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O dia de anos da Infanta conto de Oscar Wilde

recontado em breve por ArsĂŠnio Mota

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ESTE RECONTAR JUSTIFICA-SE?

Alterar o texto de uma das histórias do prestigioso artista da palavra que foi Oscar Wilde (1854-1900), escritas em intenção primeira dos seus filhos, é gesto de grande ousadia. Reduzirlhe o tamanho para metade, além de audacioso, até pode parecer mutilação. Mas veja-se o resultado. O dia de anos da Infanta agiliza a narrativa, ganha ritmo. Antes, a história divertia-se a saborear os costumes palacianos da aristocracia espanhola vistos do outro lado do canal da Mancha e nutriase com variadas anotações (dispensáveis ou, pelo menos, aqui dispensadas). Recontada, a história perdeu o que nela estava, de acordo com os modelos da leitura de hoje, a mais. Com este gesto de grande ousadia, mas de intenção puramente reverencial, ficam postos em destaque aspetos interessantes que vale a pena referir: O período da infância, no fim do século XIX, prolongava-se sem pressa até idades mais avançadas; criança, no conceito então vigente, era o ser em criação (crescimento); A riqueza vocabular contido no texto de Oscar Wilde tornouse, entretanto, por infelicidade, excessiva; excede a compreensão normal do pequeno leitor do nosso tempo e oxalá não obrigue mesmo o adulto a recorrer ao dicionário; A extensão da história original condiciona - põe em risco - o franco agrado dos novos leitores (de facto, as histórias “infantis” de Wilde continuam a circular, mas que idades reais terão os seus leitores?); Por fim, um motivo de reflexão: admire-se com aplauso a arte com que Wilde combina os elementos poéticos do seu conto com outros de cariz formativo, o que deixa em confronto o leitor-tipo daquele tempo com o do nosso tempo e, em última análise, o “facilitismo” que impera nas narrativas correntes. A. M. Porto, Portugal 01 janeiro 2012


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Oscar Wilde

O dia de anos da Infanta


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Título: Os anos da Infanta Autor: Oscar Wilde Adaptou: Arsénio Mota Endereço: http://arseniomota.blogspot.com Edição: em formato digital (e-book) Data: janeiro, 2012. Ilustrações: pinturas de Francisco de Goya (pp 5 e 6) Imagens diversas copiadas da Internet


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A Mrs. Willam H. Grenfell, de Taflow Court (Lady Desbourough)

Era o dia de anos da Infanta. Tinha só doze e o sol brilhava nos jardins do palácio. Apesar de ser uma princesa de verdade e de ser a Infanta de Espanha, só tinha um dia de anos por ano como qualquer filha de gente pobre. Mas para ela, e também para o país inteiro, tinha uma grande importância que o dia fosse realmente bonito. E estava lindíssimo! As túlipas listradas, em sentido nos seus caules, pareciam soldados perfilados. As borboletas purpúreas volteavam com uma poeira dourada nas asas, a visitar as rosas e todas as flores. As lagartixas saltavam das frestas dos muros para se estenderem ao sol. As romãs abriam-se ao calor e mostravam dentro os seus vermelhos corações amadurecidos. Até os amarelados limões que, em grande quantidade, pendiam das ramarias, ao longo das arcadas, pareciam ter recebido uma cor mais rica e dourada daquele maravilhoso sol. E as magnólias abriam grandes botões cor de marfim, enchendo os ares de um doce perfume. A Princesa andava no terraço, de um lado para o outro, com os seus amigos, brincando às escondidas em volta dos vasos de pedra e das velhas estátuas cobertas de musgo. Nos dias normais só a autorizavam a brincar com crianças da sua mesma condição e por isso brincava sempre sozinha. Mas no dia dos seus anos era diferente: o Rei dera ordens para convidar todos os amigos que quisessem vir brincar com ela. Tinham uma graça delicada aquelas elegantes crianças da nobreza de Espanha. Deslizavam por ali, os rapazes com chapéus emplumados e curtas capas esvoaçantes, as meninas segurando as caudas dos seus longos vestidos de brocado e protegendo os olhos do sol com enormes leques negros de prata. A Princesa era a mais graciosa de todas e a que vestia com mais elegância. O seu vestido era de cetim cinzento, com a saia e as mangas muito largas, bordadas a prata, e o corpete cingido ornado com fileiras de finíssimas pérolas. Quando andava, viam-se a espreitar por baixo do vestido dois pequeninos sapatos com grandes rosetas cor-de-rosa. Rosa e pérola eram as cores do seu grande leque de gaze e, no cabelo que lhe cercava o pálido rosto como uma auréola de ouro velho, trazia uma linda rosa branca. O Rei, melancólico, olhava para eles de uma janela do palácio. A Infanta fazia a cortesia aos nobres presentes com infantil gravidade ou ria-se por trás do leque da austera duquesa de Albuquerque, que a acompanhava sempre. E o Rei sentia-se mais triste que nunca, pois, quando observava a Infanta, ela lhe lembrava sua mãe, a Rainha


6 nova que viera da alegre corte de França para casar consigo e morrera seis meses depois do nascimento daquela filha, deixando-o amargurado. Toda a sua vida de casado lhe vinha à memória ao olhar para a Infanta que brincava no jardim. Lembrava-lhe sua mãe quando a conheceu no castelo de Fontainebleau e desde logo a amara, tinha ele quinze anos e ela doze. A menina herdara a bela petulância de gestos cerimoniosos, a mesma maneira gentil de inclinar a cabeça, os mesmos lindos lábios desenhados, o seu encantador sorriso ao olhar às vezes para a janela, ou quando estendia a mão a um orgulhoso cavalheiro espanhol para que lha beijasse. Mas os risos das crianças feriam-lhe os ouvidos, o brilho forte do sol troçava da sua tristeza. O Rei escondeu o rosto nas mãos e, quando a Infanta tornou a olhar para cima, as cortinas tinham sido corridas e o Rei afastara-se. Retirou-se, porém, com um pequeno trejeito de contrariedade, encolhendo os ombros. Devia procurar estar com ela no seu dia de anos. Que valor tinham os negócios do Reino? Era parvoíce, num dia de sol tão esplêndido, quando todos estavam felizes. E já soavam as trombetas para a garraiada; em seguida haveria o teatro de marionetas e outras coisas admiráveis. O Tio e outros nobres faziam no terraço belos cumprimentos à Infanta. Então, ela inclinou a linda cabeça, depois pegou na mão de D. Pedro, desceu lentamente os degraus que davam para um grande pavilhão de seda púrpura armado ao fundo do jardim, com as outras crianças a segui-la numa rigorosa ordem de precedências, indo à frente as que usavam nomes mais compridos. Surgiu uma fila de nobres rapazes, fantasticamente vestidos como os toureiros, que iam fazer a brincar a garraiada. O jovem conde da Terra Nova, elegantíssimo rapaz de uns catorze anos, descobriu a cabeça com o garbo de um fidalgo e grande de Espanha, e levou-a solenemente para uma cadeira de ouro e marfim colocada num estrado que dominava a arena. As crianças sentaram-se em volta, abanando os grandes leques e conversando baixinho. Seguiu-se um pequeno ato em que um equilibrista francês exibiu proezas na corda, logo chegaram as marionetas italianas ao palco de um teatrinho arranjado para elas e representaram tão bem uma história que os olhos da Infanta se encheram de lágrimas. A festa continuou com um mágico africano que trouxe uma grande cesta tapada com um pano vermelho e, dentro, duas serpentes verdes e douradas que foram saindo quando ele tirou do turbante uma estranha flauta de junco e começou a soprar. As crianças assustaram-se, mas entusiasmaram-se quando o mágico fez nascer da areia uma pequena laranjeira com lindas flores brancas e cachos de frutas verdadeiras. Pegou no leque da filha da marquesa de Las Torres e transformou-o num pássaro azul que voou pelo pavilhão a cantar. Foi imenso o seu prazer e o seu espanto. Também encantou o minuete solene executado pelos alunos de dança da igreja da Senhora do Pilar. A Infanta nunca antes tinha vista tal maravilha: os rapazes, dançando, vestiam velhos trajes cortesãos de veludo branco e tinham uns estranhos chapéus de três bicos bordados a prata e enfeitados com grandes plumas de avestruz. Quando acabaram a dança, tiraram os grandes chapéus diante da Infanta, que recebeu o cumprimento com muita cortesia. Avançou então para o meio da arena um bando de belos egípcios – o nome que davam naquele tempo aos ciganos. Sentaram-se em roda, de pernas cruzadas, e começaram a tocar levemente nas suas cítaras, marcando o ritmo com meneios do corpo


7 e entoando uma canção dolente. A linda Infanta, inclinada, fitava-os por cima do leque com os seus grandes olhos azuis e eles, encantados, continuaram a tocar até que soltaram um grito agudo, ergueram-se e rodopiaram loucamente a bater nas pandeiretas e a cantar uma canção de amor na sua língua, até que tornaram a sentar-se e a fazer soar o triste murmúrio das cítaras. Depois desapareceram e voltaram trazendo um grande urso peludo sujeito a uma corrente e transportando nos ombros uns pequenos macacos da Berbéria. Muito sisudo, o urso equilibrou-se na cabeça e os macaquinhos fizeram toda a espécie de travessuras, de modo que os ciganos tiveram na verdade um grande sucesso. Mas a parte mais divertida de todos os divertimentos daquela manhã foi a dança do Anão. Entrou, tropeçando, na arena, a gingar nas pernas tortas e a virar para todos os lados a cabeçorra disforme. As crianças deram um enorme grito de alegria e até a Infanta riu tanto que a duquesa se viu na obrigação de lhe lembrar que uma filha de Rei, uma Princesa, não devia mostrar-se tão alegre em frente de pessoas que lhe eram inferiores. No entanto, o Anão era horrível, nunca na corte espanhola se vira um monstro tão fantástico. Na véspera, tinha sido visto a correr livre pela floresta por dois nobres que andavam a caçar no grande bosque de sobreiros que envolvia a cidade, e eles levaram-no para o palácio para fazerem uma surpresa à Infanta. O mais divertido era o Anão ter uma completa inconsciência do seu próprio grotesco. Quando as crianças riam, também ele se ria, tão à vontade e alegre quanto elas. No fim de cada dança dobrava-se em cortesias engraçadas, sorrindo e curvando a cabeça como se fosse realmente igual aos outros e não um pequeno ser disforme que existia para a troça de toda a gente. Ficou completamente fascinado pela Infanta. Não tirava os olhos da sua figura e parecia dançar só para ela. Então, quando terminou as danças, a Infanta tirou dos cabelos a linda rosa branca e, num gesto caprichoso, por prazer mas também para irritar a duquesa, atirou-a para a arena com o mais belo dos seus sorrisos. E o Anão levou aquilo a sério. Apertou a flor nos grossos beiços, pôs uma mão sobre o coração e dobrou o joelho diante da Infanta, mostrando os dentes de orelha a orelha, com os olhinhos brilhantes a luzir de alegria. Isto divertiu-a tanto que ela continuou a rir muito tempo depois de o Anão sair da arena, até que pediu ao Tio que a dança fosse repetida de imediato. A duquesa opôs-se, disse que estava quente e que o melhor era Sua Alteza voltar para o palácio, onde ia ser servido um maravilhoso banquete com um bolo de aniversário. Tinha as suas iniciais com letras de cores e uma linda bandeirinha de prata espetada no meio. A Infanta concordou, mas ordenou que o Anão voltasse a dançar para ela depois da festa e retirou-se agradecendo a encantadora sessão ao conde da Terra Nova. Quando o Anão soube que iria dançar novamente para a Infanta, e por sua ordem, ficou tão orgulhoso que correu ao jardim para beijar a rosa branca num louco desvario de prazer. As Flores ficaram indignadas com tanta ousadia. Vendo-o às cambalhotas pelos caminhos e a acenar com os braços por cima da cabeçorra com gestos ridículos, não esconderam mais o que sentiam.


8 - É mesmo tão feio, tão feio, que não devíamos deixar que brincasse em qualquer lugar onde estivéssemos! – gritaram as Túlipas. - Devia beber sumo de papoila para ficar a dormir mil anos – sentenciaram os grandes Lírios escarlates, furiosos, e ainda mais avermelhados. - É um perfeito monstro – exclamou o Cato. – Vejam como é torto e atarracado. E tem uma cabeça desproporcionada em relação às pernas. Fico todo eriçado só de o ver. Se ele se chegar a mim, pico-o com os meus espinhos. - E está com uma das minhas belas flores! – observou a Roseira Branca. – Dei-a à Infanta esta manhã como presente de anos e ele roubou-lha. Gritou: - Ladrão, ladrão, ladrão! Até os Gerânios vermelhos, que em geral se fazem pouco importantes e têm muitos parentes pobres, se encaracolaram de desgosto. As Violetas, humildes, concordaram: ele era na verdade muito feio, mas acharam que nada poderia fazer quanto a isso, mas os Gerânios vermelhos responderam, com uma certa justiça, que era esse mesmo o seu principal defeito, porque não havia razão absolutamente nenhuma para se admirar uma pessoa apenas pelo facto de ela ser incurável. Então, até algumas das próprias Violetas sentiram que a fealdade no Anão era quase escandalosa, de maneira que o melhor seria ele estar triste ou, pelo menos, pensativo, em vez de andar aos saltos, em atitudes parvas e grotescas. O Relógio de Sol, entidade especialmente notável, pois dera as horas nada menos do que ao imperador Carlos V, ficou tão abatido que quase se esqueceu de marcar dois minutos inteiros com o seu longo dedo de sombra, e não pôde deixar de dizer ao grande Pavão, branco de leite, que se aquecia ao sol na balaustrada, que todos sabem que os filhos dos reis são reis e os filhos dos carvoeiros, carvoeiros. - Certo, certo! – gritou o Pavão com um som tão áspero que os peixes dourados do tanque puseram as cabeças fora de água para perguntar aos grandes Tritões de pedra o que estava a acontecer. Mas os pássaros gostaram dele. Viam-no muitas vezes na floresta a dançar como um gnomo no redemoinho das folhas ou agachado nos buracos dos carvalhos velhos a repartir nozes com os esquilos. Ora, se até o rouxinol que canta de noite tão suavemente nos laranjais que a Lua se debruça às vezes para ouvir, não era assim uma coisa tão bonita de se ver! Além disso, o Anão era simpático com eles: durante o inverno tormentoso, quando as árvores estavam sem fruto e o chão duro como pedra, e os lobos iam em busca de comida até às portas da cidade, nunca os esquecia, dividindo com eles as migalhas do bocado do pão escuro que era a sua pobre merenda. Voaram em roda dele, roçando-lhe a face, e conversavam uns com os outros. O Anão ficou tão contente que lhes mostrou a linda rosa branca, explicando que fora a própria Infanta que lha tinha oferecido… porque o amava. Os pássaros não perceberam nada, mas isso nenhuma importância tinha porque inclinavam as cabecinhas com ares muito sérios, o que era quase tão bom como compreender, e muito mais fácil. Os lagartos também simpatizaram com ele. Quando se cansou de correr e se deitou na erva a descansar, saltaram e brincaram em cima do Anão, tentando diverti-lo o melhor que podiam.


9 - Nem todos podem ser tão perfeitos como os lagartos – diziam. – Isso seria demais. Pode parecer absurdo, mas ele não é, no fim de contas, muito feio, desde que, é claro, fechemos os olhos e não olhemos para ele. Os lagartos são, por natureza, uns grandes filósofos. Passam longas horas a pensar, quando não têm mais nada para fazer ou quando o tempo está chuvoso demais para saírem. As Flores, no entanto, estavam extremamente contrariadas com a atitude dos pássaros. - Só prova – diziam – o efeito ordinário que tem isso de voar e de rastejar. Pessoas bem educadas ficam sempre no mesmo sítio, como nós. Nunca ninguém nos viu aos pulos pelos caminhos, a galopar como loucas, pela relva, atrás dos insetos. Quando queremos uma mudança de ares, chamamos o jardineiro e ele leva-nos para outro canteiro. Isto é que é digno, e assim é que devia ser. Mas os pássaros e os lagartos não têm qualquer sentido do repouso e os pássaros nem sequer têm uma morada fixa. São vagabundos como os ciganos e deviam ser tratados da mesma maneira. E, de narizes ao alto, muito empertigadas, ficaram bastante satisfeitas quando, algum tempo depois, viram o Anão sair da relva e atravessar o terraço direito ao palácio. - Merecia ficar fechado lá dentro para o resto da vida – sentenciaram. – Olhem para aquela corcunda e para aquelas pernas tortas – e desataram a rir. Mas o Anão nada disto via. Gostava imensamente dos pássaros e dos lagartos e achava que as flores eram a maior maravilha do mundo, fora, é claro, a Infanta. E ela deu-lhe aquela linda rosa branca, ela amava-o, e isso tinha uma grande importância. Como gostaria de a levar consigo! Ela dar-lhe-ia a mão direita, a sorrir, e ele seria para sempre o seu companheiro de brinquedos. Poderia ensinar-lhe todo o género de truques habilidosos, porque, embora nunca tivesse estado antes num palácio, conhecia muitas maravilhas. Sabia fazer gaiolas de canas para cigarras cantarem lá dentro e fazer, de canas de bambu, flautas que Pã gostaria de ouvir. Conhecia o canto dos pássaros todos e era capaz de chamar os estorninhos do cimo das árvores e as garças dos brejos. Conhecia as pegadas de todos os animais e até seguia o rasto das lebres ou do javali. Havia imenso que ver na floresta e, quando ela estivesse cansada, poderia arranjar-lhe um fofo tapete de musgo ou levá-la em braços, pois tinha muita força. Fazia-lhe um colar de vermelhas bagas de azevinho, tão lindo como as bagas brancas que lhe adornavam o vestido. Oferecia-lhe bolotas e anémonas cheias de gotas de orvalho e pequeninos pirilampos que seriam estrelas no ouro pálido dos seus cabelos. Mas onde estava ela? Perguntou à rosa branca e não teve resposta. O palácio inteiro parecia dormir; mesmo nas janelas não fechadas, estavam corridas pesadas cortinas para reinar a penumbra. Andou em volta, a ver se encontrava por onde entrar, até que viu uma pequena porta aberta. Avançou e viu-se num esplêndido salão, muito mais esplêndido, talvez, do que a floresta, pois havia imensos dourados por todo o lado e o próprio chão era de pedras coloridas unidas numa espécie de desenho geométrico. Todavia, a pequena Infanta não estava ali, só umas estátuas brancas, magníficas, que olhavam para ele do cimo de pedestais de jaspe.


10 Ao fundo do salão viu uma rica cortina de veludo preto com sóis e estrelas, eram os desenhos favoritos do Rei, e bordada na cor que ele mais apreciava. Estaria ela escondida atrás? Aproximou-se e, devagar, afastou-a. Não. Viu um outro aposento, ainda mais belo, pensou, do que aquele que acabava de deixar. As paredes cobriam-se com uma grande tapeçaria verde que representava uma cena de caça executada por artistas flamengos que naquele trabalho levaram mais de sete anos. Espantado, o Anão olhava em volta, sentindo um certo medo de continuar. Mas lembrou-se da linda Infanta e ganhou coragem. Queria encontrá-la sozinha e dizer-lhe que também a amava. Talvez estivesse no aposento seguinte. Correu por macios tapetes mouros e abriu a porta. Não, também não estava ali! Entrou numa sala com um trono, onde o Rei recebia os embaixadores e estrangeiros. As tapeçarias eram de couro dourado. Do teto preto e branco pendia um soberbo lustre dourado com braços para trezentas velas. Debaixo de um grande dossel de ouro, onde se viam bordados em aljôfar os leões e as torres de Castela, estava o trono propriamente dito, coberto com um riquíssimo pálio de veludo negro guarnecido de túlipas de prata com laboriosas franjas de prata e pérolas. No segundo degrau do trono aparecia o genuflexório da Infanta, com uma almofada de tecido de prata. Ao pequeno Anão pouco diziam estas maravilhas. Não trocaria a sua rosa por todas as pérolas do dossel, nem uma só das suas pétalas pelo trono inteiro. O que ele queria era encontrar a Infanta antes de ela ir para o pavilhão para lhe pedir que fosse com ele logo que terminasse a sua dança. No palácio o ar era denso e pesado, mas na floresta corria livre o vento e a luz do sol, com as suas mil mãos de ouro, mexia as trémulas folhas. Na floresta também havia flores, não tão esplêndidas, talvez, mas com um perfume mais suave; jacintos que, no princípio da primavera, inundam de púrpura os vales frios e as encostas relvadas; primaveras amarelas que se juntam aos molhos em torno das raízes dos carvalhos, celidónias brilhantes e campainhas azuis e íris de ouro e violeta. E havia as flores cinzentas das aveleiras e os dedais que se curvam ao peso das corolas pintalgadas que as abelhas perseguem. O castanheiro tinha os amentilhos, longos dedos floridos, e o espinheiro as suas pálidas luas de beleza. Sim, ela iria, por certo, se conseguisse encontrá-la. Iria com ele para a grande floresta e durante o dia todo dançaria para a fazer feliz. Este pensamento iluminou-lhe os olhos com um sorriso e então avançou para o salão seguinte. Era, de todos, o mais belo e o mais brilhante. Tinha as paredes forradas de damasco, com grandes flores cor-de-rosa e desenhos de pássaros e delicadas flores de prata; a mobília era de prata maciça ornada de festões coloridos e cupidos em volta; diante de duas grandes lareiras havia biombos bordados com papagaios e pavões, e o chão, de um ónix verde-mar, parecia perder-se na distância. Mas ele não estava ali sozinho! De pé, na sombra de um umbral, no extremo do salão, viu uma pequena figura que olhava para ele. Deu-lhe um pulo o coração, soltou um grito de alegria e avançou para a luz. No mesmo momento, o vulto imitou-o e o Anão pôde vê-lo completamente. Ai, a Infanta! Era um monstro, o monstro mais grotesco que ele jamais vira. Não tinha o aspeto que têm as outras pessoas: era corcunda e tinha as pernas tortas, uma cabeça enorme e uma juba de cabelos pretos. O Anão fez uma careta e o monstro


11 imitou-o. Riu-se, e o outro riu-se com ele, pondo as mãos nas ancas tal como o Anão fazia agora. Fez-lhe uma reverência e ele copiou-lhe a cortesia. Caminhou para ele e ele caminhou ao seu encontro, imitando cada passo que dava e parando no momento em que ele próprio parou. Deu um grito a brincar, correu para a frente e estendeu-lhe a mão e a mão do monstro tocou na dele… e estava fria como o gelo. Sentiu medo e afastou as mãos… e as mãos do monstro seguiram imediatamente o seu movimento. Tentou empurrá-lo, mas travou-o uma coisa macia e dura. A cara do monstro estava agora junto à dele e parecia aterrorizada. Afastou o cabelo dos olhos. Ele imitou-o. Bateu-lhe e ele devolveu-lhe pancada por pancada. Olhou-o com desprezo e ele fez-lhe umas caras horríveis. Afastou-se e ele afastou-se. O que seria? Pensou, olhando em volta. Era estranho: naquele salão tudo aparecia copiado na parede invisível de água clara. Ali tudo se repetia, quadro a quadro, sofá por sofá. O Fauno que estava deitado a dormir, na alcova, junto à porta, tinha o seu irmão gémeo também a dormir; e a Vénus de prata que estava de pé ao sol, erguia os braços para uma outra Vénus igualmente formosa. Seria um Eco? Tinha-o chamado uma vez no vale e ele respondeu-lhe palavra por palavra. Poderia o Eco imitar as vistas tal como imitava as vozes? Fazer um mundo a fingir como se fosse o mundo real? Poderiam as sombras das coisas ter cor e vida e movimento? Poderia ser?! Em sobressalto, tirou do peito a bela rosa branca, voltou-se e beijou-a. O monstro também tinha uma rosa, igual pétala a pétala. E beijava-a com idênticos beijos, e apertava-a ao peito com gestos horrorosos… Quando a verdade chegou, o Anão deu um grito de selvagem desespero e caiu por terra a soluçar. Ele próprio é que era disforme e corcunda, horrível de ver e grotesco! Era ele mesmo o monstro, era dele que todas as crianças se riam e que a pequena princesa, que julgara capaz de o amar… também ela havia estado apenas a rir-se da sua fealdade e dos seus membros tortos. Porque o teriam trazido da floresta, onde não havia espelhos para lhe dizerem como era feio? Porque lhe cabia tão triste sorte? Caíam-lhe pela cara lágrimas ardentes enquanto desfazia nos dedos a rosa branca. O monstro que estrebuchava diante dele fez o mesmo e também atirou ao ar as pálidas pétalas. Tombou no chão e, quando olhou para o outro, ele fitava-o como quem agoniza em dor. Arrastou-se para longe de modo a não mais o ver e tapou os olhos com as mãos. Rastejou para a sombra com criatura ferida e ali ficou a chorar. Naquele momento, a Infanta passou lá fora com os companheiros e, por uma janela aberta, viram o pequeno Anão feio caído, a bater no chão de punhos cerrados com um exagero tão fantástico que desataram a rir em alegres gargalhadas. Aproximaram-se e rodearam-no. - Era divertido a dançar – disse a Infanta – mas a representar é muito mais engraçado. Quase tão bom como as marionetas, embora com menos naturalidade. Abanou o seu grande leque e bateu palmas. O Anão não olhou para cima. Os seus soluços tornaram-se mais fracos, mais fracos; de repente deu um soluço estranho e sacudiu o corpo. Tornou a estrebuchar e depois ficou quieto. - Muito bem – disse a Infanta depois de uma pausa. – Mas agora vais dançar para mim.


12 - Sim – apoiaram todas as crianças. – Levanta-te e dança, és tão esperto como os macacos da Berbéria e muito mais ridículo. Porém, o Anão não respondeu. A Infanta bateu o pé e chamou o Tio, que passeava no terraço com o Camareiro a ler uns papéis. - O meu Anão tem uma birra – reclamou. – Tens de o acordar e de lhe dizer que dance para mim. Trocaram um sorriso e entraram na sala. Ali, D. Pedro baixou-se e esbofeteou o Anão com a luva bordada. - Tens de dançar, pequeno monstro – ordenou. Mas o Anão não se mexeu. - Temos de chamar o homem do chicote – disse D. Pedro, irritado, e voltou para o terraço. O Camareiro, no entanto, ficou de cara séria, ajoelhou-se ao lado do Anão e pôslhe a mão no peito. Instantes depois encolheu os ombros, ergueu-se e, fazendo uma reverência à Infanta, disse: - Minha bela Princesa, o seu Anão não mais voltará a dançar. É uma pena, pois é tão feio que até iria fazer sorrir o Rei. - Mas porque não mais voltará ele a dançar? – perguntou, a rir, a Infanta. - Porque se lhe quebrou o coração – respondeu o Camareiro. A Infanta franziu o rosto e os delicados lábios de pétalas de rosa curvaram-se, desdenhosos: - De hoje em diante, mande que os que vierem brincar comigo não tenham corações – gritou. E correu para o jardim.


O Dia de Anos da Infanta