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impressões

marcas artísticas em São Carlos

realização UFSCar PROExt/SP Cultura Instituto Cultural Janela Aberta


Valdemir Miotello (coordenação) Cristian Cobra (organização)

impressões

marcas artísticas em São Carlos

São Carlos Instituto Cultural Janela Aberta 2011


COORDENAÇÃO

Valdemir Miotello

COMISSÃO DE AVALIAÇÃO E REVISÃO

Yuri Lavandoski Amato Maria Angelina Kusano Jemima Fortes Murad Leonardo Barbosa Rossato Douglas Henrique Perez Pino COLABORAÇÃO

Mariana Campos

PRODUÇÃO E ORIENTAÇÂO

Cristian dos Santos Wendy Palo Negrisolli DIAGRAMAÇÃO:

Cristian dos Santos EDIÇÃO:

Instituto Cultural Janela Aberta 2a edição (inclui artigo de introdução)

MIOTELLO, Valdemir (coord), SANTOS, Cristian (orgs) Impressões: marcas artísticas em São Carlos. C oordenação Valdemir Miotello , Organização Cristian Cobra dos Santos. São Carlos, Instituto Cultural Janela Aberta, 201 1 .

1- literatura ISBN: 978-85-64728-00-4

CDD: 800


Índice de textos

Prefácio.................................................................9 Introdução...........................................................1 3 Might B - Giuliana R. Cavasin................................1 4 A flor do jazigo mal cuidado - Abel Jose Silva........1 7 Zaratustra e Nietzsche - Marcelo Vargas................1 8 Mais uma... Rai(mundo) - Marco A. L. Brandão......20 Sensibilidade Canina - Marcelo Vargas.................23 Script - Marcelo Vargas.........................................25 Pequeno cemitério - Eliezer de Souza.....................26 Dubiedade - Eliezer Soares de Souza..................28 Sem titulo - Giuliana R. Cavasin............................31 O crescimento não tem... - Eduardo Rompa...........33 Advérbio - Flavia Camila Gomes...........................34 Sem título - Giuliana R. Cavasin............................42 Sem título - Ricardo Gessner.................................44 Linha - Flávia Camila Gomes................................46 Xi...vazou! - Eduardo Rompa.................................50 Beleza horrenda - Ricardo Gessner........................52 Bipolar - Paulo Ramos...........................................54 3 x 4 = sinceridade - Ricardo Gessner...................65 Blues Equino - Marcelo Vargas..............................68 Bêbado - Ricardo Gessner.....................................71 O peixe - Giuliana R. Cavasin...............................72 Biografias............................................................76


Índice de imagens

Olhares de Lygia - Augusto H. Vossenar Neto........1 5 Sem título - Maria Júlia Andrade Carvalo...............1 6 Greve na arte - Augusto H. Vossenar Neto.............1 9 Sem título - Carla Regina......................................22 Companhia - Saulo Nogueira Schwartzmann.........24 A aventura de June - Augusto H. Vossenar Neto.....27 Companhia 2 - Saulo Nogueira Schwartzmann......29 Enquanto as pessoas... fora - Laura Teixeira...........30 cruzadas - Eduardo Dutra Rompa..........................32 Sem título - Maria Julia Andrade Carvalho.............34 Portal - Lucas Tavares Ferreira...............................39 O poeta - Isaac Soares de Souza........................40 Antropologia - Lucas Tavares Ferreira....................41 Contemplação - Laura Teixeira..............................43 Lá vai - Eduardo Rompa........................................45 Delineamento de... - Saulo N. Schwartzmann.........48 Funil - Lucas Tavares Ferreira.................................51 Enxaqueca - Melissa Conde..................................53 Modernidade - Lucas Tavares Ferreira....................56 Sem título 1 - Washington Pastore Amaro...............66 Sem título 2 - Washington Pastore Amaro...............67 Central Park - Melissa Conde................................69 Meio - Eduardo Rompa.........................................70 Cidade do Clima - Laura Teixeira..........................73 Das duas uma - Saulo N. Schwartzmann................74 Going abstract - Melissa Conde............................75


P re fáci o

Cristian Cobra Agente Cultural do projeto

Sempre foi comum ao Homem buscar a origem das coisas, como sempre foi impossível chegar a gênese verdadeira de qualquer pensamento. Apesar disto, sempre temos uma explicação sobre nossas motivações. O projeto Impressões: Marcas Artísticas em São Carlos (2010) começou a ser formatado em uma conversa com o Prof. Dr. Valdemir Miotello. Mas como para nós o recuo é infinito e uma prática sempre possível, posso ir mais longe, em nossas parcerias aluno-professor e poeta-editor, onde sempre coincidimos no intuito de trabalhar sempre agregando. Nosso objetivo neste projeto ainda era o mesmo: abrir espaço para as pessoas que lutam pela oportunidade de expor seu trabalho, suas idéias. Lembro ainda (que ao formularmos nossa edição conjunta de um dos números da revista científica Versão Beta, que estaria aberta aos textos poéticos dos alunos do curso de Letras) não soube o que fazer, pensei que tá grande, mas deixei assim mesmo, Miotello argumentou, sobre minha preocupação com uma “curadoria” mais rígida dos textos: --  "Vamos publicar e deixar que os leitores que decidam se fulano é bom ou não é! " A frase pode assustar algumas pessoas que se utilizam de 9


outra lógica. Em quatro anos colaborando com a coordenação de uma ONG que batalha pra conseguir a auto-gestão do artista em sua carreira artística, e com mais nove anos dedicados a construção de uma carreira de escritor, é fácil constatar as dificuldades que o artista possui pra produzir ou mesmo sobreviver de sua arte. Muitas vezes, num movimento pendular, o artista se vê forçado a tender para preocupações mais “comerciais”, como convencionamos chamar as estruturas mais comuns de produção. Mas isto é normal quando pensamos que é preciso gastos para publicar um livro ou pintar uma tela, gastos com a própria formação e todo um contexto econômico. A possibilidade de um livro como este, que conseguimos graças ao financiamento do Programa de Apoio à Cultura em Interface com a Extensão Universitária do Estado de São Paulo-2009 (ProExt SP), nos possibilitou fazer um recorte geográfico e temporal (São Carlos, 2010) e dar liberdade ao artista, ainda que iniciante, de se projetar com autenticidade e originalidade, sem gastos com isso. É preciso ressaltar também a importância deste projeto no incentivo da Extensão Universitária, possibilitando que o estudante aplique seus conhecimentos na prática, ao mesmo tempo em que intervém positivamente na comunidade, integrando espaços muitas vezes separados. Por isso contamos com a ajuda de uma equipe de bolsistas, pois um trabalho que se propõe a ser abrangente necessita de várias cabeças 10


que o pense, inclusive, que todos os participantes ao pensar o projeto, deixem nele suas marcas. Assim este livro imprime marcas que podem passar inertes, fenecerem sem se inscrever na História, no espaço da memória. Porém, o livro provoca uma dispersão temporal, uma liberação explosiva de discursos incubados que poderão continuar sua dispersão por outras formas, outros suportes. O projeto continua ainda, como marca de formação, no que a experiência de produzir, selecionar, indagar, preparar, arriscar, consultar; contribuiu para a formação prática dos bolsistas, agentes culturais e artistas. Assim, acreditamos que este projeto tenha convergido com os objetivos do Instituto Cultural Janela Aberta, no apoio e formação dos artistas vinculados a São Carlos, esperando que esta ação lhes proporcione potência para novas metas e atividades. Dispersamos agora esses discursos poéticos ao que chamamos de “público leitor”, essa massa heterogênea e amorfa que reflete e refrata tudo aquilo que lhe atinge. Com essas reflexões fecharemos um ciclo para inscrevê-lo na memória, cicatriz-vínculo, permanência de algo que passou. Marca revisitada, que poderá, por muito tempo, esperamos, gerar histórias e efeitos.

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I n tro d u ção

IMPRESSÕES SOBRE A ECONOMIA DA CULTURA NO INTERIOR DE SÃO PAULO 1 Valdemir Miotello Cristian dos Santos

RESUMO : O trabalho desenvolvido e também este

artigo se embasam no conjunto das experiências da Extensão Universitária recentes, como eventos de estudos na área de linguística, cursos para formação docente, publicização de produções de alunos e professores, e colóquios de aprofundamento da perspectiva bakhtiniana de compreensão dos movimentos culturais a partir dos trabalhos de François Rabelais, e também da experiência da incubadora de artistas levada a cabo pelo Instituto Cultural Janela Aberta, associação sediada em São Carlos/SP. E pretende ser uma discussão sobre os movimentos de cultura, para nós provocados especificamente pelo desenvolvimento do projeto Impressões: Marcas Artísticas em São Carlos, financiado pelo PROEXT Cultura SP. Artigo produzido para publicação de livro sobre Cultura e Extensão Universitária do Programa de Apoio à Cultura em Interface com a Extensão Universitária do Estado de São Paulo (ProExt Cultura SP). 1

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Introdução O projeto Impressões: Marcas Artísticas em São Carlos, viabilizado pelo Programa de Extensão Universitária (ProExt Cultura SP), contribuiu para a articulação destas experiências, e retomada de um projeto editorial, que já vinha sendo gestado em vários contatos e trabalhos anteriores, unindo a aplicação de conceitos e conteúdos acadêmicos às praticas de organização e produção cultural no terceiro setor. E envolvendo também pessoas comprometidas com a produção e difusão cultural. A Associação Instituto Cultural Janela Aberta, através de sua função de incubadora de artistas com formação em empreendedorismo solidário, tem trabalhado continuamente, desde 2008, com artistas que sentem necessidade de apoio na produção e divulgação de suas artes e na multiplicação de seus saberes. Assim, o Janela Aberta não se preocupa apenas em oferecer eventos e produtos artísticos, mas proporcionar condições de infra-estrutura social e material e suporte de tipos variados, para que o artista tenha possibilidades de desenvolver seu trabalho com autonomia sobre seus projetos e produções. Apesar de nossa reflexão se centrar em experiências pontuais no interior de São Paulo, dados confrontados com os números gerais de produção cultural deste estado apresentam alguns fatores comuns. É nessa relação entre economia e cultura nas dimensões do acesso, da geração de emprego 14


e de financiamento, que desejamos desenvolver essa reflexão, pensando ainda, em como a extensão universitária também pode e deve interferir positivamente nestas relações. A cultura, seu desenvolvimento, o aprofundamento dos conceitos que podem ajudar na tomada de decisões e investimentos, a publicização dos acontecimentos devem ser compromisso de toda hora, dos setores públicos e privados envolvidos com educação e formação. Também deve ficar claro que cabe às instituições se envolverem com a cultura popular, desenvolvendo gestões para que, a partir desse lugar, forças de mudança possam influir positivamente e atuar nas inovações de vida destes grupos e destas pessoas.

A problemática da relação cultura popular e economia Importa-nos, num primeiro momento, inserir a discussão da produção e do consumo cultural das camadas populares dentro e a partir dos aspectos econômicos. O conceito de Economia da Cultura, estabelecido na década de 60, hoje tem sua inserção obrigatória nas pautas do governo e da iniciativa privada. A cadeia de produção, distribuição, acesso e financiamento dos produtos e serviços artísticos parece estar adaptando-se com muita agilidade aos novos arranjos econômicos e políticos. A crescente valorização da formação ao invés do dom, do talento; a desmistificação da ar15


te como realização sublime, enfim, a reorganização interna do campo artístico na articulação com as relações políticas e econômicas contribuíram para uma perspectiva da arte como necessidade e direi to. Se a arte é necessidade, interessa especialmente ao mercado, se é direito, interessa especialmente ao Estado. Por isso a Economia da Cultura tem seu foco voltado mais às relações exteriores que o campo artístico nutre, do que suas relações internas, seus conteúdos. Essas relações, aos olhos do mercado seguem bem. O Banco Mundial estima que a Economia da Cultura responda por 7% do PIB mundial (2003). Nos EUA a cultura é responsável por 7,7% do PIB, por 4% da força de trabalho e os produtos culturais são o principal item de exportação do país (2001). Na Inglaterra, corresponde a 8,2% do PIB (2004), emprega 6,4% da força de trabalho e cresce 8% ao ano desde 1997. (PORTA, Economia da Cultura: Um Setor Estratégico para o País)

Seguindo essas projeções, o Governo Brasileiro tem desenvolvido também políticas de fortalecimento do incentivo às praticas culturais: Na história cultural é conhecida a tradição de apoio às artes e cultura por parte de atores políticos e econômicos importantes, como príncipes ou governantes, empresários, financistas ou amadores esclarecidos. Mas com a

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organização do apoio de Estado, abrem-se possibilidades de intervenção sistemática para a criação de ocupações e geração de renda relacionada às atividades culturais, industriais ou não, considerando as possibilidades de desenvolvimento de regiões menos dinâmicas economicamente (SILVA, Economia e Política Cultural: acesso, emprego e financiamento)

Esse novo interesse pela arte, novo especialmente em âmbito brasileiro, abre perspectivas para muitos artistas, incluindo aqueles que estão à margem das grandes mídias e distribuidoras. A aura que se constituiu sobre a imagem do artista é um misto do gênio patrocinado por um rico mecenas, seja pessoa física ou jurídica, ao mesmo tempo em que constitui um oposto paradoxal, e numericamente mais real, dos artistas que não conseguem sobreviver de sua arte. Essa visão estabeleceu uma forte ruptura entre o artístico e o comercial, que não só protegia a autonomia criativa do artista, como inviabilizou a integração do artista com seu público em aspectos econômicos. A política pública brasileira atual ainda se volta para o mecenato. Na busca de favorecer as iniciativas culturais, desprivilegiadas no processo histórico, vemos uma enorme parte das produções brasileiras viabilizadas por editais de fomento e pela isenção fiscal. A arte e a cultura inserem-se assim, na pauta de empresas e governos, geralmente, como despesa. Mas segundo a economista Ana Carla Fonseca, 11% do PIB dos Estados Unidos (aproximadamente um trilhão e duzentos e 17


cinqüenta bilhões de dólares) advem das criações de direitos autorais que são vendidos pelo mundo todo. Mais um indicador de que a arte e cultura pode ser lucro e não despesa. Mas, mesmo com essas novas possibilidades e incentivos, temos ainda um cenário ruim. Vamos a alguns números de produção e consumo, em termos de cultura. Segundo dados do Cultura em Números, publicado em 2010 pelo Ministério da Cultura, (selecionamos dados relacionados a São Paulo e em especial a literatura, devida a relação com o projeto Impressões: Marcas Artísticas em São Carlos) somente 24,19% dos municípios realizaram concursos de literatura, somente 21,86% dos municípios realizaram feiras de livros e apenas 35,50% dos municípios possuem centros culturais. Essa baixa oferta de aparelhos culturais é consoante também com o baixo consumo de produtos culturais, especialmente os artísticos: práticas culturais mais realizadas pelos paulistas são: ouvir música (49%), reunir-se com amigos (26%), ler livros e ir aos shoppings (20%) e jogar videogames (13%). Nos jornais, entre as páginas mais lidas, a preferência pelas páginas de arte/cultura/literatura é de 17%. Para complementar, a despesa média mensal com recreação e cultura é de 22,8 reais nas famílias sem pessoa com formação de nível superior; 88,79 reais em família com uma pessoa possuindo nível superior, e 160,99 reais em famílias com mais de uma pessoa com nível superior (20022003). Porém, a despesa mensal per capita com 18


cultura na região sudeste aumentou progressivamente: (2003) 14,78 reais, (2004) 15,18 reais, (2005) 17,78 reais. A Economia da Cultura tem contribuído com a solução de alguns problemas no financiamento e viabilidade da produção artística. A concepção de que a arte gera riqueza, não somente na sua comercialização imediata e direta, mas nos gastos/consumo de sua produção; na contratação de serviços nos âmbitos da distribuição e divulgação; na demanda de formação artística e também técnica; no consumo de alimentos, bebidas, merchandising, etc, tem fortalecido a produção cultural. Numa perspectiva diferente, o conceito de Economia Criativa tem gerado oportunidades para artistas agregarem valor intangível a produtos funcionais. Essas tendências parecem contribuir para a resolução de um grande problema da maioria dos artistas brasileiros: geração de renda. A possibilidade de o artista plástico poder, não apenas pintar telas, mas poder trabalhar com murais, webdesigner, moda; ou mesmo a possibilidade de obter financiamento público/privado para sua produção, não acalma ainda aquela velha indagação: como fica a autonomia criativa? Afinal de contas, aquele que paga a conta, não impõe seus critérios? Ainda segundo a economista Ana Carla Fonseca: os dados da ONU revelam que 85 por cento das salas de cinema do mundo estão nas

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mãos dos grandes conglomerados, 75 por cento do comercio de musica esta nas mãos de quatro grandes empresas. Existe uma produção enorme que não encontra distribuição, não é que essa produção esteja superada, ela não se faz visível, não se faz acessível. Como se existisse um funil com uma produção enorme e a boca que vai engargalando na distribuição, só que essa distribuição que atinge uma demanda muito menor é quem dá pauta a produção seguinte. E acaba entrando em uma série de gargalos que fazem com que de fato a diversidade seja posta em risco. Não só a diversidade somente sob o ponto de vista cultural, se essas pessoas não conseguem sobreviver de sua produção, de seu talento cultural, acaba tendo um genocídio de talentos. Essas pessoas terão de se dedicar qualquer outra atividade que poderia ser exercida por pessoas sem os talentos criativo que elas têm por que têm de pagar as contas. Então aquele saber, aquele fazer, aquela expressão acabam não se confirmando.

Embora o Estado vise estratégias pontuais exatamente para manter essa diversidade, existe grande desequilíbrio na gestão desses recursos, a exemplo de Lei Rouanet que concentra 80% de seus recursos no eixo Rio-São Paulo. A gestão da cadeia artística por parte de grandes iniciativas privadas, apresenta-se também claramente inviável, visto o que tem sido disseminado pelas emissoras de TV abertas e fechadas, grandes gravadoras e produtoras, etc. A grande questão que levantamos aqui é: em meio a uma nova e positiva perspectiva 20


econômica, pode o artista tornar-se capaz de sobreviver de sua arte e ainda ter autonomia sobre ela? E se o movimento cultural migrar do trabalho individualizado para um trabalho colaborativo, será possível alavancar a produção e o consumo cultural?

Uma perspectiva solidária e colaborativa O Instituto Cultural Janela Aberta tem desenvolvido seu processo de incubação de artistas pensando aspectos da Economia da Cultura e da Economia Criativa. Busca, no entanto, para solução do problema aqui levantado, a inserção dos princípios da Economia Solidária e Colaborativa. Afinal, novos tempos exigem novas posturas e o encaramento de novas valorações. A Economia Solidária tem sua atuação voltada a pessoas economicamente marginalizadas, visando a geração de renda através do trabalho coletivo e autogestionado. Pautando-se nos princípios de igualdade e autonomia, a Economia Solidária pode ser um instrumento de fortalecimento do trabalho artístico através da organização coletiva e na busca da autonomia econômica do artista, para que este possa articular suas relações com o mercado e o Estado, sem uma posição de submissão. Quem se impõe nesse movimento é a vida, e não o mercado impessoalizado que busca acima de tudo o lucro, com base na exploração humana. 21


Inverte-se aqui a direção dos jogos produtivos sociais. Aqui o movimento que está no foco é a produção, circulação e consumo de construções artísticas e imateriais, conduzido pelos próprios interessados e pessoas a eles ligados por interesse colaborativo, não-exploratório, sem necessidade de expropriação. E para que se alargue a base da apropriação cultural é necessário que o valor da colaboratividade seja manejado constantemente e de forma firme e irredutível pelos envolvidos em todas as fases, tanto produtivas, quanto de circulação e de consumo. Nosso trabalho segue por essa perspectiva. Uma compreensão teórica e de base construída por leituras e discussões, levando a todos os envolvidos na gestão do projeto a introjetar um modus operandi colaborativo e solidário. Um convencimento pessoal é necessário, pois se trata de remar contra a corrente. Aqui contribuíram sobremaneira as reuniões constantes e as discussões firmes, visando construir uma logística compreensiva e de ação, pautada nestes princípios. Não nos importava apenas executar ações no campo da cultura; importava-nos mais compreender como o processo poderia ser mais firmemente executado, sem perder os pressupostos do envolvimento de todos, e da produção a mais alargada possível em termos de números de participantes, sejam enquanto produtores, sejam enquanto consumidores. Entendemos que esse trabalho não tem que ocupar o lugar que é do Estado, e de quem precisamos constantemente cobrar a execução da 22


ação, haja vista sua ineficácia e normalmente a direção equivocada e comprometida com os que dominam seus aparelhos distributivos de espaço e recursos. O compromisso de quem está envolvido com um trabalho solidário, também no campo cultural, é a construção de um espaço socialmente justo e sustentável, conduzido pelos próprios trabalhadores, enquanto sujeitos de direito e de necessidades. Essa postura nos empurra para a área do empreendedorismo cultural conduzido pelos próprios envolvidos no processo. Não somos apenas consumidores permanentemente deficitários, a quem está negado o direito de acesso aos bens culturais oficiais. Somos também produtores de bens culturais, que resultam de nossas interações e valorações, e cabe a nós gerirmos nossa própria vida e nossa cultura. Enfim, a preservação da autonomia do artista sobre os meios de produção de seu trabalho artístico pode garantir a integração destes com o mercado e a iniciativa pública, sem haver, no entanto, submissão da criatividade (artística) perante a funcionalidade (do mercado, dos patrocínios, etc). Para isso é preciso que o artista desenvolva: a) fontes diversas de recursos; b) conhecimento técnico para apresentação de projetos e disputa de recursos públicos; c) formas colaborativas (mais baratas e eficientes) de produção; d) mecanismos de captação de recurso da iniciativa privada através de ações no âmbito da Economia da Cultura e Economia da Cultura; e) domínio sobre 23


as novas técnicas de produção e divulgação de conteúdos na internet. A questão do domínio e da utilização das novas mídias não deve ser deixada de lado nesse tipo de inserção. As possibilidades que se abrem a partir do uso desses suportes e de seus alcances muito além das outras realidades, deve nos convencer de que os trabalhos culturais devem ser formativos também quanto ao uso e domínio das novas mídias.

Propostas do nosso trabalho Quando desenvolvemos o projeto Impressões: Marcas Artísticas em São Carlos, tínhamos como premissa privilegiar artistas que tivessem maior participação na cena artística local. O intuito era apoiar escritores, fotógrafos e artistas plásticos que, não apenas tivessem alguma obra de qualidade estética, mas que desenvolvessem ações em busca de viabilizar e divulgar essa obra, ou ainda, que desenvolvessem/participassem de ações pela construção, discussão e/ou organização da cena artística local. Assumíamos assim uma postura de priorizar aqueles artistas que buscam a continuidade e o fortalecimento de suas carreiras artísticas. Somava-se ainda a ideia de inserir o maior número de artistas possíveis, tornando o livro Impressões, um espaço acessível para qualquer pessoa. Após a seleção e montagem de nossa equi24


pe, constituída por alunos das áreas de Letras, Linguístca e Imagem e Som da Universidade Federal de São Carlos, foi produzido e divulgado um edital de seleção de trabalhos artísticos para serem publicados num livro. Terminado o processo de inscrição, contabilizamos 115 obras recebidas de 19 artistas residentes ou ligados ao município de São Carlos, contendo contos, poemas, fotografias, manipulações digitais, ilustrações e imagens de obras em tela. Recebemos também um artigo científico, desqualificado por fugir do escopo do projeto. Segundo o regulamento do edital de seleção, cada pessoa poderia enviar até 5 poemas, 5 imagens ou 2 dois contos, em quantas categorias desejasse. Mediante estes números e o tamanho previsto do livro, achamos viável dar a oportunidade para todo artista inscrito poder participar da coletânea, com pelo menos um trabalho publicado. Conseguimos, dessa maneira, divulgar o trabalho de 19 artistas mantendo um nível de qualidade estética satisfatório, segundo os critérios da equipe. Essas decisões sobre os critérios de participação, a divulgação do processo seletivo, a seleção dos trabalhos, enfim, todas as ações e decisões relativas ao projeto foram realizadas por toda a equipe, acreditando na transversalidade das formações, no potencial do trabalho colaborativo e na prática do consenso. E a luta pela inclusão do maior número de participantes parece ser auto-compreensiva em uma proposta de trabalho 25


como essa por nós desenvolvida. A não-concorrência, a não-competição, mas antes a participação e a certeza de que era possível fazer diferença e fazer diferente motivou a todos.

Resultados de nosso trabalho Mediante a participação dos artistas, com suas obras e informações pessoais, tecemos algumas leituras e interpretações a cerca da cena local de São Carlos. Os artistas que participaram deste projeto (20 artistas) são predominantemente jovens e não possuem produção expressiva publicada ou exposta através de livros e grandes mostras. Essas artistas jovens não parecem ter, no entanto, nenhum embaraço com a tecnologia atual, utilizando-se de blogues, fotologues, microblogues, listas de emails, redes sociais para divulgarem seus trabalhos. É evidente que existe grande produção artística no interior de São Paulo, mas parece que seus artistas não têm muita possibilidade de divulgação destes trabalhos pelos meios tradicionais. As obras recebidas para compor o projeto Impressões apresentaram-se distintas e variadas na forma. Nos textos literários obtivemos tanto poemas quanto contos, e quanto as imagens, recebemos desde fotografias puras à foto-montagens, ilustrações, pinturas, aquarelas, fotografias de pinturas a óleo, esboços de caneta esferográfica e trabalhos a nanquim. 26


A falta, no currículo destes artistas, de publicações e realizações financiadas com dinheiro público ou privado, mostra também que estes artistas não participam ou não têm os requisitos para aprovar projetos em editais públicos, ou ainda poder de barganha para conseguir patrocínio privado 2 . Essas conclusões são consonantes com as observações desenvolvidas pelo Instituto Cultural Janela Aberta, que desde sua fundação trabalha com a qualificação e formação técnica dos artistas. Pois não se trata de uma questão estética ou de conteúdo, não diz respeito diretamente a constituição das obras artísticas; mas na metodologia de composição dos projetos, na utilização de palavras e conceitos chaves, no conhecimento dos programas que são fontes de recursos e os espaços de divulgação destes recursos em editais, a estruturação orçamentária, etc. Quanto a iniciativa privada, faltas aos artistas a utilização de aspectos já citados aqui, referentes a Economia da Cultura e a Economia Criativa, relacionando o produto artístico indiretamente às questões do comércio e da divulgação de empresas, na sua venda, financiamento e distribuição; e não de forma direta, submetendo o conteúdo da obra aos critérios comerciais. Por fim, visto a participação destes artistas Situação bem diferente em São Paulo capital, motivo este da reserva de cotas de projetos para o interior de São Paulo, visto a quantidade muito elevada de projetos selecionados que são da capital. 2

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e, considerando inclusive a possibilidade do livro Impressões tornar-se talvez a única publicação em livro de alguns destes artistas (que não seja custeada pelo próprio autor), torna-se evidente a necessidade de projetos como este, de abertura de espaço ao artista. Sabemos ser evidente, e alguns dos autores deste artigo se pronunciam na condição de artistas também, e não apenas produtores e pesquisadores, é evidente a necessidade do contato com o público para que uma obra artística cumpra sua função social. Somente o contato com o público leitor (de textos verbais ou não-verbais) pode incentivar, desenvolver e avaliar a produção do artista. Esse espaço do projeto Impressões, abriu-se em possibilidades criativas (a ponto de termos, por exemplo, um conjunto de obras, as aquarelas de Laura Teixeira, produzidas especialmente para este projeto). Dar espaço ao artista criar, torna-se assim necessário para incentivar a produção imediata, e ajudar a desenvolver e aprimorar os próximos trabalhos destes artistas. Restam ainda outras tantas ações para qualificação destes artistas, para que estes possam constituir assim suas fontes diversas de viabilização de suas obras e a consequente autonomia criativa. Assim como o Janela Aberta realiza ações nesse sentido, as ONGs podem contribuir com este processo e, também, a extensão universitária, por ser a Academia, detentora de muitos desses saberes técnico-teóricos. O próprio envolvimento dos universitários 28


com projetos culturais, especialmente do campo das Letras, pode abrir mais um espaço de atuação para estes que não seja a licenciatura, considerando que muitos alunos deste curso buscam uma proximidade com a Literatura e a cultura popular. Com a publicação e divulgação do livro Impressões, acreditamos abrir novas janelas, perspectivas, para estes artistas que se inscreveram, tornando-se não apenas uma intervenção pontual, mas causa e motivação de outras iniciativas dos próprios artistas, no intuito de darem continuidade a suas carreiras artísticas.

Olhando o futuro e algumas possibilidades Ter desenvolvido esse projeto nos ajudou a entender melhor os movimentos culturais, em toda a sua extensão, desde o processo criativo até o consumo cultural. Mas gostaríamos de destacar alguns aprendizados: a) O envolvimento dos estudantes universitários é fundamental, pois instala em seus horizontes novas possibilidades de trabalho e novos compromissos sociais. Certamente essa questão tem que ser alargada, com a inserção de sempre mais estudantes envolvidos em todo o processo; b) Foi fácil perceber que a maioria dos artistas participantes não tinha em seu histórico publicações anteriores a essa. Trata-se certamente de um mercado muito fechado, com poucas oportunidades. Também precisamos advogar o alargamen29


to de fronteiras participativas. Novas oportunidades devem ser construídas; c) Certamente que o desenvolvimento das características criativas de cada artista se dá em um jogo entre as capacidades desenvolvidas por cada um, e um trabalho coletivo, social, colaborativo. Não estamos defendendo que as capacidades individuais sejam inatas, mas antes que a própria individualidade é de caráter social. Mas defendemos aqui uma caminhada pessoal e uma caminhada coletiva. Nesse jogo se dá o processo cultural. É preciso um alavancamento maior desse jogo; d) O processo de Extensão Universitária também precisa recorrer a mais mãos, em um ir e vir constante e dialógico. Levar aprendizagens, metodologias, teorias e logísticas é bom, mas entende que também se deve, nas Instituições de Ensino, se estar aberto para inter-ações colaborativas. Os que ensinam sempre tem mais ainda a prender; os que aprendem tem sempre muito mais a ensinar. e) O processo de publicização pode parecer banal, mas é ele que garante a ampliação do caldo cultural existente em determinado contexto social, que põe em jogo as ideologias e valorações, que alarga as possibilidades de participação, e também que garante a continuidade explícita dos movimentos culturais gerados naquela ambiência coletiva e naquela horizontalidade temporal. Sem isso se particulariza, se individualiza o constructo, e normalmente se mantem restrito a um espaço muito particular, para deleite e esnobismo como 30


tendência, e como lucro financeiro apenas. f) Ganha excessivamente, sobre o real atual, as comunidades atingidas por provocações culturais nascidas em seu próprio seio. É de se insistir em eventos horizontalizados, plenamente mergulhados em cada comunidade, e logisticamente construídos de formas e metodologias colaborativas. A cultura é nossa identidade, é nosso passado e nosso futuro. São nossos sonhos e nossas possibilidades.

Referências bibliográficas BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. São Paulo/Brasília, Hucitec/UnB, 3.ed., 1996. PORTA, Paula. Economia da Cultura: Um Setor Estratégico para o País. Brasília, Ministério da Cultura, 2010 SILVA, Frederico A. B. Economia e Política Cultural: acesso, emprego e financiamento. Brasília , Ministério da Cultura, 2007 MINISTÉRIO DA CULTURA. Cultura em Números. Brasília , Ministério da Cultura, 2010 MINISTÉRIO DA CULTURA. Diagnóstico dos Investimentos em Cultura no Brasil. Brasília, Ministério da Cultura, 2005.

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i m p re s s 천 e s

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Might B. Giuliana R. Cavasin

As a noisy bee I Just want to be A hardworker that can fly From garden to garden Under the sky Tell about something And people push me out Cause is a noisy bee It´s boring We were happy Without thee Boring the people Who are boring Pic the people Kiss just the flowers My dress could be Old fashioned, My music I don´t mind As a bee I would be free

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Living between Roses daises roses And the sky That infinite blue sky Away fly

Olhares de Lygia - Augusto Hendricus Vossenar Neto 35


(sem tĂ­tulo) - Maria JĂşlia Andrade Carvalo

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A flor do Jazigo mal cuidado. Abel Jose da Silva

Quebradiรงa... Putz! Esqueci de regรก-la? Foi o tempo, nรฃo eu. Esquece! Sou um idiota.

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Zaratustra e Nietzsche Marcelo Vargas

Maldito anão da gravidade, acocorado no meu ombro, enforcando-me o pescoço, por que insistes em profanar-me as graças animadas por Dionísio? Em macular a serenidade das virtudes inspiradas por Apolo? Não vês que, assim, me fazes desperdiçar o tempo, sem alegria, e ainda afogas em melodrama de lágrimas os afagos de Afrodite, roubando-me toda energia? Cai fora, verme, deixe-me ser, sentir, gozar em plenitude minha condição perigosa de funâmbulo no abismo; Deixe-me atravessá-lo trôpego, arriscando-me, de um lado para o outro, sem o lastro traiçoeiro da tua verve medíocre e medrosa; Vai-te, maldito! Let me be.

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Greve na arte - Augusto Hendricus Vossenar Neto

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Mais uma ... Rai(mundo) Marco Antônio Leite Brandão

E ela me toma de assalto Total e inexoravelmente Como os marinheiros do Potemkin E me deixa assim assim Como diz Alceu numa canção: “ um bumba meu boi sem capitão ... ” E os meus olhos ficam sorrindo E pelo Campus a vão seguindo Mas ... ai de mim não vem ela pra mim Ah o doce doce doce do açúcar Ah o doce doce doce do mel Que se esparrama por braços Que nem um pedaço do meu ... Pode ser e pra fim de conversa Caro e sempre Lupicínio E encerrar com este infortúnio Meu coração neste momento É todo escadaria de Odessa Sob as botas do Czar

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Pois é de chapa do alojamento Meu parceiro de copo e bar A fortuna daquele fascínio Que logo vem dizer boa noite E perguntar se está tudo bem E se é hoje que Eisenstein Vai ter lugar no cine clube Do CAASO ... e em todo caso Antes de me lançar ao mar E revolucionar o mundo Mundo ... vasto mundo: Desce mais uma Rai(mundo)

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Sem tĂ­tulo - Carla Regina

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Sensibilidade Canina Marcelo Vargas

Meu cachorro é um poeta: Tudo fuça, todos e todas, atrás, na frente, nos cantos; Fareja púbis, postes, pistas sempre atento, por onde anda, a tudo que passa ao redor. Basta a porta se abrir Pra ganhar a rua, em liberdade; Na volta, banho de tapete, logo na entrada, só pra comemorar; Meu cão é pura poesia que entra pelas ventas e sacode-lhe o rabo.

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Companhia - Saulo Nogueira Schwartzmann 44


Script Marcelo Vargas

Nas esquinas inesquecíveis da juventude outrora perdida meninas moças viçosas rapazes alvoroçados e atentos mulheres sensuais por descobrir. Madrugada adentro bate forte um coração de estudante em corpo cada vez mais senil.

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Pequeno cemitério de Santa Eudóxia Eliezer Soares de Souza

Parece a cidadela do silêncio. Nenhum guerreiro luta mais. Todos os navios já zarparam. Gemem os canaviais à sua volta. Agora tudo é eterno e santo E os reis já não reinam. O vento sobre seus muros, São sinos de desespero. Ou assoviam canções de saudades.

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A aventura de June - Augusto Hendricus Vossenar Neto

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Dubiedade

Eliezer Soares de Souza

A meiguice do teu rosto é tão cruel Tanta doçura só me faz sofrer! Não sei se por me prender como algemas, Ou se por eu, talvez não merecer Já que tudo que na hora passada Me era claro e eu queria tanto Se me afigura agora, falso e morto Feito uma fruta insossa e mastigada Talvez seja essa imensa dúvida, Talvez seja teu olhar com fome, Talvez o sal de tua pele úmida, Seja o tempero desse amor sem nome Assim te amo sempre espantado Com medo de ficar, com medo de partir Pois vejo em ti, meu ser assassinado, E nesse crime por você eu me traí.

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Companhia 2 - Saulo Nogueira Schwartzmann

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Enquanto as pessoas conversam o dia estรก lindo lรก fora - Laura Teixeira 50


Giuliana R. Cavasin

A porta Aberta A espera Revela um p么r do sol no fim da tarde

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cruzadas - Eduardo Dutra Rompa 52


O crescimento não tem cabimento de cimento Eduardo Dutra Rompa

Borbulhas acontecem no brilhar do sol É água pra todo lado Mundo mudo aguado E de tanto frescor me traz amor Toca os lábios, se desfaz Multiplica suas faces Se hibridifica em seu caminho Sorrindo cores Das mais diversas Pedaciando pedaços porosos Indo pelas entranhas Quando eu crescer quero ser assim.

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(sem título) - Maria Julia Andrade Carvalho

Advérbio. Flavia Camila Gomes

Nunca havia sentido a voracidade de um advérbio, nem conhecia sua propriedade destrutiva a enraizar-me no estômago o gosto mórbido da insolidez. O caso é que talvez nunca tivesse me deparado com um, num desses dias em que tudo parece maior que realmente é, devido ao amiudamento da sua condescendência moral para consigo mesmo. Dias enfim em que se sente pequeno; pequeno demais mesmo para qualquer véspera de sentimento e ainda menor para que idéias produtivas lhe rodeiem a cabeça diminuta. 34 54


É absolutamente irônico como proporcionalmente a esse fato, agigantam-se ao redor as evidências de quão insignificante é sua presença na sua própria vida. E se vê como de repente seus dedos se tornaram curtos para alcançar qualquer pretexto que ultrapasse a circunferência irrisória que seu corpo abriga. E quando afinal chega a dúvida de qual raios de átomos se aglutinaram para transmutar num corpo tão sem energia, tão em dúvida de si mesmo até quanto à realidade intrigante da sua existência... eis que me pula ao ouvido um advérbio... Não verbo: de ação, que me impulsionaria ânimo de ao menos empreitar a idéia do fazer, ou estado, para a ilusão do ser. Sequer substantivo: concreto, pra apanhar certeza no ar, ou abstrato para crer na independência do ser... Talvez até mesmo uma interjeição, na sua insignificante substância fonética, tivesse-me instaurado um sopro de alento, mas não! Recai-me no ouvido a crueza do advérbio. Vamos ao fato: Não há lugar mais crítico a se meter em plena crise existencial do que um banco de rodoviária. Certo é que isso já me é amargo dia a dia a cuspir-me na cara a condição social a qual porcamente estou enlaçada. O cheiro da fumaça dos ônibus, aquele ronco, a torcida para que nenhum caduco ou porco sente-se ao seu lado, Aquele vai e vem de gente que lhe ignora e com quem você cruza quase todos os dias a ignorar que são gente também. A conversa enfadonha das velhas conhecidas, as insinuações das moças doidas a arriar a calcinha aos motoristas, assa55


nhadasGreve pela na roupa da empresa. artesocial - Augusto Hendricus Mofiosas Vossenar Neto frases largadas por algum bêbado, o cheiro de urina e desinfetante engasgando o ar, os mendigos que entregam cartões ‘sou mudo’, ‘sou surdo’, ‘sou cego’... e apertam os olhos numa cobrança, como se tivéssemos que lhes indenizar pelo fardo ao qual foram sorteados na roda da desgraça... As moedas de passagens a serem inteiradas... Bem, um arroto verbal e olfativo que lhe impregna a cara, mesmo se os olhos fechados. Soma-se a isso, a condição frágil que tenho para as coisas, num espírito inclinado a observar fixamente os episódios inúteis e as coisas que levam a lugar algum. Nessa manhã, no entanto, tamanha era minha inflexão que nem a isso me dava conta. Caiu-me no nariz foi um cheiro insuportável da falta debanho dessas pessoas que perambulam e suam e suam e suam, depois bebem e fumam e vem se prostrar justo ao seu lado, justamente numa hora de embate entre seu cansaço e descrença na vida. Isso me aconteceu. Algo. Duas mendigas e um garoto de quatro anos. Sujos, fétidos... e lá eu, covarde diante de mim mesma, tentando não abrir os olhos. A mala da mendiga era de rodinha... bolotas de trapos e alguns carrinhos enfiados às pressas. Uma das mulheres levanta, vai confirmar o horário do ônibus... nãoconsigo evitar olhar... maldita fraqueza minha, olho... medro... Ela passa e sua companheira (ao menos isso parece) fica sentada a meu lado com todo o cheiro ruim. 56


Acende um cigarro... sem sabonete, mas fumo do bom. A fumaça vem-me na cara. Sorrio. Tenho horror a dar impressão de incômodo... covardeio. Pergunto se sabem o horário e a empresa que vão pegar. A menina simpatiza comigo, pergunta-me idade, profissão, marido... rio. Ela dizme que é necessário casar. Tem um ano mais que eu: 24. Parece 40. Diz que o menino vai ter de tomar um banho. E ela, meu Deus? Penso. Não quero conversa, no entanto tenho medo de ofender ou zangar a interlocutora, minha covardia faz-me dulcíssima. Digo cansada e fecho os olhos. Abro. A mulher olha-me a cara... bocejo, fecho... o menino quer outro carrinho... espera a mãe chegar. A mãe é a outra. Peço a Deus que meu ônibus chegue. Quanto mais tenta puxar conversa, mais ela fede. Abandona-me. O menino enche porque o carrinho é dele e ninguém pode impedi-lo de pegar. Quando chegar em casa você abre... Casa? O garoto espreme os olhinhos espantados. E onde é que a gente mora? O garoto só não leva uma bofetada porque eu abri os olhos... Lá! Ora. Onde é o lá? Menino esperto. A mulher ri-me sem graça... Quando chegarmos lá você brinca e pronto, não amola. Meu ônibus chega trazendo todas as poeiras e vestígios do vômito de pobreza da minha própria periferia. Não dou tchau, levanto-me e vou. O lá me ecoa por todos os poros. Acho que esse advérbio de repente tragou-me alma e agora meus sonhos ficaram no mesmo endereço daquele menino. Os carrinhos dele viraram minhas vitó57


rias, e o lá engoliu-me toda numa interrogação intransponível acerca de como pode a vida ser tão incerta e o nada tão presente num gosto preciso de um lá que não chego. E desprendo um suspiro morno, desses bem tristes, por não saber nem mesmo se há dia pra chegar e perder-me desse não sei onde estou. É lá. Não amolar é a chave da casa, mais um banho quente pra tirar os restos da pobreza maior que a minha. Essa que me fez tão menor...

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Portal - Lucas Tavares Ferreira

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O poeta Isaac Soares de Souza

Não perturbes o poeta Em seu alçapão de cismas proféticas Deixes tranqüilo o poeta, Em meio aos destroços Dos calabouços e poços, Que circundam a terra escaldada Por suas mãos despedaçadas De lavrar a poesia! Sementeiras férteis Alfabeto dos inertes: Poemas, prosa e sonetos Ruas, campos, cidades e guetos, Todas as coisas ainda informes, São geradas nas folha de papel em branco que o poeta rabisca E de traços rabiscados vem à luz a vida, O sonho e o pesadelo e o impossível se torna real Enquanto os homens comem e bebem E matam e se matam pelo dinheiro Enquanto as águias dormem nos penedos O poeta acorda mais cedo Inadiável compromisso de escrever a vida! Respeita o poeta No momento de angústia procurado, imerso E as dores que ele abriga, Na cor de sangue dos seus versos! ! ! 60


Antropologia - Lucas Tavares Ferreira 61


Giuliana R. Cavasin)

A porta Aberta A espera Revela um p么r do sol no fim da tarde

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Contemplação - Laura Teixeira 63


Sem título

Ricardo Gessner

Resplandecem num abrir de riso Sem substância de um efeito Nas asas abertas de uma boca As marcas das essências escondidas De um mover de lábios a força exibe Um jeito no mostrar inibida A sinceridade de um gesto solto No cálculo construído sob encomenda

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Lรก vai - Eduardo Rompa 65


Linha Flávia Camila Gomes

Caneta na mão. Bato. Leve menear de linhas a costurar enredos secretos. Para a moça, era apenas um clic, clic sem fim esperando as horas monótonas de trabalho findarem. Não tinha amanhã que não fosse o previsível: nada a sonhar, a vida se interpunha como um jogo de cartas previamente declaradas e qualquer aposta se lhe parecia rota, engodo. Mas tecia. Era um eterno repuxar de linhas e agulha. Às vezes, desmanchava carreiras e voltava a tecer em outros formatos, ou meneava a cabeça em dúvidas sobre o acabamento. Outras, por desespero, linha e agulha eram jogadas de lado e, caneta e papel, ia buscar novos pontos. Copiava mil e uma receitas, com detalhes nas medidas e linha apropriada. Eram horas tristes de vê-la entre o trabalho inconcluso e folhas e folhas que jamais ganhariam corpo. Projetos de passarinhos, franjas, babados, toalhas... apenas solidão documentada. Disfarce do não encarar, mentiras de desviver até a hora em que o relógio de ponto lhe permitisse voltar a casa. Poucas peças eram realmente concluídas; a maioria desbotava e, já muda, perdia o sentidoser. Aí a mão apertara o fio e destecia tudo outra vez. Era amargo, até. Ela, que via a vida já obra completa das cruéis tecedeiras, passava as manhãs incômodas dando pontos e formas 66


sempre novas a linhas de cores fortes. Parecia inconcebível sua palidez e falta de energia, as mãos cliqueavam a linha, que ia poderosa, capaz de objetar seu devir, formar e transformar, desmanchar-se toda e recuperar sua unidade serena com trejeito de infância: linha apenas. Mas mais viva que as mãos nervosas metidas num corpo dado à fatalidade do envelhecimento antes dos trinta, da derrota prévia, do descanso imposto pelo medo de viver. Tinha por exigência o silêncio, daquele mais bruto que cala até as fagulhas da alma. Era desconfiada, sabia que murmúrios desembocam clareza. E esta dói e magoa os olhos. Insistia no entorno apenas o cliquear da linha, emaranhando formas sem complicação de palavra que desabrocha em pensamento. Poucos eram momentos em que se lhe via um sobressalto, como lampejo da consciência, pequena sombra de medo. Sobreaviso, como se alguma fagulha teimasse em insistir, denúncia de que a clareza a assaltaria algum dia, como num encontro inevitável, mesmo à moça de olhos fechados e linhas nas mãos... e nesse momento de susto o ponto saía errado, como se as mãos refletissem o cegar do olho, tanto era o descostume de momento em luz. Ela pensava amar, mas não gostava muito de sol. Não tinha as faces rosadas e a cor única exibida era a da linha consciente e capaz de mudança. Era a linha quem guardava em si o segredo-luz que à moça faltava. A linha sabia... e 67


Delineamento de Plumas - Saulo Nogueira Schwartzmann

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eram as mãos que a conduziam insólitas, desavisadas de seu maravilhoso poder de mudar o ponto, redescobrir, desmanchar, refazer... poder até de tecer estrelas ou feitiços inteiros de uma idade escura perdida no tempo. Tecer o mundo que sempre cresce, se reinventa e pode ser recontado em mil enredos nos quais não há destamanho para o crer e conquistar. As mãos desconheciam... ela achava amar, porém estava no escuro: não precisava abrir os olhos, futuro era estrada pronta, sofrível embora sem sustos. Ela ia no escuro para não se espantar, enquanto descansava o crochet silencioso no colo. As mãos cliqueavam possibilidades-mil, mas teciam também o engano delas pertencerem apenas à linha. A linha ia misteriosa, roubando o dom, força viva em mudança das mãos. A linha era quem sabia...

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Xi...vazou!

Eduardo Rompa

Se defenda pelo vazamento Não exite em procurá-lo A criação vem do acreditar em sempre achá-lo, Ou quando não: Criá-lo!

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Funil - Lucas Tavares Ferreira 71


Beleza horrenda

Ricardo Gessner

Beleza horrenda cheia de requinte Balsâmicos floreios da arte do disfarce Sofisticado trejeito de esconder O que o tempo constrói A maquiagem ressalta as marcas da idade E aponta cada lugar de uma ruga Resta no resto um sorriso rasgado Um gesto aflito escondido de um susto O espelho desmonta sob olhos tortuosos Um estado de choque contido E nítido aparece à frente um semblante Gasto e refeito em retoques

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Enxaqueca - Melissa Conde

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Bipolar Paulo Ramos

Eu gostaria de ser mais romântico e sofisticado, mas eu só consigo êxito me afastando deste formato. -- Eu só quero te comer, meu anjo. Eu costumo apanhar bastante na cama, mas infelizmente desta vez ela bateu mais forte do que estou habituado e, como ela era destra, ficou uma marca de anel, bem onde acaba minha pestana esquerda. Ela me bateu sem articular muitos músculos, manteve um braço apoiado na cintura, afastou o outro para baixo e para trás, meio que o jogando para trás, e, quando voltou para frente, ao seu embalo juntou a força de moça que malha ombros, bíceps, tríceps e ante-braço. Eu não sopitei, mesmo com aquela feição de ofendida que só fez me deixar com mais tesão – na verdade, eu quase emiti um som qualquer destes que se emitem quando se tem prazer. Eu não sabia que as mulheres daqui eram parecidas com aquelas da minha cidade fria do interior. Logo aqui, na capital federal na república do samba, da cachaça, dos balangandãs, etc. etc. etc. E não é. Mesmo com gente de todo lugar do Brasil, com todos os sotaques, reina um clima bucólico, muito verde e pouca gente circulando nas quadras. Por outro lado, o trânsito não é diferente de outras grandes cidades: poluição do ar e sonora, estresse, acidentes, obras, uma batidinha en74


gastalha o tráfego por uma hora, duas, três. Minha primeira experiência a procura de uma companhia para jogar a perna por cima quando dormir foi um prenúncio do que seriam as outras todas: hostil, destemperada, estranha, esquisita; mas cheguei lá. Afinal de contas, ainda que cada uma delas pareça contumaz e traiçoeira de um modo único, mulher é mulher e não tem jeito. É o Alfa e Ômega. Bucolismo nas áreas privadas – as quadras residenciais – e nas áreas públicas, de serviços, resplandece sujeira, drogas, assaltos, mercado clandestino, pilantragem, “noinhas” pedindo dinheiro para comprar comida ou pegar o ônibus, tumulto de gente de dia e prostituição e tráfico de drogas, durante a noite, tudinho separado por “setores”: dos travestis, das primas, dos gays, do crack, do pó. O poder público da NovaCap é tão apodrecido quanto um ricão qualquer dominado por coronéis. Andando pelos trechos cheios de gente eu não sabia se era eu que estava tão carente de mulheres ao ponto de atordoar-me com as moças passando para lá e para cá. Depois de umas noites acompanhado, deduzi que de fato estou num lugar privilegiado de beleza própria e em quantidade. E vendo tudo isso, todas essas mulheres, sinto um vazio em mim, uma sensação de impotência que parece me deprimir rapidamente, pode ser a ansiedade... Eu gostaria de ter assunto para tratar com elas, tocar-lhes a cintura com intimidade, roças as pontas dos meus dedos na nuca. É 75


Modernidade - Lucas Tavares Ferreira

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um vazio do tipo que dá quando a gente chega aos momentos finais de uma relação, causado – o momento final – por um desespero diante de nossa incapacidade de fazer o que temos vontade sem magoar ninguém. Às vezes fico até tarde por perto do meu trabalho – aliás, não sei porque aceitei o convite de vir pra cá. Mas é sempre frustrante para quem gosta de um boteco como eu. Não se trata de boteco de homem, e sim de mulheres. boteco de homem só tem homem e boteco de mulher tem as duas coisas, exceto boteco de mulher lésbicas, onde os homens não são queridos. Momentos homossociais para homens podem ser em qualquer lugar: na sauna, em casa ou na rua; para as mulheres as relações homossociais dão-se apenas em locais privados. Note, excetuando as mulheres homossexuais. É frustrante ficar até tarde porque tudo fecha cedo. E então eu saio tentando conhecer melhor o lugar. Um dia, fazendo isso com Cleu, uma ex, ela chamou minha atenção para a quantidade de “exus”que perambulam por aqueles trechos. Não acredito em nada do que se refira a mundo de espíritos, entidades, natureza animada, bicho que fala, árvore que tem vontade, mas resolvi dar-lhe razão. Então depreendi daquela afirmação – Preto, você viu como tem Exus por aqui? – algumas coisas. Pedi que ela me explicasse melhor e dei asas a minha imaginação. Conversávamos muito, Cleu e eu. Mas sempre que ela me enchia, rapidamente eu abraçava com minhas mãos amplas o seu quadril, ela batia 77


em mim com a mão e eu, nela com meu membro. Eu a amei tanto. Fez um pungente céu azul em Brasília durante os dois meses em que ela me acompanhou. Gostaria de ter sido mais gentil, pois ela me tirou de uma fossa, a mais profunda de meus ciclos bipolares. Brasília é estranha. Foi porque sonhou um padre e uns místicos, e porque um cidadão teimoso interpelou o então candidato Juscelino durante a campanha eleitoral, a que Capital Federal veio para o Planalto Central. Sob as linhas ternas e elegantes dum sujeito como Niemeyer, que na sua simplicidade apaixonante fez uma cruz – ainda que o relevo a tenha feito virar um avião por arquear a linha norte-sul. Coisa linda. Não sei se ele contava com isso, mas por este avião, avião não, por esta cruz passa gente demais. Todos os dias, políticos, assessores, lobistas, estudantes, funcionários públicos, contratados que vão e vem em dias irregulares. É este vai e vem de gente que salva meus culhões. Sempre tem alguma amiga conhecida em evento para hospedar e poder dar o meu melhor a ela, qual seja, o meu momento de felicidade plena que é estar com uma mulher. Mas eu tenho meus momentos de tristeza, na verdade é um ciclo que vai da alegria para a tristeza de meses em meses: apaixono- me, fico tão feliz que quero mais gente para compartilhar e espalhar minha felicidade. Depois vejo que a poligamia não será tolerada por quem amo e cesso minha partilha. Na sequência, me dedico integralmente ao meu bem. Depois a 78


tristeza, o vazio, a sensação de estar preso e limitado me tomam e me convenço de que há tantas mulheres por aí quanto eu possa amar. Assim também se sente um amigo que contrariou a teses de Cleu. Ele diz que não são Exus que ela vê, mas sim, Eguns. Pessoas que morreram de alguma forma ignóbil. “Os trabalhadores da construção de Brasília”, ele me disse. Enquanto o Presidente acelerava a construção da cidade, vinha gente para cá. E na velocidade de 50 anos em cinco, morria tanta gente que não dava tempo nem de recolher os corpos obsoletos e o concreto arbitrário os sepultava nos prédios do patrimônio cultural da humanidade. Mas ainda faço coro em parte com Cleu, em parte com meu parceiro. Ele tem razão de que ela vê os eguns e ela tem razão de que em Brasília Exus pululam. Gostaria de debater esta tese com eles. Mas com ela, tamanha a mágoa que prevalece entre nós, eu não posso mais conversar. Cheguei e disse a ele: Aqui tem exus sim, como aquelas folhas na árvore. Como poderia uma cidade que é uma encruzilhada não ter Exus? Ele me perguntou quem são os exus. Se eu argumentasse com ela, iria olhar-me encantada, crendo eu ser o cara mais inteligente do mundo. Puta saudade de Cléu. Mas eu também tenho saudade dos amigos, os poucos que tenho. E as conversas com amigos são livres, sem muita encheção de saco. E a saudade é uma constante em minha vida, seja nos momentos de extrema 79


alegria ou de profunda tristeza, uma nostalgia pura é perene em mim. Nesta cidade onde impera a solidão e os desagrados urbanos, não me resta nada a não ser procurar uma mulher, para falar da minha nostalgia, dos meus amigos e das teorias reles. Entre um silêncio e outro compartilhar nossos suores, salivas e outras substâncias na febre de nossos desejos. Dando estrutura à teoria, as coisas ficam assim. As duas torres do Congresso Nacional são duas velas, numa das entradas da encruzilhada, a entrada leste, a entrada do sol; o côncavo do Senado é um jerimum; o convexo da Câmara é um prato de najé para as demais oferendas. Da sensação de impotência passo à amargura que leva à inevitável separação, pois ninguém me merece, triste, descontente e amargo. No momento mais macambúzio eu sou uma flecha envenenada. Mas elas nunca entendem e eu nunca vou explicar. Se eu tentar explicar cuidadosamente, dirão que tergiverso para eclipsar uma traição; se for direto e disser: quero ter mais mulheres, quero comer todas as mulheres do mundo, sentir-se-ão satisfeitas, mas dirão que sou igual a

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todos – o que estragará nossa história de amor –, ou irão imaginar-se a mulher mais feia do mundo, pois não me satisfazem. Todas as interpretações equivocadas. Então não digo nada. E sigo sozinho meu período de amargura, melancolia e sensação de pequenez. E como tem lobista em Brasília! Querem tornar o Lobbie uma atividade legal no Brasil. Os lobistas são aqueles que vão fazer pressão junto aos parlamentares e ministros em nome dos interesses de setores específicos. Lobbie vem do lobby quer pode ser em português corredor, sala de espera, passagem. São conhecidos profissional e tecnicamente por grupo de pressão em defesa de certos interesses. Estes sujeitos faziam a maior parte de suas negociações nos corredores do Congresso Americano, entre uma porta e outra. Para me livrar da sina descente, eu preciso me apaixonar, encontrar uma novidade boa, uma surpresa encantada. Mas o primeiro passo é parar de todo dia beber como um alcoolista. Depois tenho de ler um livro que me faça novo. Com uma autora ou personagens mulheres para idealizar nela a da minha vida, um ideal para mim. Aí então eu saio para a rua, encontro uma porção delas, mas só consigo gerenciar de duas a quatro, sendo uma fixa. Pronto, está feita uma revoada de pássaros dos meus dias, combinando chuva 81


calma com sol forte, noites frescas, dias ensolarados, brisas leves e úmidas. Até entrar novamente na cisão com a poligamia, o bem querer exclusivo, depois o fim das liberdades, e a chegada da fase das mágoas. Exu é orixá que leva as demandas dos homens seculares para os orixás, homens e mulheres divinais, mediante a garantia das oferendas, o ebó, os trabalhos feitos por nós. Tal qual as duas velas, o jerimum e o prato de najé, feito por Niemeyer. Por isso ele vive tantos anos e com tamanha lucidez. Noto que estou conseguindo sair da fase down. Em três dias li três livros da mesma autora, uma norueguesa. E sonhei com ela. Fazíamos sexo em Belgrado, ao lado da multidão enfurecida contra Milosevic; depois estávamos em Bagdá, onde ela, de saia, sentada em mim, atiçava mais às mulheres de burca do que os bigodudos; depois em Cabul, enquanto ribombavam sons bélicos, ela me confessou que gosta do cheiro de minhas virilhas. Mas cabe um pequeno óbice: apesar de já ter uma musa, não me sinto bem assim. Eu gosto de sentir as coisas, as pessoas, o mundo, gosto de estar inserido e não alheio. Este sonho é efeito desta cidade blasé, onde está o Poder Político de meu país, mas ninguém parece viver isso. Eu mesmo nunca fui tão desinformado quanto agora. Dificilmente acharei nesta cidade uma galega com a cara da escritora, que é a minha musa. Se estivesse em minha cidade, que é cheia de universitárias, seria mais fácil! Mas não posso desanimar. 82


Quem serão os exus senão os lobistas que levam os pedidos seculares e mundanos para os supremos deuses para trocar dádivas? Lobistas, estes profissionais perambulantes, tão escusos no Brasil, relegados a ganhar seu polpudo dinheiro à margem da lei e nos bigodes dos legisladores. Brasília, a maior encruzilhada com o maior ebó do Brasil. Do Brasil não, pois meu país é cidadão internacional, maior ebó do mundo. Depois de tempos procurando, não achei uma galega com a fuça de Asne. Achei uma dúzia delas. Bastou gastar mais dinheiro e pagar o triplo do que pagava para me divertir, com roupas mais caras etc. Mudei a arena mas não mudei de tática. Simples e direto; olho no olho; papo reto. Às vezes um mordidinha na orelha de leve quando o barulho do ambiente atrapalha minhas palavras. Nem levei tapa na cara antes de ir pra cama. Mudei meu circuito social, aliás, agora tenho um e estou assim: uma fixa e duas que de vez em quando me visitam quando a minha saudade não se contém e eu ligo. Elas são amigas, ambas sabem que Ana é

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tudo para mim, e uma não sabe da outra; desconfiam apenas que há flertes. O nosso relacionamento é apimentado por esta constante ameaça e por este fogo amigo. Não há maiores perigos de haver revelações indesejadas, pois ninguém se encontra aqui se não houver uma combinação. Agora na quadra em que moro vigora a alegria de uma cascata com peixes coloridos e plantas que exalam perfumes raros, e quando recebo as visitas, estouram fogos chineses abrindo uma batucada de escola de samba.

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3 x 4 = sinceridade

Ricardo Gessner

Foto três por quatro É o ponto fraco De todo retrato Por mais que disfarce Não há quem escape da verdade Captada pela máquina De que servem maquiagem Plástica regime atividade Se a feiúra é latente E aparece com ternura Na sinceridade dessas lentes

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Sem tĂ­tulo 1 - Washington Pastore Amaro 66 86


Sem tĂ­tulo 2 - Washington Pastore Amaro 87 67


Blues Equino

Marcelo Vargas

Uma potranca ruiva, mui arisca e bela, atraiu-me profundamente, com sua farta crina dourada; Fazendo-me crer que a domara, perdidamente deixou-me afeiçoado por ela, Só p’ra depois, num rompante derrubar-me do alto da sela.

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Central Park - Melissa Conde

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Meio - Eduardo Rompa

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Bêbado

Ricardo Gessner

Bêbado apoiado na beira da porta Balbucia pensamentos baba palavras E observa a paisagem balouçante a sua frente Pêgo no soluço de um instante Ao longe indefine um semblante – O que é aquilo que vem do distante? O jeito das passadas desconheço Se bem vejo ainda trêmulo Vem em movimentos mareados Um jeito de dança sapateado estranho Que volta e avança e ainda me cansa Quando só me tanto faz pensar Aquilo que vinha mais parece que vai – Será que me afasto a figura se aproxima Ou tudo isso e vice versa? Desisto, não sei o que é No fundo tudo me confunde E de tanto ver me faz pensar Aquilo caminha tranquilo Ao longe segue cada vez mais desperto E algo assim – o que adianta?

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O peixe

Giuliana R. Cavasin

Livre! Afogueado! Nada pela Imensidão de Verdes e azuis Vem à superfície Vai às beiradas Vai às profundezas Suave Serpentina Descendo a Correnteza Sem saber ao certo o que esperar. O rio Se turva Em suaves Curvas De Repente Sublimes Círculos Causados por Pingos, respingos Respiros Curva-se diante Das sombras Trazido à claridade Por três anzóis. 92


Cidade do Clima - Laura Teixeira

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Das duas uma - Saulo Nogueira Schwartzmann

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Going abstract - Melissa Conde

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b i o grafi as

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Abel José da Silva nasceu em Jahu, no estado de

São Paulo em outubro de 1983. Aos 16 anos começa a tocar guitarra em uma banda de blues rock, sob o pseudônimo de Abel Vaughan e a escrever poemas. Aos 26 anos casa-se e muda-se para São Carlos. A primeira mostra de seu trabalho como poeta é com a obra “Padece” no XVIII Encontro de Poetas de São Carlos que aconteceu no ano de 2010.

Augusto Hendricus Vossenaar nasceu em na

cidade de Araraquara e vive desde os primeiros anos em São Carlos. Apropriou-se de aptidões artísticas e quis iniciar o seu percurso por terrenos incertos. Assim, após iniciado um curso de pintura e desenho no ateliê Bellintani & Calligaris participou de exposições nos anos que se estenderam entre 2002 e 2004. Após uma pausa para reestruturar suas intenções, passa a desenvolver outros trabalhos em meio a fotografias, desenhos e poesias. Em 2009 volta ao curso de desenho com Marcos Calligaris e a expor trabalhos junto aos alunos do ateliê e no Instituto Cultural Janela Aberta. Em 2010 ingressa no ensino superior em Artes na UNESP e segue seus rumos artísticos. 98


Carla Regina Silva, sempre de bem com a vida e

em busca da transformação do mundo. Interessada pela Arte, na crença de que esta pode ser uma ferramenta para operar estas mudanças. Formou-se terapeuta ocupacional, o que a ensinou a olhar para além da ferramenta artística e compreender a Arte presente em cada pessoa, nem sempre despertada. Acredita que mudanças individuais são potencias para grandes transformações.

Eduardo Dutra Rompa é educador e artista de

várias modalidades. Formado em Artes Visuais pela UNESP e pós-graduado na mesma área temática pelo SENAC- Rio de Janeiro. Atualmente trabalha como educador no SESI – São Carlos. Desenvolve trabalhos musicais desde 2005 com a banda Open Blues S/A. Além da música, também atuou com: manipulação e dublagem de boneco; música e sonoplastia – Grupo de Teatro Descalço da ONG Ramudá; ilustração no livro “Bar-utopia”, de Cristian Cobra; intervenção no espetáculo “O traço”; além de apresentações circenses com o grupo Fratelli e exposições fotográficas.

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Eliezer Soares nasceu em Ibitinga, em 1959,

mas é são-carlense de coração e alma. Escreve poemas e pensamentos desde a mais tenra idade, já dedicou versos a Capital do Clima. Não gosta muito de mostrar seus escritos por pura descrença na atualidade nefanda a que relegaram à cultura e a literatura nos tempos modernos, principalmente a poesia.

Flávia Camila Gomes nasceu em Jahu, no estado

de São Paulo, em janeiro de 1984. Forma-se em Letras em 2006 e durante a graduação participa de grupos de estudos literários. Aprofunda-se na literatura do final do século XIX e início do século XX. Ministrou aulas de literatura entre 2007 e 2009 e continua seu trabalho como professora, na rede de ensino básico do município de São Carlos. A primeira mostra de seu trabalho como poeta é no XVIII Encontro de Poetas de São Carlos que aconteceu no ano de 2010; participou também da ACIEPE promovida pela UFSCAR de produção textual. Aos 26 anos casa-se com um aspirante a poeta. Reside atualmente em São Carlos.


Giuliana R. Cavasin é professora e pesquisadora

formada em Letras. Frequenta ativamente os saraus Cabaré-Verde, promovidos pelo Instituto Cultural Janela Aberta em São Carlos. Possui textos publicados esparsamente, assim como já participou de alguns concursos literários como Cora Coralina (2009) e Coletânea da CBJE (2006). Dedica-se também a outras áreas artísticas, tendo realizado três exposições de desenhos e pinturas, além de atuar em peças teatrais.

Isaac Soares de Souza nasceu na cidade em

Pompéia. Atualmente vive em São Carlos-SP. Publicou em 2010 o livro Raul Seixas, O Verbalóide reunindo alguns aspectos da vida da vida do músico, qual foi seu amigo pessoal. No ano anterior havia publicado Zé Ramalho: O Profeta do Terceiro Milênio. Além da escrita, Isaac possui parcerias com diversos artistas do universo musical, como Flávio Guimarães (Blues Etílicos), Jefferson Gonçalves (Baseado em Blues), J. J. Jackson e uma parceria que considera eterna com Douglas “Dodi” da banda Hangar XVIII.


Laura Teixeira nasceu em São Carlos. Completou

sua graduação em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos. Sempre mostrou interesse pelas artes e quando criança cursou dança e música. Mas foi durante a graduação que confirmou seu interesse profissional na área de arte e cultura. Infiltrandose em vários campos, e trabalha com cinema, vídeo, teatro, rádio e design gráfico.

Lucas Tavares Ferreira é formado em Imagem e

Som pela UFSCar, onde também realizou seu mestrado na área de Ciências Sociais. Atua em diferentes áreas. Em artes visuais realizou diversos trabalhos, dentre eles: produção e trilha sonora no vídeo premiado “No Meio do Caminho”, terceiro colocado no mapa cultural paulista edição 2000/2001; e dentro também diversos na área audiovisual, merece destaque a oficina qual foi autor Megafone: a voz dos bairros ecoando nas ondas do rádio, realizada em parceria com a rádio UFSCar e a prefeitura de São Carlos.


Marcelo Vargas nasceu em Belo Horizonte. É

professor de Ciências Sociais na Universidade Federal de São Carlos, com doutorado em Urbanismo na Universidade de Paris XII. Lançou seu primeiro livro de poemas, Árvores e Antenas (1984), em Brasília, onde conviveu com diversos poetas da Geração Mimeográfo. Publicou também Toda incompleta: obra poética (2007). Além disso, tem participado com poemas avulsos em revistas e jornais, bem como saraus poético-musicais em Brasília, São Paulo e São Carlos.

Marco Antonio Leite Brandão formado pela

EESC-USP, publica regularmente na imprensa da cidade textos sobre história de São Carlos. Participou do projeto Contos premiados – São Carlos 150 anos, Edufscar, 2008, crônica São Carlos 150 nos de histórias e estórias. Além deste, de outros dois projetos audiovisuais nos quais atuou como pesquisador. São eles Genésio Arruda Um caipira da Vila Nery e o Cinema Brasileiro, Névio Dias, ICACESP, 2010 e O bonde dá saudade, vídeo produzido pela ONG-Ramudá, vencedor Festival de Vídeo de São Carlos em 2004.


Maria Julia Andrade Carvalho nasceu na cidade

de Ribeirão Preto, no estado de São Paulo. Participou de diversas realizações artísticas vinculadas ao teatro e fotografia em sua cidade natal. Reside na cidade de São Carlos desde 2009, onde estuda Imagem e Som na Universidade Federal, UFSCar. Sua maior experiência é na área de realizações audiovisuais. Participa como fotógrafa da Coordenadoria de Comunicação Social da UFSCar.

Melissa Conde é artista plástica, nascida em São

Carlos, formada pelo I.A. UNESP, com especializações em Barcelona (história em quadrinhos) e Chicago Art Institute (ilustração, historia da arte moderna, video-art). Foi professora de arte voluntária e assalariada, para juvenis e adultos, jurada de concurso, assistente de produção de festival, produtora de eventos e exposições. Expôs suas obras em São Carlos, São Paulo, Porto Seguro, Chicago, Barcelona, entre outros. Mantém seu espaço de produção artística no Instituto Cultural Janela Aberta, de onde irradia seu trabalho para o mundo.


Paulo Ramos viveu até os 19 anos em Itajobi, no

estado de São Paulo, mas sua vida profissional desenvolveu-se em São Carlos, onde estudou Ciências Sociais na Universidade Federal, UFSCar. Formou-se cientista social, militou politicamente, trabalhou como professor de cursos comunitários pré-vestibular e em colégios particulares. Trabalhou como gestor público municipal, sem abandonar a militância. Atualmente divide-se entre São Carlos e Brasília, prestando consultoria, e prepara-se para voltar definitivamente para a região central do estado de São Paulo, onde aprendeu tudo o que sabe.

Ricardo Gessner já publicou poemas no Jornal

Janela Aberta, assim como na revista eletrônica Linguasagem, entre outros esparsos. Participou de vários saraus Cabaré-Verde, promovidos pelo Instituto Cultural Janela Aberta. Desenvolve pesquisas e estudos relacionados à Literatura Brasileira e Comparada, publicou esparsas poesias e textos sobre literatura.


Saulo Nogueira Schwartzmann nasceu em São

Paulo. Cursou Artes pela UNESP em Bauru e após formar-se passou a morar em São Carlos, onde trabalhou como professor e atuou em outros diversos projetos de pintura, escultura, desenho, perfomance, etc. Saulo participou da instalação Rizomatoze: por uma poética do rizoma enquanto processo criativo nômade Bauru, 2006, de exposições, sendo algumas delas: 3ª. Bienal de Arte, Ciência e Cultura – UEE/SP: Campos do Jordão, 2006; II Mostra de Arte Contemporânea do Campus da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara, 2003; e I Mostra de Arte Contemporânea do Campus da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP de Araraquara, 2002.

Washington Pastore Amaro, natural de São

Paulo, mora em São Carlos desde a infância onde demonstrou grande interesse pelo desenho, sendo apresentado realmente às artes no ateliê da artista plástica Mara Toledo onde iniciou seus estudos de desenho, tinta a óleo, grafite, carvão e acrílica, somados à História da arte. Como aluno, participou de algumas exposições coletivas do ateliê: Estação Cultura, Oficina Cultural Sergio Buarque de Holanda, Clube Ítalo Brasileiro, Biblioteca da UFSCAR, Banco Santander Banespa; e projeto Comemorando o Sesquicentenário Sancarlense - São Carlos, à Flor da Pele, que resultou no livro com o mesmo titulo; e três mostras individuais. Reúne ainda um conjunto de 27 obras (2005-2006) em acervo particular do Iate Clube São Carlos.


Este projeto foi realizado com o apoio do Programa de

Apoio à Cultura em Interface com a Extensão Universitária do Estado de São Paulo (ProExt Cultura SP) que apoia projetos culturais de extensão universitária

voltados à inclusão social e à implementação de políticas públicas culturais.


Impressões: marcas artísticas em São Carlos O projeto impressões consistiu em organizar uma publicação de conteúdos artísticos e eventos para sua divulgação. Esta publicação teve um escopo abrangente que inclui textos literários, fotografias e ilustrações. O processo de seleção, organização e formatação foi realizado por bolsistas, com intuito de envolver a comunidade universitária com a comunidade consumidora e produtora de arte do município. Buscamos assim, sem grandes pretensões, fazer um panorama que inclui marcas artísticas relevantes da cidade, no intuito de preservar nossa memória cultural e ao mesmo tempo gerar visibilidade para nossos artistas.

realização

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impressoes: marcas artisticas em sao carlos  

Coletanea de textos e imagens artsticas viabilizado pelo PROExt Cultura

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