TONIN, Thays (org.) Esperançar. Catálogo Visual. Exposição Coletiva VII SIGAM. Pelotas, 2022.

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A R T I S T A S

J e s s i c a P o r c i u n c u l a

P a t r e z i S i l v a

R i c a r d o A y r e s

K a t i F e r r e i r a

D a r i a n e M a r t i ó l

L a r i s s a S c h i p

M a r t h a G o f r e

P a m F o g a ç a

A l i c e P o r t o

A d r i e n e C o e l h o

v i a G o d o y C o l l a r e s

C U R A D O R I A

J u l i a P e m a

T h a y s T o n i n

esperançar

Catálogo Visual

SIO INTERNACIONAL RO ARTE E MEMÓRIA

ISBN 978-65-00-63599-7

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2 0 2 2

O R G A N I Z A Ç Ã O D O V I I S I G A M

Nádia da Cruz Senna

Ursula Rosa da Silva

Rosângela Fachel de Medeiros

Larissa Patron Spieker

Thays Tonin

Vanessa Cristina Dias

Julia Pema

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C O M I S S Ã O E D I T O R I A L

U R S U L A R . D A S I L A

N A D I A D A C R U Z S E N N A

R E V I S Ã O D E T E X T O

V A N E S S A D I A S

Nádia da Cruz Senna, Ursula Rosa da Silva, Larissa Patron Spieker, Thays Tonin, Julia Pema e Jessica Porciuncula

A P O I O E R E A L I Z A Ç Ã O :

Dados internacionas de catalogação da Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

TONIN, Thays

* Esperançar: catálogo visual / Thays Tonin (org ) - Pelotas, 2022

-- 1 ed -- UFPEL/Arte na Escola, 2023 Livro Digital

ISBN: 978-65-00-63599-7

1. Artes. 2. Arte - Catálogos. 3. Exposição Coletiva. I. Arte multimídia. II. Curadoria PEMA, Julia; TONIN, Thays III Universidade Federal de Pelotas IV Caixa de Pandora (grupo de pesquisa/CNPQ)

LCT 7 01(81)(091)

* CDD-709

Índices para catálogo sistemático:

1 Arte: História da Arte - 709; Arte na Escola / Eventos internacionais, UFPEL

E X T O S

VII SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE GÊNERO ARTE E MEMÓRIA

e s p e r a n ç a r

Catálogo Visual

Thays Tonin (org.)

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É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo

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Paulo Freire

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VII SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE GÊNERO ARTE E MEMÓRIA SUMÁRIO

Apresentação do simpósio 08 "Simpósio Internacional Gênero Arte e memória – SIGAM: breve histórico do evento"....................................................................................... 10 Nadia Senna e Ursula Silva "Tempos estranhos"............................................................ 32 Thays Tonin "Espaço"....................................................................................36 Julia Pema "Aqui nunca mais tu." Larissa Schip.............................................................................40 "uma antropofagia fadada à desnutrição corporações, nº3 Jessica Porciuncula".........................................................................48 TEXTO CURATORIAL....................................................................54 THAYS TONIN E JULIA PEMA Material de mediação educativa........................................58 Vistas das exposição & Obras.......................................................66 4 6

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Apresentação do evento

O VII SIGAM – Simpósio Internacional de Gênero, Arte e Memória, organizado pelo Grupo de Pesquisa Caixa de Pandora do Centro de Artes da Universidade Federal de Pelotas está previsto para ocorrer de 21 a 23 de novembro de 2022. O evento nesta edição evoca a Esperança como potência e prática de resistência, com intenção de refletir sobre o momento atual da Terra, assolada por um modo de vida insustentável, com excessos de toda ordem que ameaçam a sobrevivência das espécies, das comunidades, a nossa própria existência. Porque é preciso reativar a conexão com a natureza que é parte de nós, força geratriz, alteridade e transformação, convocamos a comunidade acadêmica e interessada para praticar a esperança, experimentar a inquietação criativa, reforçar posturas crítico-reflexivas, existências e reexistências. A esperança preservada por Pandora é a confiança de que é possível alcançar aquilo que se deseja. A esperança é uma abertura, para o futuro, para outras experimentações, possibilitando aprendizados, partilhas, para no coletivo construirmos alternativas.

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Simpósio Internacional Gênero Arte e memória – SIGAM: breve histórico do evento

Nádia Senna Úrsula Silva

O Simpósio Internacional de Gênero, Arte e memória surgiu pela necessidade de constituir um espaço de discussão, crítica e visibilidade pautado no feminismo e nos estudos de gênero, visando o resgate da memória de protagonismos femininos e feministas na arte. A intenção foi estabelecer e fomentar uma rede de pesquisadoras, promover ações poéticas e educativas para superar silenciamentos na história da arte, ativar revisões, motivar percepções, experiências e aprendizado. O evento desde sua primeira edição é organizado pelo grupo de pesquisa Caixa de Pandora, constituído em 2008, com interesse no estudo das mulheres artistas e mulheres pensadoras, formado por pesquisadoras, docentes, discentes da pós-graduação e da graduação em artes e humanidades da UFPel.

Em 2008 aconteceu o I SIGAM decorrente das demandas da comunidade acadêmica, profissionais e interessados. O primeiro evento possibilitou a visibilidade do grupo de pesquisa e das práticas metodológicas experimentadas, calcadas na flexibilidade, para comportar acasos, encontros e inovações.

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breve histórico do evento

As pesquisas abordam protagonismos femininos na arte e na cultura, trazendo téoricas, artistas e educadoras, cujo debate alcança questões de representação e representatividade, relações de poder e intercoluções entre o público e o privado. Cabe ressaltar que este evento se instituiu por constatarmos a inexistência de grupos de trabalho com foco em arte e gênero, mesmo em seminários dedicados, como o Fazendo Gênero (UFSC, RS), do qual participamos desde as primeiras edições. Por conta dessa falta de “um teto todo seu” (WOLF, 1929) e do interesse crescente pela linha de estudos de gênero, organizamos o I SIGAM, com uma programação que incluiu 44 trabalhos apresentados nos eixos temáticos, pesquisadoras palestrantes da UFPel, UFRGS, FURG e UNISINOS e a conferência de abertura sobre a “razão poética” no pensamento de Maria Zambrano por Alcira Bonilla da UBA/Argentina.

O II SIGAM ocorreu em 2009 e atingiu um maior número de participantes, com destaque para o caráter muldisciplinar dos trabalhos e adesão de pesquisadoras de áreas afins de Pelotas e da região da fronteira que participaram do evento Nessa edição organizamos Grupos de Trabalhos, com ementas e coordenados pelas pesquisadoras da UFPel: Filosofia e Educação - Diálogos e relações de Gênero e Memória; História, Gênero e Memória; Gênero nos discursos e nas práticas midiáticas e estéticas; Gênero e memória em uma perspectiva interdisciplinar. Contamos com 69 trabalhos apresentados e debatidos nos GTs.

O apoio da FAPERGS e do Mestrado em Memória Social e Patrimônio

Cultural possibilitou trazer as palestrantes: Gladys Villegas Morales (Universidad Veracruzana, México); Joana Maria Pedro (História/UFSC); Ana Miriam Wuensch (UnB/DF); Rita Terezinha Schmidt (Letras/UFRGS) e Susana Alicia Rodriguez (Universidad Nacional de Salta/Argentina) que integraram as mesas de trabalho Destacamos o trabalho “Mujeres que miran: miradas de mujer” apresentado pelas pesquisadoras Laura Sacchetti, Maria Rosa Figari e María Marta Hovhannessiando do Programa de Investigación y Producción Cultura, Arte y Género da UNA/BA, que deu origem ao livro organizados por elas “Voces y miradas femeninas: cultura, arte y género”, publicado em 2011. O avanço das pesquisas poéticas na linha de arte e gênero motivou a abertura de edital para a realização da exposição “Todos os dons de Pandora”, que aconteceu no Centro Cultural Adail Bento Costa, SECULT Pelotas, RS. Promovemos outras ações de ensino, pesquisa e extensão, como por exemplo o Seminário Gênero e Docência: o feminino na arte e na filosofia que envolveu professores atuantes junto às escolas de Pelotas e Região Sul do estado.

Nos anos que se seguiram, ampliamos as ações promovendo oficinas, aulas abertas, ciclos de debates, mostras didáticas, exibição de vídeos e minicursos buscando consolidar a pesquisa em arte e gênero junto a nossa instituição. É sobre esse fazer articulado com reflexão crítica que construimos a base fundante para o evento maior A interação com os

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grupos de pesquisa oriundos das instituições da região sul e da fronteira, com destaque para pesquisadoras do Uruguai e Argentina, se faz notar nas ações em conjunto e na parceria para efetivação do SIGAM Constatamos o avanço da pesquisa nas diferentes linguagens da arte, compreendendo questões de gênero e desdobramentos, na graduação e na pós-graduação. Acompanhamos o surgimento de coletivos de artistas feministas, grupos autônomos de mulheres, núcleos de estudos de gênero e programas de ações afirmativas. O grupo se restruturou a partir do interesse dos novos participantes, com foco nas propostas transgressoras, nas expressões poéticas e reflexivas que questionam padrões hegemônicos em busca da diversidade, outros modos de ver e estar no mundo Mantivemos a interdisciplinaridade que nos caracteriza, a articulação com a comunidade e optamos pela realização bienal do evento, para dar conta das novas exigências.

O III SIGAM aconteceu em 2011 compreendendo a educação do olhar sensível, para trazer as questões de arte e gênero relacionadas ao ensino da arte e a formação docente na contemporaneidade. Contamos com a presença de pesquisadores da região e da fronteira, parceiros desde sempre, e avançamos no intercâmbio com grupos de pesquisadoras de arte, gênero e comunicação, concretizado pela vinda da Profa. Miriam

Tavares, Coordenadora do Centro de Investigação em Artes e Comunicação da Universidade do Algarve, Portugal, Profa. Silvana Sciortino Universidad

Nacional de La Plata, Argentina, Kathrin Rosenfiled e Magali Mendes de

breve histórico do evento

Menezes da UFRGS. Integraram a comissão científica, compuseram as mesas de trabalho, ministraram oficinas e coordenaram GTs pesquisadoras da UFPel, UFSM e FURG. A programação também compreendeu a mostra de arte “Olhares de Pandora” e a apresentação “Mulheres” resultante da disciplina Montagem de Espetáculo do Curso de Dança –Licenciatura/UFPel.

Devido ao calendário acadêmico extraordinário adotado em 2013 na UFPel, para recuperação das aulas e atividades, optamos pelo adiamento do evento, cuja nova edição ocorreu em 2014. O IV SIGAM propôs desvelar narrativas e implicações trazendo como tema “Desvelando Pandora: imagens, identidades e discursos” O debate avançou sobre subjetividades, iconologias e discursos entabulados pelo feminismo e ativismo de gênero conforme comparecem nas diferentes manifestações culturais e artísticas. A intenção foi alcançar dimensões políticas restritivas que persistem e se expandem através de dispositivos técnicos e simbólicos, apesar do protagonismo feminista e da arte insubordinada forjada pelas artistas, que incorpora diferenças e desconstrói normas e convenções culturais. Contamos com o apoio e a parceria das pesquisadoras: Luciana Gruppelli Loponte da UFRGS, Marlen de Martino e Eliane Campello da FURG e grupo de docentes e discentes da UFPel, que participaram de diferentes etapas que garantiram a efetivação e o engrandecimento do nosso evento.

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breve histórico do evento

As professoras Yolanda Lopez Figueroa da Universidad de Puerto Rico e Alejandra Niedermaier da Universidade de Palermo e Instituto

Universitario Nacional de Artes da Argentina foram nossas convidadas internacionais, fomentando o debate sobre experiencias de tranversalidades e polissemias nos estudos de gênero latinoamericanos. Compuseram a mesa de abertura representantes da Delegacia da Mulher; do Centro de Acolhimento a Mulheres Vítimas de Violência e do Conselho Municipal da Mulher, trazendo um panorama da rede de enfrentamento à violência contra a mulher em nossa cidade e região, discutindo metodologias de atenção integral, acompanhamento e promoção de autonomia às vítimas. Essa edição se caracterizou pela participação de coletivos, ONGs, associações e líderes comunitários interessados nos temas relacionados a trabalho, modos de fazer, modos de expressão, conflitos e possibilidades de compreensão das formas de representação dos gêneros através da história das culturas A produção poética ganhou visibilidade através da Mostra de Arte “Desvelando Pandora”, que aconteceu no Espaço Cultural e Artístico da Laneira Pelotas–RS, Brasil Destacamos como ponto alto a instalação participativa “Memórias Compartilhadas”

realizada pela artista Isabela Sielski (IFSC). Consistiu em uma ação de imersão no barro de objetos guardados que a artista nos convidou para fazermos a partilha e o desapego, resultando em um imenso “tapete” das memórias.

O V SIGAM ‒ Transgressões de Pandora: subjetividades e polifonias, ocorreu em 2016, pautando o debate em torno das subjetividades, das memórias, do secreto e do confessional, da construção de acervos e arquivos, das práticas coletivas nas poéticas e nas escritas femininas e feministas Para dar conta dos temas contamos com 12 Grupos de Trabalho, coordenados por pesquisadoras das instituições parceiras, com palestrantes e conferencistas nacionais e internacionais, oficineiros e apresentações artísticas. O ponto alto desta edição foi a manifestação artística que recriou a ceia de Judy Chicago. Convidamos 39 mulheres artistas, pesquisadoras e educadoras para homenagear artistas e pensadoras, das quais somos herdeiras, reverenciando trajetórias e processos em busca de legitimidade e reconhecimento. Compomos uma mesa triangular, onde dispomos as iguarias que distinguiam as artistas, realizando uma ação artística, participativa e efêmera, que valora a culinária como expressão cultural, como experiência que apela para todos os sentidos Juntas comemoramos o legado dessas protagonistas, ousadas e transgressoras, cumprindo um ritual de confraternização que abriu os trabalhos, para dar lugar as presenças, para que as vozes se façam ouvir e os feitos reverberem.

Essa edição celebrou a maturidade do grupo de pesquisa, a capacidade de reunir, colocar em diálogo, afetar, descobrir e provocar mudanças

Somamos forças, ampliamos a nossa rede de pesquisadores estabelecendo conexões com grupos de diversas regiões do Brasil e de outros países.

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breve histórico do evento

Do grupo internacional contamos com a presença da profa. Ana Gabriela Vilela Macedo da Universidade do Minho, Portugal, que proferiu a conferência de abertura, apresentando a pesquisa sobre a artista Paula Rego; do prof. Gonzalo Vicci da Universidad de La República de Uruguai, que apresentou o trabalho desenvolvido com alunos da rede escolar sobre produção em cultura visual, discursos e influências sobre corpos e comportamentos e, da profa Roxana Gil Muñoz, Dirección General de Cultura y Educación La Plata, Buenos Aires, Argentina que contribuiu com o debate sobre ações e políticas educacionais voltadas para a incluisão de jovens estudantes em situação de risco, exclusão e vulnerabilidade social. Destacamos a palestra da profa. Ingrid Cyfer da UNIFESP, São Paulo, sobre reinvidicações e reverberações do movimento feminista frente às políticas, grupos sociais e culturais na contemporaneidade e a palestra da profa. Luana Tvardovskas, UNICAMP, Campinas, sobre arte, ativismo e crítica feminista em torno da obra de Ana Miguel, Rosana Paulino e Cristina Salgado. Contamos com participações de pesquisadoras da UFPEL, UCPEL, UFRGS, FURG, UFSM, UNIPAMPA, IFSUL e IFRS que ampliaram e engrandeceram a programação para além dos três dias inicialmente previstos. Oficinas, rodas de conversa e atrações culturais aconteceram no pré-evento. Foram 97 trabalhos apresentados, distribuidos entre os 12 GTs, também tivemos sessões de autógrafos e lançamento de livros. A

exposição “Transgressões de Pandora” aconteceu na galeria de arte A

SALA, CA/UFPEL com espaço para performances, vídeos, mediação e fala com artistas

O V SIGAM possibilitou ampliar intercâmbios e firmar convênios, confirmando a consolidação do evento como espaço de discussão e de visibilidade para a pesquisa em arte, gênero e memória. Em 2018, publicamos o e-book “Transgressões de Pandora: subjetividades e polifonias” reunindo as palestras e artigos selecionados pelas coordenadoras dos GTs. Em função da crise política, greve de trabalhadores e da falta de recursos adiamos a nova edição do evento para 2019.

O VI SIGAM teve como tema “Protagonismos de Pandora: mulheres artistas, professoras e pesquisadoras” voltado para as contribuições pioneiras de arte educadoras no âmbito regional, nacional e internacional, com destaque para a dimensão feminina e feminista implicada nas realizações. Revisitamos esses onze anos de existência do grupo de pesquisa para dimensionar trajetórias, contemplar avanços e retrocessos, revelar ousadias e táticas de atuação em prol da expressão de gênero e superação de disparidades instituídas. Desta vez não contamos com o apoio financeiro da FAPERGS, apesar do reconhecimento do mérito da proposta. Experimentamos o formato da palestra em vídeo conferência para nossa convidada internacional a profa. Africa Cabanillas da Universidade Nacional de Educação a Distância, Madri, que apresentou a pesquisa sobre arte e crítica em torno de mulheres pintoras da Espanha. Contamos com a participação de egressas do nosso curso, professores e professoras do CA/UFPel, UFRGS e IFSUL que nos brindaram com

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breve histórico do evento

palestras/apresentações artísticas que homenagearam as arte educadoras: Arlinda Nunes, Iara Cava, Inah Costa, Therezinha Röhrig , Assunção Gonçalves, Dona Conceição dos mil sambas entre outras. Destacamos a vinda da profa. Ana Paula Simioni, USP, São Paulo, que nos brindou com a palestra sobre artistas mulheres na história da arte brasileira, pesquisa que originou várias publicações, como a obra “Profissão Artista: pintoras e escultoras acadêmicas brasileiras”, leitura de referência na linha de estudos de arte e gênero. Foram apresentados e debatidos 64 trabalhos nos 12 GTs. A exposição “PANDORA” integrou a programação, ocupando a Galeria A Sala e a mostra de ilustrações “Arte Educadoras do Sul” ocupou a Galeria Suldesign do CA/UFPEL.

O VII SIGAM aconteceu em 2022, de forma híbrida, com atividades presenciais e remotas. Nessa edição evocamos a “Esperança como potência e prática de resistência” para refletir sobre o momento atual da Terra, assolada por um modo de vida insustentável, com excessos de toda ordem que ameaçam a sobrevivência das espécies, das comunidades, a nossa própria existência Para reativar a conexão com a natureza, força geratriz, alteridade e transformação, contamos com a motivação e a participação ativa da comunidade acadêmica para experimentar, compartilhar e praticar o pensamento sensível. A esperança preservada por Pandora é a confiança de que é possível alcançar aquilo que se deseja. A esperança é uma abertura, para o futuro, para outras experimentações, possibilitando aprendizados, partilhas, para no coletivo construirmos alternativas.

O evento inaugurou um formato híbrido, com atividades presenciais e remotas, otimizando recursos e aproveitando a experiência adquirida na organização de eventos pela internet Essa modalidade oportunizou a participação de pesquisadoras internacionais do México e da Argentina, bem como de pesquisadores nacionais em rodas de conversa e com trabalhos inscritos nos GTs. A programação também compreendeu conferências, mesas de debate, apresentações culturais, oficinas, mostra de curtas, lançamento de livros e a exposição “Esperançar”.

As articulações promovidas nas mesas de trabalho, com debates reunindo autoridades reconhecidas pela pesquisa que desenvolvem em arte, gênero e memória, em nível nacional e internacional, trouxeram questões contemporâneas que ultrapassam fronteiras para resgatar o direito à vida, para educar e pensar as experiências humanas em prol de um futuro mais igualitário e harmonioso. Nesse viés destacamos as palestras “La mujer y la migración transfronteriza en el sur de México” proferida pela profa. Paula Ivette Pegueros Vidal; “Cuerpos, espacio público y activismos de género Politización y performatividad en la experiencia de mujeres jóvenes en la Argentina” pela profa. Silvia Elizalde (UNA/AR);

“Transfronteiras Baldias” com as professoras Paula Daniela Bianchi, María Fernanda Piderit e Lucia Caminada do Consejo Nacional de Investigaciones

Científicas y Técnicas, CONICET/AR Sobre feminismo, inovações ético/ poéticas protagonizadas pelas artistas brasileiras contemporâneas contamos com a presença das profas Talita Trizoli (USP/São Paulo),

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Roberta Barros (UFRJ/ Rio de Janeiro), e Daniela Rosendo (UFSC/Santa Catarina). A equipe reuniu professoras, graduandas e pós-graduandas da UFPEL e das instituições da região que garantiram a relização do evento, se envolvendo com as diferentes atividades previstas e as extraordinárias que se apresentam durante o evento Foram 199 participantes que acompanharam a programação conforme interesses e disponibilidades. Como pré-evento apresentamos a Mostra de Curtas Festival Cineversatil, no auditório do CA/UFPel e para além da programação aconteceu a exposição “Esperançar” no Espaço de Arte Corredor 14. Contou com performances, vídeos, instalações e objetos. Nessa edição distribuimos material didático com informações sobre artistas e obras.

O SIGAM conformou um espaço de discussão iniciado em 2008, para abrigar a reflexão crítica e compartilhar pesquisas, produções artísticas e ações educativas que ultrapassam fronteiras hegemônicas, denunciando a lógica de dominação e exclusão para assegurar direitos e protagonismos. Somos pautadas pelo pensamento feminista, pela valoração da diversidade, das práticas colaborativas e proposições que instauram outros modos de pensar e experienciar arte e vida

Nosso evento se destaca pelo debate e visibilidade que proporciona para essa linha de pesquisa, fomentando o intercâmbio com os grupos de pesquisa e Instituições da região e da fronteira latina, com quem temos desenvolvido pesquisas, eventos e residências artísticas, fazendo

breve histórico do evento

avançar o conhecimento na linha de arte e estudos de gênero. A participação de pesquisadores e grupos de pesquisa ativou parcerias gerando convites para partilhar experiências e inovações que devem reverberar sobre a comunidade acadêmica, egressos, coletivos e interessados.

Cartazes dos eventos e exposições

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Versão gratuita ISSUU

Páginas incompletas!

Para fazer o download do catálogo completo em versão PDF, use o link:

http://bit.ly/Esperancar-VII-SIGAM

ou QR CODE:

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TEMPOS ESTRANHOS

Thays Tonin Curadora

São décadas de avisos: basta uma crise política, já dizia Beauvoir, para lembrarmos que nenhum direito é permanente, que tudo que foi conquistado pode ser questionado, retirado ou deturpado. Conseguir dar continuidade em um evento como o SIGAM, que carrega a palavra “gênero” no seu título há anos, é uma vitória em meio ao tempo sombrio que vivemos, onde leis são novamente criadas para obrigar professoras/es a não falar sobre política e sobre educação sexual O que experienciamos nos últimos anos ainda está por ser “deglutido” Vivemos um período cheio de entrelaçamentos de tempos passados, de valores sociais que pensávamos haver deixado no século anterior. Não deixamos.

Descobrimos que “o mundo velho está morrendo”, mas que, ainda, “o novo demora a nascer”. Essas palavras são de Antonio Gramsci, escritas na primeira metade do século XX, as quais deveriam falar de um mundo entre guerras, de um mundo marcado pela desumanidade do nazismo... um mundo-passado. Infelizmente, essas palavras, retomadas na obra de 2021 de Alfredo Jaar, tornam real o que sentimos nesses últimos anos, pois foi e é “neste claro-escuro que nascem os monstros”.

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TEMPO

Esta exposição e catálogo carregam o peso de uma universidade que se via, até o momento deste evento, sendo asfixiada por políticas

públicas. Não é fácil voltar a respirar, depois de ver tantos monstros ganharem vida, às custas daqueles e daquelas que lutaram para que eles não se fizessem novamente existir.

Mas cá estamos. Respirando de novo. Neste claro-escuro, no limiar, no estertor de um tempo, continuaremos a falar de política, de feminismo, de um mundo-em-obra.

Continuaremos a falar de arte, memória e gênero.

Continuaremos mesmo assim.

O que você leva anos construindo pode ser destruído da noite pro dia.

Construa mesmo assim.

Jaar, 2021

tempos estranhos 34
Larissa Schip Registro da instalação Título: “aqui nunca mais tu” Pelotas, 2022
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ESPAÇO

A exposição Esperançar foi um projeto vinculado ao Corredor 14, ateliê e espaço expositivo independente que resiste no Porto de Pelotas desde 2018. Atualmente, o espaço é gerido por cinco artistas - Julia Pema, Renan Soares, Marta Gofre e Jéssica Porciúncula.

O Corredor, desde a sua fundação, tem sido um espaço de encontro e diálogo entre diferentes fazeres artísticos que amalgama artistas, pesquisadores, curadores, arte-educadores, fotógrafos, designers, produtores culturais, montadores, mediadores e pessoas que são um pouco de tudo e estão entre essas funções. Como um ponto de contato entre os criadores e os públicos em suas especificidades, o Corredor 14 dá espaço para que se desenvolvam e se profissionalizem os produtores locais emergentes, que muitas vezes não encontram outros locais de inserção no circuito das artes. A presença dos artistas, curadores e educadores parceiros molda as atividades do espaço, criando oportunidades de circulação da produção artística contemporânea em artes visuais.

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Julia Pema Curadora

Abrigando exposições de arte contemporânea, projetos culturais, oficinas, cursos de formação, feiras gráficas, palestras, residências e programas de orientação de artistas, performances e outras invenções, esse espaço independente e autogestionado tem como objetivo se articular e difundir a produção dos trabalhadores da arte de Pelotas e região, facilitando também a sua relação com a comunidade. Sua atuação dá tecendo redes com o público espontâneo do bairro, das escolas próximas e da universidade.

O caráter independente de seu funcionamento garante a liberdade em trabalhar com obras experimentais e questionadoras que fogem à regra do mercado da arte, como é o caso da exposição Esperançar, que apresenta trabalhos que repensam a relação com o mundo e propõem modos de vida alternativos, ora por levantar questões feministas e dar a ver corpos dissidentes, rompendo com os papeis tradicionais de gênero, ora por tensionar reflexões sobre a relação do corpo com a natureza que criticam uma visão hegemonicamente androcêntrica de mundo.

E S P E R A N Ç A R
38 espaço
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Aqui nunca mais tu.

Larissa Schip

“redescobrir a fúria Fernando isso foi o que de melhor fizeste por mim” (Francisco Mallmann, em tudo o que leva consigo um nome)

O que acontece no interior? No interior de relações, no interior de nossas casas, na casa ao lado, no apartamento tão próximo que nada se escuta, no apartamento tão próximo que tudo se escuta. Paredes, tetos, portas fechadas: a segurança do lar. Esse lugar de refúgio, privado, onde só se entra quando decidimos abrir a porta.

Em 2020, por conta da pandemia da Covid-19, sofremos com a necessidade de aderir ao confinamento. Surgindo um medo duplo: tenho que sair, mas há um vírus lá fora, um vírus que pode me adoecer, um vírus que deixa milhares de corpos sem vida todos os dias; e não posso sair, não posso deixar ninguém entrar

“eu queria viver tempo suficiente para ver cada um dos nomes que formaram o bolsonarismo

receber variações complexas

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que nomeariam atitudes criminosas a ponto de que não restasse nenhuma dúvida sequer de que ele sim, foi o pior que nos aconteceu”

(Priscila Schip, parte do poema os desejos, em uns ódios)

O isolamento é sempre cruel. O enfrentamento à pandemia que se alastrou foi negligenciado. Dentre as inúmeras consequências deste descaso, destaco um cenário: os números de denúncias de violência doméstica caíram, mas não por terem ocorrido com menos frequência, e sim pelo efeito da porta fechada.

Aqui nunca mais tu. (2022), é um vídeo com duração de 4’9, que mostra um confinamento em uma espécie de casa de vidro. Nele, há uma sonoridade que mistura o som de uma respiração ofegante, ao som ambiente e os ruídos gerados durante a manipulação da câmera de filmagem. Uma metáfora criada em um ambiente portátil: uma caixa de vidro com impressões em transparência que trazem a imagem de um apartamento – sala, cozinha, quarto, banheiro e lavanderia, sem paredes e com os móveis e utensílios formando uma mancha preta, exceto pelo recorte das palavras culpa, vergonha, confusão, isolamento social, e a frase “você sabe que isso é violência?”. Em consequência, o vazado das paredes das palavras tomam a forma do que vemos além da caixa, um jardim verde e a luz do sol que tenta entrar.

E S P E R A N Ç A R
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aqui
tu.
Larissa Schip. Título: “aqui nunca mais tu”. 2022. Fragmentos do vídeo, 4’9 Pelotas, 2022
nunca mais

As palavras surgem de uma reflexão sobre relacionamentos abusivos ligados a heteronormatividade compulsória, mas que ultrapassam relações heterossexuais se estendendo a relacionamentos ditos dissidentes, nesses casos a violência é ainda mais invisibilizada. “você sabe que isso é violência?” carrega o reconhecimento de atos que são imperceptíveis quando não nomeados.

Nomear é reconhecer, coloca em pauta a gravidade da não assistência que nos foi concedida durante anos pandêmicos com um governo genocida na presidência do país. Aqui nunca mais tu. traz esse cenário claustrofóbico, esse período que parecia não ter fim, dia após dia que pareciam sempre os mesmos, enganasse quem não percebeu, que dia após dia mudávamos O interior de nossos corpos durante esse período mudou, não só para quem foi acometido pelo vírus (1) O isolamento tornou nossos corpos doloridos, envelhecemos mais do que esperávamos, o corpo se tornou consciência de ser a única casa em que sempre estivemos. Um corpo que respira, que necessita mais do que observar a luz do sol que tenta entrar pelas frestas.

Hoje, já em 2023, continuamos assistindo aos efeitos de uma necropolítica que há muito convivemos, no entanto, agora respiramos sem máscaras, com a confiança da vacina que percorre nosso interior, podemos atravessar as paredes e colocar a cara no sol. Abraçar sem medo, não estamos sozinhas, vivemos uma vitória na política institucional, mas para quem achava que iríamos soltar as mãos, agora que podemos estar cada vez mais perto, acredito que ninguém solta a mão de ninguém (2)

E S P E R A N Ç A R

aqui

Para a exposição Esperançar, parte do VII SIGAM - Simpósio Internacional de Gênero, Arte e Memória, Esperança como potência e prática de resistência, o vídeo se transformou em uma instalação. Projetado do lado interno de uma janela do Corredor 14, duplica o dentro e o fora já visualizado no trabalho. Pela janela entreaberta lemos o título: Aqui nunca mais tu. gravado no muro do outro lado, já meio distante, um lado externo não acessível durante a mostra

Parte de mim teve receio em realizar este trabalho, parte de mim teve receio em exibi-lo, parte de mim teve receio em escrever este texto, ainda é difícil lembrar deste período e as consequências que ainda vivemos Mas ao olhar Aqui nunca mais tu. pela perspectiva das curadoras Julia Pema e Thays Tonin em Esperançar, reconheço um desvio no jogo, como um último ponto Como uma mudança de roteiro, como declara Paul Preciado “a cada segundo, enquanto um novo ator entra em cena, é possível mudar o roteiro, negar-se a repetir o papel que nos foi designado, modificar o texto, pular um ato A revolução não começa com uma marcha sob o sol, mas com um hiato, uma pausa, um deslocamento mínimo, um desvio no jogo de improvisos aparentes.” (PRECIADO, 2019, p 203)

Olhar para aquela pequena caixa de vidro e saber que não estamos mais do lado de dentro é nomear a pausa, esperançar em busca de ações que podemos exercer para além de reconhecer todas as violências que tocam nossos corpos. Como diz Paulo Freire, “Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo” (FREIRE,

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nunca mais tu.

1992) Declaramos que a partir de agora sabemos, e se adquirimos essa consciência estamos prontas e prontos para um por vir fora da caixa.

Notas de rodapé

(1) Cfr em: https://brasil.elpais.com/eps/2021-08-18/corpos-depandemia.html#Echobox=1629286436 Acesso em: mar, 2023.

(2) Referência a arte de Thereza Nardell, viralizada nas redes sociais no Brasil logo depois da eleição de Jair Bolsonaro, em que aparecem duas mãos dadas e uma rosa com a mensagem: “Ninguém solta a mão de ninguém”. A frase em seguida se tornou forte no movimento feminista nacional.

Referências

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 1992.

MALLMANN, Francisco. tudo o que leva consigo um nome. Rio de Janeiro: José Olympio, 2021.

PRECIADO, Paul B. Teatro da esperança. In: Um apartamento em Urano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

SCHIP Priscila os desejos In: uns ódios [em verso] Curitiba, PR: Publicação própria, 2022,

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Larissa Schip. Título: “aqui nunca mais tu”. 2022. Fragmentos do vídeo, 4’9 Registro da Instalação Pelotas, 2022 aqui nunca mais tu.
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uma antropofagia fadada à desnutrição corporações, nº3

Vemos uma farda petroleira, um cocar guarani, dois cabides, um carretel de metal, um cilindro de concreto, grama sintética e sete cebolas brancas e cruas. Na ação eu chego no espaço vestindo uma roupa social preta e em seguida visto a farda e o cocar, após isso, sento-me sobre o cilindro de concreto e encaro as cebolas a minha frente. Respiro fundo e começo a comer as cebolas cruas, com o objetivo de comer todas as sete, porém, após um bom tempo de choro e vômitos, desisto, minhas forças me levaram a comer cinco cebolas e meia. Em meio às lágrimas levanto-me, retiro a farda e o cocar e os devolvo à parede, visto minhas roupas pretas e me retiro do espaço, deixando lá as cebolas.

A palavra “corporação” do latim corporis e actio, corpo e ação porém uso de “corporações”, no plural, termo usado popularmente para referir a grandes empresas ou ainda a grandes organizações, como a empresa Petrobras grande corporação nacional. Percebo como as ações evocam a atual luta dos povos indígenas na demarcação de terras e o contexto do sistema econômico do petróleo nacional. Além de sensivelmente dar a ver a problemática de um esquecimento de nossas ancestralidades, como uma colonização contemporânea uma exponencial

posta goela abaixo.

industrialização
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Percebo uma antropofagia fadada à desnutrição, que pela falta de pão se come cebolas de uma terra falsa para garantir o choro nosso de cada dia engolindo coisas que não me cabe, filha da pátria, dessa mãe que nunca foi gentil. Confesso aqui que tal ação me deixou mal, eu sabia que seria uma situação forte, mas me surpreendeu. Foi há quase um ano que fui tomada pelo cerne desta ideia: comer cebolas cruas, desde então fiqueia digerindo Realizei a performance na abertura da exposição coletiva Esperançar no Corredor 14 em Pelotas. A primeira cebola foi até fácil, saciar minha curiosidade pelo ato, porém foi ficando cada vez mais difícil engolir, não ousei nos olhos de ninguém ao meu redor, ao mesmo que percebia ninguém se mexer, ouvir apenas meu mastigar, respirações, ameaças de vômito; lembrei-me de toda uma vida, como se fosse uma pequena morte, uma dose de veneno para poder curar-me. Após a performance eu fiquei vomitando por horas à fio, enjoada e com dores de estômago e cabeça, mesmo com o passar dos dias tive que restringir minha dieta à alimentos líquidos pois minha garganta se encontrava muito machucada, a boca trocou de pele por inteira, a língua inchou e desabrochou em feridas devido ao alto nível de acidez em que me submeti. Porém, é curioso compartilhar como minha relação degustativa se deu a partir de tal experiência, surgia-me súbitos desejos por doces, compreendi a beleza do mel como néctar divino, cada fruta que comia era como se fosse a primeira vez. Precisei morrer pela boca, novamente, para renascer e ressignificar meu paladar que em sua literalidade modificoume os sentidos físico, corporais e mentais.

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Uma antropofagia fadada à desnutrição corporações, nº3 Jessica Porciuncula Registro da Instalação Pelotas, 2022 uma antropofagia fadada à desnutriçãocorporações, nº3

“O corpo, como lugar de interdição, é ardentemente desejado, ao mesmo tempo em que, por ser considerado inferior e servil, é menosprezado e maltratado. Exibido como lugar do sofrimento e da exclusão, doente ou ferido, repulsivo, as vezes morto, o corpo denuncia uma condição de abjeção Nessa perspectiva a abjeção é um gesto político, que implica a narração e a exposição do corpo humilhado, do corpo-cadáver, e o retorno permanente de um corpo hipersignificado, que funciona como um suporte eficaz para a política cultural da sociedade pós-industrial ” (MELENDI, 2002)

Quando um corpo que é pessoal e único a cada um coloca-se no lugar de um objeto, ou no lugar de representação de um coletivo corpo também como “lugar de interdição”, como diz Melendi, um “suporte eficaz” e, atribui-se sobre este corpo uma determinada violência, podese apontar às noções dos limiares dos corpos tudo que limita ou reside nos limites do corpo , tanto físicos quanto psicológicos, tanto culturais quanto políticos.

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Texto curatorial

Thays Tonin Julia Pema

É possível respirar de novo. É possível respirar de novo?

Retomar os planos. Retomar os planos?

É preciso estranhar o que foi possível viver nos últimos anos. É preciso reconhecer o desamparo, o estertor sentido. As palavras de ordem de nossas reivindicações democráticas e históricas se esfacelaram, e, acima destas, foram entoados hinos à uma nacionalidade que não reconhecemos. Existir em um Brasil desconhecido, que buscava se esconder em plena vista, inóspito aos corpos dissidentes, às alteridades, àquilo que forma a trama que segura o país foi, certamente, uma tarefa Sísifa. Ainda o é. A denúncia do absurdo e do inimaginável agora experienciado fez parte dos processos artísticos brasileiros como uma maneira de elaborar traumas, processar perdas, mas também, e principalmente, foi e é um modo de abrir caminhos, de oferecer

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“deixas” para outres autores começarem suas narrativas. As artes, entre as ruínas deixadas pela pós-verdade, ainda são espaços para que outras existências expressem, na condição de protagonistas, as ausências de uma língua e cultura que não dá conta da clave arte-vida contemporânea. A arte negocia outras realidades. A arte opera outras realidades? Ansiamos por presenciar caminhos possíveis. Você os vê? As/es/os artistas em exposição dão a ver suas maneiras de reencontrar as palavras, despedaçadas em letras e silêncios, e acreditar em um brasil-emobra. De novo. Novamente. Outra vez.

É possível respirar de novo.

Esperançamo-nos?

Esperançamo-nos.

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Thays Tonin & Julia Pema. Novembro, 2022.

material de mediação educativa

ARTISTAS & BREVE COMENTÁRIOS SOBRE AS OBRAS

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TONIN, Thays (org.) Esperançar. Catálogo Visual. Exposição Coletiva VII SIGAM. Pelotas, 2022. by arqvivofagias - Issuu