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públicos pode condenar o patrimônio à depreciação e destruição, por outro lado, essa dinâmica de mercado, mediante as parcerias, quando decide intervir, objetivando “resgatar”, pode condicionar a intervenção a interesses e compromissos distintos e desinteressados à obra propriamente dita. Assim, essas intervenções podem colocar em risco o próprio bem patrimonial a ser “resgatado”. Ou seja, apesar do interesse dos diversos setores na atuação e no financiamento de ações e programas de recuperação do patrimônio cultural e artístico, não temos qualquer garantia de que estamos realmente preservando, na medida em que essas intervenções podem estar subordinadas aos interesses de mercado e das estratégias de comunicação. Com isso não estamos negando a importância e relevância desses investimentos, mas sim destacando que é fundamental que os órgãos competentes tenham autonomia nos encaminhamentos e ações relativas ao patrimônio e usos do espaço da cidade. Por fim, é importante reafirmarmos que com essas observações não estamos desconhecendo a relevância desses instrumentos legais de incentivo na área de preservação de bens patrimoniais. Acredito serem possíveis intervenções comprometidas com a autenticidade dos bens patrimoniais que respeitem a autonomia das instâncias legais e técnicas responsáveis pelas intervenções nessa área e que possam contribuir e representar o real comprometimento, tanto dos setores empresariais quanto governamentais, com os bens simbólicos coletivamente reconhecidos – intervenções que realmente contribuam à manutenção e restauração dos bens patrimoniais e possam auxiliar à construção de imagens corporativas. Ou seja, os problemas e questionamentos não são apenas fruto da associação patrimônio e estratégia de comunicação. Nesse nível a questão se remete, mais uma vez, à ética e à política, atuando na construção ou no reconhecimento do espaço público e dos interesses coletivos, onde os bens patrimoniais podem representar os embates entre os diversos atores na construção de alternativas.

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Revista ARQCHRONOS - Arquitetura em Patrimonio  
Revista ARQCHRONOS - Arquitetura em Patrimonio  

A criação da Revista ARQCHRONOS – arquitetura em patrimônio – é um pólo de troca e de ação crítica relacionado a área de Patrimônio Arquitet...

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