Livro: Elias Romão Ilhabela

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[ 3 ] Edson Souza Elias Romão Ilhabela Tempo Que é Bom Que Era Aquele 1ª Ilhabelaedição-SP

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[ 5 ] Emmemóriade EliasRomãoeHelenadosSantosRomão. Aoentrevistador. ArthurCarlosdeFreitas.

Os textos respeitam as pronúncias, repetições e incorreções gramaticais — relacionadas à língua culta — fazendo jusao tradicionallinguajar local, comassuasgírias e expressões, dos chamados caiçaras.

A equipe do Arquivo Ilhabela trabalha no registro de produtosculturaiseimateriais, garantindo queessacultura seja protegida por procedimentos como a disseminação do conhecimento, prática e expressão. O acervo contém registros de diversos grupos socioculturais que compõem a identidadeeamemória dacidadedeIlhabela, localizada no litoral norte do Estado de São Paulo.

Este livro é o resultado de um trabalho de transcrição, cujagravaçãodigitalfazpartedoacervodoInstitutoMiguel de Souza e projeto Arquivo Ilhabela. O conteúdo personagens, ações e ambientes faz parte da narrativa compartilhadapeloentrevistado:EliasRomão.

Ressaltamos que o entrevistado compartilhou as memórias de viver na Ilha dos anos 1938 a 2007. Portanto, os caminhos descritos podem não existir, bem como atividadesrelacionadasàcaçaeapescaqueatualmentesão proibidasouseguemnormasdiferentesdasdaépoca.

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[ 7 ] Sumário Introdução.......................................................................... 11 Depoimento: Dia Um ....................................................... 15  Santa Catarina  Farol da Ponta do Boi  Macuco  Macaco  Jaracuçu  Mordido de Cobra  A Casa no Sombrio  O Casamento  Filhos  Azul Marinho  O Sumiço do Macaco / O Dono do Mato  A Mudança dos Mexilhões  A Sereia do Mar  Compadre com Comadre  Falação Depoimento: Dia Dois .....................................................39  Clareza  A Pata com Três Patinhos Luminosos  Thiry  Concar

 Praia Vermelha Depoimento: Dia Três .....................................................49  Pescaria  Cerco Flutuante  A Cavala e o Milho  Ilha da Vitória  Alcatrazes  Santa Catarina  O Peixe Difícil Depoimento: Dia Quatro ................................................65  Picadas  Caçadas, Macuco e Jacutinga  Sombrio, o Cerco Flutuante e a Salga  Tainha Depoimento: Dia Cinco ...................................................75  Negócio da Pescaria  Rede  O Tempo  Tipo de Peixe  Rio Grande do Sul  Sardinha  Camarão Rosa  O Mestre do Barco  O Valor do Pescador  Ucharia  A Rede de Ouro Depoimento: Dia Seis......................................................97

 Pescaria nos Castelhanos  Parelha  Defeso do Camarão  Pesca  Acidente no Mar  Tempo Ruim  Tartaruga  Golfinho  Baleia  Festas  Briga Depoimento: Dia Sete....................................................115  Semana Santa  Fim do Mundo  Buzina  Rede de Cerco e de Malha Anexos ............................................................................... 127  O Farol da Ponta do Boi  Palestra Sobre o Farol do Boi  Palestra Sobre Elias Romão  Clipping  Linha do Tempo

HelenadosSantosRomãoeEliasRomão Conheci o Elias Romão em 2006, numa palestra organizadapelo Marco Aurélio Nascimento sobreo farol da ‘Ponta do Boi’. Ficamos amigos e depois de muita conversa elemanifestouseudesejode,nassuaspalavras “daruma entrevista” onde deixaria para a sua família e demais interessados as suas histórias de vida.

Em 2007, com o apoio de MaríliaBrittoRodrigues de Moraes, na ocasião, responsável pelo Parque Estadual de Ilhabela;elaprontamentedisponibilizouumaparelhoparaa gravaçãodosdepoimentos.

Introdução

Suas últimas palavras que registrei em sua casa foram: “Vâmoparar e descansar um pouco”… Em tempo, Edson realizou uma publicação limitada deste livro em 2017 e presenteamos a família, inclusive a esposa do Elias, dona Helena, que ficou muito emocionada. Ela faleceu seis dias depois. Descanseempaz! EliaseHelena. Do ArthuramigoCarlosdeFreitas.

Estes depoimentos foram mostrados a várias pessoas, mas, somenteem 2014, ano em que conheci o Edson Souza este incansável pesquisador e caiçara de Ilhabela foi quem se interessou pelo projeto e iniciou a transcrição das gravações. Ele finalizou o processo com a publicação deste livro que sempre foi à vontade do Elias Romão.

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Iniciamos o que viriam a ser quase sete horas de entrevista,ondeoEliascontoulivrementesuavidafamiliar, pescarias, caçadas, seu trabalho, suas críticas e muitas outras curiosidades, deixando uma visão clara de toda uma época em Ilhabela. Infelizmente ele veio a falecer e não tivemos tempo de revisar suas falas.

O entrevistador, Arthur Carlos de Freitas (dir.) e o entrevistado, Elias Romão (esq.). Sede do Parque Estadual deIlhabela 2007 FotoporFelipedoParqueEstadual. “Arthur! Quero fazer algo bom. Algo para deixar aqui quando eu não estiver mais. Gostaria de fazer uma entrevista... Você poderia me entrevistar?”

Foi assim, a pedido de Elias Romão que o amigo Arthur CarlosdeFreitasiniciou entredoisdeabrilásetedejulho de 2007 uma série de entrevistas; gravando os

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depoimentos compartilhados pelo destemido pescador de Ilhabela.Aentrevista foi realizada nas dependências do Parque Estadual de Ilhabela, cuja diretoria forneceu além do local, os equipamentos necessários para a sua realização. Em especial,oúltimoencontrofoinaresidênciadosenhorElias Romão, localizada no bairro do Itaguaçu em Ilhabela e contoucomaparticipaçãodesuaesposaHelenadosSantos. Queonossopersonagemseapresente narrandoasuaSoujornada.Elias Romão! Sou caiçara, nascido na praia Vermelha do município de Ilhabela (SP). Vim estudar aqui nocentrodacidade.Estudeiaté a segunda série. Quando estava comaidadedecatorzeanossai a trabalhar na pesca.Trabalhei onzeanosemSantaCatarina…

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Elias Romão Ilhabela [ 15 ] Depoimento: Dia Um Sejam bem-vindos as Memórias e Histórias de Elias Romão Parque Estadual de Ilhabela Segunda feira, dois de abril de 2007.

Fui parar em Santa Catarina por barco de pesca. Um japonês conhecido de meu pai fornecia sementes para o plantio de cana. Meu pai conhecia o dono do barco e conseguiuumavagapramim.Foiquandoembarquei,estava com catorze anos e trabalhei em Santa Catarina por um períododeonzeanos.

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Conheço do Paraná ao Rio Grande, cidade por cidade á beira-mar, viajando sempre com barco grande. Conheço o Paranaguá, conheço Itajaí, conheço Navegantes, conheço Armação, Penha, Camboriú, Porto Belo, Santo Antônio, Florianópolis, Arvoredo cuja ilha possui um farol indicativo denavionabasenorte... Conheço Garopaba, Bituva, Laguna, Araçá, Criciúma, Cais de Santa Marta, Araranguá, Torres, Capão da Canoa, Figueira,Solidão,Tramandaí...ConheçoaponteDesterroque liga Florianópolis... Florianópolis é uma ilha que fica pra depoisdofimnaBarradoRioGrande. Minha função era marinheiro, cujo nome do barco era SantoAmaroII.Eraração(pescador),seguidodoarrastode peixesdiversos.Otrabalhoerameu...

SANTA CATARINA

Tinha gente que chegava em, por exemplo, Florianópolis, viajava anoitetoda e quando o dia clareava, largava arede em Araranguá. Aí com uma hora de arrasto você levantava porque era muito peixe. Se passava uma hora, não dava tempodecolher,aícomumahoradenovolevantavaarede...

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Tinha muito peixe! Passava uma hora, aí pescava vinte e quatro horas, quarentaeoito horas, nossacasaera o barco. Aí vinha até Santos, vinha até Santos porque o dono (do barco)moravaemSantos.IapegarpeixeemSantaCatarina. O comércio dele era em Santos. A gente ia mata pra lá e vinha descarregar em Santos. Trinta e duas, quarenta, cinquenta horas de viagem. A viagem era longa, pegava muitotemporuimdeviagem.

FAROL DA PONTA DO BOI Adepois¹fizumcursoemItajaí,pratrabalharnaMarinha. Aífui!Passeinocurso.Passeiefuidestacado paratrabalhar aqui em Ilhabela. Aqui em São Paulo (litoral norte), porque láeraSantaCatarina. Fui destacado para trabalhar em São Paulo. Aí fui trabalhar no farol da Ponta do Boi². Fazia manutenção da estradaefaziaserviçodeguardaánoite.Fazendoafaltado motorista,doiscivisedoismilitares, porqueviravaomotor dasseisdatarde,seisdamanhãameia noite. Esse motor ficava parado de dia, trabalhava a noite e funcionavaàtarde.Faziatambémamanutençãodaestrada. Conhecia caiçara, pegava muita gente, equipe boa, chegava muita gente pra nós fazer a manutenção na estrada. Oito, noveanostrabalhandolá. Cortávamos aquela Taquaruçu³ toda. Aquela madeira toda que estava atravessada na estrada. Dezoito km do Sombrio4 aofarol.NacasadaMarinha,alinoSombrio,fazia

manutenção elimpezadaMarinha, eu e minhaesposao dia a trabalhar na Marinha em 1962. Quando fui trabalharnaMarinhaestavacomvinteequatro,quasetrinta (anos) e trabalhei na Marinha até 1991. Para ir até o farol tinha picada5, por isso que picada tinha que ser sempre limpa.Semprenofarol daPontadoBoi,íamosporterraaté lá,porcausadotemporuim.Nofarolnãotinhaaeroportode helicóptero, ainda no farol, tinha que saltar no Sombrio, aguardaromaramansarouirporterraatéofarol.

Elias

¹ Adepois → outra forma de dizer ‘depois’ , usado também pelosnativosdeFlorianópolis. ² Farol da Ponta do Boi → localizada no extremo sul de Ilhabela.Ofarolfoiinauguradonodia10deabrilde1900.A torrebrancatem17metrosdealtura. ³ Taquaruçu → é uma planta da família das gramíneas (Chusquea gaudichaudii), nativa do Brasil. Também é chamadadebambu giganteoutaquara brava.

4 Sombrio → comunidade isolada localizada na região da Baía dos Castelhanos, ao leste de Ilhabela. Trata se de um portosempraias. 5 Picada → caminho aberto em mata fechada a golpes de facãooufoice.Trilha.Atalho.

inteiro.Comecei

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Macuco6, macuco, tinha muito macuco. Muito macuco mesmo. Matava, não só eu, cada um que trabalhava na equipeminhatinhaasuaespingarda.

MACUCO

MACACO

6 Macuco → é uma espécie de ave sul americana, de grande parte da família dos tinamídeos, cujo nome cientifico é (Tinamussolitarius).Chegamamediraté48centímetrosde comprimentoeseusovospossuemumacorazulada.

Uma vez, uma comissão do Rio de Janeiro veio para o litoralnortefazerreparosnofaroldaPontadoBoi.Oserviço durou cerca de dezoito dias. Eu não os conhecia, mas fui

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apresentado à equipe e me perguntaram se havia jeito de caçarummacacoparaelescomer. Resolvi sair à caça depois das cinco horas da tarde, quandoacabavanossoexpediente.Aviseiminhaequipeefui commaisseispessoas.Levamosminhaespingarda,umfacão eumalanterna.Aespingardatinhavinteeoitocartuchosna cartucheiraeeradeumcanosó... Passei a mão no gatilho, atirei e o macaco caiu. Não demorou cinco minutos, tínhamos dois macacos mortos. Acabaramlevandoláparaofarolerolouamaiorfesta.Eles mesmos limparam o animal e fizeram a churrascada. Por voltadastrêsdamadrugadajáestavamtodosaltosdaideia, dançandohomemcomhomem,eraumafarratremenda. JARACUÇU O serviço erameio perigoso, havia muitacobrana região, inclusive quase fui mordido por uma jaracuçu7. Tinha uma cachoeirinha pela qual costumávamos parar para tomar água,deixandoassimasferramentasdelado. Vinhatomarágua,deixaramaroçadeirabemembaixodas folhas, quando cheguei pra pegar a roçadeira berraram: “Eliasnãosealevantequeaítemumajaracuçuenroscadano cipó”... Aípeguei,saiematamosela.Isso aísemepeganãotinha jeito, matava nós... Machucado eu tinha muito; cobras,

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7 Jaracuçu → é uma víbora venenosa da família dos viperídeos (Bothrops jararacussu Lacerda). Com até dois metros de cumprimento e coloração dorsal variável entre amarelo,marrom,pretooucinza.

Eu fui mordido por cobra três vezes. Uma vez estava na Marinha, fazendo uma limpeza no barracão da Marinha, no finaldeanoeduasvezesfoiforadeserviço. A primeira vez fui pegar camarãozinho, pituzinho8 pra pescar. Senti aquela fisgada, aí sacudi o pé, uma perna depoisaoutra...Elacaiu.Aífuiembora.Chegueiemcasafalei praminhamãe:-Acobramordeu.Mordeu?Mordeu! Aí comecei a me sentir mal, dor de cabeça, fazia assim comonariz (soando),saiasanguedo nariz.Aíelachamouo meupaiedisse: AcobramordeuoElias...Sóqueeletinha umcompadrequemoravanumlugarzinholápertochamado Figueira9 .

graças a Deus, nada grave. Fazia o serviço lá na estrada, nuncafuimordidoporcobrasnaestrada.Naestradanão.

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Papai falou: Vou à casa de meu compadre, que meu compadre sabe um remédio de cobra. Vou à casa de meu compadre. Então ele foi. Aí chegou com duas horas de viagem;foidecanoaaremoevoltou.

MORDIDO DE COBRA

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Elefalouassimpraminhamãe:-Compadrefalou;onome deleeraAntônioInácio,faloupraverseeleconseguetomar umacolherzinhadechá.Seeleconseguirtomarelesesalva. Senãoconseguirtomarelenãovaisesalvar,porqueagorao venenodecobraéperigoso.

Deitaram menacamaeajeitaramminhacabeçapracima. Levavam uma colherzinha de chá bem lá em baixo na garganta,aíconseguiaengolir.Fiqueiquarentadiasdeitado.

O compadre falou: – Olha! O menino sarou. Eu vou à sua casa e na sua casa vou mostrar a cobra que o mordeu. Quandochegouumdiadedomingo,eleveioemcasa.Chegou lá e conversou com meu pai, com minha mãe e me perguntou: Você sarou? Respondi: Bem! sarei. Aí ele falou:-Vocêvaiveracobraquemordeuvocê,daquiapouco teElechamo.deu uma voltinha por lá, sentou num banco, um banquinho lá de fora, ficou conversando com papai até que apareceu a cobra... A cobra veio em direção a eles. O compadre disse olhando para o bicho: – Foi você que mordeuElias,né?Agoravocênãovaimaismorderninguém. Aípegouacobra,tirouosdentesdacobra,tiraramosdois dentes.Aíelafoiembora,acobra,asoltaram.Aíelefaloupro meu pai: Seacobraum dia morder nele, asegundavez já nãovaifazertantomalquenemfezàprimeira. Asegundavezquefuimordidodecobraaconteceuseisda tarde.Quandosaidobarracãodamarinha,nofaroldaPonta do Boi e fui para casa. Ai, chegando em casa, quando pisei paraabriroportãoelamepicou.Nãoviacobraporqueera noite. Então tomei uma garrafa de remédio que Antônio Ináciomandouparamimesarei.

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8 Pituzinho → é um camarão de água doce (Macrobrachium carcinus). Chega a medir 48 centímetros da calda a ponta dasgarras. 9 Figueira→apraiadaFigueiraestálocalizadanoladoleste deIlhabela, no ladooposto aBaía do Sombrio. Tem até 300 metrosdeextensão.

Na terceira vez aconteceu por volta de uma da tarde, quando estava fazendo uma limpeza no barracão da Marinha. O comandante estava perto de chegar para fazer vistoria,entãolimpeiefoiquandoacobramemordeu. Tem certo tipo de cobra que quando morde a gente, não podemosverumapessoagrávida.Seagenteolharpraela,o venenodacobrapassadagenteparaapessoa. Como eu havia sido picado, tinha de evitar vê gente grávida, então lembrei que minha nora estava grávida. Quandochegueiemcasadisse: “Tiraeladaí queacobrame mordeu”. Ai eles tiraram ela. Consegui sarar tomando chá. Laveiolocaldamordidacompingaedoisdentesdealho. Foiissoqueaconteceucomigo.Nascitrêsvezes.Primeira vez quase que me matou. Segunda quase não fez mal. A terceira não vai fazer mais mal. Ele (Antônio Inácio) é caiçara, morava na Figueira, Depois morou na praia Vermelha10 ,adepoismuitotempoelemorounaSerraria11 .

A CASA NO SOMBRIO

10 Vermelha → a praia Vermelha está localizada na região dos Castelhanos, entre as praias da Figueira e Mansa. O cenário abriga uma comunidade isolada de legítimos caiçaras.

Eu fui morar no Saco do Sombrio, porque quando eu comecei a trabalhar na Marinha, eu morava na praia Vermelha. Aí quando fui morar no Saco do Sombrio, eu conversei com o comandante e com um rapaz que trabalhava lá. Era um rapaz chamado Mane Marcel, ele era carioca.Elese dava muito com nós e falou que ia conseguir um lugar aqui no Sombrio, porque era mais perto do farol. Eu falei:-Tudobem!AíelesconseguiramnaCapitâniaumaárea daMarinhapragenteficar.

11 Serraria → a praia da Serraria abriga uma colônia de pescadoresque,nosmesesdeagosto,realizavaatradicional festadosenhorBomJesusdeIguape.

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Aípensei,tinhaumalanchaláchamadaItanhaém,queera a lancha que fazia o transporte de São Sebastião ao farol, levavaóleodieselparaofaroletambémopessoalqueiapra lá: Você tem que fazer uma casinha boa pra você, tudo bem?Perguntei: Mas como é que faz pra levar os blocos pra lá? E eledisse: - Não! Isso eu vou arrumar pravocê. Só que

não podelevar muito, temquelevar 400 blocos; de400 em 400. De um dia pro outro pode ficar difícil, às vezes dá um contratempo e tem que ficar três, quatro dias até o abastecimentodalanchamelhorar. Então fui mesmo morar pra lá. Levaram de 400 em 400 blocos.MinhacasanoSombriofoideblocosde1800... 1800 blocos de doze. Tinha dois quartos, uma sala grande, tinha umbanheiro,umacozinhadealvenariaetinhaumaáreana frente. Esta é a minha casa e hoje em dia ondeera a minha casaéasededamarinadoYachtClubedeIlhabela.Aquilolá eraAtémeu.meu

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filhotrabalhouparaocomodorodoIate...Afruta do conde, ainda tinha muitas, nós tínhamos plantado, tem muita, tá tudo vivinha, muitaplanta, muitaplanta, coqueiro aindatinha. Um dia, isso foi em 1991, chegou uma lancha lá no Sombrio, uma senhora de nome Eliane chegou. Ela a gente não conhecia. Aí conversou com minha esposa aqui em Ilhabela, sóqueamulhermoravaemSãoPaulo.Quandoela vinhadeSãoPauloelasaltava,falavacomminhamulher. Quando chegou um dia, a senhora perguntou pra minha mulher: - Será que o Elias pretende vender esta casinha? Minhaesposarespondeu:-Achoquenosnãovamosvender, porque se nos vender aqui, onde nós vamos morar. Então vocêconversacomoElias; falouelaparaa Eliane, quequer compraracasaassimeassim. Aí como eu estava com dificuldade de colégio para as crianças, não tinhacolégio paraos meusfilhosestudar, não tinhacolégiolá,entãodecidiqueíamosmudar.

Aí foi adepois de 1991, quando sai da Marinha. Fiquei trabalhando na marina que é dela, na lancha dela. O Iate (Yacht Club de Ilhabela) chegou em 1996, adquiriu a área dela e queria fazer um acordo comigo, já que eu trabalhava nalanchaeamulhernãomepagoucincoanos.

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A mulher chegou ao próximo sábado, conversou comigo, ai falemos: - Eliane seeu for lhevender queroquarentamil cruzeiros, porque não era real, quarenta mil cruzeiros, certo? Certo! Nós temos que ver este documento da casa. Falei: Isto aí é na Capitânia. O comandante antes havia falado pra mim: – Se um dia você resolver vender, venha falarEntãocomigo.euconversei

Fomos ver quanto é que era. Devia ser uns 35, 40 mil reais,40mil.ConversamoscomumrapazchamadoMarcose ele vendeu mesmo. Fomos a São Sebastião (cidade vizinha de Ilhabela) e a advogada dele deu a escritura. Aí eu fiquei umtempomorandoporlá.

comocomandante.ComoépraEliane a gente vai vender. Aí ele falou assim: Como que você vai fazerpravocêsairdelá?Euvoutrabalharnomesmolocale aminhaesposaficavasendocaseiradela. Agenteficavasendocaseirodelaeassimfoifeitoissoai:–Elias você fica na lancha, trabalhando no farol, quando eu quiser sair eu ligo pra você, passo o rádio pra você e você vemmebuscaremIlhabela. Aí ela veio aqui, me pagou os quarenta mil, 40 mil cruzeiros, não éreal, no hotel Mercedes ali no Viana. Ali no Viana pagou ali os 40 mil cruzeiros. Aí eu passei lá no Itaquanduba (bairro na região comercial deIlhabela) eestá láumaplaca,vende seestacasa.

EntãoelaeraassociadadoIate,(atésemanapassadafalei com ela 02.04.2007). Só que ela morava assim em Porto Seguro.TinhacomércioemPortoSeguronaBahia,comércio na Bahia. Falou um dia pra mim: - Elias eu não tenho dinheiro pra pagar você, os cinco anos que ficou tomando conta de minha lancha, como é que você vai poder ficar comigo,porqueacasafoivendidaparaoIate. Entãonãosei,elafalou,econversoucomosresponsáveis emedisse: OIatedáumagratificaçãopravocê,cincoanos, deu oito mil reais. Aí contei a ela que Já estava morando aqui.(Itaquanduba). O CASAMENTO Ah como me casei?... Estava trabalhando em Santa Catarina,quandochegouodia,pegueiumalicençaevimaté Ilhabela.Nessetempo eujáestavanoivo emSantaCatarina, fiquei próximo de casar em Santa Catarina, entende? Com umamoçachamadaÂngela,queatéeraminhanoiva. Ela tinha dois irmãos que trabalharam na Marinha, lá na CapitâniaemItajaí.Aíelesfalaramassim: Eliasjáquevocê énoivodeminhairmãevocêestápróximodecasar,agente vaiajudandocomascompras. Ela é filha única. Tinha pai e mãe e o nome dela era Ângela. Aí a gente vai ajudando a fazer as compras dela e paraocasamento,tudobem:-Meuordenadodetrabalhona pescaépouco,elefalou,agentedáumjeitonissoaí.

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Aí um dia o pai dela chegou e falou: - Quando você casar não vai mais precisar trabalhar na pesca, mas vai ficar tomando conta do comércio em terra, na praia. Lá éa salga docamarão,temaqueleestiradobemgrande... Euiriadescascarcamarão...Quemcomandavaeraoirmão dela que me disse: Quem vai ficar no comando é você. Quemestavaeraosirmãos,maisamãedela: Eliasvocênão vai mais pro mar, agora vai trabalhar em terra com nós. Fizemosacordoassim.

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Fui em Itajaí, mandei fazer o convite de casamento, distribuioconviteparaafamíliadelaemItajaí.Vimcomela em Santos, comprar alguma coisa que ela queria comprar, mas não em Curitiba. Ela veio num barco de pesca, eu vim noutro. Aí nos chegamos a Santos. Ela foi tratar das coisas dela,eufuitratardeminhafamíliaqueficouemIlhabela. Nos encontramos no porto. Ela comprou o que ela quis. Falei pra ela: Ângela vou a São Sebastião buscar meu pai comminhamãeparaocasamentoechegandoláeuvoupara o Sombrio em Ilhabela. Ela falou: - Tá bom! Eu vou viajar paraSantaCatarinajuntocommeuirmão. ChegandolánoSombrioencontreicomessaminhanoiva, com essa que é minha esposa. Que era minha namorada antigadesdegarotinho. Conversei com ela. Elasabia queeu ia casar: Você vai casar né? Vou sim, vim buscar meus paisparaocasamento.Aíelafalouassim:-Ecomoéqueeu vouficar?-Vocêvaificardojeitoquevocêestá -Vocêvai é casarcomigo!-ComoéqueeuvoucasarcomvocêHelenase játenhoaliançaetudo?–Vocêvaicasarcomigo! Helena chegou e falou com o pai dela o que tinha acontecido. Aí o pai dela não aceitou. Ele trabalhava numa

fábrica de cachaça, chamada ‘Favorita’, ficava na praia dos Castelhanos, que era do Leonardo Reale. Este Leonardo Reale era prefeito aqui, prefeito em Ilhabela. O pai dela trabalhavaparaele.Aíopaidelasaiude láde madrugadae avisouoLeonardo.OLeonardochegoueavisouapolíciaque podia me chamar nesta cadeia mesmo (Antigo prédio do FórumnaVila). Aínóscasemos(risos).Foiaqui(sededoParqueEstadual naVila),veioojuiz,advogado...Advogadomesmo,promotor, nãotevejeito:–Ouvocêcasaaquiouvocêdaquijásaipreso. Eu estava com dezenove anos, passar a minha infância na cadeia não, então disse: Eu caso! Aí casei aqui na sede do Parque.Emvinte dias estava preparado, aí casei... Fizemos uma festinha lá na casa do pai dela, viemos aqui e casamos. Casamos às quatro horas da tarde. O nosso padrinho de casamento foi o juiz, ele foi o padrinho de casamento, a esposadelefoiàmadrinha... Aí casamos! Adepois ela foi para a casa do avô dela, que moravaaqui,queerapaidopaidelaeeuvimparaacasade minha família. Se encontramos e fomos embora. A festa foi dadaquandochegamos(risos). A outra lá (Ângela); tudo bem! Aí viro, mexeu, os irmãos delatrabalhavamnoConfrioemSãoSebastião.Eusabiaque osdoisirmãosdelatrabalhavamnoConfrio.UmdiaemSão Sebastião encontro com um deles... Até que ele não falou nada pra mim. – Oi Elias tudo bem... Não deu certo, fazer o que,avidaéassimmesmo(risos).

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Elias Romão Ilhabela [ 30 ] FILHOS

Nãotinhaproblemadenada,normal,nãotinhaproblema degestação.Tempoqueébom,queeraaquele,né?Hojeem diaqualquercoisatem queiraomédico,fazertantacoisa, é certo que já sabem o que é, né? mas em compensação, cresceramtudolá.

Naminhafolgatrabalhavana pescaláno Sombrio. Tinha cerco, cerco flutuante, rede de malha... Pescava pra cá pra vender aqui. Quando dava uma folga eu comprava a rede e faziaarede,fazianamão. Agora tinha um rapaz que falava pra gente: Olha você tiraamedida,alturadolugar,quantosmetrosqueé,quantos nãoé,aprofundidade,quantovocêquerdecomprimento da profundidadepramimeaindafalava: Eufaço,masvocêsó vaimepagarquandopegarapescaria. Istoai(arede)euaprendidesdeSantaCatarina,porquea bordo do barco os catarinenses na folga faziam rede, aí eu aprendiláafazer.Eusónãoaprendiotarrafo,tarrafonunca medediquei.Agoraaredeeufaço. A gente vivia muito bem, graças a Deus. Ela trabalhava muito na roça, era liberado, né? Plantava muito na roça. Botava fogo pra queimar, pra tirar aquela sujeirada. Plantava milho, plantava feijão, plantava batata, plantava

Nove filhos. Todos nasceram lá (Saco do Sombrio), hoje eles trabalham de empregados. A parteira era a mãe de minha esposa mesmo, era não, é até hoje. Uma senhora idosinha,masparteira,nãoaconteceunada,graçasaDeus.

Elias Romão Ilhabela [ 31 ] cará (inhame), plantava mandioca. Estas coisas pra não comprar,né?Milhopranãocomprar.

Entãooquemaisagentecompravaláerapão,óleo,sabão e café. Até que muito não, porque de vez em quando, café servia pouco e arroz também. Agora feijão, açúcar, a gente usava muito. Muitas coisas a gente comprava lá. Só se compravaoquenãotinhalá. Ah! O peixe não faltava, você comia o peixe vivinho. Qualquerqualidadedepeixequequisessecomer,comia.Era cavala, era garoupa, lula, camarão, sardinha, espada. O que quisesse tinha... Peixe não faltava... Quando chegavam às nove horas, a gente ia matar peixe pra almoçar e de fato a genteialáematava.Avidaeraassim. AZUL MARINHO Receita queeu sei éo Azul Marinho... Quechegavamuita gente lá procurando pelo Azul Marinho. A minha esposa fazia.ChegouservirvinteeoitopratosdeAzulMarinho.Era cavala, garoupa, enchova. Tinha banana gorda, banana nanica no nosso quintal, a gente cortava. Vinha bastante gente,entãomandavamdonaHelenafazerumAzulMarinho caprichadoqueelesiamlá. Ela fez! Tinha que descascar a banana, botar a banana para aferventar, adepois de aferventado tinha de tirar a banana fora. Fazer o tempero e botar no caldo da banana, queéparaopeixeeporabananaporcima...Servirquandoa banana estava mole (risos), peixe bom. A comida era forte,

Um dia eu estava na praia Vermelha, praia Mansa, não praia Vermelha. Tínhamos combinado de enfia macuco... Aí vou eu, Américo, Juvenal, um rapaz chamado Osório, irmão do Américo, eletem doisirmãos. Todosostrêseram minha família. Aí vamos! Cada um levou uma espingarda, eu levei uma28deumcanosó.Américolevouuma32,Osvaldolevou uma28eJuvenallevouuma32. Aí nosfomos! Eram umasseishorasdatarde. Pegamos a estrada dos Castelhanos, havia picada ali, aí subimos, não havia estrada ali só picada. Aí ficamos num lugar chamado Sucupira, uma pedra na estrada dos Castelhanos, Já ouviu falardissoaí? Nósencontramosdoismacacos. Um macaco estava numa árvore e o outro correu. Aí o cercamos e atiremos nele, só que o Juvenal com o Américo desceram e passaram pra picada de baixo, e eu fiquei na de cima. Então, quando eles

Elias Romão Ilhabela [ 32 ] gostosa. Tem que comer de tarde só. Era assim, a vida da genteeraaquilolá. O SUMIÇO DO MACACO O DONO DO MATO Macuco tinha muito, muito macuco, matava cinco, seis macuco. Quando vinha de dia matava dois, três. Tinha macuco,jacutinga,jacu,né?Tinhaomacaco.Maistinhamais o jacu e o macuco. Agora, passarinho pequeno que nem papagaio, tucano, isso aí não matava. Só o que aguentasse chumbo,né?Avidaéassim,né?

iam pra um lado, nós atirava. Demos 28 tiros em dois macacos. O macaco não caiu da árvore: - Por que é que o macaconãocai?vinteeoitotiros.Aindafalamosassim:–Se fosse uma espingarda só, podia ser, tudo bem, mas quatro espingardas,vinteeoitotiroseelenãocaiu. Anoiteceu. Acampemos debaixo da árvore. O rapaz falou: Quando chegar de manhã, eu vou subir com o facão e derrubar o galho para o macaco cair. O dia clareou e aí ele subiu lá. Nem macaco nem nada, não tinha nada, nadinha, vinteeoitotiros,nada! Caça no mato é uma coisa. Tem dia que você vai e acontece, tem dia que você vai e não acontece. Não sei por quê. Tudo tem seu dia, tem seu direito também, porque eu acredito que é assim. Na mata existe alguém, algum chefe, alguma coisa que comanda a mata, né? È que eu não vejo, não dá pra ver, não pode ver. Ainda tem o dono do mato, o pessoaldizaquiquetemodonodomato,né?

Elias Romão Ilhabela [ 33 ]

A MUDANÇA DOS MEXILHÕES

NomaremAlcatrazes12,eujávi.Nósestávamosmatando camarão em Alcatrazes. Aí umas onze horas, no silêncio da noite, sem vento, sozinho, eu vinha arrastando a linha. Aquele escuro, ouvimos um barulho, num lugar que não tinha nada para ver. Fomos olhar era marisco, mexilhão. Estavam mudando de Alcatrazes pra Montão de Trigo13 . Ninguém sabe isso aí, que eles se mudam. Tem muitos de umailhapraoutra,estavamsemudando.

13 Montão de Trigo → é uma ilha que está situada entre BertiogaeocanaldeSãoSebastião.

Quando chegou pra cá de Jabaquara, vimos outro barco assim, rapidinho na nossa frente. Então do nosso lado, algo estranho passou uns dois minutos e desapareceu, e nos perseguiuatéaSerraria.Davaaimpressãoqueiabater. NósíamosproSombrio,nuncaiaporterra...Conversacom um, conversa com outro, tão falando que aquilo ali é uma sereia do mar. A sereia do mar que é que sempre atraia barco. Sempretembarcodepescaquebateeafunda.Então o pessoal falava, o pessoal maisvelho falava queisso aí era mistériodomar,mistériodomar.

A SEREIA DO MAR Em 1970,o pessoal mais velho contavacoisasdessetipo. A sereia do mar quer levar as embarcações pela costeira.

Quando cheguei de Santos, peguei um barco pra ir lá pro Sombrio.NoJabaquara(praianoextremonortedeIlhabela), eu tava no leme, no comando, e vi acontecer uma coisa dessasno Chegamosmar.aqui

num barco de pesca e estamos indo.

Elias Romão Ilhabela [ 34 ]

12 Alcatrazes→ailhadosAlcatrazesestálocalizadaa45km asudestedoportodeSãoSebastião.

Elias Romão Ilhabela [ 35 ] COMPADRE COM COMADRE

Grossa.Divinha!

Comprei um barco de pesca e vim para o mar pra trabalhar. Certo dia eu estava com um pouco de peixe e Laurofalouassim: Elias!Estousabendoquevocêvaiparao lado comercial de Ilhabela. Vou contigo! Ele falou, vou contigopegaumacarona...Eranoite,meia-noite. DoSombrionósfomoscomrumo aPontadasCabeçudas. AliquandochegouondeéapraiadaSerraria,apareceuuma luznaserradailha.Euolheiepensei:-Não,nãoéestrela.Na serra tanto tinha estrela pra baixo como serra pra cima. Apareceunomeio,ali,tipo,umapoucaápouca. AíeufaleiproLauro,eletavaatédeitado: Laurodáuma olhadinha aqui. Aí ele falou: - Nunca vi - Apareceu agora rapidinho. Aí elefalou praeu irpor ondeéaSerraria: Vai passarporforadailha,elataporcimadenós.Eufalei:-Não tá por cima não, tá vindo da serra. Aí como tava passando, passei por fora, quando cheguei da Serraria até a Ponta Grossa, entre a Ponta Grossa apareceu outra luz da Ponta

Pra se encontrar com essa luz que vinha, sabe? Vinha vindo uma de encontro à outra na serra. Quando se encontraram assim tinha luz azul, verde... Aí do mar nós víamos. Lauro também viu. Isso era tarde da noite. Perguntamos pra um e pra outro, falaram que é Compadre comComadredandoumavoltinha.(risos).Falaramissopra mim,nãoseiseéverdadeounão.

Elias Romão Ilhabela [ 36 ] FALAÇÃO

Parecia ser de muita gente. Quando você ouvia uma pessoa à fala é mais devagar, mas quando é muita a fala aumenta, né? Eu ouvia aquela fala na frente, é num sei que lá,numseiquelá...Apressado...Adepoisdesaparecia. Aquelafala semprecontinuava. Isto eu cansei dever, ver não, escutar, cansei de escutar. Primeiro era uma picada, tem picada que tinha volta assim de um metro e meio, mas tinhavoltadequasecincometrosdelargura. Tinha um lugar que tinha pedras grandes por onde passavam pessoas. Aquele lugar tinha uns quatro a cinco metros de altura. Perguntava-me: – Será que é gente do Bonete,gentedeUbatuba,gentedomeiopraiano. O que tinhamuito lá é capivara e capivara num fala... Lá nomirantedofaroldoBoi,agentechamavademirantetoda serra grandona, lá tinha um tipo de sapezal onde você enxergava a ilha dos Alcatrazes por cima. Enxergava parte do Bonete, parte do Indaiatuba e parte da Toca. Você enxergava até a Serra dos Castelhanos. Só o que a gente

No farol da Ponta do Boi, ao acender o farol ouvíamos falas, muitas falas mesmo e pensávamos que era gente que tava passando. Porque lá é difícil passar gente, mas que do Saco do Sombrio para o farol a pé, nunca passava gente, só de vez em quando. Quando o barco ia até a Marinha, mas seguiamapé.Voltavamdomingoàtardeousegundafeirade manhã. Aí quando chegávamos ao farol íamos à estrada e ouvíamosaquelafalação,vozes,né?

1970: Aos fundos temos a casa barco. Na verdade era um frigorificoquetinhalánoSombrio.Pertenciaaumespanhol chamadoCamilo,quetinhacerconoRosário. Eledormiaali.

Elias Romão Ilhabela [ 37 ]

conhece é aquela área ali do meio pra cima. Isto dá pra enxergar.Aíquando chegaram 1971, 1972, eu tinha a primeira limpezanofarol: Elias,vocêpodefazerumamarcaçãolá? Quemarcaçãoquepossoporlá? Vocêpõeumamarcaçãolá praquandonóspassarmosverestamarcação... Mederamumpanobrancoeeucorteiumbambu,bambu não, uma árvore bem comprida mesmo. Aí pusemos uma bandeira lá em cima, sabe? Catorze metros de altura. O pessoalpassavaeviaaquelabandeira.Látemummirante,a gentesemprevia.Depoisoventorasgou.

Elias Romão Ilhabela [ 38 ]

1976Platon.:Esse

cachorro se chamava Boris. Sempre que vinha para o farol do Boi ele ficava me esperando em cima da pedra.Gostávamosmuitodele.Eraumcachorroquetomava contadacasa.Dávamosmuitovaloraele.

Tinhadetudo ali.Gerador,espaço paragelar peixe. Quem o mandou para lá foi um grego chamado Jeannis Michail

Elias Romão Ilhabela [ 39 ] Depoimento: Dia Dois Memórias e Histórias de Elias Romão Parque Estadual de Ilhabela Segunda feira, dezesseis de abril de 2007.

NacachoeiradaBarraVelhaelepassouporalinumanoite e viu uma clareza. Uma clareza! Ele ficou meio assim, assustadocomaquelaclareza.Aífoiver,eraumapedra14 né? Aíelefoipegareacabou,parouaclareza.Aíelefalouassim:Vou levar praver o queéisso aí. Quando passou asegunda vez,viuamesmacoisa.Aconteceuàmesmacoisa.

Pensando no que tinha acontecido com ele, escolhemos um dia e voltamos no lugar. Ficamos no mesmo lugar. Aí quando chegaram às sete horas da noite, apareceu. Só que quandoiapegar,acabavaailuminaçãodapedra. Chegou uma noite de novo, veio à iluminação e foi embora. A luz desaparecia. Ele pegou uma pedra apagada. Pegou eveioembora.Quandochegou nestehoráriomesmo, apedra acendeu na casadele e o deixou assim pensativo. O queseriaaquelapedra?

Quando chegou a segunda noite, a mesma clareza. Aí apareceu um rapaz chamado Antônio Assis, da fazenda, andava mascateando15 lá do outro lado da ilha e o pessoal compravacachaçanafazendadele.

Voucontar... TinhaumrapazchamadoManecoFelipe.Ele morava nos Castelhanos e a pescaria dele é só do mato. Maneconãocomiapeixe,dificilmentecomiapeixe.Elecomia peixe só quando a gente matava e dava pra ele. Ele nunca pescava, nunca saiu, nunca ia pescar. Então ele tinha a mistura dele que era do mato, era caça. Naquele tempo caçavamuitacoisaaquidailha.

Elias Romão Ilhabela [ 40 ] CLAREZA

→ ato de comercializar de porta em porta, fazendovendasadomicilio.

[ 41

14 Pedra → acredita-seque apedraluminosaencontradana referidacachoeiradeIlhabelasejauma“BaritadeBolonha”.

15 Mascateando

Chegou um dia o Antônio Assis, apareceu lá e pediu um lugar na casa dele, ele deu. Aí quando chegaram horas da noite o homem viu aquela pedra no quarto dele, ficou cismado, não falou nada. Quando chegou asegundanoite, o homem mascateou de dia e quando chegou à noite ele veio passaranoite. Pediu o lugar para o Maneco, aí ficou lá, viu a mesma clarezanomesmohorário. Perguntou:-Queluzéaquelano seuquarto? Édeumapedra...Assim,assim... Medeixaver apedra. Aí disseassim: - Esta pedratalvez tenhavalor. Vou procurar saber, se tiver valor eu levo e depois nós vendemos,tábom! O homem se foi para saber o valor. Aí quando retornou disseassim: Vocênãoquermedeixar levarestapedraprá versetinhavalor?Aífalei: Levasim.Levou...Ninguémsabe do homem, ninguém sabe do mascate (risos). Aquela pedra deviateralgumvalor,né?Algumacoisa...

Elias Romão Ilhabela ]

Elias Romão Ilhabela [ 42 ]

InclusivenoSombriotambém.Látinhaumapócinhade pedra...Descendo...Quandoiapegaráguaàtardinha,sempre aparecia uma pata com três patinhos tudo luminoso, tudo iluminado. Meu cunhado sempre via. Uma pata iluminada e trêspatinhos,filhotes,tudoiluminado.Tinhamuitacoisapra contar,muitacoisapracontar. THIRY Naquele tempo, comecei a trabalhar com o Thiry16 também. O Thiry era um Belga, acho que ele era médico. Tinha um advogado em São Sebastião que se chamava Osmar Soalheiros17, é ainda vivo... Advogado de pessoal caiçaracoisaetal!

O velho sempre ia lá, na Marinha. Quando ia, ele levava uma bolsa com ferramenta. Tinha bolsa mais pesada, tinha bolsamaisleve, quepodiaserroupaeeraroupamesmo.Aí elemandavaagentetrabalhar,agentetrabalhava. Elemarcavaopontoeagentecomeçavaamexernaquele ponto. Tirava terra, varria pedra com galho, depois tirava

O pessoal ninguém sabe se Thiry era pai dele. Osmar chamava este Thiry de pai, ninguém sabe, ou só pai com a conveniência que o velho tinha né? (risos fazendo sinal comosdedosparadinheiro).

A PATA COM TRES PATINHOS LUMINOSOS ...

Elias Romão Ilhabela [ 43 ]

areiapraeleverificaroquetinhaali.Depoismandavaparar, iapraoutrolugar fazeroutroponto.Marcavaoutropontoe a gente ia fazer o mesmo que tinha feito no primeiro. Fazia unstrês,quatro,duranteodiaevinhaembora. Quando chegava de manhã, que a gente via que aquele buraco que a gente tinha limpado de dia, à noite tava tudo mexido, tinham cavado. A marinha vinha buscar ele no Sombrioetraziaaquelabagagempesadaprabordodonavio, equandoeletraziaeratãoleve,oqueera? E outra, não deixava ninguém carregar, só ele mesmo. Queriaagentesópralimpeza.Agorapratrabalhorealmente nãoEraqueria.ummetro, doismetro (profundidade). Não erafundo não e aquilo devia ter alguma coisa que indicasse, porque quandoagentelimpavaali,elediziaaquitinhaummarcoai na pedra. Mandava parar aquilo ali e mandava fazer outro ponto.Tinhaalgumdesenhosóqueeunãochegueiaver.Um negócio assim, que ele cortava a pedra e deixava aquela marcaçãoali,umtipodecortado,nãosei.

Tinha então aquela bagagem, que eles levaram pra terra que era leve. Quando desembarcava era leve, quando eles embarcavam era pesado... Marcava alguma coisa, tinha que acompanhar... Tinha que carregar muito ouro pra botar naviozinho da Marinha, né? Navios da Marinha, lancha da Capitânia que fazia serviço pro farol. O segundo era navio, navio maior. Isso foi em 1968. Ele ficou 35 anos, 35 anos trabalhando lá. Pagava algum empregado lá... Trabalhei muitopraelemesmo,muito.

Nósqueríamospegarumacoisademaisvaloreentremos no navio. A gente pegou três máquinas de bordo elétricas, três máquinas e pegou 600 pacotes de cigarro... 600 pacotes... Só que na hora da gente jogar pro mar, fizemos erradoesó100maçosforamsalvos.

Pegamos coisas de mais valor, jogamos, mas molhou, aproveitamos60 pacotes. Aí começou aboiaróleo, levavao óleo pra casa, meio quilo, um quilo e tinha lata de cinco quilosdeóleo.Agenteguardava,équenóstirávamosdeum lado, carregava do navio e o outro levava embora. Levava

Elias Romão Ilhabela [ 44 ] CONCAR No Concar18 (navio) deu um contratempo. Eu morava na praiaVermelha,quandoodiaclareou.Fuiàpraia,aíquando vi um negócio alto assim saído do mar, uns cinco a seis volumesdealgumacoisa.Omartavameioagitado.Fuiolhar era fardo de cortiça, grandão, ficava boiando assim. Boiava bem,cortiça.Vaiverquefoialgumnavioquebateu. A gente fomo ver era um navio que bateu chamado Concar. Quando chegou era de manhã cedo, chegou a tarde demos uma volta e vimos o navio ai no costão, entre a Pirabura e a Ponta da Piraçununga. Este lugar ficou com o nomedeConcar,porqueessenaviotinhaonomedeConcar.

Aí nós chegamos perto do navio na primeira noite. No segundodia,nóssubimosnonavio.Chegamoslátinhamuita cebola, óleo, muito óleo, muita azeitona, barril de azeitona, barrildevinho,tudoboiando.

Agora as outras coisas tinham muito. Tinha pessoas que saiam daqui e iam comprar o óleo lá trás da Ilha. Comprar nada, davam tudo pra aquele pessoal. Pessoas que não fizeram força, não se esforçaram e ficaram com o óleo, mas tudobem,avidaéassimmesmo,né? Ele (o navio) bateu numa pedra, numa rocha quando virava pra bombordo. Batia no costão quando virava pro outro, batia na pedra. Encaixou assim num lugar, quando batia num lado, batia no outro. No inicio dava (para entrar nonavio)porqueeleficouumasemanaencalhado.

Aínospegamosumaparelho,oradar,umradarcompleto, tava encaixotado. Pegamos o radar e já fomos para a ponta das Cabeçudas pra esconder este radar, pra quando acabasseessemovimentonósirbuscar,masnãodeutempo. Estávamos em canoa a remo, mas não deu. Quando passamosalanchadaalfândega,passouelevou.Negóciode maisvalor,oradar,né?Esteaiéoradardonavio,aíagente perdeuissoaí.

pra eles. Levamos muito óleo, levamos 2.600 latas de óleo, azeitona,vinho,cebola,alho.

Com o tempo ele estragou, afundou, né? Enquanto tava encalhado dava pra entrar. A gente ia lá pegava aquela mercadoria e botava na canoa (risos). Muita gente pegou coisas ali. Quando a Marinha chegou já tava acabando o problemadoóleo. Umdianósviemosealanchadaalfândegabateuporlá.A lancha da alfândega, a lancha da Capitânia. Toda canoa que elesencontravamnomar,pegavameficavamcomametade dacarga.Elesdividiam.

Elias Romão Ilhabela [ 45 ]

[ 46 ] PRAIA

Meu pai sempre morou na praia Vermelha. É! Na praia Vermelha tinha terreno, então nós morávamos na praia Vermelha. Adepoiselevendeu o terrenona praia Vermelha, que era dele. Eu cresci na praia Vermelha até a idade de catorze anos, e a minha mãe que tinha terreno na praia Mansa,tambémvenderam. Então juntaram o dinheiro dela com o dinheiro dele e compraram terreno no Guarujá, em Santos. Adepois construíram uma casa, construíram a segunda, construíram uma terceira, aí construíram a quarta, quarta casa. Então o velhofaleceuedeixoutudodeherançaprosfilhos. Meu pai faleceu, minha mãe faleceu. Aqui em Ilhabela eu tenho dois irmãos. Tem eu e minha irmã, nós éramos oito irmãos. Quatro morreram, tem quatro vivo, dois irmãos e duas irmãs. Ficou uma irmã que mora aqui também e essa irmã que mora em Santos. Daqui, desses, eu sou o mais velho.

16 Thiry → Paul Ferdinand Thiry, dedicou 40 anos de sua vida em busca do tesouro, considerado na história um dos quemaischegoupertodedesvendá-lo.Thiryadquiriutodaa documentação, entre cartas, mapas e pergaminhos, e decifrouamaioriadaspistasdeixadasarespeitodacaverna

Elias Romão Ilhabela VERMELHA

17 OsmarSoalheiro→foioengenheirobelgaPaulFerdinand Thiry que, em 1939, trouxe a história à tona e deu início à busca pelo tesouro do Sombrio. Ele faleceu em 1979, deixando o legado com seu discípulo, o doutor Osmar Soalheiro.Antesdefalecer,oadvogadoOsmarcompartilhou osdetalhesdahistóriaparaSaintClair.

Elias Romão Ilhabela [ 47 ] encantada,comumfundoforradodejoiaseouro.Omapado tesouro foi encontrado na índia em 1852, e o roteiro com instruções surgiu no Paraná, em 1888. No ano de 1939, o jornal ‘A Noite’ publicou os dois numa manchete que despertouacuriosidadedeThiry,queiniciouàcaçada.

18 Concar → o cargueiro espanhol se perdeu numa forte tempestadena PontadaPiraçununga,ladolestedeIlhabela, próximo à Ponta da Pirabura. Seu naufrágio ocorreu em 29 deoutubro de1959. Antesdisso, permaneceu encalhado na costeira por 22 dias. Não houve vítimas. Dentre a carga mistadoConcarencontravam seazeitecomestíveleextrato de tomate. Os caiçaras, a bordo de canoas, tinham acesso fácil ao navio encalhado nas pedras da costeira. Assim, usaramoazeiteparaabastecer aslamparinas(achandoque era óleo) e o extrato de tomate como tinta para pintar as paredes das casas. No entanto, o cargueiro trazia um contrabando de máquinas de costuras, azulejos pintados à mão,licores,baralhos,saboneteselambretas.

1978:Esteéumpeixechamado“Parambijú”,quepesqueina Ponta de Piraçununga, bem lá onde o navio "Concar" naufragou. Estávamos numa lancha chamada "Chala II" do YachtClubdeSantos.Levei40minutosparabotaropeixeno barco. 22 kg. O dono da lancha ficou feliz, foi o primeiro "Parambijú"davidadele.

Elias Romão Ilhabela [ 48 ]

Elias Romão Ilhabela [ 49 ] Depoimento: Dia Três Memórias e Histórias de Elias Romão Parque Estadual de Ilhabela Segunda feira, vinte e três de abril de 2007.

Descarregava no bairro de São Francisco, em São Sebastião, porque em Ilhabela o pesqueiro é muito fraco o pesqueiro,aquiemIlhabela,muitofraco. Não tinha uma caminhonete, um caminhão grande pra carregar peixe. Então atravessava de Ilhabela pra São Sebastião, pra Caraguatatuba. Lá tinha os recursos melhor, né?Melhorvendedor,melhorpagador,né?Lánãotinhaeste negóciodeestarvendendoedepoisestarcorrendoatráspra receber.Lávendiadinheironamão.Istoémuitoimportante parao Quepescador.nemaqui em Ilhabela. Aqui em Ilhabela, dono de barco aqui sofre, quando o pessoal chegapra descarregar o peixe, tratava de boca, mas depois que descarregava, o pessoaliareceberelesseescondiam.

Elias Romão Ilhabela

A pescaria antes era muito boa, porque dava bastante peixe. Toda qualidade de peixe pelo menos: cavala, espada, xarelete, bonito... Dava muito peixe, muita quantidade de peixe. Cheguei a matar num cerco meu, no Rosário. Num lugarchamadoRosário,quetemcercohojeemdiaenapraia Preta,tinhadoiscercos.UmnoRosárioeumnapraiaPreta. Matava muito peixe, bonito, duas toneladas, três toneladas de bonito que a gente matava. Espada também, bastante espada. Do Sombrio a canoa vinha chapada de peixepraIlhabela19 .

[ 50 ] PESCARIA

Elias Romão Ilhabela [ 51 ]

De janeiro até o inicio de abril ali era pra xarelete, dava muita quantidade de xarelete. Quando o cerco tava na água davamuitomesmo,émuitopeixe. Assim antes pescava garoupa; aliás, ali quando tirava o cerco, porque o mar estava muito ruim, aí pescava de rede de malha no Saco Grande. Pescava na Pirabura, pescava no farol do Boi e matava muita enchova. O peixe que mais matava de rede de malha era enchova. Pegava muito. Quando era rede de fundo, a gente matava cação, corvina, pescadinhaqueagentechamavadeGoete20 .

Um falava que tava numa casa o outro falava que tinha saídodecarro,masocarrotavaláguardado.Nofimagente acabavanãorecebendo.Nãopode!Opescadorvivedisso.

A vantagem deles é descarregar e botar em mão o dinheiro pra poder investir no pesqueiro. Aqui é muito diferente. No bairro de São Francisco era então bem mais diferente ainda. Lá recebia, era dinheiro na mão. A gente fazia compra, tinha tudo pra você comprar na mesma peixaria.Jáaquinósperdiaaviagem,masmuitopeixe,tinha mesmo,matavadetudo. Acabei de falar do cerco que a gente matava e pescava garoupa. Também naquele tempo a gente matava espada, muita espada também. Quando não caia no cerco a gente matava de linha. Quando não matava de linha a gente matavanocerco. Entãopescariaeraassim,muitoxarelete.Eutopordentro dissoaiporqueagentematoumuitopeixemesmo.Tinhaum cercodeminhafamílianumlugarchamadoFigueira(praia). Alieraumbomlugarprapeixechamadoxarelete.

tempo comprava gelo em São Sebastião, lá no caisdo porto, compravaechegavalá, botava nageladeira e iagelando.

19 Ilhabela → os pescadores das comunidades tradicionais chamam olado comercial do município deIlhabela, embora

Essapescariaagentefaziapralá,agentesaiadoSombrio e passava a noite na Pirabura, porque era muito longe da Piraburapro Sombrio. Tinhadia quequandolargavaarede atardevínhamosemboracedo, evoltavademadrugadapra tirara Deixarrede.aliémeioarriscadoporquepassavamuitobarcoàs vezes. Àsvezesnão, eleslevavam arede,nãosóminha,mas dopessoaltambém. A rede a gente largava assim seis e meia da tarde, sete horas da noite, pra tirar outro dia. Quatro, cinco horas da manhã.Tirávamosmuitocedoequantomaiscedoviessepra tirar a rede melhor. Mais fácil porque se deixasse lá um barcopoderiapassareacabarlevando.

O peixeconservavacom gelo, inclusivelánoSombrio, do lado do barracão da marinha, tinha uma geladeira ali, foi feitadebloco,revestidadeisoporcomtampa.

52

Elias Romão Ilhabela [ ]

Agentepegavadoismilquilosdepeixe.Entãoquandoera bastante peixe, a gente gelava ali de tarde pra de manhã cedotirardalipralevar evender,equandoerapoucopeixe a gente levava em isopor pequeno, bastante peixe a gente levavaNaqueleali.

Elias Romão Ilhabela [ 53 ]

O cerco flutuante, aqui só tinha uma pessoa que sabia fazerocerco.Temmuitapessoaquedizquesabefazereque enganavaagente.Agarantiaésócomumapessoaquetinha aqui,queeraoDito,paidoJoão,paidoAloísio,paidoSérgio. Eleeraumapessoa queagentepodia confiar eo cerco que elearrumavaeragarantido.

“Vocêpodepescar! Você vai mepagar com o dinheiro de sua pescaria. Você não vai tirar dinheiro vivo do seu bolso prapagar”...(FrasedeseuDito)

A gente pagava o serviço com o dinheiro da pesca. Inclusive ele se dava muito comigo. A gente morava lá no Sombrio. Todo mundo me conhecia lá. Quando tinha que arrumar meu cerco, eu vinha falar com ele. Certa vez ele tinhaidopromato (trilha) daCabeçudafazerumacanoa.Lá derrubavaumaárvorepequenaparafazerumacanoa.

“Cadê o Dito? - O Dito ta lá no mato foi derrubar árvore pra fazer uma canoa: Onde é mais ou menos?”... Aí me informavammaisoumenosolocalequandochegavatavalá o Dito sem camisa, no meio do Taquarissu21, molhado de

20 Goete → é umaespécie sul-americana depeixedafamília doscienídeos.EmIlhabelachamadadePescadinha. CERCO FLUTUANTE

estejam no mesmo município, o isolamento ea distância os fazsesentirememoutrolugar.

Elias Romão Ilhabela [ 54 ] suor... “Oi Elias você por aqui: – Vim aqui pra gente conversar sobre aquele negócio do cerco. Meu cerco não ta matando peixe, não sei o que está acontecendo com meu cerco. Então o senhor sabe, nunca vai ter ninguém pra arrumar e você se comprometeu. Queria que desse uma olhadinha”...

Aínaqueletempoelemechamavadexará... “Xaráeuvou! só dá uma ajudinha aqui pra derrubar essa árvore”. Falei:Claro! Ajudei com toda a satisfação... Derrubamos a árvore pra fazer o estivado22 da canoa. Ai fez o estivado da canoa, fez a lateral da madeira que nós pusemos em cima do estivado, que foi feito pra ele poder trabalhar e viemos embora.Passamos na casa dele, falemos com a senhora dele, viemosembora. Cheguemosem casa quatro horasdatarde. Nessediacomeçouaarrumar ocerco.Aiarrumouocerco e começou a pescar direitinho de novo. Então a gente tinha quechamarele.Eleeraomestredocerco. Elefalouassim:-Vocêvaimeajudaratrabalharnomato comigo, lá no mato das Caveiras (praia), vai me ajudar a fazerumacanoa.–MasDitonósvamostrabalharnomatoe viver no mato? Tudo bem? Ai me arrumei peguei minha canoa, levei minha bagagem, meu machado, ai fomos trabalhar,eupasseialioitodiascomele. Sóquenóscomeçávamosatrabalharcedoeparavatarde, mas eu graças a Deus era novo, não sentia cansaço, não sentianada.Trabalhavabemdemachado,porque,inclusive, até machado nessa madeira dura chamada indaiaçu23 foi quebrado. Eramuitoduro, quebrei meumachado, mastudo bem!

Elias Romão Ilhabela [ 55 ]

Ai trabalhei com ele oito dias, e no fim de oito dias vim embora e ele ficou lá. Num serviço assim de pescaria eu tinha mais confiança nele. Nas funções de arrumar minha rede,eumesmoconserto.Quandoocercoestavacomalgum problemazinho,elearrumava.

Você tem que pescar sempre com três, quatro metros de rede, não pode suspende e se suspende o peixe passa por baixo. Ela fica voltada na água, vinte, vinte e poucos dias, vamosdisserassim.Entãodetrêsemtrêshoras, quatroem quatrohoras,vocêvairetiraropeixeetinhabastantepeixe. Ai você fazia isso quatro, três vezes ao dia. Seis horas da manhã,dezdamanhã,duasdatarde, seisdatarde.Vaitirar peixe.Agora quando tá fraco de peixe vai três vezes. Uma da manhã, às onze horas, uma no início da tarde. Agora tem também muita lula, lula de cerco. Eu tinha uma canoa pequena e acendia o farol a gás três e meia, seis horas da tarde. Chegava na boca da rede, deixava amarrada de um lado a outro pra carona não fugir, com cuidado pra não colidir.Acendia o farol e deixava ali. Quando chegava dez horas danoite ia visitar o cerco. Lulaentão tinhamuitalula, aluz clareava. A luz, né? Parece que chamava os peixes, tinha algum imã al. Não só lula, muito peixe. Lula tinha bastante, muitapescadinhaeváriospeixes. A gente tirava lula e já tirava o farol também. A retirada dopeixeeracomduascanoas.Aiprimeiroseguiaumacanoa pequena com duas pessoas, levantava a ponta da rede com duas cordas, depois ia à outra canoa com duas pessoas,

Elias Romão Ilhabela [ 56 ]

Eupesqueijuntocomosenhormeupai.Osenhormeupai tinha sociedade com um senhor lá de Santos, chamado Batista e esse Batista tinha um barco baleeiro chamado MariaSantaRita.SantaRitaéonomedobaleeiro. Elepegou,conheceumeupai,iafazerumasociedadecom meu pai. Ai nisso queria pescar na Vitória (ilha), ai da Vitória, depois, fiseram cerco. Pescavam na Lage Preta, tinhamdoiscercosnaLagePretaepescavamlá. E esse Batista era de Santos, e o barco era de Santos mesmo. Ai quem trabalhou no barco era um tio meu chamado Artur de Santino. Começamos a pescar na Lage Preta.Matamosmuitacavaladeaté18kg,18kgacavala.Ai doladonortetinhaumcercotambém,sóqueestecerconão faziapescariaquenemanossa,entendeucomoéqueé? O cerco deles na frente e o nosso atrás. Em dois dias de pesca,matamos700kgdecavala,tudocavala,700numdia. Ai tava eu, minha mãe viva, meu pai vivo, minhas irmãs vivas, meusirmãosvivos, hojeem dia dessepessoal vivo só tem três pessoas, o resto ta tudo morto, pai, mãe, irmão e Irmã.Sótemtrêspessoasvivas.Euemaisdoisquemoraem Santos,minhafamília.Osquesobraram.

depois começava de um lado pro outro, de um lado que a redeémaisfinaprooutroquearedeémaisgrossa.

21 Taquaruçu → é uma planta da família das gramíneas (Chusquea gaudichaudii), nativa do Brasil. Também é chamadadebambu-giganteoutaquara-brava.

22 Estivado → é o mesmo que criar um apoio com troncos para facilitar a construção da canoa e a locomoção da mesma.

Ai chegamos e matamos cinco cavala e viemos embora. Viemos a remo com o barquinho, chegamos na praia Vermelha.NaqueletempomoravanapraiaVermelhaainda.

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23 Indaiaçu → é uma árvore de 15 a 20 metros de altura, tambémconhecidacomoCutieira. A CAVALA E O MILHO

Fomos escala24 este peixe pra nós salgar. Peixe bom à cavala. Minha família na praia Vermelha tinha uma barra (rio) aifomoslimparopeixeparaescalaesalgar. Na hora que fomos escala uma cavala de três, quatro quilos, colocamos em cima de uma tábua, passamos a faca assimecortamosnomeio,aicaiuumquilodemilho25,milho vivinho,vivinho. Todomundoficouadmiradoporqueestepeixecavalaéo peixemais difícil no mar. Como éque podecomer o milho? Deusnocéu,nósnaterra.Olhaacavalatavacheiodemilho... Aconteceu com nós, fresquinho, fresquinho, fresquinho. Comoéquepode?Comoéqueforambotaraquelemilhono buchodacavala?Tudomundoficouadmiradocomomilho.

24 Escala→écomoocaiçaradiz“limpar”opeixe.

ILHA DA VITÓRIA

A pesca estava caindo muito. Então em Santos, papai conversou e disse: - Vamos pescar em Vitoria. Nós se arrumamosefomospescarnailhadaVitória.

25 Milho→éumaestratégiausadaporalgunspescadoresna hora de capturar o peixe conhecido por “Cavala”. Usa-se milho nos cercos como isca para atraí-los. Talvez, neste trecho do livro, oEliasRomão tenhapescado umaCavalajá fugidadospescadoresdepoisdetercomidoaisca.

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PertodofaroltemumSacolápertodascasas.Agorahoje em dia não tem mais, mas antes existia até uma casa de escolaeumapessoachamadaMaria Laura. Maria Lauraera professora lá, muito conhecida da gente. Maria Laura tinha muito conhecimento. Ai começamosapescalá, pescavalá a pescariaelevavapraSantos. Fizemos pescaria boa lá. Muitos peixes matamos. Tinha muito olho de boi, chegamos até a arrancar o banco da canoa... Umdialargamosoespinhal26 efiquemospravisitar o cerco. Os dois rapazes, meu tio e o Artur foram visitar o espinhal, ai voltaram, ai na hora que fomos ver o cerco era novehorasdamanhã.

Tava fazendo caldeirada de peixe, pirajica, um grandão quetinhamatado, ai começou acozinhar eaconteceu queo barco deu um balanço, mar solto (má sorte) e o caldeirão virouemcimadocorpodorapaz. Nós o pegamos. Ele queria pular, ficou louco, louco a bordo do barco. Virou a caldeirada com gordura com tudo em cima das costas e eu peguei um bocado de sal e fui só salgandoascostasdele.Dizquesalébom.

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Elias Romão Ilhabela

O rapaz virou o motor e descemos pra Ilhabela, mais rápido possível. Ai meu pai veio abanando ele com uma tampa de panela pra chegar até o Hospital. Até aquele Hospital(SantaCasanaVila).Orapazeracatarinenseeficou três meses no hospital. Adepois sarou e ai tudo bem, ai continuamoslápescando. 26 Espinhal → é uma corruptela da palavra Espinhel. É um chicote para pesca de mar, para peixes predadores que atacam iscas como a sardinha. Alguns Espinhéis chegam a ter30anzóis.

Tinha um fogão no barco, o fogareiro a bordo não era fogãoagás,aqueleusavaocarvão.Entãoapanela,caldeirão ficavatudoemcimadobarco.

todososacessóriosdepescaabordo,cerco, âncora, tudo a bordo e tinha levado três bonitos que tinha matado,quandotinharede.Aieufaleiassimprosenhormeu pai: Tem um lugar ai bom de cerco. A rede era normal de pescar naquele lugar ali. - Vamos largar aqui, enquanto vocêsvãolargandovoupescarumagaroupanailhapranós almoçar.Agaroupa

Eu conhecia bem a ilha dos Alcatrazes. Trabalhei lá, sei comoéqueé,seiondetemágua,ondetempédeabacateiro, sei ondeéquetinhaum canavial lá. Assim eu sabiamesmo, andavapor lá. O pessoal damarinhaandavapor lá, né? Ilha dosEntãoAlcatrazes.fomos pescar em Alcatrazes. Quando chegamos a Alcatrazes, arrumamos o bambu que guarda o cerco, as ancoras, as canoas, a rede. Saímos duas horas da manhã da praia Vermelha. Passamos pela ponta das Cabeçudas e pegamos o canal. Não queríamos passar pela pedra do Boi, pegamos aqui o canal de São Sebastião para ir pra Alcatrazes.Quandodeunovehorasdamanhãestávamosem Alcatrazes.Duascanoas,

Elias Romão Ilhabela [ 60 ] ALCATRAZES

mearrebentoualinha,tudobem!Larguemoso cerconaprimeiravisita, só que obarcoestavasemgelo.Na primeira visita, cinco horas da tarde, nós encontramos 700 kg de um peixe da família do parati, só que o nome é esse paratipampo.Éumpeixeamareladoquenemeu.

O que ia fazer a noite com peixe sem gelo sem nada? Resolvemos ir pra Santos... De Alcatrazes a Santos é seis horasdeviagemouatémenos. Pusemos os peixes a bordo. Ficaram quatro pessoas na ilha: meu pai com mais três e eu com mais dois fomos pra Santos: eu, o Artur e o Severino. Chegamos a Santos era quatro horas da manhã. Deixamos o dia clarear, descarregamos, pegamos o gelo. Na hora que ia sair caiu o ventosudoestefortenahoraqueíamossair.

Elias Romão Ilhabela [ 61 ]

O vento sudoeste ficou quatro dias, quatro diassudoeste. Conhecendo bem aquela borda de Santos, vai sair ali pro faroldaMoela.Quatrodiaseomeuirmão,eleeramotorista de barco, trabalhava num barco chamado Luar de Prata, Luar de Prata I, que era daqui de um rapaz do Bonete que chamavaJoãoNapoleão,doBonete. Meuirmãotrabalhavalá.Fomosconversarcomele,falou: Masnãotemjeitodelevarascoisaslápropai,fazeroque, tem que aguentar esperar melhorar pra gente ir. Foi o que fizemos.Assim,depoisqueotempofirmounósfomos.

Ai o senhor meu pai não quis ficar mais lá de jeito nenhum. Ah!Nãovouficar,vouemboraporqueaquinãoé lugar de pescar de cerco, dá muito peixe, mas não tem abrigo,aifaltaàscoisasdagente. Não teve jeito, conhece Alcatraz? Não tem jeito não tem nada. A gente quer comprar uma coisa não tem, tem que levar. A gentenão levou, não tinha se prevenido. Não vou ficar,nãovouficar,enãoficoumesmo,veioembora. AidepoisfoivendidoàpraiaVermelha,foivendidaapraia Mansa. A praia Vermelhaeradele, vendeu. Depoisvendeu a

Elias Romão Ilhabela [ 62 ]

SANTA CATARINA Fui pra lá quando tinha a idade de 14 anos. Lugar muito bom Santa Catarina. Conheci tudo ali na beira mar. Conheci tudo,tudinho.Jáfaleiissoai?Dolugar?Porqueláeraolugar demaispeixequedava.SantaCatarinadeSantosépertinho, pertinhomododedizer. De Santos a Santa Catarina, por exemplo, nós saiamos gastava28horasdeviagemdeSantosprachegaraItajaí,28 horasdeviagem.NóssaiamosdoItajaíegastavaoitohoras, muitadiferença,20horasdediferença. Oruiméquevocênãotemabrigo.Agoratemmuitabarra, aBarrado Araranguá, aBarradaSolidão, aBarrado Capão daCanoa,tudoentradadenavio,tudodemadeira,masantes não. O litoral é frio, muito frio, sudoeste muito frio. Tinha que estar bem agasalhado... Mas vivia bem. Muita diversão, bares, todo fim de semana, baile, sanfoneiro, forró. Ah! O pescadorsediverteporlá,não?

praiaMansaqueeradaminhamãe,queelevendeutambém. Terreno de herança, de parte de minha mãe era oito, oito herdeiros.Dapartedemeupaieramquatro.Entãoosenhor meupaitinhavendidoapartedele. A minha mãe vendeu, dividiu em sete, juntaram o dinheiro deles e foram comprar um terreno lá no Guarujá. Deuprafazeroitocasas,oitocasasnoterreno. Oitocasaslá noGuarujá.Adepoiselefaleceueficoudeherança.

Elias Romão Ilhabela [ 63 ] O PEIXE DIFICIL

Hojeemdiatameiodifícil.Nãosei,maisopeixefracassou de mais. Não sei se é por causa dessas muita embarcação, muitacomosedizaparelhagemabordo,opeixeespantano fundo do mar. Aquele radar quando viram aquele, quando gira aquele sonar dá cada choque que espanta... Muita aparelhagemabordo. No parcel, 130 milhas daqui até a ilha Sumítica, vivia largando a rede e pegava muito Cherne, tem muito Cherne peixe de parcel, tem peixe Macaé, Dourado, Namorado, Bagretudo peixedeparcel,masbarco depesca, só ta vindo ládeMacaé,daquininguém.DaquidoEstadodeSãoPauloé difícil.Sócomlanchaparairatélá,masbarcodepesca,não vem,nãodá.

1984: Esse veleiro chegou aqui no Saco do Sombrio com duasargentinas eum rapaz. Eu tinhaacabado dechegar da pescaria esoubeque estavam meprocurando.Subi abordo etireiumafotocomeles.

IssotambémfoinoSombrio.EuchegueidofaroldaPontado Boi, vim na lancha, saltei e encontrei esses dois rapazes conversando. Sentei e comecei aconversar com eles. Coisas sobreofarol.Adepoisvirouassuntodepescaria...Maiscoisa, maiscoisa...Muitacoisa.Nãomealembro(lembrar).

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Elias Romão Ilhabela [ 65 ] Depoimento: Dia Quatro Memórias e Histórias de Elias Romão Parque Estadual de Ilhabela Quarta feira, nove de maio de 2007.

Elias Romão Ilhabela [ 66 ] PICADAS Picadasqueeuconheço?...Bom!Aprimeiraéapicadado farol do Boi, trabalhei lá. Ai tem picada aqui do Sombrio a Figueira,daFigueiraaIndaiauba,daIndaiaubaasEnchovas, dasEnchovasaoBonete...AivoltamosacomeçardaFigueira para praia Vermelha, praia Mansa, de praia Mansa pros Castelhanos, dos Castelhanos ao Eustáquio, do Eustáquio a Guanxuma, da Guanxuma a Serraria, da Serraria pra picada na Ponta Grossa, da Ponta Grossa para o Poço. Do Poço na Fome,daFomeaoJabaquara,daJabaquaraaté naPontadas Canas,aijáéoqueagenteconhece.

CAÇADAS MACUCO E JACUTINGA NaToca27 o pessoal caçava muito... Levavadoistrêsdias. Tinha muito caçador, bastante caça. Lugar onde tanto matava macuco de laço como macuco de espingarda. Então quando chegava o tempo da frutina (das frutas), a gente ia pralá.Passavatrês,quatrodiaslá. Era mais o macuco mesmo que a gente matava e jacutinga28 que matava de espingarda. Também encontrava passarinho... Peguei muito passarinho pra vender. Peguei muito tucano. Usávamos um barco antigo pra ir comprar banana. Então macuco sempre pegava e vendia, né? Nós fazemos no pirão mesmo e comia. O gosto era uma carne

Lá nos Sombrio chegou a morar 60 epoucas famílias. Na época (1962) era bem mais pouco. Na minhaépoca mesmo queeufuiproSombriotinha32casas. Os japoneses foram os primeiros que chegaram lá. Já começaram a montar cerco, porque a pescaria deles era de cerco.Faziamvaralprabotararedee quandotiravaarede, então fazia aquele varal de bambu, era grandão, de bambu de quinze a vinte metros. Quando tirava a rede ficava em cima do varal, eles secavam, remendavam e secavam peixe também.Secavammuitopeixe,todaqualidadedepeixe,tudo pescariadeleslá.

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muito saborosa, muito bom mesmo, a carne era mais escurinha.Quando trabalhei no farol da Ponta do Boi, na picada do farol da Ponta do Boi, nós achávamos muito macuco. Tinha muitapicadadecaçador. Tinha picada na praia Mansa que chamava picada do Morro do Macaco. Nos Castelhanos tinha picada chamada Vargem Grande. Em Castelhanos também tinha um (lugar) chamadopicadadaGuaranha...Todapicadatinhaumnome. Falávamosem tal picada, jásabia qual era. Àsvezesagente marcava com a pessoa assim: Vamos nos encontrar na picadatallánapicadadosCastelhanos,agentesabiaqueera aquelapicada. SOMBRIO O CERCO FLUTUANTE E A SALGA

Elias Romão Ilhabela [ 68 ]

Passei o réveillon com o cerco na água. Quando chegou a noite do réveillon, do dia 31 pra dia primeiro, fui visitar o cerco, última visita das seis da tarde, tinha uns 400 kg de peixeecomoéqueiafazercomtantopeixe?

Traziamdez,dozesacosdepeixepravendernobairrode São Francisco29. Sempre São Francisco, porque lá tinha japonêsquecompravadeles,vendiamuitopeixesalgado.

Teve um dia, foi no ano de 1984, que eu passei um réveillon com o cerco na água. Ai vim aqui em Ilhabela, comprei umas coisas pra levar, comprei duas garrafas de vinho, porque a peixaria onde a gente descarregava, dava um,aieucompreiumeganheium,tudobem.

Falei pro meu pessoal: - Que nós vamos fazer com este peixe? Vamossalgar...Todomundoalegretomandovinho Vamossalgar,vamossalgaropeixe...Nósestávamosemoito pessoaspraescalaropeixe.Escalarésalgar.

Olhe passamos a noite tudinha escalando, limpando o peixe, salgando, nós viremos à noite, bebemos... Não deu problema nenhum. Todo mundo trabalhou contente e fizemosoréveillon logocedo naágua.Não sei seéverdade, né?Passamosnaáguapradarsorte,seilá...Foibomassim...

Perguntei assim: Escuta! O peixe vou vender amanhã, como é que vocês querem que eu faça? Cada um fica com a sua parte ou vendo e divido o dinheiro?... Responderam: Não! Você pode vender e divide o dinheiro com nós. Então, por exemplo, chegavaláevendia, pegava400 reaisetirava despesa do sal que comprava o sal, né? Ai o que ficava eu rachava no meio entendeu? Metade minha, metade deles, meio a meio. Ai o deles dividiam, três, quatro pessoas dividiam.

Elias Romão Ilhabela [ 69 ] TAINHA

Quandochegavademanhãopeixepulavanomesmolugar, aifaleipraminhaequipe: Olha,rapaz,vamosmatartainha anoite.Vamosfazeroseguinte,sóquenósnãovamoscedo... Cedo tinha muita tainha, mas na hora de cercar, não tinha mais nada. Levantemos uma hora da manhã, nessa hora ai fomos,aiastainhaanoitecia,desaparecia. Em Figueira (praia) usava uma canoa a motor. Levei a rede, a canoa a remo vinha a reboque da canoa a motor. Ai viemos e pegamos a canoa a remo, viemos em três. Ai quandochegounapontadoilhotetavaassimdetainha,uns

Pescadetainhatodavidateve.Pescadetainhapraláteve, mas só no mês de junho, assim, até agosto de rede. Matei muita tainha com a rede de emalhe. largava de tarde e pegavademanhã.Qquandopassavatainhamatavabastante. Cercando anoite, porque éum peixequecorrepor cimada água e de dia ela vê, vê a rede lá no fundo. A tainha é um bocadosabida,éesperta.Aimatemosmuitopeixe. Teve um dia ai no Sombrio, quando anoitecia, a tainha acabavalápelasquatro,cincohoras,dainenhumatainhase via por lá. Quando era noite ela pulava e dava para ouvir o barulho que ela fazia. Quando ela pulava caia na água. Pescadorqueépescadorsabeeconhece,éuma corridabem rápida,éatainha.Jádemanhã,opeixedesaparecia,agente procurava por lá, Figueira, Rosário, Piraçununga e não encontravanada.

canoaamotoreumacanoaaremo.Fomospro Sombrio, aindafalei assim: O quevamosfazer? Pensei: O que vamos fazer, vamos pra Vila. Ai viemos pra Vila.

dos Castelhanos não quiseram entrar em acordo com eles, cercavam com uma rede só e dividiam o peixe. Tinha um rapaz que jurou que se eles cercassem ia brigar,ainãodeuoutra...Meupaicontavapranósissoai.

Vendemos 400 quilos de tainha, o pessoal ficavam todos admiradospelaquantidadequematemosdenoite. Entãoopeixetainhaéassim,elafazaquelafantasia,nãoé tãofácilmatanão.Denoiteelaafundacedoenãoficaporali. O finado meu pai tinha rede de praia quando morava na praia Vermelha. Ele tinha uma rede, a rede dele era grandona.Eleeracanoeirotambém,faziacanoa. Elelargava a rede e quando tinha tainha ele matava tainha. Chamava o pessoal prair pros Castelhanoscercar tainha. O únicolugar quenãotemtainhaeradebaixodapedra. Uma vez saiu uma briga. Lá naquele tempo eu tava em Santa Catarina, contaram pra mim que foi uma briga por causadatainha.Porquenãoeraumaredesóquetinha,tinha outrasmais.EradapraiaVermelhaetinharedetambémdos Castelhanos.Opessoal

Elesconsideravam muito o meu pai lá. Ai fez o cerco, na horaqueestavapuxandoaredecomeçaramabrigar.Sóque minha família tinha gente ruim, largava nas costas, foi uma brigafeia,brigafeia.Umrapazqueveioquiscortarocaboda rede.Aimeupainãogostou...Ébrigadepescador,né?

400 e poucos quilos de tainha. Ai emalhou, emalhou, o que saiu,Tinhasaiu.uma

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27 Toca → localizada no alto do bairro Reino em Ilhabela, numa área conhecida por “Green Park”, local onde fica a cachoeira de mesmo nome, conhecida por turistas e moradores.

Elias Romão Ilhabela [ 71 ]

Estrada dos Castelhanos. Chovia forte neste dia e os ventos derrubaram duas toras de árvores. Saltamos do carro e as cortamosparaabrircaminhoeseguirviagem.

28 Jacutinga→éumaavedafamíliadoscracídeosquehabita as florestas virgens das regiões centro oeste e sudeste do Brasil.Medecercade75centímetros,alimenta-sedefrutose

arborícola. 29

bagas. Seu nome cientifico é (pipile jacutinga), também conhecida como Peru do Mato. Trata-se de uma espécie São Francisco → no texto de Elias Romão, quando ele menciona “São Francisco”, o personagem esta se referindo ao bairro de São Francisco na cidade deSão Sebastião, cuja praiaabrigaumportodepescadores,funcionandocomoum mercadodepeixesacéuaberto.

Elias Romão Ilhabela [ 72 ]

CertodiaestavapescandonaPontadaPirabura,emIlhabela, lá onde repousa o naufrágio navio Príncipe de Astúrias. O carro denosso amigo ficou em Castelhanos. Ao final do dia, retornemos a praia e seguimos a pé pela estrada, o carro estavadooutroladodorio.

Elias Romão Ilhabela [ 73 ]

1990: Essas fotos foram tiradas lá do barracão da Marinha, no Saco do Sombrio. As canoas eram usadas na pesca de cerco.Nestediaamaréestavabaixa. Estaeraapedraqueserviadeproteção.Quandotirávamosa rede, deixávamos os peixes em cima dela. Eu tinha essas duascanoas.Umaamotoreaoutraqueutilizavanocerco.

Elias Romão Ilhabela [ 74 ]

Elias Romão Ilhabela [ 75 ] Depoimento: Dia Cinco Memórias e Histórias de Elias Romão Parque Estadual de Ilhabela Segunda feira, catorze de maio de 2007.

Onegociodapescaria,largamentoderede.Agentepunha a rede, largava a rede seis horas da tarde pra tirar cinco horasdamanhã. Tinhaai na Pirabura, no faroldo Boi, Saco Grande, na Piraçununga, Rosário, enfim pra aquele lugar tudinhoqueagentematapeixe. Vai com duas pessoas, vai na canoa a motor ou vai na canoaaremo.Dependendosetivermuitachuvavainacanoa amotor, senão tiver vai na canoaaremo. O tempo estando bom.Em

NEGOCIO DA PESCARIA

Elias Romão Ilhabela [ 76 ]

muitas viagens larguei a rede a remo, e quando chegava de manhã, quando ia tirar a rede matava peixe, qualquerqualidadedepeixequepassanaredefica.Podeser enchova, pode ser sororoca, pode ser cação, pode ser pirajica,podeserguaivira,podesertainha. Então todo peixe que dá na rede, a gente mata. Adepois queagentetiravaopeixeelevemtudomisturado,emalhado eagentedesemalhaeleelevapracasa. Quandoépragelar,elegela.Quandoéprasalgar,agente salga. Peixe salgado é muito valorizado, compram muito peixesalgado. A gentequemoradetrás daIlha, quevivede pescaria,quenemeutambém,agentefaziaaquelamanobra todo dia, todo dia. Quando o tempo tava bom ia, quando o temponãotavabom,nãodavaprair,agentenãoia.

Elias Romão Ilhabela [ 77 ] REDE

Então!Olugardecolocarredeera:faroldoBoi,Pirabura, Saco Grande, tinhanoConcar também, depoisqueo Concar bateu,apontaláchamavaConcar.NaPiraçununga,Rosárioe Pedra Preta, afinal em todo lugar onde pescava de rede de emalhe.Agente

escolhia o lugar dependendo da maré, dependendodamaréedovento.Porexemplo,seoventota deleste,napartedaPiraçunungapralá,agentenãolargava. Porqueolestebatemuito,estragamuito. Quando o vento tava de sul, a gente largava porque faz embarquedaPiraburaproSombrio.JáofaroldoBoiémeio ruim porque faz embarca na frente. Mais lá na Pirabura, mais embaixo podia largar... Saco Grande, Concar, Rosário, Piraçununga.Issoaiagentefaziatudonacalmaria. No farol do Boi era perigoso. No leste, não, leste ficava calminho, ficavacalminhoo mar, maso ventodo sul... Jáno faroldoBoinãotinhacondição,nãotinhacondiçãoeagente pegava muito tempo ruim pra lá. Às vezes ia pra lá, dava trovoada de repente e esperava e tinha que parar ou ficar ancoradoouviajavadevagarzinhoprapodersesafar. Às vezes o mar encrespava de uma hora pra outra. Por exemplo,largavaredeatarde,chegavaumascincohorasda manhã,jáeraomaiorsacrifíciotirararede.Omarviravade uma hora pra outra, o mar ficava ruim né. Então já tinha mais ou menos noção... No farol do Boi, tinha que ter uma

Ardentiaardentia.éum

O tempo àgente sabia assim, pelas nuvens, né?... A gente tinha aquele calculo assim. Quando a nuvem ameaça vindo dosulagentesabiaquevaidartemporuim. Quandoerade leste, também já sabia, porque ai dependia da maré que já modificava.Conforme

amaréviraagentesabia aqualidadedo vento queiadar,né?Seamaréviradosulpraleste, agentesabia queeraoventodosuleseamaré virassedelesteprosul,a gentesabiatambémqueeraventoleste.

Aluatambém influimuitoapescaria.Porexemplo,seéa luacheianãodápeixe.Porquê?Nãosei,seopeixeenxergaa rede,nãoseiissoai;porenquantonãofoidescobertoainda, né?Agoraagentesómatapeixequandoaluaestáturva,né? Muita negociodomar,quedavanomar,dáuma brilhada.Jáviuissoai?Jáviu,né?Aquiloaliquandoestáno mar não dá peixe. O peixe volta quando vê a rede ou vê aquela coisa e ai volta. Então a lua sobre o negócio da pescariainfluimuito.Temaluacheiaquealgumasvezesdá algumpeixe,masnãoétodasasluastambém. Por exemplo, nósestávamosno meio do mêsdemaio, às vezesno mêsdejunhopode dar umadiferençadepescaria.

Elias Romão Ilhabela [ 78 ] pratica. O tempo continuava bom, mas de uma hora pra outravirava.Aieramuitapratica,né?Queexigiadagente. O TEMPO

Então no inverno dá muita sororoca, dá enchova, dá cação,dáguaivira,dápirajica.Noverãodámuitagaroupade rede, não, garoupa de linha, cação, às vezes sardinha. Sardinhatambémporqueàsvezesagentevêmuitaconversa queestãomatandomuitasardinhanoverãotambém.

Elias Romão Ilhabela

RIO GRANDE DO SUL

Antônio tinha um barco chamado Xavante II, o nome do barcoeraXavanteII.EutavaemSantoseaiodonodobarco, caiçaratambém,eleéfilhodapraiadaSerraria,caiçaraaqui daSerraria.OnomedeleéAntôniodeDidi,porqueopaidele

[ 79 ]

A gente sempre sabia quando ta a lua cheia, não é bom pra peixe. TIPO DE PEIXE

Notipodepeixeagentesabiaassim,porexemplo,seéno verão dá uma qualidade de peixe que pode não dá no inverno. Que nem no verão dá muito bonito de rede, muito bonito. No verão dava bonito, sororoca, guaivira são esses peixesquedãonoverão. Agora no inverno já dá mais pirajica, me confundi, mas tudobem vou voltar, vou voltar porquemeconfundi nessas palavrasai...

Elias Romão Ilhabela [ 80 ] era Didi, então o filho era Didi. Ele se dava muito comigo, chamava Antônio, agora não, mas antes então chamava caçador de tainha, levava dois, três meses pescando pra lá noRioGrande(doSul)... Fomos lápraSantaCatarina passar uns doismeseslá. Ai cheguei em casa, inclusive a minha esposa é família dele, ai cheguei em casa, adiantei o dinheiro pra ela, ia passar dois trêsmesespralá,deixeiodinheirocomelaesai. Saímos de Santos dia 22 de abril e fomos pra Santa Catarina. Passamos Itajaí, passamos Porto Belo, passamos Campo Grande. Chegamos em Florianópolis e passamos a noite em Florianópolis. Nesse tempo que passamos de Santos, passamos nesses lugares todos, nós gastamos seis diasdeviagem,iaparando,certo?...

Em Florianópolis passamos da barra do norte de Florianópolisesaímospelabarrado sul.Alidabarrado sul passamos em um lugar chamado Garopaba, Bituva, Laguna. Paramos em Laguna. Caiu um mau tempo em Laguna fiquemos 22 dias sem sair, tempo ruim, daí pra Laguna nós jáiadiretoproRioGrande,iapescarnoRioGrande. Fiquemos em Laguna 22 dias, 22 dias quando o tempo acalmou a gente escutou pelo rádio que havia muita pescaria, tinha barco já chapado, muitos que saíram do Rio Grandeeestavamvindojáchapadosdetainha,né?

Tinha o Rei do Mar II, o Brisa Mar, o Alva Mar, isto era tudo barco pesqueiro e já estavam tudo com a carga completa pra viajar pra Santos. Ai nós saímos, eram duas horasdatardedodia18,dia18demaio,saímosdeLaguna, viajamos,saímosduashorasdatarde.

Elias Romão Ilhabela [ 81 ]

Viajamos o resto da tarde, quando chegou nove horas estava o céu todo estrelado, tempo bom, o mar tava calminho. Nós viajamos pro Rio Grande, já amanhecemos por cima de Araranguá, Tramandaí. Quando chegamos passamosalagedeCampoBom,passamosBarrinho.

Quando chegamos a Tramandaí, o motorista veio, esse motorista era irmão do dono do barco, João. Ai ele falou assim: - Nós não temos óleo pra gente viajar mais. Antônio aindafalou: Escuta!AntesdenóssairmosdeLagunavique nóstemosóleopraviajar100horas. Chegando ao Rio Grande João insistiu: Antônio não temos óleo pra nós virar 100 horas... Antônio disse: Não, nãotemos! Maseunãopergunteipravocêsenóstínhamos óleo pravirar 100 horasevocêfalou que tinhaeagorafala quenão tem. Eram irmão ai discutiram osdois, volta, volta, voltapraLagunavaiabasteceremLaguna. Chegamosàlagunacom24entre48horaseabastecemos e saímos... Saímos, viajemos, saímos quatro horas da tarde. Quatro horas da tarde saímos de Laguna. Viajemos o resto datarde,viajemosanoitetodinha. Quandodeu cincohorasdamanhãodia tavaclareando e estávamos emcimadeTorres...Tinhaum lugarláchamado Torres.Olha!Tantatainha.Amanhecemosemcimadopeixe. Você olhava onde sua vista alcançava, era escuro e mais escurodetainha... NuncavitantaTainha. Odonodobarco chegouefaloupro mestredobarco,pro mestre da rede... Tinha o mestre do barco e o mestre da rede... Ai ele falou assim, o nome do rapaz era Paulinho... Paulinhoagentevamosnatainha,nãovamosdarduas,três

Assim o Paulinho fez, demos meia volta, preparamos a rede pra largar, eu era catireiro, eu e um catarinense chamado Helio éramos catireiro (que trabalha em troca de algo/ QuandoPermuta).obarcocheganobotetemquedarumamarchaà rébemcortada,queéprobotenãobater, aina horaquefoi dar aquelamarcha àrécortada, pegou arede na hélice. – E agora?...Jáancoramos,tinhaquecairnaáguapramergulhar. Quemcaianaáguapramergulhareraosdoisirmãos. No barco tinha dois motoristas, um japonês e um brasileiro.Entãoojaponês,chamavaAntônioechamávamos elede Toninho.Elequemergulhou pracortararede, ai nós arrumamos aquela rede pra depois voltar tudo de novo. À tainhajátinhaatépassado. Atainhapralánãopara.Oventotiramuitatainharápido. Então voltamos... Fomos voltando. Quando chegou por uma partedeLagunaachamosatainhasóqueatainhajátavana profundidadequearedenãodava. A tainha tava muito fora já. Tainha quando segue a Rio Grande ela costeia muito, ai quando vai chegando mais pro norte vai ficando pra fora e ainda pegamos. achamos um poucodetainhalá.Cercamoseaindapegamos32toneladas de tainha e descarregamos em Florianópolis, de Florianópolisvoltamos.Voltamos,aicomeçaramadiscutira bordo, mestre com marinheiro, mestre com o mestre do barco.

Elias Romão Ilhabela [ 82 ] voltas, a gente primeiro volta e vamos aguardar, porque duas,trêsvoltasopeixesaidali.

Como na rede que foi feita em Santa Catarina, eles puseram assim uma proteção de uma rede, que era tudo malhadesardinha...Emalhemuitoemalhe...Quandochegava sardinha sabe o que nós fizemos? Viemos desmalhando à sardinhadopesqueiroatéporquenósíamospraSantos.

Passemos por fora... Ai vimos o barco de tainha, acompanhamos o barco... Lá fora estava cheio de sardinha mesmo, estavam matando toda sardinha. Rodamos por lá umpouco,aicercamos,aichapemosobarcodesardinhas.

Elias Romão Ilhabela [ 83 ] SARDINHA

O dono do barco ficou em Santa Catarina: Vocês vão levarobarcopraSantosqueeuvouficaraqui,depoiseuvou acertaracontalá,dopeixequeagentetinhamatado. Chegamos em Santos em um dia, duas horas da manhã. Abastecemosobarcodevivereseóleo.Saímoseradezhoras da manhã e seguimos para o norte de Búzios. Nós viemos, viemos; quando chegou em cima dos Búzios, vinha anoitecendo. Ai nós vimos um barco a nossa frente. Nós acompanhamosaquelebarcoquevinhasaídodeUbatuba. A sardinha tava bem por fora da ilha da Vitória e nós passemos por fora, pelo farol do Boi. Com rumo direto pro faroldoBoi.Santos-faroldoBoi.

Nóspassávamosarededapopapro convés, só pragente poder descansar um pouco, trabalha na viagem, entendeu? Essetrabalhoagentefeznaviagem,aichegamosnocaisem Santos,afinal,asardinhajátavanofinalporqueiacomeçaro

CAMARÃO ROSA

Gosteidetrabalharnocamarãorosa.Camarãorosagostei de trabalhar. Trabalhei lá em Santa Catarina com camarão rosa... Só camarão rosa... Era melhor porque tinha menos serviço. Vamosdisser assim, quenem láno Arvoredo, lugar muitobomdetrabalhar,tinhamuitapescaria. Hoje em dia não tem vento que nem antigamente. Antigamenteláandavamtudoagasalhadoporcausadofrio. Agora quando tava trabalhando já não sentia muito frio, trabalharaqueceocorpodagente,masparadosentia. Então a gente matava muito camarão em Santa Catarina, camarão rosa. Em oito dias matamos 160 caixas, caixas de 60 quilos, 160 caixas, 60 quilos cada uma, era muito camarão.Naépoca

trabalhávamoscom umaredesó. O barco tinha ummotor,um6Mde240HP,embreagemelargavaaredena água e com o barco sempre íamos arrastando e esticando a rede. Quando estava tudo certinho íamos soltando a rede e pescandopelapopa.Passandocadacaboemumacarretilha.

[ 84

Elias Romão Ilhabela ] claro.Ganhamosentreatainhaeasardinha35reais,não 35 cruzeiros,né?

Isso foi no ano de 1968, por ai. Então foi a pesca na sardinha. Eu pesquei pouco na sardinha, não pesquei muito na sardinha, pesquei pouco, muito pouco mesmo. Pelo menoscomasardinhanãogostavadetrabalhar.

Elias Romão Ilhabela [ 85 ]

Tinha uma marca, quando chegava naquela marcação, brecava o guincho. Ficava dois cabos assim tudo certinho, redebemenfileirada,prapegarocamarãotemqueserrede bem enfileirada. Arrastando pra gente não passar por cima dele... Arrumamos essas 160 sacas e viajamos pra Santos.

Tudo peixe escolhido, a mistura de outro, então se torna maisdemorado,né? Se o camarão tá dando á noite, você trabalha só à noite. Largaaredecincohorasdatarde.Quandocheganovehoras danoitevocêtiraumarrasto,depoislarganoveetrinta,tira umaemeia. Largauma e meia, tira as quatro emeia. Larga asquatroemeiaetiranove.Oitoemeia,novehorasúltimo arrasto, ai ancora porque de dia não dá camarão. Tem vez quedácamarãodedia,agoratemdiasquedácamarãodiae noite.Quando o camarão ta dando de noite a gente tira um, larga outra, tira um larga outra. O guincho que puxa essa rede,rededearrastãoéaqueobarcoarrasta,entãoéassim, o ensacador, asmangasda rede quea gente chamamangas darede. Amalhadelaémaior,agorachegano ensacadoras malhassãomaispequenasqueéprocamarãonãopassar.

Você trabalha ali com quatro cabos, manilhas, dois cabos numa rede, dois cabos na outra. Cada ponta de cabo tem umamanilha. Comaredenaáguaobarco nãopodefazera voltaemcontrário.Sempreobarcofazvoltaafavordarede. O barco faz assim, larga a rede por aqui (direita), não pode largar a rede por aqui (esquerda) senão pega na hélice...Obarcovaifazerumacurva,depoisesticaumpouco, quando a rede ta tudo certinho, as boias no cabo de aço 50 em50metrostemumamarcação.

Gostei de trabalhar pra lá, gostei mesmo. Trabalhei em Santa Catarina onze anos. Tudo lugar que chegava você se divertia. Só chegar em um lugar, ai foi uma indicação do mestre do barco, o mestre do barco lá se aposentou não queriamaistrabalhareobarcodeSantoseradeumjaponês. UmjaponêsdeSantoschamadoTasdashi...Essejaponêsera muito conhecido do Senhor meu pai. Inclusive foi ele que arrumouvagapramimnessebarco.Foielemesmo.

O MESTRE DE BARCO

O mestre se aposentou e não queria mais trabalhar embarcado.Procurouumnovomestre.Obarcoficouparado esperando o mestre né... Ai chega um rapaz a bordo. Olhei bem praele, na caradele, estavade terno gravata com uma pasta na mão... O pessoal disse: – Bom dia, bom dia! – Tudo bem, tudo bem! – Eu que vou ser o comandante de vocês agora,vousermestredevocês,meunomeéZico. Ai abastecemos o barco e saímos pra Itajaí. Saímos de SantospraItajaí.Quatrohorasdatarde.Quandochegouseis horas da manhã nós estava atracado no cais de Itajaí. Ele

Vocêpassaaprimeiramarca, depoispassa50 asegunda, passa a terceira, passa 150, passa a quarta, chega 200, fica tudo certinho, com 200 você breca... De três em três horas, dependendo se a pescaria ta boa, você arrasta de três em três horas. Se a pescaria está mais ou menos arrasta de quatro em quatro horas. Se a pescaria ta ruim você arrasta decincoemcincohoras,dependendodapescaria.

Elias Romão Ilhabela [ 86 ]

Elias Romão Ilhabela [ 87 ] moravaem Navegantes. Itajaí tinha umatravessia com uma balsinha que ia pra Navegantes. Ele morava na parte de Navegantes,tinhacasaemNavegantes.

Nós chegamos e atracamos, foi na casa dele que nós ficamosabordo.Quandochegouduashorasdatardepranós sair, demos um arrasto e não matemos nada. Seguimos em frente, fomos embora, embora, embora, passamos por fora docaboBituva,cabodeSantaMarta...largo...Quandochegou em cima de Barrinhas ele falou: Vamos largar rede aqui... Isso não era no camarão, era no peixe. A redeera pra mata peixe,porqueaiarededecamarãoerauma,rededepeixeé outra.Largamos a rede, apanhemos muitas pescadas em 48 horas, foram 54 toneladas, não demos conta e dormimos aqui. Então chapemos o barco e viajamos pra chega de Araranguá até Laguna. O vento nordeste começou a bater muito, ai ele falou assim pra nós: - É bom pegar o tampão promarnãovirar. Pegamos o tampão, amarremos o bote, porque nós tínhamosumbotederemo.Elemandouarrumardireitinho. Assim viajamos pra Santos, viajamos com muito vento, muita marola no mar que o barco chegava até levantar. Chegava até a diminuir de marcha. O barco estava muito chapadodessepesqueirodeAraranguá. Chegamos em Santos, gastemos 42 horas de viagem. Descarregamosparapodervoltar,masantesdagentevoltar, estavapróximodoZicocasar.Inclusivecasoucomumafilha do prefeito deItajaí. O mestrecasou com afilhado prefeito deItajaí.Porintermédiodelenóstavatrabalhandonabarra. Eleeranossomestreeelecasou...Nãofuiaocasamentodele.

Elias Romão Ilhabela [ 88 ]

Teve três tripulantes que não foi ao casamento dele, os outros foram. Nós não fomos, nós tínhamos namorada por fora.Eleficouoitodiasdefolga.Duranteotempodecasamento ficou oito dias de folga. Tinha o contramestre chamado seu Euclides, um moreno e era da praia do Porto, aqui de Ubatuba.ConheceoPorto?LádapedradoPorto.Eracaiçara de lá, era contramestre. Quando o mestre não ia era responsabilidadedocontramestre, ai eleentendeu.Fizemos otrabalhocomeledesdeoitodias,aiadepoisoChicovoltou a trabalhar e parou em Laguna, paramos por meio dia na praiade FomoGaropaba.sjogarbola

na praia de Garopaba. Ai o pessoal da terradeláviuobarco,nósfomostomarumacervejinhaalie perguntaram: Queméomestredobarcoai? ÉZico. Ah não! Ah faz favor fala pra esse homem sair daqui porque nós não gostamos dele. De cara dura falaram pra nós mandar esse homem sair daí, porque nós não gostamos dele... Voltamos pra bordo e falamos: Zico não podemos ficaraqui,queriabaterumabola,masfalarammuitomalde vocêaqui,vamossairdaqui. Saímosdelá. LevantamosferroeparamosemBituvapor quatrodias.Aicalhounumsábado,nósestávamosemBituva nesses quatro dias, final de semana, convidaram a gente paraumbaileláemCriciúma.Resolvemosirlápraconhecer. Látemaquelecaisdecarvão,embarquedecarvãoemnavio né. Chegamoslátudo bem, massó queo Ziconão quisfalar nada pra gente, lá é muito bom, nós fomos pra lá com o pessoal,fomosemseispessoasnobarco.

Elias Romão Ilhabela [ 89 ]

– Somospescador, sim. –E quemtrabalhacom vocês?Não,nãopodemosenganar.–FalamosqueoZicoque era nosso mestre, né. O Zico não, vocês vão me fazer o favor,porqueseoZicovieraquinãovaidarcertocomele. Em todo lugar que nós chegávamos o homem era manjado. O homem tinha ficha em todo lugar. Não podia chegar em um lugar que já perguntavam: Quem é seu mestre? Zico, pronto... Devolveram nosso dinheiro e voltemosparaobarco...Depoiselecasou,demorouunstrês, quatro meses ele desembarcou e eu mudei para outro serviço,né? Antes era assim, tinha muito baile que eu cheguei a conhecer. Se você fosse de cor você não entrava. Se você é branco você entrava, se você é moreno você não entra. Existeessenegóciolá,eupasseiporissolá.Sabeissoai,né?

Era divertido ali, assim era bom. Era bom trabalhar no mar porque conheço muito porto, né? Todo lugar que a gente vai tinha pescaria, trabalhava na pesca, onde tiver pescaria, você vai. Se tiver pescaria no Rio Grande (do Sul) você vai, se tiver em Santa Catarina, você vai, se tiver aqui em São Paulo você vai, se tiver lá no Rio (de Janeiro) você vai.

Agoranãoseicomoéqueé,masantespagavaacota,pra você poder dançar, né. Ai paguemos a cota e na hora de entraropessoaloporteirofalouassim:–Vocêssãodaonde? – Nós somos de Santos, assim, assim, assim. Estado de São Paulo. O porteiro desconfiado perguntou: Vocês são pescadores?

O problema é que tem muita gente que não valoriza a gente.Temmuitagente.Agentefalaepensaqueéfácil...Que nemhojeemdia.Hojeemdiafalopromeufilhodojeitoque apescaria é, do jeito queera antes e do jeito queéhojeem dia.Eles acham um pouco de peixe e acham que é muita fartura. Quem viu fui eu. Eu vi muita fartura de peixe. Falo pra ele que não se compara os tempos de ontem e hoje. Ontemhaviafarturadepeixe. Nãoerasóaqui,masemtodo lugar que ia pescar tinha muito peixe mesmo. Hoje em dia não.Eupasseiporisso.Tocontandoporquepassei.Duranteo tempo que eu tenho assim com 69 anos. A gente matou muitopeixecomocercoaquidetrásdaIlha.Chegueiamatar sete toneladas de espada, chapei três barcos fora o bonito, quase todo o dia era uma barca de bonito, chapava o barco debonito,decavala. Um dia matamos sete toneladas de espada, chapamos trêsbarcos, não era barco grande, assim deduastoneladas, comrededecerco.Começamosduashorasdatardeefomos atécincohorasdamanhã.

Elias Romão Ilhabela [ 90 ] O VALOR DO PESCADOR

É muita fartura de comida que quando chega à festa ajunta muita gente, e olha você come a vontade e ainda sobra muita comida. Eu to trabalhando na cozinha, eu vejo sobrar muita comida. Essa comida é doada. Porque ali tem caixaquevemdoFrade(supermercado)doIlhadaPrincesa (supermercado),issoétudo,né?

Elias Romão Ilhabela [ 91 ] UCHARIA

VamosfalarumpoucodaCongada30 eUcharia31 ...Sempre trabalhava na Ucharia, festa de São Benedito aqui em Ilhabela. Trabalhei na festa de São Pedro, do Camarão, também na Colônia (dos Pescadores de Ilhabela), quando tinhafestadeSãoBeneditolá.Tambémtrabalheietrabalho esse tempo todo. Toda vez que tem festa me convidam e mandamoconvitepramimemcasa.

O pessoal que faz o negócio da festa tem a dona Isabel, afinal, pessoal antigo que são de fato devotos de São Benedito aqui de Ilhabela. Tinha o senhor meu pai, o meu avô era muito conhecido dele. Assim por intermédio dele a família do Romão, Isaura que trabalhava lá na Santa Casa. Ela falava: Elias você não vai com nós? Vou já recebi o convite-Nósesperamososenhorlá,vaisemconvitemesmo. Sexta-feira então a gente vai chegar lá, não só eu, mas bastante gente. As mulheres vai a casa dela, amanhecem o dia ali. A gente trabalhava, um descasca batata, descasca cebola, descasca alho. Outro vai cortando carne, frango, limpandofrango.

Elias Romão Ilhabela [ 92 ] A REDE DE OURO

As Congadas mais antigas... Eu não tava aqui naquele tempodasCongadasmaisantigas.Sóasmaismodernasque euestavapresente,jáem1978. Sempre teveaCongada, inclusiveo meu pai, porquemeu avô eu não conhecia. O meu pai, ele sempre falava pra nós, que tinha o meu avô uma rede de ouro. A rede dele era de ouroessarede.Agenteprocurouessaredeenãoencontrou porque ele falou que emprestou a rede e depois falou que nãodevolveramaredepraele. Então falou que tinha a rede de ouro que traziam uma dona lá dos Castelhanos que chamava Gertrudes, que era dona daquela fazenda dos Castelhanos. Era o nome dela Gertrudes.Elachegava

aqui por trêsquatro diasnessa rededeouro trazida por quatro pessoas. Ela vinha carregada na rede, essa mulher, e ficava aqui quatro, cinco dias na casa do Antônio Paulino. Antônio Paulino ficava na casa dele. Essa redeeradofinadomeuavôedepoisessarededesapareceu. Meu avô ficou doente, faleceu e essa rede desapareceu. Ninguémsabecomquemficou.

Aredeeraassim,tipodeumarededepesca,sóqueerade ouro. De ouro, sabe! Era uma rede dessas de balanço, rede de balanço, de carregar. Aquele tipo de rede, só que era de ouro. Trazia pra festa quatro, cinco dias. Não foi no meu tempo,foinotempodomeuavô.Quatrocincodiasatraziam pracasadoAntônioPaulino,depoislevavameladevolta.

Elias Romão Ilhabela [ 93 ]

Essa rede desapareceu. Cansei de procurar e não encontrei.Nósfizemosumacova,eucaveiem baixodeuma pedra, lá onde eu morava, porque falavam que ali estava enterrada aquela rede. Da pedra onde estava enterrada assimparaomarerauns200metrospracairatéomareali tinha uma água que corria amarela Corria uma água de barro, choveu ou mesmo não choveu corria água de barro, barrentameioamarelada.

Eu sempre achei que podia ser da rede. Só que eu cavouquei e não encontrei nada. Cavouquei assim por cavoucar, né. Virei terra. Ainda existe esse lugar que corre com aquela coisa amarela, mas não encontrei não, mas aquela água, coisa amarela de ouro na praia Vermelha... Eu seiondeé,passaaindaatédescerpromar.

30 Congada→ A Congadaéum teatro deruaquenarrauma luta entre mouros e cristãos. Uma batalha que se travou entre duas pessoas da mesma família. Até então eles não sabem disso, mas no desenrolar da história, o rei descobre que oembaixadoré o seu filho. Segundo os registros do livro de Tombo da igreja matriz; a

Essaredeeraquetraziaestamulherprafesta,ficavaaqui três, quatro dias depois voltava. A festa era muito movimentada. Um padroeiro aqui de Ilhabela era muito devotodele,eopessoalentão, quandotemumafesta assim tudomundovem,muitagentevem.Muitagentevemporque não tem preocupação pragastar. Almoçam tudo ali, émuito bomeagoratachegandoodia.

Elias Romão Ilhabela [ 94 ]

primeirafestividadedeSãoBeneditofoirealizadaem1855. Jáem 1868 ganhouseu significadodivino, tornando-seuma festa do cristianismo, organizado pela Confraria de São Benedito. No entanto, em 1943, oscongueirosforam proibidos de entrar na igreja pelas autoridades religiosas. Que condenavam o fato de unir costumes pagãos às festas Járeligiosas.apartir de 1964 ela foi realizada sem restrições e registrada nos arquivos como “Uma festa para o povo de Ilhabela, a principal, por ser mais concorrida que afestada padroeira”. 31 Ucharia → éa dispensa da casa real. Lugar onde os congueirosefamiliaresalmoçam.

Elias Romão Ilhabela [ 95 ]

1990: Aqui estamos na minha canoa a motor. Deixamos o Saco do Sombrio com destino a Ponta da Cabeçuda. Eu (Elias)estounoleme.Meufilho(semcamisa)estanomotor eomeusobrinhoestanaproa.AdepoissaímosdoPoçopara apraiadaFome.Acanoavinhacarregadadepeixe.

Elias Romão Ilhabela [ 96 ] 1995:Euemeufilhoaesquerda.Elematou estepeixede44 kg chamado ‘Caranha’ Lutjanus Griseus - na região sul da Ilhabela.Essepeixeédeáguasalgada.

Elias Romão Ilhabela [ 97 ] Depoimento: Dia Seis Memórias e Histórias de Elias Romão Parque Estadual de Ilhabela Segunda feira, vinte e oito de maio de 2007.

Comoéqueera,énegóciodepescadaquetinha muitopeixe,pescadadecambucu,pescaquefoifracassando e depois foi fracassando (1972), e depois no Sombrio começouadarmais.

Elias Romão Ilhabela [ 98 ]

PESCARIA NOS CASTELHANOS

Vamoscomeçar dos Castelhanos, aprimeirapescaria nos Castelhanos.

Anteseramuitagentevivendodepescaria.Eramuitoboa a pescaria, não precisava sair muito longe pra fazer a pescaria da gente. Fazia a pescaria ali na BaÍa dos Castelhanos, então quando nós largávamos a rede de praia, matava muita corvina, pescada, cambucu, vários peixes e davamuitopeixeali. Não precisava sair muito fora pra pegar peixe. Lá nos Castelhanos, lá na Baía dos Castelhanos e adepois, adepois começou a entrar os barcos de arrastão, né? Os barcos de arrastão e começaram a arrastar tudo. Ai o peixe fugiu do marprafora,né?Nãotinhamaispeixe. NoSombriotinhaumlugarchamadoaBaleiaeeucheguei a puxar a rede na Baleia, só com rede de fundo. A gente puxavaládecimadeumadas pedras, aquelarededefundo com dois cabos e matava muita corvina, muita corvina. DepoistambémnoSacodoSombrio,tinha umpesqueirode muita pescadinha preta, dava muita pescadinha, muito xaralete.Prainha também dava muita pescada entre Figueira e Mansa.Sóquedepoisfoifracassandoopeixe...Aiopeixefoi sumindo, mas as parelhas começaram a bater lá em

Nemnaárealánãopodenemlargarumaredequelevam emboradenoite.Denoitepassamláelevam.Mesmode noitepassamumarrasto,láéassimmesmo.Continuapor fora,tambémnofaroldoBoieBúzios,tambémdámuita pescarianessaáreaali.ObarcomaiorvinhadeSantos, pequenoédifícilarrastar,sónocamarão.Ocamarãotem regratemumlimitequenãopodepassar,seiquedaPonta daCabeçudapraPontadaSelanãopodearrastar. EmCastelhanosnãopodearrastar,mastembarcoque arrastadenoite,largandoarededelesdenoite.Foiatéisso aifaladonoIBAMA,masnãoresolveunada,osbarcosse

Elias Romão Ilhabela [ 99 ]

Castelhanos, depois descobriram o Sombrio lá também, moravalá,embarcado,sabiatudodosparceisquetinhalá.A gente mesmo que morava lá, mora no lugar, né? Sabe onde tinha.Aimesmoopessoaldelá,queremtrabalharnobarco, ai foram ensinando pra um pra outro, chegou ao fim. Hoje todomundosabeondequeéaquelaárealáquetem parcel, né,parcelforaquepegarede. PARELHA Masessenegociodeparelheiro,todasessascoisas, diminuiubem.Essaépocadeparelhacomeçoufoi1932,38, játinhabarcoarrastando.Porquesoude38.Soude1938. Meupaifalouqueantesjátinhabarcoarrastandoporaqui,e obarconãoeradaqui,eratudobarcodeSantos.Nãoera barcogrande,eratudobarcopequeno.Hojeemdiaétudo barcogrande,antigamentenão.Erabarcopequeno.

Elias Romão Ilhabela [ 100 ]

mandam,erasóumaconduçãoànoite,maisessacondução nuncaapareceu,inclusiveeutivenumareuniãoalino Parque(ParqueEstadualdeIlhabela)efaleioseguinte:-Ali deviaterummarinheiroquetrabalhassenumalanchada Florestal(PolíciaFlorestal),masumcaiçaraquesoubesse doslocais,pelomenosburacoporburaco.Porquequando chegadenoiteosbarcossaievãoarrastardenoite,dedia elesnãoiam,denoiteelesiamparaáreaondenãotem fiscalização,nãotemnada,trabalhavamanoite,matavamo camarãodeles. Vocêvêenquantotembarcopresoquearrastacamarãoà noite,descarregaanoiteinteira,mastãosabendoquenão pode.Entãohaveriadeteromestredomar,paradáuma advertênciaouchegarnacasadeleedaumamulta.Porque nãofazeroserviçoficaruim,né?Passaoprimeironãotem autoridade,passaosegundonãovaiterentãoelesnãoestão nemai.Trêsmesescadaumnoseguro-desemprego,éum salário,né?Justamentequenemeufalei,deviaserum caiçaraqueconhecetudoasáreasali.Ondetemparcel,onde nãotem,ondepodearrastar,ondenãopode.

Deviamsairnobarcodepesquisa,assimdoIBAMA.Sair comaluztodaapagada,denoitedaparaverbarcoscom luzesacessas,estandoobarcoapagado,eledescobreporque osbarcosquandopercebemapagamaluz.Èissoai,deviater umafiscalizaçãopelomenosparaocamarãoànoite,pelo menosanoiteeéoquetahojeemdia,maisacabandocoma pescaéaparelha. Aparelhanãopara,asardinhapara,ocamarãorosapara, ocamarãosetebarbaspara.Sóasardinhanãopara,a sardinhanão,aparelha.Aparelhanãopara.NofaroldoBoi, aparelhatrabalhadiaenoite.FaroldoBoi,eusei,trabalhei

Elias Romão Ilhabela [ 101 ]

láeusei.AparelhalávinhadeatéAngradosReis,dois barcosdeAngradosReis,vinhalá,trabalhamdiaenoitelá semparar.BarcodeSantos,barcodeSantaCatarina,tudo quetrabalhanaquelaárealáporqueéumaáreaforaque davamuitopeixe,né? DEFESO DO CAMARÃO Não,nãoéadatacertanão(odefesodocamarão).Adata certa que nem agora, está sendo este ano (2007). Ta sendo uma parada, não devia ser esta parada do jeito que está sendo. Esta parada começou em fevereiro, não to lembrado issoai,tamarcadaai,né?Outraparada. Ta parado o camarão porque tem pescador que sabe a parada certa, mas eles nunca vão em cima, porque quem sabe quando o camarão está em defeso e quando não está em criação. A gente trabalha a gente sabe sobre o camarão pequeno pra criar, né? E a lei está errada. Não ouvem as pessoascertas.Fazemaspesquisasdelesechegaaofimnão dáPodiamcerto. mudar o defeso do camarão, mas também tem que controlar também. Hoje em dia tem muito barco de camarão. Em tudo lugar que você vai é barco porque arrastam rede em área baixa. Área baixa é área que dá o camarão, né? Criação de camarão na maré baixa de Caraguatatubaeemvárioslugaresporaqui. Deviam deixar para o paramento é três meses, mas devia parar mais cinco meses para defender a pescaria. Eles

estãoganhandodefesodocamarão2005-2007, queéo salário queestão ganhando duranteodefeso. Então paraunscincomesesseriaomaiscerto,né?Umavezaoano, mas toda pescaria tem que ter o controle, né? Tem muito barcopescando,muitobarcodepesca. PESCA Continuo na pesca, que nem assim, pescar eu pesquei muito também ai para os lados do Rio, Saco de Parati, por foradeAngra, pesquei muito por lána parelha. Davamuito peixeporlá,davanão,dá.

(pescadores)

[ 102 ]

Elias Romão Ilhabela

Foi em 1937, 1967, 1977... Teve um tempo lá que matei também muito peixe. Era bom de trabalhar. Parati, Parati tambémagentearrastavamuito,Parati. Eu era embarcado, embarcado. Trabalhei em um barco. Nós saiamos de Santos pescava lá 10, 12 dias e depois voltavapraSantos. Toda vida a pescaria que a gente pescava pra cá, sempre descarregavaemSantos.QuandovoltavaláproSul,10anos que trabalhei pra lá, só descarregava lá, só no Sul... Umas quatro viagens no Rio Grande (do Sul), Itajaí mais Florianópolis. Florianópolis, Itajaí. A gente descarregava lá. PralátambémtrabalheiemSantaCatarina.

Elias Romão Ilhabela [ 103 ] ACIDENTE NO MAR

Acidente grave eu não tive. Tive assim, mas não foi acidente grave, vamos dize assim. Estávamos em Santa Catarina, ai pra lá não tinha pescada nenhuma, pelo rádio estava escutando e estava dando pescada aqui pro Norte. Tavadandopescaria porforadailhada Vitoria.Aiomestre falou que nós íamos lá pra Vitória. Vamos pegar pra lá porquetádandoumcamarãobom. Ai viemos embora, entramos em Santos, abastecemos e saímospro canal. Chegamospor foradeVitória (ilha), tinha umbarco.Chegamosporvoltadasoitohorasdanoite.Vimos umaclarezanomar,eraumbarcocomluzacesa. Começamos a arrastar tinha bastante camarão rosa. Dois dias e duas noites sem parar. Ai o camarão fracassou, paramos, o camarão fracassou... Quando fomos virar o motor,omotornãopegoumais.

Estávamosbemfora,tavamaisoumenosnailhaSúmitica, dailhadaVitóriaprafora.DaSumíticaparaoparcelélonge, umas doze milhas. O parcel é enorme. Ai fazer o que? Ficamos lá 48 horas. Pedimos socorro e ninguém atendia nosso socorro. Quando chegava de noite nós pegava aquela tochadeestopa,botavaumgalãodequerosene,óleodiesele largava fogo, pra fazer o que, um sinal, né? Ficamos lá 48 horasenada. AiquandochegouclareandoodiavinhaumbarcodoRio. Vinha em direção de nós. Só que ele não tava sabendo que nóstavaali.AivinhadoRiopraSantos,sóquetinhaorumo

Elias Romão Ilhabela [ 104 ]

Um dia nós saímos de Santos, era duas horas da tarde, fomos pra Itajaí. Quando chegamos por cima do Paranaguá, saímos umas duas horas da tarde, eram cinco horas da manhã. Um vento forte que não dava para o barco andar mais.

traçado pro farol do Boi. Do Rio rumo traçado pro farol do Boi.Aielesnosviram equandonósvimosobarcopegamos uma toalha, eu e um rapaz chamado Helio. Então eu com o Helioacenamosabandeira,eraumpanobranco. Eles nos deram o reboque. O rapaz era um caiçara tambémquemoravanoSombrio,euconheciamuito.Eledeu o reboque pra nós em Santos, até Santos. O motor não era viradoàbateria,eraviradoagarrafadeáguagrandona. Aquela garrafa a gente injetava o motor ali e pegava, botavatudonoregulamento,prendiaassimavoltaqueépra soltar o ar e virar o motor e depois enchia a garrafa e deixava a garrafa cheia, mas a garrafa estava com algum vazamento.Vazou,enósficamoslá. Mais perigo que passei foi esse ai. Tempo ruim que a gente pegava, mas tempo ruim não era tanto. A gente se enfiava no barco, na cabine do motor. Então quando não davapragenteviajariamaisdevagar,paraobarconãobater muito. TEMPO RUIM

Peguei! Cheguei a pegar tartaruga na rede, aqui por fora doIndaiatuba.Pegamosduastartarugasnarede.Trabalhava numbarcochamadoXavanteeAquilinoIV.Eramdoisbarcos deparelhaeeraépoca, tavana épocadafesta deSãoPedro aqui em Ilhabela. O mestre com que trabalhei no barco era

O mestre pegou e se levantou e falou para o motorista:Vamos mais devagar - Ai ele mesmo diminuiu a marcha do barco – mais devagar, ai o barco levantou assim, descia, sobrava tudinho no barco. Ele falava: – Olha o barco é grande pessoal, não tem medo que nós não vamos correr perigo,seDeusquisernãovamoscorrermesmoperigo.

TARTARUGA

Nestasalturasquenósestávamosnãoseenxergavanada, só vento e chuva e mais vento. Nós tava passando por uma rota bem fora, por cima de Paranaguá, tava chegando a Paranaguá. Ai aguentemos por 24 horas, viajando bem devagarzinho,devagarzinhoatéotempoacalmar. Hojeemdianãodátemporuimcomoantesdava.Aqueles ventos sudoeste. Hoje em dia não, dá um chuvisquinho de manhã, de tarde está tudo calmo, passa rápido, mas antes não.Cheguei a passar por isso ai; 24 horas só devagarzinho com o motor. Não tinha abrigo pra gente chegar, vai correr para o abrigo aonde, né? Tava fora não tinha como correr, tinha que aguentar isso ai mesmo. O motor virava ali no temporal.

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Nuncaamanhã.comi

Elias Romão Ilhabela [ 106 ] caiçara. Ai nós viemos de Santos pra passar a festa de São Pedro aqui em Ilhabela. Demos uma pescada por fora do Indaiatuba, lá no Bonete e ai fomos arrastar rede lá no Bonete e veio duas tartarugas... Trouxemos pra festa e o cozinheirodisse: Essastartarugasvãofazerparaoalmoço de tartaruga! Não gosto mesmo, mas o cozinheiro fez, fez num barco só. Nós estávamos em dois barcos.Oalmoçopassoudeumbarcoprooutro.Dizemqueé muito gostosa, mas eu nunca comi, é carne que eu nunca comi.Agoraassimemredepegava,né?Emredepassa,seela passa mata, fica na rede. Quando era viva a gente soltava, quando era morta, ai levava pra aproveitar. Viva a gente soltavatudinho. NaIlhatemmuitatartaruga.AlinofaroldoBoi,Pontada Pirabura,SacoGrande,alitemmuitas.OpessoaldoSombrio gostava de tartaruga. Falaram pra mim um dia: - Elias você mata umas tartarugas pra gente comer... Saímos em uma canoa com três. Fisguei onze tartarugas, fisguei onze com arpão. Quando ela mergulha não da pra pegar, quando ela boia da pra fisgar. Fisguei onze tartarugas, enchemos a canoa de tartaruga. Fizeram uma carniçada de carne de tartaruga.Nãoédifícil

delimparnão.Sóqueprimeirotiraocouro,o casco dela, tira uma parte, corta por dentro pela parte de baixo, fica tudo limpinho, carne molinha, meio escura, tem uma gordura. Essa gordura quem limpa na hora de fazer, temquetiraraquelasgorduras.Tartarugatemmuitaaquina Ilha,atéaquinocanal,agentesentadoemqualquerlugarde vez em quando boia uma. Em qualquer lugar... Tartaruga... Golfinho...

barco.Golfinho

Golfinhotemmuitos.Golfinhonuncapeguei,nemnarede, nunca peguei golfinho. Sinceramente golfinho é uma coisa que nunca peguei. Vejo muito no mar, quando a gente vai passando com o barco, uma lancha, até numa lancha. Ele acompanha a gente. Em barco também, ele gosta mais de tem muito, não só em Ilhabela, mas em todo o lugar, todo lugar tem muito golfinho. Todo lugar que você passa em alto mar assim mais próximo da praia você encontragolfinho.Quandoestálargandoredenão,onegócio é quando o barco está viajando. Ai eles pulam acompanhando o barco assim, largando rede não acompanha, ele até foge. Quando o barco estava viajando, eles vem atrásdo barco. Até elecansar, porque adepoisvão embora. BALEIA Baleia, baleia também. Já vi muita baleia aqui, nós tava com cento,não 72 metrosdeprofundidadeda ilha Sumitica parafora, nósfomosfazer um campeonato, daSúmitica pra fora...72milhas.Vimosumcardumedebaleias.Entramosno meio e pra sair fizemos isso (gesto dedificuldade). Pra sair do meio das baleias foi difícil, havia muitas, tinha pra mais

Elias Romão Ilhabela [ 107 ] GOLFINHO

Elias Romão Ilhabela [ 108 ] de 50 baleias. Elas cercaram nós, sabe? E boiava uma aqui outraali,olha,tantabaleia.

Trabalhei naquele dia e olha, sinceramente, nunca vi tantas como aquele dia. O dono da lancha era um senhor chamadoseuÁlvaro: Eliasoqueéissoai?-Nãopossonem explicar pro senhor porque nunca vi assim: Se pescador nuncaviuquantomaiseu...(risos). Fica difícil a gente sair do meio delas. Boiava uma aqui, virávamos o barco pro outro lado e boiava outra baleia ali. Ficamoscercadosnomeiodebaleias.Muitabaleiamesmo. A baleia é um peixe grande, né? Isso foi em 1984. Era campeonato no mar, né? Só que na rota que nós fomos que achamosbaleias.Norumo quenósfomos,osoutrosficaram mais pra terra, outros ficaram mais pra fora ou nas redondezas. O lugar que nós fomos que encontramos. Na horaquenósestávamosfisgandoali,apareceu,aificamosno meio,Erané?campeonatodemar,pescarianomar,porquehojeem dia não tem mais acabou. Tinha muito, toda pescaria que tinha me convidavam pra todos os campeonatos pra eu ir com eles. Quando davaprair ia, quando não dánão ia, mas gostava.Nuncamatamospeixegrande,masgostava.

Chegamos a matar em um campeonato marlim de 32 quilos e dourado. Dourado ai matemos bastante! Porque douradoquandoencontravaumaboiaaifora,portempoque a boia ficava na água, fica cheio de limo e o dourado gosta muito de comer aquilo ali. Então chegamos numa boia que tinha muitos dourados juntos da boia e quando a gente via umaboia ai fora, sabiaque em volta daboia tinhadourado. Agoraomarlinfoisóde32quilosquematemos.

Toda vida teve e ainda tem. Festa de Nossa Senhora de Aparecida,temSantaTeresaqueédia13dejunho.SãoJoão é dia 24 de junho, né? São Pedro é 29. Santa verônica é dia seis,nãodianove,oitopranove,temfestanoBonete.Tema festa deBom Jesus deIguape, que édo dia cinco para o dia seisdeagosto,quetemnaSerraria.

Essasfestaseramassim,porexemplo,começavaatardee acabava no período da manhã. Porque a festa eles fazem assim, quando chegava o dia antes do dia do Santo, aquele pessoal rezava, rezava, porque tinha aquela reza. Rezavam setedias.Pranodiadafestaenterravaosoito,né?Rezavam setedias.Entãoopessoalquemoravaali,tododiaiaassistir aquela oração que tinha ali. Adepois que assistiam, lá pelas oitohorasdanoite,novehoras,aiiatudoembora. No dia seguinte, seguia a mesmareza quetinha. Chegava poucagentenesseintervalododiaprimeiroquelevantavam o mastro. Aquela festa era comum assim e ia só o pessoal daquele lugar. Agora, quando chegava assim, por exemplo, navésperadoSantododia,aiopessoalsabia,nãoprecisava nem mandar convite. O pessoal sabia, então vinha pra festa muitagentedetodoolugar.PraiaVermelha,dapraiaMansa, dosCastelhanos,daFigueira.

Elias Romão Ilhabela [ 109 ] FESTAS

Festa de São Pedro no Sombrio nunca teve. Vinha tudo aqui, tudo pra Ilha, aqui sempre teve. Lá tinha festa de São João, no Sombrio. Já nos Castelhanos no meu tempo não tinhafestanenhuma. Tinha festa no Saco do Eustáquio, Guanxuma e Serraria.

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A últimadança antesládo final da Ilha, que erao último finaldafesta,eraaquelacirandinha,quebra chiquinha,tirao chapéu.Este aqui eraofinaldafesta,quandoodiaclareava para o baile ai saia cirandinha, a quebra chiquinha, o tira o chapéu, ai encerrava, tomava um café, seguia a última novenaecadaumiaembora. Era que nem no Bonete em todo o lugar. O pessoal da comunidadetocavana viola, violino, pandeiro,viola, violino eopandeiro.Iavinhabastantegentedeumapraiapraoutra.

Opessoaldolugarerapoucagente.QuenemnoSombrio,no Sombrioantestinhamuitagente,adepoistinhapoucagente. NoEustáquio,umafamíliasóqueeradevota,depoisveioos filhos deles, cresceram, casaram, mas antes era isso, tinha queirdeumlugarprooutro.

Numafestatinhaleilãotambém,sempreapartedaigreja. Ai tiramos o festeiro para o próximo ano. Levantava e cuidavadomastro,pintava,essascoisas.Outropracarregar lenha,faziaafogueira,outroprareza.Àsvezestinhapessoal de fora também. Do Sombrio tinha gente daqui (do lado do

Inclusive o senhor meu pai, naquele tempo, não tinha a canoa a motor dele, tinha só a canoa a remo. Ele tinha um compadre no Sombrio, quando a festa era no Sombrio. Ai semprequandoelechegavaláàsduashorasdatardeelese arrumava com a família: minha mãe, minhas duas irmãs e saiam.Quando chegava lá, ficavam na casa do pessoal. Jantava comeles,assistiamarezaeadepoisdarezatinhaoleilão,as prendas,praarrematarasprendas.Adepoisdoleilãotinhao baile,atéodiaclareartocavaaviola,violino,umpandeiroe ficavaatéodiaclarear.

Então no dia da festa, antes da festa já estavam sabendo, ia praláno Sombrio... Guanxumatambém tinhaum pessoal quemoravaaqui(Vila),aiquandoestavamsabendotambém ia ajudar. Eu fui em uma festa lá em Guanxuma, inclusive tinha um rapaz, quando tinha festa em Guanxuma, ele moravanaSerraria,onomedeleeraOrlando,afamíliadeleé do Rosário... Orlando... Manoel... Então ele morava na SerrariaequandotinhafestanaGuanxumaelesiam.

Canal), por exemplo. Porque no Sombrio tinha muita gente quemoravaaqui(Vila).

brincadeiras: – Vou pisar na brasa, como? Vou pisar na brasa, tirava o sapato naquele meio de brasa e passava eo lugar quepassavaficava apagado. No lugar que um botou os pés você podia botar o pé de vocês que não queimava. Aquela brasa vivinha não queimava. Nunca vi aquilo ali, sinceramente, a primeira vez que eu vi, falei: Queimou teu pé? Queimou teu pé? Virou o pé e nada. No lugar dele não queima também. Depois a gente soube que era uma reza que ele fazia, rezava, pisava, rezava, pisava, rezava,pisava...

Ai chegava o dia, faziam a fogueira grandona antes de começarafesta. Antes decomeçar anovena já largavafogo, tavafrio,erabomparaesquentar.Opessoalsereuniamtudo em volta ali. Esquentando um pouco. Ai quando chegavana hora de rezar entrava pra dentro da casa. Saiam, acabava a rezaiamproladodefora,voltavaproladodefora,começava o leilão, ai ia esquentando um pouco e quando chegava de madrugada de duas horas em diante a madeira estava queimando, apagava tudo e ficava só aquelas brasas vivinhas.Tinhaas

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Orlando...Esserapazaindaévivo,moranoPontaldaCruz (bairronacidadedeSãoSebastião).Inclusiveamulherdele tem uma barraca lá nos Castelhanos é a Isa... Já ouviu falar dela? Da saída da estrada da praia dos Castelhanos que vai daqui pra lá, à esquerda, quem sai à direita. Esta festa toda vidatempralá.Hojeemdiaachoquefracassou,acabou. No Sombrio, hoje em dia, não tem mais festa, só tem no Eustáquio. Guanxuma tinha uma que é de São João. Na Serraria uma que é de Bom Jesus de Iguape que era do dia cinco pra dia seis de agosto. Não, procissão não faz. Só faz assimareza,músicacantada,adança,tudonomesmosalão. Acabava a reza e a dança guardavam o santo num quarto separado...Depoistinhabrigaeacabavaobaile,né? BRIGA Briga...Tinhabriga...Eraporcausademulher,bebida,um bebiademais.InclusivetinhafestanoSombrio,festadeSão João. Eu tava armado, eu tava com uma garrucha de dois canos, (risos) que eu comprei lá em Santos, mas ali comigo nãohouvenada.Aichegavaláefalavam:-Vai terumafesta noSombrioeeufalava:-Vamosláenofimnósfomos. Solteiro era eu, mais o Juvenal, Américo, Osvaldo, nós éramosemcinco,aifomosnafestalá.Fomosnumacanoasó. Nóscinco...Chegamoslá,deixemosacanoaemumportoque tinhaoPortodaMarinha. Quando chegava a noite teve a reza e adepois da reza começou o baile, ai comecemos a dançar e desconfiavam.

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Tinha um barco de camaroeiro, de camarão rosa que estavam lá no Sombrio, que pescavam camarão de dia e de noite foram também a festa. Ficaram lá bebendo também e desconfiaramládopessoal. O rapaz de bordo e um rapaz de terra lá queriam brigar, né?Ainóseraconhecidodopessoaldobarco: Deixapralá, deixa pra lá. Ai nós íamos bater naquele cara lá. Não adiantava,eratantamoçabonita,sempresaiabriga.Acabou afesta,eusaipraforaedeidoistiros(risos)foramdoistiros na garrucha, dois tiros para o alto. O pessoal veio embora domingo...Acabouafesta... (a entrevista é interrompida aqui pelos alunos da Escola MunicipalemvisitaasededoParqueEstadualdeIlhabela).

Elias Romão Ilhabela [ 114 ] 1995: Esta era Romelia, minha canoa a motor. Quando estavanaáguaàscriançasficavambrincandocomela.

Elias Romão Ilhabela [ 115 ] Depoimento: Dia Sete Memórias e Histórias Residência de Elias Romão e Helena Bairro do Itaguaçu em Ilhabela Quinta feira, cinco de julho de 2007.

Pescaria...Agentepescavadedomingo aterça feira,matava peixe pra gente salgar, secar. Então na Semana Santa, de terça-feira até quinta-feira Santa, sexta-feira da Paixão, sábado de Aleluia e dia de domingo de Páscoa. Ninguém envolvia em pescaria, nada, só pra gente descansar. Tirava também lenha, que não tinha gás, tirava lenha, também botavaprasecar,praajudaracozinharascomidas. Então! Nesse período a gente não pescava. Os caiçaras tinhammuito,vamosdisserassim,tinhamuitorespeitopela SemanaSanta.Tinha,tem,aindatem,aindatempelaSemana Santa.Esteperíododerespeito,entãoagenterespeitava.De quartaatédomingodePáscoa.Táentendendocomoéqueé? Adepois não! Adepois seguia a semana normal. Só o dia da Semana Santa mesmo que a gente guardava e bem. Tudo mundoqueécaiçarasabiarespeitar,porquehojeemdiatem muitagenteque não, né? Muitagentenão. Geralmentetodo

Elias Romão Ilhabela [ 116 ] SEMANA SANTA Elias - a respeito da Semana Santa pelos caiçaras. Quando chegava à Semana Santa, por exemplo, de quarta feira, de terça feiraSantaaté o domingo dePáscoa. Primeiro agente preparava farinha, fazia farinha de mandioca e guardava. Comprava açúcar, açúcar quando não era, moía cana pra fazercafédecana,pratomardemanhãcedoeatarde.

Helena - outrofalavaquepegavasapato. Elias - é não é? (risos), isso eu não sei, eu não estou inventando,estoufalandooqueé.Inclusivejálhecontei.

Helena - minha avó mesmo falava que quem ia pesca na sexta-feiradePaixãopegavaalínguadosapato. Elias - a avó de minha esposa falava que a gente que ia pescarnasexta feiradaPaixãopegavaalínguadosapatono anzol;é(risos)éeunãosei(risos).Issoeramuitorespeitado emminhafamíliatodosnósrespeitávamosmesmo. Quenemtoacabandodeexplicar.Faziatudooserviçoatéo diadequarta feira.Dequarta feiraemdianteatéodomingo

mundo trabalha direto, mas antes todos tinham mais respeito pelaSemana Santa. Paramuitos, também pescador eratambémmuitorespeitado. O pescador que estava pescando de barco também respeitava. Tinha até cisma de saírem, porque quando chegavaa Semana Santadavaum problemano motor, dava um problema em rede. Então eles já com esse, como se diz, com essa cisma de dar defeito no motor, na pescaria, não quersairparaomar.Guardavaobarco...Mesmonomar,um diziaquenasextafeiradaPaixãomatavapeixe boi.

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Elias - aavódeHelenaexplicavasobreofimdomundo. Helena - elafalavapramimqueantesde morrer,ia verpai matandofilho,filhomatandopai,filhoquematavamãe,mãe quematavafilho.Queiamsematarporcausadoterreno,um

Elias Romão Ilhabela [ 118 ] dePáscoaninguémfazianada.Nãotinha,issonãotinha,reza não tinha não. Só que a gente respeitava. Não tinha nem igreja nenhuma atrás da Ilha, antes não tinha. Não tinha igreja,nãoiapadre,nãoianada. Pelorespeito erammesmo aspessoasquemoravanolugar. Helena - padrinho,madrinhatudomundorespeitava. Elias - antes de manhã cedo, antes de levantar, eu, por exemplo, morava na praia Vermelha. Seguia até a praia Mansa, tomava benção de minha madrinha, e também a mesma coisa fazia aquela gente que morava ali. A gente ia dos Castelhanos a praia Mansa, adepois até o Sombrio na casa de todo mundo. O dia clareava já, a pé, chegava lá, ganhava, por exemplo, um presente, dava uma franga pra criar,davaumsuquinho. Helena - davadinheiro. FIM DO MUNDO

matava o outro e tudo isso aconteceu. Está acontecendo. Porque eu era a primeira filha de minha mãe. Ela me explicavatudoisso.Entãoeuguardeinaminhacabeça.

Elias - écoisasdeantigamente. Helena - éverdade,hojeédiferente. Elias - hojenamoraejásaiprapassearpraqualquerlugar...

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Sobreavidaqueagentetinhalánaroçaeaqueagentetem agora.Vinhapracá, agentemoravalána roça, vinhapracá fazer compraseagentelevavanascostasum quilo decada coisa,nãopassavademais. Hojeagentevaicomprar10,15 quilosdearrozemeusfilhosaindaachamquenãoestábom. Nesse tempo o dinheiro que meu pai trazia pra fazer a compraaquierapoucoecompravaumpoucodecadacoisa. Então o que eu tenho pra falar é que a criação da gente foi muito difícil e hoje é mais fácil. Agora também tinha muita coisa da roça, mas tinha muita coisa que não tinha como plantar. Nós plantávamos mais assim feijão, mandioca, milho,verduratambémplantava,nãomuito,masplantava.

Helena - antesnãoeraassimnão...Eujáfuicriadaporfora, né? Sai de casa com 11, 12 anos, já estava trabalhando em São Bernardo do Campo, trabalhei fora por um ano... Tinha família que não saia, tudo criado ali mesmo e o que eu aprendi foi com o meu trabalho. Gente de fora que me ensinou.Emcasamesmo,minhamãenãomeensinouquase

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nada. Ai eu tinha vontade de fazer perguntas, ai eu fiz. Primeiro era assim. Nunca vesti um biquíni na minha vida, meupainãodeixava,nunca,nunca,nunca.Caianaáguacom vestido,sejogavanomarcomvestido.Anteseraassim. BUZINA Elias - agora vamos contar de uma buzina de meu pai que eraumsinalquemeupaifaziapranós. Helena - issoai(aentrevista)élivroprafazer? Elias - é,élivro... Entãoonegociodabuzinaeraoseguinte, o meu pai tinha rede e usava de dez a doze homens. Tinha umabuzinaequandobotavaabuzinaprabuzinarnãotinha hora,porexemplo,napartedamanhã,napartedatarde,na parte da noite... Quando buzinava, os pescadores que trabalhavam com ele já sabiam o horário da rede. Então o pessoal sabia se era na parte da manhã a rede e a tarde se eranapartedamadrugada.Tantoqueumavisavaooutro. Pelaaquelabuzinajásabiaoquetinhaprafazer.Pramimfoi também o mesmo ritmo, da praia Vermelha ou podia estar na praia Mansa, onde estivesse ouvia a buzina e vinha rapidinho embora. Esta buzina era um indicativo pra mim, tavameindicandoqueeutinhaquevoltareirembora.

Alguma coisa tinha que fazer pra ele. Esta buzina era um caramujo,eraserradoobicodeleaibuzinava,soavalonge.A buzina dele era um sinal pra nós... Gozado aquilo ali... Você vêquepõeaténoouvidoevêobarulhodomar.Pralargara redeerasempreomesmosom,erasempreomesmosom.

REDE DE CERCO E DE MALHA

Elias - Jáconteiisso(risos)...Tinhabriga...Eraporcausade mulher, bebida, um bebia de mais. Inclusive tinha festa no Sombrio,festadeSãoJoão.Eutavaarmado,eutavacomuma garruchadedoiscanos,(risos)queeucompreiláemSantos, mas ali comigo não houve nada. Ai chegava lá e falavam:

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Elias - pelomenosarededecercocadaumtinhaoseulugar requerido na capitânia. Ainda tenho um lugar no Sombrio requerido pela capitânia. O lugar lá fica na lage Preta, todo mundo,cadaumtinhaoseulugarzinhoeacatavaparafazer apescariaassimnoinverno.Quandochegavalátinhaolugar deleali na capitânia... Isso ai tinhamesmo, agorapralargar rede de malha não. Você larga em qualquer lugar. A briga que tinha ali era a seguinte, quem fosse mais cedo largar ficava com o lugar... Entendeu como é que é? O primeiro a chegar. Helena - desculpeinterromper,vocêpodefalardabriga...

Elias Romão Ilhabela ]

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Vai ter uma festa no Sombrio e eu falava: - Vamos lá? Chegamos lá, deixemos a canoa em um porto que tinha o PortodaMarinha. Quando chegava a noite teve a reza e adepois da reza começou o baile, ai comecemos a dançar e desconfiavam. Tinha um barco de camaroeiro de camarão rosa que estava lá no Sombrio, que pescavam camarão de dia e de noite foram também a festa. Ficaram lá bebendo também e desconfiaramládopessoal. Orapazdebordoeumrapaz deterraláqueriambrigar,né? Ai nós era conhecido do pessoal do barco: Deixa pra lá, deixa pra lá. Ai nós íamos bater naquele cara lá. Não adiantava,eratantamoçabonita,sempresaiabriga.Acabou a festa ai eu sai pra fora e dei dois tiros (risos) foram dois tiros na garrucha, dois tiros para o alto. O pessoal veio emboradomingo...Acabouafesta... Agora o que tem muito é um carregar os peixes da rede do outro. Ainda tem, sempre teve e não acaba. Até a rede se ficar lá acabam levando. Até a pouco dia meu cunhado largou a rede lá no Sombrio, outro veio e carregou todo peixe da rede. Ele não achou nada. A pessoa tudo pobre, pescador,precisavenderaquelepeixepracomerevocêvaie tirao peixedele. Ai atéum caso deprisão, sempretem isso ai,nãotemjeitomesmo.

Elias Romão Ilhabela [ 123 ] 1995: Aqui viemos do Saco do Sombrio eparamos na praia doPerequê.Dalifizemoscompranosupermercadolocal(do Frade), que era o lugar mais perto desse porto. Adepois fomosembora.

Elias Romão Ilhabela [ 124 ] Essa foto foi no mercado de peixe (praia da Santa Teresa / Centro deIlhabela). Trabalhei muito ali na peixaria. Foram quatroanosdetrabalho.Adatanãomealembromais. Vamos parar para descansar um pouco.

Elias Romão Ilhabela [ 125 ] 1996: Na praia dos Castelhanos. Um rapaz conhecido meu. Estavamosconversandoetireiafotodele. 1998: Isso foi nomeuaniversário. Não mealembromaisda idadequetinha.

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2002: Batizei nas àguas cachoeira do Reino (bairro). Sou evangélico.Nafotoestámeupastor,minhafilhaemeuneto.

Elias Romão Ilhabela [ 127 ] Anexos Intercâmbio de Ideias.

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Foto por Ronald Kraag (2019) O FAROL DA PONTA DO BOI INAUGURADO EM 1900 No final do século XVIII, o litoral norte do Estado de São Paulo estava praticamente às escuras. Apenas dois faróis estavam em operação: um próximo ao porto de Santos e outro já na divisa com o Paraná. Assim, por força das famosas atrações magnéticas do arquipélago de Ilhabela, a Marinhadecidiuqueumguardiãofosseconstruídonaregião

Atorrefoiconcluídaemdoisanosesuainauguraçãosedeu em 11 de abril de 1900, cujo projeto encontra se entre os dez mais importantes do País. O farol funciona com óleo diesel, tem 17 metros de altura e sua luz alcança 22 milhas Onáuticas.difícil acesso construiu histórias de desprendimento devido à localização e isolamento. Os vilarejos mais próximos são os das praias do Bonete (5h de caminhada), Castelhanos (6h) ou Saco do Sombrio (4h). Há também um toque de heroísmo, pois, é o único farol do arquipélago guarnecido, isto é, operado por marinheiros, quando todos osoutrossãoautomáticos.

conhecida como “Ponta do Boi”, a sudeste da ilha, cujas obrasdofarolseiniciaramem1898.

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Para driblar as péssimas condições da costeira, fora construído um teleférico para o desembarque dos equipamentos. Quando as condições do mar não permitiam as atividades no local, o jeito era desembarcar os materiais na calmaria do Saco do Sombrio. No entanto, esta operação demandava uma caminhada de até cinco horas em terreno hostil,salpicadodecobrasatéolocaldeinstalaçãodofarol. Segundo relatos dos antigos faroleiros, as estruturas de metais foram importadas da França. Para levar o material por trilha do Sombrio até o farol, utilizavam carroças puxadas por boi, originando o nome: “Ponta do Boi” que ficou na região. Contudo, existem divergências relacionadas aonomedolocal,queestarialigadaaoformatodapontado morro,sugerindoocorpodeumanimal.

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Elias Romão Ilhabela ]

DadosdoDHN p164 Númerodeordem:3176.Número internacional:G0484.S/W:2357,99e4515,08.Construção: Torrequadrangularbrancadealvenaria. Dados do Farol — Publicados no jornal Vale Paraibano — SãoJosédosCampos,Brasil marçode2003.

Até 1948, o farol funcionava com sinal sonoro. Em dia de nevoeiro,abuzinaacionavaacadacincosegundos.Alémdo aspecto visual, da luminosidade à noite e da pintura em coresfortesparaserfacilmentevisualizadoduranteodia.O sistema também funciona com ‘bips’, emitindo sinais que podem ser decodificados pelos aparelhos de navegação dos Apesarbarcos.daresponsabilidadecomamanutençãodosmotores, que funcionam a diesel, e com o simples ato de apagar e acender o farol, o restante do dia é “arrastado” pelos trabalhadores. Para se distrair praticam atividades como a pescanacosteira,roça,trilhanamataeleitura. Na região da Ponta do Boi, onde se encontra o magnífico farol com paisagem bucólica, não existem praias, e não há nada além das instalações da torre, das casas de alvenaria que servem de morada aos faroleiros. Há um heliponto, construído em 1995, para o acesso do helicóptero da Marinha, que realiza visitas uma vez ao mês, levando alimentaçãoecombustível.

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Marcelo Dutra, Elias Romão, Marco Aurélio e Roberto Dutra. PALESTRA SOBRE O FAROL DO BOI Ministrada por Marco Aurélio Nascimento (PEIb) e Roberto Dutra (Faroleiro). Em 2006, Elias Romão participou de uma palestra sobre o “Farol da Ponta do Boi”, ministrada por Marco Aurélio NascimentodoParqueEstadualdeIlhabelaeRobertoDutra

Elias Romão Ilhabela [ 132 ] (faroleiro).

Na ocasião, o encontro se deu na escola:WaldemarBelisário, no bairro deItaquandubae objetivava ações para a primeira edição do ‘SOS Mangue’.

A seguir alguns registros da palestra. Elias, Karina, Roberto e Adriana.

Entreos participantes estavam Arthur Carlos de Freitas. A amizade iniciada agora deu ênfase a um pedido de Elias Romão, para que Arthur o entrevistasse, eternizando suas memórias com a publicação deste livro.

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PALESTRA SOBRE ELIAS ROMÃO Ministrada por Edson Souza Participação de Arthur Carlos de Freitas. EdsonSouza,EliasRomão(filho)eArthurC.Freitas Em 2017, durante a sétima oficina do Projeto Tribuzana, o jornalista Edson Souza foi convidado pela Secretaria de Desenvolvimento e Inclusão Social para ministrar uma palestrasobre“MemóriaseHistóriasdeEliasRomão”.

“Éumprazerterumcaiçaraescrevendosobreamemóriade outro caiçara que tanto contribuiu para a história e desenvolvimento local. As narrativas registradas no livro fortalecem o conhecimento sobre a cultura caiçara e resgatam osrelatosdo dia adia eosmodosdesubsistência dos nossos antepassados”, explicou a secretária de Desenvolvimento e Inclusão Social, Nilce Signorini, destacando o empoderamento das comunidades e a produçãoinclusiva.

“Sinto-me imensamente orgulhoso em ver como as tradiçõesqueanteseramrepassadasapenasoralmente,hoje também podem ser transferidas via documentos, livros e estudossobreo tema”, disseo prefeito sobrea importância dolivrode“EliasRomão”. Na ocasião, Edson Souza compartilhou com os presentes a história do pescador, seguindo a narrativa através de uma linha do tempo. Já o entrevistador Arthur Carlos de Freitas completou a apresentação explanando os momentos que estevecom Elias. Ao final do evento, amigose familiaresde Romão receberam um exemplar do livro, contendo a primeiraversãodestetrabalho.

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As atividades foram realizadas na primeira quinzena de novembro, na Casa do Caiçara, localizada no bairro do PerequêemIlhabela.Naocasião,aoficinaabordouquestões de território e identidade, mudanças no espaço, recursos naturais e infraestrutura, levando se em conta todos os aspectosantropológicos.

OeventofoipromovidopelaPrefeituradeIlhabela,pormeio da Secretaria de Desenvolvimento e Inclusão Social, em parceria com o Ministério Público Federal e moradores das comunidadestradicionaisdoarquipélago.

PresençadegruposecoletivosdascidadesdeSãoSebastião, CaraguatatubaeUbatuba.

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Palestra assistida pelos moradores dos núcleos e das tradicionais comunidades caiçaras de Ilhabela: Castelhanos, Serraria, Guanxumas, Eustáquio, Bonete, Sombrio, Praia da Fome, Jabaquara, Ilha dos Búzios, Praia da Santa Teresa e Portinho.

Duranteoencontrona‘CasadoCaiçara’,amigosefamiliares deEliasRomãoreceberamexemplaresdolivro,realizandoa leitura e debates sobre as histórias e estórias compartilhadaspelosaudosopescador.

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(Foto 1) Esmeria Regina da Silva, Edson Souza, Marco Aurélio Nascimento, Arthur Freitas e Luana Souza. (Foto 2) Edson Souza, Guilherme, Jussara e Arthur Freitas. (Foto 3) Erika Rangel, Arthur Freitas, Elza Tenório, Edson Souza e EvellynReis.

O autor Edson Souza presenteou a secretaria de Desenvolvimento e Inclusão Social, Nilce Signorini, com um exemplar de seu livro (Estórias e Histórias de Ilhabela). Na ocasião,ojornalistaagradeceuaoconviteeaoespaçocedido paraarealizaçãodapalestrasobreEliasRomão:Ilhabela.

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Em Ilhabela, o projeto Tribuzana foi desenvolvido numa parceriadoMinistérioPúblicoFederaledosmoradoresdas comunidadesisoladas.Duranteasoficinas,aantropólogado MPF, Rebeca Campos Ferreira, realizou a leitura do livro sobre “Elias Romão”, compartilhando causos da cultura caiçaracomosparticipantes.

O autor Edson Souza apresentando a primeira versão do livro para Arthur Carlos de Freitas e Giliard Miguel. Nas imagens estão as duas capas do projeto, lançadas em primeiromomentoparaapromoçãodesteprojeto.

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Elias Romão Ilhabela [ 143 ] Clipping Reportagens e Publicações Sobre o Livro “Elias Romão Ilhabela: Tempo Que é Que Era Aquele”.

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Linha do Tempo

Elias Romão Ilhabela Helena dos Santos

Nome:Elias Nascimento:Romão06/03/1938

Casadocom:HelenadosSantosRomão Nascimento:04/08/1940 PraiaMansa

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PraiaVermelha

Falecimento:26/04/2017 SãoJosédosCampos Pai:AssisdeOliveiraSantos Mãe:SebastianaMadalenadeJesus Amãefoiàparteiradeseusfilhos. TiveramnovefilhosnascidosnoSombrio.

Falecimento:03/08/2007 Itaquanduba Pai:BeneditoRomão Mãe:SebastianaRafaeldeSouzaRomão Eleteveoitoirmãos. Quatrojásãofalecidos.

*FontedeDados:CartóriodeIlhabela. Consultadoem17/08/2022.

►1952 Aos12 anos, Helena foi paraacidadedeSantos, onde trabalhou por dois anos como cuidadora em casa de família. Neste período, Elias estava com 14 anos. Seu pai, Benedito,compravasementesdecanaparaplantarnapraia

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► 1948 Neste período, Elias frequentou as aulas no Grupo Escolar de Villa Bella. Seu pai, Benedito Romão, levava os peixes para vender em São Sebastião, deixando Elias na Vila (centro histórico), para as aulas. Na volta, ele buscava o filho e retornavam para a praia Vermelha. Nas horasvagas,EliasbrincavanapraiacomHelena.

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►1940—AnodenascimentodeHelenadosSantos Romão (esposa) deElias. Elaerafilhade AssisdeOliveiraSantos e daparteiraSebastianaMadalenadeJesus.Suamãefoiquem realizouopartodeseusnovefilhos.Todoselesnascidosno Saco do Sombrio. Seu pai trabalhava no engenho de Leonardo Reale, situado na praia dos Castelhanos, produzindoacachaça“Favorita”.

AgradecimentosaJeanPierreCesarAmaral.

►1938 — Ano de nascimento de Elias Romão. O pescador nasceu na praia Vermelha (Castelhanos), cujo pai: Benedito Romão, canoeiro, tinha casa e terreno. Na época, sua mãe: Sebastiana Rafael de Souza tinha casa e terreno na comunidadevizinha,conhecidacomopraiaMansa.

Vermelha. Eles utilizavam o suco da cana para coar o café (degarapa).Ovendedoreraumjaponêsquetinhacomércio de peixes em Santos. Benedito conseguiu uma vaga de serviço para Elias. Foi quando o filho entrou para a pesca, trabalhando no barco Santo Amaro II, em Santa Catarina. Todo o pescado era levado para o comércio do japonês em Santos. ►1954—HelenaretornouparaapraiaMansanoiníciode 1954. Suas atividades diárias consistiam em auxiliar a mãe com os afazeres domésticos… Nas folgas, Elias visitava a famílianapraiaVermelhaemIlhabela.Voltandoaencontrar Helena…Elecom16 eelacom14 anos…Este foi oiníciode um namoro “à moda antiga”.

►1960—Eliasestavacom22anos,quandosoubeemSanta Catarina que seus pais venderam as terras nas praias: Mansae Vermelha e foram morar no Guarujá. Ele estava de passagem por Itajaí, quando foi incentivado por amigos da Marinha a participar de um concurso que estava por vir.

►1957 Aos 19 anos, Elias, que trabalhava na pesca em Santa Catarina, acabou ficando noivo de uma mulher chamadaÂngela.Haviaalgumtempoqueelenãovinhapara Ilhabela,então,onoivadocomÂngelafoiumlancecasual.Ao retornar para a ilha, para buscar seus pais para o noivado, elevisitouHelenanapraiaMansa.Opaidamenina,Assisde OliveiraSantos,nãoodeixouvoltarparaapescasemanteso casar com sua filha. Elias e Helena se casaram no antigo prédio da cadeia e fórum, na Vila. Ela voltou para casa e elevoltoupara o mar… Ângela voltou para ostatusde solteira.

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►1963 Eliascontaquehavia 32casasnoSombrioeque osjaponesesjá estavam por látrabalhando com o cerco ea salga de peixes, que os mesmos vendiam no bairro de São Francisco em São Sebastião. Fato! Documentosencontrados no ‘Arquivo Ilhabela’, revelam que a povoação na região do Sombrio teve início em 1919, com ‘KuziHamab’, natural de Nagasaki.Eleteriaconstruídooprimeirocercoflutuantena região.

► 1991 — Aos 53 anos, Elias encerraria sua rotina de trabalho no farol da Ponta do Boi. O pescador e sua esposa Helena Romão dos Santos receberam a visita de Eliane AparecidadeCastroSouza,interessadanacompradoimóvel

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► 1975 Neste tempo, Elias revela que 60 famílias moravam na região do Saco do Sombrio. Fato! Na monografia deAryFrança, intitulada ‘A Ilha de São Sebastião’, publicada em 1954 pelo Departamento de GeografiadaUSP,conferimosalgumasimagensrelacionadas às colônias de pescadores no Sombrio.

►1962—Aos24anos,EliaspassounocursodaMarinhae foi enviado paratrabalhar no faroldaPontado Boi, situado na região sudoeste de Ilhabela. A família havia vendido às terrasnaspraias: Mansae Vermelha. No entanto, um oficial daMarinha, conhecido como: ManéMarcel conseguiu com a Capitania em São Sebastião, autorização para que Elias Romão construísse uma casa no Saco do Sombrio, cuja localização era a mais perto do farol na Ponta do Boi. O material para a obra foi enviado pela lancha “Itanhaém”, usada para levardieselao farol. Assim, Elias levou Helena para morar com ele.

► 2006 Aos 68 anos, Elias participou de uma palestra sobreofaroldaPontadoBoinaescola‘WaldemarBelisário’, no bairro doItaquandubaonde residia. Foi quando conheceu Arthur Carlos de Freitas. Agora Elias pede ao amigo que o entreviste para eternizar as suas memórias.

►1992—ComodinheirodavendadasterrasnoSombrio, Elias comprou uma casa nova no bairro doItaquanduba, onde foi morar com Helena. No entanto, ele continuou prestando serviços para Eliane, tomando conta da lancha dela.

Elias Romão Ilhabela [ 156 ] no Sombrio. Decidido pelamudança, EliaseHelena vendem acasapor40milcruzeiros.Aescrituradepossefoientregue a ela e eles receberam a quantia durante uma reunião que aconteceu no (Hotel Mercedes), no bairro do (Viana), ao norte de Ilhabela, onde a mesma estava hospedada.

►1996 Eliane Aparecidade Castro Souzavendeu acasa no Sombrio para o Iate Clube de Ilhabela. O imóvel foi adquirido através da escritura de Cessão de Direitos Possessórios. Na ocasião, Eliane era sócia do Iate Clube e, segundoElias,desde1992,nãohaviarecebidopelosanosde trabalho. No entanto, dentro desta negociação o IateClube ressarciu o pescador, pagando a ele pelos cinco anos de serviçosprestadosaela,totalizandooitomilreais.

► 2007 — Arthur Carlos de Freitas iniciou a gravação dos depoimentos compartilhados por Elias Romão. O equipamento foi cedido por MaríliaBrittoRodrigues de Moraes do Parque Estadual de Ilhabela. Os encontros aconteceram entre (dois) de abril a (sete)de julho. Elias

► 2013 — Arthur Carlos de Freitas conhece o jornalista EdsonSouza.OencontroaconteceunobairrodoPerequêem Ilhabela, quando EdsongerenciavaoMuseu dosNaufrágios.

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► 2022 Edson finalizou os processos editoriais para a publicação do livro de Elias Romão. O projeto faz parte do acervo do Instituto Miguel de Souza e Arquivo Ilhabela. Respeitando a vontade do pescador, este livro poderá ser adquirido no formato impresso e também ser baixado gratuitamenteviaweb.

Durante a visita, Arthur compartilhou sobre o projeto e a vontadedeElias.NamesmahorafoicomEdsonatésuacasa onde entregou uma cópia dos depoimentos.

► 2014 Edson Souza transcreveu e editou a primeira versão deste projeto para apreciação de Arthur Carlos de Freitas.

►2017 Para participar a família de Elias Romão, Edson publicou uma versão limitada do livro que foi apresentado duranteumapalestranaCasadoCaiçara,duranteasoficinas do projeto ‘Tribuzana’. O convite foi feito pelaSecretaria de Desenvolvimento e Inclusão Social e promovido pela prefeitura. No encontro, o autor conversou com familiares de Elias, entregando os exemplares do livro. A obra foi lida pela antropóloga do MPF, Rebeca Campos Ferreira, nas reuniões. Em especial, o livro foi entregue para Helena, esposa de Elias, que ficou encantada com o projeto. Helena faleceu seis dias depois, aos 77 anos.

faleceu em três de agosto, com 69 anos, em sua casa noItaquanduba.

Elias Romão Ilhabela [ 158 ] (Foto 1) Helena e a filha Graziela. (Foto 2) Helena e o filho Elias.Tiradasemabrilde2017porArthurFreitas.

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Elias Romão Ilhabela [ 160 ] O Instituto Miguel de Souza, esta voltado para a Pesquisa e Divulgação da História, Memória e Patrimônio Cultural de Ilhabela.AEmpresadesenvolveoprojeto"ArquivoIlhabela".

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