Issuu on Google+

Q

o e uador das co isas jornal de literatura e art e

Ilustração baseada em foto do Museu da Língua Portuguesa, Estação da Luz, São Paulo | Exposição Guimarães Rosa, 2006

Chapada Diamantina, Bahia, Brasil | março de 2012 | número 1 | ano 1

LETRASMUI TASGRANDE SEMIÚDASC RONICANDO SONHOSELE ITURASCON TOSPOEMAS PALAVRASE MTRAVESSU RASREFAZE NDOARTEEL ITERATURA CONTO

POESIA

CRÔNICA

f(r)icções | sombreando ditos desencaixotando | em olhares

LINGUAGE(NS)

RESENHA entrando | bosque releituras

rômulo martins lisa alves

alecrim

cida mello ● jacqueline collodo ●

SCRIPTUM

brincando de fazer um quê | palavra exercitando sentidos letras, leitura | lundu, literatura

josé inácio vieira de melo

paulo sousa

poetizando | as flores do asfalto versando lá | poetas também cá

flávia amaro

leonardo valesi

lorena nogueira

germano xavier

mateus dourado

dauri batisti carol piva

sinvaldo júnior

suzana durães

karime limon

uianatan

juraci dórea


e Q

2

O EQUADOR DAS COISAS — N. 1, ANO 1, MAR. 2012

editorial

SCRIPTUM letras, leitura | lundu, literatura

Germano Xavier

Nunca se leu tanto no Brasil, isto é um fato. De acordo com a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE/USP), o crescimento na venda de livros vem

SOBRE AS CONDIÇÕES DE VIDA DE UM ESCRITOR-OPERÁRIO por Lisa Alves

crescendo vertiginosamente ano a ano. De 2009 para 2010, esta taxa foi de 13%, o que já é bastante considerável, tomando a dimensão de nosso país. Dados da

Grita-se ao poeta:

pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2008, revelam

Queria te ver numa

que o brasileiro já lê cerca de 4,7 livros por ano, supe-

fábrica!

rando o índice de 1,8 do início da primeira década do

O quê? Versos?

século XXI.

Pura bobagem! Para trabalhar não tens coragem

Mas... o que estamos lendo? Maior oferta de livros e mais leitores não significa, obviamente, que estamos

(...)

lendo bons livros. A maior parte dos leitores brasilei-

Nós polimos as almas

ros ainda está presa à leitura de livros de autoajuda,

Com a lixa do verso.

livros religiosos ou best-sellers vendidos em revistas

Quem vale mais:

de cosméticos. Poucos são os que leem textos mais

o poeta ou o técnico que produz

densos, concentrados de ficção ou não ficção com es-

comodidades?

sências menos comerciais. Poesia, nem se fala, contam-se nos dedos os seus leitores fiéis. A coisa descam-

Aleksandr Ródtchenko, Fire Escape, with a man | Escada de incêndio, 1925, Moscow House of Photography Museum

Maiakovski, "O poetaoperário", 1918

ba para um lado ainda mais negativo quando fazemos este tipo de análise no Nordeste brasileiro, apesar de já se notar aqui um grande avanço. É tentando mudar um pouco este quadro que o JORNAL DE LITERATURA E ARTE | O EQUADOR

DAS

COISAS se anuncia a partir

desta primeira edição nas veredas desta Chapada Diamantina, Bahia, Brasil, Mundo. A proposta não tem fins lucrativos, e a renda adquirida através de pessoas e empresas que se interessarem em apoiar o jornal será destinada à realização de ações socioculturais na cidade de Iraquara-BA. Publicaremos textos e outras manifestações artísticas de autores de todo país e também de outras partes do mundo, em diversos formatos, tentando colocar o leitor em contato com produções de respeitável qualidade. Esperamos que você, leitor, leia cada vez mais e, o mais importante – leia cada vez melhor. Boa leitura e até a segunda edição!

Q

o e uador das co isas jornal de literatura e art e

www.oequadordascoisas.blogspot.com

Um escritor-operário se encontra oito horas por dia na fábrica, embala doces e gasta suas solas de sapato no trajeto de ida e volta para casa. Um escritor-operário acorda às cinco horas da manhã (para não perder o ônibus), chega ao escritório de advocacia, oferece ao chefe a sua cabeça e o resto do corpo para todo o tipo de tarefa; não deixando de fora a mais repugnante, a mais injusta e a mais ilícita. Um escritor-operário está há cinco horas em uma fila de desempregados no Rio de Janeiro, leu num noticiário em que havia vinte vagas para garis. Um escritor-operário passou em um concurso público e conseguiu uma vaga para carcereiro na Penitenciária Estadual de Belo Horizonte. Um escritor-operário foi assassinado, não se sabe por quem nem por causa de quê: o povo comenta que o mesmo era líder de um movimento revolucionário que tinha publicado, semana passada, manifesto contra o aumento na taxa da conta de telefone. Uma escritora-operária teve os dedos da mão direita decepados em uma máquina moedora de carne, foi ressarcida do prejuízo pelo dono do açougue, que se comprometeu, após o expediente, a digitar seus poemas na máquina velha, ali, nos fundos do estabelecimento. Fim de expediente, todos os escritores-operários retornam aos seus lares. E, em suas residências, esquecem a vida de operariado que vivem na metade do dia, iniciando, assim, suas vidas de Criadores.

idealização e coordenação editorial Germano Xavier (DRT BA 3647) projeto gráfico e diagramação Carolina B. Piva

Fundado em março de 2012 | Edição finalizada em 25 fev. 2012 Impressão Tecgraf | Seabra-BA Tiragem 1.000 exemplares

editores Germano Xavier (Bahia, Brasil) Carolina B. Piva (Minas Gerais, Brasil) Karime Limon (Califórnia, Estados Unidos)

textos críticas sugestões germanoxavier@hotmail.com O Jornal de Literatura e Arte | O Equador das Coisas não se responsabiliza pelo conteúdo dos textos enviados pelos colaboradores e publicados nestas páginas.


e Q

3

O PRIMEIRO JORNAL DE LITERATURA E ARTE DA CHAPADA DIAMANTINA

Carolina B. Piva

BRINCANDO DE FAZER UM QUÊ palavra exercitando sentidos

Penso, em tantos, que a gente deve pôr tino-além nas coisas pra que, de amiudadas dentro ou feitas quase sempre desimportantes (na peleja pra que a gente cisme discrasias pra gente), elas enfim, coisas e por sim tudos, possam transbordar nós-todos, sem aquela mesquinhez de dever isso ou aquiloutro pra quem quer, ou qual quer – o tal "estado-gramatiquice" titilando... Digo assim das palavras. E, tão-mais, de uma certa senhorita S., em flor mais-que-impura, que pode vir sempre ela, a Significância, pululando pralém, e por detrás deles todos, os palavrescos com que a gente se faz sentir (no) mundo, ou pelo menos devia – sempre mais. Pois ora: significar vem mãos-juntando – significâncias que até a gente às vezes duvida. Significar passa correndo, pra num zás!, gesto atravessador – e daí pertinho de um quê em mais: representar. E psiu-ó, tem mesmo que enviesar implicância neste caso, desconfiar sentidos e significados-antes. Senão que falha isso de a gente escapulir – versões. Pras palavras mas também pra gente, pra um de tudo com e cercando a gente. Significar convida a uns quais de representar e, dali a pouco, a ficcionar – o mais gostoso encafifamento brincando um quê com as palavras... É nisso que vejo algum arrazoado, ainda que travesso, pra vir aqui na conversação das palavras pra nós todos, vice-versando... E enfim – os tais ficcionismos que começo a escapulir por cá... Toc-toc-toc – pois sim? O de então é que...

O CARRO MISANTROPO Descobri, dia desses, uma palavra. Fui esbarrando nela. Nada de menos. Nem excessividades com que se pretenda, por duvidoso, qual sentido-além. E de boniteza, mesmo que não era e não sendo nunca talvez. Ainda que abocanhando a gente em convidações até elegantosas – a tal palavra. Mas quê! Sins e vãos, enfim vejamos... Penso que vinha andando pela cidade. Mas qual? Sem delongas, uma dessas em que um possível compromisso sempre esbarra a gente pra uma qualquer não rotina. Tenho dito – rascunho em ata! Dessas em que se acorda mesmo proparoxítono, já cheirando à fumaça das tantas náuseas-rua. Montanhas e casarões de olhar dentro. Por certo imaginativamente, que vá sendo! Assim mesmo, com menos ou mais coerência. E então – o episódio. Eu via os carros atravessando as pessoas, dando pouca importância pro que elas transpiravam em frenesi ou em calmaria. Aquele desespero muito nosso, ora no derramamento-ímpeto, ora que então mais, gotejando os todos fracassos alternadamente dentro. Os pés – variando. Mas andando. Como vem tendo que ser pra gente todo-mundo-mesmo. Os carros, ah eles, sempre eles! Com sua própria misantropia. E existe isso? Carro misantropo? Pois ora se não! Difícil esquecer o que um muito compositor nosso, maldito-vírgula!, já dizia deles: movidos a gás de cozinha, água e óleo. Portanto, ora se não eles quase gente? Mas desligados do de querer aproximação amigável com a gente – isso num de fato. Porque carro assim só pensa nele mesmo. E desanda a pôr em prática todos os recursos possíveis pra despropositar a gente. Eis também que "movidos", alimentícios de beiradas e mantimentos nossos, de nós humanos. E numa pretensiosidade qual, vontadeando dizer da gente! Em compensação, distantes, os carros misantropos, aversivos, no seu canto, fazendo do seu jeito. Ah pois que querendo os nossos tais alimentícios, isso sim! Água, óleo, gás de cozinha. E – minhanossa!, Eureka, Eurico – detritos, bagulhos, restos, dejetos... Como se pra um sendo a gente... Pois enfim que malsino o dito. É preciso dizer da tal palavra. Uma danação em dobro – isso. Que é quando a gente desconhece um sentido que vem junto com uma palavra, também desconhecida. E então que ela, a tal palavra, parece desconhecer da gente. E pode coisa dessas?, palavra ser versada ou ignorante da gente? Pode. Mas aí complica tudo porque nem mesmo no arredondado da forma palavresca a gente põe de fato algum tino – que seja este ou outro-aquele. Um descabimento – isso de a gente desconhecer a tal palavra e ela também negligenciar a gente. A tal da reciprocidade. E, claro, da complexidade. É o que mais judia. Não só isso, o seu complexismo que a gente desentranha porque desconhece, mas – no principal – a própria palavra desencontrar um de dentro das pessoas, até que – kaboom! Ela então debocha da gente. Ridiculariza e intimida a gente. Faz canto invisível de olho nosso, tão acostumado ao de comer-escasso na vida, parar por um momento que seja e – que danação essa tal de vivência! Tem mesmo que ser no jeito este?

O certo é que, com ou sem o vexamento do propício, ou do impróprio, não há como fazer desabrochar a tal palavra desconhecida na gente, senão experimentando ela. Ou presenciando o de amedrontar cotidiano dela. Era o que eu ia contando... Atroador. Foi como eu senti o último suspiro de vida indignificadaali daquela mulher que, num zás, foi no encontro descabido daquele carro elegantíssimo, portanto alimenticíssimo de uma semqualquer semelhante da gente. Não houve grito. Gemer – a mulher não gemia. Mas o semblante com que ela caiu espatifada no asfalto quente daquela tarde foi atroador. Não teve tempo sequer de dizer "Foi bom enquanto durou, péssimos dias todos esses de residuamento". Não, ela não teve tempo disso, nem daquilo, nem-tão-muito de si mesma. Caiu desconsertada no chão. Resignada, jeito melhor não lhe cabia. Porque horrível mais que isso não podia ter sido. Ela e os seus todos óleos, sua água, seu muito provável gás de cozinha – estirados ali, restos-dejetos agora, no chão da cidade. Na verdade, foi ele, foi o carro que encontrou ela. O pacotinho de pão francês que a tal dona carregava numa compostura admirável, e num comportamento absurdo de ir ter que dali correr pra alimentar os seus, era o que parecia, aquele pacotinho com o comer do dia dela, o alimentício dela – ele voou pra longe. Assim como o fragilizado corpinho da dona. Era miúda a moça. Dessas que a gente nem sabe direito como vai parando em pé. Mas param, ela parava. Tanto que estava ali, dando rumo por certo às avessas na vida... Desceu do carro o dono dele. À imagem e semelhança da misantropia do próprio carro dele. Olhou pra mulher, ali estirada, sem reação porque esfriando já no quente do asfalto-encalorando todo mundo naquele dia que não lembro mais se era. O homem. Ou o carro? De quem a culpa? Penso que primeiro do carro – um misantropo! E primeiro também do homem. Mas ele, na verdade os dois, porque mesmo parecendo indissociáveis – carro e homem –, pensaram que culpa tinha sido da mulher. E então esbravejaram que mulher-aquilo – a culpa ficou sendo dela. Plateia. Tiveram. Não houve simulação de desespero. De perturbação? Compadecer – não compadeciam. A mulher ali – estirada. Os transeuntes ali – curiosos. O carro-homem ali – preocupado com seus mil negócios atrasados por conta daquele impedimento, o corpinho já sem vida da mulher lançada longe dela. Com muito custo, esperou, ia dizendo, esperaram, o carro e o homem, chegar a ambulância que levaria a tal mulher de gesto atroador pro hospital, ou pra despejo qualquer de corpo já espatifado-dela. O carro-homem estava na espera só disso. Quando o condutor do corpo enfim chegou, o homem-carro pois que foi mesmo dizendo assim, que era pra poupar cerimônias: "Ê mania besta essa de gente ter que andar pela cidade. Só podia dar nisso!" Misantropos – eles? Só isso mesmo? Penso que também atroador o olhar sinistro do carro-homem. Porque, no de sincero, deu desespero desesperado ali em desvario meu naquele dia-gesto. Misantropo e execrando misantropias da gente pra ele, o tal carro-homem...


e Q

4

O EQUADOR DAS COISAS — N. 1, ANO 1, MAR. 2012

as flores do asfalto

P O E T I Z A N D O

CANTO TERRA, CANTO BRASIL – A POESIA DE JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO Nesta edição, O Equador das O poeta fotografado por Ricardo Prado Coisas traz homenagem mais-que-merecida ao poeta e jornalista José Inácio Vieira de Melo, alagoano radicado em terras baianas. Poesia dele fica inteira tremulando na gente, como se dali a pouco tomando inteira conta da gente – pelas imaginaturas boas que ensejam e a que nos convidam sempre, pelo cantado em lindezas dos versos, pelo fino trato que o poeta tem com a linguagem. Vêm aqui – poemas dele – com ilustrações especiais feitas por Juraci Dórea, outro dos nossos grandes das artes que aqui também homenageamos...

aurora A liberdade do crepúsculo tremula. Escuto o alarido dos pássaros do Sertão. Debruço-me no ninho do Cosmo. Minhas mãos trabalham no vazio. Minhas mãos trabalham na imensidão. Longa batalha em busca da beleza.

sou rio por Lorena Nogueira

Com você eu sempre sou um rio Com você eu sempre sou Com você eu sempre fluo Sempre sorrio... em seu rio Sorrio Um rio

opostos Eu quero a Terra Você quer o Ar. Eu quero dormir Você, acordar. Eu quero bom sexo Você, namorar. Eu quero diálogo Você quer calar.

Contemplo a mansidão do silêncio que voa. As minhas sandálias são feitas de aurora.

Eu quero cultura Você quer jogar.

Acima, Aurora e, ao lado, Gênese. Ambas as ilustrações foram feitas pelo artista Juraci Dórea, especialmente para os poemas de José Inácio

gênese

Ah, moça, tu estás no centro da Rosa dos Ventos, pra onde deres o passo é caminho o que há. A gente olha pra cima e não vê limite: é tudo um azulão que não acaba mais. Mas basta dar meio-dia, o limite aparece, e não é longe não: bem na boca do estômago. Sabe, vou te dar um chapéu do tamanho do céu, que é pra te proteger dos devaneios solares e pra que todos te percebam e apontem para ti: “olha lá a moça que sombreia o mundo”. E todos vão te olhar e todos vão te aplaudir e o arco-íris vai ficar preto-e-branco de inveja. Aí, um passarinho, desses bem miudinhos que trazem uma sanfona de cento e vinte no peito, vai aparecer e assobiar uma cantiga doce: e a gente, espiando bem dentro dos olhos, começa a sentir um monte de estrelas pipocar. É isso, quando te encontrei, nasci.

... e quando digo por Dauri Batisti

Sou infeliz. Mas posso dizer, escuta: sou feliz. E quando digo sou feliz, sou feliz

Eu quero saúde Você quer fumar. Eu quero viver Você quer sonhar. Eu quero ser livre Você, dominar.

poesia

Não aquela resposta exata, matemática. A verdade que tua chegada me trouxe foi a das abelhas zunindo no romper da aurora em busca do mel das flores das algarobeiras, foi a dos cavalos galopando na boca da noite sonhando com touceiras de capim e éguas luzidias.

Numerário tem o timo Repetidamente Pra fazer interstício No jeito que insisto rever Ao rumo quando caio esquecido Exausto a vez do caminho Desistir isso aonde esburaco Um mesmo sentido eu-dividido

Eu quero poesia Você quer fofocar.

por Flávia Amaro

Sabe, moça da encruzilhada, quando te encontrei foi um assombro. Tu trazias estampada no semblante a indagação que me acompanha. O mais espantoso é que também eras a resposta que sempre busquei.

por Leonardo Valesi

por Suzana Durães

Da boca dos pássaros, os violões do Sol. Rezo benditos e grito os nomes da Terra.

De meus dedos esplendem labirintos. Meu caminho é o strip-tease da solidão.

dióico

Sou infeliz pois há muita coisa ruim por ali no mundo e por aqui em mim. Mas posso dizer, escuta: sou feliz. E quando digo sou feliz, sou feliz. Sou infeliz pois não sei bem ainda ser feliz. Mas posso dizer, escuta: sou feliz. E quando digo sou feliz estou compondo um poema que nenhum infeliz sabe compor.

faço versos sem nexo para além da rima o conteúdo tampouco importa somente as palavras procuram a heresia hipocrisia de uma alma cansada melodrama melancolia

rumos por Jacqueline Collodo Gomes

E sob um tronco de carvalho fecho um outro dia. Gramas irmãs compartilham a vista chamam a madrugada estendem toalha de luzes que atraem o amanhecer. E consolo-me, a saber, pela música do vento empurrando nuvens derrubando tintas no céu que você sofre a minha falta tanto quanto eu a sua. E sob um tronco de carvalho eu te amo como você me ama aí, sob este tronco de carvalho esta fôrma tão única. E sob um tronco de carvalho eu lanço os teus detalhes ao céu. Como você faz com os meus.


e Q

5

O PRIMEIRO JORNAL DE LITERATURA E ARTE DA CHAPADA DIAMANTINA

VERSANDO LÁ | VERSING FAR

Karime Limon

poetas também cá | poets also nearby

O nosso versando lá-cá inaugura-se todo ele em lindezas. Os poemas aqui trazidos à cena são de Karime Limon, poeta estadunidense nascida em Los Angeles, Califórnia. Dão na gente – os versos dela – um muito de com que se repimpar leitor e poetar também. É que Karime, tanto quanto lembrando a ótica do poetizar de uma grande outra poeta, Emily Dickinson, com seu marcante "I dwell in Possibility", pois então que a nossa aqui poeta escreve e vive e versa também no limite da possibilidade, abrindo-se inteira aos vãos para os quais transbordamentos-rios. E escreve com a leveza e a generosidade de quem convida. Seus poemas se desapropriam da instituição "poesia pra (se) consagrar" e se revestem de um marcadamente "livre" – livre em estética que acolhe, livre em ressonância que atravessa e põe (dis)curso, livre também em palavras que se lançam rio, que transbordam duplamente concretude e belezaalém, pois que em um eterno e generoso "para lá e para cá". Apresentar poeta de grandeza tal não é tarefa fácil. Necessária, muito propriamente, ainda que me parecendo sempre insuficiente, a não ser que ela mesma, em poetar dela, se anuncie entre e com a gente. Eis a nossa propositura. Os três poemas aqui publicados em letras originais da poeta foram também, e mãos-dadas com ela, por mim relidos em língua nossa – brasileira. Eles dizem muito do fazer literário desta artista que, de agora em diante, assume, de San Diego, esta coluna de poesia no nosso O Equador das Coisas. Karime é autora do livro Hologram, publicado em 2011 nos Estados Unidos. Não raras vezes, ao conversarmos sobre poesia, ela – nunca feita naquela desarrazoada presunção artística, que aporrinha em bastantes a gente, né? –, e então ela em dito sublime, transbordante: "Ah, o que eu escrevo não é meu só; tudo ali, antes de mim, para além de mim. Meus poemas são mesmo como um rio de conhecimentos e sentimentos, que eu acolho e vou nutrindo e, enfim, devolvendo à sua fonte, para transbordar em nós". É com honra imensa que O Equador te recebe, Karime! E aos leitores, convite mais-que-convidando para um deliciar-se poesia...

I sometimes feel empty, a vessel devoid of thought, inspirations, aspirations it is then when I am most ready to receive I let the Universe cascade over me until I am full I pour it back into the river back to the source

te

I can't tell you "I am a writer" because I just "write" things I can't tell you "I am an artist" because Art is simply "being" I can't tell you "I am creative" because all that exists under the sun was there, before me A poesia de Karime: Hologram, 2011. Dois dos aqui-poemas estão no livro e o outro é inédito. Os versos-cá: traduzidos por Carolina B. Piva. www.lulu.com karimehologram.blogspot.com www.facebook.com/reflecting.hologram

it is wrong of me to say, "you are unlike any other"

um engano, quando eu também – "você, sem igual"

organic matter cannot be recycled, exploding cells dissolve into the soil and nurture new life

a matéria orgânica não se recicla, células estrondam no solo, se dissolvendo e então nutrindo reexistem

you will become as all the others in the ground, in the air uniquely irreplaceable

não posso dizer não posso dizer "sou escritora" – tão-só "escrevo" não posso dizer "sou artista" – arte é simplesmente "ser" não posso dizer "sou criativa" – nada de novo sob o sol tudo senão lá, antes de mim

em engano você, quando diz – "você, substituível"

você, que será incorporado como todos os outros ao chão ao ar único insubstituível

me sinto às vezes sem, nau sem (dis)curso, inspirações, aspirações

o

e eis que assim, sem, eu pronta em vazios para acolher, deixo o Universo fluir sobre mim e me transbordar devolvo ao rio seu curso outra vez, fonte e o ciclo enfim transborda recomeça

i

r

ll y I c ou an ’t

and the cycle goes round again

it is wrong of you to say, "you are replaceable"

quer um corpo qual

o

the river

anybody any body


e Q

6

O EQUADOR DAS COISAS — N. 1, ANO 1, MAR. 2012

HOMEM URBANO por Paulo Sousa

sombreando ditos

F (R) I C Ç Õ E S

A rotina quase nunca é diferente: o mostrador luminoso do despertador anuncia uma nova manhã; o desjejum composto por pão, queijo, café e torradas; tudo era sorvido em grandes bocados, juntamente com as notícias recentes do Diário Matinal. Antes de sair, um rápido check-up na maleta: agenda, o iPad 2 recentemente adquirido depois de enfrentar uma longa fila na Apple Store, papéis tratando de negócios rentáveis; consulta ao relógio de pulso Calvin Klein: oito e meia; logo ao deixar a garagem do prédio, duas quadras adiante, o primeiro grande desafio do dia: outro engarrafamento; momentos assim só mesmo suportados com música ambiente… Sintoniza várias estações até parar em uma que toca uma música conhecida; o stress do início do dia logo se transforma numa saudade latente que se desprende do seu peito…

Quase duas horas e meia depois, enfim, o escritório; as mesmas banalidades são ditas aos colegas de firma; a mesa à sua espera abarrotada de papéis: malditos problemas impressos. Senta-se na sua confortável poltrona Nashville, liga o pc, checa e-mails, na maioria tratando sobre indigeríveis propagandas. Conecta o fone de ouvido no iPhone; uma faixa é selecionada, Enya, seja bem-vinda… Findo o dia, uma rápida passada no Bar do Tony para um chopp gelado; é onde pode deixar seus olhos vagarem pelas distantes luzes da avenida Campos Sá. Enfim, casa. Checa a secretária eletrônica; tio Werther mais uma vez prometendo uma visita no fim de semana; um banho gelado vai cair bem; depois, talvez, um bom livro, acompanhado de uma taça de Don Arturo tinto. Uma rápida olhadela pela estante de carvalho apinhada de volumes, retira um; confere o título: Tarde da sua ausência, do Cony. Pequeno grande livro, pensa. Não é o título nem a história que lhe chamam a atenção, mas a dedicatória, logo na primeira página, escrita em vermelho, numa caligrafia conhecida e que o faz sentir saudade: "Ao mais que amado Pablo. L". De repente, tudo é ruína e lágrimas.

AOS APOIADORES, AGRADECEMOS IMENSO!

www.revistamacondo.wordpress.com

R. José Alves de Almeida, 96 - Ed. Estado de SP, Centro Tel.: (75) 3364-2226 / (75) 9921-1485 - Iraquara-BA

AS MENINAS DO BAIRRO por Uianatam Alecrim

Eram duas, lindas! Fixava o olhar de qualquer homem que nascera com o cu meio que virado para a Lua romântica a mais nova, a Catharine Villas Sousa de Almeida. Ela usava aquele jeito macio no olhar, o de pessoas compreensíveis que amavam a tudo e a todos com muita condescendência: sempre antes de fazer uma inferência sobre o assunto dado pela sua amiguinha que encontrara por acaso em seu caminho de volta do trabalho, ela empregava um "onnww!" juntamente com o seu pescocinho lindo que deitava sua cabeça pequena em um de seus ombros.... era sempre assim com as pessoas...(!): doce, meiga e sincera ao ponto de deixar cair lágrimas de alegria quando feliz por uma de suas amiguinhas. Ela estava sempre com seu olhar voltado para o horizonte como quem espera o navio que ainda não chegou, ela olhava! Sim, ela olhava com seus lindos olhos azuis, com suas sobrancelhas feitas, seu rosto maquiado, um batom róseo em sua fina boca, com seus cabelos doirados e cacheados feitos em cocózinho dependurado perto da nuca. Ela carregava sempre em suas orelhas pequenos brincos de bijuteria; ela os preferia, pois perdia-os sempre e sempre os podia trocar, é que sempre os estava comprando. Ela era assim, doce, sensível, companheira, tão linda, mas (mas!) ela morava com outra menina que não era sua irmã, se quer sua prima, e o pior: as famílias de ambas moravam no mesmo bairro, bem próximos ao sobrado delas, a umas três ruas de distância... ali, bem ali no Alto do Cruzeiro... As documentadeiras das calçadas eram em sua maioria mulheres, mas havia homens também! Esses empregavam os documentos de acusação mais graves! Eram eles, os homens com a mente feita em satã, que acuravam as piores histórias; eram eles que se excitavam ao imaginar as duas xoxotinhas, gordinhas e molhadas, em um esfregar; eram eles que conjeturavam sobre as formas das meninas em suas mentes acopladas na solidão do banheiro e nos prazerosos sexos solitários. Não falavam o tanto que realmente eles queriam sobre essas meninas, apenas quando era constatada a boa confraria, a confraria de confiança, só assim é que quando mencionado o assunto eles "falavam". O que os proibia de demorar no caso era a suposta presença de algum caguete de seus pais, principalmente os do velho Almeida. Ele era um homem rígido, bondoso com a família e também para os amigos, ou melhor, para os seus clientes! Era assim que ele pensava, pois, quando solitário em seu quarto, lugar que ele mais confiava ter seus livres pensamentos, quando mencionava os gastos que fizera nos bares ou nos bregas, ele dizia como um bom marqueteiro "... mas são meus clientes, eles compram em meus supermercados e cheiram da porcaina que meus aviões levam", com satisfação "são meus clientes!!". O senhor Almeida era um dos homens mais ricos do bairro, não mais que o seu amigo de negócios, o senhor Albuquerque. Esse era dono de uma imobiliária onde tinha como seu melhor sócio o seu amigo, o senhor Almeida que houvera arrendado, com a morte de seu pai e de seu irmão mais novo, alguns terrenos e casas no bairro Alto do Cruzeiro e em outros bairros vizinhos também. O senhor Albuquerque também era dono de uma concessionária de motos perto do Clube dos Cabos e dos Saudados no bairro vizinho ao seu. Ele era sócio em muita coisa com o senhor Almeida, principalmente no sentimento que nutriam para com os ladrões: ninguém roubava por muito tempo nos bairros circundantes ao deles; havia outros barões de mesma importância nos outros bairros que os apoiavam e os davam cobertura ante o poder supremo operacional do sistema da cidade ou até do Estado. Não era problema para políticos, jornalistas, advogados, policiais acobertarem os sumiços de pequenos bandidozinhos de rua que normalmente se matam em suas pequenas guerras pessoais. Além do mais, para aqueles que cooperavam sempre vinham através de mensageiros algumas garrafas de vinho de safra para exportação ou de whisky importado e, claro, acompanhado de gramas dos bons pós-bolivianos, eram simples presentes dados normalmente em datas comemorativas.


e Q

7

O PRIMEIRO JORNAL DE LITERATURA E ARTE DA CHAPADA DIAMANTINA

Era assim que "A Empresa de Segurança Almeida e Albuquerque" tratava seus contribuintes, com pequenos presentes, descontos nas lojas filiadas e segurança em suas casas. Verdade que quando alguns dos contribuintes davam por rebeldes, acontecia de acontecer alguma coisa nas coisas próximas aos revoltosos. Mas talvez não fosse o medo nem os presentinhos a manter o equilíbrio entre a empresa e seus contribuintes; talvez fosse mais o prestígio, o status, a segurança a manter esse equilíbrio cósmico entre "A Empresa de Segurança Almeida e Albuquerque" e seus colaboradores. O senhor Albuquerque chegara no bairro Alto do Cruzeiro ainda no início da adolescência; ele comia muitas das negras salientes do bairro e da cidade, principalmente por conta de sua aparência de galã de novelas e seus lindos e românticos olhos verdes. Nesses tempos, tempos de sua juventude, carregava em sua tez um ar prazeroso que encantava os seus amigos e fazia abrir as pernas das mulheres mais brancas e de família da região. Casara-se com uma delas, não com a mais branca e de berço mais nobre, mas com uma meio que tirado a morena baixinha, linda e um tanto quanto ingênua. Formando assim esse casal, fizeram-se seis lindos frutos, todos mulheres. A primogênita era a Ermosa Cândida Ferreira de Albuquerque. Ela possui um olhar firme que o seu pai comparava ao da mãe dele. Ela, a Ermosa Cândida, não era tão ingênua quanto sua mãe! Com o seu olhar firme ela punha medo em todos os funcionários de seu pai, cuidava dos negócios da família como o faz o filho pródigo de um homem de negócios. Não se metia com a empresa de segurança, nem mesmo o seu pai se metia de tudo: entrara como sócio mais por dever que por querer! Ela era muito bonita, a Ermosa; em sua beleza dura, parecia-se muito com sua colega de quarto, a Catharine: ambas com os seios bem frontais e fartos, que completados com seus bustos altos davam um formato tubular ao seu corpo; as duas eram um tanto quanto desprovidas de bunda, e isso melhorava o arredondamento corporal delas (mas elas tinham bundinhas bonitinhas, cujos vestidinhos simples, habituais nelas, davam um charme especial de mistério que despertava o desejo de muitos homens e de algumas modernas mulheres). A Catharine era branca, bem branca, menor e mais nova que Ermosa; ela fumava o seu cigarro nostálgico que dava mais sentido ao seu olhar de horizonte; era tão lindo e inspirador vê-la olhar..... Eram idênticas em formato e muito parecidas em fisionomia, mas a Ermosa, além de ser tirada a morena, tinha os cabelos um pouco mais cheios e os olhos verdes, olhos focados e verdes, ela focava como o faz um pistoleiro ante sua vítima que procura os pontos mais vulneráveis desta para uma morte mais rápida e econômica; dava medo olhar pra ela, mas o seu sorriso meigo e amigável retirava todas as premissas de um confronto fulminante. Elas se conheceram ali mesmo no bairro, logo que se olharam se encantaram uma com a beleza da outra, sentiram-se atraídas pela curiosidade dos sorrisos dos seios fartos e pelo colorido dos olhos azuis e verdes, mar que houvera sido colocado em seus rostinhos parecidos e lindos, rostinhos com os mesmos traços finos, os da Ermosa em proporções maiores. Iniciou-se então uma amizade forte que seria documentada por todos no bairro. Eles queriam saber por que duas meninas de tão boas famílias andavam sempre juntas? Não eram vistas em companhia de homens ou muito menos de outras mulheres; o mundo delas só existia pra elas, só elas sabiam do mundo delas... por que isso? Que estranho!?

O SURTO DE RITA por Lisa Alves

Estava escuro e nem mesmo as luzes do lado de fora eram capazes de iluminar o grande apartamento situado em uma região selvagem de São Paulo. Macacos e cães atiravam para todo o lado, baratas se reuniam para escrever manifestos contra a ocupação marginal na rede esgoto. Corujas palestravam sobre os bens causados pela cannabis. E os gatos inauguravam o 13º depósito de objetos roubados. Rita ainda não era selvagem, embora fosse adepta de atos de consumismo sem controle. O apartamento era repleto de objetos sem um significado particular; na verdade, os significados vinham dos comerciais, da propaganda boca a boca, e isso fazia de Rita uma colecionadora de tudo aquilo que os outros já tinham ou desejavam possuir. Quando os animais civilizados reuniam-se ali, ficavam admirados com a quantidade de coisas sem sentido (todos desejavam experimentar um pouco): mp245, TV com controle mental, computador com download materializador e mais uma quantidade de inovações pertencentes à ratazana. Sim, Rita é de uma espécie de ratos doutrinados nos melhores laboratórios da Nova Ordem Animal. Ela, como os de sua espécie, passou por todos os testes impostos pela NOA e hoje, solta no mundo, aprendeu a criar sua própria gaiola decorada de acordo com as regras de seus adestradores. Apesar da vida pacata de ratazana, Rita não estava bem. Na realidade, já havia algum tempo que ela pressentia algo estranho em torno de sua existência. Não sentia compaixão pelos animais desfavorecidos, não sentia prazer ao ver os campos orvalhados, não compartilhava sua renda (jogada fora nos bolsos do mercado), nem mesmo conseguia contar em suas malditas patas quantos amigos possuía (sobravam dedos). Anos e anos dizia bom dia apenas para a outra ratazana do telejornal da manhã, pois do outro lado da tela era impossível alguém lhe proporcionar algum desconforto. O gosto do vazio gerou um câncer tecnológico em Rita – e informação sobre a cura não estava à venda no mercado formal. Na Internet, nada. Na TV, impossível. Nos livros – já não existiam. Na farmácia, só com autorização da NOA. Na NOA, um encaminhamento para o laboratório: "CONSUMIDORA IMPOTENTE PARA O SISTEMA; GENTILEZA, CONDUZI-LA PARA O ABATE".

AOS APOIADORES, AGRADECEMOS IMENSO!

www.o-bule.com

Mas o mundo de suas amiguinhas pertencia a elas! Elas, principalmente Catharine, eram como o padre em seu confessionário, sabiam dos problemas de todos, todos; principalmente as amiguinhas contavam os seus acontecimentos para elas: Catharine era procurada quando o problema era sentimental; Ermosa, quando “tinha alguma coisa a ver com dinheiro”. As duas eram vistas como anjos por alguns ou como o contrário por outros; eram vistas como um casal pelos homens mais maduros e como meninas estranhas para as mulheres de seus trinta e tantos anos; e para as meninas de ideias mais modernas, eram ícones... CONTINUA NO PRÓXIMO NÚMERO

Tel.: (75) 9996-3943 / (75) 9938-1546 - Iraquara-BA E-mail: megasom.divino.everton@hotmail.com


e Q

8

O EQUADOR DAS COISAS — N. 1, ANO 1, MAR. 2012

UMA OBRA DEMASIADAMENTE HUMANA E CRIATIVA por Sinvaldo Júnior A escritora Lygia Bojunga. Fonte: http://www.casalygiabojunga.com.br

As vontades

entrando no bosque

O que faz de A bolsa amarela, de Lygia Bojunga Nunes, uma grande obra literária? E a autora, quais os requisitos para considerá-la uma grande autora infantojuvenil? A bolsa amarela não é um grande livro somente por ser de leitura fluida, fácil, acessível tanto para crianças quanto para adultos, mas também, e sobretudo, por levantar questões de extrema importância, como as frustrações e indagações humanas, a relação familiar, as críticas a sistemas preestabelecidos, a alienação e/ou "lavagem cerebral", o uso de subterfúgios a fim de não sofrer pelas perdas, dentre outras. E tudo isso de uma forma criativa e muito literária.

R E L E I T U R A S

Em A bolsa amarela, as vontades de Raquel (a protagonista) nascem da necessidade de suprir várias mágoas, na maioria das vezes causadas pelos adultos: querer crescer surge da vontade de querer fazer aquilo que uma criança não pode ou, quando pode, é reprimida pelos adultos; querer ser menino surge da vontade de querer realizar coisas que, socialmente, estão reservadas somente aos homens:

Era o Terrível. Desde pequenininho que resolveram que ia ser galo de briga, sabe? Do mesmo jeito que resolveram que eu ia ser galo-tomador-de-conta-de-galinha Você sabe como é esse pessoal, querem resolver tudo pra gente. E aí começaram a treinar o Terrível. Botaram na cabeça dele que ele tinha que ganhar de todo o mundo. Sempre. Disseram até, não sei se é verdade, é capaz de ser invenção, que costuraram o resto do pensamento dele com uma linha bem forte. Pra não rebentar. E pra ele só pensar: 'eu tenho que ganhar de todo o mundo', e mais nada [diz Afonso, outro nome de Rei, à Raquel].

Vocês podem um monte de coisas que a gente não pode [diz Raquel para o irmão adulto]. Olha: lá na escola, quando a gente tem que escolher um chefe pras brincadeiras, ele sempre é um garoto. Que nem chefe de família: é sempre o homem também. Se eu quero jogar uma pelada, que é o tipo do jogo que eu gosto, todo o mundo faz pouco de mim e diz que é coisa pra homem; se eu quero soltar pipa, dizem logo a mesma coisa. É só a gente bobear que fica burra: todo o mundo tá sempre dizendo que vocês é que têm que meter as caras no estudo, que vocês é que vão ser chefes de família, que vocês é que vão ter responsabilidade, que – puxa vida! – vocês é que vão ter tudo. Até pra resolver casamento – então eu não vejo? – a gente fica esperando vocês decidirem. A gente tá sempre esperando vocês resolverem as coisas pra gente. Você quer saber de uma coisa? Eu acho fogo ter nascido menina...

A família O seio familiar, em vez de ser ambiente agradável, é lugar de intolerância, desrespeito, exploração, interesses – é o que se percebe, por exemplo, no almoço na casa de Tia Brunilda, quando os pais e irmãos de Raquel exigem dela que cante, dance, conte histórias, o que contrasta com o interesse que essas mesmas pessoas nunca demonstraram em relação às coisas da menina. Para bajular a parente rica, Raquel é usada como um bonequinho, unicamente para fazer a vontade dos adultos, que não levam em consideração, em hora alguma, os anseios da criança.

Querer escrever surge da vontade de expressar o que ela sente e/ou como fuga da solidão (visto que Raquel é uma criança num meio cheio de adultos, e de adultos egoístas e intolerantes). Porém, esta última vontade é suprida quando ela decide escrever cartas para alguns amigos inventados – solução do problema que, no final (do capítulo), acaba dando errado, pois ela é ridicularizada pelos pais, irmãos e vizinhos por causa de uma história (boba) que escreveu: uma história de um galo. A bolsa amarela Presente dado pela Tia Brunilda, a bolsa amarela é o esconderijo das coisas mais importantes de Raquel: coisas concretas, como alfinete de fralda, retratos do quintal da casa, desenhos próprios, e coisas abstratas, como as vontades (de crescer, de ter nascido menino e de escrever) se juntam dentro da bolsa. Já os sete filhos (bolsos interiores) da bolsa amarela servem para guardar o que ela quer e necessita esconder. O galo Exatamente o mesmo galo do romance que Raquel escreveu – e pelo qual foi ridicularizada – aparece, sem mais nem menos, na bolsa. Lygia Bojunga abusa da imaginação quando usa de um animal (com características e desejos humanos), criado pela própria protagonista, e o retoma como peça fundamental do romance. E, por meio do Galo Rei, reflete sobre questões fundamentais para entender o nosso meio social. Submissão, conformismo, passividade são alguns dos assuntos tratados – simbolicamente – por meio das personagens das galinhas. Elas [as galinhas] achavam que era melhor ter um dono mandando o dia inteiro: faz isso! bota um ovo! pega minhoca! do que ter que resolver qualquer coisa. Diziam que pensar dá muito trabalho [diz Rei à Raquel]

Aventuras No decorrer da história principal, várias histórias secundárias (mas de suma importância) surgem: "História do alfinete de fralda (Que mora no bolso bebê da bolsa amarela)"; a história da Guarda-chuva estragada que é colocada no bolso comprido da bolsa, que é a realização do desejo de Raquel de ter um guarda-chuva, com reflexões sobre ser grande e mulher; e a história de Terrível, um galo de briga. Nesta última percebe-se, através do personagem do galo brigão, a lavagem cerebral que é feita quando querem determinados objetivos: o galo, desde criança, foi condicionado a brigar por interesses que não eram dele, mas sim de outros, dos seres humanos.

Subterfúgios O ser humano em geral (e com a criança não é diferente) cria subterfúgios quando se depara com a dor, a mágoa, a perda, sejam eles a fé, as crenças, a imaginação, a arte. Raquel, ao "saber" que Terrível morrera na briga contra o Crista de Ferro, decidiu fazer-lhe outra história (extremamente criativa e engenhosa), menos triste, com um final feliz. A "História de um Galo de Briga e de um Carretel de Linha Forte", história de autoria de Raquel, além de servir para mudar o destino de Terrível, serviu também para diminuir/acabar com a vontade de escrever de Raquel, pois só se resolve algo fazendo – e foi o que ela fez. Luta e... A história criada por Raquel deu a luz de que tanto Afonso (Rei) precisava: sair pelo mundo e lutar "pra não deixarem costurar o pensamento de ninguém", ou que as pessoas lutem por algo que não são, nem nunca serão, seus próprios anseios. Se é para lutar, que seja em batalhas próprias. Mas como Afonso conseguiria realizar o feito se o mundo é tão, mas tão grande? Somente com suas asas jamais poderia voar para os vários cantos do planeta. Juntos, Raquel e Afonso, tiveram uma ideia: consertar a Guarda-chuva, por mais difícil que fosse ("quase tudo tem conserto"), e usá-la no objetivo de Afonso: sair pelo mundo lutando por suas ideias... ... liberdade Já na praia, antes mesmo de viajar para os cantos da Terra, Afonso já pregava para os peixes, contando a história do Terrível, "dizendo que se alguém quisesse costurar o pensamento deles, eles não deviam deixar" e dando-lhes algo que ainda não possuíam – nomes: André, Lorelai... E conversavam. Aí, Raquel foi soltar pipa... Mas pipas diferentes: foi na verdade, simbolicamente, soltar as vontades de ser garoto e de ser grande... Mas... e a vontade de escrever? Essa já não pesava mais: quando tinha vontade, fácil-fácil, ia e escrevia. Simples assim. Também, como combinado, a Guarda-chuva e Afonso, depois das despedidas, foram embora, voando pelo céu nublado. O Alfinete de Fralda queria ficar. Ficou. Juntos, ele e Raquel, debaixo da chuva, com a bolsa amarela bem mais leve, foram embora para casa. Para ser um grande escritor, é preciso tentar não repetir formas já desgastadas, não abusar dos estereótipos e lugares-comuns, mas ser criativo, inventivo. Para ser um grande escritor infantojuvenil, é preciso tentar não repetir (pré) conceitos e pregar visões adultas para um público infantil, mas trabalhar com as dores, dúvidas, anseios próprios das crianças, visto que elas também são seres humanos – é o que Lygia Bojunga Nunes, criativa e humanamente, faz. E muitíssimo bem. A bolsa amarela é, por isso, uma obra-prima.


CRÔNICA | OPINIÃO

desencaixotando | olhares

O DEFLORAMENTO DE FRANCISCA por Rômulo Martins

A escravidão esteve presente em quase todas as sociedades desde o Egito antigo, há 7 mil anos, até a era moderna, com as colônias e ex-colônias europeias. Esta instituição apresentava particularidades dependendo da conjuntura cultural, social e econômica local. O Brasil foi o grande baluarte da escravidão moderna e, se há algo que pode ser homogeneizado em relação à escravidão em terras brasílicas, eis a falta de escrúpulos dos senhores quando o assunto era preservar seus lucros e seus bens. Vejamos o caso do escravo Calixto. Na tarde de segunda-feira, 24 de dezembro de 1874, o crioulo Calixto, 25 anos, teria deflorado a escrava Francisca, 11 anos, filha da escrava Anna, ambas pertencentes ao alferes Joaquim Rodriguez Rollo, também senhor de Calixto. Isto segundo a denúncia do promotor público da comarca de Lençóis-BA, Guilherme Neville de Irlanda Passos. Calixto teria conduzido a escravinha Francisca da casa de seu senhor, situada à esquina da matriz de Nossa Senhora da Conceição e direita da Igreja do Rosário, a um quarto contíguo à casa do seu senhor, pertencente a seu parceiro, o também escravo Joaquim; foi onde violentou a escravinha, deflorando-a. O corpo de delito feito no dia 31 de dezembro do mesmo ano constatou que a menor havia sido de fato violada. O fato pôde ser reforçado com os depoimentos da vítima e do réu. Perguntada a vítima como tudo aconteceu, respondeu a escravinha Francisca que, "em um dia de segunda-feira desta semana, pela tarde", Calixto a levou agarrada para casa vizinha onde morava o escravo Joaquim; e, no quarto para onde a conduziu, à força a deflorou, não tendo ela gritado por socorro por medo de Calixto. Perguntado sobre o que o teria levado a praticar tal ato, o escravo respondeu que estava sentado no portão da casa de seu senhor quando foi chamado por Francisca para dentro do quarto e que se servisse dela, o que ele fez por ter sido chamado. Disse também que reconhecia que "obrou mal" e que tudo isto foram fraquezas de juízo. Confirmado o ocorrido, o escravo Calixto foi conduzido à Casa de Câmara e à Cadeia da cidade de Lençóis. A prisão do escravo fez o alferes Joaquim Rodrigues Rollo tecer sua estratégia para inocentar seu escravo, um bem valioso naquela sociedade. Para tanto, juntou as testemunhas Pedro Saraiva da Silva, João Anacleto Perez Maciel, d. Leopoldina Rollo (sua esposa) e os informantes Maria de Tal (sua escrava) e Joaquim (seu escravo). No desenrolar do processo, mesmo com a confissão do réu e o depoimento da vítima, “ficou provado” que o ferimento na escravinha Francisca ocorreu quando ela saltou um poleiro, ferindo assim suas partes íntimas, sendo o escravo Calixto inocentado das acusações e liberado para voltar às suas atividades rotineiras e enriquecer cada vez mais seu senhor. Essas são as raízes de nossa sociedade, em que interesses pessoais e o poder de influenciar decisões valem mais que mil provas.

Aqui você encontra os melhores biscoitos artesanais da Chapada Diamantina. Uma iniciativa da Associação de Mulheres Empreendedoras da Quixaba. Povoado da Quixaba, Iraquara-BA

A O S

(75) 9811-3359

Brinquedos em geral, artigos de papelaria, material escolar, artigos para aniversários, bijouterias, mochilas, cartões comemorativos, entre outros. Os melhores preços da cidade estão aqui! Rua 7 de Setembro, Iraquara-BA (75) 3364-2167 (75) 9811-2792

A P O I A D O R E S

e Q

O PRIMEIRO JORNAL DE LITERATURA E ARTE DA CHAPADA DIAMANTINA

A G R A D E C E M O S

VITRINES por Cida Mello

Era de manhãzinha, e o movimento dos veículos estava bastante intenso. Os passageiros ao meu lado tinham caras e bocas de descontentamento e de sono. Não é nada confortável utilizar os serviços públicos de transporte. Coletivos antigos e lotados, castigados pelo descaso e pelo tempo. O ônibus parou e eu finalmente pude descer e esticar as pernas, agradecendo por ter sobrevivido a mais um dia a sacudidelas, cotoveladas e esbarrões. Foi então que me vi cercada por lindas vitrines. Dentre tantas, apenas uma foi capaz de deter a minha atenção. Lá estava ela, uma velha senhora que não conseguia esconder o seu estranhamento e admiração, diante das vitrines reluzentes de uma luxuosa loja de tecidos. Ela trajava roupas bem surradas. Camisa branca folgada, saia azul cobrindo os pés, lenço colorido na cabeça e sandálias rasteiras. Devia ter uns 65 anos, o que a pele áspera e marcada pelo tempo não conseguia mais esconder. Pois bem, essa mulher de pele escura, braços cruzados às costas, admirava a beleza dos finos tecidos acetinados, sem sequer se dar conta de uma realidade pintada com letras garrafais vermelhas e brancas, onde se lia, numa tabuleta retangular: FECHADA. Por um instante, me dei conta da simbologia que se apresentava diante de mim. Não era apenas a loja de tecidos que estava fechada, era muito mais que isso. A vitrine era transparente. Pálidos manequins com delicados pés de bailarina pisavam a maciez daquelas toalhas bordadas e bastante felpudas muito bem dispostas no mostruário. Limpeza e organização impecáveis, o mais puro e fino algodão. Do lado de fora, um ser frágil e rasteiro sonhava, com a maciez que não caberia na sua cama de papel. A cena foi rápida, e já era hora de retomar o trajeto. Olhei para os que estavam ao redor. Todos se moviam para as mais diversas direções. Olhei novamente para a velha senhora, que continuava a sonhar com finos tecidos. A loja permanecia fechada, assim como o seu futuro.

Rua 7 de Setembro, s/n, Iraquara-BA Telefone: (75) 3364-2471

I M E N S O Rua Tito Luna Freire, 17, Centro, Iraquara-BA Telefone: (75) 3364-2229

9


Imagem de fundo baseada no print/litografia Kleine Welten VI | Pequenos mundos VI (1922), de Kandinsky. Disponível no sítio do MoMA, Museu de Arte Moderna de Nova York: <www.moma.org/kandinsky>

LUTANDO COM AS PALAVRAS escrevendo aqui, eis os autores José Inácio Vieira de Melo nasceu em 1968. Alagoano radicado na Bahia, é poeta e jornalista. Publicou seis livros de poesia, dentre eles A infância do Centauro (2007) e Roseiral (2010). Organizou as coletâneas Concerto lírico a quinze vozes (2004) e Sangue novo (2011). Publicou também o livrete Luzeiro (2003) e o CD de poemas A casa dos meus quarenta anos (2008). Edita o blogue Cavaleiro de Fogo: www.jivmcavaleirodefogo.blogspot.com | E-mail: jivmpoeta@gmail.com. Juraci Dórea é de Feira de Santana, Bahia. Formado em Arquitetura e mestre em Literatura e Diversidade Cultural. Dirigiu o Departamento de Cultura de Feira de Santana de 1994 a 1996, período em que idealizou o Museu de Arte Contemporânea da cidade. Dedica-se às artes plásticas desde o começo dos anos 60 e já participou de inúmeras exposições no Brasil e no exterior.

Lisa Alves, 30 anos, é escritora de contos e poesias. Nasceu em Araxá, Minas Gerais, e mora atualmente em Brasília. Foi publicada pela CBJE (Rio de Janeiro, 2007), em Trilhas – Coletânea de blogueiros e Poema Capital (Buenos Aires, 2011). Escreve ali no blogue este-dela: http://lisaallves.blogspot.com | E-mail: lisaallves@gmail.com. Paulo Sousa é natural de Floriano, Piauí, mas há quase vinte anos radicou-se em Juazeiro, Bahia, de onde extrai boa parte daquilo que escreve. Posta no blogue: abuscademimmesmo.wordpress.com, homônimo de um livro de crônicas ainda não publicado.

Dauri Batisti, Vitória, Espírito Santo. Mantém o blogue, que é assim: www.essapalavra.blogspot.com.

Rômulo Martins é graduado em História e mestrando em HistóSinvaldo Júnior é, acima de tudo, um personagem do livro Manicômio, de Rogers Silva. Nasceu e vive em Uberlândia, Minas Gerais. Possui graduação em Letras e mestrado em Teoria Literária e Administração. Publicou artigos acadêmicos e jornalísticos em diversos sítios, revistas e jornais. Faz doutorado em Literatura e é pesquisador das obras de Campos de Carvalho e Drummond.

ria Social. Pesquisa a escravidão na Chapada Diamantina do séc. XIX.

Germano Xavier é poeta, escritor e jornalista. "Não há um dia

Dedica-se ao postulado da ausência – seu meio de produção de linguagem e estética perante o vazio da vida, esse tão intransponível de se dizer. Radicado em Montes Claros, Minas Gerais. Organizador do Coletivo Revolucionário. Poemas: http://lioh.arteblog.com.br | Outros acessos: http://about.me/leovalesi | www.facebook.com/leovalesi | E-mail: leovalentebh@yahoo.com.br.

sequer que não rabisque uma folha de papel." Publicou, em 2006, o livro de poemas Clube de carteado, com ilustrações da artista Cida Mello. E seu livro de contos, Sombras adentro, vem chegando, no prelo ele já. "Conta que seu ritual de escrever é simples, 'geralmente pela manhã, a hora mais prolífica para a criação, pois a mente está descansada e absorve reflexos das viagens intercontinentais dentro [dele] mesmo'." E ele então escreve no blogue O equador das coisas. Mas eis que seus inúmeros escritos podem ser lidos num acolá em bastantes: www.oequadordascoisas.blogspot.com | www.germinaliteratura.com.br | www.entrementes.com.br | www.paginacultural.com.br | www.revistamacondo.co.cc | issuu.com/jornalrelevo | diversos-afins.blogspot.com.

Mateus Dourado, do sertão caatingueiro, é professor de Filoso-

Carolina B. Piva, alcunha tão-só, ou de um mesmo espalhado em

fia, poeta nas horas vagas, muito divago e devagar na vida. Cadencia alegrias, ama o amor, quer com profundidade a vida... Dependente de leituras habituais e viciado neste troço chamado Internet...

Melindas, Lavínias, Andrés e Williams. Tanto mais ou um pouco menos. Nasceu em Uberlândia, Gerais nossas, em ano coincidente com um certo Beleléu, composto pelo "maldito (vírgula!)". É revisora/editora-de, desencaixa as sintaxes e vai ainda num de ordenar grafi-camente as coisas todas. É, e do que faz gosto-além, colunista da Página Cultural, onde publica seus ficcionismos – gauches eles todos. Nisso de constarem os tais títulos: Letras em graduação, História em mestrado; professora de uns tais estranjeirismos-língua – inglesa, do que também faz gosto. Literatura – a mais-obsessiva… deliciura (palavra que ainda vem pra cá, explicadinhazinha dia desses)! Cinema, música e fotografia – os nada ocultos prazeres-mundo. Mas é o que ela rediz sempre: pão ou pães – questão de opiniães! Ali, pois-ó: www.theartbrazil.blogspot.com | www.paginacultural.com.br | http://www.revistamacondo.co.cc | http://www.redfez.net. Tim-tim!

Leonardo Valesi Valente é poeta, terapeuta de formação.

Jacqueline Collodo Gomes é escritora independente. Reside em Campinas, São Paulo, e mantém o blogue Ah, Poesia!, onde publica seus poemas e outros de seus textos: http://ahpoesia.blogspot.com.

Lorena Nogueira, especialista em Letras, é baiana, professora, doadora de órgãos e sonha em viver um grande amor. Por ali então: https://www.facebook.com/people/Lorena-Nogueira/100002950279686 | E-mail: lorynogueira@hotmail.com.

Flávia Amaro é de Araguari, vivendo hoje em Uberlândia, Minas Gerais. Coleciona diários, agendas, cadernos e outros tipos de manuscritos. Escreve para se conhecer. Publicou um poema na antologia Versos de Primavera, 2011. É graduada em Ciências Sociais, com especialização em Gestão e Políticas Públicas. Atua como produtora cultural, professora e pesquisadora. E publica seus escritos no blogue: www.cronicamenteorganica.blogspot.com.

Suzana Durães Viana nasceu e reside na vila de Iraporanga, Iraquara, Bahia. É graduada em Letras Vernáculas. Apaixonada por livros e artesanato, gosta de escrever poemas e cordéis. Publicou na Antologia de poetas brasileiros contemporâneos, pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores. Publica seus textos no Recanto das Letras e no blogue: http://nossaspalavras2010.blogspot.com.br | E-mail: suzanaduraes@hotmail.com.

Uianatan Alecrim, de Juazeiro, Bahia. É músico e estudante de jornalismo. Anarquista, sonha construir uma laje-estúdio musical. Cida Mello é advogada, ilustradora, amante das artes e da cultura.

Karime Limon é poeta. Publicou, em 2011, o livro Hologram. De si mesma, sempre em tom despretensioso mas certeiro, diz pra gente assim: "I was born in California, in Los Angeles, to a loving mom and dad. My father is the musician, my mother is the artist and avid reader. She is the one who initialized my desire to learn of far away lands, of mythical creatures, of fantasy. My earliest memories are of my mom reading to me or talking to me of the great painters. I began writing when I was a teenager. I didn't know much about poetry or poets, just what was taught in school and whatever I had read in my home's library. Poetry, for me is a form of light, or nourishing water, a way of turning these human needs, questions, desires, into something useful, something inspiring. I know my creativity and inspiration is not mine alone, it comes from the source, that 'river' of universal knowledge and feelings, and I simply collect the nourishing water and place it in a bowl of clay, for all to drink from. So you see, none of it is 'mine', not the water or the bowl, I simply give it a shape, a holding place". No blogue: http://karimehologram.blogspot.com | http://www.facebook.com/reflecting.hologram | http://www.lulu.com.


O EQUADOR DAS COISAS #1