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Nessa perspectiva, e sob a lógica de uma nova sociedade fundada sobre os principio de igualdade, liberdade e fraternidade, os atos de exposição e conservação dos bens do passado assumem caráter simbólico fundamental à credibilidade e à ideologia desse novo tempo. A partir “de agora” os bens anteriormente reservados à nobreza e a aristocracia, passam a constituir o patrimônio nacional e, como tal, um bem de todos, cabendo ao Estado (como representante do povo) a sua gestão e conservação. É nesse momento que se dá a criação do Museu Republicano, o Louvre, com o objetivo de colocar à disposição de qualquer cidadão “as maneiras da aristocracia e da nobreza”. Percebe-se pelos escritos da época e pelo contexto histórico, que o patrimônio, enquanto bem legalmente reconhecido, como bem coletivo institucionalizado, surge conjuntamente ou em função de um projeto de construção da identidade nacional francesa, assim como a idéia de preservação e conservação, também, estão fundadas numa lógica econômica e ideológica por parte do Estado. Ou seja, a apropriação dos bens culturais, quer estejamos falando pelas práticas daquele tempo ou em relação às suas relações com o passado, objetivam claramente a criação de um povo e a legitimação de uma nova sociedade, assim como refletem interesses de outras ordens como: a política e a econômica. Arrisco sugerir, inclusive, que a construção desse patrimônio coletivo, além de visar a criação de uma nação, tem como pretensão maior legitimar a burguesia, mediante a apropriação dos bens da nobreza e da aristocracia, e a imposição de novos valores, possibilitando a reprodução das novas dinâmicas sociais. Mediante a crença de que a genealogia francesa se dá na Idade Média, período da formação da classe burguesa e proletária, esse momento histórico foi eleito como representante da origem da nação. Em outras palavras, a construção da identidade francesa tem como norteadores os valores e interesses burgueses, do seu tempo, sendo assim, a construção não apenas de nação francesa, mas sim de uma nação burguesa, definindo um caráter de classe. Dessa forma, fica claro que o 74

Revista ARQCHRONOS - Arquitetura em Patrimonio  
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A criação da Revista ARQCHRONOS – arquitetura em patrimônio – é um pólo de troca e de ação crítica relacionado a área de Patrimônio Arquitet...

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