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Os alunos das turmas B e C do nono ano de Oficina de Teatro apresentam um trabalho baseado em texto original da autoria do professor de Oficina de Teatro e que foi alvo de análise e debate nas aulas e nos ensaios

Uma cidade que é um Mundo A cidade é como o Mundo Entidade caótica que engole e esvazia as almas Os seus habitantes procuram compreender o pulsar da cidade Procuram descobrir nesse pulsar a razão de ser dos seus destinos

A CIDADE 2


HOMEM ANÓNIMO: Abri a porta Na avenida o caos habitual Os animais metálicos tentam chegar aos destinos mas não avançam mais que uma mera dezena de metros de cada vez O calor associa-se ao cheiro urbano do tráfego diário Preciso do café da manhã e de passar os olhos por um pedaço de notícia As pessoas nos passeios são um formigueiro humano que avança como os animais metálicos Em rituais ensaiados sobem pela direita descem pela esquerda numa interiorizada cópia do sistema rodoviário Derretem-se no asfalto e na calçada Esta parece ser a ordem de todas as coisas na cidade A ordem desordenada da lei do mais forte a ordem do distraído que segue alheio à rotina a ordem dos animais perdidos na beira dos passeios a ordem dos semáforos e dos sinais sonoros que querem orientar A ordem dos animais metálicos depositados aleatoriamente nos passeios entre espaços impossíveis A ordem da ousada condutora apressada de filhos empurrados de filhos carregados com quilos de mochilas

Cesário 9ºB

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A ADVOGADA: A ordem dos relógios a ordem da discussão familiar no banco da frente a ordem da fome que se mata com a palhinha introduzida no pacote de leite acastanhado adocicado e amigo no banco de trás A ordem dos pássaros metálicos gigantes que guincham os últimos segredos nos últimos segundos da viagem ao passar por cima da avenida Não sei como aqui se dorme e se acorda como se descansa A ordem dos mendigos e dos loucos que como mendigos pedem a quem passa dois ou três segundos de atenção A ordem desordenada dos esperançosos estudantes com brilho nos rostos que suspiram horas perdidas nas desalinhadas filas dos transportes A ordem das estações debaixo do solo as mesmas que os esperam no final da viagem A ordem de tudo aquilo que se constrói cada dia desde que se acorda desde que o vento bate nas cortinas das janelas mal fechadas A ordem gasta das fachadas dos velhos edifícios da avenida dos cafés que lhe conhecem os vícios e de todos os viciados

Madalena 9ºB

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O IDOSO: Quando a cidade escurecer não estarei aqui Porque será que tudo está petrificado e eu sozinho no meio de toda esta gente no meio da cidade estátua no meio dos que ficaram dentro das viaturas É uma solidão sem paralelo e a sensação é insustentável As pessoas anónimas que fazem parte da vida da cidade assustam nesta inércia forçada O peito ficou obstruído Um forte aperto no peito impede o ar de circular Grito e não sai nenhum som nenhum sinal Perdi de vez a ligação com a cidade que também não fala e não se mexe Tentou acabar com a minha irritação e com a minha mágoa assustando-me Estou sozinho no meu destes milhões numa solidão claustrofóbica doentia e sufocante Uma solidão igual à que sofre a cidade

Gonçalo 9ºC

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O SEM-ABRIGO: Deixou de fazer sentido continuar o passeio Tenho como companhia esta voz com rosto de menino numa cara suja de olhos brilhantes vivos inteligentes com um sorriso inocente doce e cativante É ele que me descreve as avenidas paradas preenchidas por centenas de milhares de viaturas imobilizadas onde parou tudo o que vive O vento está petrificado como a brisa e os ruídos Só eu permaneço igual na cidade estátua Um silêncio gigantesco tomou conta da paisagem e enche-me de vontade de gritar Mas que grande merda esta Quem se lembrou de virar a cidade contra mim Foste tu ó cidade maldita que não gostaste do que disse de ti É assim que procedes com quem te critica Vai para o raio que te parta espécie de inferno habitado Tu não me derrotarás Estou meio louco

Manuel Santos 9ºC

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O DESEMPREGADO: A loucura espreitava de qualquer forma por detrás de cada esquina por onde eu passava por isso podes ir para o raio que te parta Quem serias tu se nós homens não te criássemos Quem serias tu sem os homens que te reconstroem sem os que fazem de ti tudo aquilo que tu és Vingas-te em mim apenas em mim Porquê Continuas muda apesar de gritares de descontentamento através desta fossilização generalizada que acabaste de produzir Deixa-me em paz cidade funesta deixa-me em paz com a minha solidão Volta àquilo que é normal e faz com que todos regressem aos movimentos e vivam e se deixem angustiar nas filas intermináveis e no caos das tuas entranhas Volta ao que é normal e deixa que todos regressem às rotinas diárias com que te refrescas Deixa-os viver ou morrer ou lá o que fazem dia após dia após dia Oferece de novo movimento a quem o retiraste

José Janela 9ºC

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O ARQUITETO: Volta a girar o mecanismo volta a dar corda ao sistema para que possas voltar a consumir a vida de todos num instante Fomos nós homens que te criámos como uma prisão e tu não aprecias aquilo em que te transformaste Serás ainda pior com o passar dos anos Ficarás mais caótica mais inútil e dantesca Serás um gigantesco animal anónimo Vai mas é para o raio que te parta A cidade parou e todos pararam de dançar a coreografia da cidade O peso é tremendo e o vazio silencioso sufoca Não tenho forças para correr mas é isso que me apetece fazer Correr para bem longe deste museu artificial onde me movimento Só isso me ocupa o espírito A cidade organizou este pesadelo para meu tormento Avanço na direção dos prédios que se encontram para lá do parque central da avenida Sigo até essas torres circulares que ocupam metade da rotunda As árvores na avenida parecem surpreendidas por não as cumprimentar como é meu costume

José Pedro 9ºC

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A HISTORIADORA: Hoje a cidade vinga-se da minha amargura Resolveu empurrar-me definitivamente para o lado mais escuro do abismo A cidade é antiga A história da cidade tem séculos cada um com milhares de histórias que a transformaram Nada na cidade é simples ou harmonioso Tudo se transformou para que a cidade crescesse desmesurada crescesse do mar e do rio que assim a moldaram gigantesca e cosmopolita Recebeu milhões ao longo destes séculos Cresceu com os seus sistemas de navegação com os sistemas rodoviários e ferroviários Cresceu com ideias tensões surpresas rotina utopia revoluções liberdade e luz A imprensa da cidade sempre foi mais enérgica do que os seus silêncios principalmente na primeira metade do século dezanove

Maria Condinho 9ºB

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O ARDINA: A cidade cresceu com os ardinas que vendiam jornais carregados com histórias de sexo crime assassinatos e todos os demais vícios A imprensa vibrava com as histórias violentas da cidade Poligamias incêndios acidentes e incidentes e a avenida central vigilante como espinha dorsal da imensa urbe Gigantescos contrastes entre ricos e pobres entre quem é culto e quem não possuí formação entre etnias entre todas as caóticas transmutações que o tempo lhe acicatou O coração da cidade cresceu nesta diversidade e assim se moldou A cidade grotesca que ama o grotesco que ainda hoje ama tudo aquilo que é grotesco Os escritores da cidade faziam crescer a sua reputação monstruosa nos primeiros jornais obedecendo aos gostos da época Estas imagens são transmitidas por uma voz de mulher africana com rosto redondo olhos negros e cabelo curto A maior das misérias estava para chegar A cidade recebia caixões abertos em náuticos paquetes que eram o produto acabado da desumana travessia que os derrotava A miséria é dona da cidade e cresce por toda a parte fazendo crescer a cidade.

Raquel 9ºC

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A ESCRITORA: Crime sujidade poluição medo e miséria a par de uma falta de esperança do tamanho do mundo caracterizaram os sonhos da cidade no início da primeira metade do século dezanove Avanço pelos habitantes congelados dessa cidade antiga que me surge como um pesadelo É um inferno a céu aberto com milhares de habitantes perdidos e a ordem violenta e sanguinária dos seus gangues A cidade museu transformou os habitantes mas não me transformou Avanço na tentativa de encontrar explicação para tudo o que me acontece Esta é a voz de um homem calvo com barba curta e cuidada de olhos castanho mel Quem sou e o que significo para a cidade Falo sobre a cidade como se a tivesse escrito apenas ontem O poeta é o reunificador O poeta é o único capaz de sentir a cidade O poeta é o único capaz de dar a conhecer o coração da cidade Esta é a voz com rosto de Walt Whitman que viajou do passado e me fala da sua cidade calcorreando-a e inventariando-a Fala-me de todas as pessoas e dos sonhos que lhes foram apagados O poeta da cidade conhece a cidade e viu luz neste alienado e caótico caldo citadino A minha cidade não é a de Whitman mas todas as cidades são as de Whitman Foi ele que transformou os habitantes petrificados da minha cidade nos habitantes petrificados da sua Nova Iorque

Inês 9ºC

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A URBANISTA: A voz do poeta é única como a cultura do desejo é única como toda a fantasia e curiosidade e a selvagem e pura busca da verdade são únicas A cidade sexual a cidade do prazer libertador em contraponto com o poder castrador do cimento do tijolo da argamassa do edifício da estrada da avenida Quem vê assim amantes no mais improvável dos elementos da cidade é o maior dos amantes da cidade Quem ama a cidade miserável deprimente e injusta é um amante da esperança e do coração dos homens Esta é a cidade que cresce cinzenta e desgovernada A população vive empacotada nos mais repugnantes espaços e sobrevive na pior das condições Esta é a cidade que cresce anónima desigual e sem tempo A cidade tem de se reinventar tem de deixar de sangrar internamente para que os seus habitantes deixem de sangrar internamente E a cidade reinventa-se em quadros de verde e de esperança através do maior de todos os parques A cidade bebe essa esperança e tenta calar os ruídos nesta sua reinvenção Mas o parque não é sinal de libertação pois foi pensado para quem se sabe comportar

Catarina 9ºC

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O SOLDADO: A cidade é engolida pela história e a história da cidade transformou-se por todos aqueles que a reinventaram A cidade não para a cidade nunca para como a noite termina para o dia nascer As pessoas petrificadas da minha cidade regressaram Walt Whitman diz-me que a linguagem dos antigos habitantes da cidade é a mesma dos de agora O campo que alimenta a cidade enlouquece o mundo enlouquece e o poeta serve a cidade e o campo nessa loucura A loucura fez crescer a cidade louca que louca cresceu e se enegreceu O mundo a cidade e o campo enlouqueceram Os loucos queimam-na e destroem-na Edifícios pilhados esperanças destroçadas vidas desfeitas a vingarem-se da cidade e das suas entranhas Os que atacam estão desesperados e com ódio no olhar atacam o coração da cidade que agora está queimada negra e anárquica O réptil venenoso que habita na cabeça de cada habitante da cidade alimentou-se do veneno da cidade O vermelho toma conta do coração negro da cidade A cidade está em guerra a cidade é o próprio inferno que aqui se edificou

Carolina 9ºC

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A ENGENHEIRA: Pais e filhos primos e irmãos lutam uns contra outros nas praças nas avenidas nas ruas e nas esquinas esventradas da cidade do poeta que não sabe o que dizer O poeta não consegue explicar a cidade doente que não é justa porque nunca o foi e nunca o será Como sobrevive a cidade a este inferno que arde no centro do seu coração A cidade pobre e rica é violenta Todos os habitantes falam pela cidade O poeta duvida da cidade mais uma vez São negras as nuvens que pintam como serpentes o céu da cidade Esta é a cidade dos desesperos de todas as misérias da mais profunda e gritante de todas as misérias A cidade renascerá como nunca A cidade reinventa-se máquina reinventa-se cidade futurista e fumegante A cidade reinventa-se gananciosa diabólica corrupta cruel desgovernada O monstro sem ética nem moral renasce cinzento poderoso e explosivo A cidade cresce imensa para lá das margens dos rios cresce para norte para este para sul e para oeste Para todo o lado a cidade cresce e cresce para lugares onde ainda não era cidade

Bárbara 9ºC

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A SOCIÓLOGA: A cidade cresceu para lá do rio e foi ligada à sua outra parte em crescimento A cidade da ponte que nasce gigantesca e maior do que todas as pontes que após esta nascerão A cidade fraqueja é tão desgraçadamente suja que não sei como consigo caminhar A ponte enche o céu por cima de quem habita a cidade A ponte pertence à cidade e a cidade à ponte A cidade cosmopolita dança finalmente no parque verde fora dos esgotos lamacentos dos guetos escuros e mal cheirosos A cidade dança com medo vive no medo e vive nervosa Esta é a voz de um homem idoso com cabelo branco curto bigode aristocrático olhos vivos inteligentes nariz imenso redondo e vermelho Como os escuto Como ouço não sossego Escuto sempre e sempre e já não consigo imaginar esta cidade sem vozes As vozes falam-me tanto sobre a cidade que só podem pertencer à cidade Algumas dessas vozes são só minhas A história da cidade passa a ser a história da ponte e do rio que dividia as duas partes da cidade Esse é um rio que já não divide A cidade embelezou-se pois a ponte que une a cidade é bela e forte e cresceu vigorosa através do trabalho de quem a montou

Alina Salata 9ºC

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A FOTÓGRAFA: A cidade e a ponte são uma só esperança Ricos e poderosos fazem crescer este paraíso urbano e fazem crescer as diferenças entre os que têm e os que não têm Todos parados Os habitantes da cidade permanecem petrificados Acredito que isto é uma manobra programada pela cidade para me enlouquecer Permaneço minimamente saudável Escuto as palavras que os meus rostos cantam Esta voz tem rosto de criança com cabelos encaracolados revoltos e sujos com olhos da cor da esperança O otimismo do poeta não contagiou a cidade E o flash das máquinas mostrou toda a escuridão A cidade escondida dos fantasmas escondidos dos passageiros do inferno A cidade dos miseráveis da mais horrível e miserável ruína da mais horrível e miserável pobreza A cidade que é dos homens e não é dos homens A cidade dos meninos abandonados a cidade dos que sendo habitantes da cidade são habitantes dos vários infernos onde apodrece a cidade A cidade das doenças amigas que matam e trazem o paraíso aos que falecem A cidade doente que despoleta doenças com infinita paciência enchendo caixões enchendo cemitérios

Beatriz 9ºC

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A EMIGRANTE: E o livro do poeta ajuda a cidade que não ajudou o poeta porque a cidade é tudo menos justa A cidade é forma é arco é edifício é estátua é sombra é sombra projetada em outras sombras segundo as palavras do primeiro poeta que faleceu Em tão pouco tempo o poeta viu a cidade florescer com esperança com os olhos que só um poeta pode ter A cidade ecológica cultural e ambiciosa que se reinventa Glória para a cidade e glória ao poder infinito dos que nela mandam A cidade esperança nasce com o fim de uma era e o início de outra A cidade cresce gigante muito para além da imaginação dos que a habitam A cidade física cresce como cresce a onda dos que a desejam alcançar Essa onda é a primeira de muitas marés que nunca terminarão A cidade que nunca é está em permanente transformação O que é a cidade e de quem é a cidade Os poetas compreendem a mudança da cidade grande Tantas foram as lágrimas vertidas por quem chegou à cidade e sobreviveu A cidade louca desesperada traumatizada A cidade dos esquecidos e dos que jamais regressarão Todos os países pertencem à cidade que se transforma A cidade recebe-os como se não existisse na terra mas sim no céu

Ana Carolina 9ºC

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A MAQUINISTA: A cidade das estruturas verticais que se erguem cada vez mais altas e imponentes Erguem-se e fazem da cidade a maior de todas as estruturas A cidade templo esta cidade templo continua a perseguir-me como uma sombra louca e fantasmagórica Nada se mexe Nada se move ou disso dá sinal A cidade metrópole inaudita que não só transforma como se deixa transformar A cidade dos milhões que a invadiram e que se tornaram tão frenéticos como a cidade Os habitantes são regulados pelos ritmos frenéticos da cidade moderna e cosmopolita que os organiza e automatiza e que afinal não é o céu que aguardavam As ruas são bazares são mercados colossais são virtudes aceleradas sem descanso As ruas são frenéticas a sugar os sonhos dos novos habitantes A cidade disseca as esperanças e as energias e coloca todos contra todos As ruas da cidade estão furiosas apinhadas e confusas Aqui se nasce se vive se sobrevive A cidade caprichosa que engole os habitantes transporta-os e castiga-os

Carolina Carramanho 9ºC

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A OPERÁRIA: Os que nela vivem conhecem finalmente a verdadeira dimensão desta entidade A cidade das estações por onde tantos passam por onde são destilados onde se iniciam e terminam as viagens de todos os destinos De nada interessa tanta luz tanta ponte tantos caminhos tão rápidas ligações O problema da cidade vive com a cidade e ela galvaniza-se nestes ciclos desmesurados de contrastes A cidade sempre será uma cidade de contrastes A cidade escraviza A cidade tem escravos que não podem falar nos seus postos de trabalho e que não podem parar de produzir Esta é uma voz com rosto de mulher de tez pálida penteado esculpido em tranças apanhadas atrás da cabeça numa caprichosa e perfeita banana de cabelo O olhar é cansado exausto negro e inquieto A cidade desespera todos os que nela respiram e nela ainda acreditam A cidade mata de cansaço e de dor A cidade transforma os sonhos no maior dos pesadelos A cidade é um mar de chamas é um inferno que nenhum bombeiro consegue debelar

Rita 9ºC

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O JORNALISTA: A cidade dos que voam para escapar à morte e que a abraçam A cidade das trevas e das tragédias sem igual A cidade petrificou todos os que nela habitam sem pestanejar e mantém-me acordado para que escute estas vozes enquanto caminho sem rumo no meio da quietude e do silêncio Escuto as memórias de todos estes mortos da cidade Choro pelas vidas de todos os que a cidade fez desaparecer Choro pelos escravos da cidade pelos escravos de todas as cidades A cidade da crise A cidade de todas as crises cíclicas imensas universais Em cada esquina cresce a serpente humana dos que procuram alimento para sobreviver A cidade cresce grotesca terrível inabalável na sua petrificada violência de ferro cimento vidro e betão Os habitantes da minha cidade transformaram-se de novo para voltarem a ser os habitantes da cidade do poeta Esfomeados ordenados desorientados organizados em grupos descansam por instantes deste enorme desespero A cidade está parada e estrangula toda a fé A cidade é implacável e irredutível nesta sua escuridão O poder da cidade encontra-se nos desejos que ela fabrica

João Diogo 9ºC

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O POLÍTICO: A cidade diz-me tudo o que escuto ao caminhar A cidade das promessas conta desta forma a sua trágica história Hospitais estradas escolas pontes túneis viadutos museus bibliotecas avenidas estações aeroportos parques aquedutos portos prédios estradas e autoestradas ligações ferroviárias o paraíso cinzento-escuro do asfalto e dos automóveis amigos brilhantes velozes e reluzentes A cidade engorda de prazer ao som vibrante do objeto poluente que lhe alimenta as entranhas Viva o objeto rolante que faz crescer a cidade numa velocidade estonteante A cidade da poesia urbana poesia mecânica poesia metálica complexa vascular Esta é a poesia do ferro do aço e do cimento A cidade dos que vivem na rua porque a cidade é o lar dos que vivem na rua A cidade será sempre o seu lar A cidade dos civis e dos militares A cidade dos que agradecem terem regressado à cidade Viajo anónimo no meio de milhões no meio dos sonhos de milhões A cidade será sempre a cidade das esperanças e não apenas a cidade de uma só esperança

Simão 9ºB

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O EMPRESÁRIO: A cidade engole os habitantes que foram engolidos pelos objetos rolantes Os habitantes já não são os donos das ruas da cidade Os automóveis tomaram conta das ruas matando-as Tomaram conta da grande avenida da autoestrada do viaduto da gigantesca galeria e fizeram renascer a cidade como um esgoto de escuras entranhas Esta é a nova cidade do vidro da transparência do andaime da forma paralelepipédica da forma prismática vertical imensa Os novos pobres chegam à cidade e tomam conta dos seus pedaços mais sujos mais distantes e degradantes A cidade é uma tragédia e tudo isto me é comunicado por uma voz de homem idoso com cabelos brancos marcado por muitas rugas num rosto queimado de barba longa grisalha e olhos azuis com profundas olheiras A cidade que já não é industrial que já não é esperançosa que já não é o que foi mas que deseja ser tudo o que ainda pode ser O homem pertence à cidade e alimenta o génio e a grandeza da cidade O homem é louco e a cidade é o homem louco que a esventra destrói constrói reconstrói

Diogo 9ºC

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A BANQUEIRA: Recria tudo o que na cidade ensandece Recria a desgraça do subúrbio Recria redesenha reconstrói reinventa faz crescer faz desaparecer destrói para segregar para desumanizar mais uma vez outra vez uma décima vez uma centésima vez uma milésima vez uma centésima milionésima vez A cidade afasta os habitantes a quem destrói todas as raízes A cidade rejuvenesce coisa não-humana A cidade automóvel caótica horrífica poluída suburbana catastrófica cinzenta escura quente inexpressiva corroída louca e que enlouquece Esta é a cidade a quem o coração foi arrancado vezes sem conta A estrada está entranhada no centro do coração da cidade A estrada corta esventra e destrói o que resta do coração da cidade Toda a cidade é do homem ditador que a deseja Viva o alcatrão antissocial viva o cimento e tudo o que é anti-humano A cidade deve ser coisa sem alma Viva o império do alcatrão do cimento do petróleo da mobilidade que agrilhoa e divide a cidade Viva o império da cidade Viva o império do homem-cinzento do homem autoestrada do homem que queria ser cidade que queria ser esgoto

Ana Carolina 9ºB

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A IDOSA SOLITÁRIA: A cidade definha Cresce mas morre Cresce mas morre cada dia mais um pedaço Cresce mas fica todos os dias cada vez mais minúscula cada vez mais parada mais cinzenta mais morta mais inacabada mais museu Para que serve a cidade Para que serve este pesadelo gigantesco inerte e esventrado que agora volta a petrificar todos os que nela habitam O homem mata a cidade e a cidade retribui O homem acredita que o que é moderno é melhor e a cidade retribui A idade de tudo o que era sagrado na cidade acabou e a cidade retribuirá Onde se encontra o que há de sagrado no coração da cidade O que desejamos da cidade Todos a matam e a cidade matará o homem que mata a cidade Esta é a voz com rosto de velho cansado ambicioso ganancioso cruel de olhos castanhos fundos de olhar desumano que deseja construir no coração no cidade A cidade está estripada e deve ser destruída para que se possa vingar contra quem assim a desejou Eis a cidade desumana que não é velha nem nova Esta é a cidade que caminha e faz caminhar

Inês Quaresmaa 9ºB

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A MÉDICA: Os habitantes da minha cidade começam a acordar Os habitantes da minha cidade não percebem esta momentânea filosofia de paragem Eu não entendo o que se passa O melhor mesmo é continuar a caminhar como se nada tivesse acontecido O poder da cidade está no poder das pessoas e não no poder da pessoa poderosa que julga pensar pela cidade A cidade existe e ainda pode existir se for pensada por quem nela habita O espaço urbano da cidade pensa moderno pensa matar o passado pensa matar definitivamente o coração da cidade e a cidade morde A cidade que não deseja escurecer morde e ataca Quer manter-se na essência daquilo que ainda é A cidade está viva e é tão imensa e tão rápida O subúrbio é a cidade o gueto é a cidade e a miséria e a degradação são cidade As sombras mais do que a luz são cidade O povo em constante conflito é a cidade Esta voz tem rosto de mulher jovem de nariz escultórico cabelo ruivo ondulado com olhos castanhos profundos e pele clara e bem tratada Esta voz é intensa rica e melódica

Maria 9ºB

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A LOUCA: As escolas dos bairros degradados explodem e a cidade explode num caos urbano sem precedentes A miséria explode os prédios explodem e a cidade implode A cidade vale mais destruída do que inteira A cidade urbana e suburbana é uma doença moderna sem fim A cidade é uma doença louca cíclica e caótica Onde estão todas as crianças e jovens da cidade Onde estão os idosos os doentes e os loucos da cidade Seguem-me encarcerados nas viaturas imobilizadas Estão de olhos colados aos vidros Olhos tristes destroçados e cansados A cidade foi pensada para dar lucro para promover o lucro para nunca parar de crescer de desumanizar e de arruinar Sinto esta doença da cidade que me afeta e corrói A cidade irá explodir e irá morrer A cidade é tudo aquilo que não devia ser mas também é aquilo que ainda pode ser A cidade nasceu cresceu viveu mas não sabe como sobreviver

Maria Coimbra - 9ºC

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A ESPERANÇA DA CIDADE: A cidade extraordinária é contraditória e sofre A cidade encontra-se na cabeça do todos os habitantes do globo Eu ainda não fui habitante da cidade mas sou habitante da cidade porque sou habitante do globo Os habitantes cavalgam nos seus cavalos de metal como em todos os outros dias Viva a cidade moderna futurista poderosa global vaidosa ambiciosa engenhosa empreendedora Viva a cidade humana construída por seres humanos audaciosos inteligentes engenhosos experientes corajosos e capazes Viva a cidade dos prodigiosamente capazes Viva a cidade que alberga e que aparentemente protege os que nela habitam Viva a cidade que depois de ferida debilitada atacada e descrente cresce com formas impossíveis Viva a cidade imensa global Viva a cidade de todas as liberdades Viva a cidade paradoxal

Ana Francisca - 9ºC

O melhor mesmo é continuar a caminhar como se nada tivesse acontecido

FIM 27


Música de Adele – Hometown Glory 2007 – XL recordings - álbum 19

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A CIDADE  

Texto adaptado para apresentação dramatizada

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