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Título: E Foi Assim - II Autor (copyright): Arsénio Mota Capa: Esperança Meeiro Edição (revista): Fevereiro, 2014


Abertura

O primeiro volume de E Foi Assim… recolheu textos editados no meu blogue – endereço: http//arseniomota.blogspot.com – entre Janeiro de 2008 e Agosto de 2009. O presente volume selecciona 74 textos ali postos de Setembro de 2009 a Julho de 2011. O esteio temático principal contempla a “crise da dívida” que agita o Ocidente e o mundo, provocando violentas mudanças no complexo das organizações político-sociais. A presente colectânea não aplica, conforme já se vê, o Acordo Ortográfico. O trabalho da selecção possibilitou uma revisão dos textos recolhidos, decerto não perfeita de todo mas que, pelo menos, serviu para os limpar de uns tantos descuidos de composição. Cuidei de evitar a retoma de questões já tratadas no volume anterior. Se, porém, tal acontece alguma vez, seja isso tomado como expressão de firmeza e coerência. Os textos aparecem agrupados em capítulos. O Índice está na última página. Enfim, repete-se o que ficou a encerrar o Volume I: “o cronista tem por função o papel de testemunha e de especta-actor. Aqui deixa o juízo do seu tempo no tempo do seu juízo, narrando(-se): E foi assim…”


Media:

A Informação do Poder


Jornal do dia

As notícias de hoje lembram o início da Segunda Grande Guerra há 70 anos, o acordo de paz assinado pela União Soviética de Estaline com a Alemanha de Hitler e a perda de leitores que os jornais portugueses continuam a registar nestes últimos tempos. Talvez tudo isto seja fio do mesmo novelo. Uma certa especulação de direita compraz-se em pôr lado a lado Hitler e Estaline. Não prima pela lucidez nem pelo rigor mas, pela força da insistência, parece convencer alguma opinião vulgar ainda marcada pela repressão anticomunista do salazarismo. Desse ponto de vista, qualquer governante socialista democraticamente eleito é um ditador pela mesma lógica que transforma em “comunista” qualquer revolucionário e o “comunismo”, onde quer que surja, numa ameaça à nossa paz. O preconceito anticomunista radicou-se nos estratos mais conservadores da população. Espevitam-no constantemente os órgãos de comunicação social muito à sorrelfa, por insinuação cavilosa, e as forças da Igreja não descansam, glorificando a tríade Deus, Pátria e Família. A oligarquia dominante agradece a diligência. A fixação anticomunista, tão renitente, denota o baixo nível da vivência democrática manifestada por grandes estratos da população bem como o apego ao marasmo cultural em nome da tradição sentida como garante de segurança. Quando a Grande Guerra terminou, ia eu nos 15 anos e disso (em alívio e festa) me lembro perfeitamente, mas não me perguntem pelo acordo de paz: o menino que era brincava jogando o pião. Ainda assim, graças à biblioteca enorme que tem vindo a ser formada desde então, pode concluir-se com segurança que a guerra iniciada com a invasão da Polónia teve como objetivo último liquidar o regime soviético contando desde sempre com a concordância tácita (real) dos países europeus. Naquela situação, o acordo tão criticado serviu para dar à União Soviética tempo suficiente para se armar e preparar para a guerra. De facto, foi o povo deste país que, morrendo no mais elevado número, com heróicos sacrifícios, derrotou os exércitos invasores e livrou o mundo do nazismo. Quem cobre de críticas e impropérios o acordo revela, ao mesmo tempo, embora inadvertidamente, que teria gostado de ver o nazismo vitorioso no país dos sovietes... e no mundo? Seria ótimo que factos desta relevância fossem equacionados pelos jornais. Em sintonia cerrada com o que se diz em Washington, celebram as “caras lindas” como amigas e diaboliza as restantes por mais democráticas ou dignas que na realidade sejam. A manipulação da informação cresceu até ao ponto de manter em circulação apenas mentiras e meias verdades entre pura e descarada propaganda. A melhor informação que podemos obter, agora, é a que consegue fugir da informação deformadora. Por algum motivo os jornais estão a desacreditar-se perante os seus leitores. Nem os gratuitos se salvam da baixa das tiragens. Não querer saber nada dos acontecimentos para além do nosso bairro, para manter o intelecto limpo, talvez seja a resposta que o bairro dá.


O novo ópio do povo

Em anos ainda recentes, os três pilares clássicos das sociedades modernas tiveram alguma companhia. Os poderes executivo, legislativo e judicial funcionavam sob o escrutínio das notícias e dos comentários jornalísticos. Mas onde pára hoje o “quarto poder” da Imprensa? Os atuais media - os jornais, as rádios, as televisões, os satélites - alargaram incomensuravelmente o espaço da sua comunicação ao ponto de a tornar invasiva, sufocante. A propriedade desses órgãos e meios principais foi entregue a potentados financeiros “de confiança”, atentos apenas aos lucros da indústria dos “conteúdos”. O anterior pluralismo das ideias e das opiniões em circulação deu lugar a uma informação normalizada, conformista e manipuladora que percorre o mundo. O poder da Imprensa transformou-se na Imprensa do poder. Acentuaram-se ou ocorreram outras transformações decisivas. O modelo de vida americano contagiou a Europa e o Ocidente com a sua avidez consumista, o seu individualismo radical, a sua procura de triunfo na carreira da vida, enriquecendo. Os valores materiais subiram pouco a pouco aos altares. As sociedades, libertando-se das superstições (ou substituindo-as apenas?), laicizaram-se. Laicas passaram a ser as regras morais e as concepções éticas na medida em que se adaptaram à prática. As igrejas, antes tão poderosas e de tão predominante influência religiosa e profana, recuaram. Contavam-se nos templos os fiéis que os frequentavam, os clérigos novos que já nem revezavam os idosos, e poucos reis havia para os cardeais e os arcebispos coroarem nas catedrais entre nuvens de incenso. Era um facto, a religião perdera força, imenso terreno nestas sociedades individualistas, libertadas no laicismo moderno para caírem na corrente embriaguez do consumismo hedonista. Fez-se então lembrar a frase de Marx (1818-1883). A religião deixara de ser o ópio do povo. E um senhor, creio que nada revolucionário nem de esquerda, aparece agora a escrever (cito um trecho): “Nos dias de Marx, a religião era o ópio das massas. Hoje são os media. Basta ver a informação dos media que facilita a capacidade da oligarquia financeira para iludir o povo.” O senhor é Paul Craig Roberts, economista. Foi assistente do secretário do Tesouro na Administração Reagan e é coautor do livro The Tyrany of Goods Intentions. Não tem papas na língua. Pensa claro e fala direito. Virá de novo à colação, querem ver?


Cantinho livre só escondido

O entrevistador experiente sabe como o político é hábil a responder a tudo menos ao que lhe perguntou e valeria a pena saber. Mas a habilidade de quem fala “à política” alargou-se e anda agora na boca de qualquer língua de pau. Perguntamos se vai chover a quem logo indaga se precisamos de guarda-chuva... porque tem loja de guarda-chuvas. O espaço da comunicação interpessoal, sobretudo, encheu-se de ruídos viciosos e parasitários, sem qualquer função apelativa, que enredam ou chegam mesmo a obliterar o sentido das mensagens. A comunicação social também se deixou invadir pelo gosto da desconversa malandra e assim se encheu a atualidade de questões distorcidas. Preso numa espécie de jogo de espelhos deformantes, o país informativo gastou uma semana a questionar se havia em Portugal défice de liberdade de expressão... Porém, não era esse o tema que importava analisar. Era desconversa malandra. Existe liberdade de expressão, liberdade de imprensa, mas o nó do problema (logo submergido pelas enxurradas no Funchal) era outro e mal foi aflorado. Realmente, o que mais importa nem sequer consiste em averiguar se temos em circulação uma informação pluralista. Acima de tudo, importa saber se essa informação é tão abundante e variada quanto convém ao pluralismo e à participação cidadã. Primacialmente, que qualidade e grau de transparência autêntica atinge esse pluralismo concretizado. Neste ponto, sim, estava o busílis. Visível como o icebergue que mostra apenas pequena parte do relevo barrigudo que esconde na água. A informação torna-se cada vez mais homogénea devido ao seguidismo dos órgãos (é possível, por exemplo, ver em noticiários da tv um mesmo tema tratado da mesma forma e simultaneamente por diversos canais). Nos jornais e na rádio reina idêntica homogeneização, produtora de monotonia. Deve-se isso ao conformismo instalado e à concentração dos órgãos nas poucas mãos “idóneas” (o que alterou o panorama nacional dos media). A ideologia que os factos noticiados transportam em textos e imagens, para além de uma evidente parcialidade, assume claras orientações de direita. Todavia, o alinhamento eleitoral da maioria dos cidadãos é de esquerda; logo, o público consome imprensa de direita sendo maioritariamente de esquerda e isso talvez por não ter outra. Impôs-se, portanto, uma uniformização da informação predominante. Uns órgãos que aparecem a parangonar escândalos avivam a concorrência meramente em busca de audiências ampliadas ou tiragens extra da última edição. Alvejam o que se lhes afigura “de esquerda”, no interesse de certos partidos conservadores, enquanto cuidam do próprio negócio. Assim, a informação que circula por aí revela escasso pluralismo. A uniformização trouxe uma normalização com marcas de conservadorismo. Algum motivo têm, então, quantos opinam que a informação e o jornalismo estão a entrar em descrédito e falência, considerando que os espaços de verdadeira liberdade que restam são cantinhos escondidos como este onde podemos encontrar-nos e dialogar.


Hipnotização pela tv

Detenho-me diante de um ecrã de televisão. Como traça voadora, fico de olhar atraído por uma sucessão vertiginosa de imagens ali a derramar-se em cachoeira. O ritmo frenético mantém-se, perdura, transforma-se mesmo na característica principal do programa. As imagens em torrente não me deixam pensar. Nem posso respirar. Encadeado, vejo-as alternarem-se sem tempo para poder percebê-las, pois outras imagens se sucedem, e mais outras, e outras, num corrupio sem fim... Afasto o olhar, saio do local e liberto-me da sufocação. Aguentei-as apenas uns minutos e no entanto ainda me persistem na retina. Aquele programa, àquela hora da tarde, destinava-se a público muito jovem, de cérebro esvaziado mas consumista, ávido de velocidade e vertigem tanto como de comida rápida e batata frita. As suas imagens, soltas e sem nexo, eram outros tantos planos que se mantinham no ecrã por uns segundos brevíssimos. Ofereciam-se ao olhar sem lhe permitirem um visionamento mínimo, pois logo outra imagem-plano surgia em catadupa. Não davam a ver: cegavam, hipnotizando. Considerei então que naquele programa se continha uma impressionante manifestação da doideira geral que avassala o mundo. Lembra, por contraste, a aceleração que todos os aspetos da nossa vida quotidiana vem sofrendo desde os anos ’50. Aceleração brutal, podemos senti-la hoje revendo velhos programas televisivos que se conservam no celuloide ou filmes, por exemplo de Carl Theodor Dreyer (1889-1968) ou de Manoel de Oliveira. Nos filmes destes realizadores vemos cenas com planos gerais fixos que chegam a manter-se durante largos minutos ou atingir mesmo perto de meia hora. Evocam assim algo inerente ao palco de teatro que chama o espectador a uma participação o mais possível aprofundada e inteligente. Mas o advento da televisão popularizou o pequeno ecrã, impondo como se sabe a estética do grande plano e, em seguida, encurtando a respetiva duração. À memória vem a experiência de uma noite invernosa. O serão na cooperativa cultural oferecia música indiana executada por português recém-chegado da Índia. O homem passou a noite a dedilhar o instrumento, arrancando das cordas uma beleza de sons e mais sons, aparentemente soltos, e o público quase se enfureceu. Escasseiam os convites para “ver”, ver realmente, e para sentir, ouvir, pensar. Talvez isso possa incomodar o sono dos senhores do mundo e fazer doer alguma cabeça que pensa! Logo, aí temos o programa de ritmo alucinante na vanguarda, a abrir ou a sondar caminho. Notem-se os últimos avanços das neurociências. Investigam até ao supremo requinte da minúcia, apurando como funcionam as emoções e os impulsos mais íntimos a que obedecem os seres humanos. A publicidade e o marketing interessam-se por tais avanços (aliás, desde o princípio do século XX), avanços que fazem crescer a manipulação dos comportamentos ao serviço dos dominadores do mercado e das consciências.


Manipulação em nome da Paz

Atribuir o prémio Nobel da Paz a um dissidente preso na China mostra como continuamos envolvidos em ambiente de “guerra fria”. Acabou, porém, o tempo do bilateralismo, no mundo reina uma única potência (hegemónica até ver). O escolhido este ano pelos académicos suecos para “acompanhar” Barack Obama poderá servir à baixa política mas não contribuirá para convencer o Governo chinês a valorizar a sua moeda por mais que Washington o suplique. E cá estamos na baixa política, nos clamores em defesa dos direitos humanos e da democracia, clamores justiceiros que atravessam a Europa e percorrem talvez metade do mundo. Mas quem assim fala tão justiceiramente, fala diante de microfones e câmaras tv ou escreve na imprensa. É a opinião publicada e publicável, a do Pensamento Único, a informação massificadora que aceita mal a contradita ou a contestação. Os órgãos de comunicação social, redes de televisão, imprensa e rádios ditos de referência estão concentrados e dominados por grupos poderosos. Deixaram de exercer uma função de utilidade social para servirem interesses particulares. Os caudais noticiosos diários são tratado por agências que funcionam aplicando eficazmente os dez preceitos da manipulação dos media descritos pelo prestigioso linguísta estado-unidense Noam Chomsky e que procuram: distrair as atenções públicas dos problemas maiores criados pelas elites políticas e económicas: criar um aperto para propor uma “solução” (uma crise económica impõe a perda de direitos sociais ou de serviços públicos); avançar a conta-gotas com medida política tão inaceitável que provocaria uma rebelião; tornar aceitável um sacrifício futuro... porque não é imediato; falar ao público tratandoo como criança de pouca idade; convencendo-o a gostar da ignorância e a viver na mediocridade, tal como a reagir com emoção e a detestar a reflexão, ou que é moda ser mesmo estúpido, vulgar, inculto; etc. Assim tratado, sob a torrencial informação que o submerge, o público talvez não se lembre mais dos direitos humanos e da democracia que faltam aos palestinianos bloqueados, espoliados, massacrados e humilhados na sua própria terra; nem dos iraquianos invadidos, torturados e mortos sem culpa, apenas com petróleo; nem dos presos raptados e mantidos sem julgamento em Guantánamo; nem dos direitos humanos no Haiti, na Colômbia, no Congo, no Corno de África, de tantos negros vítimas do “Katrina” em Nova Orleães... Cala-te boca! Cala-te, pois a principal potência mundial e seus aliados mostram quanto respeitam as leis do direito internacional. A grande questão é que a potência se afunda dilacerada pelas suas próprias contradições. Mas encher os noticiários com barragens de críticas ao regime que assim trata um ativista dissidente leva a perguntar: como são tratados os ativistas (não de direita, é óbvio, tão bem vistos pela “inteligência” U. S. A.) que levantem a voz ou mostrem punhos fechados? E, enfim, não existirá também o que se cala onde a barragem sonora é mais potente?!


Quem diz “Adeus”

Hoje vou ceder a palavra a alguém, alguém que se despede e, portanto, se distancia. Mas vai transido e, de mordaça na boca, deixa-nos palavras escaldantes, vivas e dramáticas como a situação real de crise (ética, financeira, económica) em que estamos a viver. Poucos que sejamos, temos de as notar. A palavra é de Paul Craig Roberts, economista norte-americano citado numa crónica anterior, “O novo ópio do povo”, lembrado autor de How the Economy Was Lost, que foi editor do “Wall Street Journal” e se destacou noutros jornais, como o “Washington Times”, assistente do secretário do Tesouro dos EUA, etc. Porém, há anos que não tem um único espaço onde escrever. Por isso diz “Adeus”, assim: “Houve um tempo em que a caneta era mais poderosa do que a espada. Houve um tempo em que as pessoas acreditavam na verdade e a encaravam como uma força independente e não como um auxiliar do governo, classe, raça, ideologia, interesse pessoal ou financeiro. Hoje os americanos são dominados pela propaganda. Os americanos têm pouco respeito pela verdade, pouco acesso a ela e pouca capacidade para a reconhecer. A verdade é uma entidade importuna. É perturbadora. Está fora dos limites. Aqueles que a exprimem correm o risco de serem marcados como «antiamericano», «anti-semita» ou «teórico da conspiração». A verdade é uma inconveniência para promotores públicos que querem condenações, não a descoberta da inocência ou da culpa. A verdade é inconveniente para ideólogos. Hoje, muitos daqueles cujo objectivo era outrora a descoberta da verdade são agora generosamente pagos para a esconderem. «Economistas do mercado livre» são pagos para vender a deslocalização ao povo americano. (...) Economistas que outrora foram respeitáveis ganharam dinheiro a fim de contribuir para esse mito da «Nova Economia». (...) Todas as vezes em que o dinheiro é insuficiente para enterrar a verdade, a ignorância, a propaganda e a memória curta acabam o trabalho. (...) Como economista, fico estupefacto pelo facto de os profissionais da Ciência Económica americanos não terem consciência de que a economia dos Estados Unidos foi destruída pela deslocalização do PIB dos EUA para países além-mar. As corporações dos EUA, na busca da vantagem absoluta ou dos mais baixos custos do trabalho e dos máximos «bónus de desempenho» dos seus presidentes, transferiram a produção de bens e serviços vendidos a americanos para a China, Índia e outros lugares no exterior. Quando leio economistas a descreverem a deslocalização como comércio livre baseado em vantagens comparativas, percebo que não há inteligência ou integridade na profissão americana da Ciência Económica. (...) Nos últimos seis anos fui banido dos media de referência. A minha última coluna no «New York Times» apareceu em Janeiro de 2004.” Fim de citação. O artigo, na íntegra, está aqui.


A caça aos “conteúdos”

Aconteceu novamente. Pessoa conhecida abordou-me para perguntar onde poderia adquirir uns livros meus de que tivera notícia. Pergunta cândida tanto quanto simpática. Respondi-lhe francamente: não sei. Ando há muitos anos a advertir e a comentar a deriva que tem vindo a mudar a exposição do Livro e, por aí, a relação dos autores com os editores, os distribuidores e os livreiros. Apontei a alteração que tudo isso já provocava na qualidade geral do panorama literário. Notei a banalização do Livro, objeto cultural por excelência que passava a para circular como vulgar mercadoria consumível e logo descartável. Persistia-se, entretanto, neste velho e pequeno país, em publicar a monstruosidade de mais de mil edições novas de livros por mês. Cansei-me a repetir: alguém pode crer que seja possível termos ainda nas livrarias, à disposição do freguês que entra e quer ser atendido, já não a totalidade dessa avalancha mensal de livros, o que seria toleima, mas pelo menos uma parte selecionada com algum critério? Solução de recurso: encomendar os que interessassem ao livreiro ou pedi-los diretamente à editora. E foi assim, com os editores a fugir para a frente para escapar à tempestade, que se consumou no país a cambalhota. De repente, as principais chancelas mudaram de dono e ficaram em pouquíssimas mãos. O que atrairia tão eficazmente o capital estrangeiro para o campo da edição nacional de aparência tão enfezadinha? Aberto ficava o caminho para cá introduzir mais e mais traduções em português dos best-sellers de autores antes editados pelos novos proprietários das nossas editoras nas respetivas sedes (porventura de olho na comunidade lusófona). E os nossos poucos autores com projeção internacional, ligados àquelas mesmas editoras, ficavam também com via aberta de acesso recíproco. A literatura declarou-se então negócio à escala do marketing continental ou transcontinental... e ficámos perante esta literatura de consumo adaptada ao mercado a invadir todos os lusos recantos ao ponto de colocar na zona do invisível a literatura “literária”. (A literatura de consumo ocupa hoje o lugar da literatura popular deixando perceber que não existe mais nenhuma.) No entanto, estas mudanças careciam de uma compreensão mais aprofundada que só perante alguns desenvolvimentos recentes ficou acessível. A compra e concentração de tantas editoras pelo capital que se verificou na Europa traz à colação o esforço gigantesco desenvolvido pelo projeto da Google da biblioteca digital referido em crónica posterior. Mas o caso não se queda por aí, vai mais longe. Enquanto a poderosa Google amontoa milhões de obras digitalizadas no catálogo da sua biblioteca para venda online, os editores europeus preparam-se para a organização de uma plataforma similar deste outro lado do Atlântico. A caça aos “conteúdos” informativos ou literários - agora simples mercadorias - está aberta, cuidado com os fogos cruzados e as baixas pontarias.


Esta informação do Poder

O jornalismo de investigação, praticado como serviço informativo de interesse público isento e livre, em defesa da democracia e da liberdade, foi sempre o brasão máximo da profissão jornalística. Mas, simplesmente, acabou. O que disso resta serão incursões avulsas mescladas de algum oportunismo ao situarem-se no terreno pantanoso de estratégias visando desgastes de figuras públicas com interesses no sistema. Degradou-se o poder da informação, transformada na informação do poder, não por qualquer capitulação dos jornalistas em bloco mas, simplesmente, porque a frágil flor da independência dos seus órgãos de informação caiu em mãos de quem renegava essa independência. Dispondo da propriedade dos órgãos de referência, foi fácil aos senhores do grande capital financeiro orientar e dominar a informação “conveniente”. E, neste pé, será preciso repetir que os jornalistas são assalariados? Interrogação pertinente: causou bastante estranheza a frase há tempos aqui escrita que atribuía a qualidade de jornalistas em Portugal não o Sindicato dos Jornalistas, sim a administração do órgão empregador. Mas é a realidade. Quem emprega inicia o caso, propondo o candidato à profissão ao Sindicato, que lhe confere ou não a carteira profissional. Logo, a primeira escolha é feita pelo patronato. Depois, a exercer a profissão, cada jornalista está integrado num setor com poucos órgãos de referência, onde abunda o trabalho precário e sem direitos e é fácil ficar com o nome “queimado”. Trabalha, além disso, sob a lei aplicável, a Lei de Imprensa e outras. Maior estranheza causará o facto de que a Lei de Imprensa atualmente em vigor, alterada em data memorável, obriga os jornalistas a revelar em tribunal as fontes em que beberam a informação. Ter a obrigação de, em juízo, proceder a tal identificação (ou ficar preso) decapitou cerce, pela última raiz, a liberdade de informação restaurada em Abril. Até alguma liberdade de expressão, assim de golpe, levou sumiço. Admira, então, que o jornalismo presente esteja a morrer, amortalhado em demissionismo, e que os jornais percam leitores? Admira, num contexto mais lato, o escândalo do caso “Face oculta”? Vamos para uma “italianização” da vida nacional? As manipulações da informação já ousam atingir esferas do poder judicial. Um escândalo recente demonstra às claras o avanço (corruptor) da ofensiva: a grosseira deturpação do relatório da Comissão Europeia para a Eficácia da Justiça relativo a este ano. Segundo informação da agência nacional de notícias, alegadamente baseada no relatório, haveria em Portugal juízes à farta, a trabalhar pouco e a ganhar à farta. Um comunicado da ASJP repôs os factos, mas a comunicação social ignorou-a quase por completo e a falsidade espalhou-se. Era a “verdade” conveniente. Mas há alarme nos juízes de carreira porque uns “outros” juízes provêm de nomeação política. O conflito cresce e não é nenhum torneio floral. Basta notar que o presidente do sindicato do Ministério Público, interpretando a lei, responsabiliza penalmente os políticos. Há um vento por aqui a soprar - uma nortada agreste.


WikiLeaks expõe segredos

Ao que vemos, os jornais gratuitos nem conseguem atrair já quem antes acudia às bancas onde agora se empilham e arrefecem. Agora aparecem pelas ruas, oferecidos na ponta de um braço ambulante que passa a distribuir o papel crivado de anúncios. Sabemos hoje que estes jornais não desmerecem assim tanto em comparação com os jornais que os leitores compram e pagam, mas foi deveras chocante ter de reconhecer tal evidência: todos se nivelaram por baixo. Todavia, a Imprensa ainda conserva algum do seu prestígio antigo. É o único media de comunicação escrita em suporte de papel que permite ler e reler ou, querendo, selecionar temas, guardar e consultar. Portanto, foi para os jornais ditos de referência de Nova Iorque, Londres, Paris, Madrid ou Berlim que a WikiLeaks encaminhou, mais uma vez para tirar dos cofres e mostrar ao mundo, outra montanha colossal de documentos secretos da política estado-unidense. A ampla divulgação das “matérias quentes” pretendida pela organização de Julian Assange acabou, porém, de novo, por não acontecer. A autenticidade dos documentos foi confirmada, mas os jornais, em vez de divulgação, entraram num debate marginal que apenas serve para desviar as atenções. Os 251 mil documentos, com mais de 700 enviados da Embaixada EE.UU. em Lisboa, copiados pela WikiLeaks através de intromissão nas redes governamentais, foram sumariamente despachados. Alegaram os jornais que nada ou muito pouco do que os documentos revelavam era novidade, assim demonstrando que os jornalistas sabem muito mais do que publicam. A NATO, naturalmente, condenou a ação e a Casa Branca reclamou: o “polícia do mundo” via em perigo a segurança do mundo. E os jornais acomodados na sintonia do que pensa o “amigo americano” ocuparam-se de um debate bizantino: discutiram até onde pode ir a liberdade de informação quanto a segredos de Estado. Ora é esse mesmo o mérito maior da ação de Julian Assange. Demonstra quão frágeis são de facto as estruturas de segurança em vigor ao mais alto nível, por parte da potência que tanto se deleita a especular sobre os perigos do “terrorismo”. Mas, acima de tudo, demonstra que as políticas dos diversos governos envolvidos por aquele manancial de documentos andam, no fim de contas, a ser escondidas dos cidadãos. A informação que chega à maioria que elege os governantes democráticos é amiúde um chorrilho de meias verdades e venenosas deturpações, logo mentiras, fornecidas em ondas contínuas. A imprensa, queixosa da baixa das tiragens e vislumbrando o seu fim, e os media em geral, renunciam à função que lhes cabe de verdadeira utilidade social mesmo que isso lhes custe a extinção. Sem dúvida, os cidadãos deveriam exigir uma informação mais completa, esclarecedora e credível aos seus governos e seus media, mas os cidadãos foram postos a dormitar nos baloiços do consumismo que os consome. A diplomacia e a política, a governação de cada país e dos continentes entraram numa fase quase críptica. Apenas aparecem ao alcance de alguns iniciados próximos das esferas do poder executivo real. É o que se extrai da corajosa iniciativa da WikiLeaks.


Será isto Cultura?

Desfolhei cinco páginas do jornal que me consumiu anos de escrita e agora poiso aqui um olhar raso de melancolia. Aquelas páginas, ditas de “Cultura”, recheavam-se de anúncios entre grandes imagens e textos sobre filmes em exibição, espetáculos musicais, canções gravadas... Nasceram há uns trinta anos, pela minha mão, no corpo do jornal ainda não tabloide, ocupando os bocados de página que sobravam das cobiças do dia, e depois cresceram, cresceram para albergar a publicidade que foi chovendo... Cultura, aquilo? Cinco páginas - contrapostas ao pedacinho de página regateado onde outrora destaquei obras literárias, autores, exposições de arte, conferências, vivência cultural - cinco demonstrações do que é hoje, ou deveria ser, entendido como “cultura”? Que lugar resta que chegue para dignificar a literatura, o pensamento, a comunicação estética? Quando “tudo é cultura”, continuará a ser ainda Cultura o quê?! Evitemos o simplismo de crer que o assunto é de índole académica, sem consequências reais graves. Porque é a Cultura que nos faz ser quem somos como somos. O entendimento que aposta em “tudo é cultura” é inovação recente. Alinha na crescente “americanização” das mentalidades europeias, lançando para a cova funda a riqueza da herança humanista que nos formou. E perde de vista a razão intrínseca que, por exemplo, nos obriga a manter as alusões à língua e cultura portuguesa sem plural (isto é, no singular), pois língua e cultura são entidades indiscerníveis. Esteio matricial da Cultura é mesmo a língua que falamos e nos fala, o sangue verbal que nos corre nas veias da alma coletiva. Digo que somos feitos de palavras, palavras que se nos acrescentam à medida que vivemos, as do nosso nome, data, local de nascimento e nome dos pais, até à certidão de narrativa completa e, por fim, a certidão de óbito. Sem palavras, o que fica de cada um de nós além do montículo anónimo de cinzas?! É na palavra viva, é nos textos, nos livros, que as palavras se arrumam, articuladas pelo sentido do que exprimem. As pinturas, as músicas, as danças são modalidades artísticas capazes de transmitir emoções estéticas e articularem mesmo determinados sentidos, mas esses sentidos terão sempre que recorrer à palavra para se tornarem definitivamente sensíveis. Assim se demonstra uma deriva nada inocente. A palavra dos textos (neste caso jornalísticos) veicularia ideias, provavelmente ideias incómodas, renegáveis ou discutíveis, de qualquer maneira trabalhosas de ler e, para cúmulo, pouco lidas. Preferível, então, rechear páginas e páginas com espetáculos e cantigas muitas, conteúdos alegres e divertidos... Contraste: imagine-se agora o valor de uma biblioteca com três ou quatro mil volumes. É o tamanho de uma que deveras me emociona vendo-a, no Youtube, levada aos poucos, por quem arrisca a pele pelos trilhos da Colômbia com a tabuleta bem visível no lombo da alimária para afugentar tiros insurretos de dois ou três lados: “Biblioburro”. O padre António Vieira foi talhante: “O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.”


Notícias abundam, informação falta

Entre o cidadão e os acontecimentos mais sérios erguem-se paredes de crescente opacidade. Mas esses acontecimentos trazem consequências graves para cada cidadão e a vida coletiva em geral. Todavia, privado de informação esclarecida e esclarecedora, o cidadão fica também privado de elaborar uma opinião sustentável sobre cada assunto... sendo essa opinião a condição primeira da cidadania. Generalizou-se portanto a atitude característica do “juízo suspenso” que alimenta nas massas o conformismo e a resignação. Chegámos ao ponto em que é normal não se ter opinião própria quanto a vastas gamas de problemas sérios como os ligados aos atos da governação do país ou quanto a acontecimentos dramáticos de grande relevo internacional. E eis-nos atolados na contradição: os banhos noticiosos diários deixam os cidadãos no escuro do que mais lhes importa. De facto, a informação não é notícia (mercadoria de consumo rápido), embora esta sirva àquela. Portanto, navegando em maré-cheia noticiosa, declara-se um défice clamoroso absolutamente nada democrático: sobram as notícias postas a correr mas falta informação, elemento indispensável à formação de opinião privada ou pública. Veja-se um caso, o estendal (insondável?) de dívidas contraídas pelo Governo português e os bancos, as autarquias, empresas, equipas de futebol, famílias. A única “explicação” que o fenómeno vai tendo limita-se a responsabilizar a “crise vinda de fora”, o que não explica nada. Interrogação: onde foram esconder-se as riquezas que eram do país? Evaporaram-se? Outro caso (não menos espantoso). Alguns países da NATO, a reboque dos EE.UU., resolveram impor a interdição aérea e bombardear um país soberano e o seu povo, alegando fins humanitários: proteger os grandes “libertadores” lá do sítio que se revoltaram - de armas na mão! - por sinal (olha a coincidência!) a partir da cidade central da exploração petrolífera do país que logo lhe passou para as mãos. E agora, o Governo atacado e o seu povo, que se defenderam dos ataques dos civis armados, são acusados pelos “libertadores” por se defenderem e estão sem poder mexer nos capitais investidos no estrangeiro. Mais um caso, o da anunciada morte de Bin Laden, no Paquistão. As versões do acontecimento resultam tão contraditórias que se anulam reciprocamente e ficamos sem atinar no que de facto aconteceu. Estaria o homem ainda vivo? E seria ele real? Ali, naquela casa? Como entender o comportamento dos governos envolvidos na sua condenação à pena capital sem julgamento? A nuvem de suspeitas geradas em torno do 11 de Setembro, que tanta (in)segurança justificou, torna a adensar-se neste ambiente de suspeições em que ressurge a teoria de que o ataque com aviões que atingiu a nação americana se deveu a maquinação conspirativa secreta. Parece óbvio que a opacidade que rodeia os mais sérios acontecimentos do nosso tempo, sendo desmobilizadora da participação cidadã lúcida e consciente, resulta do falhanço da missão a que se votou a comunicação social - informar. Mas esta informação, intoxicante e manipuladora, realmente não presta.


Vidas públicas… privadas?

Prometo, não vai ser mais um dos milhentos comentários ao caso de D. S. K., vitimado no seu luxuoso hotel nova-iorquino pelo reafirmado gosto de caçar carninha nova. Quem segue este blogue sabe da pouca saída que nele têm os faits divers que fazem manchetes e emocionam os comentadores. Mas a desgraça do então ainda presidente do FMI abalou Paris e, aparentemente, a França inteira, a Europa e a América, pelo que tomo o caso apenas para avaliar até que ponto pode ser privada uma vida pública. Trata-se de uma discussão centrada nos profissionais da informação que trabalham lidando com governantes, políticos, banqueiros, gente mediática ou mediatizada. Cedo os jornalistas se habituam a enfrentar a questão e a responder-lhe na prática, acatando ou negligenciando os preceitos do código deontológico aplicáveis a cada caso. E ninguém consegue evitar que a questão do dito sr. se enrede e se torne polémica, cruzada por opiniões tão contraditórias quão os interesses em presença. É preciso varrer a confusão e afirmar doutrina tão justa e exemplar que por si mesma se imponha. Dispensam-se arrazoados, basta aplicar o simples, o comezinho senso comum. Rareia hoje tanto que surpreende como flor de cacto a colorir o deserto. A forma como o sistema judicial tratou o sr. D. S. K. suscitou comparações com o similar de tipo europeu. Este ficou a perder. A justiça norte-americana mostrou ser menos morosa, primando mesmo pela rapidez. Sublinhou, especialmente, que todos os cidadãos são iguais perante a lei e, portanto, tratados igualmente. Mas foi isso, precisamente, o que mais parece ter empolgado as opiniões europeias (e daí os álibis: armadilha, conjura política). Abstraindo-se do próprio caso, escandalizaram-se com as imagens do indivíduo levado a juízo, algemado, ele, habituado ao maior luxo, um sujeito dos mais poderosos do mundo, ali feito um farrapo, abatido poucos dias depois de ter estado em Lisboa a dar ordens aos governantes e políticos desta pequena República ibérica. Então... e o respeitinho?! Neste sentido, houve muita opinião europeia que lamentou que o sr. D. S. K. não tivesse tido o caso por cá, pois seria bastante mais bem tratado - oh, sim, bastante mais! A empregada do hotel seria detida e castigada por difamar o preponderante personagem, tão amável que até olhara para ela. E o grande homem partiria com vénias e desculpas. Aqui atingimos o cerne da questão. As figuras públicas, ou mediáticas em geral, incluindo as mais poderosas, terão legítimo direito a estar acima da lei ou, no mínimo, a manterem sob reserva uma fatia qualquer da sua vida privada? Até que ponto uma figura pública conserva ou perde, pelo facto de ser “pública” e na medida em que o seja, o poder para fechar a porta à curiosidade alheia e mesmo à coscuvilhice? Na verdade, as figuras mediáticas encarnam um paradoxo: pretendem ter vidas algo privadas sendo públicas. Porém, para todos os efeitos - os fastos e os nefastos quanto maior for a dimensão pública que uma pessoa alcance, mais pequena será a sua liberdade real. Pretender fugir aos efeitos nefastos é ilusório: quanto mais a pessoa tem nome e rosto na praça, mais poder confere aos outros sobre si mesmo.


Por exemplo: Murdoch

O escândalo das escutas ilegais que provocou a liquidação súbita do jornal inglês News of the World e forçou o seu dono a desistir da compra do canal de tv por satélite, negócio apetitoso de uns dez mil milhões de euros, trouxe para a ribalta a figura de Rupert Murdoch. O magnata dos media (Austrália, Estados Unidos, Reino Unido e, enfim, em quatro continentes) ilustra exemplarmente as misérias em que chafurda a imprensa tabloide, do sensacionalismo barato custe o que custar. E agora - a lembrar Orson Welles no clássico filme “O mundo a seus pés” - parece que chegou ao momento de o céu lhe cair em cima da cabeça. Em Londres, Nova Iorque, Sidney e outras cidades, estão sob suspeita e investigação os critérios editoriais praticados pelos órgãos de comunicação social pertencentes à poderosa News Corp de Murdoch. Com a cumplicidade de políticos e de estadistas, este “cidadão Kane” concentrou um império mediático tão vasto e corruptor que lhe permitiu criar ou destruir governos, influenciar disputas eleitorais e políticas governativas. É o que se diz agora, abertamente, quando o medo se dissipa e o magnata parece ter caído em desgraça. O poderio de Murdoch provém da quantidade incrível de órgãos mediáticos que conseguiu concentrar e dominar em diversos países. Se não fosse agora travado pelo escândalo das escutas (que envolve em suspeitas outros tabloides do grupo), ficaria de posse de mais de metade dos media comerciais britânicos. O homem, com seu filho, é tido como um problema tão global quanto a corporação que criou. Acusam-no de ditar orientações ideológicas aos seus órgãos, de corromper e controlar democracias, forçando políticos a seguir as suas próprias ideias extremistas quanto a guerra, tortura e outros problemas mundiais, ou destruindo carreiras de políticos que lhe resistam com campanhas de difamação. É apontado por ter ajudado, nos Estados Unidos, a eleger George W. Bush e de ter às ordens a maioria dos presidenciáveis republicanos. A rede Fox News, do império Murdoch nos Estados Unidos, espalhou notícias para promover a guerra no Iraque, estimulou o ressentimento contra muçulmanos e imigrantes e lançou um movimento populista de direita. Isto basta como exemplo da valia real de uma (des)informação sem escrúpulos, orientada para a corrupção e o negócio lucrativo (ilustrando o quadro da decadência geral dos jornais, incluindo os gratuitos). Atrai as massas populares servindo-lhes o papel sujo dos seus jornais, manipula as opiniões sem respeitar os factos e, com as tiragens e audiências que atinge, atrai os anunciantes para a publicidade encarecida. Salienta também os sérios perigos, para os regimes democráticos, que acompanham a concentração de órgãos de comunicação social de cada país em poucas mãos escolhidas e amigas. Em Portugal, onde está na memória fresca o caso “Face oculta”, essa concentração é elevada apesar das disposições em contrário. Um grande número de órgãos privados influentes já está às ordens de um pequeno grupo de pessoas. E, conforme já se anuncia, um canal da televisão pública irá em breve ser privatizado...


Cronista de mão tremente

Treme a mão do cronista abalada por tantas e tamanhas convulsões. É sismógrafo sem agulha nem tinta para escrever sobre rolo contínuo de papel, mas o telurismo louco dos estremeções do mundo sacode-o igualmente. A violência das convulsões cruzadas acumula-se por fim até ao ponto de paralisar a mão escrevente. De facto, o cronista sente-se aturdido e confuso no emaranhado de acontecimentos principais em veloz precipitação. Quer deixar constância do seu tempo, registando o essencial, e fica sem saber o que tomar como expressão da geral hecatombe a que assiste. Não é segredo para ninguém, pois todos o sabemos, estamos desde há anos num processo de feroz decadência e agora afundamo-nos num paradigma de máxima e conscienciosa desonestidade. A contravenção e mesmo o crime perderam a carga infamante que tinham. A fraude gigantesca e a trampolinice descarada já parecem afirmar o talento, senão mesmo o génio dos seus executores. A hipocrisia mais cínica e a mentira mais descarada já se justificam como direito legítimo à defesa dos arguidos criminosos. A busca do negócio lucrativo invade o terreno, contamina mesmo instituições de índole não lucrativa. A força do dinheiro é a força do poder, ter dinheiro ficou no lugar da meta suprema ainda que seja à custa de escândalo. O exemplo vem do cimo da pirâmide social e propaga-se até baixo. Operou-se uma difusa “italianização” da política. As máfias podem influenciar partidos, governantes, administrações. Os antigos “pilares da sociedade”, corroídos por lepra que tudo devora, oscilam e baqueiam. Invocar a “consciência” (individual, em criminosos, ou colectiva) não passa de um vulgar truísmo de careca ao léu. Certo pensador contemporâneo, anónimo, lançou a propósito uma sentença contundente. Afirmou: De nada a consciência acusa os cagões que não sentem qualquer nojo da sua própria merda. A esfera da política internacional deixou-se invadir por conspirações que negam o primado das leis aplicáveis e se sentem à vontade para iludir as aspirações populares a uma coexistência pacífica. A informação dos media vê-se “normalizada” (isto é, açamada) e esbraceja para proteger as quintas dos donos. Torna-se cada vez mais difícil acreditar no sistema democrático, no governo, na justiça. A palavra, desonrada e aviltada, perdeu o valor. A desestabilização geral entrou pela porta larga e espalhou-se pelo mundo. É preciso restaurar a palavra honrada e, por esse caminho, regressar ao que os Homens podem possuir de mais digno e humanizador. Restauremo-la, pois, urgentemente. Com o remorso de quem sente no peito o peso imenso das monstruosidades vulgares que invadem os nossos quotidianos e já deles fazem parte “natural”. Mas vendo bem a monstruosidade maior de todas, a de deixarmos de herança às novas gerações a montanha asfixiante dos problemas (individuais, nacionais, planetários) que soubemos amontoar e deixamos por resolver.


A Deriva


Homens que faltam à vida social

Não vão bons os tempos para uma certa estirpe de homens de qualidade. Isto é perfeitamente claro mas, ainda assim, a consciência da falta que deles se avoluma na vida social parece facilitar pouco a definição do seu perfil. É, ou pode ser em partes desiguais, um misto de intelectual-cidadão, escritor-artista, pensador-interventor... Também pode agregar, conforme os casos, algo de austero ou de monástico. A figura do monge mistura-se razoavelmente com o perfil geral da estirpe dos homens que faltam. É alguém que vive na Cidade e, simultaneamente, à margem, como que ostracizado por decisão própria. Talvez haja por aí algum homem destes e não consigamos senti-lo entre o vozear tumultuoso que nos envolve. É por certo um desconhecido quase ignorado. Não habita no espaço público, onde reina a mediocridade, ainda que o frequente e é um desconhecido porque foge da esfera mediática. A disciplina a que se obriga separa com clareza a cultura de massas (que encobre a cultura popular tradicional em extinção tal como a sua matriz, os espaços rurais, substituídos pela invasão do suburbano) da cultura culta. A de massas, para ele, é a cultura do consumismo consumidor, o reino do espetáculo alienante e da mediocridade estabelecida pelo negócio. Os homens que fazem falta à vida social aparecerão com figura bastante anacrónica e, todavia, podem ser de vanguarda. Avaliam quanto teriam de perder desde logo em autêntica liberdade mental e em coerência ética se embarcassem nas vulgares carreiras e aventuras. Não lhes interessa a fama, o poder ou o dinheiro - interessa-lhes, por definição, afirmar em plenitude a liberdade criadora do que é humano, do que é estético e seja deveras redentor. Quem respira o oxigénio da esfera mediática sujeita-se aos ditames do mercantilismo, da concorrência, das imagens de marca em circulação “pós moderna”. Ora o mercado coisifica o que nele entra; o dilema consiste portanto em alguém se deixar coisificar ou não. O intelectual-cidadão (compósito do escritor-artista, do pensador-interventor, etc.) recusa subverter a sua lucidez, a sua independência de espírito na agitação estéril do espetáculo permanente que hoje serve para o que serviu outrora o “ópio do povo”. Realmente, o povo continua a depender de drogas. Marx cunhou a expressão e a expressão mantem-se em plena vigência. Que o diga Craig Roberts, economista americano citado em crónica anterior, o tal que diz “Adeus”. A vida social precisa angustiosamente de homens assim, com mentalidade e cultura humanista para opor eficazmente à mentalidade e à cultura tecnocráticas. Capazes de permanecer em retiro, atentos aos sinais do mundo, sempre disponíveis para descer à praça a clamar J'acuse! e em seguida afastarem-se. Homens de modéstia mas também de altiva dignidade e coragem suficiente para responder ao rei que apenas querem que se desvie um bocadinho e não lhes faça sombra...


Rãs a cozer na panela

Quantos de nós terão partilhado um anexo de email que, muito solícito, nos pedia para identificarmos os três primeiros símbolos do código de barras? A ideia seria boa: identificávamos o que era da produção nacional. Consumindo o que produzíamos, apoiávamos a nossa economia e combatíamos o desemprego. Mas o que seria boa ideia, nesta cabeça irremediável, emperrou. Cogitando, não partilhei a mensagem com ninguém. Acusem-me agora de boicotar os esforços portugueses para sair da crise. É que a sugestão para apoiarmos desse modo a produção nacional trouxe à lembrança outras sugestões recentes igualmente positivas. Uma “apresentação” (ou pps) sobre a “pegada humana” referia que deitamos fora, para o lixo, a cada cinco minutos, dois milhões de vasilhas de água - garrafas de plástico - (sem esquecer os filtros dos cigarros, os telemóveis, etc.). A mensagem era clara: devíamos banir a compra de água envasilhada em garrafas de plástico. Beberemos então a água diretamente da canalização? Errado. Outra “apresentação” anunciou que cada pessoa ingere com as águas públicas, num ano, um quilo de excrementos. Logo, optemos por beber vinho; mas... Foi preciso parar neste ponto. A estranhar, como o menino estremunhando do seu sono. Então agora é assim?! Então o Estado, administrado pelo Governo nacional, que tem autoridade para nos compelir a pagar impostos, já não tem autoridade nem vontade para nos garantir a máxima segurança quanto ao ambiente, à saúde, à formação escolar, à justiça e à paz no território? Se o vasilhame de plástico é problema, por que não (re)impor o de vidro (reciclável)? Se a água do abastecimento público anda cheia de matérias fecais pois os rios se transformam em canos de esgoto, por que não aplicar normas severas e eficazes que os protejam? Se os maços de cigarros e os telemóveis usados são montanhas de lixo, não vê isso o Estado, tão ágil e pressuroso a salvar bancos falidos? Quer dizer: é a nós, consumidores individuais, que compete ter consciência dos problemas sociais e meios para os resolver? Motivados um a um (isto é, verticalmente) por mensagens deste género, bem intencionadas mas condenadas ao fracasso? Quando o Estado, administrado pelo Governo, tem na mão os instrumentos operatórios para abranger com a máxima eficácia, no plano horizontal, toda a população? Afinal, para que lado governa o Governo que deixa aos consumidores o encargo de atender aos problemas coletivos? Estas interrogações trouxeram à memória a fábula proposta há tempo por Olivier Clerc, escritor (e muito etc.) nascido em 1931 em Genebra, Suíça. Se a rã que nada na panela sentir a água a 50º, salta fora para não se queimar; mas se a temperatura for subindo pouco a pouco... a rã vai-se deixando ficar. Sentem o escaldão a crescer cada vez mais pessoas. Rãs apanhadas na panela e já sem forças para saltar fora. O seu coaxar é opinião pública entoada pelos abastecedores da opinião publicada.


Da República à Democracia por vir

Deixou meu pai de ser vassalo, ou súbdito, graças à República. Festejou-lhe o advento, sentindo que fora demasiada a espera. Mas eu, ao nascer, fui logo declarado cidadão de corpo inteiro. Sem mais sujeição a privilégios de casta, tive direito à Cidade entre outros iguais. Despontava, no azul céu das aspirações, o penacho guieiro da Democracia… O primeiro republicano, para mim, foi meu pai. Nascido em 1895, ia nos quinze anos quando chegou o regime agora centenário. Coerente com os seus ideais, partiu em 1917, como expedicionário, rumo às trincheiras de La Lys para combater a invasão dos boches. E também pela República foram meus tios maternos, entre outros familiares. Todos republicanos e liberais, todos de sangue vermelho a espirrar, viam no honrado trabalho produtivo o único título legítimo de nobreza. Liberais queria dizer, então, que eram pela liberdade – a sacrossanta liberdade que em 1935 uma brigada da polícia política de Salazar levou presa de casa de meu pai. Um simples pano, mero símbolo, uma antiga bandeira, foi apreendida aos olhos arregalados do menino de cinco anos que eu era, apenas porque o pano simbolizava uma certa “União Liberal”. Sem discussão: a liberdade tão linda sabe-nos a pouco na Cidade onde reinam tamanhas desigualdades sociais. Mas por ela haveremos de chegar um dia à igualdade e à fraternidade, consignas da Revolução Francesa guardadas no coração dos povos que pouco mais têm de alimento do que a esperança. E vamos aprendendo que a liberdade tem que ser conquista diária sobretudo quando a perdemos de golpe (como o meu tio, já idoso, levado e torturado pela PIDE, que tornou ao seu leito para morrer), ou perdendo-a pouco a pouco, como as rãs na panela ao lume da fábula de Olivier Clerc que acordam em plena cozedura já sem forças para saltar fora. Era ele, esse tio, e o meu pai, e todos os meus outros tios, republicanos liberais. Nos anos ’60, sob a Ditadura, alinhávamos pela Democracia eu e um filho daquele tio, portanto meu primo, e também nós experimentámos no corpo a brutalidade repressiva da polícia política salazarista a arrancar “confissões” sob tortura. Confirmámos então, com Maiakovski, que a liberdade que para os outros se vai perdendo se perdia igualmente para nós: sentimo-lo deveras quando a repressão nos bateu à porta. Depois, a República portuguesa – a primeira, segunda ou terceira – caiu assim ou assado em poder de oligarcas que a tornaram miragem na medida em que se assenhorearam da coisa pública ou a dominaram de facto. Permaneceu, todavia, como modelo ideal do regime do povo, pelo povo e para o povo. Mas o povo foi sendo cada vez mais afastado da coisa pública que diretamente lhe dizia respeito. A participação cidadã entrou em gradual declínio após o “25 de Abril”. A governação foi sendo entregue a políticos de carreira, militantes de partidos assentes em estratégias eleitorais pessoais focadas na tomada do poder. Avultou, portanto, o carreirismo e minguou a entrega à causa do povo. A política esvaiu-se de ideais, enchendo-se de pragmatismos interesseiros e transformando-se em espetáculo mediático.


A política perdeu a dignidade de serviço público e políticos sem ética foram condenados pela opinião popular quando leis oportunas por eles promulgadas os isentavam de abusos e transgressões inaceitáveis. O regime republicano como que esbateu a cor vermelha, dita jacobina, e até o próprio conceito de Democracia como que empanou o fulgor na medida em que se apresentou aqui e ali com geometria variável. Mas o desgaste dos conceitos, obra de utilizações oportunistas, apenas exige uma refundação corretora, não substituto a inventar. A Democracia continua a ser o melhor sistema por afirmação consensual. Democracia republicana, evidentemente, para que a letra condiga com a careta. Conforme se diz e repete, o sistema tem defeitos; todavia, esses defeitos parecem derivar apenas dos escassos aprofundamentos que esvaem a Democracia de conteúdo. Devidamente instaurada, a Democracia ver-se-ia livre de adjetivações redutoras ao ponto de realizar por fim, consumando deveras, o projeto do socialismo. Esquecem este ponto os discursos correntes porque o sistema democráticorepublicano vem conhecendo práticas que lhes desvirtuam os pressupostos essenciais e deixando à vista pouco mais do que meros rótulos. O nó górdio do problema – a organização da sociedade – está, não no próprio regime republicano ou no sistema democrático em vigência, sim na estrutura de classes da mesma sociedade. Regressemos, pois, ao ensinamento de Marx, enfrentando o problema: poderá reinar a igualdade, qualquer que seja, no interior de uma sociedade dividida em classes? O patrão não se iguala ao assalariado, o rico ao pobre, o culto ao analfabeto, o capitalista ao proletário. Uma mesma lei não atinge os cidadãos de forma idêntica quando difere a respetiva condição social. Até o dinheiro, uma mesmíssima nota, tem valor real diverso consoante a mão que a detém. Portanto, para efetivar plenamente a Democracia, bastaria decerto resolver na base o problema de classes (isto é, resolvendo o problema da propriedade dos meios de produção) para instaurar a igualdade com liberdade e fraternidade. Nas classes se concentra a expressão das tremendas (e, apesar disso, crescentes) desigualdades sociais que caracterizam o nosso tempo. A concentração da riqueza e do poder real permitido pelas “economias de casino” atingiu níveis altíssimos, mais uma vez à custa de ingentes perdas e sofrimentos das camadas populacionais intermédias (são, lembre-se, o “corpo” da nação afora os segmentos do topo e do lastro). A dita globalização, por um lado, e a especulação financeira como atividade económica principal, por outro, deixaram a nu comportamentos de máxima gravidade. O capitalismo, que se conforma mal com a democracia republicana em períodos de crise económico-social, entrou em pré-ruptura, depois de conjuntos partidários haverem tomado como refém a Democracia perante massas de eleitores anestesiados. Viu-se então, em variados países ocidentais, como governantes medíocres haviam entregado de bandeja, a bancos e sectores financeiros internacionais, o poder recebido dos seus eleitores. A governação requintara-se em (des)governança… Em 2010, a questão do poder democrático republicano coloca-se, tem de colocar-se forçosamente, numa formulação nova capaz de responder a cada uma das crises que entretecem o manto da crise global que recobre o nosso tempo. O predador século XX, embebido em petróleo e poluição, fecha com outro crash monstruoso e nada pode continuar agora como antes. Impõe-se uma completa renovação de paradigmas. Para se dignificar, a política terá de saber defender-se de assomos de “profissionalização” (clientelismo) e de tornar a revestir-se de valores éticos convincentes. A cidadania, para existir e reinar, tem que libertar-se da massificação (tirania em curso).


Os défices orçamentais crónicos (que se transformaram em arma de arremesso contra as classes médias em tantos países atolados em dívidas “convenientes”: justificam os impostos sobre rendimentos individuais e constantes privatizações), pedem criminalização. De outro modo, as classes médias nacionais aparecerão ainda mais em evidência como os principais suportes pagantes de cada Estado. Com suficiente intervenção estatal, as economias têm de voltar a ser produtoras de bens de consumo, largando os gordos lucros da especulação financeira. A conservação do meio ambiente deverá abrir-se para a utilização correta dos recursos naturais. Uma sociedade de integral ou avançada Democracia tem nessa matriz garantidas as melhores condições de paz e desenvolvimento. Rejeita as deslocalizações ávidas de mão de obra pouco menos que escrava e o neoliberalismo, tal como rejeitará as indústrias de guerra, a militarização do espaço. Em suma, os políticos eleitos para os órgãos do Estado têm que pôr as mãos na condução da economia, reconhecendo que o mercado nunca soube autorregular-se. Exijam por palavras e atos o acompanhamento constante de uma opinião pública enérgica, esclarecida e criteriosa, por mais que isso requeira, a prazo, uma reforma cabal das políticas, desde logo escolares, geradoras do estendal instalado de conformismos e mediocridades. É tempo de sairmos de vez do século XX, limpando os pés e recolhendo os ensinamentos que o passado nos deixou de mistura com os sofrimentos; é tempo de encetarmos a nova centúria com a decisão clara de vivermos por fim um período de paz e fecunda estabilidade… em nome da civilização. Deparam-se-nos amontoados de problemas ingentes e de impasses cruciais. A regra dos três RR (reduzir, reciclar, reutilizar), por exemplo, pode ser bem-vinda se vier a espelhar atitudes coletivas de recusa a consumismos e comodismos fáceis. E há muitas outras opções sérias a fazer, rupturas e mudanças dramáticas à espera no plano das ideias, das mentalidades e dos comportamentos gerais. Sem dúvida, levantar-se-ão as forças de bloqueio habituais contra qualquer esforço de autêntico progresso humano. Mas os imperativos das novas realidades dispõem de voz para falar mais alto em cada situação. Os políticos e os governantes que pretendam legitimar-se perceberão com inteligência que o discurso-modelo terá que mudar de registo para conquistar a adesão lúcida dos eleitores. Sairão prestigiados tanto mais quanto conseguirem abolir a mera propaganda e falar verdade, a comezinha verdade dos factos, sem manipulações. Neste limiar do século XXI aberto em crise, abrese lugar para a esperança. De facto, os desafios do presente mostram-se rotundamente dilemáticos. Haverá obstáculos a transpor, desvios, atrasos (a concentração da riqueza no topo atinge cotas explosivas). Mas as sociedades democráticas republicanas acabarão certamente por aprofundar essa sua matriz, demonstrando na prática o que guardam no seio - um projeto de virtualidades inesgotáveis, pronto para inaugurar um esplendoroso futuro. E, finalmente, a política irá recuperar do atraso e acertar o passo com a história.


Não há dúvida

A frase ficou-me na ideia desde que os olhos me caíram na citação. Agostinho da Silva propunha ali que é preciso crer com toda a nossa força para chegarmos a duvidar. Mas aquele homem de fé, notável agitador das meninges, está a cair nos limbos do esquecimento em que se afundam tantos outros brilhos da inteligência, porquê? Trrrrim!, onde resta hoje lugar para a dúvida? Para chegarmos a acreditar, temos de possuir a coragem suficiente para duvidar. A força da crença é irmã siamesa da dúvida. Existem correlacionadas, não vive nem sobrevive uma sem a outra. Mas hoje estamos envolvidos por múltiplas conformidades estabelecidas que dão cama ao Pensamento Único imposto por quem manda. A brutal formatação das consciências acompanha a massificação das populações. Discursos políticos, informativos ou culturais, normalizaram-se perdendo variedade e pluralismo ao ponto de qualquer divergência enérgica soar como estante de música a cair com estrondo no palco em meio da sinfonia. Duvidar é molesto, inquietação frívola, inútil perda de tempo. Está tudo assente, esclarecido, resolvido por pessoas, decerto não as mais adequadas e competentes, mas que de qualquer modo têm o poder e usam-no. Discutir com o poder é difícil, tanto como discutir com o padre que diz a missa, porque estamos a jeito para discutir o jogo de futebol, não a liturgia ou o orçamento do Estado. As grandes empresas seguiram o governo e habituaram as populações massificadas a entregarem-se, confiantes, nas suas mãos. Tal como liquidam os impostos, assim deixam também às empresas o incómodo de lhes administrarem os consumos e o dinheiro do que pré-pagam. Entregarem-se, confiantes, a quem deles cuide é o mais belo sonho dos massificados. Querem a descomplicação da vida, a máxima simplificação do pensar. No mesmo sentido vem trabalhando as escolas a todos os níveis. E é assim que, por cá e pela Europa, aparecem tantos políticos e governos medíocres a titubear em face da crise e sem forças para a resolver. Porém, o governo belga ganhou força para proibir o véu islâmico nas ruas e outros locais públicos e o colega francês, consagrando a memória da Liberdade, Igualdade, Fraternidade, dispõe-se a seguir-lhe o exemplo. A ditadura do Pensamento Único rasoira as diferenças até no vestuário civil. Como pode este nosso tempo não ser marcado por tantos sinais de imensa decadência? É tão desgraçada esta decadência que esconde, ou impossibilita, a emergência de uma, ao menos uma, grande figura intelectual e moral! Uma personalidade com prestígio autêntico e autoridade incontestável de Mestre e público atento às suas palavras serenas, nobres e sábias. Enfim, não resta dúvida. Vamos em frente. A chuchar no dedo, para o abismo.


O fim das democracias

Um sistema eleitoral, a funcionar corretamente, é sempre, por definição, democrático. Chama os eleitores para que escolham os seus governantes, para isso mesmo serve o sistema. Mas não garante, de modo nenhum, que os governantes eleitos entrem a governar democraticamente, nem sequer que venham a cumprir alguma das intenções proclamadas em campanha gozando embora do direito (discutível, ilegítimo) de exercer por inteiro os seus mandatos. Portanto, umas eleições muito corretas e democráticas, no fim de contas, garantem pouco o que mais importa: que o poder não fique entregue às mãos de governantes eventualmente pouco ou quase nada democráticos (também Hitler ganhou a eleição). Governantes que recorrem ao sistema apenas para ganhar uma aparência de legalidade, ludibriando a liberdade e o sistema. Tentam cobrir-se com pele de cordeiro para disfarçar o lobo a instalar-se no interior do rebanho. Com a política transformada em mero espetáculo e a satanização massiva de quaisquer políticas de esquerda veiculada pela comunicação social corporativa, fácil é, como se tem visto, promover a eleição de governantes que acabam por prejudicar os interesses populares. A satanização massiva envolve as organizações de esquerda, na medida em que se mostrem de esquerda, de modo que o espaço eleitoral das maiorias reflete a contradição: o povo elege o lobo travestido de cordeiro. Basta conquistar a chefia de um partido (de direita) para dispor de dinheiro e suporte de boa propaganda e, na disputa do jogo eleitoral, apostar na eficácia das manipulações. De facto, evidencia-se a imposição de uma partidocracia, que escapa à lógica do sistema democrático ao fazer eleger como governante da nação o chefe eleito do partido (e os seus próximos apoiantes). O governante de direita elegido pelos parlamentares em nome do povo (logo, por representantes) cai em contradição ao praticar políticas que defendem interesses exclusivos de minorias à custa do povo. Contradiz a essência da democracia, que manda governar, sem sofisma, a favor das maiorias. Evidentemente, numa sociedade de classes, o sistema democrático aparece mais ou menos limitado a simples aparências formais e com esse pouco de política se contenta. Mas nega a democracia tudo o que livra os governantes de responsabilidades judiciais, a começar pelas leis que eles próprios fazem e aprovam em pura autodefesa. Em nome da democracia, os governantes tiveram sempre o dever ético de responder criminalmente pelos seus atos, a começar pelas proclamações feitas em campanha eleitoral e logo renegadas. Na presente fase da furiosa concentração capitalista, com as economias mergulhadas na crise e o neoliberalismo a galopar, os pudores da outrora designada “democracia burguesa” desapareceram nos Estados em corrida para salvar bancos arruinados com o dinheiro dos contribuintes. As forças dominantes optaram: entre a civilização e a barbárie, repudiaram a civilização e o fim desta democracia ficou à vista. Os governantes trabalham hoje em proveito de caras semiescondidas de potentados financeiros, não trabalham para o povo. A democracia que houve torna-se totalitária.


Outra reflexão em tempo de crise

Um governo democrático é eleito para governar. Não de qualquer forma, não para desgovernar a nação, e sim de acordo com as promessas contidas no seu programa político. Se pretende governar bem, governará a favor da maioria eleitoral que lhe confiou o poder, não a favor dos interesses de uma qualquer minoria. Se utiliza o poder que o povo lhe atribuiu para reforçar o poder de uma oligarquia, por muito poderosa que ela já seja, esse governo trai o mandato popular recebido. Comete uma infração gravíssima aos olhos abertos de quantos cidadãos lhe deram o voto e dá-lhes direito ao protesto, à indignação e mesmo à revolta. Se as leis nacionais não punem essa infração com severidade, será porque os cidadãos desmazelaram os deveres da cidadania e os políticos oportunistas se aproveitaram. Uma tal infração deve ser punível como o crime que realmente é. Dentro do sistema autenticamente democrático, as leis e os costumes nacionais em vigência devem sancionar talhantemente esses desvios, chamando ao pelourinho da justiça os prevaricadores (como na Islândia, que leva a tribunal o responsável pela bancarrota). Sem discussão, um governo que desgoverna a nação de modo desastroso comete um duplo crime: ludibria a confiança que mereceu da maioria democrática e defrauda o sistema político vigente em benefício particular de uma oligarquia privilegiada. Utiliza o formalismo eleitoral democrático para, em última análise, agindo dentro da democracia, atentar contra a democracia, destruindo-a. Ora este é o regime que, claramente, por essencial definição, serve para proteger o pobre da violência do rico, o fraco da força do forte, aspirando a uma igualdade legal. Nenhum sistema democrático pode considerar-se acabado, definitivo, perfeito. Precisa de constantes aperfeiçoamentos, como pintura inacabada a caminho da perfeição final. Mas é neste ponto que emerge a questão: nenhuma democracia mostra hoje interesse convincente em se aperfeiçoar, tomando-se já como feita e perfeita. A ação governativa (para iniciados, por escassez de diálogo) foi-se limitando à esfera do poder enquanto a política se tornava espetáculo, o sistema escolar entrava na “pedagogia” do celebrado facilitismo e os media distraíam os cidadãos com futebóis e telenovelas, retirando-os da participação política. A participação cívica embaraça os governantes (cujo ardor democrático, por sinal, se afirma pela inversa). Falta agora desejar que a governação não seja mais confiada a profissionais da política nem a pessoas muito endinheiradas, ainda que tenham dinheiro para gastar pelos seus (interesses pouco) ideais. A crise que avassala o mundo provém de diversos fatores e conjunturas, mas parece óbvio que os problemas se amontoaram mais e mais com os governantes a rodearem de secretismo os negócios do Estado e a afastar dos debates políticos nacionais camadas sucessivas da população. Aprendemos assim que são as pessoas capazes de chamar, e não de arredar, os eleitores para o diálogo democrático permanente que merecem a eleição para servir o povo.


Quem quer destruir o Estado

Chefes de governo e presidentes saem frequentemente para o estrangeiro levando consigo um cortejo de empresários, banqueiros, financiadores. O porquê não aparece explicado mas entende-se. As principais figuras do Estado oferecem as viagens não porque os convidados estejam sem dinheiro para as pagar, e sim porque o país de origem pretende estabelecer áreas de negócio com os do destino. É comportamento que se repete por todo o lado aos olhos complacentes dos contribuintes. Tornou-se normal, tão normal como a frase do fulaninho que, já nos anos ’60, entendia: o que era bom para a General Motors, também era bom para a América. Muita razão lhe assistia e ainda estava longe do horizonte a grande crise atual e a necessidade de as economias nacionais subsidiarem as exportações e atraírem os investimentos. Todavia, o caso põe uma pessoa a matutar. Denota a natureza de classe do Estado, assim posto a colaborar diretamente com os capitalistas e trabalhando para lhes promover os negócios e conseguir apetitosos lucros. A “natureza de classe” de cada Estado, sem dúvida, tem sido sempre a mesma desde a entrada na idade moderna: é o topo da pirâmide social (qualquer que ela seja) que comanda, de mãos postas nos órgãos do poder. A matutar, porém, descobrem-se umas distinções. Nestes últimos tempos (ou seja, depois de os banqueiros, com desvairada ganância, provocarem esta crise), os governos, competentes administradores dos Estados, deixam-se de pudores e aparecem decididamente de braço dado com a alta finança nacional. Afanam-se a ajudar quem já possui muito a possuir mais, e mais, e mais... porque o dinheiro, como qualquer droga, cria dependência e escravidão. Algo mudou - e mudou tudo. Sente-o quem trabalha, cai no desemprego ou se reforma, quem estuda ou investiga, está doente, quem opina e quer liberdade de opinião. As leis que saem encurtam o tamanho da democracia, empalidecem as cores do sistema republicano, deixam a vacilar os eleitores ainda crentes nas vias eleitorais e nos próprios partidos, e já alastra pelo chão devastado, como calafrio na espinha, a sombra de um regresso à repressão castigadora, ditatorial. Mudou tudo porque, em suma, o Estado (servido pelo Governo forte com os fracos e fraco com os fortes) só interessa à corporação dos ricos na medida dos lucros que proporciona. O peso do Estado recai sobre quem o suporta, as classes médias que pagam impostos. Desse esforço vai saindo a corporação, que entretanto se apodera da saúde pública, do ensino público, das obras públicas, das águas públicas... e, a bem da nação, liquida o “Estado social”, ajustando com os governantes, por preço pechincheiro, a compra de propriedades públicas para fazer baixar o défice... Até que as classes médias acordem e mostrem que também não querem um Estado a pesar-lhes sobre os ombros. Então poderá talvez ouvir-se, com música, a voz de Fernando Pessoa (drama em persona) desejar uma utópica anarquia: “Prefiro rosas, meu amor, à pátria, / E antes magnólias amo / Que a glória e a virtude.”


Um pouco de história da economia

Está na ordem do dia, vamos falar economês. A crise manda! E assim, com tantos entendidos a botar figuras de estilo no barquinho a naufragar, talvez haja cabide onde pendurar umas ideias porventura instrutivas tiradas da arca para as arejar ao vento que passa. A proclamada ciência económica neoliberal entrou em descrédito enquanto ciência na medida em que o mercado demonstrou não ser capaz de se autorregular. É monstro à solta, os seus teólogos não podem mais rezar em adoração sem cair em cega idolatria. E, muito menos, considerar a existência do mercado como condição básica de uma autêntica democracia. Nunca o mercado foi requisito ou sequer expressão da democracia. Resultou da expansão e desenvolvimento do capitalismo, matéria estudada a fundo por um senhor de barbas que publicou um manifesto em meados do século XIX ainda hoje causador de insónias a uns quantos patrões que dormem sob dossel de oiro. Matéria essa depois continuada, no século XX, por um outro senhor que previu que a fase suprema do capitalismo seria o imperialismo. Terá acertado plenamente na mosca, é o que iremos ver. Para já, estamos em cruciais dilemas. Profundas e dramáticas mudanças se acumulam no bojo violento da tempestade que ameaça varrer esta desgraçada (des)ordem do mundo e está a explodir. Em crise, principalmente, está a teoria neoliberal que colocou o mundo nesta situação de ruptura. Subverteu conceitos essenciais da economia real, escondendo sob aluviões de propaganda asfixiante o que contrariasse a teoria. Atrelou-se ao deusmercado e passou a explicá-lo como doutrina religiosa servida por catequistas. Precisamos agora de recordar um pouco de história da economia. A noção atual de “mercado” é relativamente recente. Remonta a A Riqueza das Nações (1776), de Adam Smith, obra que provocou a “resposta” de Leo Huberman, com A Riqueza do Homem - para repor o Homem por cima das Nações - e, entre muitos outros, de Gunnar Myrdal, economista sueco, Nobel em 1974, autor de O Estado do Futuro. Uns conceitos de teoria económica reelaborados nos anos ’30 por John M. Kaynes foram banidos pelo neoliberalismo, mas aqui e agora importa sobretudo lembrar que, até Adam Smith, a economia foi tema de abordagem ética. Rendas e juros eram condenados como indignidades ofensivas do comportamento honroso, algo como exploração excessiva, imoral e desumana. Receber rendimento das suas terras ou juro do seu dinheiro emprestado era vileza de quem por egoísmo assim se colocava à margem da ordem social. Importa-nos hoje apreciar a evolução geral das mentalidades que desde a eclosão do mercado se verifica. Porém, a economia tem que reassumir capazmente a ética para se legitimar. E não só a economia, também a política e toda a gestão do social precisam da ética para negar a ganância que carateriza o neoliberalismo de modo a restaurar o valor do humano contra a violência e a barbárie à solta. Não há outro caminho.


Debruçado à janela

Assomo à janela para entabular conversa com quem passe e queira deter-se uns momentos. O tempo não vai de feição para expansões de alma, as pessoas andam a ensimesmar-se e, quando uma fala, desatam-se as línguas e todas querem falar para o monte. Quer-se dizer, debruço-me à janela e poucos interlocutores me calham dispostos à conversa estando eu a crepitar de ansiedade. Continuem os amigos a pedir-me crónicas poéticas, literárias, bonitinhas, porque ainda não será hoje que os meus dedos se põem a dançar nas teclas ao som dessa melodia. A canga que a classe média carrega aos ombros já derreia com tanto peso novo acrescentado e, em vez de indignação, repúdio e revolta, parece que se espalha por ali um medo insidioso, de quem sente medo de ter medo. E eu aqui no meu canto a cavilar sozinho. Aos peixinhos que me atendem ouvirei então perguntar, em desafio, se acaso não fiquei surpreendido com a energia das manifestações que há dias animaram Lisboa e diversos pontos do país. A avenida encheu-se de gerações à rasca, professores na corda bamba, licenciados a recibo verde, pensionistas e trabalhadores com descontos, tudo coube nas reivindicações populares. Sim, o sucesso atingido pela concentração convocada, pela primeira vez, à margem de qualquer partido ou sindicato pode vir a ter sequência e mesmo alguma consequência. Os políticos do país tremem quando o povo sai à rua, povo especialmente a sofrer com quatro programas de austeridade impostos, um a um, em poucos meses, no alegado “combate ao défice”. Mas os políticos conhecem o povo. Esperam cansá-lo deste outro fogacho emocional, mirrando-lhe os frutos, para que o povo desanime e torne a adormecer no atoleiro nacional da passividade. Entretanto, pela mão do Governo, o país continua a multiplicar o pedido de empréstimos, largas centenas de milhões, ou mais de mil milhões de cada vez, e ninguém, uma única alma caridosa aparece a explicar porquê, para quê. Então Portugal precisa daqueles empréstimos todos para “financiar a sua economia” e seguir vivendo? Nem sinal de que se destinam a investimentos produtivos, geradores de emprego e diminuição das dependências nacionais. Servirão para pagar os juros dos empréstimos já conseguidos, conforme se aventou, e fazer subir, num círculo vicioso, ainda mais os juros para a gula dos benditos “mercados”… agora financeiros? Como pode assunto de tal magnitude e gravidade manter-se sem comentário ou esclarecimento derramado em público? E não menor maravilha é haver neste país desgraçado três milionários já a figurar em lugares muito cimeiros na lista mundial dos seus pares. Claro, a reforma da supervisão financeira, anunciada em 2009, mantém-se na gaveta e ganhando os bancos como nunca. Maravilha final: o conflito líbio, orquestrado pelo imperialismo, promete envolver a União Europeia, principal consumidora das suas energias fósseis, cujos preços, naturalmente, irão elevar-se a seguir e agravar a estagnação económica, provocando mais inflação, desemprego e miséria.


O capitalismo globalizado

Murros no estômago têm consequências. Atacadas por todos os lados (salários e níveis de vida a baixar, desemprego a aumentar, direitos sociais a desaparecer, impostos a subir, idades da reforma a trepar), as classes médias estão a perceber qual o verdadeiro sentido das mudanças ocorridas nos nossos tempos. Não apenas em Portugal, não apenas na Europa, sim por todo o Ocidente. Um facto, por tão notório, parece incontroverso: o capital financeiro especulativo é que engendrou a globalização. Não tem pátria, fronteiras, limites. Querse livre de movimentos para chegar onde o lucro seja mais fácil, rápido e chorudo... ainda que lá ponha crianças a trabalhar, escravize ou corrompa (pretensamente sem rosto, o capital com donos vê isso com indiferença embora, por outro lado, mande os seus porta-vozes reclamar direitos humanos apontando para onde lhe convenha). A globalização é a do grande capital, não a dos povos; da ganância predadora, não a da economia. Corresponde à fase em que a concentração do dinheiro no mundo atingiu um nível tão elevado que se tornou apátrida para afirmar a sua vocação imperialista. Estas mudanças, na situação concreta que se regista em cada país, precisam de ser percebidas para que pelo menos uma minoria entenda o que se passa. Pouco a pouco, de forma sonegada, os governos cederam a poderes não eleitos competências legais importantes da governação que antes exerciam. A concepção característica das funções do Estado amoldou-se aqui e ali, pela prática, ao novo paradigma. Vestiu-se o Estado neoliberal por este outro figurino: é o capital financeiro que manda nos governos, é o mercado que comanda a economia. Uma das consequências desta evolução é a de que deixa claramente à vista que são as classes médias as primeiras a suportar o peso de cada Estado. A camada mais débil da população não paga impostos, os dirigentes políticos e os amigos financeiros guardam-se para sorte ainda melhor, ficam portanto as classes médias, da média-baixa à média-alta, quase sozinhas a aguentar o orçamento. Mas a crise financeira é mundial (é a “crise da dívida”), os Estados encontram-se tremendamente endividados e, a todo o vapor, as gráficas imprimem toneladas de novas notas (só papel impresso, não riqueza produzida, que essa, escondeu-se misteriosamente, deixando espalhadas por todo o lado montanhas de dívidas). Interrogação basilar: será que as classes médias nacionais irão assumir e pagar as dívidas do país? Por exemplo, sabe-se, porque não é segredo, que a maior potência mundial tem uma dívida pública e um défice tão altos que o FMI já teria tocado a rebate se no caso não estivessem os Estados Unidos. E por cá? O total da dívida pública portuguesa representa, ao que dizem, mais de 110% do PIB nacional e o país, num descalabro crescente, continua a endividar-se para pagar juros de dívidas. Se o povo, o tal que lida com notas miúdas de 5, 10 ou 20 euros, quiser sacrificar-se, vai sofrer durante imensos anos. Mas eu, se nada fiz (como tantos outros) para merecer o castigo, não terei direito a abdicar do meu Bilhete de Identidade para ser também apátrida, cidadão do mundo registado em offshore?


Eis a Nova Ordem Mundial

Esta mão escrevente errou. Há três anos aspirou por um governo mundial para governar o mundo sem perceber que o mundo mergulhado em crise já estava servido. E agora, reconhecendo o erro porque consegue ver mais claro, vem corrigir o dito: está a funcionar plenamente uma Nova Ordem Mundial, o verdadeiro rosto do imperialismo. É o nome de guerra da globalização, desenvolvida com destreza implacável por banksters do cartel financeiro internacional (os tais das manigâncias impunes) e aplicada contra o euro, agora que o dólar se desfaz em oceanos diluvianos de papel seco. A ofensiva foi lançada sob a bandeira da luta contra o défice que muito convenientemente surgia nos orçamentos nacionais. Pretexto magnífico: o défice foi cavalo de tróia que entrou pela porta franca dos governos colaboracionistas para se apoderar por dentro, pouco a pouco, dos Estados. Serviu para aumentar os impostos, reduzir os encargos sociais, vender ao capital privado património público apetitoso, agravar o desemprego, elevar a depressão, beneficiar os lucros dos bancos, baixar o nível médio de vida, ampliar as desigualdades. Quando o equilíbrio orçamental ia de mal a pior e os Estados entraram em recessão, isto é, quando se fazia notória a necessidade de se mudar de política, a recessão levou os governos a descobrir que... dinheiro é dívida. Pedir empréstimos, a juros cada vez mais onerosos, transformou-se num jogo aberrante e as dívidas, monstruosas, foram declaradas incobráveis. Mas os banqueiros engordavam sempre e queriam mais e mais. O consumismo desatado serviu às classes médias para comprar casas, carros, viagens a crédito e agora a austeridade deixa tudo a nu: as famílias, as empresas, os bancos, os municípios e os Estados encontram-se atolados em dívidas que não veem como poder pagar. Mas agora percebe-se o logro: é a Nova Ordem Mundial a comandar com o seu brutal “casino” financeiro. Nem a Islândia, aplicando políticas corretas após a bancarrota (e por isso banida dos media nacionais e internacionais), consegue escaparlhes de todo. As riquezas dos países ocidentais estão a ser desviadas em caudal para mãos sem rosto escondidas em parte incerta, através da simples troca dos nossos bens e privilégios autênticos por papéis, rimas e mais rimas de títulos afinal sem valor. Quem se alheia, arranje 14 minutos e veja este vídeo no Youtube. Alguém torna a avisar-nos: povos e Estados em sucessão (Irlanda, Grécia, Portugal, Espanha...) enfrentam montanhas de dívidas em crescimento, a pagar pelas presentes e próximas gerações. É absolutamente crucial perceber, neste tempo de combates mortais entre grandes ditaduras, que temos de conhecer sem mais demora como funciona o sistema bancário global, ainda que isso possa motivar uma revolução (glosa de frase célebre atribuída a Henry Ford). A aliança objetiva da zona euro com o dólar não parece garantir à moeda única europeia o melhor futuro nesta conjuntura em que se torna vital afiançar um sistema monetário seguro e credível. De contrário, como diz o outro, o nosso dinheiro, na carteira ou no banco, será uma ilusão temporária...


Uma outra Idade Média

Estou a escrever um conto fantástico. Será o último e será tão realista que o seu realismo vai parecer uma fábula fantástica, cheia de boa moralidade para edificação dos povos ocidentais. À entrada do século XXI, anuncia o advento de uma nova Idade Média. Conta a história como a gente se convenceu a trabalhar mais, a produzir mais e a ganhar menos sob imenso stress. Conta como isso contribuiu, apesar de tudo, para se consumir mais e como a gente foi acusada de viver acima das suas possibilidades. Sem esquecer como os défices apareceram nas contas públicas e justificaram impostos mais pesados, sucessivos abaixamentos dos níveis de vida e por aí adiante. De facto, a história é inacreditável, espantosa. Os patrões barafustavam, achando elevados os salários e os encargos sociais, e continuaram a deslocalizar as suas fábricas para longe, onde a mão de obra era descomplicada e baratinha. No seu sítio ficaram as produções ainda lucrativas, mas a sobreprodução desses bens estragou o mercado e o desemprego alastrou. Os patrões garantiam que o Mercado, como deus do céu na terra, se controlava sozinho sem regulação nenhuma, e exigiam menos Estado e melhor Estado para responder à crise. Todavia, o “melhor” era, naturalmente, aquele que o respetivo governo lhes punha ao colo lucros a pingar, deixando para a gente a Austeridade, ideia de consequências perigosas conforme explica Mark Blyth. Entretanto, nações antes exportadoras tornaram-se importadoras, passando a gastar dinheiro que antes ganhavam, os défices cresceram e as coisas complicaram-se. De repente, um tsunami gigantesco surgiu e levou tudo de roldão. Com a falência dos bancos, o sistema financeiro deixou à vista, no seu interior, mais buracos do que pode ter uma torre de térmitas no escaldante deserto. Foi então o momento de a gente perder o sono. As riquezas dos Estados sumiam-se debaixo de montes de dívidas em acumulação, os bancos descapitalizados estendiam a mão aflita para os Estados lhes valerem e a gente, pasmada, a perguntar onde iam esconder-se as nossas perdidas riquezas. Afinal, só tínhamos de compreender que havia chegado o regime da Debitocracia, ou seja, a autoridade suprema do débito. Imposto pelo FMI ou o Banco Mundial, em nome da alta finança especulativa, faz tombar as nações como peças de dominó e mostra que é o poder efetivo que governa o mundo. Lança a garra ao que tem mais valor - o ouro, as propriedades, os recursos valiosos - atirando a gente para o desamparo, o desemprego e a desvalia social. Nações inteiras, saqueadas, não interessam aos senhores da Debitocracia depois de lhes tomarem posse dos rios, das estradas e das praças, condenando extensas massas humanas à proletarização. E porque mais não digo, dou a palavra ao analista financeiro Max Keiser: afirma que o FMI, com o BCE atrelado, coloca em risco a União Europeia e o euro, visionando no horizonte um regresso do feudalismo.


Lendo o mundo me confundo

Sabem os acompanhantes deste blogue da atenção que temos vindo a dar às mudanças profundas e dramáticas em curso no nosso tempo. Em jeito de crónica, opinou o cronista sobre questões variadas e tão variadas que, dir-se-ia, também ele se candidatava a ser mais um com opinião pronta para despachar qualquer assunto. Evitemos, porém, a crítica fácil quando a pedra de toque consiste em avaliar se as opiniões aqui defendidas se baseiam a sério na realidade dos factos. Não será o desconhecimento ou a dúvida mais ou menos momentânea desses mesmos factos que irá invalidar as opiniões expressas. Damos tempo ao tempo: as mudanças ocorrem e os movimentos do corpo social nem sempre reagem de pronto (sendo assim que as ideias nas nossas cabeças correm atrás das novas realidades e a custo as alcançam). Habitamos num mundo perigoso e cada vez mais ameaçador, de modo que, talvez por isso mesmo, é agora que mais apetece prolongar as sonecas nos baloiços da rotina (acreditando nos políticos, confiando nos banqueiros) como que embalados em suaves harmonias de esferas celestiais. Mas, desgraçadamente, tantas são as pancadas que se derramam do alto e tantas são as que se anunciam que o povo estremunha e desperta. Alarme: como pudemos chegar aqui?! Portugal está de novo diante do espelho, a interrogar-se como se não se reconhecesse. Estamos pois a retomar o fado português que teimamos em viver como um psicodrama coletivo, em círculo vicioso, que se repete dentro do pátrio labirinto. Do 25 de Abril restam agora uns cacos, da independência nacional não há sobras e o país de rastos põe-se a postos para receber de fora “quem o governe melhor” do que os seus naturais. A especulação de alta finança é que mais ordena, venha ela completar a destruição da economia nacional operada por criminosas políticas de direita e condenarnos a outro período de miséria salazarenta como povo sem colónias agora e sempre colonizado. É portanto o fado português que regressa ao centro de múltiplas abordagens para motivar mais abordagens a juntar à estante das antecedentes. Lá estão os textos de Oliveira Martins, Antero de Quental, Eça, Fidelino de Figueiredo, Eduardo Lourenço, Agostinho da Silva... Leonel Cosme, no seu livro Os Portugueses - Portugal a descoberto (Porto: 2007; Profedições, col. Bichos Carpinteiros) cita também, nomeadamente, Fernando Pessoa, António José Saraiva, Miguel Torga, Jorge Dias, Jorge de Sena e Vitorino Magalhães Godinho. Na sua demanda ao “ser português”, este escritor e amigo percorre de relance os séculos da história nacional, tentando desenhar o perfil da identidade essencial deste povo. Esboça um “retrato” que nos interroga mais do que nos responde mas deixando no seu percurso, à atenção do leitor, uma boa porção de elementos que sinalizam a sua pessoal visão. Trata-se de uma nova reflexão, de flagrante atualidade, sobre as grandezas e as misérias deste povo que a cada passo tropeça e se desencontra consigo mesmo até pôr de remissa a Democracia.


O petróleo envenenado

Agora que as reservas mundiais do petróleo estão prestes a esgotar-se e que as do gás natural irão ter a prazo a mesma sorte, vemos chegar as mudanças radicais. As energias renováveis aparecem como grandes “novidades” embora sejam velhinhas de um século. Chega assim a hora de começarmos a perceber toda a destruição que o famigerado “ouro negro” deixa no planeta. É preciso juntar o que vamos sabendo. Lembrando o acidente no golfo do México, os milhões de barris vomitados no mar, soubemos há dias pelos jornais que os pescadores que limparam o petróleo derramado em 2002 pelo “Prestige” nas costas da Galiza apresentam alterações de ADN e, além disso, têm queixas pulmonares. Ora o desastre na Galiza, ocorrido há oito anos, adverte para o que está a acontecer desde há meses no golfo do México e zonas costeiras atingidas. Nestes termos, ganham consistência os estudos que anunciam efeitos absolutamente catastróficos a declarar-se na área do golfo em resultado do acidente na plataforma da BP. A poluição lançada pelo colossal derrame vai dizimar fauna e flora marítima, envenenar o ar e as terras envolventes. Prevê-se que milhões de habitantes tenham que sair dos litorais contaminados e ser acolhidos como refugiados. Trata-se, afinal, de uma verdadeira hecatombe, como se houve explodido ali uma potente bomba nuclear. O espanto, mesmo a incredulidade, acolhem de início tão graves sentenças? Olhemos, então, para o caso dos pescadores galegos que trabalharam na recolha dos derrames (pois não mais poderiam pescar) e têm agora alterações de ADN (que pode continuar idêntico mas com funcionamento diverso)... Vamos podendo saber algumas coisas e, juntando-as, chegar a conclusões - o que não é proibido e talvez até seja sinal de inteligência e conscienciosa cidadania. Sabemos, ouvimos e lemos, por exemplo, que já andam dispersos em águas marítimas bocadinhos de plásticos microscópicos que os peixes ingerem... e nós podemos comer. A pureza das águas dos abastecimentos públicos e o ambiente respirável das cidades levanta dúvidas ou sérias reservas. Os biólogos marinhos detetam crescentes anomalias nos sistemas reprodutores dos animais. Notam hermafroditismos ou ausências de definição sexual (condição para um animal se reproduzir), e outras malformações. É impossível não lembrar, neste quadro, o alastrar das baixas taxas de natalidade humana... e, porventura, a voga atual de certos comportamentos sexuais. Logo, porém, é impossível parar. Outras lembranças se precipitam sobre quem não ignore as concentrações de chumbo, de mercúrio e outros químicos perigosos: os generalizados insucessos escolares, enfraquecimentos da capacidade de concentração, hiperatividade infantil, baixas alarmantes de natalidade... O petróleo, que envenenou o século XX com guerras e poluição, apenas principia agora a mostrar todo o potencial destruidor do qual brotou - dentro do efeito de estufa - uma gigantesca concentração da riqueza não menos perigosa e poluente.


Vem aí a III Guerra Mundial

Apelos pacifistas percorrem o mundo. Multiplicam-se em todos os sentidos, num crescendo de alarmes angustiados. Os motivos saltam à vista: antes o mundo estava perigoso, agora está ameaçador: eis a III Guerra Mundial a bater-nos à porta. O sistema global do capitalismo ocidental afundou-se numa crise que lhe põe à prova as estruturas e os próprios alicerces. Conseguirá o sistema enfrentar e resolver a crise mantendo-se como é? Ou terá chegado a hora suprema de se regenerar? Mas poderá o capitalismo - sistema velho, ancilosado e exausto - ter forças para verdadeiramente se regenerar? Pode o “selvagem” civilizar-se? Opiniões das mais esclarecidas são terminantes: a única saída dentro do sistema será sempre a da solução bélica. Assim foi ao longo da história (e convém lembrá-la em atenção às semelhanças da conjuntura internacional desta crise com, por exemplo, a da época do grande crash): desemprego, inflação, governos empenhados em políticas de direita e mesmo racistas, quebra dos ritmos de atividade económica normal, desamparo social, incremento das indústrias de guerra, massas populares asfixiadas por propagandas asfixiantes, insegurança quotidiana... Assim foi com o nazismo e o fascismo nos anos ’30, e assim decerto se irá repetir a desgraçada experiência da conflagração mundial de 1939-1945. Justificam-se, pois, os veementes apelos à paz lançados por entre os augúrios da próxima calamidade ainda que, mais uma vez, poucos queiram acreditar em tais avisos de Cassandra. De facto, Milan Kundera é certeiro na ideia de que a perda da memória das dores e das destruições sofridas numa guerra é que torna possível a repetição de tão medonha loucura. Mas o capitalismo do século XX, alimentado a petróleo tanto quanto se sabe, vê a sua economia a descambar. Depois do desastre do golfo do México, a exploração das energias fósseis torna-se mais problemática, cara e difícil. Todavia, o Irão possui umas jazidas apetitosas (10% das reservas mundiais e de qualidade excelente), e o Médio Oriente (Síria, Líbano, Jordânia...) ainda tem muito para dar aos amigos de Israel que sorriem para os chefes da NATO. De modo que chegamos a isto. Lamentando a sorte da Cassandra mitológica que augurava sem ninguém convencer, enquanto decorrem os preparativos finais para a guerra - que será nuclear. Recordemos então o aviso deixado por Albert Einstein: “Não sei com que armamento se combaterá na Terceira Guerra Mundial, mas na Quarta Guerra Mundial combater-se-á com paus e pedras.” E os guerreiros dessa Quarta Guerra serão uns desgraçados trogloditas, sobreviventes do holocausto nuclear, regressados à Idade da Pedra depois do “século do petróleo”. Eis-nos a caminhar em frente, a cantar a vitória do último jogo de futebol e a discutir o melhor treinador mais precioso e capaz de afirmar a honra nacional.


Somos americanos ou não somos?

Os Estados Unidos passaram imenso tempo a guerrear para lá das suas fronteiras até afirmarem a posição imperial dominante que ocupam no mundo. A sorte mudou, porém, há nove anos com o “11 de setembro”, murro violento em cara a descoberto. Então, de repente, tudo mudou, pois (graças ao “terrorismo” tão jeitoso para as políticas da direita e para as indústrias de segurança) se ouviram uns heróis europeus a clamar de imediato: “Somos todos americanos!” Ora, vendo bem, o que nos falta para sermos todos americanos? É a pátria ideal para europeus, especialmente para portugueses. O velho continente, esta Europa que soube gerar em esplendor uma civilização, entrou em eclipse na conflagração da Segunda Grande Guerra mostrando como estava no cerne da propalada decadência do Ocidente. Modelo de civilização passou a ser, para os europeus, não a própria Europa, sim os States. Como exemplo tomaram não o muito de bom e mesmo admirável que por lá se via para do resto fazerem imitação ou cópia servil. E assim passámos a ser todos americanos. Consumimos filmes hollywoodescos nos cinemas e nos canais de televisão, temos em casa a CNN, a Fox e etc., lemos os best-sellers dos autores ianques que o marketing nos impinge e andamos mesmo com os ouvidos cheios das cantigas das suas rádios. É já muito, é demais, mas não é tudo. Consumimos a informação que sai diariamente das tubas de propaganda imperial servida pela diligente imprensa nacional em quase quase perfeita sintonia e tão americanos nos sentimos que já engordamos à bruta, desde crianças, com as comidinhas rápidas. As modas americanas são as nossas modas, é a moda global da Grande Metrópole. Até o falar americano, introduzido pelos meios audiovisuais, invade e se implanta na nossa língua materna falada e escrita. É chique, por exemplo, articular o moderníssimo latinório “mídia” em vez de media e rechear o discurso com bastantes locuções bárbaras, pois misturar expressões bárbaras na língua materna em quantidade e com dicção perfeita fortalece o ego do falante. Os europeus, sobretudo os portugueses, parece que tomam também como seus inimigos os países que Washington declara inimigos. Alinham confortavelmente ao lado da potência maior com a imensa coragem de quem isola a parte mais fraca. A destrinça fica feita: amigos e democráticos, respeitadores dos direitos humanos e das leis internacionais, são os Estados bem recebidos pela Casa Branca, os outros são “párias” ou vão a caminho de ostracização. Que nos falta, portanto, para sermos americanos? Eis um brinde extraordinário do “11 de setembro”! Mas, preto no branco, quem sabe o que aconteceu naquele dia em que o “terrorismo” nasceu? Dez anos correram e os enigmas não se dissiparam, adensaram-se entre muitas perplexidades, no termo de investigações e estudos.


Quanto vale a educação

Temos um ministério dito da educação mas é de educação que mais carece o país. Porque um fulano pode atravessar os níveis todos do ensino e sair continuando a ser um pequeno javardo. A educação, da pessoa ou da comunidade, é outra coisa, sabem muito bem disso os idosos que conheceram, de outro tempo, as regras da civilidade. Foram de leitura quase obrigatória uns manuais de bom comportamento com regras preceituadas que era preciso acatar na rua e em qualquer situação relacional quotidiana. Iam ao ponto de quase confundir educação com etiqueta. As regras faziam reinar a disciplina e o respeito pelo próximo... e abro-me de orelha a orelha num sorriso se me alegam que isso se devia ao ambiente repressivo da Ditadura, ao atraso social português, à nossa baixa escolaridade. Hoje tiro o chapéu às pessoas bem educadas. São gente bonita, que rareia aflitivamente. Abunda a grosseria, a falta de tato, a estouvadice, a indisciplina bisonha, o desbragamento da linguagem, a prosápia arrogante, a inveja tacanha, tudo à mistura e ao ponto de se impor como comportamento social “normal”. Em tal ambiente, a pessoa educada é recebida primeiro com estranheza e logo tomada por um ser débil, um lunático preso a convencionais rodriguinhos ou serôdios maneirismos do tempo da maria cachucha. Ignorando a qualidade e a força do mérito, aprestam-se para abusar do alienígena como se fosse ovelha tresmalhada de um outro rebanho. E vendo-se repelidos e postos no seu lugar, ficam na surpresa de terem que respeitar quem se dá ao respeito. A pessoa educada não pretende receber em troca do seu interlocutor mais do que está a dar-lhe. Aspira a uma relação em perfeita igualdade, harmoniosa e de bom nível, sobretudo perante as molestas javardices. Não pode ser outra a atitude de quem efetivamente habita na Ci[vi]dade e põe a brilhar a Civilização. Pessoa educada é, além de cultivada, pessoa humanizada. Ainda que, digamos, sem formação escolar, provindo do lugar mais campestre, a pessoa entendeu, seja por simples intuição, o lugar efetivo que tem no mundo. Bastou-lhe decerto a observação do comportamento dos humildes bichos da natureza para entender como funciona e deve funcionar o princípio do relacionamento humano. De facto, a pessoa educada de raiz possui um sedimento matricial capaz de apresentar alguma afinidade com uma “religião”, a religião da humanidade. Conceito este porventura nebuloso, que se esclarece por uma aproximação à conceptualização de David Hume (1711-1776). O filósofo britânico, desejando que os homens pudessem e soubessem por fim viver em sociedade com tanta harmonia como os humildes seres da natureza, concebeu a “religião natural”, não teísta, para realizar uma efetiva re-ligação do homem individual ao todo da humanidade no seio da natureza. Aludi ao tema há anos, persuadido do valor da educação devidamente colocada num primeiríssimo lugar das prioridades em resposta a dar à crise. Agora digo como quem pergunta: se uma pessoa perde toda a educação, o que ficará dela ainda a valer?!


Cidades modelo XXI

Duas evoluções marcam o nosso tempo: os espaços rurais estão a sumir-se dos mapas e crescem em número e tamanho as cidades. São evoluções paralelas, pois a população que se aglomera nas grandes urbes é em grande proporção a que sai dos campos em busca de outra vida. Por isso as cidades se expandem continuamente enquanto os espaços agrícolas e florestais desaparecem transformados em zonas suburbanas e urbanas e, tantas vezes, uma cidade antiga fica no centro de uma constelação de cidades-satélites. Estas acumulações demográficas em espaços restritos origina consequências cuja extensão escapa à percepção corrente. Longe vai o tempo em que a abordagem sociológica detetava na cidade o fenómeno da massificação na forma da dita “solidão em comum” e a grande novidade eram as megalópoles. Hoje precisa de colocar no devido relevo o movimento que transforma massas de camponeses e aldeões em suburbanos ou citadinos. Os antigos habitantes das pequenas comunidades rurais que se deslocam e promovem o crescimento geral da população urbana perdem, na mudança, o contacto com o seu tecido social relacional e alguma liberdade. Eram conhecidos, tinham “um lugar” e participavam da rede das diversas solidariedades. Dentro da massificação citadina, tendem a mover-se no estreito círculo familiar e do local de trabalho, tornandose gente anónima até para os moradores do seu mesmo prédio. Naturalmente, a população que vive imersa em grandes cidades já conhece bem a situação pois a partilha. Os recém-chegados, porém, estabelecem o contraste. Sentem a atomização, cada pessoa reduzida à expressão de si própria, o individualismo e o egoísmo aplicados como regras de sobrevivência. De facto, as grandes cidades modelo XXI tornaram-se espaços concentracionários, com influências poderosas e vastíssimas embora pouco visíveis ou evidenciadas sobre as populações. Além de extinguir as tarefas manuais quase todas, restringindo as atividades a premir teclas e botões sob pressão do relógio (que marca segundos ou minutos, não horas rurais), os habitantes apinhados numa grande cidade suportam um conjunto de variadas dependências. Deixaram de poder baixar a mão sobre os frutos do seu trabalho e agora precisam do automóvel, dos transportes públicos, do supermercado, de espetáculos e de tudo o mais que a urbe lhes proporciona e os habitantes não dispensam. As dependências citadinas agravam-se porque, sem vizinhanças com teor relacional, os habitantes das grandes cidades ficam, em passividade, expostos à comunicação dos media. Ora uma população massificada pode perceber alguma domesticação, a lembrar um pps da Net que explicava como domesticar porcos selvagens atraindo-os com comida para a cerca onde acabavam por ficar presos e com dono. Não somos porcos nem selvagens, mas somos domesticáveis. E, como a rã da fábula de Olivier Clerc, até já estamos dentro da panela que nos coze em fogo lento.


O polvo come-tudo

Dispensam-se os fraseados opacos dos tratadistas. Fiquemos com a verdade simples dos factos no osso, o osso que nos dói porque nele sentimos as pancadas. Vejamos: é possível entender o que se passa com a crise da dívida soberana nos países europeus, a designada debitocracia, com a cabeça lavada do cidadão comum. Basta querer e, desde logo, recordar a experiência que vivemos em Portugal nos últimos trinta anos. O problema começa quando um governo, assobiando para o lado, gasta em anos sucessivos mais do que o parlamento aprovou sem ter apoio ou explicação em catástrofe imprevista, um revés grave. Esse desmando até pode envolver responsabilidade criminal para os responsáveis (caso da legislação vigente portuguesa segundo parecer competente), mas os políticos escudam-se atribuindo, não à justiça, e sim ao povo eleitor uma condenação puramente “democrática”. Os políticos, façam o que fizerem, querem-se expostos a meras sanções “políticas”, colocando-se, declaradamente, acima das leis que para nós elaboram e promulgam. Porém, na Islândia - aquele recôndito país que teve categoria para recusar a “ajuda” do FMI, caso que os media tanto sonegam - um político que foi primeiroministro vai a tribunal acusado de negligência grave de governação (levou o país à bancarrota), o que constitui um precedente memorável neste período de furiosas mudanças. Estranharemos que os partidos da atual maioria da direita portuguesa estejam a reclamar, previdentemente, uma nova Constituição? Neste ponto, convém averiguar se a mera sanção política contida nuns resultados eleitorais basta para a condenação de governações ou políticas ostensivamente ruinosas. Apesar de a via eleitoral ser o modo legitimário do poder democrático, a verdade é que o modelo corrente deste poder perdeu bastante da sua legitimidade devido à degradação da política como espetáculo (mais um), o colaboracionismo dos media, os altos níveis da abstenção, a débil consciencialização/participação cívica. Os partidos que, depois de levarem o país à recessão através da progressão imparável da dívida soberana, se mostram favoráveis à entrega da governação nacional à especulação predadora da alta finança, são, por essas ações e palavras, partidos alinhados à direita. Sem disfarce, entregam as riquezas do país à ganância do capitalismo globalizado. Arruínam-lhe a estrutura produtiva prendendo o país no garrote (em círculo vicioso) do endividamento e sugando o povo através dos bancos nacionais. O desmando dos responsáveis desses partidos merece condenação decerto não somente “política”. Pelo contrário, porque, nada democraticamente, aplicam e declaram bons atos de governação altamente lesivos do interesse nacional, manobrando inclusive para conseguir prolongar a agonia socioeconómica e os sofrimentos do povo ao serviço da estratégica capitalista dominante. Contudo, sabem que o país apenas sairá do abismo apostando numa política (de esquerda) que restaure a sua produção própria (nem que tenham de recorrer a medidas protecionistas de emergência), pois não há outro modo de escapar ao polvo come-tudo.


Estamos entregues

Umas eleições não servem para dar razão ao candidato vencedor, servem para o legitimar - lembrou quem as perdia ao assumir a derrota. É verdade. E assim, em notória viragem para a direita, se extinguiu uma antiga maioria sociológica dita de esquerda que persistia no quadro português. Desviando os seus votos do PS e do BE, os eleitores impuseram que o sistema democrático entrasse ao serviço de fins pouco ou nada democráticos mas agora legitimados. Elegendo dois partidos neoliberais-conservadores e dando-lhes maioria absoluta, os eleitores aceitaram formalmente a tutela da troika externa, deixando a sucumbir a soberania nacional. Repetiu-se a história: amedrontados (o desemprego, as crescentes dificuldades de vida, a propaganda da “crise”), os eleitores preferiram meter o lobo na capoeira para esconder o medo. Surpresa? Nenhuma. A situação dramática em que o país foi colocado pela governação dos dois partidos principais (a troika do “centrão”) que se revezaram no poder ao longo dos últimos trinta anos não augurava outra coisa, nem melhor. Entramos agora num período completamente diverso. Entregues à “ajuda” do FMI e associados europeus, os portugueses enveredaram por um caminho que não se sabe onde nem quando irá acabar. Garantida temos a austeridade, isto é, a recessão com todo o seu cortejo de consequências: paralisia do aparelho produtivo, pobreza e miséria em expansão. Elegendo a triste submissão de corda ao pescoço, a maioria dos votantes entregou o país à ganância da alta finança internacional. Dela não sairá sem grandes sofrimentos e demoras, pois não restam dúvidas, o país encontra-se num dos mais dramáticos períodos da sua história. Mas acusar a alta finança internacional é praticar linguagem gestual perante normais ouvintes. Não entendem como funciona na realidade o sistema financeiro, o dito “mercado”, de maneira que o capitalismo de vanguarda desenvolve uma estratégia de acumulação da riqueza de modelo que escapa à percepção comum (apesar da divulgação na Net de esclarecimentos, avisos, prevenções, alguns dos quais com links indicados nestas crónicas). Valendo-se da fraca regulação existente, que permite os “paraísos fiscais” e etc., a alta finança pressiona e verga os governos através dos bancos dos países mais a jeito (de economia deprimida), e prende-os na espiral do endividamento para sugar em proveito próprio as riquezas de cada Estado. Os países já de corda ao pescoço vão mostrar, aos que cairão a seguir como peças de dominó, até que ponto acertam na verdade uns senhores que anunciam a prazo uma hecatombe global. A dinâmica capitalista de vanguarda, apostada na especulação financeira (nessa especulação altamente lucrativa se especializou), percorre o mundo, e, conforme alguém prevê, promete instalar um novo feudalismo invasor que transformará os povos - os “servos da gleba” de antanho - nuns “servos do Estado”.


O caminho da subversão

Movemo-nos, já ensurdecidos, entre discursatas sobre a “crise”: é o problema das dívidas soberanas, das agências de rating e dos “mercados”, da inépcia francoalemã. Porém, sendo diferentes, as opiniões concordam num ponto: não dão nome claro ao monstro, temos de o nomear para olharmos de frente a monstruosidade. Não é fácil, mas estamos presos no labirinto e sem poder fugir ao minotauro. Esforcemo-nos, pois, por compreender como funciona hoje e nos avassala o sistema financeiro internacional, isto é, como avançamos pelo caminho de uma global subversão. Vemos as classes médias a desaparecer e a pobreza, o desamparo, a miséria a aumentar... e o que nos impede de crer na luta de classes? Dizem-nos que entre 2000 e 2009 uns 150 mil milhões de rendimentos saíram do país e agora temo-lo afundado num mar de dívidas, sob um regime de austeridade imposto pela troika externa (que o Governo recém-eleito agrava achando-o escasso), em resultado das políticas praticadas nos últimos trinta anos... e os eleitores deram 78% dos votos aos três partidos que puseram o país nesta situação? Que explicação haverá melhor do que esta, que a riqueza (mal) distribuída de 99% da população está a ir para as mãos de 1%? O fim da regulação do sistema financeiro pelos poderes estatais abriu as portas à instalação do capitalismo selvagem. A estratégia especulativa da alta finança, depois de atrelar os governos aos seus interesses gananciosos e de criar o seu “mercado”, aposta na exploração das riquezas de cada Estado mais a jeito (de estrutura económica mais frágil) através dos bancos nacionais. Assim, cada um desses Estados dilui pouco a pouco o seu papel histórico - garantia aos cidadãos os seus direitos constitucionais, no mínimo os direitos humanos - e, pela imposição de cargas tributárias crescentes, vai-se transformando em agente da acumulação capitalista na mais aguda fase imperialista. Nesta viragem, os Estados tomam o papel de inimigo das suas classes médias ao tornar-se em funcionais órgãos da ganância do grande capital. Começam por induzir as classes médias a consumir e a endividar-se (dinheiro fácil volve-se dívida generalizada) e quando a bolha criada rebenta, aplicam os programas de austeridade e mais e mais recessão. Declara-se a ditadura da debitocracia - o poder maior das dívidas acumuladas sobre os povos que têm de as pagar. É uma síntese esquemática e abreviada mas clara quanto basta para alertar os distraídos de uma viragem fundamental. Os Estados mudaram. Existem para apoiar, em primeiro lugar, as políticas convenientes delineadas por quem manda no FMI, no Banco Mundial, nas agências de rating, ou em Wall Street. Nenhum luminar da opípara Ciência Económica virá esclarecer o ponto, estando por conta de governos, bancos, sociedades financeiras. Nenhum governante, chefe de partido do arco do poder ou comentador mediático soltará a língua. Eis o caminho da subversão, fique este alerta em garrafa caída no deserto sob a violência brutal do sol donde, numa explosão, o gigante da fábula saírá em liberdade para cumprir três desejos.


Textos afluentes


A ideologia do futebol

O futebol traz inerente uma ideologia. Qualquer comportamento social a contém, mais ou menos ténue ou intensa, conforme a situação. No caso do futebol, é particularmente visível, embora não se descubra texto que tal aponte sendo o futebol o espetáculo mor nos quatro cantos do planeta. A ideologia inerente ao fenómeno que mobiliza multidões é a mesma do capitalismo, a lembrar que, em Portugal e em tantos outros países, a popularidade do futebol se desenvolveu paralelamente ao marketing, a publicidade, a rádio e o conjunto dos outros órgãos de comunicação social, os jornais e a televisão. Sinalizou tudo isso o movimento, ou seja, a implantação crescente da mentalidade capitalista e do capitalismo em expansão no terreno após, digamos, 1950. No século do petróleo, entrámos pouco a pouco no consumismo da era do imperialismo. As regras do jogo no campo de futebol são, a nu, as do mercado clássico. Importa perceber, pois, a matriz ideológica que define esse jogo: entusiasma quem alinha na vontade de concorrer, isto é, de competir, partilhando essa vontade com os jogadores da equipa que o espetador apoia na exibição; exalta o herói individual ainda que o integre na equipa quando se torna necessário o esforço conjunto ao modo da matilha que se organiza para a caçada. No campo de futebol triunfa, tal como no mercado, o protagonista mais forte, sendo mais forte o que dispõe de maiores recursos financeiros para comprar no “mercado” internacional os jogadores profissionais com palmarés recomendáveis. A competição alimenta o espetáculo e o espetáculo faz-se com cada golo introduzido na baliza. Derrotar o adversário concorrente, esmagá-lo e ganhar o jogo (nem que seja preciso investir gigantescas fortunas na equipa), torna-se no objetivo supremo. O jogo serve para apurar um vencedor, o mais poderoso, para o aplaudir. É um “escolhido”, bafejado com um talento raro, valiosíssimo. Se a vitória lhe sorri, não provém da sorte ou dos azares do jogo (porque a bola é redonda, o pontapé não aplica uma ciência exata e o vento sopra em variadas direções); assinala-o com uma estrela especial tal como os donos de grandes fortunas se sentem miraculados e tão próximos de Deus que o instalam em capela privativa na própria casa. Mas a façanha do mais forte passa a valer no plano simbólico (o campeonato, a taça). O preço real de cada golo enfiado na baliza a cada vitória atinge níveis tão loucos que deixa os clubes arruinados. Depois de transformar o jogo - atividade lúdica, prazenteira - em espetáculo consumível, os golos limitam-se a conceder fugaz vitória. Estimulando a competição pela competição, o jogo justifica a ambição pessoal e estabelece a desigualdade e a injustiça, lembrando que o capitalismo não é de essência democrática. Como no jogo do Monopólio, também no futebol se infiltra uma ideologia subliminar que interioriza a respetiva ética. As suas regras podem ser subvertidas por árbitros corruptíveis. Assim o sistema capitalista e o futebol dançam tão bem o tango avançando abraçados pelo mundo que fazem seu.


Uma taça de loucura

Ia tranquilamente de regresso ao tugúrio, depois do jantar. No trecho de autoestrada ultrapassou-me um carro e, nele, um rosto fitou-me através do vidro, um braço acenou e soaram toques de buzina. Afrouxei, alarmado, espreitei atentamente o painel, alguma anomalia haveria com certeza. Mas as portas estavam bem fechadas, nenhuma lâmpada fundida, fogo nenhum saía em fumarada pelo cano de escape. Intrigado, continuei. Não tardei a ser de novo ultrapassado e outra vez avisado com sinais e sucessivos toques de buzina. Portanto, qualquer coisa me corria mal: teria de parar logo onde pudesse e, no exterior, averiguar a causa dos avisos. A olhar para o painel é que nada descobria. Apenas ia sentindo e avaliando, com aplauso e gratidão, a magnífica entreajuda dos condutores portugueses. Ao entrar na cidade, de repente, fez-se luz... Grupos de carros com os quatro piscas ligados iam apitando freneticamente, um autocarro com faixas, bandeiras e cachecóis manobrava a custo no cruzamento, pessoas corriam e pulavam pelos passeios. Era... isso mesmo, a noite decisiva do campeonato europeu, o jogo concluído, o troféu da vitória final exibido na ponta do braço dos heróis! De manhã eu fora convenientemente informado mas negligenciei tudo: havia saltado oito ou dez páginas do jornal sobre o glorioso prélio, mal escutei a rádio pública em emissão especial lá do sítio para não perder pitada (a captação viva da cor local!), não estive um cisco de tempo a ouvir os comentários e os prognósticos e tantas outras sentenças durante o dia. Acabei por esquecer a Convocação Nacional para me emocionar com o evento que ia decidir o futuro do país. Confesso a culpa: não sou, nunca fui, adepto do espetáculo da bola (por muito que, como os gatos, goste de jogar à bola) e estou em seguir sem mudança. Mas eis-me com mais e mais motivos para me maravilhar. No próprio dia em que o Banco (BdP) previa que o nível de vida português ia sofrer um abaixamento “histórico” e constava que seiscentos mil trabalhadores tinham os seus salários penhorados por dívidas aos bancos, o povo da minha cidade festejava, transbordante de alegria, a conquista da taça. Evitei passar pelo centro do burgo, sabendo que não iria romper: a multidão em magotes também ali erguia nos braços, como os heróis do momento, não a própria taça mas grandes copos de cerveja... e também se sentiam outros grandes heróis do momento. País abençoado este cujo povo recebeu em festa e delírio, no dia seguinte, a equipa vitoriosa! Uma reportagem televisiva mostrou o percurso passo a passo, o helicóptero acompanhou, carros e motas em procissão e o champanhe jorrou em borbotões sobre cabeças e roupas como chuva de oiro. Uma taça de loucura embriagou as massas populares, que tudo esqueceram para obedecer à Convocação Nacional, manifestando à troika da tutela externa quais os eventos que mais importam ao futuro do país (fazendo-me desejar a vinda urgente de menino e tambor para acordar, não já os duendes da floresta africana, mas quem se embriaga com taças de loucura).


Vamos jogar matraquilhos?

Tempos maus, estes que vivemos. É o dito dos que não são banqueiros e governantes, ou seja, todos nós, a imensa maioria. Os dirigentes desportivos já entram no coro dos queixumes, vendo os seus estádios a encher-se de moscas. Na verdade, desde há muito se sabia que o futebol de competição, o tal com honras de “academia”, era atividade ruinosa. Dava bem mais despesa que receita porque era preciso alimentar a indústria dos golos metidos e isso pedia compras e contratos milionários com jogadores, treinadores, selecionadores, empresários e senhores das equipas. As dívidas acumuladas dos principais clubes e outros problemas em acumulação constituem um nó górdio que só um golpe de espada poderá desatar, cortando-o. Estamos na hora de fugir por outros caminhos dos problemas que nos abafam. E de praticar desporto, não de o tomarmos como espetáculo. Descobrindo com ingénua surpresa que a competição pela competição, transformada em espetáculo de massas, de custos incomportáveis e até ruinosos, matou barbaramente o desporto, que é atividade lúdica saudável e prazenteira. Poupemos o país à vergonha de certas comparações inevitáveis, como essa de suportar a crítica dos criadores de Cultura. O melhor teatro, cinema, dança, música definham à míngua de público e receitas suficientes. Cansadas de sobreviver na pelintrice, pedem subsídios ou apoios, e respondem-lhes que não os merecem porque… não têm público. Cortemos então, cerce, com um golpe de espada, o nó do problema. Joguemos matraquilhos, todos, de norte a sul e regiões autónomas. Jogando de pé, dois de cada lado, quatro praticantes por bilhar em animados confrontos, braços girando, manápulas firmes nos manípulos, olhos fitos na bola chutada e em corrida para a baliza, defesas memoráveis. A procura dos bilhares, sem dúvida, irá sair da apatia em que se encontra para atender as encomendas. Mas são fáceis de fabricar, não requerem tecnologias de ponta nem importações de componentes do estrangeiro - temos cá dentro tudo o que é preciso. E note-se a diferença de custo entre um estádio, que pode ser novo e para demolir porque provoca uma despesa permanente insuportável, e um jogo de matraquilhos pronto a usar. Acresce que os portugueses - portugueses de todas as idades e géneros -, estão a ficar com excessos de peso. Saltem, portanto, do sofá ou da bancada, fiquem de pé como gente sã, e pratiquem desporto. Mexam-se, jogando matraquilhos. Há quem acredite que, mexendo-se bem, irão conseguir ativar as meninges do outro hemisfério. Pouco a pouco, decerto, mas será esse o caminho da salvação. De costas para o desporto-rei, a vibrar com entusiasmo e a disparar pontapés certeiros na bola rolante, os jogadores não serão mais espectadores de outros jogadores e sim, finalmente, jogadores praticantes eles próprios e de sangue a borbulhar na guelra.


Nexus et flexus

Até a jogar matraquilhos, de pulsos velozes a girar nos manípulos, as ideias fervilham no cérebro, pulam e avançam. Estou a ouvir falar de “natureza humana”. Existe realmente tal coisa? Não o afirmo nem desminto, pois a observação direta que consigo fazer da porção de realidade ao meu alcance não me atrai para resumos conclusivos. Porém, há pessoas que gostam de invocar a “natureza humana”. Insistem no conceito quando ajuda à conversa, assim como quem acredita no argumento. Para essas pessoas, a “natureza” da humanidade é imutável. Quer dizer, é selvagem, maléfica. Isso faz parte da espécie, portanto, nada a fazer. Está no ADN da espécie, não há engenharia genética que nos valha. A humanidade - logo, toda a gente - é interesseira, predadora, destrutiva. Faz a guerra por um impulso atávico incontrolável e tende a ver em cada rival um inimigo. Compreende bem de acordo com as suas motivações individuais e, se possível, aceita as motivações do seu clã, pois os vizinhos serão reconhecidos como “semelhantes”. É o discurso predileto de uma certa direita política radicalizada. Serve gente para a qual tudo está bem quando essa gente está bem. A regalar-se em mesa opípara e vendo do outro lado dos vidros expressões retorcidas pelas privações, lamentando apenas, se for o caso, que tenha de colocar grades metálicas de segurança ou cortinas opacas para sumir a ralé. Nesse discurso, quem sabe trabalhar a sério, como tal gente, triunfa na vida. Deus ajuda quem trabalha com fé; logo, Deus está com essa gente. Se há pobreza, se a miséria abunda, isso acontece porque muito povo não quer ou não sabe trabalhar. Essa gente que “trabalha” acredita em Deus e no sucesso. Os pobres, todos os deserdados do mundo, não acreditam autenticamente em Deus... se acreditassem seriam como “toda” a gente. Sofrem uma espécie de condenação divina. O discurso da “natureza humana” pode reconhecer que a pobreza é de regra e a riqueza a exceção em qualquer sociedade, mas não extrai as devidas consequências. Pode ver quantos pobres e deserdados em média são necessários para criar um único rico mas continuará firme nas suas convicções. A “natureza humana” é a dessa gente e ponto final. Se as manchas da pobreza se expandem por todo o lado, essa boa gente não vê em risco a sua bem-aventurada segurança. Confia nos dispositivos criados. Há leis, polícias, muros, acantonamentos e distanciamentos estratégicos, armas e guerras se for preciso para dizimar os excedentes demográficos. Todavia, é neste ponto decisivo que soa a pedra de toque que nos põe a distinguir a qualidade de cada “natureza humana” concreta. Não é verdade que cada pessoa tem nos outros espelhos vivos que a contemplam de corpo inteiro e que, inevitavelmente, a obrigam a (auto)definir a pessoa real que é? Sim, é isso: os defensores da “natureza humana” tendem a apontar nos outros um tanto seus próprios retratos e, desviando o olhar, resistem a reconhecer-se nos espelhos...


Em defesa da biodiversidade

Nos campos natais da minha infância via espécies de flora e fauna que desapareceram há tantos anos que hoje já quase ninguém as lembra. E, façam o favor, serão três quartos de século assim tantos anos? É a duração média de uma vida na atualidade, quando, por contraste, aumenta a extinção de espécies, imensas variedades de plantas e bichinhos que nem sequer chegam a ser conhecidas e estudadas. Sabemos, porém, que o equilíbrio natural assenta em sistemas de extrema delicadeza e complexidade e que a intervenção humana não cessa de os agredir como se o equilíbrio natural estivesse garantido no céu contra todos os riscos. É um comportamento irracional, ameaçador e suicida, que se estende por todo o planeta. Governantes e poderosas multinacionais dispõem do mundo como senhores absolutos e até ousam autorizar a introdução de mais e mais organismos geneticamente modificados (OGM) estando longe de conhecer todas as consequências desses atos. A biodiversidade está em crise e, curiosamente, não apenas no interior da natureza ameaçada. Também na esfera do social avança um processo idêntico. A diversidade humana das opiniões está a ser esmagada no terreno das mentalidades pelo rolo compressor do Pensamento Único. Efetivamente torna-se não menos necessária, pois é mesmo imprescindível, uma biodiversidade de ideias correntes para garantir a renovação da vida. Ora não é isso o que podemos ver. De telecomando na mão, percorremos cinquenta ou mais canais de tv por cabo e a monotonia é total: os canais de notícias dão informações idênticas e os outros, de “género” (desporto, cinema, música, infantil, etc.), especializaram-se tão a preceito que ficaram ainda, de tão repetitivos, mais previsíveis. Os jornais e revistas entraram na onda. Imitam-se uns aos outros de tal jeito que o discurso da informação nem atina como pode renovar-se para adiar a morte que a descida constante das tiragens anuncia. Também a edição literária trabalha bastante nesse mesmo sentido, depois de banalizar o livro transformando-o em vulgar mercadoria consumível pelo mercado. Na ordem social reinante, assim conformada, evitam-se temas e questões incómodas, polémicas, trabalhosas. Discutir, sim, apenas o campeonato de futebol e coisinhas familiares, pacatas e pacíficas que felizmente animem a malta e desatem as línguas açaimadas. Insulta a mediocracia ambiente quem aparece a saber algo mais do que o vulgo sabe. Quem mostre duvidar, por exemplo, que Hugo Chávez seja um ditador, que o Irão mente porque quer ter bombas nucleares (para defender o seu petróleo teimando em o trocar por euros?), que a Coreia do Norte ameaça muito mais do que o presidente deposto do Haiti... com certeza não acredita na Casa Branca. Pratica um sacrilégio. Porque na ordem social reinante toda a gente sabe distinguir os regimes e países que são declarados amigos e democráticos, dignos de simpatia, graças às ideias superiormente postas a correr. A gente, assim de cabeça feita, nem precisa de pensar.


A origem das espécies

Levou vinte anos a decidir publicar o livro que ficou como a sua obra fundamental. Previa a avalancha de reações adversas, nada científicas, que ia desencadear com a tese que propunha e não se enganou. Por fim, arrostando com preconceitos, insultos, propagandas malévolas e conservadorismos doutrinais, Darwin apareceu a defender A Evolução Natural. Era o corolário dos estudos iniciados na viagem que fez a bordo da “Beagle”. Durou quase cinco anos, até 1836, e deu a volta à Terra. Mas Darwin esperou até 1859 para lançar as bases científicas que permitiram ao mundo culto compreender o fenómeno da diversidade biológica. Demonstrou que as espécies existentes provêm de um ancestral comum, assinalando ao mesmo tempo o papel da seleção natural. A obra emocionou os setores cultos e revolucionou as opiniões. Decorrido século e meio sobre a primeira edição do seu livro, pode dizer-se, com inevitável tristeza, que os preciosos contributos de Charles Darwin (1809-1882) para a ciência e a cultura, lançados com desassombro e coragem, continuam a enfrentar resistências que, apesar de velhas, parecem inamovíveis. Boa resposta lhes dá a exposição que assinala desde 2009 o bicentenário do nascimento do lembrado cientista inglês. Em Portugal, esteve patente em Lisboa e a seguir no Porto, integrada no centenário da Universidade portuense. O mínimo que dela se pode dizer é, sem qualquer dúvida, algo como isto: organizada com critério e meios amplos, a exposição coloca-se ao nível dos méritos que distinguem o seu patrono. Todavia, encontram-se ali motivos de muito diversa atualidade. Além da invalidação sumária do criacionismo, mito segundo o qual Deus criou “para sempre” todas as formas da vida e que perdura na “Bíblia”, a exposição invoca o problema da conservação da biodiversidade global que enfrentamos. É uma questão, sem sofisma, das mais eminentes do nosso tempo e tanto mais vital quanto mais tem a ver de facto com a própria conservação da vida. As espécies de flora e fauna que dia a dia desaparecem do planeta por radical extinção rompem os delicados equilíbrios do mundo natural e já ameaçam a segurança futura da espécie humana. Ninguém avalia todas as consequências finais das alterações dramáticas que ocorrem, sabendo-se que serão dramáticas. A espécie humana nasceu e desenvolveu-se no seio da natureza e dela faz parte intrínseca (para se alimentar, curar ou meramente existir) de tal forma indissociável que não conseguiria o impensável: viver à parte. Por outro lado, os frágeis equilíbrios da biodiversidade estão sob ameaça dos transgénicos que, mais ou menos à socapa, invadem os campos. Os governos, inclusive europeus, vão cedendo a este outro tipo de imperialismo: permitem a entrada e uso de sementes agrícolas patenteadas pela Monsanto (sementes essas que não se reproduzem), empresa americana que se acha no direito de patentear bróculos e couves lombardas, visionando explorações com mais de dez hectares e um mercado abastecido de géneros alimentícios com origem autenticada... e a ruína terminante da agricultura tradicional.


Deus não tem mais céu

O mistério rodeia a origem da vida na multiplicidade das suas formas talvez porque a vida é o mistério absoluto. Sempre assim foi, de modo que esse mistério deu o berço ao nascimento das religiões. Todavia, o desenvolvimento do conjunto dos conhecimentos científicos foi crescendo ao ponto de, no nosso tempo, se extinguir até ao limite o lugar para quaisquer “explicações” religiosas do fenómeno Vida. Não resta mais lugar para um Deus criador do mundo, os avanços da ciência extinguiram-no. O derradeiro golpe foi dado por Stephen Hawking no seu novo livro The Grand Design. Assumidamente agnóstico, o físico cósmico explica o Universo através do Big Bang primordial abolindo definitivamente a ideia teísta do criacionismo. Na verdade, segundo afirma quem já o leu, Hawking procede neste livro a uma completa abolição da hipótese divina. Antes parecia admiti-la como hipótese última, nos limites do conhecimento, mas reafirmando o seu agnosticismo. Agora, por fim, aplicando somente as leis da Física cósmica, transpõe a última fronteira. Degrau a degrau, sucessivamente, pode também chegar à contemplação do cosmos, ou seja, do Universo, quem se põe a cogitar (oxalá que após leituras de Carl Sagan e outros autores não menos estimulantes) nas origens do mundo e da vida. Precisa, porém, de elevar o pensamento para além do que o rodeia, não se detendo em meras aparências, e gostando de astronomia, assim como quem sobe de noite ao telhado mais alto e se demora, ali no escuro, disparando para o céu polvilhado de estrelas as suas interrogações e espantos. Decerto perceberá então que a vida, toda a vida, pulsa naquela abóbada fantástica. Inserido na abóbada, vogando no espaço celeste, está o sistema solar que integra o planeta Terra, com a natureza envolvente em cujo seio nasceu a humanidade. Afinal, tudo existe no céu, onde tudo é tempo e espaço, isto é, matéria diversamente organizada e porventura transformável mas sempre indestrutível. Sagan o disse na conhecida síntese: “somos feitos da matéria das estrelas”. Curiosamente, quem mais aponta o olhar para o céu, supondo que é a morada de Deus, parece que menos o contempla. Reza, comunica com o alto, mas decerto habituou-se a considerá-lo como metáfora, mero recurso retórico, ao modo dos minúsculos hemisférios pintados de azul, com estrelinhas douradas, que cobrem certas imagens de santos. A observação direta inculca a impressão de que essa gente, assim religiosa, vive tão agarrada ao terreno que, como toupeiras, prescindem de céu. Todavia, viver neste planeta sem percepcionar a infinidade sideral, portanto de olhos cegos para a verdadeira luz, como toupeiras no interior dos túneis que escavam, reduz a dimensão humana à sua mais ínfima condição. Rebaixa-a hoje para além do razoável, permitindo a sobrevivência de fenómenos sociais como superstições e crendices arcaicas enraizadas no íntimo de gente com mentalidade parada no tempo. Mas a ciência é e torna a ser perentória: a hipótese de Deus criador não tem mais Céu para reinar...


Cristãos em guerra santa

Os foles da guerra acordaram e sopram com força nas brasas. Estão a ficar rubras, a crepitar, a incandescer. É a guerra anunciada por Samuel P. Huntington, o entendido que em 1996 prevenia do “choque de civilizações” quando já a pancada nos batia à porta. Na Europa, na América, umas velhas diferenças religiosas existentes entre as populações do mundo servem de repente para provocar temores e terrores contagiosos como a gripe. A cristandade agita-se: a torre Eiffel, símbolo da cultura francesaeuropeia, aparece em sonhos de pesadelo encimada por um quarto crescente, e o novo eleito da Casa Branca com pele não branca abisma certas imaginações em terrores e suores frios. O perigo, agora, é o Islão, que alarma o Ocidente com uma monstruosa subversão, um apocalipse arrasador. Que fazer? Cruzam-se as mensagens nas correntes da Net, expande-se o pânico: na Europa os muçulmanos são já 50 milhões, este nosso continente será islâmico em poucas décadas e então até poderá mudar de nome e chamar-se Eurábia! E o Islão invade a América. Veja-se o Canadá, mero exemplo, onde em 2001 já havia 400 mil muçulmanos com 80 mesquitas. E sucedem-se as conversões, imagine-se, de cristãos virados para essa ideologia política e religiosa... Com este discurso delirante, aplaude-se a repressão decidida por governos europeus que proibiu a construção de nova mesquita ou mesmo o uso do simples véu islâmico na rua. As vagas de emigrantes magrebinos vindas ao assalto do nível de vida europeu são encaradas como ondas de choque interessadas em consumar a subversão do Velho Continente de população envelhecida e fraca reprodução. Alega o discurso: o islamismo é uma “falsa religião da paz”, atente-se na jihade, a guerra santa pregada pelo Corão (mas, diz quem sabe, guerra não maior do que na Bíblia ou na Tora)... [Nota: E aí temos o massacre do “cristão” Anders Breivik, 76 mortos, na ilha de Utoya, Noruega!] A bandeira da luta contra o terrorismo, desfraldada ao vento, liberta assim um cheiro a petróleo que tresanda e não deixa ver aos bons olhos cristãos o influxo que a cultura árabe deixou na Península Ibérica após a queda do Império Romano, sem dúvida valioso e marcante. E faz por esquecer que os “invasores” souberam ser pacíficos coabitantes e as posteriores guerras santas cristãs lançadas para “libertar Jerusalém”. Mas os factos da história e da atualidade acabam por se impor. Foi preciso que milhões de pessoas se juntassem, derramando sangue, a exigir liberdade e democracia na Tunísia e no Egito para que os respetivos governantes ganhassem por cá o merecido rótulo de ditadores e corruptos. Corajosamente, os povos da orla mediterrânica, do Magrebe ao Médio Oriente, demonstram por fim que são governados por tiranos, não por democracias. Graças a essa luta, podemos avaliar agora quanto a Europa e a América têm dependido da exploração desses países, exploração vital para os nossos níveis de vida sustentados por povos empobrecidos, desempregados, esfomeados e oprimidos por governantes afinal execráveis. Que os europeus aproveitem a maré para recordar o que têm feito do outro lado do Mediterrâneo, descendo até à África negra. Falem depois. Por mim, tenho dito.


Judeus ricos vs cristãos pobres?

O apagamento da memória que a evolução da religião católica teve ao longo dos séculos tende a inculcar a ideia, errónea, de que não houve evolução nem mudança. Todavia, a matriz comum de que nasceram as três principais religiões monoteístas mais conhecidas contém aspetos, por isso mesmo, pouco evidenciados. Um desses aspetos parece continuar omisso e é o de encontrar uma resposta para esta velha questão: porque são, para os católicos, os judeus tão hábeis em negociar, lucrar, enriquecer? A questão é interessante e, longe de manchar a boa reputação da religião da maioria dos portugueses, realça, pelo contrário, a beleza da doutrina canónica emanada da basílica de S. Pedro para o mundo. Mas contrapõe, sem mais, um tempo antigo ao nosso tempo. Ora é aquele que fica a brilhar perante este. É pena ter-se assim perdido um aspeto esplendoroso, embora nada impeça os católicos de considerar quanto queiram uns usurários incorrigíveis os judeus. Mas a questão traz à baila, já veremos porquê, a alteração que o pai nosso, eminente oração do cristianismo, sofreu e que já comentámos nesta coluna. Aponta para a rasura do trecho: “perdoai as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores”. Posso testemunhar que, na minha pequena comunidade natal (situada entre Aveiro e Coimbra), pelo menos até 1945, aquela oração se manteve sem a emenda que depois sofreu. E ninguém deu fé da troca que então pôs “ofensas” no lugar das “dívidas”. Mesmo hoje, afinal, pouca atenção merece a emenda daquele trecho da oração ditada por Deus, apesar de ser máxima a relevância que a questão assume no plano da orientação moral das relações sociais no universo católico. Marca, porém, uma viragem crucial na doutrina canónica. Finalmente, a Igreja passou a admitir o direito de quem concedia crédito não só a reaver o seu empréstimo como o de auferir juros. Escreve Armando de Castro (artigo juros, Dicionário de História, dir. Joel Serrão, Figueirinhas, Porto, 1981): “É bem sabido que na Idade Média, em Portugal como no resto da Europa, a Igreja combatia a cobrança de juros, justificando teologicamente a proibição com o argumento de que exigi-los seria extorquir valores ao devedor pelo uso do tempo, que era uma dádiva divina.” De facto, “os princípios éticos e jurídicos medievais não previam sequer uma retribuição por quaisquer empréstimos em dinheiro ou em espécie.” Escreve o mesmo Autor na obra citada, artigo usura: “Sendo os juros proibidos pela Igreja durante a época medieval, somente quando o investimento na produção dos capitais mutuados se tornou possível e significativo é que as realidades começaram a levar de vencida as disposições proibitivas. No entanto, mesmo na Idade Média, a cobrança de juros praticou-se esporadicamente” (pois sempre houve transgressões). Essas proibições constam, por exemplo, das ordenações afonsinas e manuelinas e, até ao século XX, os códigos civis portugueses condenaram a usura acima de um limite legal. Foi deste modo que os judeus, dispensados de tais dogmas, puderam dedicar-se à atividade financeira mais lucrativa e compensadora...


Convite para folgar

Nos anos da minha infância, sabíamos o que era folgar: juntavam-se as crianças e as brincadeiras surgiam. Anos decorridos, empregado e trabalhando, usufruí das folgas do meu turno. Mas o tempo passou e agora até parece que a própria palavra entrou em desuso. O convite para folgar é aqui para valer, a sério, pois... basta de tanto sofrer! E como o cronista nada mais pode pôr aqui senão palavras (que nem inventou), peguemos nesta para nos divertirmos um pouco. Segundo a etimologia, folgar tem raiz no latim follicare, “respirar com ruído (como o fole)”. José Pedro Machado abona o termo com D. Dinis (séc. XIII), registando, no séc. XV, folga e follegar, “respirar dificilmente”. Neste ponto, sem resfolegar, já estaremos a lembrar-nos das variantes do termo: folgança, folgadio, folgaz, folgura, folguedo, folgazão. Em suma, precisamos de bons foles para folgar, mas temo-los embora nos faltem os sete fôlegos do gato. O corpo de uma pessoa inanimada revela que tem vida, ainda que exangue, se lhe colocamos o espelho rente à boca e o vidro regista um mínimo embaciamento, um hálito. Era a prova real usada outrora na falta de médico porque, segundo casos demonstrativos, apalpar um pulso para o sentir latejar podia induzir em erro. A prova do espelho era mais convincente. Aqui está como a nossa capacidade respiratória aparece associada à vontade de brincar, entendendo muito naturalmente que a uma ação corresponde a outra. Mais curioso ainda é ter de concluir, perante exemplos concretos irrefutáveis, que começamos a viver respirando corretamente para depois nos habituarmos a respirar mal. E sobra-nos o desplante para repetir que uma pessoa pode sobreviver sem comida vinte ou trinta dias, sem água cinco ou dez dias, mas sem respirar não tem mais de três minutos... Respirar é função vital. Concede-nos a alma (lat., anima), que mais não é do que “sopro, ar; alento”. Precisamos, pois, de respirar para ter a “alma” que as teologias garantem, sem provas evidentes, que é eterna. Respirar profundamente equivale a viver, ou querer viver, profundamente. A função pulmonar foi experimentada pelos pensadores budistas de forma assaz atenta e minuciosa. Perceberam a sua relação com a tensão arterial do próprio corpo e (oh espanto) ousaram tentar dominar a função até quase não respirarem durante minutos alongados em exercícios tendentes a atingir o nirvana. As variantes lexicais do termo folgar tinham que ser abundantes: animado, animar, ânimo, animosidade, animoso, anímico, até animável (lat. animabile, “vivificante”. Respirar, então, é viver, ter animação, enfim, possuir a tal “alminha” volátil como chama de vela que um sopro fatal extingue. Quem, embarcado no submarino da fé, se lembra do que aprendeu na catequese, passa ao largo desta ligeira abordagem etimológica, mas não o cronista: lida com as palavras (repete: que não inventou) e aprendeu a conhecê-las para além da casca, até ao grão, e até se ocupa a manuseá-las.


O povo eleito por Deus

O argumentário de uma posição que se pretenda englobante sacrifica aspetos tidos como dispensáveis para, acima das controvérsias, afirmar a questão essencial que lhe importa. Porém, antes de mais nada, uma opinião pessoal é livre. Solta a voz sem atender a conveniências e aponta a eloquente verdade de factos. Na antiga Palestina tudo se carrega de idade e de história, tudo se enreda, mistura e complica. Daquele cesto, pegar numa cereja mexe facilmente com um passado de três mil anos. Interesses contrapostos acendem os conflitos. Existem, todavia, factos indesmentíveis que resistem e perduram e que nenhuma máquina de propaganda das mais poderosas consegue esconder. A criação do Estado de Israel advém do projeto sionista concebido por Theodor Herzl, autor do livro O Estado Judaico (1895, em inglês no ano seguinte), e mentor do primeiro congresso sionista em 1897. Raiou então a ideia de criar uma pátria na Palestina para o Judeu Errante (em diáspora desde a Idade Média). Ben-Gurion e outros, aproveitando conjuntura favorável (o famoso Holocausto), fundaram Israel em 14-05-1948. Mas os novos cidadãos daquele Estado saíam das suas pátrias, que abandonavam, e obtinham dupla nacionalidade. Desde então, os palestinos viram chegar, ao país multissecular que era deles, levas de estrangeiros em número crescente e foram sendo escorraçados das suas casas, das suas terras. Eram israelitas, hebreus, judeus? O povo do Talmude? Distingue-os a religião hebraica? Com o Livro na mão, os invasores ocuparam pouco a pouco a Palestina e acabaram por riscá-la do mapa. Com o direito, divino, conferido pelo Livro. É sagrado, declara-os povo eleito por Deus... e Deus, mesmo para monoteístas, não é só um. Quatro milhões de palestinos tiveram de fugir para o exílio, levando consigo, por vezes, apenas a chave das suas habitações. Com a Guerra dos Seis Dias, em 1967, a Faixa de Gaza e a Cisjordânia ficaram sob ocupação militar. Na Cisjordânia alastram, imparáveis, os colonatos ilegais. O terreno vai sendo dividido por um outro “muro da (des)vergonha”. Em Gaza, mais de um milhão de habitantes, bombardeados, resistem a um bloqueio terrestre, naval e aéreo que é imoral, criminoso, intolerável. Como entender tanta luta pela terra (santa) com armas desiguais e violência descomedida? Os assaltos, com mortos e feridos, a barcos a caminho de Gaza com ajuda humanitária, em águas internacionais, é crime gritante que não pode ficar impune. Mostra toda a prepotência de uma política apostada em dizimar um povo oprimido, sitiado e espezinhado por força bruta. A indignação e a revolta tornam-se num dever. Israel, diz-se, possui centenas de bombas nucleares e está sob proteção do “amigo americano”, que é tão incondicional que até já se pergunta quem manda em quem. E, assim, eis-nos transportados do século XXI para um tempo sem lei, bárbaro e selvagem, que permite e legitima conquistas feitas a ferro e fogo na cara da humanidade estupefacta.


IURD: em nome do Senhor

São marcados por inquietantes sinais estes nossos tempos. Fantásticos espalhafatosos, feitiçarias medievais, magias negras, terrores delirantes de mentes sem mais imaginação e fantasias inconsequentes invadem a rodos o cinema e a literatura. Está em moda a irracionalidade supersticiosa que, por exemplo, leva tanta gentinha a consultar astrólogos, videntes, quiromantes, adivinhos, bruxas e professores Caramba. O fenómeno parece apontar para este outro, contraditório: o do enfraquecimento do poder efetivo da Igreja e da religião católica que de algum modo assiste à instalação e expansão de novas seitas. Uma delas, muito notada, é a designada Igreja Universal do Reino de Deus, vinda do Brasil para Portugal, aparentemente inspirada num credo (pentecostal) nascido nos Estados Unidos em meados do século XX. Recusa os santos (incluso a pontapé), centrando a fé em Jesus e no seu poder triunfador. Estarão as formas da religiosidade popular tradicionais a enfraquecer-se, a desaparecer? Ou, simplesmente, a modificar-se (para corresponder a uma procura, sem dúvida mais cega, de respostas teístas)? Até que ponto aí se manifestam: as mudanças de massas camponesas das zonas rurais em extinção para as grandes cidades, a situação de carência social originada pela instabilidade geral e a crise, o desemprego, o desvalimento, a solidão? Difícil responder. Admito somente que tudo isso se mistura. As religiões “oficiais” perdem influência e avançam as superstições mais grosseiras. Os crentes ainda exclamam, aliviados, “graças a Deus!” ao saírem mais ou menos ilesos de qualquer dificuldade... A cultura religiosa dos crentes na sua religião parece desinteressante e entra em declínio. As práticas rituais, de simbolismos esvaídos, não valem mais do que formalismos, exterioridades. Isto abre o lugar para a novidade, a inovação. As “missas” da IURD são, sem segredo, autênticos espetáculos com cenas emocionantes e “milagres” de encher o olho ceguinho. Frequenta-os gente da mais modesta e mesmo humilde condição. Serão já uns 30 mil, que sustentam mais de cem templos, ditos centros de ajuda espiritual, criados no país desde 1989. Em cerca de vinte anos, a nova seita estendeu-se pelo país graças ao dízimo que uma falange de “dizimadores” aplica de garra e verbo afiado à freguesia em nome do Senhor que é preciso adorar, pagando dez por cento do salário pela pessoal salvação do freguês. E agora temos, no Porto, a primeira “catedral” construída no país ao custo anunciado de uns 18 milhões. É edifício imponente, dotado com estúdios de tv e rádio (pudera não!), apartamentos residenciais, etc. Depois dos conflitos e escândalos, entre acusações de lavagem de dinheiro, a IURD ergue à máxima altura a afirmação de que cresce mesmo no meio da cidade com o maior desemprego, a pobreza e a miséria. Se isto não nos deixa pensativas as cabeças, então já não há mais cabeças pensantes. E a religião pode assumir qualquer coisa de sobrenatural ao trazer para a realidade o vampirismo.


O lugar dos idosos

Não basta discutir a sinonímia para reclamar que os idosos podem não ser “velhos”. É preciso ir mais longe e notar que os costumes no nosso tempo não correm de feição para os seniores. Estorvam como trastes fora de uso sendo todavia reclamados para o lugar onde realmente uma necessidade grita por eles. E eles acodem. São outra vez pais para os netos (e agora, felizmente, com outra disposição e maior disponibilidade), são caixa multibanco doméstica para a quantia que falta, são o biscateiro pronto para a bricolagem urgente ou o parecer oportuno. Então, sim, a família festeja porque os seus idosos estão ali ainda para as curvas e não arrumados no sótão. Festejam eles próprios por se sentirem úteis, com lugar aberto. Mas quem cuida de lhes perguntar como se sentem sob o peso dos anos vividos, os desgastes, as queixas do corpo? Quem se dispõe a conter as pressas para conversar ao vê-los cercados de solidão, ensimesmados e melancólicos, ansiosos de contacto humano, para ficarem de repente animados, comunicativos, dir-se-ia quase rejuvenescidos? Escasseiam os ouvidos ouvintes e multiplicam-se os “velhos” porque, de facto, as populações em geral estão a envelhecer e a portuguesa não é exceção. Nem sobra teto onde caiba tanta gente, pensionista ou sem pensão nenhuma, pois a procura excede a oferta. Entretanto reina, com a força de um dogma, o culto das imagens de juventude, culto tão forte que faz esquecer o infalível envelhecimento a quem vive para tanto. Diluiu-se a consideração tradicional em que eram tidos os idosos no seio das famílias e das comunidades. Nos países ocidentais, onde mais se implantou o consumismo e o culto da juventude, cresceu também, com a população idosa, uma tendência para encarar os “velhos” como refugos descartáveis do sistema de produção em crescente desumanização. Mas outra é a consideração e mesmo o respeito que envolve essa população em países orientais. Em algumas dessas sociedades, os idosos mantém uma autoridade e até um prestígio entre nós surpreendentes. São povos no limiar do consumismo e pouco interessados em erguer o ícone da juventude ao máximo esplendor, pois nem pressa tem de empurrar meninos e meninas para a idade adulta. Com mais propriedade do que nós, afirmam que quando um idoso morre é uma biblioteca inteira que desaparece. Realmente é durante uma longa vida que se acumula e decanta a experiência do mundo. Saber ouvir as vozes da experiência vivida ajuda a melhorar o conhecimento do passado para melhor compreender o presente e perspetivar o futuro. Vale sobretudo para ativar as memórias. Justa e certeira é, aqui e agora mais que nunca, a tese de Gandhi: via na forma como os animais eram maltratados a marca de uma degradação da humanidade. O culto do novo em contínua (e meteórica) renovação, na sociedade do desperdício, fica assim com a culpa de uma atroz desvalorização do ser humano. Será esta a dor que empana o olhar de tantos idosos?


Três erres (sem erro)

Há frases felizes: explicam claramente muita coisa mas, decerto por isso mesmo, deixaram de se ouvir e repetir. Uma frase feliz é a que aponta a procura de lucro para explicar a origem das crises que afetam periodicamente, com maior ou menor gravidade, o sistema capitalista. Mas na verdade não é outro o objetivo principal das forças que intervém no mercado. A produção de bens orientada para o lucro - e não, desejavelmente, para as reais necessidades da população - determina a acumulação dos bens mais lucrativos no mercado que uma publicidade intensificada até ao frenesim tenta escoar quando os consumidores já desistem por escassez de dinheiro ou de crédito. É possível distinguir nos traços da crise económico-financeira atual as marcas de tal situação (em resultado do comportamento da especulação financeira gananciosa e fraudulenta), de modo que, se bem pensarmos, estaremos prontos para encarar sem erro três erres absolutamente imperiosos e oportunos caso queiramos poupar-nos a mais crises calamitosas como esta. Na verdade, a conjuntura mundial empurra-nos de encontro às seguintes disposições fundamentais: Reduzir os consumos descartáveis; Reciclar o mais possível, com regras; Reutilizar para poupar. Encolher os ombros, adiar mudanças urgentes, persistir na atitude da indiferença vai apressar o fim. O petróleo tem os seus dias contados e essa alteração determinará uma tremenda alteração global das atuais formas de vida nos planos económicos e sociais. Mas à míngua do petróleo se acrescentará a escassez de água potável, a poluição do ar, da terra e do subsolo, o desemprego, o degelo, as ondas de emigrantes e refugiados... Haverá menos viagens e deslocações, mais carestia e míngua geral, logo, a imposição de hábitos frugais, espartanos. O planeta acumulou problemas ingentes e não tem soluções, apenas conhece paliativos e adiamentos. A crise económico-financeira atual acelerou a exigência de respostas políticas realmente corajosas e eficazes que sem dúvida serão tanto mais difíceis quanto mais se atrasem até rastilharem a deflagração de uma nova guerra. Descartem-se desde já o sonho impossível de um crescimento contínuo dos dados da economia e uma elevação dos níveis gerais de conforto e bem-estar. A conjuntura convida-nos a rever os nossos queridos modelos de vida e a regressar de alguma maneira a comportamentos mais amigos do ambiente, atentos à renovação dos recursos naturais e aos destinos finais do lixo produzido. Serão mudanças dolorosas, sem dúvida, que não serão aceites sem contrariedade e resistência, mas que se impõem e são decisivas ao trocarmos crescimento (impossível) por desenvolvimento. Tardarão certamente a implantar-se no terreno, atrasadas por loucos egoísmos e cegueiras coletivas, mas hão de contribuir, finalmente, para deixar o mundo mais harmonizado, mais humano e mais pacífico - ou seja, menos brutal e incivilizado.


Leituras


Tantos livros! Asfixiantes?

Sabemos que as mudanças são cada vez mais velozes e que, em altas ondas, envolvem “tudo”. Mas não continuaremos a ver o objeto Livro de olhos adormecidos? Quantos advertem as mudanças radicais surgidas nestes últimos vinte, trinta anos? As mutações foram radicais porque alteraram os sectores da edição literária, distribuição e comercialização do livro, redes de leitura. O fator mais expressivo do quadro das alterações encontra-se no aumento da quantidade de editoras em atividade, da respetiva concentração operada pelo grande capital, da diversificação das chancelas editoriais. A situação permite atingir e exceder a cifra de 1200 novas edições por mês, cerca de 15 mil por ano. Cifra espantosa num país pequeno, sem grandes hábitos de leitura e fraco nível médio de rendimentos, que nem sequer exporta livros em quantidade significativa. Todavia, nesta base é que poderemos entender o motivo por que têm baixado constantemente as tiragens das novas edições. Mas, por isso mesmo, tem subido o seu preço (o que, por outro lado, multiplicou as feiras dos saldos e já leva uma editora a guilhotinar restos de edições armazenadas para poupar espaço). Portanto, editam-se cambulhadas loucas de livros que têm tiragens cada vez mais reduzidas ou mesquinhas. Muitos não aparecem nas livrarias nem entram no mercado, onde “os que se vendem” precisam de se impor na primeira semana porque, quatro semanas depois, serão “velhos”, mercadoria descartável. A rotação dos títulos e das edições vai em aceleração, o mercado fica invadido por uns poucos autores mediáticos com grandes vendas (um ou outro português, os restantes estrangeiros). O livro transformou-se numa vulgar mercadoria e quase tão perecível como as couves da horta ou os iogurtes do supermercado. Faltam leitores para toda a imensa literatura que se publica. Cada autor fica na realidade contido pelo mero círculo das suas relações pessoais, a lembrar o argumento neoliberal de que “são os autores que vendem as suas obras”... Em suma, abundam as editoras literárias ativas, abundam as livrarias, abundam os postos de venda de livros e os autores a promover a venda dos seus livros no terreno... Negócio lucrativo! (E, todavia, só ingénuos estranham que tenham de ir aos alfarrabistas para encontrar as obras que querem ler porque nelas sentem a palpitação vibrante que parece ter-se perdido à medida que os novos autores aprenderam “escrita criativa”.) Há editoras que vêm publicando originais na condição de os autores adquirirem, pagando, uma parte substancial da edição. (O dinheiro de prémio literário antes recebido suportava a fatura.) E agora avança-se um pouco e aparecem “editoras” que editam por encomenda direta do autor os exemplares da sua obra que ele pagará. É o print-ondemand, a suprema maravilha! Os efeitos perversos destas mudanças são variados e são visíveis. Haja olhos.


A obra também lê o leitor

Um texto literário não se deixa apenas ler, sabemo-lo. Na medida em que é lido e percebido transforma-se numa espécie de espelho e quem o lê sente-se interrogado. O leitor, em resposta, define-se explicando como lê quem é. Ler implica assim uma interação gerada entre um e o outro, apostos num diálogo que expõe o leitor depois de publicado o autor. Verifica-se então que a leitura, ou releitura, exercita a liberdade interpretativa vivificadora do texto coisificado. Os sentidos não estarão apenas na obra aberta, também de algum modo se anunciam no leitor. Enfim, o que uma obra mais pede e agradece é que o leitor a reescreva para si. Ora é isto mesmo que um livrinho meu, de contos, está a merecer no blogue de Jorge Candeias. Este escritor, com largo percurso na Net e óbvia inclinação para as designadas ficção científica e literatura fantástica, atentou n'O Vírus Entranhado (Campo das Letras, 1999) e começou em Fevereiro a editar breves apreciações a cada conto do volume. Jorge Candeias escreve num estilo correto, vivo e desembaraçado, de modo que gostei do seu blogue (endereço: http://lampadamagica.blogspot.com/). Todavia, não me poupa. Começou pegando em “O candidato” numas linhas de que destaco: “É um bom conto mainstream, que além de estar bem escrito está também bem concebido e reflete, desta vez com subtileza, sobre a natureza da atividade jornalística. Bem melhor do que vários dos contos anteriores.” Considerou a seguir “Ponte franca”: “é um conto mainstream e epistolar.” Acrescenta: “É um conto irónico e bem concebido e executado. Um bom conto, portanto.” Candeias tem gosto formado, sabe ser exigente. “A verdadeira história de uma descoberta” sofreu restrições: “o conto tem esse tipo de fantasia surrealista. E é bastante interessante até chegar ao fim. O problema é o fim. [...] Não é um fim em aberto, mas uma história abandonada naquele ponto.” Quererá Candeias terminar a história, fazendo-a melhor? Chegou a vez de “O jardineiro descalço”. É um “conto vagamente fantástico”... Mas “o fantástico que há no conto é mais questão de ambiente do que de outra coisa qualquer.” “Muito todoroviano.” Vi mais dois contos apreciados. “Toda a nudez”: “Lírico e alegórico”... “literatura simbólica”, da qual diz que não gosta muito, embora não desgostando; e “O vírus entranhado” que dá o título ao volume: “conto completamente alegórico”... “acheio bastante fraco, um dos piores do livro”. Somo seis referências e a coletânea tem 13 contos – irão surgir mais apreciações? Entretanto, eis-me feito autor de literatura fantástica com aquelas histórias muito metafóricas escritas nos anos ’80 e comentadas em 2010 por aquele autor que se declara um pouco avesso à linguagem simbólica. Decerto foi atraído pelo vírus legível na capa (lembro: não aprovada por mim, disparate da editora em pausa de férias).


Copyright: castanhas no lume

Decerto ninguém se lembra já do burburinho que em tempos percorreu o país. O burburinho depressa se transformou num tremendo alvoroço e pouco faltou para os sinos nacionais tocarem a rebate. Em discussão estava uma iniciativa que faria pagar pela utilização de cada livro em bibliotecas públicas cuja autoria ainda não tivesse caído no chamado domínio público. Tanto alarme tinha, afinal, uma débil justificação. Primeiro, não seria o leitor da biblioteca que pagaria, mantendo-se, portanto, a gratuitidade de tal leitura; segundo, o valor em foco seria verdadeiramente simbólico, além de que não incidiria em todas as obras, somente nas de autores vivos ou falecidos até uma data-limite (algo como 70 anos); terceiro, o encargo global de todas essas leituras remuneradas, de montante anual previsto assaz modesto, seria suportado pelo Estado. Verifica-se uma situação similar nas rádios e televisões portuguesas que transmitem canções gravadas e que pagam por isso. E ninguém protesta ou reclama. Nem o exemplo de países da União Europeia e nórdicos, onde já se via o sistema implantado nas bibliotecas públicas, serenou os fôlegos... E agora teremos que retomar a discussão, pois vai surgir em cima da mesa. Pelo menos, é o que pode esperar-se da realização em Lisboa, da 8ª Conferência internacional sobre comodato, que avaliará a situação geral do direito de comodato público e apreciará as experiências recolhidas. Explica a Sociedade Portuguesa de Autores, anfitriã da Conferência, que “comodato” é a designação técnica do direito patrimonial dos autores que lhes permite receber uma remuneração pela utilização pelo público das suas obras, nos originais ou em cópias, no âmbito do empréstimo gratuito prestado pelas bibliotecas acessíveis ao público. Vale a pena registar, sobre este assunto, que a diretiva europeia que foi transposta para o Decreto-Lei 332/97, de 27 de Novembro, data de 19 de Novembro de 1992. Todavia, como a transposição da diretiva nº 83/83/CEE, de Setembro de 1993, foi incorreta, acontece que há já 17 anos que os autores portugueses estão impossibilitados de qualquer recebimento. Enfim, estes e outros problemas ligados ao direito de autor, ou copyright, vão ser castanhas a tirar do braseiro. Uma castanha, bem grande, é o designado Google Library, projeto da Google para criar uma base de dados com milhões de livros digitalizados. Essa biblioteca eletrónica é facto consumado: avançou até que parou perante a força da lei, e agora espera validação, pelo Tribunal Federal, de uma sentença já formulada em Nova Iorque. O acordo estabelecido entre autores e editores estado-unidenses em Outubro de 2008 levará a Google a pagar 60 dólares por cada obra digitalizada. Note-se, a terminar, que não defendo qualquer interesse egoísta. Não sou, nunca quis ser, autor capaz de atrair multidões (é esse o preço da minha liberdade) e até ofereço livros para leitura ou impressão privada aos amigos que visitam regularmente este cantinho. Bom proveito!


Vão os livros acabar?

Os impressos em papel, entenda-se. Deixámos há tempo de ouvir esta interrogação algo alarmada ou alarmante, mas estamos agora a tê-la de regresso. Vai para título porque as mudanças estão a precipitar-se e, mal refeitos da surpresa, já estamos de partida para outra. É verdade, acreditei sempre que os livros de papel iriam sobreviver à era da informática, adaptando-se à nova tecnologia, com tanta convicção como hoje me recuso a profetizar o fim dessa “máquina de ensinar” (Marshall McLuhan). Mas anunciam-se transformações notáveis. Desde logo, a situação atual pede corretivo. O acesso à compra dos livros que nos interessam nas livrarias, quaisquer que sejam, ficou difícil e, por norma, inviável. Nas livrarias e outros postos de venda encontram-se as novidades do dia, da semana ou, com alguma sorte, do mês passado pois não sobra espaço nos escaparates e nas prateleiras para muito mais. E a livralhada, adquirida fora dos saldos, sai-nos cada vez mais cara. Eis o motivo por que se expandem em ritmo crescente os catálogos online e as vendas de livros em formato digital. É via cómoda, rápida e, além disso, bastante mais barata sobretudo se o adquirente poupar a respetiva impressão em papel. Bem avisado, talvez ele até já possua um leitor de ebooks, aparelho eletrónico que requer designação genérica em português. Trata-se, como sabemos, de uma caixa portátil, com ecrã de plasma, dotado de memória que permite receber, através do computador, uma quantidade enorme de volumes digitalizados que logo poderão ser apagados. São virtuais, não pesam e não ocupam espaço. Além dos textos, podem ter imagens e mesmo sons (se tal for preciso). Frases, palavras ou páginas podem ser sublinhadas, realçadas a marcador, e o usuário pode folhear a obra, tomar notas à margem, além de aumentar ou diminuir o tamanho das letras, o brilho do ecrã, etc. Encontram-se no mercado vários modelos de marcas diferentes. Um rápido relance permite avaliar o impacto que estes ebooks estão destinados a provocar. Previsões seguras e sem risco: vão multiplicar-se as edições de livros em formato digital, já não em papel, para venda online. Vão rarear as livrarias resistentes e subsistir as edições tradicionais apenas de obras “especiais”, destinadas a um público apreciador residual. Algumas editoras irão especializar-se no formato eletrónico com lançamentos apenas através da Internet. Quem visiona este próximo futuro compreende a corrida que houve para a concentração em poucas mãos das principais casas editoras nacionais. Os compradores corriam para os seus catálogos, os seus fundos editoriais. Esses “conteúdos” prometem fazer andar o negócio seja na Europa seja na América. Os “saberes da humanidade” vão alojar-se numas poucas bibliotecas digitais mundiais - a BDM, a Europeana, a Google Book - e, como diria La Palisse, quem nelas não entrar fica de fora.


Autores literários sofrem

São abundantes, invasivas, as distrações nacionais. Tudo gira e se renova no simples borbulhar de cada dia de modo que nem sobrou atenção para atender à Conferência internacional sobre comodato que decorreu em Lisboa nos fins de Setembro. Até parece que a Sociedade Portuguesa de Autores, anfitriã da conferência, rodeou de severo secretismo a iniciativa... Entretanto, eu mesmo chego com atraso ao assunto e, todavia, não entrei em submarinos nem dancei entre Belém e São Bento. Mas soube que estiveram representados 26 países na conferência onde foi elaborada “uma visão geral da situação do regime de comodato ou empréstimo nas bibliotecas em cerca de 30 países.” Nas conclusões, a conferência analisa a transposição para os ordenamentos jurídicos nacionais da diretiva europeia de 1992, codificada em 2006, que regulamenta aquele sistema. Ponto essencial considera “inexplicável o facto de o Governo português continuar a incluir no regime de exceção as bibliotecas públicas”, notando que tal “é particularmente dececionante num país de tão forte tradição literária” como o nosso. Na verdade, não é caso único no ambiente europeu. Por isso, a conferência apela aos países relutantes para que estabeleçam sem mais demora o direito de leitura pública (Public Lending Rights ou, em português, Direito de comodato público). A leitura de obras ainda com copyright (i. e., ainda cativa de direitos) em biblioteca pública nada está a render ao seu autor embora possa servir a dezenas de leitores. Neste quadro, faz-se lembrar que o direito de autor começou em Portugal a implantar-se, pela mão de Almeida Garrett, em meados do século XIX. Não mais cessou de se desenvolver até à atualidade, tendo que enfrentar a pirataria das fotocópias, a banalização do livro lançado às carradas e logo posto em saldo ou enfrentando agora a concentração das editoras e a sofreguidão (porventura a pilhagem) dos “conteúdos”. Creio que o direito de autor apenas enriqueceu uma minoria ínfima de quantos escreventes se ergueram à categoria de escritores notáveis. Confirmando a regra, apenas uns quantos e raros atingiram tiragens e vendas, e traduções no estrangeiro, em volume suficiente pelo menos para viverem do que escreviam. Na melhor das hipóteses, ao falecerem os seus familiares puderam beneficiar do seu trabalho durante uns setenta anos. Mas hoje a situação complicou-se deveras. O direito de autor sofre ataques múltiplos e mal resiste enquanto o direito à variedade da criação literária e cultural, encolhendo-se, definha. A esmagadora maioria dos autores literários mal ganha para os cafés que bebe. Eis porque adiar a transposição do direito de comodato público e resistir à sua aplicação prática é atitude falta de visão e algo mesquinha. A leitura pública continuará grátis para quem a quiser e a retribuição por cada leitura terá um valor meramente simbólico. Somado à nossa escala nacional, esse encargo será menor do que o custo de outra rotunda do nosso circular descontentamento.


Quando os livros são de cheirar…

Pegou num livro, abriu-o ao meio e, com notória avidez, cheirou-lhe as páginas. Diante das câmaras, para a televisão, disse que cheiravam a tintas, colas, e até notou a acidez do papel. Ele, um autor literário mediático, intervinha na apresentação do novo romance de outro autor literário em voga, também presente junto da rotativa da editora que lançava no tapete velozes rimas de volumes. As sessões de lançamento das novidades editoriais até para algumas “vedetas” em promoção ficaram gastas e cansadas. Já não conseguem garantir boas abordagens, atrair leitores, gerar visibilidade para o autor e o seu livro. Era preciso introduzir no caso uma inovação: o performer. O apresentador dispensou-se de ler a obra, de expor uma apreciação, uma leitura. Bastou-lhe o cheiro e a visão externa. Assim declarou em público o que ao público cumpre saber e recordar: aquela novidade literária, como tantas outras em correnteza, é para ver e cheirar, não para o que serviam os livros antigos. Acredita-se, portanto, o que já se diz no meio editorial, que uns 80% dos livros não chegam a ser lidos. Os avoengos possuíam valor e dignidade cultural. Podiam caber no bolso, ser impressos em papel rugoso e amarelado, exibir capas pobrezinhas, mas ainda hoje muitos deles são procurados nos alfarrabistas que os marcam por bons preços. Eram lidos e relidos, criticados e comentados, e ninguém se lembrou alguma vez de os cheirar. Entrámos agora na literatura consumível. As capas aparecem cheias de cores fortes e com altos relevos, os formatos cresceram e já não cabem num bolso, por vezes nem na estante, as lombadas abraçam já centenas e centenas de páginas de bom papel. Tudo histórias da carochinha, que é preciso consumir depressa no seu curto prazo de validade porque a máquina da produção industrial acelera às cegas. Para ela trabalham, produzindo romances e outros textos, não “escritores”, sim fabricantes de literatura cheirosa quanto baste. Escrevem guiões para telenovelas, vão ao estrangeiro aprender guionismo, arranjam agente literário, reclamam-se profissionais da escrita. O mercado dos gostos massificados é o seu ambiente. Edita-se muito mas publica-se pouco. De facto, editar deixou de corresponder a publicar (pôr o livro em público, isto é, nas livrarias). Mas, decerto por isso mesmo, as tiragens desceram tanto que, ao que se diz, andam agora em geral por níveis irrisórios. Muitos dos próprios autores encomendam e pagam a edição das suas obras e distribuem-nas por oferta ou venda direta a amigos e conhecidos. Variadas editoras entraram neste negócio do print-on-demand. Consagrou-se plenamente a consigna dos editores-patrões: são os autores que vendem as obras, não os seus editores (que as trocam por dinheiro). E é ver os autores por aí a palmilharem o terreno. Evidentemente, sorte melhor têm os best-sellers na justa medida em que o sejam. Os editores sonham com eles. Mas onde pára agora a “outra” cultura que antes víamos escrita com respeitosa maiúscula?


Em volta dos livros

Ainda pedem em livraria central um livro e com espanto ouve que não o tem ali. Mas o freguês não o encontra noutras livrarias; embora atulhadas, estão sem obras principais de autores portugueses contemporâneos. Falta-lhe saber que só as novas edições dos três últimos meses encheriam por completo a livraria! O ritmo das editoras portuguesas tornou-se delirante. Saem agora mais edições novas num único mês do que, até há poucas dezenas de anos, na roda do ano inteiro. E agora acontece isto: em 2009 terão saído em Portugal algo como 14 mil novas edições; e nos primeiros onze meses de 2010, a Agência Nacional do ISBN já tinha atribuído mais de 16 mil registos, total recorde atingido por aquele organismo nos seus vinte anos de vigência portuguesa! Uma pessoa fica maravilhada. Todavia, o portentoso himalaia de pelo menos quinze mil novos livros lançados em 2010 coincidiu, por sinal, com um desanimador anúncio do Gabinete de Avaliação Educacional do Ministério de Educação. No seu relatório do mesmo ano assinala, em 500 alunos do ensino secundário, dificuldades de raciocínio na escrita e incapacidade para resolver problemas na matemática (também detectados em mais 1200 alunos do 3º ciclo do ensino básico). Ainda assim, desenvolveu-se notavelmente a circulação de livros e a leitura entre os alunos do ensino básico. Mas o apregoado “prazer de ler” da idade infantojuvenil ainda se reduz em cada nova geração à entrada na adolescência. Tende então a contentar-se com manuais escolares e talvez as redes sociais da Net... A explicação do fenómeno dos 16 mil novos livros encontra-se em outro lado e tem sido comentada neste blogue. O total anual das edições vai crescendo porque aumenta também a quantidade de autores nacionais diversos que querem publicar os seus escritos aceitando pagar a despesa. Por outro lado, vai crescendo a quantidade dos autores estrangeiros traduzidos e editados, graças a subsídios, em Portugal. Acentua-se, nesta situação, uma clivagem óbvia: temos os autores, nacionais e estrangeiros, publicados pelas editoras “normais”, com nome de marca e marketing de promoção, e temos os outros autores, sem nome sonoro nem marketing, que publicam pagando do seu bolso. Os livros daqueles autores têm as tiragens e os lançamentos habituais (devem vender-se depressa porque os seguintes já estão a ser produzidos), enquanto os destes outros autores atingem tiragens mínimas, de umas dezenas de cópias que não alcançam as livrarias. É o ateliê gráfico com o print-on-demand de porta aberta. A clivagem tem efeitos realmente dramáticos. Enche os olhos do público com as edições literárias do negócio comercial - chegaremos a presumir, cegos perante tamanha abundância, que nada mais haverá para além? - e deixa na invisibilidade uma avalancha de obras e autores, portugueses ou não, capazes de sonhar com literatura viva. Retomo aqui a ideia: os livros do negócio comercial, produzidos para o mais rápido consumo do mercado, integram-se hoje numa certa cultura popular (a que resta), enquanto na outra, marginalizada, pode morar (oxalá que sim!) a semente da renovação.


Com Eça, livre-pensador

Tanta “escrita criativa” a chover no mercado leva-me para as Notas Contemporâneas. Mas não terei lido a obra de Eça umas quatro vezes, e quase inteira de cada vez, ao longo dos anos? Ora, não vou reler o relido, apenas recordar o texto. Poiso no início da parte II de “Positivismo e Idealismo”, datado de 1893, onde Eça aponta que a “reação contra o positivismo científico mais decidida e franca é em matéria religiosa.” Terá isto sido escrito há mais de um século? Escreve Eça: “Ah! o nosso velho e valente amigo, o livre-pensamento, vai atravessando realmente uma má crise! Talvez a mais aflitiva que ele tem afrontado, desde que nasceu sob os claros céus helénicos e que balbuciou as suas primeiras lucubrações cósmicas e éticas, sobre os joelhos de Tales e de Sócrates. // Este pobre livre-pensamento está com efeito passando por aquela tortura, que ele já infligiu ao cristianismo no tempo de Voltaire, que é a mais humilhante que pode sofrer uma filosofia, - e que consiste em ser troçado, crivado de pilhérias, apupado pelas ruas como um chéché de entrudo. Quem jamais o diria? O livre-pensamento chasqueado alegremente, neste século...” Eça apoia-se no discurso de um certo sr. Aulard que, “dos cimos da Sorbonne”, lamenta “que o livre-pensamento está sendo, neste Paris da terceira República, ainda mais achincalhado do que o catolicismo no Paris de Luís XV, quando Voltaire era rei”. Pior ainda, “o livre-pensamento está fora de moda, entre a mocidade. Hoje, neste ano de 1893, é de mau tom em Paris ser livre-pensador!” Acrescenta Eça: “Tudo isto é desolador. Tanto mais que ao lado deste movimento negativo contra o positivismo - surge e cresce paralelamente um movimento afirmativo de espiritualidade religiosa. [...] É uma outra e renovada ansiedade de descobrir neste complicado universo alguma coisa mais do que força e matéria; de dar ao dever uma sanção mais alta do que a que lhe fornece o código civil; de achar um princípio superior que promova e realize no mundo aquela fraternidade de corações e igualdade de bens, que nem o jacobinismo nem a economia política podem já realizar; e de achar, enfim, alguma garantia da prolongação da existência, sob qualquer forma, para além do túmulo.” Deixam os olhos estas páginas com desgosto, a prosa queirosiana mantém-se apetitosa e suculenta. Mas não estando hoje em causa a defesa do positivismo do século XIX, e notando, por outro lado, a recrudescência do fenómeno religioso no século XXI, apelemos então para o livre-pensamento. Parece-nos que o avanço daquele resulta do definhamento deste, por muito que isso custe ao autor de O Crime do Padre Amaro. Pensar pela própria cabeça - que permite erguer a condição humana à sua mais rutilante dignidade - já parece desafio temerário de mente radical. Todavia, é pelo livrepensamento que se faz livre o cidadão. O que explica, afinal, o que por aí vemos: o “patriotismo”, por exemplo, reduzido à manifestação de apoio ao campeonato de futebol, com bandeiras nacionais à janela...


Direito de autor é salário

A evolução da informática expande uma selva anárquica no interior do que poderemos designar genericamente por direitos de autor. Em contrapartida, essa mesma expansão, ao criar imensas dificuldades à defesa daqueles direitos, vai promovendo uma ampla circulação das obras dos autores. De pé fica um problema tão complexo e vertiginoso que foge à aplicação de orientações legais e práticas normativas. O formato digital abraça o mundo transportando conteúdos os mais variados com rapidez, economia e comodidade. Vai longe o tempo das queixas contra os abusos da fotocópia ou da duplicação de gravações de músicas em CD. A pirataria desenvolveuse tanto que a Sociedade Portuguesa de Autores, lutando pela defesa dos direitos legais aplicáveis, se vê na necessidade de pôr na rua, em pregão, o facto cada vez mais esquecido: “O direito de autor é o salário do criador.” A vastidão das questões presentes no conjunto da designação genérica “direitos de autor” é, porém, realmente tão intricada que a desloca daqui. Envolve, é claro, os copyrights, as patentes, as marcas, as fórmulas registadas e, enfim, toda a criação abrangida pela propriedade intelectual coberta pelas leis nacionais aplicáveis. A globalização permitida pela Internet (a única “globalização” talvez de facto reconhecível se excluirmos a liberdade de movimentos do grande capital), ao facilitar as comunicações à escala planetária, colocou a questão no lugar complicado onde hoje a vemos. Conflituam os interesses, cruzam-se as disputas entre autores e consumidores finais, apuram-se as normas legais e a situação enreda-se e agrava-se. É difícil acompanhar todas as mutações conforme vão surgindo. Protestam de um lado que “a propriedade intelectual é um roubo” e logo há quem tente patentear o genoma humano como invento seu ou, pasme-se, o duplo clique do rato que tenho na mão... Aparentemente, o dano maior que a pirataria provoca atinge o cinema e a música ligeira. Há produtoras que soçobram devido à quebra de vendas e declara-se uma dificuldade no próprio seio das facilidades: a criatividade sofre reveses porque deixa de interessar. O mercado (o famoso mercado que alegadamente se autocontrola) contrai-se e não pode justificar os investimentos na criatividade. Os prejuízos maiores atingem talvez as produções mais populares, isto é, de consumo massivo não apenas nas áreas da música e do cinema mas também da literatura, a tal das elevadas tiragens e enormes circulações. Na verdade, os autores literários em voga são agora “vedetas” das suas próprias editoras. Trabalham para elas e lucram a par com elas - oxalá que sim! Acontecem, porém, umas singularidades até a autores ignotos como eu. Apenas um exemplo: encontro livros de minha autoria à venda online, em formato digital, não autorizado por mim, e também edições em papel à venda em livraria virtual como a Amazon. Aparecem anunciados para quem os quiser comprar, eu incluído.


A Literatura que temos

Encerrada há dias, a Feira do Livro decalcou as anteriores sem desvio de monta (apenas uma relativa novidade sobressaiu: os livros digitais, ebooks). Um amigo dos livros, mesmo sem andar por lá, pode perceber as estratégias dos três ou quatro grandes grupos editoriais com importância suficiente para encherem a feira. Conclusão fácil: os leitores em geral vão consumindo o que os grandes editores lhes dão a ler. Ora isto repõe em cima da mesa o quadro cultural apresentado pelas mutações da realidade sociológica do país, onde se entrecruzam questões de incontroversa relevância. Perguntaremos então como funciona o ensino da Literatura em todos os níveis da escolaridade, do básico ao superior, para estimar de relance os seus resultados. Apurando a questão, chegaremos por fim a questionar o processo da formação do gosto literário; o que é, para o público letrado, que lê livros, a Literatura modelar, paradigmática. De facto, sendo hábito desejável a leitura, ainda mais desejável é que se apoie e decante, sem perda de vigor crítico, no gosto formado pelo leitor capaz de admirar as obras-primas literárias de autores portugueses e de todo o mundo. Este requisito, no entanto, torna-se incontornável nos casos em que o leitor também se encarrega de ensinar outros a ler em qualquer escola depois de ter obtido a necessária preparação. O gosto literário predominante aparecerá naturalmente em resultado da soma final das diversas componentes envolvidas. O tema, aqui tocado de fugida, serve para notar a escassa atenção que vem tendo em Portugal, e isso é lamentável tanto mais que no Brasil não falta quem dele se ocupe. Registo apenas dois ensaios de Carlos Ceia, professor da FCSH da UNL e formador de professores de Português e Inglês: A Literatura Ensina-se? Estudos de teoria literária, Lisboa, 1999, 2ª ed., 2004, e O Que é Ser Professor de Literatura, Lisboa, 2002 (edições Colibri). Basta-me pegar aqui no primeiro título para iluminar a questão quanto basta. A reflexão teórico-prática de Carlos Ceia não tem tradição entre nós. Lembra o autor, a abrir, que a teoria da literatura surge por cá no início dos anos ’50; a seguir, talhante, afirma: “O ensino oficial da literatura em Portugal não tem presente nem futuro, enquanto depender de programadores de vistas limitadas para o papel que cabe à teoria na aquisição de uma competência crítica na abordagem dos textos literários.” O mesmo autor percorre em A Literatura Ensina-se? o temário conexo (relações ideologia e textualidade, intenções do autor vs soberania do leitor, a crítica profissional, funções da didática, ou pedagogia, da literatura com a formação do gosto, etc.), visando a constituição do “cânone literário português” após Fernando Pessoa para servir a comunidade escolar nacional. Talvez tudo isto nos ajude a entender a Literatura que temos... [Nota: A Carlos Ceia se deve um Dicionário de Termos Literários, por vários autores, disponível em http://www.fcsh.unl.pt/edtl]


Século XX em balanço

A literatura visível, que enche o olho, é a que circula hoje com a chancela das maiores editoras. A crítica e a teoria literária passaram também por um processo de centrifugação e ficaram concentradas nos claustros académicos. As mudanças substanciais geradas por estes movimentos estão assim a reclamar estudo à altura da multiplicidade das suas implicações socioculturais. Esse estudo parece que tarda mas eis um valioso contributo apontado nesse sentido. É um balanço do século XX literário e vem com o nº 1 da “Revista de Estudos Literários” do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra. O volume, com mais de 450 pp, trata do tema “Os estudos literários em Portugal no Século XX”. De facto, é na segunda metade deste século português que se agudiza entre nós “a crise que afecta as Humanidades no seu todo” (in José Augusto Cardoso Bernardes, diretor da nova revista, na Apresentação), e logo, também, crise da teoria da Literatura. Assim veio a definhar uma interdisciplinaridade natural dos estudos literários à medida que foi assentando em áreas de crescente especialização e se acompanhou, nos meios académicos, pela influência expansiva do textualismo de pendor estruturalista. Felizmente, o diretor desta revista afirma querer implantar “práticas novas” sem, todavia, enjeitar “a tradição”. A secção temática do volume, em cerca de 200 pp, contém sete estudos por Rosa Maria Goulart, Carlos M. F. da Cunha, Helena Carvalhão Buescu, António Apolinário Lourenço, F. J. Vieira Pimentel, Gustavo Rubim e Ricardo Namora. Abordam: os dicionários de literatura; as historiografias literárias positivista e posterior; o cânone literário e o ensino; F. Pessoa e a crítica em “A Águia”; a crítica presencista; o contemporâneo triunfante e a afirmação nacional e os impasses atuais da teorização. A secção seguinte, Vária, reúne estudos de Ofélia Paiva Monteiro, Burghard Baltrusch, Irene Fialho, Ana Luísa Amaral e Paulo Meneses, abordando Garrett e o romantismo; O Banqueiro Anarquista de Pessoa; o Fradique Mendes, de Eça; mundo e poética; e, em Arquivo, evocação de textos de José G. Herculano de Carvalho sobre criação poética. Mas, no primeiro nº desta revista (anual, já com o nº 3 em preparação) ainda não é tudo. Duas outras leituras, pelo menos, serão situáveis na órbita do tema em foco: umas arejadas “reflexões sobre a crise” de Pires Laranjeira, visão aprofundada da situação em que se encontram, sobretudo a nível universitário, as literaturas lusófonas e seu estudo; e um texto, por António Sousa Ribeiro, que retoma o “discurso da crise”, sobre Humanidades e Universidade no século XXI. Estes dois estudos colocam-se de algum modo no fulcro essencial da questão, pois avaliam, cada um pelos seus próprios meios, o futuro da nossa língua no mundo e o papel que pode desempenhar nesse futuro uma Universidade atenta à criteriosa renovação da herança humanística. São desafios incontornáveis. Para que a cultura das Humanidades seja reposta no seu lugar matricial e a Universidade não se extravie.


Vamos ter cânone literário

Finalmente, vai avançar e concretizar-se, ao que parece, a elaboração do “cânone literário português”. O projeto tem o apoio declarado de meios universitários ligados à docência do Português, ou seja, à formação dos professores do ensino secundário e básico daquela área. Objetivo: definir uma lista das obras referenciais de autores portugueses e estrangeiros para crianças e obras também para jovens e adultos, por escolha o mais possível consensual de especialistas e círculos cultos. O “cânone” será, pois, uma espécie de “antologia geral” não só dos autores nacionais, entendendo que o nosso país não é estanque, pois a cultura portuguesa é, tal como outras, alfobre fertilizado por trocas com culturas diversas. Destina-se a estabelecer um conjunto de textos literários para responder a necessidades do ensino de todos os níveis, do básico ao superior, e ficará sobretudo a valer como espelho da nossa cultura. Poderá resolver muita confusão e polémica, além de identificar as obras nacionais com mérito para, em tradução, merecerem divulgação além-fronteiras. Na área da literatura para crianças, a elaboração do “cânone literário português” evoca de certo modo, enquanto mero embrião, o lugar do PNL (Plano Nacional de Leitura). Trata-se de listar as obras que um grupo de apreciadores propõe para animar a campanha oficial da promoção da literacia sob a divisa Ler+. Caso o projeto do “cânone” se concretize, o PNL poderá perder o seu lugar. Encaro com expectativa esta evolução. É preciso proceder à recuperação de autores e obras portuguesas ou em português que os frenesins de uma indústria cultural e uma política educativa cegueta, em conjunção, condenam ao limbo. Apareça, pois, e implante-se no país um elemento de clivagem formado por valores marcantes e por noções firmes do que é arte literária para que esta se demarque do que não passe de medíocre comércio literário. A Literatura é, consabidamente, arte exigente e difícil. Quem com ela vive em prática longa e amorosa só pode desconfiar ou maravilhar-se com as mil e tal novas edições de livros mensais que se repetem neste pequeno retângulo em crise. Irrompem batalhões de novos autores, multiplicam-se as editoras, reduzem-se drasticamente as tiragens e o delírio segue em frente. Montes de livros espalham-se por supermercados, estações de correios, barracas de saldos, feiras em tropel. Rimas de romances envelhecem num instante, edições para leitores infantis ou juvenis enchem catálogos e armazéns de tantíssimas editoras que não querem perder o mercado. E quem lembra agora que a literatura para crianças é sem dúvida, porque tem de ser, a mais espinhosa e difícil? Mas acabou cheio de razão o editor que há dez anos repetia: “quem vende os livros são os autores”. Os autores, novos ou menos novos, sem outra saída, palmilham o terreno na promoção das suas obras. Obras essas, não por acaso, ilustradas com bonecadas giríssimas e historinhas cada vez mais alinhadas pelo levezinhoengraçadinho, isto é, concorrendo para o fácil, que é o que mais está a dar.


Leituras “infantis”

Um editor de literatura para crianças contactou-me para me anunciar, satisfeito, que três das suas outras edições recentes tinham sido aprovadas pelo PNL (Plano Nacional de Leitura). Pediu-me para comentar o caso. Porque um meu livrinho não entrava na escolha dos selecionadores. Em suma, queria conversa, mais uma conversa das nossas. Conversa tão boa quanto outras que fomos travando nos últimos tempos, pois o homem, como editor, é “novo”, embora trabalhe em livros há muitos anos. Dessa vez, porém, não pude aceder ao diálogo. O editor conhece e creio que aprecia as ideias e opiniões que defendo como autor de literatura dita “para crianças”. Como poderia explicar-lhe razoavelmente o critério que escolhia três histórias triviais, com ilustrações idem, que ele, editor, publicara movido pelo desejo de entrar no mercado depressa e bem? Na verdade, eu não entendia mais nem melhor do que ele por que decidia o PNL distinguir obrinhas “infantis” refugando outras orientadas com clareza, em texto e imagens, para a valorização do seu género literário. Mas ele percebia, e eu percebia, o que o episódio significava. Reafirmando a macrocefalia do país pequenino e o poder do lobby lisboeta, concentrava na cidade capital toda a autoridade de alcance nacional. Dali emanam as decisões afins de uma linha ideológica que no caso não sofre distorções ou desvios. É preciso dar força ao pensamento único e instaurar o estado novo. Há uns trinta anos que o sistema de ensino e a política educativa têm vindo a trabalhar nesse sentido e avançando passo a passo. Substituir as famosas aprendizagens pelas competências foi o primeiro passo, o facilitismo veio a seguir e agora tenta-se a abolição de exames... Quer dizer, não sobrecarreguemos as cabecinhas das criancinhas com matérias e programas pesados, quer-se tudo ligeiro e divertido para que a escola funcione. Saem tantas criancinhas sem saber aritmética, português, uma noção simples de matemática? Ora, será assim tão insuportável de facto a persistência de ileteracia e mesmo de analfabetos reais escolarizados?! Mas há quem conteste e discuta. A literatura para crianças, em geral, afina cada vez mais pela “facilidade” – ler para esquecer! Tudo fácil: histórias singelas, divertidas como a cócega... e as ilustrações, vulgares “bonecadas”, exibem a vontade de ir na onda e colher os proveitos. Nesta situação, pergunte-se a quem de direito (adultos responsáveis) se não estarão a ser mais crianças do que as crianças que deste modo infantilizam enquanto transformam a literatura em mero negócio. São capazes de perder tempo a treinar um cão e desperdiçam-no não educando as novas gerações. As crianças dotadas possuem capacidades que podem embotar-se e perder-se, um crime sem dúvida dos mais puníveis contra os direitos da criança e da humanidade.


Contos “infantis” de Oscar Wilde

Escrever, diz José Rodrigues Miguéis nos seus Aforismos, “é um solilóquio para ausentes”. Pois será, entendendo que os ausentes podem encontrar-se em sucessivas gerações para nelas se manter vivo o solilóquio. Por este motivo simples que Miguéis bem aponta: “Só vale, quanto a mim, a literatura que passou a prova do filtro purificador do Tempo.” E aqui temos um livro que Oscar Wilde publicou há mais de cem anos, em 1888. Nove “contos de fadas” que Wilde (Dublin, 1854 - Paris, 1900) dedicou aos seus filhos com o título de O Príncipe Feliz e outras histórias. Mas essa coletânea de contos tem corrido com diversos títulos (normalmente o primeiro do volume) e nem sempre reúne a quantidade certa de histórias. Pergunto: o que permanece hoje, para nós, de toda a produção literária do autor - poemas, peças de teatro, romances? O Retrato de Dorian Gray, estes contos “infantis”, e que mais?! Arrisco: mais nada, apesar do sucesso enorme, nos palcos e nas livrarias, por ele alcançado no seu tempo. O famoso dandy Wilde e até o escândalo que provocou (acusado de homossexual, condenado a prisão), aliados ao seu talento, ajudaram à retumbância do seu sucesso. Mas quantos leitores folheiam ainda aquele romance, O Retrato? Quero crer que poucos, serão mesmo residuais. Surge então um curioso contraste: os nove “contos de fadas”, pelo menos em Portugal e no Brasil, continuam presentes nos círculos da edição e da leitura, merecendo no país irmão, inclusive, adaptações teatrais. Sem dúvida, a fulgurância da sua escrita espelha-se em toda a sua obra principal e, no entanto, são estas histórias, escritas ao que parece sem grande ambição literária, que se mantêm “vivas” na atualidade. Ora isto levanta questões deveras interessantes, a primeira das quais é a de nos fazer sentir o cânone do que poderia ser “literatura para crianças” na segunda metade do século XIX. Questão básica: determina a acessibilidade lexical do texto e, desde logo, quem é “criança” para ler ou ouvir ler o texto. Sabemos que o conceito de infância tendia a prolongar-se então até ao amadurecimento da adolescência. E podemos agora, perante estes contos de Oscar Wilde, perceber e avaliar a tremenda erosão que têm vindo a sofrer o vocabulário de uso quotidiano, na oralidade e nas leituras correntes. De facto, a opulência do verbo wildeano nada cede ao “facilitismo” mediático que impera nos nossos dias, não recuando sequer em abordar temas melindrosos como a morte, o amor, o sofrimento. Mas são histórias maravilhosas, de intensa poesia e aliciante leitura. Julgo, porém, que podem lê-las não as crianças de hoje, sim os jovens e os adultos, porque estes aguentam histórias por vezes longas e contadas com termos algo raros. Isto é francamente lamentável, afirma-o quem admira e aplaude com entusiasmo as belas histórias, realmente para crianças, que se encontram presentes no interior das nove narrativas. Para quem lhes chegue pela primeira vez, a revelação acontece e é esplendorosa.


Krause, pensador com ideias

Um artigo com diversas alusões ao autor alemão Carl Christian Friedrich Krause (17811832) surpreende-me. O artigo, de Angel Serafín Porto Ucha, da Universidade de Santiago de Compostela, foca Bernardino Machado e a Institución Libre de Enseñanza no quadro das influências das ideias de Krause nas políticas do ensino na Galiza e em Portugal. Interessei-me desde logo pelas ideias de Krause dada a sua potencial atualidade e foi preciso ir à descoberta do homem, um desconhecido, para perceber os sentidos da sua obra. O horizonte das formulações daquele pensador é vasto, universal. Não se restringem às questões da pedagogia e do ensino em discussão desde o século XIX, ainda que, de facto, pelo que vejo, tenha sido essa a abordagem principal de galegos e portugueses (Giner de los Ríos, Rogério Fernandes e outros) avançada ao longo dos anos. Na Península Ibérica, as suas ideias e propostas espelharam uma forma moderada de liberalismo, tendo irradiado também para a Argentina, Brasil, etc.. Pensador idealista, Krause estudou Filosofia com Schelling, Hegel e Fichte, e pretendeu continuar Kant. Rejeitou a teoria do Estado absolutista para considerar a valia das associações livres que, na sua ideia, serviam uma finalidade universal - a família, a nação - pois a humanidade se compõe de seres que se influenciam reciprocamente. Nesta perspectiva, os períodos históricos surgiam como fases sucessivas de uma ascensão para Deus, que culminaria numa humanidade racional. Como filósofo da identidade, Krause tentou uma combinação do teísmo com o panteísmo (fórmula: pan-en-teísmo). Defendeu que o próprio mundo natural e a humanidade, sua mais elevada componente, constituem um todo orgânico capaz de se desenvolver e progredir pela formação de unidades sociais maiores. Para ele, a sociedade ideal resultaria pela ampliação do funcionamento do princípio do homem individual para abranger pequenos grupos de homens e depois, finalmente, a humanidade como um todo. À afirmação emblemática de Krause e do próprio “krausismo” - a união da humanidade - não seria estranha a maçonaria, à qual o pensador aderiu em 1805, após três anos a ensinar Filosofia. Todavia, os seus livros (1803, Fundamentos do Direito Natural; 1804, Esboço dos Sistemas da Filosofia; 1810, Sistemas de Doutrina Moral) não mereceram aplausos francos dos maçónicos. A sua rejeição do Estado (e da dialética hegeliana) ia contra a corrente predominante, podendo hoje aproximar-se de uma concepção anarquista. O Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho promoveu em Braga, em 1998, um colóquio “O krausismo na Península Ibérica”, cujas atas foram publicadas integrando texto de Acílio da Silva Estanqueiro, “Pensar Krause hoje, ou pensar radicalmente a humanidade”. São utilizáveis outras fontes de informação sobre Krause, autor novecentista ainda “vivo” agora que governos neoliberais decretam a extinção do “Estado social”.


Depois do vírus entranhado

Mantenho uma certa relutância em falar de mim, dos meus livros. Sempre achei mais interessante ouvir os outros do que abrir a própria boca para arejar o ego. Mas há exceções que me puxam para fora do hábito e então... O título destas linhas recorda o meu livro de contos saído em 1999 e apreciado num blogue em termos que comentei há dias na crónica “A obra também lê o leitor”. A seguir encontrei-me com amigos na Feira do Livro e a conversa recaiu sobre a mesma obra porque eles a tinham pescado num stand. Verdade consensual entre nós: fora de dúvida, a obra também lê o leitor (na medida em que na leitura se espelha a personalidade do leitor), ponto este que explica como a apreciação do autor do blogue, Jorge Candeias, se reviu mais na obra do que, em última análise, terá sido capaz de a perceber. O que o blogger quis achar no livro era, sem segredo, o que lhe interessava: literatura fantástica e ficção científica, caminho que pode comunicar com algum “mundo” cultivando a história pela história. Não percebeu, portanto, o realismo contido nas metáforas e alegorias das narrativas. Melhor leitura foi, afinal, a de uma jovem jornalista que na sua recensão, se bem me lembro, notou no livro um “pessimismo” de quem temia os nebulosos perigos do milenarismo... Realmente, em 1999, estávamos prestes a largar o escudo e a entrar no euro, a discutir se o novo milénio começava no ano dois mil se no ano seguinte, e com insónias porque os sistemas informáticos iriam estoirar com a mudança da numeração automática dos anos... Mas havia percepções menos superficiais que anunciavam mudanças mais perentórias. Os treze contos, escritos no fim dos anos ’80, avisavam precisamente de que o dito “vírus” estava “entranhado”. Debatemo-nos desde então em plena crise desatada. O vírus agiu como um exército de térmitas, invadiu e corroeu por dentro as estruturas financeiras, económicas e sociais em que vivemos e que por aí vão em queda livre, a desabar como castelos de cartas ao vento desabrido de janela aberta. Ora este meu blogue é disso mesmo que vem falando como quem põe cartas de chumbo em cima da mesa. Entre o livro de 1999 e este blogue existe portanto uma relação. A viragem que ali se exprimia com toques surreais e de alguma loucura já instalada evidenciou-se plenamente através do mundo. Hoje ninguém duvida, a “crise da dívida” dizima as classes médias – sentem-na e dói-lhes no corpo. Mas continuará a duvidar de quem lhe anuncie a próxima novidade já em esboço: a de um “governo planetário” da alta finança, nomeado e a funcionar oficialmente para governar a crise provocada pela alta finança... O bichinho trabalha no escuro e as populações têm mais com que se preocupar. Faltam os empregos e o dinheiro para consumir, até faltam pão e circo para distrair e aliviar o stress. Por isso as populações em confusão já imploram: oxalá apareça quem tome conta disto tudo! Como crianças grandes, ainda acreditam no Pai Natal.


Os donos da nação

Uma das questões que vem inquietando os portugueses ilustrados ao longo dos dois últimos séculos gira em torno desta questão decisiva: encontrar uma explicação para o atraso e mesmo a decadência do país. Parecem crescentes e sem remédio, como se não pudesse ser diverso o seu fatal destino. Mas aí temos agora um livro que expõe a questão de forma perfeitamente inteligível. O atraso de Portugal tem vindo a ser provocado por quem negoceia com o Estado e com o seu negócio enriquece mais e mais empobrece o povo. Desde a segunda metade do século XIX, quando os liberais lutavam por modernizar o país e enfrentavam as resistências do “Portugal velho”, ou seja, quando o negócio era o monopólio dos tabacos e os empréstimos à Coroa, até à atualidade, sempre houve beneficiários das prodigalidades régias ou do Estado. Mas outrora não exibiam o topete de reclamar “menos Estado”, como agora, porque os senhores acabaram por ficar donos da Nação. O livro Os Donos de Portugal (Edições Afrontamento), saído há poucas semanas, explica com linguagem acessível a formação e acumulação do capital privado, apontando os seus principais protagonistas. São designados como a “burguesia” nacional pelos vários autores da obra (Jorge Costa, Luís Fazenda, Cecília Honório, Francisco Louçã e Fernando Rosas), focalizando principalmente as relações políticas privilegiadas de que beneficiaram durante três períodos distintos do século XX: a primeira República, a ditadura e a democracia. Os autores, quase todos universitários, expõem os rostos da oligarquia financeira nacional - Espírito Santo, Sommer, Champalimaud, Mello, Ulrich, Amorim, Azevedo, etc. - para analisar o processo da sua formação ao longo do tempo. Vão ao ponto de incluir um mapa com as respetivas árvores genealógicas e de nele registarem os cruzamentos entre os seus rebentos, e tão demonstrativo é que lhes permite referi-los em conjunto como a “família das famílias”. Depois resumem cem anos sem nenhuma surpresa: “Em 2010, a burguesia é essencialmente a mesma que existia na ditadura, reforçada com alguns potentados emergentes e com poucos recém-chegados recrutados nas elites ministeriais e que demonstraram zelo inexcedível.” Sublinhando a promiscuidade entre política e negócios privados que proporciona a esta “burguesia” gordas benesses do Estado, os autores atribuem à defesa dos seus particulares interesses a responsabilidade desta crise. De facto, o país teve agricultura e pescas e mesmo alguma indústria (siderurgia, metalurgia pesada, reparação naval) enquanto tal conveio à “burguesia”, pois a produção industrial nacional, segundo os autores, foi sempre muito subsidiada. Quando o filão se extinguiu, e sem coragem para assumir riscos no mercado internacional, o capital financeiro estratégico preferiu refugiar-se nos investimentos da saúde e do turismo, ou na pura especulação. Assim ficou o país entregue ao défice estrutural atual, irremediável por muitos anos. Quer dizer, com o Estado no lombo e sem saber para onde o país se vire. A gastar mais do que pode produzir. Suspenso sobre o abismo que vê a seus pés.


O outono em Pequim

Há livros que tencionamos ler animados de sincero interesse, o tempo passa e... nada. Podem ser obras clássicas ou outras, temo-las à espera na estante sabendo que são já em demasia, mas algo nos desvia sempre. À última hora, vamos para outro lado. Leituras adiadas amontoam-se no fio dos anos de forma tão involuntária quão voluntária, criando em nós um resíduo de culpa sem desculpa. Como se ficássemos em falta perante o rol extenso de promessas íntimas ao dispersar-nos por leituras bastante avulsas, sem verdadeiro critério seletivo. Mas como é grande, e grata, a satisfação que nos invade ao agarrarmos finalmente o volume que, entre outros, esperou por nós! Eis o que senti tomando da estante, passados vinte anos, O Outono em Pequim (Publ. Dom Quixote, 1989), de Boris Vian. Ia ler, finalmente, este romance do autor de Irei Cuspir nos Vossos Túmulos ou de A Espuma dos Dias para refrescar o gosto pela verve tão francesa do admirável boémio (1920-1959) falecido com 39 anos mas com tempo para ter sido engenheiro e inventor, músico e cant-autor, cenarista e ator, poeta, romancista e tradutor, cronista... Consta que Boris Vian aprontou esta obra em três meses, em 1946. Confirmou as minhas melhores previsões. As mirabolâncias de uma imaginação prodigiosa estão ali a desafiar não só a atenção do leitor, também a capacidade da sua percepção. O absurdo salta da narrativa (que nada tem de outonal ou pequinense), mas isso é apenas um recurso entre outros do humor próprio do autor: vai do simples gracejo ao sarcasmo ou à sátira risonha. Mas nada impediu Boris Vian de estruturar a obra como um bom engenheiro. Designa com letras de A a D o “miolo” do romance e a seguir encontramos três “Andamentos” compostos por capítulos que abrem quase sempre com epígrafes cheias de intenção, e, no fim, uma espécie de epílogo deveras sentencioso e moral... Desde a primeira página o leitor se convence de que, ali, é o autor quem mais se diverte. Iconoclasta e franco-atirador, Boris Vian dispara em variadas direções. Ridiculariza laureados académicos parisienses que ninguém já lembra e joga com arqueólogos, administradores de companhia, burocratas, pederastas, padre, pedófilo, etc. O registo dominante é porém o do non sense, embora o padre confirme (p 109-110) que “a espiritualidade não costuma sair em jacto contínuo, sobretudo se, entretanto, se pode esticar o pernil”. Da tradução, trabalhosa, se incumbiu Luísa Neto Jorge, que não limpou o texto de umas poucas falhas. A mais saliente, ao que me parece, ocorre numa referência (p 147) “ao símbolo de S. Simão estilista”. Não será estilita, o da lendária coluna, lapso tão comum que já arrelia? Redobra o prazer da leitura deste livro lembrar que foi escrito no ano em que se iniciou a reconstrução de França no pós-guerra. Estabelece-se com o leitor um paralelo entre aquela e esta nossa atualidade, devastada por uma outra guerra sem tiros nem explosões, sim, mas com colossais estragos. Neste nosso mundo, hoje, só a brincar!


Ao encontro de Gandhi

A Índia milenar apresenta particularidades que poderosamente a distinguem. O aspeto espiritual é sem dúvida dos mais marcantes, entre outras singularidades de especial relevo. Daí a atração que exerce, desde logo sobre os europeus, que a procuram e ficam cativos da força dos seus sortilégios. Se bem me lembro (que a memória não me atraiçoe!), um deles foi Alberto Moravia, autor da narrativa da sua viagem àquele país publicada em Portugal salvo erro com o título de Uma Visão da Índia. A narrativa é admirável ao captar com mestria os encantos que o culto e atento forasteiro, chamado de longe, ali descobre. Atualmente, no meu círculo de conhecimentos pessoais, figura uma pessoa também apaixonada pelas especiais características do país do Indo, ao qual vem dedicando poemas e prosas diversas. Porém, Lanza del Vasto (1901, sul da Itália - 1981, Múrcia, Espanha) não procurou o país apenas para o conhecer de visita. Foi à Índia em Peregrinação às Fontes, ou seja, em busca de uma verdadeira iluminação interior, de uma sabedoria que lhe faltava na Europa convulsionada dos anos 1936-38. Neste período escreveu o livro com o mesmo título (editado em França em 1943, em plena Segunda Grande Guerra), onde o leitor acompanha o seu peregrinar e com ele vai até Gandhi e com o mestre da não-violência convive três meses. Entre nós, a luminosa e sublime grandeza do pensamento de Gandhi parece amesquinhar-se quando o mestre é referido com o rótulo sumário em voga. O sound bite e as desmemórias coletivas impõem-no. Mas isso corresponde a reduzir aquele homem aliás franzino envolto num simples pano branco enrolado nas pernas, que lutou sem armas contra um império e o venceu, às dimensões de retrato tipo passe. Lanza del Vasto afirmou-se como discípulo eminente de Gandhi e continuador da filosofsa gandhiana, sobretudo da não-violência. Estudou em Paris e Pisa, fundou a comunidade L'Arche em 1948, lutou contra a opção nuclear militar ou pacífica, apoiou os objetores de consciência ao serviço militar obrigatório e os movimentos ecológicos. Proferiu conferências em muitas cidades portuguesas em 1978 e 1979, tendo então saído no nosso país uma antologia de textos de sua autoria: Não-Violência e Civilização, edição Brotéria, Lisboa, 1978. Até 2005 somente um outro livro de Lanza del Vasto saiu entre nós: Elogio da Vida Simples - Princípios e preceitos de retorno à Evidência, edição Planeta Vivo, Leça da Palmeira. E agora, por fim, temos a Peregrinação às Fontes, obra fundamental que chega ao leitor português com 67 anos de atraso. Tem chancela de Edições Sempre-emPé, Porto, 2010, mais de 300 pp traduzidas por Helena Santos C. Langrouva. Uma nota salta aqui aos olhos e merece destaque. A causa da não-violência e tudo o mais que a ela se liga como pensamento que se pensa deixa as grandes casas editoras nacionais em manifesto desinteresse. Tomam então a palavra as editoras marginais, talvez porque a cultura, a espiritualidade, a filosofia ou a religião sejam, cada vez mais, ocupações que pouco ocupam as mentes...


Desv達o


A revolução gandhiana

A obra grandiosa de Mahatma Gandhi não tem hoje o prestígio que teve na segunda metade do séc. XX. Terá obsolescido o seu pensamento? Respigo de Peregrinação às Fontes, de Lanza del Vasto, discípulo do mestre indiano, umas linhas para arquivo: *

“A intenção de Gandhi não é voltar atrás. [...] A sua revolução, pelo contrário, olha para o futuro com severas esperanças. É o primeiro sábio do Oriente a prescrever o trabalho como um dever para todos e como uma via de salvação. Lançou as bases de uma nova constituição civil, de um novo desenvolvimento económico, assim como de uma nova cultura. * A máquina encadeia, a mão liberta. * O artífice que dá forma a um objeto, que o sabe polir, que o decora, o vende, o apropria aos desejos de quem se destina, realiza um trabalho humano. O camponês que dá vida aos campos e faz prosperar o gado, através de uma vida harmonizada com as estações, realiza uma tarefa de homem livre. Enquanto que o operário, acorrentado ao trabalho em cadeia, que a cada segundo repete o mesmo gesto à velocidade ditada pela máquina, esboroa-se num trabalho sem finalidade para ele, sem fim, sem gosto nem sentido. O tempo que gasta com ele é perdido, vendido: vende não a obra, mas o tempo da sua vida. Vende o que o homem livre não vende: a sua vida. É um escravo. * Não se trata de atenuar a sorte do proletário, a fim de o obrigar a aceitá-la. Trata-se de suprimir o proletariado como se suprimiu a escravatura, visto que, de facto, o proletariado é a escravatura. * A uma civilização cuja caraterística é a luta do proletariado e da burguesia, Gandhi quer opor uma cultura cujo fundamento seja o acordo entre o campesinato e o artesanato. * Se é verdade que poupam tempo, como é possível que nos países onde as máquinas reinam só haja pessoas apressadas e que nunca têm tempo? * Quando fizerem do Estado uma máquina, como podereis impedir que um louco qualquer se apodere do volante e arraste a máquina para o precipício? Quando fizerem do Estado uma máquina, é preciso que vocês próprios lhes sirvam de carvão. * Se as pessoas de hoje estão convencidas do caráter deplorável de um sistema que as levou de crise em bancarrota, de falência em revolta, de revolução em conflagração; que destrói a paz e a torna agitada e inquieta; que faz da guerra um cataclismo universal, quase tão desastroso para os vencedores como para os vencidos; que tira o sentido à vida e o valor ao esforço; que consome a desfiguração do mundo e o embrutecimento do povo; se as pessoas de hoje acusam seja quem for dos grandes males que as oprimem, atribuindo a causa seja ao que for menos ao desenvolvimento da máquina, é porque não há surdo mais mouco que o que não quer ouvir nada. * É preciso que a admiração pueril pelos brilhantes brinquedos com que se divertem, que a exaltação fanática pelo ídolo que forjaram e a que estão dispostos a sacrificar os próprios filhos, lhes tenha dado volta à cabeça e fechado os olhos à evidência, para que continuem a esperar do progresso indefinido da máquina a vinda de uma idade de ouro.”


Sempre em Galiza

Os portugueses denotam alguma relutância, ou indiferença, perante as hipóteses de relacionamento solidário, a sério, com os vizinhos da Galiza. É uma sensação que vem à tona, a um certo nível das relações intelectuais, ao descermos do Alto Minho para sul, especialmente a partir de Coimbra. Ao transpor as águas do Tejo, dilui-se nas brisas. Talvez haja uma explicação para isso, advinda de circunstâncias acumuladas pela história. Observando um documento cartográfico de 1066, que indica a verde a velha Gallecia do período romano, pode-se ter uma primeira visão do assunto. Abrangia uma franja peninsular desde a Corunha, no topo norte, e terminava além de Leiria, embora outras fontes, porventura mais consistentes, se detenham na linha do Mondego. Os amigos galegos gostam de nos lembrar que a Gallecia foi por muitos séculos o nosso território comum com capital na augusta Bracara. Eu, quem sabe se por força das minhas origens, sinto que é fácil e bom gostar do povo galego, posto que tenha levado o pé ligeiro a Tui já com 18 anos e andasse nos 40 quando entrei a valer em contacto com a sua cultura (lembro-o aqui). Manifesto-lhes, a esse povo e sua cultura, uma solidariedade desvaliosa mas sincera, apoiando, se apoio me pedem, e lamentando atitudes de quem lhes responde com escusas e polidas reticências. Comecei a notar esta resistência há uns bons quarenta anos, quando a Galiza lutava por autonomizar (leia-se: proteger) a sua fala materna da contaminação pelo Castelhano. Uma porção de intelectuais portugueses ou desconhecia o berço de origem do Português ou virava as costas ao assunto. A nossa indiferença declarou-se ao nível oficial e diplomático aquando da organização da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, composta por oito Estados (Timor-Leste incluído)... e sem a Galiza. Gostaria de pensar, sem saber o que pensar, que continuamos virados para sul, em luta pela Reconquista, em assédio a Lisboa e projetados até Faro. Demoro-me, porém, a contemplar o povo irmão que temos a norte do rio Minho, hoje com uma pitada de nostalgia porque encontro num blogue de lisboetas motivo para evocação e saudade. Benedicto Garcia considera ali que José Afonso e ele cantavam a mesma canção (de protesto) e que a Galiza, para Zeca, foi “pátria espiritual”. Não se lembrou aquele amigo galego que veio cantar ao Porto, no início dos anos ’70, por convite meu. Tinha então creio que um único disco com quatro cantigas, editado em Barcelona em 1968, e pertencia ao grupo Voces Ceibes (Vozes Livres). Foi o comum amigo Manuel Maria que nos pôs em contacto (estava eu a publicar-lhe, em Razão Actual, a primeira obra de poesia junto com outra, de outro poeta galego, Celso Emílio Ferreiro) e os caminhos ficaram abertos para novos encontros. Tantas lembranças a vir (e serão só minhas?!): Benedicto deu cá entrevistas na rádio, as suas cantigas entraram no ar, atuou ao vivo, estabeleceu contactos entre nós. Um deles foi com Manuel Freire, então com a “Pedra filosofal” em evidência. Logo, em 1972, visitou Zeca em Setúbal e começou essa amizade luso-galega documentada com nome de rua em Santiago de Compostela, onde nascera em 1947 o próprio Benedicto.


Sem diplomas

O tempo concreto, do calendário existencial, que cada ser humano tem para viver, é fator dos mais notórios e decisivos. Aparece entre as principais pertenças no sistema em que cada indivíduo se integra. Pertença tão comezinha parece soar, porém, como novidade estreme a certos ouvidos e por isso torno à ideia. Pertencemos, para todos os efeitos, ao tempo biológico que nos cabe em sorte. O “meu tempo” é este, iniciado em 1930, não outro qualquer à escolha (como o lugar de nascimento, o nome, os pais e restante família, a língua materna, a religião). É sem dúvida - querem ver? - o fator mais marcante do meu percurso existencial. Comecei a escrevinhar em jornais no alvor da primeira juventude mas ingressei na profissão do jornalismo somente quando ia nos 33 anos. Escolha feita sem segredo: a literatura, meu primeiro amor, sorria-me de cara linda sem me prometer juntar os trapinhos e passar a viver comigo de casa e pucarinho. Logo, eu precisava de estabilidade, uma profissão, e aquela ia manter-me ligado à escrita, a escrita jornalística. Mas não alongo o preâmbulo. O que pretendo é explicar que, no início dos anos ’60, nem a literatura nem a imprensa, no Portugal amordaçado pela ditadura, eram ofícios cujos praticantes devessem possuir habilitações específicas. Os escritores e os jornalistas mostravam, “tarimbando”, o que valiam - uns e outros escrevendo por norma em jornais e revistas até se fazerem reconhecidos - durante os períodos de inicial afirmação. A “tarimba” da experiência viva era, pois, a “escola”, para a qual entravam como soldados rasos. Havia, é claro, licenciaturas em Letras, mas todos sabemos que formavam professores, não escritores. Estes eram amiúde médicos, advogados, engenheiros, jornalistas... Os primeiros cursos de Jornalismo apenas surgiram em Lisboa e no Porto, após demoradas reivindicações e lutas, já com o regime democrático. Entretanto, foi-se tornando claro que nas redações dos jornais de informação geral tinham cabimento licenciados com variadas formações, o que abriu a entrada a professores, advogados, engenheiros, operadores sociais, economistas... Então, os poucos licenciados que começaram a chegar às redações nos anos ’60, multiplicaram-se. Serve isto para apontar duas coisinhas: 1 - Nunca precisei de estudos superiores, nem jamais alguém mos pediu, para trabalhar como sempre trabalhei (estudando) e sempre estudei (trabalhando). Realmente, estar na literatura, tal como estar no jornalismo, requeriam tão só, no “meu tempo”, saber de experiência feito. 2 - Avalie-se agora o embaraço em que me vejo quando grupos de jovens me perguntam que cursos fiz, que formação escolar recebi. Empurro-os a todos para seguir na Escola declarando-a indispensável, sem conseguir justificar, a seus olhos, o meu autodidatismo. Assumo-o com toda a honra, é verdade, mas, sem diplomas e nesta idade, devo parecer-lhes completamente despido...


Pois, sem diplomas!

Cuidar da imagem não é só ter carrinho de boa marca para que saibam quem somos. É bastante mais do que isso, toda a gente que se preze o sabe. Mas que fazer, se há sempre alguém que anda por este mundo como se andasse extraviado? Contra mim falo assim falando. Fui capaz de publicar as linhas antecedentes parece que inesperadas ou estranhas e mesmo algo escandalosas. Falo da página que escrevi à sombra no Verão do ano passado e que desde então é visitada regularmente por leitores do meu blogue não sei se curiosos ou incrédulos. O caso ficou todo na crónica “Sem diplomas”. Mas devo explicar que os bloguistas têm, se quiserem, informação sumária de alguns índices estatísticos deixados pelos seus visitantes. Nada de especial, é claro. Todavia, esse recurso indica-me que aquela página continua a ser frequentada. O pormenor é-me grato e, no entanto, pergunto-me o que haverá ali de especial (inquietante?). Fui lá agora reler o escrito e... Ouvi então, sussurrada por cima do ombro, uma advertência singular: “Foste descarado, ficaste na rua sem cara”. Engoli em seco e quedei-me na dúvida. Ensarilhados como andamos nas subversões correntes (pela regra: centra a tua vida no triunfo pessoal), teremos já coragem para achar escandaloso, portanto descarado, quem afirma um simples elemento factual do seu percurso biográfico? A emoção parece vir da frase: “estar na literatura, tal como estar no jornalismo, requeriam tão só, no ‘meu tempo’, saber de experiência feito.” Hoje, consabidamente, não é assim. Mas, conforme digo, já foi: os autores literários e os jornalistas afirmavam, praticando, as suas capacidades pessoais, pois então não tínhamos cursos que a tal habilitassem. Fiquei, pois, sem diplomas por muitos anos, embora tenha e possa mostrar um monte de papéis luxuriosos, colheita tardia. Por todos os motivos, aquele tempo é inesquecível para quem o viveu. Os cursos de Letras existentes não serviam para formar escritores, formavam professores. Os autores literários portugueses da época podiam ter cursado Letras - casos de José Régio, Sebastião da Gama, Vergílio Ferreira - mas isso devia-se à simples coincidência de a formação profissional adquirida coincidir com a vocação. Numerosos escritores dos maiores do século XX tornaram-se admiráveis sem qualquer curso específico. Eram engenheiros, como Jorge de Sena, ou médicos, como Fernando Namora, Bernardo Santareno, Miguel Torga, ou, noutros casos, nem tinham chegado à Universidade. A preparação atinente à sua vocação obtinham-na por via autodidática, lendo e escrevendo, mostrando o que valiam e fazendo-se estimar por isso. As licenciaturas (sobretudo as tecnológicas!) tornaram-se tão vulgares que pode resultar chocante que um autor literário travestido de jornalista veterano (ou a inversa?) se declare sem uma pelo menos para disfarçar. Mas, cá por coisas, ando a preferir ler ou reler os autores de há mais de trinta anos e a sentir quanto ganho com isso. Convém lembrar, ninguém perguntou a José Saramago nobelizado que escolarização tinha, perguntaram-lhe, sim, como iria ele usar o dinheiro recebido do prémio...


Recordar e comemorar

É dia de recordar e comemorar. Mas, quando a memória dos momentos felizes nos põe a recordar, estamos também a comemorá-los. Comemorar, assim, é o ato de puxar pela memória, um recordar. O 25 de Abril aconteceu há 36 anos. Coincidiu com o dia do meu aniversário natalício. O movimento dos “capitães de Abril” foi para mim o derrube da negregada ditadura salazarista-marcelista e, simultaneamente, a melhor prenda e festa de anos que poderia ambicionar. Passei então, em 1974, a ter o aniversário garantido no feriado nacional. Mas já ia nos meus 44 anos, vividos no regime antidemocrático repressivo: era tempo, caramba! Experimentara o jornalismo sob a vigilância da censura prévia, sentira diversas vezes a mordaça que proibia a publicação de certas afirmações nada revolucionárias que mencionassem, por exemplo, liberdade ou democracia, em jornais ou em livros (apreendidos), e provara mesmo a “hospitalidade” da polícia política, que quis acolher-me durante três meses. Não tardou, tive de desistir daquele jornalismo - o possível. E foi graças à democratização que tornei à profissão finalmente dignificada. Pedem-me muitas vezes para recordar aquele dia glorioso da libertação. Evoco-o sempre com gosto. Mas essa evocação tem ocorrido sempre, ao que julgo, em palestras e conversas, não posto por escrito. Resolvo hoje, quando completo 80 anos, recordar como vivi a inesquecível manhã de 25 de Abril. Trabalhava então em casa, traduzindo e colaborando na Imprensa, de modo que foi o telefone, a retinir às sete matutinas, que me acordou. Um amigo, a saltar de contente, irrompia com a notícia: revolta no Exército, tropa na rua! Inacreditável? Ligasse o rádio, ouvisse Rádio Clube Português! E parabéns, um abraço, festeja bem o teu aniversário! Outros amigos telefonavam, eram boatos? Confirmavam, trocavam comentários e opiniões. E, com expectativas, esperanças risonhas e parabéns pelos anos, as corridas alvoroçadas para o telefone (pois também eu espalhava a notícia) ocupei toda a manhã. De rádio ligado, mudando de sintonia, à tarde consegui trabalhar um pouco. Mas tive logo de sair, ver a Baixa, sentir o ambiente. E vi apenas meia centena de jovens, na primeira manifestação das nossas vidas, a descer a Avenida com cartazes e uns gritos revolucionários – temerários: a polícia ia surgir e levá-los presos? Horas depois, os jornais faziam segundas edições – relíquias a guardar. Algumas ainda traziam a legenda “Visado pela Comissão de Censura”. Na manhã seguinte, a negregada legenda desapareceu quase por completo, ainda estava a decidir-se a sorte do golpe militar, agentes da PIDE resistiam na sede, disparavam contra o povo. Mas Marcelo Caetano partiu para o Brasil e a situação foi-se clarificando. A vitória do MFA, graças à coragem do capitão Salgueiro Maia, de Otelo e outros, estava consolidada e a seguir, no 1º de Maio, o povo festejou tanto que entrou em revolução.


Índice Abertura

Media: A Informação do Poder 5 Jornal do dia 6 O novo ópio do povo 7 Cantinho livre só escondido 8 Hipnotização pela tv 9 Manipulação em nome da Paz 10 Quem diz “Adeus” 11 A caça aos “conteúdos” 12 Esta Informação do Poder 13 WikiLeaks expõe segredos 14 Será isto Cultura? 15 Notícias abundam, informação falta 16 Vidas públicas… privadas? 17 Por exemplo, Murdoch 18 Cronista de mão tremente

A Deriva 20 Homens que faltam à vida social 21 Rãs a cozer na panela 22 Da República à Democracia por vir 25 Não há dúvida 26 O fim da democracia 27 Outra reflexão em tempo de crise 28 Quem quer destruir o Estado 29 Um pouco de história da economia 30 Debruçado à janela 31 O capitalismo globalizado 32 Eis a Nova Ordem Mundial 33 Uma outra Idade Média 34 Lendo o mundo me confundo 35 O petróleo envenenado 36 Vem aí a III Guerra Mundial 37 Somos americanos ou não somos? 38 Quanto vale a educação 39 Cidades modelo XXI 40 O polvo come-tudo 41 Estamos entregues 42 O caminho da subversão

Textos afluentes 44 A ideologia do futebol

45 Uma taça de loucura 46 Vamos jogar matraquilhos? 47 Nexus et flexus 48 Em defesa da biodiversidade 49 A origem das espécies 50 Deus não tem mais céu 51 Cristãos em guerra santa 52 Judeus ricos vs cristãos pobres? 53 Convite para folgar 54 O povo eleito por Deus 55 IURD: em nome do Senhor 56 O lugar dos idosos 57 Três erres (sem erro)

Leituras 59 Tantos livros! Asfixiantes? 60 A obra também lê o leitor 61 Copyright: castanhas no lume 62 Vão os livros acabar? 63 Autores literários sofrem 64 Quando os livros são de cheirar… 65 Em volta dos livros 66 Com Eça, livre-pensador 67 Direito de autor é salário 68 A Literatura que temos 69 Século XX em balanço 70 Vamos ter cânone literário 71 Leituras “infantis” 72 Contos “infantis” de Oscar Wilde 73 Krause, pensador com ideias 74 Depois do vírus entranhado 75 Os donos da nação 76 O outono em Pequim 77 Ao encontro de Gandhi

Desvão 79 A revolução gandhiana 80 Sempre em Galiza 81 Sem diplomas 82 Pois, sem diplomas! 83 Recordar e comemorar

E Foi Assim-vol. II  

Crónicas do meu blogue: o juízo do tempo ~ no tempo do juízo

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