Page 21

passagem e da ação do tempo ou seja, a pátina5. É nesse sentido que, quando falamos dessa unidade do patrimônio estamos reconhecendo, concomitantemente, que uma obra de arte é singular, indivisível e não reflete qualquer unidade orgânico-funcional de uma realidade existencial. Assim, os objetos artísticos gozam da imprevisibilidade, sendo impossível adotar qualquer metodologia de analogia ou similaridade ou categorização ou idealização ou racionalização no ato do restauro - a adoção de metodologias fundadas na analogia, similaridade, categorização, etc. podem ser entendidas como arbitrariedade frente ao campo da liberdade, singularidade e imprevisibilidade que gozam os objetos artísticos. Assim, os ritos de passagem e a utopia de retorno ao passado, tão exploradas por campanhas e ações visando a gestão de imagens corporativas resultam naquilo que Brandi denomina “falso histórico” 6, com o agravante de que, em alguns casos, significa a real destruição de uma obra de arte em detrimento de outra “fictícia” já que se trata de uma “reconstrução”, não constituindo um processo ou intervenção de restauração. A resultante de intervenções que buscam “o retorno” pode representar uma “destruição criativa”, um falso histórico. Tanto por um comprometimento à autenticidade do bem, quanto à própria concepção de obra de arte, entendida com criação artística fundada nas infinitas possibilidades imprevistas, não haveria condição de congelamento, de volta ao tempo, de retorno ao passado, analogia, categorização, estilização e tantas outras utopias comumente associadas à restauração e aos bens patrimoniais. O adágio nostálgico “Como era, onde estava” é a negação do próprio princípio da restauração, é uma ofensa à história e um ultraje à Estética, colocando o tempo como reversível e a obra de arte como reproduzível à vontade. (BRANDI, 1963, p.89) 5

Para Brandi a pátina é o desgaste natural da matéria pela ação do tempo O autor reconhece que a falsidade é um juízo de valor, afirma: “Reconhece-se, assim, no juízo de falsidade um juízo problemático com o qual se faz referência às determinações essenciais que o sujeito deveria possuir e não possui, mas que ao contrário, se pretenderia que possuísse, donde no juízo de falsidade se estabelece a não congruência do sujeito ao seu conceito e o próprio objeto é declarado falso.” (BRANDI, 1963,p.114), ou seja, um objeto é falso na medida em que não corresponde ao que diz ser ou a seu conceito. È, assim um objeto que induz à dúvida, a imprecisão. 6

21

Revista ARQCHRONOS - Arquitetura em Patrimonio  
Revista ARQCHRONOS - Arquitetura em Patrimonio  

A criação da Revista ARQCHRONOS – arquitetura em patrimônio – é um pólo de troca e de ação crítica relacionado a área de Patrimônio Arquitet...

Advertisement