a r t i st a - M i ch a e l S now © M i ch a e l S now

das exposições de abril


Francisco Aires Mateus, Contentores pretos

Projecto “Contentores II”

Bernard Voïta. Caméra I, 2004-06

Pitz, Snow e Voïta perfazem “1 + 1 + 1 = 3” No entender de Friedrich Meschede, curador da exposição, os artistas Hermann Pitz, Michael Snow e Bernard Voïta partilham a forma como entendem o estúdio: um local privado onde cada um deles pode desenvolver conceitos e experiências a partir do mundo da imagem e com os quais projectam uma outra realidade. Pitz, Snow e Voïta trabalham a fotografia e o filme, sugerindo uma diversidade de acepções de atelier. Há as paisagens e a arquitectura nas fotografias de Bernard Voïta, as inúmeras polaróides de Hermann Pitz e os jogos de luz de Michael Snow. A Culturgest volta assim a reunir trabalhos de artistas sob a forma de exposições individuais simultâneas num mesmo espaço, permitindo que cada mostra dialogue com as outras e todas se revistam de unidade. O título é a forma mais simples de explicá-lo. ¶ Ana Albuquerque Hermann Pitz, Michael Snow e Bernard Voïta , “1 + 1 + 1 = 3” 19 FEV > 22 MAI, Culturgest Lisboa, Edifício Sede CGD, Rua Arco do Cego, 50, Lisboa , Tel.: 217 905 454, 2ª a 6ª das 11h às 19h, Sáb., Dom. e Feriados das 14h às 20h, encerra 3ª

No Centro Cultural de Belém apresenta-se, a partir de 9 de Abril até 14 de Outubro, o projecto de arte contemporânea “Contentores”, o qual teve uma primeira edição no ano anterior, na zona de Alcântara, junto à ponte 25 de Abril. Segundo a P-28, a associação responsável pela iniciativa, após a primeira edição dos “Contentores”, este novo projecto destina-se a “interiorizar as premissas anteriores e equacionar a localização dos contentores no Centro Cultural de Belém, visando também fundir-se com os espaços tradicionais”. Cabe agora ao arquitecto Francisco Aires Mateus a honra de “abrir as hostilidades” deste novo ciclo, ”fruto da parceria entre a P-28, o Museu Colecção Berardo e o Centro Cultural de Belém, com a instalação “Nautilidae”. O projecto “Nautilidae” estabelece a “relação entre o interior e o exterior que é definida pelos elementos mais simples da arquitectura e da memória individual”. A proposta consiste numa visita individual aos dois contentores, em que, ao percorrer um corredor estreito e escuro, o visitante será contemplado com a imagem do exterior projectada através de um pequeno orifício. A instalação permite uma experiência da “contenção do espaço, na sua tensão com o que existe para além dele.” Luisa Cunha, Jorge Molder, Inês Amado, Sonya Boyce e um artista cujo nome está ainda por desvendar são algumas das apostas destes (novos) “Contentores”. Quanto ao elemento mistério do grupo, terá um projecto comissariado pelo curador da Tate Britain, Paul Goodwin. Apostando em “uma nova incursão pelas poéticas pessoais e assuntos do quotidiano, abrangendo em alguns casos situações sociais (new genre public art)” e praticando uma “multidisciplinaridade [...] e uma simbiose e apropriação da linguagem de disciplinas como a arquitectura, design de equipamento, publicidade, sociologia e ecologia, entre outras”, este projecto inovador e com mais fôlego regressa e permanece... até depois do Verão! ¶ Teresa Pearce de Azevedo Projecto "Contentores II" 9 ABR > 14 OUT Centro Cultural de Belém, Praça do Império, Lisboa Tel.: 213 612 400 2ª a Dom.


Alfabeto Graffiti Claudia Walde Editorial Gustavo Gili 45,00 euros Este livro é o resultado de um convite que Claudia Walde (aka Mad C) fez a 154 writers do graffiti para desenharem as 26 letras do alfabeto. Claudia é também writer, com formação em Design de Comunicação. Cinco anos foi o tempo de gestação desta obra de referência, resultado de uma cuidadosa investigação levada a cabo em várias cidades. Akor, Jaba One, Wane, Xpome, Rusl, Sen2, Tizer, Sirek, Scheme, Roket, Popil, Pariz One são alguns dos nomes cujos alfabetos integram a obra. Alemanha, Rússia, França, México, Coreia, Portugal, Suíça, Polónia, Dinamarca, Holanda, Estados Unidos, Itália, Espanha e Inglaterra são os países de origem destes 154 novos artistas que Claudia Walde nos apresenta, bem como as suas interpretações do alfabeto. Um livro com 317 páginas que nunca apetece fechar, quer estejamos já familiarizados com o tema ou não. tpa

Retrato: o desenho da presença Artur Ramos Campo da Comunicação 24,90 euros Um livro vencedor do Prémio José de Figueiredo da Academia Nacional de Belas-Artes dedicado ao desenho, à sua técnica e também à especificidade do rosto. Nesta obra, técnica e teórica, o autor “oferece uma sequência que parte do corpo para a cabeça, vindo depois a concentrar-se no rosto”. Aborda-se o percurso do desenho na história do retrato, referindo que “é a partir do Renascimento que o desenho se destaca, assumindo-se como mediador entre o artista e a realidade”. Para Artur Ramos, docente de Desenho na FBAUL, “o desenho de retrato do natural é, em última instância, uma verdadeira celebração da identidade humana que, por ser vida, só se pode exprimir completamente na duração da sua presença”. tpa

Fotografia e Verdade Uma História de Fantasmas Margarida Medeiros Assírio & Alvim 24,00 euros A fotografia estabeleceu-se na nossa sociedade com um carácter de veracidade que em muito ultrapassou a sua dimensão documentarista, transpondo para o próprio medium essa “veracidade” inquestionável. Roland Barthes, Michel Foucault e Jacques Lacan são alguns dos convocados para este trabalho, onde a matéria e a sua comprovação se articulam e anulam, mostrando como esta forma de arte – que é também, e antes de tudo o resto, uma manifestação técnica – inscreveu no inconsciente colectivo uma legitimação que dificilmente encontraria eco de outra forma. A fotografia é um reflexo do real, mas também um instrumento fundamental na sua construção. tpa

i m a gens r et i r a d a s dos l i v r os gent i l mente ced i dos pe l a s ed i to r a s

livros


Inferno, Mestre desconhecido, 1510-1520. Museu Nacional de Arte Antiga.

a BaBel recOmenda livros bons, bons livros

primitiVOs Athena Primitivos Portugueses - 1450-1550 – O Século de Nuno Gonçalves Vários; José Alberto Seabra Carvalho (coordenação) Museu Nacional de Arte Antiga/ Athena 38,00 euros Este livro é o catálogo de uma debatida e reconhecida exposição (cujo sucesso obrigou a prolongar até 23 de Abril) patente no Museu Nacional de Arte Antiga e comissariada por José Alberto Seabra Carvalho. A mostra nasce por motivo da celebração do centenário da primeira apresentação pública, em 1910, de uma das mais discutidas obras da pintura portuguesa – e um dos seus trabalhos basilares – os Painéis de S. Vicente de Fora, da autoria de Nuno Gonçalves. Reunindo mais de 160 pinturas dos séculos XV e XVI, esta exposição reconstitui alguns dos mais significativos retábulos portugueses desse período, ensaiando uma discussão pictórica sobre o panorama que aborda. Este projecto apenas foi possível recorrendo a diversas colecções, públicas e privadas, e inclui trabalhos expressamente restaurados para esta ocasião. Alguns museus estrangeiros também estão presentes, com peças oriundas da Itália, França, Bélgica e Polónia. tpa

PVP 38,00 €

mOdern arcHitects Athena PVP 44,00 €

O parente mais próximO Ulisseia PVP 19,95 €

Estudo em reflectografia do Painel dos Cavaleiros. Museu Nacional de Arte Antiga.


arte pú blica

com o patrocínio de

Um Marquês imponente No centro da cidade, uma das mais concorridas estações do metropolitano envolveu presenças artísticas de peso. Quem passa no Marquês, conta com os azulejos de Maria Keil, arquitectura de José Daniel, João Santa-Rita e Nuno Simões e intervenções de Charters de Almeida, João Cutileiro e Menez.

Quando em 1959 a rede do Metropolitano de Lisboa abriu ao público criou inicialmente 11 estações (actualmente existem cerca de 50). Fundamental na distribuição de trajectos, a estação Marquês de Pombal (antigamente chamada Rotunda) integrou essa primeira fase do primeiro escalão da construção da rede. Na altura, “todos os comboios terminavam a marcha nos Restauradores, mas, no sentido inverso, seguiam alternadamente para o Jardim Zoológico (antiga estação Sete-Rios) e Entrecampos” e era “no Marquês de Pombal que se fazia a divisão dos comboios. Os utentes tinham de prestar atenção para não entrarem no comboio errado e ir parar ao outro ramal da linha”. Em 1995 desfez-se o “nó da Rotunda” ou o também chamado “Y”, tendo-se criado duas linhas independentes. Havia um plano arquitectónico e artístico adoptado para todas as estações

desse escalão, da autoria dos arquitectos Keil do Amaral e Falcão e Cunha, e Maria Keil foi a autora dos revestimentos em azulejos. Na estação Marquês de Pombal o tema desenvolvido consistia num motivo em espiral que lembra uma esfera armilar – as cores utilizadas foram o verde e o azul – e que ainda persiste num revestimento de paredes, numa das saídas do metro, a que desemboca na avenida Duque de Loulé. Em 1995 deu-se uma remodelação da estação bastante profunda, da autoria dos arquitectos José Daniel, João Santa-Rita e Nuno Simões, tendo sido construída uma nova plataforma de embarque e o respectivo átrio, bem como galerias de circulação entre as duas plataformas. Os arquitectos Duarte Nuno e Nuno Simões dedicaram-se ao outro cais da estação, designado Rotunda II. Fizeram-se melhoramentos, como o aparecimento de áreas comerciais e até espaços redimensionados, novos lances de escadas a céu aberto, paredes curvas de pedra, entre outros. No plano artístico, mantiveram-se os azulejos de Maria Keil, no átrio sul, e convocaram-se três artistas: Charters de Almeida, Cutileiro e Menez. O primeiro criou o mural Cidade imaginária, ao longo da passagem sul entre os átrios da estação. Cutileiro concebeu esculturas e relevos no cais e átrio. Menez desenhou um conjunto de painéis de azulejo decorando o átrio que dá acesso à linha Rotunda. Cutileiro pisca-nos o olho com este Marquês de Pombal simplificado, esquematizado e enormemente simbólico. Sempre de costas, a figura enigmática nunca nos mostra o rosto, emoldurado pela enorme e representativa cabe-


Da esquerda para a direita: Maria Keil, painel de azulejos da Rotunda (estação original). Menez, painel alusivo à Maçonaria, com cena de “trabalhos em loja”, Estação da Rotunda. Menez, painel de azulejos representando Manuel da Maia, Eugénio dos Santos e Carlos Mardel, estação da Rotunda. João Cutileiro, “Marquês” na Estação da Rotunda.

ESTAÇÃO Marquês do pombal

leira que logo o denuncia. Quer na escultura de vulto pleno, quer na parede, é retratado em corpo inteiro. As estátuas na plataforma de serviço técnico são uma “assemblage de cilindros e paralelepípedos formando as pernas, placas planas configurando a casaca e os braços, articulados entre si por cavilhas evidentes, a cabeleira construída pela aglomeração de cilindros dispostos em volume”. A figura aparece a segurar documentos – decretos ou plantas relativos à reconstrução de Lisboa. A Cidade imaginária de Charters de Almeida é um painel em pedra lioz, que apresenta a visão da cidade geometrizada e estilizada, crescendo à medida que o passageiro avança na passadeira rolante, quando se dirige para apanhar o metro. “Paralelepípedos, simples e em ‘L’ invertido, formas que se desenham por linhas incisas e pelo contraste entre pedra brilhante e despolida” são os motivos repetitivos que assumem várias combinações de paisagens urbanas. O átrio da estação Rotunda II veio acolher a decoração composta pelos conjuntos de painéis azulejares da autoria de Menez. Os desenhos ocupam a parte cimeira do painel que apresenta um “rodapé vermelho texturado e uma linha azul junto à sanca”. Surgem “nas duas paredes laterais, interrompidas pelos vãos de acesso ao átrio” e formam quatro longas superfícies com frisos figurativos ilustrativos da vida e época do marquês de Pombal. As cores utilizadas são o azul e o branco, as que eram utilizadas na produção azulejar da primeira metade do século XVIII. Contrariamente àquilo que acontecia nos painéis azulejares da época, a narrativa aqui não se estende

por toda a superfície parietal, mas assume um aspecto de quase banda desenhada, muito discreta, com comentários escritos à mão. Começamos por conhecer personagens e acontecimentos que pontuaram a época em que Pombal viveu: Casanova, Bach, Longhi e Kant. A ligação do estadista à Maçonaria é temática recorrente, sendo representados vários “trabalhos em loja” com membros dessa associação. Aqui é representada a família Távora, opositora de Pombal, cujo trágico destino é também relatado: o seu aniquilamento. O terramoto é também tema obrigatório. Cenas do incêndio, maremoto, os ladrões que são castigados e, finalmente, os co-adjuvantes do marquês de Pombal na reconstrução da cidade: Manuel da Maia, Carlos Mardel e Eugénio dos Santos. Toda a actuação política e económica de Sebastião José de Carvalho e Mello é também objecto de representação pictórica: a expulsão dos jesuítas e a criação de variadas manufacturas de fitas, chapéus, tecidos, sedas, cerâmica, sem esquecer as companhias de comércio. A cultura e o modus vivendi da época pombalina estão também referidos na representação dos estrangeirados e em cenas galantes da corte, na ópera, teatro e autos de fé. Menez também não esqueceu a parte final da história: o afastamento do marquês de Pombal após a subida ao trono de D. Maria I (1777). Se esta narrativa, quase banda desenhada, for vista e lida com atenção, os transeuntes poderão ficar com uma boa súmula do que foi a Europa e Portugal no século XVIII. Fiel ao seu estilo artístico, Menez irradia poesia e delicadeza, tal como a época na qual Pombal viveu. ¶ Teresa Pearce de Azevedo


antiguid ades Antiguidades nacionais de novo na Cordoaria A Associação Portuguesa dos Antiquários (APA) organiza, pela nona vez, o único evento português do género com reconhecimento internacional. A Cordoaria Nacional acolherá, entre 8 a 17 de Abril, a excelência das antiguidades portuguesas que se pretende ver projectada no mercado internacional. A estima-

tiva de 15 mil visitantes, nacionais e estrangeiros, é indicativa do interesse que as peças em exibição têm suscitado aos presentes em edições anteriores. 29 expositores ocuparão os 1000 metros quadrados cedidos para a ocasião. Esta edição da Bienal dá o seu contributo a uma instituição de acção social. A CERCIESTA – Cooperativa para a Educação e ReabilitaçãodeCriançasInadaptadasde Estarreja receberá, este ano, a totali-

IX Bienal de Antiguidades da APA 8 ABR > 17 ABR Edíficio da Cordoaria Nacional, Avenida da Índia, Lisboa 2ª a 6ª das 18h às 24h, Sáb. e Dom. das 16h às 24h 17 ABR: das 16h às 22h www.apa.pt

dade das receitas obtidas na cerimónia de pré-inauguração do evento, a 7 de Abril. Outro dos acontecimentos desta edição, resultante de uma parceria com o Museu Nacional de Arte Antiga, será “a apresentação, em primeira mão, de uma importante peça da Colecção Castro Pina, a qual estará patente naquele museu de Maio a Setembro”, adianta Manuel Murteira Martins, presidente da APA. ¶ Ana Albuquerque

....... 1600 ......... 1625......... 1650 ......... 1675......... 1700........... 1725 .........1750 . ........1775 ......... 1800....... Santo António

Bule em porcelana chinesa

Cadeiras de braços

Livro Manuscrito

Estátua de Santo António do século XVII em madeira, 104 cm de altura.   Com a habitual indumentária franciscana, esta figura é commumente representada envergando na mão esquerda um livro aberto, sobre o qual repousa o Menino que, por sua vez, tem junto a si uma esfera azul, em representação do mundo. A análise iconográfica fica concluída com a referência à cruz e ao ramo de açucenas que a mão direita do santo eleva.

Reinado Yongzheng, dinastia Qing, c. 1730.

Cadeiras em nogueira e seda, c. 1765, 94 x 70 x 60 cm

Raríssimo bule, em porcelana chinesa de exportação, decorado, em esmaltes opacos da paleta família rosa, com as armas dos Estados Gerais da república da Holanda sobre o monograma VOC, iniciais da Companhia das Índias Holandesa, rodeados pela inscrição "Concordiares Parvae Crescunt 1728". Esta decoração foi copiada de um ducado de prata, cunhado em 1728. Moeda cunhada para ser utilizada pela VOC na Ásia.

Par de cadeiras de braços, em madeira de nogueira trabalhada e estofos de seda da época. Estas duas peças, exemplares do mobiliário do reinado de D. José, provêm da oficina portuguesa, mais concretamente de Lisboa.

Manuscrito sobre papel, com encadernação em couro e fechos em prata. Século XVIII. 35 x 24 cm

Ricardo Hogan Antiguidades Rua Augusto Rosa, 11/13, Lisboa Tel.: 218 875 691 Rua de São Bento, 281, Lisboa Tel.: 213 954 102 hoganricardo@sapo.pt

Companhia das Índias Rua D. Pedro V, 60, 1º Dtº., Lisboa companhiaindias@aol.com www.companhiaindias.com

J. Andrade Antiguidades Rua da Escola Politécnica, 39, Lisboa Tel. 213 424 964 jandrade1@mail.telepac.pt www.jandrade-antiguidades.com

Livro manuscrito, que exibe na sua encadernação as armas de marquês de Pombal. Trata-se de um livro do século XVIII, referente às propriedades do marquês de Pombal na margem sul do Tejo. Antiquário do Chiado Rua Anchieta, 7, Lisboa Tel. 213 465 813 antiquariodochiado@hotmail.com www.antiquariodochiado.com

destaques


l i v r o m a snusc r i to © A l l e r ton P hotog r a ph y , U K .

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entrevista Manuel Murteira Martins presidente da Associação Portuguesa de Antiquários

A Artes & Leilões convidou Manuel Murteira Martins para dois dedos de conversa sobre a IX Bienal de Antiguidades, cuja organização também assume, e que este mês coloca em palco épocas passadas e peças únicas. Quais são as suas expectativas relativamente à nona edição da Bienal de Antiguidades da APA? ......... ......... muito positivas. O nosso1825 optimismo prende-se 1775São 1800........ com a qualidade das peças expostas bem como pelo entusiasmo dos participantes. Todas as peças são previamente aprovadas por comissões de peritos independentes com direito de veto, o que contribui para a reafirmação do lema “Qualidade, Autenticidade e Confiança” e vai ao encontro da apetência de coleccionadores e investidores. A Bienal de Antiguidades da APA é o evento português, no sector das antiguidades, de maior internacionalização, tornando-se num ponto de paragem fundamental dentro do roteiro internacional. Que avaliação faz das edições anteriores? As edições anteriores têm contribuído para consolidar o mercado do sector e mostrar o que de mais importante há no património cultural móvel de Portugal. O número de visitantes nacionais e estrangeiros tem vindo a aumentar em cada bienal, a qual também tem vindo a aumentar a sua área expositiva. O prestígio adquirido tem dado resultado e, pela primeira vez, este ano teremos um expositor não português, uma importante galeria de Barcelona que apresentará, entre outros artistas, Picasso e Miró. Que relevância pode ter para despertar o interesse do público em geral pelas antiguidades? O público português é um público interessado e poderei citar o caso de pessoas que entram na bienal como visitantes e que ali começam as suas colecções, sobretudo um público mais jovem que começa agora a coleccionar. Para nós, tal facto é obviamente muito gratificante. ¶ AA


opinião

↙ Pedro Portugal, Artista-Curador-Espectador, 2011, tinta da china sobre papel, 23 x 30,5 cm

/ pedro portugal

O Curador Os curadores são os verdadeiros especialistas da intermediação entre o boneco que o artista faz e que o público-cretino nunca poderá perceber. Aí entra o curador-super-herói que percebe logo o que o artista não diz e transforma, com grande habilidade técnica, essa obra de arte no que deve ser compreenstetificadado.

Por ocasião de uma exposição com obras de arte pertencentes à colecção X realizada na fundação Y, ao abrigo do programa da Direcção Nacional da Cultura para divulgar património contemporâneo e difundir a colecção X como o exemplo do comportamento que deve ter uma colecção de arte em Portugal, foi realizada uma conferência pelo curador desta exposição: o curador Z. O curador e conferencista Z falaria sobre o tema “Tudo pode ser arte?”. A exposição tinha um nome como “INFORMAÇÃO: OBJECTO: FRICÇÃO” – um daqueles nomes-design-remissivo em que TUDO: PODE SER: MUITA COISA. Cheguei 15 minuntos atrasado. Entrei na sala, estava cheia (ligeiro bruáá...). Usava na altura um bigode à Lech Walesa e trazia uma mochila preta, ténis e calças de fato-de-treino Boss-Orange azuis, casaco de linho Industri cinzento e t-shirt Banana Republic verde-azeitona. Fiquei estupidamente de pé encostado à porta. Z manifestou de imediato enfado pela terceira interrupção da sua apresentação e sugeriu que se fechasse a porta à chave. Revelou, pela primeira vez para mim, que era adjunto do director artístico da colecção X e que vinha aqui para falar de assuntos relacionados com o saber fazer exposições bonitas. Z manifestou impaciência por eu estar de pé (murmúrios e risadas). Foi possível que uma cadeira encravada no canto oposto da sala pudesse ser utilizada, expressando pela minha parte a maçada de interromper novamente a conferência para poder passar e sentar-me. Fiquei sentado à uma hora de Z. Z estava nervoso: a perna direita esteve sempre cruzada sobre a esquerda e era agitada de uma forma rítmica e involuntária. Tinha o cabelo cuidadosamente rebelde e descuidado. Esteve uma hora a falar sobre comissários e curadores de exposições; porque os anos 80 tinham comissários mas agora há uma coisa completamente inovadora e melhor que são os curadores. Os curadores são os verdadeiros especialistas da intermediação entre o boneco que o artista faz e que o público-cretino nunca poderá perceber. Aí entra o curador-super-herói que percebe logo o que o artista não diz e transforma, com grande habilidade técnica, essa obra de arte no que deve ser compreenstetificadado, e depois TCHAMMPFFGGHH! Aparece uma

exposição cheia de intencionalidade bi-autoral e o público entra na exposição de gatas e em deslumbramento pela virtuosidade do curador. Z não conseguiu ocultar comportamentalmente que a sua notável presença estava a ser absolutamente desvalorizada por uma assembleia artisticamente indigente e analfabeta. Percebeu-se que Z não estava natural e que também não era natural todo o interesse daquela assistência. Saberia ele que as funcionárias da fundação Y são obrigadas a comparecer às conferências para garantir quórum? Acharia Z que todos estavam a gostar de ouvi-lo? Havia tensão na sala. O momento de quebra ocorreu a propósito de uma obra do artista K que Z considerava o zénite da antipornografia. Z perguntou se alguém achava possível que uma câmara apontada para uma cena indeferenciada produzisse um resultado passível de ser considerado pornográfico? Como tínhamos sido postos à vontade para falar ou fazer perguntas levantei o dedo e disse: “Eu acho que sim.” Z respondeu peremptório: “Eu acho que não! Mas depois vou explicar porquê.” A partir desse momento comecei a suspeitar que haveria entre mim e Z uma divergência. Era evidente que a obra do artista antiporno K só com grande imaginação e ofício do curador poderia representar substantivamente qualquer tipo de essência ou mesmo qualquer coisa. Z apresentou seguidamente a fábula da diferença entre o comissário e o curador: o comissário espera que o artista faça uns bonecos que depois são organizados com um determinado nexo e depois oferecidos em sacrifício à deusa cadela da arte: o mercado. O curador não. O curador tem uma abordagem xamanística e planificada: a arte existe dentro de um território e não sai desse território. Um curador tem um curso de curadoria artística e não faz arte com arte, que é o que os tontos dos artistas estão eternamente tantalizados a fazer. Faz antes uma coisa muito mais superveniente que é não fazer absolutamente nada e manipular coisas artísticas de uma forma historicamente abstrusa e teoricamente ardilosa. Z estava quase a vencer, mas aconteceu uma coisa que revoltou os presentes: o uso insistente no discurso da palavra “aporia”. A palavra foi usada quatro vezes até que uma das senhoras normais sem interesses particulares que estava na assistência perguntou o que queria dizer. Z peremptório: “Ainda bem que perguntou porque assim temos a chave de tudo o que disse até agora.” A assistência conseguiu manter a calma. Eu achei que ia haver sangue. Mas não. Quando Z terminou não houve palmas. Um silêncio fúnebre acompanhou-nos até ao exterior da fundação Y. Na rua, as pessoas entreolhavam-se como sobreviventes de um desastre de comboio… ¶ Esta obra de Pedro Portugal – Artista-Curador-Espectador, 2011 - no valor de 1.000 euros, será oferecida ao primeiro leitor que adivinhar o nome do curador, da colecção de arte do Porto e da fundação em Évora onde se realiza a exposição, referidos no artigo, através do email: info@arteseleiloes.com.


Artes & Leilões 30  

Portuguese Art Magazine _ APR2011

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