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Pensando que a existência de um bem está subordinada em certa medida à sua valoração presente, caberia questionar como pensar o patrimônio cultural, numa temporalidade sempre do presente. Nesse sentido, como pensar nos bens com uma longa existência, com longo tempo de vida, e às vezes vistos como “coisas do passado”, uma vez que acreditamos que o que garante a sua existência é sua valoração presente? Respondendo: no livro Sobre a Modernidade [1869], de Baudelaire (1821-1868), num breve trecho, ele já afirma: O passado, conservando o sabor do fantasma, recuperará a luz e o movimento da vida, e se tornará presente (BAUDELAIRE, [1869], p.9). Ou seja, não há qualquer contradição à existência-do-presente para as coisas “do passado”, ou melhor, para as coisas de longa vida, pois um bem, independente de sua “idade” permanece na medida em que tem seu valor reconhecido no agora: quer seja o valor antigo quer seja o valor econômico, quer seja o valor sagrado, quer seja seu valor simbólico, etc. A existência e permanência do patrimônio, reconhecido como tal, só se dão nos seus presentes. Um mesmo bem cultural pode ser valorado diferentemente por agentes sociais distintos e ter valores diferentes na sua existência. Por exemplo, podemos imaginar numa estátua, reconhecida pelo seu valor artísitco para um grupo social e, para outro grupo, como um valor sagrado. Além disso, podemos pensar que essa mesma estátua é uma descoberta nova, num momento – valor de novidade – mas, ainda assim, poderá ter um valor de antiguidade ou outros. Ou seja, um mesmo bem, possui e é possibilidade de infinitas valorações. Dessa forma, ou seja, na medida em que concebemos um bem cultural como possibilidade de valor é impossível considerar-se uma hierarquia de valores. Nesse campo de tensões, os bens culturais podem adquirir o papel de armamentos de guerra na medida em que a cooptação ou apropriação ou re-significação ou usos e até a destruição ou abandono desses bens representam os jogos de forças e distintos interesses entre diferentes grupos e classes sociais que se expressam e fundamentam sob a forma de conflitos 98

Revista ARQCHRONOS - Arquitetura em Patrimonio  

A criação da Revista ARQCHRONOS – arquitetura em patrimônio – é um pólo de troca e de ação crítica relacionado a área de Patrimônio Arquitet...

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