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importância que os objetos antigos possuem representado pela pátina45. Assim, a pátina é um valor agregado capaz de atribuir status aos objetos artísticos e, conseqüentemente, ao seu proprietário – estamos falando do valor do antigo (explicitado e atestado pelo desgaste e pela ação temporal) e, assim, estamos falando também de um valor simbólico: O plutocrata percebeu a fraude: não era beleza o que o pseudo-artista lhe vendera, assim como nunca foi amor o que a prostituta concedia. Ele se afastou enojado daquilo e decidiu que a única beleza que poderia comprar era a beleza morta do passado. Foi então que surgiu o culto da pátina, e a era da falsificação e da detecção de obras falsificadas. Certa vez, observei a um homem rico que uma estátua de Rodin estaria à altura até mesmo de sua coleção. “Mostre-me um Rodin com pátina do século XV e terei prazer em adquiri-lo”, foi a resposta dele. (FRY, [1920], p.88)

E analisa o fato: Há, para o filósofo, algo de patético no culto do plutocrata à pátina. É como se fosse uma compensação pela carência que ele próprio tem. Nele mesmo, todas as marcas grosseiras deixadas pelo dedo e o cizel de seu criador – e ele é o criador de si mesmo – permanecem ainda em estado bruto e tosco; mas sua mobília, pelo menos, deve aparentar a distinção de uma intimidade secular com as boas maneiras. (FRY, [1920], p.88)

Recentemente foi traduzido e publicado no Brasil o livro “O culto dos monumentos históricos: sua essência e sua gênese”, que Alois Riegl escreveu em 1903. Ele é o primeiro teórico que se dedica especificamente à temática de patrimônio, que propõe e relaciona à questão de preservação a dimensão dos valores de sua época. Designado para criar um corpo legal para as intervenções em monumentos termina por formular uma teoria de conservação para o patrimônio artístico. Ele propõe um sistema hierarquizado de valores, mas não excludente (um bem pode ter mais de um valor, prevalecendo o hierarquicamente “superior” ou mais restritivo), como forma de determinar as intervenções sobre um monumento. E mais, propõe a relatividade no caso do valor artístico. Para ele, a impossibilidade de se conceber um valor artístico absoluto é reflexo da incapacidade de se obter um padrão absoluto de arte e do belo. Tanto o interesse histórico quanto o relativismo proposto são reflexos de um pensamento evolucionista moderno: o valor histórico está diretamente ligado à “reconstrução” 45

Desgaste natural da matéria pela ação do tempo – envelhecimento natural.

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Revista ARQCHRONOS - Arquitetura em Patrimonio  
Revista ARQCHRONOS - Arquitetura em Patrimonio  

A criação da Revista ARQCHRONOS – arquitetura em patrimônio – é um pólo de troca e de ação crítica relacionado a área de Patrimônio Arquitet...

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