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Comunicação visual no espaço urbano: uma interferência na vivência da cidade? Um estudo aplicado à rua Halfeld, em Juiz de Fora.

Icaro Chagas Projeto Arquitetônico e Urbanístico VIII - Prof. Fábio Lima


apresentação.

Este, é um livro palimpsesto. Segundo Almeida (2011), o palimpsesto se refere a pergaminhos que eram constantemente apagados e reaproveitados continuamente para novas escritas. Então, os textos antigos eram removidos e davam lugar à novos, porém, mesmo sendo feito com cuidado, esse trabalho deixava traços dos escritos anteriores, o pergaminho então continha vários textos, várias marcas, vários tempos. Acredito que a cidade pode ser comparada diretamente à um palimpsesto: nela conseguimos enxergar várias sobreposições de escritas, de construções, de manifestações políticas, sociais e não obstante, discursos. Por isso escolhi traduzir todos meus pensamentos e deambulações sobre a comunicação visual no espaço urbano em um palimpsesto, todas as fotografias que estão contidas aqui foram dispostas em múltiplas camadas, sobrepostas, uma por uma e pensadas para serem lidas como um todo, assim como a cidade. “Compreender uma cidade exige habilidade para reconhecer e decifrar essas diferentes camadas de historicidade, às vezes pouco acessíveis ao olhar comum.” (JAYO, 2018)

palimpsesto: s.m.

Manuscrito em pergaminho que, após ser raspado e polido, era novamente aproveitado para a escrita de outros textos (prática usual na Idade Média). (Modernamente, a técnica tem permitido restaurar os primitivos caracteres.)


signos signos signos signos signos signos sinais


introdução.

Quando se começa a discutir e se tem como assunto principal a vivência na cidade, o espaço que se vê, que se sente através do sentido visão, arquitetos e urbanistas já se dão um discurso pronto: é condenada a poluição visual. Desse discurso pronto já se tem vários pontos que são ditos pacíficos:

“É PRECISO ELIMINAR DE VEZ OS ANÚNCIOS PUBLICITÁRIOS PARA QUE TENHAMOS A ARQUITETURA EM SUA TOTALIDADE.”

“PRECISAMOS RECUPERAR A QUALIDADE DO AMBIENTE URBANO.” E por fim, esses ditos “pontos pacíficos” acabam somente ficando na superfície do problema em questão, nunca são discutidos em sua totalidade. Em seu livro “Aprendendo com Las Vegas” Robert Venturi alinha diretamente o assunto à “lições” que foram aprendidas por ele ao estudar o cotidiano da grande “cidade do pecado”. Venturi diz que os ditos sinais são uma fonte de vitalidade, de estímulos, de significados explicitados, uma forma de atribuir uma semântica ao ambiente urbano. Ainda sobre Venturi, o mesmo cita um conceito-chave que será de grande importância para nosso entendimento: complexidade ambiental. A complexidade ambiental seria a relação do usuário com a satisfação ambiental, se fosse aplicada à um gráfico essa razão teria o formato de um sino: quanto maior a complexidade, maior a satisfação, quanto menor a complexidade, menor a satisfação. Mas para se analisar o grau de satisfação, essa é uma variável que se torna volátil a partir da vivência do cidadão: para um habitante de uma cidade pequena, o


contexto de uma cidade como Juiz de Fora pode ser complexo demais para o entendimento e vice-versa. Para se compreender melhor a questão, Chico Homem de Melo cita em seu livro “Signofobia” um paradoxo: coloca-se como exemplo um habitante da cidade grande e um biólogo numa floresta e analisa-se a percepção desse espaço pela ótica dos dois. Para o biólogo, o ambiente da floresta será de grande estímulo, certo? Mas para o habitante da cidade o mesmo pode enxergar a flora e fauna como uma textura, um grande tecido contínuo e sem diferenciação. Chico também diz que o habitante da grande cidade tem fome de sinais, fome de vitalidade e anúncios publicitários, além disso, o autor também trata o ambiente urbano como um grande organismo que necessita de estruturas ambientais urbanas mais complexas, mais presentes do que aquelas formadas exclusivamente pelos edifícios, exige a presença de sinais que são capazes de atribuir vitalidade, significado, identidade e complexidade.


justificativa.

A questão principal que me moveu a começar a divagar sobre o assunto partiu de um dia em que saía da aula de Projeto Arquitetônico e Urbanístico 8, ao chegar aos portões da Universidade para tomar o caminho de casa, notei um objeto que não fazia parte do meu caminho até o dia anterior: um grande anúncio publicitário que tomava o muro (antes ocioso) em frente o acesso em questão. Enquanto observava o grande anúncio, me veio o questionamento: será que o ser Arquiteto e Urbanista deveria intervir no espaço publicitário que compreende a cidade urbana? Após isso, comecei a pesquisar sobre o assunto e me deparei com vários estudos que já envolviam o assunto, e diversos questionamentos vieram à mente, dentre todos o principal: Como a comunicação visual interfere no espaço urbano? A partir desse incômodo comecei a buscar mais sobre o assunto e quis aplicar na cidade onde o espaço urbano me interfere e provoca diretamente: Juiz de Fora. Escolhi como objeto principal a Rua Halfeld pois a enxergo como um eixo estrutural importante na cidade em questão. A Halfeld contém em seu caminho vários equipamentos urbanos que vão do lazer ao comércio, do encontro ao consumo. Com isso, a análise de seus signos e significados diante de suas arquiteturas me proporcionariam refletir sobre as diversas incursões e manifestações da comunicação humana ali presentes e os sentidos proporcionados por estas.


objetivos.

A pesquisa teve como objetivo relatar a partir da compreensão de textos relacionados a percepção visual, arquitetura, urbanismo, design gráfico, semiótica e publicidade a interferência da comunicação visual no espaço urbano em primeira instância. Não obstante, também se tem como objetivo discutir, localizar e narrar sobre os aspectos supracitados no centro urbano de Juiz de Fora, mais especificamente na rua Halfeld. Após todas as análises, ensaios, desenhos e registros iconográficos, se propõe a construção e a enumeração de diretrizes para que se regularize à questão na cidade.

metodologia. Depois de um breve, porém aprofundado levantamento bibliográfico e estabelecimento do estado da arte sobre o assunto, o trabalho de campo para a extração de diretrizes aconteceu em dois momentos: 1. A divisão da Rua Halfeld em três quadrantes distintos: a. Quadrante Praça Nossa Senhora de Fátima até o Parque Halfeld/Av. Rio Branco. b. Quadrante Parque Halfeld/ Av. Rio Branco até Av. Getúlio Vargas. c. Quadrante Av. Getúlio Vargas até Av. Brasil (depois do Rio Paraibuna). 2. Após a divisão de todos os quadrantes foi realizado um trabalho de campo que teve como objetivo a vivência do espaço urbano e a observação do uso da publicidade na rua em questão e terá como registro um levantamento iconográfico de cada quadrante, assim como a execução de croquis que demonstrem o assunto no espaço em questão.


.relatório de campo primeiro quadrante Praça Nossa Senhora de Fátima > Parque Halfeld/ Av. Rio Branco. distância: 550m tempo de percurso: 8min

Ao chegar à Praça Nossa Senhora de Fátima, fiquei surpreendido com a ausência de signos. Na minha percepção, nem parecia que eu estava na Rua Halfeld, a mesma rua que contempla o calçadão que possui movimento e vivacidade. Ao continuar minha caminhada, percebo que o panorama de ausência total de signo vai se transformando enquanto me locomovo em direção ao Parque. À medida em que vou descendo, percebo que nessa parte do percurso se predominam signos de trânsito proibitivos. Proibido estacionar, proibido parar, proibido acessar. Não somente sinais de trânsito como também anúncios implantados pelos moradores daquela região que impedem o estacionamento em frente suas garagens, o espaço restringido à quem quiser ocupá-lo. Além disso, percebo também que existem muitos imóveis vazios, o tempo todo sou bombardeado com formas visuais do discurso do capitalismo traduzido em especulação imobiliária. Aluga-se, vende-se. E como se pode imaginar, poucas pessoas se movimentando por ali. Enquanto realizo minhas indagações sobre as razões daquele espaço estar sendo subutilizado sou pego de surpresa por uma totebag com a seguinte frase: - “Vive-se bem” de uma grande marca de roupas sendo usada por uma mulher de classe média. Ao chegar ao Parque Halfeld percebo como, paulatinamente, a ocupação do espaço urbano já se torna mais presente, naquele lugar mesmo que descaracterizado do projeto original vejo que os cidadãos já se sentem mais à vontade para ocupá-lo, a presença da via compartilhada faz com que o espaço seja de encontro, movimento e vivência. Percebo também uma desomogeneidade dos signos que ocupam aquele lugar. Eles se diferenciam e começam a ocupar, de forma mais expressiva, o ambiente.


.relatório de campo segundo quadrante

Parque Halfeld/ Av. Rio Branco até Av. Getúlio Vargas. distância: 450m tempo de percurso: 6min

Atravessando a Av. Rio Branco noto que mais uma vez o espaço se modifica, os signos se modificam: continuam não-homogêneos, porém, agora se acumulam e se sobrepõem entre si. Fachadas de loja, manifestações artísticas nas paredes que denotam o limite rua-comércio, adesivos móveis, toldos e faixas. Porém, uma coisa me chamou mais atenção, os signos que antes dependiam de uma estrutura física (como construções e edifícios) agora se materializam em pessoas. Vendedores ambulantes que circulam de cima a baixo na extensão da rua, garotos-propaganda que anunciam a venda de produtos carreiam a comunicação em seus corpos e ocupam de forma volátil o espaço urbano. Noto que o caráter das pessoas também muda a medida que me direciono mais a Av. Getúlio Vargas, os cidadãos são mais diferentes entre si. Possuem mais características incomuns, seus aspectos se tornam menos homogêneos, assim como dito anteriormente sobre os signos, Noto também que são mais interativos, conversam mais, pedem para que eu os fotografem, se sentem mais à vontade para se comunicar. Penso que posso fazer uma analogia direta à essa mudança de perfil dos cidadãos com a diferença dos signos, à medida que o espaço se torna menos cerceado e mais popular, as pessoas se sentem mais livres para ocupá-lo e se fazerem presentes.


.relatório de campo terceiro quadrante

Parque Halfeld/ Av. Rio Branco até Av. Getúlio Vargas. distância: 500m tempo de percurso: 7min

A minha percepção do terceiro quadrante é como se fosse as apreensões do segundo elevadas à enésima potência: mais signos acumulados, mais transposições de signos antes implantados em edifícios para pessoas. Só que percebi nesse quadrante um item novo além de todos os outros já citados: a insegurança. Não sei exatamente o que aconteceu, que memórias e pré-conceitos eu tenho guardados em mim que me causaram essa sensação de receio e preocupação. Minha câmera era mais tímida, minhas fotografias já não falavam tanto, não conseguia mais apurar minha percepção para entender os signos, comecei a ficar ansioso com os ruídos que a cidade produz. Uma das minhas maiores vontades era transpor a linha do trem e atravessar o Rio para analisar mais a fundo a mudança da comunicação e dos signos da cidade através do terceiro quadrante, mas fui impedido, não por uma terceira pessoa, mas por mim mesmo. Me senti covarde, um farsante, tão apaixonado pelo cotidiano da cidade porém tomado pelos meus próprios preconceitos e pelas minhas próprias ansiedades, inquietações e incertezas sobre o espaço urbano. Mas creio que essa sensação de frustração servirá de estímulo para que eu possa me aprofundar futuramente no estudo da cidade, para que ocorra essa desmistificação da insegurança no espaço urbano.


diretrizes/considerações finais.

Este trabalho se tornou muito especial pra mim à medida que eu o desenvolvia, nele, pela primeira vez em toda graduação pude ser livre e pude estudar sobre assuntos que sempre me trouxeram questionamentos. Ao entrar na faculdade, sempre deixei claro que tinha aversão ao urbanismo, porém, com meu amadurecimento e edificação da minha personalidade como arquiteto e urbanista me percebi um apaixonado pelo cotidiano da cidade. Desde muito novo sempre fui apaixonado por linguagens visuais, signos por assim dizer, e durante esse período, no meu último projeto, pude finalmente unir duas questões que me estimulam veementemente: os signos e o espaço urbano. Apesar de encerrar esse ciclo que começou com projetos que ignoravam completamente o urbanismo com um de urbanismo puro e com o pesar de uma sensação agridoce de realização e frustração, acredito que ao mesmo tempo o mesmo não terá um fim. O espaço urbano é um organismo em constante mudança, em constante metamorfose, então sempre teremos coisas novas para aprender com ele, para devanearmos. No começo desse exercício, entre diversas conversas sobre o que pensávamos sobre cidade, sobre o espaço público, sobre formas de ocupá-lo foi definido que identificaríamos algum problema e que traçaríamos diretrizes com o intuito de resolvê-lo, porém, ao longo dos meus estudos resolvi abandonar este propósito, pois passei a acreditar que o espaço urbano deve ser de livre e espontânea ocupação de quem o usa. O espaço urbano, os signos não devem ser cerceados, pois estão diretamente relacionados à liberdade do cidadão, à nossa liberdade, que em tempos de cólera (assim como o que estamos vivendo agora),


referências.

VARGAS, Heliana Comin; MENDES, Camila Faccioni. Poluição visual e paisagem urbana: quem lucra com o caos? 2002. Disponível em: <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/02.020/816>. Acesso em: 25 set. 2019. ALMEIDA, Rita de CÁssia Mesquita de. Palimpsestos Urbanos: Aprendizagens históricas em tramas de memórias da cidade. 2011. 134 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de História, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2011. MELO, Francisco Inácio Homem de (1985) – Caos e Ordem no Ambiente Urbano: Exploração Visual do Signo Arquitetônico e do Significado Informacional. Tese (Mestrado), São Paulo: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo MELO, Francisco Inácio Homem de (1994) – Poluição Visual ou Signofobia?, in: Associação Viva o Centro – São Paulo Centro XXI: Entre História e Projeto. São Paulo PIGNATARI, Décio [s.d] – Semiótica da Arte e da Arquitetura. São Paulo: Editora Cultrix VENTURI, Robert; BROWN, Denise Scott; IZENOUR, Steven. Aprendendo com Las Vegas. Coleção Face Norte, volume 03. São Paulo, Cosac Naify, 2003. JAYO, Martin. Cidade palimpsesto: A tragédia urbana do Largo do Paissandu revela um painel publicitário esquecido. 2018. Disponível em: <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.128/6972>. Acesso em: 25 nov. 2019. ROLNIK, Raquel. O que é Cidade? Editora Brasiliense – Série Primeiros Passos - 84pg, São Paulo, 1988


ADORNO, Theodor, “O ensaio como forma” (p. 15-45). In: Adorno, W. T., Notas de Literatura I. Tradução de Jorge de Almeida, Editora 34, Coleção Espírito Crítico, 2003. LEFEBVRE, Henri. O Direito à Cidade. São Paulo: Centauro, 2001. 144p.


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