Page 41

Assim, o patrimônio artístico e o valor artístico transcendem um simples registro histórico. O patrimônio artístico é essencialmente o seu entendimento enquanto obra de arte e como tal uma “coisa” “presente”, contemporânea, atual e artística. Nesse ponto, fazemos uma ponte com o pensamento de Cesare Brandi que, na sua teoria do restauro, dispõe três dimensões temporais da obra de arte (o tempo da sua criação; o tempo de existência ou histórico; e o tempo da obra de arte – da sua fruição, o seu acontecimento). O reconhecimento de três instâncias temporais não se contrapõe ao pensamento de Heidegger, mesmo porque, ao propor que o objetivo da restauração seja o de resgatar o inteiro da obra, norteada pelo estado do bem a ser restaurado (o que contempla a ação do tempo), e, ao defender que as intervenções devem ser contemporâneas ao restaurador, Brandi defende o “presente” como a “temporalidade do restauro”. É importante avançar, desenvolvendo ainda a idéia de que “o observador” está, participa e age “no mundo” e sendo assim, um objeto artístico também reflete os jogos entre agentes sociais nos campos: simbólico, político, cultural e econômico. Sob essa perspectiva, vale tanto a sociedade e seus agentes estão em processo de transformação ininterruptos, evidenciando mais uma vez que o “tempo” de uma obra de arte é sempre “do-presente” - o seu reconhecimento como obra de arte, resulta desses jogos sócioculturais, dessas dinâmicas e transformações constantes. Segundo Heiddeger - nesse caso estamos tratando de uma dimensão ôntica13 - a obra de arte passaria a ser um objeto artístico e não mais uma obra de arte na medida em que é colocada numa relação mundana, da impropriedade14:

12

Parte da filosofia que especula sobre o “ser enquanto ser”, independente de particularidades. Ao tomarmos a obra de Heidegger, de forma resumida e simplificada, o “ser enquanto ser” constitui a abertura de possibilidade de ser da presença, do ser-sendo. 13 O sentido da palavra ôntica está relacionado ao entendimento da palavra ontologia. Quando falamos de ôntico, falamos do ente que independe do ser. No entanto, o ser do ôntico depende do ontológico. É uma questão que pode ser ilustrada como idealismo (ontologia) e realismo (ôntico). 14 Heiddeger trabalha com duas maneiras do ser ser, uma própria que é a abertura das infinitas possibilidades do ser ser e outra imprópria enquanto fechamento da possibilidade do ser ser.

41

Revista ARQCHRONOS - Arquitetura em Patrimonio  

A criação da Revista ARQCHRONOS – arquitetura em patrimônio – é um pólo de troca e de ação crítica relacionado a área de Patrimônio Arquitet...

Advertisement