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Assim, as próprias obras encontram-se e estão penduradas nas coleções e exposições. Mas estarão elas porventura aqui em si próprias, como as obras de arte que elas mesmas são, ou não estarão antes aqui como objetos do funcionamento das coisas do mundo da arte (Kunstbertrieb)? As obras tornam-se acessíveis ao gozo artístico e privado. As autoridades oficiais tomam a cargo o cuidado e a conservação das obras. Críticos e conhecedores de arte ocupam-se delas. O comércio de arte zela pelo mercado. A investigação em história de arte transforma as obras em objetos de uma ciência. Mas, no meio de toda esta diversa manipulação vêm as próprias obras ainda ao nosso encontro? . (HEIDEGGER, [1936], 1977 p.31)

Nesse ponto, podemos entender a duplicidade inerente à “atualidade” de uma obra de arte: primeiro por ser um acontecimento, ou seja, sua atualização acontece no momento do seu reconhecimento como tal, resultado da fruição sujeito-objeto; e segundo, na medida em que sua própria existência é condicionada por valores presentes, fruto de jogos sociais, quer no campo simbólico, econômico ou social. Assim, uma obra de arte existe e ocorre no “agora” e para o “homem de hoje”. Da mesma maneira, o entendimento do patrimônio artístico é essencialmente a sua dimensão enquanto obra de arte e como tal uma “coisa” do “presente”, sempre contemporânea e sempre atual. Na medida em que o objeto de arte se dá e é parte do mundo ele também se constitui em capital simbólico, no sentido atribuído por Bourdieu no ensaio: A produção da crença: contribuição para uma economia dos bens simbólicos. Para ele, os bens culturais e artísticos, apesar de inseridos numa lógica econômica na medida em que atendem a uma clientela, dão margem e têm seu valor resultante da construção do capital simbólico e conseqüentemente sua possível conversão em ganhos econômicos reais. Segundo o autor, o capital simbólico é construído pela denegação do capital político e econômico, o que se converte em “crédito” capaz de garantir, em determinados contextos, ganhos econômicos – os “ganhos do desinteresse”, além disso, reconhece todo um sistema de legitimação, no status e na grife, como formas de legitimar e agregar valor.

Ou seja, a acumulação legítima do capital

simbólico refere-se à construção de um “nome”, uma “grife”, de um capital de consagração,

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Revista ARQCHRONOS - Arquitetura em Patrimonio  

A criação da Revista ARQCHRONOS – arquitetura em patrimônio – é um pólo de troca e de ação crítica relacionado a área de Patrimônio Arquitet...