Page 1

sobrescritos


sérgio rodrigues

sobrescritos 40

HISTÓRIAS DE ESCRITORES, EXCRETORES E OUTROS INSENSATOS

Porto Alegre – 2010


© Sérgio Rodrigues, 2010 Capa e projeto gráfico Paola Manica Ilustrações Gilmar Fraga Revisão Pedro Gonzaga Tito Montenegro

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) R696s

Rodrigues, Sérgio Sobrescritos: 40 histórias de escritores, excretores e outros insensatos / Sérgio Rodrigues. — Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2010. 152p.; 12 x 17,5 cm. ISBN 978-85-60171-12-5 1. Literatura brasileira – contos. I. Título. CDU 821.134.3(81)-34

(Bibliotecária responsável: Paula Pêgas de Lima — CRB 10/1229)

Todos os direitos desta edição reservados a ARQUIPÉLAGO EDITORIAL LTDA. Avenida Getúlio Vargas, 901/506 CEP 90150-003 Porto Alegre — RS Telefone 51 3012-6975 www.arquipelagoeditorial.com.br


Sumário

A blogueira e o estruturalista ................................ 9 Uma ilha, um livro . ............................................. 13 A pesquisadora .................................................... 19 Deixadinha .......................................................... 23 O caso dos escritores Jerominho ......................... 27 Oficina de ficção ................................................. 31 As razões ............................................................. 33 A epígrafe . .......................................................... 37 A volta de Nareba, perdão, Naarebah .................. 41 A espera .............................................................. 45


Bog ...................................................................... 47 Culposo? ............................................................. 51 Faustini ............................................................... 53 Contra e a favor de ‘Pugnus’, de Cecilio Giovenazzi .......................................... 55 A mulher de Botero ............................................ 57 Continho antigo . ................................................ 61 Quinze anos ........................................................ 65 Carta ao bisneto .................................................. 69 Xian Xu e os mongóis ......................................... 73 O sáurio . ............................................................. 77 Cada geração com seu estilo . .............................. 81 O famoso desafio Stuckert .................................. 85 O módulo avançado ............................................ 89 Debate literário ................................................... 93 O problema é ‘o problema’ ................................... 95 Gaúchos .............................................................. 97


Fragmento de um colunista lítero-social ........... 101 Literatura brasileira com merchandising . ......... 103 Literatura brasileira com merchandising (II) ..... 105 Quando Nabokov não veio ............................... 109 Diálogo entreouvido na fila do sopão ................ 111 Apontamentos levianos para um ensaio gravíssimo: a barriga . ....................... 115 Apontamentos levianos para um ensaio gravíssimo: o fio ............................... 117 Delete ................................................................ 121 Mala direta ........................................................ 125 A bíblia da Bibliosmia . ..................................... 127 Diálogo com pastinha de hadoque .................... 129 O consórcio ....................................................... 135 O estranho caso do Wiki-Machado . ................ 141 Virtual ............................................................... 147




A blogueira e o estruturalista O DJ retrô contratado pelo shopping center enchia os corredores com a voz grossa de Renato Russo cantando “Eduardo e Mônica” quando a blogueira perguntou as horas ao estruturalista na fila do caixa da megalivraria. Mais tarde, ao se lembrar desse momento e observar que a trilha era simplesmente perfeita, ela o ouviria responder corado com a falta de prática que não, não, perfeita é você. Quando a blogueira o abordou, fingindo não saber quem ele era, o estruturalista tinha meia dúzia de livros fora de catálogo e uma reputação longamente esquecida de analista rigoroso de João Cabral, Guimarães Rosa e Osman Lins. A aposentadoria federal como professor titular de literatura lhe propiciava uma vida tediosa mas tranquila de viúvo sem


10

ambição, sem desejo e sem arrependimento, como achava que devia ser. Se alguma coisa incomodava o estruturalista àquela altura, além de certos padecimentos próprios da idade como dor nas costas e insônia, era o fato de já não conseguir ler. Poesia, prosa, clássico, contemporâneo, coisa nenhuma. E não por ter ficado cego como Borges: nada havia em sua visão que lentes bifocais não emendassem, era interna a escuridão do estruturalista. Que jamais tocava no assunto, tentando ser estoico diante do que, embora parecesse de uma crueldade diabólica com quem dedicara a vida à literatura, provavelmente não passava de mais um engodo simples no quadro de um logro muito maior. A blogueira tinha, além de um fotolog estudadamente sexy, um blog supercool de autoridade 237 no Technorati onde publicava quase todos os dias poemas trocadilhescos de três versos e minicontos mais ou menos confessionais. Em conjunto, os dois empreendimentos virtuais a situavam no topo da pirâmide formada pelas poucas centenas de pessoas que, desdobrando-se em milhares de nicks para confundir (com sucesso) a velha imprensa de papel, faziam


11

a glória da chamada blogosfera literária nacional, um meio em que a blogueira era ridiculamente famosa. O estruturalista não saberia dizer por que aceitou o convite da blogueira, de quem jamais ouvira falar, para tomar um café no mezanino da livraria. Ela sabia por que o tinha convidado, ou acreditava saber, mas no início era vago o plano concebido de estalo na fila do caixa. Depois de reconhecer o estruturalista como alguém que um dia tinha sido importante na literatura brasileira, pelo menos assim dizia o programa sobre Grandes Críticos que vira algum tempo atrás na TV educativa, achou que na pior das hipóteses descolaria um post tragidoce ou agricômico sobre o tempo, os tempos. Como se o homem pertencesse à Rússia tsarista e ela fosse uma improvável bolchevique compreensiva. A blogueira e o estruturalista eram nada parecidos, ela era um tesão e ele tinha setenta e três, mas do expresso passaram pro scotch, da megalivraria pro barzinho penumbroso, do engov pro viagra, e na manhã seguinte ele abriu os olhos primeiro em sua cama de casal e teve vontade de chorar com a visão daquela barriguinha morena espetada com alfinete entre os lençóis. A blogueira acordou sem graça, pensando no


12

que diriam seus amigos se soubessem, fetiche, doença, seventy-plus.com, e com essa zoeira na cabeça foi talvez até um pouco rude ao se despedir. Mas aquela tarde, quando o estruturalista ligou, seu coração bateu mais forte e ela disse que sim, sim, sins, tô indo. O estruturalista leu os poemas trocadilhescos de três versos e os minicontos mais ou menos confessionais da blogueira e achou tudo uma merda, mas disfarçou e disse, sorriso amarelo, que a culpa era dele mesmo, dinossauro chato. A blogueira folheou os livros de páginas manchadas do estruturalista e quase morreu de tédio, pensando, se literatura é isso, tô fora. Diante dele, porém, preferiu bancar a burrinha dizendo que parecia tudo muito bonito e complexo e importante, mas além da sua compreensão. Um ano depois, enquanto o estruturalista definhava numa cama de hospital, linfoma não-Hodgkin, a blogueira ficou ao seu lado dia e noite, num convívio íntimo com a morte que durou cinco semanas e a levou a repensar a vida inteira com um misto de vergonha do passado e ânsia de futuro. Na madrugada em que o estruturalista morreu e ela se acabou de chorar, estava madura a decisão de trocar o blog pela faculdade de enfermagem.


13

Uma ilha, um livro – Você vai passar o resto dos seus dias numa ilha deserta e pode levar um livro – ela diz. – Um só? – Um só. Qual você escolhe? Ele pensa um pouco. – Nenhum. – Como, nenhum? – Nenhum. Não vou ler, morto não lê. – Não – ela ri – quê isso, na ilha tem comida à von-


14

tade, você não morre. Só fica lá de bobeira, vivendo superbem e… lendo um livro. – Pode ser que você fique lá, lendo esse livro. Eu não fico porque me mato antes. – Se mata… – Mato, mato. Um livro só? Mil vezes a morte. Ela fica meio desconcertada porque é a primeira vez que um homem bagunça assim o seu teste, mas acaba decidindo que gostou, gostou muito, mais até do que se ele dissesse Estrela da vida inteira, Em busca do tempo perdido ou outra das respostas que ela costumava classificar como “certas”. Olhando para o homem do outro lado da mesa do restaurante, vê alguém que nunca viu antes. Pela primeira vez tem vontade de beijá-lo e pensa, sentindo uma moleza nos joelhos, que a noite promete. Enquanto isso, ele fica matutando que a ideia de um único livro sobreviver ao fim do mundo deve ser mesmo insuportável. Está até um pouco espantado, quase eufórico: caramba, acho que não dei apenas uma resposta espirituosa, isso é uma tremenda ver-


15

dade! Um livro só? Melhor morrer. Quer anotar a ideia num guardanapo, depois desiste, distraído com o decote que se descortina do outro lado da mesa. E também pensa que a noite promete. Agora a promessa já se cumpriu. Na cama dele, sob o lençol amarfanhado, ela ronrona, cabelos espalhados em seu peito, enquanto ele fuma. É o momento daquela volta lenta ao mundo da linguagem articulada, depois da rendição momentânea aos grunhidos da selva. Foi bom, foi muito bom. E ele fala: – Sabe aquela história da ilha deserta? – Hmm. – Eu disse que me matava se tivesse só um livro… – Ah, eu adorei. Nunca ninguém me respondeu assim. Ele fica uns segundos em silêncio, espreme o cigarro no cinzeiro. – E se fosse um game?


16

– O quê? – Se em vez de um livro eu pudesse levar um videogame. Um só. Sabe qual seria? Ela ergue a cabeça do travesseiro peludo do peito dele. Sente frio de repente. – Hmm. – Sonic. Sou louco pelo Sonic. É antiguinho, mas eu podia ficar a vida inteira fazendo aquele porcoespinho pular… Diz isso e, com um sorriso, se deixa levar pelo sono: menos de um minuto depois está ressonando. Ela pula da cama. Arrepiada de frio, sai andando nua pelo apartamento, que mal teve tempo de ver quando chegaram, ocupados que estavam em se morder, arrancar as roupas e atravessar a sala na direção do único quarto. A sala tem um sofazinho de dois lugares. Uma poltrona, jornais espalhados pelo chão. Uma estante pequena com prateleiras tomadas por garrafas de ca-


17

chaça, licor, uísque, canecão de chope com o escudo do Flamengo, CDs. Ah, sim, um livro também. Um livro solitário. Ela se aproxima, temerosa, e lê na lombada, à luz fraca da rua que entra pela janela: Onze minutos, de Paulo Coelho. Mas já é tarde demais.


19

A pesquisadora Ela deu um meio sorriso de olhos baixos, como se tentasse ler desígnios superiores nos volteios dos pedaços de limão esmagados no fundo do copo, e disse que a maior ofensa que se costuma fazer às de sua espécie é supor como móvel de sua busca sem fim uma ilusão vizinha da loucura ou da imbecilidade – a de que os homens que dedicam a vida a simular outras vidas por escrito são mais gostosos ou tesudos, mais misteriosos ou desafiadores do que os mortais comuns. O meio sorriso virou uma gargalhada seca, tão áspera e alta que metade do bar se voltou na nossa direção, inclusive todos os garçons. Ela aproveitou para erguer o copo vazio com a mão esquerda e bater nele com a unha comprida do indicador direito, esmalte carmim, três pancadinhas que tilintaram longamente dentro do segundo


20

de silêncio instaurado por seu riso. O garçom mais próximo assentiu com a cabeça e fez meia-volta. Se houver alguma relação, ela prosseguiu, é bem o contrário, escritores tendem a ser piores de cama do que a média dos homens: mais broxas, mais ejaculadores precoces, além de mais inseguros, mais ciumentos, mentirosos, desleais, descuidados, caspentos, fedidos, barrigudos, egoístas, frios, estúpidos, babacas… Tudo aquilo que os homens em geral costumam ser, escritores têm tendência a ser um pouco mais. Eu posso dizer, ela disse, porque já fiz muita pesquisa de campo, qualitativa e quantitativa, e no entanto… Me fixou com seus olhos negros e acrescentou: Não pense que é por masoquismo que eu prefiro dormir com escritores. Muito longe disso. Fiquei aguardando ela me dizer por que, então, preferia dormir com escritores, mas o silêncio se prolongou. O garçom veio com a nova caipirinha. Ela retirou o canudo do copo, depositou-o sobre o guardanapo e tomou um gole longo. Aproveitei para observá-la: brincos em forma de serpente chegando quase aos ombros nus, sutiã corajosamente ausente. Tinha idade para ter conhecido a poesia marginal, calculei, tateando metáforas bêbadas: se existe algo como uma mão encarregada de passar o bastão entre as gerações literárias, então ela usa esmalte escarlate e está diante


21

de mim bem agora. Apesar de sentir uma ponta de curiosidade, decidi não perguntar por que ela preferia dormir com escritores. Me intrigava mais naquele momento o fato de escritores toparem dormir com ela. Seria, talvez, porque assim se sentiam escritores na plenitude da palavra – escretores, excretores – essa condição fugidia e enganadora, vaidosa e mesquinha, que ao contrário do que se pensa é infinitamente mais fácil assumir perante o mundo do que na própria alma? Aí ela vinha e assinava embaixo: és escritor, sim; por que outro motivo eu estaria aqui fazendo o papel de tinteiro para a tua pena? Foi então que o teto do bar despencou sobre nossas cabeças. Com o corpo subitamente envolto num filme de suor gelado, joguei uma nota de vinte sobre a mesa e me levantei. Sabia que, ao proceder assim, puxava mais para baixo a nota dos escritores na pesquisa dela, mas não tinha escolha. Se corresse, talvez conseguisse chegar ao banheiro antes de vomitar.


23

Deixadinha Quando João começou a namorar Letícia, todo mundo apostava numa relação de um mês ou dois, três no máximo. Ficava por aí a média dele. Galinha famoso na rede do Leblon que ambos frequentavam, João era medíocre no vôlei de praia, mas compensava a insuficiência atlética com uma condição de semicelebridade artística – advinda de sua inclusão numa antologia de jovens contistas, quatro anos antes – para ir ampliando um currículo amoroso que beirava o lendário. Letícia, nova e inexperiente, jogava o fino na areia, com um talento especial para as deixadinhas, mas a verdade é que tinha tudo para ser só mais uma naquele placar. O jogo começou a virar quando, surpreendendo o pessoal da praia, Letícia passou a bater bola com


24

João no campo dele. Nos e-mails que trocavam diariamente, a menina, quem diria, se revelou talentosa também com as palavras. João, que preferia namorar atletas justamente por se saber indefeso diante de intelectuais, acusou o golpe. Ponto a ponto, seu bloqueio foi virando uma peneira. O terceiro mês de namoro passou, veio o quarto. O quinto. O sexto já ia pelo meio quando, ao pé de uma mensagem despretensiosa em que Letícia contava ter dormido mal na noite anterior, João leu o seguinte: O problema é que na janela do meu quarto há um defeito na cortina. Ela não corre e não se fecha portanto. Então a lua cheia entra toda e vem fosforescer de silêncios o quarto: é horrível. Essa última frase acertou a cabeça de João com o efeito de uma bolada à queima-roupa. Ainda atordoado, ele releu: Então a lua cheia entra toda e vem fosforescer de silêncios o quarto: é horrível.


25

Com uma mistura de dor e delícia nunca antes sentida, João foi obrigado a admitir o óbvio: aquilo era melhor do que qualquer coisa que ele já tivesse escrito ou pudesse um dia escrever. Tamanha condensação de beleza e horror na mesma frase, tão seco drible na expectativa do leitor… …é horrível. Em poucos minutos, sua vida inteira estava traçada. Pediu Letícia em casamento na mesma noite. Ela aceitou. Nunca deixaram de frequentar a rede do Leblon onde se conheceram, nem durante a gravidez nem depois que Joãozinho nasceu e Letícia era obrigada a interromper o jogo a todo momento para dar de mamar. O casamento parece ir muito bem, e hoje todo mundo na praia aposta que vai durar para sempre. Letícia doou a uma escola pública do bairro seu exemplar de Água viva, e de qualquer maneira, como ela tinha suspeitado desde o início, João nunca foi um grande leitor de Clarice.


27

O caso dos escritores Jerominho O que mais nos deve inquietar no chamado “escândalo dos escritores Jerominho” não é saber que eles – todos os sete – se sujeitaram a este triste papel, assinar seus nomes numa literatura que, se tem um autor, esse autor só pode ser o falecido Jerônimo Mayrink. Como se sabe, os escritores Jerominho, cujos nomes a recente notoriedade do caso me dispensa de declinar, compraram – por dez mil dólares a unidade – um produto anunciado aos sussurros no submundo literário como espetacular, uma espécie de pedra filosofal dos escritores. A coisa cheirava a picaretagem de longe, só que, surpreendentemente, funcionou: até o escândalo estourar, todos os clientes de Jerônimo Mayrink eram vistos como autores


28

sérios, entrevistados por jornais e TVs, fartamente lidos – isto é, lidos no clubinho dos leitores de ficção nacional, uma turma que poderia fazer assembleia numa Kombi, mas essa é outra história. Batizado de MUSA (Mayrink’s Ultimate Simulator of Authorship), o programa podia não ser barato, mas mostrou-se genial. Essa máquina de escrever ficção usa algoritmos para “alterar” a prosa de autores consagrados, embaralhar frases, trocar palavras-chave, fundir dois ou mais textos, enfim, promover uma remixagem geral. “É mais ou menos como preparar um carro de passeio para torná-lo uma máquina de corrida perfeita”, disse Jerominho na única entrevista que concedeu, dois dias antes de aparecer enforcado na garagem de sua casa, em Jacarepaguá. Não me perguntem como uma engenhoca dessas pode funcionar. Funciona. Das mil e tantas páginas que o MUSA produz a partir de coordenadas simples fornecidas pelo “autor”, que também é responsável por escolher os textos que servirão de matéria-prima, um clique final comanda a destilação de cento e oitenta, duzentas paginetas de uma prosa em que jamais ocorreria a ninguém – como não ocorreu mesmo, até Jerominho tomar um porre e


29

falar demais numa festa – vislumbrar a menor relação com o livro ou livros originais. Não fica nisso: em seus piores momentos, a ciberprosa assim produzida é perfeitamente decente, e aqui e ali exibe felicíssimos, memoráveis pontos altos. Deve-se reconhecer que isso dá e sobra para tornar a literatura Jerominho melhor que a maior parte da literatura-literatura lançada entre nós nos últimos tempos. E finalmente aí está, como eu ia dizendo, o que mais nos deve inquietar no caso Jerominho: mais que a falsidade comprovada de meia dúzia de celebridades “literárias”, a conspícua suspeita de falsidade que paira desde então sobre a própria literatura.

Sobrescritos  

Trecho do livro Sobrescritos, de Sérgio Rodrigues.

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you