Page 167

culturais e artísticos (de fazer com que o patrimônio cultural se mantenha). Assim, o processo de patrimônio é rompido e corre-se o risco da sua não-valorização – sua inexistência enquanto bem cultural ou seu esvaziamento de valor cultural. Essa avaliação não significa que o papel de preservação do Estado seja dispensável ou irrelevante. Estamos alertando também para o fato de que a existência de um bem cultural também depende da sua “proximidade” com seus “reais produtores”. É essa “proximidade” e conseqüente valoração que pode garantir certa autonomia e autenticidade no campo cultural e a conseqüente existência e produção dos bens culturais e artísticos enquanto tais. Caso contrário, esses bens e seus valores simbólicos podem ser apropriados, transmutados e resignificados para a legitimação de discursos ideológicos e interesses particulares. Como já foi dito, a apropriação dos bens culturais pelo Estado em favor de sua ideologia foi possibilitada, em certa medida, pela ruptura da tradição e a crença na construção de um novo tempo. O Estado atual (brasileiro), frente às demandas sociais e à incapacidade do financiamento público, reduz sua capacidade regulatória e autonomia na gestão desses bens. Assim, cria-se um espaço favorável à apropriação do patrimônio por interesses que fogem à esfera do comum e coletivo e à garantia da autonomia. Na atualidade, esses bens vêm sendo “cooptados”, no sentido de reapropriados pelos setores empresariais e políticos segundo as lógicas de mercado contemporâneas fundamentadas nas estratégias de comunicação e gestão de imagens. Se por um lado o Estado passa a incentivar a participação de empresas em programas e ações vinculadas a cultura, ao mesmo tempo, as empresas buscam mais e mais associarem suas marcas a ações “politicamente corretas” por estratégia de comunicação e relacionamento – sendo o patrimônio adotado, então, como temática e ações promocionais. Um cenário favorável à atuação das empresas junto aos bens culturais e artísticos se 167

Revista ARQCHRONOS - Arquitetura em Patrimonio  

A criação da Revista ARQCHRONOS – arquitetura em patrimônio – é um pólo de troca e de ação crítica relacionado a área de Patrimônio Arquitet...

Advertisement