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Todavia não é nem afuncional nem simplesmente “decorativo”, tem uma função bem específica dentro do quadro do sistema: significa tempo! (BAUDRILLARD, 2000 [1968], p.82)

Continuando o pensamento desse autor, por estar à parte do sistema relacional dos objetos, a antiguidade é um ser completo e perfeito e assim é sempre. Apesar de Baudrillard enfatizar a simbologia temporal do objeto antigo, ele reconhece, ao mesmo tempo, a sua presentificação – o que seria a primeira vista uma contradição. Mas se pensarmos que, para ele, os bens antigos estão “à parte” e que a relação entre tempo e a antiguidade não tem a função ou seu valor pautados em uma categorização ou classificação, mas sim em representar o tempo como um símbolo “metatemporal”, da existência, de “um passado”, o seu valor de presente não se contrapõe à sua função simbólica temporal. O objeto antigo ou mitológico é uma lenda, constituindo a evasão do cotidiano. O seu valor enquanto antiguidade fundamentase na sua dimensão simbólica e não na sua dimensão histórica, propriamente dita. A exigência à qual respondem os objetos antigos é aquela de um ser definitivo, completo. O tempo do objeto mitológico é o perfeito: ocorre no presente como se tivesse ocorrido outrora e por isso mesmo acha-se fundado sobre si, “autentico”. (BAUDRILLARD, [1968], p.83)

Ou, ainda: São evasão da cotidianidade, e a evasão não é nunca tão radical quanto no tempo, nunca tão profunda quanto na própria infância. Talvez haja nesta evasão metafórica não importa que espécie de sentimento estético, mas a obra de arte enquanto tal requer uma leitura racional: já o objeto antigo não tem exigência de leitura, é uma “lenda” uma vez que é seu coeficiente mítico e de autenticidade que o designa. Épocas, estilos, modelos ou séries, preciosos ou não, verdadeiros ou falsos, nada disso muda a especificidade vivida: ele não é nem verdadeiro nem falso, é “perfeito” – não é nem interior, nem exterior, é um “álibi” – não é nem sincrônico nem diacrônico (não se insere nem em uma estrutura ambiente nem em uma temporal), é anacrônico – não é, em relação aquele que o possui, nem o atributo de um verbo ser, nem o objeto de um verbo ter, mas concerne na verdade à categoria gramatical do objeto interno, que declina quase tautologicamente a substância do verbo. (BAUDRILLARD, [1968], p.88)

Segundo Baudrillard, os objetos assumem uma função mitológica mediante o seu deslocamento contextual e sua apropriação (significação) por grupos ou indivíduos distintos

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É irresistível comentar sobre a sedução e o encantamento que a novidade exerce. No livro IV de A República, Platão, ao falar sobre a riqueza e a pobreza, comenta: Uma, porque dá origem ao luxo, à preguiça e ao gosto

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Revista ARQCHRONOS - Arquitetura em Patrimonio  

A criação da Revista ARQCHRONOS – arquitetura em patrimônio – é um pólo de troca e de ação crítica relacionado a área de Patrimônio Arquitet...

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