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V o M

DOS PRIMEIROS HUMANOS AO ESTADO MODERNO Gislane azevedo Reinaldo Seriacopi

história • ENSINO MÉDIO • Manual do professor


a i r ó t His IMENTO 1 em

V O M

DOS PRIMEIROS HUMANOS AO ESTADO MODERNO GislaNE azEvEDO rEiNalDO sEriacOpi

história • ENsiNO MÉDiO

MaNual DO prOfEssOr

Gislane azevedo Mestre em História Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professora universitária, pesquisadora e ex-professora de História dos ensinos Fundamental e Médio nas redes privada e pública. Coautora da coleção Teláris (Editora Ática), para alunos do Ensino Fundamental II.

Reinaldo seRiaCoPi Bacharel em Língua Portuguesa pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e em Jornalismo pelo Instituto Metodista de Ensino Superior (IMS-SP). Editor especializado na área de História. Coautor da coleção Teláris (Editora Ática), para alunos do Ensino Fundamental II.

2-ª edição São Paulo, 2013


Diretoria editorial: Angélica Pizzutto Pozzani Gerência de produção editorial: Hélia de Jesus Gonsaga Editoria de Ciências Humanas e suas Tecnologias: Heloisa Pimentel e Deborah D’Almeida Leanza

Versão digital Diretoria de tecnologia de educação: Ana Teresa Ralston

Editoras: Deborah D´Almeida Leanza; Priscila D´Almeida Manfrinati e Mirna Acras Abed M. Imperatore (estag.)

Gerência de desenvolvimento digital: Mário Matsukura

Supervisão de arte e produção: Sérgio Yutaka Editor de arte: André Gomes Vitale

Coordenadores de tecnologia de educação: Daniella Barreto e Luiz Fernando Caprioli Pedroso

Diagramador: Walmir S. Santos

Editores de tecnologia de educação: Cristiane Buranello e Juliano Reginato

Gerência de inovação: Guilherme Molina

Supervisão de criação: Didier Moraes

Editora de conteúdo digital: Deborah D´Almeida Leanza

Design gráfico: Homem de Melo & Troia Design (capa) Tyago Bonifácio da Silva (miolo)

Editores assistentes de tecnologia de educação: Aline Oliveira Bagdanavicius, Drielly Galvão Sales da Silva, José Victor de Abreu e Michelle Yara Urcci Gonçalves

Revisão: Rosângela Muricy (coord.), Sandra Regina de Souza (prep.), Cátia de Almeida e Gabriela Macedo de Andrade (estag.) Supervisão de iconografia: Sílvio Kligin Pesquisador iconográfico: Caio Mazzilli e Josiane Laurentino Cartografia: Alex Argozino, Allmaps, Juliana Medeiros de Albuquerque, Maps World e Márcio Santos de Souza Tratamento de imagem: Cesar Wolf e Fernanda Crevin

Assistentes de produção de tecnologia de educação: Alexandre Marques, Gabriel Kujawski Japiassu, João Daniel Martins Bueno, Paula Pelisson Petri, Rodrigo Ferreira Silva e Saulo André Moura Ladeira Desenvolvimento dos objetos digitais: Agência GR8, Atômica Studio, Cricket Design, Daccord e Mídias Educativas Desenvolvimento do livro digital: Digital Pages

Foto da capa: Album/Oronoz/Latinstock/ Museu Arqueológico Nacional, Nápoles, Itália. Ilustrações: Tempo & Arte Direitos desta edição cedidos à Editora Ática S.A. Av. Otaviano Alves de Lima, 4400 6o andar e andar intermediário ala A Freguesia do Ó – CEP 02909-900 – São Paulo – SP Tel.: 4003-3061 www.atica.com.br/editora@atica.com.br Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Azevedo, Gislane Campos História em movimento / Gislane Campos Azevedo, Reinaldo Seriacopi. – 2. ed. – São Paulo: Ática, 2013. Conteúdo: v. 1. Dos primeiros humanos ao Estado moderno – v. 2. O mundo moderno e a sociedade contemporânea – v. 3. Do século XIX aos dias de hoje. Bibliografia. 1. História (Ensino médio) I. Seriacopi, Reinaldo. II. Título. 13–02432 CDD–907

Índice para catálogo sistemático: 1. História : Ensino médio  907 2013 ISBN 978 8508 16305-2 (AL) ISBN 978 8508 16306-9 (PR) Código da obra CL 712773

Uma publicação

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Apresentação Digo adeus à ilusão mas não ao mundo. Mas não à vida, meu reduto e meu reino. Do salário injusto, da punição injusta, da humilhação, da tortura, do terror, retiramos algo e com ele construímos um artefato um poema uma bandeira Ferreira Gullar

Observe ao seu redor: praticamente tudo o que está à nossa volta e que utilizamos em nossa escola, casa ou trabalho foi construído por seres humanos. Pense também no sistema político que rege nossa sociedade, nas leis que regulam nossas relações e em tudo aquilo que consideramos justo ou injusto, certo ou errado: todos esses princípios e valores também foram estabelecidos por pessoas ao longo do tempo. Estudar História não é apenas conhecer e entender os caminhos trilhados pelos seres humanos no passado. Graças a esse estudo, podemos fazer uma leitura crítica de nosso presente e compreender como e por que nossa sociedade encontra-se hoje constituída da maneira que a conhecemos e não de outra forma. Com base nessa visão, procuramos elaborar um livro que, ao tratar de assuntos do passado, tivesse como ponto de partida o presente. Ao adotar essa proposta, você verá como a História está intimamente relacionada com aspectos centrais do mundo contemporâneo e de nossa vida, constituindo um assunto extremamente interessante e instigante. O texto central do livro é complementado por boxes e seções. Alguns contêm escritos de autores clássicos; outros, abordagens historiográficas recentes. Na seção No mundo das letras, aprofundamos o diálogo entre Literatura e História. Na seção Eu também posso participar discutimos, com base em contextos históricos específicos, quanto os atos de cada um de nós pode interferir no destino da humanidade. Uma terceira seção, intitulada Olho vivo e voltada para o trabalho com imagens, oferece uma ampla leitura das informações contidas em pinturas, esculturas e outros materiais iconográficos. Na seção Patrimônio e diversidade, entramos em contato com os aspectos históricos e culturais de cada um dos estados brasileiros. Todos os volumes desta coleção estão permeados por imagens, mapas, documentos e atividades reflexivas que procuram enfatizar a permanente relação entre passado e presente. Acreditamos que dessa maneira estamos lhe oferecendo instrumentos para interpretar e analisar criticamente a realidade de nosso mundo. Você verá que a História exerce um papel privilegiado no processo de consolidação da cidadania e na construção de um mundo mais solidário, fraterno e tolerante. Os autores

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Conheça sua coleção

sempre um texto introduzindo um conceito importante para os dias de hoje – como cidadania, meio ambiente, violência – e que será trabalhado ao longo da unidade. O texto vem acompanhado de fotos e da seção de atividades Começo de conversa.

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Vista de Xangai na extensão do rio Huangpu. Foto de janeiro de 2011.

A urbanização CIDADES MAIS POPULOSAS

V

ivemos em um mundo cada vez mais urbanizado. Hoje, mais da metade dos 7,1 bilhões de habitantes do planeta vive em cidades, algo bem diferente de meio século atrás, quando somente um terço da população do mundo era urbana. Em 1950, apenas 86 cidades tinham mais de 1 milhão de habitantes. Hoje são quatrocentas e, de acordo com as previsões da Organização das Nações Unidas (ONU), até 2025 serão quinhentas. A maioria encontra-se em países pobres ou em desenvolvimento, como Índia, China, Bangladesh e Brasil (veja tabela na página ao lado sobre o movimento populacional das maiores cidades do mundo). A concentração demográfica nesses países acentua suas desigualdades econômicas e sociais. Isso se manifesta das mais diversas formas: falta de moradias e de saneamento básico para a população pobre, marginalidade, desemprego, prostituição infantil, violência, poluição, etc. Entretanto, os problemas das cidades têm solução, e muitas delas podem estar em nossas mãos. Quando escolhemos vereadores e prefeitos honestos e competentes, por exemplo, colaboramos para a melhoria de nossa cidade. Além disso, no nosso dia a dia podemos discutir os problemas da comunidade e apresentar propostas para sua solução em associações de bairro e outras organizações populares. Também é importante preservar e cuidar do patrimônio público, evitando sujar ou danificar praças, escolas, bibliotecas, etc. Morar em cidades significa, antes de tudo, saber viver em coletividades, ter respeito pelos outros e pelas regras de convivência. Como veremos nesta unidade, foi graças à preocupação com o coletivo que, há milhares de anos, surgiram as primeiras cidades e as primeiras grandes civilizações.

Tan Jin/Xinhua/Newsteam/Getty Images

Fazendeiro de seda puxa um feixe de palha para ser utilizado como fertilizante de amoreiras em Nanxun, município de Huzhou, Província de Zhejiang, na China. Foto de junho de 2011.

Alex Argozino/Arquivo da editora

Abertura das unidades: apresenta

Unidade

Peter Parks/Agência France-Presse

Esta coleção é composta de três volumes. A seguir mostraremos algumas das principais características das obras.

1975 10º 1º

6 6º

5º 7º

2007 2º 6º

4ºº 4

9º 8ºº

4ºº

5º 10º

2025 7º

10 10º 3º

2 2º

8ºº

Posição 1º 2º 3º 4º 5º 6º 7º 8º 9º 10º

Cidade Tóquio Nova York Cidade do México Osaka-Kobe São Paulo Los Angeles Buenos Aires Paris Calcutá Moscou

País Japão EUA México Japão Brasil EUA Argentina França Índia Fed. Russa

Posição 1º 2º 3º 4º 5º 6º 7º 8º 9º 10º

Cidade Tóquio Nova York Cidade do México Mumbai São Paulo Nova Délhi Xangai Calcutá Daca Buenos Aires

País Japão EUA México Índia Brasil Índia China Índia Bangladesh Argentina

Posição 1º 2º 3º 4º 5º 6º 7º 8º 9º 10º

Cidade Tóquio Mumbai Nova Délhi Daca São Paulo Cidade do México Nova York Calcutá Xangai Karachi

País Japão Índia Índia Bangladesh Brasil México EUA Índia China Paquistão

População* 26,615 15,880 10,690 9,844 9,614 8,926 8,745 8,558 7,888 7,623

35,676 19,040 19,028 18,978 18,845 15,926 14,987 14,787 13,485 12,795

36,400 26,385 22,498 22,015 21,428 21,009 20,628 20,560 19,412 19,095 (* em milhões de habitantes)

Fonte: UNITED NATIONS. Department of Economic and Social Affairs. Population Division (2008). World Urbanization Prospects. The 2007 Revision. Highlights, United Nations Working Paper n. ESA/P/WP/205.

COMEÇO DE CONVERSA 1. A vida nas cidades proporciona espaços sociais e momentos de participação coletiva bastante diversificados. De que maneira você participa desses espaços sociais da sua cidade? Quais são os outros moradores da cidade que você encontra? Que atividades realizam? 2. Na sua opinião, quais são as cinco maiores qualidades da sua cidade? E os cinco grandes problemas? Aponte possíveis soluções para eles.

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Capítulo 21

Abertura dos capítulos: relaciona um assunto atual com

Os primeiros reinos medievais

algo do passado a ser visto no capítulo, mostrando que a História está presente em nosso dia a dia. Em Objetivos do capítulo, você é informado sobre os principais tópicos abordados nas páginas seguintes.

Objetivos do capítulo Gianni Dagli Orti/Corbis/Latinstock

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Explicar a formação dos reinos germânicos na Europa após as invasões. Entender o fortalecimento da Igreja católica. Abordar as origens e a organização do Império Carolíngio. Conhecer o processo de integração de tradições germânicas e romanas que definiu algumas características das sociedades feudais.

ameaçados pelos muçulmanos. De fato, como vimos no capítulo 18, desde 711 os muçulmanos eram senhores não só do norte da África, mas também da península Ibérica. Neste capítulo estudaremos os reinos surgidos na Europa após a queda do Império Romano do Ocidente e como o Reino Franco se transformou no Império Carolíngio.

Thomaz Vita Neto/Pulsar Imagens

A cavalhada é um folguedo de origem cristã bastante popular no Brasil. Entre as mais tradicionais estão a da cidade de Pirenópolis, em Goiás, e a de São Luís do Paraitinga, em São Paulo. Nesse folguedo, dois grupos de cavaleiros armados de lanças e espadas simulam um combate. Os cavaleiros de azul representam os cristãos e os de vermelho, os muçulmanos, também chamados de mouros. O enredo da cavalhada baseia-se nas histórias e lendas em torno da figura do rei cristão Carlos Magno. No século IX, ele controlava um império que ocupava boa parte da Europa ocidental: o Império Carolíngio. O Império Carolíngio se formou em uma época em que muitos europeus se sentiam

Fechando a unidade Mascarados no dia da abertura das Cavalhadas de Pirenópolis, Goiás. Os mascarados representam o povo e saem às ruas com roupas coloridas. A encenação da luta de cristãos e mouros dura três dias. Foto de maio de 2012.

Peter Parks/Agência France-Presse

O crescente processo de urbanização verificado atualmente no mundo pode ser analisado com base nos três documentos que você lerá a seguir. O primeiro consiste em um gráfico com a evolução das populações rural e urbana a partir de 1950 e suas respectivas projeções até 2030; o segundo é um texto extraído de um relatório de 2007 do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA); o terceiro, finalmente, é a letra de um rap do grupo Facção Central. Leia os três documentos e responda ao que se pede. DOCUMENTO 1 – Gráfico

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Fechando a unidade:

População rural

71

29

1950

67,2

32,8

1960

64,1

35,9

1970

60,9

39,1

1980

57

43

1990

População urbana

53,3

50

46,7

2000

52,9 47,1

2007

2015

57,5

42,5

2025

59,9

40,1

2030

Fonte: UNFPA.

DOCUMENTO 2 – Relatório

de forma multidisciplinar, a seção utiliza diferentes documentos, como quadrinhos, poesia, relatório, fotografia, etc. O conceito da unidade é retomado por meio de atividades.

População rural x População urbana Evolução (1950-2030)

O crescimento urbano e seus problemas É compreensível que os formuladores de políticas tenham uma preocupação com a velocidade e a magnitude do crescimento urbano. Muitos prefeririam um crescimento mais lento ou nenhum crescimento; um crescimento mais lento garantiria, em tese, maior flexibilidade para se lidar com os problemas urbanos. Geralmente, eles tentam retardar o crescimento restringindo a migração para as cidades, mas [...] isso raramente funciona. Além disso, tais esforços refletem falta de compreensão sobre as raízes demográficas do crescimento urbano. A maioria das pessoas pensa que a migração é o fator dominante; na verdade, hoje a principal causa é geralmente o crescimento vegetativo. [...] Centenas de milhões de pessoas vivem em situação de pobreza nas cidades de nações de baixa e média renda, e esses números certamente aumentarão nos próximos anos. [...] A pobreza, a mendicância e a falta de moradia têm sido parte do cenário urbano desde as primeiras cidades da Mesopotâmia. Os pobres, em sua

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maioria, são relegados a áreas socialmente segregadas, genericamente chamadas de “favelas”. [...] As favelas abrigam um de cada três moradores das cidades, um bilhão de pessoas, um sexto da população do planeta. Mais de 90% dos moradores de favelas estão hoje no mundo em desenvolvimento. [...] Embora a renda em dinheiro seja muito mais importante nas cidades do que no campo, a pobreza de renda é somente um aspecto da pobreza urbana. Outros são a má qualidade e superlotação das moradias, falta de serviços públicos e de infraestrutura, como água encanada, saneamento, coleta de lixo, drenagem e estradas, assim como a posse insegura da terra. [...] Os riscos à saúde advêm da falta de saneamento, de água potável e de moradia, dos ambientes de trabalho superlotados e mal ventilados, e da poluição industrial e do ar. Uma dieta inadequada reduz a resistência dos moradores de favelas a doenças, especialmente por viverem na presença constante de microrganismos patogênicos. [...]

DOCUMENTO 3 – Letra de música

A urbanização

Na América Latina, somente 33,6% da população urbana pobre tem acesso a instalações sanitárias com descarga, comparados com 63,7% da população urbana não pobre da região. [...] As políticas voltadas para a melhoria das moradias em

áreas urbanas podem ter enormes impactos na redução da pobreza e no bem-estar ambiental.

O que os olhos veem

Os olhos do boy esses aí, esses não veem nada, nenhum problema, não veem os aviões com droga, o tráfico de arma, as escolas sem telhado, lousa, professor, segurança, o jovem sem acesso a livro, quadra esportiva, centro cultural;

O retrato da favela tem só uma imagem, mas cada olho tem sua interpretação pra essa imagem. Meus olhos veem quando eu olho pra favela almas tristes, sonhos frustrados, esperanças destruídas, crianças sem futuro, vejo apenas vítimas e dor. Os olhos do gambé veem traficantes com R-15 e lançador de granada, vagabundas drogadas, mães solteiras, desempregados embriagados no balcão do bar, adolescentes viciados, pivetes com pipa com rojão avisando que os homi tão chegando. Veem em cada barraco um esconderijo, uma boca em cada senhora de cabelo branco, uma dona Maria mãe de bandido. Os olhos do político veem presas ignorantes, ingênuas, marionetes de manuseio simples a faca e o queijo, o passaporte pra Genebra o talão de cheque especial, o tapete vermelho pra loja da Mercedes [...] Veem o mar de peixes cegos que sempre mordem o mesmo anzol.

Extraído de: Situação da população mundial 2007: desencadeando o potencial do crescimento urbano. Disponível em: <www.unfpa.org.br/relatorio2007/ swp2007_por.pdf>. Acesso em: 16 abr. 2012.

Não veem os ossos no cemitério clandestino, as vítimas da brutalidade da polícia, o povo esquecido e desassistido. Os olhos do boy só são capazes de enxergar na imagem da favela, o medo, o medo em forma de HK na ponta do seu nariz. E você, truta, o que seus olhos veem quando olham pra favela? Facção Central. Direto do campo de extermínio. São Paulo: Unimar Music, 2003. 1 CD.

O que significa? Gambé: policial. R-15 e HK: armas de grosso calibre. Avião: pessoa que repassa, vende ou transporta drogas.

Reflita e responda 1. Observe o gráfico População rural x População urbana e responda: a) Qual é a informação central apresentada pelo gráfico? b) Em que ano a população urbana e a população rural atingiram o mesmo patamar percentual, isto é, a mesma quantidade de habitantes? c) Segundo as projeções do gráfico, qual será o percentual da população urbana em 2030 em relação à população mundial? 2. Baseado na leitura do relatório e nos dados do gráfico, levante hipóteses de como será a vida nas grandes cidades em 2030. 3. Reúna-se com alguns colegas e, juntos, entrevistem pessoas mais velhas para descobrir como era a vida na cidade quando elas eram crianças. Peça-lhes que comparem aquela época com a atual e falem das principais mudanças verificadas na cidade desde então. Procurem obter fotos da época. No fim, todos os grupos devem se reunir sob a orientação do professor e montar um mural com o material obtido. 4. Tanto o relatório da UNFPA como a letra do rap abordam um tema em comum: a falta de qualidade de vida dos moradores das favelas. Releia os dois textos e selecione passagens de ambos que evidenciam essa realidade. 5. No rap “O que os olhos veem”, o autor sugere diversos pontos de vista sobre os moradores da favela: o do próprio autor, o da polícia, o dos políticos e o ponto de vista dos “boys”. O rap termina com a pergunta: “E você, truta, o que seus olhos veem quando olham pra favela?”. Como você responderia a ela?

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Olho vivo

posso participar

Os rios desempenharam papel fundamental no surgimento das primeiras civilizações. Além de serem utilizados para o transporte de pessoas e mercadorias, eles asseguravam a sobrevivência da população ao garantir o abastecimento de peixes e água potável. Na região da Mesopotâmia e do Egito, quando os rios transbordavam, as águas fertilizavam suas margens, proporcionando assim um solo ideal para a prática da agricultura. As enchentes, porém, ao mesmo tempo que deixavam o solo bom para o plantio, podiam provocar prejuízos, alagando casas e destruindo plantações. Diante desses problemas, a população teve de se organizar e construir coletivamente diques e canais para conter as inundações e irrigar as terras cultiváveis. Os sumérios, por exemplo, conseguiram transformar diversas regiões do deserto em áreas férteis desviando a água de alguns rios da Mesopotâmia, entre eles o Eufrates. Passados muitos séculos, a água continua sendo essencial para a vida na Terra. Mas a água potável é um recurso natural finito. De toda a água existente no mundo, somente 2,5% são constituídos por água doce (os outros 97,5% são de água salgada, imprópria para o consumo). Desse percentual, apenas 0,3% correspondem a rios e lagos. O restante da água doce se encontra em lençóis freáticos, geleiras ou coberturas de neve permanente. Assim, de toda a água que existe no mundo, apenas uma pequena fração está disponível para o consumo humano. Fatores como a poluição, a urbanização e a industrialização descontroladas, o desperdício e a distribuição desigual transformaram a água em recurso escasso e não renovável. Hoje, de cada cinco pessoas no mundo, uma sofre algum tipo de problema resultante da escassez de água. Reverter esse processo é um dos grandes desafios de nosso tempo. Evitar uma crise mundial de abastecimento e assegurar o acesso à água tanto para as gerações do presente quanto para as do futuro são ações que não dependem só do poder público, mas também das empresas e das pessoas em geral. Para evitar essa crise anunciada, algumas medidas simples podem ser adotadas no dia a dia:

Seções Eu também posso participar: por meio de contextos históricos específicos, a seção discute quanto os atos de cada um de nós podem interferir no destino da humanidade. Paraíba

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Fonte: HILL, Suzanne. The armada portrait of Elizabeth I. Disponível em: <http://renaissance-art.suite101.com/article/the_armada_portrait_of_elizabeth_i-a21663>. Acesso em: 30 out. 2012.

Engenho Lagoa Verde, em Alagoa Grande, na Paraíba, maio de 2009.

Um museu a céu aberto A cana-de-açúcar é o principal produto agrícola da Paraíba, e o setor canavieiro é o que ainda mais gera empregos na região. Hoje, quase toda a produção paraibana é comprada pelas usinas para ser transformada em etanol, mas em 1587, ano em que foi erguido o primeiro engenho paraibano, a cana era usada primordialmente na produção do açúcar. Embora a produção açucareira das capitanias de Pernambuco e Bahia fosse maior, o produto paraibano era considerado pelos europeus como o melhor de toda a colônia portuguesa na América. A memória desse período colonial encontra-se preservada nos engenhos que sobreviveram ao tempo, erguidos em cidades como Bananeiras, Pilões e Alagoa Grande. Nesses locais, hoje são fabricados cachaça, doces e uma das iguarias mais tradicionais do nordeste brasileiro: a rapadura. A importância da rapadura na sociedade paraibana é tão significativa que na cidade de Areia existe o Museu da Rapadura, funcionando em um engenho do século XVIII. A história da Paraíba, contudo, não se restringe à presença do açúcar. Na cidade de Ingá, a cerca de 100 quilômetros de João Pessoa, encontra-se a Pedra do Ingá, um imenso bloco de pe-

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dra, com 24 metros de comprimento e quatro de altura que, em 1944, foi transformado em Patrimônio Arqueológico Nacional. Nessa pedra existem centenas de inscrições rupestres (como estudado no capítulo 3 do volume 1). Além da Pedra do Ingá, ao longo do território paraibano estão espalhadas mais de 30 mil pinturas rupestres, o que faz do estado um verdadeiro museu a céu aberto. A Paraíba guarda no sertão uma relíquia ainda mais antiga: as pegadas de dinossauros, animais que viveram milhões de anos antes do surgimento do ser humano na Terra. Essas pegadas estão numa região conhecida como Vale dos Dinossauros. Ocupando uma área de 700 quilômetros quadrados e englobando 30 municípios, o Vale dos Dinossauros é o sítio arqueológico que concentra o maior número de pegadas fossilizadas desses animais no mundo. São ao todo 505 trilhas de dinossauros de diferentes espécies, entre eles o tiranossauro e o estegossauro. Na cidade de Sousa existe um parque no qual, além das pegadas, é possível visitar um museu com informações a respeito desses animais pré-históricos.

1. As invasões germânicas contribuíram decisivamente para a queda do Império Romano do Ocidente. Resuma com poucas palavras as mudanças verificadas na Europa ocidental com a chegada dos povos germânicos. 2. Por que é possível afirmar que as sociedades germânicas eram fortemente militarizadas? 3. Entre os séculos V e VI, o poder real dos reinos germânicos se enfraqueceu, em razão do esvaziamento das cidades e da ampliação do poder da nobreza rural. Enquanto isso, a Igreja católica tornava-se uma instituição poderosa. Explique como se realizaram essas transformações. 4. Qual foi o papel do Reino Franco na consolidação do poder católico na Europa?

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da forte resistência dos bretões, os invasores acabaram ocupando quase toda a Bretanha. Assim, entre 477 e 540, aproximadamente, enquanto a Gália se transformava em Reino Franco, anglos, jutos e saxões criavam na Bretanha sete pequenos reinos, mais tarde chamados de heptarquia: Kent, Mércia, Essex, Sussex, Wessex, East Anglia e Nortúmbria.

O luxo das roupas e as joias eram destinados a mostrar aos súditos a imponência da rainha.

Quatro anos antes de o quadro ser pintado, os ingleses haviam fundado a colônia de Virgínia. A mão da rainha repousa sobre a América, indicando o domínio da Inglaterra sobre terras no Novo Mundo.

Rainha segura leque com penas de pavão.

Unidade 5 Soberania e Estado nacional

Olho vivo: a seção oferece uma ampla leitura das informações contidas em pinturas, esculturas e outros materiais iconográficos.

5. O Império Carolíngio consolidou-se e cresceu durante o governo de Carlos Magno, a partir de 771. Observe o mapa Império Carolíngio (p. 164) e indique as regiões conquistadas por Carlos Magno e a que países essas regiões pertencem atualmente. 6. O renascimento carolíngio preparou o caminho para a criação das primeiras universidades europeias por meio da organização de um conjunto de saberes e práticas educacionais. Em que consistiu esse movimento cultural? 7. Explique por que os monges copistas foram fundamentais para a preservação da cultura escrita da Antiguidade greco-romana.

No mundo DAS LETRAS A espada mágica

capítulos de Brasil dos volumes 2 e 3, a seção apresenta os principais aspectos históricos, culturais e sociais de cada um dos estados brasileiros.

As pérolas do colar simbolizam a castidade. Elizabeth não se casou. Era chamada de Rainha Virgem.

Organizando AS IDEIAS

Unidade 2 O trabalho

Patrimônio e diversidade: nos

Elmo de ferro, proveniente de um dos reinos anglo-saxões da atual Inglaterra e datado do início do século VII. Segundo algumas fontes, ele teria sido usado pelo Rei Redwald, morto em 625. Br

Na época imediatamente posterior à queda do Império Romano do Ocidente, a grande ilha situada ao norte da Gália (França atual) e conhecida como Bretanha (hoje, Grã-Bretanha) era invadida pelos anglos, saxões e jutos, povos de origem germânica provenientes do norte da Europa. A resistência dos habitantes locais, os bretões, durou vários anos e foi descrita no livro Excidio Britanniae (A ruína da Bretanha), escrito em 550 por um sacerdote historiador chamado Gildas. Por volta de 500, segundo Gildas, um líder guerreiro bretão conhecido como Arthur*, teria vencido os saxões em * Veja os filmes Rei uma batalha no mon- Arthur, de Antoine te Badon. Entretanto, Fuqua, 2004, e Excalibur, apesar dessa vitória e de John Boorman, 1981.

Navios espanhóis diante das embarcações inglesas no canal da Mancha.

Barcos espanhóis com a Cruz de Santo André (em forma de xis). Depois de terem batido em retirada, colidem contra as rochas, durante tempestade na costa da Irlanda.

Coroa, símbolo da realeza.

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Enquanto ¡sso...

Navios ingleses no canal da Mancha, identificados pelo pavilhão de São Jorge (cruz vermelha em fundo branco).

Em 1588, a rainha contava 55 anos, mas o artista a representou como se fosse mais jovem.

• O vaso sanitário é responsável por um terço de toda a água consumida nas residências. Usá-lo como lixeira ou acionar a descarga sem necessidade gera consumo desnecessário de água. Os vazamentos também produzem grande desperdício de água. • Escovar os dentes, fazer a barba ou ensaboar as mãos com a torneira aberta consome em média 11 litros de água. Com a torneira fechada gasta-se somente meio litro. • Algumas medidas ajudam a diminuir o consumo de água durante o banho: ligar o chuveiro apenas quando estiver sem roupa, desligá-lo enquanto se ensaboa e não tomar banhos com mais de 10 minutos de duração. • A água da máquina de lavar roupas pode ser reutilizada para lavar o chão ou o quintal. E varrer o quintal e a calçada antes de lavá-los ajuda a economizar água. • Usar regadores ou baldes para regar plantas e jardins ou para lavar o carro gasta menos água do que fazer essas atividades com uma mangueira.

Unidade 2 A urbanização

Os reinos anglo-saxões

Navios ingleses com explosivos foram enviados contra a frota espanhola. Quando estavam próximos, foram incendiados. Temendo as explosões, os espanhóis fugiram e foram derrotados.

Até 1960, a grande extensão de areia escura que aparece na foto esteve coberta pelas águas do mar (ou lago) de Aral, entre as repúblicas do Casaquistão e do Usbequistão, que faziam parte da ex-União Soviética. O mar de Aral era, por essa época, alimentado por dois rios que atravessam a região. A partir de 1960, o governo da então União Soviética começou a desviar as águas desses rios para projetos de irrigação. Passadas algumas décadas, o grande lago perdeu 80% de sua superfície e boa parte dele se transformou em um deserto, como mostra esta foto de 1990.

Correio da Paraíba/Futura Press

Patrimônio e diversidade

Uma representação do poder

Durante seu reinado, a rainha Elizabeth I foi representada por diversos pintores. O luxo e o esplendor exibidos nas obras desses artistas destacavam o prestígio e a força da rainha. Este é o caso do óleo sobre madeira reproduzido nesta seção, executado em 1588 pelo pintor inglês George Gower (c. 1540-1596). Ele foi feito pouco depois de uma vitória inglesa sobre a armada espanhola, a mais poderosa da época. Em julho de 1588, o rei Filipe II, da Espanha, enviou 130 navios e 30 mil soldados ao canal da Mancha para atacar os ingleses. Os confrontos duraram nove dias e a Espanha foi derrotada. O feito foi registrado nesse quadro. Através das janelas podem-se ver dois momentos diferentes do combate.

David Turnley/Corbis/Latinstock

Água: fonte da vida em perigo

George Gower/akg-images/Latinstock

Eu também

A Demanda do Santo Graal é um dos mais conhecidos romances de cavalaria da Europa medieval. Escrito por volta do século XIII, ele reúne histórias a respeito de Arthur, um rei bretão, ou líder guerreiro, que teria lutado contra os saxões, à fren-

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Unidade 4 Diversidade religiosa

te de um grupo de cavaleiros, conhecidos como Cavaleiros da Távola Redonda. Leia a seguir um trecho dessa obra e responda ao que se pede. Segundo a lenda, Arthur teria se tornado rei ao arrancar uma espada, conhecida como excalibur, do interior de uma pedra, na qual estava fincada.

Enquanto isso...: trabalho com a simultaneidade histórica, revelando que a história da humanidade não é única nem linear.

Passado presente: por meio desta seção percebemos que assuntos do passado estão mais presentes no nosso dia a dia do que muitas vezes imaginamos.

Mundo virtual: rica e diversificada seleção de sites relacionados ao conteúdo do capítulo.

Atividades Dentro dos boxes temos quatro tipos de atividade: Sua opinião, Sua comunidade, Diálogos e De olho no mundo, cada uma com um objetivo bem específico. Diálogos, por exemplo, trabalha a interdisciplinaridade, e Sua comunidade, a relação entre o local e o global. Ao final do capítulo temos: Organizando as ideias – que retoma o conteúdo visto no capítulo. No mundo das letras – onde é feita uma relação entre História e Literatura. Interpretando documentos – que trabalha com o aluno a capacidade de leitura e interpretação de diferentes tipos de documento, como fotografias, mapas, gráficos, tabelas, charges, textos impressos, etc. Hora de refletir – atividade que relaciona o capítulo com o conceito da unidade. Índice remissivo: você localiza facilmente em que página do livro se encontra o assunto que está procurando. Glossário: as palavras marcadas no texto ganham uma explicação aprofundada no glossário.

Este ícone indica Objetos Educacionais Digitais relacionados aos conteúdos do livro.

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Sumário

Unidade

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A força do conhecimento e da criatividade

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Capítulo 1 África, berço da humanidade ...................................................................................12 1. Um conceito em debate.......................................................................................................13 2. Em busca de nossas origens ................................................................................................13 3. Os primeiros hominídeos .....................................................................................................14 4. O Homo sapiens moderno ...................................................................................................14 Capítulo 2 A Revolução Agrícola .................................................................................................19 1. Saindo da África ...................................................................................................................20 2. O domínio da agricultura .....................................................................................................21 Capítulo 3 Nossos mais antigos ancestrais ................................................................................25 1. Os primeiros ocupantes .......................................................................................................26 2. Sítios arqueológicos .............................................................................................................26 Fechando a unidade ......................................................................................................................33

Unidade

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A urbanização

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Capítulo 4 Povos da Mesopotâmia..............................................................................................36 1. As cidades-Estado ................................................................................................................37 2. A civilização suméria ............................................................................................................37 3. O Primeiro Império Mesopotâmico ......................................................................................39 4. Babilônia e seu império ........................................................................................................39 5. Hititas e assírios ....................................................................................................................40 6. O Segundo Império Babilônico ............................................................................................40 Capítulo 5 Na terra dos faraós .....................................................................................................42 1. No norte da África ...............................................................................................................43 2. A unificação do Egito ...........................................................................................................43 3. A sociedade egípcia .............................................................................................................44 4. A crença na imortalidade .....................................................................................................45 5. A serviço dos deuses e do faraó ..........................................................................................46 6. O saber egípcio ....................................................................................................................46 Capítulo 6 A civilização chinesa ...................................................................................................48 1. A primeira dinastia chinesa ..................................................................................................49 2. O primeiro imperador ..........................................................................................................50

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Capítulo 7 As civilizações da Índia ..............................................................................................55 1. Ao longo do rio Indo............................................................................................................56 2. Os arianos e o hinduísmo ....................................................................................................56 Capítulo 8 Os fenícios, inventores do alfabeto ........................................................................60 Cidades portuárias ...................................................................................................................61 Capítulo 9 O Império Persa ...........................................................................................................65 1. Medos e persas ....................................................................................................................66 2. A formação do império ........................................................................................................66 3. Entre o Bem e o Mal ............................................................................................................69 Capítulo 10 Os hebreus ..................................................................................................................71 1. O papel da religião ...............................................................................................................72 2. Hebreus na Palestina ............................................................................................................72 3. Os juízes e o monoteísmo ....................................................................................................72 4. As doze tribos ......................................................................................................................73 Fechando a unidade........................................................................................................... 76

Unidade

3

Direito e democracia

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Capítulo 11 A Grécia antiga: formação ......................................................................................80 1. Miscigenação étnica e cultural .............................................................................................81 2. Os cretenses .........................................................................................................................81 3. Os aqueus ............................................................................................................................81 4. A invasão dória ....................................................................................................................84 Capítulo 12 A Grécia clássica ........................................................................................................87 1. A pólis grega ........................................................................................................................88 2. A sociedade espartana ................................................................................................... 88 3. A democracia em Atenas .....................................................................................................91 Capítulo 13 O helenismo ...............................................................................................................94 1. A expansão macedônia ........................................................................................................95 2. A formação de um império ..................................................................................................95 Capítulo 14 Os primeiros séculos de Roma ................................................................................. 100 1. A fundação de Roma .........................................................................................................101 2. A monarquia e suas instituições ........................................................................................102 3. Tempos republicanos..........................................................................................................103 4. Roma contra Cartago.........................................................................................................108 Capítulo 15 A República em crise ..............................................................................................111 Um período conturbado.........................................................................................................112 Capítulo 16 O Império Romano ..................................................................................................117 1. Primeiros tempos do Império .............................................................................................118 2. Império dividido .................................................................................................................121 Fechando a unidade ....................................................................................................................125 Sumário

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Unidade

4

Diversidade religiosa

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Capítulo 17 Civilizações asiáticas...............................................................................................128 1. A Idade de Ouro na China .................................................................................................129 2. O Império Mongol..............................................................................................................130 3. O Japão dos samurais ........................................................................................................132 Capítulo 18 O mundo árabe-muçulmano.................................................................................135 1. Em torno dos oásis.............................................................................................................136 2. Politeísmo dos árabes ................................................................................................... 136 3. Surge o islamismo ..............................................................................................................136 4. O islã e a jihad....................................................................................................................136 5. Sunitas e xiitas....................................................................................................................138 6. A dinastia Omíada (661-749).............................................................................................139 7. A dinastia abássida (749-1258) .........................................................................................139 8. Saber e cultura no mundo islâmico ...................................................................................139 9. O mundo islâmico se divide ...............................................................................................140 Capítulo 19 Os reinos africanos .................................................................................................144 1. O continente africano ........................................................................................................145 2. O Reino de Axum ...............................................................................................................146 3. Reinos do Sahel ..................................................................................................................148 4. A civilização iorubá ............................................................................................................150 5. Os bantos ...........................................................................................................................151 Capítulo 20 O Império Bizantino ...............................................................................................154 1. Império dividido .................................................................................................................155 2. O poder do basileu ............................................................................................................155 3. O governo de Justiniano ....................................................................................................155 4. Um longo declínio ..............................................................................................................158 5. A arte bizantina..................................................................................................................159 Capítulo 21 Os primeiros reinos medievais .............................................................................161 1. Os reinos germânicos .........................................................................................................162 2. A Igreja se fortalece ...........................................................................................................163 3. O Império Carolíngio..........................................................................................................163 4. O fim do Império................................................................................................................166 Capítulo 22 O feudalismo ............................................................................................................170 1. O mundo feudal .................................................................................................................171 2. O feudo ..............................................................................................................................171 3. Os camponeses ..................................................................................................................173 Capítulo 23 O poder da Igreja ....................................................................................................177 1. Poder material e poder espiritual .......................................................................................178 2. As Cruzadas .......................................................................................................................179 3. O Tribunal do Santo Ofício .................................................................................................182 Capítulo 24 Renascimento urbano e comercial ......................................................................186 O ano 1000 ............................................................................................................................187 Fechando a unidade ....................................................................................................................198

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Unidade

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Soberania e Estado nacional

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Capítulo 25 A formação do Estado moderno .........................................................................202 1. O fortalecimento do poder real .........................................................................................203 2. A Inglaterra sob os normandos..........................................................................................203 3. As origens da França ..........................................................................................................204 4. Cristãos × mouros ..............................................................................................................204 5. A formação de Portugal .....................................................................................................207 6. A Espanha e a Inquisição ...................................................................................................207 Capítulo 26 A revolução cultural do Renascimento ..............................................................210 1. A península Itálica no século XV ........................................................................................211 2. O Renascimento .................................................................................................................212 Capítulo 27 A Reforma protestante ..........................................................................................221 1. Críticas à Igreja ...................................................................................................................222 2. As 95 teses de Lutero.........................................................................................................222 3. O calvinismo .......................................................................................................................225 4. A Igreja anglicana ..............................................................................................................225 5. A reação da Igreja católica .................................................................................................228 Capítulo 28 As Grandes Navegações ........................................................................................231 1. Um comércio lucrativo .......................................................................................................232 2. A aventura portuguesa ......................................................................................................232 3. Os espanhóis chegam à América .......................................................................................234 4. O Tratado de Tordesilhas ....................................................................................................235 5. A caminho das Índias .........................................................................................................235 6. Portugueses na América ....................................................................................................236 Capítulo 29 Os impérios coloniais .............................................................................................239 1. A Revolução Comercial ......................................................................................................240 2. O mercantilismo .................................................................................................................242 3. O “Pacto Colonial” ............................................................................................................242 4. O Império Português ..........................................................................................................243 5. Espanha e o El Dorado .......................................................................................................244 6. Tordesilhas, adeus ..............................................................................................................244 7. As companhias de comércio ..............................................................................................245 Capítulo 30 O absolutismo monárquico...................................................................................249 1. Os Estados modernos ........................................................................................................250 2. O rei encontra o poder ......................................................................................................250 3. Um poder (quase) absoluto ...............................................................................................252 Fechando a unidade ....................................................................................................................258

GLOSSÁRIO ....................................................................................................................................260 SUGESTÕES DE FILMES E DE LEITURAS COMPLEMENTARES ..............................................266 BIBLIOGRAFIA BÁSICA ................................................................................................................266 ÍNDICE REMISSIVO .......................................................................................................................268 Sumário

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Unidade

Erich Lessing/Album/Album Art/Latinstock

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A força do conhecimento e da criatividade

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o ponto de vista biológico e cognitivo, não somos muito diferentes dos homens, mulheres e crianças que viveram 10 mil ou 12 mil anos atrás. Se mudanças significativas não ocorreram no organismo humano ao longo desse período, como explicar o fato de que a humanidade deixou de viver em cavernas e passou a dominar tecnologias que nos permitem até mesmo conquistar o espaço sideral? Segundo o historiador Eric Hobsbawm, que formulou a pergunta, todas essas mudanças verificadas ao longo de milhares de anos foram resultado da persistente e crescente capacidade da espécie humana de controlar as forças da natureza. Esse domínio ocorreu (e ainda ocorre) por meio do trabalho manual e intelectual, da tecnologia e da organização da produção. Isso nos permite concluir que a base do desenvolvimento humano repousa no conhecimento e no uso da criatividade. Mas será que conhecimento é algo que adquirimos somente nos bancos escolares? E como ficam aqueles que nunca tiveram a oportunidade de estudar? Todas as pessoas – quer tenham estudado ou não – detêm conhecimento. Os povos indígenas, por exemplo, durante milênios, curaram seus doentes utilizando somente ervas e plantas medicinais sem nunca terem feito faculdade de Medicina. Saber qual a planta correta a ser utilizada só foi possível graças a uma profunda capacidade de observar e interagir com a natureza. Algo semelhante acontece com um cientista que inventa uma vacina. Em seu trabalho, ele precisa conhecer os experimentos já realizados, identificar diferentes tipos de drogas medicinais e fazer muitos testes antes de anunciar sua descoberta.

Vênus de Dolní Vestonice, estatueta feminina de terracota, encontrada no sítio arqueológico de Dolní Vestonice. Faz parte do Museu de Brno, na atual República Tcheca. Mede 111 mm de altura e foi esculpida entre 29000 a.C. e 25000 a.C. Seus seios, ventre e nádegas volumosos seriam uma alusão à fertilidade.

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Adquirir conhecimentos não significa apenas acumular informações a respeito de determinado assunto. Significa, antes de mais nada, organizar as informações disponíveis para compreender a realidade e partir em busca de mais conquistas. Nesta unidade veremos como a busca pelo saber mobiliza os seres humanos desde os tempos mais remotos. O domínio do fogo e a invenção da roda são alguns exemplos de como a humanidade utilizou seus conhecimentos para adequar a realidade em que vivia às suas necessidades. Esse potencial criativo foi um dos fatores responsáveis por garantir a sobrevivência da espécie humana sobre a Terra.

Reprodução/Museu Picasso, Paris, França.

Pintura rupestre de 13 mil a 9,5 mil anos atrás. Gruta das Mãos, Argentina.

Retrato de Jacqueline Roque de Braços Cruzados, tela de Pablo Picasso (1881-1973). Pintada em 1954, essa obra do modernista espanhol pretende representar uma mulher de forma não realista. Compare esta representação com a da página anterior. Ambos os artistas utilizam a força de sua criatividade e de seu conhecimento para criar formas capazes de emocionar e estimular a imaginação.

COMEÇO DE CONVERSA 1. Utilizamos nossa criatividade em diversas situações da vida cotidiana: para solucionar

problemas, encontrar novas formas de realizar certas atividades ou simplesmente para nos divertir. Pense em situações nas quais você resolveu problemas utilizando sua criatividade. Narre um desses episódios à classe. 2. Em sua opinião, o conhecimento sobre o passado pode ajudar a transformar a realidade

em que vivemos? Por quê? 11

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Capítulo 1

África, berço da humanidade Objetivos do capítulo Kazuyoshi Nomachi/Corbis/Latinstock

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As palavras destacadas nesta cor estão no Glossário, página 260.

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Prof. Lee Berger/Wikimedia Commons

As mulheres e os homens encontram-se sobre a face da Terra há cerca de 200 mil anos. Mas milhões de anos antes de seu surgimento, diversos ancestrais da espécie humana já andaram sobre o planeta. Entre esses ancestrais podemos citar o Australopithecus afarensis, o Homo habilis e o Homo erectus. Cada um tem características físicas próprias, mas em comum contam o fato de andarem sobre duas pernas, como os humanos. Em 2010, pesquisadores anunciaram a descoberta de uma nova espécie de australopiteco, o Australopithecus sediba. Os fósseis desse hominídeo foram encontrados em 2008 em uma caverna nas proximidades de Johannesburgo, na África do Sul. De acordo com os cientistas, o A. sediba viveu cerca de 1,977 milhão de anos atrás. Apesar de possuir corpo pequeno – cerca de 1,3 metro de altura – e grandes braços – típico de outros australopitecos que viviam em árvores –, o A. sediba tinha uma série de traços físicos semelhantes aos dos humanos, como o formato do cérebro, o tamanho dos dentes e a estrutura da pélvis e do fêmur. Em razão dessas semelhanças, muitos especialistas consideram esse australopiteco um ancestral da espécie humana. Neste capítulo estudaremos o que os cientistas já sabem a respeito das origens da humanidade.

Refletir sobre os conceitos de História e Pré-História. Compreender os conceitos de hominídeo, fóssil e primata. Discutir as limitações dos seres humanos pré-históricos e as estratégias que eles criaram para superá-las (o conhecimento e a criatividade).

Matthew Berger, de 9 anos, filho do paleoantropólogo norte-americano Lee Berger, segurando sua descoberta: a clavícula do Australopithecus sediba, encontrada na África do Sul. Em 2010, seu pai apresentou o fóssil à comunidade científica. Foto de 15 de agosto de 2008.

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Tradicionalmente, as origens da humanidade eram situadas pelos historiadores numa época conhecida como Pré-História. Hoje, entretanto, essa expressão não é mais aceita por muitos estudiosos. Por quê? A Pré-História costumava ser definida como o período compreendido entre o aparecimento dos primeiros hominídeos e a invenção da escrita, ocorrida por volta do quarto milênio antes de Cristo, na Mesopotâmia (no atual Oriente Médio) e, logo depois, no Egito. Essa periodização começou a ser utilizada a partir do século XIX, na Europa. Por essa época, os estudiosos acreditavam que só seria possível resgatar o passado de uma sociedade caso existissem registros escritos feitos por ela. Hoje, essa visão é encarada com reservas. Outras fontes, como imagens, objetos do cotidiano e relatos orais, por exemplo, passaram a ter a mesma importância que a escrita no processo do conhecimento histórico. Além disso, recentes avanços científicos e tecnológicos colaboram na tarefa de resgatar o passado. É o caso da análise do DNA, de programas de computador que reconstroem rostos humanos a partir de um crânio e de métodos científicos que determinam a idade de fósseis e de restos arqueológicos. A invenção da escrita como marco inicial da História também pode ser questionada pelo fato de não ter ocorrido ao mesmo tempo em todo o planeta. Muitos povos só entraram em contato com ela no final do século I a.C., durante a expansão de Roma. Ainda hoje, há grupos indígenas no Brasil e aborígines na Austrália que não fazem uso de nenhum sinal gráfico para representar palavras. Se considerássemos o surgimento da escrita como o início da História, conquistas como o domínio do fogo, a invenção da roda e a prática da agricultura ficariam de fora da história da humanidade, pois elas ocorreram muitos séculos antes da invenção dessa forma de comunicação. Amparados nessas ressalvas, podemos dizer que o mais indicado é considerar o que foi chamado de Pré-História como uma etapa no processo histórico do ser humano. Do ponto de vista social, podemos entendê-la como um período em que ainda não haviam surgido sociedades complexas e sedentárias e no qual as pessoas se reuniam em pequenos grupos ou agrupamentos nômades.

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Em busca de nossas origens

Há cerca de 60 milhões de anos, apareceram na Terra os primeiros primatas. Desse grupo surgiram o gorila, o chimpanzé, o orangotango e os primeiros hominídeos, que deram origem à espécie humana. Atualmente, especialistas como paleoantropólogos, geólogos, arqueólogos, biólogos, geneticistas, etnólogos, paleontólogos, etc. participam de escavações em busca de vestígios dos nossos ancestrais com o propósito de descobrir como eles eram e como viviam. Esses vestígios podem ser fósseis, ferramentas, esculturas, pinturas em cavernas, utensílios, restos de fogueiras, entre outros (veja a imagem).

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Um conceito em debate

Vil

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Com mais de 3 milhões de anos, o fóssil do hominídeo da espécie Australopithecus afarensis encontrado na África em 1974 recebeu o nome de Lucy porque seu descobridor, no momento em que o encontrou, escutava a canção dos Beatles “Lucy in the sky with diamonds”. A foto mostra o crânio do “bebê Lucy”, fóssil da mesma espécie de Lucy e também com mais de 3 milhões de anos.

África, berço da humanidade Capítulo 1

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thecus anamensis, a dos Australopithecus afarensis e a dos Australopithecus sediba, sobre a qual comentamos na abertura do capítulo. De modo geral, os australopitecos tinham braços longos, maxilares salientes e cérebros pequenos, mas sua principal característica era andarem eretos.

Entretanto, a ciência ainda não encontrou uma resposta precisa a respeito de como e quando o ser humano apareceu. O que os cientistas sabem é que o surgimento de homens e mulheres foi resultado de um longo processo, que se estendeu por centenas de milhões de anos e envolveu não só alterações físicas no corpo, mas também mudanças culturais, como o modo de viver e agir desses seres.

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Os primeiros hominídeos

Equinox Graphics/SPL/Latinstock

Os fósseis são uma das principais fontes de estudo para entender a evolução da espécie humana. A análise dessas amostras indica que os indivíduos com características tipicamente humanas não apareceram recentemente nem de uma só vez.

Montagem computadorizada de um crânio de Homo floresiensis (à esquerda) ao lado de um crânio de Homo sapiens sapiens (à direita). O Homo floresiensis foi um hominídeo de pouco mais de um metro de altura e cérebro muito pequeno. Acredita-se que foi extinto há 12 mil anos e que coexistiu com os seres humanos modernos (Homo sapiens). Em 2003, restos desse crânio foram encontrados na caverna Liang Bua, localizada na Ilha das Flores, Indonésia.

Um dos hominídeos mais antigos que se conhece é o Ardipiecus kadabba, que habitou a África há 5,8 milhões de anos. Posteriormente, surgiram outros hominídeos do gênero dos australopitecos. Eles teriam habitado a África entre 4,2 milhões e 1 milhão de anos atrás e se dividiam em várias espécies, como a dos Australopi14

O Homo sapiens moderno

Uma das espécies de australopiteco – não se sabe qual – deu origem a um grupo de hominídeos, o Homo. Os cientistas ainda não descobriram quando, como e onde isso aconteceu. Acredita-se que os primeiros seres do gênero Homo apareceram há cerca de 2 milhões de anos e por mais de 800 mil anos conviveram com os australopitecos na África. Estes, porém, não conseguiram se adaptar à crescente competição entre as espécies e acabaram extintos. Segundo alguns especialistas, a espécie mais antiga de Homo que se conhece é a do Homo habilis. Com cerca de 1,57 m de altura, pouco mais de 50 quilos de peso e um cérebro de até 800 cm³, o Homo habilis se desenvolveu graças à sua capacidade de adaptação cultural e social: ele tinha, por exemplo, o hábito de dividir os alimentos com os integrantes de seu grupo, criando assim laços de solidariedade entre si. Pesquisas recentes mostram que o Homo habilis conviveu por centenas de milhares de anos com outro hominídeo, o Homo erectus, que apareceu na África por volta de 1,8 milhão de anos atrás. Para os cientistas, essas duas espécies podem ter tido um ancestral comum, ainda desconhecido. O Homo erectus chegava a medir até 1,80 m. Seu cérebro tinha um volume médio de 950 cm³, mas podia chegar a 1 250 cm³. Seu rosto era largo e sua arcada dentária, saliente. O Homo erectus revelou-se um ser de grande capacidade mental: andava em grupos de vinte a trinta indivíduos, fabricava utensílios, construía cabanas, * Veja o filme A aprendeu a dominar o fogo* e a guerra do fogo, de Jean Jacques organizar caçadas, dividindo taAnnaud. refas entre si.

Unidade 1 A força do conhecimento e da criatividade

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Olho vivo

O que os fósseis revelam

Pascal Goetgheluck/Spl/Stock Photos/Latinstock

As descrições dos primeiros ancestrais da espécie humana que você lê em livros e revistas não brotam da imaginação dos historiadores ou dos cientistas. Na verdade, centenas de pesquisadores vasculham continuamente diversas regiões da África, da Ásia, da América, da Europa e da Oceania em busca de vestígios de nossos antepassados mais remotos. É com base no que eles descobrem – ossos, restos de fogueiras, ferramentas, pontas de flechas, utensílios de cerâmica, etc. – que é reconstituída a árvore genealógica da espécie humana e são descritos os espécimes, os cenários em que viviam, seu modo de vida. Fóssil é toda “evidência de um organismo vegetal ou animal preservado em gelo ou rochas sedimentares. A preservação de um organismo em sua totalidade (isto é, com a permanência de seus tecidos rígidos e macios) é muito rara. Entre os casos mais notáveis desse tipo de achado, encontram-se os mamutes (elefantes arcaicos) siberianos, que têm sido recuperados de estratos de gelo em condições perfeitas de preservação.” [Enciclopédia ilustrada Folha. São Paulo: Folha da Manhã S.A., 1996. v. 1, p. 363. Sobre os mamutes e sua utilidade para os seres humanos da chamada “Pré-História”, veja o capítulo 2.]. Quando o esqueleto de um ser humano é encontrado, seus ossos trazem informações valiosas para os cientistas, como se pode ver a seguir. Eles podem dizer a que sexo pertencia seu portador, se se tratava de uma criança, de um adulto ou de um adolescente e, em certos casos, as circunstâncias de sua morte. Até mesmo fezes humanas fossilizadas, conhecidas como coprólitos, podem ser uma importante fonte de informações. Elas revelam, por exemplo, os hábitos alimentares de um grupo humano e a incidência de parasitas nos intestinos das pessoas desse grupo. Supondo, por exemplo, que esses parasitas sejam comuns em zonas tropicais e que os coprólitos tenham sido encontrados em uma região fria, isso mostraria que o grupo humano estudado teria migrado de um lugar para outro. O tamanho do crânio pode identificar a espécie.

Riscos microscópicos e buracos no esmalte dos dentes podem indicar o tipo de alimentação. Molares grandes e mandíbulas grossas sugerem a mastigação de alimentos mais duros.

Os dentes e o tamanho dos ossos revelam se o esqueleto era de um adulto ou de uma criança. Também podem mostrar problemas como anemia e outras deficiências alimentares.

Os ossos podem reter evidências de infecções por tumores, bactérias, parasitas e fungos, ou revelar traumas como fraturas, amputações e golpes na cabeça.

O formato da pélvis identifica o sexo. Fóssil do esqueleto de uma mulher do período Neolítico encontrado na França.

Adaptado de: <www.becominghuman.org/>. Acesso em: 16 abr. 2012.

África, berço da humanidade Capítulo 1

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Hess. Landesmuseum/akg-images/Latinstock

Representação artística de um grupo de ancestrais e precursores do Homo sapiens moderno. Da esquerda para a direita e da frente para trás: Homo erectus, Australopithecus africanus, Kenyathropus rudolfensis, Australopithecus afarensis, Homo habilis, Australopithecus boisei, Homo neanderthalensis e Australopithecus anamensis.

O Homo erectus foi o primeiro hominídeo a emigrar da África. Seguindo o curso do rio Nilo, alcançou a Ásia e depois a Europa. Desapareceu há cerca de 300 mil anos, quando espécies arcaicas de Homo sapiens já andavam sobre o planeta. Tudo indica que essas espécies evoluíram até que, por volta de 195 mil anos atrás, apareceu o Homo sapiens sapiens (ou Homo sapiens moderno*­), espécie da qual fazemos parte. Por ter uma faringe mais longa e uma língua mais flexível, essa espécie desenvolveu a capacidade da fala, por meio da qual passou a expressar seus pensamentos e a desenvolver conceitos abstratos (sobre a espécie humana, veja o boxe a seguir). Durante algum tempo, o ser humano conviveu com indivíduos de outra espécie do gênero Homo – o Homo neanderthalensis, tam* Veja o filme bém conhecido como Homem de A origem do Neanderthal –, mas ela desapa- homem, Discovery Channel, 2002. receu há cerca de 30 mil anos.

Somos todos iguais Pele negra, branca ou parda; olhos arredondados ou puxados. Cabelos lisos, crespos ou encaracolados. As variações físicas entre os seres humanos são imensas, porém a ciência já comprovou: apesar das diferenças observadas entre os indivíduos, a espécie humana é única. Isso significa que, ao contrário do que muitos afirmaram no passado, as pessoas não podem ser separadas em raças. A comprovação definitiva desse fato aconteceu em 2003, quando cientistas do Projeto Genoma concluíram o sequenciamento genético de 94% do DNA humano. Ao analisarem os genes formadores de nossas características físicas, os cientistas observaram que as diferenças das sequências genéticas entre dois indivíduos não chega a 1%. As variações encontradas – como a cor da pele ou dos olhos, por exemplo – são resultado do processo evolutivo do ser humano diante da necessidade de se adaptar às condições ambientais em que passou a viver. Segundo os cientistas, o cabelo crespo dos negros, por exemplo, surgiu como uma forma de proteger o couro cabeludo das pessoas que viviam em regiões de climas quentes. Esse tipo

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de cabelo forma uma camada de ar entre o couro cabeludo e o ambiente, protegendo a cabeça da grande incidência dos raios solares. Ainda de acordo com os cientistas, um dos fatores pelos quais os europeus teriam a pele mais clara do que a dos africanos, por exemplo, se deve ao clima. Durante o processo de seleção natural verificado ao longo de milhares de anos, prevaleceram na Europa – região onde os dias costumam ser mais curtos e frios – indivíduos de pele mais clara, pois estes têm capacidade de melhor absorver a luz solar necessária à produção de vitamina D, responsável pela absorção de cálcio, essencial para o desenvolvimento de ossos e dentes. Em estudo publicado em 2007, o antropólogo norte-americano Henry Harpending, baseado na análise do DNA de indivíduos de diferentes populações, afirma que “os europeus ficaram mais claros, mais louros e com olhos mais azuis há apenas cinco mil anos”. Fontes: ESCOBAR, Herton. Evolução do Homo sapiens continua, cem vezes mais rápida. O Estado de S. Paulo, 11 dez. 2007; <www.ornl.gov/sci/techresources/ Human_Genome/home.shtml>. Acesso em: 16 abr. 2012; Superinteressante, n. 50. nov. 2001. Disponível em: <http://super.abril.com.br/superarquivo/1991/ conteudo_112801.shtml>. Acesso em: 16 abr. 2012.

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Organizando AS IDEIAS 1. O conceito de Pré-História representa, tradicionalmente, o período entre o aparecimento da humanidade e a invenção da escrita. Essa periodização foi construída no século XIX, quando os estudiosos acreditavam que os registros escritos eram fundamentais para o entendimento das sociedades antigas. Por que o conceito de Pré-História deve ser visto com ressalvas? 2. A invenção da escrita não ocorreu da mesma forma e na mesma época entre todos os povos. Cite algumas sociedades atuais que não utilizam a escrita na vida cotidiana. 3. Nossos conhecimentos sobre a origem da humanidade dependem das pesquisas de diversos es-

pecialistas, como paleontólogos, geneticistas, antropólogos, etc. Com base na leitura do capítulo, descreva o que a ciência descobriu até agora sobre a origem e o desenvolvimento dos hominídeos. 4. Além do Homo sapiens, outras espécies de Homo povoaram a Terra nos últimos milhões de anos: o Homo habilis, o Homo erectus e o Homo neanderthalensis. Descreva as características fundamentais dessas espécies indicando a época em que existiram. 5. As descobertas sobre a origem da humanidade são fruto da pesquisa científica de diferentes áreas. Descreva, em linhas gerais, como se realizam essas pesquisas.

Interpretando DOCUMENTOS Agora, você vai ver duas representações da evolução da espécie humana. Depois de compará-las, responda ao que se pede.

David Gifford/Science Photo Library/Latinstock

Documento 1

Representação livre da evolução humana. Habitualmente, essa evolução é representada como uma “caminhada” de figuras do sexo masculino. Aqui, o artista inovou, introduzindo figuras femininas como representantes da cadeia evolutiva da humanidade.

África, berço da humanidade Capítulo 1

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Documento 2

Homo florensiensis

Homo neanderthalensis

Homo cepranensis

Homo mauritanicus/antecessor

Homo erectus Homo ergaster

Homo sapiens (ser humano moderno) PRESENTE

Homo habilis

Paranthropus robustus

Paranthropus boisel

1 MAA

2 MAA

Kenyathropus rudolfensis Paranthropus aethopicus

Australopithecus africanus

Kenyathropus platyops

3 MAA

Australopithecus bahrelghazali

Australopithecus afarensis

4 MAA Australopithecus anamensis

Ardipithecus ramidus

5 MAA

Orrorin tugenensis

Ardipithecus kadabba

6 MAA

Sahelanthropus tchadensis

7 MILHÕES DE ANOS ATRÁS (MAA)

Árvore genealógica da espécie humana feita com base nos conhecimentos disponíveis em 2007. Na coluna da direita está registrado, em milhões de anos, o momento em que cada espécie apareceu. Adaptado de: <www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=31&id=364>. Acesso em: 16 abr. 2012.

1. Como a evolução da espécie humana é representada no documento 1 e no documento 2?

corretamente os nossos conhecimentos atuais sobre o desenvolvimento da espécie humana?

2. Comparando os dois documentos, por que podemos afirmar que o primeiro não representa

3. Podemos dizer que o documento 2 representa a verdade sobre a evolução humana? Justifique sua resposta.

Hora DE REFLETIR Nos primórdios da humanidade, diversas formas de conhecimento contribuíram para a sobrevivência e o desenvolvimento dos hominídeos: a construção e o manuseio de instrumentos, a organização coletiva da caça, o domínio do fogo, etc.

Reúna-se em grupo com outros colegas e, juntos, escrevam um texto sobre o papel da socialização do conhecimento para a sobrevivência da espécie humana. Ao final da atividade, apresentem para a classe as ideias discutidas no grupo.

Mundo virtual n

n

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Lascaux – Um passeio virtual pelo interior da caverna de Lascaux, na França, famosa por suas pinturas rupestres. O site está em inglês, mas basta clicar na página inicial para começar o passeio. Disponível em: <www.lascaux.culture.fr/#/en/00.xml>. Acesso em: 10 out. 2012. Evolução humana – Uma linha do tempo interativa sobre a evolução da espécie humana. Está em inglês, mas é de fácil navegação. Disponível em: <http://tinyurl.com/32ztp4l>. Acesso em: 10 out. 2012.

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Capítulo 2

A Revolução Agrícola Objetivos do capítulo Rubens Chaves/Acervo do fotógrafo

agricultura significou para o ser humano uma verdadeira revolução, modificando seus hábitos, fixando-o à terra e permitindo que alguns grupos abandonassem pouco a pouco a vida nômade e se tornassem sedentários. Tal fato promoveu o surgimento das primeiras cidades e civilizações. Neste capítulo estudaremos as grandes mudanças ocorridas na vida humana com o desenvolvimento da agricultura.

Fábio Colombini/Acervo do fotógrafo

Arroz vermelho, babaçu, umbu, feijão-canapu, palmito-juçara, castanha-baru. Você já ouviu falar dessas plantas encontradas no Brasil? Pois elas fazem parte de uma relação de 750 espécies vegetais do mundo inteiro que, pelos mais variados motivos, correm o risco de desaparecer para sempre. Uma lista atualizada de plantas sob risco de extinção encontra-se disponível no site da Slow Food, fundação internacional que desenvolve projetos de plantio de vegetais ameaçados com a finalidade de impedir seu desaparecimento. Quantas outras espécies vegetais, contudo, foram perdidas para sempre ao longo da história da humanidade é algo difícil de calcular. Durante milhares de anos, nossos ancestrais viveram da caça, da pesca e da coleta de frutas e raízes. O domínio de técnicas de plantio só ocorreu há cerca de 10 mil anos. Mas a

Apresentar as teorias sobre o povoamento da Terra pelo gênero Homo. Mostrar a importância do domínio da agricultura e da domesticação de animais para a sedentarização dos grupos humanos e a formação dos primeiros núcleos urbanos. Destacar o papel da especialização de funções na organização social e política dos grupos humanos.

Umbuzeiro em Paulo Afonso, na Bahia, em foto de 2008. Nativo da caatinga do Sertão nordestino, o umbuzeiro (árvore do umbu), hoje em processo de extinção, tem raízes capazes de armazenar grande quantidade de água. Essa característica lhe permite sobreviver nos períodos de seca prolongada.

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Isso só teria sido possível porque, naquela época, o planeta vivia sua última Era Glacial*, durante a qual as águas do mar baixaram drasticamente, deixando descoberto o fundo do estreito * Veja o filme A Era de Bering. Do Alasca, essa popudo Gelo, de Chris lação teria alcançado a América Wedge, 2002. do Sul há 11 500 anos. Entretanto, descobertas arqueológicas mais recentes recuam a chegada do ser humano à América para muito antes dessa data. Para alguns pesquisadores, existiriam vestígios da presença humana no continente de até 50 mil anos, o que obrigaria os estudiosos a reverem a teoria Clóvis. As pesquisas coordenadas pela arqueóloga brasileira Niède Guidon na região de São Raimundo Nonato (Piauí) contribuíram decisivamente para esse debate. Outra polêmica recente refere-se à ideia, defendida pelo pesquisador brasileiro Walter Neves, de que houve mais de uma leva de migração pelo estreito de Bering, sendo uma delas realizada por povos de traços africanos (veja o mapa abaixo). Para reforçar essa hipótese, Neves baseia-se no crânio de uma mulher achado em 1975 em Lagoa Santa (MG) e à qual se deu o nome de Luzia. Ela teria vivido há cerca de 11 500 anos e apresentaria características morfológicas mais próximas dos aborígines negroides da Austrália do que dos mongoloides asiáticos.

saindo da África

Entre 1 milhão e 700 mil anos atrás, o Homo erectus saiu da África, onde surgiu, e iniciou o povoamento da Ásia e da Europa. Entretanto, foi o Homo sapiens sapiens quem conseguiu ocupar – até por volta de 12 000 a.C. – todos os continentes do planeta, com exceção da Antártida. Segundo os especialistas, o Homo sapiens sapiens chegou ao Oriente Próximo e à Ásia entre 90 000 a.C. e 45 000 a.C. Do continente asiático ele teria alcançado – há cerca de 40 mil anos – a Oceania por meio de embarcações. Enquanto isso, outros grupos ocupavam a Europa e a Ásia central. Aí, levavam uma vida nômade, ou seja, deslocavam-se constantemente em busca de alimentos. Viviam da coleta de frutos e raízes e caçavam animais, como mamutes e bisões, hoje extintos.

O povoamento da América Ainda hoje, a ciência não chegou a uma explicação única a respeito de quando os primeiros humanos atingiram o continente americano. A teoria Clóvis, formulada na primeira metade do século XX, afirma que, há cerca de 15 mil anos, grupos de caçadores-coletores teriam saído do nordeste da Ásia, atravessado o estreito de Bering e chegado ao Alasca.

TEoRIa Da ocuPaÇÃo Da aMéRIca OCEANO GLACIAL ÁRTICO

Círculo Polar Ártico

120º O

OCEANO ATLÂNTICO

Trópico de Câncer

OCEANO PACÍFICO Equador

OCEANO ATLÂNTICO

0º OCEANO ÍNDICO

Trópico de Capricórnio

Grupos humanos não mongólicos Grupos humanos mongólicos

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ESCALA 3100

6200

QUILÔMETROS

Fonte: nEVES, W.; PILÓ, L. O povo de Luzia: em busca dos primeiros americanos. São Paulo: Globo, 2008.

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Marcos Hermes/Arquivo da editora

Estr. de Bering

Reconstituição da cabeça de Luzia feita na Universidade de Manchester, Inglaterra, com a ajuda de tomografias computadorizadas. A reconstrução revela uma face de traços africanos, em contraste com a dos indígenas de características mongoloides encontrados por Cabral em 1500.

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o domínio da agricultura

George Holton/Photo Researchers, Inc./Latinstock

Com o fim da Era Glacial, o clima tornou-se mais ameno e o solo, mais fértil. Grupos nômades começaram a construir suas cabanas junto a rios e lagos, onde pescavam, abasteciam-se de água, caçavam e coletavam cereais silvestres. Levados para os acampamentos, onde eram moídos e cozidos, muitos desses grãos de cereais caíam acidentalmente no solo, e é provável que as pessoas tenham percebido que, com o tempo, eles germinavam. Segundo alguns estudiosos, foi dessa maneira que o ser humano aprendeu a cultivar a terra.

Pintura rupestre em caverna da Argélia, no norte da África, datada de 4500 a.C., alusiva à criação de gado por grupos humanos do período Neolítico.

As evidências indicam que o domínio da agricultura ocorreu de forma independente em diferentes lugares do mundo. Na região de Jericó, no Oriente Médio, a agricultura teria surgido há cerca de 10 mil anos. Nessa mesma época, na América, grupos humanos já cultivavam abóboras na atual região do Equador.

Povos sedentários O domínio da agricultura provocou uma grande transformação na vida dessas populações – a ponto de ser chamado de Revolução Agrícola. Diversos povos, que antes levavam uma vida nômade em busca de alimentos, se fixaram (sedentarizaram) em determinada região e começaram também a cultivar verduras e legumes. Dessa maneira, conseguiam ter melhor controle sobre seu estoque de alimentos. A tomada de consciência dessa nova capacidade resultou em um aprimoramento das técnicas agrícolas e provocou inúmeras mudanças nos hábitos dos grupos humanos.

Com a agricultura, os seres humanos passaram a elaborar melhor seus instrumentos e utensílios de pedra. Essa mudança, à qual se acrescentou mais tarde a utilização dos metais como matéria-prima, levou os cientistas a dividir a chamada “Pré-História” em três períodos: • Paleolítico, ou Idade da Pedra * Veja o filme Lascada* – do surgimento dos Homens primeiros seres humanos até pré-históricos – 8 000 a.C. Caracterizado por ins- Vivendo entre as trumentos rústicos, não polidos. feras, Discovery Channel, 2002. • Neolítico, ou Nova Idade da Pedra – de 8 000 a.C. a 5 000 a.C. Principais características: instrumentos de pedra polida, agricultura e sedentarização. • Idade dos Metais – de 5 000 a.C. à invenção da escrita. Durante o Neolítico, o maior estoque de alimentos permitiu que algumas comunidades crescessem. Quase ao mesmo tempo que se deu o domínio da agricultura, ocorreu a domesticação de animais – cabras, ovelhas, galinhas, porcos, cavalos e bois. Com ela, alguns desses animais passaram a ser utilizados como meio de transporte, como fonte de leite, lã e esterco, além de carne para os períodos de fome (leia o texto Dos potes de cerâmicas às garrafas PET na seção Eu também posso participar, a seguir). Em quase todos os lugares, a vida sedentária e o cultivo do solo levaram ao crescimento demográfico e à formação de aglomerações humanas. Pouco a pouco, algumas dessas aglomerações se transformaram nas primeiras vilas e cidades (veja o mapa da página 23). Com o crescimento populacional, surgiram novos problemas. Sobreviver nos lugares de clima árido, por exemplo, exigia um enorme esforço coletivo. A população dessas regiões precisava construir reservatórios para garantir água nos períodos de seca, erguer diques para controlar as cheias dos rios, abrir canais para irrigar as plantações. Com uma foice de agricultor apoiada no ombro direito, esta pequena estatueta de cerâmica (25,6 cm de altura) representa uma divindade do período Neolítico. Encontrada na região do leste europeu hoje conhecida como Hungria, foi esculpida por volta de 4500 a.C. Uma máscara triangular encobre seu rosto. Os braços são ornamentados com braceletes e em seu corpo há desenhos geométricos.

Erich Lessing/Album/Latinstock

A Revolução Agrícola Capítulo 2

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Eu também

posso participar

Dos potes de cerâmica às garrafas PET

Fotos: Science/AAAS/Agência France-Presse

Uma invenção criada há milhares de anos desempenhou papel fundamental para a sobrevivência das primeiras comunidades sedentárias. Trata-se da cerâmica, técnica que consiste em modelar o barro no formato desejado e levá-lo ao fogo para secar. Os objetos de cerâmica mais antigos conhecidos foram encontrados no Oriente, onde hoje ficam o Japão e a China. São vasos e potes com cerca de 20 mil anos de existência. Porém, a cerâmica teve seu uso ampliado por volta do quarto milênio a.C. graças à introdução da roda de oleiro e dos fornos de alta temperatura. Com eles era possível produzir panelas, formas, jarros, potes, entre outros utensílios, mais resistentes e em maior quantidade. Com esses objetos, as pessoas puderam levar a comida ao fogo de forma mais adequada, o que facilitava a ingestão e o aproveitamento dos alimentos. Jarros e potes, por sua vez, se tornaram fundamentais para o armazenamento e transporte de produtos como azeite e água. A cerâmica também era usada em rituais.

Fragmentos de cerâmica encontrados na caverna de Xianrendong, no norte da província de Jiangxi, na China. Acredita-se que foi produzida em uma comunidade de caçadores-coletores há cerca de 20 mil anos, ou seja, 10 mil anos antes do desenvolvimento da agricultura. Foto de 2012.

Passados milhares de anos desde a invenção dos primeiros potes de cerâmica, um dos produtos mais utilizados atualmente para o armazenamento e transporte de líquidos são as garrafas plásticas.

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Um dos plásticos mais utilizados para esse fim é o PET (sigla para polietileno tereftalato), resina originária do petróleo com a qual se fazem embalagens recicláveis usadas principalmente para armazenar bebidas não alcoólicas, como água e refrigerantes. Foi no final dos anos 1980 que a indústria brasileira começou a produzir garrafas PET como opção leve e barata para substituir as garrafas de vidro. Lançadas nas ruas ou espalhadas nos lixões a céu aberto, essas embalagens entopem esgotos e poluem rios e mares. Muitos animais marinhos – como baleias, leões-marinhos, tartarugas – acabam confundindo essas embalagens com alimentos e morrem asfixiados ao ingeri-las. Para agravar ainda mais a situação, as garrafas PET são de difícil decomposição, levando em média cerca de cem anos para se desfazerem naturalmente. A adoção de procedimentos básicos em relação ao uso e descarte dessas embalagens no dia a dia ajuda a minimizar tal situação. Veja o que pode ser feito. • O uso mais frequente de embalagens retornáveis ajuda a reduzir a quantidade de lixo produzida. • Muitas embalagens podem ser reutilizadas. Assim, as garrafas PET podem ser transformadas em recipientes para guardar água ou em vasos. Já existem experimentos que transformam recipientes PET em paredes de casa e até mesmo um barco já foi fabricado com essas embalagens. Com ele foi possível navegar cerca de 1,5 mil quilômetros ao longo do rio São Francisco. • As embalagens PET são recicláveis e seu uso pode ser bem variado. Em 2008, o governo federal aprovou uma lei que permite às empresas utilizarem PET reciclado para embalar alimentos. Isso é possível porque já existe tecnologia capaz de limpar e descontaminar esse material. Entretanto, as empresas brasileiras ainda não têm condições de reciclar toda a quantidade de embalagens PET descartadas diariamente.

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uma liga muito mais resistente e moldável: o bronze. O ferro só veio a ser descoberto por volta de 2000 a.C. pelos chineses (veja capítulo 6), e com ele foi possível fazer ferramentas e armas mais rígidas ainda. À medida que algumas atividades e profissões assumiram maior importância, começaram a se afirmar os primeiros graus hierárquicos (pessoas que mandavam e pessoas que obedeciam) e formas iniciais de estratificação social. Alguns indivíduos, graças à autoridade moral, à capacidade de liderança ou à riqueza, passaram a ser consultados em relação a determinadas questões. Outros se destacaram como chefes guerreiros, ou seja, por sua capacidade de conduzir o grupo nos conflitos com grupos rivais. Em vários casos, essas pessoas (e os grupos sociais a que estavam ligadas) passaram a deter privilégios e poder sobre os demais, tornando-se governantes e reis. Com o crescimento das comunidades, aumentou a procura por alimentos e utensílios, intensificando-se o comércio com outros grupos. Um dos resultados desse processo foi o surgimento, há cerca de 10 mil anos, dos primeiros núcleos urbanos, como Çatal Hüyük e Jericó (veja mapa abaixo). M

Ora, isso só poderia ser feito se o grupo estivesse bem organizado e preparado para enfrentar os problemas surgidos com a sedentarização, entre os quais doenças contagiosas como sarampo, gripe e catapora, resultantes do contato com animais domésticos, ou a disenteria, provocada pelo acúmulo de dejetos. Além disso, esses grupamentos humanos sofriam com a ação de ladrões nômades, com as tempestades de areia e inundações repentinas. Tudo isso exigia melhor divisão das tarefas: enquanto algumas pessoas se responsabilizavam por obras como a construção de diques e de canais de irrigação, outras cuidavam da agricultura e da fabricação de ferramentas e utensílios. O resultado desse esforço foi um gradual avanço tecnológico, que culminou na invenção da roda, do arado de tração animal, do barco a vela e na fundição de metais, atividade iniciada por volta de 5000 a.C. Com a metalurgia tornou-se possível criar ferramentas, armas e outros utensílios do tamanho e do formato desejado. O primeiro metal a ser fundido foi o cobre, enconMar Negro trado na forma de veios no meio das rochas. Por volta de 3000 a.C., os sumérios (veja capítulo 4) descobriram que, ao misturar cobre com estanho, obtinha-se

ar

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PRIMEIRos núcleos urbanos (séculos X a.C. a III a.C.) ÁSIA MENOR Çatal Hüyük (10000 a.C.) Ugarit (3000 a.C.)

MESOPOTÂMIA

Chipre

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Damasco (5000 a.C.)

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Uruk (4000 a.C.)

Mar Morto

Mênfis (3000 a.C.)

Lagash (4000 a.C.)

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DESERTO DA ARÁBIA

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QUILÔMETROS

Fonte: Grand atlas historique. Paris: Larousse, 2006.

A Revolução Agrícola Capítulo 2

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Organizando AS IDEIAS 1. Para a maioria dos especialistas, nossa espécie se originou na África e, posteriormente, ocupou outros continentes. Descreva de que modo o gênero Homo povoou o planeta. 2. De que forma a teoria Clóvis procura explicar a ocupação humana da América? 3. Que evidências alguns cientistas utilizam atualmente para contestar a teoria Clóvis? 4. Atualmente, acostumamo-nos a separar a vida

humanos, como o aumento da produção de alimentos, graças à agricultura e à domesticação de animais. Entretanto, o sedentarismo também trouxe problemas. Identifique quais foram esses problemas. 6. A sobrevivência em ambientes de clima árido exigia um esforço coletivo das diversas aglomerações humanas que habitavam essas regiões. Como era organizado esse esforço?

urbana das atividades agrícolas. No entanto, a

7. As transformações provocadas pela agricultura e

agricultura teve papel fundamental na origem

pela formação das primeiras vilas e cidades não

das primeiras vilas e cidades. Explique quais são

afetaram apenas os hábitos alimentares e as formas

as relações entre as primeiras atividades agríco-

de moradia. Elas também influenciaram a organiza-

las e a formação de vilas e cidades.

ção social e política dos grupos humanos sedenta-

5. A passagem do nomadismo para a vida sedentária trouxe inúmeras vantagens para os grupos

rizados. Com base nessa afirmação, explique como surgiram os primeiros reis e governantes.

Hora DE REFLETIR Nos primeiros agrupamentos urbanos, a divisão de tarefas tornou-se mais definida e as descobertas tecnológicas, cada vez mais avançadas. Como vimos, essas mudanças levaram à hierarquização dos grupos sociais e à especialização dos conhecimentos. E hoje, essa especialização profissional ainda existe? Reúnam-se em grupos para discutir essa questão. Um grupo pode procurar descobrir quais são os profissionais envolvidos no processo de produção e comercialização do “pãozinho” que chega à nossa mesa todos

os dias. Outro pode se encarregar da produção de macarrão, do preparo de uma macarronada e de seu consumo em um restaurante. Um terceiro pode pesquisar o cultivo e a comercialização de tomates, ou o processo de produção de frangos, desde sua criação em granjas até sua venda em um supermercado, e assim por diante. Para terminar, montem painéis com desenhos e esquemas para explicar à classe as etapas e os profissionais envolvidos na fabricação, venda e consumo desses e de outros produtos.

Mundo virtual 

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Museu de Arqueologia e Etnologia (USP) – Página do museu da Universidade de São Paulo, que contém um rico e diversificado acervo arqueológico e etnológico. Além de navegar pelo acervo, é possível se informar sobre ações educativas. Disponível em: <www.mae.usp.br/>. Acesso em: 2 dez. 2012. Archnet – Coleção de links de sites de arqueologia do mundo todo. Faça a busca a partir do mapa (site em inglês). Disponível em: <http://archnet.asu.edu/default.php>. Acesso em: 2 dez. 2012.

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Capítulo 3

Nossos mais antigos ancestrais Objetivos do capítulo Leonardo Papini / Getty Images

Elver Luiz Mayer/Laboratório de estudos evolutivos do depto. de Biologia do Instituto de Biociências da USP, São Paulo.

Estudos recentes ampliam ainda mais o debate a respeito de como se deu o processo de povoamento do continente hoje conhecido como América. Pesquisadores encontraram na Colômbia 74 crânios humanos com idades que variam de 3 mil a 11 mil anos. O que chamou a atenção dos cientistas é que muitos desses crânios apresentam semelhanças morfológicas com o crânio de Luzia. Como vimos no capítulo anterior, Luzia é o fóssil humano mais antigo da América, com cerca de 11 500 anos. Encontrado em Minas Gerais, seus traços morfológicos são mais semelhantes aos dos aborígines australianos e africanos atuais do que aos dos indígenas encontrados pelos europeus na América.

Apresentar aos alunos algumas das culturas que se desenvolveram em regiões que pertencem ao atual território brasileiro no período anterior à chegada dos portugueses. Ampliar a noção de sítio arqueológico, conhecendo vestígios, novas descobertas, pesquisas recentes.

A descoberta dos crânios colombianos sugere que esse grupo tenha permanecido no continente hoje conhecido como América por quase 8 mil anos, tendo convivido com as populações de mongoloides que teriam chegado depois. Essas populações de mongoloides asiáticos são os ancestrais dos atuais povos indígenas brasileiros. Neste capítulo conheceremos um pouco mais algumas das primeiras culturas indígenas que floresceram em regiões que integram hoje o território brasileiro.

Crânio encontrado no sítio arquelógico Abrigo del Tequendama I, na Colômbia. Com cerca de 11 mil ou 10 mil anos, esse fóssil, assim como outros encontrados na mesma região, apresenta semelhanças com o crânio de Luzia, encontrado no Brasil e datado de 11,5 mil anos atrás (veja a foto e o texto sobre Luzia no capítulo 2, página 20).

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Um século depois de Lund, os pesquisadores já identificaram cerca de 20 mil diferentes sítios arqueológicos pré-históricos no Brasil, nos quais foram encontrados objetos de pedra e cerâmica, esculturas e restos de alimentos de milhares de anos. Esses vestígios ajudam a reconstituir hábitos e costumes dos primeiros ocupantes de nosso território (uma das mais importantes fontes desses estudos são as pinturas rupestres, como veremos na seção Olho vivo, na página 28).

Os primeiros ocupantes

Em 1825, o naturalista dinamarquês Peter Lund mudou-se para o Brasil, onde residiu até morrer, em 1880. Entre 1834 e 1844, ele se estabeleceu na aldeia de Lagoa Santa, em Minas Gerais, e começou a estudar as cavernas da região. Nesse local, encontrou mais de 12 mil fragmentos de ossos fossilizados de animais, além de alguns fósseis humanos, conservados durante milhares de anos. Ao analisar o material, Lund descobriu que muitos desses ossos pertenceram a espécies extintas, como o megatério, um bicho-preguiça de até sete metros de comprimento. Constatou, ainda, que seres humanos conviveram com esses animais gigantescos e que a presença humana em nosso território era muito mais antiga do que se imaginava na época.

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Sítios arqueológicos

A maior concentração de sítios arqueológicos no Brasil encontra-se no Parque Nacional da Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato, Piauí (veja mapa abaixo). Com mais de setecentos sítios, o local é considerado Patrimônio Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas (ONU).

01_m02_HSBgA

PRINCIPAIS SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS NO BRASIL 55º O

OCEANO ATLÂNTICO Murumuru

Equador Moura

Serra da Lua

Flechal

I. de Marajó

Taperebá

Pedra Pintada Pedra do Letreiro

Mundurucus

Angicos Tapera

Serra da Capivara

Tracoa Molim

Brejinho

Paulista

Serra das Lages

Marcelândia

Gerais Barro Alto Retiro Acuri

Vale do Peruaçu

Araguainha

OCEANO PACÍFICO

Unaí Lagoa Santa

Paraíso

Colatina

Rio Claro Ribeirão das Antas

órnio de Capric Trópico

Piraju

Lagoa Salgada

Rosatto Rio Parati Guatambu Palmito

0

ESCALA 390

780

QUILÔMETROS

LEGENDA Limites atuais

Floriano Fonseca

Sítios arqueológicos Sambaquis

Fonte: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), 2009.

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Ricardo Azoury/Pulsar Imagens

Parte do acervo do Museu Arqueológico da Lapinha em Lagoa Santa, Minas Gerais. Foto de 2011.

De todos os sítios da região, o mais antigo e importante é o Boqueirão da Pedra Furada, onde foram encontrados vestígios que, segundo alguns pesquisadores, indicam a presença humana no local há cerca de 50 mil anos.

Lagoa Santa A região de Lagoa Santa, em Minas Gerais, é outro dos principais sítios arqueológicos do país. Aí foi encontrado o crânio de Luzia (veja o capítulo 2), além de machados de pedra. Também é antiga a presença humana no Vale do Peruaçu, no alto São Francisco (MG). Pesquisas indicam que esse lugar começou a ser ocupado há aproximadamente 11 mil anos.

As tradições Umbu e Humaitá Entre 9500 a.C. e 1500 d.C., aproximadamente, os campos da região Sul do país e do estado de São Paulo foram ocupados por grupos da tradição Umbu. Exímios fabricantes de instrumentos de pedra, eles difundiram duas grandes inovações tecnológicas: o arco e flecha e as boleadeiras, arma de caça ainda hoje utilizada nos pampas gaúchos. Formadas por duas ou três bolas de pedra amarradas em tiras de couro, elas eram arremessadas contra as pernas do animal caçado, de modo a imobilizá-lo. Os povos da tradição Humaitá viveram na mesma região. Inicialmente, dividiram alguns espaços com os povos da tradição Umbu. Mais tarde, trocaram os campos pelas matas, preferindo as partes altas ou as encostas. Fabricavam instrumentos de pedra e, além

dos produtos da caça e da pesca, alimentavam-se de pinhão, que assavam, cozinhavam, ou transformavam em farinha para o fabrico de pães e bolos.

Os sambaquis Acredita-se que entre 7 mil e 6 mil anos atrás, o litoral brasileiro começou a ser ocupado por povos que viviam principalmente de recursos marinhos. Como dispunham de comida abundante – proveniente da caça, da pesca e da coleta de frutas, raízes e moluscos –, não precisavam mudar com frequência de um lugar para outro e acabavam permanecendo por muito tempo na mesma região. Um de seus costumes era guardar as conchas dos moluscos coletados e empilhá-las juntamente com restos de comida, ossos de animais e ferramentas. Aos poucos, essas pilhas se transformaram em elevações, algumas com mais de 20 metros de altura. São os sambaquis (palavra tupi que quer dizer ‘amontoado de mariscos’), também chamados de concheiros. Nessas elevações, as pessoas construíam suas moradias e enterravam seus mortos. Os sambaquis são encontrados em trechos do litoral brasileiro, do Rio Grande do Sul até a Bahia, e do Maranhão até o Pará (veja mapa na página 26). O sambaqui mais antigo do Brasil fica no Vale do Ribeira, no interior de São Paulo. Nessa região, cientistas encontraram em 2001 a ossada de um homem que viveu há cerca de 9 mil anos. Os povos dos sambaquis desapareceram por volta de 1500.

Povos da Amazônia e de Marajó Pesquisas arqueológicas comprovam que a região amazônica já era habitada por povos caçadores-coletores há cerca de 12 mil anos. Por volta de 2000 a.C., alguns desses povos começaram a praticar a agricultura e a arte da cerâmica. Entre os anos 1000 a.C. e 1000 d.C., surgiram na região sociedades mais complexas, com uma organização social hierárquica e um artesanato altamente desenvolvido. O centro de uma dessas sociedades parece ter se estabelecido nas proximidades da atual cidade de Santarém, no Pará, às margens do rio Tapajós. É a chamada cultura tapajônica, que se caracterizou por sua produção de objetos de cerâmica, como estatuetas, cachimbos, vasos e urnas decoradas com representações de animais ou pessoas. Os pesquisadores acreditam que esses objetos eram utilizados em cultos e cerimoniais religiosos. Nossos mais antigos ancestrais Capítulo 3

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Olho vivo

Luta gravada na rocha

As inscrições rupestres são um dos mais belos e importantes vestígios deixados pelos paleoíndios que viveram em regiões que hoje fazem parte do território brasileiro. Encontradas em superfícies rochosas, como paredes de grutas, cavernas e lajeados, essas imagens muitas vezes representam animais, cenas de caça, de luta ou de dança. Muitos desses registros são também grafismos (figuras geométricas ou sinais), cujos significados nos são desconhecidos. Em geral, as inscrições rupestres eram feitas com base em três técnicas: a pintura, caracterizada pela preparação de uma tinta líquida composta de pigmentos minerais (como o óxido de ferro) misturados com água e gorduras vegetais e animais e aplicada sobre a parede com os dedos e com instrumentos finos de madeira ou espinhos; o desenho, que consistia em aplicar pigmentos brutos (como o carvão, urucum e jenipapo) diretamente sobre a rocha; e a gravura, ou seja, desenhos em baixo-relevo feitos com o auxílio de ferramentas. Esses dois arcos não fazem parte da cena da luta. Os arqueólogos chamam isso de intrusão, pois, em um mesmo espaço pictórico, outro autor, com características culturais diferentes, alterou uma pintura já existente. Repare que o desenho dos arcos tem características diferentes do dos guerreiros: o traço é mais grosso e a cor, mais escura.

Esse espaço não pintado pode ser dividido por uma linha oblíqua imaginária. Ele separa os adversários em dois grupos e dá ao espectador uma impressão de profundidade. O uso desse procedimento técnico permite supor que quem fez o desenho tinha domínio da utilização do espaço e das técnicas de composição cenográfica.

Guerreiros atingidos por lanças.

Lança arremessada em direção a um inimigo.

Guerreiros adversários em confronto corpo a corpo.

Figura antropomórfica, com traços essenciais de um ser humano. Esse desenho não tem relação com a cena da luta. Pode representar um espírito, uma divindade ou mesmo um animal que assumiu aparência humana.

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Niède Guidon/ Acervo da fotógrafa

No Brasil, as pinturas rupestres mais antigas são as da serra da Capivara, no Piauí, produzidas há cerca de 23 mil anos, segundo alguns estudiosos. A foto desta seção, tirada em um lugar da região conhecido como Toca da Extrema II, registra desenhos produzidos ao longo de milhares de anos. A imagem central mostra uma cena de luta desenhada em um estilo que os arqueólogos chamam de Tradição Nordeste. Esse estilo vigorou na região entre 12 mil e 6 mil anos atrás. Porém, como veremos a seguir, nem todos os desenhos observados na foto fazem parte da cena da luta ou pertencem à Tradição Nordeste, indicando, dessa maneira, que foram produzidos em diferentes momentos e por grupos humanos distintos.

Muitas vezes, nas cenas de luta, as armas são desenhadas ao lado dos guerreiros. São atributos informando que aquele indivíduo é um guerreiro.

Cervídeo. Os veados são um dos animais mais representados nas inscrições rupestres do Brasil. O cervo desenhado, contudo, não faz parte da cena da luta. Provavelmente foi pintado em outro momento.

Grafismos cujo significado é desconhecido. Não fazem parte da cena da luta.

Fontes: Entrevista com Anne-Marie Pessis, concedida aos autores em 10 dez. 2008; PESSIS, Anne-Marie. Imagens da Pré-História. Parque Nacional Serra da Capivara: FUMDHAM/Petrobras, 2003; PROUS, André; RIBEIRO, Loredana; JORGE, Marcos. Brasil rupestre. Arte pré-histórica brasileira. Curitiba: Zencrane Livros, 2007.

Nossos mais antigos ancestrais Capítulo 3

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Renato Soares/Acervo do Museu Parense Emílio Goeldi. Belém, PA.

População sedentária do alto Xingu Vestígios de antigas populações indígenas encontrados no alto Xingu, no norte de Mato Grosso, estão derrubando a tese de que no passado os povos indígenas da Amazônia estavam organizados em aldeias de no máximo cem pessoas e de que seus integrantes se deslocavam de um lugar para outro sempre que a comida escasseava. Estudos recentes revelam que, entre 1200 e 1600, a região do alto Xingu foi habitada por uma sociedade de estrutura mais sofisticada do que se imaginava. Há indícios de que a região chegou a abrigar 19 aldeias de formato circular, interligadas umas às outras por meio de estradas retilíneas de terra batida. Essas estradas mediam de 3 a 5 quilômetros de extensão e tinham de 10 a 50 metros de largura. Dotadas de praças, pontes e represas, as maiores aldeias eram protegidas por fossas de até 5 metros de profundidade e por muros de paliçadas. Ao redor delas, havia um cinturão agrícola com produtos cultivados na fértil terra preta (sobre a terra preta, veja o boxe na página 31). De acordo com os cientistas, a população dessas aldeias variava de 2 500 a 5 mil pessoas. Essa concentração populacional é, segundo os especialistas, típica de uma sociedade sedentária com algum grau de divisão social hierárquica. O sítio arqueológico do alto Xingu ocupa uma área de aproximadamente 400 km2 e está localizado nas proximidades das atuais aldeias dos povos Kuikuro. Os cientistas trabalham com a hipótese de que os Kuikuro sejam herdeiros culturais desses antigos habitantes do alto Xingu.

Recipiente de cerâmica em forma de jacaré da cultura tapajônica (10000 a.C.-1000 d.C.).

Há cerca de 3 500 anos, grupos de agricultores começaram a colonizar a ilha de Marajó, na foz do rio Amazonas. Aí, por volta do ano 200, surgiu a mais notável cultura amazônica do período anterior à chegada dos europeus no Brasil: a civilização marajoara. Para escapar das enchentes, os marajoaras erguiam elevações – os tesos – às margens dos rios, sobre as quais construíam suas habitações. Além de agricultores, eram também especialistas na fabricação de objetos de cerâmica. Um terceiro sítio arqueológico importante no Pará é o de Pedra Pintada, no município de Monte Alegre. Pesquisas recentes revelaram nesse sítio a presença de grupos humanos há cerca de 11 200 anos.

Por volta de 3500 a.C., desenvolveu-se no Sul e no Sudeste uma cultura de agricultores e ceramistas conhecida como povo de Itararé. Esses paleoíndios se instalaram em planaltos a mais de 800 metros acima do nível do mar, em regiões frias. Para se abrigar, eles construíam suas habitações abaixo do solo. Para isso, escavavam buracos de até 8 metros de profundidade e 20 metros de diâmetro. Depois, cobriam-nos com um teto feito provavelmente de madeira, argila e gramíneas. As habitações se comunicavam entre si por meio de túneis, onde também ficavam guardados alimentos e certos objetos, como vasos de cerâmica.

Pedro Biondi/ABR

Paleoíndios do Sul e do Sudeste

Aldeia Kuikuro no Parque Indígena do Xingu, em foto de agosto de 2007.

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A terra preta A terra preta é um solo de coloração escura, extremamente fértil, que, em certos sítios arqueológicos, aparece misturado a restos de material arqueológico, como cerâmicas, carvão e artefatos líticos (ou seja, de pedra). Ela é encontrada na Amazônia, normalmente em terra firme, próxima às margens dos rios. As áreas de terra preta costumam ter de dois a seis hectares, mas há casos em que chegam a até 280 hectares. Em geral, a camada de terra preta colocada sobre o solo tem de 30 cm a 60 cm de profundidade. Em alguns lugares, porém, pode chegar a 2 m. A população que vive às margens dos rios utiliza a terra preta para a agricultura com excelentes resultados. Uma das razões da alta fertilidade dessa terra é que ela tem mais fósforo, cálcio, enxofre, carbono, magnésio e nitrogênio do que a maior parte dos solos das florestas tropicais. Esses elementos são fundamentais para o crescimento das plantas.

Até a década de 1980, acreditava-se que a terra preta teria se formado naturalmente ao longo do tempo. Hoje, cada vez mais os pesquisadores se convencem de que a terra preta teria surgido como resultado do manejo do solo praticado pelas populações humanas que viveram na região amazônica cerca de mil anos atrás. Com esse manejo, os paleoíndios da região pretendiam melhorar a qualidade da terra para cultivar seus alimentos, uma vez que o solo amazônico não é suficientemente rico em nutrientes para esse tipo de plantação. Entretanto, embora os cientistas estejam estudando a terra preta há décadas, até hoje não se sabe como ela era produzida. Fontes: PIVETA, Marcos. A luz que o homem branco apagou. Disponível em: <http://revistapesquisa2.fapesp. br/?art=2281&bd=1&pg=1&lg=>. Acesso em: 2 ago. 2012; Solos de terra preta podem ser solução para a agricultura na Amazônia. Disponível em: <www.museu-goeldi.br/ destaqueamazonia/tpa.htm>. Acesso em: 2 ago. 2012; MANN, Charles. 1491: novas revelações das Américas antes de Colombo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.

Organizando AS IDEIAS 1. O naturalista dinamarquês Peter Lund é considerado o mais importante pioneiro da arqueologia brasileira. Por que seu trabalho foi relevante para o estudo de nossos paleoíndios? 2. O passado dos povos que viviam no atual território brasileiro antes da chegada dos europeus pode ser conhecido por meio de vestígios encontrados pelos arqueólogos. Quais são os tipos de vestígios mais importantes para esse tipo de pesquisa?

5. Indique, separadamente, quais são as principais características dos povos de tradição Umbu e dos povos de tradição Humaitá. 6. Os grupos humanos que, segundo as pesquisas atuais, chegaram ao litoral brasileiro entre 7 mil e 6 mil anos atrás são denominados de “povos dos sambaquis”. O que são os sambaquis e para que serviam?

3. Os mais antigos habitantes do território brasileiro são chamados pelos pesquisadores de paleoíndios. Descreva como esses povos viviam.

7. A região amazônica já era habitada há cerca de 12 mil anos por povos caçadores-coletores. Por que podemos afirmar que esses povos constituíram sociedades complexas?

4. Aponte as principais características e a importância dos sítios arqueológicos da serra da Capivara e da região de Lagoa Santa.

8. Qual foi a solução encontrada pelo povo de Itararé para se proteger do frio nas regiões que habitavam?

Nossos mais antigos ancestrais Capítulo 3

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Interpretando DOCUMENTOS pelos paleoíndios que viveram na região milhares de anos atrás. Observe as inscrições fabricadas na pedra e responda às questões. 1. Procure identificar o significado das figuras representadas na pedra. 2. Levante hipóteses sobre os motivos que teriam levado os habitantes da região a inscrever essas figuras na pedra. Germano Luders/Arquivo da editora

Dos quase 20 mil sítios arqueológicos já identificados no Brasil, apenas seis são tombados como patrimônio arqueológico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Um deles localiza-se na cidade de Ingá, na Paraíba, a cerca de 100 quilômetros da capital, João Pessoa. Conhecido como Pedra do Ingá, trata-se de um bloco de pedra com 24 metros de comprimento e 4 de altura, repleto de gravuras em baixo-relevo chamadas de itacoatiara. Essas inscrições foram feitas

Inscrições pré-históricas em pedra do sítio arqueológico de Ingá, na Paraíba, em foto de 1996.

Hora DE REFLETIR Observe a imagem acima e a pintura rupestre reproduzida nas páginas 28-29. Com base nessas figuras e no que você já aprendeu sobre o tema, levante hipóteses sobre os significados das pinturas

em cavernas. Em sua opinião, por que os seres humanos produziam essas pinturas? Quais eram seus objetivos? O que pretendiam com elas? Escreva no caderno um texto justificando suas hipóteses.

Mundo virtual 

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Museu do Homem Americano – O site traz informações sobre as pesquisas arqueológicas na serra da Capivara. Disponível em: <www.fumdham.org.br>. Acesso em: 10 out. 2012. Arqueologia Brasileira – Site com diferentes informações sobre as descobertas arqueológicas no país. Disponível em: <www.itaucultural.org.br/arqueologia>. Acesso em: 10 out. 2012.

Unidade 1 A força do conhecimento e da criatividade

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Fechando a unidade

A força do conhecimento e da criatividade Erich Lessing/Album/Album Art/Latinstock

DOCUMENTO 3 – Obra de arte

Vaso de cerâmica da sociedade assíria, encontrado nas ruínas da cidade de Nínive e datado entre 700 e 612 a.C.

Arthur Bispo do Rosário/Arquivo da editora

Still Images/Photographer’s Choice/Getty Images

DOCUMENTO 2 – Garrafas PET

DOCUMENTO 1 – Vaso de cerâmica

Erich Lessing/Album/Album Art/Latinstock

No curso da história da humanidade, as pessoas têm produzido objetos com as mais variadas intenções: machados de pedra, roupas para protegê-las do frio, utensílios domésticos, casas para abrigá-las, textos literários, peças musicais, obras de arte, documentos oficiais que evidenciam a organização do poder, etc. Nas mãos do historiador, esses e outros registros da atividade humana se transformam em evidências de como determinada sociedade, ou grupo de pessoas, vivia e se organizava. Por isso, eles são chamados de documentos históricos. Observe os objetos a seguir e responda ao que se pede.

Garrafas de plástico (PET) de várias formas e tamanhos, em foto de 2008.

Descendente de africanos escravizados, Arthur Bispo do Rosário (1909-1989) é um importante nome das artes plásticas no Brasil. Sua obra foi produzida no decorrer dos cinquenta anos que passou em um manicômio no Rio de Janeiro, internado com diagnóstico de problemas mentais. Em alguns de seus trabalhos, ele utilizava objetos novos e usados com o objetivo estético de criar obras de arte. É o caso da obra ao lado.

Vinte garrafas, vinte conteúdos, obra de Arthur Bispo do Rosário.

Reflita e responda 1. Os objetos que aparecem nos documentos 1 e 2 foram produzidos com uma diferença de milhares de anos. Que aspectos em comum e que diferenças existem entre eles? O conhecimento que os produziu é o mesmo? Justifique sua resposta. 2. Feita há milhares de anos, a vasilha de cerâmica (documento 1) foi produzida com a finalidade de armazenar líquidos. Hoje, podemos considerá-la um “utensílio” ou “artefato” arqueológico. E a garrafa de plástico também pode ser considerada um artefato arqueológico? De que modo o conhecimento histórico pode se interessar por esse tipo de objeto? Justifique sua resposta. 3. Em relação à obra Vinte garrafas, vinte conteúdos, de que maneira a criatividade do artista plástico Arthur Bispo do Rosário transformou o significado e a função das garrafas plásticas? Qual o sentido novo atribuído ao objeto criado pelo artista? 4. Em sua opinião, o conhecimento e a criatividade humana têm sido utilizados para melhorar as condições de vida nas sociedades modernas? Ou eles também contribuem para trazer novos problemas? Justifique sua resposta e cite exemplos para fundamentá-la.

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Unidade

Peter Parks/Agência France-Presse

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A urbanização

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Tan Jin/Xinhua/Newsteam/Getty Images

ivemos em um mundo cada vez mais urbanizado. Hoje, mais da metade dos 7,1 bilhões de habitantes do planeta vive em cidades, algo bem diferente de meio século atrás, quando somente um terço da população do mundo era urbana. Em 1950, apenas 86 cidades tinham mais de 1 milhão de habitantes. Hoje são quatrocentas e, de acordo com as previsões da Organização das Nações Unidas (ONU), até 2025 serão quinhentas. A maioria encontra-se em países pobres ou em desenvolvimento, como Índia, China, Bangladesh e Brasil (veja tabela na página ao lado sobre o movimento populacional das maiores cidades do mundo). A concentração demográfica nesses países acentua suas desigualdades econômicas e sociais. Isso se manifesta das mais diversas formas: falta de moradias e de saneamento básico para a população pobre, marginalidade, desemprego, prostituição infantil, violência, poluição, etc. Entretanto, os problemas das cidades têm solução, e muitas delas podem estar em nossas mãos. Quando escolhemos vereadores e prefeitos honestos e competentes, por exemplo, colaboramos para a melhoria de nossa cidade. Além disso, no nosso dia a dia podemos discutir os problemas da comunidade e apresentar propostas para sua solução em associações de bairro e outras organizações populares. Também é importante preservar e cuidar do patrimônio público, evitando sujar ou danificar praças, escolas, bibliotecas, etc. Morar em cidades significa, antes de tudo, saber viver em coletividades, ter respeito pelos outros e pelas regras de convivência. Como veremos nesta unidade, foi graças à preocupação com o coletivo que, há milhares de anos, surgiram as primeiras cidades e as primeiras grandes civilizações. Agricultor puxa feixe de palha no município de Huzhou, na China. Em 2007, a população urbana mundial tornou-se maior que a população rural, evidenciando o crescente processo de urbanização das sociedades. Foto de 2011.

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Vista de Xangai na extensão do rio Huangpu. Foto de janeiro de 2011.

Alex Argozino/Arquivo da editora

CIDADES MAIS POPULOSAS

1975 10º 1º

6 6º

5º 7º

2007 2º 6º

4ºº 4

9º 8ºº

5º 10º

2025 7º

10 10º 3º

2 2º

4ºº 8ºº

Posição 1º 2º 3º 4º 5º 6º 7º 8º 9º 10º

Cidade Tóquio Nova York Cidade do México Osaka-Kobe São Paulo Los Angeles Buenos Aires Paris Calcutá Moscou

País Japão EUA México Japão Brasil EUA Argentina França Índia Fed. Russa

Posição 1º 2º 3º 4º 5º 6º 7º 8º 9º 10º

Cidade Tóquio Nova York Cidade do México Mumbai São Paulo Nova Délhi Xangai Calcutá Daca Buenos Aires

País Japão EUA México Índia Brasil Índia China Índia Bangladesh Argentina

Posição 1º 2º 3º 4º 5º 6º 7º 8º 9º 10º

Cidade Tóquio Mumbai Nova Délhi Daca São Paulo Cidade do México Nova York Calcutá Xangai Karachi

País Japão Índia Índia Bangladesh Brasil México EUA Índia China Paquistão

População* 26,615 15,880 10,690 9,844 9,614 8,926 8,745 8,558 7,888 7,623

35,676 19,040 19,028 18,978 18,845 15,926 14,987 14,787 13,485 12,795

36,400 26,385 22,498 22,015 21,428 21,009 20,628 20,560 19,412 19,095 (* em milhões de habitantes)

Fonte: UNITED NATIONS. Department of Economic and Social Affairs. Population Division (2008). World Urbanization Prospects. The 2007 Revision. Highlights, United Nations Working Paper n. ESA/P/WP/205.

COMEÇO DE CONVERSA 1. A vida nas cidades proporciona espaços sociais e momentos de participação coletiva bastante diversificados. De que maneira você participa desses espaços sociais da sua cidade? Quais são os outros moradores da cidade que você encontra? Que atividades realizam? 2. Na sua opinião, quais são as cinco maiores qualidades da sua cidade? E os cinco grandes problemas? Aponte possíveis soluções para eles. 35

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Capítulo 4

Povos da Mesopotâmia Objetivos do capítulo Mohammed Ameen/Reuters/Latinstock

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Eufrates, no Oriente Médio. Aí viveram diversos povos, como os sumérios, os assírios e os hititas (veja o mapa na página a seguir). Neste capítulo conheceremos alguns desses povos e o rico legado deixado por eles, entre os quais a invenção da escrita.

Peter Horree/Alamy/Other Images

Em 2007 ocorreu um fato inédito na história da humanidade: pela primeira vez, o número de habitantes das cidades igualou-se ao das áreas rurais. Antes, a porcentagem de pessoas que viviam no campo era maior. Para ter uma ideia, em 1950 apenas 29% da população mundial residia nas cidades. Segundo previsões da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2030 essa proporção chegará a 60%. Viver em cidades é algo que o ser humano faz há mais de 10 mil anos. As primeiras entre elas eram na verdade pequenas aldeias que cresceram pouco a pouco. Foram erguidas na região do Mediterrâneo oriental e na Mesopotâmia, localizada entre os rios Tigre e

Apresentar os principais aspectos do processo de organização e desenvolvimento das sociedades mesopotâmicas. Explicitar o conceito de cidade-Estado. Explicar o surgimento da escrita em diferentes lugares, com destaque para a escrita cuneiforme. Apresentar algumas características sociais, políticas e econômicas dos principais povos que se estabeleceram em diferentes períodos na Mesopotâmia, assim como as inovações tecnológicas introduzidas por eles.

O Museu Metropolitano de Arte de Nova York abriga em seu acervo estas esculturas, retiradas da região do atual Iraque. No passado, elas adornavam a porta de entrada do palácio de Assurbanipal II, governante da Assíria entre 884 a.C. e 859 a.C. Foto de 2012.

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As cidades-Estado

A Mesopotâmia fazia parte de uma região onde hoje se encontram o Iraque, o Kuwait, a Síria e o sul da Turquia, no Oriente Médio (veja o mapa abaixo). No passado, ela formava com o Egito um arco semelhante à lua em quarto crescente. Devido a isso, e também à qualidade de suas terras, ótimas para a agricultura, esse arco ficou conhecido como Crescente Fértil. Mesopotâmia é uma palavra de origem grega, que significa “entre rios”. Esse território foi assim chamado por se localizar em um vale entre dois grandes cursos de água: os rios Tigre e Eufrates. O território que no passado era conhecido como Mesopotâmia é formado basicamente por uma planície ora desértica, ora pantanosa, com temperaturas que podem chegar a 50 graus à sombra. Foi aí que, há milhares de anos, povos como os sumérios, acadianos, hititas, babilônios, assírios e caldeus se fixaram em aldeias e passaram a viver da agricultura. Algumas dessas aldeias cresceram pouco a pouco e, por volta de 4000 a.C., haviam se transformado em cidades autossuficientes e autogovernadas. Em muitas delas, os governantes passaram a controlar, além do poder político, também o religioso. A autoridade desses soberanos, contudo, ficava quase sempre restrita à sua cidade. É por isso que os historiadores caracterizam tais centros urbanos como cidades-Estado.

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Os sumérios foram os primeiros povos a se estabelecer na Mesopotâmia. Estudos arqueológicos e linguísticos indicam que eles teriam vindo da Ásia centro-ocidental e se fixado no extremo sul da Mesopotâmia por volta de 4 000 a.C. Aí, a ação dos rios Tigre e Eufrates ao longo dos séculos deixara o solo ideal para a agricultura (veja a seção Eu também posso participar). Algumas das cidades mais antigas do mundo foram erguidas nessa região. Com o crescimento da população e a diversificação das atividades, surgiam novos ofícios – como os de comerciante, cesteiro, pastor, marceneiro, etc. Essas atividades eram administradas por funcionários a serviço do governante. Para isso, cuidavam da contabilidade, ou seja, do controle sobre as operações comerciais e sobre os tributos. Eles criaram formas de notação que, por volta de 4000 a.C., levaram à invenção da escrita cuneiforme (veja adiante o boxe A escrita na Mesopotâmia). A partir do ano 3000 a.C., diversas cidades se constituíram no sul da Mesopotâmia, entre elas Eridu, Ur, Nippur e Uruk (veja o mapa abaixo). Todas eram pequenos Estados autônomos governados pelo patesi, líder político, religioso e militar, uma espécie de rei. Além de terem inventado um tipo de escrita, os sumérios foram responsáveis por importantes conquistas da humanidade, como a invenção do arado de cobre, o uso da força animal na agricultura e a construção de diques e canais para levar água a regiões distantes dos rios. Eles estabeleceram tamMESOPOTÂMIA NA ANTIGUIDADE bém a divisão do ano em 12 meses, da hora em 60 minu38º TURQUIA Mar tos e do círculo em 360 graus; Cáspio criaram o mais antigo sisteNínive MEDOS ASSÍRIOS ma numérico da História, com Rio Eu base em sessenta símbolos, e 35º Assur s SÍRIA um calendário formado por Chipre IRÃ LÍBANO meses lunares de 28 dias, que Mar Mediterrâneo IRAQUE BABILÔNIOS Nippur lhes permitia prever com basPERSAS Babilônia ISRAEL Uruk CALDEUS tante exatidão o melhor moSUMÉRIOS Eridu Ur JORDÂNIA mento de semear e colher. EGITO KUWAIT ARÁBIA Atribui-se a eles, ainda, a inGolfo SAUDITA Pérsico venção do vidro e da roda. Ma

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A civilização suméria

Região aproximada da Mesopotâmia Limites atuais

Fonte: GRAND atlas historique. Paris: Larousse, 2006.

Povos da Mesopotâmia Capítulo 4

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Eu também

posso participar

Os rios desempenharam papel fundamental no surgimento das primeiras civilizações. Além de serem utilizados para o transporte de pessoas e mercadorias, eles asseguravam a sobrevivência da população ao garantir o abastecimento de peixes e água potável. Na região da Mesopotâmia e do Egito, quando os rios transbordavam, as águas fertilizavam suas margens, proporcionando assim um solo ideal para a prática da agricultura. As enchentes, porém, ao mesmo tempo que deixavam o solo bom para o plantio, podiam provocar prejuízos, alagando casas e destruindo plantações. Diante desses problemas, a população teve de se organizar e construir coletivamente diques e canais para conter as inundações e irrigar as terras cultiváveis. Os sumérios, por exemplo, conseguiram transformar diversas regiões do deserto em áreas férteis desviando a água de alguns rios da Mesopotâmia, entre eles o Eufrates. Passados muitos séculos, a água continua sendo essencial para a vida na Terra. Mas a água potável é um recurso natural finito. De toda a água existente no mundo, somente 2,5% são constituídos por água doce (os outros 97,5% são de água salgada, imprópria para o consumo). Desse percentual, apenas 0,3% correspondem a rios e lagos. O restante da água doce se encontra em lençóis freáticos, geleiras ou coberturas de neve permanente. Assim, de toda a água que existe no mundo, apenas uma pequena fração está disponível para o consumo humano. Fatores como a poluição, a urbanização e a industrialização descontroladas, o desperdício e a distribuição desigual transformaram a água em recurso escasso e não renovável. Hoje, de cada cinco pessoas no mundo, uma sofre algum tipo de problema resultante da escassez de água. Reverter esse processo é um dos grandes desafios de nosso tempo. Evitar uma crise mundial de abastecimento e assegurar o acesso à água tanto para as gerações do presente quanto para as do futuro são ações que não dependem só do poder público, mas também das empresas e das pessoas em geral. Para evitar essa crise anunciada, algumas medidas simples podem ser adotadas no dia a dia:

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David Turnley/Corbis/Latinstock

Água: fonte da vida em perigo

Até 1960, a grande extensão de areia escura que aparece na foto esteve coberta pelas águas do mar (ou lago) de Aral, entre as repúblicas do Casaquistão e do Usbequistão, que faziam parte da ex-União Soviética. O mar de Aral era, por essa época, alimentado por dois rios que atravessam a região. A partir de 1960, o governo da então União Soviética começou a desviar as águas desses rios para projetos de irrigação. Passadas algumas décadas, o grande lago perdeu 80% de sua superfície e boa parte dele se transformou em um deserto, como mostra esta foto de 1990.

• O vaso sanitário é responsável por um terço de toda a água consumida nas residências. Usá-lo como lixeira ou acionar a descarga sem necessidade gera consumo desnecessário de água. Os vazamentos também produzem grande desperdício de água. • Escovar os dentes, fazer a barba ou ensaboar as mãos com a torneira aberta consome em média 11 litros de água. Com a torneira fechada gasta-se somente meio litro. • Algumas medidas ajudam a diminuir o consumo de água durante o banho: ligar o chuveiro apenas quando estiver sem roupa, desligá-lo enquanto se ensaboa e não tomar banhos com mais de 10 minutos de duração. • A água da máquina de lavar roupas pode ser reutilizada para lavar o chão ou o quintal. E varrer o quintal e a calçada antes de lavá-los ajuda a economizar água. • Usar regadores ou baldes para regar plantas e jardins ou para lavar o carro gasta menos água do que fazer essas atividades com uma mangueira.

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Diálogos A Organização das Nações Unidas (ONU) recomenda que cada habitante consuma no máximo 110 litros de água por dia. Em grupo, faça uma pesquisa sobre a média de consumo de água de sua casa. Traga a última conta de água recebida e calcule o consumo médio diário de

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O Primeiro Império Mesopotâmico

Enquanto os sumérios dominavam o sul, a região central da Mesopotâmia era ocupada por povos de origem semita, como assírios e acadianos. A partir

sua família. Compare com o consumo de seus colegas de grupo e, juntos, produzam um gráfico com os seguintes dados: média de consumo das famílias; residências que estão de acordo com a recomendação da ONU; economia (em porcentagem) que deve ser feita para que as famílias consumam de acordo com as recomendações.

de 2350 a.C., o rei da cidade de Acad, Sargão, unificou sob seu governo não só as cidades do centro, mas também as do sul. Nascia assim o Primeiro Império Mesopotâmico. Por volta de 2100 a.C., enfraquecido por revoltas internas, esse império foi destruído por povos inimigos.

A escrita na Mesopotâmia A escrita foi inventada várias vezes em diversos lugares e em épocas diferentes. A suméria foi talvez a primeira delas, embora os chineses já tivessem rudimentos de escrita por volta de 7000 a.C. Na América, os pioneiros foram os olmecas, cuja escrita data de 900 a.C. Na sociedade suméria, a escrita começou a surgir durante o quarto milênio antes de Cristo. Nessa época, os templos e palácios eram o centro da sociedade. Era ali que se armazenava a produção agrícola e se pagavam os tributos. Tudo isso exigia registros, inventários e controles contábeis. Inicialmente, eram feitos em placas de argila úmida, nas quais um funcionário, utilizando uma haste de bambu, imprimia desenhos representando aquilo que precisava ser registrado: a cabeça de um boi, porcos, jumentos, etc. Cozidas ao sol, as placas de barro endureciam e podiam ser guardadas. Cerca de quinhentos anos depois, esse sistema de notação foi substituído por marcas em forma de cunha – daí a expressão “escrita cuneiforme” – feitas

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Babilônia e seu império

Com o declínio do império fundado por Sargão, destacou-se na Mesopotâmia a cidade da Babilônia, habitada pelos amoritas, povo originário do deserto da Arábia. A expansão da cidade teve início por volta de 1800 a.C. Entre 1792 a.C. e 1750 a.C., um dos reis babilônicos, Hamurabi, unificou toda a re-

com estilete na argila úmida. Ao mesmo tempo, os desenhos – logogramas, termo que significa ‘sinais representativos de palavras’ – tornaram-se cada vez mais abstratos, passando a representar sílabas. Adaptado de: MAN, John. A História do alfabeto. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. p. 38-42.

De olho no mundo Na Mesopotâmia, a escrita nasceu como resultado da necessidade de administrar as cidades. Reúna-se com outros colegas e, juntos, discutam as funções e usos da escrita em nossa sociedade. Depois, façam três desenhos sem palavras, que representem esses usos, e os apresentem à classe em um painel. A classe terá que descobrir o significado de cada desenho.

Peter Horree/Alamy/Other Images

Réplica de tablete cuneiforme em língua semítica da região de Ebla, na atual Síria, de cerca de 1650 a.C.

gião. Dessa unificação surgiu o Primeiro Império Babilônico (1800-1600 a.C.), cujos domínios iam da Assíria, no norte, à Caldeia, no sul (reveja o mapa da página 37). Hamurabi passou a nomear governadores, unificou a língua e a religião e determinou que os vários mitos populares fossem fundidos em um único poema – a Epopeia de Marduk –, que era lido em todas as festas do reino. Além disso, reuniu as diversas leis e sentenças pronunciadas no império e unificou-as no Povos da Mesopotâmia Capítulo 4

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Estela de basalto na qual está inscrito o Código de Hamurabi, rei que governou o Primeiro Império Babilônico entre 1792 a.C. e 1750 a.C. Está localizada no Museu do Louvre, em Paris (França). O código representa uma das primeiras tentativas do ser humano de estabelecer leis escritas válidas e obrigatórias para todos os integrantes da sociedade. Na parte superior da pedra, Hamurabi presta homenagem ao deus Sol Shamash.

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Steve Vidler/Alamy/Other Images

tock lbum Art/Latins Erich Lessing/A

Código de Hamurabi, um dos mais antigos corpos de leis de todos os tempos (veja a imagem).

Relevo assírio da região de Nimrud, de 725 a.C., mostrando cavaleiros e cavalos da carruagem real.

assírios, povo que vivia no norte da Mesopotâmia. Começava assim o Império Assírio (1200-612 a.C.). Os assírios foram o primeiro povo a constituir um exército disciplinado. Seu império chegou ao fim em 612 a.C., quando os babilônios destruíram Nínive, sua capital.

Hititas e assírios

Após a morte de Hamurabi, o Império Babilônico sofreu algumas invasões, até se desintegrar em 1600 a.C. Nessa época, os hititas, povo originário da Anatólia (na atual Turquia), passaram a ter a supremacia territorial e política na Mesopotâmia. Entre as inovações introduzidas por esse povo, destacam-se a metalurgia do ferro no fabrico de armas e a utilização de carros de guerra com rodas de aros, que tornavam esses veículos mais fáceis de manobrar. Por volta de 1200 a.C., os hititas foram dominados pelos

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O Segundo Império Babilônico

Com o fim do Império Assírio, os babilônios recuperaram o poder na Mesopotâmia. Esse período ficou conhecido como Segundo Império Babilônico (612-539 a.C.). Um de seus reis, Nabucodonosor (604-562 a.C.), expandiu as fronteiras da Mesopotâmia e conquistou Jerusalém. Após sua morte, o Império Babilônico entrou em decadência, até que, em 539 a.C., a região foi conquistada pelos persas.

Enrique Castro-Mendivil/Reuters/Latinstock

Enquanto ¡sso... Centros urbanos da América Na época em que os sumérios erguiam cidades como Ur e Uruk, na Mesopotâmia, começava a se desenvolver no continente hoje conhecido como América uma sociedade igualmente complexa. Ela se estabeleceu nos vales do Norte Chico, região do Peru atual, a cerca de 200 quilômetros de Lima, cidade construída 5 500 anos mais tarde e hoje capital peruana.

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Ruínas de um templo de pedra da antiga cidade de Caral, em foto de 2008. Fundada por volta de 2600 a.C., Caral ficava na região hoje conhecida como Norte Chico, no Peru atual.

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Nos arredores de quatro rios existentes na região surgiram pelo menos 25 cidades, algumas situadas no interior do continente, outras nas proximidades do oceano Pacífico. A mais antiga delas é Huaricanga, fundada por volta de 3500 a.C. Ela é considerada o primeiro centro urbano da América. Outras cidades de Norte Chico estão também entre as mais antigas do mundo: Caballete (fundada por volta de 3100 a.C), Porvenir e Upaca (2700 a.C.) e Caral (2600 a.C.). A população de Norte Chico contava com um sistema de irrigação usado para o cultivo de frutas e

legumes. Entre outros produtos cultivados estava o algodão, usado na fabricação de tecidos e de redes empregadas nas atividades pesqueiras. Os moradores de Norte Chico também fizeram grandes construções, como prédios de até 26 metros de altura, praças circulares e pirâmides. A partir de 1800 a.C. essa civilização entrou em decadência.

Sua opinião Algumas sociedades organizaram-se em torno da vida urbana e outras não. Na sua opinião, quais as principais vantagens e desvantagens das sociedades urbanizadas?

Organizando AS IDEIAS 1. Com base nas informações e no mapa do capítulo, explique onde se localizava e que povos habitavam a Mesopotâmia. 2. As primeiras cidades da Mesopotâmia formaram-se por volta de 4000 a.C. Por que os historiadores costumam chamá-las de “cidades-Estado”? 3. Os sumérios foram os primeiros povos a se estabelecer no extremo sul da Mesopotâmia, por volta de 4000 a.C. Com os conhecimentos que você já tem, escreva um texto relatando como essa sociedade se desenvolveu. 4. Que tipo de organização política substituiu as cidades-Estado na região mesopotâmica? 5. A Mesopotâmia foi dominada por diversos povos durante a Antiguidade. Reproduza no seu cader-

no a tabela a seguir, ampliando o número de linhas. Depois, preencha as colunas, indicando os principais povos que dominaram a região. Registre também suas principais características e o período de dominação. Período

Império

Características

6. Os sumérios inventaram registros escritos por volta de 4000 a.C., com o objetivo de controlar determinadas atividades que se realizavam nos templos e palácios. Descreva essas atividades e explique como os sumérios criaram, posteriormente, a escrita “cuneiforme”. 7. O que foi o Código de Hamurabi?

Hora DE REFLETIR Desde o início das primeiras cidades até os dias atuais, a urbanização se transformou profundamente. Em dupla, retome o texto de abertura desta unidade e reflita sobre os motivos que levaram as pessoas a

viver nas cidades na Antiguidade. Pense também nos motivos que levam a maioria das pessoas a viver nas cidades atualmente. Escreva uma redação (individual ou em dupla) e apresente-a ao professor.

Mundo virtual n

Museu do Louvre – Página com fotos dos objetos da Mesopotâmia existentes em seu acervo (site em inglês). Disponível em: <http://tinyurl.com/8k5zmeq>. Acesso em: 4 out. 2012. Povos da Mesopotâmia Capítulo 4

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Capítulo 5

Na terra dos faraós Objetivos do capítulo George Holton/Photo Researchers/Latinstock

As pirâmides fazem parte da paisagem do Egito e são um símbolo do país. As mais famosas são as chamadas pirâmides de Gizé, construídas há mais de 4 mil anos e localizadas nas proximidades da atual capital egípcia, Cairo. Porém, elas não são as únicas. Em todo o Egito são conhecidas mais de 130 pirâmides e, graças aos avanços tecnológicos, os arqueólogos continuam descobrindo novas. Usando imagens de satélites com raios infravermelhos, uma equipe de arqueólogos da Universidade de Alabama, nos Estados Unidos, encontrou em Saqqara, a cerca de 30 quilômetros do Cairo, dezessete pirâmides de mais de 3 mil anos soterradas sob areia e lama. A descoberta ocorreu em 2011, e, próximo das pirâmides, os arqueólogos encontraram mais de

 

Abordar aspectos do processo de formação do Egito antigo. Explicar o papel do faraó na sociedade egípcia. Analisar aspectos da sociedade, da religião, da cultura e do conhecimento científico do Egito antigo. Compreender as ações coletivas na formação dos primeiros núcleos urbanos.

mil túmulos e cerca de 3 mil habitações milenares também soterradas. As construções pertenciam à cidade de Tanis, fundada no século XII a.C. e abandonada no século VI. As escavações na região já começaram e podem trazer muitas informações sobre a antiga civilização egípcia, que teve início no norte da África há mais de 5 mil anos, e cujas realizações ainda hoje nos impressionam e surpreendem.

Robert Harding World Imagery/Alamy/Other Images

Pirâmide escalonada de Saqqara, no Egito. Foto de fevereiro de 2009.

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No norte da África

Localizado no norte da África, o Egito tem seu território quase todo ocupado pelo deserto do Saara. Por isso, a maior parte de sua população encontra-se nas margens e no delta do rio Nilo, que atravessa o país de sul a norte. Essa ocupação é basicamente a mesma há quase 8 mil anos. As águas do Nilo transbordam de seu leito todos os anos entre junho e outubro, em razão das chuvas tropicais na nascente do rio. O húmus trazido pelas enchentes torna o solo da região excelente para a agricultura. Durante milhares de anos, a população que aí vivia aprendeu a drenar terrenos, construir diques e canais e a erguer suas habitações e celeiros em locais elevados, longe das águas. Com o passar dos séculos, esse trabalho comunitário organizado propiciou excedentes agrícolas e fez com que os pequenos núcleos populacionais

evoluíssem para povoados e vilas com maior estrutura. Cada uma dessas aldeias passou a ser conhecida como nomos, e seu chefe como nomarca. Grande parte da população dos nomos era formada por agricultores – os felás –, que com o linho faziam roupas e velas de barcos e com a cevada produziam cerveja. O rio era o principal sistema de comunicação e de transporte. Para essa população, somente a ação dos deuses explicava o privilégio de morar em uma terra de abundância rodeada por áreas de seca e fome.

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A unificação do Egito

Rio

Os nomarcas mais eficientes na tarefa de garantir a alimentação de suas comunidades passaram a personificar os deuses protetores dos nomos. Assim, gradativamente, o poder político e administrativo dos nomos se fundiu ao poder religioso. Ao mesmo tempo, os governantes mais destacados coO ANTIGO EGITO meçaram a incorporar novos territórios a seus nomos, transESCALA 184 368 0 M fra E formando a região em uma t es SO QUILÔMETROS Chipre PO FENÍCIA área de diversos pequenos “reiBiblos Mar nos”. Por volta de 3500 a.C., Mediterrâneo Sídon Tiro os nomos foram unificados PALESTINA (CANAÃ) em dois reinos: o do delta e O EGITO HOJE Jerusalém Mar Saís Tânis DESERTO o do vale do Nilo – chamados Gaza Morto EUROPA DA LÍBIA ÁSIA Mar de Baixo Egito e Alto Egito, Heliópolis Me t r e Mênfis respectivamente (veja o mapa Trópico de Câncer Gizé EGITO ao lado). Heracleópolis Monte DESERTO Sinai DA ARÁBIA Akhetaton Cerca de trezentos anos (El Amarna) Á F R I C A Equador depois, um rei do vale do OCEANO Tínis ÍNDICO OCEANO Nilo chamado Menés (tamATLÂNTICO Vale dos Reis Tebas bém conhecido como NarVale das Rainhas Trópico de Capricórnio mer, Men ou Meni) conquis1ª- catarata tou a região do delta. Pela Trópico de Câncer LEGENDA primeira vez, alguém foi coBaixo Egito roado faraó do Egito, ou seja, 2ª- catarata Alto Egito Kumma Terras férteis um misto de monarca e cheRegião conquistada no fe religioso. O símbolo de seu NÚBIA Novo Império 3ª- catarata poder era uma coroa dupla Extensão máxima do Novo Império (1580 a 525 a.C.) 4ª- catarata nas cores branca e vermelha, Pirâmides que representava a união das 35º duas regiões em um único e Adaptado de: WORLD History Atlas: Mapping the Human Journey. London: Dorling Kindersley, 2005. centralizado império. Rio

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Na terra dos faraós Capítulo 5

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e sacerdotisas, era o faraó quem, preferencialmente, deveria conduzir os rituais e as orações nos templos. Para governar, recebia a ajuda dos nomarcas e dos escribas (funcionários). Assessorado pelos chefes militares, liderava a defesa do território. Os faraós governaram o Egito por mais de 3 mil anos, em uma sucessão de dinastias.

O poder do faraó Para os egípcios, o faraó era um deus e símbolo da sabedoria. O que o faraó aprovava era considerado justo; o Mal era tudo o que ele condenava. Como líder religioso, era o principal intermediário entre as pessoas e os deuses. Embora existissem sacerdotes

As três escritas egípcias

The Art Archive/Alamy/Other Images

A escrita egípcia teria surgido, segundo os estudiosos, na época da unificação do território. Chamada de hieroglífica, consistia no uso de símbolos – ideogramas – para representar palavras: os hieróglifos. Assim, o desenho de um olho significava “olho”. Com o tempo, os hieróglifos passaram a de-

Exemplo de escrita hieroglífica, encontrada na tumba do general Horemheb, que se tornou faraó egípcio no século XIV a.C. Foto de 2005.

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signar também os sons das palavras, os fonogramas. Por exemplo, para escrever o nome do deus Osíris – Wosiri, em egípcio antigo –, eles desenhavam um trono, Wos em egípcio, e um olho, que era iri. E, para ninguém pensar que significava o “olho do trono”, em geral desenhavam ao lado uma bandeirola, emblema que designava um deus. Quase simultaneamente ao desenvolvimento dos hieróglifos, foi criada também uma escrita cursiva, mais simples, chamada hierática. Por meio dela, grande parte dos textos literários, jurídicos e administrativos do Egito chegou até nós. Posteriormente, a escrita foi simplificada ainda mais, surgindo assim a escrita demótica. Fontes: GOMBRICH, Ernst. Breve história do mundo. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 31; VERCOUTTER, Jean. O Egito antigo. São Paulo: Difel, 1974. p. 27-29.

BibleLandPictures/Alamy/Other Images

A sociedade egípcia

A sociedade egípcia era rigidamente estratificada, ou seja, estava dividida em grupos sociais fortemente separados entre si. No topo da pirâmide social estavam o faraó*, considerado filho do deus Amon-Rá, e seus familiares. A seguir, vinham sucessivamente os sacerdotes, a nobreza, * Veja o filme os escribas e os soldados. Na base Ramsés, o estavam os camponeses e artesãos maior faraó do Egito, Discovery – abaixo deles, só os escravos (veja Channel, 2004. ilustração a seguir). Faraó Sacerdotes/nobreza Burocratas

Militares

Camponeses/artesãos Escravos

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Embora os pequenos artesãos estivessem na base da pirâmide social do antigo Egito, juntamente com os camponeses e os escravos, aqueles que se sobressaíam por suas qualidades artísticas assumiam um status superior. Representação de mulher egípcia sendo vestida por suas criadas em pintura mural de Tebas (1420 a.C.).

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Poucas cidades do antigo Egito sobreviveram ao tempo e às cheias do Nilo. Mas sabe-se que as moradias mais modestas eram de junco ou madeira e geralmente contavam com pouco mobiliário. Uma pequena peça funcionava como sala de estar e dava diretamente para a rua. Tinham também banheiro com lavatório separado, uma sala principal com um pequeno altar, onde eram recebidas as visitas, quarto, cozinha e uma escada que levava ao telhado, sempre plano, onde à noite os moradores se refugiavam do calor. As pessoas de melhores condições viviam em residências de tijolos de adobe, uma mistura de barro, areia e palha.

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A crença na imortalidade

A religiosidade foi um dos aspectos mais marcantes da sociedade egípcia. Das diversas divinda-

des existentes, a mais importante era Amon (ou Amon-Rá), rei dos deuses e criador de todas as coisas, que se identificava com o Sol. A crença na imortalidade fez com que os egípcios encarassem a morte como um grande acontecimento. As tumbas dos faraós continham pinturas que retratavam passagens de sua vida e de seu governo, com a intenção de mostrar aos deuses como eles foram bons para seu povo. Era comum um faraó ser enterrado com familiares e funcionários, que iriam acompanhá-lo e servi-lo na vida eterna. No túmulo do faraó Uadji, que viveu há cerca de 5 mil anos, foram encontrados outros 335 corpos. Para os egípcios, o conceito de “viver após a morte” implicava a permanência física do corpo. Por essa razão, eles desenvolveram e aperfeiçoaram a prática da mumificação (veja o boxe a seguir).

As múmias

Science & Society Picture Library/SSPL

O processo de mumificação desenvolvido pelos egípcios incluía a desidratação do cadáver e a aplicação de betume, substância destinada a conservar o corpo. Durante a Antiguidade, esse produto também era empregado em outras regiões no tratamento de cortes e fraturas.

Aliando esse possível poder de cura do betume com os mistérios e magias que envolviam as múmias, a partir da Idade Média médicos europeus passaram a prescrever o uso de carne mumificada no tratamento de várias doenças. Como consequência, muitas tumbas egípcias foram saqueadas e traficantes passaram a exportar pedaços de múmias secas ou em pó para o Ocidente. Francisco I (1494-1547), rei da França, por exemplo, tinha sempre consigo um suprimento de carne mumificada para o caso de se ferir nas caçadas. Adaptado de: JOHNSON, Paul. História ilustrada do Egito antigo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. p. 224-227, 360-361.

Cabeça mumificada de cerca de 1300 a.C., encontrada no Egito. Faz parte do acervo do Museu de Ciências de Londres, Inglaterra. Foto de 2009.

Na terra dos faraós Capítulo 5

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A serviço dos deuses e do faraó

Impregnada de religiosidade e de sentimento hierárquico, a arte servia aos deuses e aos faraós. Assim, as obras mais importantes da arquitetura egípcia foram os templos e as pirâmides (túmulos dos faraós). No que se refere à pintura e à escultura, havia normas rígidas para representar os deuses, os faraós e as pessoas da elite: as cenas eram retratadas sem perspectiva; as figuras apareciam com a cabeça, as pernas e os pés de perfil, enquanto os olhos e o tronco eram mostrados de frente (veja a imagem abaixo). Essa rigidez diminuía na representação de funcionários (os escribas) e de pessoas dos grupos sociais baixos, que eram retratados de modo mais realista (veja a imagem da página 44).

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O saber egípcio

Museu do Louvre, Paris, França/Arquivo da editora

Por sua prática na construção de diques e represas, os egípcios alcançaram grande desenvol-

vimento em engenharia hidráulica. Seus tecelões eram hábeis na produção de tecidos e linhas e seus artesãos dominavam a técnica da fabricação de objetos de vidro. Na área de transporte, construíam embarcações de variados tipos e tamanhos, tanto fluviais como marítimas. Conhecedores da anatomia humana, os egípcios obtiveram grandes avanços na medicina, usando até mesmo anestesia em operações cirúrgicas. Seus astrônomos criaram diferentes calendários, como o que conferiu ao ano a duração de 365 dias e seis horas. Mais tarde, esse calendário foi adotado, com modificações, pelo imperador romano Júlio César. Reformado pelo papa Gregório XIII, no século XVI, constitui a base do calendário que utilizamos até hoje.

Os cuidados com o corpo Os egípcios eram elegantes e se cuidavam bastante, mas isso não se devia apenas aos padrões estéticos da época. Trabalhos arqueológicos recentes e pesquisas científicas em diversas áreas – como química, física, biologia e medicina – têm mostrado que muito daquilo que se apresenta como vaidade eram, de fato, cuidados especiais para prevenir os rigores do clima ou sinônimo de vida e alimentação equilibradas. Tomografias e autópsias feitas em múmias revelam que, graças ao fato de ingerirem pouco açúcar, os egípcios praticamente não tinham cáries. Os óleos perfumados com os quais untavam o corpo evitavam o ressecamento da pele. Já a sombra nos olhos era resultado da malaquita, pedra verde pulverizada e aplicada nas pálpebras para neutralizar a luz excessiva do Sol e agir como desinfetante contra doenças da vista transmitidas por moscas.

Pessoa da nobreza egípcia trajando um vestido de pele de leopardo que deixa um ombro e um braço descobertos. Na imagem ao lado, o tronco é mostrado de frente, enquanto a cabeça e as pernas são representadas de perfil.

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Unidade 2 A urbanização

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Enquanto ¡sso... A medicina chinesa Por volta de 2700 a.C., na época em que os egípcios construíam as grandes pirâmides e seus médicos se especializavam na mumificação de corpos, na China os sábios afirmavam que as doenças tinham como causa o desequilíbrio do organismo humano. O tratamento ideal, prescreviam eles, deveria ser feito, principalmente, por meio de ervas e da acupuntura, técnica utilizada ainda hoje e que consiste em espetar finíssimas agulhas em pontos específicos do corpo.

Ancient Art-Architecture Collection/Topfoto/Keystone

Escultura do século XVII, época em que a China esteve sob a dinastia Ming, representando um corpo humano com suas linhas meridianas e os pontos de acupuntura da medicina tradicional chinesa.

Organizando AS IDEIAS 1. Por que há 8 mil anos a ocupação humana do território egípcio se concentra na mesma região, em torno das margens e no delta do rio Nilo?

4. Com base no esquema da pirâmide social da página 44, descreva como estava organizada a sociedade egípcia antiga.

2. Tendo em vista o que você já estudou sobre a formação das primeiras aglomerações humanas, explique a seguinte afirmação: “Com o passar dos séculos, o trabalho comunitário propiciou excedentes agrícolas e transformou pequenos núcleos populacionais em povoados”. Essa afirmação se aplica também à sociedade egípcia?

5. Por que podemos afirmar que a estrutura social e a base alimentar da sociedade egípcia dependiam do rio Nilo?

3. As aldeias no Egito antigo eram conhecidas como nomos e cada uma delas era chefiada por um líder, o nomarca. Como se realizou a unificação dessas aldeias num único império, sob a liderança do faraó?

6. No Egito antigo, o faraó era um líder praticamente incontestável. Admirado e respeitado por todos, ele deveria ser obedecido sem questionamentos. Quais eram as fontes de poder do faraó? 7. Faça um resumo de algumas das mais importantes descobertas egípcias no campo do conhecimento e da produção artesanal.

Hora DE REFLETIR A fundação e o desenvolvimento de uma cidade envolvem ações coletivas e um intenso esforço de grupos humanos para criar condições adequadas de habitação, trabalho e lazer. Sob a orientação do professor, faça uma pesquisa em grupo sobre o surgimento de sua cidade. Não se limite a identificar os nomes dos fundadores. Procure compreender em que época

ela surgiu, quais foram os principais desafios da coletividade e que interesses motivaram sua fundação e seu povoamento (trabalho, atividades econômicas, clima, localização geográfica podem ter sido alguns desses motivos). Registre o resultado da pesquisa em fotos, desenhos e textos escritos. Monte um painel e apresente-o à classe.

Mundo virtual 

Museu do Louvre – Página com fotos de peças do antigo Egito existentes em seu acervo (site em inglês). Disponível em: <http://tinyurl.com/8jgtqtz>. Acesso em: 4 out. 2012. Museu Calouste Gulbenkian – Site de Lisboa sobre o antigo Egito. Disponível em: <http://tinyurl.com/6au6vqz >. Acesso em: 4 out. 2012. Na terra dos faraós Capítulo 5

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Capítulo 6

A civilização chinesa Altrendo/getty Images

Objetivos do capítulo 

baixo custo de produção, facilita a exportação dos produtos chineses para o mundo inteiro. Neste capítulo estudaremos a civilização chinesa e veremos outros produtos originários da China que conquistaram o mundo, como a pólvora, a seda e o papel.

Jose Luis Magana/AP Photo/glow Images

É bem provável que você já tenha reparado na grande quantidade de artigos importados da China encontrados nas lojas e supermercados do Brasil. É uma variedade muito grande, que vai desde objetos de baixo custo, como chaveiros, canetas e pequenas lembrancinhas, até produtos mais sofisticados, como artigos eletrônicos ou até mesmo veículos. São muitas as explicações que ajudam a entender a constante presença de artigos “made in China” no mercado brasileiro. Uma delas está no fato de que a China atravessa, ao longo das últimas décadas, um período de grande crescimento econômico, responsável por provocar uma rápida expansão industrial. Esse crescimento, aliado ao

Explicar a formação da China e a organização de suas dinastias. Discutir a formação do Império Chinês e as dinastias que o governaram. Identificar o legado chinês, tanto cultural quanto científico, para a história da humanidade. Conhecer a origem da Rota da Seda e sua importância para o intercâmbio entre Oriente e Ocidente.

Comerciantes de rua vendem carrinhos de brinquedo “made in China” no centro histórico do México. Foto de outubro de 2002.

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Expansão durante a dinastia Shang Sob a nova dinastia, o território chinês passou a ter 100 mil quilômetros quadrados de área. Os Shang governaram até o final do século XI a.C. Durante esses sete séculos, a China viveu uma era de florescimento cultural, com a criação de uma escrita primitiva – conhecida como Yinxu – que originou a atual escrita chinesa, feita com ideogramas. Em 2003, cientistas chineses e norte-americanos encontraram em território chinês uma carapaça de tartaruga de 9 mil anos gravada com inscrições muito semelhantes à escrita Yinxu. Os pesquisadores acreditam que esse seja o mais antigo rudimento de escrita da história da humanidade já encontrado até o momento. Durante a dinastia Shang, os chineses desenvolveram um calendário com 365 dias, passaram a utilizar conchas como dinheiro, criaram instrumentos musicais, como tambores e sinos, e descobriram a técnica de fabricar tecidos de seda a partir dos casulos do bicho-da-seda. Os chineses da Era Shang acreditavam em vários deuses, consultavam oráculos e faziam sacrifícios humanos e de animais em nome dessas divindades.

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Segundo pesquisadores, os primeiros grupos humanos a se fixar em áreas que hoje fazem parte do território da China teriam chegado ali há cerca de 30 mil anos. Por volta de 7 000 a.C., surgiram na região as primeiras aldeias à margem dos rios. Nesses povoados, teve início a prática da agricultura, principalmente o plantio de arroz. Foi no vale do rio Amarelo, no norte da China, que a agricultura mais se desenvolveu. Isso levou à formação de muitas comunidades. Aos poucos, esses povoados se transformaram em pequenos Estados governados por chefes cujo poder era transmitido por meio de laços familiares. Por volta de 2 200 a.C., um dos chefes, Yü, o Grande, unificou os pequenos Estados, tornando-se rei. Com ele, teve início a dinastia Xia, a primeira da história da China. Os governantes Xia construíram muralhas ao redor das cidades e organizaram um exército equipado com armas de bronze. Dominando uma área de aproximadamente 1 600 quilômetros quadrados, os Xia reinaram até o século XVIII a.C., quando foram derrubados pelos Shang, que fundaram uma nova dinastia.

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Vaso de bronze da dinastia Shang, que durou entre os séculos XVII a.C. a XI a.C. Foto de 2000.

Os Shang governaram até 1 122 a.C., quando foram derrubados por um rei vizinho que deu início à dinastia Zhou. Seguiram-se então duzentos anos de tranquilidade. A partir do século IX a.C., os grandes proprietários de terra e os pequenos Estados sob seu controle tornam-se mais poderosos, enfraquecendo cada vez mais o poder real.

Os Reinos Combatentes A partir do século V a.C., os reinos de Chu, Yan, Qi, Zhao, Han, Wei e Qin passaram a disputar a hegemonia da China. Teve início então um período de lutas que se estendeu de 475 a.C. a 221 a.C. Foram anos de tamanha violência que ficaram conhecidos como Período dos Reinos Combatentes. Essa crise estrutural da sociedade chinesa provocou diversas reflexões a respeito do papel do Estado, das leis e dos governantes. Também estimulou o nascimento de teorias filosóficas, como o taoismo e o confucionismo. Esta última – ainda hoje muito presente na China – foi elaborada por Koung Fou Tseu (551-479 a.C.) – Confúcio, entre os ocidentais –, que se dedicou a pensar como o Estado, os governantes e os indivíduos poderiam viver em uma sociedade harmônica e mais feliz. A civilização chinesa Capítulo 6

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Para Confúcio, uma sociedade amparada na ordem e na justiça só seria possível por meio da capacidade de amar, ser bondoso, praticar o bem, ter respeito e interesse para com os próximos. Os conceitos de Confúcio foram mesclados a diversas religiões e aspectos da vida chinesa ao longo dos séculos. Em 221 a.C., depois de muitas batalhas, o reino de Qin anexou os territórios dos reinos adversários e unificou a China em um único Estado. Seu rei, Ying Zheng, pertencente à dinastia Qin, proclamou-se imperador (Shi Huangdi). Era o começo da fase imperial da história chinesa.

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O primeiro imperador

Durante seu governo, Ying Zheng (221-210 a.C.) transformou a China em um império fortemente centralizado. Padronizou o sistema de pesos e medidas e os diferentes tipos de escrita, criou um rígido conjunto de leis e construiu diversas estradas.

Para defender o território chinês de invasões, determinou que as muralhas que protegiam as cidades fossem interligadas. Mais de 1 milhão de trabalhadores foram mobilizados nessa tarefa, que resultou na construção dos 4 200 quilômetros da Grande Muralha, no norte da China. Com a morte de Ying Zheng, o império entrou em crise. Em 206 a.C., um líder chamado Liu Bang venceu seus adversários e assumiu o governo. Era o início da dinastia Han.

Desenvolvimento econômico e cultural Grande parte das medidas adotadas pela dinastia Han inspirava-se nas ideias de Confúcio, o que levou a China a um notável desenvolvimento econômico e cultural. A produção agrícola, por exemplo, teve um grande avanço devido à introdução de arados puxados por bois, à utilização de instrumentos de ferro e à construção de canais de irrigação. O desenvolvimento agrícola e comercial permitiu que a China estabelecesse importantes laços comerciais com povos vizinhos e até mesmo com o Ocidente, por meio da Rota da Seda, como mostra o boxe abaixo.

A Rota da Seda Desde sua origem, a China foi vítima de invasões de cavaleiros das estepes. Uma das principais ameaças eram os hunos. No século II a.C., tentando dialogar com eles, o imperador Wu-Ti, da dinastia Han, enviou um emissário de nome Chang-Ch’ien. Esse agente, entretanto, foi aprisionado pelos hunos, só conseguindo fugir dez anos depois. Em sua viagem de retorno, passou pelo reino de Báctria (atual Afeganistão), onde obteve informações sobre costumes das civilizações do Ocidente – desconhecidas dos chineses – e das rotas comerciais utilizadas por esses povos. Entretanto, o que despertou maior interesse no imperador Wu-Ti foi a informação da existência de grandes cavalos na região da Ásia Central. Interessado em usá-los contra os hunos, que dispunham somente de cavalos de pequeno porte, Wu-Ti determinou que, utilizando as rotas de Chang-Ch’ien, fossem organizadas expedições em busca desses animais.

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Não demorou muito e mercadores chineses e ocidentais começaram a se interessar também por essas estradas, pois ao longo delas podiam comprar, vender ou trocar produtos como madeiras, joias, canela, sal, pimenta, gengibre, óleos, etc. Esse trajeto, de cerca de 7 mil quilômetros, era perigoso e poderia levar vários anos para ser percorrido: além da distância, os viajantes tinham que transpor geleiras e desertos, enfrentar tempestades de areia e os temíveis ladrões e saqueadores das estepes. Esse conjunto de estradas ficou conhecido como Rota da Seda, uma vez que os mercadores utilizavam-se dele para levar a seda para o Ocidente, onde o produto era vendido a peso de ouro. A Rota da Seda desempenhou importante papel no intercâmbio de ideias, costumes e culturas entre civilizações diferentes. A partir do século X, a Rota da Seda entrou em declínio. Fonte: BRETÃS, Vilma. O que foi a Rota da Seda? Superinteressante. Abril, set. 2000, ed. 156. p. 46.

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Adaptado de: World history Atlas: Mapping the Human Journey. London: Dorling Kindersley, 2005.

Ao crescimento econômico ocorrido durante a dinastia Han seguiu-se a expansão territorial do império, com a conquista das regiões da Coreia e de Cantão (veja o mapa acima). Também foi sob essa dinastia que se consolidou muito do conhecimento científico dos chineses.

Eu também

Utilizando como matéria-prima cascas de árvores e uma mistura de linho, trapos e redes, os chineses criaram uma técnica de fabricação de papel (veja abaixo, na seção Eu também posso participar, as origens do papel e a importância de sua reciclagem nos dias de hoje).

posso participar

A invenção do papel Durante muito tempo os seres humanos utilizaram os mais variados materiais como suporte para a escrita: pedras, placas de barro, conchas e até mesmo cascos de tartaruga. Um dos primeiros materiais produzidos com essa finalidade foi o papiro, que os egípcios já utilizavam há cerca de 6 mil anos. Entretanto, foram os chineses os responsáveis pela invenção do papel, similar ao que conhecemos atualmente, há 2 mil anos, aproximadamente. A técnica criada pelos chineses consistia em sobrepor diversos materiais, como folhas, cascas de árvores e restos de tecidos em uma tina de água. Esse material era prensado e dava origem às folhas de papel. Os chineses monopolizaram a produção de papel por cerca de seiscentos anos.

Posteriormente, a técnica foi difundida na Europa por comerciantes árabes. Hoje, a presença do papel em nosso dia a dia é tão marcante que é praticamente impossível viver sem ele. As tecnologias desenvolvidas pela indústria papeleira permitem transformar praticamente todos os tipos de árvores em celulose, principal matéria-prima do papel. Além disso, o papel pode ser reciclado até dez vezes, dando origem a novas folhas. No Brasil, apenas 50% do papel descartado é reciclado. Reduzir o desperdício de papel em nosso dia a dia e encaminhar papel para a reciclagem são atitudes que contribuem para melhorar as condições ambientais. Cada tonelada de papel reciclado poupa a derrubada de sessenta eucaliptos, economiza 2,5 barris de petróleo e 300 mil litros de água.

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Akg-Images/Latinstock

Veja algumas coisas que podem ser feitas: • Quando separado dos demais resíduos, o papel pode ser encaminhado para reciclagem ou para catadores. São recicláveis: jornal, papelão, papel impresso, fotocópias, revistas, embalagens de papel, embalagem longa-vida, papéis brancos e mistos. • Imprimir e copiar somente o necessário ajuda a diminuir o consumo de papel. • Sacolas, envelopes, embrulhos e embalagens de papel podem ser reaproveitados. • O verso de papéis já utilizados pode servir de rascunho.

Gravura do artista chinês Sung Ying Hsing (1634) representando o fabrico de papel na China. Num tanque com água, dois trabalhadores “sovam” tiras de bambu como primeira etapa para a obtenção do papel. Por essa época, a matéria-prima do papel já não era a mistura de folhas, cascas de árvores e restos de tecidos utilizada inicialmente, mas sim o bambu.

Fuzahi Archive/The Bridgeman Art Library/Keystone

Esta pintura do álbum Gengzhidu, do século XVII, representa uma família chinesa agradecendo a boa colheita diante de um altar familiar. As relações familiares foram fortalecidas com sucessivos códigos de leis estabelecidos a partir da dinastia Han.

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Na área da medicina, os chineses fizeram experiências de dissecação de cadáveres e de cirurgias com anestesias. Difundiram-se ainda o uso de ervas e a prática da acupuntura para o tratamento de doen­ ças. Já os técnicos e artesãos chineses criaram durante a dinastia Han um instrumento que detectava a direção dos ventos, além do sismógrafo, aparelho que mede tremores de terra – um similar europeu seria criado somente no século XVIII. Os cientistas chineses desenvolveram também avançados conceitos matemáticos, como as quatro operações com números fracionais e o cálculo com números positivos e negativos. Artesãos chineses inventaram, ainda, a bússola, a pólvora e os relógios de sol e de água (sobre a China hoje, veja a seção Passado presente a seguir). Após o fim da dinastia Han, no século III d.C., a China viveu períodos de unificação e fragmentação do poder imperial, sofrendo ataques de povos como os tibetanos e os turcos. No século XIII, o território chinês foi ocupado pelo exército de Gêngis Khan, líder mongol. Valorizando seu passado e bastante fechada às influências externas, a China só passou a ter contato mais regular com o Ocidente a partir do século XIII, graças principalmente à ação de mercadores, como o veneziano Marco Polo.

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Passado

Presente

China: a potência do século XXI

Fontes: TREVISAN, Cláudia. China: o renascimento do Império. São Paulo: Planeta, 2006; AQUINO, Ruth; FREDERIC, Jean. China, a nova superpotência. Época, Globo, 23 jun. 2008, ed. 527. Fritz Hoffmann/Corbis/Latinstock

A China está hoje entre as três maiores economias do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e do Japão. Isso é resultado de reformas econômicas implementadas ao longo das três últimas décadas, que levaram o país a crescer a taxas de quase 10% ao ano. Esse crescimento vertiginoso vem promovendo uma rápida expansão urbano-industrial cujos reflexos são observados em vários setores da economia chinesa. A China é atualmente o segundo maior consumidor mundial de petróleo, absorve um terço de todo o aço produzido no mundo e utiliza cerca da metade de todo o cimento consumido mundialmente. Além disso, é uma das principais nações exportadoras. Entre os artigos que vende estão desde mercadorias de baixo preço até artigos eletrônicos de alta tecnologia. Toda essa expansão econômica, porém, não acabou com os grandes contrastes observados no país. As diferenças entre a zona rural e a urbana ainda são grandes. Quase 60% da população chinesa vive no campo, onde os benefícios resultantes dessa prosperidade só se fazem sentir muito lentamente. Em busca de uma vida melhor, cerca de 150 milhões de camponeses migraram nas últimas décadas da zona rural para as cidades, onde acabaram se transformando em mão de obra

barata para as indústrias, recebendo salários mensais que variam de 50 a 100 dólares. Muitos, sem emprego, mendigam pelos grandes centros urbanos. Se entre 1979 e 2002 o crescimento chinês serviu para retirar 400 milhões de pessoas da pobreza, ainda hoje o número de chineses que vive com menos de 1 dólar por dia é alto: cerca de 90 milhões de pessoas. A rápida expansão também vem produzindo grandes impactos ambientais*. Das vinte cidades mais poluídas do mundo, dezesseis estão na China. Hoje, 300 * Veja o milhões de chineses bebem água filme Em busca da contaminada todos os dias. Anu- vida, de Jia almente, cerca de 190 milhões são Zhang-Ke, acometidos de doenças decorren- 2006. tes dessa contaminação. Outro problema é a falta de liberdade de expressão. Os jornais têm sua produção controlada pelo governo, e os servidores utilizados para navegar na internet são obrigados a instalar filtros que impedem o acesso dos internautas a sites proibidos pelo regime chinês. Além disso, a Justiça chinesa é responsável por mais de 80% das condenações à pena de morte hoje no mundo.

O outro lado de Xangai: mulher idosa sem-teto dorme em frente a restaurante de grande cadeia de lanchonetes. O rápido crescimento econômico da China vem acentuando as desigualdades sociais entre ricos e pobres. Xangai, China, agosto de 2003.

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Enquanto ¡sso... O Japão antigo Na mesma época em que a China se transformava em império (século III a.C.), o Japão começava a ingressar em seu primeiro grande período de desenvolvimento: a chamada Era Yayoi (300 a.C. a 300 d.C.). Formado por quatro ilhas principais e mais de 4 mil ilhotas, o Japão foi ocupado há cerca de 30 mil anos por povos caçadores e coletores originários das atuais Sibéria e Coreia. Por volta de 10000 a.C., essa civilização aprendeu a fazer objetos de barro, utilizados para cozinhar e guardar alimentos. Mas foi somente a partir do

período Yayoi que os japoneses, influenciados pelos chineses, aprenderam a cultivar e irrigar o arroz, a fabricar objetos de bronze e de ferro, a tecer e a utilizar a escrita ideográfica.

Diálogos Com a ajuda do professor de Língua Portuguesa, procure entender as diferenças entre a escrita ideográfica e a escrita fonética. Você pode também consultar dicionários, enciclopédias e o Glossário no fim do livro. Anote as características de cada escrita e elabore exemplos para montar um painel e expor à classe.

Organizando as ideias 1. O atual território chinês começou a ser ocupado há mais de 30 mil anos. Descreva, em linhas gerais, como se desenvolveram as primeiras aglomerações até o momento de centralização do Estado e o surgimento da dinastia Xia. 2. A dinastia Shang derrotou os Xia no século XVIII a.C. e seus representantes permaneceram no poder durante sete séculos, quando foram derrubados pelos Zhou, em 1027 a.C. Quais as principais características da dinastia Shang? 3. O que foi o Período dos Reinos Combatentes e qual foi seu desfecho? 4. Nascida de longos e sangrentos confrontos com outros reinos, a dinastia de Ying Zheng, primeiro imperador chinês, precisou garantir a unificação do território e do Estado. Que medidas Ying Zheng tomou para construir e manter o império chinês?

5. Quais as características mais importantes da dinastia Han? 6. As ideias do filósofo chinês Confúcio influenciaram a sociedade chinesa, especialmente durante a dinastia Han. Para ele, como a sociedade poderia viver em harmonia? 7. Durante séculos não houve contato entre a China e os povos ocidentais. As longas distâncias, as dificuldades de transporte e comunicação e as diferenças linguísticas devem ter contribuído para manter esses dois mundos separados. O que foi a Rota da Seda e por que ela foi importante para aproximar a China e o Ocidente? 8. Ao longo deste capítulo fizemos algumas referências aos conhecimentos culturais e científicos da civilização chinesa. Escreva um texto recuperando as principais heranças deixadas pelos chineses para a história da humanidade.

Hora DE REFLETIR A Muralha da China foi construída para proteger o território chinês dos ataques e invasões de povos inimigos. Hoje, as cidades brasileiras também se veem “invadidas” pela violência, pela desigualdade social, pelo deficit de moradias, pela falta de vagas nas escolas e por outros problemas urbanos. Um dos projetos para resolver alguns desses problemas propõe transformar os centros urbanos em “cidades educadoras”. Segundo essa proposta, os locais públicos das cidades – praças, ruas, shopping centers, praias, favelas, etc.

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– seriam transformados em espaços educativos para a população. Em grupos, e sob a orientação do professor, discutam de que maneira os espaços públicos podem ser transformados em espaços educativos. Como a comunidade pode participar no processo de melhoria da cidade? Vocês conhecem trabalhos semelhantes desenvolvidos em sua cidade? Ao final da reflexão, apontem três questões importantes discutidas pelo grupo e preparem uma exposição oral sobre elas.

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Capítulo 7

As civilizações da Índia Objetivos do capítulo 

Com uma população de quase 1,2 bilhão de pessoas, a Índia só perde em número de habitantes para a China. É também um país de grandes contrastes: por um lado, conta com um dos principais polos tecnológicos do mundo; por outro, cerca de 40% dos pobres do planeta estão em seu território. Muito diversificada do ponto de vista religioso, a população indiana abrange hinduístas, muçulmanos, siques, cristãos, budistas, zoroastrianistas, judeus e animistas. O hindu e o inglês são os idiomas oficiais, mas falam-se ali outras vinte línguas e mais de 1 600 dialetos, reflexo dos

Elementos da Índia tradicional e da Índia moderna são vistos numa mesma paisagem em Mumbai, em foto de setembro de 2008.

Apresentar o processo de formação da Índia antiga, com destaque para a formação dos primeiros núcleos urbanos. Explicar a organização e o funcionamento da sociedade de castas. Perceber a diversidade de religiões existente na Índia e sua influência no processo de formação dessa sociedade.

diversos povos que, ao longo dos séculos, se instalaram no país. Neste capítulo, conheceremos mais sobre a Índia antiga, berço de uma civilização milenar cuja influência sobre os demais povos da Ásia foi tão grande que costuma ser comparada à importância dos gregos para o mundo ocidental. Robert Harding Picture Library Ltd/Alamy/Other Images

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Ao longo do rio Indo

Por volta de 3000 a.C., um povo que habitava o noroeste do continente indiano começou a erguer cidades ao longo do rio Indo (onde hoje se localiza o Paquistão; veja o mapa). Eram núcleos urbanos bem estruturados, como Mohenjo-Daro, edificado segundo um cuidadoso traçado que privilegiava as largas avenidas. Para enfrentar as cheias anuais do Indo, decorrentes do degelo do Himalaia na primavera e no verão, essas cidades eram construídas sobre plataformas de terra batida de até 12 metros de altura. Seus habitantes eram os dravidianos, cujas casas de tijolos de barro cozido contavam com eficientes sistemas de água e esgoto. Os dravidianos criaram a técnica de confeccionar roupas de algodão e comerciavam com outros povos, vendendo parte dessa produção têxtil e outros produtos, como joias, pedras semipreciosas, utensílios domésticos, brinquedos. Por volta de 1800 a.C., eles começaram a abandonar as cidades em direção ao vale do rio Ganges e ao sul da Índia atual.

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Os arianos e o hinduísmo

As razões para esse deslocamento são desconhecidas, mas alguns estudiosos apontam como causa a invasão do vale do Indo pelos arianos, povo nômade da Ásia Central que subjugou os dravidianos e passou a dominar a região. Ariano é a forma genérica pela qual são chamadas as pessoas de pele clara originárias de algumas das cerca de cinquenta tribos nômades que habitavam a região do Cáucaso – área que abrange parte dos territórios atuais de Rússia, Geórgia, Azerbaijão e Armênia. Por volta de 2000 a.C., alguns desses grupos – também conhecidos como indo-europeus – saíram do planalto iraniano e se instalaram no vale do rio Indo. Mais tarde, avançaram em direção ao vale do Ganges. Depois da invasão, os árias – como se autodenominavam – passaram a viver como sedentários e incorporaram muitas palavras * Veja o filme O das línguas dravidianas a seu Mahabharata, de idioma, o sânscrito. As crenças Peter Brook, 1990. religiosas* também se misturaram, dando origem ao hinduísmo, conjunto de doutrinas e práticas religiosas que passou a reger praticamente todos os aspectos da vida cotidiana e da organização social dessa população. Muitas dessas crenças persistem até hoje na Índia. Avanço dos povos Os fundamentos do hinduísárias (2000 a.C.) mo estão registrados no Rig Veda, Antigos reinos indianos ou “livro do conhecimento”, coleTerritório dos povos dravidianos tânea de 1 028 hinos que acabaria Território do Império por denominar todo o período em Mauria que a Índia antiga esteve sob o doCapital do Império Mauria mínio dos árias: época védica.

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Adaptado de: WORLD History Atlas: Mapping the Human Journey. London: Dorling Kindersley, 2005.

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Inicialmente, os árias organizavam-se em comunidades subordinadas a um chefe, o rajá, e a um sacerdote, o purohita. Havia ainda o conselho dos anciãos e o dos

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Lindsay Hebberd/Corbis/Latinstock

Escultura representando Brahma, um dos deuses da trindade da religião hinduísta (os outros são Shiva e Vishnu). Brahma é habitualmente representado com quatro faces. Na escultura da foto podem ser vistas três delas. Tamil Nadu, Índia, agosto de 1992.

Passado

chefes de família. Os sacerdotes criaram complexos rituais religiosos que originaram uma nova corrente dentro do hinduísmo, o bramanismo. Afirmando conversar com os deuses, os sacerdotes conquistaram enorme poder junto à população e perante o próprio rajá. Eles criaram diversos preceitos que passaram a ser adotados por grande parte da sociedade hindu, como a ideia de reencarnações sucessivas e a instauração de um rígido sistema de castas. Castas são grupos sociais fechados, compostos de pessoas que exercem a mesma profissão. Nesse sistema não se pode passar de uma casta para outra. As castas consideradas mais importantes eram formadas pelos árias. Os sacerdotes encontravam-se no topo da hierarquia social, na casta dos brâmanes. A seguir, vinham sucessivamente os xátrias – nobres, guerreiros e administradores –, os vaixás, ou comerciantes, e os sudras, artesãos e trabalhadores manuais não arianos. Os últimos da escala social eram os párias, pessoas excluídas da sociedade, sem direito de estudar, ouvir os hinos védicos e viver nas cidades (veja a seção Passado presente, a seguir).

Presente

Contradições indianas A tradição e a modernida- * Veja o filme de* convivem lado a lado na Quem quer ser Índia. Ainda hoje, a população um milionário, encontra-se dividida em mais de Danny Boyle e de 3 mil castas e 27 mil sub- Loveleen Tandan, 2008. castas. Embora a Constituição indiana proíba a discriminação, as pessoas das castas mais baixas são vítimas de preconceitos. Além de enfrentar dificuldades para obter bons empregos, são impedidas de se casar com pessoas de castas superiores. O governo indiano mantém um sistema de cotas assegurando às pessoas das castas mais baixas acesso às universidades e ao serviço público. Também oferece uma recompensa para as pessoas que se casam com indivíduos de castas inferiores. Apesar disso, as pessoas das castas mais baixas recebem salários inferiores em comparação

com os trabalhadores oriun* Veja o filme dos de castas mais altas, e é Um casamento à muito comum encontrar nos indiana, de Mira jornais indianos anúncios ma- Nair, 2001. trimoniais nos quais os pretendentes ao casamento* informam qual a sua casta e indicam a casta a que deve pertencer o futuro cônjuge. Outra antiga tradição que perdura na Índia é o pagamento de um dote ao noivo por parte da família da noiva por ocasião do casamento. Embora seja proibido por lei desde 1961, o dote continua sendo praticado no país e isso vem acarretando graves problemas. Existem diversos casos de mulheres assassinadas por maridos insatisfeitos com o valor recebido. Além disso, é alto o índice de assassinato de bebês do sexo feminino praticado por pais que não querem se ver obrigados a pagar um dote ao futuro genro.

As civilizações da Índia Capítulo 7

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Jovens indianos trabalhando em um call center (central de atendimento telefônico) em Mumbai. A mão de obra excedente de uma das cidades mais superpopulosas do mundo acaba sendo escoada para postos de trabalho precarizados e mal remunerados. Foto de janeiro de 2012.

Entre os séculos VII a.C. e VI a.C., já no final da época védica, governantes, comerciantes e mesmo a população pobre passaram a questionar os privilégios de que os sacerdotes desfrutavam. Como resultado desse movimento, surgiram duas correntes reformistas no hinduísmo: o budismo e o jainismo. De modo geral, tanto o budismo* como o jainismo afirmavam que cabia ao ser humano realizar seu próprio destino, sem necessidade da ado58

mento das grandes empresas de tecnologia da Índia vêm de exportações. Além disso, o país também se destaca por contar com grandes indústrias farmacêuticas (mais de um terço dos medicamentos genéricos do mundo vêm da Índia) e de biotecnologia. Apesar desse crescimento, a sociedade indiana enfrenta * Veja o grandes problemas* ainda não documentário solucionados. Cerca de 340 mi- Nascido de lhões de pessoas (28% da popu- bordéis, de Zana lação) vivem abaixo da linha de Briski e Ross pobreza. De cada dez indianos, Kauffman, quatro são analfabetos. A maio- 2004. ria da população (72%) vive no campo, onde os problemas de falta de infraestrutura são grandes: a rede de esgoto é insuficiente, o fornecimento de energia elétrica é bastante falho e a água potável não chega para todos. Fontes: KAMDAR, Mira. Planeta Índia, a ascensão turbulenta de uma nova potência. Rio de Janeiro: Agir, 2008; MELLO, Patrícia Campos. Índia: da miséria à potência. São Paulo: Planeta, 2008; TREVISAN, Cláudia. Sistema de castas poda avanços na Índia. Folha de S.Paulo, São Paulo, 24 set. 2006. Dibyangshu Sarkar/AFP/Getty Images

David Pearson/Alamy/Other Images

Se essas tradições fazem parte do dia a dia dos indianos, o convívio com a modernidade também não lhes é estranho. Como resultado de uma série de mudanças econômicas postas em prática no início da década de 1990, a economia indiana cresce a índices superiores a 8% ao ano, e isso produz grandes reflexos na sociedade. A Índia tem investido fortemente na qualificação de sua mão de obra. Hoje, há no país diversas instituições educacionais de alto nível (todos os anos, 2,5 milhões de bacharéis se formam nas faculdades indianas) e conta com uma força de trabalho altamente especializada. Por tudo isso, é apontado por muitos analistas como precursor da tecnologia que impulsionará a próxima fase da economia global. A cidade de Bangalore, por exemplo, é considerada um dos principais polos tecnológicos do mundo. Lá se encontram a indústria aeroespacial e empresas de software e de telecomunicações, entre outras. Mais de 90% do fatura-

Fazendeiros indianos carregam brotos de arroz para plantação em campo de Canning Village, ao sul de Calcutá, em julho de 2012. A agricultura é a principal atividade econômica da Índia.

ração de deuses, como pregavam os brâmanes. Também condenavam o sistema de castas e os privilégios dos brâmanes. * Leia a coleção Buda, Com suas doutrinas, mangá (revista de conquistaram um granhistória em quadrinhos de número de seguidojaponesa) de Osamu res, o que contribuiu Tezuka, Editora Conrad, editada em para o enfraquecimento 14 volumes. dos sacerdotes védicos.

Unidade 2 A urbanização

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Os chavín e a agricultura Enquanto os dravidianos se estabeleciam às margens dos rios Indo e Ganges, na América do Sul, os chavín começavam a abandonar seus hábitos nômades e se instalavam na região onde hoje é o Peru. Um dos primeiros povos a praticar uma agricultura sedentária na América do Sul, eles desenvolveram uma variada produção artística. Suas esculturas retratam guerreiros com suas vítimas decapitadas, cenas de sacrifícios, ou ainda animais ferozes. Seus artesãos também trabalhavam com couro e tecidos e fabricavam joias e outros objetos de cobre, ouro e prata.

Seu centro religioso, Chavín de Huántar, possuía uma grande praça e um templo. Entre 700 a.C. e o início da Era Cristã, os chavín controlaram a costa central do atual Peru e as montanhas adjacentes, dominando os diversos povos que ali viviam. Apesar de seu colapso, deixaram muitas marcas nas civilizações andinas que surgiram depois.

The Art Archive/Alamy/Other Images

Enquanto ¡sso...

Figura de homem em terracota da cultura chavín (cerca de 800 a.C.) encontrada em Tembladera, Peru.

Organizando AS IDEIAS 1. Na origem da sociedade indiana, os primeiros centros urbanos, como a cidade de Mohenjo-Daro, surgiram em torno do rio Indo, na região hoje conhecida como Paquistão. Descreva como eram essas cidades e seu povo, os dravidianos. 2. Os arianos ou indo-europeus dominaram a região do rio Indo e, segundo estudiosos, provocaram a migração dos dravidianos para o vale do rio Ganges e para o sul da Índia atual. Quais eram as características fundamentais dos povos arianos? 3. A Índia é habitada atualmente por diversos povos que professam religiões distintas. Uma das mais antigas é o hinduísmo. Explique o que é o hinduísmo e como ele se originou.

4. O bramanismo é uma corrente religiosa que se formou no interior do hinduísmo há milhares de anos. Elabore um texto sobre a importância dos sacerdotes brâmanes na sociedade védica e explique como se organizava a divisão da sociedade em castas. 5. Os fundamentos do bramanismo foram questionados entre diversos setores sociais durante os séculos VIII a.C. e VII a.C. Desses movimentos de contestação surgiram duas correntes religiosas distintas, o budismo e o jainismo. Qual era o aspecto fundamental que diferenciava essas novas religiões do bramanismo?

Hora DE REFLETIR Como vimos, os dravidianos construíram cidades bem organizadas que contavam com eficientes sistemas de água e esgoto. Hoje, no Brasil, os serviços de água e esgoto estão majoritariamente a cargo do poder público. Entretanto, é grande o número de brasileiros sem

acesso a esses serviços. Cerca de 15% da população não recebe água tratada e quase metade dos brasileiros não tem acesso ao sistema de esgotos. Reflita e compare: do ponto de vista político e social, como se explica essa situação no Brasil atual?

Mundo virtual 

Museu Nacional de Nova Délhi – Página com imagens do acervo do museu, na Índia, contendo peças da Índia antiga (site em inglês). Disponível em: <www.googleartproject.com/collection/national-museum-delhi/>. Acesso em: 4 out. 2012. As civilizações da Índia Capítulo 7

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Capítulo 8

Os fenícios, inventores do alfabeto Objetivos do capítulo 

O alfabeto você conhece bem: é composto de 26 letras, que vão do A ao Z. Cada uma delas é representada por um sinal próprio e corresponde a um som específico da fala. Assim, fazendo combinações entre esse pequeno número de letras, somos capazes de escrever todas as palavras da língua portuguesa. E mais, essas mesmas letras podem ser adaptadas a qualquer língua, permitindo escrever as palavras de qualquer outro idioma. Esse sistema de escrita, portanto, facilita, e muito, a comunicação escrita entre as pessoas. Não é à toa que ele é considerado por muitos uma das grandes invenções da humanidade. Mas como ele surgiu? Como vimos, alguns dos primeiros sistemas de escrita – como a dos egípcios e dos sumérios – faziam uso de imagens para registrar suas ideias. Era um sistema muito difícil: havia milhares de sinais e poucas pessoas o dominavam.

Explicar a origem e a organização política e administrativa dos fenícios. Conhecer a importância da urbanização e do comércio para o desenvolvimento dessa sociedade e para a criação do alfabeto.

Por volta de 1500 a.C., os fenícios, povo que vivia na região onde hoje é o Líbano, no Oriente Médio, criaram um sistema de escrita bem mais simples, baseado em apenas 29 sinais, cada um representando um som específico da fala. Esse sistema se popularizou, sofreu algumas mudanças e se transformou no alfabeto que conhecemos hoje. Neste capítulo conheceremos mais sobre os fenícios e sobre seu legado à humanidade.

Cro Magnon/Alamy/Other Images

The Art Archive/Alamy/Other Images

Os fenícios inventaram o alfabeto, mas povos como os gregos e os romanos promoveram mudanças até transformá-lo no alfabeto que conhecemos atualmente. Esse tipo de escrita é hoje utilizada em diversos países, como podemos observar nesta placa encontrada no centro de Albufeira, no Algarve, Portugal, que traz os mesmos dizeres em diferentes idiomas. Foto de 2009.

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Expandindo as fronteiras Por volta de 1200 a.C., as regiões circunvizinhas da Fenícia foram ocupadas por diversos povos, entre os quais os arameus, os hebreus e os filisteus. Ora, os fenícios não eram um povo guerreiro. Para crescer e prosperar optaram pelo comércio e por se expandir pelo mar Mediterrâneo. Entre os fatores que permitiram a expansão marítima desse povo destaca-se seu grande desenvolvimento náutico. Para garantir a segurança de suas embarcações, elas eram escoltadas por barcos de guerra que levavam na proa um aríete de madeira e bronze utilizado para perfurar os barcos piratas. Os fenícios conheciam também as correntes marítimas, o voo das aves, a migração de alguns peixes e os ventos de cada região. De posse dessas informações, eles podiam afastar-se cada vez mais de seu litoral e atingir regiões longínquas (veja o mapa da página seguinte). Segundo antigos relatos, no século VIII a.C. os fenícios teriam realizado uma proeza que só seria repetida pelos portugueses mais de 2 mil anos depois: a circum-navegação da África. Os fenícios obtinham grandes lucros com essas viagens. Nelas, trocavam cedro, armas, linho, pedras preciosas, artefatos de vidro, objetos de marfim e tecidos coloridos por ouro, cobre, estanho, ferro. Muitos dos lugares em que paravam para descansar ou se abastecer transformaram-se em cidades comerciais fenícias – esse foi o caso de Cirene, Lepsis, Oea (Trípoli), etc. A mais importante de todas, porém, foi Cartago, fundada no século VIII a.C. no norte da África (veja o boxe da página 62).

Cidades portuárias O Líbano é um país do Oriente Médio situado entre a Síria, Israel e o mar Mediterrâneo. Com uma área de 10 mil quilômetros quadrados, seu território é formado por um pequeno e fértil planalto ao centro, cercado por duas cadeias de montanhas. Por volta de 3000 a.C., estabeleceram-se na região povos de origem semita que se autodenominavam cananeus, uma vez que a região era conhecida pelo nome de Canaã. Os cananeus construíram seus aldeamentos sobretudo às margens do Mediterrâneo. Caracterizado por intensa atividade comercial, esse povoamento deu origem a diversas cidades portuárias, como Biblos, Ugarit e Tiro. Embora as cidades tivessem idioma e hábitos culturais semelhantes, não estavam unificadas em um único reino. Eram cidades-Estado. Tinham, portanto, autonomia política e administrativa. De modo geral, eram governadas por monarcas, em torno dos quais se encontravam a aristocracia – composta de comerciantes e proprietários de terras – e um clero poderoso. Boa parte da população urbana era formada por marinheiros e trabalhadores especializados em fabricar joias, vidros, tecidos e outros produtos.

A comunicação entre as diferentes cidades-Estado era feita principalmente pelo mar; com o tempo, os cananeus passaram também a estabelecer relações mercantis com outras populações mediterrâneas. Por volta de 2500 a.C., algumas cidades cananeias haviam se transformado em ponto de encontro de caravanas de mercadores vindas das mais diferentes regiões, constituindo-se em verdadeiros entrepostos comerciais. Esse foi, por exemplo, o caso de Biblos, que se tornou o principal centro distribuidor do papiro fabricado no Egito. Os cananeus se destacaram também pela produção de corantes, desenvolvendo uma sofisticada técnica de tingir tecidos. Para tanto, eles utilizavam um líquido extraído de um pequeno molusco. Teria sido por esse motivo que os gregos chamavam Canaã de Phoenicia (púrpura), palavra da qual derivam Fenícia e fenícios.

Nik Wheeler/Alamy/Other Images

Entrepostos comerciais

Ruínas arqueológicas da antiga cidade fenícia de Biblos. Biblos situa-se na costa mediterrânea do atual Líbano, a 42 quilômetros de Beirute. Foto de 2008.

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NAVEGAÇÕES FENÍCIAS (SÉCULOS XII a.C. A VIII a.C.) 5º L

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Territórios fenícios Área de comércio dos fenícios

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QUILÔMETROS

Adaptado de: World History Altlas: Mapping the Human Journey. London: Dorling Kindersley, 2005.

Graças à estreita relação mantida com outros povos, os fenícios passaram por um crescente processo de miscigenação étnica e cultural. Ao mesmo tempo que se misturavam com habitantes de outras regiões, como os egípcios e os egeus, assimilavam aspectos culturais, artísticos e religiosos dessas sociedades. A partir do século IX a.C., a Fenícia entrou em decadência, sofrendo invasões de vários povos. Primeiro,

foram os assírios. Entre os séculos VII a.C. e IV a.C., babilônios, persas e gregos dominaram sucessivamente a região. Em 64 a.C., Roma incorporou as cidades fenícias aos seus domínios, transformando-as em parte da província da Síria. A civilização fenícia chegava ao fim, mas sua herança iria se perpetuar, graças sobretudo a uma das maiores invenções da humanidade: o alfabeto.

Cartago, uma potência no norte da África Fundada por volta do século VIII a.C., Cartago transformou-se, ao longo dos séculos seguintes, em uma das principais potências comerciais e militares do Mediterrâneo. No final do século V a.C., já controlava uma área que se estendia da costa norte da África até o sul da península Ibérica. Por essa época, era considerada por gregos e romanos como a cidade mais rica do mundo mediterrâneo. Em seu período de esplendor, Cartago contava com uma população de 400 mil habitantes. Uma muralha de 40 quilômetros cercava a cidade, protegendo-a de invasores. Nos seus pontos mais estratégicos, a muralha chegava a ter 12 metros de altura e 9 metros de espessura.

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Além de ter capacidade para guardar cerca de 220 navios de guerra – uma das maiores frotas da época –, o porto de Cartago contava ainda com uma torre de controle que, do alto, assegurava uma ampla visão do Mediterrâneo. Nenhum navio estrangeiro podia seguir com suas mercadorias para oeste de Cartago. Embarcações que ameaçassem furar o bloqueio eram afundadas. Os navios estrangeiros viam-se, portanto, obrigados a atracar em Cartago e transferir suas mercadorias para as embarcações cartaginesas, que as revendiam nos portos do Mediterrâneo ocidental. Em Cartago era possível encontrar produtos vindos de diversos lugares, como estanho da Bretanha,

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O alfabeto Por dependerem muito do comércio, os fenícios tinham necessidade de controlar por escrito as transações mercantis. Entretanto, as principais escritas empregadas na época – a hieroglífica e a cuneiforme –, além de difíceis, só eram acessíveis aos escribas. Para os mercadores fenícios era necessária uma escrita ágil e de fácil assimilação. Assim, por volta de 1500 a.C., começou a tomar forma na cidade fenícia de Ugarit um sistema de escrita simples e prático. Em vez das centenas de caracteres pictográficos, esse sistema utilizava apenas 29 caracteres cuneiformes; a cada um deles era atribuído um valor fonético, ou seja, cada sinal representava um som específico. Mais tarde, os fenícios reduziram esse alfabeto para 22 símbolos correspondentes às consoantes; como as vogais não eram escritas, cabia ao leitor completar as palavras de acordo com seu sentido. Assim, o nome da cidade de Ugarit era grafado simplesmente com as letras g, r, t. Posteriormente, para tornar a escrita ainda mais fácil, os fenícios deixaram

então, suas tropas passaram a ser formadas basicamente por soldados mercenários recrutados entre as populações fenícias do norte da África e europeus oriundos de regiões das atuais Espanha, Itália, Grécia e França, entre outros lugares.

Werner Forman/UIG/Keystone

Fonte: WArMINGToN, B. H. o período cartaginês. In: História Geral da África. São Paulo: Ática/Unesco, 1983. p. 449-452. v. II.

Ruínas de um cemitério fenício no porto de Cartago. Cidade fundada pelos fenícios no norte da África, Cartago seria mais tarde arrasada pelos romanos nas Guerras Púnicas (veja o capítulo 14). Foto de 2008.

de lado as barras de argila e passaram a registrar suas anotações em rolos de papiro. Graças a essas mudanças, saber ler e escrever deixou de ser privilégio de um pequeno círculo, tornando-se uma habilidade ao alcance de um número cada vez maior de pessoas. Além disso, o alfabeto fenício podia ser adaptado a qualquer língua, já que suas letras representavam fonemas. No decorrer do século IX a.C., os gregos acrescentaram-lhe vogais. Com as mudanças introduzidas mais tarde pelos romanos, esse alfabeto greco-fenício daria origem ao alfabeto latino, utilizado até hoje no mundo ocidental.

The Bridgeman Art Library/Keystone

prata e ferro da península Ibérica, ouro e marfim de diferentes lugares da África. Entre as principais mercadorias vendidas pelos cartagineses estavam metais, tecidos e produtos agrícolas, além de escravos. No século IV a.C. a cidade passou a cunhar sua própria moeda, usada nas transações comerciais. Em certas regiões da África, os cartagineses trocavam produtos manufaturados por ouro. Com algumas dessas populações estabeleceram a prática do “comércio mudo”: ao desembarcar, descarregavam suas mercadorias na praia e retornavam aos navios, de onde emitiam sinais de fumaça para chamar os nativos. Quando estes chegavam, depositavam na areia a quantidade de ouro que julgavam adequada ao pagamento e também se retiravam. os cartagineses retornavam à praia e, caso entendessem que a quantidade de ouro era justa, a recolhiam e iam embora. Se julgavam-na insuficiente, voltavam ao navio, aguardando que os nativos aumentassem a oferta. Enquanto a negociação não fosse finalizada, nem os cartagineses tocavam no ouro nem os nativos na mercadoria. Além da frota naval, Cartago contava com um exército poderoso. Até o século V a.C., a base desse exército eram os próprios cartagineses. A partir de

Placa de ouro do século V a.C. contendo inscrições no alfabeto fenício e dedicada à deusa Astarte.

Os fenícios, inventores do alfabeto Capítulo 8

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Organizando AS IDEIAS 1. Quais são as origens da ocupação humana do território do Líbano atual? 2. Os fenícios não tinham um Estado centralizado nem um único reino. Qual era a forma de organização política predominante entre eles? 3. Na Antiguidade, diversos povos que viveram no Oriente Médio expandiram seu domínio militar sobre outros povos até formar impérios territoriais. Já os fenícios optaram por outra forma de expansão: através do comércio. Como e por que eles se tornaram um povo com intensa atividade comercial? 4. Quais eram os traços fundamentais do comércio desenvolvido pelos fenícios?

5. Fundada pelos fenícios no século VIII a.C., a cidade de Cartago se consolidou como uma das maiores potências do Mediterrâneo. Explique os fatores que contribuíram para isso. 6. Qual a relação entre o comércio e a invenção da escrita alfabética pelos fenícios? 7. Por que podemos afirmar que a escrita alfabética é muito mais universal do que as escritas hieroglífica e cuneiforme? 8. A escrita fenícia é a origem da escrita utilizada, por exemplo, pelo idioma português e pela maioria dos países do Ocidente. De que modo a escrita alfabética fenícia se difundiu e se transformou na base da escrita ocidental?

Interpretando DOCUMENTOS Tempo & Arte/Arquivo da editora

A imagem ao lado representa um barco fenício. Trata-se de uma embarcação denominada “birreme”, pois tinha duas fileiras de remos. Observe-a e responda ao que se pede. 1. Os fenícios eram exímios marinheiros e dominaram por muito tempo o comércio no Mediterrâneo. Que aspectos da figura sugerem que esse navio era capaz de atingir uma velocidade alta para um tipo de embarcação que contava com a força do vento e dos braços dos remadores? 2. O que nos mostra a imagem: uma embarcação com finalidades guerreiras ou comerciais? Justifique sua resposta.

Representação moderna de uma típica embarcação fenícia.

Mundo virtual 

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Fundação Oswaldo Cruz – Site com informações sobre diferentes tipos de alfabeto. Disponível em: <http://tinyurl.com/7wczdug>. Acesso em: 4 out. 2012.

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Capítulo 9

O Império Persa Objetivos do capítulo David Poole/Robert Harding World Imagery/Getty Images

 

O governo do Irã, contudo, não acatou a exigência, argumentando que seu propósito é utilizar a energia nuclear apenas para fins pacíficos. O impasse continua. No passado, a região onde hoje se encontra o Irã já foi sede de uma grande potência: o Império Persa, que chegou a ocupar uma área de 8 milhões de quilômetros quadrados – quase o tamanho do Brasil. É a história desse império que estudaremos a seguir.

Duas garotas muçulmanas usando o chador, tipo de véu islâmico, sentadas na praça Naghsh-e Jahan, em Isfahan, no Irã. Foto de junho de 2009.

Andia/Alamy/Other Images

O urânio é um metal encontrado na natureza em diversos minerais. Quando enriquecido, produz energia nuclear que tanto pode servir para gerar energia elétrica quanto para a fabricação da bomba atômica. Apenas oito nações no mundo dominam a produção da bomba atômica: Estados Unidos, Rússia, Inglaterra, França, China, Índia, Paquistão e Israel. Em 2006, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, anunciou que seu país era capaz de enriquecer urânio. Alegando que o governo iraniano pretendia fabricar a bomba atômica, o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) determinou que o Irã interrompesse essas experiências.

Apresentar as origens da Pérsia. Explicar os aspectos constitutivos do domínio persa e como se organizou o Império Persa. Abordar a diversidade étnica e cultural do Império Persa. Apresentar a religião dos persas e sua influência sobre as religiões monoteístas posteriores.

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Medos e persas

As origens da antiga Pérsia remontam a 2000 a.C., quando grupos nômades originários do centro e do norte da Ásia instalaram-se no planalto iraniano. Entre esses grupos estavam os medos e os persas. Os medos se estabeleceram no oeste e no noroeste do planalto, na região onde hoje se encontra a cidade de Teerã, capital do Irã. Já as tribos persas se fixaram no sudoeste do planalto (veja o mapa abaixo). Por volta do século VII a.C., os medos se unificaram em torno de um rei. Porém, no século seguinte, foram dominados pelos persas que, desde 559 a.C., se encontravam unificados em torno da figura de Ciro.

A formação do império

Grande estrategista militar, Ciro ampliou o território persa após a submissão dos medos e o transformou em um grande império. Por causa dessas conquistas, Ciro ficou conhecido como o Grande. Após a morte de Ciro e algumas disputas internas, um líder de nome Dario assumiu o poder em 522 a.C. Além de recuperar domínios perdidos, Dario expandiu o Império Persa, no qual passaram a viver cerca de 10 milhões de pessoas com línguas, costumes e religiões diferentes (veja o mapa abaixo e leia o boxe da página seguinte). Para controlar toda essa população, Dario estabeleceu um sistema unificado de impostos, um

O IMPÉRIO PERSA EUROPA

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QUILÔMETROS

LEGENDA Núcleo inicial da Pérsia (2000 a.C.) Extensão máxima do Império Persa (500 a.C.) Estrada Real

Fonte: GRAND atlas historique. Paris: Larousse, 2006.

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Unidade 2 A urbanização

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código de leis, um sistema monetário único e uma excelente rede de estradas e correios que interligava as várias regiões do império. Mas Dario conheceu também derrotas, principalmente a partir de 514 a.C., época em que tentou expandir seus domínios para a Grécia. Nessa empreitada, os persas foram vencidos pelas cidades-Estado gregas nas Guerras Médicas* ou Greco-

-Pérsicas. Com a derrota persa, as cidades gregas tornaram-se por certo tempo a principal força do Mediterrâneo oriental. Em 331 a.C., o rei da Macedônia, Alexandre, o * Leia a história em quadrinhos Os 300 Grande, que já dominava a de Esparta, de Frank Grécia, derrotou Dario III e Miller, Devir Livraria. conquistou o Império Persa.

Um império multicultural cios realizados no império: independentemente da língua da província, tudo deveria ser registrado em aramaico – mais fácil de escrever, uma vez que utilizava o alfabeto fenício e não a escrita cuneiforme. Fontes: LAVER, James. A roupa e a moda: uma história concisa. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p. 15; A elevação do espírito. Rio de Janeiro/São Paulo: Time-Life Books/Abril Livros, 1991. p. 9-38.

Sua comunidade Como vimos, a cultura persa se originou da convivência de povos e culturas diversas. Também a sociedade brasileira deve sua formação à mistura de várias culturas. Em sua cidade ou comunidade, existe diversidade de costumes e hábitos originária das miscigenações culturais ocorridas no território brasileiro? Identifique um desses costumes ou hábitos e descubra sua origem. Você pode pesquisar nas bibliotecas públicas ou fazer entrevistas com moradores da sua cidade. Com a ajuda do professor, prepare uma apresentação para a classe. Stuart Kelly/Alamy/Other Images

A existência do Império Persa fez com que, pela primeira vez na História, povos de origens, histórias e culturas diferentes convivessem no mesmo território. Nas campanhas militares, por exemplo, cavaleiros persas lutavam ao lado de grupos de hindus, de árabes cavalgando camelos e de marinheiros fenícios e gregos. Por causa dessa proximidade entre povos diferentes, costumes e experiências foram difundidos com rapidez: o uso da calça comprida – peça do vestuário persa – disseminou-se; técnicas agrícolas egípcias foram assimiladas; e a experiência hidráulica dos mesopotâmios permitiu que as águas das montanhas persas fossem levadas ao deserto a quilômetros de distância. Esse intercâmbio também possibilitou que sementes de arroz da Índia fossem plantadas no Oriente Médio. Os persas incorporaram o uso de moedas, uma invenção dos lídios; graças às suas eficientes estradas, o comércio experimentou grande impulso. Ao mesmo tempo, a escrita foi de fundamental importância para o controle dos negó-

Baixo-relevo datado do final do século VI a.C. representando delegações levando presentes ao imperador Aquemênida, em Persépolis, Irã. Foto de 2006.

O Império Persa Capítulo 9

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Olho vivo

A fiandeira persa

Retratar mulheres no antigo mundo do Oriente Médio não era algo muito comum. Excetuando-se as imagens que representavam deusas, as mulheres – quando apareciam – estavam em segundo plano, geralmente sobrepujadas por uma figura masculina. Por isso, o relevo aqui apresentado – uma fiandeira em seu ambiente doméstico – é considerado bastante raro. Esculpida em um pedaço de rocha sedimentar, a peça foi encontrada em Susa, no atual Irã, e é datada do século VIII a.C. ou VII a.C. Acredita-se que represente uma deusa ou uma cortesã do palácio de Susa.

Esta figura representa talvez uma criança ou alguém hierarquicamente inferior à fiandeira.

Reunião de Museus Nacionais da França/Other Images/Museu do Louvre, Paris, França

A fiandeira gira o fuso em torno do qual está enrolado o fio.

Pessoas comuns costumavam comer no chão, o que não é o caso dessa mulher.

Os pés dos móveis têm entalhes no formato de garras de leão. Apenas os reis tinham móveis com tantos ornamentos.

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As ranhuras paralelas sugerem que o leque é de vime.

As duas figuras usam braceletes.

Unidade 2 A urbanização

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3

Entre o Bem e o Mal

Os persas deixaram importante legado aos diversos povos e religiões posteriores a eles. As ideias relacionadas ao Juízo Final, ao Paraíso e à oposição entre o Bem e o Mal encontradas no cristianismo, por exemplo, têm como origem o zoroastrismo, a religião persa. Os fundamentos dessa doutrina estão registrados no Zend-Avesta, obra escrita

por Zoroastro (628-551 a.C.), também conhecido como Zaratustra. Oficialmente, apenas o deus Ahura-Mazdâ, simbolizado pela luz e pela pureza do fogo, era adorado. A população, porém, cultuava divindades que personificavam as forças do Bem em permanente luta contra as trevas e os demônios. Acreditava que quem combatesse as forças do Mal alcançaria a felicidade e a vida eterna.

Enquanto ¡sso... Os etruscos na península Itálica

Roger Cracknell 01/classic/Alamy/Other Images

Os medos foram povos nômades unificados no século VII a.C. por um líder guerreiro chamado Déjoces. Por essa época, na península Itálica tinha início uma fase de grande esplendor para a civilização etrusca. Organizados em cidades-Estado, os etruscos se lançaram à conquista de novos territórios na península Itálica. Além de agricultores, eles produziam objetos de bronze, ferro, ouro e prata, e faziam peças de

marfim, que comercializavam com outros povos da região. Muitos desses produtos eram vendidos ao longo do Mediterrâneo, sobretudo a mercadores gregos e fenícios, com os quais os etruscos mantinham intensas relações comerciais. Por acreditar na vida após a morte, os etruscos construíam túmulos suntuosos para seus mortos, com salas, corredores e pinturas nas paredes. Como veremos no capítulo 14, eles teriam papel preponderante na formação de Roma.

Portão etrusco de Volterra, na Itália. Os etruscos foram exímios engenheiros e urbanistas que utilizavam madeira e pedras em suas construções. Introduziram na região onde hoje é a Itália o artifício arquitetônico dos arcos de volta perfeita. Foto de março de 2007.

O Império Persa Capítulo 9

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Organizando AS IDEIAS 1. A Pérsia, região do atual planalto iraniano, foi ocupada originalmente por volta de 2000 a.C. Descreva como se realizou essa ocupação e que povos conviveram durante séculos naquela região.

parando-o com os mapas dos capítulos anteriores, identifique pelo menos três povos já estudados que sofreram a dominação do Império Persa.

2. Dario manteve unificado um império com cerca de 10 milhões de habitantes cujas línguas e costumes eram bastante diversos. Que medidas ele tomou para garantir a unidade do império?

5. Na mesma época em que o Império Persa entrava em declínio, a civilização etrusca vivia um momento de expansão na península Itálica. Descreva, em linhas gerais, quem eram os etruscos.

3. Que características do Império Persa favoreceram o intercâmbio e a disseminação do conhecimento de diversas culturas? 4. Observe no mapa da página 66 a legenda sobre a extensão máxima do Império Persa. Com-

6. A base da religião persa era o zoroastrismo, doutrina filosófica fundada por Zoroastro (628-551 a.C.). Quais as principais ideias defendidas por essa doutrina?

Interpretando DOCUMENTOS O texto que você vai ler a seguir narra as conquis-

maneira soube captar o amor dos povos, que to-

tas do rei persa Ciro, o Grande (c. 590-530 a.C.). Ele

dos queriam viver sujeitos às suas leis. Finalmen-

faz parte do livro Ciropédia, escrito pelo grego Xe-

te, fez dependentes de seu império tão grande

nofonte (c. 430-355 a.C.), um soldado e discípulo do

número de reinos, que é dificultoso percorrê-los,

filósofo grego Sócrates (c. 470-399 a.C.). Após a lei-

partindo da capital para qualquer dos pontos car-

tura, responda às questões propostas.

deais, para leste ou para oeste, para o norte ou

Sabendo que na Ásia havia nações autônomas, Ciro pôs-se em marcha com um pequeno exército de persas, dominou os medos e hircanos, que

XENOFONTE. Ciropédia: a educação de Ciro. São Paulo: Edições Cultura, [s.d.]. p. 24.

espontaneamente receberam o jugo, venceu a Sí-

1. Segundo o relato de Xenofonte, quais foram as

ria, a Assíria, a Arábia, a Capadócia, ambas as Frígias, a Lídia, a Cária, a Fenícia, a Babilônia e outras regiões. Todas essas nações falavam línguas diferentes

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para o sul.

principais ações atribuídas a Ciro? 2. Ainda segundo o texto, quais foram as reações mais comuns dos povos submetidos ao domínio de Ciro?

entre si, e diferentes da do conquistador; e con-

3. Por que podemos afirmar que o relato de Xe-

tudo penetrou Ciro tanto além com suas armas,

nofonte é extremamente parcial e constrói uma

e com o terror de seu nome, que a todos encheu

imagem positiva de Ciro? Cite trechos do relato

de medo, nenhuma ousou sublevar-se. E de tal

que justifiquem sua resposta.

Unidade 2 A urbanização

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Capítulo 10

Os hebreus Evan Sklar/Botanica/Getty Images

Objetivos do capítulo 

dispersão pelo mundo a que foram submetidos por quase 2 mil anos. Somente em 1948, com a criação do Estado de Israel, os judeus conquistariam sua autonomia e voltariam a viver em um mesmo território. A história dos hebreus, dos quais os judeus são descendentes, é o tema deste capítulo. Yadid Levy/Alamy/Other Images

Israel é um país de pequenas dimensões territoriais: com 20 mil quilômetros quadrados apenas, sua área é equivalente à do estado de Sergipe. Apesar disso, é considerado a principal potência do Oriente Médio: é o único Estado da região dotado de armas nucleares. Em Israel vivem cerca de 7,5 milhões de pessoas. A maior parte delas (77%) professa a crença no judaísmo. Religião monoteísta criada por volta de 1200 a.C., o judaísmo foi um dos fatores que ajudaram a manter as tradições e a unidade dos hebreus durante a

Analisar o conceito de monoteísmo e sua importância histórica. Explicar o papel do judaísmo no desenvolvimento do sentimento de identidade do povo hebreu. Abordar algumas etapas da história dos hebreus.

Visitantes observam obras do Museu de Arte de Tel Aviv, Israel. Foto de outubro de 2011.

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1

O papel da religião

Segundo alguns pensadores, as religiões seriam uma tentativa de responder a indagações para as quais a razão humana não tem respostas. Assim, os deuses teriam sido criados para explicar fenômenos como o nascer do sol, uma estrela cadente, o raio e o trovão, as doenças, o nascimento, a morte, as guerras, etc. Entre essas divindades, uma teria se destacado entre as outras e passado a ser considerada uma espécie de rei dos deuses, criador de todas as coisas. Esse processo teria levado a humanidade em direção ao monoteísmo. No Egito, por exemplo, no século XIV a.C., o faraó Amenófis IV tentou implantar o culto a um único deus, Aton, mas fracassou. Após sua morte, os egípcios retornaram ao politeísmo. Seja como for, a crença no Deus único e universal só se concretizou de fato entre os hebreus, povo nômade que, há milhares de anos, disputava com outros povos do deserto poços de água e terras de pastagem no Oriente Médio.

2

Hebreus na Palestina

Os hebreus são um grupo que tem sua origem linguística na Mesopotâmia. O hebraico falado por eles era uma língua semita, assim como as de outros povos mesopotâmicos. Sua história é narrada sem precisão científica no Velho Testamento, um dos livros que compõem a Bíblia. O primeiro registro não bíblico de sua existência foi encontrado no Egito e é datado de cerca de 1220 a.C. Trata-se de um relato que aborda a relação de dominação exercida sobre eles pelo faraó Mineptah. Documentos históricos e descobertas arqueológicas comprovam a presença dos hebreus na Palestina somente a partir de 1230 a.C. Essa data contraria as informações da Bíblia, segundo a qual eles já estariam estabelecidos em solo palestino dois séculos antes (sobre essa divergência, veja o boxe A Bíblia como fonte).

3

Os juízes e o monoteísmo

Quando os hebreus se estabeleceram na Palestina, sua organização social baseava-se em um sis-

72

tema comunitário, sem forma definida de governo. Os líderes surgiam apenas em momentos de maior necessidade, como durante as guerras. Na falta de uma centralização política e administrativa, cabia a um conselho de anciães, liderado por um juiz, o papel de orientar e aconselhar a população em questões específicas. Os juízes eram chefes militares com autoridade religiosa. Na tentativa de unificar as tribos hebraicas, eles passaram a difundir entre a população a ideia de que os hebreus eram um povo único, escolhido por Deus em meio a tantos outros. Para despertar esse sentimento de identidade, os juízes afirmavam que os hebreus eram descendentes diretos do patriarca Abraão – aquele que, segundo a Bíblia, teria conduzido os hebreus de Ur, na Mesopotâmia, à Terra Prometida, na Palestina. Eles também exortavam a população a abandonar seus antigos hábitos politeístas. Tudo isso contribuiu para o nascimento do judaísmo, religião monoteísta que se tornaria a base de outras crenças monoteístas surgidas mais tarde, como o cristianismo e o islamismo (veja o boxe Heranças do politeísmo).

Heranças do politeísmo diversos estudos apontam no monoteísmo judeu a presença de elementos politeístas das civilizações antigas. Um dos exemplos disso é a história do dilúvio, segundo a qual Noé conseguiu sobreviver a uma inundação construindo uma arca. Esse episódio – relatado na Bíblia – seria uma adaptação do Épico de Gilgamesh, poema sobre um rei da Mesopotâmia, escrito por volta de 2000 a.C. Segundo o filósofo francês Voltaire (1694-1778), o judaísmo é resultado da influência das religiões de diferentes povos. Ele afirma que os hebreus tomaram emprestado dos fenícios o nome de deus; dos persas, a crença na existência de anjos e na luta entre o Bem e o Mal; e dos egípcios, a prática da circuncisão. Fonte: NASCIMENTo, Maria das Graças do. dos deuses ao ser supremo. Folha de S.Paulo, 8 mar. 1996, Caderno Especial.

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A Bíblia como fonte

Fontes: PINSKY, Jaime. As primeiras civilizações. São Paulo: Contexto, 2001. p. 108-109; MAN, John. A história do alfabeto. rio de Janeiro: Ediouro, 2002. p. 116-129; JoHNSoN, Paul. História dos judeus. rio de Janeiro: Imago, 1989. p. 17-25.

4

as doze tribos

Por volta de 1010 a.C., os hebreus unificaram suas tribos e formaram o reino de Israel, do qual o primeiro rei foi Saul. Coube a seu sucessor, Davi (1006-966 a.C.), a tarefa de expulsar da Palestina um dos povos rivais: os filisteus. Após escolher Jerusalém – cidade que já existia – para capital do reino, Davi dividiu Israel em doze províncias (ou tribos, como eram denominadas tradicionalmente).

Sua opinião Cite três fontes para o estudo de História. Não se esqueça de justificar sua escolha.

Top Foto/Topham Picturepoint/Keystone

Uma das principais fontes de estudo do povo hebreu é o Velho Testamento, um dos livros da Bíblia. Segundo a primeira parte desse texto, os hebreus descendem de Abraão, patriarca que vivia na cidade de Ur – na Mesopotâmia – e que teria recebido uma ordem de deus para conduzir seu povo até a Terra Prometida, também chamada de Canaã, ou Palestina, situada onde hoje se encontra o Estado de Israel (localize a cidade de Ur no mapa da página 74). Mais tarde, no decorrer do século XX a.C., um longo período de seca e fome teria obrigado os hebreus a deixar Canaã para se fixar no Egito, onde acabariam escravizados. Ainda segundo o relato bíblico, no século XV a.C. eles teriam fugido de lá guiados por Moisés*, profeta escolhido * Veja o filme Os por deus para conduzir Dez Mandamentos, o povo hebreu de volta à de Cecil B. DeMille, Terra Prometida. depois 1956, e a animação O príncipe do Egito, de quarenta anos de trade Brenda Chapman, vessia no deserto, os heSteve Hickner e breus teriam chegado Simon Wells, 1998. à Palestina. Apesar das divergências de datas entre a historiografia e o Velho Testamento, a Bíblia pode ser usada como referência nos estudos de História. Juntamente com outras fontes, ela nos permite reconstruir a história dos hebreus e recuperar costumes de civilizações antigas, padrões de comportamento, mitos das regiões, etc.

Estatueta de mulher sumeriana de 2100 a.C. Segundo especialistas, ela seria uma representação de Sarah, esposa do patriarca Abrãao, que teria conduzido o povo hebreu da cidade de Ur, na Mesopotâmia, até a Palestina.

Com Salomão (966-926 a.C.), filho de Davi, o reino de Israel conheceu sua fase de esplendor. É dessa época a construção do Templo de Jerusalém, mais conhecido como Templo de Salomão. Com a morte de Salomão, eclodiram conflitos e o reino foi dividido em dois territórios: o reino de Israel, reunindo as dez tribos do norte; e o reino de Judá, formado pelas duas tribos do sul (veja o mapa da página 74). Os hebreus Capítulo 10

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BibleLandPictures/Alamy/Other Images

Nos séculos que se seguiram, o território dos hebreus foi invadido por diferentes povos, como os assírios, babilônios, persas, entre outros. O Reino de Israel existiu até 720 a.C., já o de Judá durou até 586 a.C. Em 135 d.C. os romanos expulsaram os hebreus de Jerusalém, que se dispersaram por outras regiões. Essa dispersão, conhecida como Diáspora, duraria cerca de 2 mil anos. Mesmo separados uns dos outros, sem governo e território próprios até 1948, quando a ONU criou o Estado de Israel, os judeus mantiveram vivo o sentimento de identidade nacional. Esse sentimento de pertencer a uma única nação só foi possível devido à sua crença religiosa e ao fato de acreditarem que a Palestina estava destinada a eles por vontade divina.

Mosaico em piso de sinagoga em Gaza, obra do século IV que retrata o rei Davi tocando lira. Há um detalhe de inscrição em hebraico no mosaico.

Ur e a Palestina 35º

Mar Negro

40º ESCALA 380

0

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ESCALA 30

60

QUILÔMETROS

PALESTINA Jericó Mar

Samaria Rio Jordão

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M E S O P OTÂ M I A BABILÔNIOS SUMÉRIOS

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Mar Cáspio

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Mar Mediterrâneo

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760

QUILÔMETROS

EUROPA

ÁSIA

ÁFRICA

Fonte: World History Atlas: Mapping the Human Journey. London: Dorling Kindersley, 2005.

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Unidade 2 A urbanização

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Enquanto ¡sso... Na mesma época em que os hebreus eram dominados pelos assírios (século VIII a.C.), o Egito também sofria invasões de vários povos. Um deles vinha da Núbia, região rica em ouro, localizada numa grande área ao sul da primeira catarata do rio Nilo, onde atualmente se localiza o Sudão (veja o mapa da página 43). Aí ficava a terra do povo Kush, cuja capital – e principal centro religioso – era a cidade de Napata, nas proximidades da quarta catarata do Nilo. No século XV a.C., essa região caiu sob o domínio dos egípcios, que a controlaram por aproximadamente cinco séculos. Com a reconquista da autonomia pelos kushitas, um poderoso reino floresceu aí. Por volta de 750 a.C., um rei kushita invadiu o Egito e assumiu o poder. Posteriormente, seu filho Pianky (ou Piye) tornou-se faraó, fundando

a 25a dinastia do Egito. os kushitas eram negros. Por isso, esse período é conhecido como “época dos faraós negros”. A dinastia kushita governou o Egito até 653 a.C., ano em que os assírios conquistaram a região e derrubaram o faraó Tenutamon.

Museu Hermitage, São Petersburgo, Rússia/Werner Forman Archive/Imageplus.

Os faraós negros

Escultura de bronze do faraó Taharqa, considerado o mais importante da dinastia etíope ou kushita. Filho de Pianky (ou Piye), o fundador da dinastia, Taharqa governou o Egito entre 690 a.C. e 664 a.C.

Organizando AS IDEIAS 1. Segundo alguns pesquisadores, as religiões nasceram para responder o que a razão humana não conseguia explicar. Como se realizou a passagem das religiões politeístas para as monoteístas? 2. A origem dos hebreus descrita pela Bíblia e a descoberta pelas pesquisas históricas e arqueológicas têm aspectos comuns e informações divergentes. Quais são essas divergências? 3. Apesar das divergências entre a historiografia e o Velho Testamento, é possível resgatar a história dos hebreus e do monoteísmo utilizando a Bíblia como documento histórico? Justifique sua resposta. 4. Estabelecidos na Palestina, os hebreus tinham uma estrutura política baseada no conselho de anciães liderados por um juiz. Quais as características fundamentais dessa organização política?

5. De que modo os juízes contribuíram para a adoção do monoteísmo entre os hebreus? 6. Por que o monoteísmo foi importante para a unificação de um reino hebreu em torno de uma monarquia? 7. As religiões são construídas com os elementos culturais disponíveis em determinada região, em uma dada época. Elas não são fruto da imaginação de uma pessoa, mas do desenvolvimento da sociedade. Por que podemos afirmar que o monoteísmo judeu utilizou-se de diversos aspectos do politeísmo? 8. Durante a dominação romana, os hebreus viveram a chamada Diáspora (a dispersão imposta pelos romanos em 135 d.C.), um longo processo de dispersão para diversas partes do mundo. Como explicar que, quase 2 mil anos depois, os judeus se reorganizariam no Estado de Israel, fundado em 1948?

Mundo virtual 

Museu de Israel – Visita virtual pelo museu, em Jerusalém, onde é possível ver várias peças de seu acervo (site em inglês). Disponível em: <www.googleartproject.com/collection/the-israel-museum-jerusalem/>. Acesso em: 4 out. 2012. Os hebreus Capítulo 10

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Fechando a unidade

A urbanização

Peter Parks/Agência France-Presse

DOCUMENTO 1 – Gráfico

O crescente processo de urbanização verificado atualmente no mundo pode ser analisado com base nos três documentos que você lerá a seguir. O primeiro consiste em um gráfico com a evolução das populações rural e urbana a partir de 1950 e suas respectivas projeções até 2030; o segundo é um texto extraído de um relatório de 2007 do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA); o terceiro, finalmente, é a letra de um rap do grupo Facção Central. Leia os três documentos e responda ao que se pede.

População rural x População urbana Evolução (1950-2030) População rural

71

29

1950

67,2

32,8

1960

64,1

35,9

1970

60,9

39,1

1980

57

43

1990

População urbana

53,3

50

46,7

2000

52,9 47,1

2007

2015

57,5

59,9

42,5

40,1

2025

2030

DOCUMENTO 2 – Relatório

Fonte: UNFPA.

O crescimento urbano e seus problemas É compreensível que os formuladores de políticas tenham uma preocupação com a velocidade e a magnitude do crescimento urbano. Muitos prefeririam um crescimento mais lento ou nenhum crescimento; um crescimento mais lento garantiria, em tese, maior flexibilidade para se lidar com os problemas urbanos. Geralmente, eles tentam retardar o crescimento restringindo a migração para as cidades, mas [...] isso raramente funciona. Além disso, tais esforços refletem falta de compreensão sobre as raízes demográficas do crescimento urbano. A maioria das pessoas pensa que a migração é o fator dominante; na verdade, hoje a principal causa é geralmente o crescimento vegetativo. [...] Centenas de milhões de pessoas vivem em situação de pobreza nas cidades de nações de baixa e média renda, e esses números certamente aumentarão nos próximos anos. [...] A pobreza, a mendicância e a falta de moradia têm sido parte do cenário urbano desde as primeiras cidades da Mesopotâmia. Os pobres, em sua

maioria, são relegados a áreas socialmente segregadas, genericamente chamadas de “favelas”. [...] As favelas abrigam um de cada três moradores das cidades, um bilhão de pessoas, um sexto da população do planeta. Mais de 90% dos moradores de favelas estão hoje no mundo em desenvolvimento. [...] Embora a renda em dinheiro seja muito mais importante nas cidades do que no campo, a pobreza de renda é somente um aspecto da pobreza urbana. Outros são a má qualidade e superlotação das moradias, falta de serviços públicos e de infraestrutura, como água encanada, saneamento, coleta de lixo, drenagem e estradas, assim como a posse insegura da terra. [...] Os riscos à saúde advêm da falta de saneamento, de água potável e de moradia, dos ambientes de trabalho superlotados e mal ventilados, e da poluição industrial e do ar. Uma dieta inadequada reduz a resistência dos moradores de favelas a doenças, especialmente por viverem na presença constante de microrganismos patogênicos. [...]

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DOCUMENTO 3 – Letra de música

Na América Latina, somente 33,6% da população urbana pobre tem acesso a instalações sanitárias com descarga, comparados com 63,7% da população urbana não pobre da região. [...] As políticas voltadas para a melhoria das moradias em

áreas urbanas podem ter enormes impactos na redução da pobreza e no bem-estar ambiental.

O que os olhos veem

Os olhos do boy esses aí, esses não veem nada, nenhum problema, não veem os aviões com droga, o tráfico de arma, as escolas sem telhado, lousa, professor, segurança, o jovem sem acesso a livro, quadra esportiva, centro cultural;

O retrato da favela tem só uma imagem, mas cada olho tem sua interpretação pra essa imagem. Meus olhos veem quando eu olho pra favela almas tristes, sonhos frustrados, esperanças destruídas, crianças sem futuro, vejo apenas vítimas e dor. Os olhos do gambé veem traficantes com R-15 e lançador de granada, vagabundas drogadas, mães solteiras, desempregados embriagados no balcão do bar, adolescentes viciados, pivetes com pipa com rojão avisando que os homi tão chegando. Veem em cada barraco um esconderijo, uma boca em cada senhora de cabelo branco, uma dona Maria mãe de bandido. Os olhos do político veem presas ignorantes, ingênuas, marionetes de manuseio simples a faca e o queijo, o passaporte pra Genebra o talão de cheque especial, o tapete vermelho pra loja da Mercedes [...] Veem o mar de peixes cegos que sempre mordem o mesmo anzol.

Extraído de: Situação da população mundial 2007: desencadeando o potencial do crescimento urbano. Disponível em: <www.unfpa.org.br/relatorio2007/ swp2007_por.pdf>. Acesso em: 16 abr. 2012.

Não veem os ossos no cemitério clandestino, as vítimas da brutalidade da polícia, o povo esquecido e desassistido. Os olhos do boy só são capazes de enxergar na imagem da favela, o medo, o medo em forma de HK na ponta do seu nariz. E você, truta, o que seus olhos veem quando olham pra favela? Facção Central. Direto do campo de extermínio. São Paulo: Unimar Music, 2003. 1 CD.

O que significa? Gambé: policial. R-15 e HK: armas de grosso calibre. Avião: pessoa que repassa, vende ou transporta drogas.

Reflita e responda 1. Observe o gráfico População rural x População urbana e responda: a) Qual é a informação central apresentada pelo gráfico? b) Em que ano a população urbana e a população rural atingiram o mesmo patamar percentual, isto é, a mesma quantidade de habitantes? c) Segundo as projeções do gráfico, qual será o percentual da população urbana em 2030 em relação à população mundial? 2. Baseado na leitura do relatório e nos dados do gráfico, levante hipóteses de como será a vida nas grandes cidades em 2030. 3. Reúna-se com alguns colegas e, juntos, entrevistem pessoas mais velhas para descobrir como era a vida na cidade quando elas eram crianças. Peça-lhes que comparem aquela época com a atual e falem das principais mudanças verificadas na cidade desde então. Procurem obter fotos da época. No fim, todos os grupos devem se reunir sob a orientação do professor e montar um mural com o material obtido. 4. Tanto o relatório da UNFPA como a letra do rap abordam um tema em comum: a falta de qualidade de vida dos moradores das favelas. Releia os dois textos e selecione passagens de ambos que evidenciam essa realidade. 5. No rap “O que os olhos veem”, o autor sugere diversos pontos de vista sobre os moradores da favela: o do próprio autor, o da polícia, o dos políticos e o ponto de vista dos “boys”. O rap termina com a pergunta: “E você, truta, o que seus olhos veem quando olham pra favela?”. Como você responderia a ela?

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Unidade

Photo Researchers/Latinstock

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Direito e democracia

S

Banaras Khan/Agência France-Presse

ob diversos aspectos, podemos dizer que o mundo nunca viveu um período tão democrático como o atual. O fim do autoritarismo no Leste Europeu e em outras regiões no final do século XX ajudou a consolidar a ideia de que, finalmente, a democracia triunfou em toda parte. Entretanto, as condições de vida enfrentadas por grandes contingentes da população mundial nos fazem duvidar de que vivemos, de fato, uma grande onda democrática.

Mulheres afegãs vestindo burcas exibem seus documentos enquanto aguardam para votar nas eleições presidenciais e provinciais do país, em Kandahar, agosto de 2009.

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Cidadãos do cantão de Glarus, na Suíça, votam em comício ao ar livre na cidade de Glarus, 2008.

De acordo com o moderno conceito de democracia, não basta o exercício da liberdade de opinião e do direito de participar da vida pública por meio de eleições livres para que se tenha um regime democrático. A democracia também tem por função garantir o exercício dos direitos humanos, assegurando a todos os cidadãos acesso à educação, ao trabalho e a condições de vida dignas, devendo ainda promover o respeito pelas diferenças étnicas, de gênero, etc. O conceito de democracia é fruto de um longo processo, que começou a amadurecer na Grécia antiga, onde nasceu não só a palavra, mas também o regime democrático, entendido como governo da maioria, na célebre definição de Aristóteles. O tema desta unidade são as sociedades grega e romana na Antiguidade clássica. Uma nos legou a democracia. A outra, o Direito Romano, que até hoje inspira o corpo jurídico das nações democráticas. Ambas, porém, tinham por base o trabalho escravo. Da mesma forma, as democracias modernas convivem hoje com profundas desigualdades sociais e frequentes desrespeitos aos direitos humanos. Diante disso, resta-nos lutar para expandir seus limites, de modo a incluir no sistema democrático todos aqueles que hoje se encontram excluídos de seus benefícios.

COMEÇO DE CONVERSA 1. Reúna-se com seu grupo de colegas e discuta com eles a seguinte questão: podemos dizer que a sociedade brasileira é democrática? Reflita sobre o tema com base no texto de abertura. 2. Em sua opinião, os direitos dos negros, indígenas, homossexuais, mulheres, deficientes, etc., são assegurados em todos os países? É possível estabelecer alguma relação entre esses direitos e os diferentes tipos de democracia existentes no mundo? Justifique sua resposta. 79

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Capítulo 11

A Grécia antiga: formação Roger Wood/Corbis/Latinstock

Objetivos do capítulo 

Conhecer as origens da Grécia antiga. Compreender os processos migratórios e a formação étnica e cultural da civilização grega. Entender o processo de transformações no interior da sociedade grega que conduziram a uma reorganização política. Compreender as origens das cidades-Estado gregas.

Minotauro, ser mitológico metade touro, metade homem, que vivia encerrado em um labirinto na ilha de Creta e se alimentava de carne humana. A civilização que construiu o palácio de Minos ficou conhecida como minoica. Ela teve forte influência no processo de formação da civilização grega.

Frilet Patrick/Hemis/Zumapress.com

Com 8,3 mil quilômetros quadrados, Creta é uma das maiores ilhas do Mediterrâneo. Pertencente à Grécia, atrai todos os anos turistas do mundo inteiro que vão conhecer os vestígios de sua civilização milenar. Muito procuradas são as ruínas do palácio de Minos, erguido na antiga cidade de Cnossos. Rico em afrescos, o palácio foi construído por volta de 2000 a.C. e era uma enorme construção de 20 mil metros quadrados. Os historiadores acreditam que ele teria servido não apenas de morada real, mas também de centro administrativo e comercial dos cretenses. Com seus cômodos e corredores, o palácio lembrava um labirinto. Segundo pesquisadores, ele teria servido de inspiração para a figura do

Ruínas do palácio de Minos, em Cnossos, Creta, região da Grécia. Cnossos é o maior sítio arqueológico cretense na atualidade. Foto de junho de 2009.

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A Grécia é um país mediterrâneo localizado na península Balcânica (veja o mapa da página a seguir). Seu território, um pouco menor do que o estado do Ceará, é formado por duas regiões: a continental e a insular, composta de mais de 2 mil ilhas espalhadas pelos mares Egeu, Mediterrâneo e Jônico. Nas origens da civilização grega, esse território foi ocupado por diferentes povos indo-europeus, que entre 5 mil e 3 mil anos atrás aí se estabeleceram e se misturaram: aqueus, eólios, jônios e dórios. A miscigenação étnica e cultural observada entre eles, juntamente com a aquisição de hábitos e costumes de outros povos, como os fenícios e os egípcios, estão na base da formação da civilização grega. Além disso, os gregos também receberam forte influência da civilização minoica.

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os cretenses

Pouco se sabe sobre as origens da civilização minoica – também conhecida como cretense por ter se desenvolvido em torno da ilha de Creta –, mas o fato é que, por volta de 2500 a.C., já podiam ser encontradas em Creta importantes cidades, com residências de pedra e tijolos e artesãos hábeis no fabrico de joias e de outros artefatos de metal. Para navegar entre as ilhas da região, os primeiros cretenses utilizavam canoas escavadas em troncos de árvores. No início do segundo milênio antes de Cristo, as primitivas canoas deram lugar a embarcações mais sofisticadas, que permitiram aos cretenses expandir o comércio pelo Mediterrâneo. A localização da ilha facilitou essa atividade mercantil, pois ela está a pouco mais de 300 quilômetros da Grécia continental e a menos de 700 quilômetros do Egito. Em seu apogeu, a marinha cretense tornou-se a maior da época e seus mercadores chegaram a dominar o comércio do Mediterrâneo. Como resultado de suas viagens, os cretenses entraram em contato com outros povos e assimilaram traços de diversas culturas. Com os mesopotâmios, aprenderam a trabalhar o bronze; com os egípcios, a fabricar vasos de pedra. A prosperidade advinda com o comércio possibilitou um grande desenvolvimento

Erich Lessing/Album Art/Latinstock

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miscigenação étnica e cultural

Afresco minoico do século XIII a.C. encontrado na ilha de Thera (atual Santorini) representando embarcações em um porto.

urbanístico, com a construção de portos, aquedutos e palácios ornamentados com afrescos. Durante os primeiros séculos de sua consolidação, a sociedade minoica dividiu-se em vários principados independentes. Por volta de 1450 a.C., os príncipes locais passaram a se submeter ao controle do rei de Cnossos. A pirâmide social cretense tinha no topo uma aristocracia formada pelo rei e por nobres, mercadores e sacerdotes; seguia-se o grupo dos artesãos, artistas e funcionários; abaixo dele, vinham os agricultores e pastores; na base da pirâmide, encontravam-se os escravos. No início do século XV a.C., Creta foi devastada por terremotos e guerras internas. Enfraquecida, passou a ser alvo de ataques dos aqueus (veja o item 3 a seguir), que invadiram e dominaram diversas colônias cretenses no mar Egeu e, por volta de 1400 a.C., atacaram a própria cidade de Cnossos, cuja destruição marcou o colapso da sociedade minoica.

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os aqueus

Os aqueus eram um povo de origem indo-europeia que, a partir de 3000 a.C., estabeleceu-se na península Balcânica. Com menos domínio tecnológico do que os cretenses, fundaram cidadelas fortificadas, como Pilo, Tirinto e Micenas (veja o mapa da página seguinte). Esta última, localizada na região central do Peloponeso, se tornou a mais influente cidade aqueia e acabou emprestando seu nome à civilização micênica. A Grécia antiga: formação Capítulo 11

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A formação da Grécia Antiga (3000 a.C.-800 a.c.) 25º

Mar Negro

PENÍNSULA BALCÂNICA

PARA A CRIMEIA TRÁCIA

Mar de Mármara

MACEDÔNIA CALCÍDICA

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Ílion (Troia) Córcira

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Provável rota da migração dos aqueus

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Centro de difusão da sociedade aqueia Eólios

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Dórios Civilização minoica

Fonte: World History Atlas: Mapping the Human Journey. London: Dorling Kindersley, 2005.­

Boa parte do desenvolvimento de Micenas se deveu ao intercâmbio comercial dos aqueus com os mercadores minoicos. Graças a esse intercâmbio, os micênicos assimilaram valores culturais cretenses e, aos poucos, os incorporaram a seu cotidiano. Aprenderam a fabricar armas de bronze e a produzir objetos de ouro, prata e marfim, além de assimilar práticas agrícolas e técnicas de navegação. Em contato com a escrita cretense, desenvolveram um sistema de escrita próprio, que misturava ideogramas com sinais representando sílabas. 82

Ao dominarem Creta, os aqueus assumiram o controle das rotas comerciais do Mediterrâneo, o que lhes possibilitou grandes avanços econômicos. A partir do século XIV a.C., porém, o comércio sofreu uma grande queda e a economia micênica declinou. Por volta de 1200 a.C., os aqueus teriam travado uma guerra com os habitantes de Troia*, próspera cidade da Ásia Menor, na cos* Veja o ta da Turquia atual. Considerados filme Troia, por alguns estudiosos como len- de Wolfgang Petersen, 2004. da, os acontecimentos desse con-

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A Guerra de Troia Atribuídos a Homero, os poe* Veja o filme mas épicos Ilíada e Odisseia* A odisseia, são considerados as mais anti- de Andrei gas obras da literatura grega. o Kochalovsky, 1997. primeiro narra a Guerra de Troia, conflito entre gregos e troianos que durou dez anos (veja a seção No mundo das letras, no fim do capítulo). de acordo com a obra, o confronto teria sido motivado pelo fato de Páris, filho do rei de Troia, ter seduzido Helena, mulher de Menelau, rei de Esparta, e fugido com ela para sua terra. Em represália, Menelau recrutou um exército chefiado por guerreiros como Aquiles, Agamenon e Ulisses e atacou Troia. depois de cercar a cidade por vários anos, os gregos conseguiram derrotar seus inimigos graças a um artifício: deixaram de presente nos portões de Troia um enorme cavalo de madeira com soldados escondidos em seu interior. Quando os troianos levaram o cavalo para dentro das muralhas, os gregos saíram do esconderijo, dominaram a cidade e levaram Helena de volta para a Grécia. Já a Odisseia narra os dez anos que Ulisses (odisseu, em grego) levou para voltar à sua terra natal, o reino de Ítaca, depois de ter combatido em Troia. Vários estudiosos contestam a autoria dos dois poemas, afirmando que Homero nem sequer existiu. Essas obras seriam, nesse caso, uma compi-

lação de diversos poemas, o que justificaria o fato de terem estilos e linguagens diferentes. Em 2008, alguns estudiosos anunciaram ter descoberto o dia exato em que Ulisses teria retornado a Ítaca. Eles chegaram à data relacionando referências astronômicas da Odisseia com a análise de fenômenos astronômicos daquele período. Baseados nesses dados, constataram que a 16 de abril de 1178 a.C. ocorreu um eclipse solar, tal como Homero descreve ao se referir ao dia em que Ulisses voltou a Ítaca. Fonte: FErNANdES, Thaís. Um eclipse na odisseia? Ciência Hoje, São Paulo: SBPC. 24 ago. 2008. Museu Britânico, Londres/Werner Forman Archive/Glow Images

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Máscara mortuária de ouro atribuída a Agamenon (2000 a.C.). Rei de Micenas, Agamenon teria sido comandante dos gregos na Guerra de Troia, segundo o poema Ilíada, atribuído a Homero. Acervo do Museu Arqueológico Nacional de Atenas.

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flito, conhecido como Guerra de Troia, ficaram eternizados nas obras Ilíada e Odisseia (veja a seção Passado presente a seguir). Na segunda metade do século XII a.C., a civilização micênica entrou em crise. Seu território foi então ocupado pelos dórios, povo indo-europeu.

Pintura em ânfora grega (480 a.C.) representando cena da Odisseia na qual Ulisses é tentado pelo canto das sereias.

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A civilização grega

A invasão dória

Entre os séculos XII a.C. e VIII a.C., os dórios exerceram a supremacia no Peloponeso e em outras regiões da Grécia. Conhecido como Período Homérico, alguns historiadores preferem chamá-lo de Idade das Trevas, uma vez que as cidades micênicas foram destruídas, seus palácios saqueados, as técnicas artesanais praticamente abandonadas e a própria escrita desapareceu. As populações que não fugiram e reagiram à invasão foram escravizadas, outros fizeram alianças. Os que se submeteram ao invasor passaram a ocupar uma posição subalterna na nova sociedade. Um dos fatores que favoreceram o domínio dórico foram suas armas de ferro, mais resistentes do que as de bronze, usadas pelos vencidos. Algumas regiões, contudo, permaneceram sob o domínio de outros povos. A Ática, povoada pelos jônios, foi uma delas. E os que fugiram? Muitos deles, como vimos, estabeleceram-se na Ásia Menor.

Nos séculos que se seguiram às invasões dórias ganhou impulso o processo de formação da civilização grega, resultado do intercâmbio entre os diferentes povos que ocupavam a península Balcânica ou com os quais esses povos travaram contato. De modo geral, os gregos desse período estavam organizados em tribos que se subdividiam em clãs (grupos de pessoas ligadas por laços sanguíneos e com um mesmo ancestral), os genos. Estes eram constituídos por um senhor ou patriarca, seus familiares e escravos, parentes próximos e hóspedes. A posse da terra era coletiva. O chefe tribal que mais se destacava nas guerras tornava-se rei. Formaram-se assim diversos pequenos reinos. Com o crescimento da população, a escassez de terras férteis e o uso de técnicas rudimentares, a produção agrícola se tornou insuficiente. A falta de alimentos acirrou a disputa pelo controle da terra. Isso acabou levando à extinção da posse coletiva das propriedades agrícolas e ao aparecimento de desigualdades sociais.

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o desaparecimento da escrita dificultou por muito tempo o estudo do período posterior à invasão dórica. os poemas atribuídos a Homero, Ilíada e Odisseia, são uma das principais fontes de informação dessa época. Essa é a razão pela qual o período compreendido entre os séculos XII e VIII a.C. é chamado pelos historiadores de Período Homérico. Entretanto, essas obras devem ser vistas com cuidado, uma vez que falam de um passado distante, pois foram escritas somente no século VIII a.C., e introduzem deuses e outros seres míticos na narrativa. desde o final do século XIX, a pesquisa arqueológica tem também contribuído para conhecer melhor esse período. Assim, além da Ilíada e da Odisseia, outras fontes são usadas para conhecer melhor esse passado, como as ruínas de cidades encontradas no lugar indicado por Homero como o da localização de Troia e objetos e ferramentas produzidos naquela época.

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O Período Homérico

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Vaso grego do século VII a.C. A cena pintada em sua parte superior representa um episódio da Odisseia, no qual Ulisses e seus companheiros, de volta da Guerra de Troia, furam com uma lança o olho do ciclope Polifemo, que os mantinha presos em uma ilha. Na pintura, Polifemo, semiapagado pelo tempo, aparece à esquerda, sentado, enquanto Ulisses e seus homens, de pé, o atacam com a lança.

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chamada de acrópole. Na região central da parte baixa, havia uma praça, a ágora, onde os cidadãos se reuniam para tomar decisões políticas. Na periferia, viviam os trabalhadores agrícolas e os pequenos proprietários rurais. A pólis, portanto, englobava a cidade e as terras próximas a ela. Atenas, por exemplo, dominava toda a Ática, a península na qual estava situada (reveja o mapa da página 82). Assim, aos poucos, a sociedade grega deixava de ser primordialmente camponesa e guerreira e se transformava em uma civilização centrada em torno das pólis. No início do século VIII a.C. o mundo grego estava politicamente dividido em uma grande quantidade de cidades-Estado, cujos habitantes encontravam-se unidos por laços de parentesco.

O domínio da aristocracia

As primeiras pólis Todas essas mudanças contribuíram para o enfraquecimento dos genos, que perderam sua força de coesão. Ao mesmo tempo, a necessidade de se defender contra a ação de inimigos externos incentivou o agrupamento de vários genos em cidades com governo autônomo. Começavam a surgir, assim, as pólis, ou cidades-Estado gregas. Esparta, por exemplo, surgiu da união de quatro vilas vizinhas. Esse processo ocorreu quase ao mesmo tempo em toda a Grécia (veja o capítulo 12). De modo geral, as pólis eram cidades fortificadas; na parte mais alta ficavam uma espécie de fortaleza e um santuário. Essa parte da cidade era

Rene Mattes/Mauritius/Latinstock

As maiores e melhores propriedades ficaram nas mãos de um pequeno grupo de pessoas, chamadas em alguns lugares de eupátridas (bem-nascidos). Essas pessoas formaram uma espécie de nobreza. O restante da população ou ficou sem terra ou obteve pequenos lotes, muitos dos quais pouco férteis. Detentores das melhores terras, em muitas regiões da Grécia os integrantes da nobreza acabaram afastando o rei e assumindo o poder. Com o tempo, a autoridade passou para as mãos de um pequeno grupo de eupátridas. Esse grupo constituía uma aristocracia, palavra grega que pode ser traduzida como “governo dos melhores”.

Vista da Acrópole de Atenas, na Grécia, em foto de 2007.

Organizando as ideias 1. A sociedade grega originou-se da ação de diversos povos, de processos migratórios, de invasões da península Balcânica e do cruzamento de várias culturas. Descreva, em linhas gerais, esse longo processo histórico. 2. Uma das características das cidades minoicas era seu intenso comércio pelos mares Mediterrâneo e Egeu. Em sua opinião, o que contribuiu para essa atividade? 3. O comércio marítimo dos cretenses transformou significativamente a vida desse povo. Além do desenvolvimento econômico, quais foram as outras mudanças provocadas na sociedade minoica pelas trocas mercantis?

4. Como estava organizada a sociedade e o poder na civilização cretense? 5. Os aqueus, povo de origem indo-europeia, estabeleceram-se na península Balcânica por volta de 3000 a.C. Quais eram as principais características da civilização aqueia (ou micênica)? 6. Os gregos passaram por transformações na sua organização política em razão da sedentarização e do aumento populacional. Os genos e os reis-guerreiros foram gradativamente substituídos por governos da aristocracia. Explique como funcionavam essas duas formas de organização: os genos e o governo aristocrático.

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7. Como você pode observar no mapa A formação da Grécia antiga (página 82), diversos povos estiveram na origem da civilização grega. Faça uma descrição geográfica da península Balcânica a partir de 3000 a.C., indicando a localização de cada um desses povos. Utilize a rosa dos ventos (do próprio mapa) para definir melhor a localização de cada povo.

8. Nosso conhecimento sobre a formação da antiga civilização grega foi possível graças a um conjunto numeroso de documentos e outros vestígios pesquisados e estudados por historiadores e arqueólogos. Com base na leitura do capítulo, identifique alguns desses documentos e vestígios históricos.

No mundo DAS LETRAS Invocação às musas Os poetas gregos costumavam pedir (invocar) a ajuda das musas (personagens da mitologia grega) ao começar seus poemas. A Odisseia tem início com uma dessas invocações. A obra é atribuída a Homero e foi escrita provavelmente no final do século VIII a.C. Ela trata do retorno de Odisseu (Ulisses) à sua casa na ilha de Ítaca, depois da Guerra de Troia. Leia o texto e responda às questões.

Museu do Louvre, Paris/Hervé Lewandowski/ RMN - Reunion des Musées Nationaux/Other Images

Musa, narra-me as aventuras do herói engenhoso que, após saquear a sagrada fortaleza de Troia, errou por tantíssimos lugares e, no mar, sofreu tantas angústias no coração, tentando preservar a vida e o repatriamento de seus companheiros, sem, contudo, salvá-los, mau grado seu; eles perderam-se por seu próprio desatino; imbecis, devoraram as vacas de Hélio, filho de Hiperião, e ele os privou do dia do regresso. Começa por onde te apraz, deusa, filha de Zeus, e conta-as a nós também. HOMERO. Odisseia. Trad.: Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix, 1976. p. 9.

1. Logo no começo do texto, o autor se dirige a uma musa. Faça uma pesquisa e responda: quem são as musas na mitologia grega? 2. De acordo com o texto, com que finalidade o autor invoca a presença da musa? Em sua opinião, por que ele faz isso?

Busto de Homero, o primeiro grande poeta grego conhecido, que teria vivido no século VIII a.C. (réplica do original datada do século II d.C.).

Mundo virtual 

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Museu Benaki – Site com imagens em detalhes do acervo do Museu Benaki, sobre a antiga civilização grega (site em inglês). Disponível em: <http://tinyurl.com/95tun45>. Acesso em: 10 set. 2012.

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Capítulo 12

A Grécia clássica Objetivos do capítulo Pete Saloutos/Corbis/Latinstock

Construído no século V a.C. em homenagem à deusa Palas Atena, o Partenon foi erguido numa época em que Atenas vivia um período de grande esplendor e tinha Esparta como sua maior rival em termos políticos e econômicos. Neste capítulo conheceremos mais sobre essas duas importantes cidades-Estado da Grécia antiga. Louisa Gouliamaki/Agência France-Presse

Nos primeiros anos do século XXI, o governo da Grécia gastou muito mais do que arrecadava. Resultado: o país viu-se endividado e precisou pedir elevados empréstimos junto à comunidade internacional. O endividamento foi tão grande que o governo ficou sem condições de quitar seus empréstimos, levando a Grécia a uma profunda crise que teve início em 2008. Para tentar melhorar a condição financeira do país, o governo grego adotou uma série de medidas até então impensáveis no país, como autorizar, em 2012, a exploração publicitária de seus tesouros arqueológicos. Agora, por 1600 euros é possível fazer filmagens profissionais até mesmo no Partenon, o monumento mais conhecido de toda a Grécia.

Aprofundar o estudo das pólis gregas compreendendo as transformações no interior da sociedade grega. Conhecer as características da sociedade espartana e da sociedade ateniense. Apresentar as origens dos conceitos de política, cidadania e democracia. Compreender o crescimento e o declínio do poderio de distintas cidades-Estado gregas.

Cartazes de um partido comunista grego, com a mensagem: “Abaixo a ditadura dos monopólios da União Europeia”, são vistos em frente ao templo de Partenon, na Acrópole grega antiga. Foto de 11 de fevereiro de 2012.

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Entretanto, poucos habitantes da pólis eram considerados cidadãos. Apenas os homens livres – proprietários de terra, artesãos, comerciantes e pequenos proprietários – detinham os direitos de cidadania. Estavam excluídos da vida política os escravos, os estrangeiros livres (metecos) e as mulheres em geral. O boxe As mulheres e a pólis na página ao lado aborda algumas atividades femininas na pólis. Entre as diversas cidades-Estado gregas, duas se destacaram por sua capacidade de liderança: Esparta e Atenas (veja abaixo o mapa com estas e outras pólis gregas).

A pólis grega

A pólis, ou cidade-Estado, era a unidade política básica da Grécia antiga. Não havia um Estado centralizado que unificasse toda a sociedade grega. Cada cidade constituía um pequeno Estado autônomo que, muitas vezes, guerreava contra outras pólis. Por falta de documentação, não se sabe o momento em que surgiram as primeiras pólis. Historiadores acreditam que isso ocorreu entre os séculos VIII a.C. e VII a.C. – ou seja, no chamado Período Arcaico (séculos VIII-VI a.C.) –, e que começou na Ásia Menor, onde se refugiaram grupos populacionais que fugiam dos dórios (reveja o capítulo 11). Em algumas pólis, o poder político era exercido diretamente pelos cidadãos por meio de assembleias realizadas na ágora, a praça central da cidade. Discutiam-se aí questões de interesse público, tomavam-se decisões e elaboravam-se as leis. Nesse processo, alguns cidadãos começaram a se destacar no interior da pólis, dando origem à figura do político.

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A sociedade espartana

Esparta foi fundada pelos dórios no sudeste do Peloponeso por volta do século IX a.C., como resultado da união de quatro aldeias vizinhas (veja o mapa). Depois de um período de expansão, no final do século VII a.C. Esparta dominava um terço de todo o Peloponeso. Seus governantes mantiveram a cidade isolada das outras pólis e adotaram uma rígida disciplina mili-

CIDADES GREGAS E TERRITÓRIOS COLONIZADOS (SÉCULOS VIII a.C. A VI a.C.) Cidades da Grécia antiga Territórios colonizados

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Fonte: WORLD History Atlas: Mapping the Human Journey. London: Dorling Kindersley, 2005.

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As mulheres e a pólis Embora desprovidas de direitos políticos, havia áreas na vida cívica e comunitária das an­ tigas pólis em que as mulheres – até mesmo es­ cravas – desempenhavam papéis importantes. Em algumas festas, como as Panateneias rea­ li­zadas em Atenas, elas tinham grande partici­ pação. Também era comum encontrar mulhe­ res trabalhadoras e negociantes nas camadas mais baixas da sociedade. Muitas trabalhavam na ágora ou nos arredores. Algumas se dedica­ vam ao pequeno comércio, vendendo gêneros alimentícios ou itens como perfumes e grinal­

tar. Para tanto, criaram um exército permanente, pronto para guerrear a qualquer momento (sobre a infantaria grega, veja a seção Olho vivo na próxima página). Ao lado disso, estabeleceram-se na cidade relações sociais e econômicas baseadas na total subordinação do indivíduo ao Estado (veja no boxe ao lado). A sociedade espartana dividia-se em três grupos bem diferenciados: • Espartanos (ou espartíatas) – descendentes dos conquistadores dórios, eram os únicos a ter direitos de cidadania. Possuíam as melhores terras e deviam dedicar todo o seu tempo à política e ao exército; • Periecos – antigos habitantes das regiões conquistadas pelos dórios que não resistiram à ocupação. Embora livres, eram submissos aos espartanos. Sem direitos políticos, viviam na periferia da cidade; • Hilotas – grupo formado pelos antigos habitantes do Peloponeso que resistiram à invasão dos dórios e acabaram transformados em escravos. Todos os anos, deviam dar metade do que colhiam aos seus proprietários espartanos. Esparta era governada por dois reis que concentravam os poderes militar, religioso e judiciário. Eles presidiam a Gerúsia, assembleia formada por 28 homens com mais de 60 anos (os gerontes), cuja função era decidir sobre questões importantes, propor leis, julgar crimes. Os gerontes eram eleitos pela Apela, assembleia composta de todos os espartanos com mais de 30 anos e que tinha a função de votar as questões encaminhadas pela Gerúsia.

das; outras dirigiam tabernas ou trabalhavam com lã. Adaptado de: CARTLEDGE, Paul (Org.). História ilustrada da Grécia antiga. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. p. 160-182.

De olho no mundo Em grupos, façam uma comparação entre o papel da mulher na Grécia antiga e na sociedade ocidental moderna levando em conta três esferas da vida: a política, a comunitário-religiosa e a profissional. Organizem as informações em cartazes e preparem uma pequena apresentação para a classe.

Vida dedicada ao Exército Ao nascer, as crianças espartanas eram le­ vadas para o conselho dos anciãos. Se fossem consideradas doentes, deveriam ser jogadas do alto de um despenhadeiro ou adotadas por um hilota. Caso fossem saudáveis, as meninas fi­ cavam com as mães. Os meninos, a partir dos 7 anos, eram entregues ao governo e transferidos para quartéis. Até os 12 anos, eles se dedicavam aos es­ portes. A partir de então, tinham aulas de mú­ sica e poesia. Aos 18 anos, iniciava-se para eles um período de treinamento militar inten­ so e rigoroso: tinham de andar descalços e nus para ficar com a pele mais grossa e eram chi­ coteados até sangrar para aprender a dominar a dor. Dos 20 aos 30 anos, permaneciam nos quar­ téis à espera de convocação para alguma guer­ ra. Aos 30 anos, ao final do serviço militar, pode­ riam conquistar a cidadania, mas somente aos 60 estavam liberados de suas obrigações para com o exército.

De olho no mundo Embora diversos acordos internacionais proíbam o emprego de menores como força militar, alguns governos e facções políticas utilizam hoje crianças para fins militares. Em grupos, façam uma pesquisa sobre essa situação. Ao final, produzam cartazes com fotos e comentários sobre o assunto e, com a autorização do professor, fixem-nos nos corredores da escola.

A Grécia clássica Capítulo 12

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Olho vivo

O hoplita

Na Grécia antiga, hoplita era o soldado da infantaria pesada. Os hoplitas – palavra que deriva de hóplon, que quer dizer ‘escudo’ – constituíam a principal força do exército das cidades-Estado. Para se defender, além do escudo, eles usavam uma couraça de proteção para o peito, capacete e perneiras de metal. Suas armas ofensivas eram uma espada reta com dois gumes e uma lança com dois metros de comprimento. Essas armas eram, de modo geral, as mesmas em todas as pólis gregas. A armadura completa pesava cerca de 35 quilos. Por isso, o hoplita era acompanhado de um ajudante que carregava suas armas du­ rante as marchas. A armadura só era vestida no momento dos combates. No século IV a.C., ela tornou-se mais leve. A escultura abaixo, feita de bronze no século VI a.C., representa um hoplita. Fontes: JARDÉ, A. A Grécia antiga e a vida grega. São Paulo: Edusp, 1977. p. 181-183; HENNINGER, Laurent. Às armas, cidadãos gregos!. História Viva, São Paulo, n. 3, jan. 2004. p. 60-65.

Museu de Berlim/Hulton Archive/Getty Images

A mão direita era utilizada para levar a lança, que pesava cerca de 700 gramas.

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O elmo contava com um penacho preso a um suporte de bronze. No século VI a.C., os gregos criaram um novo modelo de elmo. Feito de bronze, cobria todo o rosto, deixando aberturas apenas para os olhos e a boca. A peça pesava 2 quilos e dificultava a visão. Por ser incômodo, deixou de ser usado no século V a.C.

O escudo era feito de madeira de carvalho coberta por uma fina camada de bronze. Pesava 9 quilos e era usado no braço esquerdo.

A couraça de bronze, forrada internamente com uma camada de couro, chegava a pesar até 14 quilos, impedindo o hoplita de se abaixar ou de se levantar. Protegia contra flechadas e golpes de lança ou espada.

Escultura de bronze do século VI a.C. representando um hoplita grego. A lança que levava na mão desapareceu com o tempo.

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As perneiras eram uma chapa fina e flexível de bronze usada para proteger as pernas.

Unidade 3 Direito e democracia

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The Granger Collection, New York/Other Images

Representação de guerreiro espartano em vaso grego de 480 a.C. A permanente preparação para a guerra e a preocupação em fazer do soldado um guerreiro insensível à dor eram características centrais na educação de meninos e rapazes nascidos em Esparta.

A Apela também elegia os éforos, cinco magistrados que por um ano integrariam o Eforato. Eles eram os verdadeiros chefes do governo, com autoridade para fiscalizar a cidade, os funcionários e até mesmo os reis, contra quem poderiam mover ações. Os éforos supervisionavam também a educação da juventude. Graças a esse exército poderoso, a cidade liderou, a partir do final do século VI a.C., uma confederação de cidades-Estado, a Liga do Peloponeso.

3

A democracia em Atenas

Situada na Ática, Atenas (reveja o mapa da página 88) foi fundada pelos jônios por volta do

século IX a.C. No início, a cidade foi governada por um rei que também exercia a função de principal sacerdote. Com ele governavam o polemarca, comandante das forças militares, e o arconte, principal autoridade civil. Essas pessoas eram escolhidas entre os integrantes da aristocracia ateniense, os eupátridas. Com a extinção da realeza, polemarcas e arcontes passaram a exercer o poder político, militar e religioso, assessorados por um conselho de anciãos, o Areópago, formado por eupátridas. Ao lado desse órgão, havia a Assembleia (Eclésia), composta dos homens livres que integravam o exército. Ela elegia os governantes, aprovava leis e decidia questões relativas à paz e à guerra. As alterações políticas, contudo, não foram acompanhadas de mudanças na esfera social. As desigualdades em Atenas eram grandes: enquanto os comerciantes enriqueciam, pequenos camponeses e artesãos viviam na miséria. Muitos eram transformados em escravos por não poder pagar suas dívidas. Entre os séculos VII a.C. e VI a.C., eclodiram conflitos sociais que obrigaram os legisladores a promover novas reformas. Uma das mais importantes foi realizada pelo arconte Sólon a partir de 594 a.C.: ele perdoou os devedores, proibiu a escravidão por dívidas, devolveu aos antigos donos as pequenas propriedades tomadas pelos grandes senhores de terras, conferiu maiores poderes à Eclésia e instituiu um tribunal popular, a Bulé, cujos juízes eram escolhidos por sorteio entre os cidadãos. Sólon também estabeleceu o mesmo peso para o voto dos cidadãos, fossem eles ricos ou pobres. Com essas mudanças, a aristocracia começava a enfraquecer. Esse declínio se acentuou entre 561 a.C. e 528 a.C., período em que Atenas foi governada pelo tirano Pisístrato. Ele confiscou grandes propriedades dos nobres, promoveu uma reforma agrária, realizou obras públicas que geraram trabalho para muitos atenienses e incentivou as artes e o comércio, transformando Atenas em importante centro comercial, artístico e cultural da Grécia. O declínio da aristocracia ateniense se consumou pouco depois, quando o arconte Clístenes A Grécia clássica Capítulo 12

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The Ancient Art and Architecture Collection Ltd., Londres/Topfoto/Keystone

O principal órgão legislativo era a Assembleia, que se reunia a cada dez dias. Nessas ocasiões, qualquer cidadão poderia pedir a palavra e expor sua opinião ou dar seu voto em alguma questão colocada em pauta. Tais reformas deram origem à democracia em Atenas (outras cidades também adotariam essa forma de governo. Em grego, democracia significa governo dos demos, ou governo da maioria). Embora mulheres, escravos, ex-escravos e estrangeiros representassem a maior parte da população (cerca de 360 mil pessoas numa população de 400 mil no século V a.C.), não eram considerados cidadãos e por isso estavam impedidos de participar das assembleias. Entretanto, embora não beneficiasse a todos, com a democracia os cidadãos tinham assegurados três direitos essenciais: liberdade individual, igualdade perante a lei e direito de expressar suas opiniões nas assembleias.

A Grécia em seu auge

A invasão do território grego pelos persas, liderados pelo imperador Dario, deu origem às Guerras Médicas ou Greco-Pérsicas (reveja o capítulo 9). Unidas, Atenas e Esparta expulsaram os invasores, consolidando a supremacia grega no Mediterrâneo oriental. Na imagem, vaso grego decorado com pintura que representa uma cena de batalha (século V a.C.).

(508-507 a.C.) promoveu nova e profunda mudança na organização do Estado. Clístenes dividiu a Ática em cem unidades políticas e territoriais, os demos, cada qual reunindo indivíduos de diferentes clãs e pessoas de várias camadas sociais. Os demos tinham cada um o seu chefe, o demiarca, escolhido por meio do voto. Os demos foram agrupados em dez diferentes distritos eleitorais, de modo que os cidadãos votavam ou iam para a guerra como representantes de seus distritos. 92

O século V a.C. é considerado pelos estudio­ sos como o do apogeu do mundo grego. Ele tam­ bém ficou conhecido como Século de Péricles, em homenagem ao líder político que governou Atenas entre 446 e 431 a.C. Péricles contratou os melhores arquitetos e escultores da época, que ergueram tribunais, mercados, templos, teatros e ginásios. Uma das obras mais destacadas dessa época é o Partenon, templo dedicado à deusa Palas Atena, protetora da cidade. Péricles também estimulou as artes e o teatro. Criado séculos antes na Grécia, o teatro se divi­ dia em dois gêneros, tragédia e comédia. Entre os dramaturgos da época destacaram-se Ésqui­ lo, Sófocles e Eurípedes, autores de tragédias, e Aristófanes, que escreveu comédias. Foi também no século V a.C. que surgiram os primeiros relatos históricos, com as obras de He­ ródoto e Tucídides, que abordaram, respectiva­ mente, as Guerras Greco-Pérsicas e a Guerra do Peloponeso. A filosofia ganhou destaque com Só­ crates, Platão e Aristóteles, e a medicina se de­ senvolveu com Hipócrates.

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Enquanto ¡sso... Os celtas Na época em que as cidades­Estado flores­ ciam na Grécia, outro povo conquistava a maior parte do continente europeu: os celtas. Originá­ rios da Europa central, os celtas tinham como principal característica o domínio do ferro, metal até então desconhecido em boa parte da Europa e utilizado por eles para o fabrico de armas. Os celtas atingiram o auge de sua expansão territorial no decorrer do século V a.C. Por essa época, dominavam regiões que hoje se estendem da República Tcheca até a Irlanda, passando por

Alemanha, França e Es­ panha. Nunca chegaram, entretanto, a constituir um império, pois não dis­ punham de um Estado centralizado. No século I a.C., caíram sob o domí­ nio do Império Romano. Máscara celta feita de bronze para ornamentar um jarro de madeira (século V a.C.).

Keltenmuseum, Hallein/Erich Lessing/ Album Art/Latinstock

Organizando AS IDEIAS 1. A pólis ou cidade-Estado era a forma de organização social e política entre os gregos na Antiguidade. Quais eram suas características fundamentais? 2. Quem era considerado cidadão na pólis? 3. Uma das mais importantes cidades-Estado foi Esparta, conhecida pelo rigor de suas leis e pelo acentuado caráter guerreiro dos seus cidadãos. Defina como a educação em Esparta contribuía para a militarização da sociedade. 4. Esparta e Atenas foram as duas pólis que mais se destacaram na história política da Grécia antiga. Aponte as principais características de cada uma delas.

5. A democracia ateniense foi um dos mais importantes legados da Grécia antiga para a humanidade. Entretanto, a democracia em Atenas não surgiu de repente nem foi obra do acaso, mas de um longo amadurecimento político. Escreva um texto sobre a história política que conduziu à construção da democracia ateniense. 6. O que significa a expressão “Século de Péricles”? 7. Observe o mapa da página 88, com as principais cidades e territórios colonizados pelos gregos dos séculos VIII a.C. a VI a.C. Depois, compare-o com um mapa político da mesma região nos dias de hoje e indique pelo menos três países em cujos territórios os gregos antigos fundaram colônias.

Hora DE REFLETIR Reunidos em grupos, debatam as seguintes questões: quais são as semelhanças e as diferenças entre a democracia de cidades da Grécia antiga, como Atenas, e o atual regime democrático no Brasil? Pode-se

dizer que houve avanços entre a primeira e o segundo? Por quê? De que forma se manifestam os possíveis avanços ou retrocessos? No final, escrevam um pequeno texto com as conclusões do grupo.

Mundo virtual 

Museu da Acrópole – Passeio virtual pelo Museu da Acrópole, de Atenas (site em grego e inglês). Disponível em: <www.theacropolismuseum.gr>. Acesso em: 11 out. 2012. A Grécia clássica Capítulo 12

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Capítulo 13

O helenismo Objetivos do capítulo Chris Hellier/Corbis/Latinstock

mostrava o calendário dos jogos olímpicos e ainda fazia previsão de eclipses. Construído no século II a.C., esse “computador portátil” evidencia o grande avanço científico e tecnológico dos gregos naquele período. Neste capítulo estudaremos os últimos séculos da sociedade grega, antes de ser subjugada pelo exército romano. Ancient Art & Architecture Collection Ltd./Alamy/Other Images

Losmi Chobi/Associated Press

Por mais de um século, diversos cientistas se debruçaram sobre um objeto milenar retirado em 1901 do fundo do mar na costa grega do Mediterrâneo, tentando descobrir sua finalidade. O mistério parece ter chegado ao fim: pesquisadores da Inglaterra, dos Estados Unidos e da Grécia anunciaram em 2008 que aquela engenhoca (chamada por eles de mecanismo de Antiquitera) poderia ser considerada um “computador portátil” dos antigos gregos. O aparelho é formado por um sistema de encaixes de engrenagens que se movimentavam por meio de manivelas. Quando posto em funcionamento, indicava os meses do ano,

Conhecer aspectos da conquista da Grécia pelos macedônios. Discutir a expansão greco-macedônia para o Oriente. Destacar a difusão da cultura grega pelo mundo oriental e a formação do helenismo. Abordar a mitologia grega e discutir sua importância para a historiografia.

O mecanismo de Antiquitera (acima), como é conhecido o “computador portátil” dos gregos, recebeu esse nome em razão do local onde foi descoberto, nas proximidades da ilha grega homônima. À esquerda, uma réplica recente da calculadora astronômica, exposta no Museu Arqueológico Nacional de Atenas, em foto de julho de 2008.

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a expansão macedônia

De origem desconhecida, os macedônios viviam em uma região ao norte da Grécia. Seus governantes integravam uma monarquia hereditária que se dizia descendente de Héracles (Hércules para os romanos), lendário filho de Zeus e herói dos gregos (veja abaixo o boxe A religião grega). Em 359 a.C., assumiu o trono o rei Filipe II, que organizou um poderoso exército com o qual iniciou a expansão territorial da Macedônia. Conhecendo a desunião das cidades-Estado gregas, Filipe fez uso da diplomacia e das armas para conquistar poder e influência sobre a Grécia. Em 338 a.C., foi aclamado governante de todo o território grego. Assassinado dois anos mais tarde, Filipe foi sucedido no trono por seu filho, Alexandre*, jovem de 20 anos que mudaria os rumos da história de diver- * Veja o filme sas regiões do Mediterrâneo Alexandre, de Oliver Stone, 2004. oriental e da Ásia.

2

De Agostini Picture Library/G. Dagli Orti/The Bridgeman/Keystone

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a formação de um império

Afresco helenístico de origem trácia da tumba de Kazanlak, de 400 a.C., encontrado na Bulgária.

A religião grega A religião era algo extremamente importante para os gregos. Assim como a maioria dos povos da Antiguidade, eles eram politeístas, isto é, acreditavam na existência de diversos deuses e achavam que essas divindades interferiam diretamente na vida dos seres humanos. Inicialmente, as histórias que contavam a origem e a vida desses deuses eram transmitidas oralmente de pais para filhos. No século VIII a.C., o poeta Hesíodo reuniu essas histórias em seu poema Teogonia. Graças a elas, conhecemos hoje um pouco mais o pensamento e os cultos religiosos da Grécia antiga. Essas histórias são hoje conhecidas como mitos e a reunião de todas elas forma a mitologia grega. Segundo essa mitologia, a maioria dos deuses habitava o alto do monte Olimpo, maior montanha da Grécia. Cada um deles tinha um atributo especial. Embora fossem imortais, os deuses gregos costumavam ter reações tipicamente humanas: sentiam raiva, ciúme, amor, inveja, ódio, etc.

Havia doze divindades principais: Zeus, deus do trovão, o mais importante de todos, casado com Hera; Posêidon, irmão de Zeus e senhor dos mares; Apolo, deus da música; Hefesto, do fogo; Ares, da guerra; Hermes, deus mensageiro; Deméter, deusa da fertilidade; Atena, da sabedoria; Afrodite, do amor; Ártemis, da caça; e Héstia, deusa dos lares. Havia ainda Eros, deus do amor, e outras entidades, como faunos, ninfas e musas. Também se destacavam heróis humanos, como Odisseu (Ulisses, herói da Ilíada e da Odisseia), e semideuses, filhos de um deus, ou deusa, com um ser humano. Um dos mais conhecidos era Héracles (ou Hércules), filho de Zeus com a tebana Alcmena.

Sua opinião O estudo da mitologia pode contribuir para a pesquisa historiográfica sobre a Grécia antiga? Justifique sua resposta.

O helenismo Capítulo 13

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Em seus primeiros anos de reinado, Alexandre enfrentou levantes na Grécia contra o domínio macedônio. Pacificado o território grego, o jovem rei decidiu atacar o Império Persa, governado por Dario III. Para isso, reuniu um exército de 30 mil soldados e 5 mil cavaleiros. Contando com uma poderosa arma de guerra, a sarissa, lança de madeira pontiaguda com 6 metros de comprimento, Alexandre partiu em direção ao Oriente na primavera de 334 a.C. Ao desembarcarem na Ásia Menor, as tropas de Alexandre derrotaram o exército persa junto ao rio

Granico (na atual Turquia). Posteriormente conquistaram a Síria, a Fenícia e a Palestina, que também estavam nas mãos de Dario III. A última possessão persa no Mediterrâneo era o Egito. Recebido como libertador, Alexandre foi adorado pelos egípcios como encarnação do deus Amon e aclamado sucessor dos faraós. No delta do rio Nilo, o jovem rei fundou, em 332 a.C., a cidade de Alexandria, que viria a ser uma das mais importantes de todo o Mediterrâneo antes da ascensão de Roma (veja abaixo o boxe Alexandria).

Alexandria

Galeria New Carlsberg, Copenhague/Werner Forman Archive/Glow Images

A Grécia era chamada pelos antigos gregos de Hélade, que queria dizer ‘terra dos helenos’, referên­ cia a um lendário personagem, Heleno, cujos filhos teriam povoado a região. O período compreendido entre a ascensão de Alexandre ao poder, em 336 a.C., e o domínio da Grécia pelos romanos, em 146 a.C., é comumente denominado Período Helenístico (séculos IV-II a.C.). Educado pelo filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.), Alexandre admirava a cultura grega e queria vê-la difundida pelo mundo. Conforme expandia seu império, criava centros de irradiação cultural que promoviam a divulgação do saber científico e das formas artísticas e literárias da Grécia.

Escultura encontrada em Meroé, antiga cidade na margem leste do rio Nilo, na Núbia, região atualmente partilhada pelo Egito e pelo Sudão. As formas da figura, datada de 100 d.C., evidenciam a influência grega sobre a cultura da antiga Núbia e do Egito. Foi desse encontro multicultural que se formou a cultura helenística.

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Desse modo, a religião, a cultura e os costumes gregos se difundiram por outras regiões, e a língua grega se transformou no principal idioma das pessoas instruídas. Nesse processo, ocorreu uma fusão entre o conhecimento grego e a cultura dos povos conquistados. O resultado foi o helenismo. Com a desestruturação de Atenas, o centro do saber transferiu-se para Alexandria, que no século III a.C. chegou a abrigar a maior biblioteca da Antiguidade, reunindo mais de 700 mil manuscritos. Teve início então um período de grande esplendor cultural e científico. Aristarco de Samos (310-230 a.C.), professor do Museu de Alexandria, foi um dos primeiros astrônomos a sugerir que a Terra gira ao redor do Sol; Euclides (c. 330-260 a.C.), um dos criadores da Geometria, abriu na cidade uma escola de Matemática; e Eratóstenes (276-196 a.C.) conseguiu medir com pequena margem de erro o perímetro da Terra. Além deles, o físico Arquimedes (287-212 a.C.), responsável por estabelecer as leis fundamentais da Estática e da Hidrostática, quando jovem estudou em Alexandria. Outro grande cientista desse período foi uma mulher: Hipácia (370-415 d.C.). Matemática, astrônoma, inventora do hidrômetro, ela foi também diretora da Academia de Alexandria aos 30 anos de idade.

Sua opinião Existe hoje no mundo disseminação de valores e padrões de comportamento de uma sociedade sobre as demais? Em caso positivo, como isso ocorre? Escreva três argumentos que justifiquem sua opinião e discuta suas ideias num debate com a classe.

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A conquista da Pérsia As tropas de Alexandre seguiram em direção à Mesopotâmia, onde venceram o exército de Dario III em 331 a.C. Com a vitória, Alexandre foi aclamado Rei dos Reis e rumou em direção ao Oriente, alcançando o rio Indo, na Índia, em 326 a.C. De volta à Mesopotâmia, morreu de uma febre desconhecida em junho de 323 a.C., aos 32 anos de idade. Por seus feitos militares, passaria à posteridade como Alexandre, o Grande, ou ainda Alexandre Magno. Sem deixar herdeiros para o trono, já que não teve filhos, sua morte desestabilizou o império, le-

vando seus generais a uma sangrenta disputa pelo poder. Nas primeiras décadas do século III a.C., o império encontrava-se dividido em três grandes reinos. Esses reinos sobreviveram por mais de um século, graças a laços de língua, comércio e cultura. No entanto, lutas internas e o aumento da pobreza enfraqueceram pouco a pouco esses laços. Ao mesmo tempo, uma nova potência surgia no Mediterrâneo, ameaçando em sua expansão esses territórios. Era Roma, que, em 148 a.C., dominou a Macedônia e, dois anos mais tarde, conquistou a Grécia, anexando-a a seus domínios. Um novo império estava nascendo.

Império Greco-Macedônio (século iV a.C.) Mar Negro

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Cidades fundadas por Alexandre Magno

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660

QUILÔMETROS

Itinerário de Alexandre Magno

Fonte: World History Atlas: Mapping the Human Journey. London: Dorling Kindersley, 2005.

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Enquanto ¡sso... Na mesma época em que a cultura helenística vivia seu momento de esplendor, no continente hoje conhecido como América a civilização olmeca entrava em crise. Os olmecas se desenvolveram inicialmente na região do atual golfo do México e expandiram seus domínios até o litoral do Pacífico, onde hoje se encontram El Salvador e Costa rica. Sua cultura floresceu por volta de 1400 a.C., com um notável desenvolvimento das artes e da arquitetura. Esse florescimento foi marcado pela construção de pirâmides em centros cerimoniais, por pinturas refinadas e por enormes cabeças esculpidas em pedra, algumas com mais de 20 toneladas. Além dessas obras, os olmecas sabiam calcular a duração do ano e do mês lunar, tendo criado o primeiro calendário da América. Ao mesmo tempo, eles desenvolveram um sistema de escrita pictográfica. Em 2006, arqueólogos do México publicaram um artigo na revista científica Science afirmando que um bloco de pedra de 30 centímetros, repleto de pictogramas, encontrado no estado mexicano de Veracruz, contém a escrita mais antiga do continente americano. Feito pelos olmecas, o texto teria cerca de 3 mil anos.

Por razões desconhecidas, a partir de 600 a.C. os centros cerimoniais olmecas começaram a ser abandonados. Entretanto, muitos dos conhecimentos olmecas seriam incorporados por outros povos do continente, como os astecas e os maias. Jose Fuste Raga/Corbis/Latinstock

Os olmecas

Cabeça colossal esculpida em basalto, em cerca de 1200 a.C., obra de artesãos da cultura olmeca. A civilização olmeca ocupou a região conhecida hoje como golfo do México e a obra se encontra no Parque Museu La Venta, em Tabasco.

Organizando AS IDEIAS

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1. A formação do Império Macedônio começou pela conquista da Grécia no século IV a.C. Em que circunstâncias históricas ocorreu essa conquista?

mais importantes do Mediterrâneo antes da ascensão de Roma. Qual foi o papel de Alexandria na difusão do conhecimento na Antiguidade?

2. Descreva, em linhas gerais, como se constituiu o Império Macedônio. 3. Por que podemos afirmar que a expansão do Império Macedônio difundiu a cultura helenística à medida que ampliava seus territórios?

5. Alexandre subiu ao trono aos 20 anos de idade e faleceu doze anos depois de uma febre misteriosa, em 323 a.C. Todo o Império Macedônio foi erguido nesse período. O que ocorreu com ele após a morte de Alexandre?

4. Depois de conquistar o Egito, Alexandre fundou a cidade de Alexandria, que se tornou uma das

6. Quais eram as características fundamentais da religião grega?

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Interpretando DOCUMENTOS

Nimatallah/akg-images/Latinstock

A escultura de mármore que aparece na foto abaixo encontra-se exposta no Museu do Vaticano, em Roma, e se chama Laocoonte e seus filhos. Ela é atribuída a três escultores da ilha de Rodes, Hagessandro, Atanadoro e Polidoro, e teria sido feita na segunda metade do século I a.C., época em que a Grécia já se encontrava sob o domínio romano. Depois de observá-la, responda às questões.

Laocoonte e seus filhos, escultura helenística executada por volta de 50 a.C.

1. Descreva a cena e os personagens representados na escultura. 2. Indique elementos da escultura que reforçam a sensação de sofrimento e de angústia vividos pelos personagens representados na obra. 3. Faça uma pesquisa e descubra quem foi Laocoonte e por que ele e seus filhos tiveram um destino tão trágico. O helenismo Capítulo 13

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Capítulo 14

Os primeiros séculos de Roma Objetivos do capítulo Travel Ink/Getty Images

escultura: ela continua sendo o grande símbolo da Cidade Eterna. Neste capítulo estudaremos os primeiros tempos de Roma, cidade que se tornou o centro de um dos maiores impérios da Antiguidade.

Shapencolour/Alamy/Other Images

A escultura de bronze da foto abaixo faz referência às origens míticas da cidade de Roma, na Itália atual. Segundo esse mito, os fundadores da cidade seriam os gêmeos Rômulo e Remo, que, depois de terem sido abandonados nas águas do rio Tibre, foram salvos por uma loba, que os amamentou. Durante muito tempo, acreditou-se que essa escultura havia sido executada por volta de 500 a.C. Porém, pesquisas recentes feitas em laboratório revelaram que ela foi feita por volta de 1300. A notícia nos mostra quanto o conhecimento histórico pode mudar a cada nova pesquisa ou descoberta. Seja como for, o fato de ser mais recente do que se pensava não afetou o status da

Explicar a fundação da cidade de Roma dos pontos de vista histórico e mitológico. Analisar as estruturas política, econômica e social romanas na monarquia e na República. Conhecer as etapas iniciais do processo de expansão romana. Entender o processo de luta da plebe romana por direitos políticos e sociais. Considerar o conflito entre Roma e Cartago no contexto da expansão romana. Compreender a forma como a justiça pode ser manipulada nas sociedades.

Estátua de bronze representando o mito segundo o qual os gêmeos Rômulo e Remo teriam sido amamentados por uma loba quando ainda eram bebês. Na versão mitológica, Roma teria sido fundada por Rômulo em 753 a.C. Foto de setembro de 2011.

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1

A fundação de Roma

Antes de 2000 a.C., a península Itálica era ocupada por povos autóctones: lígures, ao norte; sículos, ao sul. Entre o segundo e o primeiro milênio antes de Cristo, povos indo-europeus vindos da Ásia Central instalaram-se em diversos pontos da península. Conhecidos nessa região como italiotas, eles se dividiam em sete tribos: sabinos, úmbrios, équos, oscos, volscos, samnitas e latinos. A partir de 1000 a.C., os etruscos – povo de origem desconhecida – se fixaram na margem direita do rio Tibre. Veja como estavam distribuídos esses povos no mapa abaixo.

Por ali passavam, entre outros, mercadores sabinos comerciando sal e etruscos negociando produtos manufaturados. Por volta do século VII a.C., existiam várias vilas latinas independentes umas das outras na região do Lácio. Elas abrigavam cerca de 80 mil pessoas, entre agricultores, escravos, comerciantes e artesãos. Provavelmente nessa época, os etruscos invadiram o Lácio e, impondo seus costumes, unificaram todos os vilarejos em torno de uma única e grande cidade: Roma (veja a seção Interpretando documentos na página 110).

A sociedade romana

C

Com a unificação das diversas vilas, Roma deixou de ser um povoado de pastores, agricultores e A PENÍNSULA ITÁLICA EM 1000 a.C. comerciantes e se transformou em CE uma cidade fortificada, com sóliLT S A A Italiotas S LT das relações comerciais com outras E Etruscos regiões. Os etruscos ensinaram a Gregos população local a pavimentar esOutros povos tradas, drenar pântanos, construir LÍGURES pontes e redes de esgoto. IL ÍR Vários aspectos da religião IO S Ad etrusca foram também incorporariá tic dos à sociedade romana em foro Córsega mação, como as práticas de adiLÁCIO Roma ÉQUOS vinhação. Houve também uma LATINOS SAMNITAS S O C gradual adaptação dos alfabetos S VOL OSCOS Mar 40º etrusco e grego originando o alSardenha Tirreno fabeto latino, que utilizamos até hoje. Por essa época, a sociedade romana era composta majoritaM a r M Mar e d Sicília i t Jônico riamente de indivíduos livres – die SÍCULOS r vididos entre patrícios, plebeus e r â n clientes – e de uma parcela menor e o ESCALA 122 244 0 ÁFRICA de escravos. Os patrícios compuQUILÔMETROS 15º nham o grupo detentor de maior Fonte: WORLD History Atlas: Mapping the Human Journey. poder, formado por grandes proLondon: Dorling Kindersley, 2005. prietários de terras que acreditavam descender de Rômulo, fundador mitológico de Roma. Com essa explicação, eles Por essa época, os latinos fundaram uma alprocuravam legitimar os privilégios de que desfrutadeia no monte Palatino, uma das sete colinas da vam, como o comando exclusivo da política. região do Lácio. Por ser um lugar de entroncamenOs plebeus eram um grupo composto de to de rotas comerciais que cruzavam a península, mercadores, artesãos e pequenos proprietários. a aldeia passou a atrair pessoas de outras regiões. GR

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Não podiam se casar com patrícios nem ocupar cargos públicos ou religiosos. Em contrapartida, tinham deveres públicos, como o de integrar as fileiras do exército. Os clientes, por sua vez, eram em geral ex-escravos ou filhos de escravos nascidos livres. Mantinham com os patrícios uma relação de completa dependência: recebiam deles proteção e terras para cultivar; em troca, deviam-lhes respeito, devotamento pessoal – como ir cumprimentá-los toda manhã – e eram obrigados a substituí-los nas guerras. Já os escravos eram pessoas capturadas em guerras ou plebeus que não tinham como quitar suas dívidas. Usados nos trabalhos mais pesados, seus donos tinham poder de vida e morte sobre eles.

2

Em 509 a.C., durante o governo do rei etrusco Tarquínio II, os patrícios se sublevaram e, com o apoio da plebe, expulsaram os etruscos do Lácio. Como resultado, a monarquia foi extinta e substituída por um sistema de governo conhecido como República – do latim res publica (‘coisa pública’) –, que se caracteriza pela escolha dos governantes para mandatos de tempo limitado.

A monarquia e suas instituições

Escultura de soldado romano produzida entre os séculos VIII a.C. e VII a.C., durante o período monárquico de Roma.

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tea, Roma/A linari Archives/

Other Images

Após ter sido unificada, Roma passou a ser governada por um rex (rei) pertencente ao grupo dos patrícios. Alguns desses reis foram etruscos. O rei tinha múltiplas funções: governava a cidade, comandava o exército, exercia funções de juiz e conduzia as cerimônias religiosas. Para auxiliá-lo, havia um Conselho de Anciãos, também chamado Senado (do latim senex, que significa ‘ancião’), composto apenas de patrícios. Havia também a Comitia Curiata, assembleia formada por representantes de todas as famílias livres de Roma. Como a monarquia romana não era hereditária, quando um rei morria cabia aos senadores escolherem um substituto. A Comitia Curiata aprovava ou rejeitava a indicação.

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Tempos republicanos

A República criada pelos romanos apoiava-se em uma complexa estrutura político-administrativa formada por três grandes áreas: a Magistratura, o Senado e as Assembleias. A República romana aconselhava e controlava

SENADO

DITADOR

• Dirigia a política externa e interna • Controlava a ação dos magistrados • Propunha leis às assembleias • O cargo de senador era vitalício

• Tinha plenos poderes, civis e militares • Permanecia no cargo seis meses

Cesare Maccari/The Bridgeman/Keystone

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O Senado concentrava a maior parte do poder do Estado. Seus integrantes, os senadores – homens originários de famílias patrícias –, eram vitalícios, faziam as leis e tomavam as decisões políticas mais importantes.

nomeavam

CÔNSULES • Administravam a cidade • Comandavam o exército • Permaneciam no cargo um ano • Nomeavam o ditador

PRETORES ASSEMBLEIA CENTURIAL

elegia

• Administravam a justiça • Permaneciam no cargo um ano

CENSORES • Calculavam e registravam a riqueza dos romanos • Permaneciam no cargo cinco anos

QUESTORES • Geriam as receitas e as despesas do Estado • Permaneciam no cargo um ano

ASSEMBLEIA TRIBAL

elegia

EDIS • Supervisionavam as obras públicas • Permaneciam no cargo um ano

Os magistrados exerciam o poder executivo. Os mais importantes entre eles eram os cônsules, eleitos anualmente em número de dois para cuidar das principais questões administrativas e do comando do exército. Em casos de emergência, podiam indicar um ditador, que governava por seis meses, com poderes irrestritos. Havia ainda outros magistrados, como o censor, encarregado de realizar o censo, e os edis, que cuidavam da segurança.

Cícero acusa Catiline de conspiração no Senado Romano, afresco do Palazzo Madama do pintor Maccari Cesare (1889).

Havia também diversas assembleias. As mais importantes eram a Tribal, que elegia alguns magistrados, e a Centurial, que elegia os cônsules e decidia sobre a guerra e a paz. Com essa nova estrutura política, Roma iniciou um lento e contínuo processo de expansão amparado em uma poderosa força militar (o boxe da página 106 aborda algumas características do exército romano; sobre o processo de recrutamento dos soldados veja a seção Olho vivo a seguir). Nesse avanço, a República romana se imporia pela força das armas e por meio de alianças com povos que aceitavam sua liderança. A expansão pela península Itálica foi concluída entre 272 a.C. e 265 a.C., quando o território dos etruscos, ao norte, e a Magna Grécia (região ocupada por colônias gregas), ao sul, foram subjugados. Conquistada a península, Roma deu início à sua expansão externa. Os primeiros séculos de Roma Capítulo 14

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Olho vivo

O censo romano

O relevo que aparece na foto destas páginas data do final do século II a.C. e foi encontrado no Campo de Marte, uma vasta área de Roma às margens do rio Tibre, dedicada a Marte, o deus romano da guerra. Pertencente hoje ao acervo do Museu do Louvre, em Paris, ele mostra o censo militar de jovens cidadãos recrutados para o exército. O censo ocorria a cada cinco anos e terminava com o triplo sacrifício de um boi, um carneiro e um porco. Os antigos romanos praticavam esse ritual religioso – conhecido como suovetaurilia – em homenagem a Marte, a quem pediam saúde, boa sorte e boas colheitas.

Censor responsável por fazer o alistamento dos jovens.

Os jovens alistados eram divididos de acordo com seus bens: os mais ricos integravam a cavalaria; os demais, a infantaria.

Marte, representado com uma couraça e um capacete, preside a cerimônia.

Hasta, lança de madeira com ponta metálica.

Observados por soldados, funcionários romanos procedem ao censo militar em 100 a.C.

Soldados romanos.

Sacerdote, trazendo à cabeça véu e uma coroa de louros.

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Galea, capacete de metal tendo ao alto pluma de pelo de cavalo. Essa pluma não era usada durante as batalhas.

Museu do Louvre, Paris/Les Frères Chuzeville/RMN – Reunião de Museus Nacionais/Other Images

Lorica, couraça de metal e couro que protegia a parte superior do tronco.

Scutum, escudo de madeira, em formato de elipse.

Soldados romanos.

Animais encaminhados para o sacrifício.

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Para os romanos, fazer parte do exército era motivo de orgulho e sinal de status. Além de prestar o serviço militar gratuitamente, os integrantes da força armada equipavam-se por conta própria. Os da cavalaria, por exemplo, costumavam vir das camadas mais ricas: somente eles tinham recursos para possuir cavalos, armaduras de ferro e outros equipamentos de primeira linha exigidos para essa divisão. Entretanto, se a participação de todos os homens livres tornava o exército forte, isso trazia problemas para a vida econômica da República, pois essas pessoas eram obrigadas a abandonar suas plantações e afazeres devido às atividades militares. Por causa disso, ficou estabelecido que o exército teria uma atuação sazonal, de modo que as guerras só poderiam ocorrer durante o verão, por exemplo, para não prejudicar as atividades agrícolas. Mesmo com essas limitações, decorrentes da falta de profissionalização, o exército contava com uma estrutura bastante rígida. Era dividido em legiões, que se subdividiam em centúrias de infantaria pesada, infantaria ligeira e grupos de cavalaria.

As revoltas da plebe Para as pessoas de posse, a expansão territorial romana significou mais riqueza e privilégios – com ela, cresceu muito o número de escravos à sua disposição; para os mais pobres, contudo, não trouxe vantagens. Pelo contrário, contribuiu para aumentar as desigualdades entre patrícios e plebeus. Isso desencadeou diversas revoltas plebeias. Insatisfeitos, no começo do século V a.C. os plebeus se recusaram a participar das campanhas militares e passaram a exigir em assembleias diversas alterações na política e na sociedade romana, como a criação de cargos de magistrados encarregados de defender seus interesses. Sob a pressão dos acontecimentos, os patrícios concordaram em criar o Tribunato da Plebe (493 a.C.). Inicialmente, havia dois Tribunos da Plebe, depois esse número subiu para dez. Escolhidos anualmente pelos plebeus, eles não tinham o direito de criar novas leis, mas podiam vetar decisões de senadores e magistrados consideradas contrárias aos interesses da plebe. 106

Giraudon/The Bridgeman/Keystone

As legiões romanas

Representação do Exército Romano cruzando o rio Danúbio em detalhe da Coluna de Trajano (de 113 a.C.), obra dedicada por Hadrian em honra às vitórias de Trajano contra os dácios.

Também conquistaram o fim da escravidão por dívidas, o direito ao casamento com patrícios e a elaboração de um código de leis (veja na página ao lado o boxe A Lei das Doze Tábuas). No século IV a.C., obtiveram acesso às magistraturas, o ingresso de representantes no Senado e nos colégios sacerdotais e a transformação em lei dos plebiscitos aprovados em suas assembleias.

Influência grega Com a expansão territorial, os romanos entraram em contato com a cultura dos povos dominados, exercendo influência sobre ela, mas também sofrendo seu influxo. Desses povos, o que mais profundamente imprimiu sua marca na cultura romana foi sem dúvida o povo grego. Pouco a pouco, a partir do século III a.C., valores culturais, literários, filosóficos e científicos da civilização grega passaram a fazer parte do cotidiano de Roma. Nas artes plásticas, escultores e pintores se inspiravam diretamente na Grécia, enquanto os arquitetos aderiam ao uso do mármore – produto-símbolo da sociedade grega – em suas construções.

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A Lei das Doze Tábuas Durante a realeza e nos primeiros tempos republicanos, as leis eram transmitidas oralmente de uma geração para outra. A ausência de uma legislação escrita permitia aos patrícios manipular a justiça conforme seus interessses. Em 451 a.C., porém, os plebeus conseguiram eleger uma comissão de dez pessoas – os decênviros – para escrever as leis. Dois deles viajaram a Atenas, na Grécia, para estudar a legislação de Sólon. O resultado foi a Lei das Doze Tábuas, compilação dos costumes romanos inspirada na experiência jurídica grega. Ela continha as principais questões relativas ao direito penal, público, privado, etc. Com ela, a lei deixou de ser encarada como uma tradição sagrada, uma vontade dos deuses, passando a representar a vontade dos que a fizeram. Com a instituição da Lei das Doze Tábuas, surgiu em Roma uma nova figura: o advogado. Conhecedores das leis, os advogados passaram a prestar consultoria a respeito da legislação, acompanhar o andamento dos processos e defender seus clientes no tribunal.

As penas variavam conforme o status social e jurídico do condenado. Para um senador, por exemplo, a penalidade costumava ser o pagamento de uma multa ou o confisco dos bens. Entretanto, por questões de honra, os senadores condenados preferiam se matar a ter de cumprir a sentença. Já as penas para um cidadão comum iam do pagamento de uma multa até a obrigação de atuar no circo como gladiador, o que significava, praticamente, uma sentença de morte. Na arena, o condenado seria obrigado a lutar contra outros gladiadores até a morte de um deles ou contra animais ferozes, como leões e panteras. Os romanos também aplicavam a pena de morte, que recaía com frequência sobre as pessoas que não tinham cidadania romana e os escravos. Um dos modos mais comuns de execução era a crucificação. Fontes: COULANGES, Fustel de. A cidade antiga. São Paulo: Martins Fontes, 2000. p. 348-359; GIORDANI, Mario Curtis. História de Roma. Petrópolis: Vozes, 1983. p. 257-265; História Viva – Grandes Temas. Edição Especial Temática, n. 1, [s.d.]. p. 89.

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Setores mais conservadores da sociedade romana, contudo, eram fortemente contrários a essa penetração da cultura grega em prejuízo das tradições romanas. Da mesma forma, a religião romana foi enriquecida com práticas e deuses oriundos da Grécia, enquanto o latim incorporava palavras gregas. No âmbito da educação, tornou-se comum deixar a instrução dos filhos a cargo de cidadãos ou escravos gregos. Esse processo de helenização foi tão amplo que muitas famílias ricas de Roma decidiram adotar sobrenomes gregos.

Réplica romana do século I d.C. de escultura grega representando a deusa Atena Promacos (em armas), originalmente datada do século V a.C. Entre os romanos era comum a profissão de “copista”, artesão encarregado de produzir cópias de obras gregas.

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Roma contra Cartago

A crescente expansão de Roma começou a preocupar a elite de Cartago, cidade-Estado de origem fenícia localizada no norte da África (sobre Cartago, releia o capítulo 8). Na época, Cartago dominava a Córsega, a Sardenha e parte da Sicília, como mostra o mapa a seguir, detendo a hegemonia comercial do Mediterrâneo. Em 264 a.C., a rivalidade entre as duas potências eclodiu em um longo conflito conhecido como Guerras Púnicas.

A CONQUISTA DA PENÍNSULA ITÁLICA (SÉCULOS IV a.C. E III a.C.) Ri

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Foram três confrontos (264-241 a.C.; 218-202 a.C. e 149-146 a.C.) e Roma saiu vitoriosa em todos. Em 146 a.C. Cartago foi completamente dominada e transformada em província romana. Dos quase 250 mil cartaginenses restaram apenas 50 mil sobreviventes, muitos deles enviados a Roma como escravos. A vitória romana nas Guerras Púnicas e as conquistas territoriais na região do Mediterrâneo oriental e na península Ibérica foram decisivas para a consolidação do poderio romano, como veremos no próximo capítulo.

Scala Archives

Estela púnica, ou cartaginesa, de 300 a.C. Os romanos chamavam os cartagineses de punici por causa das origens fenícias de Cartago. A palavra deriva da pronúncia romana da expressão Phoiníke (país da púrpura), com a qual os gregos designavam a Fenícia.

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Cartago Conquistas da primeira metade do século IV a.C. Conquistas da segunda metade do século IV a.C.

ÁFRICA

Conquistas do século III a.C. Ocupação grega Territórios sob o controle de Cartago

Fonte: WORLD History Atlas: Mapping the Human Journey. London: Dorling Kindersley, 2005.

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Sentido da expansão 15º

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Enquanto ¡sso... Os inventores do dinheiro

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Na época em que os romanos passavam pelo processo de reorganização política que culminou com a instauração da República, os lídios se destacavam como a principal civilização da Anatólia, região onde hoje está a Turquia. Durante o reinado de Creso (561-546 a.C.), os lídios desenvolveram inovadoras técnicas de sepa-

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ração de metais e, a partir de uma liga natural de ouro e prata – o electro –, foram o primeiro povo do mundo a cunhar moedas de metal. Aos poucos, a moeda foi incorporada por outros povos. Entre os gregos, houve uma grande difusão de moedas, mas seu uso somente se generalizou depois de terem sido adotadas pelos romanos, por volta de 280 a.C. A primeira moeda cunhada por eles foi o denário, termo a partir do qual surgiu a palavra dinheiro. Fontes: BARBOSA, Bia. A fábrica de ouro. Veja, Abril, 30 ago. 2000; SANDRONI, Paulo. Novíssimo dicionário de economia. São Paulo: Best Seller, 2002. p. 174-176, 405-406.

Cunhada pelos lídios entre 650 a.C. e 600 a.C., a moeda da foto, feita de uma liga de ouro e prata, foi uma das primeiras da história da humanidade. Como outras moedas lídias, esta tem um desenho em alto-relevo apenas em um dos lados.

Organizando AS IDEIAS 1. Existem duas versões para a origem de Roma: a histórica e a mitológica. Descreva de forma resumida a concepção histórica.

sou os etruscos do Lácio, criando uma nova forma de organização política: a República. Explique como funcionava a República romana.

2. Os etruscos exerceram grande influência sobre a sociedade romana, unificando os vilarejos latinos que deram origem a Roma. Em linhas gerais, qual foi o papel dos etruscos na formação da cultura e da vida social romana?

5. As lutas sociais marcaram a história da República romana. Que processos históricos ampliaram os conflitos entre plebeus e patrícios?

3. Sob a administração dos etruscos, a sociedade romana estava politicamente organizada em monarquia. E em termos sociais, como se encontrava dividida? 4. Em 509 a.C., uma revolta dos patrícios, com o apoio dos plebeus, pôs fim à monarquia e expul-

6. O que significou a helenização de Roma? 7. Em seu processo de expansão, Roma completou o domínio sobre a península Itálica entre 272 a.C. e 265 a.C. A partir de então, a ampliação do território sob controle de Roma começou a preocupar a elite de Cartago, cidade-Estado fenícia do norte da África. Nesse contexto, o que foram as Guerras Púnicas?

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Interpretando DOCUMENTOS 1. Destaque pelo menos dois motivos apresentados por Tito Lívio para a escolha do local de fundação de Roma.

Não é sem razão que os deuses e os homens escolheram este lugar para a fundação da cidade: a extrema salubridade das suas colinas; a vantagem de um rio capaz de trazer as colheitas do seu interior, bem como de receber as provisões marítimas; as comodidades da vizinhança do mar, sem os perigos a que uma excessiva proximidade a exporia à ameaça de frotas estrangeiras; uma posição central em relação às diferentes regiões da Itália, posição que parece ter sido prevista unicamente para favorecer a expansão da cidade. Acha-se no seu 356 o ano, e durante esse tempo o círculo das nações que a rodeiam nunca deixou, cidadãos, de estar em guerra convosco; e, todavia, não puderam vencer-nos.

2. S  egundo Tito Lívio, a escolha do local para a fundação de Roma foi obra dos “deuses” e dos “homens”. Em que medida essa interpretação difere das interpretações oferecidas pelos historiadores contemporâneos? Justifique sua resposta. The Bridgeman Art Library/Keystone

O texto a seguir, sobre a fundação de Roma, foi escrito pelo historiador Tito Lívio (59 a.C.-17 d.C.). Leia o trecho selecionado e responda às questões.

Extraído de: FREITAS, Gustavo de. 900 textos e documentos de História. Lisboa: Plátano, 1977. p. 80. v. 1.

Retrato de Tito Lívio, segundo concepção livre de um desenhista europeu do século XVI.

Hora DE REFLETIR Como vimos no boxe A Lei das Doze Tábuas, a ausência de um código de leis escritas permitia aos patrícios manipular a justiça segundo seus interesses. Atualmente, a sociedade brasileira dispõe de leis escritas,

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reunidas sobretudo na Constituição Federal. Pode-se dizer que essas leis garantem o cumprimento da justiça de modo imparcial? Elabore dois argumentos para apresentar sua opinião num debate com a classe.

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Capítulo 15

A República em crise Objetivos do capítulo n

Localizada às margens do rio Ródano, a cidade de Arles, no sul da França, guarda em sua arquitetura marcas do tempo em que esteve sob o domínio do governo de Roma, como um anfiteatro e um cemitério romanos. A presença romana em Arles ganhou um destaque ainda maior em 2007, graças a uma descoberta arqueológica inédita. Naquele ano, pesquisadores resgataram do fundo do Ródano um busto de mármore retratando a figura do líder militar e político Júlio César (veja a imagem ao lado). Levado para análise, os pesquisadores descobriram que ele foi feito em 46 a.C., o que caracteriza a peça como uma verdadeira raridade. Isso porque esse é o único busto conhecido de Júlio César feito numa época em que ele ainda estava vivo. Exatamente em 46 a.C., Júlio César assumiu sozinho o poder de Roma, com o título de ditador vitalício. Assassinado dois anos depois, ele seria um dos últimos governantes da República romana, que chegaria ao final em 34 a.C., ano em que uma nova mudança política transformaria Roma em um império.

Busto de mármore de Júlio César, encontrado no leito do rio Ródano, na cidade de Arles, sul da França, em 2007. Datado de aproximadamente 46 a.C., acredita-se que seja a representação conhecida mais antiga do general romano, feita quando César ainda era vivo.

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Identificar as transformações sociais e econômicas ocorridas após a etapa inicial das conquistas romanas. Entender a política de “pão e circo”. Conhecer as propostas dos irmãos Graco e entender como ocorrem as conquistas relativas ao direito e à democracia. Explicar a desestruturação da República romana e a implantação do Império.

Boris Horvat/Agência France-Presse

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Um período conturbado Em meados do século II a.C., as conquistas territoriais transformaram Roma em uma cidade rica e cosmopolita, onde circulavam produtos vindos de diversas regiões. Elas também contribuíram para modificar a rea-lidade social e política vigente na República romana. Com a expansão das atividades comerciais, algumas famílias plebeias enriqueceram e constituíram um novo grupo social, a nobreza, que passou a exercer grande influência sobre a sociedade. Membros dessas famílias começaram a ocupar cargos da magistratura antes reservados apenas aos patrícios. Essa ascensão de setores da plebe coincidiu com a perda de poder dos patrícios, enfraquecidos numericamente por ser um grupo muito fechado. Para conquistar os votos das camadas mais baixas da população, os nobres (integrantes da nobreza) distribuíam esmolas e organizavam festas e espetáculos que atraíam grande número de pobres. Surgiram assim as lutas de gladiadores*, que alcançariam grande sucesso nos séculos seguintes, durante o período imperial. Essa política, conhecida mais * Veja o filme tarde como pão e circo, contri- Gladiador, de buiu para que a nobreza acumu- Ridley Scott, 2000, e o documentário lasse poder e passasse a controlar Pompeia: o último o Senado e os principais cargos dia, produção da BBC, 2003. da magistratura.

Eu também

Acentua-se a desigualdade social Enquanto nobres e cavaleiros concentravam a riqueza, o nível de renda do restante da população caía de forma constante. Além disso, muitos camponeses, ao voltarem da guerra para suas propriedades, não se acostumavam mais com a vida rural. Preferiam mudar-se para as cidades. O mesmo faziam muitos pequenos proprietários que, por causa de dívidas com os mais ricos, haviam perdido suas terras. Desse modo, as guerras contribuíram fortemente para a desintegração das camadas médias rurais que, por séculos, haviam sido a base militar e social do Estado romano. Nas cidades, esses antigos lavradores acabavam se juntando à massa dos trabalhadores urbanos que haviam perdido seus empregos para uma mão de obra mais barata, composta de escravos e estrangeiros livres. Com o afluxo constante de pobres, escravos e imigrantes, as cidades passaram a enfrentar problemas como os de falta de moradia, desemprego, saneamento básico, alimentação e limpeza pública (veja a seguir a seção Eu também posso participar).

posso participar

Roma e seus problemas urbanos O crescimento populacional de Roma verificado a partir do século II a.C. fez com que a cidade convivesse com uma grande variedade de problemas urbanos. Tamanho afluxo de pessoas deixou as estreitas ruas da cidade quase intransitáveis. O comércio era intenso. Barbeiros, ferreiros e outros profissionais muitas vezes faziam das vias públicas seu local de trabalho. Vendedores ambulantes montavam ali barracas para expor suas mercadorias, disputando espaço com carruagens e liteiras usa-

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Outro grupo surgido durante a República foi o dos cavaleiros (ou classe equestre). Era composto de indivíduos ricos que se dedicavam ao grande comércio e a atividades públicas rentáveis, como a cobrança de impostos e a coordenação de grandes obras governamentais – construção de estradas, exploração de minas, etc.

das pelos mais ricos. Saltimbancos e adestradores de animais se exibiam nas calçadas. Enquanto uma pequena parcela de habitantes morava nos domus (confortáveis residências decoradas com mosaicos e afrescos), a maior parte vivia em prédios de até seis andares com apartamentos pequenos e sem conforto, que não dispunham nem mesmo de cozinha ou banheiro. Por causa disso, os moradores costumavam jogar todo tipo de dejetos pelas janelas, o que provocava brigas, mau cheiro e graves problemas de saúde.

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• Muitas pessoas andam com um saquinho para guardar seus detritos até encontrar uma lixeira. Evitam, dessa maneira, jogá-los nas vias públicas. • O lixo deixado por muito tempo na calçada ou nas lixeiras provoca mau cheiro, pode causar entupimentos e atrair ratos e outros vetores de doenças. Esse problema pode ser evitado colocando-se o lixo nos dias e horários em que é feita a coleta de lixo. • O consumo de produtos a granel, com refil ou com embalagens retornáveis, por exemplo, ajuda a reduzir a quantidade de embalagens descartadas.

Esses problemas enfrentados pela população da antiga Roma não são exclusivos dessa sociedade. Sabemos atualmente que diversas doenças como cólera, peste bubônica ou leptospirose, por exemplo, podem atingir pessoas que vivem em precárias condições de higiene e em contato com o lixo. No Brasil, é grande a quantidade de dejetos jogados em ruas, córregos e rios urbanos todos os dias. Nas cidades brasileiras são coletadas diariamente cerca de 140 mil toneladas de lixo. No entanto, especialistas estimam que esse volume corresponde apenas à metade do que deveria ser recolhido. Tudo aquilo que não é coletado vai parar em rios, córregos, terrenos baldios e ruas. Além de poluir o ambiente, o descarte inadequado de dejetos pode trazer outros problemas, como enchentes causadas pelo entupimento de bueiros em dias de chuva e a proliferação de animais transmissores de doenças, como ratos, baratas e pombos. Daí a importância de o lixo ser jogado apenas no lugar a ele destinado. Veja de que forma podem-se evitar os problemas ocasionados pelo descarte inadequado de dejetos e como é possível diminuir seu volume.

A luta pela reforma agrária Eleito tribuno da plebe em 133 a.C., Tibério Graco lutava por uma reforma agrária que pusesse fim ao êxodo rural e estabelecesse limites à propriedade da terra. Inconformados com a ideia, os senadores – donos dos maiores latifúndios de Roma – promoveram o assassinato de Tibério e de trezentos de seus seguidores (veja na página 116 a seção Interpretando documentos). As propostas de Tibério foram retomadas anos depois por seu irmão Caio Graco, eleito tribuno da plebe em 124 a.C. Baseando-se no modelo da demo-

Como é feita a coleta de lixo em sua cidade? Existe coleta seletiva ou usinas de tratamento? Os rios e as ruas estão sujos e poluídos? Junto com seus colegas de grupo, elabore uma pesquisa sobre o caminho percorrido pelo lixo em sua cidade. Reúna essas informações e, com a ajuda do professor, faça uma roda de conversa para discutir os maiores problemas que sua comunidade enfrenta em relação ao lixo e quem são os mais prejudicados. Não se esqueça de apresentar propostas de como essa situação pode ser revertida.

cracia ateniense e buscando minar o poder dos ricos, Caio Graco propôs que as principais decisões da República fossem transferidas do Senado para uma assembleia popular. Também defendia a divisão das terras públicas e sua distribuição entre os mais pobres. Museu Nacional Romano, Roma, Itália/The Bridgeman/Keystone

Essa desigualdade entre ricos e pobres gerou enorme descontentamento entre as camadas populares, provocando conflitos sociais que começaram a abalar a República. Algumas pessoas argumentavam que para sair da crise seria necessário promover mudanças na sociedade. Entre os defensores desse ponto de vista destacaram-se os irmãos Tibério e Caio Graco.

Sua comunidade

Relevo de um sarcófago do século II d.C. mostrando a submissão de um estrangeiro a um general romano. Museu Nacional de Roma.

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Mais tarde, em 60 a.C., Roma chegou a ser chefiada por três militares simultaneamente, os generais Sila, Júlio César e Marco Licínio Crasso, que governavam sem depender do Senado. Era o chamado Triunvirato (governo de três varões). Em 46 a.C., o triunvirato já havia chegado ao fim. Porém, o poder concentrou-se nas mãos do general Júlio César, a quem os senadores de Roma concederam o título de ditador vitalício. Senhor da situação, César* * Veja o filme Júlio deu início a uma nova fase na César, de Joseph política romana: a da personi- Mankiewicz, 1953. ficação do poder. Sem comprometimento com plebeus, senadores, cavaleiros e até mesmo com a instituição republicana, assumiu para si vários cargos e funções, como cônsul, Pontífice Máximo (sumo sacerdote) e supremo comandante militar. Durante seu governo, distribuiu terras a cerca de 80 mil pessoas em colônias além-mar; visando diminuir o desemprego, exigiu que pecuaristas tivessem entre seus empregados pelo menos um terço de homens li-

Sentindo seus interesses ameaçados, a aristocracia senatorial mobilizou suas forças contra Caio Graco. Em 121 a.C., o tribuno e seus partidários foram cercados fora de Roma. Sem ter como escapar, Caio Graco pediu a um escravo que o matasse. A isso se seguiria a matança de 3 mil dos que o apoiavam. A morte de Caio Graco agravou as diferenças entre as facções popular e aristocrática, levando algum tempo depois a uma guerra civil que se estenderia por quase um século. Permeado por alguns momentos de paz, o conflito corroeu o sistema republicano.

Militares no poder Procurando desviar a atenção da crise que se abatia sobre a República, a partir do final do século II a.C., o Senado romano passou a estimular campanhas militares no exterior. Graças às vitórias, o prestígio dos militares cresceu (veja abaixo o boxe Os escravos se revoltam). Entre 107 a.C. e 100 a.C., por exemplo, o general Caio Mário foi eleito cônsul por seis vezes consecutivas.

Os escravos se revoltam

Louis-Ernest Barrias/Peter Horree/Alamy

Com as conquistas territoriais, os escravos se tornaram a principal mão de obra da República romana. Eles eram responsáveis pelas atividades agrícolas, pela produção artesanal nas cidades,

Escultura francesa do século XIX retratando Spartacus, um gladiador-escravo que se tornou um dos vários líderes na revolta dos escravos malsucedida contra a República Romana, conhecida como a Terceira Guerra Servil. Jardim das Tulherias, Paris.

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pelo trabalho doméstico e até mesmo por atividades educacionais. Ou seja, desempenhavam importante papel no processo que culminou na ascensão e riqueza da sociedade romana. Submetidos a precárias condições de vida e de trabalho, não eram raras suas manifestações de revolta. Alguns desses movimentos foram reprimidos rapidamente; outros, contudo, reuniram grande número de escravos e duraram mais tempo. Uma das maiores revoltas ocorreu entre 73 a.C. e 71 a.C. Seu líder era um gladiador chamado Espártaco*. Após ter fugido com outros 73 gladiadores de seu cativeiro em Cápua, Espártaco­ * Veja o filme reuniu um exército de mais de Spartacus, de Stanley Kubrick, 60 mil escravos. 1960. À frente dessa tropa, percorreu quase toda a península Itálica, vencendo várias vezes as legiões romanas. Ao se dirigirem a Roma, porém, foram derrotados por tropas comandadas pelo general Crasso. Cerca de 6 mil escravos foram condenados à morte na cruz. Adaptado de: MAESTRI FILHO, Mário José. O escravismo antigo. São Paulo/Campinas: Atual/Editora da Unicamp, 1985. p. 52-55.

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vres; e estendeu a cidadania romana a praticamente toda a população da península Itálica. O texto da seção Passado presente analisa a importância da cidadania para as populações conquistadas por Roma. Para seus inimigos, as atitudes de César apenas comprovavam a tese de que ele pretendia acabar com a República e se proclamar rei. Ora, desde a expulsão do trono de Tarquínio II, o Soberbo, em 509 a.C., os romanos rejeitavam qualquer tentativa de retorno da monarquia. Assim, em 15 de março de 44 a.C., durante uma sessão do Senado, um grupo de sessen-

Passado

ta senadores cercou Júlio César e o assassinou a punhaladas. Após a morte de César, Roma passou a ser governada por um novo Triunvirato, desta vez formado pelo cônsul Marco Antônio, o general Lépido e o sobrinho e filho adotivo de Júlio César, Caio Otávio. As divergências entre eles, contudo, transformaram o território romano em palco de uma guerra que só terminou em 27 a.C., quando Caio Otávio, sozinho, se tornou senhor absoluto de Roma, dando início ao maior império que o mundo já vira.

Presente

A cidadania romana

Photo Scala, Firenza/Glow Images

A palavra cidadania vem do latim civitas, que quer dizer ‘cidade’. A palavra cidadania foi usada na Roma antiga para indicar a situação política de uma pessoa e os direitos que essa pessoa tinha ou podia exercer. Segundo o jurista Dalmo Dallari, “a cidadania expressa um conjunto de direitos que dá à pessoa a possibilidade de participar ativamente da vida e do governo de seu povo. Quem não tem cidadania está marginalizado ou excluído da vida social e da tomada de decisões, ficando numa posição de inferioridade dentro do grupo social”.

Em Roma, contudo, a cidadania era privilégio apenas de uma parte da população. Durante a monarquia, somente os patrícios gozavam de direitos políticos. Com a República, os plebeus conquistaram os direitos de cidadania que antes lhes eram negados. Entretanto, a população da maior parte das regiões anexadas nunca teve acesso a esses direitos (concedidos apenas à população da península Itálica). Nessas regiões, cerca de 80 milhões de pessoas viviam sob as ordens dos cavaleiros ou dos nobres romanos. Como não tinham cidadania, esses indivíduos eram considerados estrangeiros em sua própria terra, sem direitos civis, religiosos ou políticos. Ter a cidadania significava ter uma lei e uma justiça igual para todos. Também não existiam leis ou regras orientando a conduta dos administradores romanos que ali se encontravam. Assim, cada um governava e aplicava a justiça conforme seus interesses. Fontes: DALLARI, Dalmo. Direitos humanos e cidadania. São Paulo: Moderna, 1998. p. 14; COULANGES, Fustel de. A cidade antiga. São Paulo: Martins Fontes, 2000. p. 428-432; O que é cidadania. Disponível em: <http://www.dhnet.org.br/ direitos/sos/textos/oque_e_cidadania.html>. Acesso em: 16 abr. 2012.

Sua comunidade Escultura de mármore representando um cidadão romano, em foto de 1990. A cidadania romana era inicialmente restrita aos homens livres nascidos em Roma, mas foi pouco a pouco ampliada à medida que os romanos anexavam novos territórios e ampliavam seus domínios.

Para que os direitos de cidadania não fiquem apenas no papel, é necessário que os cidadãos exerçam vigilância permanente sobre seu cumprimento.

Atualmente, a cidadania no Brasil é um direito de todos. Por isso, qualquer pessoa pode participar da vida política do país. Em sua comunidade, há grupos ou pessoas que exercem ativamente seus direitos, por intermédio de movimentos sociais ou de Organizações Não Governamentais (ONGs)? Em grupos, façam uma pesquisa sobre esses movimentos e descubram quais são seus objetivos e por que foram fundados. Relatem os resultados da pesquisa para a classe.

A República em crise Capítulo 15

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Organizando as ideias 1. A expansão territorial provocou muitas transformações na economia e na sociedade romanas em meados do século II a.C. Explique a ascensão dos novos grupos sociais nesse contexto: a nobreza e a classe equestre, e indique quais foram os problemas sociais provocados pela expansão territorial de Roma. 2. Para conquistar o voto dos pobres, a nobreza criou uma política conhecida posteriormente como “pão e circo”. Em que consistia essa política? 3. As tensões sociais em Roma provocaram a necessidade de reformas que garantissem maior estabi-

lidade política. Os irmãos Tibério e Caio Graco, tribunos da plebe, propuseram algumas dessas mudanças. Indique, em linhas gerais, quais foram as propostas defendidas pelos dois irmãos. Aponte também qual foi o desfecho desse episódio. 4. Que acontecimentos agravaram a crise política da República romana em fins do século II a.C.? 5. Qual foi o papel de Júlio César na transformação das tradições políticas em Roma? 6. Elabore um texto sobre as revoltas de escravos em Roma, identificando o papel da escravidão na economia romana.

Interpretando DOCUMENTOS Veja o que o filósofo grego Plutarco (46-120 d.C.) escreveu sobre o problema da propriedade da terra na época de Tibério e Caio Graco.

serviço militar e a criação de filhos. Assim, a Itália perderia muitos de seus habitantes livres e seria povoada por escravos bárbaros que os ricos empregavam na cultura das terras, para substituir os cidadãos que haviam sido expulsos delas.

Os romanos costumavam vender uma parte das terras conquistadas aos vizinhos; outras, anexá-las e arrendá-las depois aos cidadãos que nada possuíssem, mediante um ligeiro censo (renda anual) ao tesouro público. Os ricos, porém, tinham conseguido apoderar-se dessas terras; eis por que foi feita uma lei que proibia a todos os cidadãos ter mais de 125 hectares de terra. Essa lei conteve por algum tempo a ganância dos ricos.

1. Segundo o texto de Plutarco, o que justificava a lei que limitava os cidadãos a ter no máximo 125 hectares de terras?

Mas depois os ricos conseguiram a adjudicação de terras sob nomes de empréstimo; por fim, tomavam-nas abertamente em seu nome. Então os pobres, espoliados da sua posse, trataram de evitar o

2. Quais foram, segundo o texto, as estratégias da população mais pobre diante da concentração de terras que prosseguiu apesar das medidas tomadas pelo Estado romano?

Extraído de: PLUTARCO. Vida de Tibério e Caio Graco. In: FREITAS, Gustavo de. 900 textos e documentos de História. Lisboa: Plátano, 1977. v. 1, p. 94.

Hora DE REFLETIR O Estado romano oferecia a política do “pão e circo” para manter, especialmente, a população pobre urbana distraída e minimamente alimentada. Isso reduzia os riscos de manifestações de descontentamento que poderiam abalar o poder das elites romanas. No Brasil, é comum ouvir pessoas dizerem que o futebol e a televisão funcionam como

uma forma de diversão para que as pessoas não se interessem pelos assuntos políticos. Você concorda com essa opinião? Em grupos, apresentem suas ideias e escutem as opiniões dos colegas. Façam, depois, uma lista com cada argumento e apresentem oralmente para a classe. Com a ajuda do professor, aprofundem as várias opiniões apresentadas.

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Antiga Roma – Site que reconstitui digitalmente a cidade de Roma em 320 d.C. (site em inglês). Veja no menu Gallery diferentes imagens da cidade. Disponível em: <www.romereborn.virginia.edu/>. Acesso em: 10 set. 2012.

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Capítulo 16

O Império Romano Objetivos do capítulo Angelo Cavalli/Index Stock Imagery/Latinstock

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Museu da Civilização Romana, Roma/Scala/Glow Images

A reconstrução gráfica abaixo foi feita por profissionais das universidades de Virgínia e da Califórnia, nos Estados Unidos, e faz parte de um projeto chamado Roma Renascida (Rome Reborn, em inglês), que tem por objetivo reconstituir digitalmente a cidade de Roma em 320 d.C. O desenho nos oferece uma visão panorâmica da cidade. Entre muitas construções, destacam-se, no centro, o Coliseu (1), palco de lutas de gladiadores, o Circo Máximo (2), onde se realizavam corridas de bigas (carros puxados por dois cavalos), e o aqueduto (3), que canalizava a água de uso diário da população romana.

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Conhecer a organização do Império Romano. Abordar aspectos da vida cotidiana dos romanos. Explicar o surgimento e a difusão do cristianismo no Império Romano. Compreender o processo de invasões germânicas e a desagregação do Império. Refletir sobre o papel do direito no passado e presente.

No século IV, Roma contava com uma população de 1 milhão de habitantes. Neste capítulo estudaremos a formação, o apogeu e o colapso do Império Romano.

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Reconstituição gráfica de Roma antiga. No centro da foto, aparece em destaque o Coliseu, cujas ruínas podem ser vistas ainda hoje na Cidade Eterna.

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primeiros tempos do império

No começo da Era Cristã, os domínios do Império Romano abrangiam grande parte da Europa, o norte da África e as terras asiáticas próximas ao Mediterrâneo. No comando desse imenso território encontrava-se Otávio, que havia assumido todo o poder em 27 a.C. Otávio, como vimos no capítulo 15, era sobrinho de Júlio César e havia composto, com Marco Antônio e Lépido, o Segundo Triunvirato (43 a.C.). Em 37 a.C. afastou Lépido do poder e em 30 a.C. derrotou Marco Antônio. Consciente da força da República no imaginário dos romanos, Otávio manteve o Senado e a figura dos cônsules, dois fortes símbolos republicanos. Entretanto, em 27 a.C. o Senado lhe concedeu os títulos de Augusto, antes reservado apenas para os deuses, Príncipe, ou seja, chefe do Senado, e Sumo Pontífice. A partir de então, Otávio passou a ser chamado simplesmente de Augusto. Ao mesmo tempo, o exército o aclamava Imperator (Imperador). Durante as quatro décadas de seu governo, Augusto promoveu diversas reformas na sociedade romana. Destituiu do cargo senadores acusados de corrupção; perdoou as dívidas dos camponeses para com o governo; criou um tribunal de pequenas causas para dar maior agilidade à Justiça; distribuiu alimentos e dinheiro ao povo em momentos de crise; e incentivou os espetáculos públicos (veja ao lado o item Os romanos se divertem).

Conspirações e assassinatos

Os romanos se divertem Sob o governo de Augusto, viviam em Roma cerca de 1 milhão de pessoas. Como muitos não tinham trabalho, o imperador procurava manter essa população ocupada por meio de festas e espetáculos. As lutas de gladiadores, iniciadas durante a República, tornaram-se um evento extremamente popular. Diversos anfiteatros, como o Coliseu, em Roma, foram construídos em todo o Império para a realização desses espetáculos. Destinadas a divertir a população, essas lutas tinham também uma dinâmica religiosa que movia a organização de jogos. Ao entrar na arena, os gladiadores desfilavam e saudavam o imperador com a frase Ave, Caesar, morituri te salutant (Salve, César, os que vão morrer te saúdam). Outra grande diversão eram os circos*, nos quais se realizavam corridas a pé, a cavalo e de carros. Um dos maiores, o Circo Máximo, comportava cerca de 150 mil espectadores. Os romanos também podiam se divertir com o teatro, com jogos de azar e com os triunfos, * Veja o filme festas grandiosas oferecidas aos Ben-Hur, de William militares vencedores de bata- Wyler, 1959. lhas importantes. Chris/Acervo do fotógrafo

Com a morte de Augusto em 14 d.C., assumiu o poder seu genro, Tibério (14-37). Até 68 d.C., apenas pessoas das famílias Júlia (de Augusto) e Cláudia (de Tibério) governaram o Império. Todas elas acabaram envolvidas em episódios de perseguições, assassinatos e conspirações.

Calígula (37-41), sucessor de Tibério, por exemplo, condenou à morte inúmeras pessoas; confiscou bens e concedeu honrarias a seu cavalo Incitatus, que pretendeu nomear cônsul. Assassinado em 41, foi sucedido por seu tio Cláudio (41-54), que morreu envenenado pela própria mulher para que Nero, filho dela gerado em um casamento anterior, assumisse o poder. Com Nero (54-68), a dinastia Cláudia, das famílias Júlia e Claudiana, chegou ao fim. Assassino da própria mãe, Nero reprimiu os cristãos. O boxe A difusão do cristianismo na página 119 aborda a relação entre o cristianismo e a religião romana.

Panorama das Termas de Caracalla, inauguradas pelo imperador romano homônimo em 217 d.C. Um dos maiores prédios de Roma, era ricamente ornado com mosaicos e chegava a atender cerca de 1 500 usuários em seu interior. Foto de 2009.

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A difusão do cristianismo

Além dessas diversões, um dos maiores prazeres da população romana era frequentar as termas. Como pouquíssimas residências contavam com água encanada, o governo construía luxuosos edifícios com serviços de banho que atendiam milhares de pessoas por dia. Nesses locais, além de banhar-se com água quente e receber massagens, as pessoas também tinham acesso a bibliotecas.

Após sua morte, seguidores de Jesus (chamado de Cristo, que traduzido do grego significa ‘ungido’) se espalharam por diversas regiões e passaram a divulgar seus ensinamentos. A partir de então, o cristianismo alcançou uma rápida difusão. Durante certo tempo, os imperadores romanos viram na nova religião uma ameaça a seu poder e perseguiram as comunidades cristãs. Fontes: BOWKER, John. Para entender as religiões. São Paulo: Ática, 1997. p. 15, 144-146; HOORNAERT, Eduardo. Memória do povo cristão. Petrópolis: Vozes, 1986. p. 41-75. Robert Harding World Imagery/Alamy/Other Images

A religião sempre desempenhou um papel importante entre os romanos. No âmbito doméstico, as famílias se reuniam para adorar seus ancestrais no culto aos deuses lares (deuses domésticos). Em todas as casas havia uma capela – o lararium – e um altar com um fogo aceso. Ali se reuniam as pessoas para fazer oferendas e orações. Também eram adorados os penates, deuses protetores das despensas e dos víveres domésticos. Na esfera pública, religião e política se sobrepunham. Os sacerdotes formavam um subgrupo de elite que dava conselhos políticos e promovia rituais e sacrifícios. Muitos dos deuses romanos eram de origem estrangeira, sobretudo grega: Júpiter, por exemplo, correspondia a Zeus; Vênus, deusa do amor, era identificada com Afrodite. Com Otávio, o culto religioso concentrou-se também na figura do imperador, chamado de Augusto e venerado como um deus. Entretanto, já no final do período republicano, parte da população passou a seguir doutrinas que pregavam o aperfeiçoamento interior e a crença na vida após a morte. Particularmente importante foi o cristianismo, religião monoteísta originária do judaísmo. O cristianismo baseia-se nos ensinamentos de Jesus, que teria vivido na Palestina no século I de nossa era, época em que a região era dominada pelos romanos. Seus seguidores – os cristãos – acreditam ser Jesus o filho de Deus, enviado à Terra para pregar o amor ao próximo e redimir a humanidade de seus pecados. Com sua doutrina, Jesus entrou em conflito com os sacerdotes judeus – que não o reconheciam como o Messias enviado por Deus – e com as autoridades romanas, para as quais apenas o imperador tinha caráter divino. Além disso, ele pregava o amor universal, sem distinções entre ricos e pobres. Considerado perigoso pelos grupos dominantes, Jesus foi condenado a morrer na cruz.

Perseguidos pelos romanos, os cristãos eram obrigados a realizar seus cultos às escondidas. Na foto, interior da catacumba de São Genaro, em Nápoles, península Itálica, utilizada como local de culto pelos seguidores de Cristo. Foto de maio de 2012.

Sua opinião Atualmente, a sociedade brasileira é composta de múltiplas religiões de diversas origens, cuja liberdade de culto é assegurada pela Constituição. Em sua opinião, existe respeito e tolerância pela diversidade religiosa no Brasil ou há preconceito e intolerância contra certas práticas religiosas? Reflita sobre esse assunto em um debate com seus colegas de classe.

A Pax Romana Com a morte de Nero, sobreveio um ano de guerras civis, após o qual assumiu Vespasiano, general da família dos Flávios. Teve início então o período de maior esplendor do Império Romano (veja o mapa da página a seguir), que se estendeu pelas dinastias dos Flávios (69-96) e dos Antoninos (96-192), como mostra o boxe A arte, a cultura e o Direito Romano na próxima página. O Império Romano Capítulo 16

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Fonte: Grand atlas historique. Paris: Larousse, 2006.

A arte, a cultura e o Direito Romano do o maior prosador da língua latina e autor de diversos textos de Filosofia, Direito e Política. Entre os poetas, um dos mais importantes foi Virgílio (70-19 a.C.), autor de Eneida, poema épico que descreve as origens de Roma, mesclando len-

BibleLand Pictures/Alamy/Other Images

O surgimento de uma produção artística e cultural tipicamente romana verificou-se principalmente durante o Império. Uma das primeiras pessoas a produzir uma obra com características romanas foi Cícero (106-43 a.C.), considera-

Afresco da Vila dos Remédios, encontrado nas ruínas da cidade de Pompeia, na Itália. Segundo algumas interpretações, o afresco representa pessoas preparando um banquete, fazendo, dessa maneira, uma alusão aos ritos da hospitalidade. Foto de 2009.

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das com fatos históricos. Outro destaque é Petrônio, cuja obra Satyricon, escrita em prosa e verso, contém informações sobre a sociedade romana da época imperial. A arquitetura romana, bastante influenciada por gregos e etruscos, tem seu ponto alto na construção de teatros, circos, anfiteatros, termas e basílicas. O desenvolvimento de arcos sustentados por pilares foi uma das invenções mais originais dos romanos nessa área e permitiu a construção de pontes, arcos do triunfo e aquedutos. Já a invenção do concreto – feito de uma mistura de pedra, areia, água e cinza vulcânica – impulsionou a construção de grandes edifícios.

Além disso, novas cidades surgiram e o modo de vida romano passou a ser adotado nas mais distantes províncias, acentuando, assim, o processo de romanização dessas regiões. Nesse período, as condições de vida nas províncias melhoraram sensivelmente e muitos romanos optaram por viver nelas. Tudo isso fez com que o Império vivesse um período de calmaria, razão pela qual essa época ficou conhecida como a da pax romana (paz romana). Para os povos dominados, essa era uma paz imposta pela força. Na verdade, o Império em sua fase de esplendor enfrentaria sobretudo problemas de outra natureza, como epidemias, incêndios e até a destruição das cidades de Pompeia, Herculano e Estábia pela erupção do vulcão Vesúvio em 79 d.C.

As primeiras invasões No final do século II, o Império começou a sofrer as primeiras invasões de povos vindos inicialmente do interior da Europa e posteriormente da Ásia. Os romanos os chamavam depreciativamente de bárbaros, devido ao fato de não falarem o latim e de terem costumes diversos dos seus. A pax romana, portanto, não era uma garantia de estabilidade duradoura. A partir da dinastia Severa (193-235), os sinais de crise tornaram-se cada vez mais frequentes. Entre 235 e 284, por exemplo, somente um entre 26 imperadores teve morte natural. Além disso, por essa época a população sofria com os altos impostos e uma crise econômica e agrícola sem precedentes.

Mas o mais importante legado dessa sociedade ao mundo moderno foi o Direito Romano. Procurando regular as relações públicas e privadas, o Direito Romano se constituiu em um elaborado conjunto de leis. Ainda hoje, ele serve de referência à Justiça em diversos países.

Sua opinião Atualmente, no Brasil, um conjunto de instituições legais organiza a vida social com base em leis escritas e aprovadas pelo Poder Legislativo. Na sua opinião, de que modo o Direito pode contribuir para diminuir as desigualdades sociais?

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império dividido

Preocupado em tornar o Império mais governável, o imperador Diocleciano (284-305) resolveu dividi-lo em duas partes: uma oriental, sob seus cuidados; a outra, ocidental, entregue ao general Maximiano. Mais tarde, Diocleciano dividiu o poder do Império entre quatro governantes, a chamada tetrarquia. Por esse sistema, o Império continuou dividido em dois territórios governados por dois imperadores com o título de Augusto. Cada um deles nomeava um sucessor que o auxiliava na administração de um dos territórios. Essa fragmentação enfraqueceu particularmente o Senado, que vinha perdendo poder desde o governo de Otávio e mesmo desde a época de Júlio César. Assim, o Senado continuou a funcionar em Roma, mas esta deixou de ser a sede do Império, que passou a contar com quatro capitais: Treves (na atual Alemanha), Milão (na península Itálica), Sirmio (na atual Bósnia-Herzegovina) e Nicomédia (na Ásia Menor). Em 395, sob o governo de Teodósio, o Império foi dividido mais uma vez em duas partes. A medida criava o Império Romano do Oriente, com sede em Constantinopla, e o Império Romano do Ocidente, com capital em Milão. Este último, porém, continuou a ser assediado pelos povos provenientes da Europa central e oriental. Dessa forma, o Império do Ocidente foi pouco a pouco se esfacelando sob a ação dos invasores, tema abordado no boxe da próxima página A ameaça externa. O Império Romano Capítulo 16

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invadiram a península Itálica e arrasaram as cidades de Pádua e Milão. A derrocada final ocorreu em 476, quando o último imperador romano do Ocidente, Rômulo Augústulo, foi destronado por Odoacro, rei dos hérulos.

Rene Mattes/Mauritius Images/Latinstock

No início do século V, as legiões romanas foram expulsas da Bretanha pelos saxões. Por volta de 400, os visigodos devastaram a Gália, invadiram a península Itálica e, em 410, saquearam Roma. Em 452, os hunos, comandados por Átila,

Arco de Constantino com o Coliseu ao fundo, à direita. Roma, Itália, novembro de 2007.

A ameaça externa Durante muito tempo, os romanos conseguiram impedir que outros povos se infiltrassem em seu imenso território. Entretanto, a partir do século III, à medida que a crise interna aumentava, o Império tornou-se alvo cons* Veja o tante de incursões de povos documentário invasores*. O grande impulOs bárbaros, so se deu quando os hunos – The History guerreiros nômades cujas inChannel, 2007. vestidas levaram os chineses a construir a Grande Muralha da China (reveja o capítulo 6) – ocuparam as planícies da Rússia e da Europa oriental, obrigando os habitantes da região a se deslocarem em direção ao território romano. Diferentes uns dos outros, não havia entre esses povos invasores nenhuma unidade política ou

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cultural. Tinham em comum apenas o desconhecimento da escrita, a forma nômade de vida e o espírito guerreiro. Além dos hunos, os principais invasores do Império Romano foram: Anglos e saxões – Provenientes da Dinamarca e da Alemanha atuais, conquistaram áreas que correspondem hoje à Inglaterra; Godos – Povo formado por dois ramos, o dos ostrogodos e o dos visigodos. Os primeiros seriam originários da região da atual Ucrânia e se fixaram na península Itálica; os segundos teriam saído do território onde hoje se encontra a Romênia e se estabeleceram nas penínsulas Balcânica, Itálica e Ibérica, além de áreas da França atual, de onde seriam expulsos pelos francos; Burgúndios – Originários da Escandinávia, fixaram-se no sudeste da França atual;

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Francos – Povo formado por diversos grupos que viviam na região do rio Reno e que se fixaram na França atual; Lombardos – Originários, provavelmente, da Escandinávia, estabeleceram-se no norte da península Itálica; Vândalos – Provenientes das atuais Alemanha, Polônia e Eslováquia, atravessaram a península Ibérica e se fixaram no norte da África, na região da antiga Cartago.

De olho no mundo Com a globalização e o desemprego, muitas pessoas migram de uma região para outra em busca de uma vida melhor. Em grupos, façam uma pesquisa sobre essas migrações contemporâneas. Tomem como referência alguns grupos étnicos e um país de destino (por exemplo, hispano-americanos e brasileiros em direção aos Estados Unidos, africanos em direção à Europa, etc.). Depois, montem um painel com textos e fotos e organizem uma exposição para a classe.

As invasões do Império Romano

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Mar Negro Constantinopla

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Tessalônica

GRÉCIA

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395

Fonte: Grand atlas historique. Paris: Larousse, 2006.

Enquanto ¡sso... A Idade do Ferro na África subsaariana Enquanto Roma consolidava seu império, algumas sociedades na África subsaariana (ou seja, ao sul do deserto de Saara) viviam a chamada Idade do Ferro, aprendendo a forjar armas e utensílios com esse metal.

Uma das mais conhecidas é a cultura Nok, que se desenvolveu na região sudoeste da atual Nigéria, entre os rios Níger e Benue. Seu apogeu situa-se entre 500 a.C. e 200 d.C. Entre os anos 100 e 300, surgiram comunidades que fundiam o ferro na região das atuais Ruanda, Quênia e Tanzânia.

O Império Romano Capítulo 16

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Wernwr Forman/Corbis/Latinstock

A metalurgia do ferro provocou uma verdadeira revolução no modo de vida dos povos das savanas e da floresta: as armas de caça e de combate tornaram-se mais eficientes e permitiram à população dessas regiões expandir sua área de ocupação.

Cabeça feminina, escultura de data incerta representativa da cultura Nok, que floresceu na atual Nigéria, África, entre 500 a.C. e 200 d.C.

Organizando as ideias 1. No início da era cristã, o território do Império Romano abrangia grande parte da Europa e porções da Ásia e da África. Otávio tornou-se senhor absoluto desse império em 27 a.C. Quais foram as principais medidas de Otávio para fortalecer seu poder? 2. A política do “pão e circo” iniciada no período republicano foi consolidada e ampliada por Augusto. Releia o item Os romanos se divertem, na página 118, e faça uma síntese do assunto tratado. 3. Após a morte de Augusto, em 14 d.C., quais foram os problemas políticos mais graves do Império Romano? 4. Durante as dinastias dos Flávios (69-96) e dos Antoninos (96-192) o Império Romano alcançou

grande esplendor artístico e cultural e vivenciou uma época chamada pax romana. Escreva um texto sobre aquele período. 5. Descreva as características gerais da religião dos romanos anterior à difusão do cristianismo. 6. O cristianismo se difundiu rapidamente no Império Romano. Quais as características dessa religião e por que vários imperadores perseguiram seus adeptos? 7. Com base na leitura do boxe A ameaça externa (p. 122) e na observação do mapa As invasões do Império Romano (p. 123), defina quem eram os povos invasores, por que penetraram nos domínios do império e como eram considerados pelos romanos.

Hora DE REFLETIR Durante seu governo, Augusto criou um tribunal de pequenas causas para dar maior agilidade à Justiça. Hoje, uma das principais críticas feitas ao sistema judiciário brasileiro é a sua morosidade. Em grupos, procurem informações a esse respeito em acervos de jornais

e revistas. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e as pastorais religiosas (como as que cuidam de questões relativas aos presos) também são uma boa fonte de informação. Para finalizar, reúnam o material organizado e componham com ele um jornal mural.

Mundo virtual nn

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Death in Rome – Death in Rome é um jogo (em inglês) ambientado na Roma antiga. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/history/interactive/games/death_rome/index_embed.shtml>. Acesso em: 10 set. 2012. Museu Nacional de Arqueologia – Neste site se pode navegar por uma exposição virtual de mosaicos romanos. Disponível em: <http://tinyurl.com/8kubgr9>. Acesso em: 10 set. 2012.

Unidade 3 Direito e democracia

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Photo Researchers/Latinstock

Fechando a unidade

Direito e democracia

A democracia se converteu em um sinônimo de liberdade e justiça. É, ao mesmo tempo, um fim e um instrumento. Contém, basicamente, uma série de procedimentos para o acesso e o exercício do poder, mas é também, para homens e mulheres, o resultado desses procedimentos. Nessa perspectiva, a democracia não é só um método para eleger quem governa, é também uma forma de construir, garantir e expandir a liberdade, a justiça e o progresso, organizando as tensões e os conflitos gerados pelas lutas de poder. [...] Na América Latina alcançou-se a democracia eleitoral e suas liberdades básicas. Agora se trata de avançar na democracia de cidadania. A primeira nos deu as liberdades e o direito de decidir por nós mesmos. Traçou, em muitos de nossos países, a fronteira entre a vida e a morte. A segunda, hoje plena de carências, é a que avança para que o conjunto de nossos direitos se torne efetivo. É a que nos permite passar de eleitores a cidadãos. A que utiliza as liberdades políticas como alavanca para construir a cidadania civil e social. Para mulheres e homens, a democracia gera expectativas, esperanças e decepções porque contribui para organizar suas vidas na sociedade, garante seus direitos e permite melhorar a qualidade de suas existências. A democracia é muito mais do que um regime de governo, ela se confunde com a própria vida. É mais do que um método para eleger e ser eleito. Seu sujeito não é apenas aquele que vota, é o cidadão. A democracia na América Latina – Rumo a uma democracia de cidadãs e cidadãos. Disponível em: <http://www.pnud.org.br/pdf/ TextoProddal.pdf>. Acesso em: 23 jan. 2013.

Angeli/Acervo do artista

De eleitor a cidadão

DOCUMENTO 2 – Charge

DOCUMENTO 1 – Relatório

Você vai ler agora parte de um relatório elaborado em 2004 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e uma contundente charge do cartunista Angeli. Ambos abordam questões pertinentes à democracia e aos direitos de cidadania. Feita a leitura, responda ao que se pede.

Extraído de: <http://noticias.uol.com.br/humor/0808_album.jhtm>. Acesso em: 23 jan. 2013.

Reflita e responda 1. Com base no texto de abertura desta unidade e do documento 1, por que se pode afirmar que a democracia não se resume aos direitos políticos de eleger os governantes de um país? Qual é o sentido ampliado da democracia? 2. Qual é a crítica social expressa na charge de Angeli? 3. Releia o relatório do documento 1 e a charge do cartunista Angeli. Em seguida, escreva uma dissertação relacionando o conceito de democracia social com o problema da desigualdade social no mundo. 4. Em sua opinião, como você e seus colegas de classe podem contribuir para ampliar o processo democrático no Brasil?

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Unidade

Mauricio Simonetti/ Pulsar Imagens

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Diversidade religiosa

A

s crenças religiosas são uma das mais antigas experiências coletivas do ser humano em busca de proteção para a vida e de segurança espiritual diante do fenômeno da morte. Elas estão estreitamente relacionadas com a história e as formas de organização das sociedades que lhes deram origem. O candomblé, por exemplo, que surgiu entre povos africanos, dotados de forte musicalidade, tem na música um importante componente religioso. Devido a essa historicidade, as religiões costumam ter preceitos, valores e ritos quase sempre incompreensíveis para quem não conhece a cultura da qual fazem parte. Assim, enquanto para algumas crenças não se deve trabalhar aos sábados, para outras o domingo é que deve ser preservado; enquanto para umas é importante raspar os cabelos, para outras não se deve cortá-los. De modo geral, todas as religiões pregam a paz, o bem e o amor ao próximo. Apesar disso, a intolerância em relação às crenças alheias já provocou muitas guerras em diversos períodos da História. Ainda hoje, conflitos como a guerra entre judeus e muçulmanos na Palestina, entre budistas e hindus no Sri Lanka e entre muçulmanos e cristãos no Sudão e na Nigéria, por exemplo, têm componentes religiosos. Nesta unidade estudaremos o mundo medieval europeu e o Império Islâmico – contextos históricos nos quais se desenvolveram o catolicismo e o islamismo, duas das maiores religiões do mundo moderno. Conheceremos também alguns dos reinos mais antigos da África e um pouco de sua cultura e de suas manifestações religiosas.

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Janek Skarzynski/Agência France-Presse

A lavagem do Bonfim, na Igreja Nosso Senhor do Bonfim, em Salvador (BA), é um ritual que mistura elementos católicos e da umbanda. Foto de janeiro de 2011.

Clérigos judeu, muçulmano e cristão participam da bênção de uma capela ecumênica no novo Estádio Nacional da Polônia, em Varsóvia. Foto de maio de 2012.

COMEÇO DE CONVERSA 1. Você já presenciou ou tem conhecimento de algum exemplo de intolerância religiosa? Em grupos, compartilhem suas opiniões e relatem os casos que vocês conhecem. 2. Em que medida a tolerância religiosa contribui para ampliar a democracia em uma sociedade? Cite um exemplo para fundamentar sua opinião.

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Capítulo 17

Civilizações asiáticas Objetivos do capítulo Philip Jones Griffiths/Magnum Photos/Latinstock

Um dos principais símbolos da cultura japonesa é a katana. Conhecida como uma das mais perfeitas espadas do mundo, a katana foi inventada no século XIV, no Japão. Feita artesanalmente com duas ligas de aço, tinha uma lâmina comprida e encurvada na ponta.

Neste capítulo vamos conhecer mais sobre os samurais, que entre os séculos VIII e XIX exerceram grande influência sobre a sociedade japonesa. Também veremos algumas características da sociedade chinesa desse período, que chegou a fazer parte de um dos maiores impérios de todos os tempos, o Império Mongol.

Nano Calvo/VW Pics/ZUMAPRESS.com

As espadas do tipo katana são hoje consideradas verdadeiras obras de arte e muitas delas podem ser vistas em museus espalhados pelo Japão. Mas no passado eram as principais armas dos samurais, guerreiros japoneses que lideraram poderosos clãs provinciais e garantiam a proteção do imperador.

Conhecer sociedades asiáticas que floresceram no período que vai do século VII ao XV. Entender a denominação Idade Média atribuída ao período entre os séculos V e XV, considerando o contexto de sua concepção. Destacar o papel de viajantes como Marco Polo no intercâmbio de conhecimentos materiais e imateriais entre Oriente e Ocidente.

Espadeiro forjando tradicional espada em sua oficina, em Saitama, no Japão, de acordo com as técnicas tradicionais japonesas. Foto de 2012.

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A Idade de Ouro na China

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Vimos no capítulo 6 que, após o fim da dinastia Han, no século III d.C., a China viveu períodos de unificação e fragmentação do poder imperial. Um desses momentos de unificação ocorreu a partir de 618, quando uma rebelião colocou no poder a dinastia Tang*. Durante esse pe* Veja o ríodo, que se estenfilme A deu até 907, os chinemaldição da ses viveram sua Idade flor dourada, de Zhang de Ouro. A economia Yimou, 2006. se expandiu, a metalurgia conheceu um grande desenvolvimento, com a abertura de mais de cem locais para a fundição de cobre, ferro e prata, e a agricultura prosperou de modo notável (veja a seção Passado presente na página 130). O comércio com os povos vizinhos se dinamizou e diversas cidades surgiram. No plano espiritual, o budismo, originário da Índia, consolidou-se como uma de suas principais religiões. São dessa época as gigantescas estátuas de Buda esculpidas nas grutas de Longmen, na cidade de Luoyang, e de Mogao, em Dunhuang. Em 907, uma rebelião camponesa provocou a queda da dinastia Tang e a China voltou a ser dividida em vários reinos. Somente em 960, com a ascensão da dinastia Song, o território foi novamente unificado.

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Espelho circular de bronze com aplicação em ouro e prata produzido por escola chinesa da dinastia Tang (618-907)

Sob os Song, os chineses criaram o dinheiro de papel e passaram a produzir novas armas, como a que utilizava pólvora para lançar flechas. Comerciantes persas e árabes levaram a bússola para a Europa, onde esse invento chinês desempenharia importante papel nas Grandes Navegações dos séculos XV e XVI, como veremos no capítulo 28.

Idade Média: um conceito europeu A expressão Idade Média foi criada por pensadores humanistas da Europa ocidental de fins do século XV com um significado depreciativo. Para esses pensadores, o período posterior às invasões germânicas e à desagregação do Império Romano do Ocidente havia sido de atraso, obscurantismo e ignorância. Eles eram admiradores da cultura greco-romana e dos valores de sua própria época, o Renascimento (veja o capítulo 26). Com a expressão,

procuravam caracterizar a Idade Média – situada entre duas épocas esplendorosas, a Antiguidade clássica e o Renascimento – como um período sombrio, uma espécie de Idade das Trevas. Hoje, essa posição já não é mais aceita. Mas a expressão Idade Média se consagrou, designando o período da história da Europa ocidental que vai do século V ao século XV. Na Ásia, na África e na América havia por essa época civilizações em pleno florescimento.

Civilizações asiáticas Capítulo 17

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Passado

Presente

A supremacia econômica do Oriente O mundo está assombrado com a recente ascensão da China e da Índia, mas a supremacia econômica desses países asiáticos foi a regra na maior parte da história da humanidade depois de Cristo. A exceção são os últimos duzentos anos, nos quais o Ocidente se impôs graças às inovações tecnológicas que desaguaram na Revolução Industrial. Entre o ano 1 e o fim do século XVIII, China e Índia respondiam por mais da metade do PIB [Produto Interno Bruto, soma de todas as riquezas produzidas em um ano] global, segundo cálculos do economista Angus Maddison, professor emérito da Universidade de Groningen [na Holanda] e um dos mais respeitados especialistas em história econômica do mundo, que fez estimativas de PIBs para os últimos 2 mil anos. A enorme população é o fator mais óbvio para a supremacia da China e da Índia no passado. Por volta de 1500, os dois países somados tinham metade dos habitantes do mundo, 213 milhões. Mas

Houve também aperfeiçoamentos na impressão xilográfica: o artesão Bi Sheng inventou, entre 1041 e 1048, uma forma de impressão com tipos móveis de argila cozida que permitiam a produção de livros com grande facilidade. Uma invenção semelhante só teria lugar na Europa em 1445, quando Johannes Gutenberg inventou (ou reinventou) os tipos móveis de impressão. A dinastia Song terminou em 1279, quando a China foi conquistada pelos mongóis.

2

O Império Mongol

Os mongóis eram um povo formado por diversas tribos de pastores nômades que viviam nas estepes asiáticas, em uma região delimitada ao norte pela Sibéria e ao sul pelo deserto de Gobi. Cada tribo reunia vários clãs – grupos de pessoas que tinham um ancestral comum. O líder da tribo recebia o título de khan.

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a população não era o único fator que explica o peso econômico, pelo menos no caso da China. O Império do Meio [nome com que os chineses designavam o reino em que viviam] manteve durante séculos a dianteira tecnológica em relação ao Ocidente, o que lhe permitiu realizar uma renda per capita razoável, apesar da grande população. Maddison afirma que uma das mudanças cruciais no país aconteceu na dinastia Song (960-1279), quando os chineses desenvolveram um sistema agrícola que tornou possível a realização de mais de uma colheita de arroz por ano. Em consequência, a renda per capita do império teve alta de 30%. O desenvolvimento da agricultura era uma das prioridades da burocracia chinesa. Os burocratas utilizaram a imprensa para disseminar novas técnicas entre os agricultores por meio de livros ilustrados e folhetos. Adaptado de: TREVISAN, Cláudia. Supremacia do Ocidente é exceção na História. Folha de S.Paulo, São Paulo, 30 set. 2006.

Em 1206, as diversas tribos se * Veja o filme unificaram e aclamaram o líder guer- O guerreiro reiro Temudjin como chefe de todos Gêngis Khan, os mongóis com o título de Gêngis de Serguei Bodrov, 2009. Khan – ou seja, khan dos khans*. Com o novo líder teve início a expansão territorial que levaria os mongóis a conquistar a China (veja na seção Olho vivo informações sobre os guerreiros mongóis). Quando Gêngis Khan morreu, em 1227, os mongóis eram senhores de um império que se estendia do mar Cáspio a Pequim. Ao sucedê-lo, seu filho Ogodai ampliou ainda mais as fronteiras imperiais. Em 1260, Kublai Khan, neto de Gêngis Khan, ascendeu ao poder e o Império Mongol alcançou sua maior extensão (veja o mapa da página 132). Foi esse imperador quem recebeu o viajante europeu Marco Polo quando este visitou a Ásia (as viagens de Marco Polo são descritas no boxe da página 132). Após a morte de Kublai Khan, em 1294, o Império Mongol enfraqueceu-se pouco a pouco.

Unidade 4 Diversidade religiosa

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Olho vivo

A cavalaria mongol

O uso de cavalos na guerra foi um dos fatores que contribuíram de maneira decisiva para as conquistas mongóis. Os cavaleiros mongóis eram extremamente hábeis em atirar suas flechas enquanto cavalgavam. Para tanto, em tempos de paz, eles treinavam caçando animais. Nos combates, os mongóis cavalgavam próximos uns dos outros, evitando dessa maneira abrir espaço para o avanço do inimigo. A imagem abaixo é uma ilustração do século XIV mostrando a cavalaria mongol em ação.

Bandeiras utilizadas para sinalizar como deveria ser organizado o avanço da cavalaria.

Flechas com ponta de ferro; alcançavam cerca de 320 metros de distância.

Os cavalos eram o bem mais valioso de um mongol.

Biblioteca Nacional da França/ Arquivo da Editora

O selim, feito de couro e madeira, garantia a firmeza do guerreiro ao cavalgar.

Espada presa à cintura, no lado esquerdo do corpo.

Roupas acolchoadas com duas camadas: uma interior, justa ao corpo, e outra exterior, que descia até a altura dos tornozelos.

Bolsa de couro presa à cintura para guardar o arco.

Os arcos eram feitos de osso e tendão, numa armação de madeira.

Estribo de metal, com base resistente para os movimentos de ataque e defesa do cavaleiro.

Tecido acolchoado para proteger o cavalo do atrito com o estribo. A cavalaria mongol em combate, gravura que se encontra hoje na Biblioteca Nacional da França.

Botas de couro forradas com tecido. Placas de metal protegiam pés e tornozelos. Fontes: História Viva, n. 21, jul. 2005, p. 22-23; As hordas mongólicas. In: Conquistas mongólicas. Rio de Janeiro: Time-Life Livros/Abril Coleções, 1996; The advantage of bow and horse. Disponível em: <http://afe.easia.columbia.edu/mongols/pop//conquests/cavalry_pop.htm>. Acesso em: 9 set. 2012.

Civilizações asiáticas Capítulo 17

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IMPÉRIO MONGOL (SÉCULO XIII) Rio Ob

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QUILÔMETROS

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Fonte: GRAND atlas historique. Paris: Larousse, 2006.

O homem que viajava

3

O Japão dos samurais

O Japão é um arquipélago formado por quatro ilhas principais e cerca de quatro mil ilhotas. Por muito tempo, esse território fragmentado esteve dividido entre diversos reinos, até que, por volta de 660 a.C., eles foram unificados por um líder chamado Jimu, que recebeu o título de imperador. Cerca de cem anos depois, o budismo teria chegado ao Japão, onde se consolidou, junto com o xintoísmo, como uma de suas principais religiões.

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avançadas, totalmente desconhecidas na Europa medieval. O livro contribuiu para estimular o comércio e a aproximação entre o Ocidente e o Oriente. Album Art/Latinstock

Marco Polo (1254-1324) nasceu em Veneza, na península Itálica. Membro de uma família de mercadores, em 1271 juntou-se ao pai, Nicolau, e partiu por uma rota terrestre em direção à China. Ali, ele permaneceu por dezessete anos, percorreu todo o Império Mongol e se tornou pessoa de confiança de Kublai Khan. Depois, viajou por outras regiões do continente asiático, como Índia, Pérsia e Ásia Menor, só retornando a Veneza em 1295, aos 41 anos de idade. Publicadas na península Itálica pelo escritor Rustichello de Pisa, as memórias de Marco Polo revelaram a existência de civilizações complexas e

Pintura chinesa do século XIV representando Kublai Khan (1215-1294), neto de Gêngis Khan, que governava a China quando lá esteve o veneziano Marco Polo.

A proteção do imperador e de seus cortesãos era garantida pelos samurais*, guerreiros que lideravam poderosos clãs provinciais. Os samurais tinham um * Leia o mangá rigoroso código de ética pau- (revista de história em tado pela coragem, honra e quadrinhos japonesa) Vagabond, de lealdade e contavam com diTakehiro Inue, Editora versos privilégios, entre os Conrad; e veja o filme quais o de receber grandes Os sete samurais, extensões de terra como pre- de Akira Kurosawa, 1954. sente do imperador.

Unidade 4 Diversidade religiosa

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Museu de Belas Artes de Boston, Massachusetts, Estados Unidos/The Bridgeman/Keystone

Pintura sobre papel representando o ataque noturno ao Palácio de Sanjo, ocorrido em 1159, do Livro Ilustrado dos Eventos da Era Heiji, período Kamakura, da segunda metade do século XIII.

Durante a dinastia Heian (794-1185), o poder imperial enfraqueceu-se gradativamente. Em 1185, o imperador concedeu a um dos chefes guerreiros*, o samurai Minamoto Yoritomo, o título

* Veja os filmes Kagemusha (1980) e Ran (1985), de Akira Kurosawa.

de xogum, que significa ‘grande general, supremo conquistador dos bárbaros’. A partir de então, o verdadeiro governante passou a ser o xogum, escolhido sempre entre os chefes guerreiros, tornando-se o imperador uma figura praticamente decorativa.

Enquanto ¡sso… Os turcos otomanos O termo turco designava originalmente diversos grupos de pastores nômades que viviam em regiões da Ásia Central – nas proximidades do atual Casaquistão – e que contavam com uma herança linguística comum. Em meados do século X, os turcos, pressionados pelo processo de expulsão de povos estrangeiros do território chinês, viram-se obrigados a sair de sua região e deslocar-se para a Ásia Menor. Aos poucos, eles começaram a se constituir em reinos independentes e, em contato com os muçulmanos, converteram-se ao islamismo.

Um desses reinos foi o dos otomanos, grupo que recebeu esse nome em homenagem a Otman I, que teria reinado entre 1281 e 1326, ano em que os turcos otomanos dominaram Bursa (na atual Turquia). De lá, expandiram seu território e, por volta de 1370, já eram uma das principais potências da região. Como veremos no capítulo 20, eles seriam um dos responsáveis pela derrocada do Império Bizantino. Adaptado de: GIORDANI, Mário Curtis. História do mundo árabe medieval. Petrópolis: Vozes, 1997. p. 136-151.

Civilizações asiáticas Capítulo 17

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Biblioteca Pública de Nova Iorque/Foto pesquisadores, Inc. Latinstock

De olho no mundo O Império Turco Otomano perdurou por vários séculos, extinguindo-se após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) para dar lugar à Turquia e a outros países. Em 2005, o governo da Turquia iniciou negociações com a União Europeia (UE) para definir seu ingresso nesse bloco econômico. Entretanto, o apoio a sua candidatura enfrenta resistências de algumas nações. Em grupos, façam uma pesquisa e elaborem um texto sobre como se encontra o processo de ingresso da Turquia na UE e as razões das dificuldades enfrentadas pelo governo turco para a aprovação de sua candidatura.

Ilustração de um manuscrito otomano do século XVI que mostra uma esfera armilar gigante (também conhecido como esférica astrolábio). Os turcos otomanos foram importantes cientistas e desenvolveram grandes avanços nos estudos da Matemática e da Astronomia.

Organizando as ideias 1. O conceito de Idade Média foi criado por pensadores humanistas no final do século XV e tinha, a princípio, uma conotação depreciativa. Explique por quê. 2. Os historiadores costumam denominar de Idade de Ouro os longos períodos de prosperidade e desenvolvimento de determinadas civilizações. No caso da China, a Idade de Ouro ocorreu entre os séculos VI e X, durante a dinastia Tang. O que justifica essa afirmação? 3. Entre os séculos VI e XIII, os chineses desenvolveram importantes conquistas tecnológicas. Relacione essas conquistas com o desenvolvimento histórico posterior no Ocidente.

Atenção: não escreva no livro. Responda sempre no caderno.

4. Depois de décadas de viagens pelo Oriente, Marco Polo retornou à Europa e, com a ajuda do escritor Rustichello de Pisa, publicou relatos dessas viagens. Qual foi o impacto provocado pela publicação de suas narrativas? 5. N  o século XIII, o Império Mongol tornou-se o mais poderoso reino de toda a Ásia, dominando um extenso território que ia do mar Negro ao mar da China. Como se formou esse império? 6. Explique a transferência de poder do imperador para os samurais durante o século XII, no Japão.

Hora DE REFLETIR Na China antiga, muitos imperadores adotaram o budismo porque acreditavam que essa religião favorecia a formação de cidadãos pacíficos. Os limites entre o poder político e a religião é um tema fundamental na formação dos Estados e nações no mundo

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contemporâneo. Em grupos, façam um debate sobre o uso da religião pelos governos atuais. Se preciso, organizem uma pesquisa prévia sobre o assunto. No final da atividade, o professor fará um roda de conversa com a classe inteira.

Unidade 4 Diversidade religiosa

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Capítulo 18

O mundo árabe-muçulmano Objetivos do capítulo Robert O'Dea/Arcaid/Corbis/Latinstock

 

Neste capítulo estudaremos como ocorreu essa unificação, cujo desdobramento mais significativo foi a formação de um império que, por volta do século VIII, se estendia da península Ibérica, na Europa, até o rio Indo, na Ásia. LatitudeStock/Alamy/Other Images

O islamismo é hoje a segunda maior religião do mundo. Com cerca de 1,3 bilhão de adeptos, ele defende a justiça e a prática da generosidade entre as pessoas. Seus seguidores são conhecidos como muçulmanos, que em árabe significa 'aqueles que se subordinam a Deus'. Essa crença religiosa foi fundada no século VII na atual Arábia Saudita pelo profeta Muhamad (Maomé) e desempenhou importante papel no processo de unificação dos diversos grupos árabes em torno de um governo centralizado.

Conhecer as origens do Império Muçulmano. Compreender a formação do islamismo e alguns de seus fundamentos. Entender o papel do islamismo no processo de unificação e expansão dos povos árabes. Compreender a formação do Império Islâmico e seus desdobramentos. Identificar o legado do mundo islâmico.

A Indonésia é o país com maior número de fiéis islâmicos do mundo. Nessa passeata, mulheres e crianças usam o hijab e túnicas brancas na comemoração do Idul Fitri, um feriado muçulmano. Foto de outubro de 2008.

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Em torno dos oásis

Por volta de 1200 a.C., os habitantes da península Arábica, cujo território é formado em sua maior parte por desertos, encontravam-se divididos em pequenas tribos. Os integrantes dessas tribos, os árabes, eram de origem semita, assim como os hebreus. Entre suas principais atividades econômicas estavam o pastoreio e o comércio. À medida que o comércio cresceu, os mercadores do sudoeste da península passaram a organizar caravanas em direção à Palestina e à Síria, mais ao norte, onde vendiam mercadorias do Oriente que chegavam pelo oceano Índico. Era uma viagem difícil, pois só havia água nos poucos oásis existentes no caminho. Sob o impulso do comércio, alguns núcleos urbanos se formaram em torno de oásis como os de Qurayya e Tayma, no noroeste da atual Arábia Saudita. De modo geral, esses centros se configuravam como cidades-Estado, pois contavam com leis e governos próprios. Pouco a pouco, alguns desses centros se enriqueceram com o comércio e se transformaram em reinos, como o de Sabá.

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Politeísmo dos árabes

Além de mercadorias, as caravanas difundiam ideias, notícias e formas de comportamento dos diversos lugares por onde passavam. Por estarem em contato constante com povos de diferentes crenças religiosas – judeus, zoroastristas e, mais tarde, cristãos –, os árabes desenvolveram um verdadeiro sincretismo religioso. Inicialmente, cultuavam diversos deuses relacionados aos astros e a fenômenos naturais. Além disso, eram animistas, ou seja, acreditavam que objetos inanimados – uma pedra, por exemplo – também tinham alma. Alguns desses objetos eram venerados em lugares de concentração de peregrinos. Um desses lugares era Meca, cidade situada em um oásis no lado ocidental da península Arábica e ponto de encontro das caravanas (veja o mapa da página 138). Além de seu intenso comércio, Meca contava com um santuário construído em formato de cubo (ka’ba, em árabe), conhecido como Caaba. Ali, as pessoas reverenciavam 360 deuses e deusas e prestavam homenagens a uma pedra negra considerada sagrada.

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Guoji Shangbao/Imaginechina/AP Photo/Glow Images

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Muçulmanos residentes na China celebram o Idul Fitri, data que marca o fim do mês sagrado do Ramadan, na cidade de Xinig, noroeste da província Qinghai, em 18 de agosto de 2012.

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Surge o islamismo

Durante certo tempo, o governo de Meca foi exercido por um conselho do clã dos coraixitas. A partir de 613, contudo, um condutor de caravanas chamado Maomé passou a proclamar preceitos religiosos diferentes dos existentes na região. Maomé afirmava haver um único Deus, que chamou de Alá, e denominava sua religião de islã, que quer dizer ‘submissão a Deus’. Para os grandes co- * Veja o filme Maomé, o mensageiro de Alá, de merciantes, o monoteísmo Moustapha Akkad, 2001. de Maomé* representava um perigo, pois podia afastar os peregrinos e dessa maneira afetar o comércio. Hostilizado por eles, em setembro de 622 (pelo calendário cristão) Maomé fugiu para a cidade de Yatrebe. Essa viagem, conhecida como hégira (emigração), marca o início do calendário da nova religião difundida por Maomé. Os seguidores do islamismo passaram a ser chamados de muçulmanos (muslim, em árabe, cujo radical linguístico é o mesmo da palavra islã).

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O islã e a jihad

Em Yatrebe, que posteriormente passou a se chamar Medina (Cidade do Profeta), surgiu a primeira comunidade regida por princípios islâmicos. Sob a liderança de Maomé, o governo da cidade se tornou teocrático: dizendo-se representante de Alá na Terra, o profeta assumiu as funções de juiz, líder espiritual, militar e administrativo.

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Reprodução/Museu Topkapi, Istambul

Além de proibir cultos politeístas na cidade, Maomé confiscou os bens de pessoas que não aderiram ao islamismo e organizou ataques às tribos vizinhas e às caravanas que cruzavam o deserto. Para justificar os ataques, afirmava que a luta contra os infiéis (pessoas que não seguiam o islã) era um “esforço em favor de Deus” – ou seja, uma jihad (veja na seção a seguir mais informações sobre a jihad, sobre Maomé e sobre os preceitos do islamismo). Aqueles que morressem em prol da fé muçulmana seriam considerados mártires e, como recompensa, conquistariam a salvação eterna no paraíso. Essa valorização da morte por meio da jihad provocou um aumento no número de pessoas dispostas a combater em nome de Alá. Os líderes tribais da região, percebendo a força miGravura turca do século XV que retrata uma aparição do anjo Gabriel a Maomé. Nela, o anjo ordena que Maomé anuncie às pessoas a mensagem de Deus.

Passado

Presente

Princípios do islamismo Ao lado do cristianismo, o islamismo é hoje a * Leia o livro Infiel única religião do mundo – A história de uma mulher que desafiou com mais de 1 bilhão de o islã, de Ayaan Hirsi fiéis. A maioria deles con- Ali, Companhia das centra-se na Ásia (70%) e Letras, 2007. na África (26%)*. Maomé é o principal profeta da crença islâmica. Ele nasceu em Meca em 570 em uma família de mercadores. Ao viajar vendendo seus produtos, entrou em contato com as duas grandes religiões monoteístas da época, o judaísmo e o cristianismo. Segundo a tradição, quando tinha 40 anos Maomé teria recebido uma mensagem do anjo Gabriel, que lhe ordenou pregar a existência de um Deus único: Alá, em árabe. Entre 610 e 632, ano de sua morte, Maomé teria recebido revelações divinas que seriam reunidas no Corão, ou Alcorão, livro sagrado do islamismo. Dividido em 114 capítulos, chamados de suras, o livro pode ser considerado um verdadeiro sistema econômico, jurídico e político dos muçulmanos. Seus 6 326 versículos contêm elementos fundamentais do judaísmo e do cristianismo, além de antigas tradições religiosas árabes. Os cinco pilares da religião muçulmana são: aceitar que há um só Deus e que seu profeta é Maomé; rezar cinco vezes por dia voltado para

Meca; ajudar os pobres; jejuar no mês sagrado do Ramadã; e peregrinar ao menos uma vez a Meca (veja o filme A grande viagem, de Ismaël Ferroukhi, 2004). Para os muçulmanos, abraçar o islã significa assumir o total compromisso de viver nos moldes prescritos no Alcorão. Trata-se de uma jihad, ou seja, de um esforço físico, moral, espiritual e intelectual em favor de Deus. De acordo com o historiador Peter Demant, o termo jihad pode significar tanto essa disciplina de transformação interior (grande jihad) como também o empenho na guerra de conversão dos não muçulmanos ao islamismo (pequena jihad). Fontes: DEMANT, Peter. O mundo muçulmano. São Paulo: Contexto, 2004. p. 24-28; BURGIERMAN, Denis Russo; CAVALCANTE, Rodrigo; VERGARA, Rodrigo. A palavra de Deus. Superinteressante, nov. 2001; ARMSTRONG, Karen. Maomé: uma biografia do profeta. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

De olho no mundo O Alcorão prescreve a * Veja o filme igualdade de direitos* enOsama, de Siddiq tre homens e mulheres. Em Barmak, 2003. grupos, façam uma pesquisa a respeito da situação da mulher nas nações islâmicas. Cada equipe deverá escolher um país diferente. Ao final, apresentem um seminário sobre o assunto.

O mundo árabe-muçulmano Capítulo 18

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litar conquistada por Maomé, uniram-se a ele, convertendo-se ao islamismo. Em janeiro de 630, Maomé, acompanhado de cerca de 10 mil seguidores, invadiu a cidade de Meca e mandou destruir todos os ídolos existentes na Caaba. Depois, declarou o santuário lugar sagrado para os muçulmanos e centro de suas peregrinações. Aproveitando a estadia na cidade, organizou várias jihads a tribos e reinos vizinhos. Com esses fundamentos religiosos, Maomé unificou as tribos da península Arábica e criou um forte sentimento de identidade entre os árabes, fazendo surgir um Estado árabe-muçulmano. Quando morreu, em 632, praticamente toda a região ocidental da península Arábica estava sob domínio da teocracia islâmica.

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tinha várias esposas). Os defensores dessa ideia ficaram conhecidos como sunitas (a palavra árabe sunni significa 'aqueles que seguem os costumes'). A outra facção entendia que o cargo deveria ser hereditário. Nesse caso, o parente muçulmano mais próximo de Maomé, seu primo e genro Ali, deveria ser também seu sucessor. Os adeptos dessa fórmula ficaram conhecidos como xiitas (do árabe shi’at Ali, ou seja, 'partido de Ali'). Ainda hoje os muçulmanos se dividem entre sunitas (84%) e xiitas (16%). Enquanto os primeiros acreditam que a autoridade espiritual pertence à comunidade islâmica como um todo, os outros afirmam que o líder da comunidade, o imã, é quem deve centralizar o poder. Os sunitas saíram vitoriosos e Abu-Bakr se tornou o novo líder islâmico. Ele recebeu o título de califa, palavra árabe que quer dizer 'sucessor'. Ao contrário de Maomé, considerado profeta pelos muçulmanos, os califas eram tidos apenas como líderes políticos e religiosos. Quando Abu-Bakr morreu, em 634, praticamente todas as tribos da península Arábica já haviam se convertido ao islamismo. Seu sucessor, Omar ibn al-Khattab, deu início à expansão para fora da península que resultou na formação de um grande império, como se pode ver no mapa a seguir.

Sunitas e xiitas

Após a morte de Maomé, os islamitas se dividiram em duas facções: uma delas achava que a escolha do sucessor deveria recair sobre o muçulmano mais qualificado para o cargo. Para essa facção, aquele que apresentava melhores condições era Abu-Bakr, um dos sogros de Maomé (assim como outros árabes, Maomé Mapa 04_m02_HSBgA – A expansão islâmica

A EXPANSÃO ISLÂMICA E U R O PA

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REINO DOS FRANCOS Poitiers (732)

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Arábia na época de Maomé (622-632) Primeiras conquistas islâmicas (até 661)

OCEANO ÍNDICO

Conquistas posteriores (até 750) Batalhas 0º

Fonte: GRAND atlas historique. Paris: Larousse, 2006.

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A dinastia Omíada (661-749)

Depois de muitas lutas pelo poder, em 661 o Império passou para as mãos da família omíada. O governo se transformou então em uma monarquia laica. Os cargos administrativos, antes preenchidos de acordo com a importância religiosa das pessoas, passaram a ser ocupados conforme critérios de competência e conhecimento. A capital foi transferida de Medina para Damasco, na Síria, e o árabe escolhido como idioma oficial do Império, tornando-se obrigatório para todas as pessoas que se convertessem ao islamismo.

Alonso de Mendoza/Acervo do fotógrafo

Em 711, os árabes conquistaram, a leste, a região do Indo – atuais Paquistão e Afeganistão – e, a oeste, a península Ibérica. Entre 749 e 750, uma guerra civil derrubou os omíadas e o Império passou para as mãos dos abássidas, dinastia apoiada pelos xiitas. Os omíadas ficaram apenas com a península Ibérica, onde criaram um califado independente em 756.

O califa tornou-se um autocrata com poderes absolutos, considerados de origem divina. Ao mesmo tempo, passou a ter a seu lado uma espécie de primeiro-ministro, o vizir, responsável pela parte administrativa do reino. Em 762, os abássidas transferiram a capital de Damasco para a recém-construída Bagdá, atual capital do Iraque.

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Saber e cultura no mundo islâmico

Nas bibliotecas públicas de Bagdá, centenas de copistas se dedicavam a traduzir para o árabe tratados de Filosofia, Ciências, Matemática e Medicina escritos em grego, latim, hindu, persa e outras línguas. Para abrigar todo esse material foi construído um complexo de museus e bibliotecas conhecido como Bait al-hikma, ou seja, A Casa da Sabedoria. Nessas condições, Bagdá passou a atrair intelectuais de diversas regiões. Uma das obras literárias mais conhecidas de todos os tempos, As mil e uma noites, foi produzida nesse império (veja a seção No mundo das letras na página 142).

Mesquita de Córdoba, na Espanha. A construção da mesquita foi iniciada em torno do século VII como igreja cristã visigótica de São Vicente e atingiu suas dimensões atuais apenas no século X. Após a chegada do Islã ao reino dos visigodos, a igreja foi, durante um tempo, frequentada por muçulmanos e cristãos.

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A dinastia abássida (749-1258)

A dinastia abássida consolidou o islamismo nas regiões conquistadas. Ao permitir que muçulmanos não árabes ocupassem cargos públicos, promoveu uma mudança na estrutura do Império, que deixou de ser um império árabe e se transformou em um império muçulmano.

Iniciada em Bagdá, essa revitalização cultural e científica se propagou por todo o mundo muçulmano. Muitos califas e mercadores ricos passaram a atuar como protetores das artes e das ciências, favorecendo avanços importantes em diversas áreas do conhecimento, como a invenção de novas técnicas agrícolas e de novos métodos para a construção de canais de irrigação.

Em contato com povos de diferentes regiões, os muçulmanos introduziram em seu território produtos como a cana-de-açúcar, o arroz, a laranja e o limão. Na Astronomia, criaram um calendário, fundaram observatórios astronômicos e incorporaram às suas navegações instrumentos como quadrantes e astrolábios. No campo da Matemática, criaram a álgebra e a trigonometria e, com base no sistema numérico dos hindus, inventaram o sistema arábico. Com os conhecimentos de Mecânica, construíram balanças de grande precisão e ergueram moinhos movidos a água. O mundo árabe-muçulmano Capítulo 18

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O mundo islâmico se divide

No século VIII, o território islâmico foi dividido em diversos califados independentes. Novas divisões ocorreram nos séculos seguintes. Dessa forma, a expressão Império Muçulmano passou a ter uma conotação mais religiosa do que política, pois designava um conjunto de reinos ligados pelo islamismo, mas que não formavam um Estado unitário e centralizado. Em 1095, a Igreja católica deu início a uma série de campanhas bélico-religiosas contra os muçulmanos com o objetivo de reconquistar Jerusalém, cidade considerada sagrada (veja o boxe a seguir). Eram as Cruzadas, que se estenderam até o século XIII, como veremos no capítulo 23.

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Em 1258, os mongóis invadiram e saquearam Bagdá. A partir de então, o imenso território sob domínio muçulmano se fragmentou por completo, originando diversos Estados muçulmanos independentes uns dos outros. Apesar disso, a unidade cultural dos muçulmanos não foi destruída, permanecendo até hoje. University Library, Istambul/The Bridgeman Art Library/Keystone

A Química foi outra área em que também se destacaram. Contando com excelentes laboratórios, fizeram diversos experimentos e descobriram novos produtos químicos, entre os quais o bórax, a amônia, o sal amoníaco, o ácido nítrico, o ácido sulfúrico e o nitrato de prata. Também inventaram o alambique e desenvolveram tintas para tingir tecidos. Seus médicos foram pioneiros na elaboração de diagnósticos que levavam em consideração o estado emocional dos pacientes e na percepção de que certas doenças, como o sarampo, são transmitidas por meio de contágio. Na arquitetura, destacam-se as mesquitas (templos religiosos muçulmanos), sustentadas por grandes colunas, com arcos em forma de ferradura e enormes cúpulas. Como a religião islâmica não permite a reprodução de seres naturais, a decoração desses locais era rica em motivos geométricos, conhecidos como arabescos.

O mundo islâmico se destacou por seus avanços em áreas do conhecimento científico, como Matemática e Astronomia. Na imagem, um grupo de astrônomos trabalha no observatório Gálata, fundado em 1557 pelo sultão muçulmano Suleiman, em gravura turca do século XVI. Suleiman, cognominado o Magnífico, governou o Império Turco Otomano entre 1520 e 1566.

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Jerusalém, uma cidade sagrada Fundada há cerca de 5 mil anos pelos jebusitas, um subgrupo dos cananeus, Jerusalém é considerada sagrada pelas três das maiores religiões monoteístas do mundo: o cristianismo, o islamismo e o judaísmo. No século XI a.C., os hebreus a conquistaram e ali o rei Salomão teria construído um grande templo em homenagem a Javé, Deus único reverenciado por seu povo. Para os cristãos, que dominaram Jerusalém entre 300 e 628, a cidade guarda a memória dos últimos dias de Jesus Cristo, pois lá ele teria sido julgado, crucificado e sepultado. Já os muçulmanos, que conquistaram a cidade em 638, acreditam que foi em Jerusalém que Maomé ascendeu aos céus. Esse fato teria ocorrido em 620 e é conhecido como Jornada Noturna. De acordo com os islamitas, Maomé encontrava-se dormindo em Medina quando o anjo Gabriel o acordou e o levou pelos ares até Jerusalém. Ali, após se encontrar com vários profetas – entre eles Moisés e Jesus –, Maomé atravessou sete céus e recebeu os ensinamentos divinos.

Diálogos

National Library of the Netherlands/Arquivo da editora

Juntamente com seu grupo de colegas, e com a ajuda do professor de Geografia, faça uma pesquisa sobre a atual Jerusalém, identificando as tensões nascidas do convívio entre judeus e palestinos. Com os dados da pesquisa, monte um painel, destacando as diferenças de concepção entre os dois povos. Num debate sobre o tema com a classe, apresente o resultado do trabalho.

Representação de Jerusalém em manuscrito de 1200. Por essa época, a Terra Santa, da qual fazia parte a cidade de Jerusalém, era palco de sangrentas disputas entre cristãos e muçulmanos (veja o capítulo 23). Assim, na parte de baixo da gravura aparecem representados cavaleiros cristãos armados e em posição de combate.

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Organizando as ideias 1. No século XII a.C., a população da península Arábica era formada por pequenas tribos independentes. Como se realizavam as atividades econômicas nessa região? 2. A  s caravanas tiveram papel fundamental no desenvolvimento da sociedade árabe. Em termos religiosos e culturais, que importância elas tiveram? 3. Em linhas gerais, como surgiu o islamismo e quais são suas principais características?  epois de conquistar Medina, Maomé liderou 4. D a ocupação da cidade de Meca, de onde havia fugido para escapar das represálias dos grandes comerciantes. Quais foram as medidas to-

madas por Maomé depois de assumir o poder em Meca? 5. Qual foi o papel da jihad no processo de ampliação do Império Islâmico? 6. De que modo a religião islâmica e a cultura árabe se fundiram num Estado árabe-muçulmano? 7. Após a morte de Maomé, os islamitas se dividiram em dois grupos, os sunitas e os xiitas. Apesar disso, constituíram um grande império. Descreva, em linhas gerais, como ocorreu a expansão do Império Islâmico entre os séculos VII e XIII. 8. E  screva um texto sobre o legado deixado pelos muçulmanos nas várias áreas do conhecimento humano.

No mundo Das letras O rompimento do contrato As mil e uma noites é um clássico da literatura árabe. Compilado provavelmente entre os séculos XIII e XVI, a obra reúne contos da tradição oral de vários povos – árabes, egípcios, persas e hindus. Suas histórias só se tornaram conhecidas no mundo ocidental no começo do século XVIII, quando foram traduzidas para o francês pelo orientalista Antoine Galland. Leia a seguir trecho de uma dessas histórias e responda ao que se pede. Meu futuro marido fez constar [no contrato de casamento] uma cláusula que me impedia de deitar os olhos sobre qualquer outra pessoa que não fosse ele. Concordei. Ele, todavia, não quis acreditar que eu manteria meu compromisso e exigiu que eu o jurasse. [...] Um dia, desejei comprar um retalho de seda e pedi a meu marido permissão para sair. Obtida a autorização, dirigi-me ao mercado de tecidos, acompanhada por uma anciã e de um eunuco. Entrei no setor de sedas. [...] Pedi à anciã que lhe rogasse [ao vendedor] nos mostrar um tecido de fabricação esmerada. — Peça você mesma — disse ela. — Não sabe que jurei a meu marido não falar com nenhum outro homem? Ela então resolveu fazer pessoalmente o pedido. [...]

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O mercador exibiu sua mercadoria, que muito nos agradou. Decidi-me por um determinado tecido, do qual desejei um retalho. Pedi ainda à anciã que perguntasse o preço. — Em pagamento desse retalho, não peço moe­ das de prata nem mesmo de ouro — respondeu o jovem. — Quero o direito de depositar um beijo no ponto culminante de sua face. — Alá me proteja de aceitar este pedido! — protestei. Mas a velha replicou: — Ó senhora minha, que há de mal nisso? Vocês não trocarão palavras, e ele só fará o que disse. Pode obedecer! Aproximei meu rosto. Então o jovem mercador mordeu-me na face e arrancou-lhe um pedaço; de imediato, caí desfalecida e assim permaneci por quase uma hora. [...] Logo à noitinha, meu marido procurou-me no quarto e perguntou: — O que aconteceu, mulher querida? — [...] De onde vem isso? [...] — É o efeito de um decreto de vida, de uma decisão do destino. Caí na armadilha que me foi preparada... E passei a murmurar palavras ininteligíveis. Ele insistia, queria conhecer a verdade. Recusei-me a esclarecer o incidente e respondi-lhe com palavras violentas.

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Sani ol-Molk/Biblioteca do Palácio de Topkapi, Istambul, Turquia

Ilustração de Mil e uma noites, de 1849-1856, mostra Sherazade e o rei da Pérsia, Xariar. O livro, uma das mais famosas obras árabes, é composto de uma coleção de contos dos séculos XIII e XIV.

Então, ele gritou uma ordem e logo três escravos negros saíram de um armário. A um sinal de meu marido arrancaram-me da cama e arrastaram-me para o centro do salão, depois de amarrarem meus braços atrás das costas. Em seguida, conforme a ordem recebida, um segurou minha cabeça; outro meus joelhos, e o terceiro desembainhou um sabre. — Ó Sadi — gritou meu marido — corte esta mulher pelo meio com um único golpe de seu sabre. Quanto a vocês dois, que cada um pegue uma metade do corpo e a jogue ao rio Tigre para servir de alimentos aos peixes. Este é o castigo a quem trai a fé jurada. As mil e uma noites. São Paulo: Brasiliense, 1998. p. 193-198. v. 2.

1. De acordo com essa passagem, o que você pode depreender a respeito do papel social da mulher na sociedade árabe daquela época? 2. Em grupos, realizem uma pesquisa sobre a situação das mulheres hoje no Brasil. Para tanto, escolham um enfoque específico: econômico, político, social, cultural, etc. Apresentem o resultado da pesquisa sob a forma de um texto coletivo.

Hora de reFletir Em 11 de setembro de 2001, extremistas muçulmanos destruíram as torres gêmeas do World Trade Center de Nova York, nos Estados Unidos. Devido a esse atentado, muitos ocidentais passaram a associar os muçulmanos ao terrorismo. Em sua

opinião, é certo acusar todos os seguidores dessa crença pelos atos de alguns deles? Escreva seus argumentos na forma de tópicos e se prepare para expor suas ideias numa roda de conversa com seus colegas de classe.

Mundo virtual 

Museu Nacional do Iraque – Passeio virtual pelo museu, com destaque também para a arte islâmica (site em inglês e italiano). Disponível em: <www.virtualmuseumiraq.cnr.it/prehome.htm>. Acesso em: 17 out. 2012. O mundo árabe-muçulmano Capítulo 18

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Capítulo 19

Os reinos africanos Objetivos do capítulo Bonhams, Londres/The Bridgeman/Keystone

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Com cerca de 8 milhões de quilômetros quadrados, o Saara, na África, é o maior deserto do mundo. Em razão de diversos fatores, como a ampliação das áreas de pastagens e a ação dos ventos, suas dimensões vêm se ampliando ano após ano. Preocupado com a situação, o governo do Senegal, juntamente com a União Africana (bloco econômico que reúne os países da África), está liderando um projeto com o objetivo de conter o avanço das areias do deserto. A campanha, lançada em 2008 e denominada Grande Muralha Verde, prevê o plantio de árvores numa faixa de terra de 7 mil quilômetros que vão do Senegal, na costa Atlântica, a Djibuti, no mar Vermelho, e passa por países como Mauritânia, Mali, Egito, Etiópia e Sudão, entre outros. A ideia é formar uma verdadeira muralha de árvores com 15 quilômetros de largura como forma de impedir a expansão do Saara e combater outros problemas ambientais que

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Abordar as sociedades que se desenvolveram na África subsaariana entre os séculos VII a.C. e XV. Conhecer aspectos culturais e religiosos dessas sociedades. Analisar as diferenças entre os povos africanos. Identificar as raízes africanas da cultura brasileira.

afetam a África, como a degradação das terras, as tempestades de areia e a falta de água. O Senegal já deu o primeiro passo, plantando árvores numa área de mais de 5 mil hectares. Em 2011, Brasil, França e diversos países africanos assinaram um acordo se comprometendo a cooperar cientificamente na execução do projeto. No passado, a região onde hoje se encontra o Senegal foi ocupada pelo reino do Mali, famoso por suas reservas de ouro. Assim como o Mali, outros reinos surgiram na África muitos séculos atrás. Vamos conhecer algumas dessas civilizações. Seyllou Diallo/Agência France-Presse

Trabalhadores do viveiro Widu, Senegal, região de Louga, que faz parte da Grande Muralha Verde (GGW). As árvores plantadas impedirão o avanço do deserto para a região abaixo do Saara. Foto de 23 de maio de 2011.

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O continente africano 20º L

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A África está dividida em duas regiões claramente delimitadas: uma, ao norte, é conhecida como África setentrional; a outra, mais ao sul, é a África subsaariana. O que separa uma da outra é o deserto do Saara, que atravessa dez países na direção leste-oeste (veja o mapa ao lado). A África setentrional foi berço de civilizações florescentes, como a dos egípcios e a dos cartagineses, abordadas, respectivamente, nos capítulos 5 e 8. Já a África subsaariana teve sua ocupação prejudicada por fatores de ordem geográfica e ambiental: solo pouco fértil, grandes extensões cobertas por florestas e a presença de agentes transmissores de doenças, como a mosca tsé-tsé e outros. A abundância de terras, aliada à baixa densidade demográfica, contribuiu para que até os primeiros séculos da Era Cristã prevalecessem ali culturas ligadas à caça e à coleta de alimentos. Paralelamente, algumas populações se sedentarizaram, constituindo sociedades que exerceriam grande influência na história do continente. O boxe abaixo explica as diferentes formas de organização das antigas sociedades africanas.

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REINOS AFRICANOS (SÉCULOS VII a.C.-XV d.C.)

Equador

OCEANO ATLÂNTICO

Reino de Axum Reino do Mali Reino de Gana

Trópico de Capricórnio

Reino Kush Reino do Manicongo OCEANO ÍNDICO

Reino do Zimbábue Rotas comerciais 0

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1490

QUILÔMETROS

Fonte: WORLD History Atlas: Mapping the Human Journey. London: Dorling Kindersley, 2005.

A organização política e social Algumas sociedades africanas formaram grandes reinos. Outras eram agrupamentos muito pequenos de pessoas que caçavam e coletavam o que a natureza oferecia, ou plantavam o suficiente para o sustento da família e do grupo. Mas todas se organizavam com base na fidelidade ao chefe e nas relações de parentesco. Para os homens africanos, quanto mais mulheres pudessem ter, mais amplos seriam os laços de solidariedade e fidelidade, pois os casamentos garantiam alianças entre os grupos. Quanto mais pessoas um chefe tivesse sob sua dependência e

proteção, mais sólida seria sua posição e maiores seu poder e seu prestígio. Nas aldeias, que eram a forma mais comum de os grupos se organizarem, havia algumas famílias, cada uma com seu chefe, sendo todos subordinados ao chefe da aldeia. Este último era o responsável pelo bem-estar de todos os que viviam na comunidade, e para isso recebia parte do que as pessoas produziam. Suas decisões eram tomadas em colaboração com outros líderes da aldeia, chefes das várias famílias que dela faziam parte. Havia assim um conselho que aju-

Os reinos africanos Capítulo 19

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Adaptado de: SOUZA, Marina de Mello e. África e Brasil africano. São Paulo: Ática, 2006. p. 31-32.

O Reino de Axum

Localizada na costa oriental do continente africano, em uma área conhecida como Chifre da África, a Etiópia é hoje uma das nações mais pobres do mundo. No passado, essa região abrigou uma das primeiras sociedades africanas a se converter ao cristianismo: o Reino de Axum. Seus primeiros habitantes eram originários do sul da península Arábica. No século VII a.C., já dominavam a agricultura e a criação de bois, ovelhas, cabras e cavalos. Provavelmente, conheciam o arado e tinham uma escrita de caracteres semíticos. Com o passar dos séculos, seus primeiros acampamentos e aldeias cresceram e se transformaram em centros comerciais. A cidade de Adúlis, no litoral do mar Vermelho, por exemplo, tornou-se um movimentado porto, no qual eram comercializados produtos da Índia, Arábia, África e até do Mediterrâneo. A cidade que mais se desenvolveu, contudo, foi Axum, no planalto etíope. No início da era cristã, Axum era o centro de um intenso comércio de marfim e outras mercadorias africanas, como plumas, obsidiana, ouro e sal. O enriquecimento propiciado por essa atividade levou a cidade a expandir-se, a conquistar territórios vizinhos e a se constituir como reino. Logo Axum controlava todo o tráfico de mercadorias do interior para o litoral do mar Vermelho e o comércio entre o vale do Nilo e Adúlis. Inicialmente, o reino ocupava cerca de 48 mil quilômetros quadrados. Com o processo de expansão, além de dominar territórios na península Arábi-

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Além das aldeias, das confederações, dos reinos e dos grupos nômades, havia sociedades organizadas em cidades, mas que não chegavam a formar um reino. Por trás de seus muros funcionavam os mercados, moravam os comerciantes e os vários chefes, que tinham diferentes atribuições e viviam em torno do rei.

Bridgeman Art Library/Keystone

dava o chefe a governar. Várias aldeias podiam estar articuladas umas às outras, formando uma confederação, que prestava obediência a um conselho de chefes. Além das confederações de aldeias, havia reinos, que eram sociedades com uma capital, na qual morava um chefe maior, com autoridade sobre todos os outros chefes. Nas capitais havia concentração de riqueza e poder, de gente, de oferta de alimentos e serviços.

O rei Salomão troca presentes com a rainha de Sabá em gravura etíope do século XX. Segundo a tradição, Salomão (966-926 a.C.) era rei de Israel quando conheceu a rainha de Sabá, cujo reino se situava em regiões da Etiópia, da Somália (no nordeste da África) e do Iêmen (na península Arábica) atuais.

ca, enfrentou e derrotou o Império Kush, na região da Núbia (veja a seção Enquanto isso... do capítulo 10). Sua prosperidade cresceu a tal ponto que, na segunda metade do século III, os axumitas começaram a cunhar moedas de ouro, prata e cobre. Até a primeira metade do século IV, a característica religiosa dominante no próspero reino do Chifre da África era o politeísmo (veja o boxe Crenças africanas). Por essa época, Ezana, um de seus reis, se converteu ao cristianismo. A partir de então, setores cada vez mais amplos da população de Axum abraçaram a fé cristã. Alguns séculos depois, os muçulmanos – que estavam em processo de expansão –, a pretexto de combater a pirataria no mar Vermelho, dominaram e destruíram o porto de Adúlis. Gradativamente, o reino de Axum se enfraqueceu até desaparecer, vítima de novas invasões muçulmanas.

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Crenças africanas

Brooklyn Museum of Art, Nova York/The Bridgeman Art Library/Keystone

Separados por fatores ambientais, como a densa floresta e o deserto do Saara, os povos africanos criaram e desenvolveram desde tempos remotos diversas crenças religiosas. Embora diferentes entre si, essas crenças tinham em comum o culto a muitos deuses. Para todos esses povos, o ser humano era parte integrante e não privilegiada da natureza, cabendo a ele, portanto, respeitar o equilíbrio ambiental. Animais, plantas, minerais tinham, quase sempre, caráter sagrado. Para o povo mandinga, habitante da região do Mali, por exemplo, existiam animais protetores, como o crocodilo,

Máscara de madeira, cabelos humanos e fibras do século XIX, pertencente à cultura Maconde, que ocupa regiões de Moçambique, no sudeste da África.

a serpente píton e a tartaruga. Já as populações que viviam no litoral da Guiné acreditavam que as árvores tinham alma: quando as cortavam, ofereciam-lhes oferendas para apaziguá-las. Embora politeístas, os povos africanos acreditavam na existência de um ser supremo, cujo nome variava de uma região para outra: Amma, Nyamê, Nzambe, Nyambê. Abaixo dele existiriam deuses menores que personificavam fenômenos da natureza e espíritos que habitavam as florestas e protegiam determinadas aldeias e clãs. Entre os iorubás, todo recém-nascido era encaminhado ao babalaô (sacerdote), que determinava a divindade que iria orientá-la ao longo da vida. Os antepassados mais antigos de um clã também poderiam ser honrados como deuses. Havia ainda uma infinidade de “gênios”, como os woklo-u, dos mandinga, que roubavam alimentos, e outros que, mediante oferendas, revelavam segredos em sonhos. O culto a essas divindades era realizado tanto em templos como em casas de família ou ao ar livre. O essencial dos ritos era o sacrifício, que transferia forças em benefício do sacrificante e do “espírito” a que se dirigia. Embora envolvessem principalmente animais, os sacrifícios podiam atingir também seres humanos. A prática da magia era muito comum. Havia a magia branca, considerada benéfica, e a magia negra, maléfica. A branca era praticada por adivinhos-curandeiros, que por meio da interpretação de sinais – como a análise das entranhas de uma ave – procuravam obter respostas para questões variadas – por exemplo, que doença atingiria uma pessoa ou se determinado empreendimento teria êxito. Já a magia negra era obra de feiticeiros e feiticeiras, marcada por rituais que incluíam sacrifícios humanos e antropofagia. Sua prática era severamente punida: depois de torturado, o feiticeiro era entregue às formigas ou queimado e lançado como pasto às hienas. Muito da arte africana está relacionado com a religião. Assim, certas esculturas eram consideradas suporte material de antepassados mortos.

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Habituados a cruzar o deserto com suas caravanas repletas de mercadorias, eles contribuiriam também para difundir o islamismo na região do Sahel, ao sul do Saara. Até o século XIV, praticamente todo o Sahel já havia entrado em contato com o islamismo e a população desses lugares, com maior ou menor intensidade, passou a seguir os preceitos do islã e a adotar hábitos e costumes das sociedades árabes. Fontes: GIORDANI, Mário Curtis. História da África anterior aos descobrimentos. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1997; PRIORE, Mary del; VENÂNCIO, Renato Pinto. Ancestrais: uma introdução à história da África atlântica. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004; LOPES, Nei. Bantos, malês e identidade negra. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.

Wallace Collection, Londres/Werner Forman Archive/Imageplus

Por meio delas, os espíritos desses antepassados ajudavam seus parentes vivos a resolver problemas do cotidiano. As máscaras também eram objetos ritualísticos, usadas por dançarinos que acabavam possuídos pelos espíritos que invocavam. O contato dos africanos com povos monoteístas contribuiu para difundir no continente religiões como o cristianismo e o islamismo. No século VI, além de Axum, alguns principados na região da Núbia eram cristãos. A partir do século VII, com as conquistas árabes, o islamismo se expandiu por todo o norte da África (releia o capítulo 18). Entre os convertidos ao novo credo estavam os tuaregues – povos nômades do Saara, responsáveis pelo comércio transaariano.

Reinos do Sahel

Costa da Guiné é o nome de uma região do oeste da África compreendida entre a atual Serra Leoa e o delta do rio Níger, na Nigéria. Ela é cortada pelo Sahel, faixa de terra intermediária entre o deserto de Saara, ao norte, e a floresta tropical úmida, ao sul. Os primeiros assentamentos ali ocorreram entre 600 a.C. e 200 a.C., junto a oásis e rios. Surgiram em seguida aldeias e cidades e o comércio se expandiu. Aos poucos, essas comunidades se tornaram mais complexas e se transformaram em Estados governados por um rei. O desenvolvimento comercial, por sua vez, permitiu que alguns desses Estados se tornassem mais ricos e poderosos e passassem a dominar seus vizinhos mais fracos, dando origem a reinos como Gana e Mali.

O ouro de Gana Localizado no extremo sul de uma importante rota de comércio transaariano, onde hoje se localiza a Mauritânia, o reino de Gana surgiu por volta do século IV e ficou conhecido em razão de sua produção de ouro. Nessa região, a extração aurífera era tão grande que, ao longo da Idade Média, Gana se tornou o principal fornecedor do metal ao mundo mediterrâneo. Esse posto só foi perdido no século XVIII, quando começou a chegar à Europa o ouro do Brasil. 148

Máscara de ouro do século XVIII, provavelmente afixada no trono do chefe de um dos Estados que formavam a Confederação Ashanti. Essa confederação, também conhecida como Império Ashanti ou Império Asante, começou a ser formada no início do século XVI. Ocupava regiões centrais de Gana e estendia-se até o Togo e a Costa do Marfim atuais. Seu território era rico em ouro.

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Bernard Foubert/Afp Photo

Ao contrário de outros impérios, o Reino de Gana não tinha fronteiras delimitadas. Para o soberano daquele povo, chamado de gana, título que deu nome ao reino, o importante não era a extensão do território, mas a quantidade de pessoas, grupos humanos, aldeias e cidades que estivessem sob seu controle, que lhe pagassem tributos e fornecessem soldados e funcionários à corte. O reino dispunha de duas capitais, distantes 10 quilômetros uma da outra. Em uma delas, provavelmente Koumbi Saleh, no sudeste da Mauritânia, ficavam os mercadores muçulmanos do norte da África; na outra – ainda não encontrada pelos arqueólogos –, viviam o rei e sua corte. Segundo relatos de viajantes do século XI, o ouro aparecia com abundância nas pulseiras e colares do gana, nas espadas e escudos dos soldados e até nas coleiras dos cães de guarda do palácio real. No início do século XII, fatores como a desertificação do Sahel, consequência da prática intensiva do pastoreio, e o surgimento de novas zonas auríferas fora do domínio de Gana contribuíram para o enfraquecimento do reino, que acabou conquistado por outros povos africanos.

Um grupo de crianças muçulmanas estuda o Corão diante da mesquita Djenne, no Mali, em foto de fevereiro de 2008.

Mali: um reino muçulmano Na época em que Gana perdia sua influência sobre a África ocidental, começava a ganhar importância um novo reino: o Mali. Até o século XII, essa região, habitada pelo povo mandinga, permaneceu vassala de Gana. Por volta de 1230, um guerreiro conhecido como Sundiata Keita reuniu sob seu co* Leia o livro Amkoullel, o menino mando diversos clãs vifula, de Amadou zinhos e se estabeleceu Hampâté Bá, Editora como soberano do Mali*, Casa das Áfricas/ Palas Athena. adotando o título de mansa (rei). Ao expandir seu território, o Mali passou a dominar áreas que iam desde o Atlântico, onde hoje ficam Senegal e Gâmbia, até o rio Níger. Controlava, assim, grandes jazidas de ouro e importantes rotas transaarianas de comércio. Seguidores do islamismo, os soberanos do Mali costumavam fazer peregrinações a Meca, cidade sagrada dos muçulmanos. Graças a uma dessas via-

gens, organizada em 1324 pelo mansa Kankan Musa, a fama do reino ultrapassou os limites da África e chegou ao Oriente Médio e à Europa. Segundo alguns relatos, em sua peregrinação Musa levou consigo milhares de pessoas, entre cortesãos, soldados e escravos, além de cem camelos carregados de ouro. De passagem pelo Egito, o mansa distribuiu parte da riqueza que levava, entre presentes e esmolas. Visando difundir ainda mais o islamismo no Mali, o mansa trouxe consigo do Oriente Próximo sábios e arquitetos encarregados de construir novas mesquitas em seu reino. Assim, a cidade de Tombuctu acabou se transformando em um famoso centro de estudos islâmicos e muitos estrangeiros se mudaram para lá (reveja o mapa da página 145). Após a morte do mansa Musa, em 1337, o reino sofreu invasões e entrou pouco a pouco em declínio. Quando os portugueses ali chegaram, no final do século XV, o Mali em nada lembrava a importância que tivera no passado. Os reinos africanos Capítulo 19

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A civilização iorubá

Coleção particular/The Bridgeman/Keystone

O termo iorubá refere-se a um conjunto de povos unidos por laços linguísticos e culturais, como os efãs, ijexás, egbás, entre outros, instalados desde tempos remotos na África subsaariana – mais exatamente, na confluência entre a zona da floresta e a bacia do rio Níger. Foi nessa região que os iorubás criaram uma civilização caracterizada pela articulação de diversas cidades e aldeias independentes. Cada uma delas era um reino, com seu próprio obá (chefe) e sua autonomia, suas tradições religiosas e seu estilo artístico. Algumas delas chegavam a contar com mais de 20 mil habitantes. A mais importante chamava-se Ilê Ifé. Embora não fosse um reino único, centralizado, os habitantes desse complexo de cidades e aldeias estavam unidos pela crença de que todos tinham uma mesma origem divina. Segundo a tradição oral, o deus supremo Olorum (ou Olodumaré) havia ordenado a Orixalá (ou Obatalá) que desces-

se do céu para criar o mundo em Ilê Ifé, mas, como Orixalá demorara-se demais na tarefa, seu irmão mais novo, Oduduá, concluíra a missão. Há evidências arqueológicas de que os ancestrais dos iorubás já viviam nessa região, que hoje compreende o sudoeste da Nigéria e a divisa entre o Benin e Togo, desde a chamada “Pré-História”. As cidades iorubás contavam com grandes centros de artesanato, onde trabalhavam tecelões, marceneiros, oleiros, ferreiros, etc. Por séculos, seus habitantes controlaram importantes rotas de comércio entre o litoral e o interior do continente africano. Conhecedores da metalurgia, os iorubás utilizavam metais não só para fabricar ferramentas e instrumentos de uso diário, mas também obras mais elaboradas, como a peça que se encontra na foto desta página.

Ilê Ifé, uma cidade sagrada O centro da civilização iorubá era Ilê Ifé, cujas origens remontam ao século VI. Nela vivia o obá mais poderoso da região. Também chamado de oni, ele era chefe religioso e governante. Residia em uma grande construção fortificada juntamente com suas diversas mulheres e filhos, conselheiros e escravos. Outras importantes cidades iorubás eram Oyó e Benin. Escolhida por Olorum para ser o berço da humanidade, segundo a mitologia iorubá, Ilê Ifé era reconhecida por esse conjunto de povos como a cidade mais sagrada e a mais elevada na hierarquia.

A origem divina dos obás

Representação iorubá de três funcionários do tribunal, em bronze, do século XVI, encontrado no Benin.

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Os obás eram considerados descendentes de Oduduá, sendo-lhes atribuída assim uma origem divina. Como símbolo do poder, eles tinham o privilégio de usar o adé, uma coroa em forma de cone com fios de contas que cobriam todo o rosto, e o bastão cerimonial, também coberto por fios de contas. De modo geral, os obás governavam com o auxílio de um conselho formado pelos chefes das principais famílias e por representantes de mercadores. A comunidade, no entanto, tinha o poder de convidar um obá a abdicar do cargo caso ele demonstrasse tendências autoritárias ou se mostrasse incompetente para a função.

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Dan Kitwood/Getty Images

No final do século XVIII, depois de conflitos, guerras e derrotas, muitos iorubás foram levados como escravos para as Américas, principalmente para a Bahia (onde eram chamados de nagôs) e para Cuba. Em ambos os lugares, sua cultura e religião, mescladas a outras influências, mantêm-se vivas até hoje (veja o boxe Os iorubás no Brasil, abaixo).

Um “Egungun” durante uma cerimônia Voodoo em 11 de janeiro de 2012, em Ouidah, Benin. O Egungun são dançarinos mascarados que representam os espíritos ancestrais iorubás e acredita-se que visitam a terra para dar orientação aos vivos. Ouidah é o coração da prática voodoo no Benin e foi concebida como berço espiritual do vodu, ou Vodun, como conhecido no Benin.

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Os bantos

A expressão bantos designa diversos povos africanos cujas línguas têm uma origem comum. O termo, portanto, tem conotação linguística, não étnica. Segundo especialistas, os bantos seriam originários das terras localizadas na atual fronteira entre Camarões e Nigéria. No fim do século XIII, esses povos ocupavam cerca de dois terços do continente africano, distribuindo-se por uma faixa de terra que vai da África do Sul até um pouco acima da linha do equador. Além de viverem da caça, da pesca e da coleta de alimentos, domesticavam animais e praticavam a chamada agricultura de coivara (técnica que consiste em limpar o terreno por meio do fogo). Tão logo esgotavam-se os recursos do solo onde se encontravam, eles se mudavam para outra região, em busca de melhores locais para plantio. Com essas andanças, os bantos povoaram áreas muito extensas do continente africano. Em certos lugares, permaneceram organizados em comunidades independentes. Em outros, estabeleceram Estados de certa importância. Um deles foi o chamado Grande Zimbábue, surgido por volta de 1300, na área hoje pertencente ao Zimbábue. Ali, eles se tornaram artesãos, pastores, agricultores e comerciantes, que levavam da região ouro e marfim para vender na costa oriental do continente. Outro reino de destaque surgiu no início do século XV na atual região do Congo: o Manicongo. Era organizado em províncias e chegou a controlar outros povos. Durante os períodos colonial e imperial (1500-1889), milhões de bantos foram trazidos como escravos para o Brasil. Assim como ocorreu com a cultura iorubá, muitas características da cultura banta encontram-se na base da cultura brasileira. Congadas, maracatus, jongos, sambas de umbigada, lundus, simpatias, mezinhas, rezas, diversas palavras e ritmos são algumas dessas manifestações culturais.

Os iorubás no Brasil Trazidos para o Brasil como escravos durante vários séculos, os iorubás deixaram profundas marcas na cultura e na sociedade brasileira. Por influência sua, ainda hoje se pratica o culto aos orixás do candomblé, como Xangô (deus dos tro-

vões e dos raios) e Iemanjá (deusa do mar). Também eles foram responsáveis pela introdução de instrumentos musicais como o atabaque e o agogô. Na culinária, introduziram pratos como o vatapá e o acarajé, entre outros.

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Enquanto ¡sso… No século XIV, na mesma época em que alguns reinos se estabeleciam na África, um viajante percorria o continente disposto a conhecer terras novas. Era o marroquino Ibn Battuta, considerado o maior viajante árabe de seu tempo. Nascido em 1304, aos 25 anos ele fez uma peregrinação a Meca. De lá, iniciou um périplo pelo mundo que só terminou 29 anos mais tarde. Em suas viagens, Battuta passou pelo Oriente Médio, China, Índia e África, tendo percorrido mais de 180 mil quilômetros. Ao morrer, em 1369, deixou como legado relatos de viagem ditados a um jovem escritor. Hoje, essas narrativas tornaram-se uma importante fonte de informações a respeito dos povos e lugares que conheceu. Em sua homenagem, uma das crateras da Lua recebeu o nome de Ibn Battuta.

The Granger Collection, Nova Iorque, Estados Unidos/Other Images

Ibn Battuta, um andarilho

Gravura do século XIX retrata mágicos chineses, como descrito por viajante árabe do século XIV, Ibn Battuta. Um homem escala uma corda para o céu. À esquerda estão desconectadas partes de seu corpo que foram colocadas juntas novamente e o homem volta à vida.

Organizando as ideias 1. Por muito tempo, as condições ambientais da África subsaariana dificultaram a fixação de grupos humanos, o desenvolvimento de cidades e o aparecimento de civilizações mais complexas. Que condições eram essas? 2. Os povos africanos criaram diversas formas de organização social e política ao longo de sua história. Havia povos organizados em pequenas aldeias e grupos nômades, em reinos, em confederações ou em cidades. Quais eram os elementos comuns que mantinham a identidade e a coesão dessas formas de organização? 3. O reino de Axum surgiu na costa oriental do continente africano. Escreva um pequeno texto sobre o desenvolvimento desse reino.

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4. Descreva, em linhas gerais, as características do Reino de Gana e do Reino do Mali. 5. Sob a influência de diferentes fatores ambientais, econômicos, políticos e sociais, constituíram-se diversas religiões no continente africano antes do advento do cristianismo e do islamismo. Indique pelo menos dois elementos comuns a essas religiões. 6. Os iorubás desempenharam papel significativo na formação da cultura brasileira por meio de elementos religiosos, musicais e culinários, entre outros. Faça uma síntese das principais características da civilização iorubá. 7. Quem eram os bantos e como se realizou a expansão desse povo pelo continente africano?

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No mundo Das letras Lendas angolanas As narrativas transmitidas oralmente são uma das tradições culturais mais fortes na África. Mitos, lendas, acontecimentos históricos e costumes milenares são transmitidos de uma geração a outra por meio da oralidade. Assim, os contadores de histórias estão entre as figuras mais prestigiadas em diversas regiões do continente. Chamados de griôs na África ocidental, eles percorrem as comunidades contando e cantando poemas épicos, fatos da história de seu povo, batalhas, genealogias, etc. As duas histórias que você vai ler agora são contos tradicionais de Angola que foram compilados e reunidos em livros pelo estudioso da literatura oral africana, o suíço Héli Chatelain. Leia os textos e responda ao que se pede.

O esquilo e a realeza Uma vez prometeram ao esquilo a realeza e ele respondeu: — Que seja hoje mesmo. — Estamos à procura da insígnia. — De qualquer forma, desde que seja imediatamente. Como represália, as pessoas decidiram: — Quem não pode esperar pela insígnia para ser proclamado rei, também não será capaz de governar condignamente o povo. Portanto, não o queremos! Pelo que ficou dito prova-se que a expressão imediatamente privou o esquilo de ser rei.

O cão e a realeza Uma vez resolveram dar ao cão o privilégio da realeza e pensaram em todas as insígnias: a coroa, o bastão, os anéis, a pele de mukaka, etc. Quando já estava tudo pronto marcaram o dia da coroação. Não faltaram as festas com tocadores de tambor e marimba e uma infinidade de pessoas de categoria. Para o soberano se sentar ofereceram-lhe amavelmente tapetes e esteiras. Depois, principiaram a distribuir as insígnias. Nessa altura, o cão avistou um peito de galinha. Com sofreguidão agarrou-o e correu para o mato. A multidão comentou o fato e se dispersou. O roubo praticado pelo cão fê-lo perder a realeza. In: CHATELAIN, Héli (Org.). Contos populares de Angola. Lisboa: Edição Agência-Geral Ultramar, 1964. p. 401-403.

1. Os dois contos revelam algumas diretrizes que deveriam nortear os procedimentos de um bom rei africano. Que diretrizes seriam essas? 2. Em sua opinião, que valores são necessários para caracterizar um bom governante? Faça uma lista desses valores, juntamente com argumentos que justificam a escolha. Em seguida, compare a sua lista com a de seus colegas. 3. Baseado nesses modelos, elabore um pequeno conto no qual um ou mais valores listados por você fiquem evidenciados. Em seguida, leia seu conto para a classe.

Hora DE REFLETIR Assim como Marco Polo, mercador veneziano que percorreu a China e outras regiões do Oriente a partir de 1271 (releia o capítulo 17), Ibn Battuta foi um grande viajante. Em sua opinião, de que modo a ação dos viajantes pode contribuir para que haja

mais tolerância religiosa, política e cultural entre os povos? Individualmente, escreva dois argumentos. Depois, apresente-os à classe. E coletivamente, elaborem um documento enumerando todos os argumentos apresentados pelos colegas.

Mundo virtual nn

Casa das Áfricas – Site do instituto cultural voltado para o estudo das sociedades africanas. Disponível em: <www.casadasafricas.org.br/>. Acesso em: 17 out. 2012. Os reinos africanos Capítulo 19

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Capítulo 20

O Império Bizantino Objetivos do capítulo Richard T. Nowitz/Corbis/Latinstock

aproximadamente mil anos e se caracterizou pela estreita união entre o Estado e a Igreja e por unir em seu vasto território povos de culturas bem diversas.

Homeros/Shutterstock/Glow Images

Com cerca de 9 milhões de habitantes, Istambul está situada na parte europeia da Turquia, às margens do estreito de Bósforo, entre o mar Negro e o mar Egeu. Herdeira de várias culturas, é um verdadeiro ponto de encontro entre o Oriente e o Ocidente. Antes de ser tomada pelos turcos em 1453 ela se chamava Constantinopla e era sede do antigo Império Romano do Oriente, ou Império Bizantino. Como veremos neste capítulo, o Império Bizantino perdurou por

Explicar o processo de formação e desagregação do Império Bizantino. Analisar aspectos da organização social e política do Império Bizantino. Conhecer características da cultura bizantina e a influência do cristianismo na vida dessa sociedade.

Vista da cidade de Istambul, na Turquia, tendo ao fundo a Basílica de Santa Sofia. Fundada em 330, Istambul foi a capital do Império Bizantino. Na época chamava-se Constantinopla, em homenagem ao imperador Constantino, que mandou construí-la. Foto de julho de 2012.

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Império dividido

Como vimos na unidade anterior, a partir do final do século II, o Império Romano foi abalado por guerras civis, disputas internas pelo poder e invasões estrangeiras, entre outros fatores de desagregação. Tentando controlar a crise, em 395 o imperador Teodósio dividiu o Império entre seus dois filhos, Honório e Arcádio. Honório assumiu o Império Romano do Ocidente, cuja capital ficava em Milão. A Arcádio coube o Império Romano do Oriente, sediado em Constantinopla (reveja o mapa da página 123). Este último também ficou conhecido como Império Bizantino, pois sua capital havia sido erguida no lugar da antiga cidade grega de Bizâncio.

A capital de Constantino

Ancient Art Architecture Collection Ltda, Londres/Topfoto/Keystone

Concebida para ser capital do Império Romano, originalmente ela deveria se chamar Nova Roma, mas sua população consagrou o nome com que passaria à História: Constantinopla. Inaugurada em maio de 330, ela foi construída por ordem do imperador Constantino no estreito de Bósforo, a meio caminho entre o Oriente e o Ocidente, no cruzamento de importantes rotas comerciais.

Constantinopla (Istambul) em representação artística do século XVI.

Constantino importou pinturas e esculturas de diversas partes do mundo, com as quais seus artistas decoraram construções públicas, praças e museus. Pergaminhos e outros documentos pertencentes a acervos gregos foram incorporados às bibliotecas e

escolas, que passaram a reunir tesouros do pensamento e da literatura da Antiguidade. Devido ao grande número de pessoas de diversas origens que nela se instalaram, Constantinopla logo se transformou em uma cidade cosmopolita, sofrendo influência tanto de povos ocidentais como orientais. Em seu período áureo, no século VI, chegou a contar com mais de um milhão de habitantes.

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O poder do basileu

Morto Teodósio em 395, os dois impérios teriam destinos completamente diferentes. Enquanto o do Ocidente se esfacelava sob o impacto das invasões germânicas (reveja o capítulo 16), o Império do Oriente se consolidava como uma das principais potências da Ásia e do mundo mediterrâneo. Do ponto de vista de sua organização política, o Império Bizantino assumiu a forma de autocracia absoluta. O imperador, chamado de basileu (rei), controlava a legislação, podia nomear ou demitir quem quisesse e era o comandante das forças militares. Além disso, era também o chefe da Igreja, e como tal convocava concílios, nomeava bispos e promulgava regras e disposições religiosas. Considerado pessoa sagrada e vice-rei de Deus na Terra, o poder do basileu era tão grande que até a arte estava a serviço de sua autoridade. Assim, ao exaltar o Estado os artistas glorificavam também o Deus cristão, como você vai ver no item 5, A arte bizantina. A sociedade bizantina era fortemente hierarquizada (veja a seção Olho vivo). Em seu topo estavam o imperador e sua família. Em torno deles encontravam-se a nobreza urbana – composta de comerciantes, donos de oficinas, banqueiros, altos funcionários públicos – e a rural, constituída pelos grandes proprietários de terras. Na base da sociedade ficavam os trabalhadores livres, abaixo dos quais estavam os servos presos à terra e os escravos.

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O governo de Justiniano

Desde a queda do último imperador romano do Ocidente em 476, sob a ação dos povos germânicos, os bizantinos acalentavam o desejo de reconstruir o Império Romano. Essa aspiração ganhou força a partir de 527, com a chegada ao trono do imperador Justiniano e de sua mulher, a imperatriz Teodora (veja a seção Olho vivo, nas páginas 156 e 157). O Império Bizantino Capítulo 20

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Olho vivo

A imperatriz Teodora

O mosaico desta seção, A imperatriz Teodora e seu séquito, de autor anônimo, exibe uma das poucas imagens conhecidas da imperatriz Teodora (c. 500-548). Ele se encontra na Igreja de São Vitale, em Ravena, na Itália, e foi concluído em 547 d.C., um ano antes da morte da imperatriz. Com cerca de 47 anos à época, Teodora estava casada com o imperador Justiniano havia mais de vinte anos.

A rainha veste as insígnias reais: o diadema de pedras preciosas, o toucado com joias e o manto de seda de cor púrpura sobre os ombros. O uso da cor púrpura era reservado a poucas pessoas do Império.

O eunuco Narsés era funcionário de confiança da imperatriz.

O tablion (pedaço de pano em forma de losango pregado sobre a roupa) na cor púrpura é outro sinal de que essas pessoas eram altos funcionários do Império.

O cinturão indica que ambos são dignitários, ou seja, altos funcionários do Império.

As túnicas curtas foram introduzidas no Império Bizantino durante o governo de Justiniano.

A dalmática (tipo de manto) era usada sobre as túnicas pelos representantes das camadas mais elevadas da sociedade bizantina. As demais pessoas as usavam apenas em ocasiões especiais.

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Quando os dois se conheceram, Teodora era atriz e dançarina de circo. Por essa razão, ao se tornar imperatriz, em 527, sofreu grande preconceito por parte da aristocracia bizantina. No mosaico, contudo, ela é representada de forma respeitosa. Ao retratá-la, o artista anônimo imprimiu à sua imagem uma conotação sagrada, como veremos a seguir.

A auréola em torno da cabeça denota o caráter sagrado da imperatriz Teodora.

Antonina, amiga da imperatriz e administradora do palácio.

As estolas eram uma peça comum do vestuário feminino da época.

Joanina, filha de Antonina.

A cor púrpura do manto indica a proximidade de Antonina com a realeza.

Aqui estão bordados os três reis magos com suas oferendas.

Fonte: HAGEN, Rose Marie; HAGEN, Rainer. Los secretos de las obras de arte. Tomo I. Madrid: Taschen, 2005.

Os sapatos brancos e pretos compunham o uniforme dos dignitários. Eram entregues pelo próprio imperador juntamente com o certificado de nomeação para o cargo.

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Em 533, depois de fortificar suas próprias fronteiras e reequipar o exército, Justiniano se lançou à conquista do norte da África. Vitoriosas, logo depois suas tropas ocuparam a península Itálica. Em 550, finalmente, o exército bizantino penetrou na península Ibérica, conquistando o sul da região, após quatro anos de batalhas (veja o mapa a seguir). Juntamente com esse esforço de restauração do antigo Império Romano, o governo de Justiniano dedicou-se também a sistematizar um de seus maiores legados, o Direito Romano. Dez juristas transformaram em código os principais preceitos legais do Direito Romano que regulavam a vida na sociedade bizantina. Dado a conhecer em 529, o trabalho recebeu o nome de Código de Justiniano. Posteriormente, outras leis foram reunidas no Digesto, publicado em 533. Além disso, o governo de Justiniano reformou as escolas de Direito e produziu um manual para estudantes sobre a legislação bizantina. Esse trabalho constituiu por séculos a base do Direito europeu e é, ainda hoje, o fundamento de muitas leis no mundo ocidental.

Um longo declínio

Morto Justiniano em 565, seus sucessores não conseguiram manter a unidade do Império. Entre os séculos VII e VIII, o Império Bizantino perdeu territórios para outros povos. Em seguida, também a Palestina, a Pérsia, o Egito – e, em 711, a península Ibérica – passaram do domínio bizantino para o controle do islã. Nos séculos seguintes o Império sofreu crises internas, revoltas e conflitos religiosos. Em 1204, uma cruzada organizada por venezianos que seguia em direção a Jerusalém mudou de rumo e invadiu Constantinopla (sobre as Cruzadas, veja o capítulo 23). Tesouros, obras de arte e livros, preservados por vários séculos, foram destruídos ou saqueados. A capital bizantina foi incendiada e não conseguiu mais se recuperar. Em 1453, após sete semanas de resistência, Constantinopla sucumbiu ao ataque dos turcos otomanos chefiados por Maomé II. O episódio marcou não apenas a queda do Império Bizantino, mas também o término do período que a historiografia convencionou chamar de Idade Média.

O IMPÉRIO BIZANTINO SOB JUSTINIANO OCEANO ATLÂNTICO

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Fonte: GRAND atlas historique. Paris: Larousse, 2006.

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A arte bizantina

A arte bizantina é uma síntese do cristinianismo, do helenismo e do orientalismo. Ao lado de seu caráter fortemente cristão, ostenta um ar majestoso que exprime poder e riqueza. A majestuosidade da arte bizantina pode ser observada tanto na arquitetura como nas pinturas e nos mosaicos que decoram o interior das igrejas. O mosaico – técnica que consiste na colocação, lado a lado, de pequenos pedaços de pedra de cores diferentes sobre uma superfície de gesso ou argamassa, formando imagens – foi a forma de expressão preferida dos artistas do Império Bizantino. Paralelamente, monges bizantinos inventavam os ícones, pinturas que representavam figuras sagradas do cristianismo, frequentemente decoradas com joias e pedras preciosas, e veneradas nas igrejas e oratórios familiares. Em 726, o imperador Leão III, preocupado com o excesso de poder conquistado pelos monges, mandou destruir os ícones, fato que provocou uma guerra civil. Foi a chamada Questão iconoclasta, que só terminou em 843, quando a adoração aos ícones voltou a ser permitida.

Artur Bogacki/Alamy/Other Images

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Na arquitetura, a obra mais destacada é a igreja de Santa Sofia. Inaugurado em 537, o templo foi construído em cinco anos por 10 mil trabalhadores (veja a foto abaixo). Após a queda de Constantinopla, em 1453, os turcos otomanos a transformaram em mesquita (templo muçulmano).

Igreja de Santa Sofia. Monumento arquitetônico mais famoso do Império Bizantino, a igreja foi inaugurada em Constantinopla em 537 d.C. Com a queda da cidade em 1453, foi convertida em mesquita. Por essa época, foram-lhe acrescentadas as quatro torres pontiagudas, conhecidas como minaretes. Em 1934, foi transformada em museu. Foto de junho de 2011.

Tibor Bognar/AFP Photo

Enquanto ¡sso... A Rússia e o cristianismo No século IX, os rus, povo originário da Escandinávia, estabeleceram-se no território que hoje corresponde à Federação Russa, onde fundaram diversos povoados. Em 882, os dois povoados mais importantes, Kiev e Novgorod, passaram a ser governados por um único líder, Oleg, que consolidou assim o reino dos rus. Pouco mais de cem anos depois, em 989, Vladimir, soberano desse povo, casou-se com a princesa Ana, irmã de Basílio II, imperador do Império Bizantino, e se convertou ao cristianismo. Vladimir mandou destruir estátuas e templos não cristãos em seu território e ordenou a construção de igrejas. A partir dessa época, a religião cristã se constituiu em fator importante no processo de unificação da Rússia (nome derivado de rus). Kiev – atual capital da Ucrânia – se tornou então o grande centro cristão do Leste Europeu.

Catedral de São Basílio em Moscou, na Rússia, em foto de dezembro de 2008. Templo da Igreja ortodoxa, ou Igreja Cristã do Oriente, reflete em suas linhas arquitetônicas a influência da arte bizantina na Rússia.

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Organizando as ideias 1. O Império Romano do Oriente foi resultado de uma divisão em duas partes do Império Romano estabelecida em 395 pelo imperador Teodósio. O que motivou essa decisão de Teodósio?

4. Aponte as características fundamentais da arte bizantina, levando em conta seu caráter de arte a serviço da Igreja e do Estado. 5. Faça um esquema mostrando como estava organizada a sociedade bizantina.

2. Com base na observação do mapa O Império Bizantino sob Justiniano (p. 158) e na leitura do item A capital de Constantino (p. 155), explique a relação entre a posição geográfica de Constantinopla e seu papel no mundo antigo.

6. Como ocorreu a expansão do Império Bizantino e qual foi o papel de Justiniano nessa expansão? 7. A partir da morte de Justiniano, em 565, iniciou-se um longo declínio do Império Bizantino. Indique os acontecimentos históricos que provocaram a queda do Império e de Constantinopla.

3. Escreva um texto sobre as origens políticas do Império Bizantino, explicando o que era uma autocracia absoluta.

Interpretando DOCUMENTOS 1. Com base na interpretação da imagem da seção Olho vivo (p. 156-157), descreva os personagens representados no mosaico desta seção. Se possível identifique os objetos retratados e as funções que exerciam na corte. Faça a descrição da esquerda para a direita.

Igreja de São Vitale, Ravena/Arquivo da editora

O mosaico reproduzido a seguir é conhecido como O imperador Justiniano e sua corte. Assim como o das páginas 156 e 157, ele também se encontra na Igreja de São Vitale, em Ravena, na Itália atual, e foi concluído em 547 d.C., poucos anos depois de o Império Bizantino ter conquistado a região até então controlada pelos ostrogodos. Observe-o e responda ao que se pede.

2. Como vimos neste capítulo, o imperador bizantino era considerado um homem sagrado, detentor do poder político e religioso atribuído a ele por Deus. Que aspecto da pintura representa essa divindade do imperador? 3. Além do imperador, que outra figura representada no mosaico parece ter mais destaque do que as demais? Que aspectos do mosaico sugerem esse destaque?

O imperador Justiniano e sua corte, mosaico bizantino concluído provavelmente em 547 d.C.

Hora DE REFLETIR Na batalha que provocou a queda de Constantinopla, o receio do imperador bizantino era cair nas mãos dos “infiéis”, isto é, dos turcos otomanos. Os muçulmanos, por sua vez, também denominavam de “infiéis” todos os não adeptos de sua crença. Esse modo de tratar outras religiões contribui para aumentar a intolerância,

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pois desqualifica a fé dos outros povos e considera apenas a sua própria religião como verdadeira. Em sua opinião, existem atualmente manifestações de intolerância religiosa desse tipo? Reflita e faça um levantamento de alguns exemplos. Depois apresente-os à classe em um debate sobre o tema.

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Capítulo 21

Os primeiros reinos medievais Objetivos do capítulo Gianni Dagli Orti/Corbis/Latinstock

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ameaçados pelos muçulmanos. De fato, como vimos no capítulo 18, desde 711 os muçulmanos eram senhores não só do norte da África, mas também da península Ibérica. Neste capítulo estudaremos os reinos surgidos na Europa após a queda do Império Romano do Ocidente e como o Reino Franco se transformou no Império Carolíngio.

Thomaz Vita Neto/Pulsar Imagens

A cavalhada é um folguedo de origem cristã bastante popular no Brasil. Entre as mais tradicionais estão a da cidade de Pirenópolis, em Goiás, e a de São Luís do Paraitinga, em São Paulo. Nesse folguedo, dois grupos de cavaleiros armados de lanças e espadas simulam um combate. Os cavaleiros de azul representam os cristãos e os de vermelho, os muçulmanos, também chamados de mouros. O enredo da cavalhada baseia-se nas histórias e lendas em torno da figura do rei cristão Carlos Magno. No século IX, ele controlava um império que ocupava boa parte da Europa ocidental: o Império Carolíngio. O Império Carolíngio se formou em uma época em que muitos europeus se sentiam

Explicar a formação dos reinos germânicos na Europa após as invasões. Entender o fortalecimento da Igreja católica. Abordar as origens e a organização do Império Carolíngio. Conhecer o processo de integração de tradições germânicas e romanas que definiu algumas características das sociedades feudais.

Mascarados no dia da abertura das Cavalhadas de Pirenópolis, Goiás. Os mascarados representam o povo e saem às ruas com roupas coloridas. A encenação da luta de cristãos e mouros dura três dias. Foto de maio de 2012.

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dade: uma aristocracia rural formada pelos grandes proprietários e o campesinato, completamente dependente dos donos de terra.

os reinos germânicos

Como vimos no capítulo 16, entre os diversos fatores que contribuíram para a desagregação do Império Romano do Ocidente, um dos mais importantes foi a invasão de seu território por povos vindos do exterior. Entre esses povos, os que conquistaram a maior parte do Império foram os germanos. Os germanos eram um aglomerado de povos – visigodos, ostrogodos, burgúndios, anglos, saxões, francos, hérulos, vândalos e outros – com crenças, idiomas, valores culturais e formas de organização política variadas. De sua miscigenação cultural com os romanos surgiu um novo tipo de sociedade que se tornaria a base dos atuais povos europeus. Após terem contribuído para a desintegração do Império Romano, os povos germânicos criaram diversos reinos, a maioria dos quais de curta duração. O mapa a seguir mostra alguns dos mais duradouros. Segundo o historiador inglês Perry Anderson, em termos político-administrativos ocorreu nesses novos reinos um lento processo de integração de elementos romanos e germânicos. Em termos sociais, esse processo resultou na formação de dois grupos bem diferenciados e sobre os quais se estruturou a socie-

Relações de dependência Os soberanos germânicos consideravam seus reinos como propriedade pessoal. Por isso, sentiam-se no direito de reparti-los entre os filhos ou doar extensões de terras a pessoas que lhes prestavam serviços importantes. Para manter seus povos unidos em torno de sua autoridade, procuravam mobilizá-los em constantes campanhas militares. As guerras, por sua vez, permitiam que os nobres mais poderosos organizassem seus próprios exércitos. Para tanto, recrutavam guerreiros aos quais ofereciam um soldo ou a garantia de subsistência. Em troca de proteção, muitos guerreiros doavam suas pequenas propriedades a um chefe poderoso, que lhes assegurava o direito de continuar trabalhando em suas antigas terras. Embora livres, essas pessoas tornavam-se dependentes dos senhores aos quais se ligavam, de modo que a linha que separava a servidão da liberdade passou a ser muito tênue. Aos poucos, o poder desses nobres cresceu em detrimento do poder real.

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Fonte: GRAND atlas historique. Paris: Larousse, 2006.

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No século VI, um surto de peste bubônica – doença transmitida pela pulga dos ratos – assolou a Europa, reduzindo drasticamente sua população. Assustadas, muitas pessoas abandonaram as cidades, onde os índices de mortalidade eram maiores, e se estabeleceram nos campos. Abandonadas e em ruínas, embora nunca totalmente despovoadas, para as cidades passaram a afluir ocasionalmente comerciantes e peregrinos durante festas religiosas. Com a ruralização, o comércio declinou.

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Fuga para o campo

a Igreja se fortalece

Nesse cenário de enfraquecimento do poder real diante do fortalecimento da nobreza rural, desaparecimento de reinos, queda do comércio e ruralização da sociedade, uma instituição conseguiu superar as adversidades e permanecer unida: a Igreja católica. Religião oficial do Império Romano do Ocidente desde 380, o cristianismo foi pouco a pouco adotado também pelos reinos germânicos surgidos na Europa ocidental a partir do século V. Nesse processo, a Igreja passou a acumular vastas extensões de terra e outros bens materiais. Ao contrário dos nobres, cujos bens eram repartidos após a morte, devido ao direito de herança, as propriedades da Igreja não podiam ser divididas, pois não pertenciam aos religiosos, mas à própria instituição. Dessa forma, além do poder espiritual, a Igreja passou a deter um vasto e sólido patrimônio material. Essa presença temporal e ideológica da instituição religiosa na sociedade começou a se firmar quando alguns reis germânicos se converteram ao cristianismo, como foi o caso de Clóvis, rei dos francos, em 496. Essas conversões prepararam o terreno para o surgimento, no século VIII, de um império amparado no cristianismo, o Império Carolíngio. A conversão do rei Clóvis ao cristianismo abriu caminho para uma sólida aliança entre a Igreja católica e o poder real, e foi significativo para ambos os lados. Por meio dele, a Igreja obteve o apoio de uma força política e militar capaz de garantir sua sobrevivência. Já o rei via nela uma forma de legitimar seu poder e de aproveitar a organização administrativa do clero para governar. Com a ajuda da Igreja, Clóvis expulsou os visigodos da Gália.

Clóvis I, rei dos francos (466-511), é batizado por Remígio, bispo de Reims, em 496 ou 506, em iluminura do século XIV. A conversão de Clóvis ao cristianismo foi decisiva para o avanço da Igreja católica entre os povos que ocuparam o antigo território do Império Romano do Ocidente.

Em 732, com um forte exército de cavaleiros couraçados (sobre os cavaleiros couraçados veja a seção Olho vivo na página 164), os carolíngios impediram que os muçulmanos invadissem o Reino Franco, derrotando-os na batalha de Poitiers. Graças a esse feito, os carolíngios passaram a ser vistos como os grandes defensores do mundo cristão.

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o Império Carolíngio

Em 771, Carlos – filho do rei Pepino III – assumiu o reino Franco e iniciou uma política de conquistas territoriais. Ao ampliar seus territórios, o novo rei procurava converter ao cristianismo a população dominada; essa política expansionista era muito bem vista pela hierarquia da Igreja católica, pois o crescimento do Reino Franco significava também a difusão da fé cristã. As relações entre o papado e o rei Carlos estreitaram-se ainda mais em 25 de dezembro de 800: durante a missa de Natal na igreja de São Pedro, em Roma, o papa Leão III coroou Carlos como imperador dos romanos, dando-lhe o título de Carlos Magno. Era uma tentativa de restaurar o antigo Império Romano do Ocidente e fazer de Carlos um representante de Deus na Terra. O mapa da página 165 mostra o Império de Carlos Magno em toda a sua extensão. Os primeiros reinos medievais Capítulo 21

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Olho vivo

A tropa de choque dos cavaleiros couraçados

Os cavaleiros couraçados eram guerreiros que cavalgavam com o corpo protegido por uma túnica curta de couro recoberta por placas de metal ou por pequenos anéis de ferro entrelaçados. No século XI, eles adquiriram distinção social. Suas vestimentas e armas de ataque e defesa foram se aperfeiçoando ao longo do tempo. A partir do século XIV, os cavaleiros começaram a trajar armaduras rígidas, mas articuladas. Esses guerreiros contavam com a ajuda de escudeiros, aprendizes de cavaleiro que conservavam as armas afiadas, cuidavam dos cavalos e auxiliavam os cavaleiros nos combates. O crescente número de cavaleiros couraçados promoveu grande militarização da sociedade medieval europeia. Vilas e abadias tiveram de fornecer armas, feno, carroças e roupas para os exércitos. Foi necessário recrutar novos escudeiros, desenvolver forjas e ferrarias para a produção de armas e armaduras, incrementar a criação de cavalos, construir estábulos e silos para garantir abrigo e alimentos para esses animais. A imagem a seguir, encontrada em um manuscrito italiano do século XIV, representa um desses cavaleiros.

A espada de ferro era longa, larga e com duplo gume. Era empunhada quando a lança se partia ou nos combates corpo a corpo.

A lança era de ferro com lâmina triangular. Até o século X media cerca de 2,5 metros. Com o tempo, chegou a medir até 4 metros.

The British Library, London/Arquivo da editora

Inicialmente, o elmo de metal em forma de cone não protegia a face. A partir do século XIII, ganhou uma proteção nasal que podia ser abaixada e levantada.

O escudo de metal, de formato triangular, era usado como proteção.

Para maior equilíbrio durante o galope, o cavaleiro usava uma sela funda, solidamente presa ao cavalo. De origem oriental, o estribo popularizou-se na Europa a partir do século VIII.

Cavaleiro medieval representado em manuscrito do século XIV armado com espada, lança e um escudo triangular. Na Idade Média, a coragem física e o devotamento aos companheiros de armas estavam entre as virtudes mais valorizadas num cavaleiro.

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Fontes: REZENDE FILHO, Cyro de Barros. Guerra e poder na sociedade feudal. São Paulo: Ática, 2002; LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário temático do Ocidente medieval. Florianópolis/ São Paulo: Edusc/Imprensa Oficial do Estado, 2002. v. 1; VISSIÈRE, Laurent. O poder no fio da espada. História Viva, n. 34. p. 51-55.

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Império Carolíngio

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Fonte: Grand atlas historique. Paris: Larousse, 2006. The British Library/Album Art/Latinstock

No plano político-administrativo e jurídico, Carlos Magno assumiu o controle dos tribunais, padronizou o sistema de cunhagem de moedas, instalou a corte no palácio Aix-La-Chapelle – na atual Aachen, na Alemanha –, e passou a fazer uso crescente de documentos escritos. O vasto território carolíngio foi dividido em cerca de 300 condados governados por condes. Nas áreas fronteiriças foram criadas unidades administrativas denominadas marcas. Seus administradores, escolhidos normalmente entre a nobreza local, eram conhecidos como marqueses. Outra categoria de nobres da confiança do imperador era a dos duques, cada um dos quais tinha o poder de convocar e comandar os exércitos de vários condados. Juntos, alguns condados formavam um ducado. Para supervisionar o trabalho dos condes, marqueses e duques, Carlos Magno contava com os missi dominici, agentes imperiais com plenos poderes para resolver problemas considerados difíceis e ouvir as queixas da população. Com ampla estrutura administrativa, Carlos Magno mantinha o controle sobre todo o Império. Também procurava governar a Igreja, colocando o papa sob sua autoridade: era ele quem praticamente decidia a escolha dos bispos e os empregava como simples funcionários do Estado.

Iluminura do século XV representando a coroação de Carlos Magno como imperador pelo papa Leão III na noite de Natal de 800, em Roma. Nessa ocasião, Carlos, rei dos francos, recebeu o título de “Imperador dos Romanos”.

Os primeiros reinos medievais Capítulo 21

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De Agostini Picture Library / The Bridgeman / Keystone

Manuscrito de Fulda, produzido no século IX, retrata Rábano Mauro, acompanhado por Alcuíno de York, apresentando seu trabalho para Otgar, bispo de Mainz. Rábano Mauro Magnentius (c. 780-856) foi um monge beneditino franco, o arcebispo de Mainz, na Alemanha, teólogo, e um autor prolífico; Alcuíno de York (c. 735-804) era um erudito, poeta, eclesiástico e professor de York, Inglaterra.

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o fim do Império

Todo esse processo de renascimento cultural, entretanto, entrou em crise após a morte de Carlos Magno, em 814. Uma geração depois de seu desaparecimento, a unidade do reino se desfez e o império foi dividido entre seus três netos. Surgiram assim a França Oriental, a França Ocidental e a França Central. O mapa a seguir mostra os reinos resultantes da divisão. Disputas internas e invasões estrangeiras, como a dos normandos, ou vikings, provenientes da Escandinávia, levaram ao enfraquecimento do poder central. A falência da centralização político-administrativa desses reinos deu origem à sociedade feudal, que estudaremos no próximo capítulo.

O renascimento carolíngio

A necessidade de contar com um clero mais bem qualificado e de uma nobreza composta de pessoas capazes de garantir uma boa administração fez com que Carlos Magno estimulasse a criação de escolas em todo o Império, o que acabou provocando uma intensa renovação cultural, frequentemente chamada de renascimento carolíngio. o ImpérIo FragmEnTaDo (840) Mapa 04_m07_HSBgA – Divisão do Império Carolíngio Ao mesmo tempo, o imperador criou

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na corte de Aachen e em outros lugares do Império as chamadas escolas palatinas. Nesses lugares eram reunidos os melhores mestres da época com a missão de instruir jovens da nobreza e preparar aqueles que queriam seguir a carreira religiosa. O projeto educacional previa, além do estudo da Bíblia, o ensino de Gramática, Retórica, Dialética, Matemática, Astronomia, Música e, mais tarde, Medicina. As disciplinas tinham por base textos clássicos da Antiguidade, como os do pensador romano Cícero (106-43 a.C.) e os do filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.). Preparava-se, dessa forma, o caminho para o surgimento das primeiras universidades europeias. Nesse processo, foi promovida a transcrição desses e de outros textos clássicos por meio de cópias cuidadosamente elaboradas por monges copistas. Garantia-se, assim, sua preservação para a posteridade. O boxe da página 167 descreve o trabalho dos monges copistas.

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Fonte: GRAND atlas historique. Paris: Larousse, 2006.

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Os monges copistas por dia. Em geral, eram necessários de dois a três meses para copiar um manuscrito de dimensão média. Terminado o trabalho, o texto passava por uma revisão e, dependendo da obra, era ricamente ilustrado com desenhos em miniatura chamados iluminuras. Essas pinturas retratavam cenas do cotidiano e imagens religiosas. Em seguida, os pergaminhos eram encadernados. A capa das obras era feita com pele de cervo. Em uma época na qual a maior parte da população era analfabeta, mosteiros e abadias funcionavam como um dos poucos centros da cultura letrada. Suas bibliotecas reuniam os maiores acervos da Europa medieval. No norte da península Itálica, a abadia de Bobbio, por exemplo, abrigava, na segunda metade do século X, a maior biblioteca do Ocidente. Um catálogo elaborado na época contabilizava 650 manuscritos. Fontes: FAVIER, Jean. Carlos Magno. São Paulo: Estação Liberdade, 2004. p. 429-436; RICHÉ, Pierre. Quando copiar era um estímulo intelectual. História Viva, n. 28, p. 54-60. Bibliotheque Nationale, Paris/The Bridgeman Art Library/Keystone

Se hoje conhecemos importantes tratados filosóficos, médicos ou textos literários da Antiguidade greco-romana, muito se deve ao trabalho realizado nos mosteiros beneditinos durante a Idade Média. Ali, os monges copistas passavam os dias copiando, restaurando ou traduzindo textos clássicos que sobreviveram às invasões germânicas. Os monges trabalhavam cercados de potes de tinta, penas, raspadeiras, folhas de pergaminho. O pergaminho, fornecido pelo abade, era um material caro, preparado previamente com couro de vitela ou de carneiro imerso na cal durante alguns dias. Nos manuscritos, os monges usavam um novo tipo de escrita, a minúscula carolina, que facilitava sensivelmente a leitura, pois empregava letras pequenas e arredondadas. Quando faltava pergaminho era possível reutilizar as folhas já escritas de um manuscrito incompleto ou usado, raspando-se cuidadosamente sua superfície. A duração da execução de um livro variava segundo a habilidade dos copistas. Os mais hábeis se vangloriavam de copiar até trinta folhas

Além de textos, os monges copistas também copiavam pinturas e ilustrações. Nesta miniatura francesa do século IX, um desses monges copia uma pintura do livro Sacra paralela, de São João Damasceno (675-749), um dos grandes doutores da Igreja.

Os primeiros reinos medievais Capítulo 21

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seum Mu B

Na Žpoca imediatamente posterior ˆ queda do ImpŽrio Romano do Ocidente, a grande ilha situada ao norte da G‡lia (Fran•a atual) e conhecida como Bretanha (hoje, Gr‹-Bretanha) era invadida pelos anglos, saxões e jutos, povos de origem germ‰nica provenientes do norte da Europa. A resist•ncia dos habitantes locais, os bretões, durou v‡rios anos e foi descrita no livro Excidio Britanniae (A ruína da Bretanha), escrito em 550 por um sacerdote historiador chamado Gildas. Por volta de 500, segundo Gildas, um l’der guerreiro bret‹o conhecido como Arthur*, teria vencido os saxões em * Veja os filmes Rei uma batalha no mon- Arthur, de Antoine te Badon. Entretanto, Fuqua, 2004, e Excalibur, apesar dessa vit—ria e de John Boorman, 1981.

Elmo de ferro, proveniente de um dos reinos anglo-saxões da atual Inglaterra e datado do início do século VII. Segundo algumas fontes, ele teria sido usado pelo Rei Redwald, morto em 625.

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Os reinos anglo-saxões

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da forte resist•ncia dos bretões, os invasores acabaram ocupando quase toda a Bretanha. Assim, entre 477 e 540, aproximadamente, enquanto a G‡lia se transformava em Reino Franco, anglos, jutos e saxões criavam na Bretanha sete pequenos reinos, mais tarde chamados de heptarquia: Kent, MŽrcia, Essex, Sussex, Wessex, East Anglia e Nortœmbria.

Organizando AS IDEIAS 1. As invasões germânicas contribuíram decisivamente para a queda do Império Romano do Ocidente. Resuma com poucas palavras as mudanças verificadas na Europa ocidental com a chegada dos povos germânicos. 2. Por que é possível afirmar que as sociedades germânicas eram fortemente militarizadas? 3. Entre os séculos V e VI, o poder real dos reinos germânicos se enfraqueceu, em razão do esvaziamento das cidades e da ampliação do poder da nobreza rural. Enquanto isso, a Igreja católica tornava-se uma instituição poderosa. Explique como se realizaram essas transformações. 4. Qual foi o papel do Reino Franco na consolidação do poder católico na Europa?

5. O Império Carolíngio consolidou-se e cresceu durante o governo de Carlos Magno, a partir de 771. Observe o mapa ImpŽrio Carol’ngio (p. 165) e indique as regiões conquistadas por Carlos Magno e a que países essas regiões pertencem atualmente. 6. O renascimento carolíngio preparou o caminho para a criação das primeiras universidades europeias por meio da organização de um conjunto de saberes e práticas educacionais. Em que consistiu esse movimento cultural? 7. Explique por que os monges copistas foram fundamentais para a preservação da cultura escrita da Antiguidade greco-romana.

No mundo DAS LETRAS A espada mágica A Demanda do Santo Graal é um dos mais conhecidos romances de cavalaria da Europa medieval. Escrito por volta do século XIII, ele reúne histórias a respeito de Arthur, um rei bretão, ou líder guerreiro, que teria lutado contra os saxões, à fren-

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te de um grupo de cavaleiros, conhecidos como Cavaleiros da T‡vola Redonda. Leia a seguir um trecho dessa obra e responda ao que se pede. Segundo a lenda, Arthur teria se tornado rei ao arrancar uma espada, conhecida como excalibur, do interior de uma pedra, na qual estava fincada.

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Sua corte seria formada pelos Cavaleiros da Távola Redonda, que partiriam em busca do Santo Graal, cálice sagrado no qual Jesus Cristo teria tomado vinho na Última Ceia. — Senhor, eu vos trago as mais maravilhosas novas de que ouvistes falar. — E que novas são? disse o rei, dizei-nos-las. — Neste vosso paço, aportou agora uma pedra de mármore, na qual está metida uma espada, e sobre esta pedra, no ar, está uma bainha. E eu vos digo que vi a pedra nadar sobre a água, como se fosse madeira. E o rei, que o teve por chufa, disse-lhe se podia ver essa pedra. Então disse o escudeiro: — Já estão lá muitos cavaleiros da vossa companhia para ver aquela maravilha. E o rei, assim que isso ouviu, foi logo para lá com sua companhia de homens bons. E Lancelote, apenas soube o que era, logo foi para lá atrás deles; e Heitor e Persival, que já haviam visto, queriam ver, entre tão grande companhia como lá estava reunida, se haveria alguém que desse cabo agora daquela aventura. Quando o rei chegou à ribeira e viu a pedra e a espada que nela estava metida, pelo encantamento de Merlim [o mago], assim como o conto já referiu, e uma bainha que estava perto dela no meio do ar, e o letreiro que Merlim fizera, ficou todo espantado. — E, amigos, disse ele, novas vos direi. Ora, sabei que por esta espada será conhecido o melhor cavaleiro do mundo, porque esta é a prova pela qual se há de saber; e nenhum, se não for o melhor cavaleiro do mundo, poderá sacar a espada desta pedra. A demanda do Santo Graal. Texto sob os cuidados de Heitor Megale. São Paulo: Edusp, 1988. p. 31-32.

Hora DE REFLETIR Na formação do Reino Franco, a Igreja católica tornou-se uma instituição central, participando ativamente da organização administrativa do Estado e definindo a orientação religiosa dos súditos do reino. Discuta com seus colegas a seguinte ques-

Arthur, lendário rei dos celtas da Bretanha (atual Inglaterra), que teria vencido uma importante batalha contra os saxões em 500 d.C., apresenta Galahad aos Cavaleiros da Távola Redonda. Iluminura francesa do século XIV.

1. Procure no dicionário o significado da palavra chufa. 2. O texto faz referência a alguns personagens típicos da sociedade medieval europeia. Quem são eles e que funções exerciam naquela sociedade? 3. Como vimos, a sociedade medieval era extremamente militarizada. E no Brasil atual: a sociedade também é militarizada, ou há uma separação mais nítida entre vida civil e atividades militares?

Atenção: não escreva no livro. Responda sempre no caderno.

tão: quais são os aspectos positivos da atual separação entre Estado e Igreja observada em muitos países, entre eles o Brasil? Registrem as respostas do grupo num texto escrito para ser discutido pela classe.

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Biblioteca Digital Mundial – Site com documentos de diferentes períodos históricos (site em inglês). Disponível em: <www.wdl.org/pt/time/>. Acesso em: 17 out. 2012. Os primeiros reinos medievais Capítulo 21

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Capítulo 22

O feudalismo Objetivos do capítulo Peter Adams/Corbis/Latinstock

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Por isso, muitas vezes os casamentos aconteciam sem levar em consideração os sentimentos do casal. Os noivos eram geralmente escolhidos por seus pais, que para isso consideravam em primeiro lugar seus próprios interesses políticos e econômicos. Neste capítulo vamos conhecer essa e outras características da sociedade europeia durante a Idade Média, época em que vigorou o feudalismo.

Reprodução / Museu Condé, Chantilly, França / The Bridgeman / Keystone

Nos dias de hoje, o casamento é visto como união de duas pessoas que se amam e decidem construir uma vida em comum, compartilhando todos os momentos, quer de alegria, quer de tristeza. Na Europa medieval, entretanto, as pessoas da nobreza encaravam o casamento como uma forma de fortalecer alianças entre famílias poderosas. Numa época em que a riqueza e o poder concentravam-se nas mãos dos grandes proprietários de terra – os chamados senhores feudais –, o matrimônio era uma forma de assegurar a paz entre as famílias das pessoas envolvidas e a preservação de seus bens.

Conhecer a sociedade medieval da Europa ocidental. Identificar as origens e analisar as características do feudalismo. Entender as relações de suserania e vassalagem. Analisar a organização socioeconômica dos feudos.

Iluminura do século XIV representando uma cerimônia de casamento. Os noivos aparecem ajoelhados diante de uma autoridade religiosa. Durante a Idade Média, entre as famílias de posses, eram comuns casamentos impostos pelos pais, como forma de assegurar a paz e a preservação do patrimônio das famílias envolvidas.

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O mundo feudal

O feudalismo foi a forma de organização política, social e econômica dominante na Europa ocidental durante a Idade Média. Mesmo não tendo se manifestado de maneira idêntica em todas as regiões do continente, pode-se dizer que, de modo geral, são estas as suas características fundamentais: • Tinha na agricultura sua principal atividade produtiva; • Baseava-se em uma sociedade rigidamente hierarquizada, na qual os indivíduos encontravam-se subordinados uns aos outros por laços de dependência pessoal; • Uma pequena elite formada por grandes senhores de terra e pelo alto clero ocupava o topo da sociedade; • O poder político estava fragmentado entre os senhores feudais e o rei; • Havia uma grande massa de camponeses presos à terra; eram os servos da gleba, que viviam sob o domínio dos senhores feudais, garantindo-lhes o sustento.

O feudalismo começou a se estruturar por volta do século VIII no Reino Franco, propagando-se depois para outras regiões da Europa ocidental. Uma das razões para esse começo entre os francos foi o fato de os governantes carolíngios terem colocado em prática, com modificações, um antigo costume dos povos germânicos: a vassalagem.

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O feudo

A vassalagem era o juramento de fidelidade que uma pessoa prestava a um chefe guerreiro, comprometendo-se a viver sob suas ordens durante certo tempo em troca de proteção. Seu caráter era claramente militar: enquanto vigorasse o acordo, aquele que prestava o juramento tornava-se vassalo de seu chefe, chamado de suserano, devendo-lhe lealdade e obediência. No período carolíngio, a vassalagem assumiu novo significado. Nessa época, os reis passaram a

Os castelos medievais

Reprodução / Biblioteca Britânica, Londres/ The Bridgeman/Keystone

Construídos geralmente em elevações e de diempregados domésticos. Nos momentos em que fícil acesso, os castelos eram fortalezas que proteo senhor precisava se afastar de suas terras, fosse giam dos ataques inimigos os senhores feudais, para uma viagem, fosse para a guerra – e isso posuas famílias e dependentes. Cercados por altas deria durar muito tempo –, cabia a ela a responsamuralhas, eles geralmente tinham ao seu redor bilidade pela administração do castelo. um fosso com (ou sem) água, destinado a impedir invasões. Na parte interna, havia uma torre elevada, onde ficavam as dependências dos moradores, além de um poço para coleta de água, forno, armazém, curral, estrebaria e, às vezes, mais de uma capela. Do castelo, o senhor feudal exercia seu domínio sobre um vasto território ocupado por vassalos e servos que lhe prestavam serviços e obrigações. Quanto maior o castelo, maior o prestígio e o poder do senhor feudal. Geralmente, era a esposa do senhor do castelo quem se encarregava do suprimento de alimentos Iluminura medieval do século XIII ilustrada com uma gravura do Edifício e roupas e de gerir o trabalho dos de Marselha.

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conceder aos nobres o direito de uso – embora não de propriedade – de algum bem, chamado feudo, sobre o qual garantiam-lhes total poder. Na maior parte das vezes, o feudo era certa extensão de terra – a terra era o bem mais valorizado e principal símbolo de poder. Mas podia ser também o direito de cobrar impostos, de controlar a justiça ou de administrar um castelo. A doação de um feudo ocorria durante uma cerimônia que caracterizava as relações de suserania e vassalagem. O vassalo ajoelhava-se diante de seu senhor com as mãos unidas, rendendo-lhe homenagem. O doador, seu suserano, segurava as mãos do vassalo entre as suas e selava com um beijo a aliança entre eles. Em seguida, o vassalo jurava sobre a Bíblia ou sobre alguma relíquia sagrada sua fidelidade ao suserano. Por fim, este último entregava-lhe algum objeto (como um punhado de terra ou ervas) como símbolo do feudo que lhe outorgava. O rei tinha por responsabilidade garantir a proteção de seus vassalos, agora transformados em senhores feudais. Além disso, costumava ceder-lhes parte dos saques obtidos nas expedições guerreiras. Em troca, os senhores feudais juravam fidelidade militar e política ao rei, prestavam serviços administrativos e arcavam com as despesas de seus exércitos, que deviam socorrer o soberano quando necessário. Além dessas obrigações, havia regiões nas quais os senhores feudais se responsabilizavam pelo pagamento do resgate do suserano, caso este se tornasse prisioneiro de guerra.

A subenfeudação Como as guerras eram constantes e aumentar o número de cavaleiros e soldados não era tarefa simples, os senhores feudais deram início a um amplo processo de subenfeudação de suas terras. Ou seja, eles passaram a ceder partes de seus feudos a cavaleiros que, dessa maneira, tornavam-se também senhores feudais, assumindo a responsabilidade de cuidar da defesa do território e de formar seus exércitos. Assim, um grande senhor feudal era ao mesmo tempo vassalo do rei e suserano dos cavaleiros aos quais concedia feudos. Essa subenfeudação assumiu proporções tão amplas que chegava a ser difícil saber quem era o su172

serano principal. Às vezes, até mesmo um rei podia ser vassalo de outro rei. Havia também situações em que uma pessoa chegava a receber feudos de mais de um suserano, o que a tornava vassalo de mais de um senhor feudal. Tudo isso promoveu a divisão da classe senhorial em dois segmentos: a alta nobreza, constituída por príncipes, duques, condes, barões, comandantes de castelos (castelões) e membros do alto clero – eram os magnates ou optimates; e a baixa nobreza, formada por simples cavaleiros e religiosos de poucas posses, como os cônegos, que estavam em contato direto com os camponeses. Era a alta nobreza que detinha o poder econômico e militar.

O poder dos senhores feudais Todas essas transformações, que se estenderam pelos séculos VIII a XI, contribuíram para o fortalecimento dos grandes senhores feudais. Eles detinham o poder em seus feudos, nos quais o rei quase não tinha autoridade. Eram os senhores que cobravam os impostos e cuidavam da aplicação da justiça, sem nenhuma interferência de um Estado centralizado, que não chegou a existir. Dessa forma, o rei assumia um papel secundário, tornando-se um entre muitos senhores feudais. Gradativamente, a partir do século X, os vassalos conseguiram que os feudos deixassem de ser uma concessão temporária e passassem a ser hereditários. Isso provocou conflitos entre os grandes senhores feudais, que procuravam dominar territórios vizinhos para alargar ainda mais seus domínios. Além das guerras, o casamento dos filhos foi outra forma encontrada pelos senhores feudais de acumular poder e evitar a pulverização de seu patrimônio. Sem considerar os sentimentos dos noivos, os pais promoviam uniões entre os filhos de acordo com seus interesses políticos e econômicos. Nessas condições, as moças só podiam se casar quando o enlace matrimonial representava o fortalecimento de alianças entre as famílias envolvidas. Por isso, muitos pais as casavam com primos ou adiavam o casamento à espera de um noivo considerado adequado. Quando este não aparecia, a moça era enviada a um mosteiro para seguir uma vida religiosa (veja mais no boxe Casamentos arranjados, a seguir).

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Casamentos arranjados Ao suceder o pai, o filho mais velho passava a controlar a propriedade comum deixada pelos antepassados [...]. A família permitia só a um filho, o mais velho, ou no máximo a dois, contrair casamento legítimo; tanto quanto possível, aos outros era assegurada posição de alto nível no clero superior ou em mosteiros; em outras palavras, confiava-se nos recursos da Igreja para evitar as divisões do patrimônio familiar. Esse mesmo desejo levou à prática de entregar um dote em bens móveis às filhas casadoiras, privando-as de qualquer pretensão à herança em terras. [...] Assim, a nobreza ficou mais firmemente enraizada nas suas propriedades. Adaptado de: DUBY, Georges. Guerreiros e camponeses. Lisboa: Stampa, 1980. p. 187.

De olho no mundo

Museu Marmottan Monet, Paris, França/Giraudon/The Bridgeman/Keystone

Em 2003, entrou em vigor no Brasil o novo Código Civil, que substituiu o anterior, de 1916. É ele que regulamenta o casamento em nosso país. Faça uma pesquisa e escreva um texto sobre o que prevê o Código a respeito da responsabilidade do casal em relação aos filhos e os direitos da mulher.

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Os camponeses

Embora representassem a maioria da população na sociedade feudal (mais de 80%), o volume de informações sobre os camponeses que chegaram até nós é bem inferior ao que temos sobre a nobreza. Há duas razões para isso: em primeiro lugar, os camponeses medievais eram majoritariamente analfabetos; em segundo lugar, os poucos dados sobre eles têm como origem textos escritos por pessoas de outros grupos sociais. Além desses textos que chegaram até nós, os historiadores utilizam outras fontes de informação sobre os camponeses. Eles analisam, por exemplo, achados arqueológicos que revelam a cultura material daquelas pessoas (como objetos de uso pessoal, utensílios domésticos, ferramentas, roupas, etc.) e também suas práticas religiosas. Graças a essas pesquisas sabemos que foi o trabalho dos camponeses, juntamente com os impostos que pagavam, que sustentou economicamente a sociedade feudal. As terras em que trabalhavam, porém, raramente eram suas. Na maior parte das vezes, elas eram cedidas a eles por um senhor feudal em troca da prestação de serviços e da entrega ao senhor de parte da colheita. De modo geral, as mulheres camponesas eram responsáveis por todas as tarefas da casa, que incluíam os cuidados com o gado e a produção leiteira. Além disso, cabia a elas a fabricação do pão e da cerveja para uso diário, além da confecção das roupas. Já os homens passavam o dia no campo, lavrando e semeando a terra, ou colhendo seus frutos.

Rodeado pelo seu séquito, um senhor feudal (à direita) recebe um livro das mãos de um clérigo, provavelmente um monge copista. O séquito de um senhor feudal era formado por cavaleiros vassalos e outras pessoas ligadas a ele por laços de fidelidade (1480-1510).

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René-Gabriel Ojeda/Rmn-Réunion des Musées Nationaux/Other Images

Calendário dos doze meses do ano ilustrado por diversos trabalhos no campo. Iluminura francesa do século XV.

Servos e vilões Os camponeses se dividiam em dois grupos com características particulares: o dos servos e o dos vilões. Os servos descendiam em parte de pessoas que, na época da crise do Império Romano, abandonaram as cidades e migraram para o campo, onde passaram a viver como arrendatários dos grandes senhores de terras, que lhes garantiam sustento e proteção. Outros eram descendentes de ex-escravos. Os servos não tinham liberdade plena. Estavam presos à terra na qual trabalhavam, devendo permanecer nela e cultivá-la juntamente com seus familiares. Os vilões, por sua vez, eram camponeses livres. No passado, eles haviam sido pequenos proprietários que haviam preferido entregar suas terras a um senhor feudal em troca de proteção. Tinham permissão para continuar trabalhando nelas na qualidade de arrendatários.

Impostos e mais impostos Servos e vilões tinham diversas obrigações para com seus senhores. A corveia, por exemplo, os obrigava a realizar serviços gratuitos durante alguns dias da semana nas terras exclusivas do senhor. 174

Havia também a banalidade, taxa que servos e vilões deviam pagar por usar instalações do senhor feudal, como moinhos e fornos. Além disso, de tudo o que produzia nos mansus livres ou servis o camponês só podia reter para si a quantidade de alimentos necessária à sua subsistência; o restante, ou seja, o excedente, deveria ser entregue ao senhor feudal. Caso vendesse parte do que lhe cabia, estava obrigado a dividir com o senhor o valor obtido na transação. Além dessas obrigações, sobre os servos incidiam impostos que não eram cobrados dos vilões. Um deles consistia em uma taxa que os senhores feudais cobravam quando a mulher de um servo ficava grávida, ou quando se descobria que ela havia cometido adultério. Quando um servo se casava, alguns senhores feudais exigiam o direito de passar a noite de núpcias com a noiva, privilégio conhecido como direito de pernada*. Isso só não * Veja o filme O aconteceria caso o marido senhor da guerra, pagasse uma indenização de Franklin Schaffner, 1965. ao senhor.

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Enquanto ¡sso... Os vikings eram um povo da Escandinávia. Também chamados de normandos, eles viviam em terras hoje ocupadas pela Noruega, Suécia e Dinamarca. Hábeis construtores de navios, promoveram, entre meados do século IX e início do século XI, um processo de expansão territorial que culminou na conquista de diversos territórios europeus. Os vikings costumavam saquear e destruir as cidades por onde passavam. Uma delas foi Paris, sitiada por eles durante um ano, entre 885 e 886. Em outros lugares, eles se fixaram e se miscigenaram com as populações locais, convertendo-se, em alguns casos, ao cristianismo. Foi o que ocorreu, por exemplo, na Normandia, no norte da França atual, ocupada pelos vikings em 911. Na Bretanha, atual Grã-Bretanha, os vikings provenientes da Escandinávia dominaram diversas regiões e dois deles chegaram a se tornar reis de quase todo o território da atual Inglaterra: Sven Barba Bifurcada (1014) e seu filho Canuto (1017-1035). Em 1066, um exército proveniente da Normandia conquistou a Bretanha. Comandados por Guilherme, o Conquistador, os normandos desempenhariam papel decisivo no processo de formação da sociedade feudal em solo inglês.

Na região do Mediterrâneo, em 1016 os vikings criaram o reino da Sicília, a sudoeste da península Itálica. The Bridgeman Art Library/Keystone

Normandos em ação

Também conhecidos como vikings, os normandos iniciaram sua expansão territorial no século X. Entre suas conquistas estavam a região da Normandia, no norte da França atual, e a Sicília, ilha que faz hoje parte da Itália. Na foto, o normando Roger II é coroado rei da Sicília por Jesus Cristo em mosaico do século XII.

Organizando as ideias 1. O feudalismo foi a forma de organização política, social e econômica dominante na Europa ocidental entre os séculos VIII e XIV. Descreva suas características fundamentais. 2. O Império Carolíngio recuperou um antigo costume germânico, a vassalagem, que se tornou a base das relações sociais entre a nobreza feudal. Explique o que eram as relações de suserania e vassalagem durante o período carolíngio.

mentos contribuíram para ampliar o poder dos senhores feudais? 5. Por que os historiadores dispõem de poucas informações sobre a vida dos camponeses na Idade Média?

3. Como explicar que um grande senhor feudal era, ao mesmo tempo, vassalo do rei e suserano de outros vassalos?

6. Os camponeses representavam cerca de 80% da população europeia durante a Idade Média. Graças ao seu trabalho e ao pagamento de impostos, eles sustentavam a economia medieval. Entretanto, os camponeses raramente eram proprietários de terras. Explique quem eram os servos e os vilões e descreva suas relações com os senhores feudais e a propriedade da terra.

4. O fortalecimento das relações de suserania e do poder do senhor feudal enfraqueceu o poder real entre os séculos VIII e XI. Que outros ele-

7. Servos e vilões deviam cumprir certas obrigações para com o senhor feudal. Indique pelo menos três dessas obrigações.

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Interpretando dOCUMeNTOs A imagem desta seção representa um momento de descanso num dia de caçada. O grupo de caçadores parou para se alimentar e beber, numa clareira da floresta. Trata-se de uma iluminura de O livro da caça, escrito no século XIV, por Gaston Phoebus (1343-1391), conde de Foix. Observe a imagem e responda às questões. 1. Faça uma descrição da cena representada na iluminura, indicando como os personagens estão organizados. 2. A sociedade medieval europeia era extremamente hierarquizada, como vimos no capítulo. Indique no quadro como essa hierarquia está representada.

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3. Com base na imagem e no que você aprendeu sobre a sociedade medieval europeia, levante hipóteses sobre o papel da caça para os homens daquele período.

Iluminura de O livro da caça, escrito por Gaston Phoebus entre 1387 e 1389.

Hora de ReFLeTiR Como vimos, a sociedade medieval europeia era rigidamente hierarquizada. A manutenção dessa rígida hierarquia dependia do controle militar, político e religioso que a elite exercia sobre a grande massa de camponeses. A exploração do trabalho rural era reforçada pela Igreja católica, principal força política, econômica e ideológica do período. A doutrina católica alegava que a posição social e

econômica dos indivíduos era expressão da vontade divina. Em sua opinião, no mundo contemporâneo as religiões ainda se envolvem em questões políticas e econômicas? Em caso positivo, qual é a sua opinião sobre isso? Faça uma discussão em dupla sobre o assunto. Depois, com a ajuda do professor, apresente as opiniões da dupla num debate com a classe.

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Biblioteca Digital Mundial – Página com diversos documentos do período medieval digitalizados. Disponível em: <http://tinyurl.com/98ruwxr>. Acesso em: 17 out. 2012.

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Capítulo 23

O poder da Igreja Objetivos do capítulo Patrick Durand/Sygma/Corbis/Latinstock

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O Brasil é o maior país católico do mundo. Segundo o censo de 2010, 64,6% da população – ou seja, cerca de 123 milhões de brasileiros – acredita no catolicismo. Os demais brasileiros professam outras crenças, como o protestantismo, o espiritismo, o judaísmo, o umbandismo, etc. Há ainda os ateus e aqueles que, mesmo se declarando seguidores de uma determinada fé, frequentam também cultos ou serviços religiosos de outra religião. Com 1,1 bilhão de seguidores, o catolicismo é o maior ramo do cristianismo, crença religiosa que abriga também os ortodoxos, os protestantes, os adventistas, entre outros. A principal autoridade católica é o papa. Hoje, seu poder está restrito às questões internas da Igreja. No passado, o sumo pontífice já foi muito mais

Dorival Moreira/Sambaphoto

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Conhecer a estrutura organizacional da Igreja católica. Entender como se constituiu o poder da Igreja católica durante a Idade Média. Perceber as contradições internas dessa instituição. Identificar as motivações que levaram à organização das Cruzadas.

influente. Durante a Idade Média, a Igreja católica se transformou na mais importante instituição da Europa, e a força do papa era tão grande que ele podia até mesmo derrubar reis e imperadores. Neste capítulo estudaremos como a Igreja adquiriu tanto poder durante a Idade Média e de que maneira isso se refletiu na sociedade europeia daquele tempo.

Igreja da Misericórdia, em João Pessoa, Paraíba, em foto de setembro de 2006. As inúmeras igrejas construídas no Brasil, no período colonial, assim como as que foram erguidas mais tarde, são um testemunho eloquente da força do catolicismo no país.

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White Images/Photo Scala, Florence/Imageplus

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poder material e poder espiritual

Como vimos no capítulo 21, durante a Idade Média a Igreja católica se consolidou pouco a pouco como a mais rica e sólida instituição da Europa ocidental. Alguns de seus mais altos dignitários – bispos, cardeais, arcebispos e abades – tornaram-se influentes senhores feudais. Possuíam muitos bens, ao contrário dos pequenos clérigos, que lutavam contra a miséria e muitas vezes tornavam-se vassalos de grandes senhores. Além do poder terreno ou temporal, a Igreja tinha um domínio quase completo sobre a vida espiritual da população. Para afirmar esse domínio, seus representantes garantiam que somente ela podia absolver os pecados, assegurando a salvação na vida eterna (veja o boxe Para salvar a alma, a seguir).

A hierarquia eclesiástica A Igreja estava organizada em províncias e dioceses, comandadas, respectivamente, por um arcebispo ou por um patriarca, de acordo com o lugar, e por um bispo. Abaixo deles vinham os diáconos, que lhes davam assistência e também acudiam os doentes; as comunidades rurais de cada diocese eram assistidas por padres. Esses eclesiásticos, juntamente com o patriarca de Roma (chamado de papa a partir do século V), que estava no topo da hierarquia, formavam o clero. Segundo a doutrina da Igreja, o patriarca de Roma,

Iluminura francesa do século XV representando o rei Luís IX da França, canonizado como São Luís, tendo em uma das mãos um modelo da Santa Capela e, na outra, um dos símbolos de seu poder: o cetro. Essa representação revela como poucas as estreitas relações que uniam o poder temporal do rei ao poder espiritual da Igreja.

instalado no palácio de Latrão, no Vaticano atual, era sucessor direto de São Pedro, apóstolo a quem Cristo teria confiado a missão de edificar sua Igreja na Terra.

Influências mundanas Embora estivesse voltada para a vida espiritual e a difusão da fé cristã, como instituição a Igreja era parte integrante do sistema feudal. Em seu interior reproduziam-se características desse sistema. O alto clero, por exemplo, tinha o mesmo status da nobreza, com acesso à terra e a outros bens materiais. Com isso, ficava aberto a influências mundanas e tornava-se vulnerável à corrupção.

Para salvar a alma Para garantir a salvação da alma, os clérigos recomendavam preceitos como jejuar, ajudar aos mais necessitados, evitar o sexo que não estivesse destinado à procriação e não falar coisas que pudessem se configurar como blasfêmia ou heresia. Além dessas recomendações, o povo incorporou e adotou algumas penitências para garantir o acesso aos céus, como as autoflagelações e as peregrinações a lugares considerados sagrados. Entre esses lugares destacavam-se Roma – onde se encontram os restos dos apóstolos Pedro e Paulo –, Jerusalém – onde Cristo morreu – e Santiago de Compostela – cidade da península Ibérica na qual estaria enterrado São Tiago.

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Em 1300, o papa Bonifácio VIII convocou uma romaria (palavra cujo sentido original é ir a Roma), prometendo o perdão dos pecados aos que aderissem ao chamado. Calcula-se que 2 milhões de pessoas participaram da peregrinação, dirigindo-se à Cidade Eterna. Em uma época na qual a maioria das pessoas vivia fechada em feudos e seu conhecimento sobre o mundo exterior não ia além de poucos quilômetros, a peregrinação se tornou praticamente a única maneira de as pessoas mais simples conhecerem outros lugares. Fontes: RUNCIMAN, Steven. A Primeira Cruzada e a fundação de Jerusalém. Rio de Janeiro: Imago, 2002. p. 46-56; MEllO, José Roberto. As Cruzadas. São Paulo: Ática, 1989. p. 15-19.

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A disputa entre o papa e o imperador Outro importante momento de ampliação do poder da Igreja ocorreu em 1075. Naquele ano, o papa Gregório VII (1073-1085) publicou uma bula na qual afirmava o direito papal de derrubar imperadores e a infalibilidade da Santa Sé. Estabelecia também

Roger Viollet-, Paris / The Bridgeman / Keystone

Sob o peso dessas influências, a Igreja viveu períodos de crise que chegaram a colocar em perigo sua própria existência. Assim, regras canônicas eram constantemente deixadas de lado; muitos padres eram casados ou tinham amantes. Em alguns lugares, cargos religiosos como os de bispo e arcebispo eram vendidos a nobres que não sabiam nem sequer celebrar uma missa e se mostravam mais interessados em dilapidar os bens da instituição do que em promover a doutrina cristã. No século X, os Marózia – uma rica família romana – praticamente se apropriaram da Igreja e passaram a nomear e derrubar papas conforme seus interesses. Não foram poucos na época os pontífices depostos ou assassinados. Percebendo a gravidade da situação, alguns clérigos decidiram promover uma profunda reforma moral e religiosa na instituição. Essas modificações começaram em 910, ano em que foi aberto um mosteiro beneditino em Cluny, cidade da Borgonha, na França atual. Os monges de Cluny reformaram radicalmente a vida monástica, enfatizando o poder das orações. Uma rede de mosteiros beneditinos espalhou-se então por quase toda a Europa, todos eles submetidos à autoridade do abade de Cluny. Essas mudanças contribuíram para restaurar durante algum tempo a dignidade da Igreja e do papado. Em 1059, durante o concílio de Latrão, o papa Nicolau II confirmou o celibato dos padres, proibiu que bispos fossem indicados por reis sem autorização papal – prática conhecida como investidura – e estabeleceu que os papas deixariam de ser escolhidos por imperadores ou reis e seriam eleitos por um colégio de doze cardeais selecionados entre os mais altos dignitários eclesiásticos. Pela decisão do concílio, ficava reservado ao imperador do Sacro Império Romano-Germânico – que até aquele momento controlava as sucessões papais – apenas o direito de manifestar sua aprovação em torno do nome escolhido pelos cardeais. Mesmo esse direito poderia ser-lhe retirado, caso sua posição fosse considerada abusiva. Veja no boxe da página seguinte como surgiu o Sacro Império Romano-Germânico.

Iluminura do século XIII com o retrato do papa Honório III. Ele iniciou a prática da elevação da hóstia durante a liturgia. Eleito papa já com idade avançada, cuidou especialmente do aspecto disciplinar e jurídico da eleição do papa e dos bispos, fixando as regras e a cerimônia.

a pena de excomunhão para todos aqueles que desobedecessem às determinações da Igreja. O documento provocou a ira de Henrique IV, imperador do Sacro Império Romano-Germânico, que tentou depor o papa. Em resposta, Gregório excomungou o imperador. Acuado e sem apoio dos senhores feudais, temerosos de também serem excomungados, Henrique foi obrigado a pedir perdão ao sumo pontífice. O conflito, conhecido como Questão das Investiduras, ampliou o poder da Igreja.

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as cruzadas

Os sucessores de Gregório VII acentuaram ainda mais a influência da Igreja na sociedade europeia. Uma das expressões desse pro* Leia o romance cesso foram as Cruzadas*, expe- As Cruzadas vistas dições de caráter religioso e mi- pelos árabes, de Amin Maalouf. São litar organizadas com o objetivo Paulo: Brasiliense, de retomar Jerusalém do domínio 2001; e veja o muçulmano. O movimento das filme Cruzada, de Ridley Scott, 2005. Cruzadas teve início em 1095, quando o papa Urbano II convocou os cristãos a “arrancar a Terra Santa das mãos da raça malvada” e prometeu a salvação da alma a todos que participassem da luta. O poder da Igreja Capítulo 23

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O Sacro Império Romano-Germânico

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Mapa 04_m08_ O Sacro Império em meados do século XI As origens do Sacro Império O Sacro Império no século XI Romano-Germânico remontam a 955, quando Otaviano, um rapaz de apenas 16 anos, foi sagrado Mar REINO DA Báltico Mar do DINAMARCA papa. O jovem, que adotou o nome Norte de João XII, viu-se logo envolviRi REINO DA do em conflitos na península ItáliEl b a INGLATERRA ca por questões de terra. Quem o socorreu foram as tropas de Oto I, REINO DA POLÔNIA soberano do reino Germânico (antiga França Oriental, um dos reiMetz nos em que ficou dividido o ImpéRatisbona rio Carolíngio, tema abordado no Viena SACRO IMPÉRIO Golfo de capítulo 21). O Reino Germânico Ri o D a n Biscaia ROMANO-GERMÂNICO REINO DA englobava áreas atualmente ocu45º FRANÇA padas pela Alemanha, Áustria, PoVeneza Turim Milão lônia, Holanda, leste da França e parte da Suíça. REINO DA Gênova HUNGRIA Como retribuição, em 962 o Florença Marselha papa coroou Oto I com o título M ar Ad de imperador e assinou com ele riá Córsega Roma tic o um acordo conhecido como Privilegium Ottonis. Por meio dele, Sardenha Mar o imperador cedia à Igreja granTirreno des extensões de terras recémMar Jônico M a r M e d i t -conquistadas na península Itálie r r â n e ESCALA ca. Em troca, Oto I passava a ter Sicília o 200 400 0 supremacia sobre o papado, com QUILÔMETROS Á F R I C A 0º o direito de indicar bispos e até Fonte: World History Atlas: Mapping the Human Journey. mesmo papas. Surgia assim o SaLondon: Dorling Kindersley, 2005. cro Império Romano-Germânico. O mapa deste boxe mostra o Sacro Império em meados do século XI, quando atingiu sua maior extensão territorial. A partir do século XII, onerado com as constantes campanhas militares e as disputas de poder com o papado, que passou a lutar pela autonomia da Igreja, o Império começou a declinar, perdendo sua unidade política, econômica e cultural. oR Ri

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Na verdade, a motivação religiosa foi apenas um pretexto, pois muitos outros interesses estavam em jogo. Com as Cruzadas, o papa pretendia recuperar o prestígio e a unidade da Igreja, abalados pela corrupção e pelo Cisma do Oriente, em 1054 (releia o capítulo 20). Os nobres estavam interessados em pilhar riquezas e conquistar novas terras; já os mercadores da península Itálica esperavam que as Cruzadas promovessem a reabertura do comércio no Mediterrâneo, dominado pelos muçulmanos. Os camponeses, por sua vez, ingressaram nas Cruzadas sonhando com a conquista da liberdade. 180

Entre os séculos XI e XIII, foram organizadas oito dessas expedições militares (veja o mapa da página seguinte), algumas sob o comando de reis e da alta nobreza (leia a seção No mundo das letras, nas páginas 184-185). Para a Primeira Cruzada foi mobilizado um grande contingente de cavaleiros. Antes de sua partida, porém, um número expressivo de pobres e miseráveis, marchou para a Terra Santa. Conhecida como Cruzada dos Mendigos, essa expedição foi destruída antes de chegar a Jerusalém. Tendo partido para a Terra Santa logo depois da expedição dos mendigos, a Primeira

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Cruzada (1095-1099), composta principalmente de cavaleiros, foi a única que teve êxito, pois conquistou Jerusalém em 1099. Os muçulmanos, porém, reconquistaram a cidade, sob a liderança do sultão Saladino, em 1187. Com exceção da primeira expedição, as Cruzadas não alcançaram o objetivo inicial – recuperar a Terra Santa definitivamente para os cristãos –, mas contribuíram para estimular o comércio entre o Oriente e o Ocidente, trazendo riqueza para muitas cidades da península Itálica, como Veneza e Gênova. Outra consequência foi o fortalecimento da figura do cavaleiro (veja o boxe As ordens de cavalaria, na página 182).

sua autoridade política e religiosa. Alguns anos depois, era criado um tribunal especialmente destinado a reprimir o que a Igreja chamava de heresias: a Inquisicão (veja o item O Tribunal do Santo Ofício, na página 182). Entretanto, esse foi um dos últimos momentos de força do papado. Como veremos no capítulo 24, o renascimento do comércio e das cidades europeias verificado a partir do século XI favoreceria a centralização do poder político nas mãos dos reis, provocando o enfraquecimento da autoridade religiosa e do poder temporal do papa. Para esse declínio contribuiriam também as denúncias cada vez mais frequentes contra o luxo e a corrupção do alto clero*. A crise * Veja o filme O chegaria a tal ponto que, no iní- nome da rosa, cio do século XV, a Igreja seria co- de Jean-Jacques mandada por três papas ao mesmo Annaud, 1986. tempo. A reação a tudo isso viria no início do século XVI com a Reforma protestante, como veremos no capítulo 27.

Entre o céu e a Terra As Cruzadas não só aumentaram a autoridade do papa, mas também enriqueceram ainda mais a Santa Sé. No século XII, durante o pontificado de Inocêncio III (1198-1216), a Igreja atingiu o apogeu de

As cruzadas 15º L

Mar do Norte

Primeira Cruzada (1096-1099) Segunda Cruzada (1147-1149) Terceira Cruzada (1189-1192)

Londres

OCEANO ATLÂNTICO

Quarta Cruzada (1201-1204) Colônia

Rouen Paris

45º N

Sexta Cruzada (1228-1229) Sétima Cruzada (1248-1254)

Ratisbona

Bourges Lyon

Aquileia

Milão

Toulouse Marselha

Veneza

Gênova

Zara Spalato

Pisa

Lisboa

Roma Córdoba

Reggio

Sófia

Constantinopla Dorileia

Cesareia

Éfeso

Adália Selêucia Limassol

e

Estados cristãos do Oriente

it e

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Damasco

Cândia

Jerusalém Alexandria

Igreja ortodoxa 0

ESCALA 300

Antioquia

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Á F R I C A

Islamismo

Durazo

Mar Negro

M a r Túnis

Igreja católica romana

Belgrado

Bari

Cagliari Tânger

Oitava Cruzada (1270)

Esztergom

Clermond Ferrand

Lagos

Quinta Cruzada (1217-1221) Bamberg

Metz

Damieta

600

QUILÔMETROS

Fonte: World History Atlas: Mapping the Human Journey. London: Dorling Kindersley, 2005.

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As ordens de cavalaria Diálogos Uma das obras literárias mais publicadas da literatura mundial é Dom Quixote de La Mancha, do escritor espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616). Trata-se de uma narrativa que satiriza os romances de cavalaria e a própria cavalaria medieval. Reúna-se com seus colegas de grupo e, sob a orientação do professor de Língua Portuguesa ou Literatura, selecionem um trecho da obra que expresse o tratamento satírico dado ao tema da cavalaria. Preparem uma leitura em voz alta do trecho para apresentar à classe, acrescentando seus próprios comentários sobre o trecho selecionado. Biblioteca do Monastério fazer Escorial, Madrid, Espanha/ The Bridgeman/Keystone

A participação dos cavaleiros* nas Cruzadas fez com que a cavalaria assumisse um caráter quase sagrado na sociedade medieval. Conscientes * Veja o filme O incrível da importância con- exército de Brancaleone, quistada, os cavaleiros de Mário Monicelli, 1965, e leia o livro A demanda passaram a se organi- do santo Graal. São zar em torno de confra- Paulo: Edusp, 1988. rias chamadas ordens. Para ingressar nessas ordens era necessário se submeter a um longo ritual. Aos 7 anos, o menino ia servir como pajem em um castelo, onde um senhor lhe ensinava as artes da guerra. Aos 16, tornava-se escudeiro, devendo carregar as armas de um cavaleiro. Entre os 18 e os 20 anos, era finalmente armado cavaleiro em uma cerimônia solene. A partir de então, deveria cuidar de sua própria vida. Alguns tinham seus séquitos; outros, ligavam-se a um senhor feudal. Havia ainda aqueles cavaleiros solitários que vagavam de um lugar para outro em busca de fama e fortuna. O cavaleiro tinha de obedecer fielmente às regras da cavalaria: devia proteger a Igreja, os órfãos, as viúvas; não podia matar um adversário indefeso nem mentir. Essas regras e a obrigação de seguir valores como fidelidade, lealdade e dedicação contribuíram para mitificar a cavalaria e deram origem a narrativas em prosa, os chamados romances de cavalaria, e a poemas (os poemas de gesta, cujos personagens principais eram cavaleiros). Iluminura Justiniani em Fortiatum, do século XIV, retrata um cavaleiro atacando outro com uma espada e um cavaleiro escrevendo seu testamento com uma espada manchada de sangue.

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O Tribunal do Santo Ofício

A Igreja católica precisou de vários anos para consolidar sua doutrina religiosa, de modo a torná-la um credo único e universal. Não foi tarefa simples. Antes disso, ideias divergentes sobre questões dogmáticas suscitaram diversas polêmicas entre os fiéis. A partir de certo momento, porém, pessoas que divergiam ou levantavam dúvidas sobre os dogmas passaram a ser consideradas hereges e, a partir do século XII, começaram a sofrer forte repressão. Em

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1184, uma bula papal determinava que os bispos excomungassem não apenas as pessoas consideradas heréticas, mas também as autoridades que não agissem contra elas. A opressão tornou-se maior a partir de 1233, ano em que o papa Gregório IX criou o Tribunal do Santo Ofício, também conhecido como Inquisição, para perseguir e punir os dissidentes considerados hereges. Durante sua existência, a Inquisição espalhou o terror pela Europa, pois qualquer pessoa podia ser acusada de heresia e condenada à morte na fogueira. Em 1252, o papa Inocêncio IV autorizou o uso da tortura como método para se obter confissões.

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Enquanto ¡sso... Os judeus e a Igreja católica

De olho no mundo A intolerância dos católicos em relação aos judeus na Idade Média tinha, como vimos, origens religiosas e econômicas. Faça uma pesquisa sobre situações atuais de intolerância religiosa, identificando também os motivos políticos ou econômicos nas origens desse tipo de atitude. Prepare uma apresentação oral e exponha seu trabalho à classe.

Biblioteca Real Alberto I, Bruxelas/Arquivo da editora

Durante a Idade Média, a atitude da Igreja católica em relação à comunidade judaica da Europa foi marcada pela intolerância. Enquanto tentava retomar Jerusalém por meio das Cruzadas, a Santa Sé promovia sistemáticas perseguições aos judeus, obrigando-os a se afastarem de suas profissões e confiscando seus bens. Em 1096, cerca de mil judeus foram mortos por cruzados na atual região da Alemanha. Em 1215, o papa Inocêncio III determinou que, para distinguir-se dos cristãos, os judeus deveriam exibir uma insígnia sobre as roupas. As razões para isso eram tanto doutrinárias quanto de ordem econômica. A Igreja alegava que os judeus não só negavam a divindade de Jesus Cristo, mas também haviam sido

responsáveis por sua crucificação. Além disso, como muitos judeus eram comerciantes e banqueiros, a Santa Sé os condenava pela prática de usura (empréstimo de dinheiro com cobrança de juros), condenada pela doutrina da Igreja.

Nesta iluminura de fins da Idade Média alguns judeus são queimados vivos durante o período em que a peste negra assolou Tournai, na Bélgica atual. Alvo da intolerância religiosa, os judeus foram responsabilizados por muitos cristãos pela disseminação da doença, que matou boa parte da população europeia no século XIV.

O poder da Igreja Capítulo 23

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Organizando AS IDEIAS 1. Na Idade Média, a Igreja católica detinha simultaneamente poderes espirituais e poderes materiais. De que modo esses dois poderes transformaram a Igreja na instituição mais poderosa daquele período? 2. Como estava organizada a estrutura hierárquica da Igreja e de que modo essa estrutura reproduzia a divisão da sociedade feudal? 3. No século X, em reação à grave crise moral que atingiu a Igreja, alguns clérigos fundaram um mosteiro beneditino na cidade de Cluny (atual França). Seu objetivo principal era reformar a Igreja internamente. Qual foi a importância da reforma promovida por esses monges?

4. No século XI, a relação entre a Igreja e os imperadores foi marcada pela tensão e por disputas religiosas e militares. Descreva as tensões entre o papa Gregório VII e o imperador Henrique IV a propósito da Questão das Investiduras. 5. Explique as relações entre o Sacro Império Romano-Germânico e a Igreja católica. 6. Com que finalidade a Igreja católica instaurou a Inquisição, no século XII? 7. A partir do século XI o poder da Igreja católica começou a declinar. Aponte dois fatores que contribuíram para esse processo.

No mundo DAS LETRAS Gianni Giansanti/Sygma/Corbis/Latinstock

A Terceira Cruzada Publicado em 2001, o romance Baudolino, do escritor italiano Umberto Eco, relata de forma bem-humorada as aventuras de um jovem camponês nascido no século XII, adotado pelo imperador do Sacro Império Romano-Germânico, Frederico I, o Barba Ruiva. A passagem a seguir mostra os preparativos de Frederico para a Terceira Cruzada (1189-1192), conhecida como Cruzada dos Reis, pois dela participaram também os reis da Inglaterra, Ricardo Coração de Leão, e da França, Filipe Augusto. Os três monarcas chefiaram seus exércitos para enfrentar as tropas do sultão muçulmano Saladino, que tomara Jerusalém em 1187. Leia o trecho selecionado e responda ao que se pede. Naquele tempo – e estamos em 1187 –, Saladino deflagrou seu último ataque à Jerusalém cristã. Venceu. Comportou-se generosamente, deixando sair ilesos todos aqueles que podiam pagar uma taxa [...]. Por mais que Saladino se mostrasse magnânimo, todo o mundo cristão ficou abalado pelo fim daquele reino franco d’além-mar, que resistiu

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Umberto Eco, autor dos romances Baudolino e O nome da rosa, em foto de outubro de 1997.

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durante quase cem anos. O papa recorreu a todos os monarcas da Europa para uma terceira expedição de crucíferos que libertasse de novo aquela Jerusalém reconquistada pelos infiéis. [...] Enquanto os reis da Inglaterra e da França decidiam partir por mar, em maio de 1189, Frederico partiu por terra de Ratisbona com quinze mil cavaleiros e quinze mil escudeiros. Alguns diziam que nas planícies da Hungria ele houvesse passado em revista sessenta mil cavaleiros e cem mil soldados. Outros chegaram a falar até de seiscentos mil peregrinos, mas deviam exagerar todos. [...] Para evitar os saques e massacres das expedições anteriores, o imperador não quis que seguissem aqueles bandos de deserdados que cem anos antes haviam espalhado tanto sangue em Jerusalém. Devia ser uma coisa bem-feita, por gente que sabia como fazer uma guerra, não por desgraçados que partiam com a desculpa de conquistar o

Hora DE REFLETIR Em setembro de 2005, um jornal da Dinamarca publicou doze charges tendo como tema principal o profeta Maomé. Em uma delas, Maomé aparecia com um turbante em formato de bomba-relógio. A publicação provocou revolta no mundo muçulmano. Países como Arábia Saudita, Líbia e Kuwait fecharam suas representações diplomáticas na Dinamarca. No Líbano, muçulmanos atearam fogo no consulado dinamarquês e, em diversos lugares do mundo, os muçulmanos fizeram boicote a produtos importados da Dinamarca. Esses e outros protestos baseavam-se na alegação de que as charges ofendiam o profeta e

Paraíso e voltavam para casa com os espólios de alguns hebreus, de quem haviam cortado a garganta pelo caminho. ECO, Umberto. Baudolino. Rio de Janeiro: Record, 2002. p. 246-249.

1. No trecho citado de Baudolino encontramos algumas motivações que levaram os cruzados a lutarem contra os muçulmanos em Jerusalém. Aponte algumas dessas motivações e indique as passagens em que elas aparecem. Em seguida, com base na leitura do capítulo, cite outros fatores que estimularam a ação dos cruzados nesse período. 2. A  passagem do romance que você acabou de ler mostra a articulação existente entre integrantes do alto clero com os monarcas europeus. Detendo-se nas informações do capítulo e nessa passagem, descreva as características e o sentido da relação entre esses dois poderes.

Atenção: não escreva no livro. Responda sempre no caderno.

incitavam o ódio contra os seguidores do islã. Na ocasião, o primeiro-ministro da Dinamarca defendeu o direito à liberdade de imprensa. Reúna-se com seu grupo de colegas e, juntos, debatam a seguinte questão: como garantir a liberdade de expressão e, ao mesmo tempo, respeitar as crenças religiosas? Em uma folha de cartolina, formulem coletivamente um artigo de lei que expresse a opinião do grupo. Depois, fixem a cartolina na parede da classe, para que todos possam refletir sobre o artigo proposto por vocês, sob a orientação do professor.

Mundo virtual nn

Museu do Vaticano – Exposições virtuais existentes no site (site em inglês). Disponível em: <http://mv.vatican.va/3_EN/pages/MV_Visite.html>. Acesso em: 17 out. 2012. O poder da Igreja Capítulo 23

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Capítulo 24

Renascimento urbano e comercial Objetivos do capítulo Ira Block/National Geographic/Getty Images

de seda, porcelana, joias e especiarias, vindas principalmente do Oriente. O sucesso dessas feiras foi tão grande que, em torno delas, acabaram se formando diversas cidades, como Sevilha e Champagne, nas atuais Espanha e França. Neste capítulo estudaremos como ocorreu esse processo e o impacto dessas mudanças na sociedade europeia da Idade Média.

British Retail Photography/Alamy/Other Images

Atualmente, com um computador e uma conexão com a internet, qualquer pessoa pode adquirir uma imensa variedade de mercadorias, oriundas de qualquer lugar do mundo sem sair de casa. É o chamado comércio virtual, uma atividade que em 2011 movimentou mais de 450 bilhões de dólares em todo o mundo. O Brasil representou cerca de 2,2% desse montante. Porém, nem sempre existiu essa facilidade em se obter coisas de lugares distantes de onde se mora. Cerca de mil anos atrás, na Europa ocidental, as coisas eram muito diferentes. Um dos principais lugares para se encontrar artigos de regiões mais distantes eram as feiras surgidas nos cruzamentos das principais estradas do continente. Nesses locais, as pessoas compravam tecidos

Analisar os processos que levaram ao revigoramento do comércio e das cidades, entre os séculos XI e XIII, na Europa. Compreender as mudanças sociais e culturais que ocorreram nesse período. Perceber que com a ascensão da burguesia, surge uma nova mentalidade que se contrapõe muitas vezes aos valores religiosos.

Clientes observam produtos em loja de eletrônicos na Inglaterra, em 2009.

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Os últimos anos do século X foram de crescente terror para a população europeia. Com frequência cada vez maior, previsões catastróficas, alimentadas pelo misticismo e pela ignorância, circulavam pelo continente, anunciando o apocalipse: para muitas pessoas o mundo acabaria com a chegada do ano 1000, quando se completaria o primeiro milênio depois de Cristo. Entretanto, como sabemos hoje, o mundo não acabou naquele momento. Pelo contrário, em fins do século X ocorreu uma sensível diminuição das invasões por povos como os vikings. Ao mesmo tempo, caiu momentaneamente a mortandade por epidemias, pois a população vivia disseminada nos feudos, o que dificultava a propagação de doenças infectocontagiosas. Tudo isso gerou estabilidade e crescimento demográfico. Assim, a Europa chegou ao século XI revigorada e em crescimento. Ao longo dos três séculos seguintes, o continente experimentaria profundas transformações.

Photo Scala, Florence/Imageplus

O ano 1000

Afresco do século XV encontrado em uma das dependências do Castelo do Bom Conselho, em Trento, na península Itálica. No primeiro plano, pode-se ver um camponês lavrando a terra com uma charrua.

Novidades tecnológicas Diversas inovações tecnológicas facilitaram a vida do camponês. Uma delas foi a invenção da charrua, arado de ferro que, por seu peso, revolvia melhor a terra e fazia nela sulcos mais profundos do que o antigo arado de madeira. Para puxar a charrua, os camponeses passaram a utilizar a força do cavalo, bem mais veloz do que o boi. Outro avanço tecnológico significativo ocorreu com o surgimento dos moinhos de água, utilizados para moer cereais. Como um único moinho substituía, em um dia, a força de quarenta trabalhadores, esses engenhos se espalharam rapidamente pela Europa a partir do século XI. Entre os séculos XII e XIII, os árabes introduziram na península Ibérica os moinhos de vento. Rapidamente adotados no resto do continente, esses engenhos se revelaram indispensáveis para a manutenção dos sistemas de diques e canais. Graças a eles, uma quantidade muito grande de pântanos foi drenada e transformada em área para plantio. O próprio modo de cultivar a terra passou por mudanças. A rotação bienal foi substituída pela rotação trienal de culturas: o terreno era dividido em três

partes e, a cada ano, uma delas descansava, enquanto nas outras revezava-se o plantio de legumes e cereais, evitando assim o rápido empobrecimento do solo.

Dinheiro no campo Esses avanços tecnológicos elevaram de forma expressiva a qualidade e a quantidade da produção agrícola (veja a seção Eu também posso participar, na página seguinte). Comendo melhor e momentaneamente livre das epidemias e das invasões, a população aumentou substancialmente. Calcula-se que entre os anos 1000 e 1300 o número de habitantes da Europa tenha saltado de 42 milhões para 73 milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, o excedente agrícola passou a ser vendido em quantidades cada vez maiores, reaquecendo o comércio, que decaíra nos séculos anteriores. Esse processo fez com que o dinheiro voltasse a circular, permitindo a alguns camponeses reunir renda suficiente para comprar a liberdade junto ao senhor feudal. Livres, muitos se mudavam para as cidades, enquanto outros continuavam no campo, agora como assalariados. Renascimento urbano e comercial Capítulo 24

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posso participar

Do estrume aos agrotóxicos

máquinas mais modernas no campo e o desenvolvimento de insumos químicos que protegem as plantações contra pragas, ervas daninhas e deixam os vegetais grandes e bonitos. Entretanto, especialistas alertam para o fato de que muitos desses insumos químicos, também conhecidos como agrotóxicos, podem matar animais, poluir os solos, contaminar os

Historiadores estimam que, a partir do século X, o aumento da produção agrícola europeia foi de cerca de 150%. As novidades tecnológicas introduzidas no campo tiveram papel fundamental nesse crescimento, porém outro fator que não pode ser desprezado foi o maior uso do adubo nas plantações. Responsável por fertilizar o solo, o adubo era muito caro, tendo seu preço cotado em ouro. Diversos estudos da época informavam sobre os diferentes tipos de adubo e como obtê-lo com as sobras das colheitas. Um tratado medieval recomendava: “nenhuma exploração senhorial venda seu restolho [sobras]. Apanhe a quantidade absolutamente indispensável para cobrir o telhado das casas. O resto deve ser enterrado no solo”. Além das sobras, outra importante fonte de adubo era o esterco, principalmente o do carneiro, considerado um dos melhores para a agricultura. Entretanto, o mais eficiente era o estrume de pombo, usado, em geral, para fertilizar as hortas. Os senhores feudais mandavam construir em suas propriedades pombais que funcionavam como verdadeiras fábricas de esterco. A construção de pombais era privilégio exclusivo desses senhores. O esterco de pombo só perdeu importância na Europa no século XIX, com a introdução do adubo artificial. Ao longo dos séculos, os agricultores têm procurado novas formas de melhorar a produtividade de suas lavouras. Atualmente, a pesquisa científica vem contribuinO esterco de pombo era um adubo precioso para o trato da agricultura do para notáveis avanços na produrante a Idade Média. Acima, iluminura francesa do século XV dutividade agrícola, como o merepresentando uma parte das terras de um senhor feudal na qual se lhoramento de sementes, o uso de pode ver um pombal, alguns trabalhadores e pombos sobre a neve.

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lençóis freáticos, provocar danos à saúde do trabalhador rural que entra em contato com esses defensivos agrícolas e afetar a saúde do consumidor, que ingere alimentos com produtos químicos. O Brasil é o país que mais gasta na compra desses defensivos para plantas: são cerca de 2,5 bilhões de dólares por ano. Em reação a esse uso indiscriminado de produtos químicos, um número crescente de agricultores vem investindo no plantio orgânico. Trata-se de um tipo de agricultura caracterizado pelo uso de fertilizantes naturais, como o lixo orgânico, e a não utilização de insumos químicos.

Enquanto os cientistas não encontram formas menos agressivas de proteger as plantações, alguns cuidados podem ser tomados: • Frutas e vegetais grandes ou bonitos demais podem ser resultado do uso abusivo de insumos químicos; • Antes de consumir frutas, legumes e hortaliças é importante lavá-los muito bem; • Pode ser mais seguro comprar os alimentos de produtores conhecidos ou adquirir produtos identificados na embalagem como orgânicos. Fontes: GIMPEL, Jean. A revolução industrial da Idade Média. Rio de Janeiro: Zahar,1977; HAGEN, Rose-Marie; HAGEN, Rainer. Los secretos de las obras de arte. Tomo I. Madrid: Taschen, 2005. v. 1; Revista Envolverde. Disponível em: <www.envolverde.org.br>. Acesso em: 21 out. 2012.

A circulação de moedas levou os senhores feudais a preferir que o pagamento das taxas devidas pelos camponeses fosse feito em dinheiro, e não mais na forma de trabalho (corveia) ou em produtos. Esse processo de monetarização contribuiu para o enfraquecimento das relações tipicamente feudais.

bolo de poder e riqueza. Atentos a esses novos hábitos de consumo, os mercadores de cidades da península Itálica, como Gênova e Veneza, e mais tarde de outras regiões do continente intensificaram o comércio com o Oriente para trazer esses artigos até a Europa. Sobre essa atividade, veja o boxe Os mercadores reativam a economia, a seguir.

A retomada do comércio

Feiras e cidades

Outro fator que estimulou a circulação de mercadorias foram as Cruzadas. Ao retornarem à Europa, muitos cruzados de origem nobre traziam consigo produtos do Oriente de grande aceitação no mercado europeu, principalmente especiarias – como cravo, canela, pimenta e noz-moscada – e seda da China. O aumento da oferta desses produtos aguçava o desejo dos europeus ricos de exibi-los como sím-

A intensificação do comércio provocou o aparecimento de feiras regulares nos cruzamentos das rotas comerciais percorridas pelos mercadores, como as de Champagne (na atual França), Bruges (Bélgica atual; veja a seção Olho vivo, nas páginas 192 e 193), Sevilha (península Ibérica) e Pisa (península Itálica), entre outras. O afluxo de pessoas aumentou tanto que os locais onde se realizavam algumas feiras acabaram se transformando em cidades.

Os mercadores reativam a economia No cenário da Europa medieval, a possibilidade de obter lucro com a compra e venda de mercadorias locais ou provenientes de regiões longínquas deu origem a diversos tipos de comerciantes ambulantes: mascates, mercadores de feira, grandes mercadores, etc. Inicialmente, essas pessoas faziam suas compras e vendas em regiões próximas umas das outras. Com as Cruzadas, o interesse por maio-

res lucros foi atiçado e os comerciantes passaram a percorrer toda a Europa. Nesses negócios, eram deixadas de lado as divergências religiosas. Até mesmo os muçulmanos, condenados como infiéis pela Igreja, tornaram-se parceiros comerciais dos europeus. Procurando garantir seus lucros e organizar-se enquanto grupo, os mercadores criaram algu­ mas associações. A maior de todas foi a Gran­de

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Hansa Germânica, ou Liga Hanseática, que em 1356 chegou a reunir cerca de 150 cidades do Sacro Império Romano-Germânico. Entre as medidas adotadas por ela destacaram-se a criação de regras comuns de comércio e a padronização de pesos e medidas. Graças às atividades mercantis, surgiram também os primeiros seguros contra perda ou roubos de carga e se disseminou o uso de instrumentos comerciais e financeiros, como letras de câmbio e registros de contabilidade. As atividades bancárias foram reativadas, sob o controle principalmente de judeus, lom* Veja o filme bardos e integrantes Arn: o cavaleiro da Ordem dos Temtemplário, de Peter plários* (ordem de caFlinth, 2007. valaria surgida com as Cruzadas), e se espalharam por diversas regiões da Europa. Os empréstimos a juros, condenados pela Igreja, tornaram-se frequentes, e os mercadores, inicialmente desprezados pelos nobres, conquistaram espaço e posição social.

Dois vendedores, um de frutas, o outro de cereais, comerciam suas mercadorias em um mercado medieval. Iluminura atribuída a Cristoforo de Predis (c. 1440-1486).

Rotas comerciais na Europa no fim da Idade Média 30º L

LEGENDA

Bergen

Importantes cidades comerciais

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Mar do Norte

Principais centros do comércio mediterrâneo

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Rota de caravanas da Índia e da China Ri o

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Outras rotas terrestres

Rota de caravanas da Ásia Central e da China

Smolensk

Lübeck Hamburgo

Dantzig Bremen R io Magdeburgo O Bruges de Calais Leipzig r Breslau Colônia Gand Amiens Douai Praga Frankfurt Reims Paris Nuremberg Ratisbona Rio Loire Viena Estrasburgo Bar Budapeste La Rochelle Bristol

Principais rotas terrestres

ESCALA 300

Riga

Königsberg

Principais rotas marítimas

OCEANO ATLÂNTICO

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Novgorod

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Feiras

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Estocolmo

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Damasco São João d'Acre Jerusalém

Alexandria

Damieta

Tiro

ÁSIA

Cairo Rota de caravanas do Tombuctu

Rota de caravanas de Meca e lêmen

Fonte: World History Atlas – Mapping the Human Journey. London: Dorling Kindersley, 2005.

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A economia urbana Tanto as cidades novas como as antigas – agora reanimadas pelo comércio – assumiram caráter econômico, transformando-se em zonas de produção artesanal e em centros comerciais. Além dos negociantes, elas começaram a ser procuradas por senhores feudais endividados e por servos e vilões que fugiam da opressão dos feudos. No campo, além de trabalhar na terra, os camponeses estavam acostumados a produzir artigos como sapatos, roupas, ferramentas e armas. Isso porque o enfraquecimento do comércio em toda a fase anterior obrigava os feudos a se autoabastecerem desses produtos. Assim, ao chegar à cidade, muitos desses camponeses passaram a se dedicar a atividades artesanais nas pequenas oficinas existentes. Esses estabelecimentos funcionavam com base em uma divisão simples e hierárquica do trabalho. Dono do empreendimento, ao mestre cabia o lucro obtido com

a venda das mercadorias. Abaixo dele, na qualidade de empregados, estavam os oficiais ou jornaleiros. Havia também os aprendizes, trabalhadores que normalmente ingressavam na oficina ainda crianças ou adolescentes para aprender um ofício. Seus pais custeavam a aprendizagem por um período de dois a doze anos, com o objetivo de verem seus filhos transformados em mestres. A partir de meados do século XII, os mestres passaram a se congregar nas chamadas corporações de ofício, associações nascidas com o objetivo de defender os interesses coletivos das diferentes categorias profissionais de artesãos, como a dos sapateiros, a dos marceneiros, a dos tecelões, etc. No início, as corporações tinham como preocupação garantir a qualidade das mercadorias e impedir que as oficinas produzissem em excesso para evitar a queda do preço final dos artigos. Mais tarde, elas passaram a funcionar como um sistema que inibia a ascensão profissional dos trabalhadores mais pobres – os oficiais. Isso porque as exigências para que uma pessoa se tornasse mestre se tornaram cada vez mais rigorosas: além de pagar uma taxa, os candidatos deveriam comprovar que eram filhos legítimos e tinham de produzir uma peça a ser avaliada por uma comissão de mestres. O título só seria concedido caso a peça fosse considerada uma obra-prima. Nas oficinas têxteis que se instalavam nas cidades, algumas atividades – como tecelagem, costura e bordado – eram realizadas normalmente por homens. Quanto às mulheres, tosavam, cardavam, retiravam as irregularidades dos tecidos e ainda se encarregavam do acabamento das vestimentas. Em outros ramos, como os da metalurgia e da construção civil, as mulheres faziam serviços pesados: muitas trabalhavam como pedreiras, carpinteiras, ferreiras, etc. The Bridgeman Art Library/Keystone

Outros centros urbanos surgiram como resultado da expansão dos burgos, aglomerações formadas em torno de abadias ou de castelos. Nesse processo, as cidades passaram a ter importância cada vez maior na vida da sociedade medieval. Uma das expressões dessa crescente importância foram as catedrais góticas. Os moradores dos burgos eram conhecidos como burgueses. Muitos deles eram mercadores e artesãos sem vínculo ou obrigação para com o senhor feudal. Por isso, no século XI o termo burguês acabou se transformando em sinônimo de pessoa livre. Posteriormente, o termo passou a designar cada vez mais indivíduos pertencentes a grupos sociais detentores de dinheiro e dos meios de produção, como comerciantes, banqueiros e empresários. Entre 1100 e 1300, surgiram na Europa ocidental cerca de 140 novos centros urbanos. Como essas cidades se constituíam quase sempre dentro de feudos, seus habitantes tinham de pagar taxas e impostos aos senhorios. Interessados em conquistar sua independência, os burgueses lutavam para obter as chamadas cartas de franquia. Com essas cartas, os moradores de uma cidade poderiam administrá-la por conta própria, seja por meio de um conselho ou assembleia, seja pela eleição de um prefeito. Ao conquistarem a autonomia, os núcleos urbanos passaram a ser chamados na França de comunas; em Portugal e Espanha, de conselhos; na península Itálica, de repúblicas; e na região da atual Alemanha, de cidades-livres.

Três mulheres artesãs fiam um grande novelo de lã em iluminura francesa do século XIV. Por essa época, a lã era a principal matéria-prima da produção têxtil.

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Olho vivo

Cena de um casamento burguês

O crescimento das cidades e a expansão do comércio internacional fizeram com que a cidade de Bruges, na Bélgica atual, se tornasse o centro comercial mais importante do norte europeu. A pintura reproduzida nesta seção, executada em 1434 pelo holandês Jan van Eyck, reflete um pouco da riqueza que circulava em Bruges na época. Isso se observa pelo luxo das roupas e pela decoração do ambiente. Acredita-se que a pintura represente o casamento de Michele Arnolfini, banqueiro da cidade de Lucca (atual Itália) estabelecido em Bruges, com uma jovem flamenga oriunda de uma camada social inferior, Assinatura em lugar de destaque. Nela, o pintor escreveu em latim: “Jan van Eyck esteve aqui em 1434”.

Dar uma das mãos à mulher e levantar a outra em sinal de juramento são sinais de que se tratava de um casamento.

A laranja era artigo importado, de luxo. Simboliza também o pecado da luxúria, redimido com o casamento.

A imagem refletida mostra o próprio pintor, com roupas azuis, e outra pessoa como testemunhas do casamento.

Espelhos de cristal como este eram objetos raros e caros. Em geral, usava-se metal polido.

A capa é de veludo forrada com pele de lontra ou de marta.

Os pés descalços e com meias fazem alusão ao Antigo Testamento, segundo o qual o chão em que se pisa se torna sagrado durante o matrimônio.

O salto reforçado do tamanco indica que o noivo não era da aristocracia. Os aristocratas ou andavam a cavalo ou eram carregados em liteiras.

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Fontes: CUMMING, Robert. Para entender a arte. São Paulo: Ática, 2000; HAGEN, Rose-Marie; HAGEN, Rainer. Los secretos de las obras de arte. Madrid: Taschen, 2005. v. 1.

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cujo nome se desconhece. Há estudiosos, contudo, que afirmam se tratar do casamento do irmão de Michele, Giovanni de Arrigo, com Giovanna Cenami, oriunda de uma rica família da península Itálica. Na época, os casamentos não necessitavam de padres ou testemunhas, exceto quando um ou os dois cônjuges eram ricos e precisavam estabelecer os termos relativos à partilha dos bens. Aqui, Jan van Eyck, além de se retratar como testemunha (veja imagem refletida no espelho), também assina na tela uma declaração dizendo ter estado presente à cerimônia. Com isso, o quadro adquire o caráter de uma certidão de casamento. Jan van Eyck/National Gallery, London

A única vela acesa representa Deus, que tudo vê.

Presente típico do futuro marido para a noiva, o rosário de cristal sugere a pureza da mulher.

As cortinas eram fechadas à noite, separando a cama da sala.

O vestido é enfeitado com pele de arminho.

O ato de dar à noiva a mão esquerda costumava indicar que a mulher vinha de uma camada social mais baixa e devia renunciar aos direitos de herança. Por isso, alguns estudiosos afirmam que o noivo era Michele Arnolfini.

O ventre saliente era sinal de beleza na época, não indicando, necessariamente, gravidez.

Os panos vermelhos da cama simbolizam a paixão.

A cor verde do vestido simboliza fertilidade. Os vestidos brancos das noivas foram introduzidos na segunda metade do século XIX.

O cachorro simboliza o bem-estar, a fidelidade e o amor terreno.

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A passagem de uma sociedade de economia quase exclusivamente agrária para outra, caracterizada pela crescente participação de atividades urbanas, promoveu mudanças também na vida cultural e intelectual da Europa. Uma das mais importantes ocorreu no âmbito da educação, até então monopolizada pela Igreja. Para fugir a esse controle, reis e burgueses começaram a financiar a formação de escolas independentes. Estimulando o ensino da Dialética e da Lógica, e incentivando o pensamento crítico, essas escolas multiplicaram-se e tornaram-se mais importantes do que as monásticas. Também apareceram as primeiras universidades, pois os novos negócios exigiam profissionais com conhecimentos de idiomas, contabilidade, leis, etc. Inicialmente, as universidades eram especializadas em áreas específicas do saber. Na península Itálica, a de Salerno (século XI) ensinava Medicina e a de Bolonha (1088), Direito; na região da França atual, a de Paris (c.1200) era especializada em Artes e Teologia. Mas as cidades medievais não eram apenas local de trabalho, negócios e estudos. Eram também espaço de lazer. Nelas realizavam-se festivais com bastante comida, música e dança. Nas tavernas, o povo mais simples tomava vinho e cerveja, cantava músicas folclóricas de suas regiões de origem e praticava jogos, como o de dados. Ao longo do ano, as praças das cidades recebiam um grande afluxo de artistas mambembes que deixavam de lado o latim – idioma utilizado pelos eruditos – e se expressavam nas línguas faladas pela população: provençal, galego-português, italiano vulgar, etc. Era nessas línguas que os atores apresentavam peças de teatro diante das igrejas e os jograis e menestréis cantavam suas canções, acompanhadas de música. Junto à nobreza, surgiram os trovadores, poetas que declamavam seus versos com acompanhamento musical. Com eles nasceu a poesia trovadoresca, famosa por suas cantigas lírico-amorosas (as chamadas cantigas de amor e de amigo) ou satíricas (de escárnio e maldizer). Um dos trovadores mais conhecidos foi o rei dom Dinis, que governou Portugal entre 1279 e 1325. Entre os escritores, destacou-se o florentino Dante Alighieri (1265-1321), autor do poema A divina comédia, escrito em um dialeto toscano e considerado uma das obras mais importantes da literatura mundial. 194

Reprodução/Coleção particular, Berlim, Alemanha.

As primeiras universidades europeias

Aula em uma universidade medieval, gravura de Laurentius de Voltolina da metade do século XIV.

A crise do século XIV Todo esse florescimento ocorrido na Europa entre os séculos XI e XIII, contudo, sofreu sério abalo a partir do século XIV. Por essa época, uma conjunção de fatores levou os europeus a enfrentarem uma profunda crise econômica e social que transformou o continente em palco de diversas revoltas e lugar de desolação, medo, fome e morte. Um desses fatores foi a instabilidade econômica decorrente da conquista de territórios do Império Bizantino pelos turcos otomanos a partir do século XIV. Os bizantinos eram parceiros comerciais da Europa ocidental e seu declínio fez com que a economia europeia se retraísse. Além disso, nesse período a sociedade europeia foi assolada por secas prolongadas que prejudicaram a agricultura e deixaram parte da população sem alimentos. Em 1315 e 1316, a fome foi tão grande que, segundo alguns relatos, muitas pessoas recorreram ao canibalismo no Sacro Império Romano-Germânico. Para piorar, em meados do século XIV a Europa viveu uma das maiores catástrofes da sua história: a peste negra*. A doença, conhecida modernamente como peste * Veja o filme bubônica, chegou em 1347 por O sétimo selo, de Ingmar meio de um navio genovês vindo Bergman, 1956. do Oriente e espalhou-se rapidamente pelo continente. A enfermidade era transmitida pela pulga de ratos contaminados e pelo contato com pessoas infectadas. Como mostra o boxe a seguir, as péssimas condições de vida e de higiene de boa parte da população facilitaram a proliferação da doença, que é extremamente letal.

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A propagação da peste negra A privacidade não tinha grande importância para a população da Idade Média. Mesmo famílias de posse tinham uma cama larga na qual dormiam várias pessoas; os pobres podiam não ter cama, mas também dormiam num mesmo recinto. [...] Quando um de seus membros adoecia, era tratado pelos demais. Entretanto, como todos habitavam

Extraído de: UJVARI, Stefan Cunha. A história e suas epidemias. Rio de Janeiro: Senac, 2003. p. 57.

Erich Lessing/Album Art/Latinstock

Calcula-se que entre as décadas de 1340 e 1350, a peste negra tenha matado cerca de 25 milhões de pessoas, ou seja, quase um terço de toda a população europeia. Muito do terror provocado pela epidemia foi descrito pelo escritor Giovanni Boccaccio (1313-1375) em sua obra Decamerão (veja a seção No mundo das letras, na página 197). As crises que atingiram o continente nesse período provocaram uma insatisfação generalizada entre a população (veja a imagem ao lado). No campo, senhores feudais tentavam, sem sucesso, impedir a fuga de camponeses para os centros urbanos e, para compensar seus prejuízos, aumentavam os impostos. Nas cidades, a alta burguesia impedia os artesãos de tentarem conquistar mais espaço nas decisões políticas dos governos municipais. Toda essa situação provocou revoltas urbanas e camponesas em diversos lugares da Europa. Tais sublevações enfraqueceram as relações feudais e contribuíram para o processo de centralização administrativa em torno dos reis. Havia já algum tempo, estes vinham tentando afirmar o poder das monarquias na Europa, como veremos no próximo capítulo.

um mesmo quarto, se essa pessoa tivesse a forma pulmonar da peste negra, poderia propagá-la ao tossir e expelir a bactéria transmissora. Caso fosse picada pelas pulgas, estas se infectariam e, por sua vez, transmitiriam a doença para os demais membros da família.

Em 1358, durante a Guerra dos Cem Anos entre a Inglaterra e a França, eclodiu nesta última uma revolta camponesa de grandes proporções. Marcada por uma extrema violência, essa revolta ficou conhecida como Jacquerie, cujo nome deriva de Jacques Bonhomme (Jacques simplório), como era conhecido seu líder, Guillaume Caillet. A partir de então, toda revolta camponesa na França passou a ser chamada de Jacquerie. Acima, iluminura representando a Jacquerie de 1358.

Enquanto ¡sso... As armas de fogo na Europa Inventada pelos chineses, a pólvora começou a ser utilizada em armas de fogo na Europa a partir do século XIV. O registro mais antigo de seu uso com essa finalidade no continente é uma ilustração de 1326, que mostra um canhão lançando uma flecha em direção a um castelo. No século XV, as flechas já haviam sido substituídas por bolas de ferro. Ainda no século XIV, surgiram na Europa as primeiras bestas – arma composta de um arco apoiado em uma haste – adaptadas ao uso da pólvora. As bestas já existiam, mas só nessa época começaram a disparar flechas propulsionadas pela força da pólvora. A partir delas surgiram as armas de fogo.

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De olho no mundo

The Bridgeman Art Library/Keystone

Pesquisa divulgada em 2010 pela Confederação Nacional dos Municípios revela que as taxas de homicídios decorrentes do uso de armas de fogo no Brasil beiram as de países envolvidos em guerras. Segundo o estudo, entre 1999 e 2008, 478  636 pessoas foram mortas a tiro no país. Dados mais recentes, divulgados pelo Ministério da

Saúde mostram que somente em 2010, 35,2 mil brasileiros morreram vítimas de armas de fogo, ou seja, ocorreram cerca de 96 assassinatos dessa maneira a cada dia. Junte-se a seus colegas de grupo e faça com eles uma pesquisa sobre o uso de armas de fogo no Brasil. O trabalho deve considerar as estatísticas a respeito de assassinatos por armas de fogo, as campanhas de desarmamento, os argumentos de quem procura adquirir uma arma e as formas de pressão da indústria de armamentos. O resultado final da pesquisa deve ser apresentado em forma de cartaz.

Batalha de Avrai (1364), na França, episódio da Guerra dos Cem Anos, em iluminura do século XV. Como se pode ver, nessa batalha as forças inglesas utilizaram canhões e outras armas de fogo (na parte de baixo da cena representada).

Organizando as ideias 1. A  partir do século XI, disseminaram-se por toda a Europa ocidental diversos avanços tecnológicos, especialmente na agricultura. Quais foram esses avanços e que impactos provocaram no cotidiano da população? 2. O  aumento do excedente agrícola vendido nos mercados propiciou o aumento da circulação de moedas, contribuindo para a expansão do comércio. Explique de que modo as Cruzadas também tiveram papel relevante na dinamização do comércio. 3. De que modo os mercadores se transformaram num grupo social importante para a atividade econômica da Europa a partir do século XI? 4. Com as transformações da agricultura e do comércio, as cidades também se modificaram, pro-

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vocando uma verdadeira “explosão” urbana. Explique como se originou essa “explosão” e que transformações ocorreram nessa época na vida econômica e social da Europa. 5. N  o século XII, as corporações de ofícios surgiram como resultado da expansão das atividades artesanais. Como funcionavam e que papel exerceram na organização dessas atividades? 6. Descreva as transformações da noção de “burguês” a partir do século XI. 7. O  desenvolvimento das cidades e a expansão das atividades urbanas e comerciais provocaram transformações na vida cultural e na educação europeias. Faça uma síntese dessas transformações.

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No mundo Das letras A peste negra em Florença

Afirmo, portanto, que tínhamos atingido já o ano [...] de 1348, quando, na mui excelsa cidade de Florença, cuja beleza supera a de qualquer outra da Itália, sobreveio a mortífera pestilência. [...] Em Florença aparecia no começo, tanto em homens como nas mulheres, ou na virilha ou na axila, algumas inchações. Algumas destas cresciam como maçãs; outras, como um ovo; cresciam umas mais, outras menos; chamava-as o populacho de bubões. Dessas duas referidas partes do corpo logo o tal tumor mortal passava a repontar e a surgir por toda parte. Em seguida, o aspecto da doença começou a alterar-se; começou a colocar manchas de cor negra ou lívidas nos enfermos. Tais manchas estavam nos braços, nas coxas e em outros lugares do corpo. [...]

1. Com base na leitura desse trecho e do capítulo, explique o que foi a peste negra e como ela se propagou pela Europa no século XIV. 2. De acordo com o texto, de que maneira a peste negra afetou o cotidiano da cidade de Florença? 3.  Quando se espalhou pelo mundo, nos anos 1980, a Aids chegou a ser comparada à peste negra, em virtude de seu alto índice de mortalidade. Hoje, apesar de os remédios prolongarem a vida dos pacientes, sua cura ainda não foi descoberta. Mas certos cuidados podem evitar a contaminação. Com seus colegas de grupo, façam uma pesquisa e elaborem um cartaz sobre as formas de transmissão e prevenção dessa doença. The Bridgeman Art Library/Keystone

O escritor italiano Giovanni Boccaccio (1313-1375) testemunhou de perto o drama da peste negra na Europa. Muito do que ele viu a esse respeito foi descrito na centena de contos que compõem o livro Decamerão, que começou a ser escrito em 1348, um ano após a chegada da doença ao continente, e foi finalizado em 1353. Após a leitura do texto a seguir, responda ao que se pede.

Essa peste foi de extrema violência; pois ela atirava-se contra os sãos, a partir dos doentes, sempre que doentes e sãos estivessem juntos. [...] Entre tanta aflição e tanta miséria de nossa cidade, a reverenda autoridade das leis, quer divinas, quer humanas, desmoronara e dissolvera-se. Ministros e executores das leis, tanto quanto os outros homens, todos estavam mortos, ou doentes, ou haviam perdido os seus familiares, e assim não podiam exercer nenhuma função. Em consequência de tal situação, permitia-se a todos fazer aquilo que melhor lhes aprouvesse. [...] Diziam que não havia remédio melhor, nem tão eficaz, contras as pestilências, do que abandonar o lugar onde se encontravam, antes que essas pestilências ali surgissem. Induzidos por essa forma de pensar, não se importando fosse com o que fosse, a não ser com eles mesmos, inúmeros homens e mulheres deixaram a própria cidade, as próprias moradias, seus lugares, seus parentes e suas coisas. BOCCACCIO, Giovanni. Decamerão. São Paulo: Abril Cultural, 1970. p. 13-16.

Retrato de corpo inteiro do escritor Giovanni Boccaccio, autor do Decamerão, em afresco do século XV.

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Fechando a unidade

Diversidade religiosa Mauricio Simonetti/Pulsar Imagens

DOCUMENTO 1 – Artigo

Os três documentos a seguir abordam a diversidade religiosa. O primeiro é um artigo de Martha Nussbaum, professora norte-americana de Direito; o segundo é um registro fotográfico de um encontro de religiosos de várias crenças em Auschwitz, na Polônia; o terceiro é uma reprodução do quadro A regra de ouro (1961) do pintor norte-americano Norman Rockwell.

Intolerância Às vezes as ideias antigas são as mais perigosas, e poucas ideias são tão antigas quanto aquelas por trás da intolerância religiosa. Lamentavelmente, tais ideias estão recobrando nova vida. Em 2002, hinduístas de Gujarat, na Índia, massacraram várias centenas de muçulmanos, com a ajuda de funcionários públicos e da polícia. Recentemente, a Europa testemunhou um assustador renascimento do antissemitismo, ao mesmo tempo que vem crescendo, no mundo muçulmano, a atração por formas radicais do islã. O preconceito contra os muçulmanos e uma tendência a identificar o islã ao terrorismo são mais do que evidentes nos Estados Unidos. Os exemplos são incontáveis. A intolerância gera intolerância, na medida em que manifestações de ódio alimentam inseguranças existentes e permitem que as pessoas vejam suas próprias agressões como atos legítimos em defesa própria.

DOCUMENTO 2 – Fotografia

Fabian Bimmer/AP Photo/Glow Images

Extraído de: Nussbaum, Martha. O céu de cada um. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/050105/martha_nussbaum.html>. Acesso em: 17 out. 2012.

Da esquerda para a direita: a muçulmana Sevgi Uenver, o judeu Ron Rossbach, o cristão Michael Hoerter e o líder espiritual tibetano Dalai Lama, em um encontro inter-religioso em Hamburgo, Alemanha, realizado em julho de 2007.

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Norman Rockwell/Museu Norman Rockwell, Stockbridge

DOCUMENTO 3 – Pintura Tela do artista gráfico e pintor norte-americano Norman Rockwell (1894-1978) intitulada A regra de ouro. A cena representada simboliza e preconiza simultaneamente a tolerância entre os povos, retratando a convivência pacífica numa situação de diversidade étnica e religiosa. Essa diversidade se manifesta nos vários biotipos e nas diferentes indumentárias utilizadas pelos personagens em cena.

Reflita e responda 1. No documento 1, a autora afirma que “intolerância gera intolerância”. Aponte situações cotidianas ou exibidas pelos meios de comunicação que justifiquem essa opinião. 2. Os documentos 2 e 3 fazem alusão à importância da diversidade religiosa para o convívio humano. Faça uma síntese do significado das duas imagens. 3. C  om base nesses documentos e nas reflexões apresentadas nesta unidade, reflita sobre o que você pode realizar na sua vida cotidiana que contribua para diminuir a intolerância e ampliar o respeito à diversidade religiosa.

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Unidade

Patti McConville/Alamy/Other Images

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Soberania e Estado nacional

L

Estevão Ribeiro/Acervo do cartunista

ocalizado no nordeste da África, o Sudão viveu entre 1983 e 2005 uma guerra civil cujas origens estavam relacionadas às disputas por terra na região de Darfur, no oeste do país. O conflito envolve grupos nômades africanos de língua árabe e povos não árabes. Essa guerra provocou a morte de 2 milhões de pessoas e fez com que 4 milhões de sudaneses abandonassem seus lares, tornando-se refugiados. Para agravar a situação, o próprio presidente do Sudão, Omar Hassan, foi acusado de financiar e armar milícias árabes que teriam praticado verdadeiro genocídio contra a população não árabe de Darfur. Face a essas acusações, o presidente sudanês foi julgado em 2009 pelo Tribunal Penal Internacional (TPI). O TPI é uma corte de justiça internacional e autônoma, sediada em Haia, na Holanda, e reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU). Os integrantes do júri consideraram Omar Hassan culpado e emitiram um mandado de prisão contra o chefe de Estado sudanês. Essa foi a primeira vez na história moderna que um chefe de Estado no exercício de suas funções foi indiciado por uma corte internacional. Como era previsível, o veredito gerou grande polêmica. O governo sudanês afirmou que não entregaria Omar Hassan às autoridades internacionais, e os países aliados do Sudão criticaram a decisão do Tribunal. Seja como for, caso Omar Hassan viaje para o exterior, ele pode ser detido pela polícia de outros países.

A tira de Estevão Ribeiro retrata a influência exercida pelo Fundo Monetário Internacional nos governos dos países.

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Bandeiras de vários países em frente à sede das Nações Unidas, em Nova Iorque. Foto de 2012.

Essa situação ilustra uma discussão cada vez mais frequente em nossos dias: até que ponto podemos falar em soberania das nações e dos Estados nacionais? Para alguns especialistas, o aumento da interdependência entre os povos e da interferência de organismos supranacionais em assuntos considerados internos de diversos países vem esvaziando ou relativizando o conceito de Estado nacional. Alguns estudiosos chegam a afirmar que, face à existência de órgãos supranacionais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), responsável por regular o comércio mundial, e o Fundo Monetário Internacional (FMI), que cuida do funcionamento do sistema financeiro mundial, o atual modelo de Estado tende a desaparecer. Para outros pensadores, a existência de instituições supranacionais e a vigência de um sistema de justiça que opere de forma internacional – como é o caso do TPI – configuram mudanças substanciais na relação entre as nações, mas não implicam o desaparecimento do Estado nacional. Para compreendermos melhor as implicações e o alcance desse debate, precisamos estudar as origens do Estado nacional, em que circunstâncias históricas ele foi produzido e qual foi sua evolução. Precisamos remontar, assim, ao final da Idade Média, quando começaram a se constituir as monarquias nacionais, e avançar até os séculos XVI e XVII, quando o Estado moderno assumiu a forma de Estado absolutista. É o que faremos nesta unidade.

COMEÇO DE CONVERSA 1. Você conhece algum exemplo ou situação contemporânea na qual tenha havido

interferência de instituições supranacionais ou de outros países em assuntos que envolvessem o governo brasileiro? Em caso de resposta afirmativa, descreva a situação em que ocorreu essa interferência e emita sua opinião a respeito. 2. Você considera que o Estado nacional deve ter autonomia absoluta sobre o seu

território ou, ao contrário, diante de certas situações os Estados devem se submeter a organismos internacionais? 201

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Capítulo 25

A formação do Estado moderno Objetivos do capítulo The Bridgeman Art Library/Keystone

Essa situação começou a mudar a partir do século XI, quando teve início um lento processo de centralização do poder nas mãos dos reis. A formação das primeiras monarquias nacionais europeias é o tema deste capítulo.

Look and Learn/Peter Jackson Collection/The Bridgeman/Keystone

Existem atualmente 196 Estados soberanos no mundo. Todos contam com unidade territorial, sistemas jurídico e econômico unificados e mecanismos centralizados de arrecadação de impostos para custear as despesas com saúde, educação, forças armadas, funcionalismo público, etc. Tal forma de organização é fenômeno relativamente recente na História. Durante a Idade Média na Europa ocidental, por exemplo, muitas das atividades hoje atribuídas ao Estado, como a cobrança de impostos, a defesa territorial e a aplicação da justiça, estavam sob a responsabilidade dos senhores feudais, que concentravam um enorme poder dentro dos limites de suas terras.

Perceber as disputas, os mecanismos e as estratégias empreendidas pelos reis para a centralização do poder. Identificar o papel e as reações dos diferentes grupos sociais – burguesia, nobreza, clero e as camadas baixas (camponeses pobres) – durante esse processo. Conhecer os principais acontecimentos e interesses envolvidos no processo de formação das primeiras monarquias nacionais europeias.

A Rainha como chefe do Parlamento. Gravura inglesa do século XIX representando a rainha Elizabeth, que governou a Inglaterra entre 1558 e 1603, diante dos parlamentares ingleses.

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A “explosão” comercial e urbana iniciada no século XI na Europa ocidental, como vimos, deu lugar ao surgimento de um novo grupo social: a burguesia, formada principalmente por mercadores. Entretanto, a fragmentação política e econômica dos reinos em feudos dificultava a expansão dos negócios. Como poderiam os comerciantes calcular o preço de seus produtos se os senhores feudais dos lugares pelos quais eram obrigados a passar com suas mercadorias utilizavam moedas, pesos e medidas diferentes? Além disso, a quem se queixar contra os abusos praticados por esses senhores? Reagindo a essa situação, os burgueses procuraram se aproximar dos reis, em busca de ajuda. Alguns monarcas, interessados em ter acesso ao dinheiro da burguesia, passaram a adotar medidas em favor desse grupo social. Em algumas regiões, também os senhores feudais recorriam ao rei em busca de apoio militar para conter rebeliões camponesas em seus feudos, ou para intermediar disputas com outros senhores. Ao mesmo tempo, nas camadas baixas da sociedade muitas pessoas começaram a ver no soberano um defensor dos pobres contra a opressão dos senhores feudais. Dessa forma, o rei foi deixando pouco a pouco de ser mais um senhor feudal entre muitos. Na qualidade de árbitro de disputas e protetor de certos grupos sociais, seu poder tornou-se cada vez maior. Essa mudança foi lentamente acompanhada de alterações importantes no sistema de lealdades. As pessoas que no auge do feudalismo deviam prestar em primeiro lugar lealdade ao senhor feudal ao qual estavam ligadas voltavam-se agora para o rei, que passava a ser o principal destinatário de sua lealdade. A partir do século XI, de forma lenta e gradual, por meio da ação política ou da força, os monarcas submeteram à sua autoridade os poderes locais, centralizaram o comando do exército, estabeleceram fronteiras para seus territórios e colocaram os habitantes dessas regiões sob seu poder. Nasciam assim as monarquias nacionais europeias, também chamadas por alguns historiadores de monarquias feudais. A seguir veremos como esse processo se manifestou em algumas regiões da Europa.

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A inglaterra sob os normandos

Em 1066, a Inglaterra foi invadida por um exército normando comandado por Guilherme, o Conquistador, duque da Normandia – região da França. Depois de vencer os saxões na Batalha de Hastings, Guilherme tornou-se rei da Inglaterra. Diversamente do que ocorria em outras regiões da Europa, o novo monarca centralizou o poder, obrigou os homens livres a lhe prestarem juramento de vassalagem e aprimorou o sistema de cobrança de impostos. Após a morte de Guilherme, em 1087, o fortalecimento do poder real iniciado por ele prosseguiu. Sobretudo no reinado de Henrique II* (1154-1189), que adotou um conjunto de leis a * Veja o filme O ser aplicado em toda a Inglaterra, leão no inverno, a Common Law, enfraquecendo de Anthony Harvey, 1968. ainda mais a nobreza. As datas entre parênteses após o nome dos reis referem-se ao período em que eles estiveram no poder.

The Art Archive/Corbis/Latinstock

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o fortalecimento do poder real

Detalhe da Tapeçaria Bayeux (século XI) representando um aspecto da Batalha de Hastings, travada em 1066 e na qual o duque normando Guilherme, o Conquistador, derrotou as forças do rei saxão Haroldo II e conquistou a Inglaterra.

A Carta Magna e o Parlamento inglês Cada vez mais afastados do centro de decisões, os senhores feudais procuraram reagir contra essa política centralizadora. Sua primeira grande vitória ocorreu em 1215, quando um grupo de nobres, chamados genericamente de “barões”, cercou o rei João A formação do Estado moderno Capítulo 25

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Sem-Terra (1199-1216) e suas tropas às margens do rio Tâmisa. Após alguns dias de luta, o monarca concordou em atender às exigências de seus adversários contidas em um documento que passou à História com o título de Carta Magna. Embrião das futuras garantias gerais do povo inglês, a Carta Magna tinha por objetivo assegurar apenas os direitos dos grupos sociais mais ricos, estabelecendo limites para o poder real. Impedia o rei, por exemplo, de aumentar impostos e criar leis sem a aprovação do Grande Conselho – assembleia formada por representantes da nobreza e do alto clero – e assegurava proteção contra arbitrariedades do poder monárquico. No século XIII, o Grande Conselho passou a ser chamado de Parlamento. Em 1350, ele foi dividido em duas Câmaras: a dos Lordes – formada por nobres e clérigos – e a dos Comuns – composta de burgueses e cavaleiros, grupos que até então não contavam com um canal de expressão de seus interesses.

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As origens da França

A gradativa unificação dos diversos feudos em um único Estado na França começou por volta de 987, ano em que a dinastia dos capetíngios chegou ao poder. A partir do século XI, atendendo às demandas da burguesia, os reis capetíngios garantiram a segurança das estradas e restauraram a salvaguarda, figura jurídica que colocava as cidades sob a proteção real. Tais medidas contribuíram para a expansão do comércio e ajudaram a elevar o prestígio do rei junto à população. Para algumas pessoas, o rei passou a ser visto como protetor da paz, defensor de camponeses e burgueses e amigo dos pobres. Um dos capetíngios que mais contribuíram para esse processo de centralização política foi Filipe II (1180-1223). Entre outras medidas, ele convidou representantes da burguesia para trabalhar em seu governo e delegou a agentes administrativos – os bailios – a tarefa de cobrar impostos, fiscalizar o comércio e intermediar disputas entre senhores feudais (antes, eram estes que cobravam os impostos). Já o rei Luís IX (1226-1270), mais tarde canonizado como São Luís, instituiu uma moeda de circula-

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ção nacional (antes, cada senhor feudal podia cunhar sua própria moeda) e ampliou o poder dos tribunais do rei, em detrimento dos tribunais controlados pelos senhores feudais.

Confronto com a Igreja Particularmente importante nesse processo foi o reinado de Filipe IV, o Belo (1285-1314), que obrigou o clero a pagar impostos (antes, o clero era isento dessa obrigação). Como o papa Bonifácio VIII se opunha à medida, Filipe convocou uma assembleia de representantes da nobreza, do clero e da burguesia. Reunida em 1302 e conhecida como Estados Gerais, a assembleia aprovou a cobrança do imposto. Ao mesmo tempo, Filipe IV proibiu que a renda das propriedades da Igreja na França fosse enviada a Roma. Após a morte de Bonifácio VIII em 1303, foi eleito um papa francês, Clemente V, que, sob pressão de Filipe IV, transferiu, em 1309, a sede do papado para Avignon, na França, onde ela ficaria até 1377. A concentração de poderes nas mãos do rei não se restringiu a medidas contra a nobreza e o clero, mas implicou também a mobilização dos sentimentos de identidade nacional do povo francês, sobretudo a partir da Guerra dos Cem Anos (1337-1453), travada contra a Inglaterra (veja o boxe na página seguinte).

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cristãos × mouros

Nos primeiros séculos da era cristã, a península Ibérica era uma província do Império Romano conhecida como Hispânia. Com as conquistas germânicas do século V, ela foi ocupada por diversos povos, entre eles os visigodos, que se converteram ao cristianismo. Em 711, quase toda a península caiu sob o domínio dos árabes muçulmanos (veja o boxe da p. 206). Sete anos mais tarde, cristãos refugiados nas montanhas das Astúrias, no norte da península, deram início a ações de resistência con- * Veja o tra o domínio muçulmano. Com es- filme El Cid, sas ações começava a Reconquista*, de Antony Mann, 1961. conjunto de lutas empreendidas pelos cristãos com o objetivo de recuperar as terras perdidas para os muçulmanos e expulsá-los da península.

Unidade 5 Soberania e Estado nacional

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A Guerra dos Cem Anos

De olho no mundo Ainda hoje, muitos povos lutam pelo direito de constituir seu próprio Estado: curdos na Turquia e no Iraque, bascos na Espanha, palestinos no Orien-

Foi somente a partir do século XI, porém, que a ofensiva contra os muçulmanos se tornou sistemática. Pouco a pouco, ao longo de quase quatro séculos, caíram um após outro os centros da cultura árabe: Toledo (1085), Córdoba (1236), Sevilha (1248), Cádiz (1262). O último reduto foi Grana-

te Médio, entre outros. Com seu grupo de colegas, escolha um desses povos e faça uma pesquisa sobre ele. Depois, debata a situação em que tal povo se encontra hoje, procurando identificar os fatores que o impedem de formar seu próprio Estado. Monte um cartaz informativo, com mapas e dados da sua pesquisa a ser apresentado à classe e afixado nos murais (ou paredes) da escola, após a autorização do professor. RMN-Réunion des Musées Natinaux/Agence Bulloz/Other Images

Guerra dos Cem Anos é o nome pelo qual ficaram conhecidos os conflitos entre a Inglaterra e a França ocorridos entre 1337 e 1453. Entre os fatores que a desencadearam destacam-se as disputas entre dinastias pelo controle da coroa da França e o desejo da Inglaterra de dominar a região de Flandres, na Bélgica atual, produtora de tecidos e sob controle francês. O conflito começou quando tropas inglesas invadiram a França visando unir as duas coroas – Eduardo III, rei da Iglaterra e neto de Filipe, o Belo, por parte de mãe, se dizia herdeiro legítimo do trono francês, que passara a ser disputado por vários pretendentes desde a morte de Filipe, em 1314. Durante o conflito, os dois reinos alternaram períodos de vitórias e derrotas, mas a França acabou favorecida no balanço final, pois expul­sou os ingleses de seu território e consolidou a monarquia. Um dos pontos de apoio dessa consolidação foi a formação de um nacionalismo embrionário entre a população, para o qual muito contribuiu a ação de Joana d´Arc* (1412-1431), jovem camponesa de 18 * Veja o filme anos que se dizia enviada por Joana d´Arc, de Luc Besson, Deus para salvar a França. Com 1999. essa mensagem, ela injetou novo ânimo no exército francês, colocando-se à sua frente numa época em que a França perdia o confronto. Em 1430, Joana d´Arc foi capturada e condenada à morte na fogueira, acusada de heresia pelos ingleses. Canonizada mais tarde pela Igreja católica, é hoje considerada heroína do povo francês.

Joana d’Arc, representada em iluminura do século XV. Ela conduziu os franceses a uma reação contra a invasão inglesa e contribuiu decisivamente para a formação de um forte sentimento de identidade nacional na França.

da, retomada pelos cristãos em 1492 (veja o mapa da p. 206). À medida que os muçulmanos eram expulsos, reinos e condados cristãos expandiam seus territórios. Lentamente, esse processo levaria à formação de dois Estados independentes: Portugal e Espanha. A formação do Estado moderno Capítulo 25

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Os muçulmanos na península Ibérica

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Os árabes influenciaram fortemente a agricultura e o artesanato na península Ibérica, onde eramCASTELA chamadosARAGÃO LEÃO de mouros. Após a conquista, surgiram pomares e hortas e foram introduzidas culturas até então desconhecidas o Eb ro 40º na região, como o arroz, a cana-de-açúcar e a amoreira. A mineração, praticada na península desde a Antiguidade, intensificou-se. A confecção de tecidos de Rio Tejo Toledo algodão, de lã e de seda e o trabalho em couro também prosperaram. Os árabes foram os iniciadores do faCALIFADO DE Lisboa brico de papel em Toledo. Valência CÓRDOBA0º 0º 1000 1000 Entre as tantas inovações trazidas pelos muçulmanos, a mais importante estava ligada à arte da navegaSantiago de

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Córdoba de n ção. O contato com osSantiago muçulmanos influenciou o aprimoramento daCompostela indústria naval e NAVARRA de diversos instrumenrrâ Compostela NAVARRA dite e ARAGÃO tos náuticos, que se fariam essenciais às Grandes Navegações iniciadas no séculoCASTELA XV. ARAGÃO LEÃO ar M CASTELA LEÃO

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Fontes: ABRANSON, M.; GUREVITCH,o A.; KOLESNITSKI, N. Eb ATLÂNTICO ro Estampa, 1978; 40ºIdade Média: do século XI ao século XV. Lisboa: Eb História da ro RAMOS, Fábio Pestana. No tempo das especiarias: o império da pimenta e do açúcar. Rio Tejo Toledo São Paulo: Contexto, 2004. Ri

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Fonte: World History Atlas: Mapping the Human Journey. London: Dorling Kindersley, 2005.

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A formação de Portugal

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A espanha e a inquisição

Até as últimas décadas do século XV, o atual território da Espanha encontrava-se dividido em diversos reinos, como Leão, Aragão e Castela. Havia ainda, ao sul, o reino de Granada, último reduto muçulmano na península Ibérica. Em 1469, Fernando, rei de Aragão, casou-se com Isabel, filha do rei de Castela. Com a morte do pai, Isabel tornou-se rainha de Castela. Ela e Fernando decidiram então unir as duas coroas, dando origem ao reino de Aragão e Castela. Era o primeiro passo para a formação da Espanha moderna.

De Agostini Picture Library/Getty Images

No final do século XI, o rei Afonso VI, de Leão e Castela (reinos que, juntamente com outros, formariam mais tarde a moderna Espanha), concedeu ao nobre francês Henrique de Borgonha o Condado Portucalense, feudo situado no oeste da península. Anos mais tarde, em 1142, Afonso Henriques, filho de Henrique de Borgonha, declarou-se rei e proclamou a independência do Condado, que passou a se chamar Portugal. Por 240 anos, os reis da dinastia de Borgonha, fundada por Afonso Henriques, viveram em constante conflito com o reino de Castela. Nesse período, expandiram o território português em direção ao sul e fizeram de Lisboa capital do novo reino. Em 1383, com a morte do último rei da dinastia de Borgonha, Castela tentou anexar Portugal aos seus domínios. Diante disso, a sociedade portuguesa se dividiu entre os favoráveis e os contrários à anexação. A luta foi decidida em 1385, a favor dos que defendiam a independência de Portugal – facção formada pelos mercadores, por uma parte da nobreza e pelos setores mais pobres da população –, que colocaram no trono o mestre da ordem militar da cidade

de Avis, dom João. O episódio tornou-se conhecido como Revolução de Avis. Consolidava-se assim o poder monárquico em Portugal. Ao assumir o trono com o título de dom João I, o mestre de Avis deu início a uma ampla política de favorecimento da burguesia. Tal política, seguida também pelos sucessores de dom João I, criou as condições necessárias para que Portugal sobressaísse nas áreas tecnológica e militar e se lançasse ao mar em busca de novos territórios, como veremos no capítulo 28.

Azulejo português do século XVIII retrata a vitória de Aljubarrota contra os castelhanos, ocorrida em 14 de agosto de 1385. O episódio demarca o fim da Revolução de Avis e o início da dinastia de Avis.

A formação do Estado moderno Capítulo 25

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cadas sob tortura. O réu considerado culpado era geralmente condenado à morte na fogueira. As pessoas perseguidas tinham seus bens confiscados e divididos entre o Estado e a Igreja. Assim, o Tribunal do Santo Ofício era, para os reis da Espanha, um instrumento inquestionável de poder: sob o terror da Inquisição, possíveis reações ou revoltas de setores da população, de antigos senhores feudais ou de representantes da burguesia contra a centralização do Estado nas mãos de Fernando e Isabel, ou contra qualquer política do governo, morriam no nascedouro.

Alessandro Magnasco/The Bridgeman Art Library/Keystone

O passo seguinte seria dado logo depois, quando Fernando e Isabel – conhecidos como reis católicos – firmaram com a Igreja uma aliança com o objetivo de expulsar da Espanha muçulmanos e judeus. Dessa forma, em 1478 o papa Sixto IV assinou uma bula autorizando a criação do Tribunal do Santo Ofício (ou Inquisição) na Espanha e subordinando-o aos reis católicos. Teve início, então, um período de intolerância e perseguições a dissidentes e opositores por razões políticas e, sobretudo, religiosas. Qualquer acusação anônima podia levar o acusado ao cárcere, onde as confissões eram arran-

Sala de interrogatório da Inquisição em óleo sobre tela de cerca de 1710-1720, de Alessandro Magnasco (1667-1749).

Os algarismos indo-arábicos Em 1202, enquanto os cristãos tentavam expulsar os muçulmanos da antiga Hispânia, na península Itálica o matemático Leonardo Fibonacci (1170?-1240) tornava-se o primeiro europeu a usar os algarismos indo-arábicos. Até então, apenas os algarismos romanos eram empregados na Europa.

Yasuyoshi Chiba/Agência France-Presse

Enquanto ¡sso...

Finalista do jogo japonês Sudoku, durante competição nacional em São Paulo, em setembro de 2012.

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Unidade 5 Soberania e Estado nacional

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O sistema de numeração decimal surgiu na Índia, por volta do século VI. Em 810, ele era citado em um texto do matemático árabe Muhammad ibn al-Khwarizmi, responsável pela criação dos símbolos de 0 a 9 que hoje conhecemos. De seu nome veio a palavra algarismo. Em pouco tempo, os algarismos indo-arábicos eram ensinados nas univesidades europeias.

Organizando as ideias 1. A centralização do poder real na Europa foi resultado de uma longa luta política alimentada por interesses de diversos grupos sociais. Defina quais eram esses interesses e que grupos sociais estavam envolvidos. 2. A monarquia inglesa centralizou o poder e submeteu a nobreza desde o século XII, no reinado de Guilherme, o Conquistador. De que forma a Carta Magna, promulgada no século XIII, representou um limite aos poderes reais? 3. Descreva, em linhas gerais, como foi o processo de unificação da monarquia francesa. 4. Por que a Guerra dos Cem Anos (1337-1453), travada entre a França e a Inglaterra, foi importante para a unificação do Estado francês? 5. A península Ibérica foi ocupada por diversos povos ao longo de sua história. Indique, cronologicamente, como ocorreram essas ocupações, desde o início da Era Cristã até a formação dos reinos de Portugal e Espanha. 6. Observe os mapas A Reconquista (séculos IX a XIII) na página 206 e responda às seguintes questões:

Atenção: não escreva no livro. Responda sempre no caderno.

a) Em que mapa aparece pela primeira vez o Condado Portucalense, origem do reino de Portugal? b) E  m que mapa a extensão dos domínios muçulmanos é claramente menor do que os territórios sob controle das monarquias ibéricas cristãs? c) Qual a relação entre a diminuição dos territórios muçulmanos e a centralização do poder monárquico dos reinos ibéricos? 7. A  Revolução de Avis (1383-1385) consolidou a monarquia portuguesa com a coroação de dom João, mestre da ordem militar da cidade de Avis. Quais eram os interesses políticos em torno da coroa portuguesa quando eclodiu essa revolução? 8. A monarquia espanhola foi centralizada graças ao casamento dos “reis católicos”, Fernando, rei de Aragão, e Isabel, futura rainha de Castela, em 1469. Quais foram os fatores políticos fundamentais na consolidação do poder real sobre o território espanhol?

Hora DE REFLETIR Como vimos neste capítulo, o nacionalismo foi fator importante no processo de centralização política da França. Muitos estudiosos, contudo, afirmam que o nacionalismo moderno traz mais males do que bem. Além de causar guerras, ele é apon-

tado como um dos responsáveis por perseguições movidas contra estrangeiros. Você é capaz de identificar no mundo de hoje situações que evidenciem um forte sentimento nacionalista? Como esse nacionalismo se manifesta?

A formação do Estado moderno Capítulo 25

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Capítulo 26

A revolução cultural do Renascimento Objetivos do capítulo Mark Harris/The Image Bank/Getty Images

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Saeed Khan/Agência France-Presse

Cem mil euros. Esse foi o preço que alguns colecionadores de livros se dispuseram a pagar por uma obra a respeito do artista renascentista Michelangelo, publicada recentemente na Itália. Por que esse livro custou tanto? A razão é que a obra, com tiragem de apenas 99 exemplares, foi feita de forma artesanal, segundo a técnica de produção de livros de meados do século XV, quando Johannes Gutenberg (re)inventou a impressão por tipos móveis, que os chineses haviam criado quatro séculos antes. O papel do livro também foi produzido artesanalmente, e o veludo de seda que cobre a capa foi feito em teares antigos, capazes de produzir apenas 8 centímetros de tecido por dia. Todo o processo, desde a fabricação do papel até a impressão e a encadernação de um exemplar da obra, durou seis meses.

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Identificar origens, concepções e valores da corrente de pensamento conhecida por Humanismo. Conhecer as principais características do movimento artístico, científico e intelectual denominado Renascimento. Compreender aspectos políticos e econômicos relacionados a essas renovações culturais. Perceber o contexto histórico (Europa ocidental) em que se desenvolveu o Renascimento.

Se hoje seis meses para imprimir um livro parecem muito, no século XV, com os tipos móveis de impressão, era uma verdadeira revolução. Neste capítulo veremos como a invenção dos tipos móveis de impressão contribuiu para a rápida difusão dos ideais do Humanismo e das conquistas do Renascimento.

Fabio Lazzarri (à direita), vice-presidente da Fundação FMR-Marilena Ferrari, apresenta o livro Michelangelo: La Dotta Mano (Michelangelo: a mão sábia) com imagens de famosas esculturas de Michelangelo a Francis Yeoh Sock Ping, diretor da Corporação YTL, em Kuala Lumpur (Malásia), em 10 de dezembro de 2008. A obra teve edição de 99 exemplares e foi produzida artesanalmente, resgatando técnicas utilizadas na época do Renascimento.

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No início do século XV, a península Itálica era, do ponto de vista político, uma verdadeira colcha de retalhos. Outrora unificado sob o Império Romano, seu território reunia naquela época diversos pequenos Estados, com culturas, regimes políticos, dimensões territoriais e estágios de desenvolvimento econômico bem variados. Cinco desses Estados gozavam de maior influência na região: o Reino de Nápoles, ao sul; a República de Florença e os Estados Pontifícios (pertencentes à Igreja), no centro; a República de Veneza e o Ducado de Milão, ao norte. Cidades como Florença, Milão, Roma e, principalmente, Gênova e Veneza haviam se tornado, no decorrer dos séculos, importantes centros comerciais. Em Florença, por exemplo, em 1472 havia mais de 350 oficinas têxteis: 270 produziam tecidos de lã; 83 fabricavam panos de seda. Ao lado disso, a cidade contava com 33 casas bancárias. Esses números refletem o enriquecimento das cidades da península, acelerado com a reativação do comércio que se verificou na Europa a partir do século XI.

O Humanismo A maior circulação de dinheiro e a expansão dos negócios exigiam profissionais especializados na administração de empreendimentos bancários e mercantis (releia o capítulo 24). Em resposta a essa necessidade, teve início um movimento de reforma educacional, pois o ensino, até então, encontrava-se basicamente sob o controle da Igreja, que se preocupava em formar teólogos, médicos e advogados. Sob a pressão dessa demanda, universidades laicas se estabeleceram em diversos pontos da Europa. As novas escolas afirmavam a importância central do ser humano, considerado a obra suprema de Deus. Conhecida como antropocentrismo, essa concepção era coerente com o princípio grego segundo o qual “o ser humano é a medida de todas as coisas”. Ela se chocava com a orientação das universidades controladas pela Igreja, nas quais o pensamento era dominado pelo teocentrismo – para o qual Deus (Théos, em grego) é a fonte de todo o conhecimento e deve estar no centro da reflexão filosófica.

Leonardo da Vinci/Galleria Dell’Academia, Veneza

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A península Itálica no século XV

Desenho de Leonardo da Vinci conhecido como Homem vitruviano (1490). Esse nome é uma alusão ao romano Marcos Vitrúvio Polião, que escreveu um tratado sobre arquitetura, no qual estuda também as proporções do corpo humano. O desenho de Da Vinci representa uma figura masculina inscrita simultaneamente em um quadrado e em uma circunferência em duas posições superpostas. Esse estudo é exemplificativo do humanismo renascentista, que atribuía particular importância ao ser humano como “medida de todas as coisas”.

Assim, o centro principal de reflexão nas novas universidades passou a ser a atividade humana em suas diversas implicações. A individualidade das pessoas começou a ser valorizada, e elas foram estimuladas a utilizar sua capacidade criativa para transformar o mundo de acordo com sua vontade. Dessa forma, foram priorizadas disciplinas voltadas para os estudos humanos, como Poesia, Filosofia, Gramática, Matemática, História e Eloquência, além daquelas ligadas ao antigo Direito Romano. Esse movimento de ideias, conhecido como Humanismo, foi concomitante com o resgate do conhecimento e das artes da Antiguidade clássica e atingiu também outras áreas do saber, como Medicina, Astronomia, Filosofia, Literatura e Artes Plásticas. Textos de autores gregos e romanos, que nos séculos anteriores encontravam-se sob o controle da Igreja, foram recuperados pelos estudiosos laicos. A revolução cultural do Renascimento Capítulo 26

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Durante o Renascimento – ou Renascença, como também é chamado –, difundiu-se entre os estudiosos a ênfase na procura de explicações racionais – e não baseadas na fé – para os fatos da natureza. Esse tipo de pensamento, conhecido como racionalismo, negava a ideia de que a Igreja ou os livros sagrados eram suficientes para responder a todas as dúvidas humanas.

Reflexões políticas e religiosas Como reflexo dessas transformações, o próprio pensamento político passou por mudanças, graças, principalmente, ao florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527), autor de O príncipe, obra de ciência política escrita em 1513. Nesse livro, a preocupação de Maquiavel não é o governo ideal, como era para os pensadores medievais. Para ele, era mais importante analisar as formas pelas quais os líderes realmente exercem o poder. O príncipe (ou rei) – dizia ele – não deveria se deter diante de nenhum obstáculo na luta para conquistar ou conservar o controle de um Estado, mesmo que isso implicasse o uso da força e da violência contra seus adversários. Nesse processo de renovação do pensamento, a Igreja católica também foi alvo de críticas: na esfera da reflexão sistemática e teórica, por pensadores como o humanista holandês Erasmo de Roterdã (1466-1536), que em seu Elogio da loucura condenava a corrupção existente na instituição; no âmbito da sátira literária, por autores como o escritor francês François Rabelais (1494-1533) no romance Gargântua e Pantagruel. Tudo isso contribuiu para abalar o catolicismo e preparar o terreno para uma ruptura definitiva no interior da Igreja, que culminaria com o surgimento de uma nova religião, o protestantismo (veja o capítulo 27). SuperStock/Glow Images

O mesmo ocorreu com as manifestações artísticas da Antiguidade clássica – esculturas, templos, palácios, afrescos, peças de cerâmicas e objetos de decoração –, que passaram a ser a principal referência e fonte de inspiração de pintores, escultores, decoradores e arquitetos da península Itálica a partir do século XV. Também estavam no centro das preocupações a procura da beleza, o refinamento estético e a inter-relação entre diferentes áreas do pensamento humano. Assim, um artista deveria se interessar também por Filosofia, Ciências, Astronomia, Anatomia, etc. A personalidade que melhor se aproximou desse ideal foi o pintor, escultor, arquiteto, anatomista, urbanista, engenheiro, inventor e desenhista Leonardo da Vinci (1452-1519), autor do quadro Mona Lisa.

A expulsão de Heliodoro, afresco pintado entre 1511 e 1512 por Rafael (1483-1520), localizado no Palácio Apostólico, no Vaticano. Foto de junho de 2012.

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O Renascimento

O Humanismo surgiu no século XIV na península Itálica. De lá, difundiu-se pelo continente europeu, dando origem a um movimento de renovação intelectual e artística conhecido como Renascimento. Esse nome foi dado pelo arquiteto toscano Giorgio Vasari (1511-1574) para mostrar o desejo de se fazer renascer o pensamento e a arte dos antigos gregos e romanos.

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Heliocentrismo × geocentrismo

Na Idade Média, a Igreja não admitia a exploração científica do corpo humano. Com o Renascimento, ao contrário, a prática de dissecação de cadáveres ganhou impulso, permitindo melhor conhecimento da anatomia humana e do funcionamento dos órgãos. Isso provocou grandes avanços, tanto na área cirúrgica quanto no diagnóstico de doenças.

Segundo a doutrina da Igreja, a Terra (geo, em grego) era o centro do Universo e o Sol e a Lua gravitavam em seu redor. Essa teoria é conhecida como geocentrismo. Levado pelo espírito investigativo, o astrônomo polonês Nicolau Copérnico (1473-1543) contestou essa concepção e colocou em seu lugar o heliocentrismo, afirmando que a Terra girava ao redor do Sol (helio, em grego). As ideias de Copérnico foram retomadas por outros cientistas, como Giordano Bruno* (1548-1600), nascido na península Itálica e * Veja o filme condenado à morte pela Inquisi- Giordano Bruno, ção por defender o heliocentris- de Giuliano mo, e Johannes Kepler (1571- Montaldo, 1973. -1630), nascido no Sacro Império Romano-Germânico. Kepler chegou à conclusão de que a órbita dos planetas era elíptica e não circular, como acreditavam os gregos, e demonstrou matematicamente a validade da teoria heliocêntrica. Também nascido na península Itálica, o físico Galileu Galilei (1564-1642) foi, assim como Giordano Bruno, um defensor da teoria heliocêntrica. Devido às suas ideias, Galileu foi preso e torturado pela Inquisição e só não morreu na fogueira porque se retratou perante a Igreja, renunciando às suas convicções. Apenas em 1992 o Vaticano reconheceria que errou ao acusá-lo de heresia. Apoiado no trabalho desses cientistas, em 1687 o inglês Isaac Newton (1643-1727) publicou o livro Principia, que revolucionou o conhecimento científico. A obra lançou os fundamentos da Física moderna. Ali estão expostos, por exemplo, uma teoria sobre o movimento dos corpos pela ação da gravidade e os três princípios das leis do movimento: o de inércia, o de ação das forças, e o de ação e reação.

Raphael/Museu Conde, Chantilly,França/Giraudon/The Bridgeman/Keystone

O conhecimento do corpo humano

As três Graças, óleo sobre painel pintado entre 1504 e 1505 por Rafael.

Graças a essas dissecações, órgãos até então desconhecidos foram observados e descritos, como ocorreu com as tubas uterinas, ou trompas de Falópio, que ligam os ovários ao útero, estudadas pelo italiano Gabriel Falópio (1523-1562). Algumas ideias erradas a respeito do corpo humano também foram corrigidas. O fisiologista inglês William Harvey (1578-1657), por exemplo, constatou que o coração, e não o fígado – como se acreditava antes –, era o órgão responsável pela circulação sanguínea. Essa preocupação com o corpo humano e seu funcionamento era consequência direta do antropocentrismo e teve efeito imediato também nas artes plásticas. Assim, pintores e escultores redescobriram a beleza da nudez feminina e masculina, cultuada sobretudo na Grécia antiga e que havia deixado de ser objeto de atenção dos artistas medievais.

A arte renascentista Durante a Idade Média, a arte era vista como um ofício qualquer. Por isso, a criatividade individual dos artistas não era tão priorizada; dava-se mais valor à habilidade técnica para se trabalhar um objeto. Um dos primeiros pintores a dar caráter artístico à sua atividade e a assinar suas obras foi Giotto di Bondone (1267-1337), nascido na península Itálica. Ele inovou não apenas ao retratar com grande realismo pessoas, animais e objetos, mas também por ter introduzido noções de profundidade na pintura. Dessa forma, abriu caminho para a introdução da persA revolução cultural do Renascimento Capítulo 26

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pectiva, desenvolvida mais tarde por Filippo Brunelleschi (1377-1446), Leon Battista Alberti (1404-1472) e Leonardo da Vinci (veja o boxe As três dimensões da pintura, abaixo). Utilizando princípios matemáticos, Brunelleschi criou o conceito de perspectiva exata. Segundo ele, quanto mais distante um objeto estivesse em relação ao observador, tanto menor deveria ser representado na tela, de modo a reproduzir fielmente a realidade. Tudo era feito para imprimir o maior realismo possível à pintura. A perspectiva exigia do pintor conhecimentos não só de geometria e matemática, mas também de óptica. Além disso, ele deveria saber reproduzir as variações de cor, de luz e de sombra que a realidade

apresentava. Com todas essas mudanças, pintores, escultores e arquitetos deixaram de ser considerados simples artesãos e passaram a ser vistos como verdadeiros artistas.

Os mecenas Essa renovação no campo das artes acabou atraindo a atenção da burguesia. Interessadas em se impor socialmente perante a nobreza e o clero, as grandes famílias de mercadores e banqueiros passaram a exibir obras de arte em seus palacetes e a custear o trabalho de pintores, escultores e arquitetos. Esses protetores das artes – encontrados também na nobreza e no alto clero – ficaram conhecidos como mecenas. Com o mecenato, arte, riqueza e poder ficaram intimamente associados.

As três dimensões da pintura

A luta entre Davi e Golias, painel pintado em 1123 na atual Espanha. Inspirada em uma passagem da Bíblia, a cena representada mostra o momento em que Davi, depois de derrubar o gigante Golias com uma pedrada, fere seu pescoço com a espada. Observe a ausência de profundidade na obra. Todas as figuras estão no mesmo plano, sobre um fundo chapado.

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técnica da perspectiva, as figuras passaram a ser representadas em três dimensões – largura, altura e profundidade. Com isso, as imagens ganhavam volume e pareciam adquirir vida dentro da tela. A inovação revolucionou a pintura, ampliando o espaço pictórico. Com ela, tinha-se a impressão de que existia algo para além da tela. Para melhor compreensão, compare as duas imagens desta seção.

Leonardo da Vinci/Galleria Degli Uffizi, Florença

Museu Nacional de Arte da Catalunha, Barcelona/Arquivo da editora

Durante a Idade Média, a representação de imagens e cenas por meio da pintura era feita em duas dimensões apenas: altura e largura. Imagens e cenas tinham, portanto, uma aparência chapada, sem profundidade, como se as coisas representadas não tivessem volume. Com a

Em contraste com a pintura românica, esta Anunciação, pintada por Leonardo da Vinci entre 1472 e 1475, utiliza os recursos da perspectiva, por meio dos quais é possível representar a profundidade em uma tela plana. Esse efeito é obtido pela convergência das linhas perpendiculares à tela para um único ponto de fuga situado no horizonte e pela diminuição dos objetos à medida que eles se afastam do observador.

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Paolo Veronese/Museu do Prado, Madri.

Em Florença, por exemplo, o mecenas mais importante era a poderosa família Medici, que influenciou a vida política da cidade por quase três séculos. Além de financiar as atividades de diversos artistas, seu patriarca, Cosimo de Medici (1389-1469), chegou a fundar uma academia dedicada aos estudos platônicos (veja a seção Olho vivo, nas páginas 216 e 217). Contemporâneo dos filhos de Cosimo, o escultor, pintor e arquiteto Michelangelo Buonarroti (1475-1564), um dos maiores artistas de todos os tempos, fez diversas esculturas para a capela dos Medici, onde se encontram sepultadas várias pes­ soas dessa família. Ele também trabalhou para o Vaticano, ten- *Veja o filme do redesenhado a Igreja de São Agonia e êxtase, de Carol Pedro e executado as pinturas do Reed, 1965. teto da Capela Sistina*. Outros importantes artistas renascentistas foram Sandro Botticelli (1444-1510), Rafael Sanzio (1483-1520), Ticiano Vecellio (1490-1576) e Paolo Veronese (1528-1588).

Moisés salvo das águas, tela do pintor Paolo Veronese (c. 1580) representando o momento em que o profeta bíblico Moisés, recém-nascido, é retirado do rio, onde o colocara sua mãe para salvá-lo da matança de bebês hebreus ordenada pelo faraó. Por essa época, segundo o Velho Testamento, os hebreus haviam sido escravizados pelos egípcios. Observe que nem a paisagem nem as roupas com que as pessoas se vestem correspondem ao antigo Egito. O artista as representou como se fossem de sua época e vivessem na península Itálica.

Renovação literária As condições econômicas, sociais e culturais da Europa nesse período criaram uma conjuntura ideal para o aparecimento de novas formas literárias. Muito contribuiu para isso a (re)invenção na Europa dos tipos móveis de impressão por Johannes Gutenberg no século XV. Com eles, surgiu a imprensa moderna, que pôs fim ao trabalho dos copistas e permitiu edições de livros com grandes tiragens (veja o boxe na página 218). Na verdade, essa renovação no campo das letras já vinha ocorrendo desde os últimos séculos da Idade Média, devido principalmente ao trabalho de três escritores da península Itálica: Dante Alighieri (1265-1321), Francesco Petrarca (1304-1374) e Giovanni Boccaccio (1313-1375). O poema A divina comédia, de Dante Alighieri, trouxe como grande novidade o fato de ter sido escrito em língua toscana e não em latim. Petrarca, por sua vez, é considerado o criador da poesia lírica moderna. Buscando nos clássicos da Antiguidade inspiração para seus versos, ele elevou o soneto a um dos mais altos graus de expressão poética. Com Decamerão, Boccaccio renovou a literatura em prosa ao descrever ações e emoções que movem o ser humano, como o ciúme, a traição, o ódio, etc. Iniciada na península Itálica, essa renovação literária logo se espalhou para países como Espanha, França, Portugal e Inglaterra. Em todos esses lugares, a literatura atingiu seu auge no mesmo momento em que o país se transformava em potência econômica e política. Assim, o apogeu literário de Portugal coincidiu com o período das Grandes Navegações (ver capí­ tulo 28). Nessa época se destacaram o poeta Luís de Camões (1503-1580), que usou a forma da epopeia greco-latina para contar os feitos do navegador­ Vasco da Gama em Os lusíadas, e o dramaturgo Gil ­Vicente (c. 1465-c. 1536), famoso por peças satí­ricas­ como a Farsa de Inês Pereira e pelo Auto da barca do inferno (veja a seção No mundo das letras, na página 220). Fenômeno semelhante ocorreu na Espanha, que viveu um período de grande prosperidade no século XVI, graças à exploração das minas de prata de suas colônias na América (ver capítulo 29). São desse período o poeta Garsilaso de la Vega (c. 1501-1536) e o escritor Miguel de Cervantes (1547-1616), autor de Dom Quixote. A revolução cultural do Renascimento Capítulo 26

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Olho vivo

Os Medici e sua representação

Eis um grande afresco, pintado pelo renascentista Benozzo Gozzoli (1420-1497). Chama-se O cortejo dos reis magos. Foi executado em 1459 em uma das paredes da capela que o banqueiro Cosimo de Medici mandou construir em seu palácio, em Florença [afresco é um tipo de pintura aplicada sobre a argamassa ainda fresca de uma parede]. O florentino Cosimo de Medici era figura extremamente influente: emprestava dinheiro a reis e ao papa. Embora não ocupasse cargo público, certas decisões políticas só eram tomadas com seu aval. Além

Representantes do Império Bizantino. Sua inclusão remete a fato ocorrido em 1439, quando Cosimo realizou um concílio em Florença entre membros das Igrejas católica e ortodoxa visando uni-los contra os turcos. Por estar a pé, trajar roupas com poucos ornamentos e ter na camisa divisas dos Medici acredita-se que este homem seria um servo da família. Autorretrato de Benozzo Gozzoli. O nome do pintor está escrito no gorro. Segundo certos especialistas, os dois rapazes seriam Lorenzo di Medici e seu irmão Giuliano (1453-1478). Outros estudiosos indicam Lorenzo retratado como o rei Gaspar. Galeazzo Maria Sforza (1444-1476), filho do duque de Milão, famoso como patrono da música. Sigismondo Malatesta, lorde de Rimini. Servo de Cosimo. Usa roupas nas cores do brasão da família Medici. O uso do arco sugere que ele seria responsável pela proteção dos Medici. Gorro típico dos comerciantes florentinos.

Cosimo de Medici traja roupa de cores discretas, sinalizando sua discrição na vida pessoal.

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Filho de Cosimo. Alguns especialistas afirmam ser o caçula Giovanni (1421-1463); para outros, trata-se de Carlo (c. 1428-1492), filho de Cosimo com uma escrava.

Piero de Medici (1416-1469), filho mais velho de Cosimo, herdeiro político do pai.

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de patrocinar as artes, Cosimo organizava desfiles festivos pelas ruas de Florença. Um desses desfiles, representado no afresco, ocorria em 6 de janeiro, dia no qual os cristãos homenageiam os reis Magos. A imagem deve ser entendida como uma alegoria de caráter religioso e político e não como uma representação exata da realidade. Do ponto de vista religioso, procura mostrar os Medici como servos fiéis de Deus. Politicamente, busca realçar a grandeza dos Medici, comparando-os à realeza. Como veremos, a pintura faz também referências a certas passagens da vida do banqueiro, e muitas das pessoas do cortejo eram personalidades que tinham alguma relação com os Medici.

Construção parecida com um dos palácios dos Medici. A imagem faria também alusão a Jerusalém, por onde os reis Magos teriam passado antes de chegar a Belém.

As caçadas eram uma típica diversão da elite da época.

O tamanho dos animais não aparece na proporção adequada, o que demonstra uma certa imperfeição no domínio da técnica da perspectiva.

Gaspar, um dos reis Magos. Segundo a tradição, a representação de Gaspar foi inspirada no filho de Piero, Lorenzo di Medici (1449-1492). Alguns estudiosos contestam, alegando que na época Lorenzo tinha apenas 10 anos. Arreios ostentam os brasões da família Medici.

A roupa clara é uma alusão à virtude da fé. Benozzo Gozzoli/Album/Latinstock

A coroa do rei Gaspar, representado com o rosto do neto de Cosimo, sugere que os Medici teriam uma posição semelhante a uma dinastia real em Florença.

Fontes: <www.uwo.ca/sogs/WJGR/2005/WJGR2005_ v12_p63_Morhart.pdf>; Web Gallery of Art, disponível em: <www.wga.hu/tours/gozzoli/index.html>. Acesso em: 25 out. 2012.

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Os tipos móveis de impressão dução de imagens. Com as novas formas de impressão, as iluminuras desapareceram para dar lugar a uma nova manifestação de arte gráfica: a gravura.

Sua opinião A invenção de Gutenberg permitiu a publicação de um grande volume de livros, ampliando a difusão do conhecimento. Entretanto, apenas um grupo reduzido de pessoas teve acesso efetivo a esse conhecimento, porque a maior parte da população da Europa era analfabeta. Atualmente, a internet nos oferece informações e imagens do mundo inteiro em instantes. Mas nem toda a população mundial tem condições de acessar a rede mundial de computadores. Em 2011, os que usavam efetivamente a internet chegavam a 2,4 bilhões de pessoas, enquanto 4,7 bilhões não tinham acesso a ela. Em grupos, debatam as seguintes questões: A internet contribui efetivamente para democratizar as informações e o conhecimento? Qual é o impacto da exclusão digital na vida das pessoas? Escrevam um texto, na forma de carta dirigida ao governo brasileiro, procurando sensibilizá-lo para o problema, uma vez que no Brasil apenas um terço da população tinha acesso à internet em 2011.

Peter Horree/Alamy/Other Images

Até meados do século XV, a reprodução de um livro dependia de pessoas que copiavam à mão o original. Além de lento, esse trabalho podia incorrer em imprecisões, fazendo com que o mesmo texto variasse de um manuscrito para outro. Nessas circunstâncias, os tipos móveis de impressão de Johannes Gutenberg (c. 1397-1468) causaram na vida cultural europeia o impacto de uma revolução. Vale lembrar que tipos móveis de impressão (feitos de argila cozida e depois de outros materiais) já haviam sido inventados pelo artesão chinês Bi Sheng entre 1041 e 1048 (reveja o capítulo 17). No invento de Gutenberg, as letras do alfabeto eram feitas em pequenos blocos de chumbo – os tipos –, colocados um ao lado do outro para compor palavras e frases. Gutenberg imprimiu seu primeiro livro, uma edição da Bíblia em latim, por volta de 1450. As 180 cópias da primeira edição, impressas em três prensas, somavam 230 mil páginas ao todo e ficaram prontas em dois anos. A nova invenção tornou possível a rápida difusão de livros e, consequentemente, dos ideais do Humanismo e do Renascimento. Outro resultado do invento de Gutenberg foram as mudanças ocasionadas na técnica de pro-

Já na Inglaterra, o momento de maior esplendor das letras coincidiu com o reinado de Elizabeth I (1558-1603), quando o Estado passou por forte centralização­política e a economia experimentou importante desenvolvimento (ver capítulo 30). Esse perío­do foi também o de William Shakespeare­* (1564-1618), considerado por muitos o maior * Veja os filmes Shakespeare dramaturgo de to- apaixonado, de John dos os tempos e au- Madden, 1998, Romeu tor de peças co­mo e Julieta, de Franco Zeffirelli, 1968, A Hamlet, Romeu e megera domada, de Julieta*, A megera Franco Zeffirelli, 1967, domada*, Macbeth­ e Rei Lear, de Laurence Olivier, 1984. e Rei Lear*. Azulejos na Praça da Espanha, em Sevilha, retratando Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes. Foto de maio de 2010.

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Enquanto ¡sso... Na mesma época que Galileu Galilei observava as estrelas com seu telescópio e a Igreja católica combatia a teoria heliocêntrica, do outro lado do Atlântico os Tupinambá também estavam de olho no céu, observando os astros e suas nebulosas. Os Tupinambá eram um povo indígena, hoje extinto, que vivia no território que hoje faz parte do Brasil. Eles eram capazes de reconhecer mais de cem constelações diferentes (atualmente, a União Astronômica Internacional tem 88 constelações catalogadas). Conheciam, por exemplo, a Via Láctea, que chamavam de Caminho da Anta, e tinham suas constelações próprias. A da Ema, por exemplo, era formada, entre outras, por estrelas das constelações que conhecemos como Cruzeiro do Sul e Escorpião. Eles usavam as constelações para se orientar sobre a mudança das estações. Quando a constelação da Ema se tornava visível no céu, era sinal de que estava chegando o inverno. A do Homem Velho anunciava o início do verão; a do Veado, o princípio do outono; e a da Anta, o começo da primavera.

Germano Bruno Afonso/Arquivo da editora

As constelações indígenas

Representação da constelação do veado, ilustrativa da visão indígena do Universo.

O sistema astronômico dos Tupinambá é semelhante aos utilizados atualmente pelos índios Guarani no sul do Brasil, e algumas dessas constelações são as mesmas identificadas por outros povos indígenas da América do Sul e pelos aborígines australianos. Fonte: AFONSO, Germano Bruno. As constelações indígenas brasileiras. Disponível em: <www.telescopiosnaescola.pro.br/indigenas.pdf>. Acesso em: 25 out. 2012.

Organizando as ideias 1. O  Humanismo foi um movimento de ideias nascido das universidades laicas que se estabeleceram em diversas cidades da Europa. Quais eram seus fundamentos filosóficos e seus interesses culturais? 2. Qual era a relação entre o Renascimento e o desenvolvimento econômico das cidades italianas? 3. O racionalismo negava que os livros sagrados fossem suficientes para responder a todas as dúvidas humanas. De que modo essa concepção contribuiu para o avanço do conhecimento nas diversas áreas do saber? 4. A  s transformações culturais e filosóficas provocaram mudanças no pensamento político. O florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527) escreveu O príncipe, em 1513, sob influência

dessa renovação cultural. Que ideias originais são apresentadas nesse livro a respeito do poder real? 5. A doutrina da Igreja católica afirmava que a Terra era o centro do Universo e o Sol e a Lua gravitavam em seu redor. Em oposição a essa doutrina, conhecida como geocentrismo, alguns pensadores europeus formularam o heliocentrismo, teoria segundo a qual a Terra gira em torno do Sol. Descreva cronologicamente como se formou e se consolidou o heliocentrismo. 6. Defina em linhas gerais quais foram as bases da noção de “perspectiva” desenvolvida pelos artistas do Renascimento. 7. Que interesse tinham os mecenas em patrocinar as artes durante o Renascimento?

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Stewart Llyod-Jones/Acervo do fotógrafo/Flickr

No mundo Das letras Entre o céu e o inferno O texto a seguir faz parte da peça Auto da barca do inferno, publicada em 1517, em forma de cordel, pelo dramaturgo português Gil Vicente (1465?1537?). Na obra, um Anjo e o Diabo decidem qual será o futuro das almas que chegam até eles. O destino delas – a vida eterna no paraíso ou no inferno – será avaliado pelos dois de acordo com as ações dessas pessoas em vida. Ao mostrar o futuro das almas de juízes, clérigos, nobres, comerciantes, agiotas e outras personalidades, Gil Vicente compõe, de forma irônica, um painel da sociedade portuguesa do século XVI. A passagem a seguir mostra o diálogo entre o Diabo e um frade que morreu juntamente com sua amante. Leia e responda às perguntas. Diabo: Que é isso, padre? Que vai lá? Frade: Deo gratias!1 sou cortesão. Diabo: Sabeis também o tordião2? Frade: Por que não? Como ora sei! Diabo: Pois entrai! Eu tangerei3/e faremos um serão4./Essa dama, é vossa? Frade: Por minha a tenho eu,/e sempre a tive de meu. Diabo: Fizestes bem, que é formosa!/e não vos punham lá grosa5/no vosso convento santo? Frade: E eles fazem outro tanto! Diabo: Que coisa tão preciosa.../entrai, padre reverendo! Frade: Para onde levais a gente? Diabo: Para aquele fogo ardente/que não temestes vivendo. VICENTE, Gil. Auto da barca do inferno. São Paulo: Klick Editora, [s.d.]. p. 25-27.

Escultura que representa o dramaturgo português Gil Vicente, autor da peça Auto da barca do inferno. Essa escultura encontra-se na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa. A foto é de dezembro de 2006.

1. Aponte no texto aspectos que mostrem como os artistas daquele período utilizavam a literatura para fazer críticas à época em que viviam. 2. Um importante recurso utilizado por Gil Vicente no Auto da barca do inferno para criticar a sociedade de seu tempo foi a sátira e o humor. Reúna-se com seu grupo e, juntos, selecionem uma crônica ou uma charge publicada em revistas, jornais, livros ou sites e façam uma análise do material escolhido. Procurem observar de que maneira as diferentes formas de humor são utilizadas pelos artistas como instrumento de crítica e de mudança social. Depois, apresentem o resultado dessa análise à classe. O que significa? Deo gratias: graças a Deus. Tordião: dança popular. 3 Tangerei: tocarei. 4 Serão: festa. 5 Grosa: reprovação. 1 2

Hora DE REFLETIR Cosimo de Medici financiou a criação do afresco­ que aparece na seção Olho vivo (p. 216-217) com a intenção de ligar seu nome a uma importante atividade religiosa de Florença. Essa ligação valorizaria sua imagem pública, induzindo as pessoas a vê-lo como homem religioso. Dessa forma, ele reforçava­e am-

pliava seu poder político e econômico. Em sua opinião, atualmente os políticos e as pes­soas­públicas também se preocupam com sua própria imagem? Em caso positivo, como eles atuam para construir uma imagem junto à mídia e à sociedade? Escolha um exemplo para citar na sala de aula.

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Venice connected – Passeio virtual pela cidade de Veneza (site em italiano). Disponível em: <http://maps.veniceconnected.it/en>. Acesso em: 31 out. 2012.

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Capítulo 27

A Reforma protestante Objetivos do capítulo H. D. Zielske/Look/Getty Images

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O aumento do protestantismo no Brasil deve-se, principalmente, ao crescimento das igrejas pentecostais e neopentecostais observado nas últimas décadas. Como veremos neste capítulo, o protestantismo surgiu na Europa no século XVI como resultado de uma grande ruptura no interior da Igreja católica denominada Reforma protestante. Luiz Gomes/D.A Press

Ano após ano, o número de seguidores do protestantismo vem aumentando no Brasil. Em 1996, eles representavam 15% da população brasileira. Em 2010, já totalizavam 22%, ou seja, aproximadamente 42 milhões de fiéis. Chamados genericamente de “crentes” ou “evangélicos”, os seguidores do protestantismo no Brasil dividem-se em três grandes correntes: protestantes históricos – formados de igrejas tradicionais, como a presbiteriana e a luterana; pentecostais – distribuídos por diversas igrejas, entre as quais a Assembleia de Deus e Deus é Amor; e neopentecostais – vertente surgida na década de 1970 e composta de igrejas como a Universal do Reino de Deus e a Sara Nossa Terra.

Entender os processos e os acontecimentos relacionados à Reforma protestante. Conhecer a reação da Igreja católica em relação à Reforma protestante. Reconhecer, valorizar e respeitar a diversidade religiosa. Compreender os interesses políticos e econômicos das religiões no período.

Nas ruas do centro do Rio de Janeiro, fiéis participam da Marcha para Jesus, um dos maiores eventos evangélicos do Brasil. Foto de maio de 2012.

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Críticas à Igreja

Hieronymus Bosch/Museu do Louvre, Paris

Como vimos no capítulo 23, durante a Idade Média a Igreja católica constituiu o principal centro de poder na Europa. Sua influência era tamanha que reis e senhores feudais recorriam a seu apoio para governar. Tanto poder terreno distanciou a Igreja dos assuntos espirituais. Para muitos de seus integrantes, riqueza e prazeres físicos tornaram-se mais importantes do que a fé. Essa inversão de valores pôs em xeque a credibilidade da instituição (veja crítica a essa situação na imagem abaixo). Assim, por volta do século XIV, a Igreja católica viveu nova crise. Além das disputas políticas envolvendo o alto clero, voltaram a pesar sobre a instituição denúncias de corrupção e outras acusações de ordem moral. Nessas circunstâncias, alguns filósofos cristãos, influenciados pelo pensamento huma-

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Pintura a óleo sobre madeira de Hieronymus Bosch, intitulada A nave dos insensatos (1490-1500). A obra contém uma clara crítica à Igreja católica: na cena representada, enquanto uma freira e um frade cantam, outra religiosa (à esquerda) oferece bebida a um homem deitado. À direita, uma pessoa vomita.

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nista, passaram a responsabilizar a Igreja e seus dogmas pela perpetuação da miséria e da ignorância na sociedade europeia. Um desses pensadores foi o inglês John Wyclif (1324-1384). Sacerdote e professor da Universidade de Oxford, ele dedicou boa parte da vida à crítica indignada da corrupção e da arrogância vigentes na hierarquia eclesiástica. A mesma atitude adotou John Huss (1371-1415), sacerdote e reitor da Universidade de Praga (hoje capital da República Tcheca). Além de pregar contra a corrupção do clero, Huss denunciava a venda de indulgências (veja o boxe A venda de indulgências, a seguir). Tanto ele quanto Wyclif foram acusados de heresia pela Igreja e condenados a morrer na fogueira. Apesar da repressão da Igreja, o movimento contrário às práticas consideradas imorais cresceu de forma contínua. Assim, quando em 1517 no Sacro Império Romano-Germânico o monge Martinho Lutero (1483-1546) protestou contra o comportamento do alto clero e do papado, outras pessoas sentiram-se motivadas a fazer o mesmo. Esse movimento, que ficou conhecido como Reforma, tornou-se tão grande que provocou uma cisão na Igreja, como veremos a seguir.

As 95 teses de Lutero

Martinho Lutero* era um monge agostiniano que lecionava Teolo- * Veja o filme Lutero, de Eric gia na Universidade de Wittenberg, Till, 2003. na atual Alemanha. Em abril de 1517, ele ouviu do frade Johann Tetzel, representante do papa Leão X na região, um discurso defendendo a venda de indulgências. Seria de Tetzel a frase: “Assim que a moeda no cofre cai, a alma do purgatório sai”. Convencido de que tal prática não encontrava respaldo na Bíblia e que era apenas mais uma forma de a Igreja tirar proveito da credulidade das pessoas, Lutero protestou. Em uma carta dirigida a seu arcebispo, formulou 95 teses nas quais tecia profundas críticas à venda de indulgências e a outras práticas da Igreja. Dadas a conhecer, as teses de Lutero logo obtiveram o apoio de amplos setores da população do Sacro Império Romano-Germânico, entre os quais diversos príncipes e outros integrantes da nobreza, interessados no enfraquecimento da Igreja – dona da maior parte das terras da região.

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A venda de indulgências Indulgência é o perdão que a Igreja oferece àqueles que se arrependem de seus pecados. Nos primeiros tempos ela assumia a forma de penitência pública – autoflagelação, por exemplo. Por volta do século XI, as antigas penitências foram substituídas por prestações de serviço – como amparo aos doentes, construção de igrejas, etc. – ou pela cooperação com a instituição. Em 1095, o papa Urbano II ofereceu indulgência plena a quem participasse da Primeira Cruzada (reveja o capítulo 23). Nos séculos seguintes, as indulgências se transformaram em cartas vendidas aos fiéis.

Aqueles que as comprassem recebiam o perdão dos pecados já cometidos e, de acordo com o valor pago, tinham também o perdão dos pecados futuros. Em 1513, o papa Leão X oficializou a venda de indulgências visando arrecadar dinheiro para finalizar as obras da Basílica de São Pedro, em Roma. A partir de então, o comércio de indulgências assumiu tamanhas proporções que passou a ser intermediado pela casa bancária dos Fugger, família de banqueiros do Sacro Império Romano-Germânico, transformando-se, de fato, em um grande negócio.

De Agostini Picture Library/A. Dagli Orti/The Bridgeman/Keystone

ideias reformistas saíram do âmbito religioso, ganhaEm janeiro de 1521, Lutero foi excomungado ram as ruas e campos e passaram a estimular sentipelo papa. Percebendo a gravidade da situação, o mentos de revolta social e de mudança entre a maioimperador Carlos V convocou representantes de ria camponesa, como explica o boxe a seguir. todo o Sacro Império Romano-Germânico para uma assembleia – denominada Dieta – a ser realizada na cidade de Worms, para que Lutero se retratasse. Em abril de 1521, diante de mais de 150 príncipes presentes à dieta, Lutero se recusou a voltar atrás em suas afirmações. Para escapar à repressão da Igreja, ao sair de Worms refugiou-se no castelo de um príncipe que o apoiava. Durante o ano em que ali se escondeu, traduziu o Novo Testamento para o alemão e produziu um grande volume de textos condenando a Igreja. Os escritos de Lutero foram reproduzidos aos milhares na imprensa de tipos móveis (re)inventada havia menos de um século por Gutenberg e Detalhe do retábulo da Igreja de Torslunde, Dinamarca, de 1561. atingiram um número cada vez maior Nele, a pregação de Martinho Lutero é retratada em meio a símbolos de pessoas. Em pouco tempo, as do catolicismo, como a pia batismal, a hóstia e a cruz.

Convulsão social no Sacro Império Embora Lutero defendesse apenas mudanças de caráter religioso, suas ideias contribuíram para inaugurar um período de grandes convulsões sociais no Sacro Império. Cavaleiros e nobres de poucos recursos aproveitaram a crise para tentar criar um Estado inde-

pendente. Esse movimento, iniciado em 1522, foi sufocado no ano seguinte e ficou conhecido como Revolta dos Cavaleiros. Em 1524, camponeses armados de várias regiões do Império se insurgiram sob a liderança de um monge franciscano, Thomas Münzer (1486-

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Sua opinião Atualmente, verificam-se no Brasil e no mundo protestos e manifestações sociais de todo tipo: lutas dos trabalhadores rurais sem terra, greves de trabalhadores urbanos, passeatas e comícios, etc. Quase sempre, essas manifestações reivindicam melhores condições de vida, aumentos de salários, mais segurança nas ruas ou o direito ao trabalho. Você considera essas manifestações legítimas? Em sua opinião, como o Estado brasileiro deve tratar os grupos sociais que se manifestam e expressam seu descontentamento? Discuta essas questões com um colega. Depois, escrevam um texto com a opinião de ambos. Para finalizar, apresentem oralmente o resultado numa roda de conversa, sob orientação do professor.

Pedro Ladeira/Agência Estado/Zumapress.com

-1525), que propunha uma sociedade sem diferenças entre ricos e pobres e sem propriedade privada. Münzer foi preso, torturado e executado em 1525, mas o movimento continuou por mais dez anos. Nesse período, cerca de 100 mil camponeses foram mortos (veja a seção Interpretando documentos, na página 230). Radicalmente contrário à revolta camponesa, Lutero alegava que a existência de senhores e servos era fruto da vontade divina. Ele chegou a escrever: “Contra as hordas de camponeses assassinos e ladrões, quem puder que bata, mate ou fira, secreta ou abertamente, relembrando que não há nada mais peçonhento, prejudicial ou demoníaco do que um rebelde”.

Em agosto de 2011, milhares de trabalhadores rurais marcharam para a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, reivindicando melhores condições de trabalho, segurança nas áreas rurais e reforma agrária.

Protestantes × católicos As propostas reformistas de Lutero se difundiram rapidamente. Enquanto adeptos de suas ideias percorriam as cidades fazendo pregações, autoridades de várias regiões do Império, pressionadas pela população, viam-se obrigadas a expulsar sacerdotes católicos das igrejas e a substituí-los por religiosos com formação luterana. Atendendo às pressões da Igreja, em 1529 o imperador Carlos V realizou nova reunião com os príncipes do Império. Na ocasião, exigiu que eles proibissem o culto luterano em suas regiões e retomassem os rituais católicos. 224

Seis príncipes e representantes de catorze cidades protestaram contra a exigência do imperador. Esses principados e centros urbanos ficaram conhecidos como Estados protestantes. A partir de então, todos os adeptos de Lutero e de outros reformistas seriam chamados de protestantes. Temendo represálias do imperador, os Estados dissidentes se uniram em torno da Liga de Schmalkalden e formaram um exército para agir caso sofressem ataques. As hostilidades duraram até 1555, ano em que o imperador assinou a Paz de Augsburgo, garantindo liberdade religiosa aos protestantes.

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O calvinismo

RMN – Reunión des Musées Natinaux/Agence Bulloz/Other Images

As propostas de Lutero repercutiram em diversas regiões da Europa e originaram outros movimentos reformistas. Um dos primeiros lugares onde isso ocorreu foi em Zurique, na Suíça atual. Ali, em 1522 o religioso Ulrich Zwinglio (1489-1531) começou a pregar em seus sermões que a única fonte de autoridade sobre os cristãos era a Bíblia. Também protestava contra o celibato imposto aos integrantes do clero. Na França, o frade João Calvino (1509-1564) aderiu ao movimento reformador em 1533. Perseguido por suas ideias, viu-se obrigado a se mudar para Genebra, na Suíça, onde publicou uma exposição sistemática de seu pensamento, dando início a uma nova corrente religiosa: o calvinismo.

Para Calvino, apenas as pessoas predestinadas por Deus teriam direito à salvação na vida eterna. Um dos sinais dessa predestinação seria o sucesso no trabalho e nos negócios. Porém, para fazer jus à salvação, as pessoas tinham de levar uma vida frugal, sem luxo e sem dissipações; deveriam trabalhar, guardar dinheiro e investir suas economias na criação de novas oportunidades de trabalho. Segundo essa concepção, o trabalho e o espírito de poupança deveriam ser valores centrais a serem cultivados. Devido a essa visão, o calvinismo encontrou ampla aceitação da burguesia, que via nele uma justificação moral e religiosa para sua riqueza. A própria cobrança de juros sobre empréstimos (usura), condenada pela Igreja, era consentida pelos calvinistas. As ideias de Calvino espalharam-se para outras regiões da Europa, encontrando apoio principalmente nos lugares de desenvolvimento capitalista precoce, como os Países Baixos (Holanda) e a Inglaterra, e mais tarde nas colônias inglesas da América do Norte. Na França, onde os calvinistas eram chamados de * Veja o filme A rainha huguenotes, desencadeou-se Margot, de Patrice Chéreau, 1994. verdadeira guerra civil* entre eles e os católicos.

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Pintura de autor anônimo do século XVII representando João Calvino em seu gabinete de trabalho. A doutrina criada por Calvino, o calvinismo, encontrou muitos adeptos na Inglaterra e nos Países Baixos (Holanda). Na Inglaterra, os seguidores de Calvino eram chamados de puritanos.

A Igreja anglicana

Na Inglaterra, país que já vinha recebendo influências do pensamento protestante, a reforma foi introduzida pelo rei Henrique VIII (1509-1547). Desde o início de seu reinado, Henrique procurava reforçar o poder central, mas um dos obstáculos para isso era a Igreja católica, detentora de vastas extensões de terras e de poderosa influência sobre a população. Em 1527, o monarca pediu ao papa Clemente VII autorização para se separar de sua mulher, a rainha Catarina de Aragão. O papa, interessado em não entrar em conflito com o imperador do Sacro Império, Carlos V, sobrinho da rainha inglesa, negou-se a atender ao pedido. Mesmo com a recusa papal, Henrique VIII separou-se de Catarina de Aragão e, em 1533, casou-se com sua amante, Ana Bolena*, uma * Veja os filmes dama da corte. Em represá- A outra, de Justin Chadwick, 2008, e lia, Clemente VII excomungou Ana dos mil dias, de o soberano (veja a seção Olho Charles Jarrot, 1969. vivo, na página 226). A Reforma protestante Capítulo 27

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Olho vivo

Os embaixadores

Os dois homens representados no quadro desta seção eram nobres da corte francesa. À esquerda vemos Jean de Dinteville (1504-1555), embaixador da França na Inglaterra; à direita, o bispo Georges de Selve (1508/1509-1541). Em 1533, os dois estavam na Inglaterra com uma difícil missão: tentar convencer o rei Henrique VIII a não romper com a Igreja católica. O encontro de ambos foi registrado pelo pintor Hans Holbein, o Moço (1497-1543), do Sacro Império Romano-Germânico, neste óleo sobre madeira. A obra, além de apresentar aspectos característicos da época, como a preocupação com a ciência e o saber (repare, por exemplo, nos instrumentos científicos representados), está repleta de simbolismo, como veremos a seguir.

Quadrante, instrumento usado para medir a altura dos astros e, assim, ajudar na localização das embarcações em alto-mar.

O globo celeste faz referência à teoria heliocêntrica, que desafiou os princípios da Igreja católica.

O relógio de sol faz alusão à redenção de Cristo, pois marca a data de 11 de abril de 1533, dia em que caiu a Sexta-feira da Paixão daquele ano.

Medalhão da ordem de São Miguel, uma das mais importantes ordens da cavalaria da França.

O alaúde é um tradicional símbolo da harmonia. Mas está com uma corda quebrada, o que pode ser uma alusão à discórdia entre católicos e protestantes.

A inscrição na espada informa que Dinteville tinha na época 29 anos.

Globo terrestre mostrando a linha de Tordesilhas (ver capítulo 28) e a América. Inclui também nome de lugares significativos para Dinteville.

Traduções de Lutero: na página da esquerda, um hino religioso; na da direita, preâmbulo para os Dez Mandamentos. Textos mostram pontos em comum entre catolicismo e protestantismo, numa referência a um desejo de reunificação das duas Igrejas.

Obra com instruções sobre práticas de cálculos comerciais impressa em 1527. A página marcada com o esquadro começa com a palavra alemã Dividirt, outra alusão à divisão político-religiosa da época.

Caveira desenhada segundo técnica conhecida como anamorfose. Remete à ideia da finitude da vida e dos limites do conhecimento humano. Ao escolher uma imagem disforme (caveira distorcida para quem olha o quadro de frente), o artista reforça a ideia da limitação humana.

O mosaico do chão é igual ao do santuário da Abadia de Westminster, na Inglaterra.

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Torquetum, instrumento conhecido dos antigos gregos, cujo uso foi retomado durante a Idade Média. Era empregado para observar a posição dos astros no céu em três diferentes sistemas de coordenadas. Poliedro com diferentes relógios de sol, usado para viagens.

Fontes: FARBER, Allen. Holbein’s The ambassadors and Renaissance ideas of knowledge. Disponível em: <http://employes. oneonta.edu/farberas/arth/arth214/ ambassadors_home.html>. Acesso em: 26 out. 2012; CUMMINGS, Robert. Para entender a arte. São Paulo: Ática, 2000. Hans D. J. Holbein/Erich Lessing/Album/Latinstock

Os objetos desta prateleira remetem ao conhecimento das coisas do céu.

Livro com inscrição em latim indicando que o bispo tinha 25 anos de idade.

Pintura de Hans Holbein, o Moço, conhecida como Os embaixadores.

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Como resposta, em 1534 Henrique VIII convocou o Parlamento inglês e obteve sua aprovação para separar a Igreja do Estado na Inglaterra. Além disso, dissolveu os mosteiros e confiscou os bens da Igreja. Consumado o rompimento com o papado, Henrique VIII fundou a Igreja anglicana, cujo chefe seria o próprio rei (ou rainha) da Inglaterra. Com a morte de Henrique, caberia a sua filha, a rainha * Veja o filme Elizabeth I* (1558-1603), a tarefa de Elizabeth, de consolidar o anglicanismo como reli- Shekhar Kapur, 1998. gião oficial da Inglaterra.

A reação da Igreja católica

Hans D. J. Holbein/The Bridgeman Art Library/Keystone

C. Malloy/Biblioteca Nacional, Paris, França/Giraudon/The Bridgeman/Keystone

Diante da difusão do protestantismo e das pressões de muitos clérigos exigindo o retorno da Igreja católica a seus princípios originais, uma série de mudanças foi colocada em prática pela Santa Sé. Essa reforma interna – ou Contrarreforma, como também é chamada – levou a Igreja a rever dogmas, valores e princípios.

Papa Paulo III (1468-1549) recebendo a ordem da Companhia de Jesus, em gravura de 1540.

Para se reaproximar da população, ela criou organizações encarregadas de levar as Escrituras aos fiéis e de ajudar os mais necessitados. Com esse propósito, surgiram tanto grupos laicos, como a Companhia do Divino Amor, quanto religiosos, como a Ordem dos Capuchinhos, que defendia um ideal de pobreza para seus membros. Empenhada em recuperar o terreno perdido para os protestantes e arrebanhar novos fiéis, a Igreja criou ordens evangelizadoras, como a Companhia de Jesus, em 1540. Seus integrantes, os jesuítas, desempenhariam importante papel na difusão do cristianismo em terras da Ásia, África e América a partir do século XVI.

O Concílio de Trento

A partir do século XVI, com a afirmação das monarquias nacionais e as primeiras manifestações de absolutismo (veja o capítulo 30), a representação artística dos reis passou a ser cada vez mais imponente. Neste retrato de Henrique VIII, rei da Inglaterra entre 1509 e 1547, o pintor Hans Holbein, o Moço, procurou destacar o poderio do monarca, com roupas magníficas e a mão na espada, numa época em que Henrique VIII fundava uma Igreja da qual seria o chefe supremo.

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Em 1545, iniciou-se na cidade de Trento, na península Itálica, uma reunião de bispos e teólogos destinada a estabelecer regras para a Igreja católica e reforçar os princípios da fé. Conhecida como Concílio de Trento, ela foi interrompida por diversas vezes e prolongou-se até 1563. Entre outras medidas, o Concílio decidiu criar seminários para a formação dos futuros sacerdotes, reforçou a atuação da Inquisição e criou o Index Li-

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brorum Prohibitorum, lista de livros proibidos aos católicos por conterem ideias consideradas contrárias à fé católica. Além de manter o celibato dos padres, o Concílio defendeu o culto às imagens e o recurso às indulgências, proibindo apenas sua venda. Sustentou

que o papel do clero era o de intermediar as relações entre Deus e as pessoas e de fazer a interpretação das Escrituras, e reafirmou a importância dos sete sacramentos. Ao agir assim, o Concílio de Trento acabou de vez com a possibilidade de católicos e protestantes voltarem a se unir sob a mesma Igreja.

Enquanto ¡sso... A expansão islâmica

te de sua mulher, Mumtaz Mahal, para servir-lhe de mausoléu, o Taj Mahal foi construído inteiramente com mármore branco. Em suas paredes foram incrustadas com quartzo várias passagens do Alcorão.

No alvorecer da Idade Moderna, enquanto a Igreja católica via-se envolvida em profunda crise, a religião islâmica continuava dominante no Oriente Médio, no norte da África e em boa parTim Graham/Getty Images te da Índia. Entre os séculos XV e XVI, três grandes impérios nessas regiões seguiam o islamismo: o Império Otomano (que controlava o sudeste da Europa e todos os reinos de língua árabe, exceto a Arábia, o Sudão e o Marrocos), o Império Safávida, na Pérsia, e o Império Mogol, na Índia (não confundir com o Império Mongol, na China). Somente no Império Otomano viviam aproximadamente 14 milhões de pessoas, quase o dobro da população da Espanha e da Inglaterra juntas. Esse império sobreviveu até o início do século XX, desfazendo-se após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Já o Império Mogol sobreviveu até meados do século XIX. Um dos principais símbolos desse império é o Taj Mahal, cujas obras começaram em 1632 e levaram cerca de vinte anos para serem concluídas. Mausoléu de Etimad Ud Doulah, construído em 1628 em Agra, Erguido na cidade de Agra, a mando na Índia. O estilo arquitetônico da construção é conhecido como do soberano Shah Jahan logo após a mor- Mughal, com influências persas, indianas, islâmicas e turcas.

Organizando as ideias 1. A  partir do século XIV, a Igreja católica tornou-se alvo de críticas de intelectuais e religiosos. Indique que processos históricos motivaram essas críticas. 2. Qual foi o papel de Martinho Lutero no processo que culminou com a Reforma protestante? 3. U  ma das 95 teses de Martinho Lutero afirmava que “Esperar ser salvo mediante cartas de

indulgência é vaidade e mentira, mesmo se o próprio papa oferecesse sua alma como garantia”. Considerando essa tese, explique a oposição entre Lutero e as concepções da Igreja católica. 4. Que relação pode ser estabelecida entre as ideias reformistas na esfera religiosa e a eclosão de revoltas sociais e políticas naquele período?

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5. Explique o surgimento da expressão Reforma protestante ou, posteriormente, Igreja “protestante” com base nos eventos que envolveram as decisões do imperador Carlos V, do Sacro Império Romano-Germânico. 6. Por que podemos afirmar que a difusão do calvinismo e a ascensão da burguesia na Idade Moderna estão intimamente ligadas?

7. Narre os episódios que levaram à criação da Igreja anglicana e explique sua importância no contexto da Reforma protestante. 8. A Contrarreforma foi a resposta da Igreja católica à crise provocada pela difusão do protestantismo. Cite três medidas fundamentais da Contrarreforma.

Interpretando DOCUMENTOS Publicado em 1525, o texto a seguir faz parte de um manifesto dos camponeses do Sacro Império Romano-Germânico que no ano anterior haviam se rebelado contra os senhores de terra. Liderados por Thomas Münzer (releia o boxe Convulsão social no Sacro Império, na página 223), eles exigiam reformas sociais. Depois de ler o texto, responda às questões. [...] até agora éramos tratados como escravos, o que é uma vergonha, pois, com o seu precioso sangue, Jesus Cristo nos salvou a todos, tanto ao mais humilde pastor como ao mais nobre senhor, sem distinção. Por esse motivo, deduzimos das Sagradas Escrituras que somos livres, e livres queremos ser. Não que queiramos ser totalmente livres, que não queiramos reconhecer autoridade alguma; não é isso o que Deus nos ensina. [...] até agora, nenhum pobre podia perseguir a caça, pegar aves ou peixes na água corrente, o que nos parece uma lei totalmente injusta e pouco fraternal, mas interesseira e em desacordo com a palavra de Deus. [...] somos prejudicados ainda pelos nossos senhores, que se apoderaram de todas as florestas. Se o pobre precisa de lenha ou madeira tem que pagar o dobro por ela. Nós somos de opinião que deve

ser restituída à comunidade toda e qualquer floresta que se encontra em mãos de leigos ou religiosos que não a adquiriram legalmente. [...] nossa decisão e resolução final é a seguinte: se uma ou diversas dessas exigências não estiverem em consonância com a palavra de Deus, delas abriremos mão imediatamente, desde que se nos prove, à base das Sagradas Escrituras, que elas estão em discordância com a vontade divina. Extraído de: MARQUES, Ademar; BERUTTI, Flávio; FARIA, Ricardo. História moderna através de textos. São Paulo: Contexto, 2001. p. 128.

1. Qual é a autoridade legítima invocada pelo manifesto para justificar o fim da servidão e garantir a liberdade aos camponeses? 2. O  s manifestos geralmente contêm dois aspectos importantes: o primeiro é a denúncia de uma situação (injusta, ilegal, incômoda, etc.); o segundo, uma reivindicação (uma nova proposta, alguma reforma, um tipo novo de organização). Identifique, nesse manifesto, quais são as denúncias e o que ele propõe para transformar a ordem social.

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Igreja do Santo Sepulcro – Passeio virtual pela Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém (site em inglês). Disponível em: <www.360tr.com/kudus/kiyamet_eng/index.html>. Acesso em: 30 out. 2012. Basílica de São Pedro – Passeio virtual pela Basílica de São Pedro, no Vaticano. Disponível em: <www.vatican.va/various/basiliche/san_pietro/vr_tour/index-en.html>. Acesso em: 30 out. 2012.

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Capítulo 28

As Grandes Navegações Objetivos do capítulo Corbis/Latinstock

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O planeta Marte sempre exerceu sobre os habitantes da Terra um fascínio especial. Durante certo tempo, imaginou-se que ele podia ser habitado. Conhecido também como planeta vermelho, pensou-se depois que em suas terras áridas não houvesse vestígios de água. Esse enigma da Ciência chegou ao fim em 2008: o planeta Marte tem água, sim, embora na forma de gelo. O anúncio foi feito por técnicos da agência espacial norte-americana, Nasa, após análise do material coletado na superfície do planeta pela sonda Phoenix.

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Nasa/JPL-Caltech/Malin Space Science Systems/Reuters/Latinstock

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Identificar os grupos sociais e os interesses que conduziram às Grandes Navegações. Conhecer os recursos técnicos, os esforços e as etapas que envolveram a conquista do Atlântico. Reconhecer os principais desdobramentos das Grandes Navegações: a chegada dos europeus às Índias e ao continente americano. Perceber o papel e os interesses dos nascentes Estados Nacionais.

Desvendar os mistérios do Universo tem sido um dos grandes desafios enfrentados pelos seres humanos há séculos, mas as pesquisas para a conquista do espaço interestelar tiveram início de fato em meados do século XX. De lá para cá, governos de diversos países investiram milhões de dólares em pesquisas e viagens ao espaço. Hoje, norte-americanos, russos e chineses, entre outros povos, continuam envolvidos nessas pesquisas e viagens. De certa forma, a corrida espacial se assemelha às Grandes Navegações. Apesar de conservarem especificidades que os diferenciam historicamente, o desenvolvimento científico e tecnológico envolvido em ambas as empreitadas e a expansão dos territórios conhecidos são duas características comuns a esses dois episódios da História. É dessas navegações audaciosas que falaremos neste capítulo.

Foto de outubro de 2012 do robô Curiosity, enviado pela Nasa ao planeta Marte em agosto do mesmo ano. As amostras coletadas pelo robô em solo marciano permitem análise científica das composições químicas do solo e do ar do planeta.

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Um comércio lucrativo

Durante a Idade Média, o comércio entre a Ásia e a Europa era intermediado principalmente pelos árabes. Eles adquiriam mercadorias no Oriente e as levavam até entrepostos comerciais instalados em áreas próximas ao mar Negro ou na parte mais oriental do Mediterrâneo. Comerciantes europeus – principalmente venezianos e genoveses – deslocavam-se até esses entrepostos, abasteciam-se dessas mercadorias e as revendiam depois nas feiras e cidades da Europa. Entre sair da Ásia e chegar à Europa, os preços desses produtos sofriam aumentos de mais de 4 mil por cento. A pimenta, por exemplo, comprada por cerca de 3 ducados na Índia, era revendida no Cairo por 68 ducados e quando chegava às cidades da Europa estava cotada em quase 140 ducados. Os comerciantes europeus sabiam que poderiam ter lucros maiores caso dispensassem os intermediários e adquirissem as mercadorias diretamente de seus produtores, nas Índias (nome pelo qual chamavam todas as terras do leste da Ásia). Até o século XIV, o conhecimento que se tinha na Europa a respeito de outros lugares do mundo era bastante restrito. Além dos relatos do veneziano Marco Polo (releia o boxe O homem que viajava, no capítulo 17), as informações disponíveis sobre o Oriente eram encontradas, quase sempre, em obras escritas por pessoas que jamais haviam estado na Ásia. Havia também muitas lendas sobre outros povos e lugares. Uma delas, reproduzida por monges e peregrinos, falava da existência do chamado reino do Preste João, rei cristão cujos domínios localizavam-se em algum ponto da África Oriental ou da Ásia. Para o governo português, esse reino poderia ser importante aliado de Portugal na luta contra os muçulmanos. O conhecimento a respeito dos mares não era diferente. Muitos europeus acreditavam que em direção ao sul o mar seria habitado por monstros e estaria sempre em chamas. Segundo essa crença, aqueles que arriscassem cruzar o Atlântico – conhecido como mar Tenebroso – iriam se deparar com o fim do mundo: em algum ponto o oceano acabaria e daria lugar a um enorme abismo.

Em busca de rotas alternativas O medo de se aventurar por essas regiões começou a mudar a partir de 1453, quando os turco otoma232

Bettman/Corbis/Latinstock

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nos tomaram Constantinopla e dominaram o Mediterrâneo oriental (reveja o capítulo 20), passando a cobrar altas taxas das caravanas que cruzavam a região. Para escapar dessas cobranças, muitos mercadores europeus começaram a procurar rotas alternativas em direção às Índias. Isso provocou uma grande busca por informações geográficas e marítimas. Nesse processo, quem saiu na frente foi Portugal. Entre os fatores que explicam esse pioneirismo, podem ser destacados: a posição geográfica do país, extremamente favorável às navegações, já que Portugal, banhado pelas águas do Atlântico, era o reino mais ocidental da Europa; a existência de um poder centralizado e de um Estado unificado, sem dissensões internas (reveja o capítulo 25); e a longa experiência de pescadores e marinheiros lusitanos na costa do Atlântico.

Um oceano povoado de monstros assustadores. Era assim o mar Tenebroso no imaginário dos europeus entre o final da Idade Média e o começo da Idade Moderna. Nesta gravura de Sebastian Münster (século XVI), estão representados alguns desses monstros. Com as Grandes Navegações, o mar Tenebroso logo ficaria conhecido como oceano Atlântico.

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A aventura portuguesa

Desde meados do século XIII, comerciantes e marinheiros portugueses faziam frequentes viagens a outras regiões da Europa: levavam para a Inglaterra e a França, por exemplo, produtos como azeite, vinho, couro e frutas secas. Ao retornarem, traziam para Portugal móveis de madeira, armas de ferro e tecidos, entre outros artigos.

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Por essa época, o dinheiro começava a substituir gradualmente a posse da terra como símbolo de prestígio e poder. Assim, o comércio marítimo promoveu pouco a pouco a ascensão social da burguesia mercantil. Além disso, os mercadores portugueses foram beneficiados por alianças e acordos de interesse mútuo estabelecidos com a Coroa portuguesa. De fato, por meio de leis, decretos e incentivos, a monarquia concedia privilégios às pessoas que atuavam no comércio. Em 1358, por exemplo, um decreto autorizava o corte de árvores nas matas do reino para a construção de navios. Em 1380, o governo português criou a Companhia das Naus, uma espécie de seguro marítimo cujo objetivo era resguardar os donos dos navios no caso de perdas por naufrágio ou atos de pirataria. Ao mesmo tempo, o governo de Lisboa colocou em prática uma política protecionista, passando a fazer restrições à ação de mercadores estrangeiros em Portugal, de modo a salvaguardar os interesses dos comerciantes nacionais em face da concorrência externa. Essa relação entre a Coroa e a burguesia mercantil se consolidou de vez entre 1383 e 1385, quando ocorreu a Revolução de Avis, que expulsou de Portugal as forças de Castela e colocou no trono dom João I, apoiado principalmente pela burguesia (releia o capítulo 25). Em 1415, o governo de dom João I resolveu ocupar Ceuta, importante entreposto comercial e militar situado no norte da África. A decisão tinha por objetivo tirar dos muçulmanos o controle do comércio nessa região e colocá-lo em mãos portuguesas. Com a conquista de Ceuta, coordenada por um dos filhos do rei, o infante dom Henrique, teve início o processo de expansão ultramarina de Portugal.

Após a conquista, dom Henrique foi agraciado com o título de grão-mestre da Ordem de Cristo, rica instituição religiosa cujo principal objetivo era “combater os infiéis” em qualquer lugar do mundo. Em Ceuta circulavam informações sobre a existência de ouro no reino do Mali, ao sul do Saara (reveja o capítulo 19). Atraído por essas informações – e pelo desejo de encontrar o reino do Preste João –, dom Henrique planejou a conquista da costa oeste da África em direção ao sul, obtendo para isso financiamento da Ordem de Cristo.

A Escola de Sagres Algum tempo depois da conquista de Ceuta, dom Henrique se transferiu para o Algarve, fixando-se nas proximidades de Sagres, a vila mais ocidental da Europa. Aí, reuniu cartógrafos, astrônomos, matemáticos e navegadores. Juntos, passaram a estudar o legado náutico deixado por grandes povos do passado – fenícios, egípcios, gregos, árabes, etc. Os estudos desse grupo de especialistas não chegaram a tomar a forma de uma instituição educacional permanente, mas ficaram conhecidos como Escola de Sagres. Como resultado de suas atividades, foram desenvolvidas cartas marítimas e criados ou aperfeiçoados diversos instrumentos de navegação, como mostra o boxe A tecnologia náutica, a seguir. Além disso, foi inventado um novo tipo de embarcação, a caravela, navio veloz e relativamente pequeno, com cerca de 20 a 30 metros de comprimento. Tripulada por 40 a 50 homens, era ideal para a navegação costeira, podendo entrar em rios e estuários e realizar manobras em regiões de águas rasas.

A tecnologia náutica Entre os instrumentos utilizados pelos navegantes em suas viagens a partir do século XV, destacam-se a bússola, o quadrante e o astrolábio. A primeira é uma agulha magnética que indica a direção do polo norte e ajuda a identificar a posição percorrida pelo navio; o quadrante é um arco graduado, de 45 graus, que fornece a latitude exata em que se encontra a embarcação. Já o astrolábio consiste em um disco metálico ou de madeira, utili-

zado para determinar a posição do navio com base na localização das estrelas. Juntamente com a invenção e o aperfeiçoamento desses instrumentos, os cartógrafos portugueses passaram a acompanhar os navegadores em suas viagens com o objetivo de elaborar mapas mais precisos. Esses mapas acabaram se tornando objetos extremamente cobiçados na Europa, pois continham informações geográficas que na época eram de conhecimento apenas dos portugueses.

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PORTUGUESES NA COSTA AFRICANA 30º L

EUROPA PORTUGAL Lisboa

ESPANHA Palos

Açores 1428 Madeira 1420

Cabo Verde 1456

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Cabo Bojador 1434

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OCEANO ATLÂNTICO

Melinde 1498

Moçambique 1498

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Vencido o Bojador, Portugal pôde dar continuidade às expedições marítimas em direção ao sul da costa africana. Em 1444, uma dessas expedições retornou a Portugal com cerca de duzentos africanos, vendidos depois como escravos. Esse foi o primeiro grupo de africanos escravizados vendidos em Portugal, prática que logo se generalizaria entre os mercadores portugueses (e de outras origens) e que se estenderia por mais de quatro séculos. Quando dom Henrique morreu, em 1460, os portugueses já haviam chegado até a região da atual Serra Leoa. Uma bula do papa Eugênio IV garantia-lhes o monopólio comercial no continente africano e o direito de “capturar e subjugar os sarracenos [muçulmanos] e pagãos [africanos] e qualquer outro incrédulo ou inimigo de Cristo, como também seus reinos, ducados, principados e outras propriedades, assim como reduzir essas pessoas à escravidão perpétua”.

Cabo da Boa Esperança 1487

OCEANO ÍNDICO

QUILÔMETROS

Fonte: GRAND atlas historique. Paris: Larousse, 2006.

No extremo sul da África

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Ceuta 1415

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As expedições marítimas portuguesas rumo ao sul começaram em 1418 (veja o mapa ao lado). Entre 1420 e 1427, ocorreu a conquista das ilhas da Madeira e dos Açores, nas quais os portugueses introduziram o plantio de trigo, uvas e cana-de-açúcar. A partir de então, as expedições começaram a se deter no temido cabo Bojador. Região de arrecifes pontiagudos, o cabo era considerado um obstáculo intransponível pelos portugueses. Quando chegavam ali, as caravelas sofriam sérias avarias ou afundavam. Em poucos anos, cerca de vinte embarcações foram a pique. Para os supersticiosos, a destruição dos barcos no Bojador devia-se aos monstros que habitavam o oceano ou à fúria divina. Em 1534, uma expedição capitaneada por Gil Eanes conseguiu finalmente ultrapassar o temido obstáculo. Com a travessia do Bojador, os portugueses haviam vencido o desconhecido e dominado o medo (veja a seção No mundo das letras, na página 238).

30º L

O último passo nesse avanço pela costa africana ocorreu em 1487, quando Bartolomeu Dias dobrou a extremidade sul do continente africano. Chamou o acidente geográfico ali encontrado de cabo das Tormentas. Mais tarde, o rei dom João II (1481-1495) mudou esse nome para cabo da Boa Esperança. A essa altura, os portugueses já haviam definido seu mais ambicioso projeto: encontrar o caminho marítimo para as Índias. Como a confirmar o nome com que chamou o cabo, Bartolomeu Dias morreria em 1500 durante uma tormenta no cabo da Boa Esperança.

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Os espanhóis chegam à América

Os feitos portugueses estimularam o interesse de navegantes de outras regiões da Europa em descobrir um caminho alternativo para as Índias. Um deles era o genovês Cristóvão Colombo. Acreditando na esfe-

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ricidade da Terra, Colombo argumentava que a forma mais rápida de se chegar às Índias a partir da Europa seria pelo oceano Atlântico. Segundo sua tese, para se chegar ao Oriente seria preciso navegar para o Ocidente. Diante da recusa do rei de Portugal dom João II em financiar seu projeto, o genovês se dirigiu aos reis espanhóis Fernando e Isabel e deles conseguiu apoio. Em agosto de 1492, acompanhado por cerca de noventa homens, Colombo deixou o porto de Palos, na Andaluzia, no comando das caravelas Santa María, Pinta e Niña. Navegando sempre em direção a oeste, no dia 12 de outubro do mesmo ano, Colombo avistou terra firme. Acreditou ter chegado às Ín* Veja o dias, mas suas embarcações haviam filme 1492: a aportado em um continente desco- conquista do nhecido dos europeus e que poste- paraíso, de riormente passou a ser conhecido Ridley Scott, 1992. como América*. Entre 1493 e 1502, Colombo realizou mais três viagens ao novo continente sob o patrocínio da Espanha, mas as riquezas tão desejadas não foram encontradas. Em 1506, Colombo morreu em Valladolid, na Espanha, abandonado, sem prestígio e certo de que encontrara o caminho para as Índias.

O Tratado de Tordesilhas

O feito de Colombo levou os governos de Portugal e da Espanha a se envolverem em uma disputa a respeito de qual dos dois países teria primazia sobre as “novas” terras. Como não chegavam a um acordo, os reis de Portugal e Espanha pediram ao papa Alexandre VI que servisse de juiz na disputa. Em 7 de junho de 1494, com o testemunho do papa, representantes dos dois governos chegaram finalmente a um acordo e assinaram o Tratado de Tordesilhas. O acordo dividia o mundo em dois blocos, a partir de uma linha imaginária que ficava a 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde (veja o mapa da página 236). As terras já encontradas, ou que viessem a sê-lo, a oeste desse marco pertenceriam à Espanha. As terras situadas a leste seriam de Portugal.

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A caminho das Índias

Universal Images Group/De Agostini/Alamy/Other Images

Corbis/Latinstock

Após a assinatura do Tratado de Tordesilhas, os espanhóis continuaram com suas expedições em direção ao continente americano. O governo de Portugal, em contrapartida, manteve seus planos de chegar às Índias contornando a África. Assim, após a travessia do cabo da Boa Esperança os portugueses decidiram organizar uma nova viagem. Dessa vez, o escolhido para comandar a empreitada foi Vasco da Gama.

De pé sobre um escaler, Cristóvão Colombo despede-se dos Reis Católicos (Isabel e Fernando) no porto de Palos, na Espanha atual. Em sua viagem rumo ao Oriente, Colombo chegou a um continente desconhecido dos europeus e que logo viria a se chamar América. Gravura Cristóvão Colombo partindo para sua primeira viagem, de Victor A. Searles, 1892.

Azulejo português do século XVI retrata a instalação de um pelourinho.

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Vasco da Gama partiu de Lisboa em julho de 1497, com quatro navios e 170 homens sob seu comando. Em novembro, a frota dobrou o cabo da Boa Esperança. Em março do ano seguinte, chegou a Melinde, na costa do Quênia atual. Ali, Vasco da Gama conseguiu a ajuda de um marinheiro árabe que concordou em guiá-los pelo oceano Índico até as Índias. Assim, em maio de 1498, a frota portuguesa aportou em Calicute, na Índia atual. Era a prova definitiva de que se podia chegar ao Oriente sem passar pelo Mediterrâneo.

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de passariam a ser chamadas de Brasil. No ano seguinte, o florentino Américo Vespúcio, a serviço do rei de Portugal, mapeou essas terras, chegando à conclusão de que não faziam parte das Índias, mas sim de um novo continente que, em sua homenagem, passou a ser chamado de América. Em 1519, o português Fernão de Magalhães, a serviço da Coroa espanhola, deu início à primeira viagem ao redor da Terra. Morto em uma ilha do Pacífico, Magalhães jamais retornaria ao ponto de partida, mas sua viagem de circum-navegação seria completada por Sebastião Elcano, que estaria de volta à Espanha em 1522 (ver mapa abaixo).

Portugueses na América

A aventura de Magalhães e Elcano provava de uma vez por todas a esfericidade da Terra. Depois

O sucesso da empreitada de Vasco da Gama estimulou novas viagens. Em 1500, após afastar-se da costa africana, o navegador Pedro Álvares Cabral alcançou terras a oeste do Atlântico Sul que mais tar-

de um século de navegações e da conquista de um novo continente pelos europeus, o mundo nunca mais seria o mesmo.

NAVEGAÇÕES PORTUGUESAS E ESPANHOLAS (SÉCULOS XV E XVI)

LINHA DO TRATADO DE TORDESILHAS

Círculo Polar Ártico

AMÉRICA DO NORTE

San Salvador 1492

OCEANO ATLÂNTICO

Veneza PORTUGAL ESPANHA Açores Lisboa Sevilha 1428 Palos M ar M editerrân Ceuta eo 1415 Madeira 1420 Cabo Bojador 1434 Cabo Verde 1456 GUINÉ 1434-1462

AMÉRICA CENTRAL

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OCEANO ATLÂNTICO

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Moçambique 1498 Cabo da Boa Esperança 1487

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ÁFRICA CONGO 1482-1485

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OCEANO PACÍFICO

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OCEANO PACÍFICO Trópico de Câncer Goa Calicute 1498 Cochim

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OCEANO ÍNDICO 22 o 15 lcan ião E t s a b Se

Trópico de Capricórnio

OCEANIA

Rotas das navegações portuguesas Primeiras viagens Vasco da Gama Pedro Álvares Cabral

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ESCALA 1800 QUILÔMETROS

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Rotas das navegações espanholas Cristóvão Colombo Fernão de Magalhães e Sebastião Elcano (primeira viagem de circum-navegação)

Fonte: GRAND atlas historique. Paris: Larousse, 2006.

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Enquanto ¡sso... Os chineses, outra vez

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Enquanto os portugueses se preparavam para iniciar suas viagens ultramarinas em direção às Índias, um navegante chinês já dominava o oceano Índico. Era Zheng He (1371-1435), um eunuco oriundo de família muçulmana a serviço do imperador chinês. Entre 1405 e 1433, ele realizou sete expedições pelo oceano Índico, chegando à Índia, ao golfo Pérsico, à África oriental e ao sudeste da Ásia. Uma dessas expedições contou com uma frota de 62 embarcações e cerca de 30 mil marinheiros. Nessas viagens, os chineses entraram em contato com cerca de quarenta reinos, estabelecendo relações comerciais e diplomáticas com eles. Zheng He navegava com o auxílio de uma bússola, instrumento inventado pelos chineses quase dois mil anos antes. Estátua do navegador chinês Zheng He em Jiangsu, na China, em foto de 2005.

Organizando as ideias 1. O  comércio entre o Oriente e o Ocidente durante a Idade Média era realizado através do mar Mediterrâneo. Descreva, em linhas gerais, como estava organizada essa atividade mercantil. 2. Os comerciantes europeus acreditavam que teriam lucros muito maiores se pudessem atingir os postos comerciais nas Índias sem intermediários. Entretanto, eles permaneciam dependentes dos entrepostos controlados pelos árabes. Com base nessas afirmações, responda às questões: a) Que obstáculos, reais ou imaginários, impediam os europeus de encontrar uma rota alternativa para chegar diretamente ao Oriente? b) Que acontecimento provocou a alteração desse quadro e praticamente obrigou os comerciantes europeus a se lançar à procura de outras rotas comerciais?  uais foram os fatores políticos e econômicos 3. Q que garantiram a Portugal vantagens marítimas em relação aos demais países europeus?

4. Q  ual foi o papel da Escola de Sagres no pioneirismo marítimo português?  bserve o mapa Portugueses na costa africana 5. O (p. 234) e monte uma linha do tempo indicando as conquistas portuguesas no litoral da África. 6. A expansão marítima portuguesa foi financiada e conduzida pelo Estado português com o apoio dos grandes comerciantes. No entanto, a Igreja católica também teve papel fundamental nesse processo e no estabelecimento do monopólio comercial português na África. Descreva as justificativas da Igreja para incentivar as conquistas portuguesas. 7. De que modo a Espanha se lançou na disputa pela expansão marítima e pela conquista de novas terras? 8. O  Tratado de Tordesilhas, assinado pelos governos de Espanha e Portugal, em 7 de junho de 1494, com o testemunho do papa, dividia o mundo em dois blocos. Com que finalidades esse acordo foi assinado?

As Grandes Navegações Capítulo 28

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No mundo Das letras A conquista do Atlântico

Mar português Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu. PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986. p. 16.

Hora DE REFLETIR O processo de expansão marítima de Portugal foi promovido por uma aliança entre o Estado monárquico e a burguesia mercantil. Nessa aliança, ambos obtiveram vantagens: o Estado garantiu a ampliação do seu poder e dos territórios sob seu domínio, e a burguesia conquistou novos mercados e ampliou suas atividades

1. P  ode-se afirmar que o poema retrata a visão europeia do século XV a respeito das conquistas verificadas no período das Grandes Navegações. Que visão é essa e como ela está expressa no poema? 2. O  desenvolvimento da tecnologia náutica teve um grande peso no processo das conquistas portuguesas a partir do século XV. Os avanços verificados no período possibilitaram maior contato entre povos que até então não se conheciam. Sob diferentes formas, hoje em dia, tecnologias como o telefone celular e a internet também têm servido para interligar pessoas de diferentes partes do mundo. Na sua visão, o desenvolvimento tecnológico atual beneficia positivamente as relações humanas? Escreva um texto sobre a questão dando exemplos concretos observados hoje em dia.

2005 Roger-Viollet/Topfoto/Keystone

O poeta português Fernando Pessoa nasceu em Lisboa em 13 de junho de 1888. Considerado um dos maiores nomes da literatura mundial, publicou em vida um único livro em português, Mensagem, lançado em 1934, um ano antes de sua morte. Os poemas desse livro contam a história de Portugal. É o caso de “Mar português”, que remete ao período das Grandes Navegações. Leia o poema e responda ao que se pede.

Selo português desenhado por Luís Duran estampando a efígie do poeta Fernando Pessoa (1888-1935), autor de “Mar português” e muitos outros poemas.

Atenção: não escreva no livro. Responda sempre no caderno.

comerciais, assegurando certos privilégios e monopólios. Reúna-se com seu grupo de colegas e juntos reflitam sobre a seguinte questão: o Estado brasileiro, atualmente, privilegia grupos sociais específicos, ou exerce o poder em benefício de toda a sociedade? Em seguida, debatam esse tema.

Mundo virtual nn

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O mundo luso-brasileiro – Exposição virtual do Arquivo Nacional sobre a expansão marítima portuguesa. Disponível em: <http://tinyurl.com/8fwcrat>. Acesso em: 31 out. 2012.

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Capítulo 29

Os impérios coloniais Objetivos do capítulo The Granger Collection, New York/Other Images

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da Guiana Francesa, controla as ilhas de Saint Pierre e Miquelon (conquistadas em 1604), na América do Norte, Martinica e Guadalupe (ambas em 1635), no mar do Caribe, e a ilha de Reunião (1642), na África. No Caribe, a Inglaterra domina as ilhas Virgens Britânicas (conquistadas em 1672), Anguilla (1650) e as ilhas Cayman (1670); já a Holanda possui, além de Aruba, as Antilhas Holandesas, ambas dominadas em 1636. Neste capítulo estudaremos os fatores que levaram à expansão ultramarina de potências europeias entre os séculos XV e XVII. WorldFoto/Alamy/Other Images

O que a ilha de Santa Helena, Aruba e a Guiana Francesa têm em comum? O fato de pertencerem a potências europeias. Santa Helena, na África, é um território ultramarino da Inglaterra; a Guiana Francesa, na América do Sul, como o nome indica, é um domínio da França; e Aruba é uma ilha no Caribe pertencente à Holanda. Houve uma época em que as potências europeias detinham grandes impérios coloniais. Aruba, Santa Helena e a Guiana Francesa são uma reminiscência dessa época, durante a qual o interesse em dominar os mares, controlar fontes de ouro e prata e obter grandes lucros por meio do comércio marítimo despertou em países europeus o desejo de conquistar terras além-mar. Passados cinco séculos, ainda hoje alguns desses países mantêm sob seu domínio territórios conquistados naquele período. A França, além

Conhecer a expansão ultramarina empreendida pelos europeus a partir do século XV. Entender os conceitos de pacto colonial e mercantilismo. Identificar as nações europeias e as regiões do mundo envolvidas no processo expansionista. Compreender os desdobramentos do processo expansionista, considerando aspectos culturais e econômicos.

O inglês é um idioma falado na Ilhas Cayman, território na região do Caribe, que desde o final do século XVI encontra-se sob domínios da Inglaterra. Na imagem, vemos uma placa de trânsito em inglês alertando os motoristas para tomarem cuidado com as iguanas que costumam atravessar a pista. Foto de 2008.

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A Revolução Comercial

A chegada dos espanhóis ao continente americano em 1492 e a descoberta do caminho marítimo para as Índias pelos portugueses em 1498 podem ser consideradas o marco inicial da Expansão Ultramarina. Com elas, as sociedades europeias, que até então viviam fechadas, restringindo seus contatos aos povos do Mediterrâneo, ampliaram seus horizontes para o mundo além-mar. O comércio deslocou-se então dos mares interiores da Europa – Mediterrâneo, Báltico e Negro – para os oceanos Atlântico, Índico e Pacífico. Acompanhando o comércio, o contato intercultural incentivou a troca de ideias. O intercâmbio entre povos de culturas e lugares tão distintos contribuiu para que o conhecimento tecnológico se desenvolvesse de forma mais intensa e contínua. Isso permitiu grandes avanços nas áreas da navegação, cartografia, medicina e construção naval. Expandiu-se também o saber científico, principalmente em áreas como Astronomia, Geografia, Zoologia e Mineralogia.

Eu também

posso participar

O consumo consciente de alimentos Conservar alimentos para garantir seu consumo no futuro sempre foi uma preocupação dos grupos humanos. A salga e defumação de carnes, a produção de conservas, a fabricação de queijos ou de pães, entre muitos outros exemplos, são técnicas criadas ao longo do tempo com o objetivo de preservar e prolongar o uso de alimentos in natura. Por essa razão, as especiarias do Oriente tiveram um papel de destaque na Europa do começo da Idade Moderna. Em uma época na qual inexistiam geladeiras e o inverno era rigoroso, os europeus abatiam as reses no outono, porque no inverno não haveria comida para esses animais. Mas, para se alimentarem nos meses subsequentes ao do abate, era preciso conservar a carne. As técnicas usadas baseavam-se em receitas que incluíam plantas aromáticas e temperos variados. Uma das receitas mais comuns era uma mistura de sal, vinagre, grãos de cominho, coentro e pimenta.

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O comércio cresceu significativamente. As especiarias, que estimularam a procura do caminho marítimo para as Índias, se tornaram artigos cobiçados, principalmente por ajudarem na conservação dos alimentos (veja a seção Eu também posso participar, a seguir). Além delas, diversos produtos passaram a circular pelo mundo. A batata, o tomate, o fumo, o mamão e o abacaxi, originários das Américas, foram introduzidos no continente europeu. O cacau e o milho, igualmente típicos das terras americanas, adaptaram-se muito bem na África. Originária da Ásia, a cana-de-açúcar espalhou-se por regiões do Caribe e da América do Sul. O café, oriundo da Etiópia, penetrou no continente europeu e chegou mais tarde à América. Animais e objetos também cruzaram o mundo. Os europeus levaram o cavalo tanto para a América como para o Japão, onde só existiam equinos de pequeno porte. Por intermédio dos mercadores da Europa, os japoneses também tiveram seu primeiro contato com as armas de fogo e o relógio. Assim, graças às navegações, produtos de quatro continentes passaram a atravessar os mares, provocando uma circulação monetária desconhecida até então. Por tudo isso, esse processo é chamado de Revolução Comercial.

Além da conservação de carnes e peixes, as especiarias também eram muito utilizadas na preparação dos alimentos, já que depois de certo tempo muitos produtos adquiriam sabores nem sempre agradáveis. Graças a essa ampla utilização, as especiarias eram extremamente populares. Um guia muito utilizado na Europa na Idade Média citava 288 substâncias para conservar e temperar alimentos, ministrar como remédio, etc. A especiaria mais cobiçada era a pimenta-da-índia (aqui no Brasil chamada de pimenta-do-reino), famosa por suas propriedades digestivas, usada como estimulante do apetite e indicada para melhorar a circulação sanguínea. Mas havia também a canela (oriunda do Ceilão, atual Sri Lanka); a noz-moscada e o cravo (ambos das ilhas Moluscas, hoje Indonésia), além do açafrão, gengibre, cúrcuma, anis, sementes de papoula e muitas outras. O acesso a esses produtos, no entanto,

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Terra para atender nossas necessidades de água, energia e alimentos. Situação essa capaz de pôr em risco a sobrevivência do planeta. Por essa razão, vem crescendo cada vez mais o movimento mundial em favor do consumo consciente de alimentos. Veja a seguir algumas dicas de como todos podemos participar dessa luta pela sustentabilidade da Terra. • Frutas e verduras amadurecem primeiro. Por isso, é recomendável consumi-las antes dos demais alimentos. Quando se compra mais comida do que o necessário para o consumo de poucos dias, as frutas e verduras correm o risco de serem as primeiras a estragar. • Alimentos com a casca apenas “machucada” não precisam ir para o lixo. Muitas vezes trata-se apenas de marcas de transporte e não de comprometimento da qualidade do produto. • As frutas que estão ficando maduras podem ser congeladas antes de estragar. Quando descongeladas, podem ser batidas no liquidificador para fazer sucos e vitaminas. • Colocar mais comida no prato do que se consegue comer é uma das formas mais comuns de desperdício de alimentos. • Sobras de alimentos podem ser recicladas: do feijão, pode-se fazer sopa. Com arroz, cenouras coziThe Bridgeman Art Library/Keystone

era extremamente limitado, só melhorando com o comércio resultante das Grandes Navegações. Embora hoje algumas dessas técnicas de conservação ainda sejam utilizadas (como a salga de peixes e de carne ou a cristalização de frutas), existem outras formas de se preservar os alimentos que vão desde guardá-los em geladeiras ou freezers até a adição de produtos químicos que preservam suas características por mais tempo. Apesar disso, o que se constata hoje é uma cultura generalizada de desperdício de alimentos. Segundo alguns estudos recentes, no Brasil cerca de 64% do que deveria ir para a mesa da população são perdidos na colheita, no transporte, na produção, na industrialização e também na casa do consumidor final, ou seja, na nossa casa. Todos os dias, cerca de 70 mil toneladas de alimentos são jogadas no lixo. São frutas de casca manchada, iogurtes perto da data de vencimento, pães amanhecidos, comidas esquecidas dentro da geladeira, entre outros produtos que não são consumidos. Hoje a humanidade já consome 30% a mais de recursos naturais do que a capacidade de renovação da Terra. Se os padrões de consumo e produção se mantiverem no nível atual, em menos de cinquenta anos serão necessários dois planetas

Afresco do século XV representando o interior de uma farmácia na península Itálica, na qual se vendiam também algumas das especiarias provenientes da Ásia. Estas eram compradas dos mercadores árabes por comerciantes de cidades da península Itálica, como Gênova e Veneza.

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das, carne assada ou com o que restou do peixe é possível preparar bolinhos. Frutas azedas ou maduras demais viram compotas, geleias e recheios para bolo. Além disso, talos de muitas verduras podem ser transformados em sopas ou tortas. Fontes: <www.akatu.com.br>, acesso em: 26 out. 2012; Comida entra na mira do consumo consciente. Folha de S.Paulo, 9 out. 2003; FLANDRIM, Jean-Louis; MONTANARI, Massimo (Org.). História da alimentação. São Paulo: Estação Liberdade, 1998. NEPOMUCENO, Rosa. O Brasil na rota das especiarias. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005.

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O mercantilismo

The Bridgemman Art Library/Keystone

A expansão do comércio provocou o surgimento no século XVI de um conjunto de princípios conhecido como mercantilismo. Mesmo não tendo se constituído como doutrina sistemática, o mercantilismo foi seguido por boa parte dos governantes, desejosos de ver a prosperidade de suas nações e o

Sua opinião O desperdício de alimentos revela outra face cruel: enquanto alimentos são jogados fora, cerca de 24 mil pessoas por dia morrem de fome e de doenças causadas pelas desnutrição no Brasil e no mundo. Por que, apesar da grande produção de alimentos no mundo, existe tanta gente que morre de fome e desnutrição? Discuta essa questão em seu grupo. Depois, apresentem oralmente à classe as conclusões a que chegaram.

aumento do poder do Estado. Embora variassem de uma nação para outra, alguns dos princípios mercantilistas eram comuns a todas elas. Entre eles, destacam-se os seguintes: • Metalismo: argumentava-se que, quanto maior o volume de moedas de ouro e prata acumulado por uma nação, mais rica ela seria. • Balança comercial favorável: os governos acreditavam que o dinheiro ganho com as exportações tinha de ser maior do que os gastos com as importações. Como as transações costumavam ser feitas com moedas de ouro e prata, quanto mais favorável fosse a balança comercial, mais rico seria o Estado. • Política protecionista: consistia na cobrança de altas taxas alfandegárias sobre as mercadorias estrangeiras. Isso as deixava mais caras e obrigava o consumidor a comprar os artigos fabricados no próprio país.

3 Vista do porto de Cádiz, na Espanha, mostrando a comercialização de mercadorias provenientes das “Índias Ocidentais”, ou seja, da América. Gravura francesa do século XVI.

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O “Pacto Colonial”

Também contribuiu para que as ideias mercantilistas vigorassem na Europa o fato de as potências europeias terem conquistado, a partir das últimas décadas do século XV, diversos territórios na África, Ásia e América, transformando-os em colônias. Esses territórios eram explorados nos termos do chamado pacto colonial. Não se tratava propriamente de um pacto, já que não era resultado de negociações entre as partes, mas sim de uma imposição da potência conquistadora que regia as relações entre as metrópoles europeias e suas possessões. Por meio desse pacto não assinado, a metrópole transformava as colônias em economias complementares às suas,

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garantindo assim seu próprio enriquecimento à custa dos territórios dominados. Nos termos do pacto colonial, as colônias ficavam proibidas de produzir artigos manufaturados. A elas só eram permitidos a extração de metais preciosos e o cultivo de plantas de interesse comercial em relação ao mercado europeu, como cana-de-açúcar, tabaco e algodão. A produção agrícola deveria ser vendida à metrópole, que garantia assim o monopólio do comércio desses produtos. Para impedir que as moedas saíssem de seu território, algumas metrópoles pagavam por esses produtos com africanos escravizados. Na África, as pessoas capturadas eram quase sempre adquiridas como escravos pelos traficantes europeus em troca de artigos manufaturados, como armas, pólvora, ferro e rum. Essas relações mercantis integravam o chamado comércio triangular entre os três continentes – África, Europa e América – e foi uma das principais bases do desenvolvimento das nações europeias.

4

ção europeia moderna a ter um império ultramarino. Para assegurar suas conquistas, os portugueses construíram fortalezas e feitorias na América do Sul, África e Ásia, que serviam de apoio às suas embarcações e eram utilizadas para armazenar produtos posteriormente vendidos na Europa. Em meados do século XVI, os portugueses mantinham mais de cinquenta fortes e feitorias na rota entre a África e o Japão. Veja algumas dessas feitorias no mapa a seguir. Habitualmente, as embarcações portuguesas partiam do rio Tejo. Além dos tripulantes, levavam também padres jesuítas com o objetivo de converter as populações das terras conquistadas ao catolicismo. Eram viagens longas e difíceis. Muitas pessoas morriam durante o trajeto, por causa de doenças e naufrágios. No boxe da página seguinte você pode ler trechos do diário de bordo da primeira viagem de Vasco da Gama às Índias, nos quais são narradas as dificuldades enfrentadas pelos marinheiros em alto-mar. Os portugueses dominaram a maior parte do comércio ao longo do Índico por quase um século, transportando para a Europa especiarias, chás, sedas, pedras preciosas e africanos escravizados. Capturadas na África, essas pessoas eram enviadas como escravos também para as colônias portuguesas na América e nos Açores.

O Império Português

Com a descoberta do caminho marítimo para as Índias e a chegada às terras que ficariam conhecidas como Brasil, Portugal se transformou na primeira na-

IMPÉRIO COLONIAL PORTUGUÊS (1500-1580)

ÁSIA EUROPA

AMÉRICA DO NORTE

NOVA ESPANHA ANTILHAS

NOVA CASTELA

OCEANO PACÍFICO

LINHA DO TRATADO DE TORDESILHAS

PORTUGAL ESPANHA Açores Madeira Canárias

Ormuz (1515) Mascate

Cabo Verde 370 léguas

GUINÉ ÁFRICA Axim Elmira Shana

AMÉRICA PORTUGUESA

Diu

Cantão

Calicute Ceilão

ANGOLA Moçambique (1507)

Melinde Mombaça Madagascar

Macau (1557)

Damão Goa (1510)

Filipinas Málaca (1511) Bornéu

Sumatra Java

OCEANO ÍNDICO

OCEANO PACÍFICO

Nova Guiné

Equador

Molucas

Sofala

OCEANO ATLÂNTICO

Cabo da Boa Esperança

Portugal e seu império colonial até 1580

0

ESCALA 1 990

3 980

QUILÔMETROS

Fonte: GRAND atlas historique. Paris: Larousse, 2006.

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Aos poucos, porém, Portugal perdeu o controle do comércio com as Índias. Para esse declínio contribuíram o alto custo das viagens transoceânicas, a resistência muçulmana à presença portuguesa no Oriente e o processo de sucessão do trono português que, em 1580, colocou Portugal sob o domínio da Espanha no âmbito da União Ibérica, como veremos no segundo volume desta coleção.

Doença em alto-mar Levamos quase três meses nesta travessia, enfrentando muitas calmarias e ventos contrários. Nesse tempo, todos adoeceram das gengivas, que cresciam sobre os dentes de tal maneira que não podiam comer. As pernas inchavam e havia outros grandes inchaços pelo corpo, que castigavam tanto a pessoa que ela acabava morrendo sem ter nenhuma doença. Nesses dois meses e 27 dias, trinta homens morreram, sem contar os que já estavam mortos a essa altura. [...] Por isso, garanto que se a viagem durasse mais uns 15 dias, logo não haveria quem conduzisse os navios.

5

VELHO, Álvaro. O descobrimento das Índias: diário da viagem de Vasco da Gama. Rio de Janeiro: Objetiva, 1998. p. 108.

Diálogos

The Bridgeman Art Library/Keystone

A doença descrita no texto chama-se escorbuto. Como suas causas eram desconhecidas na época, ela foi responsável por grande número de mortes entre os marinheiros. Com o auxílio do professor de Biologia, pesquise as causas e os sintomas do escorbuto e tente descobrir como os navegadores buscavam se livrar da doença. Registre suas descobertas no caderno.

No começo da Idade Moderna, os europeus acreditavam que em algum lugar do planeta existiam quantidades inesgotáveis de ouro e prata. Encontrar essas terras míticas, chamadas na época de El Dorado, era o sonho de muitos, fossem eles reis ou simples aventureiros. Após terem iniciado a colonização da América, os espanhóis descobriram em 1545 o que parecia ser o El Dorado: Potosí, uma montanha de aproximadamente 600 metros de altura na Bolívia atual, no interior da qual encontrava-se a maior jazida de prata conhecida até então. Em poucos anos, a extração do precioso minério de Potosí fez da Espanha a nação mais rica da Europa. Entre 1500 e 1520, antes, portanto, da conquista de Potosí, a casa da moeda da Espanha havia produzido apenas 45 toneladas de prata. Entre 1545 e 1560, esse número saltou para 270 toneladas. Entre 1580 e 1600, ele chegou a 340 toneladas. Por volta de 1600, o El Dorado começou a dar sinais de esgotamento: a partir de então, o volume de prata de Potosí diminuiu sensivelmente, até se extinguir por completo em poucas décadas. A riqueza obtida com sua extração foi rapidamente gasta nas guerras travadas pela Espanha nesse período, o que acabou levando o país ao declínio.

6 Detalhe de uma pintura japonesa do século XVI representando a chegada dos primeiros portugueses ao Japão. À direita, podem-se ver dois padres da Igreja católica.

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Espanha e o El Dorado

Tordesilhas, adeus

Desconsiderando o Tratado de Tordesilhas, firmado em 1494 entre Portugal e Espanha (releia o capítulo anterior), outros países europeus, como França, Inglaterra e Holanda, entraram na corrida pelas riquezas da África, Ásia e América. Em 1533, os ingleses estabeleceram postos comerciais ao longo da costa ocidental africana e, em 1593, os holandeses fizeram o mesmo.

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Apesar da vigilância, portugueses e espanhóis não conseguiam impedir o afluxo de navios concorrentes em direção ao continente americano. O rei da França, Francisco I (1515-1547), rejeitava o Tratado de Tordesilhas, afirmando desconhecer a “cláusula do testamento de Adão” que o afastara da divisão do mundo entre a Espanha e Portugal. Assim, já no começo do século XVI expedições francesas chegaram à região do atual litoral brasileiro em busca de pau-brasil, muito utilizado para tingir tecidos nas manufaturas têxteis europeias. Nessas viagens, além de pau-brasil os negociantes franceses levavam peles e penas de animais, que alcançavam altos preços na Europa. Em 1555, alguns deles chegaram a fundar uma colônia na baía de Guanabara, no atual estado do Rio de Janeiro, a França Antártica, onde permaneceriam até 1567, quando foram expulsos pelos portugueses.

-sucedido, o corsário entregava parte do butim ao rei. No início do século XVII, a Holanda, por exemplo, contava com cerca de 130 corsários. O governo da Inglaterra foi um dos que mais incentivaram o corso no Atlântico e no Caribe, principalmente entre 1558 e 1603, época em que o país esteve governado pela rainha Elizabeth I. Alguns piratas e corsários ingleses, como Thomas Cavendish, Francis Drake e Richard Hawkins, tornaram-se famosos.

The Bridgeman Art Library/Keystone

Ingleses e franceses

Gravura de Jean Antoine Theodore Gudin (1802-1880) representando a fundação da colônia francesa de São Cristóvão e Martinica, na região do Caribe, entre 1625 e 1635.

Piratas e corsários Não demorou muito e os mares do Caribe e do Atlântico Sul passaram a ser navegados não apenas por negociantes, mas também por piratas e corsários que assaltavam, sobretudo, embarcações espanholas carregadas de metais preciosos. Enquanto os piratas atuavam por conta própria e eram considerados fora da lei, a ação dos corsários era autorizada pelo rei de seu país de origem, que para isso lhes entregava um documento conhecido como carta de corso. Quando um ataque era bem-

Como os governos de Portugal e Espanha procuravam manter o controle marítimo do Atlântico e das rotas que levavam até as Índias, outras nações europeias passaram a buscar caminhos alternativos para o Oriente. Com esse intuito, ingleses e franceses começaram a explorar o Atlântico Norte. De modo geral, essas viagens não foram bem-sucedidas, pois o gelo encontrado nos mares próximos ao polo norte obrigava as embarcações a retornarem. Em 1535, um navegador francês, Jacques Cartier, chegou à embocadura do rio São Lourenço, na região que hoje corresponde ao Canadá, e tomou posse dessas terras em nome do rei Francisco I. Porém, como não foram encontrados metais preciosos, a região mais setentrional da América do Norte permaneceu praticamente intocada durante o século XVI. Em 1584, Walter Raleigh fundou Virgínia, colônia inglesa na costa do atual estado norte-americano da Carolina do Norte. Mas a efetiva colonização da região começaria pouco mais tarde, como explica o boxe Primeiras colônias na América do Norte, na página a seguir.

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As companhias de comércio

Aproveitando-se do declínio do poderio de Portugal e da Espanha, holandeses e ingleses decidiram, no início do século XVII, chegar às Índias contornando o sul da África. Para isso, criaram um tipo de organização pouco conhecido de lusos e espanhóis: as companhias de mercadores. Essas companhias eram empresas comerciais formadas por sociedades anônimas, algumas das quais reuniam mais de trezentos associados, denominados acionistas. Os recursos recolhidos eram empregados no financiamento de expedições em direção ao Oriente, à América e à África, e o lucro das viagens dividido entre os acionistas. Os impérios coloniais Capítulo 29

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Primeiras colônias na América do Norte

O governo inglês e o governo holandês delegavam a tais empresas poderes para comercializar, conquistar, colonizar, administrar e defender territórios que estivessem sob seus domínios. Por causa do grande aporte financeiro, essas companhias tinham capacidade de construir navios, contando muitas vezes com cais e armazéns próprios. Algumas delas tiveram importante papel durante a expansão marítima da Europa. Foi o caso, por exemplo, da Companhia Inglesa das Índias Orientais, fundada em 1600. Nos Países Baixos (Holanda), destacaram-se a Companhia Holandesa das Índias Orientais (1602) e a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais (1621). Graças a elas, no século XVII a Holanda assumiu a supremacia no comércio transoceânico. Com a ajuda dessas companhias de mercadores, os holandeses criaram entrepostos e colônias em vários continentes. Na América, fundaram 246

Enquanto isso, os franceses, no começo do século XVII, fundaram um posto comercial às margens do rio São Lourenço, origem da cidade de Quebec, no atual Canadá. Em 1626, jesuítas franceses dirigi* Veja o filme ram-se para lá visando converHábito negro, ter os nativos ao cristianismo*. de Bruce Esse núcleo colonial ficaria co- Beresford, 1991. nhecido como Nova França. W. J. Aylward/Foto de Harold M. Lambert/Kean Collection/Archive Photos/Getty Images

A efetiva colonização inglesa na América do Norte pode ser fixada em 1607, ano em que foi fundada a cidade de Jamestown, no atual estado da Virgínia. A colônia começou a prosperar a partir de 1612, quando seus habitantes passaram a plantar tabaco, produto de grande aceitação na Inglaterra. Em 1619, traficantes holandeses levaram para lá os primeiros africanos escravizados. Em 1620, 102 ingleses desembarcaram do navio Mayflower (veja a imagem) e fundaram a colônia de Plymouth, cerca de 750 quilômetros ao norte da Virgínia. Mais tarde, outros colonos provenientes da Inglaterra fundariam novas colônias nas regiões adjacentes. O conjunto dessas colônias ao norte da região de colonização inglesa ficaria conhecido como Nova Inglaterra. Uma dessas colônias, Massachusetts, absorveria Plymouth algumas décadas depois. Os colonos do Mayflower, assim como muitos outros que se instalaram na Nova Inglaterra, eram calvinistas que, por não aceitarem a liderança religiosa do rei britânico – chefe da Igreja anglicana –, sofriam perseguições na Inglaterra (releia o capítulo 27). Conhecidos como pais peregrinos, emigraram com o objetivo de exercer a liberdade de culto e fundar sua Igreja no Novo Mundo.

Puritanos ingleses conhecidos como pilgrims desembarcam do navio Mayflower na colônia de Plymouth, Massachusetts, EUA, em novembro de 1620.

Nova Amsterdã, atual Nova York; estabeleceram-se na Guiana Holandesa (atual Suriname) e invadiram o Nordeste brasileiro. Na disputa pela supremacia dos mares, Inglaterra e Holanda travaram diversas guerras ao longo do século XVII. O que estava em jogo eram os grandes lucros do comércio marítimo, o tráfico de africanos escravizados e a exploração das novas terras. Graças a esses negócios, muitos banqueiros e mercadores construíram imensas fortunas. Era a eles que príncipes e reis recorriam quando precisavam de recursos para consolidar seu poder ou financiar empreendimentos de grande porte, como guerras e navegações transoceânicas. A riqueza acumulada no continente europeu nesse período seria a mola propulsora das grandes transformações econômicas e sociais verificadas na Europa nos séculos XVIII e XIX com o nome de Revolução Industrial.

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A Austrália entra no mapa Se no século XV os espanhóis chegaram a um continente desconhecido dos europeus, no século XVII feito semelhante foi repetido por mercadores holandeses em outra região do planeta: em 1606, Willem Jansz foi o primeiro europeu a alcançar a região hoje conhecida como Austrália, entre os oceanos Índico e Pacífico. Seu encontro com os habitantes desse continente, porém, não foi amistoso e ele não conseguiu explorar o território. Entre 1642 e 1644, a Companhia Holandesa das Índias Orientais enviou à região o mercador Abel Tasman. Após ter mapeado a maior parte do litoral das atuais Austrália e Nova Zelândia, Tasman retornou afirmando que aparentemente não havia ali nem metais preciosos nem especiarias. Os europeus só voltaram a se interessar pelo continente – mais tarde denominado Oceania – em 1770, quando o navegador britânico James Cook explorou a região.

The British Library/TopFoto

Enquanto ¡sso...

Desenho de autoria de Nicholas Yallard, de 1547, intitulado O primeiro mapa da Austrália. Como em outros lugares, a ausência aparente de metais preciosos retardou a ocupação do território australiano pelos exploradores europeus.

Organizando as ideias 1. Por que podemos afirmar que as viagens europeias pelos oceanos provocaram uma verdadeira Revolução Comercial?

c) Com base no mapa e nas informações do capítulo, como podemos explicar a importância do comércio pelo oceano Índico?

2. A expansão do comércio alterou significativamente as concepções econômicas na Europa, durante o século XVI. Essas transformações deram origem ao mercantilismo, um conjunto de princípios que sistematizava as novas práticas comerciais. Descreva os princípios fundamentais do mercantilismo.

5. A descoberta das jazidas de prata de Potosí, em 1545, parecia ter concretizado o sonho dos conquistadores: encontrar o El Dorado, lugar imaginário onde haveria quantidades inesgotáveis de metais precisos. Qual foi a importância das minas de Potosí para a Coroa espanhola?

3. As relações entre as metrópoles europeias e as colônias africanas e americanas foram regidas pelo chamado pacto colonial. Em que consistia esse pacto?

6. As riquezas das colônias da África, América e Ásia no século XVI atraíam as demais nações europeias, rompendo o Tratado de Tordesilhas. Quais eram essas novas nações e que estratégias utilizaram?

4. Observe o mapa Império colonial português, na página 243. Com base nesse mapa, responda às questões: a) Em que continentes Portugal mantinha colônias? b) Cite pelo menos uma colônia em cada um dos continentes.

7. Que relações podem ser estabelecidas entre o surgimento das companhias de navegação e o mercantilismo? 8. Narre, em linhas gerais, como ocorreu o início da colonização inglesa da América do Norte.

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Interpretando DOCUMENTOS Os textos a seguir são descrições de hábitos alimentares na América hispânica e na Europa. O primeiro é um relato do padre jesuíta José de Acosta (1539-1600) sobre o uso do cacau e do chocolate entre povos pré-colombianos do México atual e espanhóis que viviam nessa região. O segundo é um fragmento do livro Le grand d’Aussy, de Pierre Jean-Baptiste, publicado em 1782. O excerto selecionado descreve o hábito de beber café entre os europeus no século XVIII. Com base nos textos, responda às questões. Texto 1

O cacau utiliza-se, principalmente, numa beberagem chamada chocolate à qual é dada muita importância nesta terra, embora os que não têm estômago para isso sintam nojo porque, na superfície, forma-se uma espuma e efervescências muito pouco atraentes à vista, de tal modo que é necessária muita coragem para evitar essa impressão. Mas, enfim, é bebida preferida; além disso, índios e espanhóis oferecem-na aos hóspedes mais importantes; quanto às mulheres espanholas apegadas aos costumes do torrão [terra] natal, perdem os sentidos quando bebem chocolate negro. Citado por: LEMPS, Alain Huetz de. As bebidas coloniais e a rápida expansão do açúcar. In: FLANDRIN, Jean-Louis; MONTANARI, Massimo (Org.). História da alimentação. São Paulo: Estação Liberdade, 1998. p. 614.

Texto 2

Não existe casa burguesa onde não seja servido café; não existe lojista, cozinheira, faxineira que, de manhã, não tome um café com leite. Nos mercados públicos, em determinadas ruas e passagens da capital, instalaram-se mulheres que vendem aos transeuntes o que designam por café com leite, isto é, leite ruim tingido com borra de café. Citado por: LEMPS, Alain Huetz de. As bebidas coloniais e a rápida expansão do açúcar. In: FLANDRIN, Jean-Louis; MONTANARI, Massimo (Org.). História da alimentação. São Paulo: Estação Liberdade, 1998. p. 618.

1. O que chamou a atenção de Acosta no hábito de beber chocolate entre os habitantes de certas regiões da América? 2. J ean-Baptiste faz uma distinção entre o consumo de café na casa burguesa e nos mercados públicos. Qual é essa distinção e em que critérios sociais ela se baseia? 3. S  egundo as informações do capítulo, de onde veio cada uma das bebidas descritas nesses textos?

Hora DE REFLETIR Durante o período em que vigorou o mercantilismo, as metrópoles enriqueceram e desenvolveram suas economias, à custa das colônias que se encontravam sob seus domínios. Reúna-se com seu grupo de colegas e, juntos, debatam as seguintes questões: nos dias de hoje, é possível dizer que existe algum tipo de dominação de um país sobre outro?

Como essa dominação se manifesta? Países pobres podem exercer algum tipo de domínio sobre países ricos? Escolham uma pessoa do grupo, um relator, para registrar as respostas na forma de tópicos. Depois, com a ajuda do professor, apresentem esses tópicos oralmente à classe.

Mundo virtual nn

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Cultura on-line – Site apresenta imagens aéreas e em 3D dos principais museus, palácios, monumentos e patrimônios históricos de Portugal. Disponível em: <http://3d.culturaonline.pt/Map/Default.aspx?id=>. Acesso em: 31 out. 2012.

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Capítulo 30

O absolutismo monárquico Objetivos do capítulo Todd Gipstein/Corbis/Latinstock

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Entretanto, no decurso da História, como já vimos, existiram outras formas de governo. Por volta do século XVI, por exemplo, surgiu em países da Europa um modo de governar bem diferente: o absolutismo monárquico. Nesse sistema, o poder concentrava-se nas mãos de um rei: era ele quem governava o país, aplicava a justiça e modificava ou criava leis conforme seus próprios interesses. É esse sistema que estudaremos neste capítulo. Evaristo Sá/Agência France-Presse

De quatro em quatro anos, os eleitores brasileiros vão às urnas escolher um novo presidente. Esse é o principal cargo do poder Executivo no país. Ele garante bastante poder a seu titular. Entretanto, o presidente não governa a seu bel-prazer, segundo os ditames de sua vontade, nem é livre para tomar decisões à revelia do povo. Não. Para governar, ele depende dos deputados e senadores que compõem o poder Legislativo e está sob constante fiscalização dos tribunais que integram o poder Judiciário. Além disso, os três poderes se sujeitam às leis expressas na Constituição. Esse sistema de governo é característico de uma República presidencialista e é empregado tanto no Brasil como em muitos outros países.

Compreender os processos de centralização política e formação de monarquias absolutistas. Conhecer as ideias, teorias e estratégias que serviram à legitimação da concentração de poderes do monarca. Identificar as particularidades históricas de alguns dos principais Estados absolutistas europeus.

Dilma Housseff chega ao Palácio do Planalto para tomar posse da Presidência do Brasil em janeiro de 2011.

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Os Estados modernos

Universal History Archive/UIG/The Bridgeman/Keystone

Do ponto de vista político, como vimos em capítulos anteriores, a humanidade se organizou de diferentes maneiras ao longo do tempo. Durante a Idade Média na Europa ocidental, por exemplo, o poder fragmentou-se entre os senhores feudais, cabendo a eles a administração da justiça em suas propriedades. Embora nessa época existissem reis, sua autoridade era praticamente simbólica. Nos últimos séculos desse período, porém, alguns reis começaram a criar mecanismos para centralizar o poder, enfraquecendo a autoridade dos senhores feudais e da Igreja. Surgiram assim as chamadas monarquias nacionais, como vimos no capítulo 25.

A partir do século XVI, os reis criaram novos mecanismos para fortalecer ainda mais sua autoridade e restringir as esferas de influência da Igreja e da nobreza feudal. Como veremos a seguir, essas mudanças desencadearam um processo de transformações políticas que se estenderam até o século XVIII e levaram à formação dos chamados Estados modernos.

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O rei encontra o poder

Apesar da expansão marítima e da Revolução Comercial, a Europa atravessou diversos momentos de crise entre os séculos XV e XVII. A produção agrícola, por exemplo, não cresceu na mesma proporção em que aumentou a população. Os alimentos encareceram – devido em parte à escassez e em parte à inflação provocada pelo afluxo de metais preciosos provenientes da América espanhola – e a fome atingiu diversas regiões, provocando revoltas populares. Ao mesmo tempo, o continente foi sacudido pelas guerras religiosas, desencadeadas com o surgimento do protestantismo no começo do século XVI (reveja o capítulo 27). Guerras também ocorreram entre os reinos europeus, que procuravam ampliar seus limites territoriais e conquistar a supremacia do comércio marítimo. Diante dessa situação, pensadores políticos como Thomas Hobbes (1588-1679) e Jacques Bossuet (1627-1704), entre outros, publicaram livros argumentando que somente um governo fortemente centralizado seria capaz de pôr fim à desordem reinante. Veja no boxe na página ao lado alguns argumentos desses pensadores.

Capa do livro Leviatã, de Thomas Hobbes, publicado em Londres em 1651.

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O detentor da soberania Um dos primeiros pensadores a formular uma teoria para dar sustentação doutrinária ao absolutismo monárquico foi o francês Jean Bodin (1529-1596). Somente o rei, dizia ele, detinha o poder de fazer e revogar as leis. Para Bodin, esse poder, que chamou de soberania, emanava diretamente de Deus. Mais tarde, o inglês Thomas Hobbes (1588-1679), em sua obra Leviatã, afirmou que em uma sociedade sem Estado imperaria a barbárie: sem a existência de um poder regulador e absoluto, haveria o que chamou de “guerra de todos contra todos”. Seria assim que teriam vivido os seres humanos no estado de natureza, isto é, em uma situação na qual a sociedade ainda não estava organizada e não havia Estado. Para sair dessa situação, segundo Hobbes, as pessoas teriam estabelecido um contrato ou pacto social, por meio do qual teriam renunciado à sua liberdade original e concordado em se submeter ao poder absoluto de um governante para

Tais ideias se espalharam pela Europa, contribuindo para legitimar a crescente concentração de poderes nas mãos dos reis. Com a centralização do poder, o rei precisou apoiar-se em uma burocracia racional, capaz de orientar-se segundo os interesses gerais do Estado nacional e não segundo as preferências dos senhores feudais. Para constituir essa burocracia, os reis recrutaram profissionais especializados nos diversos setores da administração: financeiro, jurídico, fiscal (cobrança de impostos), etc. Começava a surgir assim o Estado moderno. Nesse processo, ganhou importância a noção de competência, pela qual a contratação de um funcionário não dependia mais – em princípio – da indicação de alguém influente, mas, sim, das habilidades e atributos específicos do candidato a ocupar determinado cargo ou exercer certa função. Segundo o historiador Peter Burke, a centralização da administração permitia que os governantes soubessem muito mais sobre a vida de seus súditos do que na Idade Média. Esse controle os ajudava na hora de tomar decisões como aumen-

que este garantisse a paz e a segurança de toda a sociedade. Outro defensor do absolutismo foi Jacques Bossuet (1627-1704), autor de Política segundo as Sagradas Escrituras. Bossuet afirmava que o poder do rei lhe havia sido dado por Deus e, por isso, deveria ser ilimitado e incontestável. Era a chamada Teoria do Direito Divino.

Sua opinião O argumento central de Thomas Hobbes supõe que a autoridade seja necessária para a estabilidade social. Reflita sobre isso, considerando a situação política contemporânea. Você concorda ou não com Hobbes que é preciso constituir um Estado para organizar a sociedade e que, sem ele, viveríamos na barbárie? Justifique sua resposta com argumentos orais. Depois, numa roda de conversa, apresente os principais argumentos discutidos no grupo.

tar impostos, recrutar pessoas para o exército ou alimentar a população nos momentos de fome.

Um novo Direito No âmbito jurídico, esses governos aboliram gradualmente o antigo direito feudal e o substituíram, com adaptações, pelo Direito Romano (reveja o capítulo 14). Com isso, foram pouco a pouco abandonadas as leis baseadas nos costumes e na tradição, que garantiam os privilégios da nobreza, e adotadas normas jurídicas impessoais (ou seja, que valiam para todos). Os laços de suserania e vassalagem característicos do sistema feudal desapareceram, enquanto a Igreja católica, enfraquecida com a Reforma protestante, perdeu boa parte da influência que exercia sobre os monarcas. Concomitantemente, os reis criaram exércitos nacionais permanentes, extinguindo, assim, as tropas particulares dos senhores feudais. Para manter esses exércitos, novos impostos foram instituídos. Porém, a coleta dos tributos deixou de ser feita pelos agentes da nobreza feuO absolutismo monárquico Capítulo 30

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Pieter Brueghel/Coleção particular/The Bridgeman Art Library/Keystone

O pagamento dos títulos (1615), tela do artista flamengo Pieter Brueghel, o Jovem (1564-1638). Nela estão representados funcionários do governo no ato de cobrar títulos vencidos (à direita, procedendo à leitura de títulos, e à esquerda, no fundo, fazendo anotações por trás de um balcão). A obra remete à formação da burocracia moderna, um dos instrumentos dos reis no processo de centralização do poder.

dal e passou para as mãos de funcionários do governo central. Na esfera econômica, os soberanos adotaram um conjunto de medidas e práticas comerciais e financeiras conhecido como mercantilismo. Como vimos no capítulo anterior, o mercantilismo, entre outras coisas, pregava a acumulação de metais preciosos e a adoção de uma balança comercial favorável, incentivando a circulação de dinheiro e de mercadorias.

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Um poder (quase) absoluto

A extrema centralização do poder originou uma nova forma de organização do Estado conhecida como absolutismo monárquico. Assim, alguns reinos, como os da França, Inglaterra e Espanha, que adotaram esse sistema de governo, passaram a ser conhecidos como monarquias absolutistas. Nessas monarquias, o rei detinha o poder de legislar, isto é, de fazer e revogar as leis. Sua autorida-

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de era quase absoluta, pois não estava limitada por nenhum outro poder, exceto pelas leis de Deus e pelos costumes e tradições da época. A seguir, estudaremos como o absolutismo se manifestou em dois países europeus: França e Inglaterra.

O absolutismo na França A transformação da monarquia francesa em Estado absolutista teve início com Francisco I (1515-1547) e acentuou-se com Henrique IV (1589-1610), primeiro rei da dinastia Bourbon. Além de não convocar os Estados Gerais (assembleia de representantes na nobreza, do clero e da burguesia), este último passou a vigiar os governadores das províncias e deixou de lado os grandes senhores feudais, nomeando ministros saídos da burguesia. Ao mesmo tempo, estimulou o mercantilismo, iniciou a colonização do Canadá e incentivou a agricultura e as manufaturas. Porém, foi com Luís XIV (1643-1715) que o absolutismo francês assumiu sua forma máxima de expressão.

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O Estado? “O Estado sou eu” Luís XIV tornou-se rei aos 4 anos, mas só assumiu o poder de fato em 1661, aos 22 anos, quando anunciou que acumularia as funções de rei e primeiro-ministro da França. Em seu governo, esvaziou o Conselho Real, órgão que tomava decisões juntamente com o monarca; consolidou o exército permanente; proibiu as comunas de escolherem seus governantes; manteve e ampliou o mercantilismo; incentivou a criação de manufaturas e de companhias comerciais; e envolveu a França em vários conflitos externos visando garantir as fronteiras já conquistadas e assegurar a supremacia no comércio marítimo. E para que não restassem dúvidas sobre seu poder, cunhou a expressão “o Estado sou eu”. Considerando-se representante de Deus na Terra, Luís XIV criou um verdadeiro culto à sua imagem, escolhendo o Sol como símbolo de seu governo. Por isso, era chamado de Rei Sol. Um dos símbolos desse poder é o Palácio de Versalhes, que Luís XIV mandou construir, mobilizando para isso mais de 30 mil trabalhadores e muitos artistas. Quando as obras terminaram, em 1682, o rei transferiu para lá sua Corte de cerca de 6 mil pessoas, sustentadas pelo tesouro público. No palácio, além de cuidar pessoalmente das * Veja o filme principais decisões de governo, Luís Marquise, de XIV se divertia com banquetes, bai- Vera Belmont, 1997. les e cerimônias*. Para ressaltar ainda mais a importância de sua figura, o monarca mandou criar um minucioso cerimonial determinando, entre outras normas, como deveriam ser as saudações, o tamanho da cauda dos vestidos e em que lugar as pessoas da Corte deveriam se sentar nas cerimônias. Veja na seção Passado presente a seguir o texto da historiadora Lilia Moritz Schwarcz, sobre como essa etiqueta ajudou monarcas como Luís XIV a construir uma imagem pública de grandeza e magnificência no imaginário popular.

A Inglaterra dos Tudor O caminho do absolutismo na Inglaterra foi aberto logo após a Guerra das Duas Rosas (1455-1485), conflito entre as duas mais poderosas famílias da nobreza, os York e os Lancaster, em disputa pelo trono inglês. Com o fim do conflito, subiu ao trono Henrique VII (1485-1509), pertencente à

família Tudor* e ligado por laços * Veja a série The familiares tanto aos York quanto Tudors, de Michael Hirst, 2007. aos Lancaster. Aproveitando-se do enfraquecimento da nobreza feudal decorrente da Guerra das Duas Rosas, Henrique VII concentrou poderes, submetendo os nobres ao seu controle. Seria, porém, com seu filho Henrique VIII (1509-1547) que a monarquia inglesa se tornaria plenamente absolutista. Henrique VIII rompeu com o papa para fundar a Igreja anglicana, subordinada diretamente a ele, e confiscou as terras e outros bens da Igreja católica (reveja o capítulo 27). Após sua morte, a Inglaterra entrou em um pe­ríodo de instabilidade, que só terminou com a ascensão ao trono de sua filha Elizabeth I (1558-1603). Com ela, o absolutismo inglês chegaria ao apogeu. Para coibir a ação de seus opositores, Elizabeth I criou uma rede de espionagem e decidiu só convocar o Parlamento em casos excepcionais. Também priorizou o mercantilismo, modernizou a frota marítima, incentivou a criação de companhias de comércio, promoveu o povoamento da colônia de Virgínia, na América do Norte, e não teve escrúpulos em adotar a pirataria como forma de acumular riquezas (veja a seção Olho vivo, página 256).

Os Stuart no poder Elizabeth morreu em 1603 sem deixar herdeiros. Para ocupar o trono, foi chamado Jaime I (1603-1625), da dinastia Stuart, rei da Escócia e primo de Elizabeth. Defensor da teoria do direito divino dos reis, Jaime I governou de forma despótica, promovendo intensa perseguição aos puritanos (calvinistas), muitos dos quais tiveram de se refugiar na América do Norte, onde fundaram novas colônias, como vimos no capítulo anterior. Quando o Parlamento recusou-se a conceder seu pedido de pensão vitalícia, o monarca o dissolveu. Somente dez anos depois o Parlamento seria novamente convocado. Após a morte de Jaime, assumiu o trono seu filho Carlos I (1625-1649), que acentuou o caráter absolutista do Estado. À revelia do Parlamento, o novo rei criou taxas alfandegárias para garantir o sustento da família real, impôs aos proprietários um empréstimo forçado à Coroa e perseguiu de forma sistemática seus opositores. O absolutismo monárquico Capítulo 30

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Passado

Presente

Política e propaganda

Pierre-Denis Martin/The Bridgeman Art Library/Keystone

Dizia o pensador francês Montesquieu [1698-1755] que “o esplendor que envolve o rei é parte capital de sua própria pujança”. As vestes, os objetos, a ostentação e os rituais próprios da monarquia são parte essencial desse regime, constituem sua representação pública e, no limite, garantem sua eficácia. Os monarcas foram os inventores do marketing político e fizeram escola. A propaganda surge como meio de assegurar a submissão ou o assentimento a um poder. Com esse monarca a glória, a vitória, o prestígio e a grandeza transformam-se em imagens suficientemente fortes para garantir a estabilidade do reino e imaginar sua permanência futura. Elaborada tal qual um grande teatro, um teatro do Estado, a atuação do rei se transforma em performance; seus trajes viram fantasia. Na verdade, esculpida de maneira cuidadosa, a figu-

ra do rei corresponde aos quesitos estéticos necessários à construção da “coisa pública”. Sapatos de saltos altos para garantir um olhar acima dos demais, perucas logo ao levantar pela manhã, vestes magníficas mesmo nos locais da intimidade; enfim, trata-se de projetar a imagem de um homem público, caracterizado pela ausência de espaços privados de convivência. Tal qual um evento multimídia, o rei estará presente em todos os lugares, será cantado em verso e prosa, retratado nos afrescos e alegorias, recriado como um deus nas estátuas e tapeçarias. Exemplo radical do exercício e da manipulação simbólica do poder, a realeza evidencia, com sua etiqueta, a importância do ritual na construção da imagem pública. A monarquia é, nesse sentido, um bom pretexto para a discussão dos vínculos entre política e manipulação do imaginário simbólico, ou mesmo para a verificação de como a política se faz com a lógica da “razão prá-

A inauguração da Igreja dos Inválidos por Luís XIV, pintura de Pierre-Denis Martin (1663-1742). Para dirimir possíveis ameaças ao seu poder, o monarca absolutista realizava aparições públicas que contribuíam para fortalecer sua imagem de rei benevolente e protetor dos mais pobres.

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tica”, mas também com a força de persuasão da “razão simbólica”. Prática de alguma forma datada, o ritual suntuoso da monarquia deixa ainda mais evidente como a propaganda e a política mantiveram sempre relações de profunda e estreita afinidade.

De olho no mundo Em geral, as campanhas eleitorais contemporâneas estão organizadas pelas regras do marketing político. Juntamente com seu grupo, faça uma pesquisa sobre os principais recursos utilizados pelos políticos para manipular o imaginário popular. Reúna materiais de campanha ou informações oficiais sobre os políticos pesquisados e monte uma exposição, descrevendo quais são as formas de manipulação mais comuns utilizadas nas campanhas eleitorais.

Adaptado de: SCHWARCZ, Lilia Moritz. A fabricação do rei: a construção da imagem pública de Luís XIV. Revista de Antropologia. São Paulo: FFLCH/ USP, v. 43, n. 1, 2000. Disponível em: <www.scielo.br/ scielo.php?pid=S0034-77012000000100010&script=sci_ arttext&tlng=pt>. Acesso em: 30 out. 2012.

Fim do absolutismo inglês

Os constantes embates entre Carlos I e o Parlamento resultaram, em 1640, em uma longa guerra civil. Pequenos proprietários e representantes da pequena nobreza rural – a gentry –, aliados a setores da burguesia, organizaram um exército conhecido como cabeças redondas, devido ao corte de cabelo de seus integrantes. Comandados por um líder puritano, Oliver Cromwell*, os cabeças redondas vence- * Veja os filmes Cromwell, o chanceler ram o exército real e, em de ferro, de Ken Hughes, 1649, depuseram Carlos I, 1970, e Morte ao rei, de Mike Barker, 2003. que acabou julgado e decapitado. Com a deposição de Carlos I, a Inglaterra se transformou em República governada por Cromwell. Em 1651, o Parlamento aprovou o Ato de Navegação, pelo qual somente navios ingleses poderiam desembarcar mercadorias em portos da Inglaterra ou das colônias inglesas. Sentindo-se prejudicada, a Holanda declarou guerra à Inglaterra em 1652. O conflito, que terminou em 1654, foi vencido pelos ingleses. Como resultado, a Inglaterra se tornou a maior potência naval da Europa.

Tanto Carlos II quanto seu sucessor Jaime II (1685-1688) tentaram restabelecer o absolutismo. Em resposta a essa política reacionária, o Parlamento depôs Jaime II em 1688 e entregou o trono ao príncipe holandês Guilherme de Orange, casado com a inglesa Mary Stuart, filha do rei deposto. Coroado como Guilherme II em 1689, o rei comprometeu-se a cumprir o Bill of Rights (Declaração de Direitos), estabelecido pelo Parlamento. A declaração garantia ao Parlamento o direito de votar leis que o rei deveria acatar e respeitar. O absolutismo cedia lugar, assim, a uma monarquia constitucional. Sem derramamento de sangue, esse processo tornou-se conhecido como Revolução Gloriosa.

Em 1655, Cromwell dissolveu o Parlamento e implantou uma ditadura que durou até sua morte, em 1658. Seu filho, Richard, assumiu o governo, mas renunciou menos de um ano depois. Assim, em 1660, a monarquia na Inglaterra foi restaurada, com a ascensão ao trono de Carlos II (1660-1685)*, filho de Carlos I que se encontrava no exílio.

* Veja o filme O outro lado da nobreza, de Michael Hoffman, 1995.

Elizabeth Hunter/The Bridgeman Art Library/Keystone

A Inglaterra republicana

Primeira página do livro A confissão de Richard Brandon, o carrasco, com gravura que representa a execução do rei Carlos I, da Inglaterra. Publicado em 1649, o livro foi escrito por Richard Brandon, o homem que decapitou o rei, e conta detalhes da execução.

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Olho vivo

Uma representação do poder

Durante seu reinado, a rainha Elizabeth I foi representada por diversos pintores. O luxo e o esplendor exibidos nas obras desses artistas destacavam o prestígio e a força da rainha. Este é o caso do óleo sobre madeira reproduzido nesta seção, executado em 1588 pelo pintor inglês George Gower (c. 1540-1596). Ele foi feito pouco depois de uma vitória inglesa sobre a armada espanhola, a mais poderosa da época. Em julho de 1588, o rei Filipe II, da Espanha, enviou 130 navios e 30 mil soldados ao canal da Mancha para atacar os ingleses. Os confrontos duraram nove dias e a Espanha foi derrotada. O feito foi registrado nesse quadro. Através das janelas podem-se ver dois momentos diferentes do combate. Fonte: HILL, Suzanne. The armada portrait of Elizabeth I. Disponível em: <http://renaissance-art.suite101.com/article/the_armada_portrait_of_elizabeth_i-a21663>. Acesso em: 30 out. 2012.

Navios ingleses no canal da Mancha, identificados pelo pavilhão de São Jorge (cruz vermelha em fundo branco).

Navios espanhóis diante das embarcações inglesas no canal da Mancha.

Barcos espanhóis com a Cruz de Santo André (em forma de xis). Depois de terem batido em retirada, colidem contra as rochas, durante tempestade na costa da Irlanda.

George Gower/akg-images/Latinstock

Navios ingleses com explosivos foram enviados contra a frota espanhola. Quando estavam próximos, foram incendiados. Temendo as explosões, os espanhóis fugiram e foram derrotados.

Em 1588, a rainha contava 55 anos, mas o artista a representou como se fosse mais jovem.

Coroa, símbolo da realeza. As pérolas do colar simbolizam a castidade. Elizabeth não se casou. Era chamada de Rainha Virgem.

O luxo das roupas e as joias eram destinados a mostrar aos súditos a imponência da rainha.

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Quatro anos antes de o quadro ser pintado, os ingleses haviam fundado a colônia de Virgínia. A mão da rainha repousa sobre a América, indicando o domínio da Inglaterra sobre terras no Novo Mundo.

Rainha segura leque com penas de pavão.

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Enquanto ¡sso... akg-images/Latinstock

O primeiro czar da Rússia Em 1547, ascendeu ao trono da Rússia Ivan IV, jovem de 17 anos que governaria até 1584. Primeiro príncipe moscovita a receber o título de czar (palavra oriunda de César, dos antigos romanos), Ivan implantou um regime absolutista: subordinou a Igreja ao Estado, fortaleceu o exército, estabeleu relações comerciais com os reinos ocidentais e, por meio de forte repressão, submeteu a aristocracia ao seu poder. Grande parte dos objetivos de Ivan IV foi conseguida graças aos métodos violentos que empregava. Além dos inúmeros assassinatos praticados contra seus inimigos e opositores, ele tem sido acusado de ter matado algumas de suas esposas e até mesmo seu filho. Por causa desses métodos, ficou conhecido como Ivan, o Terrível.

Xilogravura do século XVI representando o czar Ivan IV, o Terrível (1530-1584).

Organizando as ideias 1. A formação dos Estados modernos está diretamente associada às crises econômica e política que marcaram a Europa entre os séculos XV e XVII. Explique como essas crises contribuíram para o fortalecimento do Estado moderno. 2. Para consolidar o poder, os novos soberanos precisavam enfraquecer o poder dos senhores feudais. Quais foram as transformações jurídicas que deram sustentação à luta do rei contra os senhores feudais? 3. De acordo com o item 2 (O rei encontra o poder, p. 250), que atribuições e poderes nas cidades francesas passaram das mãos dos senhores feudais para as novas autoridades do Estado? 4. Escreva uma definição de absolutismo. 5. Narre, em linhas gerais, como se constituiu o absolutismo monárquico na França e na Inglaterra.

6. Que circunstâncias políticas e que medidas por ele adotadas fizeram de Luís XIV o mais cristalino exemplo de monarca absolutista? 7. Na Inglaterra, o absolutismo sofreu a oposição política do Parlamento em diversos momentos da História. Descreva o processo político que levou à Declaração de Direitos, que pôs fim ao absolutismo naquele país. 8. O  absolutismo inglês chegou ao apogeu durante o governo de Elizabeth I (1558-1603), que investiu no fortalecimento do poder e da imagem da monarquia e incentivou as atividades mercantilistas. Observe novamente o quadro da rainha analisado na seção Olho vivo (p. 256) e responda: que detalhes do quadro reforçam esses dois aspectos do governo de Elizabeth?

Mundo virtual nn

Versailles 3D – Visão em 3D do Palácio de Versalhes, na França (site em inglês). Disponível em: <www.versailles3d.com/en>. Acesso em: 14 set. 2012. O absolutismo monárquico Capítulo 30

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Fechando a unidade

Soberania e Estado nacional

Patti McConville/Alamy/Other Images

DOCUMENTO 1 – Texto de site

O texto e a imagem que você vai ver a seguir são de Organizações Não Governamentais (ONGs) que atuam em diversas partes do mundo. O documento 1 foi transcrito do blog Junk Food Generation, ligado à Consumers International (CI), entidade que defende os direitos do consumidor. O trecho selecionado denuncia as empresas de alimentação que fazem campanhas publicitárias voltadas para crianças e adolescentes, vendendo alimentos não saudáveis. O documento 2 desta seção é uma fotografia mostrando ativistas do Greenpeace em ação. O Greenpeace é uma ONG que trabalha pela preservação ambiental e pelo desenvolvimento sustentável. Leia os dois documentos e responda ao que se pede.

Você tem 5 minutos? Apoie o Código CI Toda voz conta – por isso você deveria assinar a petição em apoio ao Código CI. [...] Você também pode assinar para receber e-mails atualizados sobre a campanha ou ler o blog Junk Food Generation, onde pode comentar a respeito da campanha e receber notícias e histórias do mundo todo.

Você tem 10, 15 minutos? Envergonhe as companhias Nós coletamos constantemente exemplos de marketing para crianças, como os disponíveis em nossa galeria de imagens. Se você vir exemplos, faça uma foto e mande para a gente. Aqui estão duas questões que você deve ter em mente antes de fazer a foto: 1) A comida é não saudável? A definição do guia da agência britânica Food Standard pode ajudar. Veja a tabela em nossa seção de Dietas não saudáveis. 2) São usadas algumas das corriqueiras estratégias de marketing? Nós as descrevemos em Tipos de marketing.

Um pouco mais de tempo? Prepare seu próprio Desafio da Lancheira Muitas organizações-membros do CI prepararam o Desafio da Lancheira em escolas ou centros comuni-

tários de suas respectivas áreas e você também pode fazer o mesmo. Diante de uma cesta de alimentos com certa variedade de produtos saudáveis e não saudáveis, um grupo de crianças é convidado a escolher seus alimentos favoritos. Em seguida, são questionadas sobre o que influenciou em suas escolhas. Adaptado e traduzido de: Junk Food Generation. Disponível em: <http://junkfoodgeneration.org/index. php?option=com_content&task=view&id= 35&Item-id=61>. Acesso em: 30 out. 2012.

O que significa? Junk Food Generation: expressão que se refere às pessoas que têm por hábito se alimentar de comidas pouco saudáveis, altamente calóricas, com altas doses de sal, açúcar e gordura e com reduzidos níveis de nutrientes, como sanduíches, salgadinhos, etc. Código CI: grupo que defende a proteção de crianças e adolescentes da exposição à propaganda de alimentos não saudáveis em diferentes tipos de mídia (rádio, TV, internet), bem como da publicidade em escolas, ou das campanhas feitas com personalidades ou personagens de ficção conhecidos dos jovens.

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Antonio Scorza/Agência France-Presse

DOCUMENTO 2 – Fotografia Indígenas xavantes dançam em frente à embarcação do grupo ativista Greenpeace, em junho de 2012, no Rio de Janeiro. O grupo apoiou os Xavante na Rio +20, Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável, em sua luta pelo reconhecimento da reserva indígena de Marãiwatsédé.

Reflita e responda 1. O documento 1 faz denúncias sobre questões sociais e sugere formas de ação das quais todos nós poderíamos participar. Identifique as denúncias apresentadas e as propostas de ação, indicando os meios sugeridos para efetivá-las (internet, ação direta, telefone, etc.). 2. Observe a foto desta seção (documento 2). Ela registra indígenas xavantes em manifestação a favor do reconhecimento da reserva indígena de Marãiwatsédé, com o apoio do Greenpeace. Você considera eficaz esse tipo de ação? Justifique sua resposta. 3. Questões como o Desenvolvimento Sustentável, a preservação ambiental e o reconhecimento dos direitos das populações nativas chamam a atenção de ONGs que atuam no mundo inteiro. Com base nesses documentos e na reflexão da abertura desta unidade, defina como deveriam ser as relações entre os Estados nacionais e essas organizações internacionais. É possível estabelecer um limite para a intervenção das ONGs? Em que casos o Estado deve ser soberano e impedir interferências externas?

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Glossário Adjudicação: Ato de adjudicar, ou seja, de conceder o direito de propriedade, ou de obter novamente a posse de algo.

comandados por um centurião. A palavra pode designar também, nas divisões políticas do povo romano, um grupo de cem cidadãos.

Anamorfose: Figura representada de tal forma que,

Cisma do Oriente: Nome dado a uma disputa pelo

vista de frente, parece distorcida ou irreconhecível, tornando-se compreensível apenas quando vista de determinado ângulo, a certa distância, ou ainda com o uso de lentes especiais.

Apocalipse: No judaísmo e no cristianismo primitivo dos séculos I e II d.C., houve um grande desenvolvimento de textos literários que tratavam, em linguagem simbólica e misteriosa, dos destinos da humanidade e do povo de Deus. Esses textos, chamados de apocalipses, eram proféticos e anunciavam o fim dos tempos, descrevendo de que forma ele ocorreria. No Novo Testamento, encontramos o Apocalipse de São João, único apocalipse que a Igreja inseriu nesse conjunto de textos bíblicos. Nesse texto, anuncia-se aos cristãos perseguidos o triunfo de Cristo sobre os poderes do mal.

domínio da Igreja católica, que culminou em sua divisão em 1054. A Igreja católica, sediada em Roma, buscava impor a liderança do papa em todo o mundo. Esse domínio, contudo, não era aceito por Justiniano, imperador do Império Bizantino e chefe da Igreja católica de Constantinopla. A tensão culminou em 1054, com a separação definitiva entre as duas igrejas, surgindo em 1054 a Igreja Católica Apóstólica Romana, sediada em Roma e controlada pelo papa e a Igreja Cristã do Oriente, sediada em Constantinopla e subordinada ao imperador bizantino.

Cortesãos: São as pessoas que integram o círculo

der está nas mãos de uma só pessoa, que o exerce de modo absoluto e despótico. As monarquias absolutistas são regimes autocratas.

próximo a um rei ou imperador, que compõem a sua corte. Podem – ou podiam, já que hoje as cortes são raras – desempenhar funções executivas em seu governo ou simplesmente fazer parte do universo de convívio dos mandatários. O termo adquiriu mais sentidos ao longo do tempo, derivados dos atributos que se davam ao mundo palaciano: passou a ser sinônimo tanto de pessoas refinadas como de bajuladoras.

Beneditino: Clérigo pertencente à Ordem de São

Desenvolvimento capitalista: Expansão econômi-

Autocracia absoluta: Sistema político em que o po-

Bento. Nascido em Núrsia, na península Itálica, São Bento, fundador da ordem, teria vivido entre os anos 480 e 570. Em Monte Cassino, fundou um mosteiro que se tornou a base de todo o sistema monástico católico. Suas crenças e instruções sobre a vida religiosa estão reunidas nas Regras de São Bento e são até hoje consideradas diretrizes importantes para os monges católicos.

Censo: Na Roma antiga, era uma lista ou relação dos cidadãos e de suas fortunas, estabelecida com base nos levantamentos realizados a cada cinco anos. Essa relação servia de base para a tomada de decisões políticas ou relativas a impostos. Também era utilizada para fins de recrutamento militar. O “censor” era a pessoa responsável por esse arrolamento. No Brasil, a palavra censo designa os recenseamentos demográficos (pesquisas sobre a população do país), realizados em períodos determinados.

Centúrias:

Na organização militar romana, as centúrias eram companhias de cem soldados,

ca que ocorre com base nos valores centrais do capitalismo, ou seja, na propriedade privada dos meios de produção, na liberdade de mercado, na produção baseada no trabalho assalariado livre, na competição entre empresas e na busca do lucro. Segundo o sociólogo alemão Max Weber (1864-1920), o desenvolvimento capitalista ocorreu antes nos países cuja população aderiu, em sua maioria, ao protestantismo do ramo calvinista (Holanda) ou que sofreu a influência do calvinismo (Inglaterra). Com a grande adesão ao protestantismo, as pessoas desses países passaram a ver no trabalho um meio de valorização moral do ser humano, um caminho para a salvação. Para o filósofo Karl Marx (1818-1883), o capitalismo é um modo de produção que surge como resultado de certas condições históricas e econômicas. Seu grande objetivo é a produção de mercadorias visando à troca. Essas mercadorias são produzidas por uma força de trabalho (operariado) a serviço dos detentores dos meios de produção (burguesia). (Veja também meios de produção.)

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DNA: Sigla, em inglês, de ácido desoxirribonucleico (Desoxyribo-Nucleic-Acid), estrutura responsável pela transmissão dos caracteres hereditários de pais para filhos. Os cientistas já sabiam, há cerca de cinquenta anos, que as informações hereditárias contidas nos genes eram constituídas pelo ácido desoxirribonucleico. Mas foi em abril de 1953 que os pesquisadores James Watson e Francis Crick elucidaram a estrutura da molécula de DNA, comparando-a com uma dupla-hélice ou uma escada em espiral. Essa descoberta possibilitou o grande desenvolvimento atual da biologia molecular e vem permitindo que nossa herança genética seja desvendada. Como o DNA é responsável pela transmissão de informações genéticas de uma geração para outra, ele contém um registro da história humana. O DNA pode mostrar, por exemplo, a diversificação do homem moderno nos grupos étnicos que conhecemos hoje, bem como a evolução dos hominídeos, que começaram a caminhar sobre duas pernas há mais de 4 milhões de anos.

Duques e condes: Títulos nobiliárquicos surgidos no Império Carolíngio e que se difundiu pelo mundo medieval. O governo do imperador Carlos Magno dividiu o império em cerca de 300 regiões conhecidas como condados. Cada condado era governado por um conde. A reunião de vários condados dava a origem a um ducado, cuja administração estava a cargo de um duque. Outro título nobiliárquico era o do marquês, dado ao nobre encarregado de administrar uma marca, ou seja, unidades administrativas criadas nas áreas fronteiriças do império.

Escrita ideográfica: Sistema de escrita que faz uso de ideogramas. Diferentemente das escritas ditas fonéticas, nos sistemas de notação gráfica chinês e japonês as palavras não são escritas como um encadeamento de fonemas (ou seja, de sons simbolizados por letras), mas representadas por ideogramas. Os ideogramas são símbolos que representam um objeto ou ideia. Assim, em chinês, um quadrado com um risco no meio é a representação de “Sol”, sem que nenhum traço desse desenho indique como ele deve ser pronunciado. O som atribuído a cada ideograma pode variar. (Veja também fonemas.)

complexas, o número de estratos pode ser bem maior. O conceito de estratificação social tem sido útil para a descrição das diversas sociedades. Entretanto, alguns pensadores, sobretudo os da tradição marxista, preferem utilizar os conceitos de classe social e de luta de classes em suas análises da sociedade e da História.

Evolução: Conjunto dos processos pelos quais as espécies animais e vegetais se modificam no decorrer do tempo, de geração em geração, levando ao aparecimento de novas espécies. No século XIX, a contribuição do naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882) foi decisiva para o estudo da evolução dos seres vivos. (Veja também seleção natural.)

Êxodo rural: Trata-se da migração em massa do campo para a cidade. No Império Romano, esse movimento ocorreu depois das guerras, quando muitos camponeses preferiram buscar trabalho nas cidades e deixar a vida agrícola. Como consequência, muitos pequenos proprietários, endividados, perderam suas terras. Em outros momentos da história da humanidade, o êxodo rural ocorreu por razões como a industrialização, a mecanização da agricultura (com as máquinas, há menor necessidade de trabalhadores rurais), o aumento dos postos de trabalho nas cidades ou em razão da falta de incentivo para o trabalhador rural permanecer na agricultura.

Fonemas: Os fonemas são sons vocálicos e consonantais que estabelecem distinção de significado, mas que não têm significação própria. As palavras pula e lupa apresentam os mesmos fonemas, agrupados de modo diferente. Não se deve confundir fonema com letra (o fonema /s/, por exemplo, pode ser representado pelas letras s, como em sapo; ss, em passo; ç, em paçoca; ou x, em próximo).

Fóssil: Expressão que tem origem no latim fossilis, que significa “tirado da terra”. Os fósseis são vestígios petrificados ou endurecidos de animais ou vegetais, anteriores à época atual, que se conservaram sem perder suas formas primitivas, permitindo que se determine seu período geológico e outras características importantes para o estudo da evolução das espécies. (Veja também evolução.)

Estratificação social: Divisão da sociedade em ca-

Globalização: A abertura do comércio internacio-

madas (ou estratos) superpostas. Essa divisão é estabelecida pelas diferenças existentes entre os grupos sociais, em termos de riqueza, prestígio ou poder, ou todas essas formas combinadas. Uma sociedade simples pode apresentar apenas duas ou três camadas: um estrato formado pelo grupo mais rico; outro, pelo grupo mais pobre; e um terceiro, intermediário. Nas sociedades mais

nal e o grande desenvolvimento tecnológico, em especial no campo das telecomunicações e da informática, permitiu um processo de integração econômica mundial, ao qual se dá o nome de globalização. Esse processo é marcado por uma grande interdependência, sobretudo econômica, de todos os países do globo, e pelo crescimento das chamadas empresas transnacionais. A globalização Glossário

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Hominídeos: Nome pelo qual são conhecidos os membros da família Hominidae, composta de mamíferos primatas. A família Hominidae reúne as três espécies do gênero Homo (Homo sapiens, Homo erectus e Homo habilis) e as duas espécies do gênero Australopithecus (Australopithecus robustus e A. africanus). Assim, tanto o ser humano moderno quanto seus ancestrais fazem parte do grupo conhecido como hominídeos. (Veja também primatas.)

Meios de produção: Conjunto formado pelos meios de trabalho e pelos objetos de trabalho. Os primeiros são os instrumentos de trabalho – máquinas, ferramentas, sementes, adubos, fertilizantes, etc. –, as instalações nas quais esse trabalho é efetuado (como edifícios e armazéns) e os meios de transporte, etc., utilizados em qualquer processo produtivo. Os objetos de trabalho são os elementos sobre os quais é realizado o trabalho humano: a terra, as matérias-primas, os recursos naturais, etc. No sistema capitalista, os meios de produção são de propriedade privada. No sistema socialista, esses meios pertencem à sociedade ou ao Estado (socialismo de Estado).

Dominique Faget/Agência France-Presse

trouxe mudanças drásticas ao processo produtivo, com profundas consequências para a distribuição de riquezas. Segundo diversas pesquisas, a globalização favorece os países mais ricos em detrimento dos países pobres e em desenvolvimento. Para alguns pensadores, esse processo remonta aos séculos XV e XVI, com a expansão ultramarina das potências europeias. Mais recentemente, outro fato importante no processo de globalização foi o Acordo Geral de Tarifas de Comércio (Gatt), assinado em 1947, que deu origem à Organização Mundial do Comércio (OMC), destinada a estabelecer regras para as relações comerciais entre os diversos países-membros. A essa organização seguiu-se a criação de blocos econômicos regionais, como a União Europeia (UE), que reúne 27 países da Europa, e o Nafta, Acordo de Livre-Comércio da América do Norte (Estados Unidos, Canadá e México). Juntamente com outras medidas facilitadoras, esses blocos permitiram trocas comerciais cada vez mais intensas entre os países, acentuando a abertura de suas economias para o mercado externo e a interdependência econômica em escala mundial.

Manifestação convocada pela União dos Pequenos Agricultores e criadores de gado (UPA) para protestar contra os cortes no setor agrícola, em frente à sede da União Europeia, no centro de Madri, em 7 de fevereiro de 2013.

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Nacionalismo: Ideologia que enaltece o Estado

Pais peregrinos: Assim foram chamados os primei-

nacional como valor maior de um país e de sua sociedade. Valoriza aquilo que é tido como culturalmente próprio da nação, os elementos formadores de sua identidade. Modernamente, é muito associado à ideia de xenofobia (rejeição ao estrangeiro ou ao que é externo à própria cultura). O nacionalismo assumiu diversas configurações ao longo da História, de acordo com os interesses daqueles que o professavam. A ideia de nacionalismo afirmou-se com a Revolução Francesa e com seu ideá­rio, que buscava subverter o pensamento de que o poder emanava de Deus ou do rei. Ao longo do século XIX, os liberais encamparam o conceito de nação e buscaram associá-lo à universalização dos direitos políticos na luta contra Estados autoritários e em países que estavam sob domínio estrangeiro. Assim, o sentimento de nação está na origem da formação de Estados nacionais como a Itália e a Alemanha. A Alemanha, unificada sob o comando de Otto von Bismark (1815-1898), é o primeiro exemplo de Estado que utiliza o nacionalismo de forma autoritária. No século XX, o nacionalismo exacerbado contribuiu para a formação de regimes totalitários, como os da Alemanha nazista e da Itália fascista. Na América Latina, o nacionalismo assumiu um caráter populista, sendo uma das principais bandeiras de líderes como Getúlio Vargas, no Brasil, e Juan Domingo Perón, na Argentina, entre outros.

ros colonos ingleses, praticantes da fé calvinista (puritanos) que, em 1620, se estabeleceram na região mais tarde conhecida como Nova Inglaterra, que veio a ser o embrião dos Estados Unidos da América. Em torno dessas famílias originais, do fervor das suas crenças e de seus valores éticos e morais, a nova nação foi sendo constituída.

Pensadores humanistas: Pensadores adeptos do humanismo, um movimento intelectual inspirado na civilização greco-romana, que teve início na Itália, nos séculos XV e XVI, e depois se disseminou pela Europa. Os humanistas valorizavam o conhecimento e privilegiavam uma cultura voltada para o desenvolvimento das potencialidades do ser humano. O pensamento humanista incentivava a pesquisa, a observação, a explicação dos fenômenos da natureza pela matemática e pela física. E fazia uma crítica ao modo de viver e pensar da Idade Média. Essa valorização do pensamento científico contribuiu de modo decisivo para o desenvolvimento das ciências modernas.

Plebiscito: Na Roma antiga, nome dado a um decre-

Igor Mota/Futura Press

to aprovado por resolução popular. Teve origem em 287 a.C. por meio da lei Hortênsia, que dava força de lei às resoluções da Assembleia da Plebe (plebis concilium). Hoje em dia, chamamos de plebiscito a manifestação da vontade ou da opinião do povo acerca de algum assunto político ou social, emitida por meio de votação.

Plebiscito realizado em 11 de dezembro de 2011, no Pará, indicou que a maioria da população é contra a divisão do estado em três (Pará, Carajás e Tapajós).

Glossário

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Politeísmo: Doutrina ou sistema religioso que admite a adoração de vários deuses. Esses deuses são em geral relacionados a fenômenos da natureza, a elementos do Universo e a necessidades da vida cotidiana de uma sociedade. Os egípcios e os gregos são exemplos de civilizações politeístas. Tinham deuses do Sol, do Amor, da Guerra, etc. É também politeísta o hinduís­mo – nome dado a uma das religiões existentes na Índia. (Veja também religião monoteísta.)

Política protecionista: Conjunto de medidas que se destinam a incrementar uma economia nacional ou setores dela. Alguns exemplos clássicos dessas medidas são a cobrança de impostos sobre produtos estrangeiros importados; a isenção de impostos de exportação ou de outra natureza, de modo a permitir às empresas nacionais a aplicação de preços mais competitivos; a instituição de um preço mínimo, com garantia de compra, para os produtores locais (especialmente na agricultura); e o estímulo à importação de matéria-prima a baixo custo para o desenvolvimento de uma indústria manufatureira; etc.

Política reacionária: Medidas que se opõem à evolução política e social. A política reacionária é defendida por grupos que buscam conservar poderes e privilégios adquiridos e se opõem àqueles que lutam por mudanças na sociedade. Ela pressupõe uma reação a um fato político anterior, gerado pela ação de forças contrárias aos seus objetivos. Exemplo de política reacionária é a ação dos reis absolutistas que se opunham às tentativas de estabelecer constituições liberais em seus respectivos reinos.

Primatas: Ordem de mamíferos que compreende

Religião monoteísta: Doutrina ou sistema religioso que admite a crença em apenas um único deus. As três grandes religiões monoteístas são o cristianismo, o islamismo e o judaísmo. (Veja também politeísmo.)

Seleção natural: Termo cunhado pelo naturalista britânico Charles Darwin (1809-1882) para explicar a evolução das espécies no planeta. Para Darwin, as espécies mais aptas a enfrentar e vencer as dificuldades do ambiente em que vivem são as que sobrevivem, enquanto as menos aptas desaparecem. Ocorre então uma diferenciação evolutiva que é geneticamente transmitida de geração em geração. Essa diferenciação favorece mudanças na espécie que permitem a ela adaptar-se às condições existentes e, assim, não só sobreviver, mas evoluir.

Semita: Grupo étnico e linguístico originário da Ásia ocidental que compreende os hebreus, os assírios, os aramaicos, os fenícios e os árabes. É também usado como sinônimo de judeu. Daí a expressão antissemita para designar o racismo contra os judeus.

Semítico: Relativo a semita. Sete sacramentos: Segundo a Igreja católica, sacramentos são gestos e palavras instituídos por Jesus Cristo, que concedem a graça santificadora a quem os recebe, ou aumentam e confirmam essa graça. Os sete sacramentos são: batismo (iniciação, confirmação da alma do indivíduo em Cristo); eucaristia (comunhão; sacramento em que pão e vinho, com as palavras do sacerdote, transubstanciam-se no corpo e no sangue de Cristo); confissão ou penitência (sacramento que

Luis Salvatore/Pulsar Imagens

cerca de 180 espécies, entre elas o próprio homem, os gorilas e os vários tipos de macacos. Caracterizam-se por apresentar membros alongados,

mãos e pés com cinco dedos providos de unhas e o polegar em oposição aos demais dedos, o que lhes permite maior habilidade manual.

Macaco-prego, Barreirinhas, MA. Foto de 2009.

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tem como fim o perdão dos pecados cometidos); confirmação da ordem sacerdotal (sacramento que o indivíduo recebe ao entrar para o sacerdócio); matrimônio (união santa e indissolúvel entre um homem e uma mulher); extrema-unção (unção dos enfermos com os santos óleos).

Sociedades anônimas: São empresas cuja principal característica é a atribuição de responsabilidade aos sócios de acordo com o percentual de capital que cada um deles possui. Esse capital se traduz no número de ações de que cada um é proprietário. A posse dessas ações pode ser restrita (empresas de capital fechado, normalmente familiares) ou de livre acesso para compra por meio de oferta em bolsas de valores (empresas de capital aberto). As empresas que são sociedades anônimas têm, por força de norma jurídica, de constituir um estatuto social e, no caso das leis brasileiras de hoje, devem ser formadas por pelo menos dois sócios.

Status: Palavra que se refere à situação, ao estado ou circunstância em que algo ou alguém se encontra num dado momento. Quando se analisa a organização de uma sociedade, as pessoas e grupos desempenham papéis sociais de acordo com o seu status. A cada nicho ou posição social corresponde um conjunto de hábitos, comportamentos, deveres e restrições, ou seja, a convenção social indica como uma pessoa com determinado status deve pensar, agir, vestir-se, etc.

Tirano: Na Grécia antiga, denominava-se tirano o lí-

Renato Soares/Pulsar Imagens

der político que tomava o poder com o apoio da população. Os tiranos, em geral, eram originários

do grupo de novos proprietários de terra, e foram importantes para a sociedade grega porque introduziram reformas na legislação agrária em benefício das classes populares. Sob sua liderança, o direito à cidadania foi ampliado, as leis deixaram de ser privilégio da aristocracia e foram publicadas. No mundo atual, o termo tirano designa aquele que usurpa o poder de um Estado, fazendo uso da força. O governo de um tirano não respeita as liberdades individuais, ignora as leis e a justiça, sendo assim autoritário e opressivo. Modernamente, o termo tirania designa um tipo de ditadura especialmente opressiva. Tradição: Os diferentes grupos indígenas que deixaram suas marcas nas rochas tinham um jeito particular de fazer suas inscrições rupestres. Em vários abrigos do Rio Grande do Norte, por exemplo, as figuras humanas são desenhadas com a cabeça em forma de “C”; já na região da serra da Capivara, a cabeça dos personagens humanos normalmente tem formato oval. Na região de Minas Gerais, os animais costumavam ser desenhados com grande realismo; em outros lugares, eles são retratados de forma mais esquemática. Esses diferentes estilos são chamados de tradição quando aplicados ao estudo dos povos indígenas. Em outra acepção, a palavra tradição designa o conjunto de valores culturais ou espirituais acumulados por uma sociedade e transmitidos geração após geração. Uma tradição culinária brasileira, por exemplo, é a feijoada. Uma tradição religiosa entre os católicos do Brasil é o culto à Nossa Senhora Aparecida.

Pintura rupestre do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, Januária, MG. Foto de 2012.

Glossário

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Sugestões de filmes e de leituras complementares As sugestões de filmes e de leituras complementares encontram-se distribuídas em pequenos boxes na cor azul ao longo dos capítulos.

Bibliografia básica ANDERSON, Perry. Passagens da Antiguidade ao feudalismo. São Paulo: Brasiliense, 1987. ARIÈS, Philippe; DUBY, Georges. História da vida privada. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. 5 v. AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. História geral das civilizações. Tomo 1 – O Oriente e a Grécia. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1972. 2 v. . História geral das civilizações. Tomo 2 – Roma e seu império. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1963. 3 v. AZEVEDO, Antonio Carlos do Amaral. Dicionário de nomes, termos e conceitos históricos. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. BELLUZO, Ana Maria de Moraes. O Brasil dos viajantes. São Paulo: Objetiva/Metalivros, 1999. BERNAND, Carmen; GRUZINSKI, Serge. História do Novo Mundo. São Paulo: Edusp, 1997. BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de Política. 5. ed. Brasília: Ed. da UnB; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2000. 2 v. BOXER, Charles R. O império marítimo português 1415-1825. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. BRAUDEL, Fernand. O Mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Filipe II. São Paulo: Martins Fontes, 1984. 2 v. BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia: história de deuses e heróis. São Paulo: Ediouro, 2008. BURKE, Peter. Cultura popular na Idade Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. . Uma história social do conhecimento: de Gutenberg a Diderot. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. CARDOSO, Ciro Flamarion et al. Modo de produção asiático: nova visita a um velho conceito. Rio de Janeiro: Campus, 1990. CARR, Edward Hallett. Que é História? 3. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. 266

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CARTLEDGE, Paul. História ilustrada da Grécia antiga. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2003. CHILDE, V. Gordon. A evolução cultural do homem. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981. . O que aconteceu na História. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988. COSTA E SILVA, Alberto da. A enxada e a lança. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; São Paulo: Edusp, 1992. . A manilha e o libambo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/Biblioteca Nacional, 2002. CUMMING, Robert. Para entender a Arte. São Paulo: Ática, 2000. DEMANT, Peter. O mundo muçulmano. São Paulo: Contexto, 2004. DIAMOND, Jared. Colapso. Rio de Janeiro: Record, 2005. DUBY, Georges. Eva e os padres. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. . Guerreiros e camponeses. Lisboa: Editorial Estampa, 1980. ; PERROT, Michelle (Dir.). História das mulheres no Ocidente: a Idade Média. Porto: Afrontamento, 1990. 5 v. ESPINOSA, Fernanda. Antologia de textos históricos medievais. 3. ed. Lisboa: Sá da Costa Editora, 1981. FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 1989. FRANCHETTO, Bruna; HECKENBERGER, Michael (Org.). Os povos do alto Xingu. Rio de Janeiro: Ed. da UFRJ, 2001. FUNARI, Pedro Paulo. Grécia e Roma. São Paulo: Contexto, 2002. GASPAR, Madu. A arte rupestre no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. GOMBRICH, E. H. A história da arte. Rio de Janeiro: LTC, 1999. GUIRAND, Félix (Dir.). Mitología general. Barcelona: Editorial Labor, 1965. HAGEN, Rose-Marie. Los secretos de las obras de arte. Tomo I. Madrid: Taschen, 2005. História em Revista. Rio de Janeiro: Time-Life/Abril, 1996. 25 v. HUBERMAN, Leo. História da riqueza do homem. 12. ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1976. JANSON, H. W. História geral da Arte. São Paulo: Martins Fontes, 2001. 3 v. LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean-Claude (Coord.). Dicionário temático do Ocidente medieval. Bauru: Edusc; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2002. 2 v. LEVI, Giovanni; SCHMITT, Jean-Claude (Org.). História dos jovens: da Antiguidade à Era Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. v. 1. LOYN, Henry R. (Org.). Dicionário da Idade Média. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1990. MAN, John. A história do alfabeto. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. MANN, Charles C. 1491: novas revelações das Américas antes de Colombo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. MARTIN, Gabriela. Pré-história do Nordeste brasileiro. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 1996. Bibliografia básica

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MITHEN, Steven. Depois do gelo: uma história humana global 20000-5000 a.C. Rio de Janeiro: Imago, 2005. MUNANGA, Kabengele. Negritude: usos e sentidos. 2. ed. São Paulo: Ática, 1988. OLIVER, Roland. A experiência africana. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1994. PESSIS, Anne-Marie. Imagens da Pré-História. Parque Nacional Serra da Capivara, FUMDHAM/Petrobras, 2003. PINSKY, Jaime. 100 textos de história antiga. São Paulo: Contexto, 2001. . As primeiras civilizações. São Paulo: Contexto, 2001. PROUS, André et al. Brasil rupestre: arte pré-histórica brasileira. Curitiba: Zencrane Livros, 2007. . Arqueologia brasileira. Brasília: Ed. da UnB, 1992. RAMOS, Fábio Pestana. Naufrágios e obstáculos enfrentados pelas armadas da Índia Portuguesa, 1497-1653. São Paulo: Humanitas, 2000. . No tempo das especiarias: o império da pimenta e do açúcar. São Paulo: Contexto, 2004. ROSTOVTZEFF, Michael. História da Grécia. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1986. . História de Roma. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1986. RUNCIMAN, Steven. A civilização bizantina. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977. SANDRONI, Paulo. Novíssimo dicionário de Economia. 10. ed. São Paulo: Best Seller, 2002. SEVCENKO, Nicolau. O Renascimento. 19. ed. São Paulo: Atual, 1994. SILVA, Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de conceitos históricos. São Paulo: Contexto, 2006. SOUZA, Marina de Mello e. África e Brasil africano. São Paulo: Ática, 2006. STRUDWICK, Helen (Ed.). La enciclopedia del antiguo Egipto. Madrid: Edimat, 2007. TENÓRIO, Maria Cristina (Org.). Pré-história da Terra Brasilis. Rio de Janeiro: Ed. da UFRJ, 2000. THORNTON, John. A África e os africanos na formação do mundo Atlântico. Rio de Janeiro: Campus, 2004. TOCQUEVILLE, Aléxis. O Antigo Regime e a Revolução. 3. ed. Brasília: Ed. da UnB; São Paulo: Hucitec, 1989. TODOROV, Tzvetan. A conquista da América. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1988. TOYNBEE, Arnold. J. Helenismo: história de uma civilização. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975. UJVARI, Stefan Cunha. A história e suas epidemias: a convivência do homem com os microrganismos. Rio de Janeiro: Senac Rio; São Paulo: Senac São Paulo, 2003. VOVELLE, Michel. Imagens e imaginário na História. São Paulo: Ática, 1997. WILHELM, Jacques. Paris no tempo do Rei Sol. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. ZUMTHOR, Paul. A Holanda no tempo de Rembrandt. São Paulo: Companhia das Letras/Círculo do Livro, 1989. 268

Bibliografia

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Índice remissivo

Abraão 72

Caçadores-coletores 20, 27

Absolutismo 249, 251-253, 255

Calvinismo 225

Agricultura 13, 19, 21, 23, 27, 31, 37-38, 43, 49, 59, 129-130, 146, 151, 171, 188-189, 194, 206, 252

Carlos Magno 161, 163, 165-166

Alcorão 137, 229

Cartago 61-63, 108, 123

Alexandre, o Grande (Alexandre Magno) 67, 97

Celtas 93

Alfabeto 60, 62-63, 67, 101, 218

Cerâmica 21-22, 26-27, 30-31

Américo Vespúcio 236

Cícero 120, 166

Antiguidade clássica 79, 129, 211-212

Cidadania 88-89, 107, 115, 125

Antropocentrismo 211, 213

Aristóteles 79, 92, 96, 166

Cidade(s) 19, 21, 27, 32, 34-37, 39-42, 45, 47, 49-50, 53, 56, 61-63, 66-67, 69, 73, 75-76, 80-85, 88-93, 96, 100-103, 110-115, 117, 121-122, 129, 136-138, 140-141, 146, 148-150, 155, 161, 163, 174-175, 178-179, 181, 186-187, 189-192, 194-195, 197, 204, 207, 211, 215, 223-224, 228-229, 232, 246

Arte 27, 33, 46, 119-120, 128, 139, 147, 155, 158-159, 194, 206, 212-214, 218

Cidade(s)-Estado 37, 61, 67, 69, 85, 87-88, 90-91, 93, 95, 108, 136

Assembleia 88-89, 91-92, 102-103, 106, 113, 191, 204, 221, 223, 252

Cisma do Oriente 180

Ariano(s) 56-57 Aristocracia 61, 81, 85, 91, 114, 157, 162, 192, 257

Australopiteco(s) 12, 14 Ato de Navegação 255 Babilônia 39 Banalidade 174 Bíblia 72-73, 166, 172, 218, 222, 225 Bill of Rights 255 Bramanismo 57 Budismo 58, 129, 132 Burguesia 195, 203-204, 207-208, 214, 225, 233, 238, 252, 255

Carta Magna 203-204

Civilização: Chinesa 48 Micênica 81, 83 Grega 80-81, 84, 86, 106 Olmeca 98 Clístenes 91-92 Código de Justiniano 158 Comércio 23, 61, 63, 67, 81-82, 89, 91, 97, 112, 129, 132, 136, 146, 148-150, 163, 180-181, 186-187, 189-192, 201, 204, 211, 223, 232-233, 239-246, 250, 253 269

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Comércio Triangular 243

Estados Gerais 204, 252

Companhia de Jesus 228

Estados protestantes 224

Concílio:

Escrita cuneiforme 37, 39, 67

Latrão 179

Eupátridas 85, 91

Trento 228-229

Eurípedes 92

Confucionismo 49 Contrarreforma 228, 230 Corveia 174, 189 Cretense(s) 80-82 Cristianismo 69, 72, 118-119, 137, 141, 146, 148, 159, 163, 175, 177, 204, 228, 246 Cruzadas 140, 158, 179-183, 189-190 Dante Alighieri 194, 215 Davi 73 Democracia 78-79, 91, 125 Demos 92 Deserto do Saara 43, 145, 147 Diáspora 74 Dravidiano(s) 56, 59 Direito Romano 251 Dinastia:

Felás 43 Fenícia 61-63, 70, 96, 108 Feudalismo 170-171, 203 Feudo 171-172, 203-204, 207 Fóssil(eis) 12-13, 15, 25-26 Galileu Galilei 213, 219 Geocentrismo 213 Gêngis Khan 52 Genos 84-85 Giordano Bruno 213 Gladiadores 107, 112, 114, 117-118 Globalização 123 Graco, Caio 113-114 Graco, Tibério 113

Tang 129

Grandes Navegações 215

Xia 49

Guerra:

Shang 49

dos Cem Anos 204-205, 209

Han 50-52, 129

das Duas Rosas 253

Egito 13, 37-38, 42-45, 61, 72-73, 75, 81, 96, 144, 149, 158 Escravo(s) 44, 63, 79, 81, 84, 88-89, 91-92, 101-102, 106-108, 112, 114, 116, 143, 149-151, 155, 174, 230, 234, 243 Escrita 13, 17, 21, 36-37, 39, 44, 49-51, 54, 60, 63, 67, 69, 82, 84, 86, 98, 107, 121-122, 146, 167-168, 212 Estado nacional 200-201, 251, 258 270

Faraó 42-46, 72, 75

Médicas 67 Púnicas 108 Hégira 136 Hélade 96 Helenismo 94, 96, 159 Heliocentrismo 213 Hesíodo 95

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Henrique VIII 225-226, 228, 253

Maomé 135-138, 141, 158, 185

Hieróglifo(s) 44

Martinho Lutero 222

Hinduísmo 56

Maquiavel, Nicolau 212

Homero 83-84, 86

Marco Antônio 115, 118

Hominídeo(s) 12-14, 16-18

Mecenato 214

Hipócrates 92

Mediterrâneo 36, 61-62, 67, 69, 80-82, 94-97, 108, 118, 146, 148, 155, 175, 180, 232, 236, 240

Humanismo 210-212, 218 Huguenote(s) 225 Idade da Pedra Lascada 21 Idade dos Metais 21

Medos 66, 69-70 Mercantilismo 242, 252-253 Minotauro 80 Miscigenação 62, 81, 162

Igreja anglicana 225, 228, 246, 253

Mesopotâmia 13, 36-40, 72-73, 76, 97

Império Romano 93, 117-123, 129, 154-155,

Michelangelo Buonarroti 215

158, 161-163, 168, 174, 179-180, 184, 190, 194, 204, 211, 213, 222-223, 226

Miguel de Cervantes 182, 215

Indígena(s) 10, 13, 25, 30, 219

Monarquia 95, 102, 115, 139, 201-203, 205, 233, 252-255

Indo-europeu(s) 56, 81, 83, 101 Indo (rio) 56, 59, 97, 135, 139 Inquisição 181-182, 207-208, 213, 228

Monoteísta 71-72, 119 Monarquia(s) absolutista(s) 252 Mumificação 45, 47

Investidura 179

Muralha da China 54, 122

Isaac Newton 213

Nabucodonosor 40

Islamismo 72, 126, 133, 135-141, 148-149, 229

Nilo (rio) 16, 43, 45, 75, 96, 146

Jesuíta(s) 228, 243, 246, 248

Nômade(s) 13, 19-21, 23, 56, 59, 66, 69, 72, 122, 130, 133, 146, 148, 200

Jihad 136-137 João Calvino 225 Judaísmo 71-72, 119, 137, 141, 177 Liga do Peloponeso 91

Nomarca(s) 43-44 Norte Chico 40-41 Odisseia 83-84, 86, 95

Legiões Romanas 106, 114, 122

Organização das Nações Unidas (ONU) 26, 34, 36, 39, 65, 200

Lei das Doze Tábuas 106-107

Pão e circo 112

Leonardo da Vinci 212, 214

Palestina 72-74, 96, 119, 126, 136, 158

Luzia 25, 27

Paleoíndio(s) 28, 30-31

Macedônia 67, 95, 97

Patrícios 101-102, 106-107, 112, 115 Índice remissivo

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Pax Romana 119, 121 Período: dos Reinos Combatentes 49 arcaico 88 Homérico 84 Paz de Augsburgo 224

Sargão 39 Salomão 73, 141 Sambaqui(s) 27 Saul 73

Pedro Álvares Cabral 236

Sedentarização 21, 23

Pérsia 66, 97, 132, 158, 229

Semita(s) 39, 61, 72, 136

Península Itálica 101, 103, 108

Senado 102-103, 106-107, 112-115, 118, 121

Peste negra 194-195, 197

Sítio arqueológico 30

Pintura(s) rupestre(s) 26, 29, 32

Sócrates 70, 92

Pirâmide(s) 41-42, 44, 46-47, 81, 98

Sófocles 92

Platão 92

Sunita(s) 138

Plebeus 101-102, 106-107, 114-115

Suserania 172, 251

Política Protecionista 233, 242

Teogonia 95

Politeísmo 72, 136, 146

Teocentrismo 211

Protestantismo 177, 212, 221, 226, 228, 250

Tetrarquia 121

Racionalismo 212

Tirano 91

Rafael Sanzio 215

Tribuno(s) da Plebe 106, 113

Reconquista 75, 204, 206

Tito Lívio 110

Revolução de Avis 207, 233

Thomas Hobbes 250-251

República Romana 103, 111-112, 114

Triunvirato 114-115, 118

Renascimento 129, 166, 181, 186, 198, 210, 212-213, 218

Troia 82-84, 86

Revolução Gloriosa 255 Revolução Comercial 240, 250 Revolução Industrial 130, 246 Revolta dos Cavaleiros 223 Reforma 91-92, 113, 179, 181, 211, 221-222, 225, 228-230, 251 Rota da Seda 50-51 272

Sacerdote(s) 44, 56-58, 81, 91, 104, 114, 119, 147, 168, 222, 224, 228

Tratado de Tordesilhas 235, 244-245 União Ibérica 244 Vasco da Gama 215, 235-236, 243-244 Xiita(s) 138-139 William Shakespeare 218 Zend-Avesta 69 Zoroastro 69

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Histรณria Volume 1

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Sumário 1. Pressupostos teóricos ................................................................................................................................. 275 2. Metodologia ..................................................................................................................................................... 276 3. Organização da obra .................................................................................................................................... 282 4. Procedimentos pedagógicos ..................................................................................................................... 287 Sugestões de respostas das atividades .............................................................................................. 287 Capítulo 1 – África, berço da humanidade ............................................................................................................ 288 Capítulo 2 – A Revolução Agrícola ........................................................................................................................ 290 Capítulo 3 – Nossos mais antigos ancestrais ....................................................................................................... 293 Capítulo 4 – Povos da Mesopotâmia ...................................................................................................................... 296 Capítulo 5 – Na terra dos faraós ........................................................................................................................... 300 Capítulo 6 – A civilização chinesa ........................................................................................................................ 301 Capítulo 7 – As civilizações da Índia .................................................................................................................... 303 Capítulo 8 – Os fenícios, inventores do alfabeto ................................................................................................... 304 Capítulo 9 – O Império Persa ................................................................................................................................. 306 Capítulo 10 – Os hebreus ....................................................................................................................................... 307 Capítulo 11 – A Grécia antiga: formação ............................................................................................................... 309 Capítulo 12 – A Grécia clássica ............................................................................................................................. 311 Capítulo 13 – O helenismo ..................................................................................................................................... 313 Capítulo 14 – Os primeiros séculos de Roma ........................................................................................................ 316 Capítulo 15 – A República em crise ....................................................................................................................... 318 Capítulo 16 – O Império Romano ........................................................................................................................... 320 Capítulo 17 – Civilizações asiáticas...................................................................................................................... 324 Capítulo 18 – O mundo árabe-muçulmano............................................................................................................ 326 Capítulo 19 – Os reinos africanos ......................................................................................................................... 329 Capítulo 20 – O Império Bizantino ........................................................................................................................ 332 Capítulo 21 – Os primeiros reinos medievais ....................................................................................................... 333 Capítulo 22 – O feudalismo.................................................................................................................................... 335 Capítulo 23 – O poder da Igreja ............................................................................................................................. 339 Capítulo 24 – Renascimento urbano e comercial.................................................................................................. 342 Capítulo 25 – A formação do Estado moderno ....................................................................................................... 345 Capítulo 26 – A revolução cultural do Renascimento ........................................................................................... 347 Capítulo 27 – A Reforma protestante .................................................................................................................... 350 Capítulo 28 – As Grandes Navegações .................................................................................................................. 352 Capítulo 29 – Os impérios coloniais ...................................................................................................................... 354 Capítulo 30 – O absolutismo monárquico ............................................................................................................. 357

Sugestões de avaliação/Atividades complementares .................................................................. 360 5. Bibliografia...................................................................................................................................................... 373 6. Nossa coleção e o Novo Enem .................................................................................................................. 374 7. Matriz de Referência para o Enem 2012 .............................................................................................. 375 274

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1

Pressupostos teóricos

Vivemos em uma era de grandes conquistas. Os avanços científicos, as vacinas, o computador, a internet, entre muitas outras novidades, trouxeram a fartura alimentar, a cura de doenças, maior velocidade na transmissão das informações e um potencial quase infinito de conforto e diversão a uma parcela da população mundial. Porém, na contramão desse processo, encontra-se grande parte da população mundial, que se vê excluída de seus direitos básicos de cidadania, sem acesso à saúde, educação, água, moradia, informação e, além disso, tendo seus direitos à integridade física e moral constantemente violados. A essas questões somam-se outros graves problemas, como, por exemplo, a intolerância, verificada em seus mais variados aspectos: político, religioso, étnico, sexual, de gênero, de idade, de condição social, etc. Essa intolerância muitas vezes é levada a extremos, chegando à violência física, à xenofobia, ao racismo, à discriminação e a muitas outras formas de desrespeito ao outro. Também são frequentes as violações de princípios éticos, como a corrupção, que, particularmente no Brasil, implica sérios prejuízos ao desenvolvimento social, político e econômico do país1. O mais alarmante, contudo, é que hoje até mesmo a existência dos seres vivos encontra-se em risco, devido, entre outros fatores, ao consumo sem limites e aos danos que vêm se infringindo ao meio ambiente: desmatamento, extinção de espécies, destruição da camada de ozônio, excesso de emissão de gás carbônico, poluição, aquecimento global, etc.

A importância da educação Embora o quadro seja sombrio, é importante saber que a situação com a qual nos deparamos não é irreversível e não devemos nos acomodar. A História mostra que foram os sonhos e a crença no potencial criativo do ser humano o combustível essencial para a mudança das sociedades ao longo dos tempos. Por isso, lutar por um mundo mais justo, tolerante, igualitário, solidário e fraterno não pode ficar restrito a poucos. É uma tarefa que compete a todos, independentemente de nacionalidade, idade, etnia, cultura ou convicções políticas, ideológicas e religiosas. Apesar de acreditar que todos, desde os chamados cidadãos comuns até os representantes dos grandes conglomerados empresariais ou financeiros – passando, é claro, pelas mais variadas instâncias de poder –, têm a mesma responsabilidade nesse esforço de construir um mundo melhor, é inquestionável

o papel que a educação exerce no processo de desenvolvimento social da humanidade. Por meio da educação, é possível formar indivíduos aptos a ler a realidade e capazes de interferir e modificar o mundo. Mas, para que isso de fato ocorra, é necessário incorporar no processo educacional a noção de que – com exceção do mundo natural – praticamente tudo o que existe é resultante da ação dos seres humanos, ou seja, é de nossa responsabilidade.

O papel da História Como a disciplina de História pode participar do processo de construção de um mundo melhor? Por ser instrumental para a compreensão das experiências sociais, culturais, tecnológicas, políticas e econômicas da humanidade ao longo do tempo, a História tem papel fundamental na construção de um mundo mais solidário, fraterno e tolerante. Por meio da História, os alunos podem compreender e tomar consciência de sua realidade social. Isso se concretiza, principalmente, quando eles percebem que seu presente, ou seja, seu cotidiano, suas crenças, seus valores, grupos sociais, etc. integram um processo que tem a ver com o passado. É no passado que estão as explicações de como questões centrais de nossa realidade foram construídas, modificadas ou consolidadas. De fato, o ensino de História não apenas contribui para o desenvolvimento da consciência de cidadania do aluno, mas também oferece instrumentos que servem para a construção de sua própria identidade. Nas palavras do historiador francês René Rémond: “É impossível compreender seu tempo para quem ignora todo o passado; ser uma pessoa contemporânea é também ter consciência das heranças, consentidas ou contestadas2”. Percebendo-se como integrante da sociedade (com a qual compartilha um passado e tem um presente em comum), o aluno também irá assumir, gradativamente, sua parcela de responsabilidade na construção do presente. Longe de reduzir o estudo da História a um presenteísmo3 desvinculado dos fatos históricos ou de dar ao passado apenas um caráter utilitário, esse tipo de articulação aponta para uma questão central: a de que todos os atos humanos são históricos.

O livro didático É nesse contexto que o livro didático se insere. Acreditamos que ele deve fornecer instrumentos e estratégias pedagógicas que possibilitem ao professor despertar em seus alunos interesses e motivações para agir no mundo em que vivem.

1

De acordo com a ONG Transparência Internacional, em 2012 o Brasil ocupava o 69o lugar no ranking anual dos países menos corruptos do mundo. A nota do Brasil foi 43, em uma escala que vai de 0 (para os mais corruptos) a 100 (para os menos corruptos). No ranking daquele ano, foram avaliados 176 países.

2

Citado em BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes. Ensino de História: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2004. p. 155.

3

O termo presenteísmo é uma expressão aplicada a um tipo de visão contemporânea que busca abolir o passado e a memória histórica e cujo alcance temporal não vai além do imediato. Sobre esse fenômeno afirma Eric Hobsbawm: “A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. Por isso os historiadores, cujo ofício é lembrar o que os outros esquecem, tornam-se mais importantes do que nunca. (...) Por esse motivo porém, eles têm que ser mais do que simples cronistas, memorialistas e compiladores.” (HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX – 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 13.)

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Esse exercício lhes permitirá observar as semelhanças e diferenças, as permanências e rupturas de questões e valores na História, ver as singularidades do passado e, ao mesmo tempo, possibilitará também descobrir as especificidades de nossa sociedade (comparada com outras do passado e do presente), em termos políticos, econômicos, sociais, religiosos, tecnológicos, culturais e cotidianos. Nessa perspectiva, é proposta deste livro auxiliar o(a) professor(a) de História a formar cidadãos críticos e atuantes no mundo em que vivem. Para que isso se efetive, acreditamos ser essencial retirar a História do campo da erudição neutra ou da mera especulação do passado e colocá-la no campo da política, no melhor sentido da palavra4. Sentindo-se instigado pelas questões do seu cotidiano, os alunos poderão entender o passado como parte de um processo que lhes permite compreender e tomar consciência de sua realidade social para, a partir disso, atuar sobre ela.

2

Metodologia

Esta coleção de História do Ensino Médio, composta de três volumes, destaca a relação presente-passado, que é abordada de diversas formas. As aberturas de unidades, por exemplo, trabalham conceitos que são caros ao mundo contemporâneo como diversidade religiosa, meios de comunicação de massa, ética, cidadania, soberania e Estado Nacional, etc. Nas aberturas de capítulos, por sua vez, utilizamos temas ou fatos atuais relacionados ao conteúdo do capítulo. A seção Passado presente, como o próprio nome indica, procura aprofundar a discussão sobre as relações entre o ontem e o hoje. Já a seção Eu também posso participar foi concebida com o objetivo de estimular os alunos a buscarem relações no tempo e no espaço e reforçar sua participação cidadã. Finalmente, atividades como Hora de refletir, Começo de conversa, Sua comunidade e De olho no mundo, entre outras, têm como propósito que os alunos consolidem e formalizem essas relações5. Acreditamos que, ao trabalhar com a relação presente-passado, reforçamos a historicidade dos atos humanos, valorizamos a visão dialética da História e incentivamos os alunos a perceberem que a História é um processo aberto e que os seres humanos não estão condenados a viver em nenhuma sociedade em particular. É a ação dos indivíduos – consciente ou não – que decide seu destino6. Fazer esse trabalho – direcionado para a relação entre presente e passado – não significa abandonar os fatos e processos do passado, mas sim dar-lhes sentido. Desse modo, nesta cole-

276

ção procuramos referendar uma vasta gama de experiências vividas por diversos povos do planeta ao longo dos séculos, assim como alguns dos principais processos históricos da humanidade, desde seus primórdios até o mundo contemporâneo. Preocupamo-nos em contemplar também processos, descobertas, sociedades, civilizações e povos geralmente ausentes das salas de aula. A seção Enquanto isso... cumpre, em parte, esse papel, pois, além de trabalhar a simultaneidade, permite trazer à tona experiências históricas diversificadas, contribuindo para deslocar o foco exclusivo da chamada história eurocêntrica7.

Antigas sociedades orientais Nesta coleção, algumas das antigas sociedades orientais receberam capítulos exclusivos, como foi o caso dos hindus, persas, fenícios, chineses e hebreus, tratados no livro 1. Nossa preocupação foi abordá-las com profundidade equivalente à que se atribui às sociedades tradicionalmente estudadas nas salas de aula, como a grega e a romana, por exemplo. Salientamos assim a importância do legado desses povos ao mundo contemporâneo. Ao mesmo tempo, ao apresentar sociedades diferentes das do mundo ocidental, tratamos da diversidade e da pluralidade étnica, cultural e religiosa, valorizando o respeito às diferenças.

A África No caso das sociedades africanas, nossa preocupação foi ainda maior. Tratamos da cultura africana e afrodescendente ao longo de toda coleção, seja dedicando capítulos exclusivos ou por meio de boxes em momentos oportunos. Um de nossos objetivos foi destacar a diversidade de povos que o continente africano abriga e o fato de eles terem não uma única história, mas experiências históricas e culturais variadas, distintas e ricas8. Tanto estudos produzidos nas últimas décadas quanto a Lei no 10 639 (e depois a Lei no 11 645) indicam a necessidade de se fazer, na sala de aula, um trabalho mais sistemático e intenso em relação à África e aos afrodescendentes. Alguns estudos mostram, por exemplo, que muitas vezes as crianças, os adolescentes e os jovens afrodescendentes não se identificam como negros, uma vez que, quase sempre, são retratados nos meios de comunicação, incluindo os livros didáticos, em situações socialmente negativas: vinculados à pobreza, submissos (na condição de escravos e no ato de serem açoitados, por exemplo), relacionados à violência, etc. Cientes disso, buscamos esclarecer como ocorreu o processo que resultou na lamentável exclusão social de boa parte da

4

FENELON, Déa Ribeiro; CRUZ, Heloísa Faria; PEIXOTO, Maria do Rosário Cunha. In: FENELON, Déa Ribeiro et al. (Org.). Muitas memórias, outras histórias. São Paulo: Olho d´Água, 2004. p. 6.

5

Uma explicação pontual sobre a proposta de cada seção de texto e de atividades da coleção pode ser encontrada no item 3 (Organização da obra) deste Manual.

6

Ver SADER, Emir. Século XX: uma biografia não autorizada. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2001. p. 129.

7

Exemplos dessa afirmação podem ser encontrados nas páginas 40, 47, 59, 98, 123, 208 e 219.

8

No capítulo 5 do livro 1, por exemplo, destacamos o fato de a civilização egípcia ser africana, o que muitas vezes passa despercebido. Trabalho semelhante foi feito com Cartago no capítulo 8 do mesmo livro. Ver também as páginas 123 e 144 a 153 (capítulo 19).

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população negra no Brasil e no mundo. Ao mesmo tempo, procuramos destacar o relevante papel desempenhado pelos povos africanos ao longo da História. Na coleção, textos e imagens mostram a participação dos africanos e afrodescendentes na construção da sociedade brasileira. Indivíduos que, ao longo dos séculos, ocuparam espaços na economia, na cultura e na política brasileira, por meio de manifestação pública ou intelectual9. Incluímos, também, informações, textos, imagens e atividades críticas que demonstram o quanto nossa cultura é marcada pela herança africana. Além disso, sempre que foi possível, incentivamos a reflexão sobre as formas de preconceito aparentemente “imperceptíveis” e enraizadas em nossa sociedade.

Povos indígenas Em 1492, Cristóvão Colombo desembarcou na região que hoje conhecemos como América Central e, imaginando ter chegado à Índia, passou a chamar todos os nativos que ali viviam pelo nome genérico de índios. Passados mais de 500 anos, essa denominação ainda permanece no senso comum, muito embora seja conhecida a grande diversidade de povos indígenas que existem na América. A imagem do indígena, quase sempre associada ao passado e estereotipada na clássica representação de “pessoas que andam nuas no meio da mata”, não representa de forma alguma a diversidade e as problemáticas históricas e atuais dos povos indígenas do continente americano. A história desses povos anterior à chegada do europeu é praticamente desconhecida. Desde então, em geral, eles só são lembrados por sua relação com os não indígenas, principalmente associados ao exótico ou à condição belicosa – em guerra contra outros povos (indígenas e não indígenas) ou como empecilho ao “desenvolvimento” da futura nação. Apresentam-se, portanto, não como sujeitos históricos, mas como “coadjuvantes”10. São igualmente relegados ao esquecimento os conhecimentos acumulados por esses povos, assim como as singularidades de suas diversas culturas. Além disso, a inexistência de uma escrita formal entre esses povos é geralmente vista como manifestação de “ignorância” ou de “atraso”. Por esse motivo, as nações indígenas muitas vezes são taxadas de “povos sem cultura”.

9

Se do ponto de vista da cidadania essa atitude contribui para a manutenção do preconceito contra os povos indígenas, do ponto de vista da História e da Antropologia reflete uma abordagem equivocada do conceito de cultura. Colabora também para manter uma visão linear e evolutiva da História, uma vez que esses povos são associados ao “primitivo”, enquanto o europeu (o colonizador) é apresentado como modelo de civilização a ser alcançado por todos os povos. Faz-se mister um trabalho dedicado também à história dos povos indígenas, tanto do passado como do presente. Além dos estudos e documentos indígenas que afirmam essa necessidade, a Lei no 11645, sancionada em março de 2008, é incisiva sobre a urgência de incorporar ao conteúdo programático escolar a história dos povos indígenas11. Foi no sentido de contribuir de forma efetiva para a mudança dessa abordagem que trabalhamos a questão indígena nesta coleção. Buscamos reforçar a historicidade dos povos indígenas, assim como deixar claro para os alunos que o contato entre indígenas e europeus não se resumiu a uma simples relação de dominador e dominado12. Acrescente-se ainda que em vários capítulos sobre a história do Brasil destacamos o indígena no tempo presente. Além de mencionar os problemas que essa população enfrenta hoje, procuramos mostrar também o quanto a herança indígena faz parte da nossa cultura. Um dos lugares onde esse trabalho pode ser observado é na seção Patrimônio e diversidade13.

Trabalho com conceitos Embora tenhamos adotado uma perspectiva de História integrada e cronológica para a obra, o cerne de sua organização, assim como um dos pilares de sua metodologia, são as unidades conceituais. Elas foram criadas para serem mais um suporte no trabalho de formação do espírito crítico do jovem cidadão em sala de aula. Esses conceitos foram pensados tendo em vista a coleção completa e um trabalho a ser realizado em três anos. Assim, os 83 capítulos dos três livros da coleção se dividem entre catorze unidades conceituais, nas quais abordamos algumas das principais questões de nosso tempo. São elas: A força do conhecimento e da criatividade; A urbanização; Direito e democracia; Diversidade religiosa; Soberania e Estado nacional; Diversidade cultural; Trabalho; A luta pela cidadania; Política e participação;

Além do painel geral que traçamos sobre a presença negra na colônia e no império (capítulo 7 do livro 2), abordamos a situação dos africanos e de seus descendentes em praticamente todos os capítulos de Brasil dos livros 2 e 3.

10

GRUPIONI, Luís Donisete Benzi. Livros didáticos e fontes de informações sobre as sociedades indígenas no Brasil. In: SILVA, Aracy Lopes da; GRUPIONI, Luís Donisete Benzi (Org.). A temática indígena na escola: novos subsídios para professores de 1o e 2o graus. Brasília: MEC/MARI/Unesco, 1995. p. 487.

11

Lei no 11645, de 10 março de 2008. Disponível em: <www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2008/lei/L11645.htm>. Acesso em: 25 dez. 2012.

12

A respeito dessa questão, comenta a professora Maria Regina Celestino de Almeida: “As relações de contato entre os índios e a sociedade ocidental eram vistas como simples relações de dominação impostas aos índios, de tal forma que não lhes restava margem de manobra alguma a não ser a submissão passiva a um processo de perdas culturais progressivas que os levaria à descaracterização e à extinção étnica. Nessa perspectiva, os índios do Brasil integrados à colonização, quer na condição de escravos ou de aldeados, diluíam-se nas categorias genéricas de escravos ou despossuídos da colônia. Assim, os tamoios, os aimorés, os goitacases eram índios bravos, mas perderam a guerra, foram absorvidos pelo sistema colonial como vítimas indefesas, aculturaram-se, deixaram de ser índios e saíram da História. Em nossos dias, as novas propostas teóricas da Antropologia e da História, disciplinas que ao se aproximarem desenvolvem e ampliam a noção de cultura, têm permitido uma outra compreensão das relações de contato entre índios e europeus, de suas experiências no interior dos aldeamentos e, consequentemente, da própria história indígena do Brasil.” (ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. Identidades étnicas e culturais: novas perspectivas para a história indígena. In: ABREU, Martha; SOIHET, Rachel (Org.). Ensino de História: conceitos, temáticas e metodologia. Rio de Janeiro: Faperj/Casa da Palavra, 2003. p. 27).

13

Seção existente nos capítulos de Brasil, a partir do livro 2.

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Terra e meio ambiente; Ciência e tecnologia; Meios de comunicação de massa; Violência; Ética. Dois critérios principais nos levaram a definir o conceito de cada unidade: a importância do assunto para a compreensão de diferentes aspectos da realidade (sobretudo a realidade brasileira) e os momentos em que, no decorrer da História, esses conceitos se constituíram ou se evidenciaram. Podemos exemplificar nossa proposta citando a unidade 4 do livro 1, Diversidade religiosa. Os capítulos nela compreendidos abrangem um período que vai do século V aos séculos XIII e XIV, aproximadamente. Entre outros aspectos, esse período foi marcado pela consolidação das duas maiores religiões monoteístas do mundo contemporâneo: o catolicismo e o islamismo. Assim, aproveitamos um conteúdo já existente na organização cronológica da obra para promover a reflexão sobre o sentido da religião para os povos, a historicidade da religião, o respeito à religião alheia (assim como aos sem religião), entre outras questões. Trabalho semelhante é feito sobre as religiões africanas e asiáticas, assuntos de capítulos dessa unidade. Ainda para exemplificar, podemos mencionar a unidade 2 do terceiro volume, que aborda o período entre 1920 e a Guerra Fria, aproximadamente. Nessa unidade optamos por abordar o papel desempenhado pelos meios de comunicação de massa, pois foi nesse período que ocorreu a invenção da televisão e no qual o cinema, o rádio e a publicidade se difundiram pelo mundo. E foi também nessa época que seu poder de penetração social foi levado ao extremo, particularmente pelo uso que deles fizeram os regimes totalitários. O vínculo entre os capítulos e o conceito da unidade é estabelecido por meio de recursos variados, como, por exemplo, os textos de abertura da unidade. Em geral, esses textos têm início com exemplos ou situações do cotidiano da maioria das pessoas (no presente), sugerindo aos alunos que o assunto abordado também diz respeito a eles e à sociedade em que vivemos. Em seguida, problematizamos o conceito apresentado, para, finalmente, relacioná-lo ao conteúdo dos capítulos. Dessa forma, fica claro para os alunos que aquele assunto contemporâneo liga-se, de alguma forma, ao passado14. As discussões a respeito dos conceitos de cada unidade continuam no interior dos capítulos, tanto no texto principal, dos boxes e das seções, quanto nas atividades sugeridas. Na escolha dos conceitos a serem trabalhados na obra, buscamos aqueles adequados à realidade do aluno de Ensino Médio e, ao mesmo tem-

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po, relacionados às necessidades do presente e ao entendimento do assunto no passado15. Vale dizer que não é nosso objetivo, nesta coleção, aprofundar os conceitos ao nível de discussões de natureza filosófica ou semântica, pois tal tarefa cabe aos cursos de graduação ou pós-graduação16.

Trabalho com imagens A imagem é de suma importância no trabalho de sala de aula pois, entre outras possibilidades, permite aos leitores (principalmente ao público mais jovem) a percepção de formas diversas de passagem do tempo histórico. Entretanto, como ressalta a historiadora Ana Maria Mauad, para que essa possibilidade se concretize, há de se operar sobre a natureza histórica das imagens, buscando a sociedade que a produziu através do sujeito que a consumiu17. Assim, para que o trabalho com imagens em sala de aula seja proveitoso, algumas condições devem ser satisfeitas. Uma delas é que as imagens contribuam de fato para as discussões propostas na obra. Outro aspecto a ser observado é que o processo de leitura e interpretação de imagens ajude os alunos a entender seu significado específico e as relações de sua produção e seu consumo, e contribua também para torná-los aptos a fazer uma leitura crítica desse tipo de documento em outras situações de sua vida18. Foi com base nesses princípios que procuramos selecionar as imagens da obra. O processo de escolha orientou-se no sentido de optar por imagens que de fato fossem mais um instrumento para a leitura e compreensão dos fatos, processos, conceitos e das realidades estudadas ao longo da coleção. Foi também nossa preocupação selecionar imagens que refletissem a produção iconográfica de variadas regiões do mundo em diversos tempos e lugares19. O trabalho com mapas permite analisar e relacionar diferentes fenômenos em uma determinada região, revelando o espaço como um produto das relações sociais. Por funcionar como uma síntese de vários aspectos estudados, sua leitura deve ser sempre recomendada, seja individualmente, seja de forma coletiva. Os alunos devem observar a escala, as fronteiras do país ou região, o significado dos símbolos da legenda, confrontar informações do mapa e do texto, e, quando possível, comparar mapas que representam a mesma região em capítulos distintos.

14

Sobre o texto de abertura, ver o item 3 (Organização da obra) deste Manual.

15

Conforme consta nas Orientações curriculares para o Ensino Médio, os conceitos para esse nível de ensino devem funcionar como “indicadores de expectativas analíticas”. Ver Conhecimentos de História. In: Orientações curriculares para o Ensino Médio. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/ book_volume_03_internet.pdf. p. 71>. Acesso em: 4 dez. 2012.

16

Segundo o historiador Marcelo Jasmim, os conceitos sofrem alterações de sentido ao longo do tempo: “Quando consideramos a noção de revolução que aparecia há quatro ou cinco séculos, esse conceito significava o que Copérnico dizia em relação às ordens celestes. Revolução era o retorno do astro ao seu próprio lugar depois de realizar a sua órbita. Para nós, hoje em dia, revolução é o contrário disso. Não é restauração; é ruptura em relação ao lugar de origem”. (Citado em: Linguagem e História – Entrevista com Marcel Jasmim. Disponível em: <www.puc-rio.br/editorapucrio/autores/autores_entrevistas_jasmin.html>. Acesso em: 4 dez. 2012.)

17

Ver: MAUAD, Ana Maria. As imagens que educam e instruem – usos e funções das ilustrações nos livros didáticos de história. In: OLIVEIRA, Margarida Maria Dias de; STAMATTO, Maria Inês Sucupira (Org.). O livro didático de História: políticas educacionais, pesquisas e ensino. Natal: Ed. da UFRN, 2007. p. 110-111.

18

Sobre as estratégias específicas de trabalho com imagens, ver as seções Olho vivo e Interpretando documentos no item 3 (Organização da obra) deste Manual.

19

Ver, por exemplo, as páginas 10, 21, 44, 57, 68, 124, 131 e 147.

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História regional, local e cultura Queixa bastante comum entre os professores é que o conteúdo didático da história do Brasil para o Ensino Médio se atém muito a aspectos globais e nacionais e pouco às trajetórias regionais. Sobre essa questão a historiadora Maria de Lourdes Monaco Janotti afirma que, tradicionalmente, tem havido uma primazia da historiografia brasileira em identificar a história dos polos dinâmicos da economia e seus centros administrativos com a própria história do Brasil. Assim, se em período anterior a 1850 o foco dos estudos historiográficos se direcionou mais intensamente para as áreas produtoras de açúcar e depois para a mineração, no período posterior a esse marco se voltou prioritariamente para a região mais hegemônica do capitalismo brasileiro contemporâneo, ou seja, a região Sudeste, principalmente São Paulo. Dessa forma, o que acabou sendo entendido como história nacional é efetivamente a história de São Paulo e do domínio econômico de sua burguesia20. Se, por um lado, a compreensão da história do capitalismo no Brasil não pode prescindir da compreensão da história de São Paulo, como lembra a historiadora Circe Bittencourt21, por outro, essa falta de vinculação da história nacional ou global com as múltiplas realidades regionais resultou em problemas para a sala de aula. Os alunos geralmente têm dificuldade de entender fatos e processos históricos que, aos seus olhos, não têm nenhuma proximidade com sua vivência e seu cotidiano. Nessa perspectiva, foi nossa preocupação realizar um trabalho mais efetivo relacionando a diversidade das realidades regionais aos aspectos nacional ou global. Procuramos fazer essa articulação de diferentes maneiras. Na seleção do texto central, por exemplo, sempre que foi possível, mostramos as particularidades históricas e atuais das regiões que hoje constituem a nação brasileira22. Para a efetivação dessa tarefa, colaborou muito a incorporação de trabalhos de historiadores e pesquisadores de diversas regiões e instituições que têm se debruçado sobre temáticas regionais ou que relacionam o local com o nacional, por exemplo. Nossa intenção foi destacar estudos desenvolvidos pela historiografia brasileira nas últimas décadas, cuja qualidade requer que sejam incluídos em nossa produção didática23. Paralelamente, procuramos relacionar o nacional e o global com a realidade dos alunos e de sua comunidade também por meio de atividades. Acreditamos que esse tipo de trabalho ajuda a compreender, por exemplo, como processos de globalização interferem em nossas vidas e história, assim

como auxiliam na criação de sentimentos de pertencimento e identidade entre pessoas de uma mesma região. Sempre que possível, o professor deve buscar nas aulas estabelecer esse tipo de relação, sobretudo com base na experiência cotidiana do aluno, de modo a tornar o aprendizado mais próximo de sua realidade24. O trabalho específico de articulação da história regional com cultura material e imaterial, por sua vez, foi desenvolvido de forma pontual na seção Patrimônio e diversidade25. Tendo como ponto de partida alguma questão pertinente ao capítulo, procuramos mostrar, por meio dessa seção, o legado cultural de diferentes povos ou grupos que participaram do processo de formação da nação brasileira. Acreditamos que, inspirado na estrutura dessa seção, o professor tem condições de desenvolver outros trabalhos que destaquem a cultura regional. A importância dessa articulação pode ser verificada no trecho das Orientações curriculares para o Ensino Médio de História a seguir: A constituição do patrimônio cultural diverso e múltiplo e sua importância para a formação de uma memória social e nacional, sem exclusões e discriminações, são abordagens necessárias aos educandos. É necessário chamar a atenção dos alunos para os usos ideológicos a que a memória histórica está sujeita, que muitas vezes constituem “lugares de memória”, estabelecidos pela sociedade e pelos poderes constituídos, que escolhem o que deve ser preservado e relembrado e o que deve ser silenciado e “esquecido”. [...] A questão da memória ou da educação patrimonial associa-se à valorização da pluralidade cultural e ao questionamento da construção do patrimônio cultural pelos órgãos públicos, que, historicamente, vêm alijando a memória de grupos sociais (como os escravos ou operários) daquilo que se concebe como memória nacional. [...] Em educação patrimonial enfatiza-se a importância de a escola atuar para mapear e divulgar os bens culturais relacionados com o cotidiano dos diversos grupos, mesmo aqueles bens que ainda não foram reconhecidos pelos poderes instituídos e pelas culturas dominantes. Introduzir na sala de aula o debate sobre o significado de festas e monumentos comemorativos, de museus, arquivos e áreas preservadas permite a compreensão do papel da memória na vida da população, dos vínculos que cada geração estabelece com outras gerações, das raízes

20

Ver JANOTTI, Maria de Lourdes. Historiografia, uma questão regional? São Paulo no período republicano, um exemplo. In: SILVA, Marcos (Org.). República em migalhas: história regional e local. São Paulo: Marco Zero, 1990. p. 86.

21

Ver BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes. Ensino de História: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2004. p. 161-2.

22

Essa articulação encontra-se em toda a obra, mas é possível percebê-la, por exemplo, na abertura de diversos capítulos, nas quais procuramos focalizar vários aspectos regionais. Também nos desdobramentos de algumas temáticas, como, por exemplo, as chamadas Revoltas Emancipacionistas e Regenciais, procuramos ir além dos casos clássicos, destacando realidades geralmente ausentes de nossas salas de aula.

23

Após os diagnósticos feitos por pesquisadores, como Janotti (Op. cit., nota 21), nas décadas de 1980 e 1990, começaram a surgir alguns núcleos de estudos de História Regional e Local em instituições do país, resultando em processo de renovação historiográfica. Alguns, como o da Universidade Estadual de Ponta Grossa, contam inclusive com uma revista eletrônica: <www.revistas.uepg.br/index.php?journal=rhr&page=index>. Acesso em: 28 jan. 2013.

24

Sobre a atividade Sua comunidade, ver explicações no item 3 (Organização da obra) deste Manual.

25

Sobre a seção Patrimônio e diversidade, ver explicações no item 3 (Organização da obra) deste Manual.

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culturais e históricas que caracterizam a sociedade humana. Retirar os alunos da sala de aula e proporcionar-lhes o contato ativo e crítico com ruas, praças, edifícios públicos, festas e outras manifestações imateriais da cultura constituem excelente oportunidade para o desenvolvimento de uma aprendizagem significativa e crítica de preservação e manutenção da memória26.

A interdisciplinaridade e a experimentação Para que a educação garanta de fato o desenvolvimento das múltiplas dimensões do educando – cognitivas, sociais, políticas, afetivas, ética, etc. – é preciso também que o conhecimento seja trabalhado como múltiplo, como algo não compartimentalizado. Cada acontecimento, invenção, ideia, proposta política ou descoberta traz em si inúmeros interesses, informações, relações, e essas questões precisam ser evidenciadas e exploradas ao longo das aulas. Para ilustrar essa preposição vamos pensar no Renascimento iniciado no século XV (capítulo 26 do livro 1). Uma das maiores novidades da Arte do período foi a perspectiva, princípio pelo qual as pessoas e objetos passaram a ser apresentados em uma tela em suas posições e tamanhos proporcionais a partir de uma observação fixa (ver boxe da página 214, livro 1). Essa inovação da Arte só foi possível graças ao desenvolvimento de conhecimentos variados como a Matemática, a Física, etc. Outras descobertas científicas (como na área da Medicina) também influenciaram a produção de obras de arte no período e vice-versa (página 211 e 213 do livro 1, especificamente). As reflexões sobre temas como a exclusão social da mulher e da população negra, o papel de movimentos sociais, a análise da cidadania e participação política em diferentes momentos da História, entre outros, são ampliadas a partir da análise de gráficos, tabelas, imagens e outros dados e ferramentas fornecidos por outros saberes e campos científicos. No diálogo entre História e Economia, por exemplo, podemos pensar: “é possível desassociar a pobreza e violência das teorias e práticas econômicas?” (ver capítulo 20 do volume 3). O que queremos destacar é que conhecimento é plural. Mesmo que determinado acontecimento ou fato pareça estar ligado a uma área específica – como a Física, a Matemática, a História, a Medicina, por exemplo –, o conhecimento é resultado de diversas fontes e interesses inter-relacionados. É por isso que não podemos trabalhar as disciplinas escolares de forma estanque. Como afirma a linguista Karen Currie “as disciplinas são fios entrelaçados do mesmo tecido”.27 Foi esse dinamismo do conhecimento que procuramos ressaltar ao longo de toda a coleção. Por meio de textos, boxes, atividades, imagens, procuramos evidenciar esse entrelaçamento dos saberes. Além de o próprio texto estar

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repleto de referências aos saberes de diversas áreas, existem algumas seções nas quais procuramos evidenciar de forma bem concreta como se dá a interdisciplinaridade. No mundo das letras, por exemplo, é uma seção que usa a Literatura para discutir aspectos variados das sociedades como mentalidades, inovações, fatos políticos e sociais, etc. Já a seção Olho vivo utiliza os diversos componentes presentes em uma obra de arte – como a técnica, saberes matemáticos, etc. – para ajudar a compreender determinado momento histórico. Fechando a unidade, por sua vez, faz uso de diferentes gêneros textuais – quadrinhos, poesia, artigos –, além de gráficos, tabelas, fotografias, pinturas para refletir sobre o passado e o presente. A seção de atividades Diálogos que aparece no interior de alguns boxes também tem como finalidade evidenciar o “casamento” de diversas disciplinas. É também com o intuito de levar os alunos a perceberem na prática esse entrelaçamento entre o conhecimento que, ao longo da coleção, em diversos momentos, propomos atividades de experimentação como gravação de vídeo, elaboração de músicas, poesias, jornais, encenação teatral, pesquisa de opinião, entrevistas, etc.

Como “aprender”? Tendo em vista a perspectiva de construção do conhecimento histórico e a formação para a cidadania, procuramos delinear como os alunos poderão aprender e compreender fatos e processos históricos e, também, entender a realidade em que vivem. Sabemos que não existem receitas prontas ou infalíveis, mas acreditamos que um bom começo seja estimular os alunos a utilizar os saberes que já têm, contribuindo para o resgate de sua autoestima pedagógica e social. É importante tratá-los como pessoas que detêm conhecimentos sobre muitos assuntos e questões e dar a eles a oportunidade de se expressar sobre esses conhecimentos, expondo suas opiniões e seus valores. Acreditamos também ser importante realizar um trabalho no sentido de desenvolver a observação dos alunos em relação ao mundo em que vivem. Assim, eles poderão perceber que questões aparentemente simples de suas vidas ou de suas comunidades estão, muitas vezes, relacionadas com temas globais. Ao fazer isso, eles poderão identificar as relações sociais ao seu redor e relacioná-las (ou não) com as do passado. Essa atitude lhes servirá como ponto de partida para a compreensão tanto do presente como do passado. Para concretizar essa possibilidade, oferecemos textos e discussões sobre importantes questões relacionadas ao passado e ao mundo contemporâneo, pois, como afirma o historiador Eric Hobsbawm, “ser membro da comunidade humana é situar-se com relação a seu passado”28.

26

Extraído de: Conhecimentos de História. In: Orientações curriculares para o Ensino Médio. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/book_volume_03_internet.pdf. p. 78-79>. Acesso em: 4 dez. 2012. Um panorama sobre a evolução do conceito “patrimônio cultural” e suas implicações pode ser encontrado em: ORIÁ, Ricardo. Memória e ensino de História. In: BITTENCOURT, Circe (Org.). O saber histórico na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2006. p. 128-148.

27

CURRIE, Karen. Meio Ambiente – Interdisciplinaridade na Prática. São Paulo: Papirus, 2007.

28

HOBSBAWM, Eric. Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 22.

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Tão importante quanto oferecer aos alunos textos e informações, é encontrar estratégias que os tornem capazes de fazer uma leitura do passado e do presente e prepará-los para transpor esse conhecimento para novas situações. Para isso, acreditamos ser primordial o papel do(a) professor(a), profissional com formação em História e conhecedor(a) da realidade de seus alunos. Ele(a) deve desenvolver estratégias que sejam pertinentes e adequadas à sua realidade escolar. É ele(a) que “pode ensinar o aluno a adquirir as ferramentas de trabalho necessárias, o saber-fazer, o saber-fazer-bem, lançar os germes do histórico. Ele é o responsável por ensinar o aluno a captar e a valorizar a diversidade dos pontos de vista. Ao professor cabe ensinar o aluno a levantar problemas e a reintegrá-los num conjunto mais vasto de outros problemas, procurando transformar, em cada aula de história, temas em problemáticas”29. Para nós, o livro didático, assim como outros materiais e procedimentos, pode ser um importante apoio no trabalho do professor. Além de ser um depositário dos conteúdos históricos organizados sistematicamente, ele também pode auxiliá-lo na tarefa de desenvolver competências e habilidades essenciais para a formação dos alunos, como leitura e análise, retenção de informação, contextualização e interpretação de diversos tipos de fontes e testemunhos, tanto do passado quanto do presente, etc. Foi com base nessas premissas que elaboramos esta coleção. Buscamos oferecer textos e imagens de natureza diversa que possibilitem um trabalho consistente na compreensão da História e do presente. Entretanto, assim como no estudo de História não basta ao historiador ter evidências em mãos sem lhes fazer as perguntas corretas, não basta também colocar as informações e os documentos nas mãos dos alunos sem habilitá-los a lê-los e interpretá-los.

Atividades Além das estratégias utilizadas para trabalhar os conceitos das unidades, diversas outras foram pensadas com o objetivo de serem facilitadores no processo de aprendizagem dos alunos. Nesse contexto desenvolvemos as propostas das atividades desta coleção. Organizadas tanto pelo prisma cognitivo30 quanto pelo da formação básica de História, as atividades no interior dos capítulos são de natureza e objetivos variados31. Na atividade Sua comunidade, por exemplo, buscamos relacionar a discussão do conceito da unidade ou do tema do

capítulo à realidade local dos alunos. Sua opinião é outra atividade que, além de requerer que os alunos se posicionem sobre valores, crenças, polêmicas, etc., ainda trabalha o desenvolvimento da habilidade de argumentação. Para os alunos compreenderem que as imagens permitem diversas leituras e não são apenas uma “ilustração” do texto ou uma “cópia fiel” dos acontecimentos, temos a seção Olho vivo. Por meio dela, contextualizamos imagens de naturezas variadas – pinturas, monumentos, construções, estamparias, mapas, frisos, etc. – e explicamos detalhes ou simbologias importantes de sua confecção. Se na seção Olho vivo mostramos aos alunos que o trabalho de leitura de imagens é factível e apaixonante, na seção Interpretando documentos são eles que colocam em prática os conhecimentos adquiridos, fazendo a leitura e a interpretação de imagens e outros documentos. É também nessa seção que os alunos comparam documentos de naturezas semelhantes (como dois escritos) ou de naturezas diferentes (como um escrito e uma imagem). O trabalho de leitura de documentos também possibilita aos alunos assimilar e/ou reforçar as especificidades e conceitos próprios da História, como a de que um mesmo fato pode ter múltiplas interpretações, a transitoriedade do conhecimento histórico, etc. Na seção No mundo das letras procuramos indicar, por meio da literatura, o quanto é possível relacionar e articular as diversas áreas do conhecimento32. Assim como as obras literárias, os filmes e documentários sugeridos são um importante recurso para obter o envolvimento dos alunos com a História e para trabalhar com áreas afins. Embora todos os livros e filmes indicados sejam pertinentes à faixa etária de alunos do Ensino Médio, é importante que o(a) professor(a), antes de referendar tais indicações, veja se elas são adequadas à realidade ou ao perfil de sua classe, região e escola. O trabalho de integração da História com outras áreas do conhecimento foi uma preocupação constante na elaboração da obra e pode ser percebido também nas atividades nomeadas Diálogos. Foi também nossa preocupação criar caminhos para auxiliar o professor no desenvolvimento ou reforço de competências e habilidades dos alunos, como pesquisar, localizar informações no texto, organizar exposições, trabalhar a cultura material e imaterial, fazer leitura de mapas, etc. Enquanto algumas atividades foram elaboradas para serem resolvidas individualmente, estimulando assim a capacidade de concentração e autonomia dos estudantes, outras têm como

29

SCHMIDT, Maria Auxiliadora. A formação do professor de História e o cotidiano da sala de aula. In: BITTENCOURT, Circe (Org.). O saber histórico na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2006. p. 57.

30

De modo geral, a proposta cognitiva contida nas atividades desta coleção segue o caminho definido pela Matriz de Referência para o Enem 2012, a saber: levar o aluno do Ensino Médio a 1) Dominar linguagens; 2) Compreender fenômenos; 3) Enfrentar situações-problema; 4) Construir argumentação; 5) Elaborar propostas. Ver Matriz de Referência para o Enem 2012 no final deste Manual. Disponível em: <http://migre.me/d4x51>. Acesso em: 4 dez. 2012.

31

Sobre as atividades, ver o item 3 (Organização da obra) deste Manual.

32

Conforme observa o historiador Rafael Ruiz, o modelo narrativo nos permite conhecer tanto o ponto de vista do narrador quanto uma abordagem comparativa. O narrador, pelo fato de narrar, posiciona-se a partir de um ponto de vista, que fica explícito na própria narrativa. Ver: RUIZ, Rafael. Literatura: novas formas de abordar o ensino de História. In: KARNAL, Leandro (Org.). História na sala de aula: conceitos, propostas e práticas. São Paulo: Contexto, 2008. p. 91.

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proposta a elaboração de respostas em grupo, escritas ou orais. Dessa maneira, os alunos não só poderão desenvolver a capacidade de argumentação e raciocínio, mas também serão estimulados a trocar ideias, debater e respeitar a opinião do outro33.

3

Organização da obra

O quadro a seguir oferece uma visão da estrutura da obra com suas principais características.

Estrutura da obra

Como avaliar No universo escolar, a avaliação é um poderoso instrumento de diagnóstico do processo de aquisição do conhecimento por parte do educando e da relação didática estabelecida entre o professor e o aluno. Entendemos que a avaliação não se resume a provas nem pode ser vista como mero processo classificatório, com o intuito de identificar erros. Ao contrário, é um meio que permite ao professor avaliar o grau de amadurecimento intelectual e pedagógico dos alunos e os acertos e erros das estratégias didáticas utilizadas. Por essa razão, acreditamos ser primordial que os objetivos e critérios da avaliação sejam claros tanto para o professor quanto para os alunos. Considerando a organização da obra por unidades conceituais e nossa concepção de que o Ensino Médio deve contribuir efetivamente para a formação integral do aluno, apresentamos a seguir algumas propostas de avaliação contínua que podem servir como ponto de partida para que o professor organize um sistema de avaliação adequado à realidade de sua classe. a) Avaliação no início da unidade: essa avaliação pode fornecer informações ao professor sobre o nível de conhecimento dos alunos em relação ao conceito discutido naquela unidade. Sugerimos que, por meio da seção Começo de conversa, o professor faça uma análise das aptidões, conhecimentos e interesses dos alunos, já tendo em mente os objetivos que pretende alcançar com o grupo. b) Avaliação no decorrer da unidade: possibilita principalmente verificar o processo de aquisição de conhecimentos dos alunos, o desenvolvimento da capacidade de observar e interpretar criticamente a realidade, bem como a validação ou não das estratégias pedagógicas utilizadas pelo professor. Essa avaliação pode ser feita cotidianamente por meio da verificação da participação e do empenho dos alunos em trabalhos individuais ou coletivos, orais ou escritos, em pesquisas, debates, provas, etc. c) Avaliação ao final da unidade: tem como objetivos fazer um diagnóstico da capacidade que os alunos tiveram de assimilar os conhecimentos trabalhados ao longo da unidade, bem como de compreender o conceito estudado. No item Sugestões de avaliação/Atividades complementares, apresentamos algumas sugestões pontuais de avaliação, como exposições, seminários, provas, etc.

33

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Componentes Texto de abertura Atividade Começo de conversa Abertura de capítulo

Abertura de unidade

Texto central Boxes gerais Passado presente Texto central e Seções de texto

Eu também posso participar* Olho vivo Diversidade e patrimônio** Enquanto isso...

Unidade

Sugestões de filmes Glossário

Capítulos

Mundo virtual Diálogos Atividades no interior de boxes e de seções

Atividades no final do capítulo

Sua comunidade Sua opinião De olho no mundo Interpretando documentos No mundo das letras Organizando as ideias Hora de refletir

Fechamento de unidade

Atividade Fechando a unidade

* Nos capítulos de história geral. ** Nos capítulos de história do Brasil (livros 2 e 3).

Unidades conceituais Texto de abertura A ideia de pôr em prática um trabalho com conceitos pressupõe a valorização do conhecimento que os alunos possuem sobre a sociedade e sobre as relações sociais, econômicas, políticas, culturais e do cotidiano. Por meio

Em Orientações curriculares para o Ensino Médio encontram-se diversas propostas de estratégias que podem ser utilizadas pelo professor para levar o aluno a desenvolver habilidades próprias aos estudantes do Ensino Médio. Ver Conhecimentos de História. In: Orientações curriculares para o Ensino Médio. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/book_volume_03_internet.pdf. p. 80-84>. Acesso em: 4 dez. 2012.

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da mobilização de seu conhecimento prévio para a interpretação da realidade, mediada pela atuação do professor, esperamos que os alunos alcancem um nível de conhecimento adequado em relação aos conceitos históricos abordados. Cabe observar que o texto de abertura não é um resumo dos assuntos que os alunos estudarão nos capítulos. As aberturas têm por finalidade potencializar questões que os educandos, de modo geral, conhecem, mas sobre as quais provavelmente não refletiram de forma sistemática ou numa perspectiva histórica. Antes de iniciar uma nova unidade, o professor pode fazer um levantamento dos assuntos recentes no cotidiano da comunidade, bem como dos grandes temas em discussão no Brasil e no mundo, apresentando aos alunos exemplos relacionados ao conceito trabalhado. Isso pode ser feito por meio de notícias divulgadas pela imprensa ou por meio de músicas, poemas, textos de pensadores, etc. É interessante incentivar os alunos a apresentar outros exemplos. O trabalho em torno de cada conceito pode ser feito também por meio de pesquisas complementares, cujos resultados podem ser apresentados na forma de seminários, cartazes, peça de teatro, etc.

Começo de conversa No trabalho de mostrar aos alunos que parte do assunto discutido é de seu conhecimento, criamos, ao final de cada abertura de unidade, a seção Começo de conversa. Essa seção de atividades tem como objetivo trabalhar os saberes prévios dos alunos. Trata-se de um conjunto de questões que visa a sensibilizá-los para o conceito abordado, apoiando-se no conhecimento que eles já têm sobre o assunto34. Procuramos ver o “conhecimento prévio” como um repertório que faz parte da memória e inteligência de todos nós, independentemente da formação acadêmica, do grupo social ou econômico a que pertencemos. Esses conhecimentos são adquiridos por meio da convivência familiar, do contato com amigos e grupos de convívio, de novelas, jornais, filmes, etc. Para não incorrer em perguntas que se resumam ao mero “você conhece ou já ouviu falar...”, buscamos situações do cotidiano ou do mundo contemporâneo que ligassem a realidade dos alunos ao conceito trabalhado. Vale lembrar que as perguntas elaboradas devem servir apenas de indicadores e, de acordo com a realidade da classe ou, por exemplo, das discussões do momento na mídia, o professor pode alterá-las. Por se tratar de um instrumento para verificar o conhecimento prévio dos alunos sobre determinada situação ou determinado conceito, as respostas às perguntas dessa seção não devem ser encaradas sob o prisma do “certo ou errado”. Mas também por ter essa característica (de ser um avaliador do conhecimento do aluno), elas podem ser um valioso instrumento de avaliação dos alunos ao se comparar o conhecimento inicial que detinham com as respostas das atividades da seção Fechando a unidade que veremos a seguir.

34

Fechando a unidade Ao término de cada unidade criamos a seção Fechando a unidade, na qual, por meio da leitura e interpretação de documentos, propomos aos alunos emitir opiniões e elaborar de forma mais sistematizada suas ideias a respeito do conceito trabalhado, assim como ir além daquilo que foi discutido inicialmente. Desse modo, requer-se dos alunos que sintetizem, a partir de discussões centradas no presente, as principais questões conceituais da unidade. Foi nossa preocupação oferecer nessa atividade documentos com as mais variadas linguagens – letras de músicas, textos teóricos, charges, histórias em quadrinhos, poemas, imagens, gráficos, mapas, artigos de jornais, trechos de romances, etc. –, para mostrar aos alunos que muitos tipos de meios e linguagens contêm registros de nossa realidade, possibilitando sua leitura.

Estrutura dos capítulos Aberturas Em geral, a abertura dos capítulos apoia-se em algum fato ou acontecimento contemporâneo e o relaciona com o conteúdo do capítulo. Seu objetivo principal é sensibilizar os alunos para o texto que irão ler em seguida. É possível substituir o tema que apresentamos por outro que esteja presente na mídia ou no cotidiano local e, na sequência, vinculá-lo ao conteúdo do capítulo.

Texto central Partindo do currículo básico de História exigido para o nível médio, procuramos elaborar um texto com linguagem fluente, clara e objetiva, cuidando para atender à capacidade cognitiva da faixa etária dos alunos e para não incorrer na simplificação das ideias. E sempre que foi possível, procuramos mostrar como ocorre a construção do saber histórico.

Boxes gerais Ainda que tenhamos nos preocupado em garantir o currículo mínimo no texto central, os boxes são de extrema importância dentro da estrutura da obra, pois apresentam informações que complementam o texto central. Por isso, é fundamental que os alunos leiam atentamente seu conteúdo, extraindo as ideias principais apresentadas. Os boxes contêm textos tanto de nossa autoria como de historiadores, filósofos, literatos, artigos de revistas ou jornais, bem como outros documentos. É importante orientar os alunos para que percebam as diferenças entre essas variadas fontes, assim como observem sempre quais delas são fontes primárias e quais são secundárias. É recomendável ainda solicitar aos alunos que identifiquem as ideias principais e anotem no caderno palavras ou expressões-chave para, em seguida, definir seus significados.

Ver, por exemplo, o texto de abertura e o Começo de conversa das unidades III, IV e V deste volume.

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Os boxes gerais dividem-se entre os que não são acompanhados de créditos (com informações gerais) e aqueles nos quais trabalhamos informações retiradas pontualmente de documentos, livros, teses, revistas, jornais, sites e outras fontes. Os créditos atribuídos a estes últimos podem ser de três naturezas diferentes: Extraído de: quando reproduzimos de forma ipsis literis textos de outros autores; Adaptado de: quando fazemos algumas alterações no texto de outros autores, de modo a tornar a linguagem adequada aos alunos; Fontes: quando os textos são de nossa autoria, mas elaborados a partir de obras específicas que nos serviram de referência. De modo geral, esses boxes foram criados para destacar alguma questão do texto central. Sempre que possível, convém reforçar essas diferenças de autoria para que os alunos habituem-se a observar preceitos básicos de leitura de texto, como o “quem fala” em cada documento.

Passado

Presente

Essa seção tem como objetivo chamar a atenção para permanências e rupturas históricas em questões variadas suscitadas pelo texto central. Aparece em vários capítulos e aborda temas discutidos hoje, tais como: prós e contras de energias alternativas, como o etanol; debate sobre os transgênicos, entre outras questões do mundo contemporâneo.

Eu também

posso participar

Hoje é inegável a ameaça que paira sobre a existência do planeta, provocada tanto pela questão ambiental quanto pelos riscos decorrentes da convivência belicosa entre os povos. Diversas pesquisas revelam que essa situação tem se tornado cada vez mais um foco de preocupação da população mundial e brasileira35. Diante dos riscos à sobrevivência do ser humano, assim como do próprio planeta, os alunos têm manifestado de diversas formas certa apreensão, quer seja na sala de aula, quer seja em seu cotidiano. A tomada de consciência tem trazido em muitos o desejo de “fazer algo” para a preservação da vida no planeta e para melhorar as relações entre os seres humanos, o que revela a capacidade de perceber o quanto todos nós fazemos parte e podemos interferir no mundo em que vivemos. A seção Eu também posso participar nasceu justamente para reforçar a importância que cada um tem no processo global, ou seja, alertar a consciência cidadã dos alunos de modo a se perceberem como agentes históricos que têm condições, de diversas formas, de alterar a realidade que o cerca. Visto sob a perspectiva dos PCN, os temas dessa seção se adequam aos Temas Transversais. Sobre a relação Temas Transversais e sala de aula, justifica o historiador José Alves de Freitas Neto:

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Os temas transversais não devem ser vistos como opositores dos saberes considerados clássicos, mas necessidades e questões do presente, de grande importância, que não podem ser ignorados pelos educadores. Se o mundo, a família, os modelos mudaram, faz-se necessário uma nova prática escolar, que atualize e valorize a própria escola e os que nela estão. Considerar as questões trazidas pelas crianças e jovens dos ensinos fundamental e médio, como questões menores, significa reduzir suas preocupações e sua própria existência. O mundo deles e o nosso têm questões que não são menores do que as apresentadas em outras épocas por outros pensadores. São diferentes. Não permitir que os temas do cotidiano se façam presentes em sala de aula em detrimento dos grandes feitos do passado é ignorar a angústia dos alunos e educar com o olho voltado para trás, com um saudosismo injustificado que significa dizer que as questões de outras gerações foram mais importantes do que as da atualidade36. Amparados nessa perspectiva, procuramos historicizar diversos problemas do mundo contemporâneo, terminando sempre com propostas concretas de participação dos alunos no sentido de resolver ou minimizar aquele problema. Da invenção do papel pelas sociedades da Antiguidade, por exemplo, chega-se à importância da reciclagem do papel nos diais de hoje (ver capítulo 6 do livro 1). Economia de água, desperdício de alimentos, preservação de patrimônio público, intolerância e muitos outros temas são abordados ao longo de toda a coleção.

Olho vivo

O trabalho com esta seção deve levar o aluno a perceber que as imagens são resultado de seu tempo e estão, portanto, condicionadas à evolução técnica e científica das sociedades que as produziram (ver, por exemplo, a seção Olho vivo dos capítulos 3 e 20 deste volume). Na seção Olho vivo, procuramos mostrar, entre outras coisas, o caráter ideológico da produção de obras imagéticas. Ao estudá-la, os alunos terão recursos para compreender como imagens aparentemente “neutras” podem transmitir valores, ideologias, convencer pessoas, consolidar estereótipos, etc.37 Finalmente, para que o trabalho de leitura e interpretação de imagens seja consolidado, é fundamental um exercício constante em sala de aula. Para isso, sugerimos alguns procedimentos específicos, como: • orientar os alunos a observar sempre a técnica empregada na produção do registro visual em questão; • pedir a eles uma descrição minuciosa da imagem, incentivando-os a observar detalhes como enquadramento, ponto de vista, plano e outros que poderiam passar despercebidos em uma leitura menos atenta; • estimulá-los a fazer uma interpretação do objeto analisado, a considerar seu valor enquanto testemunho de uma época e a emitir comentários com sua impressão sobre ele.

35

Uma pesquisa realizada em 47 países em 2007 constatou que, em países como o Brasil, a preocupação da população com, por exemplo, o aquecimento global mais do que triplicou. Ver matéria Preocupação com clima cresce mais no Brasil que no mundo, diz estudo. Disponível em: <www.bbc.co.uk/portuguese/ reporterbbc/story/2007/06/070605_nielsenaquecimentoebc.shtml>. Acesso em: 4 dez. 2012.

36

FREITAS NETO, José Alves de. A transversalidade e a renovação no ensino de História. In: KARNAL, Leandro (Org.). História na sala de aula: conceitos, práticas e propostas. São Paulo: Contexto, 2008. p. 64-65.

37

Ver, por exemplo, a seção Olho vivo dos capítulos 26 e 30, p. 216-217 e 256 deste volume.

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Patrimônio e diversidade Nessa seção, que deve aparecer apenas nos volumes 2 e 3 desta coleção, mapeamos algumas das riquezas culturais dos estados brasileiros, buscando sempre ressaltar seu vínculo com o conteúdo histórico formal. Nossa intenção foi chamar a atenção do aluno para o fato de que muitas das construções arquitetônicas (cultura material) e práticas cotidianas encontradas no território brasileiro, como comida, dança, música, modos de produção de determinado artesanato ou artigo (cultura imaterial), fazem parte da história nacional. Também buscamos dar ênfase principalmente às experiências sociais de grupos cuja cultura, ao longo da História, foi alijada do conceito de Patrimônio Cultural, como é o caso dos afrodescendentes, indígenas, mulheres pobres, sertanejos, entre outros.

Enquanto ¡sso... Seção que tem por objetivo trabalhar a simultaneidade. Os assuntos nela registrados em geral não se relacionam ao tema central do capítulo. Outra contribuição dessa seção é a possibilidade de abordar povos, processos, invenções e descobertas que geralmente são excluídos do cotidiano escolar, mas que nem por isso são menos importantes38. Longe de reduzir os temas e as questões abordados ao aspecto da “curiosidade”, essa seção proporciona ao professor instrumentos para trabalhar com os alunos o fato de não existir uma história linear e única para a humanidade.

Filmes e livros Oferecemos, na forma de hipertexto, sugestões de filmes, romances e histórias em quadrinhos relacionados ao assunto abordado no respectivo capítulo. Optamos por colocar essas indicações junto ao texto principal por acreditar que, dessa forma, os alunos se sentirão motivados a entrar em contato com a “leitura de mundo” que outras áreas do saber fazem dos acontecimentos históricos. O cinema pode ser um importante instrumento para a compreensão de determinados eventos ou acontecimentos históricos. Entretanto, os alunos precisam ser frequentemente alertados a perceber que, por mais realistas que aparentem ser, os filmes constituem representações da realidade e, como tal, transmitem valores ideológicos, políticos, sociais e culturais de quem os produziu. Como afirma o historiador Marc Ferro, é necessário cautela ao analisar um filme: principalmente a narrativa, o cenário, o texto, as relações do filme com o que não é filme: o autor, a produção, o público, a crítica, o regime. Pode-se assim esperar compreender não somente a obra como também a realidade que representa39. Assim, é recomendável orientar os alunos a buscarem informações básicas sobre um filme antes de assistir a ele: quem

é o diretor; se os personagens retratados são verídicos; se existem críticas quanto à fidelidade historiográfica; se existem abordagens diferentes da que é apresentada pelo filme. Além disso, antes de assistir a algum dos filmes indicados nesta obra, é importante que o professor verifique se eles são adequados à realidade ou ao perfil de sua classe, região e escola. Se for fazer uma exibição, o professor pode orientar a sua turma a prestar atenção a determinadas passagens do filme que deseja ressaltar. Ao término da exibição é interessante propor aos alunos que emitam opiniões sobre a obra. Peça que comparem informações apresentadas pelo filme com seus conhecimentos. Dessa maneira, eles estarão aguçando a capacidade de olhar criticamente filmes de conteúdos históricos40. Mundo virtual: oferecemos nesta seção uma seleção de links para sites cujos conteúdos estão relacionados a alguma questão abordada no capítulo. Por meio dessas páginas é possível ampliar as informações encontradas no livro didático. Fizemos uma seleção criteriosa, tendo como principal preocupação sugerir ao aluno, preferencialmente, sites desenvolvidos por universidades, instituições públicas, organizações não governamentais, etc. Procuramos, sempre que possível, apresentar sites em língua portuguesa e cujos conteúdos sejam acessíveis aos alunos de Ensino Médio. Porém, em alguns momentos, diante da qualidade do material encontrado, indicamos sites estrangeiros; quando isso acontece, informamos o idioma daquelas páginas. Sites cujos conteúdos são mais complexos encontram-se indicados no Manual do Professor, ao final dos procedimentos pedagógicos de cada capítulo. Sugerimos que o professor avalie a pertinência de apresentar estes sites para seus alunos.

Atividades no interior dos boxes As atividades dos boxes podem ser feitas individualmente ou em grupo. Elas estão divididas em quatro categorias descritas a seguir.

• Sua comunidade Por meio dessa atividade, pretendemos valorizar a história e a realidade da comunidade em que o aluno vive. Além disso, como explicamos anteriormente, essa proposta tem também por objetivo demonstrar ao aluno que muitos aspectos da sua comunidade ou região estão diretamente relacionados a questões mais globais. Essa seção possibilita ao professor incentivar os alunos a desenvolver outras relações entre a história local e a nacional e/ou global (dimensão micro e dimensão macro) ao longo do curso.

• Sua opinião Nessa atividade, não se espera que os alunos forneçam uma “resposta correta”. O objetivo é valorizar o conhecimento ou a opinião que ele tem sobre determinado as-

38

Ver, por exemplo, a seção Enquanto isso... dos capítulos 7, 12, 16, 17 e 19.

39

Citado em ROCHA, Antonio Penalves. O filme: um recurso didático no ensino de História? São Paulo: FDE. Diretoria Técnica, 1993. p. 17 (Série Lições com o cinema, no 2).

40

Sobre o uso da Literatura, ver o item No mundo das letras, na página seguinte.

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sunto e dar-lhe voz. Ao mesmo tempo, procuramos instigá-lo a formular hipóteses e a refletir criticamente sobre temas importantes, como ética e cidadania. Pode ser uma excelente oportunidade para incentivar os alunos a participar da aula. Mas é importante solicitar a eles que elaborem conceitualmente suas ideias para que o debate não se limite ao “achismo”.

• Diálogos Essa atividade, que em boa parte das vezes envolve pesquisas e consolidação de informações, tem o propósito de sugerir que o conhecimento não deve ser encarado de forma compartimentada. Espera-se que os alunos percebam que o conhecimento está vinculado às várias áreas do saber. Por isso, as atividades aqui propostas envolvem pesquisas com outras disciplinas, como Literatura, Química, Biologia.

• De olho no mundo É mais uma estratégia para os alunos aprofundarem o conhecimento sobre questões relacionadas ao presente. Pretende-se aqui que eles aprimorem sua capacidade de elaborar pesquisas e expor o resultado a que chegaram de forma objetiva, por meio de relatório, apresentação oral, dramatização, exposição, etc.

Atividades situadas ao final dos capítulos Interpretando DOCUMENTOS Essa atividade se alterna no final dos capítulos com a seção No mundo das letras. É por meio dela que procuramos trabalhar uma das questões centrais dos estudos históricos, que é a leitura e interpretação de documentos. Utilizando documentos extremamente variados procuramos desenvolver nos alunos a capacidade de reconhecer a natureza das fontes históricas e o papel das diferentes linguagens. Além das orientações específicas apresentadas em cada uma dessas atividades, é sempre possível incentivar os alunos a buscar respostas para perguntas, como: Qual a natureza do documento? Quem o produziu? Quando? Com que objetivo? Como chegou até nós? Qual a questão central do documento? Que tipo de mensagem seu autor quer transmitir? Que leitura você faz desse texto? Em sua opinião, existe algo que esteja subentendido na leitura do documento? Como ele nos permite conhecer o passado? No caso de documentos textuais é recomendável ainda orientar os alunos a identificar as ideias principais e anotar no caderno palavras ou expressões-chave e, em seguida, definir seus significados.

No mundo DaS lETraS Por meio de trechos de narrativa literária, orientamos os alunos a aprofundar aspectos históricos abordados no capítulo e refletir sobre eles, além de estabelecer relações com outras áreas do conhecimento. A esse trabalho podem ser atri-

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buídos outros significados se o professor desenvolver uma parceria com a disciplina de Língua Portuguesa ou Literatura, por exemplo, ou ainda incentivar a leitura completa da obra. Foi nossa preocupação apresentar textos clássicos, de autores consagrados da literatura mundial e nacional, assim como de autores contemporâneos.

Organizando aS iDEiaS Essa seção é apresentada em todos os capítulos. São atividades de verificação de leitura, compostas geralmente de oito perguntas. De modo geral, essas atividades permitem ao aluno desenvolver competências de interpretação de texto, localização e sistematização de informações, elaboração de textos mais sintéticos e objetivos, memorização, etc.

Hora DE rEFlETir Inserida no final de alguns capítulos, essa seção trabalha os vínculos existentes entre o conceito da unidade, o texto do capítulo e questões do presente, como formação cidadã e direitos humanos. Também tem como objetivo levar o aluno a questionar valores, rever posições de forma responsável e coerente. Assim, relacionamos questões específicas do capítulo com o conceito abordado na unidade para, na sequência, propor aos alunos analisar sua própria realidade ou formular hipóteses, rever valores e posições41. Nessa seção, algumas vezes também são empregados gráficos e tabelas, para que os alunos exercitem a leitura e a análise desse tipo de linguagem.

Considerações gerais Como foi dito anteriormente, essa coleção procura desenvolver atividades de naturezas variadas. No entanto, é importante observar que, em todos os casos propostos ao longo da obra, cabe ao professor avaliar se as atividades são adequadas à sua turma, se necessitam ser adaptadas ou, até mesmo, se não é o caso de dispensar algumas delas. Igualmente importante é fazer um trabalho contínuo no sentido de estimular os alunos a deixarem sempre uma marca pessoal em suas respostas. Assim, eles acabarão desenvolvendo a capacidade de reflexão crítica, entre outras competências. Muitas das atividades sugeridas exigem dos alunos a elaboração de respostas complexas, na forma de relatórios ou dissertações. Nesses casos, acreditamos ser importante orientá-los a criar previamente um roteiro, no qual identifiquem o que pretendem abordar na introdução, no desenvolvimento e na conclusão do texto. Da mesma forma, nas atividades que envolvem pesquisa de campo, é importante orientar os alunos a elaborar um roteiro prévio que contemple os acervos a serem pesquisados e os temas centrais da pesquisa. Em casos de depoimentos orais, eles devem ser orientados a respeito dos critérios que serão utilizados para a escolha dos entrevistados e quais perguntas serão formuladas. Pensamos ser fundamental tam-

Ver, por exemplo, Hora de refletir dos capítulos 4, 6, 7 e 14 deste volume.

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bém que seja ressaltado aos alunos a importância da bibliografia em suas pesquisas, elaborada de forma correta e citando as fontes utilizadas. Com relação às atividades interdisciplinares, quando for necessário o auxílio de outros colegas é recomendável que o professor discuta as propostas com os professores das disciplinas envolvidas e, só depois, coloque-as em prática. Embora saibamos que a exclusão digital atinge boa parte da população brasileira, não podemos ignorar o fato de que muitos alunos utilizam a internet como fonte para suas pesquisas. Entendemos que ela é apenas mais um entre os múltiplos recursos de pesquisa disponíveis e, portanto, seu uso não deve ser desestimulado. A nosso ver, a questão central no uso da internet pelos alunos é que eles saibam utilizá-la com senso crítico. Eles podem, por exemplo, aprender em quais sites buscar uma informação, pois, se por um lado o volume de informações disponível na internet é gigantesco, por outro, é também imenso o número de informações incorretas, imprecisas ou até mesmo falsas. Dessa forma, procure orientá-los a pesquisar nos chamados “sites confiáveis”, ou seja, aqueles que contam com a chancela de universidades públicas, organizações não governamentais respeitadas, instituições conceituadas, etc. É fundamental que os alunos tenham consciência de que a pesquisa na internet não dispensa a consulta em outros acervos (como bibliotecas, centros de memória, arquivos públicos, etc.) e fontes (como livros de autores especializados, documentos, jornais).

• objetivo(s) dos capítulos; • conteúdos e procedimentos; • textos complementares; • sugestões de leitura;

Procedimentos pedagógicos

Sabemos que há diversos caminhos que podem ser percorridos para se ter uma aula de qualidade. Mas isso também depende de alguns fatores, como a atualização do professor, o material didático utilizado, o perfil da classe, entre outros. É por essa razão que, às vezes, uma dinâmica ou um caminho tem bons resultados com uma turma, mas não com outra. Assim, nos Procedimentos pedagógicos abordados neste Manual, não temos como objetivo fornecer receitas de como ministrar uma aula, mas, sim, indicar caminhos ou metodologias que possam ser úteis para o melhor aproveitamento do conteúdo de cada livro com os alunos. Conforme mencionamos anteriormente, o papel do professor como mediador do conhecimento é insubstituível, e este Manual é apenas mais uma das ferramentas de que ele dispõe para planejar suas aulas. Entre as orientações gerais, sugerimos que, ao finalizar o trabalho de um capítulo, o professor recomende aos alunos que leiam em casa o capítulo subsequente para tomarem conhecimento do assunto a ser tratado na aula seguinte. Com relação às atividades, há várias estratégias propostas para sua realização, tanto em classe (individual e em grupo) quanto em casa. Vale ressaltar que, neste último caso, consideramos importante que sejam corrigidas na aula subsequente para esclarecer eventuais dúvidas ou verificar dificuldades dos alunos.

• sugestões de respostas das atividades; • no final do item 5, oito sugestões de avaliação/atividades complementares que podem ser realizadas ao longo do ano.

Sugestões de respostas das atividades Unidade

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Após as orientações sugeridas para trabalhar o conteúdo de cada capítulo, seguem-se as orientações de respostas para as atividades de cada capítulo. Salientamos, porém, que o professor não deve tomá-las como uma verdade única a ser alcançada, mas, sim, como mais uma possibilidade de compreensão do tema estudado. Nas orientações sugeridas de alguns capítulos incluímos textos complementares e indicações bibliográficas. Esperamos que esse material auxilie o professor a aprofundar discussões ou aspectos abordados no capítulo. Como mencionamos anteriormente neste Manual, consideramos a avaliação um instrumento precioso para diagnosticar o processo de aquisição do conhecimento. Por essa razão, ela deve ser contínua. Entretanto, isso não deve ser um obstáculo para que propostas específicas de avaliação sejam desenvolvidas, como a produção de exposições, linha do tempo, dramatizações, provas, etc. Para cada livro apresentamos um total de oito sugestões de avaliação, que são de naturezas variadas e podem ser aplicadas independentemente de o ano letivo ser dividido por bimestres ou trimestres. Assim, esperamos que cada vez mais o processo de avaliação seja visto como uma possibilidade de diagnosticar as potencialidades dos alunos e da dinâmica desenvolvida com a classe. Em linhas gerais, nas próximas páginas, o professor terá à sua disposição:

1

A força do conhecimento e da criatividade

Começo de conversa 1. A força criativa do ser humano se manifesta nos mais corriqueiros gestos e nas mínimas ações do cotidiano. É importante que o aluno perceba que a criatividade não é um “dom” de artistas e inventores, mas uma qualidade humana. Somos criativos ao escolher as roupas que usamos, ao conversar com as pessoas, ao solucionar problemas de maneiras diferentes, ao mudar o caminho que fazemos entre a escola e a casa, ao inventarmos uma história, ao respondermos a uma questão apresentada. É a criatividade individual e coletiva que tem permitido aos seres humanos construir um mundo tão vasto, complexo e diversificado – pois cada indivíduo encontra uma maneira própria para enfrentar os

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desafios impostos pela natureza e pelo ambiente social. Professor, você pode solicitar aos alunos que relatem oralmente uma situação na qual eles se sentiram criativos. Depois, poderá ser oportuno identificar também as situações mais corriqueiras, nas quais, em geral, não se percebe a intervenção da criatividade. 2. Resposta pessoal. O objetivo desta questão é estimular no aluno uma reflexão sobre a importância da acumulação de conhecimentos pela humanidade. Professor, nem sempre os alunos compreendem que as sociedades são fruto dessa experiência acumulada. Dessa forma, você pode introduzir a questão com base em exemplos próximos ao universo deles: a caneta ou o lápis que eles têm nas mãos, por exemplo, são resultado de conhecimentos acumulados sobre os diversos tipos de materiais que constituem esses objetos (plástico, tinta, grafite, metal, etc.), sobre a forma e o tamanho mais adequados para a finalidade proposta, etc. Os meios de transporte atuais também resultaram de milhares de experiências. Eles existem graças a uma infinidade de tecnologias integradas (que envolvem o uso da microeletrônica, o domínio da aerodinâmica, conhecimentos sobre a fundição do ferro e a fabricação do aço, etc.). A qualidade da roupa que usamos, em geral, adequada a diferentes temperaturas e ambientes, também corresponde ao somatório de conhecimentos sobre o uso de tecidos naturais e sintéticos, etc. É importante que o aluno entenda que o conhecimento humano não é privilégio de cientistas e doutores, mas corresponde a um conjunto de saberes, práticas e valores partilhados socialmente. Mesmo que existam especializações profissionais, todos nós podemos ter acesso a esses conhecimentos.

Capítulo 1

África, berço da humanidade Conteúdos e procedimentos sugeridos42 Ao iniciar a aula, é interessante chamar a atenção dos alunos para a noção de tempo. Observe que este capítulo abrange um período de tempo da história da humanidade que é bem maior do que o abordado em todo o restante do livro. Nele falamos em milhões de anos (não em milhares), ao longo dos quais alguns hominídeos acabaram extintos, enquanto outros se preservaram e foram aprendendo a dominar a natureza, tarefa que certamente exigiu criatividade e acumulação de conhecimento, conceitos centrais da unidade. Ao longo dos textos, vários hominídeos são citados. Sugerimos, porém, que não seja exigido dos alunos o domínio de todos os nomes (Homo habilis, Homo erectus, Homo neanderthalensis e Homo sapiens são os principais)43. O importante é

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perceberem que não houve uma sucessão linear na evolução e que gêneros e espécies distintas coexistiram. Para os alunos, o estudo da “Pré-História” pode despertar grande interesse, atraindo-os pela curiosidade de conhecer as possíveis origens da humanidade, assim como saber as soluções que nossos ancestrais encontraram para superar as condições adversas. A ideia de superação, porém, não deve ser pensada do ponto de vista de uma suposta superioridade, tanto do ser humano atual em relação ao pré-histórico, quanto na relação dele com a natureza. A “Pré-História” é a longa história da relação do ser humano com a natureza enquanto ele não tinha, praticamente, nenhum domínio sobre ela. Na seção Olho vivo, é interessante explorar como são obtidas as informações a respeito do período, considerando o trabalho das várias ciências com as fontes não escritas. A Paleontologia e a Paleoantropologia, por exemplo, ao investigar os fósseis, oferecem novas informações sobre a Pré-História, o que leva a uma constante revisão das concepções que se tem sobre esse período. Ao abordar o Homo sapiens, é interessante ressaltar como os laços de solidariedade foram muitas vezes essenciais para sua sobrevivência. Nesse momento, uma discussão sobre o individualismo e a solidariedade coletiva no mundo atual pode ser oportuna. Por fim, para discutir o conceito de História, pode-se pedir aos alunos que imaginem como seria o mundo sem o domínio do fogo ou sem a roda. Verifique se percebem que, sem este último, os meios de transporte, por exemplo, seriam muito limitados, assim como uma série de invenções mecânicas provavelmente nem existiriam. Como ressalta o historiador africano Joseph Ki-Zerbo, na obra Para quando a África?, é muito limitado usar a escrita como marco inicial da história, já que tantas invenções anteriores foram fundamentais para a sobrevivência e desenvolvimento da humanidade (Ki-Zerbo, Joseph. Para quando a África? – Entrevista com René Holenstein. Rio de Janeiro: Pallas, 2006. p. 15). O tema da unidade A força do conhecimento e da criatividade propõe uma reflexão sobre as diferentes formas de organizar a produção humana ao longo da História.

Organizando aS iDEiaS 1. É preciso ver com ressalvas o conceito de “Pré-História” porque o registro escrito não é o único tipo de documento que nos permite compreender as sociedades antigas. As pesquisas atuais sobre história têm utilizado imagens (pinturas, fotografias, desenhos, etc.), objetos do cotidiano (como ferramentas e utensílios domésticos) e relatos orais (transmitidos de uma geração para outra em diversas comunidades). Além disso, alguns avanços tecnológicos nos permitem reconstruir rostos humanos pela análi-

42

Por razões metodológicas, sugerimos que os alunos sejam orientados a fazer a leitura do capítulo antes da aula. Como sugerem Jaime Pinsky e Carla Bassanezi Pinsky,“só se debatem ideias que antes as temos”. Ver: PINSKY, Jaime; PINSKY, Carla Bassanezi. Por uma história prazerosa e consequente. In: KARNAL, Leandro (Org.). História na sala de aula: conceitos, práticas e propostas. São Paulo: Contexto, 2003. p. 35.

43

Os alunos provavelmente aprenderão a lidar com a taxonomia (identificação e classificação dos organismos) nas aulas de Biologia. Mas, se considerar apropriado, observe com eles as diferenças entre família, gênero e espécie. Todos os nomes citados no texto são da família dos hominídeos, que se subdividem em vários gêneros, como Australopithecus e Homo, que, por sua vez, se subdividem em diversas espécies, como Homo afarensis e Homo sapiens, por exemplo.

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se do DNA, ou identificar com bastante precisão a idade dos fósseis. 2. Atualmente, diversos grupos indígenas no Brasil e de aborígines da Austrália não utilizam nenhum tipo de sinal gráfico para representar palavras. Professor, ressalte ainda que a ausência de escrita não representa “atraso” ou ignorância, mas tipos específicos de organização social. Embora fundamental para o desenvolvimento de sociedades como a nossa, a escrita não é essencial aos grupos humanos cujos conhecimentos e tradições são transmitidos oralmente. 3. Segundo a ciência, os primeiros primatas surgiram há cerca de 60 milhões de anos. Desse grupo, além do gorila, do chimpanzé e do orangotango, teriam se originado também os primeiros hominídeos. O hominídeo mais antigo encontrado até agora é o Ardiphitecus kadabba, que habitou a África há cerca de 5,8 milhões de anos. Entre 4,2 milhões e 1 milhão de anos atrás, várias espécies de hominídeos do gênero Australopithecus coexistiam na África. Há cerca de 2 milhões de anos, uma dessas espécies originou um novo grupo, chamado de Homo. As diversas evoluções do gênero Homo teriam levado ao surgimento da nossa espécie, o Homo sapiens sapiens, por volta de 195 mil anos atrás. Entretanto, no atual estágio de conhecimento científico há muitas dúvidas e suposições sobre a origem da humanidade. Não se sabe exatamente quando e por que essas mudanças ocorreram dando origem à nossa espécie. Entretanto, sabe-se que foram necessários milhões de anos para que alterações na constituição física do corpo e nas práticas culturais levassem à formação do Homo sapiens moderno. 4. O Homo habilis, a espécie mais antiga de Homo, surgiu do gênero australopiteco há cerca de 2 milhões de anos. O Homo habilis tinha cerca de 1,57 m de altura, pouco mais de 50 quilos e um cérebro de até 800 cm³; apesar de pequeno e frágil, sua capacidade de adaptação cultural e social pode ter contribuído para seu desenvolvimento. Pesquisas recentes mostram que o Homo habilis conviveu por centenas de milhares de anos com outro hominídeo, o Homo erectus, que apareceu na África por volta de 1,8 milhão de anos atrás. Para os cientistas, essas duas espécies podem ter tido um ancestral comum. O Homo erectus chegava a medir até 1,80 m e seu cérebro podia atingir 1250 cm³; sua arcada dentária era saliente e o rosto, largo. O Homo erectus tinha uma elevada capacidade mental, andava em bandos de vinte a trinta indivíduos, fabricava utensílios, construía cabanas, dominava o fogo e organizava a caça entre os membros do grupo. Foi o primeiro hominídeo a emigrar do continente africano em direção à Ásia e depois à Europa. Acredita-se que tenha desaparecido há cerca de 300 mil anos. Já o Homo neanderthalensis conviveu durante alguns milhares de anos com o Homo sapiens sapiens e desapareceu há aproximadamente 30 mil anos. Ele era a espécie mais semelhante à nossa, embora com indivíduos com estrutura óssea mais pesada e feições mais primitivas. 5. Atualmente, centenas de pesquisadores trabalham em diversas regiões do planeta à procura de vestígios como ossos, restos de fogueiras, ferramentas, pontas de flechas, etc. Toda nova descoberta nessa área contribui para

ampliar o conhecimento sobre nossos ancestrais remotos, reconstituindo a árvore genealógica da espécie humana. Professor, você pode observar que se trata de um trabalho internacional e coletivo, no qual cada descoberta precisa ser compartilhada com a comunidade de cientistas do mundo inteiro. Uma nova informação só pode ter utilidade se for comunicada e discutida com outros pesquisadores. Finalmente, pode-se utilizar a imagem de um quebra-cabeça, no qual cada peça significa uma nova descoberta, um fóssil encontrado ou um vestígio pesquisado e analisado. O quebra-cabeça finalmente montado revelará, em um futuro próximo ou longínquo, a história da evolução humana.

Interpretando DOCUMENTOS 1. O objetivo desta atividade é possibilitar ao aluno uma reflexão sobre diferentes formas de representação da História. As duas imagens são muito recorrentes nos estudos sobre a chamada “Pré-História”. A imagem 1 representa a evolução da espécie humana de forma linear, como se ela fosse resultado de uma evolução contínua e sem tropeços a partir de uma única linhagem de ancestrais, e com base em certas características físicas visíveis dos indivíduos, especialmente a curvatura da coluna, a quantidade de pelos e o formato do maxilar. A imagem 2 é uma representação gráfica no formato de “árvore genealógica” que procura identificar os diversos ancestrais da espécie humana e seus cruzamentos marcados cronologicamente. 2. A imagem 1, uma espécie de “fila indiana”, pressupõe uma evolução direta, linear e gradual do que seria o ancestral “menos evoluído” até chegar ao ser humano atual, passando por fases intermediárias. Essa imagem foi popularizada no início do século XX, quando a ciência acreditava que a evolução humana tivesse seguido um percurso parecido. Entretanto, as pesquisas atuais identificaram, como mostra a imagem 2, que houve uma grande variedade de transformações do gênero Homo, e que a nossa espécie, o Homo sapiens sapiens, representa apenas uma das transformações possíveis. 3. A imagem 2 não representa a “verdade” sobre a evolução humana, mas expressa da melhor maneira possível o resultado das descobertas arqueológicas realizadas até hoje. Com o passar dos anos, novas pesquisas devem modificar significativamente essa representação. Professor, pretende-se, com esta questão, reforçar o estatuto de “representação” das duas imagens. Se está claro que a imagem 1 não corresponde a nossa história evolutiva, a imagem 2 não é a “verdade”, mas uma imagem atualmente aceita, construída com base nas descobertas científicas mais recentes.

Hora DE rEFlETir Os primeiros hominídeos não dispunham de grandes habilidades físicas em comparação com outras espécies do reino animal. Se dependessem apenas de sua constituição física e de sua capacidade natural para se adaptar às condições cli-

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máticas, proteger-se dos predadores e obter alimentos, os hominídeos estariam destinados ao desaparecimento. Foram as conquistas técnicas e culturais adquiridas nos primórdios da humanidade que permitiram a alguns grupos de hominídeos se diferenciar de outras espécies e garantir sua sobrevivência. Esses conhecimentos, muitas vezes produzidos de modo ocasional ou aleatório por algum indivíduo, só ganhavam sentido quando compartilhados por todos os indivíduos do grupo. A grande vantagem dos primeiros agrupamentos humanos era justamente essa capacidade de compartilhar informações e organizar coletivamente as atividades necessárias à difícil vida cotidiana. A caça de grandes animais (mamutes, entre outros), por exemplo, só era possível se fosse planejada e realizada coletivamente, com uma divisão de tarefas que permitia encurralar o animal e abatê-lo. Professor, você pode acrescentar que a socialização do conhecimento continua sendo, atualmente, fundamental para o desenvolvimento da humanidade. As diversas pesquisas sobre as origens da nossa espécie são um ótimo exemplo da importância dessa socialização. Para finalizar a atividade, pode-se organizar um debate coletivo com a classe, solicitando que os grupos exponham suas opiniões e discutam as dos colegas.

Sugestões de leitura JOHANSON, Donald C.; EDEY, Maitland A. Luci: os primórdios da humanidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996. ; SHREEVE, James. O filho de Lucy: a descoberta de um ancestral humano. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

Sugestão de site Origens da humanidade – Site (em inglês) do Instituto Smithsonian sobre as origens da humanidade. Disponível em: <http://humanorigins.si.edu/>. Acesso em: 2 dez. 2012.

Capítulo 2

A Revolução Agrícola Conteúdos e procedimentos sugeridos Este capítulo gira em torno da ocupação do planeta e da organização dos seres humanos decorrente do domínio da agricultura e sua consequente sedentarização. O desenvolvimento das técnicas agrícolas propiciou menor gasto de tempo e de energia na obtenção dos alimentos, o que tornou possível a existência de sociedades mais complexas. Pode ser interessante explicar aos alunos que a energia antes empregada na busca de alimentos passou a ser utilizada em outras obras: mecânicas, intelectuais, científicas, etc. Ao tratar da saída do ser humano da África e sua chegada a outros continentes, o mapa Teoria da ocupação da Amé-

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rica (p. 20) pode ser de grande valia para localizar o possível percurso realizado da África para o Oriente Médio e para a América pelo Estreito de Bering. Isso possibilita iniciar a discussão sobre as teorias de ocupação da América (Teoria Clóvis X Teoria das diversas levas de migrações, defendida por Walter Neves) e sobre os vestígios encontrados em São Raimundo Nonato (Piauí), sempre lembrando que esses conhecimentos não são definitivos. As hipóteses em torno do fóssil de Luzia44, de 11 500 anos, e dos vestígios de São Raimundo Nonato (Piauí), de 50 000 anos, exemplificam o contínuo processo de descobertas e reavaliações relativas ao conhecimento histórico (discutido no capítulo anterior). Ao abordar os primeiros cultivos, pode-se comentar a hipótese de alguns pesquisadores em relação ao processo de surgimento da agricultura. Para esses pesquisadores, alguns grupos humanos perceberam espécies vegetais que não existiam em seus assentamentos e que começaram a germinar tempos depois de eles as terem trazido de outra região. A recorrência de tal situação deve tê-los feito concluir que isso ocorria devido aos grãos (sementes) que caíam no chão e deles nasciam novas plantas. A introdução abre caminho para se refletir sobre as transformações que se processaram em função do domínio da agricultura e da domesticação de animais, chegando à organização social e política dos grupos humanos45. Essa reflexão permite desenvolver a ideia de processo, sendo possível trabalhar com os alunos questões como: A agricultura surgiu em um só lugar e de lá se difundiu para todo o planeta? Ou seu surgimento ocorreu em lugares distintos e de maneira independente? Vale lembrar que, embora a região do Oriente Médio tenha anterioridade em relação aos outros lugares, as evidências indicam que a agricultura surgiu de forma independente e em tempos distintos nos diferentes continentes. O tema (processo) é oportuno para discutir também a noção de progresso, considerando a possibilidade de avanços trazerem problemas antes inexistentes. A discussão pode ser enriquecida pela leitura do texto Dos potes de cerâmica às garrafas PET, da seção Eu também posso participar, referindo-se, assim, a um problema da vida coletiva atual.

Texto complementar 1 Em sua Introdução ao estudo de História Geral, o historiador espanhol Josep Fontana apresenta uma visão crítica e bem fundamentada sobre o desenvolvimento da História. Selecionamos a seguir alguns de seus comentários a respeito da origem da agricultura e sua crítica à ideia de adoção repentina e irrestrita do cultivo em substituição ao sistema de caça e coleta. Os historiadores acostumaram-se a separar a coleta e a agricultura como se fossem duas etapas da evolução

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Sobre o fóssil de Luzia, é importante observar que o fato de o grupo humano ao qual ela pertencia ter uma morfologia próxima à dos africanos subsaarianos atuais e aos australomelanésios (denominação científica para os aborígines) não significa que era constituído de negros no passado. Segundo o paleoantropólogo Walter Neves, embora esses povos tenham hoje a pele escura, a cor da pele muda muito rapidamente pela ação da seleção natural, dependendo do grau de insolação da região habitada. A suposição de que Luzia tinha pele negra resultou principalmente do fato de sua reconstituição facial ter sido feita em argila quase marrom. Fonte: NEVES, Walter. Pioneiros da América. In: História Viva. Ano VI, n. 62, dez. 2008. p. 40-45.

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Sempre que possível, ressalte a noção de processo e temporalidade. Nesse caso, observe que os grupos humanos não deixaram de ser coletores para se tornarem agricultores de um dia para o outro. Estudos indicam que o processo de coleta de alimentos e o domínio da agricultura provavelmente coexistiram em muitas comunidades por muito tempo (ver no Texto complementar 1, análise sobre essa questão).

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humana absolutamente diferentes e a supor que a passagem de uma a outra teria sido uma mudança repentina e revolucionária. Hoje, entretanto, sabe-se que essa transição se produziu de maneira gradual e matizada. Da etapa em que o homem era exclusivamente caçador-coletor, passou-se a outra em que ele começou a ter atividades de cultivo de plantas silvestres (limpava a terra, arrancava as ervas daninhas, aprendia a reproduzir as plantas a partir das suas sementes) e de manipulação de animais (reunião e proteção de ungulados selvagens). Porém, tudo isto era realizado como uma atividade complementar da coleta e da caça. A passagem à agricultura será precedida pela “domesticação” de plantas e animais – escolha das variedades mais interessantes para serem reproduzidas, cruzando-as posteriormente –, que iniciará um processo de seleção artificial. Porém, a domesticação não é mais do que uma das condições da transição à agricultura, a qual só culmina quando se consegue completar uma dieta que proporcione todos os elementos nutritivos necessários (cereais, carne, legumes) e que possibilite depender por completo do abastecimento de plantas e animais domesticados. Os homens converteram-se, então, em sedentários, procuram aumentar a produção agrária com novos métodos (como irrigação, que permite independizar o cultivo da meteorologia), criando as condições que possibilitarão o surgimento das cidades, da civilização e das primeiras formas de Estado. A adoção da agricultura foi, ao que parece, um acontecimento complexo e dramático. A passagem da vida de caçador-coletor à de agricultor-pecuarista não implicou numa melhora, pois trouxe uma diminuição da qualidade da vida humana e determinou o surgimento de novas doenças, de uma vida mais curta e, talvez, o incremento da violência, como consequência da apropriação da terra e da necessidade de defendê-la. Chegou-se a dizer que a agricultura foi “o pior equívoco da história da espécie humana”. Foi, em todo caso, um equívoco inevitável, vinculado às mudanças climáticas que se produziram no final da última glaciação. A passagem à agricultura é um processo que parece ter se iniciado de forma independente em vários lugares do mundo: no conjunto da Eurásia havia dois focos (o do Oriente Próximo e o da China), um ou dois na América (o da América Central e o dos Andes), um foco africano e, para alguns, outro na Nova Guiné. Cada um desses focos deu origem a um sistema agrário diferente, com uma dieta própria e com elementos culturais correspondentes, entre os quais estariam, para alguns, as diversas “línguas maternas” originais. Cada sistema baseia-se em um cereal, isto é, em um grão que tem a tripla vantagem de amadurecer poucos meses após ser semeado, de proporcionar um produto de alto valor nutritivo e de poder ser armazenado de forma a assegurar a manutenção durante todo o ano, coisa impossível de se realizar com a maioria das frutas e verduras, a não ser secando-as.

Os cereais são, na realidade, uma das grandes invenções humanas [...]. FONTANA, Josep. Introdução ao estudo da História geral. Bauru: Edusc, 2000. p.105-108.

Texto complementar 2 No texto abaixo, o arqueólogo Steven Mithen descreve as transformações observadas no planeta durante a última Era Glacial: O auge da última era do gelo ocorreu por volta de 20 000 a.C. e é conhecido como o último máximo glacial, ou LGM (na sigla inglesa). Antes dessa data, as pessoas eram escassas na Terra e lutavam com um clima em deterioração. Sutis mudanças na órbita do planeta em redor do Sol haviam feito com que enormes camadas de gelo se expandissem por grande parte da América do Norte, norte da Europa e Ásia. O planeta foi inundado pela seca; o nível do mar baixara, deixando à mostra vastas planícies costeiras, muitas vezes estéreis. As comunidades humanas sobreviveram às mais severas condições, retirando-se para refúgios onde ainda se podiam encontrar lenha e alimentos. Logo após 20 000 a.C. começou o aquecimento global. Inicialmente, foi meio lento e desigual – muitas pequenas subidas e descidas na temperatura e chuva. Em 15 000 a.C., as grandes camadas de gelo começaram a derreter-se; em 12 000 a.C., o clima começara a flutuar, com impressionantes ondas de calor e chuvas, seguidas por súbitos retornos de frio e seca. Logo depois de 10 000 a.C., houve um assombroso surto de aquecimento global que pôs fim à era do gelo e introduziu o mundo no Holoceno, em que vivemos hoje. [...] Quantas pessoas havia vivas no planeta no LGM? Levando-se em conta as grandes áreas de regiões inabitáveis, as severas condições climáticas que levavam à mortalidade precoce, e o fato de que a moderna genética sugeriu que apenas 10 mil seres humanos modernos estavam vivos 130 mil anos atrás, podemos supor uma cifra em torno de 1 milhão [durante o LGM]. Mas trata-se de fato de uma suposição; tentar estimar tamanhos de populações passadas é uma das mais difíceis tarefas que enfrentam os arqueólogos. Extraído de: MITHEN, Steven. Depois do gelo: uma história humana global. 20000 – 5000 a.C. Rio de Janeiro: Imago, 2005. p. 17-18 e 25.

Sugestões de leitura FONTANA, Josep. Introdução ao estudo da História geral. Bauru: Edusc, 2000. PERLÈS, Catherine. As estratégias alimentares nos tempos pré-históricos. In: FLANDRIN, Jean-Louis; MONTANARI, Massino (Dir.). História da alimentação. São Paulo: Estação Liberdade, 1998.

Sugestão de site Slow Food Foundation – Site (em inglês) da fundação internacional citada na abertura do capítulo. Disponível em: <http:// slowfoodfoundation.com/welcome_en.lasso>. Acesso em: 28 jan. 2013.

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Organizando aS iDEiaS 1. O gênero Homo descolou-se do continente africano para a Ásia a partir do curso do rio Nilo e, posteriormente, migrou para a Europa. A primeira espécie a sair da África teria sido o Homo erectus, entre 1 milhão e 700 mil anos atrás. Entretanto, foi o Homo sapiens sapiens que, até por volta de 12000 a.C., ocupou todos os continentes, com exceção da Antártida. 2. Segundo a Teoria Clóvis, há cerca de 15 mil anos, grupos de caçadores-coletores teriam saído da Ásia e chegado ao Alasca pelo estreito de Bering. Isto teria sido possível porque o planeta passava por sua última Era Glacial, durante a qual as águas do mar baixaram drasticamente, descobrindo o fundo do estreito de Bering. A partir do Alasca, essa população ocupou todo o continente por volta de 11 500 anos atrás. Professor, um globo terrestre ou um mapa-múndi pode ajudar os alunos a compreender o trajeto dos primeiros habitantes do continente que mais tarde se chamaria América. A representação cartográfica com a qual estamos acostumados “separa” a Ásia do continente americano; por isso, pode haver certa dificuldade na identificação do estreito de Bering pelos alunos. 3. Segundo alguns cientistas, descobertas arqueológicas recentes revelam que a chegada do homem ao continente americano foi anterior a 15 mil anos atrás. A arqueóloga brasileira Niède Guidon, que coordenou pesquisas no sítio arqueológico de Pedra Furada, em São Raimundo Nonato, no Piauí, encontrou vestígios que demonstrariam a presença humana no continente há cerca de 50 mil anos. Outro pesquisador brasileiro que contesta a Teoria Clóvis é Walter Neves. Segundo ele, ocorreram várias ondas migratórias pelo estreito de Bering. Essas ondas migratórias não teriam sido constituídas apenas por grupos de origem asiática, mas também por grupos de origem “negroide”, vindos da Austrália. Sua hipótese está baseada no crânio de uma mulher encontrado em 1975, em Lagoa Santa (MG). Batizada de Luzia, ela teria vivido há cerca de 11 500 anos e apresentava traços morfológicos próximos aos dos aborígines australianos e dos africanos. Professor, atualmente, Niède Guidon é presidente da Fundação Museu do Homem Americano, cujo site conta com informações sobre pesquisas na Serra da Capivara e sobre os desafios para a preservação das pinturas rupestres. Se possível, uma visita ao site com os alunos pode ser uma atividade instigante, graças ao rico material fotográfico à disposição. O endereço eletrônico é: <www. fumdham.org.br/pcultural.asp>. 4. A elevação da temperatura da Terra, por volta de 12000 a.C., derreteu as placas glaciais que cobriam parte dos continentes, restando apenas as calotas polares. O clima tornou-se mais ameno, e o solo, mais fértil. Isso permitiu que, em diferentes lugares e de modo independente, vários grupos nômades aprendessem a cultivar a terra. Esse domínio da agricultura foi acompanhado pelo aperfeiçoamento dos instrumentos

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feitos de pedra e pela domesticação dos animais. Todos esses fatores levaram à maior oferta de alimentos, graças ao aumento da produção. Isso provocou o crescimento de diversas comunidades e a sedentarização de muitos grupos nômades que não precisavam mais se deslocar à procura de alimentos. Com o passar do tempo, esses grupos começaram a trocar produtos com as comunidades vizinhas, desenvolvendo atividades comerciais. Em muitos lugares, essas aglomerações humanas deram origem, alguns séculos depois, às primeiras vilas e cidades. 5. A vida sedentária tornou os grupos humanos vulneráveis à ação da natureza (como inundações repentinas ou tempestades de areia) e às doenças endêmicas provocadas, muitas vezes, pela contaminação da comida e da água por dejetos acumulados. Além disso, a riqueza das cidades atraía os saqueadores nômades. Por outro lado, o contato direto com animais domésticos podia provocar epidemias, como as de sarampo e varíola. 6. As regiões de clima árido habitadas por grupos humanos apresentavam enormes dificuldades, que somente podiam ser vencidas pelo esforço coordenado de todos. A sobrevivência dependia, assim, de organização e força física direcionadas por uma vontade única, com uma divisão de tarefas definidas previamente. Só assim era possível construir reservatórios de água, canais de irrigação, proteger o núcleo urbano contra saqueadores, etc. 7. A vida sedentária, os obstáculos impostos pelo meio e os consequentes esforços pela sobrevivência provocaram uma divisão de tarefas mais sofisticada, capaz de responder aos novos desafios. Com o tempo, essa divisão levou à diferenciação das profissões e aos primeiros níveis de hierarquia social. Alguns indivíduos assumiram lugar de destaque no grupo graças à autoridade moral, à capacidade de liderança ou à força física. Em vários casos, tais indivíduos (e os grupos sociais a eles ligados) passaram a deter privilégios e poder sobre os demais, e, alguns deles, tornaram-se governantes e reis.

Hora DE rEFlETir O objetivo desta atividade é estimular no aluno uma reflexão sobre a divisão do trabalho no mundo contemporâneo em áreas de especialização cujos conhecimentos também se tornam especialidade de cada profissional. Com base na pesquisa sobre a produção e a comercialização do pãozinho comprado em padarias e supermercados, espera-se que os alunos reflitam sobre o processo de produção, circulação e consumo dessa mercadoria. Professor, você pode orientar os alunos a utilizarem como ponto de partida a produção agrícola da matéria-prima (o trigo, na maior parte dos casos) que precisa ser processada e transformada em farinha, depois vendida à fábrica ou manufatura, que mistura outros ingredientes (ovos, sal, fermento) para a fabricação da massa. Nessa mesma fábrica (ou em estabelecimentos menores, como as padarias), a massa é preparada e levada ao forno. Finalmente, o pão é vendido para o consumidor. Nesse percurso, é importante que os alunos percebam que foram necessários certos profissionais com habilidades e técnicas específicas: os agricultores, os profissionais que transformam

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trigo em farinha, os padeiros que preparam e assam a massa, o balconista que vende o pão ao consumidor. Com base nesse esquema, os alunos podem montar painéis com diversas variações. Na apresentação dos painéis, é importante refletir com a classe sobre as diferenças e semelhanças de cada painel, levando-se em conta processos produtivos diferentes na fabricação do pão (por exemplo, modelos mais artesanais, nos quais o proprietário da padaria compra todos os ingredientes, ou, ao contrário, modelos de agroindústria, nos quais uma cadeia produtiva articulada se encarrega de todas as etapas até a venda do produto para o estabelecimento comercial).

Capítulo 3

Nossos mais antigos ancestrais Conteúdos e procedimentos sugeridos Neste capítulo são abordados os principais vestígios humanos encontrados em território brasileiro, que remontam até 50 mil anos atrás, segundo alguns pesquisadores. O estudo e a análise desses vestígios possibilitaram conhecer características e organização de grupos que viveram no litoral e no interior do território. Discussões sobre a chegada dos grupos humanos à América, estudadas no capítulo anterior, podem ser retomadas – como eles chegaram; há quanto tempo; como sabemos essas informações –, inserindo o continente no processo de povoamento do planeta, além de contribuir para o encaminhamento dos conteúdos que serão tratados. A propósito dos trabalhos de pesquisa realizados por Peter Lund, podem-se tecer comentários sobre fontes pré-históricas. As pinturas ou gravuras rupestres, por exemplo, são vestígios de períodos mais recentes e apresentam uma intencionalidade comunicativa, cuja mensagem só pode ser compreendida no contexto social em que foram produzidas, mas elas contêm informações sobre a cultura dos povos que as produziram (ver Texto complementar). Já os objetos de pedra, apesar de não terem sido produzidos com intencionalidade comunicativa, são mais antigos do que as pinturas. Além dos comentários a respeito das fontes, um trabalho valioso pode ser realizado com os alunos ao explorar a seção Olho vivo, da página 28, observando detalhadamente a pintura e identificando as informações nela contidas. Isso poderá contribuir para que os alunos realizem a atividade da seção Interpretando documentos, da página 32. O mapa Principais sítios arqueológicos do Brasil (p. 26) contém informações que permitem inferir que a presença humana no território brasileiro verifica-se desde tempos muito remotos. Com relação aos vestígios encontrados nesses sítios, vale ressaltar os aspectos que caracterizam e diferenciam os diversos grupos, considerando costumes alimentares, moradias, práticas artesanais, localização, produção de objetos, etc. Na seção Fechando a unidade, sugerimos retomar os assuntos discutidos nos capítulos 1, 2 e 3, possibilitando uma reflexão sobre a força do conhecimento e da capacidade criativa humana. Seria interessante destacar as diferentes respostas e

maneiras de criar apresentadas pelos grupos humanos a partir de suas necessidades, bem como analisar de forma crítica como tem sido encarada nossa capacidade de observação e reflexão na transformação do tempo presente.

Texto complementar A arte ou gravura rupestre é tema de muitos debates entre os pesquisadores. No Brasil, as mais antigas datam de cerca de 23000 a.C., segundo alguns estudiosos. O texto a seguir, extraído do site da Fundação Museu do Homem Americano, faz uma breve reflexão sobre a arte rupestre encontrada na Serra da Capivara. Durante cerca de doze mil anos, os grupos étnicos que habitaram a região [da Serra da Capivara] evoluíram culturalmente, e as pinturas rupestres constituem um testemunho desta transformação. Pode-se observar esta evolução dos registros gráficos rupestres mediante a identificação de mudanças nas técnicas pictorial ou de gravura empregadas, mas também nas variações dos temas e da maneira como eles são representados. Estas mudanças não são resultado do acaso, mas de uma transformação social gradativa que se manifesta em diferentes aspectos da vida dos grupos humanos, entre os quais está a prática gráfica. Este costume de se exprimir graficamente é uma manifestação do sistema de comunicação social. Como tal, a representação gráfica é portadora de uma mensagem cujo significado só pode ser compreendido no contexto social no qual foi formulado. Trata-se de uma verdadeira linguagem, na qual o suporte material é composto por elementos icônicos, cuja completa significação perdeu-se definitivamente no tempo por não conhecermos o código social dos grupos que o fizeram. Não podendo decifrar este código, resta uma possibilidade de se conhecer mais sobre os grupos étnicos da pré-história através da identificação dos componentes do sistema gráfico próprio de cada grupo e de suas regras de funcionamento. Efetivamente, cada grupo étnico possui um sistema de comunicação gráfico diferente, com características próprias. Assim, mesmo que não possamos decifrar a sua significação, será possível identificar cada um dos conjuntos gráficos utilizados pelos diferentes grupos. Quando os conjuntos gráficos permitem o reconhecimento de figuras e de composições temáticas, existe também a possibilidade de identificar os elementos do mundo sensível que foram escolhidos para ser representados. Esta escolha é de fundo social, sendo também caracterizadora de cada grupo, pois oferece indicadores sobre os elementos do entorno e as temáticas que são valorizadas por cada sociedade [...]. Extraído de: Pinturas rupestres. Disponível em: <www.fumdham.org.br/pinturas.asp>. Acesso em: 28 jan. 2013.

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Sugestões de leitura FUNARI, Pedro Paulo; NOELLI, Francisco Silva. Pré-história do Brasil. São Paulo: Contexto, 2001. PROUS, André. O Brasil antes dos brasileiros: a pré-história do nosso país. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

Sugestão de site Scientif American – Site da revista Scientif American, que costuma trazer reportagens sobre arqueologia e pré-história do Brasil. Disponível em: <www2.uol.com.br/sciam/>. Acesso em: 2 dez. 2012.

Organizando aS iDEiaS 1. Peter Lund fixou-se na aldeia de Lagoa Santa (Minas Gerais), entre 1834 e 1844. Durante esse período, encontrou nas cavernas da região pesquisadas por ele mais de 12 mil fragmentos de ossos fossilizados de animais, além de fósseis humanos, conservados durante milhares de anos. Suas descobertas deram o impulso inicial para novas pesquisas e foram fundamentais para o desenvolvimento posterior da arqueologia brasileira. Além disso, o trabalho de Lund demonstrou que a presença humana no nosso território era muito mais antiga do que se acreditava antes de suas descobertas. 2. Há diversos tipos de vestígios arqueológicos, entre eles os fósseis de ossos humanos, instrumentos de trabalho, restos de alimentos fossilizados e vestígios de atividades cotidianas (como fogueiras ou rituais religiosos). Pode-se também encontrar sambaquis, pinturas rupestres, objetos de cerâmica, que são essenciais para compreender o modo de vida, os hábitos e as características morfológicas dos primeiros habitantes. 3. Havia grande diversidade cultural entre os paleoíndios, mas, de modo geral, pode-se afirmar que viviam da caça e da pesca, realizada pelos homens, e da coleta de frutas, folhas e raízes, sob responsabilidade das mulheres. Eram, na sua maioria, nômades, caminhavam em pequenos grupos de famílias aparentadas e dormiam em grutas ou abrigos improvisados. Utilizavam ferramentas de pedra e osso e, há cerca de 4 mil anos, na região da Amazônia, começaram a praticar a agricultura. Professor, pode-se ressaltar que essa é uma descrição geral dos paleoíndios; por isso, não trata de certas especificidades, como a formação de sociedades complexas. 4. Na Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato (Piauí), foi encontrada a maior concentração de sítios arqueológicos do país. Na área do Boqueirão da Pedra Furada foram descobertos vestígios que, segundo alguns pesquisadores, indicam que a presença humana na região data de cerca de 50 mil anos. Em Lagoa Santa (MG), um dos principais sítios arqueológicos do país, foi encontrado o crânio de Luzia, o mais antigo fóssil humano descoberto na América, com aproximadamente 11 500 anos. Luzia teria traços morfológicos negroides, evidência que contraria a Teoria Clóvis sobre a ocupação da América exclusivamente por povos mongoloides, vindos da Ásia. 5. Os povos de tradição Umbu ocuparam os campos da região sul e do atual estado de São Paulo, entre 9500 a.C. e 1500 d.C. Produziam instrumentos de pedra e difundiram duas grandes

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inovações tecnológicas: o arco e flecha e a boleadeira, arma de caça usada ainda hoje nos pampas gaúchos. Os povos de tradição Humaitá dividiram, em princípio, a mesma região com os povos Umbu. Posteriormente, migraram dos campos para as matas e regiões mais altas. Além da caça e da pesca, mantinham uma dieta rica em pinhão, que assavam ou transformavam em farinha para o fabrico de pães e bolos. 6. Os sambaquis são amontoados de conchas, encontrados em diversas partes do litoral brasileiro. A palavra tem origem no tupi e significa “marisco amontoado”. Acredita-se que os sambaquis foram formados por grupos humanos que se alimentavam de peixes e moluscos e habitavam o litoral. Esses povos tinham o hábito de acumular conchas de moluscos em áreas próximas às suas habitações. Com o passar dos anos, esses depósitos passaram a ser utilizados como local de moradia ou para enterrar os mortos. Os maiores sambaquis encontrados são elevações com cerca de 20 metros de altura. Professor, sugira aos alunos uma consulta ao glossário do livro, no qual há uma definição de sambaqui que pode completar as informações desta atividade. 7. Alguns povos da região amazônica, como a civilização Marajoara que ocupou a ilha de Marajó há cerca de 3 500 anos, formaram organizações sociais hierarquizadas, dominavam técnicas de artesanato altamente desenvolvidas e praticavam a agricultura. Os Marajoara também construíram elevações (os tesos) que impediam as enchentes e controlavam melhor as cheias dos rios. Pesquisas recentes mostram que a região do Alto Xingu foi ocupada por uma sociedade de estrutura complexa. Os indícios mostram que a região chegou a abrigar dezenove aldeias de formato circular, protegidas por fossas e paliçadas, interligadas entre si por meio de estradas. As maiores aldeias abrigavam uma população que variava de 2,5 mil a 5 mil indivíduos. Professor, você pode ressaltar que o conceito de “sociedade complexa” se aplica aos agrupamentos humanos cuja organização social, política e econômica conta com níveis acentuados de especialização, hierarquização e estratificação social. Em oposição, as chamadas sociedades simples são as que têm baixo nível de diferenciação social. Esses conceitos substituíram as noções antigas de “primitivo” e “civilizado”, difundidas pela ciência eurocêntrica do século XIX. 8. O povo de Itararé desenvolveu-se no sul e sudeste do Brasil por volta de 3500 a.C., instalando-se em planaltos a mais de 800 metros de altitude. Como eram regiões frias, eles desenvolveram habitações abaixo do solo, escavando buracos de até 8 metros de profundidade e 20 metros de diâmetro, que se comunicavam entre si por uma rede de túneis, onde também eram guardados alimentos e objetos.

Interpretando DOCUMENTOS 1. Nesta atividade, espera-se que os alunos utilizem a imaginação para “desvendar” as imagens da Pedra do Ingá, pois há poucas informações comprovadas sobre os significados desses desenhos. Algumas figuras se destacam, como representações de seres humanos e animais (répteis e pássaros, por exemplo).

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2. As inscrições da Pedra do Ingá ainda não foram decifradas pelos pesquisadores. Por isso, há várias hipóteses sobre seu significado e sobre a finalidade com que foram feitas. A hipótese mais aceita sugere que os desenhos serviam de registro das atividades cotidianas, como a caça e a pesca. Alguns cientistas, contudo, supõem que as inscrições estejam relacionadas a algum culto à água, realizado em períodos de seca. Outros pesquisadores defendem a hipótese de que os desenhos rupestres tinham finalidades artísticas, como representar sentimentos, expressar a expectativa de uma boa caçada e de obter alimentos para a sobrevivência do grupo.

Hora DE rEFlETir Resposta pessoal, mas é imprescindível refletir com os alunos sobre as várias hipóteses levantadas. Nem mesmo entre os pesquisadores da área existe consenso a respeito do significado das pinturas rupestres. Uma das hipóteses mais discutidas é a de que esses desenhos, especialmente quando representavam animais, estariam ligados a uma forma nascente de religiosidade, ou crença mágica, segundo a qual representar animais daria sorte nas caçadas. Outra explicação remete ao registro das atividades cotidianas dos primeiros agrupamentos humanos. Para outros estudiosos ainda, essas pinturas seriam uma forma de manifestação artística. Por isso, estariam mais próximas do conceito de “obra de arte”. Pode-se chamar a atenção dos alunos para o fato de que as pinturas rupestres, passados mais de 40 mil anos, ainda provocam emoções estéticas no observador e influenciam artistas modernos, como Pablo Picasso (1881-1973). Professor, você pode solicitar que cada aluno levante uma única hipótese e escreva os argumentos para justificá-la. Depois, pode organizar uma reflexão coletiva, agrupando as hipóteses semelhantes e conduzindo a classe a um número mais reduzido de respostas. Desse modo, pode-se criar um “campo” de significados que comporte “todas” as hipóteses levantadas.

Fechando a unidade Reflita e responda 1. Tanto a vasilha de cerâmica como a garrafa PET foram produzidas com finalidades semelhantes, isto é, armazenar líquidos para satisfazer necessidades humanas. Assim, apesar dos milhares de anos que separam os dois objetos, percebe-se que algumas características da vasilha podem ser observadas na garrafa: ambas são recipientes fechados, côncavos, com uma “boca” para entrada e saída do líquido armazenado. No entanto, há entre elas diferenças importantes. Uma delas é o material de que são feitas: enquanto a matéria-prima da vasilha é argila (barro) cozida, a garrafa PET é feita de uma resina originária do petróleo. Além disso, a de cerâmica foi criada manualmente por artesãos especializados ou por uma pessoa que dominava a técnica necessária; em contrapartida, a garrafa plástica foi produzida industrialmente, graças a processos técnicos complexos e ao trabalho de pessoas envolvidas em várias etapas da cadeia produtiva. Ambas expressam a capacidade humana de transformar a natureza com base no conhecimento e na experimenta-

ção. Assim, como não podia deixar de ser, uma das principais diferenças entre elas é o nível técnico e de especialização empregado na fabricação de cada uma. Professor, se julgar necessário você pode aprofundar a reflexão e sugerir aos alunos que outra diferença importante entre esses objetos é que a vasilha nasceu de uma necessidade prática imediata, e era utilizada, provavelmente, pelo mesmo indivíduo que a fabricou ou pelo seu grupo social (família ou clã), enquanto o segundo objeto (a garrafa PET) foi produzido como mercadoria para ser comercializada às centenas de milhares, numa estrutura social complexa, na qual a pessoa que irá utilizar a garrafa não tem relações diretas com as pessoas que a fabricaram, nem tem conhecimento dos processos técnicos que permitiram a fabricação do produto. Você pode ainda acrescentar que nas sociedades modernas o conhecimento é profundamente especializado e que praticamente tudo o que fabricamos torna-se mercadoria, isto é, nasce para ser trocado por dinheiro (ou por outra mercadoria) num mercado consumidor. 2. Numa perspectiva histórica e numa longa escala de tempo (milhares de anos, por exemplo), as garrafas PET poderão ser vistas como “artefatos arqueológicos”, pois as sociedades do futuro poderão encontrar outras soluções para a fabricação de recipientes, tornando obsoletas as garrafas de plástico que, por hipótese, poderiam desaparecer. Nessas condições, pode-se imaginar que um arqueólogo, daqui a milhares de anos, poderá observar uma garrafa PET do mesmo modo que observamos uma vasilha de cerâmica produzida milhares de anos atrás. Professor, essa questão tem por finalidade incentivar o aluno a pensar sobre o significado do próprio conhecimento histórico (especificamente, o conhecimento arqueológico). Como tratamos os objetos do cotidiano como utensílios com finalidades práticas, em geral esquecemos que foram objetos assim que contribuíram para decifrar o modo de vida dos primeiros seres humanos. O espírito científico de indagação, pesquisa, questionamento e formulação de hipóteses também pode se debruçar sobre objetos contemporâneos que nos fariam refletir sobre o significado desses objetos e, com base neles, sobre o modo de funcionamento das nossas sociedades. 3. Nessa obra, Arthur Bispo do Rosário atribuiu um novo significado às garrafas. Elas deixaram de ser vistas como objetos de uso cotidiano e passaram a ser tratadas como objetos de arte. Ou seja, o artista, por meio de sua criatividade e da necessidade de expressar aspectos mais complexos do que a realidade objetiva e concreta, reinventou o significado do mundo à sua volta. É importante que os alunos compreendam que a transformação das garrafas PET em obra de arte depende do nosso olhar sobre esses objetos e da interferência do artista sobre eles, ou seja, de como ele atribui a esses objetos significados simbólicos. Esse tipo de utilização de objetos do cotidiano das sociedades industriais foi uma das características da Pop Art, corrente artística de grande influência nos anos 1960. Professor, você pode incentivar os alunos a refletir sobre o processo de criação humana com base em exemplos corriqueiros: a diferença en-

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tre um pássaro da natureza e um pássaro desenhado, entre uma floresta natural e um jardim, entre o barro e um objeto de cerâmica, etc.

Unidade

4. O conhecimento e a criatividade são responsáveis pela adaptação do ser humano ao meio em que vive e pelas mudanças que o levaram a dominar a natureza e a utilizá-la a seu favor. Eles estão também na origem das inovações que caracterizam a história da humanidade desde os tempos mais remotos. Do machado de pedra lascada até o moderno computador, o ser humano tem produzido constantemente novos artefatos, ampliado o leque de materiais utilizados e penetrado no espaço sideral e no microcosmo do átomo e do DNA. Nessa perspectiva, o acúmulo de conhecimentos ao longo de milênios, aliado à criatividade, melhorou a qualidade e ampliou a expectativa de vida, além de permitir aos seres humanos dominar uma infinidade de técnicas e meios de explorar os recursos naturais. Entretanto, é preciso levar em conta também que o desenvolvimento econômico acelerado, especialmente nos últimos duzentos anos, e a exigência cada vez maior de consumo de energia e recursos naturais vêm causando sérios danos ao meio ambiente e à humanidade. Nem sempre o conhecimento e a criatividade têm sido utilizados para melhorar nossas condições de vida. Muitas vezes, servem para o desenvolvimento tecnológico voltado para a guerra, com a produção de armas de destruição em massa, e para dominar outros seres humanos, difundir preconceitos e formas de racismo, incentivar o uso predatório e indiscriminado da natureza e ampliar as desigualdades sociais. Professor, a resposta a essa questão é individual, mas é importante refletir com os alunos sobre as diversas formas de utilização do conhecimento e da criatividade nas sociedades contemporâneas.

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A urbanização

Começo de conversa 1. Esta atividade tem por finalidade ampliar a reflexão sobre o espaço urbano e sobre as diversas formas de compreender a cidade. Em geral, a vida doméstica e escolar dos alunos representa parcela importante das suas experiências. A vida urbana, contudo, envolve também outras atividades diretamente relacionadas aos espaços sociais da cidade: a frequência a clubes, parques, praças; a presença em festas (quermesses, shows), eventos cívicos ou políticos; a participação em associações de bairros, igrejas, centros comunitários; ou a organização de movimentos de reivindicação por melhorias urbanas (asfalto, saneamento básico, segurança, etc.). É importante que o aluno reflita sobre essas diversas formas de inserção coletiva na vida urbana para que compreenda o universo complexo e diversificado com o qual ele se relaciona. Professor, você pode fazer um debate com a classe e enfatizar que todos participamos de diferentes formas da vida das nossas cidades, ainda que uns sejam mais ativos que outros.

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2. Esta atividade solicita do aluno uma reflexão sobre a sua cidade, tendo em vista os problemas e as facilidades urbanas que ele encontra diariamente. Ao refletir sobre a cidade, ele poderá ter mais clareza sobre o espaço que o cerca e sobre questões sociais nem sempre identificadas na vida cotidiana. Além disso, a atividade pode levá-lo a compreender que as soluções para os problemas urbanos nem sempre dependem apenas das esferas de governo, mas podem ser tratadas e debatidas por entidades coletivas, como comunidades de bairro, associações comerciais, etc. A resposta dependerá da situação específica do aluno e da cidade onde mora. Entretanto, podemos apontar os seguintes aspectos, entre as principais qualidades das cidades médias e grandes do país: a) grande concentração de estabelecimentos comerciais; b) mais oportunidades de trabalho; c) proximidade em relação a centros de ensino e pesquisa (universidades, institutos, fundações, etc.); d) oferta diversificada de serviços de saúde (hospitais, prontos-socorros, clínicas, etc.); e) variedade de opções de lazer: shows, eventos, restaurantes, parques, etc. Entre os maiores problemas, podemos citar: a) violência. Possíveis soluções: policiamento preventivo, investimento em capacitação profissional dos policiais, redução da impunidade, melhor distribuição da renda, investimentos para melhorar a qualidade da educação, maiores oportunidades de emprego, educação de jovens infratores, etc.; b) trânsito. Possíveis soluções: investimento em transporte coletivo, incentivo ao “transporte solidário” (carros particulares transportando mais pessoas), construção de ciclovias; c) poluição do ar e da água. Possíveis soluções: novas frotas de ônibus movidos a gás natural, fiscalização das indústrias poluidoras, obrigando-as a usar filtros mais eficientes, universalização do saneamento básico e implementação de sistemas de tratamento de esgotos; d) desigualdade socioeconômica entre os habitantes. Possíveis soluções: impostos proporcionais à renda, incentivo a programas de distribuição e geração de renda, incentivo à escolarização para os filhos de famílias de baixa renda.

Capítulo 4

Povos da Mesopotâmia Conteúdos e procedimentos sugeridos Este capítulo trata do estabelecimento e da organização de diferentes povos na Mesopotâmia, uma das regiões do mundo que reunia condições – abundância de água e terras férteis – para a fixação de grupos humanos. A localização da região, entre os rios Tigre e Eufrates, pode ser observada no mapa da página 37. Segundo alguns estudos, a Mesopotâmia seria uma das primeiras regiões do planeta em que os seres humanos praticaram a agricultura e organizaram as primeiras cidades. Relacionar os novos recursos tecnológicos desenvolvidos pelas sociedades da região (invenção do arado de cobre, o uso da força animal nos cultivos, a construção de diques e canais de irrigação, etc.) pode contribuir para que os alunos tenham essa percepção. Além disso, alguns questionamentos podem orientar o desenvolvimento dos conteúdos tratados no capítulo, por exemplo: Como se iniciou a organização social e po-

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lítica dos povos? A relação entre eles era solidária, de competição ou de dominação? Qual foi o papel da escrita nessas sociedades? O que regulava a relação entre os indivíduos? Vários povos habitaram a Mesopotâmia: sumérios, acadianos, assírios, babilônios, entre muitos outros. Cabe ressaltar, porém, que não houve necessariamente uma sucessão de domínios na região. Ao abordar a criação da escrita, que surge aos poucos para responder a necessidades concretas, pode-se ler e discutir com os alunos o texto do boxe A escrita na Mesopotâmia, realizando a atividade proposta. O texto da seção Eu também posso participar (p. 38) pode ser lido coletivamente para que os alunos discutam a importância da água no mundo atual, no qual devem ser valorizadas as ações individuais no sentido de criar novos hábitos, buscando modificar uma cultura (desperdício) arraigada há muito tempo (ver Texto complementar). Partindo para informações mais pontuais, pode-se observar que dois povos principais dominaram a região, os babilônios e os assírios, ambos herdeiros da cultura sumério-acadiana. E foi por meio dos acadianos que a cultura suméria se espalhou por quase toda a região. No que diz respeito ao domínio político, houve uma alternância entre os dois povos (assírios e babilônios). Vale destacar que diversos aspectos culturais dos babilônios foram incorporados e mantidos pelos assírios 46. Ao tratar do Primeiro Império Babilônico (1800-1600 a.C.), merece destaque o Código de Hamurabi, um corpo de leis que regulou a vida coletiva. Ao reunir e inscrever em pedra as antigas leis e os costumes (que eram mantidas através da oralidade), o rei, presumivelmente, dava a todos o direito de conhecer as leis que deviam seguir. Neste capítulo, uma nova seção Enquanto isso... oferece a possibilidade de discutir com os alunos a simultaneidade histórica.

Texto complementar A água e as primeiras sociedades Durante décadas, o estudo das primeiras sociedades conhecidas (Mesopotâmia, Egito, Índia, etc.) esteve associado à interpretação histórica chamada “hipótese causal hidráulica”, que resulta principalmente dos estudos de Karl Marx e Frederic Engels sobre o “Modo de Produção Asiático”. De acordo com esses estudos, o surgimento dessas primeiras civilizações devia-se exclusivamente à necessidade de um controle centralizado do abastecimento de água nas zonas áridas e semiáridas, assim como da proteção contra as inundações periódicas. Trabalhos efetuados nas últimas décadas do século XX demonstram, contudo, que embora a água seja imprescindível para a formação das sociedades, nenhuma dessas sociedades teria sua origem condicionada a um único fator.

O texto a seguir, retirado da obra Modo de produção asiático: nova visita a um velho conceito, do historiador Ciro Flamarion Cardoso, tece algumas considerações sobre essa questão. Os trechos selecionados abordam os exemplos da Mesopotâmia e do Egito, mas servem de subsídio teórico para a análise de outras civilizações.

Sobre as sociedades mesopotâmicas Desde a época da chamada revolução neolítica, quando grupos descidos das montanhas se estabeleceram no vale do Eufrates e do Tigre, deixando de ser apenas caçadores e recolhedores de alimentos para tornar-se produtores, houve necessidade de uma certa organização para fazer frente às dificuldades do novo habitat, como, por exemplo, falta de chuvas, enchentes, etc. Surgiram as primeiras aldeias, cuja organização estava, certamente, baseada na família extensa e nos moldes tribais de autoridade patriarcal. [...] Com a chegada dos sumérios, [...] teve início o processo de urbanização e, com o aparecimento das primeiras cidades, começou também um novo tipo de organização política. Mas Diakonoff, Klima47 e outros julgam que, mesmo perdendo muito de sua autonomia inicial e deixando de ser uma organização essencialmente patriarcal, as comunidades rurais foram assumidas e integradas pelos sumérios na nova organização política.

Sobre o Egito Na época pré-dinástica, o nível do Nilo durante as cheias era substancialmente mais alto e o sistema de irrigação quase todo baseado nas bacias naturais formadas pelo rio. As condições específicas do Nilo, com cheias mais regulares e menos destruidoras, e a existência de tanques naturais mais facilmente trabalháveis, tornaram o sistema de irrigação egípcio mais simples do que o mesopotâmico. Assim, a agricultura irrigada no Egito estava ligada a um controle local, no nível dos nomos (spat) ou das aldeias. O Estado egípcio, portanto, surgiu em sua forma centralizada e unificada depois da formação do sistema de irrigação controlado localmente. Só mais tarde, a partir do Reino Médio (aproximadamente 2040-1640 a.C.)48, é que apareceriam as primeiras grandes obras de irrigação e drenagem organizadas pelo poder central. Em outras palavras, não foi a necessidade de organizar as obras de irrigação que determinou o aparecimento do Estado centralizado no Egito, como foi defendido pelos adeptos da “hipótese causal hidráulica”. CARDOSO, Ciro Flamarion (Org.). Modo de produção asiático: nova visita a um velho conceito. Rio de Janeiro: Campus 1990. p. 24-25 e 58.

46

É interessante observar, caso os alunos tenham dificuldade, que a assimilação cultural é um processo dinâmico e que ocorre em diversas situações do cotidiano, como é o caso de incorporação de valores, de preferências alimentares, de crenças, hábitos, etc. O tema pode ser revisto no estudo da Roma antiga, que herdou e preservou características culturais helênicas.

47

Trata-se de I. M. Diakonoff, e Josef Klima, estudiosos das civilizações antigas.

48

A divisão temporal (ou periodização) do antigo Egito citada pelo autor do texto pode variar conforme a fonte. Essas diferenças cronológicas são comuns em estudos de períodos muito longos, que contam com documentos esparsos.

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Sugestões de leitura LEICK, Gwendolyn. Mesopotâmia: a invenção da cidade. Rio de Janeiro: Imago, 2003. PINSKY, Jaime. As primeiras civilizações. São Paulo: Contexto, 2001.

Sugestão de site Escritas antigas – Site em inglês sobre diferentes tipos de escrita do passado. Disponível em: <www.ancientscripts.com/ ws.html>. Acesso em: 2 dez. 2012.

Eu também

posso participar

Água: fonte da vida em perigo Diálogos Resposta pessoal. A atividade visa a sensibilizar os alunos e fazer com que eles se sintam responsáveis pela questão hídrica mundial. É importante problematizar as diferenças que provavelmente serão encontradas entre as famílias dos alunos e propor que eles sugiram mudanças de hábitos visando a economizar água. A atividade pode ser concluída com a repetição do cálculo após alguns meses. Peça aos alunos que verifiquem se houve mudanças no padrão de consumo. Mais dicas de como podemos economizar água podem ser encontradas em sites como o do Instituto Akatu (www. akatu.com.br). Caso os alunos tenham dificuldade para efetuar o cálculo, lembre-os de que 1 metro cúbico de água equivale a mil litros. Para calcular o consumo diário de água em uma residência, basta dividir o consumo em metros cúbicos por 30 dias (um mês) e dividir o resultado pelo número de moradores da residência.

A escrita na Mesopotâmia De olho no mundo Professor, esta atividade pretende proporcionar uma forma lúdica para discutir a importância da escrita no mundo atual, mas, ao mesmo tempo, oferece uma reflexão complementar sobre a “não escrita”. Isso porque, ao adivinhar o significado dos desenhos, os alunos o fazem sem o uso da escrita. Você pode aproveitar esse jogo para reforçar a ideia de que outras formas de comunicação (sem a escrita) são possíveis, apenas não são as mais comuns em nossas sociedades. Em contrapartida, o uso da escrita nas sociedades contemporâneas é praticamente ilimitado e define a forma mais aceita e respeitada de transmissão de informações. A escrita é utilizada para registrar conhecimentos e saberes (desde as descobertas científicas até os textos literários e poéticos); para formular as leis que regem as sociedades democráticas (sob a forma, por exemplo, de Constituições) e as relações entre os países (os acordos internacionais, por exemplo, são “assinados” porque há um documento escrito que define os termos do acordo); para descrever o funcionamento dos aparelhos e mercadorias nos manuais de instrução ou os remédios (nas bulas); para troca de informações via internet; etc. Praticamente, não há uma dimensão da vida nas sociedades modernas que não exija algum tipo de registro escrito.

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Enquanto ¡sso... Centros urbanos da América Sua opinião O objetivo desta atividade é levar o aluno a fazer uma reflexão sobre o papel da cidade na formação das sociedades humanas, tendo em mente uma comparação com as sociedades não urbanizadas. Espera-se que o aluno compreenda que a existência de cidades não significa necessariamente melhoria na qualidade de vida, nem avanço tecnológico em relação aos outros grupos humanos. Trata-se de sociedades com necessidades distintas e que solucionam seus desafios também de modo distinto. Professor, reflita com os alunos sobre os problemas urbanos e a desigualdade social tão comum nas grandes cidades brasileiras. Você pode também retomar o conteúdo do boxe para lembrar aos alunos que as cidades mantêm uma relação de interdependência com a vida rural, especialmente, pela produção de alimentos. Finalmente, pode-se retomar as questões da atividade Começo de conversa, indicadas na abertura da unidade, na qual se solicita do aluno que reflita sobre a realidade da sua cidade.

Organizando aS iDEiaS 1. Professor, você pode retomar o mapa com os alunos, indicando a área aproximada da Mesopotâmia e as fronteiras entre os países que hoje ocupam essa área. Se necessário, pode-se também localizar a região num mapa-múndi, para que os alunos tenham noções espaciais mais definidas. O território da Mesopotâmia localiza-se entre os rios Tigre e Eufrates, onde hoje se encontram o Iraque, o Kuwait, a Síria e o sul da Turquia, no Oriente Médio. Embora fosse uma região desértica, com elevadas temperaturas, em torno dos rios formou-se uma planície com terras férteis e propícias à agricultura. Nessa região, há milhares de anos, estabeleceram-se diversos povos, como os sumérios, acadianos, hititas, babilônicos, assírios e caldeus. 2. Elas são chamadas de cidades-Estado porque tinham autonomia, ou seja, não estavam submetidas a um Estado mais amplo e centralizado. Em cada uma delas, havia um soberano com poder político, religioso e militar, cuja influência se restringia aos limites da cidade. Esse soberano não estava submetido a nenhuma autoridade acima dele. 3. Os sumérios ocuparam a região graças, provavelmente, à existência de solos férteis em torno das margens dos rios Eufrates e Tigre. No entanto, as cheias desses rios provocavam grande prejuízo; por isso, foi preciso construir diques e canais para controlar as inundações e ainda irrigar as terras cultiváveis. Com o passar dos séculos, a população aumentou e surgiram novas atividades profissionais (como as de pastor, marceneiro, cesteiro, etc.). Foi preciso também constituir um corpo de funcionários públicos responsável pelo controle e administração dos trabalhos.

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Esses funcionários criaram as primeiras formas de escrita, Segundo Império Babilônico

Os babilônicos destruíram a capital assíria, Nínive, e criaram o Segundo Império Babilônico. O rei Nabucodonosor (604-562 a.C.) expandiu as fronteiras do império e conquistou Jerusalém.

Persas

O Segundo Império Babilônico chegou ao fim quando a região foi conquistada pelos persas.

pois precisavam registrar as atividades que se realizavam na cidade. 4. Por volta de 2350 a.C., as diversas cidades autônomas da região foram unificadas em torno de um único líder políti-

612 a.C. a 539 a.C.

co e religioso. Essa mudança deu origem ao Primeiro Império Mesopotâmico, que unificou as leis, o idioma e a política de várias cidades. Sob a liderança do rei Sargão, o Império substituiu a autonomia das cidades-Estado.

539 a.C.

5.

Período

8500 a.C.

2350 a.C. a 2100 a.C.

1800 a.C. a 1600 a.C.

1600 a.C. a 1200 a.C.

1200 a.C. a 612 a.C.

Povo

Características

Sumérios

Habitavam a região do extremo sul, praticavam a agricultura, tinham vida urbana e atividades administrativas com funcionários públicos. Criaram a escrita cuneiforme. Atribui-se aos sumérios a invenção do calendário formado por meses lunares de 28 dias, o mais antigo sistema numérico da História, o vidro e a roda.

Império Mesopotâmico

No III milênio a.C., o rei Sargão unificou diversas cidades do centro e do sul, formando o Primeiro Império Mesopotâmico. Por volta de 2100 a.C., enfraquecido por lutas internas, esse império foi destruído por povos inimigos.

Primeiro Império Babilônico

A cidade da Babilônia, habitada pelos amoritas, tornou-se o centro do Primeiro Império Babilônico, sob a liderança do rei Hamurabi (1792-1750 a.C.). Hamurabi nomeou governadores, unificou a língua e a religião e elaborou um dos primeiros conjuntos de leis escritas, o Código de Hamurabi.

Hititas

Domínio territorial e político dos hititas (originários da Anatólia, atual Turquia). Eles introduziram o uso do ferro no fabrico de armas e desenvolveram carros de guerra com rodas de aro.

Império Assírio

Originários do norte da Mesopotâmia, os assírios dominaram os hititas e constituíram um novo império. Foram o primeiro povo a organizar um exército disciplinado.

6. A invenção da escrita foi resultado das necessidades práticas de registro de certas atividades sociais. Nos palácios e templos eram armazenados produtos agrícolas para o pagamento de tributos ou para oferendas religiosas. Para registrar corretamente a quantidade e o tipo desses produtos, os sumérios anotavam em placas de argila úmidas a entrada de cada item: bois, porcos, cereais, etc. Essas placas eram marcadas com hastes de bambu e precisavam permanecer no sol até secar e endurecer. Cerca de quinhentos anos depois, os sumérios criaram um tipo de marcação em forma de cunha (daí a palavra cuneiforme) feita com estilete na argila úmida. Essas marcas foram se tornando cada vez mais abstratas até que passaram a representar sílabas e não mais animais ou produtos agrícolas. 7. O Código de Hamurabi é considerado um dos primeiros conjuntos de leis da história das sociedades humanas. Foi criado pelo rei do Primeiro Império Babilônico, Hamurabi, que ordenou a unificação e o registro escrito de todas as leis e sentenças pronunciadas no império.

Hora DE rEFlETir Professor, antes da produção do texto dos alunos, esta atividade pode ser organizada a partir de uma roda de conversa com a classe toda, na qual os alunos possam expressar suas opiniões e falar um pouco sobre as próprias experiências ou de parentes próximos que vivem nas cidades ou passaram por trajetórias de migração. Esta atividade tem por finalidade uma reflexão sobre os significados históricos distintos da vida em cidades. O aluno precisa compreender que a vida urbana transformou-se radicalmente com o passar do tempo. Na Antiguidade, as pessoas viviam em cidades porque trabalhavam em funções urbanas, ligadas à administração pública, a certas atividades artesanais e ao comércio; as cidades também representavam, em certas situações, proteção contra ataques estrangeiros, pois eram fortificações defendidas por exércitos regulares. Também é preciso levar em conta os atrativos que a cidade exerce sobre as pessoas em geral: uma vida cultural mais intensa do que no campo, com festas, intercâmbio com uma quantidade e uma diversidade maior de pessoas, atividades comerciais, etc. Atualmente, a cidade exerce um papel predominante na vida econômica e social da maioria dos países. A centralização do poder (também presente na Antiguidade), da riqueza e da maior parte das oportunidades de trabalho atrai milhões de pessoas. Apesar dos problemas urbanos (como a poluição e a violência), vive-se nas cidades porque as opções de trabalho, lazer e educação são mais numerosas e mais atraentes do que no campo.

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Capítulo 5

Na terra dos faraós Conteúdos e procedimentos sugeridos O Egito antigo é geralmente associado às pirâmides ou às múmias, como se representassem a principal produção dessa sociedade. Entretanto, outros aspectos de sua história podem ser destacados: a longa duração dessa civilização; a rígida organização social; a forte religiosidade presente tanto na vida política (faraó-deus) quanto na produção artística; os conhecimentos científicos desenvolvidos; etc. Para orientar o desenvolvimento dos conteúdos tratados no capítulo, alguns questionamentos podem ser propostos: Como se iniciou a organização social e política do Egito antigo? Quais eram as principais crenças dos egípcios? Que recursos desenvolveram em função delas? Que influência elas exerciam na vida política, social e cultural do Império? Ao abordar o início da organização da sociedade egípcia, o mapa O antigo Egito pode ser um valioso instrumento para compreender as características da região onde ela se estabeleceu – abundância de água (rio Nilo) e solos férteis. Essas características, aliadas ao esforço comunitário, eram propícias ao desenvolvimento da agricultura49. Caso os alunos confundam o sentido da correnteza do Nilo, seria interessante explicar-lhes que esse rio corre das cataratas (no Alto Egito) para o delta (Baixo Egito), desaguando no mar Mediterrâneo. Com relação aos aspectos gerais da sociedade e da cultura egípcia, vários elementos do capítulo podem servir de ponto de partida para trabalhar os conteúdos. A título de exemplo, vale mencionar o esquema da pirâmide social (p. 44) e a pintura com imagens de cenas do cotidiano (p. 44). Os alunos podem ser solicitados a mencionar, por exemplo: qual a relação entre a forma da pirâmide e a estrutura da sociedade; o que mostram as cenas cotidianas. Tratar da religião no Egito antigo significa abranger outros aspectos que a ela se relacionam. A crença na vida após a morte, por exemplo, remete aos conhecimentos científicos desenvolvidos, à construção das grandes pirâmides, à técnica da mumificação, etc. A leitura do boxe As múmias e do item Os cuidados com o corpo podem contribuir para o desenvolvimento desses temas. Neste capítulo, o texto da seção Enquanto isso... refere-se à medicina chinesa. Vale destacar que, embora sejam contemporâneas, diferentes sociedades encontram soluções distintas para os mesmos problemas.

JAGUARIBE, Hélio. Um estudo crítico da História. São Paulo: Paz e Terra, 2001. v. I, p. 154.

Sugestões de leitura JOHNSON, Paul. História ilustrada do Egito antigo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. NOBLECOURT, Christiane Desroches. A mulher no tempo dos faraós. Campinas: Papirus, 1994.

Sugestão de site Tebas – Amplo banco de dados (em inglês) sobre Tebas, uma das mais importantes zonas arqueológicas do Egito. Disponível em: <http://tinyurl.com/9gov77j>. Acesso em: 2 dez. 2012.

Organizando aS iDEiaS

Texto complementar

1. O território egípcio é quase todo dominado pelo deserto do Saara. Por isso, grande parte da população se concentra nas terras férteis próximas ao rio Nilo. Professor, você pode ressaltar que esse fenômeno representa uma das formas mais antigas de ocupação dos territórios e que a dependência atual do homem em relação à natureza permanece um fator importante para a ocupação do planeta, apesar dos enormes avanços tecnológicos, em especial na agricultura.

Em sua obra Um estudo crítico da história, patrocinada pela Organização das Nações Unidas (ONU), o cientista político brasileiro Hélio Jaguaribe propõe uma reflexão sobre a ascensão e queda de algumas sociedades. No trecho a seguir, ele tece comentários sobre o poder do faraó e como ele se transforma ao longo do tempo.

2. Como foi visto na unidade anterior, a passagem da vida nômade para a vida sedentária foi possível graças ao desenvolvimento da agricultura. Se antes o nomadismo exigia uma luta diária pela sobrevivência e dificultava a armazenagem de alimentos, a vida sedentária (com a agricultura e a pecuária) ampliou o controle do abastecimento de alimentos e das

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A ideia de natureza sagrada do rei mudou durante a história do Egito. No Antigo Reino, a divindade do rei era consubstancial. Considerava-se que a monarquia e até mesmo o Egito como país [império] tinham origem divina, derivada de Osíris e Horus. A condição do faraó era divina. Quando um indivíduo exercia o poder real, ele era cooptado por Horus, tornando-se uma das suas manifestações sem perder as características humanas. No Médio Reino, o faraó perdeu em parte seu poder cosmologicamente divino, embora mantivesse os atributos divinos da função que exercia, o faraó representava a humanidade diante dos deuses. No Novo Reino, a divindade real adquiriu um sentido físico: o faraó era considerado fisicamente filho de Horus ou Re [Ra, na terminologia que usamos no Livro do Aluno] que tinha assumido o aspecto do rei para engendrar na rainha o faraó seguinte. Desde a sua concepção até a morte física, o faraó era um deus, embora exibisse todas as características de um ser humano. Com o declínio gradual da monarquia, e a decadência geral do país [império], a origem divina do rei passou a ser, afinal, só uma doutrina para legitimar o monarca que ocupava o trono, ainda que ele fosse de origem estrangeira.

O trabalho com mapas pode ajudar os alunos a perceber também o contato entre as sociedades antigas. Ou seja, perceber que elas, de modo geral, se comunicaram e se influenciaram, devido à proximidade geográfica (excetuando as civilizações chinesa e indiana).

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formas de proteção (contra predadores, outros grupos humanos ou as intempéries da natureza). No decorrer dos séculos, as atividades comunitárias e a maior especialização profissional permitiram aprimorar técnicas e instrumentos agrícolas, ampliando a capacidade de produção. Com o aumento das colheitas, havia mais oferta de alimentos, o que estimulou o crescimento populacional (havia menos fome e mortalidade). Além disso, o excedente propiciou também a ampliação das trocas comerciais. A soma desses fatores fez com que muitos dos pequenos núcleos populacionais se transformassem em povoados. A afirmação também se aplica à sociedade egípcia. 3. A maior parte da população dos nomos vivia da agricultura e utilizava o rio Nilo para transporte, comunicação e para irrigação, ou seja, para o desenvolvimento das atividades agrícolas. Seus governantes, os nomarcas, reuniam o poder político e o poder religioso. Aos poucos, os mais destacados entre eles passaram a submeter outros nomos ao seu poder. Por volta de 3500 a.C., os nomos haviam sido unificados em torno de dois reinos (o Baixo Egito e o Alto Egito). Cerca de 300 anos depois, o rei Menés (conhecido também por Narmer, Men ou Meni) conquistou todo o território e foi coroado, pela primeira vez, como faraó, centralizando as funções militares, políticas e religiosas em torno da sua pessoa. 4. A sociedade no Egito antigo era rigidamente estratificada. No topo da pirâmide social estava o faraó, considerado, ao mesmo tempo, monarca e deus. A seguir vinham sucessivamente os sacerdotes, a nobreza, os escribas e os soldados. Na base estavam os camponeses e artesãos. Abaixo deles, os escravos. 5. Porque a produção agrícola (de cevada, trigo, legumes e frutas) dependia do regime de cheias do rio. No período em que as águas se elevavam era impossível cultivar a terra. Por isso, nesse período os trabalhadores transportavam pedras para as construções, escavavam poços e realizavam atividades artesanais. Nas épocas de vazante, com o reaparecimento das terras cultiváveis, eles se dedicavam novamente ao trabalho agrícola. Além disso, construíam canais de irrigação e diques que ampliavam as áreas férteis e produtivas. A alimentação era completada pela pesca e a caça, realizada nos pântanos formados no delta do Nilo. 6. O faraó era considerado filho do deus Amon-Rá, rei dos deuses e criador de todas as coisas. Para os egípcios, ele detinha os poderes e a sabedoria dos deuses; por isso, sua palavra era incontestável, pois tinha origem divina. Para compreender corretamente o seu governo, é preciso também levar em conta o apoio dos sacerdotes e sacerdotisas, e dos nomarcas e escribas, que contribuíam decisivamente para manter viva a ideia da origem divina do faraó entre a população. 7. A sociedade egípcia antiga desenvolveu importantes conhecimentos de engenharia hidráulica, graças à construção de diques, represas e canais de irrigação. Seus tecelões eram hábeis na produção de tecidos de linho. Outros artesãos dominavam a técnica da fabricação de vidro. Havia embarcações fluviais e marítimas de diversos tipos e para várias

necessidades. Os egípcios conheciam também a anatomia humana e chegaram a utilizar técnicas de anestesia em cirurgias. Além disso, eles conceberam a base do calendário utilizado ainda hoje na maior parte do mundo.

Hora DE rEFlETir O objetivo desta atividade é propiciar uma reflexão sobre a formação das cidades com base na própria história local. Você pode estimular os alunos a fazer uma pesquisa em bibliotecas ou arquivos públicos, a entrevistar moradores mais antigos ou pesquisadores locais. Além disso, na própria história das famílias dos alunos podem-se encontrar referências importantes. Professor, mostre aos alunos que é necessário ir além de algumas respostas “oficiais” sobre o fundador da cidade (a primeira casa, a primeira igreja, o primeiro prefeito, etc.). Esse tipo de história costuma valorizar o ponto de vista dos setores políticos dominantes e não leva em conta a diversidade de interesses dos grupos sociais que efetivamente construíram a cidade. O sociólogo José de Souza Martins, no livro Subúrbio (Hucitec/Editora da Unesp), afirma que a história local é construída pela memória (dos grupos dominantes que criam uma narrativa para dar significado à fundação da cidade) e pelo esquecimento dos grupos excluídos dessa história oficial. Por isso, é importante transformar esse esquecimento em memória coletiva, múltipla e, às vezes, contraditória. Uma história local renovada precisa compreender as tensões sociais e políticas, a multiplicidade de histórias individuais e de memórias diversas sobre a cidade. Dessa forma, podemos contribuir para uma efetiva apropriação pelos alunos da perspectiva de história coletiva, feita por todos e não apenas pelos “pais fundadores”.

Capítulo 6

A civilização chinesa Conteúdos e procedimentos sugeridos Este capítulo trata de uma das mais antigas sociedades do mundo – a China, que é hoje a terceira potência econômica mundial. São muitos os conhecimentos que assimilamos dos chineses, alguns há muito tempo, outros mais recentemente. Essa relação presente-passado pode ser o ponto de partida para o estudo do capítulo. A formação da China está ligada ao desenvolvimento da agricultura no vale do rio Amarelo, onde se constituíram aldeias e, com o tempo, a população crescente organizou-se em torno de um poder central. Ao longo dos séculos, sucessivas dinastias (Shang, Zhou, Qin, Han) governaram a China, ampliando seu território. É na dinastia Han que se observa um dos períodos de maior desenvolvimento econômico, cultural e de conhecimentos científicos da China antiga. Invenção do papel e da bússola, experiências com dissecação de cadáver e cirurgias com anestesia, uso de ervas e prática da acupuntura na cura de doenças, desenvolvimento de conceitos matemáticos são alguns exemplos das realizações chinesas desse período. Aqui também pode-se relacionar presente-passado, observando as permanên-

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cias. Além disso, o texto da seção Eu também posso participar enseja uma reflexão sobre o uso, reutilização e reciclagem de papel. É também nesse período que se verifica um maior contato com o Ocidente, o que pode ser demonstrado com a leitura do boxe A Rota da Seda.

Sugestões de leitura FAirbAnk, John king; GOldmAn, merle. China: uma nova História. Porto Alegre: l&Pm, 2006. lOVEll, Julia. Grande muralha: a China contra o mundo. rio de Janeiro: record, 2008.

Sugestão de site www.cultural-china.com/ – Site em inglês sobre diferentes aspectos da história e cultura chinesas. Acesso em: 28 jan. 2013.

Enquanto ¡sso... O Japão antigo Diálogos Atividade interdisciplinar com línguas. A escrita ideográfica consiste na representação das ideias por meio de sinais que reproduzem objetos concretos; ou seja, ela não se vale de associações gráficas e abstratas para representá-los, mas de símbolos que procuram se assemelhar ao próprio objeto representado. Já a escrita fonética é aquela em que os sinais (sílabas ou letras) correspondem a determinados sons. Assim, do ponto de vista visual, esses sinais em nada se assemelham ao formato daquilo que se quer representar. Professor, peça aos alunos que montem pequenos painéis (em papel sulfite ou cartolina) com os exemplos desenhados. Exponha os painéis na classe. isso pode ajudar os alunos a compreender aspectos fundamentais de cada tipo de escrita, que nem sempre são compreensíveis apenas com a exposição dos conceitos.

Organizando as ideias 1. Segundo pesquisadores, por volta de 5000 a.C. surgiram as primeiras aldeias à margem dos rios, sob liderança feminina e onde se iniciou a prática da agricultura. Aos poucos, esses povoados formaram pequenos Estados, cujo poder era transmitido por laços familiares. Por volta de 2200 a.C., um dos chefes, Yü, o Grande, tornou-se rei, unificando esses pequenos Estados e dando origem à dinastia Xia. 2. A dinastia Shang ampliou o território chinês de 1 600 km² para uma área de 100 mil km²; houve no período um notável florescimento cultural, com a criação da escrita primitiva chinesa, o desenvolvimento do calendário com 365 dias, a criação da moeda, de instrumentos musicais e a invenção da técnica de fabricação da seda. 3. Entre 475 a.C. e 221 a.C., a China passou por um conturbado período político, no qual vários reinos entraram em luta pela hegemonia do território chinês. Essa profunda crise política e social provocou a criação de teorias filosóficas, como o taoismo e o confucionismo, que pretendiam solucionar as disputas sangrentas e definir um papel mais equilibrado para o Estado, a sociedade e os indivíduos. Esse período só

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chegou ao fim com a vitória do reino de Qin, sob a liderança de Ying Zheng, que estabeleceu uma nova dinastia, dando início à fase imperial chinesa. 4. Ying Zheng imprimiu um caráter fortemente centralizador ao seu governo, entre 221 a.C. e 210 a.C. Padronizou o sistema de pesos e medidas e os diferentes tipos de escrita, criou um rígido conjunto de leis e construiu estradas, facilitando a comunicação e o transporte entre as províncias do império. Para defender o território de invasões, mandou construir a muralha da China, com 4 200 km de extensão. Foram mobilizados nessa tarefa mais de 1 milhão de trabalhadores. 5. A dinastia Han governou a China a partir de 206 a.C. até o século iii d.C. inspirados na filosofia de Confúcio, os Han conduziram a China a um notável desenvolvimento econômico e cultural, significativos avanços tecnológicos na agricultura (introdução do arado de boi, instrumentos de ferro e canais de irrigação) e a ampliação dos laços comerciais com povos vizinhos e com o Ocidente, através da rota da Seda. 6. Para Confúcio, uma sociedade só poderia ter harmonia, isto é, estar amparada na ordem e na justiça, por meio da capacidade de amar, da prática da bondade e do bem, do respeito e do interesse para com o próximo. 7. A rota da Seda era um sistema de estradas de aproximadamente 7 mil quilômetros de extensão, construído a partir das viagens e descobertas de Chang-Ch’ien, emissário do imperador Wu-Ti. Construídas, a princípio, para que o imperador chinês comprasse cavalos na Ásia central, as estradas dessa rota serviram também para que mercadores chineses e ocidentais realizassem trocas comerciais. A partir do século X, a rota da Seda entrou em declínio e as relações entre a China e o Ocidente também se reduziram pouco a pouco. 8. Como parte do legado cultural e científico desse período da civilização chinesa, temos: a técnica de fabricação da seda a partir dos casulos do bicho-da-seda, a filosofia de Confúcio, os monumentos históricos, como a Grande muralha, instrumentos de medição da direção dos ventos, o sismógrafo, conceitos matemáticos, a bússola, o relógio de sol e de água, as técnicas de fabricação do papel, as práticas de medicina milenar, como a acupuntura, etc.

Hora de ReFLeTiR O desenvolvimento do conceito de “cidade educadora” liga-se a experiências desenvolvidas nos últimos anos, sobretudo na cidade de barcelona (Espanha). Tem por princípio o alargamento das fronteiras da educação para além da instituição escolar, com base na corresponsabilização dos cidadãos para que, em conjunto, de forma organizada e participativa, remodelem o uso do espaço público e da vida comunitária. A seguir, para subsidiar o trabalho do professor, destacamos um trecho adaptado do livro A cidade como projeto educativo, organizado pelos autores espanhóis Carmen Gómez-Granell e ignácio Vila (Trad. daisy Vaz de moraes. Porto Alegre: Artmed, 2003).

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Os desafios da sociedade contemporânea exigem o envolvimento de toda a sociedade e a introdução de modificações em nossas cidades que reformulem comportamentos, hábitos e espaços de interação para favorecer a educação integral e cidadã, assumindo o importante papel de cidades educadoras [...] O conceito de comunidade educativa aparece em nossa sociedade atual como uma necessidade sentida pelas próprias instituições escolares, que reconhecem a sua incapacidade para assumir sozinhas os atuais conceitos de educação integral. Os educadores constatam a inutilidade de seus esforços para transmitir alguns valores e atitudes educativas que, se forem contraditórios com o contexto, nunca chegarão a fazer parte da vida de seus alunos. [...] Assim, não faz sentido manter em nossas salas de aula um discurso bem-intencionado sobre a poluição e a reciclagem de matérias-primas enquanto as crianças veem seus vizinhos jogarem lixo na rua. Nossa sociedade não pode encomendar dos educadores o trabalho, condenado ao fracasso, de pregar em suas aulas valores e atitudes que a comunidade não assume como próprios. A conclusão é evidente: precisamos que nossas comunidades se envolvam na defesa dos valores educativos mais importantes, alguns deles vitais para sua própria manutenção. Não é possível continuar pensando em algumas cidades nas quais se exija de seus administradores que solucionem problemas tão importantes como o do transporte ou o da poluição enquanto os cidadãos continuam com seus hábitos não solidários, decididos a prosseguir pensando que tais problemas devem ser solucionados por “outros” para que se siga fazendo o de sempre [...]. GÓMEZ-GRANELL, Carmen; VILA, D. V. de Moraes (Org.). A cidade como projeto educativo. Porto Alegre: Artmed, 2003.

Capítulo 7

As civilizações da Índia Conteúdos e procedimentos sugeridos Este capítulo trata das origens da complexa sociedade indiana e de sua grande diversidade religiosa e cultural. Conhecer essas origens possibilita compreender alguns aspectos dessa sociedade na atualidade, como a organização em castas (Veja o Texto complementar). Sobre as antigas tradições indianas, o texto Contradições indianas, da seção Passado presente, traz informações que ampliam o estudo dos conteúdos e propiciam uma rica discussão com os alunos, como, por exemplo, a análise de mudanças e permanências na sociedade indiana e de seus contrastes. É interessante observar que a história milenar da Índia compreende invasões e domínios por outros povos, mas que se mantiveram elementos de sua cultura. Com relação à civilização dravidiana, é interessante destacar a arquitetura das cidades (avenidas, plataformas e sistemas de água e esgoto) e o artesanato (de roupas de algodão, joias e utensílios domésticos) comercializado com outros povos (como os mesopotâmios, por exemplo). Tal destaque pode ajudar os alunos a compreenderem o desenvolvimento dessa ci-

vilização e o fascínio que ela deve ter despertado nos invasores arianos, guerreiros e nômades, que acabaram promovendo uma mescla de culturas, cujo principal resultado foi o hinduísmo e a estruturação da sociedade indiana em castas.

Texto complementar Apesar de ilegal desde 1950, o sistema de castas ainda faz parte da cultura indiana e está arraigado em suas relações sociais. O texto a seguir, retirado da revista National Geographic Brasil, aborda certos aspectos da vida dos párias, também chamados de intocáveis. Nascer hindu na Índia é entrar para o sistema de castas, uma das mais antigas formas de estratificação ainda em vigor. Arraigado na cultura indiana há 1,5 mil anos, o sistema segue um preceito básico: todos são criados desiguais. A hierarquização da sociedade hindu originou-se de uma lenda na qual os quatro principais grupos, ou varnas, emergem de um ser primordial. Da boca, vêm os brâmanes – sacerdotes e mestres. Dos braços, os xátrias – governantes e soldados. Das coxas, os vaixás – mercadores e negociantes – e, dos pés, os sudras – trabalhadores braçais. Cada varna, por sua vez, abrange centenas de castas e subcastas hereditárias, cada qual com hierarquia própria. Um quinto grupo consiste nas pessoas que são achuta, ou intocáveis. Não vieram do ser primordial. Eles são os excluídos – pessoas demasiado impuras para classificar-se como seres dignos. [...] Os intocáveis são evitados, insultados, proibidos de frequentar templos e casas de castas superiores, obrigados a comer e beber em utensílios separados em lugares públicos e, em casos extremos mas não incomuns, são estuprados, queimados, linchados e baleados. O antigo sistema de crença que criou os intocáveis prepondera sobre a lei moderna. [...] Um pai ou uma mãe intocável gera filhos intocáveis, marcados como impuros desde o momento em que começam a respirar. [...] Os intocáveis executam o “trabalho sujo” da sociedade – atividade que requer contato físico com sangue e excrementos humanos. Os intocáveis cremam os mortos, limpam latrinas, cortam cordões umbilicais, removem animais mortos das ruas, curtem couro, varrem sarjeta. Esses trabalhos, e a condição de intocável, são transmitidos aos descendentes. Mesmo os numerosos intocáveis que exercem serviços “limpos”, principalmente trabalhos agrícolas mal remunerados em terras de grandes proprietários, são considerados impuros. [...] É verdade que, pelo menos na esfera pública, os intocáveis fizeram progresso desde o tempo em que eram espancados se sua sombra tocasse alguém de casta superior, usavam sinos para alertar de sua aproximação e levavam baldes para que não contaminassem o chão ao cuspir. Eles não podiam entrar em escolas nem se sentar em nenhum banco perto de alguém de casta superior. A constituição de 1950 impõe um sistema de cotas em que são reservados cargos na legislatura federal em proporção igual à dos intocáveis na população: 15%.[...]

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Lugares reservados aos intocáveis têm também em legislaturas estaduais, conselhos de aldeia, no serviço público e nas salas das universidades. [...] Apesar de todas as leis, porém, o cerne do sistema de castas segue inalterado. [...] [Isso por que] o sistema de castas hindu tem seu próprio manual de instruções. As Leis de Manu, coligidas há pelo menos 2 mil anos por sacerdotes brâmanes, prescrevem para cada varna o que comer, quem desposar, como ganhar dinheiro, quando lutar, como manter-se limpo, a quem evitar. Extraído de: O´NEILL, Tom. National Geographic Brasil. Junho/2003, p. 44-51.

Sugestão de leitura MELLO, Patrícia Campos. Índia: da miséria à potência. São Paulo: Planeta, 2008.

Organizando aS iDEiaS 1. Em virtude das cheias anuais do rio Indo, decorrentes do degelo do Himalaia, cidades como Mohenjo-Daro eram erguidas sobre plataformas de terra batida e entulho que chegavam a atingir até 12 metros de altura. Os dravidianos eram um povo de pele escura que, por volta de 3000 a.C., ergueram suas cidades ao longo do rio Indo. As residências, de tijolos de barro cozido, contavam com sistema de água e esgoto. Os dravidianos também fabricavam e comercializavam produtos como joias, utensílios domésticos, brinquedos e roupas de algodão, técnica de tecelagem inventada por eles. 2. Ariano é o nome genérico dado às pessoas de pele clara, originárias de algumas dos cerca de cinquenta povos nômades que habitavam a região do Cáucaso (atuais Rússia, Geórgia, Azerbaijão e Armênia). Depois de instalados no vale do rio Ganges, os arianos passaram a viver como sedentários. Muito religiosos, foi entre eles que surgiu o hinduísmo, crença religiosa que passou a reger, praticamente, todos os aspectos de sua vida cotidiana. 3. Por volta do segundo milênio, os arianos se estabeleceram no vale do rio Indo e se tornaram sedentários, incorporando aspectos da cultura dravidiana, como o vocabulário e a religião. A mistura de crenças religiosas desses povos deu origem ao hinduísmo, conjunto de práticas religiosas que exerceu e ainda exerce papel fundamental na vida cotidiana e na organização social dos indianos. Os fundamentos do hinduísmo estão registrados no Rig Veda, ou “livros do conhecimento”, uma coletânea de 1 028 hinos. Os hinduístas acreditam na existência de muitos deuses e na reencarnação. 4. Os sacerdotes brâmanes se destacaram entre as lideranças políticas e religiosas dos árias (ou arianos), criando complexos rituais religiosos e valorizando demasiadamente as suas funções. Esses sacerdotes afirmavam que eram capazes de conversar diretamente com os deuses. Por isso, ganharam respeito e reconhecimento da população e dos próprios líderes políticos. Eles criaram diversas regras que se tornaram fundamentais para a maior parte da sociedade hindu, como as que estabeleceram um rígido siste50

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ma de castas na Índia. O sistema de castas era um tipo de estratificação social caracterizado por grupos sociais fechados e ligados às mesmas profissões ou funções sociais. Não havia passagem de uma casta para a outra, pois o nascimento definia o lugar social dos indivíduos. Na origem do bramanismo, as castas mais importantes eram formadas pelos árias. Os sacerdotes (os brâmanes) estavam no topo da hierarquia social, seguidos pelos xátrias (nobres, guerreiros e administradores) e pelos vaixás (comerciantes). Entre os não arianos, vinham os sudras (artesãos ou trabalhadores manuais) e os párias, excluídos da sociedade que estavam proibidos de estudar, ouvir os hinos religiosos e viver nas cidades. 5. Em linhas gerais, o budismo e o jainismo afirmavam que cabia ao indivíduo realizar seu próprio destino, sem necessidade de adorar deuses e praticar complexos rituais, como afirmavam os sacerdotes brâmanes. Essas novas religiões contrariavam, portanto, a divisão em castas e os privilégios que os sacerdotes desfrutavam numa organização social rígida e hierarquizada como era a sociedade védica.

Hora DE rEFlETir O fato de uma considerável porcentagem de brasileiros não contarem com saneamento básico reflete o problema habitacional do país. Atualmente, existem no Brasil milhões de moradias construídas em condições precárias, muitas delas em situação irregular, erguidas em áreas impróprias – geralmente invadidas e ocupadas em loteamentos clandestinos –, sem aprovação ou controle do poder público. Essa situação tem suas raízes no processo sofrido pela maioria das cidades médias e grandes do país nas últimas décadas: um inchaço provocado pelo fluxo migratório campo-cidade. Aliado a esse fator, mais recentemente observa-se um processo de pauperização de parte da p