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existência. O puritanismo, pela idéia na vocação e por permitir a interpretação individual da bíblia (a tradução e impressão da bíblia é determinante nesse caso), fornecia e constituía em postura subversiva à estrutura tradicional, assim como permite e determina a contestação do poder divino real, “legitima” o direito à propriedade e “alivia os corações” da gentry. Por volta de 1640, os pregadores puritanos estavam chamando a Câmara dos Comuns de “ a Câmara dos Deuses e dos Deuses mortais”. O direito divino havia sido transferido de Whitehall para Westminster. Depois da guerra ter começado, o mito nacionalista inglês foi utilizado para reunir os adeptos mais radicais do Parlamento, e em 1643 John Milton anunciava, de modo magistral, que “agora que Deus decretou o início de um novo e grande período para a sua Igreja, também para reformar a própria reforma, Ele não faz mais do que se revelar aos ingleses; eu digo, como é seu hábito, a nós em primeiro lugar”. (STONE, [1972], 2000, p.165-166)

Outra base intelectual de grande peso para os conflitos e a contestação do poder absolutista é o direito consuetudinário ou Direito Comum34, transformado pelos juristas ingleses em Direito Natural. Como pano de fundo da valorização da tradição, estava a crença na existência de uma Constituição antiga que precede e é imune às prerrogativas régias – nesse sentido o Parlamento é visto como seu representante. Pelo Direito Natural a santidade individual dos direitos à propriedade é basilar – com isso, a monarquia está violando esse instrumento “legal”, na medida em que tributa os proprietários e ao subordinar os interesses privados ao público. As idéias de oposição, as condições sociais e econômicas e as transformações desse tempo, ou melhor, o contexto de deslocamento do poder econômico e político, associados à ascensão do puritanismo, as mudanças no sistema de ensino e os ideais nacionalistas novos (desvalorização da Corte), tornam inevitável uma crise entre os interesses dos detentores de poder tradicionais – Coroa e aristocracia – e as novas forças – Gentry, profissionais, pequenos comerciantes e yeomens. O maior problema para o Estado é fazer com que as novas forças participem de maneira “cooperativa” – ou seja, sem que a estrutura de poder seja alterada, o que não ocorre. Homens de propriedade e riqueza deixaram que este problema chegasse ao

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Revista ARQCHRONOS - Arquitetura em Patrimonio  

A criação da Revista ARQCHRONOS – arquitetura em patrimônio – é um pólo de troca e de ação crítica relacionado a área de Patrimônio Arquitet...

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