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Do ponto de vista do homem, que vive sempre no intervalo entre passado e futuro, o tempo não é um contínuo, um fluxo de ininterrupta sucessão; é partido ao meio, no ponto onde “ele” está; e a posição “dele” não é o presente, na sua acepção usual, mas uma lacuna no tempo, cuja existência é conservada graças à “sua” luta constante, à “sua” tomada de posição contra o passado e o futuro (ARENDT, 2000 [1954], p.37).

A concreção do mundo real representa, assim, a comprovação da nossa humanidade e em alguns casos o resgate, frente à fluidez do mundo contemporâneo e às possibilidades desumanas reais. Tudo que espontaneamente adentra o mundo humano, ou para ele é trazido pelo esforço humano, torna-se parte da condição humana. O impacto da realidade do mundo sobre a existência humana é sentido e recebido como força condicionante. A objetividade d mundo – o seu caráter de coisa ou objeto – e a condição humana completam-se uma à outra; por ser uma existência condicionada, a existência humana seria impossível sem as coisas, e estas seriam um amontoado de artigos incoerentes, um não-mundo, se esses artigos não fossem condicionantes da existência humana. (ARENDT, 2004 [1958], p.17)

Então podemos findar, sugerindo que o interesse pelos bens patrimoniais se constitua no fundo o interesse e o resgate da própria dimensão humana, da condição humana. Segundo Hanna Arendt, a mortalidade é a condição humana, ou seja, o homem é o único animal mortal - que possui consciência da sua finitude e a única possibilidade e grandeza de se fazer eterno é sua capacidade de produzir coisas. Assim, a duração das coisas tem, portanto papel decisivo na existência e condição humanas. Todas as coisas que devem sua existência aos homens, tais como obras, feitos e palavras, são perecíveis, como que contaminadas com a mortalidade de seus autores. Contudo, se os mortais conseguissem dotar sua obras, feitos e palavras de alguma permanência, e impedir sua perecibilidade, então essas coisas ao menos em certa medida entrariam no mundo da eternidade e ai estariam em casa, e os próprios mortais encontrariam seu lugar no cosmo, onde todas as coisas são imortais, exceto o homem. (ARENDT, 2000 [1954], p.72)

Ademais, a velocidade, o hedonismo, a substituição das coisas, a efemeridade, o ritmo e invasão do mercado sobre as diversas esferas humanas, talvez explique, em parte, a sede de preservar e expor, ou melhor, a sede em fazer consumir tudo.

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Revista ARQCHRONOS - Arquitetura em Patrimonio  

A criação da Revista ARQCHRONOS – arquitetura em patrimônio – é um pólo de troca e de ação crítica relacionado a área de Patrimônio Arquitet...

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