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Sem modos Aprigio Fonseca e Eudes Mota

9 de novembro a 23 de dezembro 2016


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Eudes Mota Cubo/Molde/Cruzada 2016 40x40x40 cm EA37_APG102016


Eudes Mota e Ricardo Aprigio: Das Sagradas Invasões Mundanas 5

Marcelo Coutinho1

1. Dos Círculos Imóveis Após muito andar, pode-se cair exausto de cansaço. Pode haver regozijo neste tipo de queda. Pode haver prazer, mesmo que mórbido, em sucumbir à exaustão, se deixar sepultar por si mesmo, no fundo de si mesmo. Estranho prazer esse de finalmente ceder, abandonar-se, naufragar em si mesmo e não mais oferecer qualquer resistência. Grega melancolia. Melagcholía: mélas, “negro”; cholé, “bílis”. A “Bílis Negra” de Hipócrates e de Aristóteles é um dos humores que compõem a alma. A melancolia gera uma clausura: passa-se a ser cárcere e carcereiro de si. Suspendendo todo fora, aquele que sucumbe sepultado em si, quer assegurar-se de que, assim, protegido do devir, fora do tempo, se manterá na eternidade da identidade, idem a si mesmo. A arte, após muito andar, pode cair exausta de cansaço. Ela pode servir de cárcere e carcereiro para si mesma. E pode ser um esforço inútil de supressão do devir e de apagamento do seu fora. Haveria de se pensar que na recusa de um fora de si, haveria uma mortífera e fatal vaidade. “O mundo não é digno de mim”, “o lado de fora nada me oferece”: diz a melancolia. Não estando o mundo à altura do melancólico, nada mais resta do que a sua anulação, o alijamento desse paupérrimo lado de fora. Tal qual um Narciso afogado, a arte pode se deixar seduzir por si mesma, e sem que se dê conta pode passar a ter como tema suas próprias formas e sua própria história que, como tais, já estão instituídas e por isso nada mais oferecem de vigor. Não há um fora de si para o instituído. Tampouco há um lado de fora para

as instituições, sejam elas quais forem. O instituído e suas instituições são expressão do desejo melancólico de suprimir aquilo que diverge. Pois a diferença é, por natureza, o destituído e a própria destituição. Sem um fora de si, a arte abre mão de sua força irruptiva, de sua potência de destituição, e passa a visar tão somente o “artístico”. O “artístico” é precisamente o cárcere que a arte em sua melancolia narcísica cria para si. Neste cárcere, nada mais é fuga, produção de desvio e colapso. Porém, quando rompe tal imobilidade circular, a arte é a reconstrução de uma situação inaugural de encontro com o mundo. A arte surge como um exercício perene de retorno ao ato adâmico de batizar a criação. Ela é uma das formas de cultivo da verdade. Porém, aqui trata-se de uma outra verdade. Trata-se de des-esquecimento: a alethéia grega. E, consequentemente, torna-se uma forma de nos livrarmos temporariamente da doxa, ou seja, daquilo que o mundo já disse e se mantem inconscientemente dizendo, repetidamente, sobre o próprio mundo.

2. Da Conclamação do Mundo A força inaugural das vanguardas históricas ainda vibra. Mesmo que a melancolia pós-moderna tenha procurado a todo custo drenar seu vigor, transformando sua força a-gramatical, seu vigor entrópico de desmanche dos sistemas simbólicos em produto. Mesmo que tenha procurado reduzir a arte ao seu cárcere artístico, há de se pensar que, apesar de tudo, o miolo das vanguardas escapou. Seu miolo é o apagamento da fronteira entre a arte e a vida. 1 Marcelo Coutinho é artista e professor do Programa de Pós Graduação em Artes Visuais da UFPE/UFPB.


O que sobrou das vanguardas históricas foi a vida que, invadida, surgia e se enramava por entre o labor cuidadoso de uma obra. Por entre estas obras, surge um clamor, uma conclamação. Elas indicavam uma aproximação entre arte e vida de uma forma que Duchamp provavelmente não previu. O que se vê ali nunca foi a morte da arte ou a dissolução total da obra como Alan Kaprow e tantos outros preconizaram. O que se vê ali é seu renascimento para além da própria arte. O ready-made duchampiano e suas extensões na forma de um conceito como “infraleve”, definitivamente não promoveram qualquer “desestetização” ou “antiarte” como sugeriam críticos como Harold Rosemberg ou Allen Leepa2 .

Este renascimento para mim é uma espécie de poder de transubstanciação. Um par de botas não é mais um par de botas. Uma pedra não é mais uma pedra. Uma mão que segura outra mão para logo mais largá-la não é mais um mero cumprimento cordial. Uma qualidade invisível, imanente às coisas, passa a se mostrar. E dali, daquele surpreendente vigor que tudo lentamente assume, é possível ver uma espécie de tensão dramática que vai muito além da arte.

3. Da Geometria Rachada O que Eudes Mota vem construindo, ao passo lento e concentrado de várias décadas, é um peculiar desvio do projeto construtivo. Projeto este do qual ele foi herdeiro direto, junto com grande parte dos artistas brasileiros dos anos 50 e 60 do século XX. Sabemos do ambicioso programa deste projeto. Foi o construtivismo que radicalmente preconizou uma arte despida de subjetividade e um repertório visual reduzido à princípios universais. Definiu o homem, suas cidades,

2 BATTCOCK, Gregory. A Nova Arte. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1975.

suas casas e a sua arte como sendo o oposto negativo da natureza e dela, da natureza, teceu uma imagem verdadeiramente aversiva. O mundo, para o projeto construtivo deveria ficar do lado de fora. Porém, há décadas Eudes Mota dinamita os trilhos desta nobre tradição. E faz descarrilhar este pesado trem. Ele manterá o suporte quadrado restrito à parede, espaço este que a cultura ocidental construiu e destinou ao próprio ato de ver e à profundidade sensível deste olhar. Se Eudes mantém esta janela esguia ela surgirá, queirase ou não, como ironia e reflexão metalinguística. Neste espaço não será exibida quaisquer transcendentais. Tampouco será uma extática fruição promovida pelos universais geométricos da forma pura. O que Eudes Mota promove será, antes, a exibição de uma queda. Uma queda no mundo e no mundano. Eudes prioriza a apropriação cuidadosa de relações geométricas presentes nas formas que nos cercam e que compõem o sistema de imagens contemporâneo. Todos são, aliás, ícones da cultura de massa. Um dia foram códigos de barra que, através de Eudes, tornaram-se lápides e réquiem para os grandes nomes da história da arte que dedicaram suas vidas ao delirante racionalismo concreto geométrico. Em outro momento foram palavras cruzadas e tablados de tiro ao alvo, cubos mágicos e páginas de classificados dos jornais pernambucanos. Em todos estes casos o trem não anda nos trilhos, o desastre é iminente e o espólio da herança construtiva é queimado. Em todos eles a banalidade do mundo se apresenta livrando a imagem geométrica de sua clausura autorreferente.

4. Dos Dispositivos de Desesquecimento Há entre o hay kay, o ready-made, a fotografia e o filme um fio de prata que os une em um coeso deslizar. Todos surgem como pequena porção de uma vastidão incontida que, conclamada a habitar o espaço exíguo da palavra, da


imagem ou da coisa, mostra-se como aquilo cuja natureza é o que excede. Percebe-se que em um hay kay habita uma vastidão incabível. Assim como numa fotografia pode habitar “um clarão de verdade no real”, como diz Robert Bresson3. Bresson refere-se a uma verdade que pouco pode interessar às urgências inúteis do mundo contemporâneo. E o melhor exemplo desta verdade é a fotografia “Winter Sunrise”, de Ansel Adams, retirada em 1944 em Sierra Nevada, EUA.

As sombras projetadas no chão tão pisado das ruas constrói aquilo que Ricardo chama de “geometrias efêmeras”. Desde a série “Das Calçadas de Olinda”, esta fotografia tridimensional, série de moldes feitos do chão (concebidos em parceria com seu irmão Frederico), o que fez Ricardo Aprigio foi construir esse continente onde pedaços do mundo possam restar. O quadrado do molde-tela, a captura do instante fotográfico, o sequestro do instante póético nos hay kays que Ricardo vez por outra publica: trata-se de dispositivos de desesquecimento.

Após uma espera de quatro dias no campo, o fotógrafo encontra uma luz clara que vaza por entre as nuvens que recobrem a escuridão mineral da cordilheira. Neste momento, um cavalo surge desavisadamente no pasto e oferece seu perfil à câmara. Diz Adams: “algumas vezes acho que vou para lugares exatamente quando Deus precisa de alguém para acionar o obturador”4.

É possível vislumbrar em suas obras a voz do antropólogo Mircea Eliade: toda cultura humana constrói “descontinuidades” no espaço e no tempo. A descontinuidade do espaço e do tempo seria a passagem do caos para o cosmos, do profano para o sagrado. Em poucas palavras, a passagem do não-sentido para o sentido5 .

É bem esta operação que se deixa ver na obra de Ricardo Aprigio. A entrada da vida, a captura de um fragmento de verdade que, ao ser pinçado, parece despir a vida de sua banalidade e revesti-la de vasta majestade. As fotografias de Ricardo Aprígio seguem este mesmo princípio e servem como força de desocultamento de uma presença. A presença forte da condição efêmera que constitui a nós e a todos os nossos ambientes é desocultada em uma série de fotografias cujo título é “aura”.

Agora surgem por Eudes e Ricardo estas linhas sobrepostas dos moldes de corte e costura. Mistura de carta celeste ou de cartografia marítima ilegíveis, de planta caótica de vias urbanas, as linhas aqui enquadradas no quadrado de uma tela ou mesmo impressas no próprio tecido encontram solo na imanência da atividade pouco visível e valorizada de costureiros e costureiras.

A série “Aura” sequestra paredes brancas nas quais se vê as marcas igualmente brancas deixadas por quadros que um dia ali foram fixados. O branco sobre branco indica um apagamento, o sumiço de um ambiente que um dia animou, emprestou seiva àquele ambiente.

3 BRESSON, Robert. apud. Jacques Aumont. A Teoria dos Cineastas. Ed. Papirus. Campinas. p. 17. 4 ADAMS, Ansel. apud. Ana Elyzabeth Araujo Farache. Fotografia e Contemplação: Amorosidade do Olhar no Contemporâneo. Tese de Doutorado. Programa de Pós Graduação em Comunicação, UFPE. Recife, 2013. p.70

É certo que o mundo tende a cochilar e é arrebatado num sono profundo, num cataléptico adormecimento, quando se deixa levar e conduzir pelo que já se disse sobre o mundo. Como disse, o adormecimento melancólico ao qual docemente nos submetemos, nos torna cegos para toda a pujança rebentadora que o mundo está oferecendo, com sua face estrangeira, a todo o momento. Ver após tanto tempo e persistência os caminhos tomados pelas obras de Eudes Mota e Ricardo Aprígio é uma forma delicada de desadormecer. 5 ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. Lisboa: Livros do Brasil, s/d


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Aprigio Fonseca Molde Óleo s/papel 2016 29x20,5cm

Aprigio Fonseca Molde Óleo s/papel 2016 29x20,5cm

Aprigio Fonseca Molde Óleo s/papel 2016 29x20,5cm

Aprigio Fonseca Molde Óleo e colagem s/papel 2016 29x20,5cm

EA02_APG102016

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Aprigio Fonseca Molde Óleo s/papel 2016 29x20,5cm

Aprigio Fonseca Molde Óleo e colagem s/papel 2016 29x20,5cm

Aprigio Fonseca Molde Acrílica s/papel 2016 29x20,5cm

Aprigio Fonseca Molde Óleo s/papel 2016 29x20,5cm

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Aprigio Fonseca Molde molenga ImpressĂŁo em tecido 1991-2016 EA27_APG102016


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Aprigio Fonseca Molde molenga ImpressĂŁo em tecido 1991-2016

Aprigio Fonseca Molde molenga ImpressĂŁo em tecido 1991-2016

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EA30_APG102016


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Aprigio Fonseca Colarinho tecido impresso e costurado 1991-2016 EA26_APG102016


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Aprigio Fonseca Tatuagem fotografia 1991-2016 EA31_APG102016


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Aprigio Fonseca Molde Acrílica s/ papel 1991 54x80cm

Aprigio Fonseca Molde Acrílica s/ papel 1991 60x104cm

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Eudes Mota Molde (11) Guache s/ papel 2016 54x80cm

Aprigio Fonseca Molde ร“leo de linhaรงa s/papel 1991 60x104cm

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EA34_APG102016


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Aprigio Fonseca Molde Acrílica s/papel 1991 54x80cm

Aprigio Fonseca Molde Acrílica s/papel 1991 54x80cm

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EA32_APG102016


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Aprigio Fonseca Molde Acrílica s/ papel 1991 104x60cm

Aprigio Fonseca Molde Lápis de cera s/ papel 1991 60x104cm

EA25_APG102016

EA33_APG102016


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Eudes Mota Molde (04) Impressão sobre vidro 2016 30x45cm EA14_APG102016

Eudes Mota Molde (05) Impressão sobre vidro 2016 30x45cm EA15_APG102016

Eudes Mota Molde (06) Impressão sobre vidro 2016 30x45cm EA16_APG102016


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Eudes Mota Molde (09) Impressão sobre vidro 2016 30x45cm EA19_APG102016

Eudes Mota Molde (10) Impressão sobre vidro 2016 30x45cm EA20_APG102016

Eudes Mota Molde (07) Impressão sobre vidro 2016 30x45cm EA17_APG102016


Eudes Mota Molde (02) Impressão sobre vidro 2016 40x40cm

Eudes Mota Molde (01) impressão sobre vidro 2016 40x40cm

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EA11_APG102016

Eudes Mota Molde (03) Impressão sobre vidro 2016 40x40cm EA13_APG102016


Eudes Mota Molde (12) Colagem s/ papel 2016 50x50cm EA22_APG102016

Eudes Mota Molde (13) Colagem s/ papel 2016 50x50cm

Eudes Mota Molde (08) ImpressĂŁo s/ acrĂ­lico 2016 36x36cm

EA21_APG102016

EA18_APG102016


Artistas

Aprigio Fonseca e Eudes Mota Curadoria

Marcelo Coutinho Fotografia das Obras

Gustavo Bettini Tratamento de Imagem

ATELIER DE IMPRESSÃO www.atelierdeimpressao.com.br

Projeto Gráfico e Diagramação

Letz Design www.letzdesign.com.br

Apoio


Rua da Moeda, 140, Bairro do Recife Recife, PE, Cep 50030 - 040, Tel 81 3424 4431 www.artepluralgaleria.com.br

Profile for Arte Plural Galeria

Eudes Mota e Aprígio Fonseca – SEM MODOS  

Catálogo da exposição SEM MODOS de Eudes Mota e Aprigio Fonseca na Arte Plural Galeria em Nov de 2016

Eudes Mota e Aprígio Fonseca – SEM MODOS  

Catálogo da exposição SEM MODOS de Eudes Mota e Aprigio Fonseca na Arte Plural Galeria em Nov de 2016

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