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Arsénio Mota

SOM DE ORIGEM

arte d’escrita


Arsénio Mota

SOM DE ORIGEM arte d’escrita

Este livro foi distinguido, ainda inédito, pelo Fundo de Apoio à Edição da Fundação Calouste Gulbenkian /Associação Portuguesa de Escritores e teve a primeira edição em papel em 1984: Lisboa, Livros Horizonte.


O autor Jornalista e escritor. Nasceu na cidade de Oliveira do Bairro em 1930 e vive desde 1963 no Porto, Portugal. Publica desde 1955 livros de poemas, crónicas, ficções e estudos diversos. Tem-se dedicado também à literatura infanto-juvenil. Textos seus figuram em manuais escolares, foram integrados em listas de títulos seleccionados ou estão vertidos para Espanhol e Inglês. Traduziu e organizou obras de vários autores e antologias, exercendo igualmente a crítica literária. Os seus 50 anos de escrita foram assinalados com volume de vários autores organizado por Serafim Ferreira. Tem abundante colaboração dispersa por jornais e revistas.

Título: Som de Origem – arte d’escrita Autor (copyright): Arsénio Mota Capa: Isa ventura Foto da capa: cúpula do túmulo do poeta persa Hafez (séc. XIV), Shiraz, Irão. Edição (revista): Abril, 2014.


CAMINHO DE SANTIAGO

AVANÇAMOS ao longo do leito deste rio seco. Areias e pedras de formas e cores variadas, polidas pelas águas, tecem um cordão de restolho fluvial e nós seguimo-lo sonhadoramente, como quem caminha por dentro de um mar antediluviano ao encontro da mãe perdida. É cordão umbilical, fio de Ariadna. Areias e pedras coruscam por vezes ao sol, cegantes como minúsculos espelhos de prata. Têm formas admiráveis e tu não lhes resistes. Enches as algibeiras com aquelas formas e cores, avulsas, sim, mas todas belíssimas a seu modo, que, ambos o sabemos, só esperam mão sábia para se ordenarem numa construção inteligente e negarem o caos. Vês-me a olhar-te quando, deslumbrado, vergas a espinha para colher do chão tanta riqueza de brilhos esmigalhados. Não compreendo e menos compreenderei em seguida. Levas as algibeiras repletas de pequenos sóis, já te cobre os ombros, as costas, os flancos, em algibeiras inventadas, uma carga de materiais luminosos – e nada disso te chega. Explicas: restam sempre irisações raras, formas desconhecidas que não podes deixar de colher entre todas as que se nos deparam ao longo deste rio seco, pelo qual vamos avançando, descoberta após descoberta. Só quando paramos, à noite, e te escondes num canto para espalhar aqueles materiais prodigiosos sobre uma superfície para os contemplar, vês como a tua riqueza toda é pouca e escassa para a execução do trabalho em vista. Distribuis areias e pedras, as formas e as cores, e crias uma imagem rudimentar apenas esboçada. Percebe-se no entanto o seu sentido global, é como um quadro velho de tintas meio delidas que a humidade manchou. Apela para a nossa imaginação, por isso resulta sugestiva. Mas tu amas a vigorosa pureza da linha certa, a traça nítida e enxuta (românica, como gostas de classificar) estendida até aos derradeiros pormenores terminais. Tens a paixão da imagem exacta, limpa de excrescências, por isso de aparência pobre, minimal, como se nela roçasses a eternidade. Queres ver surgir fora de ti, diante dos teus olhos, a imagem fiel do que sonhas e guardas por trás, no cérebro, porventura a forma de um movimento, o ritmo evocado de uma palpitação, a cor de uma volição qualquer dos teus sentidos, algum ínfimo movimentos dos secretos óleos da tua vontade, e, num estertor de alma aflita, aplicas-te como se estivesses, à varanda da época, a redigir o testamento final da tua consciência. A princípio as mãos agiam afoitas sobre os materiais mas agora hesitam, emendam as pedras caprichosas que se agarram umas às outras, acertam os volumes e as justaposições, suspendem-se sobre a imagem inacabada enquanto procuram os melhores efeitos. Persegues qualquer beleza, expressão sensível da verdade, com a febre dos famintos correndo ao cheiro do pão fresco. Só que a beleza é muito mais difícil de atingir. Faltam-te materiais que deixaste ao abandono no leito do rio tendo-os por insignificantes, mas, agora o vês, são indispensáveis para rematar algumas partes do trabalho. Devias tê-los incorporado a ti (tudo não te seria demais), apesar de o maior problema não ser esse: nenhuma obra que executes chegará algum dia a ficar completa. Todos os dias avançamos pelo leito do rio e aprovisionas novos materiais polidos pelas águas que foram tumultuosas, lá onde brilham como estrelas semeadas


naquele longo caminho de Santiago, derrame de leite cósmico espalhado pelo espaço sideral. Mas, embora os apliques, o problema subsiste. Os pedaços que colhes, cintilando e cegando como espelhos ao sol, parecem, depois de os utilizares, baços, frios e tristes como brasas tiradas do lume. Falta às tuas pedras a incisão vitalizadora do sol, porque elas não têm luz própria, deixam-na retida no leito do rio de onde as trazes. Pobre de ti! É uma simples camada de pedrinhas escolhidas sem a primorosa arte dos mosaicos de Ravena. Algumas cintilam por vezes, é certo, tal como os faróis de um caleidoscópio projectando os raios no interior de um dancing. Mas os faróis do caleidoscópio e as pedrinhas da tua imagem não cintilam todas nem cintilam ao mesmo tempo, quer dizer, não iluminam. Isso acontece apenas lá fora, como miragem, no raro encontro do teu olhar com a fonte de luz no ângulo certo. E, apesar de tudo, acreditas que os homens podem tornar-se um pouco melhores pela contemplação da verdade e da beleza que a veste e até dás por isso um pouco do teu sangue todos os dias…


FONTE

ÍAMOS pela verdura no caminho da liberdade quando demos com a fonte. Um jorro de cristal puríssimo saltava da rocha para uma bandeja de seixos e areias emoldurada por viçosa vegetação. O sol baloiçava nas altas copas e esfarrapava-se nos ramos das árvores antes de lamber em carícia as ervas do chão. Era um lugar do princípio do mundo! Tudo ali rescendia a primórdios. O silêncio, embora enervado pelos frémitos da folhagem, ouvia-se como um rasgar de hímens de seda, e até as sombras frescas do local tinham algo de fêmea virgem devassada. Mergulhámos as bocas sedentas no jorro cristalino, pois o sol da Primavera já esquentava as nossas explorações. Bebemos chispas de luz que brotavam da rocha viva e nos refrescaram as gargantas, entre cômoros densos. Estávamos ali como furtivos adolescentes em alcova materna, a devassar mistérios apenas pressentidos. E, num repente, sentimos que a ilhota de vegetação, a vicejar sobre a epiderme lisa da terra pródiga, tinha alguma analogia com um tufo de pêlos da púbis, ou monte de vénus, pois também servia para esconder a greta da fonte, para lhe proteger a vaginal intimidade. Caminhámos em bicos de pés, mal ousando profanar aquele interior sagrado. O jorro cantava na bandeja de seixos, explodia em milhões de gotículas irisadas e voava de encontro à folhagem de heras que se derramava com longas e espessas cabeleiras, em torno da fonte. Nem se ouvia, ali, o trino dos pássaros. Aquele jorro de água primordial luzia ao sol como véu de noiva rescendente a flor de laranjeira. Era água viva correndo, numa visceral comoção, da rocha a liquefazer-se. Era torrente seminal, prodígio. Duendes e ninfas povoavam o sítio, cruzavam-se alegremente por cima do espelho da água na bandeja em velhíssimos ritos propiciatórios, e obrigavam-nos a compreender por que motivo é o organismo humano composto de água em bem mais de metade. E, como quem dá a ler poesia para traduzir o sentido do que é indecifrável, as ninfas e os duendes daquela fonte obrigavam-nos a recordar que nascemos de ovos imersos em líquido placentário e alguma teoria de cientistas que situam a origem da vida no oceano. Então, pensando entre ervas e canaviais nas lendas de mouras encantadas, só nos admirávamos de que essas lendas não fossem ali completa realidade. Quarenta e cinco anos desfizeram-se nos dentes mecânicos do tempo sem que lá pudéssemos voltar e, no entanto, a fonte continuou a correr, noite e dia, dentro de mim, alimentando-me sedes abrasadoras. Meu fiozinho de água mole, desce pelas minhas regueiras em direcção a cada página e aí se demora, suando pingo a pingo até o encher. Não sei se ainda hoje a velha fonte existe mas, quando chegar o meu fim, morrerei sabendo que algures, talvez no interior da terra ou dentro da rocha viva a liquefazer-se em comoção violenta, continuará a jorrar uma fonte pródiga de águas cristalinas. Só temos que a descobrir.


PÊRA DOCE

SERÁ o primeiro dia da criação – ou será o derradeiro? Corre pelo ar o fumo de madeiras e resinas queimadas e eu, entre securas, num galope de espantos, aperto na mão uma pêra. Tem uma anatomia perfeita este fruto elementar. As curvas de um torso feminino ou de uma guitarra. Tacteio-lhe a pele fresca e macia como a de uma rapariga casadoira e gozo um tempo acariciando-a, rolando-a em posse na mão fechada. Enche-me a concha da mão e deixa outro tanto à vista, com o pedúnculo em cima, hirto como pau de bandeira, rabinho de gata mansa. Ergo a pêra na ponta dos dedos e rodo-a lentamente diante dos olhos, admirando, quase comovido, a sua cor amarelada com pintas acastanhadas, mais densas em redor do pedúnculo. Esta é de magnífico tamanho, pesada e sumarenta, admirável porque será decerto a primeira ou, talvez, e também, a última. Exala um cheiro bom quase esquecido, um cheiro a pêra de verdade, quando aproximo o nariz da sua pele e aspiro com força. É este, sim, o aroma antigo da pêra! E ali a tenho comigo, a salvo, imagem total da natureza em extinção. O impulso de a comer – olhando para todos os lados – torna-se-me absolutamente irresistível. Salivo como cão esfaimado perante comida apetitosa. Mas quando introduzo tímida lâmina na pêra e começo a descascá-la, agita-me um remorso como se estivesse a anavalhar a carne viva de um ser inocente. A lâmina avança sob a pele fina, sacando-a em tiras, e o olhar clama sem ingerência contra o que vê. O corpo carnudo surge, desnudado e pálido, a gotejar suco em doídas lágrimas por todas as células. O líquido escorre aos pingos, água radiosa, abrindo veias espessas na minha mão esquerda, desce em direcção ao pulso, mas aí vou com os lábios sorvê-lo até ao vestígio, subindo do pulso para os dedos. Como é generosa esta pêra memorável! Cada pedaço derrete-se na boca incendiada com a doce presteza de manteiga ao lume, esvai-se em vibrante festim pela garganta, sufoca-me de inebriação, faz-me pigarrear e, logo ao chegar ao estômago, põe-me na barriga, em todo o corpo, percorrendo-o fortemente da cabeça aos pés, a sensação de que nele desperta um canto de cotovia. O mínimo bocado de polpa impregna-se de grande quantidade daquele suco vivificante, inacreditável, e não é possível moderar o ímpeto da gula, demorar os gestos para melhor o saborear até ao requinte. Pelo contrário, um bocado arrasta sem pausa outro bocado, é preciso que o riozinho de suco estimulante continue a entrar-me na boca e a regar-me o corpo ressequido, enquanto a pêra vai depressa a sumir-se e nem há tempo sequer para avaliar até que ponto irei sentir realmente o remorso que penso que estou a sentir por sacrificar uma pêra tão maravilhosa. E tão escassa. Da parte carnuda restam leves farrapos em torno do pedúnculo e agarrados ao alvéolo das sementes, misto de útero e ovário, caprichosamente desenhado em forma de coração. O sabor-fragância do suco da pêra ressoa agora, nítido, por todo o meu corpo, é canto de cotovia e ressurreição a correr-me pela carne, latejando a par do sangue até ambos se confundirem. Devoro os restos da polpa, limpo-os com minúcia chupando-os até à derradeira humidade e encontro-me profundamente integrado no sistema da natureza.


Gostaria de ter comigo um duplicado da pêra doce consumida para a contemplar com admiração e respeito, possivelmente para a adorar nos próximos tempos. Poderia então vê-la como se a visse pela primeira vez. Mas era exemplar único, jaz sepultada em mim para que eu viva. Resta o despojo que, a matutar, seguro entre dois dedos. Compreendo, enfim, como é incompreensível que a deliciosa polpa que comi sirva apenas para envolver as sementes alojadas no seu interior. Mas encolho os ombros, lanço o resto para longe e fico a chupar os dedos.


DEUSA DE CARNE AO SOL

UMA simples rapariga, como qualquer outra? Não, evidentemente. É uma deusa de carne. Deitada ao sol, liberta as formas perfeitas do seu corpo na relva tenra da piscina, às portas de Sevilha. Tem a cobri-la os três fugazes pedacinhos de pano do seu biquíni, que ameaçam dissolver-se ao entrarem na água e mal lhe cobrem os seios redondos, a púbis esconsa. Mas não é por estar seminua que ela se torna admirável. Outras jovens, próximas, usam biquínis idênticos e não apetece contemplá-las em adoração muda, com toda esta força cativa. Só ela reina sobre os sentidos, entre tanta beldade, à beira da piscina, às portas de Sevilha. É uma deusa de carne vibrante, que se enrosca, sonolenta, e entrega ao sol em brasa, ao alcance de mãos inúteis. Apetece deter o tempo, imobilizar o sol, para demorar no seu corpo (uma vida inteira?) o olhar vagaroso, deleitado, acariciador. Ela volta-se, oferecendo à mordedura do sol outra fatia do corpo. Por momentos, os seios redondos soltam-se do pano e oferecem-se, suspensos, ao olhar, que a seguir resvala em vertigem pelo seu ventre de seda até se afundar na visão estonteante dos primeiros pêlos femininos. Os seus movimentos têm a graça indefinível das naturezas delicadas e, por isso, quando desce a nuca, ou dobra as pernas, ou estende os braços, os seus gestos têm a beleza empolgante das tocadoras de harpa. É uma flor de carne luminosa, no esplendor da primeira juventude, que apenas as convenções impedem de contemplar sem pausa, insaciavelmente. Merecia a consagração do mármore. Se estivesse vestida e a víssemos na rua, no escritório ou num salão, não despertaria por certo menos interesse, mas, nesse caso, talvez a sentíssemos menos inacessível porque mais camuflada pelo vestuário. Aqui, a sua quase absoluta nudez rodeia-a como uma esfera de cristal e o seu corpo adquire a categoria sagrada das deusas intocáveis. Tem as linhas puras das estátuas helénicas que foram destruídas e esquecidas há séculos entre violências e fealdades sem fim. Mas as estátuas não possuem a carnação palpitante das rosas acabadas de florescer, em plena manhã. E, naquela rapariga, as graças explodem no seu rosto, nas orelhas e nos cabelos fulvos, descem com elegância pelo pescoço e as espáduas, multiplicam-se no peito, comovem-se na cintura e espraiam-se pelas nádegas e as coxas perfeitas, até os tornozelos e os pés. É uma criatura esplêndida, um festim para o olhar, que redime a natureza do calvário de tantas deformidades impostas. Impossível seria que não existisse algures no mundo uma rapariga assim, para deleite dos famintos de beleza, mas conhecê-la tem algo de miraculoso. Impossível é contemplá-la sem a amar. E poderão uns olhos amar sem posse? Onde, como se inicia e acaba esta? A rapariga continua imersa numa solidão de deusa. Sinto-lhe a carne radiante a crepitar de impaciência em cada poro, aguardando o vento da vida que a leve para os encontros e as convulsões da existência, e ela sabe quão frágil é a carne, com todas as graças que a embelezam, no imparável moinho dos anos.


Aquela beleza promete durar apenas a crispação do instante, como um delírio erótico, e ela já pressente na carne o destino injusto ainda que se lhe submeta. Dir-se-ia que a derreia ser a deusa que os olhares proclamam, que lhe pesa no corpo tanta perfeição. Ela vê-se só e precisa, mais do que admiração, amor em acto, expansão para o seu corpo-vida em outro corpo-vida. Mas eu, aqui, sou puro olhar, erguido sobre a relva verde da piscina às portas de Sevilha. Poderei oferecer-lhe apenas este poema de palavras, tiradas da minha boca de sapo, para cantar o seu corpo, poema de carne.


AREAL

UM fio de areia a correr transforma em ampulheta esta mão fechada. É relógio tão vivo e mortal que hipnotiza. Quantas vezes o sangue bate nas paredes das artérias no tempo que o punhado leva a correr para o esgotamento? Por fim, a mão em concha prende outra mancheia para que haja mais vida a renovar-se, e depois outra, e muitas mais, até que o chão em torno se enriça de infinitos cones de luz. O areal estende-se, ondulando nas dunas, como uma epiderme bexigosa observada à lupa: cheia de crateras, sulcos, pegadas. É uma superfície táctil tão branda que insculpe o mínimo toque. Os grãos de areia movem-se em massa em todas as direcções, obedientes a qualquer força ainda que leve, seja a ponta de dedo interrogador, pezinho mimoso de criança, chicotada de vento ou vaga batida. E daí que apeteça escrever na areia, superfície do efémero. Sente-se no areal a força de uma revelação prestes a eclodir. Há um segredo que se esconde, fragmentado, em cada grão de areia mas que já foi inteiro e óbvio, outrora, nas rochas primordiais. Os sentidos, tensos e doridos, apenas captam um rumor indecifrável e continuam à espera, suspensos da revelação. Tacteiam um tímpano que se ergue, alto como uma parede, ansiando por ouvir uma voz do outro lado. Se esta mão ociosa escava um pouco a camada evidente, os leves grãos de areia ficam densos e pesados. Uma secreta humidade cola-os uns aos outros, transforma-os numa muralha densa e espessa como o betão. Vale bem a pena encher com eles uma pilha de sacos para erguer trincheiras entre a carne e a metralha. Quando a mão se desenha em pá e rapa com força, a areia eriça-se e range como animal bravio a despertar, contrariado, no covil. O melhor será deixar os monstros escondidos em repouso, calar o gesto. O sol explode, desfaz-se em fina limalha de revérberos sobre o areal moreno que oscila e ondeia no ar a ferver. Tudo vibra na mesma comoção. É matéria a liquefazer-se ou o ar a materializar-se? De pouco serve descer as pálpebras. Trespassa-as o sol violentamente, como simples teia de aranha, e a luz apopléctica enche os últimos recessos das órbitas como se as encontrasse vazias. Quando reabrimos as pálpebras – porque vemos muito menos de olhos abertos – temos lá dentro, a arder num riso vermelho, duas bolas de fogo solar. O olhar está no areal porque o areal entrou para dentro dos olhos. Estou tanto no areal quanto o areal sou já eu. Logo à noite, pela frescura, viremos caminhar pelo areal e, com o pé nu, rasparemos ao de leve a areia molhada pela última onda para vermos de novo a areia a fosforescer com mil olhinhos de animais bravios escondidos na escuridão do solo.


Teremos entĂŁo, por instantes, todo um cĂŠu de estrelas metido no nosso pequeno rego aberto pelo gesto feiticeiro.


CAMINHO LARGO: VEREDA

À beira deste caminho largo, que prosseguimos como ciscos impelidos pelo vento, principiam outros caminho que nenhum de nós ainda percorreu. Vemo-los num lampejo abertos aos nossos passos, acenando por vezes com a sedução de um convite de ambos os lados de cada percurso, e lá tornam a ficar, intransitados, deixando-nos espetada uma agulha de culpa pelo trânsito que não foi feito. Apetece mais seguir um deles para o devassar, este, por exemplo, assim feito vereda a afastar-se do hálito dos caminhos percorridos, de roteiros e rotinas, em busca da aventura que nos promete ao obliquar em curva suave entre sombras frescas, com um piso irregular limpo de pegadas recentes, a sua quase virgindade. Ouço torrões de lama seca, doces como biscoitos, a estalar sob os pés e o mutismo das árvores, que é o seu silêncio, ampliar-se na atmosfera com a paz de cada coisa finalmente entregue a si mesma. Adiante a vereda dissolve-se no chão de mata como capricho passageiro, deixando-nos entregues à maranha florestal onde é difícil manter a lucidez sem desistência, orientar os passos, distinguir as espécies que nos tolhem. Por fim, atingimos com denodo uma clareira onde crepita a respiração ínfima de insectos e folhas caídas a secar ao sol e, depois, um vasto prado com pequenos soutos estendido a céu aberto como visão do paraíso. Não lhe faltam sequer borboletas voando aos saltos, em risco constante de se despenharem porque demoram cada bater de asas até ao último momento, com uma preguiça irreal que as leva, cambaleando, por cima das ervas verdejantes, de gárrulas papoilas. Anda no ar o cheiro de seivas a pingar entre urzes e rosmaninhos, talvez o do loureiro também, e outros, de flores e pólens, indistinguíveis por tão misturados, que respiramos devagarinho como reis sorvendo um manjar, de costas tombadas em fofos trevos, régio veludo. Ouve-se a voz da terra orquestrada com a música azul do céu, ali forrado de nuvens de algodão, e temos na boca o sabor das estrelas distantes. Pouco a pouco, uma presença estranha torna-se perceptível na esfera do nosso descanso. É um animalzinho prazenteiro e folião que surge a farejar-nos e, logo, a festejar-nos o corpo. Antes parecia uma simples folha caída de árvore, seca e enrolada como um bocado de pergaminho, mas é um ser bem vivo, tem a forma espalmada de certos peixes de aquário ou de uma grande folha de qualquer ramo, aí com um palmo de comprimento, só que possui focinho e olhos negros muito bonitos além de pezinhos no bordo e um pelame que dá prazer, muito prazer, acariciar. O animalzinho tem a meiguice das naturezas femininas, brinca connosco em jogos adolescentes, cabriola e esconde-se, reaparece em regozijo para mais mil festas no peito, nos braços e entre pernas, já anda sobre o nosso rosto com o seu fresco focinhito aí poisado na pele. Acabará, já se sabe, por desaparecer, regressando à forma enrolada por efeito da secura, mas neste momento é ainda motivo do nosso prazer, macia folha-mão onanista que se esconde para perdurar.


ANGRA E ARMADILHA

ESTE manto de relva lisa ergue no ar milhões de espadas de luz. Estende-se raso à frente dos passos, atraindo-os para que a pisem em absoluto silêncio, como eleitos do lugar. Em torno, duas colinas dispostas como parênteses abertos desenham no terreno um regaço esplêndido cavado em concha suave. Oferece-se em forma de angra protectora, com arvoredos e cômoros envolventes e um lago ao fundo. Chegar aqui uma manhã depois da tempestade dissipa o peso no peito, dá vontade de nascer de novo. Fios de água deslizam pela sombra das regueiras e derramam-se sem ruído através de pequenos aquedutos, à superfície do lago, mas tudo permanece silente, pairando como um sonho. Um cisne contempla, quase imóvel e absorto, as mínimas ondas que imprime no espelho das águas a estilhaçarem a pureza do arabesco do seu pescoço, e parece contrito. Em ilhota, no meio do lago rectangular, ergue-se um choupo altaneiro de um tufo de canas-da-índia. O negrume do tronco estende nas águas o seu traço grosso, atravessando colónias de limos, nenúfares em flor. A brisa adormecida nem um murmúrio extrai das folhagens. Nem um som quebra o cristal daquela redoma, espécie de instantâneo fotográfico recolhido pelo sol claro. O salgueiro-chorão estende os ramos quietos sobra a borda da água, onde se alinham tufos de narcisos de flor amarela. Não vibra sequer uma folha na linha dos plátanos que se prolonga, troco a tronco, rente a um banco de jardim colocado defronte de um barco sem remos, de casco virado, lá adiante. Espessas ramarias de cor verde-loureiro enquadram o lago ao fundo, onde desponta o telhado de uma casa. Para lá convergem a linha de um cômoro coberto de profusões de narcisos em flor e uma estradinha deserta. Poisadas na relva, duas aves nem se mexem, presas de encantamento. Tudo viceja num paroxismo de luxúria, estalando de prazer até ao delíquio, ao ímpeto imenso que vem da profundeza da terra e adeja no ar. De repente, a revelação. Estamos caídos em ardilosa teia da força cega que nos prende como moscas a devorar nas suas malhas. E não podemos fugir. Gerações de avôs e avós correram por aqui em busca de salvação; encontraram-se consigo mesmos naquela pontezinha sobre o canto do lago sonâmbulo e com um beijo fundiram os destinos mais adiante, sob o caramanchão propício. Salvaram-se na medida em que se perderam. Declararam-se amor recíproco sem perceber que era à beleza da angra, fecundada e fecundante, sobretudo à mediação da sua beleza, que em arrebatamento se sacrificavam. Está aí outra geração a chegar… e vai passar também por aqui, porque só esta angra persiste, as pessoas são demasiado transitórias. Ainda quando crêem amar-se, é a beleza da angra que imperiosamente proclamam.


PELO CANTO NA VOZ

A José Afonso FLORESCE o canto na tua voz. Simplesmente, como quem reaprende a falar para que mais o atendam e melhor entendam. Lentamente, como quem tacteia a sua própria face e a vai descobrindo plasmada na face dos outros e não se admira. Porque ter voz não chega. Todos a usam e no tumulto não se entendem. É como se ninguém falasse falando todos ao mesmo tempo, ou todos fossem moucos, ou andassem perdidos na torre de Babel. E, então, que poder terá uma voz contra os muros e as dores tantas da existência violentada? Para se poder ouvir uma única voz de cada vez, ou um grupo de vozes em coro polifónico, seria preciso restaurar o silêncio original desfeito, manter sob a violência a serenidade das montanhas. E ninguém comanda por inteiro as próprias falas, fios inúteis que se amontoam, emaranhados. É preciso cantar. É preciso cantar, sempre, para se fazer ouvir o canto por cima do tumulto, preservar a harmonia, construir a esperança. Uma voz solta concita outras vozes, arrasta consigo e desafia no entrechoque a desarmonia. Mas o canto sobreleva e extingue as vozes, nenhuma se considera mais digna de ser ouvida, competitiva. Emudece todo o ruído, torna criador o silêncio. O canto encanta. Faz-nos desejar que não acabe, que perdure e se eternize no regaço da sua própria melodia. É inefável e, quando cessa, deixa-nos reconciliados, felizes, em sintonia com as nossas águas, fecundados por um anseio de beleza maior do que todas as fomes. A voz divide e empobrece, o canto une e beneficia. Torna-nos melhores – coisa perigosamente subversiva, revolucionária, demolidora das ordens criadas. Sabe-o bem quem canta para animar a malta. Fala de amor e de liberdade porque não há mais tema nobre que mereça ser cantado. E não se repete porque o amor e a liberdade são inesgotáveis como o sonho e a vida. Por isso o canto floresce, sempre novo, na voz. Mas tem inimigos, monstros que despertam nas suas alfurjas a cada toque de beleza e ficam à solta. Querem proibir o canto, expulsá-lo da voz, embargar a garganta e encadear a harmonia – não apenas de estupor, também de maldição. Vã porfia! Os martelos da vontade continuam a bater nas cordas vocais retesadas e arrancam-lhes sons de tamanha amplitude que já não cabem entre o Choupal e a Lapa, têm a dimensão de um país encoberto, quem esperava que houvesse ali um cantomenino de ouro? Para atrás ficam luares de prata em noites de serenata, adeus Mondego, vê-se o mundo através dos buracos da tua capa, tantos vampiros o infestam e ainda tão poucos o sabem! Os martelos da vontade incidem com freima nas cordas vocais, um vento suão os acciona e é delas que tem de sair modulado o som mavioso que todos melhor entendem. Façamo-las, pois, soar como quem liberta as cantigas do povo prisioneiro!


Mas para amadurecer o canto, para lhe dar todo o sabor vibrante das cantigas de Maio, é preciso sofrer, martelar até à dor na bigorna dos sentidos, até ao rubro do esforço máximo, os sons arrancados à garganta como se fossem ferros em brasa. E tudo se organiza em arcos majestosos como a respiração, numa prodigiosa arquitectura de frases desenvolvidas em espiral num espaço tão transparente e luminoso, tão fruído, que reaparece o grão da voz circulando ao vento que nos impele, cantando, para o caminho da luta. O canto, agora, é mais do que canto, é som de carne e carne de som; é palpitação da história, legenda viva e bandeira rutilante, quando a morte sai à rua e todas as flores são cravos, em Grândola, vila morena, amorosa pátria nossa. O canto, então, torna-se de bronze. E fica. Colocado na voz, assim.


ESTE OLHAR QUE

ESTE olhar que envio às coisas traz abondo que contar. Rodeia num amplexo interrogativo cada forma encontrada, explora-lhe com minúcia a epiderme fácil em busca da sua natureza interior e por aí resvala, língua em vertigem, condenada a tactear o bordo dos poros que vê desenhados na luz como se fossem umbrais das portas do ser e o olhar esperasse que se lhe abrissem para desvendar os enigmas. E tu irrompes como sol nascido da noite mal poisam estas palavras no papel branco de neve, vens a deslizar em curva graciosa sobre o teu patim niquelado ainda ao impulso do salto perfeito que deste dos ombros do teu par para o gelo escorregadio, saudou-te a música num clímax de metais logo abafado pelos aplausos e já desandas, ave harmoniosa batendo asas, reaproximas-te em circunlóquio, ergues para mim uma coxa incandescente iluminada por feixes de revérberos, depois os braços em arco, ficas a rodopiar estonteadoramente como bailarina de caixa de música perdida na pista enquanto folhos de seda ondeiam apalpando-te as nádegas, oh, quanta comoção nos teus rins erotizados, impossível é saber onde começa a beleza do teu movimento e acaba a beleza da música, és gesto carnal feito harmonia ao vento, nem sequer se imagina que a tua respiração arqueja na boca onde triunfa o sorriso, que gotas de suor escorregam pelo teu pescoço juvenil direitas ao colo. Quando sai, atraído pelo desejo do outro, o olhar transporta diante de si o calor da sua excessiva radiação que deixa vidradas as superfícies onde toca, tornando-as impermeáveis ao seu contacto. Vê-se o olhar mais a si mesmo do que ao outro que o atrai, é este o seu drama de sempre. Mas não existe rumor de olhar frio, é só em avidez que se gera e projecta ao longo de cada viagem. Fitam-se dois seres e, na eternidade do instante, bolas de fogo saltam disparadas contra a espessura das vertentes, onde se abrem desvãos com matérias propícias à eclosão dos incêndios. Este olhar, de animal inquieto e sedento, permanece para lá de mim, próximo ou colado à coisa que ama sem poder tocá-la, incapaz ao menos de abandonar aquele espaço expectante de liberdade e frustração onde explora, se passeia e espreguiça entre coisas intangíveis. Ciranda lentamente como gato furtivo em busca de presa por cima dos telhados e depois, desenganado, com o desejo a gritar no meio das cinzas, arranha a porta de casa miando à solidão e à noite. O olhar que leva consigo estas palavras não é já o mesmo que chegou ao papel. Quando regressa à fonte, é outro. Perdeu o seu magnetismo, é apenas memória do que foi, resíduo. Entre o instante da partida e o da chegada há um percurso sinuoso com uma história de descobertas e transformações sucessivas. Porque o olhar fica colado às coisas que vê, desgasta-se a viajar pelas superfícies. É uma luz atraída pelas trevas, do lado oposto onde as trevas se redimem em luz.


AO SOL DO PÁTIO

O cachorro acorda da soneca e retoma uma das suas brincadeiras preferidas. Mordisca de leve as orelhas da mãe, insiste e rosna de prazer. Deitada no chão, ao sol do pátio, a cadela apenas entreabre as pálpebras, no alegre cansaço da maternidade. Deixa o cachorro escalar-lhe o pescoço macio e atingir, na cabeça, as orelhas que reagem como antenas direccionais a estímulos distantes, inaudíveis. O brincalhão pretende decerto mordiscar-lhe ainda as orelhas ou contemplar o mundo do alto. E se quisesse imaginar-se crescido, graaannddde? A mãe está visivelmente orgulhosa do filho. Ergue o focinho e arfa com delícia, semicerrando e escancarando as pálpebras. Varre compassadamente o solo com a ponta felpuda do rabo e parece comovida ao oferecer-lhe o corpo pródigo, qual montanha russa, para ele brincar. Mas o equilíbrio é difícil naquele cimo conquistado e o cachorro resvala com desgosto, caindo no chão. A cadela lambe-o, anima-o como se o consolasse. Toca-lhe no focinho com o seu focinho. Por fim, o brincalhão recupera a vivacidade, esquecendo o tombo. Vira-se de barriga para o ar, levanta as patinhas e brinca com o focinho da mãe, que se demora a lambê-lo. Simula um ataque, rosna qual adulto fingido enquanto abocanha a mandíbula materna, cruzando-a na sua como dois espadachins cruzariam as espadas. Mas a cadela sabe que a infância não é belicosa, apenas folgazã. Observa o seu cachorro com olhar doce e compreensivo, possivelmente feliz. Deve ser bom sentir a vida a cumprir-se na inteligência do instinto. A cadela baixa uma pata delicadíssima sobre a cabeça do filhote brincalhão e com infinita suavidade, um pequeno toque entre os olhos, impõe-lhe comedimento, maneiras. O cachorro fita-a com atenção, enruga a testa e, por um momento, parece preocupado. Detém-se. A seguir conclui que não há razão para cuidados e entrega-se a novas brincadeiras. Ensaia uns passos cabriolados em volta da mãe, que a espaços o observa. Dança nas pernas tenras, faz momices com todo o seu corpo, outro divertimento. Deita-se e abocanha as próprias pernas como se fossem as orelhas maternas ou borboletas que devesse caçar. Por fim nota o rabo da cadela num tiquetaque de metrónomo e logo transforma a cauda a acenar numa outra brincadeira fascinante. Agacha-se e salta sobre a presa repetidas vezes. Com entusiasmo, trinca-a um pouco nos dentes para a fazer sua. Incomodada, a cadela levanta-se soltando um latido seco. O cachorro está em falta e detém-se, contrito. De olhar baixo, espera ser perdoado mas, entretanto, a mãe não reage e ele esquece tudo num ápice. Esgueira-se em direcção a outro cachorro que se aproxima. Fareja-o, incitando-o a brincar. Corre em festa pelo pátio, cheira um gato com simpatia e um canteiro de flores, que molha, sai à rua e, jubiloso, vai às mãos de crianças e ao colo de adultos, gente desconhecida cujas caras lambe, prazenteiro, até que a mãe, apercebendo-se, se aproxima e o chama para dentro. E o cachorro lá vai, contrariado, trocando a rua cheia de animação e novidades, mas também com perigos, pelo pátio calmo e já familiar, mas seguro. Não será preciso estar bêbado de lucidez para descobrir um segredo de polichinelo tremendamente escandaloso: as mais impressionantes manifestações de


ternura maternal encontram-se, com frequência, não entre os humanos e sim entre os humildes animais irracionais. Maravilha todo o amor que é capaz de dar aos seus filhotes uma vulgar gata, uma cadela, uma vaca, qualquer fera selvática, desde que nos ponhamos atentos a observá-las, cuidando das suas crias. É bem possível, então, que surja no observador uma vontade funesta de conduzir todas as mães e todos os pais do mundo dito civilizado aos covis dos animais inferiores para com eles reaprendermos o que esquecemos… Mas nem todos os filhotes de cadela são felizes. Pelo menos não pode sê-lo o cão que vejo a ladrar raivosamente a quantos passam diante do seu portão. Guarda a entrada de uma fábrica de confecções onde, nos intervalos, se juntam raparigas em magotes. Algumas são ainda crianças e todas comem breves refeições sentadas nos passeios em redor. Lêem publicações românticas sem olhar para o que ingerem, sonhando por certo com casamentos, paixões. E, entre as raparigas, o cão fareja os restos. Ladra contra os passantes que deslizam por ali, sem exclusão das crianças. Avança em arremetida, dentes arreganhados, numa cólera imensa, excepcional. Treme nas pernas frágeis, agitado por uma ira muito maior do que ele. Assim convulsionado, fica incapaz de morder as pessoas, incapaz sequer de abandonar o sítio, sair à rua, e põese a girar como um pião em torno de si mesmo, arqueando o corpo num círculo. Acaba mordendo as próprias traseiras, já em ferida, e só depois acalma por algum tempo.


GUITARRADA

A Carlos Paredes TOCA o guitarrista a sua guitarra. O que se ouve neste país pequeno é mais do que um som de cordas tremulamente feridas, trinos a sucederem-se tão rápidos que parece tombarem à pressa para esconderem de nós a sua beleza – é o peito português a vibrar, aguilhoado, no chão onde a beleza, quando nasce, sem demora falece. Vejam-no tocar. O guitarrista dobra-se sobre o instrumento como se fosse o seu próprio umbigo, encrespa-se sobre as cordas tensas e morde, sôfrego, o próprio lábio até sentir o gosto do sangue. As suas mãos trabalham com unhas frenéticas, há uma força impetuosa que o aspira por dentro, o espreme, e quase lhe esconde a corpulência assim enrolado como hera apaixonada em torno da guitarra, mãe soberana das nossas dores e, por fim, eis a dúvida crucial: soam mais as cordas dedilhadas ou os nervos no corpo tocado do guitarrista? A guitarrada portuguesa é de Coimbra mas vibra nitidamente no país inteiro, sua caixa de ressonância. Seja a que hora for, toca sempre a meio de uma tarde calmosa do Outono, quando as derradeiras andorinhas voam ao encontro do seu beiral e uma solidão nostálgica avança com a primeira frialdade da noite. Antecipa a hora crepuscular, cheia de presságios, e ninguém explica porquê. Espalha um som breve e frágil, intenso como choro de adolescente agrilhoado. Nasce em ondas argênteas, nutrido por sentimentos tumultuosos guardados em recato, entre segredos inconfessáveis, para lá das janelas com vasos de manjericos ou de um cheiro a sardinhas ou castanhas assadas. Espeta-nos agulhas magnetizadas na carne, atrai o sangue a uma volição moura dos sentidos, a um langor hipnótico espesso: não é mais som, é radiação pura, contaminação, fosforescência. Ressoa nas águas-furtadas onde gatos sonolentos apanham sol e há roupas tristes a corar penduradas nos saguões. Arrepia como um pressentimento e deixa a boiar na memória o ácido de uma melancolia que a si própria se compraz e justifica, resto diluído de um qualquer remorso abandonado entre as brumas do esquecimento, noutra vida. Sente-se: não foram os Descobrimentos que deram uma alma aos portugueses. Foram os portugueses que, depois dos Descobrimentos, depois da lira e do alaúde, depois do cistro e da cítola medievais, ficaram a arder com uma alma sem forma, ou uma forma sem alma; duas mãos feitas do frenesim de milhentas outras mãos anónimas pegaram na guitarra que era de todos e tornaram-na sua: amassaram-lhe o feitio e dos destroços saiu, nova em folha, a guitarra portuguesa quase com feitio de coração, o vértice virado para cima e prolongado pelo braço de náufrago a ondear na tormenta. Nas mãos do guitarrista, é barco em viagem por oceanos de luar, transporte de sonhos muito sonhados que é preciso continuar a sonhar para que os sonhos, ou ele, se cumpram, braço ortopédico que inventa fugas e toca longes visionários. O guitarrista, agarrado àquele coração náufrago, apoia-se agora em cada uma das seis cordas duplas com a determinação do evadido a escalar o alto muro da sua liberdade; explora-lhe os bordões como se fossem o único chão seguro dos seus passos em pleno céu de estrelas. Que maravilha! É incrível a extensão expressiva daquelas doze cordas, por elas corre e são inesgotáveis. Permitem ao guitarrista conseguir tudo,


obter melodia e acompanhamento, tornar absoluta a solidão do seu canto, juntar mel e fel, remorso e expiação. O guitarrista cresce, avulta, cresce ainda mais, continua a tocar no seu paísprisão e, por cada acorde perfeito, há uma parede a ruir algures, a liberdade a expandirse. O som da guitarra dissolve os granitos mais renitentes, não há muros nem muralhas que resistam à sua emoliência, eis-nos à beira do ar livre, já rasamos o espaço aberto. E continuamos aqui.


SOM DE ORIGEM

UM pingo de chuva cai do telhado sobre o tampo de pequena vasilha de lata debaixo da minha janela. Oscila ao sopro de vento sobre aquele tambor e produz sons ritmados, melodiosos. Dou comigo a cogitar na magia da música. Sei que é inexprimível como o silêncio, mas demoro-me em teimosia. Penso, penso, e cada vez menos sei, e cada vez mais me maravilha a beleza deslumbrante de uma única nota a soar, nítida e cheia, no ambiente e nos sentidos. Perco-me a descobrir como seria encantador separar das restantes companheiras uma das notas mais vibrantes e rotundas, um sol, por exemplo, e suspendê-la no ar como um sol radioso autêntico. Gostaria de ficar, embevecido, a contemplar-lhe a forma, a sentir-lhe a intensidade cromática e a vibração, gozando-a com sensual alegria. Poucas pessoas, infelizmente, sentem prazer com uma nota solta a perdurar no ouvido. Queixam-se de monotonia, quando Tortsov, alter ego de Stalinavski, nos fala de um ano inteiro de exercícios feitos para conseguir modular na boca um único som, daqueles que os cantores sabem produzir. Cada nota musical é um pequeno mundo de belas vibrações que se fecha e disfarça entre as restantes de um trecho em execução porque lhe cabe durar pouco. Deve morrer em seguida para que as outras notas surjam e se articule uma linguagem, essa, sim, destinada a permanecer. Mas deverá cada nota surgir apenas em função do papel que o plano geral lhe atribui, ressaltando não como nota isolada mas como parte indissociável de um todo? Certas pessoas acreditam que as notas de música não poderão existir isoladas umas das outras, de tal maneira se habituaram a senti-las associadas em grupos melódicos. Acham que elas existem exclusivamente para servir o Compositor da partitura na realização dos seus inspirados desígnios. Fazem finca-pé em argumento que supõem inexpugnável: com uma só nota, nem o mais genial músico executa a mais irrisória melodia. Quer dizer, notas isoladas não têm valor para tais pessoas. Porém, desse modo, a individualidade plena de cada um dos sons, com a sua energia e a sua dignidade estética próprias, obliteram-se irremediavelmente, na medida em que forem utilizados, não pela sua virtual totalidade mas tão-somente pela sua capacidade de convergência ou, também, de divergência com os outros. Assim, cada som nunca chega a frutificar e a resplandecer por si mesmo. Morre sem fruir uma existência autónoma, plena e reconhecível, à qual, aliás, tem incontestável direito. Pelo contrário, some-se na escuridão antes de poder brilhar com individualidade própria, desaparecendo como qualquer letra utilizada na composição de um poema feito de palavras. Os poucos sons que chegam a pontificar durante breve momento sobre a massa dos restantes, que ofuscam, não tardam a perceber que a sua aparição se cumpriu em estrita obediência a um projecto todo-poderoso que os subordinava sem jamais lhes conferir a devida autonomia. O Compositor nem a esses raros liberta da sujeição, nem a esses poucos dá tempo para nos impressionarem os sentidos, fundindo-os sem remissão no todo da obra que lhe interessa para que só esta vingue e perdure.


E veja-se a riqueza inesgotável que se contém no denso corpo de uma única nota sempre que, bem despertos, nos dispomos a ouvi-la, a deixar-nos penetrar por ela! Quem diz que não há música no interior de uma nota isolada? Experiência incrivelmente reveladora: tomar um puro som, elementaríssimo, como um copo de afrodisíaco vinho! Eis-nos a repetir esse som para que reine nos lagos de paz dessa hora e possamos reconhecê-lo nos tímpanos, diferente de todos os mais, a existir de corpo inteiro e a vibrar sem mutilação… E como é bom saboreá-lo vagarosamente, repetidamente, sentindo-o nascer e morrer, percorrer a nossa pele, instalar-se na carne, retesar os nervos e as cartilagens até à sua completa exaustão física, deixando depois sobrevir o eco na memória! Uma nota é um mundo fascinante, sete notas são já um universo quase imperscrutável. As harpas milenárias dos poetas gregos e romanos eram assim breves e serviram para cantar com elevação feitos de homens e prodígios de deuses. O pastor que desce dos fraguedos tocando a gaita arranca gordas lágrimas aos contemplativos olhos de bois e vacas. O encantador de serpentes continua a encantar com uma flauta também sumária e as sereias que pretenderam atrair Ulisses não lhe deram a ouvir nenhuma sinfonia…


O BEIJO DA NOITE

FOI no preciso momento em que esticou o braço para poisar o livro e apagar a luz na mesinha que a voz calada se fez ouvir: “Dá-me um beijo de boa noite!” A mulher, afinal, contra as aparências, não dormia. Apanhado de surpresa, remoeu na boca um som cavo, contrafeito, que tanto poderia dizer um “oh!” a exprimir que, evidentemente, era tarde demais para atender o pedido, como poderia dizer “ora!”, interjeição terminante de quem rejeita a ideia mesmo como simples hipótese no presente e o futuro. De qualquer maneira, sem delonga, virou as costas e fez por adormecer. Mas, enquanto o sono lhe envolvia o corpo em serpentinas de abandono, matutou. Teria ela falado a sonhar? E dissera exactamente “Dá-me um beijo de boa noite”, ou teria dito “Dá-me o beijo da boa noite”? O pormenor fazia a sua diferença. Com este último teor, o pedido tornava-se-lhe mais benigno, aludindo com alguma inocência à época nupcial em que ambos em arrebato trocavam beijos por tudo e por nada, até para se desejarem boas noites. Exprimiria nesse caso o desejo dela de que esses velhos tempos não esquecidos ainda pudessem durar. Contudo, ela falara num tom neutro, aparentemente quase impessoal, como se através dela passasse uma voz alheia, mas isso só servia para iludir. O pedido manifestava sem dúvida um reparo e, por certo, uma queixa, uma recriminação: “Devias dar-me um beijo e não mo deste!” Ou, talvez, também, “Já me deste um beijo em tempos, sempre que adormecíamos juntos, e agora apagas simplesmente a luz e, em silêncio, viras-te para o outro lado.” O pedido traduzia, no fim de contas, uma feia exigência, um conflito conjugal. A mulher postava-se diante dele na figura do cobrador de dívida assumida. E o que lhe devia ele? Nada e tudo, na duplicidade da mesma evidência. Enfim, não lhe custaria muito esforço atendê-la. Um beijo era bem pouco, até poderia dar-lho distraído, a pensar noutra coisa. E, devia reconhecê-lo, se ela queria um beijo, era porque ela queria dar-lhe outro e, sem o concurso do homem, não podia, ficava-lhe o beijo pendurado nos lábios como um insecto morto. Espantosa era a necessidade da mulher se sentir constantemente aceite e querida. Mas tamanha fome retraía-o, fazia-o sentir-se escasso. De repente ficava sáfaro e seco como poeira do deserto. Tanta solicitação constrangia-o, era uma ameaça à fluência dos seus mais caros sentimentos, à sua liberdade. Ela devia perceber isso, talvez até sentisse também, claramente, a mesma secura na própria evidência, mas insistia. Queria manifestações românticas constantes, fossem espontâneas ou rituais. Lutava contra a natureza para a corrigir, desafiava a realidade desgastada dos seus oito anos de matrimónio, e a ele só restava a ironia de relembrar a reticência com que a mulher, rapariguinha, correspondeu outrora aos primeiros beijos que lhe dava como se estivesse a conceder-lhe mais do que devia… E ele, sorrindo para longe no tempo, tinha agora de a deixar pedir em vão um “beijo de boa noite” para obedecer à alternância das situações.


CORAÇÃO DESCOBERTO

QUANTAS pessoas conhecemos e estimámos ou amámos de algum modo, desde os anos da primeira juventude, e depois ficaram para trás perdidas nos enredos dos nossos itinerários? Apercebemo-nos do caso quando estamos já na maturidade e duas sensações contraditórias nos dividem, guerreando-se dentro de nós: teremos realmente vivido todos aqueles trinta anos ou estivemos a sonhar numa sesta de Verão? Teremos vivido já cem existências na única que nos é dado viver? Basta reencontrar uma das caras conhecidas após longo eclipse para que a memória estremunhe do seu sono de pedra. Caminhamos na rua e, de súbito, na corrente de semblantes fechados, eis uma fisionomia que se abre diante de nós como um girassol e um brado alegre nos chama. Alguém que conhecemos de perto, durante a juventude, salta do chão raso como boneco da caixinha de surpresas, de braços abertos a fazer ponte por cima da quantidade de anos passados, digamos convenientemente obeso e adaptado ao ramerrão da existência, com filhos e netos, a perguntar por nós, querendo saber tudo na apressada osmose de um abraço. Relembra episódios há muito esquecidos, pasma com tanta desmemória nossa, indaga de outros companheiros em sumiço e demora-se a fitar-nos, comprazendo-se num olhar que se pretende antigo e é apenas nostálgico… Então, espreitando por esse postigo da memória aberto de súbito, é que uma pessoa se apercebe das solas que gastou correndo pela estrada dos anos. Para trás deixou longas filas de pessoas por entre as quais viajou. E só então vê essa gente postada ao longo do seu itinerário, melancólica galeria em ala abandonada de castelo nevoento, árvores esquecidas a debruar um caminho… Conhecemos pouco e amamos ainda menos. Sempre. Podem as memórias levar-nos ao engano, mas aí está o indómito coração a gritar que não foram de mais aquelas tantas pessoas que connosco partilharam alguma existência até entrarmos na roda dos cinquenta anos. O mais alto grau de socialização de um sujeito nunca consegue extirpar por completo a sensação atroz do “não vivido”. O reencontro na maturidade com pessoas que outrora conhecemos, estimámos ou amámos, torna-se mais empolgante do que a leitura dos melhores romances. Mas também resulta mais terrível. Caso a caso, é empolgante como a visão do desenho que andou em tempos perto de nós em esboço, ou projecto em gestação e que revemos depois “completo” por iniciativa estranha, com um sentido geral que recebeu de qualquer força incógnita. Mas resulta bem terrível porque nos revela, da maneira mais concretizada em acto, como foram capazes de construir as suas biografias, e mesmo as suas aparências, os companheiros e companheiras da nossa juventude. É impossível, então, evitar confrontos entre o embrião juvenil e a obra consumada. Ficamos a interrogar a vida que passa por nós e a nós que passamos pela vida, chegando talvez a uma conclusão. Carne de gente é barro mole, moldável na cerâmica do tempo – o grande corruptor – como o mais dócil material de escultura.


ARTE DE GEÓMETRA

A Nadir Afonso e Guima A obra lança-me, da parede, um repto. Está ali há mais de vinte anos, nova como se viesse de ontem, feita da imutável serenidade do que habita numa bola de sabão, ou seja, num plácido mundo construído dentro deste por calmas mãos de arquitecto. Mas, mesmo assim, a obra desafia cada vez mais e chega o momento de lhe dar resposta. Deixo o olhar prender-se no anzol das suas linhas e volumes dominantes, enredo-me nas suas proporções e densidades cromáticas para entrar nesse jogo, surpreendê-lo na própria organização interna do seu movimento. Trata-se de uma construção absolutamente racional, um minimundo cinético em suspensão, que explora as leis matemáticas e suas inter-relações, à procura de equilíbrio pelo caminho rectilíneo que conduz à harmonia e, por aí, até à música. Está lá tudo, dizes, e eu vejo tudo reduzido a uma linha essencialíssima, descarnada por um implacável sopro, um feroz rigor. Os planos sucedem-se ali, constelando-se em desenvolvimentos lógicos sucessivos a partir dos factores iniciais introduzidos na tela. Constróis à mesa do estirador, sobre tampo liso e afeiçoado, atido à repousante firmeza do tira-linhas ou, noutro caso, do pantógrafo, sem um desvio, sequer a sombra de uma hesitação. Pretendes ordenar o espaço, ilimitá-lo na medida em que o limitas em cada quadro bidireccional. Talvez queiras emocionar-me nesse jogo, conduzir-me em viagem pelas tuas linhas de fuga, como se desses a ouvir a pura música dos números ou das esferas. Todavia, com a tua matemática rigorosa, processas em mim a anulação impositiva de toda a emoção em nome de um radical racionalismo. Praticas a arte de geómetra; em suma, cada obra tua é uma equação resolvida. Tem a perfeição das coisas sem idade, a aura convincente dos problemas equacionados que se penduram na parede como diplomas de mérito. E porfiam no seu ambiente urbano, teimam no formato rectangular deitado, como se não restasse o mais leve assomo de inquietação para sacudir tanta calma. As próprias tensões geradas nos planos e nas intersecções surgem ali para se resolverem de imediato e tudo se ordena na obra com vista a um desfecho aceitável, como se o quadro fosse um tabuleiro de xadrez na mão de um único jogador. Cansa-se o olhar dentro da harmonia acabada, assim tão longe da natureza, onde escorrega constantemente pelas linhas rectas e curvas dispostas de forma cinética no espaço. Por fim, o olhar refugia-se na inocência do vácuo branco, interroga-o e depois atravessa-o, saindo do quadro. Salta para a sala contígua, onde se compraz na pincelada vigorosa e larga, comovida, que envolve um grupo de sargaceiros de Apúlia na faina, com o azul sobre os ombros e oleados a escorrer salsugem e suor. São lavradores do mar, seres anfíbios de linhagem fabulosa. Empunham ancinhos matinais como pendões triunfantes e, no alto, põem a flutuar rolos de algas verdosas a escorrer água. É trabalho e também festa. Homens e sargaços, mar e terra, tudo ali ondeia ao frémito ardente da mesma energia cósmica apaixonada…


CHUVA DE MAIO. DESTROÇOS

CHOVE agora, é Maio. Os ventos andam carregados de pólens, mas os pingos, nas faces dos transeuntes em fuga, caem sobre destroços. Diz-se que a chuva de Maio, recebida na cara, torna belas as pessoas. Diz-se. E ninguém repara (decerto porque os olhos vêem aquilo que o cérebro já ilumina): por baixo das aparências, às vezes nem tanto, as pessoas estão a tornar-se feias, mais feias que nunca. Preferível é a reclusão em casas, o gesto friorento, a melancólica visão da chuva ácida, em gordas camarinhas de lágrimas, cobrindo os vidros das janelas. Preferível a claridade lívida a trepar pelas paredes, fria lâmina de faca espetada até à fundura no teu refúgio. Difícil, quase heróico neste tempo, quando a solidão cresce rápida entre metamorfoses detestáveis, é dispormo-nos a ouvir o silêncio como quem sonha e a captar, num encontro pleno, as pequeníssimas vibrações de hoje que prometem estrondear amanhã. Antes da chuva, ainda há pouco, as moscas vinham, voando, bater com a cabeça de encontro ao vidro desta janela. Atraídas pelo seu brilho, incapazes de lhe resistirem, davam meia volta, ganhavam outro ímpeto e tornavam a investir de cabeça baixa, como touros minúsculos, contra a barreira invisível, talvez à procura de uma brecha. As pancadas produziam estampidos, leves mas audíveis, era como se as moscas estivessem de fora a chamar para as deixarmos entrar. Agora a chuva parece ter-lhes refrescado a cabeça, são outra espécie mortal refugiada algures, nas dobras das paredes, em humildes interstícios, à espera de melhor tempo, para regressarem. Uma feira infinita de alaridos vai-se misturando no ar com espessas névoas, é isso (lava de sangue, lama de gases) o que existe e podemos respirar, morrendo mais depressa a cada inspiração. Já nos envolvem pastosas sombras de todo um continente e é nesse oceano de terra-ar que as linhas mais fortes dos perfis uma a uma se dissolvem e tudo se amalgama em ambiente de desastre. Impossível é concluir se estas águas existem como as vejo, agitadas por uma suave ondulação e quase limpas, porque agora sei anuladas todas as distinções entre líquidos e sólidos, entre terra e água, fogo e ar. Mas… eis! Nessas águas antigas emerge o rosto de uma criança, vogando quase à tona, feliz como se cantasse. Lembra o rosto de um anjo barroco emergindo da profundeza do mar. Por momentos distinguem-se-lhe a pele rosada, os olhos claros, os cabelos macios, os lábios entreabertos sob as águas, como se através deles corresse uma mensagem musical. Ninguém poderia fazer algo, tentar ao menos um gesto de salvação para escapar à culpa e ao remorso, e de súbito o inocente rosto afunda-se de novo entre os limos, desaparece na espessura das águas arrastado por poderosas correntes para mais tarde reaparecer num outro ponto e de novo nos sobressaltar, sempre a sorrir, feliz como se cantasse, num silêncio absoluto. A visão ilumina-se e fica sem mistério. O rosto daquela criança é o meu-nosso, sepultado nos escombros dos anos entre as urtigas do esquecimento. Mas o ser não morre, permanece connosco vivo e cativo, para ressurgir com a primeira maré à tona das nossas águas e nos prender em radical paralisia os membros e a vontade.


O ser inicial continua a habitar em nós num esconso desvão, transportamo-lo quando ligeiramente o não sentimos ou imaginamos tê-lo liquidado às nossas mãos num qualquer dia louco, porque ninguém se suicida a apertar o próprio pescoço e sempre nascerão no mundo novas crianças, suas exclusivas medianeiras, para nos cegarem o olhar com a sua face. Felizes, afinal, são aqueles a quem a visão assalta através dos anos, reabrindo a chaga da dor e do remorso no espaço carnal do prazer e da alegria, onde ocorre o terrível reencontro do ser com a sua origem. Vencendo o pavor e a vertigem, poderão tentar sorrir em resposta para aquele rosto de anjo barroco emergindo das profundezas e entreabrindo os próprios lábios como se através deles corresse uma mensagem musical.


OBELISCO E FAVAL

NESTA superfície sensibilizada, mero suporte, se oculta a imagem. Aguarda a revelação desde que ficou impressa e agora, mergulhada em águas de reagente e fixador, começa a despontar debaixo da esponja que a mão desloca em círculo, amorosamente. A imagem começa a ganhar definição. Três bossas sucessivas já se recortam, peladas, num espinhaço de montes. São três torrões geológicos esquecidos em planície cinzenta com outras tantas pregas de vales penugentos a descerem, quase a prumo, até à estradinha coalhada de pedra solta. Quem quiser traçar-lhe a linha esquemática terá que desenhar ali a letra eme mais perfeita dos calígrafos. No cabeço intermédio aparece espetada qualquer coisa que mal se adivinha ainda, a tremular como que através das ondas de calor ensandecido. Parece um mastro reproduzido em superfície aquática deformada pelo vento – o reflexo de um reflexo. Será, porém, lá longe, coisa mais corpórea, um pesado monumento, uma construção votiva posto que de escala duvidosa, considerada desta perspectiva. Intrigante, pelo menos. Ou será um obelisco. Daqueles que outrora serviam para assinalar vitórias militares de outro modo esquecíveis. E terá dimensão bastante notável, a avaliar o seu porte em relação ao monte, a esta distância-luz. Naquele cabeço se terá decidido uma qualquer batalha importante. Em lutas corpo-a-corpo, armaduras contra armaduras, as espadas faiscaram no ar antes de vararem o peito do inimigo e os cavalos relincharam, de crinas levantadas, entre nuvens de poeira e metralha, hesitando onde poisar os cascos porque o chão avermelhado se enchia de mortos e feridos. Mas a vitória coube aos melhores, redimiu-lhes as dores daquele dia. Aclamado em triunfo, o general foi beijado por uma bela rapariga, das que nunca faltaram para dar ósculos aos heróis, e depois nasceu o obelisco, testemunho de virilidade invencível, por isso redondo e erecto como um falo ou como um palito espetado no bolo, eminência da mesa. Deve ter um prisma a encimar a coluna e, no sopé, bem alto para gerais admirações, legendas em bronze entre palmas incrustadas no mármore que as chuvas impregnam de longas manchas de azebre. No entanto, onde se vê na imagem o obelisco pode estar a chaminé de uma fábrica, género de coluna herdeiro daquele na paisagem desde que se transformou a arte da guerra e não mais se combateu pelo domínio dos cabeços, sim das cabeças. Porém, se se trata de uma chaminé, a fábrica que por ela respiraria no topo do morro encontra-se de certeza abandonada e em ruínas. Será peça digna de museu industrial, dejecto da vertigem tecnológica, memória de volfrâmio ainda a arder em febre. Na parte inferior direita da imagem surgem amontoadas paredes decrépitas de casas mortas, a sugerir ali os escombros de uma povoação-fantasma. Num terreno entre paredes, um faval. É isso o que a imagem mostra por fim, sob a esponja molhada que a mão continua a esfregar em lentos círculos, repetindo o gesto pelo afã do apuro ou levada talvez pelo gosto de imaginar que é assim o que assim não será.


Torturado pela fricção, o suporte adelgaça-se ao ponto de já revelar, à lupa, para além da imagem, a sua própria textura interna, espécie de estrutura alveolar ou grade de prisão, através da qual, projectando a vista em contra-luz, é agora possível descortinar longes iluminados.


ANUNCIAÇÃO

SUBITAMENTE, hoje de manhã, ao dar com os olhos na rapariga, senti: a Primavera está a chegar! Esquecera-me de que o Inverno haveria de terminar por fim e ela limitara-se a erguer a mirada do livro quando abri a porta do café, trocando comigo um breve olhar vagamente cúmplice. Ao sentar-me numa mesa próxima, novamente os nossos olhares se cruzaram em reconhecimento ou saudação. Encontrava-a ali a estudar, matinando numa pequena rima de compêndios em companhia de calculadora de bolso que, à sua direita, me afligia como um quadro torto na parede e, por isso, sem nos conhecermos, quase nos conhecíamos. Mas o olhar da rapariga, esta manhã, parecia diferente. Uma anunciação. Vejo-a a sorrir (para si mesma?) e percebo no ar um frémito novo, seivas e sóis a acordar, uma ebulição recôndita a prometer aleluias. Porém, não se entendia o que a tornava diferente. Os seus olhos cor de mel cintilavam, irradiando luz como janelas iluminadas de uma casa aquecida por dentro. Neles, no clarão do seu brilho, podiam ver-se duas figurinhas de crianças a correr entre estevas para colherem flores e uma mulher de corpo maduro voluptuosamente reclinada, em doce expectativa. Apenas isso. Todavia, aquele olhar abarcava as coisas nos seus lugares, aceitando-as com simpatia; saudava o ressuscitar da natureza no termo da hibernação – concluí eu, pedindo o café e desdobrando o diário. De facto, iluminava-lhe o rosto um esplêndido luar tropical, acrescentei, observando-lhe a epiderme que, revelando a carne escondida, parecia sorrir de contentamento, e os cabelos sedosos como plumagem de rola no cio. Certamente, o estudo “não lhe rendia” esta manhã, primaveril em excesso para tanta da nossa invernia, e eu tardava a folhear o jornal novo sempre velho, procissão gemebunda de tristuras e misérias. Sabia bem contemplar a rapariga, recebê-las nas retinas como um aceno alegre e cordial, indício cósmico (enganoso) de que os piores tempos já haviam passado. E a rapariga não repelia a observação, agradava-lhe até, como se alimentasse no seu corpo uma fome secreta. Retribuía-os francamente, achando-os naturais, só não compreendendo bem, por certo, que ambos, cada um à sua mesa no café hoje quase ermo, estivéssemos em contacto através de olhares e, como idiotas, não nos apresentássemos a dizer olá, a comunicar oralmente. Mas, vejamos, eu até sou retraído. Tacteio muito mal as zonas de intersecção nos muros gregários. Todos os seres têm uma respiração própria e eu apenas conheço uma, a minha. Não chega. Dobrei as notícias, só desgraças em cima de escândalos. Por que não haveriam de merecer os jornais o que deles disse mestre Rubem Braga, em Maio de 1951, numa das suas admiráveis crónicas? Como quem aceita a contrariedade de um devaneio, criticando-o, pensei: cá temos a importância de uma rapariga e um homem se falarem ou não! Cá temos a importância da palavra feita verbo! Ela ia afundando mais e mais o rosto nas páginas dos seus livros, rabiscava apontamentos agora com expressão quase diligente. Erguia os olhos cor de mel e


passeava-os pelo café, corria-os pela rua através das vidraças. Pareciam rir-lhe na cara luminosa. Ela sabia, de certeza, que “era” bonita, mas provavelmente diria que “estava” bonita, pois as mulheres poucas vezes acham que atingem o ser, basta-lhes o estar. Eu tinha a sensação reconfortante de que a Primavera já triunfava sobre o frio e a noite, mas comecei a sentir também, de novo, que esta Primavera não nos traria os esperados frutos nem viria como devia vir.


RESTOS CALCINADOS

UMA frase chega ao papel com a força do espirro. Contém uma afirmação talvez nova, espécie de ilhota inventada onde podemos poisar o pé e sonhar com outro mundo. Por isso é importante a sua revelação. Mas, sobre o papel, a frase, isolada, esfria e empalidece pouco a pouco como brasa tirada do lume. A ponta da esferográfica enfiou cada letra em cada palavra como se enfiasse pérolas num colar, na exultação do nascimento. E agora ali está a frase escrita a negro sobre a alvura do papel, diante da vista, à espera. Os olhos percorrem-na, relêem-na vinte vezes a sondar-lhe os alcances e os sentidos tentando reencontrar o seu magnetismo. O que exprime, exactamente? É difícil averiguá-lo, apenas se avança aos círculos, por aproximações sucessivas, em direcção ao miolo nuclear das palavras. Apetece riscá-la, amarfanhar o papel, pensar noutro assunto mais motivador, pois se mantém nesta superfície de areias movediças a necessidade de inventar algures uma ilhota onde apoiar o pé e sonhar um mundo novo. E aquela frase constitui um pequeno, minúsculo território firme, que parece pulsar com vida própria, mas teima em não crescer vivazmente com a faceira espontaneidade das naturezas generosas. Parece difícil acrescentar alguma coisa àquela frase inicial, como se contivesse o infinito e tudo o mais ficasse de fora a sobejar. A segunda frase tem de confirmar a afirmação contida na primeira e de a expandir até certo ponto, como em nós os membros expandem a cabeça e o tronco graças a desenvolvimentos escalonares. Mas ela tarda e a vertigem eclode sobre o papel, pois seria possível escrever em seguida milhares de frases diferentes e apenas uma delas será adequada ao caso. Por fim, a espera compensa. O humor desata-se e a esferográfica, como quem descobre o ovo de Colombo, acrescenta a frase apetecida, que encaixa perfeitamente na afirmação inicial e a deixa iluminada, abrindo passagem para ulteriores crescimentos. Depois, com o balanço tomado, anota outro período que decorre naturalmente dos anteriores. E assim se completa o primeiro parágrafo. Aquelas palavras, num jogo de espelhos convergentes, concentram energias recônditas que se distribuem numa espécie de rosa-dos-ventos imaginária, abarcando um dado espaço da realidade. Vai tornar-se indispensável, agora, reverter constantemente a elas para articular o desenho interno do texto significante e, nele, a integração de cada parte até final. Não será difícil, tudo está inscrito microscopicamente no primeiro parágrafo, redondo como uma célula, e por isso basta apalpar-lhe as zonas de pressão e seguir-lhe as pistas sem desvio, ao modo do artista que passa a nanquim o que riscou a lápis. Mas, afinal, torna-se difícil, tremendamente difícil, realizar o objectivo exactamente porque tudo se encontra já preconcebido, projectado. As palavras têm enleios de sereia, resistamos-lhes, pois, a partir daqui, requer-se tão-só a execução pouco atraente de um roteiro ou caderno de encargos. A esferográfica devaneia, é burro que não se afaz ao rego, enquanto as palavras são águas prisioneiras de rocha abrasada que nem sequer as dá pingo a pingo. Entretanto, o telefone chama, a mulher pergunta, o altifalante do vizinho clama cenas horrendas, o frio aperta, as horas voam e, por hoje, acabou. Recomeça-se uma e outra vez, é preciso retrogradar ao início, desfibrar a carne do tema, reler tudo com


paciência pela centésima vez para sentir o ritmo, a força e a temperatura do tecido da escrita que pouco a pouco se faz. Um texto luminoso e cálido é tão sensual como a epiderme de uma mulher apetecível. Tem relevos e massas musculares evidentes e axilas que podemos explorar com o prazer de quem segue um rasto de perfume deixado na atmosfera. As folhas rabiscadas vão-se enchendo de emendas, quase se tornam ilegíveis. É preciso passá-las a limpo, decantar a prosa repetidamente, pois cada operação destas equivale, nos seus resultados, ao lavar de areias do rio pelos pesquisadores do ouro. A escrita vai melhorando, despoja-se de excrescências, fica tensa e mais clara. É trabalho gostoso mas também torturante. Extenua o esforço solitário feito para estender palavras por cima dos abismos, vencendo o terror e negando a secura. Mas é assim que o autor-leitor se vai reconstruindo a si mesmo, passo a passo, em cada folha. Produzido, o texto assume-se como uma representação que tende, cada vez mais, para se bastar com identidade própria. Está quase pronto, faltam apenas umas linhas, algum retoque eventual, para em seguida ser dactilografado, revisto e… metido na gaveta. O autor releu tantas vezes aquelas páginas que as julga ter decorado. Gosta delas, assim ágeis e enxutas. Dir-se-iam restos calcinados, memória tão impessoal, agora, que já não pode pertencer a ninguém. É preciso deitá-las fora, dá-las ao público, sabendo-se que o autor as terá lido mais vezes do que todos os seus outros prováveis leitores reunidos.


CORPO ARDENTE

NÃO temos vida fora do corpo. Melhor, ter corpo é ter vida. Procura então sentilo intensamente, vagarosamente, até se revelar o denso território dos teus limites e saltarem as primeiras interrogações. Habita-lo, ou é ele que te habita? És o corpo, ou com o corpo? Não tens olhado quanto baste para o que se passa no seu interior, daí o espanto. Amar, porém, a vida, e fruí-la, implica amar e fruir o corpo, pois nem aqui podes separar o conteúdo do continente. E quem o ama, quem o sente ou preza? Quem, ao menos, o conhece e atende? A mão que redige é a mesma que avança e procura o corpo dado, ardente tocha de carne, porque interrogar é apalpar o ser no escuro, entre santo e o sarro, nesta ânsia de o descobrir por inteiro após longo adormecimento. Eis o corpo em toda a sua apetência sensorial. Tem a forma e a duração exacta da vida que nele se faz. Todavia, poucos o assumem. E ele, mil vezes esquecido, aqui jaz numa câmara a deslado dos percursos quotidianos, à espera, em silêncio mas não silencioso, a estrebuchar desde tempos imemoriais contra as paredes da privação. O desejo anima-o. Dizem que liberta (quando isso resulta de se desejar pouco). Nada liberta apenas e o próprio desejo é contraditório, sacode e incendeia a carne deixando-a calcinada, porque é vasto e ondulante, infatigável como o oceano. Conduz em emigração partes caras do ser, deixando-o aberto e dorido. Porque o desejo é uma projecção generosa saída de uma solidão; é uma entrega hedonista do ser a mover-se em direcção a outro. E os desencontros são regra na divisão das encruzilhadas. Vês por aí mocinhas de catorze anos a “trabalhar” numa boîte, uma discoteca? E outra, já grávida, de olhos arregalados de pasmo infantil? Atingirão os dezoito anos já “velhas”. Tropeças em trintona virgem rodeada de gatos? Não teve quem a mereça entre a nova geração perdida. Já te deparaste com um rapazinho enforcado? Cansou-se cedo da vida. E com um septuagenário caído da ponte? A idade da filosofia não lhe deu sabedoria, deu-lhe desespero… Com tudo isso, desvaloriza-se o corpo, suporte da vida, e, sem compaixão, a própria vida. Até as pessoas aparecem desvalorizadas, desfeadas. E cada vez mais falta quem esteja disponível, agradável e conversador, saudavelmente tranquilo, porque mesmo isso requer o corpo e poucos o assumem. O corpo deixa de ser motivo de alegria. Morre às mãos de quem com ele respira. É prótese de mutilados de uma guerra invisível, fardo incomodativo que se carrega tal como o viajante leva as provisões para atravessar um deserto, rumo a nenhures. Em tempos de antanho, o corpo era tido como a parte impura do ser. Agora a dúvida: será menor o menosprezo, tenha ele sentido diverso, que hoje o rodeia? Devíamos ser para o corpo o que os melhores jardineiros são para os seus canteiros floridos, cultivando nele o prazer das coisas boas, saudáveis, luminosas, cálidas, alegres, e poupando-o a sensações, pensamentos, experiências não gratificantes. Na verdade, desta ou de outra maneira, com ou sem alegria, com ou sem desprazer, a estrebuchar na câmara onde jaz ou plenamente assumido, o corpo é sempre, porque não pode deixar de ser, tocha de carne ardente. O gelo da morte queima não menos que o fogo da vida.


ALL WE NEEDS LOVE

NA sala, os Beatles ressuscitavam no gira-discos e repetiam “All we needs love”. Um sujeito de muita lábia pegou-lhe no mote. Arengou. O amor é o tema predilecto dos autores de romances, óperas, filmes, comédias, folhetins televisivos, letras de canções. Ora, deixemo-nos de cantigas! O tempo não vai bom para amar… Vejam a quantidade de casos desesperados que são pasto dos jornais. Ah, mas os casos piores são os mais frequentes e esses não são falados porque banalidades não causam sensação. Reparem na forma “normal” como se relacionam e amam os jovens, actualmente. Não sabem? Tch!... Não, meus caros, o tempo não vai bom para amar. Razão teve o Antonioni em fazer o “Blow-up” com o fotógrafo a querer proclamar o amor num álbum em projecto e a descobrir, ampliando a imagem, uma pistola empunhada entre os ramos de árvore do parque apontada ao par romântico que ele fotografara… As canções já não cantam o amor, cantam a sua universal carência. Só que a carência de amor não se resolve com cantigas, que podem servir apenas para embalar as pessoas no berço da necessidade!... O homem dissertava com este brilho, prendia o auditório. Na festa, os convidados – na idade madura - acenavam concordâncias; para eles também o tempo não ia bom para amar posto que uns tantos “ainda” morriam de amor… Saí. O homem tinha a sua parte de razão no que dizia, apenas a perdia pretendendo fazer-nos concordar no que não chegara a dizer mas estava implícito: o tempo não vai bom para o amor, portanto, não se ama! Recorria à técnica dos demagogos: levar-nos a pensar que dizia, sem dizer, aquilo que realmente lhe interessava que pensássemos em conclusão. Todavia, se o homem não se dispunha a aceitar o risco de amar (sem o dizer claramente), demonstrava um desejo de autojustificação (sinal de dúvidas íntimas?) e a vontade de uma catarse talvez com ajuda do auditório. E assim se tornava o mundo mais inóspito e árido… Ele retirava-se e pedia acompanhantes… Vieram-me então à memória dois casos que recolhi em flagrante nas ruas dos meus trajectos. Fixei-a. Era uma garota que corria a levar o almoço ao pai na lancheira proletária. De repente floriu em carne, explodiu em formas. Seios e ancas brotaram com ímpeto das profundezas genéticas e surgiu um corpo de mulher com restos de criança a perdurar no rosto fresco, na cabeleira esplêndida. Quem pode adivinhar os apelos secretos que nascem agora na sua carne nova, madrugadora? Quem pressente as urgências sôfregas que a desvelam? A rapariga passa de lancheira na mão e com ela vai a embriaguez da vida que se derrama em seiva ao calor afrodisíaco do primeiro raio de sol. A sua perturbação começa na estranheza de se descobrir outra-a-mesma, contradição viva. Os sentidos


doem-lhe, tocados pela cachoeira de inquietações virginais quando na sua imaginação rolam sonhos que o afogueado cérebro não entende. Perplexa, a rapariga sorri para si mesma como quem pede absolvição por travessuras da irmã mais velha e não tarda a chegar atrasada ao destino com o almoço porque se demorou na rua em beijos ao primeiro namorado. Zelosos, os progenitores colocam-lhe no encalço uma vizinha do bairro para acautelar perigos de honra e desvario, mas uma irmã menor, solidária, vai à frente e previne contra o policiamento… Pouco tempo decorreu e a rapariguinha não voltou mais à rua com a lancheira. Pode ter engravidado, casado, envelhecido uma existência toda num único ano? Talvez nada disso. Terá perdido apenas o primeiro amor, os lábios para beijar nos portais. Amadureceu o corpo sorrindo menos, quando a embriaguez dos sentidos foi serenando sob os avanços impetuosos do namorado. Resignada, habituou-se a conter-se, a privarse, a esperar… O que desperta tanta atenção naquele par? O homem e a mulher são de meia idade e têm a aparência algo embrutecida da baixa classe média. No entanto, não será isso que prende o olhar. Encontram-se regularmente em rua animada, junto da escola primária. Ela tem ar de empregada doméstica e o homem parece trabalhar na construção civil. Atarracado, é mais baixo, mas os dois não dão qualquer importância ao pormenor. As roupas podem ser folgadas e nem por isso agasalham menos… Caminham em vaivém ao longo do passeio, rente ao muro da escola, até à esquina seguinte, dita da Aliança, após as suas jornadas de trabalho. Por vezes, ela chega primeiro. Passa sempre das oito da noite. Ele põe ternuras inesperadas no braço rude com que enlaça o mulherão pela cintura. Ou seguem, devagar, de mão na mão, como qualquer par romântico a descobrir o amor. Carícias despontam nos seus gestos mas não no passeio público. Conversam em voz velada, detêm-se no passeio a contemplar-se face a face como duas crianças deslumbradas. Nos dias compridos do solstício de Verão, o par vai afundar a vista no oceano coalhado de barcos, para além do casario, entre poentes magníficos com nuvens douradas pelo sol no ocaso. No solstício de Inverno, escurece a meio da tarde, chove e o frio aperta, mas eles refugiam-se na paragem-abrigo dos autocarros, do outro lado da rua, e continuam a adorar-se no escuro, na humidade e no frio. A língua de relva que acompanha o passeio rente à escola ficou seca e escalvada. Os meses passam, a relva reverdece prosperando com as chuvas. E o par segue encontrando-se na esquina no termo de cada jornada, com mananciais de ternura que transporta sem desgaste através do calendário. Como é possível que dois seres assim de meia idade, tão pobres, tão classe média baixa, possuam tamanha riqueza de sentimentos? Sim! Aqui está o que neles prende o olhar: como é possível que gente humilde se apaixone deveras como quaisquer pessoas “civilizadas”? Então o esmagamento, o embrutecimento das pessoas não embota sempre as melhores festas do coração? Touché!


DIÁRIO: 07,30

ESTOU numa loja mista, espaçosa e bem iluminada, com balcão comprido. Ignoro como vim aqui parar mas sei-me numa localidade africana, algures em Angola, integrado num grupo de viajantes a caminho de outro objectivo. Ao canto está uma pequena estante com livros: encadernados, de poesia de Eugénio de Andrade, e de outros autores, obras didácticas, etc. Em destaque, vários números da revista “Sonho”, de grande formato, com muita lombada. Penso que será africana porque, se fosse europeia, aquele título transformava-a desde logo em revista para mulherzinhas burguesas, e ela não tem aspecto garrido. Pego num exemplar, tendo o cuidado de fazer um gesto de advertência ao empregado mais novo, mas um indígena, guia ou informador nosso, não sei ao certo, distrai-me com a sua conversa, que tanto me lembra a fala brasileira como a africana. Sinto necessidade de urinar. Estou no quarto de banho da loja, em pleno acto, e ouço o arranque do motor do jipe que nos transporta. Sobressalto-me: então o meu grupo parte deixando-me para trás? Então ninguém nota a minha falta?! Saio à pressa, corro pela estrada fora. Eles tardam a retroceder em busca de mim, perdido de súbito algures no denso continente africano. A angústia aumenta a cada minuto. Vou de regresso à localidade onde estivéramos transportando a cabeça de uma criança num braço dobrado em arco, à altura do coração. A criatura, uma menina, só tem cabeça, com cabelos castanhos que lhe descem até aos ombros, mas eu julgo que nem sequer tem pescoço. É apenas uma cabeça, mais nada. Pelo menos não lhe vejo mais e, por outro lado, horroriza-me a ideia de apalpar com a mão do braço livre a base da cabeça que os cabelos da menina envolvem, para averiguar se a infeliz tem um simples bocadinho de pescoço em que se apoie quando eu a depuser no chão. Porém, a garota tagarela comigo, cheia de simpatia, e eu esforço-me por lhe responder com naturalidade, esquecendo que faltam o tronco e os membros ao seu corpo e até a minha própria aflição. Tenho a ideia de regressar à loja, onde os meus companheiros me deixaram extraviado, porque penso que é ali que deverão tentar procurar-me segundo as melhores regras aplicáveis a estes casos. Meto por um trilho e pergunto à menina-cabeça que transporto no braço – espécie de prato para aquela cabeça-vida que me lembra agora a cabeça decepada de S. João Baptista em cima da bandeja – se era aquele o caminho da loja, e ela confirma. Descubro o guia-informador e falo-lhe, apesar de já não ter a mesma estatura. Parece muito mais baixo e barbado. Mas ainda é para mim um apoio considerável, um conhecido em pleno sertão africano. Na estrada, caminha, vindo para nós, um homem velho e triste, conduzindo uma carroça puxada por um burro. Será uma família de ciganos porque, ao lado da carroça, caminha descalça uma rapariga de saias compridas quase até ao chão. Imagino que será jovem pois anda com passos ágeis e harmoniosos das raparigas ciganas. Já muito próxima, admiro-lhe o rosto coberto por uma pintura branca (ou máscara?) que a modela e esconde. Lembro-me que as maometanas se esquivam a exibir o rosto mas, ainda assim, estranho que a pintura, ou máscara, não tenha aberturas para os olhos. Como podia a rapariga ver para caminhar?


Impõe-se-me aqui a regra do sigilo porque a situação, perigosa, não tolera imprudências. Os nossos diálogos, agora, são breves sussurros, insinuações e verdades adivinhadas. De algum modo, percebo que a rapariga mascarada pinta aguarelas. O guia-informador, de novo ele-outro, mostra-me na loja um monte delas. Observo-as. São admiráveis, exóticas. Diria que respiram como as terras da Índia, com os seus ocres, amarelos, negros e vermelhos intensos, opressivos. Algumas repetem um tema como se fossem fotogramas de um filme: uma ponte de madeira, com forma de acento circunflexo, aparece sobre as chamas de um incêndio que devora um barco no rio, ao fundo. Outras mostram vetustas imagens sagradas, reproduzidas com legendas votivas, talvez em sânscrito, ilegíveis dado o ínfimo tamanho das letras originais ou a rasura do tempo. Muito apressado, escolho no monte algumas das lindíssimas aguarelas (ou guachos?), hesitando em trazer o monte todo comigo embora seja isso que me apetece fazer. Mas outras têm um formato diverso, rectangular – são as imagens sagradas com as legendas ilegíveis – e eu, desgostoso, deixo-as de lado, sacrificando o seu exotismo, porque se danariam nos tropeções da viagem, e resolvo comprar apenas as aguarelas do tema repetido dos incêndios com a ponte em acento circunflexo, tão baratas. Porém, não encontro na algibeira suficiente dinheiro do país, hesito na escolha final do que posso comprar, atrapalho-me, pois tenho de partir sem demora e quero levar comigo uma recordação, ainda que pouco escolhida, e quero deixar algum auxílio à rapariga mascarada que esconde o rosto por temor religioso e pinta maravilhas de forma e cor sobre cartolinas como se, em transe, um deus lhe guiasse na mão os pincéis…


JANELAS DA ALMA

A pupila glauca, quase bovina, da máquina fotográfica pestanejou diante da janela, à frente dos olhos do seu operador e dos meus, contemplativos, ao colher da rua a imagem. Agora, premiada, faz-me pestanejar a mim. O que a guindou à tribuna das melhores fotografias? Se os olhos já eram as janelas da alma para Rodrigues Lobo, que alma terão as janelas para assim falarem aos nossos olhos? Na caverna de Platão, e em todas as cavernas, não havia janelas, apenas aberturas. Os palácios começaram por ter simples frestas na parede para darem entrada à luz e ao ar. Eram janelas, sem o serem completamente. Mais tarde alastrou pelo planeta uma fúria construtora. Paredes e mais paredes, erguidas, dividiram os espaços e separaram os seres que neles habitavam. Ficámos eu-eeles, nós-e-os-outros. Multiplicaram-se e então as janelas, que negam as paredes, transformam-nas sem as destruir. A etimologia indica que a palavra surgiu como diminutivo de porta de entrada, ou portazinha, antes de significar caixilho móvel com vidros. De facto, cada parede requer uma abertura praticável, senão aprisionaria os seus habitantes, tomando-os como moscas apanhadas na sua própria teia. A parede é uma linha de isolamento e também uma fronteira que estabelece um interior e um exterior, dois lados que pela janela ficam em contacto e comunicação. A janela é posto de fronteira, poro de epiderme opaca que necessita de processar trocas, de respirar através de pequenas alfândegas. Permite que o que está fora atravesse a parede e vá para dentro sem invasão mas com filtragem e que o dentro se espalhe, até certo ponto, por fora. Permite que olhos do interior deambulem com segurança pelas cercanias, em pesquisas discretas, sem se afoitarem no exterior. Persianas, cortinas e vidraças de vários tipos servem para ver sem se dar a ver, estar fora continuando dentro, espiar a redondeza. Pela janela entra a primeira luz do primeiro dia que não viola as retinas. Trocámos o primeiro olhar quando estavas à janela, como pomba prestes a alçar voo. Deve ter sido alguém como tu que chorou até conseguir, depois do espelho e do pente, que as portazinhas inteiriças de forte madeira tivessem um postigo praticável virado para a rua. À janela estavas quando poisaste no peitoril o teu seio farto, como mulher generosa que derrama sobre quem acena adeus um açafate de flores. Nas janelas escancaradas brilham as colgaduras dos dias de festa. E quando, na noite de S. Silvestre, por aí os trastes velhos caíam arremessados na rua, era também um passado e um futuro que a janela estabelecia sobre a linha de um interior e um exterior já instituídos. E tudo decorria com a sem-cerimónia que dispensa anúncio de “água vai”, despejo feito. As defenestrações, de Praga por exemplo, exprimem também esse repúdio terminante do que é velho e aparece condenado e a procura do novo mais prometedor, na decisiva fronteira que cada janela estabelece.


Pode entretanto perdurar como a janela manuelina do convento de Tomar, única peça acabada em construção global inacabada talvez porque nela se esgotaram os recursos de perfeição disponíveis. Uma janela pode desafiar a ira popular das pedradas, como na casa de Miguel de Vasconcelos, envelhecer numa parede decrépita entre ruínas, de vidros partidos como órbita vazia de caveira insepulta, tornar-se míope na forma de um mísero postigo e desaparecer, sumindo-se obstruída na parede. A janela que na imagem premiada se vê é antiga sem ser velha. Num batente empenado um vidro rachou num canto, o betume partiu-se aqui e ali mostrando encaixes de molduras com pregos enferrujados e escamas de tinta incolor a saltar, desnudando as fibras da madeira sob o desgaste dos sóis e das chuvas. Atrás mexe uma cortina amarrotada, ali mora por certo algum reformado que se envergonha da pobreza e mal assoma à janela porque já descrê do mundo e pede que o esqueçam. A parede em volta é também uma superfície tristonha, com pústulas no reboco marcado pelos anos. Aquela janela, na sua trivial singularidade, sem a petulância ordinária dos alumínios, acaba por ser uma porta aberta para todas as nossas janelas.


VERDE É A SOMBRA

ACABO de fazer uma descoberta muito interessante, quase espantosa. As sombras têm cor. Já o sabiam os pintores impressionistas, que as pintaram azuis. Mas os pintores impressionistas sabiam menos do que eu, agora. Eu sei, desde há momentos, que as sombras podem ter mais de uma cor, pois podem ter qualquer uma das cores do arcoíris. Descobri-o ao descobrir que é verde a sombra das figueiras. Isto é tão certo que a própria sombra das figueiras cheira a verde, um verde tão verde que parece húmido e, por isso, fresco. Os próprios figos sabem a verde, perdendo tal sabor apenas quando atingem a derradeira fase da maturação, isso é, quando ficam, quase secos, a pender dos ramos na plenitude do estio. Anuncio, portanto, a última e suprema descoberta da minha vida. Não deixarei empanar com um cisco a glória brilhando por fim sobre o meu nome. Ai dos plagiários e dos imitadores! Aparentemente, não fiz mais do que descobrir um outro ovo de Colombo. Mas, nesse caso, também Newton não fez mais do que ver cair a maçã e também Galileu mais não fez do que contemplar a oscilação do lampadário na catedral de Pisa, e tornar-se-ia incompreensível toda a fama que os dois velhotes granjearam por factos tão desprovidos de transcendência. Na verdade, dedico-me intensamente ao estudo das figueiras desde a mais remota infância. As observações foram abundantes e os resultados escassos. Mas hoje, ao passar por baixo de uma figueira que se ergue no meu caminho diário, à hora da canícula, tudo se precipitou. Um relâmpago rasgou-me a mente: é verde a sombra das figueiras, cheira a verde a sua sedante frescura, têm sabor a verde os seus belos frutos! Abençoei as figueiras de todo o mundo por me proporcionarem tão formidável descoberta, a começar pela figueira da minha meninice, na aldeia. Era uma árvore imponente, que mergulhava o tronco grossíssimo na terra escura e se ramificava, com exuberância incontível, numa explosão vegetal, enchendo metade do quintalório de sombra, folhas e figos doces como mel, duas vezes por ano. Dentro da sua ramaria imensa, gigantesca, eu-menino viajava por avenidas, ruas, praças e becos sem saída, que se distribuíam por vários níveis, porque aquela idosa figueira era um mundo dentro do mundo. Os seus ramos, cheios de pardais, papa-figos abelhas e vespas, bifurcavam-se à medida que invadiam o espaço, organizando-se numa topografia estranha, complicada, misteriosa. Uma tarde, estava eu empoleirado num ramo a disputar à passarada lambareira os figos madurinhos, quando um compincha, outro petiz, que me auxiliava na heróica luta, teve a ideia de me alargar as aberturas mentais, ensinando-me que também uma pessoa, ali da vizinhança, podia dar figos como a árvore. A hipótese fascinou-me e o meu amiguinho apelou para um velhote que passava na rua, em baixo: - Eh, ti Chocho, dê-me um figo! O homem, mirrado e sem dentes na boca, mostrou ser tão generoso quanto a minha figueira embora pudesse ser mais idoso do que ela. Parou e satisfez


imediatamente, com evidente prazer, o “pedido” (oxalá a revisão não corte o primeiro d desta delicada palavra). Rimo-nos e o mariola, à minha beira, foi pedindo sempre “mais um”, como se não tivéssemos as barrigas bem atestadas de figos e de riso. Contei uma dezena e o velho prometia continuar a festa… mas o décimo segundo e o décimo terceiro foram gerados pelo truque de apertar a mão direita no sovaco esquerdo e contrair o braço. Contemplava os figos da figueira e notava que me faziam lembrar os rostos de pessoas conhecidas. Um, gordo e luzidio, feliz e risonho, aberto como um girassol, a dizer “comei-me”; outro, tristonho e enfezado, não sai da sombra para o sol; e ainda outro, de aspecto fechado e hostil, etc. Os figos tinham a infindável variedade dos rostos humanos e isso cansa. Não tardei a desinteressar-me daquele jogo. Ignoro por que disfrutam as figueiras de tão escassas simpatias gerais. Quero por isso fazer-lhes a apologia. São árvores que nascem a esmo e crescem sem cuidados, sem nada exigirem em troca do muito que dão. Mas dir-se-ia que pesa sobre elas uma maldição bíblica. Até existem as chamadas “figueiras do inferno”. A imponente figueira dos aidos da minha infância desapareceu mais tarde. Ao voltar de uma ausência, vi o seu enorme espaço vazio. Cambaleei como se fosse cair com o fragor da sua copa. Num repente de génio, meu pai derrubara a golpes de machado aquele mundo vivo porque não lhe perdoou o facto de ter deixado cair no chão, como figo maduro, um outro seu filho, encavalitado num ramo que se partiu. “Árvore traiçoeira” – foi acusação capital. Eu discordo. Dou razão à figueira contra o meu irmão, por não ter suportado num ramo frágil uma pessoa adulta com intolerável excesso de peso. Poderá a árvore ser responsabilizada por isso? Talvez os figos sejam alimento reservado a seres com alguma coisa de alado: os pássaros, as crianças, os jovens e os velhos que riem, com trejeitos pródigos, dando figos às dúzias. Indivíduos pesadões, terrestres em demasia, não deveriam tentar comêlos, salvo no prato.


UMA FOLHA NOVA

AGITAMO-NOS de mais por bem pouco. E, na estéril voragem dos dias em que nos deixamos embrulhar, ficamos cegos perante as verdadeiras palpitações da vida. De repente, incham-nos os olhos de surpresa. Descobrimos que na planta do vaso da sala desponta um rebento novo, tenro e esperançoso, borbulhante de seiva. O pai ou a mãe que se sobressalta tendo que reconhecer, de golpe, que o seu menino, ou a sua menina, não o é mais, porque se transformou sem aviso, quase às escondidas, com atrevimento, num corpo quase adulto dotado de vida autónoma, não ficam menos estupefactos. O pulsar de obscuras energias está ali e nada podem fazer para as travar, para, ao menos, as compreender. Apenas podemos enternecer-nos ridiculamente, esvaídos de palavras, vendo dia-a-dia uma nova folhinha a irromper como se fosse um milagre. É um dedinho verde pálido que nasce do tronco e se alonga num impulso vegetal. Projecta-se para cima, desenrola-se e desfralda-se como bandeira verde orientada para a luz, e será difícil não imaginar torrentes de seiva buliçosa a percorrer, dentro das suas nervuras, longas estradas que se ramificam, indo das raízes até à última célula da folha recém-nascida e daí regressando às raízes. Emociona tamanha sofreguidão vital, quando os jornais e os livros falam da terceira guerra mundial com a bonomia fatalista de quem anuncia um inverno inevitável. Sentimos jogar-se uma existência única, tão única quanto a nossa, individual, naquela simples folha da planta do vaso. E dir-se-ia que a própria folha sente, nas suas fibras, que ou cumpre a sua existência, ou nenhuma outra folha poderá substituí-la na duração e no lugar que lhe cabem. Mas se algo a condenar, a planta-mãe não hesitará em a abandonar à triste sorte, deixando-a morrer para a si mesma se salvar. Amputa a parte atingida como o cirurgião faz à perna gangrenada, e a vida prossegue com uma cicatriz no tronco. Certas plantas são diferentes. Não resistem e morrem, arrastadas pela desgraça de uma parte do seu corpo. Outras, menos delicadas, ou mais combativas, mostram-se capazes de atravessar severas contingências. Mão amiga trouxe-me em tempo, num vaso, a oferta de um cactozinho. Na ponta de cada ramo da árvore miniatural abriam-se folhinhas verdes dispostas em círculo como pétalas de flor. Definhou, secando primeiro o tronco, e a seca avançou depois pelos raminhos. Quando a planta estava prestes a morrer, com inesperada desenvoltura, reagiu. Raízes finas como cabelos brotaram, rápidas, das partes ainda seivosas e desceram, tacteando, procurando com desespero a terra no vaso, alimento e subsistência. Poderia morrer uma planta assim? Fascina a contemplação de plantas que a moda introduz nos espaços domésticos com o ecocídio a estender-se pelo planeta. Mas as plantas não se dão bem em todas as casas, em todos os ambientes. Pessoas há que insistem em rodear-se de plantas, comprando-as repetidas vezes e fazendo prosperar o negócio de lojas e jardineiros. Todavia, certas plantas recusam-se a coabitar com certa gente, que as quer e consome atendendo ao viço e às cores, ao tamanho e à forma, num sentido decorativo, sem atender a mais nada. As pobres desistem de vegetar onde as colocam, suicidam-se como pássaros livres fechados em gaiolas.


Se essas plantas que assim morrem dão pena, a gente em cujas moradas isso acontece não pode ser menos lamentável. Mora em espaços vitais demasiado sombrios e só poderemos estranhar que haja pessoas capazes de aguentar ambientes que as plantas, com a resistência da sensibilidade vegetal, não conseguem suportar. Será acaso a carne humana, regada de sangue quente, mais forte do que uma planta verde regada de seiva fria? Se é, não o deveria ser.


MINIATURA ILUMINADA

AS sombras escondem os baixios, alastram e progridem, fazendo acender os primeiros focos de luz que logo cintilam como brilhantes caídos em veludo. É a noite que pouco a pouco vai abraçando a cidade no crepúsculo do Outono. O sol ainda brilha para lá da cortina de nuvens opacas que se erguem sobre o mar, na linha do horizonte traçada a régua. O resplandor espalha-se pela abóbada limpa do céu, tinge-o com o açafrão intenso dos dióspiros que, nos quintais, pendem dos ramos já friorentos, e parece que estamos metidos no bojo de um balão sanjoanino que trepa pelos ares ao encontro do Inverno. Choveu. A luminosidade de cristal espelha-se no mar, realça o azul metálico da sua extensão e, na atmosfera puríssima, as cores quentes e frias, as sombras e as luzes da paisagem, em água e fogo solar, tornam-se tão inexcedivelmente transparentes, tão absolutas que dir-se-iam irreais ou sonhadas. Com uma nitidez singular, quase hipnótica, o que se vê fascina. Apetece estender a mão para atingir o primeiro plano, tocar no casario e nos arvoredos, esquecidos nas distâncias da paisagem lá ao longe. Tudo fica pequeno dentro do olhar não porque esteja longe mas porque assim melhor será contemplado. É um cenário que se desenvolve em planos sucessivos da cidade ao mar, translúcido até ao espanto, mas cada vez mais sombrio e com mais pontos de luz acesos como estrelas, e tudo se torna excessivamente óbvio como uma visão enganadora. Acabamos por duvidar se não estaremos diante do palco de um teatro, embevecidas vítimas de uma traição aos sentidos. Agarrado à janela, fico incapaz de fazer coisa diferente. A cidade já não arremete e tumultua. Adormece, enquanto o farol pestaneja três vezes por cada pausa e o fulgor da chama que tremula no cimo de uma das chaminés da petroquímica se aviva a cada instante, rivalizando com a luz do dia em extinção. Os edifícios-torres lembram foguetões espaciais nas rampas de lançamento à portuguesa, mostrando fileiras de aberturas iluminadas. Um “Boeing” da carreira diária, silente, com as luzes acesas a piscar, lembra um cisco de poeira a cair no ambiente quieto da sala antes que uma pesada massa a fazer-se à pista. O avião perde altura lentamente, como se planasse, numa linha rente ao mar, e por fim abre o trem de aterragem, raspa as escuras massas de arvoredo e rola a silvar até o aeroporto. Muitos quilómetros de paisagem comprimem-se no cristal puríssimo que os olhos podem ver sem mácula e a imaginação-memória não tem que adivinhar. Como se houvesse nascido naquele momento, tudo se mantém nítido e limpo até à exaustão da própria consistência, no cenário cada vez mais povoado de fulgores eléctricos em catadupa urbana. Quem contemplará uma paisagem tão admiravelmente pura sem estremecer por instantes com o mistério do seu significado? Sem se interrogar sobre o destino, a finalidade deste pedaço de mundo? O que fazemos aqui? O que é a evidência? Antes, a neblina dissolvia a forma das coisas, escondia o real, e nós esconjurávamos a neblina. Queríamos o espaço varrido e nítido, puro, desejando perceber cada coisa na densidade da sua própria corporização e no espaço pleno que era


o seu, sonhando com redescobrir as cores e as temperaturas, os sons e os cheiros numa atmosfera conquistada às poeiras e aos miasmas, às humidades e aos fumos. Mas, afinal, a pureza não estraga menos do que a neblina a realidade das coisas no seu espaço. A iluminação plena torna-se numa outra espécie de arte de escondeesconde que ludibria os sentidos, eternos meninos. E, por fim, resta-nos somente a angústia e a solidão. Fechou-se o dia. É noite. Porto, 1982-83.


ÍNDICE

Caminho de Santiago Fonte Pêra doce Deusa de carne ao sol Areal Caminho largo: vereda Angra e armadilha Pelo canto na voz Este olhar que Ao sol do pátio Guitarrada Som de origem O beijo da noite Coração descoberto Arte de geómetra Chuva de Maio. Destroços Obelisco e faval Anunciação Restos calcinados Corpo ardente All we need’s love Diário. 7,30 Janelas da alma Verde é a sombra Uma nova folha Miniatura iluminada

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Som de Origem