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A palavra patrimônio deixa de ter uma conotação exclusivamente relacionada à esfera privada e passa a representar o conjunto de bens coletivos fundamentais à identidade nacional, passando à esfera pública e, mais precisamente, ao campo da política. Ou seja, passa a ser uma ferramenta a serviço da construção de uma nação, baseada no princípio da universalidade e da igualdade de direito entre os homens. Esses

bens, anteriormente

acessíveis à um grupo social dominante, passam a ser de todos e o Estado (enquanto representante dos interesses comuns) passa a ser o responsável por eles. Essa passagem, ou melhor, a tomada da responsabilidade desses bens pelo Estado é, em certa medida, determinante do seu “afastamento” ou de um certo “distanciamento” desses bens da sociedade de uma forma geral. Parece até paradoxal: quando o patrimônio passa a ser visto como um bem coletivo ele é, ao mesmo tempo, “descolado” da sociedade, de seus produtores, ou melhor: na medida em que é de todos, não pertence a ninguém especificamente – a tradição é assim rompida. Podemos dizer de outra forma: a partir do momento em que a tradição (a quem e de que forma se transmite ou reproduz os costumes e coisas do mundo) é rompida e o Estado passa a ser responsável em manter e preservar o patrimônio assistimos à estagnação, congelamento e colocação dos bens patrimoniais num passado remoto e distante. O testamento, dizendo ao herdeiro o que será seu de direito ou, resolvendo a metáfora, sem tradição – que selecione, nomeie, que transmita e preserve, que indique onde se encontram os tesouros e qual o seu valor – parece não haver nenhuma continuidade consciente no tempo, e, portanto, humanamente falando, nem passado nem futuro, mas tão-somente a sempiterna mudança do mundo e o ciclo biológico das criaturas que nele vivem. (ARENDT, 2000 [1954], p.31)

O Estado não é produtor de bens culturais – a reprodução e criação cultural se dão na dimensão humana, num processo contínuo e dinâmico, fruto das relações entre os homens no mundo. Assim, na medida em que o Estado assume o papel de proteger e preservar o patrimônio destitui e impede os homens de intervir, transformar e se relacionar com os bens 166

Revista ARQCHRONOS - Arquitetura em Patrimonio  

A criação da Revista ARQCHRONOS – arquitetura em patrimônio – é um pólo de troca e de ação crítica relacionado a área de Patrimônio Arquitet...