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BISSAU SÃO TOMÉ HUAMBO coordenação: ALAIN CORBEL


V

ozes de Nós é uma impressionante compilação de histórias de vida de meninos e meninas de rua de Angola, da Guiné-Bissau e de São Tomé e Príncipe, e que bem podiam ser de qualquer outro, dentre os demais países da CPLP. Contadas de forma simples com base em testemunhos directos, elas nos alertam e nos informam das nossas próprias realidades – do dia-a-dia que aprendemos a não ver, que preferimos ignorar ou perante a qual reconhecemos incapacidade em dar o devido tratamento. Histórias chocantes, exactamente por nos mostrar que não pedem grandes projectos, varinhas mágicas que resolvam em definitivo os problemas, mas simplesmente a coragem e a atenção para se interessar - avaliar e valorizar a atenção que os pais respectivos devem à história do Abdulai no Bairro Militar de Bissau, ou do João e Avozinho no Huambo, ou ainda da mãe da pequena Marlena em S. Tomé. Responsabilizar as instituições oficiais vocacionadas, a própria sociedade civil como um todo e os demais parceiros. Afinal, estas são, tão-somente, ilustrações que representam o grito de alerta face à insensibilidade e a ignorância reinantes. Por isso, mais que lê-las, escutemos estas histórias, oiçamos nelas o apelo ao mais básico e elementar sentido da dignidade de vidas que doutra forma podem se perder. Histórias que falam não só do que não se dá aos filhos mas também do que os pais se negam a si mesmos, ao não cumprirem o seu verdadeiro papel, das famílias que formam e que deviam estruturar as nossas sociedades; talvez assim compreendemos porque o nosso pomar não pode estar bem cuidado quando cada planta não é devidamente protegida e acompanhada. Porém, felizmente que estas são também histórias de esperança e de sucesso mesmo que ainda relativo. Em cada uma delas encontramos um momento de viragem, a partir do qual, as crianças e jovens afirmam retomar o seu sonho, a sua aspiração inicial. Essa inversão tem sido provocada pelo trabalho abnegado e comprometido (com a dignidade e a solidariedade) de mulheres e homens que dedicam a sua vida e o seu saber a enfrentar os males, as desesperanças e trazer algum conforto e dignidade a estes meninos que só vão para a rua porque a casa, mais que não dar, até tira o pouco que têm – o direito de sonhar. A CPLP se regozija da oportunidade em se associar a este projecto, desenvolvido pela Associação para a Cooperação Entre os Povos (ACEP), de Portugal, a Okutiuka de Angola, a Associação dos Amigos da Criança (AMIC) da Guiné-Bissau e a Fundação Novo Futuro, de S. Tomé e Príncipe. Os resultados já alcançados demonstram a importância de continuar este trabalho e estender o nível de informação geral, da consciencialização e da sensibilização, esperando assim mobilizar uma maior disponibilidade e intervençãoc de todos quantos o possam fazer. Obrigado a todos, pelas histórias e pelo projecto. Domingos Simões Pereira / Secretário Executivo da CPLP


“Meninos de Rua: Inclusão e Inserção”, mais do que um projecto, um desafio, às vezes uma aventura

C

omeçámos por juntar-nos entre organizações de contextos tão diferentes como Bissau, São Tomé, Huambo ou Lisboa (e com passagem por Salvador da Baía), com diferentes culturas e estratégias de abordagem dos problemas e apostámos ser possível um percurso comum. Esse percurso – de aprendizagem mútua, de experimentação, de nos expormos ao olhar uns dos outros - tinha “simplesmente” como finalidade criar espaços de vez e de voz a crianças e jovens em situação de vulnerabilidade e de exclusão e permitir-lhes acreditar que há um futuro possível, diferente do passado que conheceram e mesmo de um presente por vezes ainda incerto. Um projecto deste tipo, num espaço facilitado por uma instituição como a CPLP, criou-nos uma responsabilidade mais: a de sermos capazes de fornecer pistas consistentes para a continuidade de trabalho na promoção dos direitos – neste caso concreto, das crianças e jovens. E por isso uma multiplicidade de actividades – investigação, sensibilização, advocacia, reforço de organizações, realização de direitos. “Vozes de Nós” é o fruto de uma dessas actividades e de vários meses de trabalho, três dos quais nos nossos terrenos de trabalho – no bairro do Enterramento, em Bissau, na antiga fábrica do leite, no Huambo, no parque da Cidade de S. Tomé e depois em Lisboa. Durante esse tempo o ilustrador Alain Corbel, dinamizou ateliês criativos com as crianças e jovens, apoiado por jovens animadores, que são os talentos humanos das nossas organizações. “Vozes de Nós” inclui assim desenhos e ilustrações de dezenas de raparigas e rapazes de Angola, da Guiné-Bissau e de S. Tomé e Príncipe e histórias de vida contadas pelos próprios. Todos são co-autores deste livro, sendo em primeiro lugar um instrumento para a sua auto-estima. Foi também concebido como um recurso pedagógico e tem como primeiros destinatários as crianças e jovens e quem com elas se relaciona – professores/as, animadores/as, educadores/as. Mas pretende ser também um pretexto de diálogo e de construção de um compromisso de co-responsabilidade, entre legisladores, responsáveis políticos, comunitários, jornalistas, organizações diversas da sociedade civil. Poderá também contribuir para o melhor conhecimento mútuo, remando contra uma maré de conhecimento superficial e imóvel. Por isso irá estar disponível no maior número possível de bibliotecas públicas, quaisquer que sejam as formas que assumam, em cada local. Esperamos que ao folhear e ler estas páginas partilhem connosco a convicção de que este é o início de uma viagem que apenas começou. ACEP / Lisboa, AMIC / Bissau, NOVO FUTURO / S. Tomé, OKUTIUKA / Huambo


A

dmiração é a palavra que me vem à mente quando penso nas crianças, adolescentes e adultos com quem partilhei, durante o Verão de 2010, três meses intensos. Decorreram muito bem os ateliês, e o conjunto das imagens elaboradas e das histórias contadas chega largamente para que haja não apenas um livro mas muitos. Há este, mas é preciso que haja mais. Dirigir ateliês de escrita e ilustração em África não é exactamente a mesma coisa que dar aulas no Maryland Institute College of Art, em Baltimore. Mas, se me abstrair do lugar, do ambiente escolar, se levar apenas em conta a atmosfera que reina quando as crianças estão a criar, a alegria com que desenham linhas e pintam, é basicamente a mesma coisa. Em Baltimore, eu tenho que treinar profissionais. Em África, ninguém me pediu tanto. Recolher fotos e histórias sobre o quotidiano das organizações e das pessoas, das crianças e jovens, era este o meu objectivo. Agradeço aos vários jovens pela sua colaboração, pois a maioria deles passaram por momentos difíceis. Durante estes três meses, passei dias a preparar pratos de guaches, potes de água, papéis, lápis e pincéis, expliquei regras e técnicas básicas de desenho, fotografei obras realizadas com objectos encontrados. Entre o mapa de África feito de solas de sapatos na Guiné-Bissau, as dezenas de desenhos feitos de carvão e plantas no parque da cidade do Huambo e os que foram feitos a partir de conchas e flores à beira do oceano em São Tomé, devo confessar: eu diverti-me bastante e creio que os jovens artistas comigo. Havia uma energia tremenda na Guiné, uma serena indolência no Huambo porque as aulas de dança do professor Lindo compensavam essa sede de criação, uma maturidade incrível em São Tomé e Príncipe. Cada vez que se acabam os ateliês tenho um sentimento misto: a sensação do dever cumprido, pois eu sempre volto com as malas cheias de desenhos e histórias, e uma certa frustração porque sei que não haverá continuidade imediata, mesmo quando potencialmente há pessoas (como o talentoso Pombo na Guiné). Um dia destes, hei-de ficar de vez num desses lugares para ajudar a criar uma escola de Belas Artes! Já sei de antemão como construir essa escola. Logo ao lado haverá uma cozinha, como na Okutiuka no Huambo, a praia, o mato e o oceano como em São Tomé, sem esquecer as mangueiras como na Guiné. O lugar da escola há-de ser no meio de um bairro para que todos possam participar, mesmo aqueles que nunca pegaram num lápis ou num pincel em toda a sua vida. Mas o objectivo maior é poder acompanhar alguns desses jovens, que são puro talento. Eles merecem apoio. Porque desenhar é também uma profissão. Para concluir, um grande abraço ao Laudolino, à Sónia e à Dulce. A sua coragem tem sido uma grande lição de vida para mim. Obrigado e até breve! Alain Corbel


P

ara quando um sorriso aberto, uma gargalhada inocente, rostos radiantes, porque a vida, também, sorri para mim. Quando deixarei de ser espectadora ansiosa de cenas de crianças que, depois do intervalo, correm para as salas de aula, enquanto carrego sonhos e na minha cabeça uma bandeja de mancarra torrada? Para quando as atenções se voltarão para o meu quotidiano, para as minhas necessidades básicas, para o meu bem-estar, eu, também criança? Alguém vestido de verde, alumiando como o sol, com palavras poéticas vestidas de sonhos e utopias, responder-me-á com um olhar de esperança: um dia! Um dia, porém, se parece muito com a esperança, mas tem rosto de uma grande incógnita. Um dia, tal como algures e nenhures, parece tão distante, por vezes tão sem sentido, longe e vazio porque não tem um tempo definido, não tem plano e pode não acontecer em qualquer lugar. Um dia é, quase sempre, parte de pró-jeitos e não de projectos de desenvolvimento em que eu, criança, não devo ser apenas um número na estatística, uma parcela que diminui ou aumenta a percentagem de taxas de analfabetismo ou de mortalidade, algures no mundo.

Antes da fala …o verbo a palavra antes da palavra … o ser antes do homem antes da mulher a criança Assim a palavra assim o homem assim a fala assim a mulher assim a voz assim a vez assim a criança

Um dia pode ser jamais, mas pode ser, também, sinónimo de realizações possíveis, quando eu deixar de ser um número e contar como gente, e os homens deixarem de ser egoístas e egocêntricos; quando a vida do operário mais simples da minha cidade e a vida do professor da minha tabanca forem dignificadas… Quando o menino e a menina, de mãos dadas, caminharem pelas estradas da minha terra, rumo à escola e ao futuro melhor. Um dia pode traduzir-se em esperança, quando o tempo, a vontade e a persistência ‘conspirarem’ contra a letargia, as doenças sociais, a violência e o subdesenvolvimento. Ali… sim, eu, simplesmente criança, poderei escutar o final feliz da história de vida da Djenabu, de Lassana e de Oladó, a palavra. Eu, criança, de qualquer lugar da Guiné-Bissau ou do mundo, terei notícias de que da canseira só restou o nome Kansera, pois um dia ter-se-á transformado em datas precisas e os sonhos em realizações concretas… E eu, criança, terei tempo de ser menino, terei tempo de ser criança.

Maria Odete da Costa Semedo

Escritora, Investigadora do INEP e Professora Universitária


GUINÉ BISSAU

Farim Gabú Cacheu

Bafatá

BISSAU ILHA DE CARAVELA ILHA DE UNO

ILHA DE FORMOSA

ILHA DE BUBAQUE

ILHA DE ORANGO

Xitole

S. João Bolama

ILHA DE BOLAMA

ILHA ROXA ILHA J. VIEIRA

Jemberem


C

untum-Madina. Por causa da sua suavidade, o nome faz sonhar com uma terra onde tudo é luxo, calma e volúpia. Um lugar onde certamente as crianças têm o direito de estudar. Mas Cuntum-Madina não é bem o paraíso esperado, é somente um bairro populoso da capital da Guiné-Bissau. Aí, vive uma menina de 10 anos, a DJENABU. Como muitas raparigas, não vai à escola. Djenabu é mais uma pequena Cindirella que não teve a sorte de conhecer uma madrinha que amenizasse a sua pena. A mãe morreu quando era ainda pequenina. O pai, um homem já velho, casou-se com outra mulher e teve mais dois filhos. Quem cuida da DJENABU é a madrasta. Quem manda na DJENABU também é a madrasta.


Cada dia, cedinho pela manhã, vai ao mercado de Bandim, o maior mercado de toda a Guiné-Bissau, para vender mancarra. Lá, DJENABU vagueia por entre a multidão com sua bandeja na cabeça e uma pequena lata vazia para medir doses. Quando toda a mercadoria está vendida, volta para casa e entrega o dinheiro todo da venda à madrasta. Para percorrer o trajecto entre Cuntum-Madina e o mercado, uma grande distância para uma menina, a DJENABU anda a pé. Que seja para ir ou para voltar, a madrasta nunca lhe deu troco para pagar um lugar num toca-toca.


“Manera Ki n’kasta djunto ku nha padiduris el ku pui n’sta sim!”

(Porque eu não estou com os meus pais, é por isso que estou nessa).

É

no bairro do Enterramento, um bairro novo na periferia de Bissau onde, cada dia que passa, cortam-se árvores, apagam-se bolanhas e constroem-se casas, que vive a Maira. Hoje, como sempre, ela pára uns segundos de trabalhar e olha com atenção as dezenas de crianças que passam na rua para ir à escola. A Maira diz que tem 13 anos de idade mas terá certamente 15. Vive com a mãe, já lá vão 2 anos. Nem sempre foi assim: os seus pais separaram-se quando ela tinha 5 anos de idade. Pouco depois, o pai levou-a para casa de uma das suas três mulheres. Cada uma delas vivia numa casa diferente. Naquele dia, Maira não foi à escola, nem nos dias seguintes, até hoje. Assim nasceu uma suprema frustração e cresceu o seu maior desejo: ir à escola para estudar como todos os meninos. Mas ninguém o considera, o seu desejo não tem peso.


No bairro do Enterramento, enquanto os dois filhos da madrasta iam para a escola todos os dias, Maira acordava com montes de tarefas para cumprir. Em primeiro lugar, tinha que cuidar da casa. A seguir, ia para a rua onde, no meio do baile dos carros, tรกxis, toca-tocas e pessoas a passear, vendia mancarra, milho maรงaroca ou mangas.


Voltar para casa antes da meia-noite era impensável. Nunca foi o cansaço que decidiu da última hora. Sempre foi a ordem da madrasta. Quando fez 10 anos, Maira, cansada dessa vida, fugiu e foi ter com outra madrasta. Essa segunda mulher tinha filhos que não eram filhos do seu pai mas que, tal como os filhos da primeira madrasta, iam à escola. Aí também a Maira não

teve sorte, para ela só sobrou o trabalho de casa: tirar água do poço, lavar os pratos e a roupa, limpar o chão, ir ao mercado procurar peixe e legumes, cozinhar. Quando a Maira se negava a trabalhar, recebia porrada. Ela sempre tentou pedir ajuda para realizar o seu sonho, mas nunca encontrou apoio. Suor e lágrimas ritmavam sempre o seu quotidiano.


Aos 12 anos de idade, a Maira decidiu ir ter com a mãe que vivia na ilha de Bubaque, no arquipélago dos Bijagós. Mas Bubaque é longe de Bissau e a Maira nunca conseguiu os recursos financeiros para ir ter com ela. Só quando morreu o pai é que a Maira pôde estar de novo com a mãe, que veio a Bissau para assistir ao funeral daquele que foi o seu primeiro homem e era o pai da Maira. A sua mãe acabou por ficar em Bissau e, sem tardar, meteu-se com um homem que trabalhava como guarda. Com a presença da mãe, Maira sonhou de novo com a possibilidade de poder ir à escola. Foi uma felicidade de curta duração: tal como as madrastas com quem viveu antes, a mãe e o novo padrasto nunca tiveram planos para ela. Preguiçosos, raramente procuram trabalhos. Alcoólicos, passam dias a beber vinhos baratos.

O casal teve dois filhos mas nem por isso mudou o rumo das suas vidas. É a Maira, a única nesse barco triste a segurar o leme, quem cuida dos meninos. Sem dinheiro, pede regularmente esmola aos vizinhos para conseguir comida. Mas, nem assim tem a certeza de um lugar seguro: uma tarde, o padrasto achou os meninos sujos e pediu-lhe explicações. Ela, que diariamente lhes dá banho, replicou que os filhos não eram dela. O padrasto zangou-se e expulsou Maira de casa. Sem suporte, Maira ficou durante dois meses na rua. Por sorte, a família de uma amiga deu-lhe asilo, assim como a sua avó que vive no bairro de Bandim. Por fim, voltou para casa da mãe. Hoje, enquanto dezenas de crianças passam na rua para ir à escola, Maira olha para elas. Um dia há-de ser uma delas. Porque o seu sonho é simples de realizar.


E

m Quissene, numa tabanca perto de Quinhamel, na zona do Biombo, uma região a oeste de Bissau, onde se espalham pela planície milhares de cajueiros e onde os camponeses cultivam o arroz, vive um rapaz de 15 anos que vai à escola porque quer. Ninguém nunca o obrigou a seguir o caminho da escola. Desde sempre, foi uma decisão pessoal. No entanto, para conseguir o dinheiro para pagar as propinas e também a comida, tem que trabalhar. O seu nome é OLADÓ. É o mais velho de uma irmandade numa família Pepel, uma das etnias da Guiné-Bissau, e desde há já alguns anos, vive com o tio. Viver com a mãe continua a ser um dos seus sonhos, mas ela não o quer em casa, nem o novo marido dela.

OLADÓ já tem uma larga experiência de trabalho no campo: quando chega a estacão do cajú, vai limpar as hortas e quando os frutos estão maduros, participa na colheita. O OLADÓ escava também a terra para preparar os semeados e, durante todo o mês de Julho, quando os camponeses vão às bolanhas para semear o arroz, OLADÓ fica à beira dos campos com pedrinhas nas mãos para afastar os pássaros amadores de sementes.


Muitas vezes apetece-lhe brincar quando está a trabalhar, mas o tio não quer e não deixa. Para brincar à bola ou às tampinhas com os amigos, OLADÓ tem sempre que fugir. Normalmente, após dias de trabalho, consegue ganhar o suficiente para pagar as suas despesas. Mas o OLADÓ deve contar também com a má fé do tio. Este, às vezes, guarda o dinheiro e não o devolve quando é preciso pagar a escola. Diz simplesmente que “o dinheiro está perdido”.


N

unca é tarde demais. Talvez foi isso que pensou SAMI, uma adolescente de 17 anos de idade, quando retomou as aulas, dez anos depois de ter deixado a escola. Felizmente, por um revés de situação, depois de uma tentativa abortada de casamento forçado por parte de seu pai, ela está aos poucos a abandonar a sua timidez e a ganhar asas para conquistar o lugar que merece na sociedade guineense. E esse lugar passa também pela escola. Ainda bebé, a Sami vivia com os pais numa casa do bairro do Enterramento. A vida não era fácil mas a família aguentava-se e estava junta. Durou pouco tempo: quando fez 2 anos de idade, os pais separaram-se. O pai foi viver com outra mulher enquanto Sami ficou com a mãe, N’poti. Determinada a dar o melhor à filha, N’poti matriculou-a num Jardim de Infância e, mais tarde, numa escola onde Sami completou a primeira classe. Infelizmente, quando SAMI fez 7 anos, N’poti faleceu.

Insali, prima da mãe, tomou conta dela depois do funeral. Tinha poucos recursos e, com ela, SAMI não pôde continuar os estudos. Em vez disso, teve que ajudar a Insali nas tarefas domésticas, cuidar das primas pequenas e vender legumes na feira. Durante todos esses anos, o pai preocupou-se pouco com ela, e nunca lhe perguntou acerca dos seus gostos, dos seus desejos. Um dia, ele apareceu em casa da Insali e, sem mais nem menos, pediu a filha de volta. Sami já tinha 17 anos de idade e o pai queria casá-la com um amigo dele. Felizmente para SAMI, a Insali, desde sempre uma oponente dos casamentos forçados, recusou o pedido do pai. Naquele dia, houve muita confusão mas perante tal determinação, o pai não conseguiu levar a filha.


No entanto, ela não renunciou ao seu projecto e, dias depois, voltou de novo à carga. SAMI, com medo, e para não gerar mais violência, fugiu da casa da Insali e foi buscar protecção na casa dos vizinhos. Tal como faz a AMIC quando aparecem situações destas, os vizinhos serviram de mediadores. Forte desse apoio, Sami ganhou coragem e conseguiu falar francamente e pela primeira vez com o pai. Nunca antes tinha conseguido falar-lhe assim. O pai deixou-se convencer, mudou de comportamento e desistiu do casamento. Para ter a certeza absoluta que ele não iria nunca mais voltar, SAMI ficou de vez na casa dos vizinhos. Lá, com o apoio deles, matriculou-se novamente na escola onde, depois de tantos anos a trabalhar, recomeçou a estudar.

Já é quase adulta mas, tal como centenas de mulheres guineenses, não se importa de começar os estudos numa idade em que geralmente a maior parte dos jovens os concluíram. N’poti e Insali, as mulheres que cuidaram dela desde pequenina, souberam mostrar-lhe os passos necessários para conquistar a sua liberdade. E SAMI, de certeza, não irá esquecer a lição.


K

ANSERA vai casar. Já saiu de Bissau e voltou para o sul da Guiné-Bissau, para uma tabanca perto de Catió onde nasceu, há 15 anos. Do Sul, KANSERA não tem memória. Quando completou 2 anos de idade, um familiar pegou nela e levou-a para Bissau. Num bairro da cidade, KANSERA foi entregue à irmã mais nova do pai para ser criada. De etnia Balanta, essa tia era casada mas não tinha nem podia ter, por alguma razão, filhos. Os filhos que havia em casa da tia, eram todos filhos do marido com outras mulheres.

KANSERA começou a trabalhar com 3 anos de idade. Varria a rua em redor da casa, lavava os pratos, catava água no poço e procurava lenha. Quando KANSERA completou 10 anos de idade, a tia mandou-a fazer outras coisas. Foi assim que KANSERA aprendeu a cozinhar, a ir ao mar apanhar caramussa, a coubar lingrau ou ostras no rio Nbunho. Era um trabalho duro. Para não voltar com o peso das cascas das ostras, KANSERA descascava-as e ficava só com o bicho. Mesmo assim, aliviada do peso a mais, KANSERA tinha que andar uns três quilómetros para voltar para casa. O produto da sua pesca nunca foi vendido, sempre foi utilizado para fazer o mafé da casa.


Naquela altura, KANSERA tinha também outra actividade: era ajudante do marido da tia quando este ia para o campo trabalhar. Quando ele ia para a bolanha onde cultivava arroz, KANSERA levava-lhe o almoço. A comida era sempre preparada por ela no dia anterior. Na época do cajú, iam ambos cortar o capim e fazer outros trabalhos do campo.


Com essas actividades todas, KANSERA nunca teve a oportunidade de ir para a escola. Um dia, a tia decidiu casar KANSERA com o seu marido.

Imediatamente, KANSERA recusou. A tia quis assustá-la e usou de um estratagema: apesar de ser cristã, também era animista e ameaçou Kansera com o Irã. Apavorada, ela fugiu para casa do pai. Mas o pai não lhe deu apoio. Pelo contrário, também ele a aconselhou a casar-se com o marido da tia. Sem ter a ajuda de ninguém, KANSERA conformou-se.


Na tabanca, com a ajuda das mulheres, KANSERA está a preparar-se para o casamento. Não foi a primeira vez que a tia tentou casar alguma das suas sobrinhas. Anos antes, uma delas conseguiu fugir. Uma segunda sobrinha não teve tanta sorte e engravidou depois de uma relação com o marido da tia. Essa sobrinha teve um filho, mas não ficou para ter mais. Afinal, também ela fugiu.


A

BDULAI e LASSANA não se conhecem mas ambos tiveram um destino comum. Ambos foram entregues a um mestre corânico que os levou até Dakar, no Senegal, para estudar o Corão numa Dahra, e tornarem-se “Talibés”, ou seja estudantes de Corão.

Antes dessa experiência, o ABDULAI vivia com um tio no bairro de Brá em Bissau, e o LASSANA vivia com a mãe na região de Gabú. Mas houve outra razão que afastou os rapazes das suas famílias: a mãe do ABDULAI vivia numa tabanca no interior da Guiné, era doente e não tinha condições para cuidar do filho. O tio com quem ficou depois também não tinha condições. Quando o pai do LASSANA morreu, a mãe, para não ficar sem apoio, casou-se com outro homem, e foi sob imposição daquele homem que ele, aos 3 anos de idade, foi enviado para longe de casa.

Sozinhos em Dakar, os dois rapazes, tal como muitos outros rapazes guineenses, encontraram-se num processo de aprendizagem sem controlo da família, das autoridades religiosas ou do Estado.


Assim, em vez de aprender o Corão, que era o objectivo da viagem, ficaram presos num ciclo vicioso, e cada dia rimava terrivelmente com palavras como súplica, punição, castigo, medo e ansiedade. Durante anos, passaram a maior parte do seu tempo nas ruas de Dakar, pedindo esmolas. No final do dia, os produtos dessa mendicidade forçada – dinheiro, arroz, açúcar eram entregues ao mestre corânico. Quem não conseguia entregar a quantia diária imposta pelo mestre era violentamente chicoteado com uma correia. Eles não escaparam à punição. Foi de tanto receber que ambos planearam uma fuga.


O Abdulai fugiu durante a leitura do Corão. Pediu para sair para urinar e uma vez no exterior da Dahra, foi ter a um centro do SAMU. Ficou lá um mês inteiro. Um dia, alguns amigos da Dahra, que sabiam do seu paradeiro, vieram cumprimentá-lo e disseram-lhe que a sua mãe estava em Dakar com o desejo de o levar para Bissau. Sem pensar um segundo, Abdulai voltou para o Dahra. Em vez da mãe, foi o mestre que o recebeu com uma correia na mão. Mas ele não desistiu do seu plano. Semanas depois, estava a pedir esmola nas ruas, sob o controle de um rapaz mais velho. Este entrou numa sala de cinema para ver um filme e deu-lhe ordem de ficar à espera na entrada. Assim fez o ABDULAI. Minutos depois, alguém lhe ofereceu 100 francos CFA, o suficiente para comprar um bilhete de transporte público. Ele fugiu logo! Na altura, tinha 11 anos.

Os mestres eram por vezes questionados pela família, mas como já não tinham notícias deles, só comentavam que a criança tinha morrido ou então que estava noutro lugar. A família do LASSANA aceitou essa notícia triste sem pestanejar e, posteriormente, realizou uma cerimónia religiosa, deixando tudo nas “mãos de Deus”, de acordo com as suas crenças. Mas o rapaz continuava bem vivo. Um dia, foi recuperado por animadores do centro Ginddi (sob tutela do Ministério da Família no Senegal). Tal como o ABDULAI que encontrou apoio no SAMU, ficou um tempo nesse centro, enquanto a AMIC fazia uma busca para localizar a sua família na Guiné-Bissau.


Finalmente, esses centros prepararam a sua viagem de volta para a Guiné. Foram acolhidos no aeroporto de Bissau por um responsável da AMIC, o Laudolino, tal como outras crianças “Talibés”. Alguns deles têm medo de voltar para as suas famílias. Com razão, porque alguns pais, pouco sensíveis ao sofrimento dos seus filhos, mandam-nos de volta para Dakar. Não foi o caso do LASSANA e do ABDULAI. Os seus familiares ficaram felizes e emocionados no momento do reencontro. A mãe do LASSANA não quis acreditar que alguém tinha conseguido salvar o seu único filho. Nesta ocasião, jurou perante toda a comunidade que manteria para sempre, a todo custo, o filho a seu lado, na tabanca de Cata-Alfa. Essa experiência no Senegal fez perder aos rapazes alguns anos de escola. Depois de uma avaliação social, ambos beneficiaram de um projecto de reintegração na escola apoiada pela AMIC e finalmente retomaram as aulas.


BOLANHAS CAPIM

campos de arroz ervas daninhas

CARAMUSSA CATAR ÁGUA

tirar água do poço

COUBAR LINGRAU DAHRA IRÃ

amêijoa

escavar lingueirão

escola de aprendizagem do Corão espírito


KANSERA MAFÉ

canseira

molho (com peixe, com carne ou com outros ingredientes)

MANCARRA OLADÓ

amendoim (ginguba em Angola) palavra ou conversa em língua Pepel

SAMU SÉNÉGAL

associação de solidariedade internacional fundada em 1999 que oferece às crianças de rua assistência social e médica

TABANCA TALIBÉ TOCA-TOCA

aldeia jovem estudante do Corão transporte público em Bissau


U

m ilustrador, Alain, que gosta de conhecer os mundos que moram dentro das crianças.  Uma médica, Dulce, que plantou uma frondosa árvore, chamada «Fundação Novo Futuro», para acolher à sua sombra meninos carenciados. E uma ilha, São Tomé, onde o verde das folhas tem mil tonalidades e a areia das praias teima em ser doirada. Nessa ilha, em Julho de 2010, Alain e Dulce partilharam um projecto, apoiado pela CPLP, uma experiência juntando associações irmãs de Angola, Guiné-Bissau, Portugal e da verde ilha. Um projecto para dar voz a meninos e meninas em risco: escutar o que têm a dizer com a sua letra, com a sua boca, com as suas mãos e com a destreza dos seus dedos. Em São Tomé e Príncipe, projectos dessa natureza revestem-se de uma importância muito particular, sobretudo quando têm como alvo crianças privadas da rede de afectos dos pais, do lar, da família. O número de crianças nestas condições no arquipélago tende a aumentar, o que reforça a pertinência de iniciativas e experiências como estas. Perante os resultados, só se pode dizer: sonhar é preciso, agir é preciso. Porque da força do sonho e da acção, se libertam

as vozes, as histórias pessoais contadas na primeira pessoa, algumas até então apertadas no fundo de corações ainda tão juvenis mas já tão sofridos, histórias de perdas e de dores, de deslocamentos forçados, mas também de esperança e de aposta numa estrada virada para o Futuro. Sonhar é preciso, para que o território das sombras dolorosas dê lugar a um campo de flores perfumadas e de árvores de frutos redondos, generosos, doces e luminosos. Sonhar é essa forma de falar com o lápis de carvão ou com pincel. É desenhar uma mãe que dá carinhosamente o banho ao seu bebé numa banheira enorme. É alguém que leva a mão a uma estante para descobrir os segredos dos livros. É a continência à bandeira. São os frutos, os troncos e as folhas das árvores. Rostos e máscaras. A graciosa geometria das conchas, o cuidadoso alinhamento das pedrinhas, a doçura de casinhas humildes e seus quintais, onde não falta uma árvore subindo de sua raiz. Obrigada a todos por tudo o que nos disse o vosso génio saído de uma redonda concha. E lembrem-se: nem os castelos de areia desaparecem. São apenas levados docemente pelas ondas e ficam a morar para sempre no coração do mar, que é o nosso coração de ilha. Conceição Lima

Jornalista e escritora, com percurso na BBC e em órgãos de comunicação santomenses


ILHA DO BOM BOM

SANTO ANTÓNIO

SÃO TOMÉ

ILHA DAS CABRAS

S. TOMÉ

Neves Monte Cafe Santa Catarina

PRÍNCIPE

Trinidade

Pico de São Tomé

ILHA DA SANTANA

Ribeira Afonso

São João dos Angolares

Porto Alegre ILHÉU DAS ROLAS


A

MARLENA é uma jovem muito entusiasta. Fala com facilidade, gosta de fazer perguntas e contar histórias. A história dela começa

assim: “Nasci

em São Tomé e vivi com a minha mãe durante oito anos. Depois, fui na Fundação [Novo Futuro] não sei como. Uma vez perguntei à minha mãe porque é que fui viver na Fundação. Ela explicou-me que foi através de uma patroa dela, amiga da coordenadora geral da Fundação. Lá, na zona de Lukumi onde eu ficava, era um lugar onde muitas crianças estragavam. A maioria das crianças não tem condições para estudar. A minha mãe tinha, mas não tanto. Ela recebia apoio do meu avô paterno, um cabo-verdiano chamado Valdemiro. Mas ele viajou para Cabo Verde”.

A MARLENA tem boas e más recordações daquele tempo. Conta:

“Eu, quando vivia no Reboque, gostava de brincar com as minhas amigas: Jogo de meio, Trinta e cinco, Vitórias, Agarra caca, Comida de barro, Saltar corda, Jogo da semana. Quando era pequena, às vezes fazia coisas mal, coisas que não eram muito graves, mas eu levava porrada da minha mãe e do meu padrasto. Juntos, eles amarravam-me com uma corda no chão mesmo e davam-me com chicotes de ramos. Tenho uma boa relação com a minha mãe mas não com o meu padrasto. Não conheço o meu pai. Não sei onde ele está, e nem quero saber”.


A MARLENA tem boas e más recordações daquele tempo. Conta: “Eu,

quando vivia no Riboque, gostava de brincar com as minhas amigas: Jogo de meio, Trinta e cinco, Vitórias, Agarra caca, Comida de barro, Saltar corda, Jogo da semana. Quando era pequena, às vezes fazia coisas mal, coisas que não eram muito graves, mas eu levava porrada da minha mãe e do meu padrasto. Juntos, eles amarravam-me com uma corda no chão mesmo e davam-me com chicotes de ramos. Tenho uma boa relação com a minha mãe mas não com o meu padrasto. Não conheço o meu pai. Não sei onde ele está, e nem quero saber”. Para a MARLENA, o lugar onde vive agora, a Fundação, e onde tem boas amigas, como a Carolina que vem dos Angolares, na zona sul do país, é um bocado mais do que um simples centro para crianças desfavorecidas. Afirma: “Novo Futuro é uma família mesmo. Não

há problemas entre rapazes e raparigas”.

Para ela não há dúvida, a Fundação é o lugar onde quer viver até ao dia em que possa voar sozinha e assumir a sua vida enquanto adulta. Entretanto, a MARLENA vai à escola: “Estou na 9ª classe e reprovei. Fiz esforços mas reprovei.” A Marlena quer ser engenheira electrónica: “Os meus amigos me falaram desse

trabalho e disseram que era bom”.

Quando esse dia chegar, a MARLENA não irá esquecer o tempo passado na Fundação e os problemas que, infelizmente, alguns enfrentam. É por isso que ela comenta: “Gostaria

de dar apoio aos meninos que precisam. Aos idosos também”.


O

ABÍLIO é o irmão mais novo da Marlena. É um rapaz tímido, introvertido. Raramente se lhe ouve a voz. Mas quando tem um lápis na mão e começa a desenhar, parece que já sabe tudo do mundo que o rodeia. Cada um dos seus desenhos tem tantos pormenores e tanta qualidade que qualquer pessoa pode perceber que o ABÍLIO é uma pessoa muito curiosa e atenta.

“Quando eu tinha sete anos, ia almoçar na Fundação. Fazia lá também pequenos trabalhos de casa: limpar o chão, varrer o quintal, tal como os outros meninos. Eu vivia no Riboque, na casa da minha mãe, a Teresa, e do meu padrasto, o Zé.”


O seu irmão, Aldércio, teve problemas com ele, mas para o ABÍLIO: “O Zé é um bom senhor. Quando fiquei

na Fundação de vez, tinha 11 anos de idade. A Doutora disse que eu podia ficar. A Marlena, o Pajó e o Aldércio já estavam lá”. Na Fundação, o ABÍLIO dá-se bem com todos mas comenta: “Não gosto

quando, de vez em quando, me zangam”.

O ABÍLIO nunca esqueceu a mãe:

“Vou ver ela todos os dias. Ela vende no mercado: hortaliças, cebolas, cenouras, tomates, alhos, alfaces, óleo para fritar”.

Apesar dessa relação forte, o ABÍLIO nunca vai almoçar ou jantar com ela e com os dois filhos mais pequenos, Ezia e Zinaldo, de quatro e dois anos de idade.


A “

minha mãe desapareceu durante três dias”. Foi com essas palavras que o JOIDSON – JOI para os

amigos – um rapaz franzino com cara simpática, começou a contar o primeiro acontecimento que mudou a sua vida. “Os familiares – conta JOI – foram à sua procura.

Encontraram ela desmaiada, quase morta, no mato, não muito longe de casa. O meu pai queria levar ela para o hospital mas as outras pessoas não quiseram. Eles queriam que ela recuperasse para contar o que aconteceu com ela. Levaram ela a um curandeiro para saber qual era o tipo de coisas que o demónio fez com ela. Ela queria ir para casa mas a gente estava sempre a perguntar: Júlia, o que aconteceu com você? Mas ela já não tinha voz para falar, cuspia espuma pela boca. Finalmente – afirma o JOI – chegou o instante onde ela morreu”.


Daquele momento, o JOI sabe tudo mesmo se, na verdade, ele não tem memória, nem sequer visual, dessa tragédia. Quando isso aconteceu, o JOI era ainda um bebé. Quem lhe contou a história foi a avó materna, a Nha Agusta, com quem ficou depois do funeral. Uma história que lhe foi contada repetidamente de maneira pormenorizada. JOI acrescenta: ”Ela disse que

foram três espíritos que a levaram para o mato”.

A avó contou-lhe também que, a seguir ao funeral, o espírito de sua mãe entrou no corpo do irmão mais novo dela e que foi através dele que a mãe explicou os acontecimentos da sua morte. Passouse assim: no final da tarde antes de desaparecer, ela foi à procura, nos arredores da roça, de uma porca que tinha uma grande ninhada. Ela tinha encontrado e segurado o animal e ia levá-lo para casa mas a porca, que nunca deixou de lutar, conseguiu fugir. Mais uma vez, a mãe do JOI foi atrás da porca. Desta vez, sem que ninguém soubesse explicar como, a mãe acabou por desaparecer sem deixar rastos. Uma vez a história contada, o JOI disse simplesmente: ”Não me lembro dela. Nem foto vi”. JOI só se lembra do seu nome, Júlia.


Ela era mãe de dois filhos, o JOI e o Manel, um rapaz que tem agora 18 anos de idade. O Manel é ajudante numa carpintaria e nunca deixou de viver na roça Agostinho Neto, na Sanzala, com o pai deles, um vendedor de material de cozinha e casa de banho numa loja da Praça. Durante o tempo das férias, o JOI vai regularmente visitá-los. O pai vive agora com uma mulher com quem teve três filhos, um deles tem a idade do JOI. Quando vai à roça, gosta de ajudar a mulher do pai. Ambos vão juntos para o campo apanhar cacau e cana e plantar milho. Mas há uma coisa que o Joi sabe fazer muito bem sozinho: apanhar búzios do mato. O búzio é um caracol enorme que vive no mato santomense e, para muitos, o búzio é o pão-nosso de cada dia. Com um pau, JOI abre as folhas por baixo das bananeiras ou à beira dos rios, lugares apreciados pelos búzios, para os encontrar. A seguir, põe os búzios que apanhou num saco de plástico ou num balde e volta para casa. Os búzios são depois cozinhados com arroz, bananas e uns molhos apropriados.

O JOI viveu muitos anos na roça com a sua avó. Mas em 2006, ela viajou para Cabo Verde onde tinha família. A seguir, foi ter com uma das suas irmãs a Inglaterra. Joi lembra-se de alguns momentos que viveram juntos: “Íamos para um jardim

colectivo. Havia bué de brinquedos: escorregadinha, baloiço, bicicleta.


Eu tinha alguma preguiça de ir até este jardim e a minha avó me batia com palmadas para me levar. Ela só batia para ir ao jardim”. Mas da avó, tem uma boa recordação: ”Gosto dela”, diz.


A avó ainda estava em São Tomé quando um segundo acontecimento lhe mudou a vida. Tudo começou por uma visita feita pelos responsáveis da Fundação Novo Futuro à roça Agostinho Neto.

“Um dia – conta ele – foram buscar o Hamilton e o Nito para entrar na Fundação. Eu queria ir também. Chorei para ir”. O Nito e o

Hamilton eram mais velhos que o Joi, mas mesmo assim eram os seus grandes amigos. “A minha avó disse

que não porque ela ia ficar sozinha. Mas ela tinha bué de familiares. Eu era só o neto mais novo. O meu tio mais velho convenceu a minha avó. Afinal ela aceitou. Tomei banho e fui-me embora”.


O JOI nunca se arrependeu da sua escolha: “Na

Fundação, está tudo bem, mesmo. Cada quarto tem três camas, uma em cima, uma no meio e uma em baixo. Estou no meio. Pajó está em baixo e Edmilson em cima. Fomos habituados”.

Com os seus amigos, juntos vão para a escola Patrice Lumumba. A cerca do último semestre, comenta: “Antes,

estudava de manhã. Levantava, tomava banho, pequeno-almoço, e íamos à escola. Gosto de Francês, tive 18/20. Gosto também de Ciências Naturais, Educação Visual e Tecnologia e Português, mas não tive boa nota. Matemática é difícil”.

Apesar dessas pequenas dificuldades, Joi já sabe muito bem o que pode ser o seu futuro: “Quero fazer

uma actividade com as crianças. Ensinar as crianças, tipo campo de férias”. Um futuro que não parece

impensável em São Tomé e Príncipe.


N

os seus desenhos, HAMILTON imagina paraísos onde o mar, o mato e o céu aparecem tal como realmente são em São Tomé. No papel, a mão desenha animais que se cruzam com pessoas, num tom de igualdade. As cores são suaves e as formas elegantes. HAMILTON tem 16 anos de idade mas parece um pouco mais velho, talvez por ser uma pessoa sossegada e madura. Nunca teve aulas de desenho. Talvez tivesse vivido algures num paraíso e, naquele espaço longínquo, percebeu e entendeu o equilíbrio fundamental dos elementos essenciais. No bairro em redor da Fundação Novo Futuro, onde HAMILTON vive, é conhecido e apreciado pelas pessoas. Quando na Fundação é preciso rachar lenha para cozinhar, é o único que consegue pedir emprestado um machado aos vizinhos, normalmente desconfiados. Dantes, o HAMILTON, tal como o Nito e o Joi, os seus amigos da Fundação, viviam dias felizes com os seus familiares na roça Agostinho Neto. O pai trabalhava com alguns camponeses numa das melhores unidades de cacharamba de São Tomé. “Campo de Morro”, era o nome do álcool que produziam, com o nome do monte onde eles cultivavam a cana-de-açúcar. O produto era vendido nas lojas dos arredores da roça, mas também nos mercados de Guadalupe e da capital. Um negócio que durou até esse dia trágico do ano 2000.

“Estava no campo do meu tio com primos meus a brincar e a comer cana. Fomos para outro campo onde algumas pessoas tinham pisado cana. Estavam mortas. Deitavam espuma pela boca. Fiquei com tanto medo que comecei a correr. Pensei que alguém estava a matar as pessoas com machim. Corri até à estrada e chamei um carro”. Assim conta o HAMILTON, com poucas palavras, o drama que,

não só afectou muitas famílias da Roça Agostinho Neto, mas também a sua própria família, já que, naquele grupo de pessoas que morreram por envenenamento, estava também o seu pai.


A seguir ao drama, e durante cinco anos, o HAMILTON ficou com a mãe, na casa que a família tinha na Sanzala. Tinha uma irmã mais nova, mas ela morreu aos 3 anos de idade, dias depois do seu baptismo.


HAMILTON tem muito boas recordações do tempo em que viveu em Agostinho Neto: “Havia

sempre pessoas. Ainda gostam de mim. Tenho saudades dos banhos no rio. Gostava de apanhar lenha, de estar no campo, de trabalhar na roça e de outras brincadeiras”. Afinal, um paraíso cujas

imagens povoam ainda a sua memória e alimentam a sua imaginação. Anos depois do drama, a vida do HAMILTON e da sua mãe tomaram um rumo diferente: a mãe encontrou outro homem e teve com ele dois filhos. Foi trabalhar como empregada na casa de um brasileiro, no bairro Campo de Milho. O HAMILTON, por seu lado, depois de um encontro entre a sua mãe e a Cesaltina, uma responsável do Lar da Fundação Novo Futuro, deixou a roça e foi viver para a Fundação. Apesar disso, não esquece a mãe. “Gostaria

de viver perto da minha mãe. Ontem ela veio ter comigo”, diz ele.

O HAMILTON está agora na 10a classe no Liceu Nacional


e tem um sonho forte na mente. Um sonho que ele há-de concretizar um dia:

“Desde pequenino que gosto de desenhar casas. Espero estudar fora, em qualquer país que aparecer, e ser engenheiro civil”. Entretanto, e

depois da escola, o HAMILTON, menino do mato, vai à praia porque: “Eu gosto muito de nadar”. Foram alguns dos seus familiares que lhe ensinaram a nadar. Acrescenta:

“Gosto de comer conchas do mar à noite com fruta-pão”.

Conchas que ele apanhou sem óculos, lá no fundo do mar, com o apoio dos seus amigos da Fundação. Todos filhos da Terra, e sonhando com o mesmo paraíso.


O

Comando da Polícia da capital de São Tomé e Príncipe não é um lugar e, muito menos uma casa, para adolescentes e, oficialmente, Jackson não é ainda um estagiário da Polícia. Mas, desde há já alguns meses, tal como para uma dezena de rapazes da sua idade, esse lugar passou a ser a sua residência principal.

Dantes, JACKSON vivia com a mãe e os irmãos, numa casa em Boa Morte de Baixo, um bairro da periferia da capital santomense. Isso foi antes de ter uma briga com um outro rapaz.


Do bairro de Boa Morte, onde actua uma das mais importante companhia de Tchiloli de São Tomé – a Formiguinha de Boa Morte – JACKSON lembra-se que: “Durante o

tempo da Gravana, há muita poeira e durante o tempo da chuva há muita lama, apesar da casa da minha mãe ser à beira da estrada de alcatrão. A casa é do padrasto, que trabalhou muito tempo na Federação de Futebol de São Tomé, ao lado do Comando da Polícia. Mas ele faleceu em Fevereiro de 2010 de uma infecção do estômago e foi a filha dele que pediu à minha mãe para ficar na casa”.


O JACKSON lembra-se muito bem do momento que mudou o rumo da sua vida: “Em 2010,

estava com o meu vizinho, o Hochimi, a jogar Playstation. Quando estava com ele, ouvi o meu irmão de seis anos, Alderson, a chorar. Fui ter com ele e perguntei-lhe quem bateu nele. Ele disse-me que foi batido por um moço vizinho chamado Mikael. Fui ter com o Mikael e pergunteilhe o que o meu irmão lhe fez. Ele contou-me que o meu irmão atirou pedras. Uma bateu nele. Depois perguntei-lhe porque é que ele não foi ter com a minha mãe. Ele respondeu que a minha mãe não fala com a sua. Ele acrescentou que eu, a minha mãe e o meu irmão estávamos para porrada. Eu perguntei-lhe: Porque é que tu não me bates primeiro? Ele empurrou-me. Empurrei ele, e lá é que começou a confusão. A minha mãe não tinha força para entrar na confusão. Ela ligou para a Polícia. Eles vieram. Pegaram ao moço e a mim. Levaram-nos para o Comando da Polícia. Lá, o comandante nos perguntou o que aconteceu. Eu expliquei-lhe tudo.”

Esse pequeno acontecimento poderia ter acabado aqui mas como o JACKSON explica:

“A minha mãe veio também e falou com o senhor Comandante. Ela pediu para que eu ficasse lá até diminuir essa confusão. Fiquei lá e gostei do ambiente. Perguntaram-me se eu queria trabalhar na oficina como sapateiro ou na cozinha. Escolhi a cozinha. Mas não trabalho lá todos os dias. Há dias, outros moços vão lá trabalhar também. Conheci muitas pessoas. Algumas são duras, gostam de mandar recados à noite: comprar sumos, ir à padeira”. As condições de alojamento na caserna não são muito apropriadas para os adolescentes mas isso, para o JACKSON, não parece ser um problema: “Eu durmo num quarto da

caserna. No quarto somos dois ou três. Há quem durma num carro porque quer, como o Patrick”,

afirma ele.


Apesar de ser um lugar com muitas regras, JACKSON afirma que pode acordar a qualquer hora. Durante o dia ocupa o seu tempo com diferentes tarefas: lava pratos, limpa a caserna, racha lenha, lava motas ou simplesmente joga à bola. Para o JACKSON, a escola já faz parte do passado mas o agente Zézito ensinou-lhe a utilizar o computador e quando o Comandante da guarda apita para formar os novos agentes, ele fica por perto para observar as manobras: desmontar e montar as armas, marchar, etc.

O JACKSON tem também o direito de sair quando quer, mas antes é preciso avisar o Comandante da guarda e dizer onde vai. Normalmente, vai visitar a mãe. Nessas saídas, acaba por encontrar-se com o Mikael. Ambos deixaram de vez de ter brigas, agora são amigos e vão jogar à bola juntos. “Quem continua a não

gostar de mim e da minha mãe, é a mãe do Mikael”,

explica o JACKSON.


A “

minha mãe me dava bué de porrada quando bebia”. A história da

vida do PATRICK é toda atravessada por momentos de violência, sobretudo por parte da mãe. A existência do PATRICK nunca foi a origem ou a razão da violência da sua mãe. Ele sabe disso. Já antes do seu nascimento, a mãe tinha esse mau hábito. A avó materna já lhe contou dramas como este: “Ela teve quatro

filhos, mas a mais velha, a Linda, morreu. Só ficaram os três rapazes. A Linda estava doente e já estava no hospital. O doutor ligou à minha mãe e ela foi ao hospital para tomar conta dela. Mas, havia uma festa na Praça com o grupo Sangazuza, e a minha mãe deixou a Linda sozinha para ir à festa. Quando voltou ao hospital, ela encontrou o bebé morto. Quando ela voltou para Santa Catarina, o marido deu-lhe bué de porrada, e depois deixou-a. A minha mãe encontrou outro homem, o Jojó”.


O Jojó é o pai do PATRICK. Jojó fazia e vendia esculturas quando ela se juntou com ele. Agora o Jojó tem outra actividade: vende rádios, televisões, vídeos e chinelos numa loja na Praça. O casal viveu na Ponte Graça, junto ao mercado novo da capital. A história comum durou pouco tempo porque o Jojó batia na mulher. Ela fugiu e voltou para Santa Catarina, deixando o PATRICK, já com 2 anos de idade, para trás. O Jojó entregou o bebé à sua mãe.

“Fiquei seis anos com ela, conta o PATRICK, e depois a minha tia, tia da minha mãe, levoume para Boa Morte onde a minha mãe estava à minha espera. E levoume a seguir para Santa Catarina”. Para o PATRICK, viver na zona oeste de São Tomé, onde vivem muitos pescadores, não foi promessa de uma vida melhor: “Quando ela bebia cacharamba, ela me dava porrada”. Na escolha das suas vítimas, a mãe nunca fez diferença entre os filhos, batia também nos mais novos, como conta o PATRICK: “Um dia, o meu padrasto estava a pescar. Quando

voltou, encontrou o meu irmão Erikson, que tinha 5 anos, com o braço quebrado. O meu padrasto deu bué de porrada a ela com a corrente da motosserra. Depois ele levou o Erikson ao posto de saúde de Santa Catarina onde o doutor pôs gesso no braço dele”.


A seguir, o padrasto deixou-a definitivamente para viver noutro lugar, em Diogo Vaz. O Erikson ficou com ela. Quando o padrasto bateu na mãe, ela estava grávida do Kelilson, o quarto filho. Ela arranjou remédios do mato para curar as feridas deixadas pela corrente. “Isso durou mais ou menos duas semanas”, lembra-se o PATRICK. A mãe ficou sozinha com os filhos e nunca parou de bater neles. Nem o mais novo escapou ao mau feitio dela:

Hoje, o Erikson e o Kelilson têm 10 e 7 anos de idade. Ambos vivem ainda com a mãe. O PATRICK não aguentou mais:

PATRICK quando se lembra de algumas cenas.

o PATRICK. Apercebeu-se que desde que a mãe entrou na Igreja Evangélica, bebe menos.

“Cada soco de gente grande que o Kelilson tomou! – exclama o

Ela jogou ele das escadas para baixo, cada bofetada!”.

“Fugi com 13 anos de idade.” A mãe encontrou outro homem e foi viver com ele na Ponta Furada, uma zona remota a seguir a Santa Catarina. Ele é vinhateiro, tira o vinho da palma que a mãe vende a seguir.

“Ela tem casa nova de tábua. O homem que ela tomou deu-lhe condições”, comenta


“Há dias, eu vou acompanhá-la na roça e trabalhar com ela. Ajudar a capinar, a limpar bananeiras, a regar e a podar.” O PATRICK gosta da mãe apesar do seu comportamento violento.

“Às vezes, ela dá-me dinheiro para eu voltar de camioneta até à cidade e comprar roupa para mim”, explica. Há já dois anos que não vive com ela.

A seguir à fuga, o PATRICK foi ter com a sua tia Linda em Boa Morte. Era tia da mãe. Mas a tia, já com nove filhos, não podia ficar com mais um rapaz em casa. “Ela levou-me à polícia e fiquei lá”. Por falta de um organismo adequado em São Tomé, as famílias com dificuldades encontram na polícia uma alternativa e já são muitos os jovens que ficam lá à espera de uma solução melhor. “Na polícia somos oito

moços: o Sebastião, o Repolho, o Sozinho, o Jakson, o Fernando, o Jilson e mais um. Eu dormia num carro. Não gostava de dormir na mistura com os outros porque havia confusão”, indica o PATRICK.

Durante dois meses a tia cuidou dele: levava-lhe pão, comida, sumo, roupa, sapatos. Mas, quando ela viajou para a ilha do Príncipe, o PATRICK ficou sem apoio. Felizmente, na polícia houve alguns bons samaritanos: “Quem

cuidou de mim foi um Comandante. Ele saiu. Agora quem cuida de mim é outro Comandante.” Mas não há dúvida de que os rapazes como o PATRICK merecem outra estrutura, tal como a Fundação Novo Futuro, para poder desenvolver de maneira positiva toda a sua energia e o seu talento.


D

esde pequenino que o JOAQUIM tem o mesmo sonho: ser advogado para defender as pessoas, se for possível em São Tomé e Príncipe, porque ele gosta muito daqui.

Ficar em São Tomé? Nem todos os seus familiares pensam assim. JOAQUIM tem três irmãs, a Lei, a Li e a Jo. As duas últimas vivem em Londres desde 2003. Ambas receberam uma bolsa de estudo do Estado santomense e escolheram Inglaterra para estudar. A Li, a mais velha, já acabou os estudos e decidiu ficar por lá para trabalhar e sustentar os seus dois filhos. A Jo ainda estuda. Para não cortar os laços familiares, as duas irmãs telefonam regularmente a JOAQUIM e a Lei.

A mãe deles faleceu há dez anos. Era camponesa e tinha uma roça em Diogo Nunes. O JOAQUIM, o mais novo, tinha somente 4 anos de idade. Nunca soube da razão da sua morte. Durante os dois anos seguintes, ele e a Lei, em vez de ficar com o pai, foram acolhidos pela tia Armoria, a irmã mais velha da mãe. A tia tinha uma casa em Oque Del Rei, um bairro da capital. O pai deles, a seguir ao falecimento da mulher, não quis continuar a viver na casa da família, e foi viver para outra casa na zona de Santo Amaro, perto de Guadalupe, onde trabalha como camponês. Agora, vive com outra mulher. O casal teve três filhos, o Rui, a Nina e o Zé.


A tia Armoria, que o Joaquim descreve como uma pessoa doce, tinha já quatro filhos e poucas condições para acolher mais duas crianças. Portanto, quando a Lei fez 19 anos, decidiu voltar para a casa da mãe, que tinha sido guardada pelos familiares, com portas e janelas trancadas. A Lei trabalha na Mediateca, na rotunda perto do Parque Popular e da Biblioteca Municipal. Quando fez 6 anos, JOAQUIM juntou-se a ela e à Jo. A Li, por seu lado, por ser a irmã mais velha, já tinha casa própria.

É por acaso que JOAQUIM vive agora na Fundação Novo Futuro: tudo aconteceu por causa de uma senhora. Tinha duas filhas que viviam fora de São Tomé e um filho de 13 anos de idade que se sentia sozinho em casa sem a presença das irmãs. Para remediar a essa solidão, a senhora falou com a Lei e sugeriu que o Joaquim ficasse em casa dela. Assim foi, e durante um ano, os dois rapazes brincaram juntos. Mas, ao fim desse tempo, o rapaz deixou São Tomé e juntou-se às irmãs em Portugal. Joaquim podia ter voltado a viver com a Lei mas a senhora sugeriu outra possibilidade: a Fundação Novo Futuro. A irmã e o irmão concordaram e Joaquim, mais uma vez, mudou de casa.


Na Fundação, além de um lugar seguro e estável, JOAQUIM encontrou muitos amigos. Neste momento, tal como os outros rapazes da Fundação, gosta da pesca. A praia de Poto-Poto tem uma grande pedra de onde, ele e os amigos, gostam de saltar para a água. É nessa zona que pescam bicas, sabonetes, vermelhos e outros peixes. Quando não vai à praia, gosta de passear no mato, outra das suas actividades preferidas.

Para ser advogado, JOAQUIM sabe perfeitamente que é preciso fazer esforços. Está agora na 9a classe no IDF, Instituto Diocesano de Formação, e tem boas notas. O JOAQUIM gosta sobretudo das aulas de Francês, Português, Geografia, Ciências Naturais, Educação Visual e Tecnologia. Quando acabou a 5a e a 6a classe, tinha uma média de 14/20. A Fundação decidiu então matriculá-lo no IDF. Um apoio necessário para continuar a sonhar com o seu objectivo.


C “

laro que tenho saudade da minha mãe, das minhas irmãs, Nias e Nai, das minhas sobrinhas e dos meus amigos”. Quem fala assim

é o EDMILSON, um rapaz tímido de 13 anos de idade com um olhar vivo. A saudade parece uma companheira com quem já partilhou muitos momentos. Ela já não o leva para viagens de volta a casa da mãe, como dantes acontecia. O EDMILSON já sabe lidar com ela.

Há três anos que o EDMILSON está na Fundação Novo Futuro. Antes disso, vivia em Ribeira Peixe. “Quando vou lá

durante o tempo das férias, vou sozinho, de autocarro, ou com a Carolina que vem dos Angolares”. Os amigos ficam

sempre felizes de o ver. Juntos, é como se o tempo não tivesse passado, continuam as brincadeiras de sempre, como jogar à bola à sombra das palmeiras.


A razão pela qual um rapaz como o EDMILSON deixou a zona costeira do sudeste do país para a capital, é-nos contada por ele: “A minha mãe

mandou-me vir aqui para estudar. O meu irmão, Koeman, já estava no centro. Agora ele tem 20 anos e está em Portugal onde estuda. Ele recebeu uma bolsa”.

A mãe do EDMILSON chama-se Nina. Aos 39 anos, já teve cinco filhos. “Eu sou o mais novo”, diz. Do pai, não tem quase memória: “O meu pai

morreu quando eu tinha 4 anos”. A única lembrança é essa imagem dele que “ficava no campo, fazia grogue. Ele e a minha mãe separaram-se. Ele começou a beber tanto que o seu fígado queimou. Ele morreu”. Após a morte do pai, Nina encontrou outro homem e foi viver com ele. O casal teve um bebé que não sobreviveu. Infelizmente, tempos depois, o homem também faleceu.

Se, mais uma vez, a Nina ficou sozinha com os filhos, não ficou sem recursos, como explica Edmilson: “A minha mãe trabalha para

Agripalma, uma empresa agrícola. Ela cuida das palmeiras, põe adubo, rega. Produzem óleo de palma. Lá, é Ribeira Peixe. Onde a minha mãe vive é numa empresa chamada Emolve. A sua casa é de muro. Tem tudo lá dentro: TV, sofá, rádio, estante, geleira. Lá, tem energia. Toda a gente tem. Quando não há, ela tem um gerador”. O EDMILSON descreve

que a casa está situada numa rua bordada com muitas árvores mas “lá não tem mar. Onde tem

mar é Ribeira Peixe”.


Do mar, não tem medo: ”Aprendi

a nadar com o meu irmão Koeman”. O EDMILSON

tem uma memória viva do mar, dos pescadores e das palaiês. “Eu gostava de ir para o rio

com os meus amigos, o Clarinho, o Whai, o Mano e o Hujiu, tomar banho, e depois ir ao mato tirar cacau”. Aliás, saber nadar dá-lhe jeito quando ele

vai com os amigos para as praias da Baía Ana Chaves, perto da Fundação. “Ontem, o Hamilton,

o Joi e eu fomos pegar conchinhas aqui em Poto-Poto. Levámos uma prancha bem grande de esferovite, com dois remos. Remámos e a seguir fomos para o mar fundo onde se pega conchas. O Hamilton mergulhava e apanhava as conchas. Eu remava, com o Joi sentado na prancha. Apanhámos umas vinte, grandes e pequenas. A Marlena e a Carolina as preparam como petisco”.

Histórias do mar, o EDMILSON tem ainda muitas para contar, mais precisamente acerca dos peixes:

”Hamilton, Nito, Joaquim, Abílio, Joi e eu estamos a criar peixes num tanque de água doce. Os peixes são xarrocos, são pequenos. Comemse, mas nós não vamos comê-los. Queremos criar muitos peixes no tanque. A comida deles é fruta-pão, pão e arroz. O Jackson contou-nos que esses peixes comem este tipo de comida”. EDMILSON e os seus amigos

apanharam os peixes no lago artificial do Parque Popular. “Tiraram toda a água, e os

peixes estavam a morrer. Então, pegámos alguns deles que pusemos numa garrafa de plástico para leválos até casa. Sobreviveram todos, excepto os grandes. Eles eram mais velhos”, comenta.


Quando o EDMILSON não está a brincar com os amigos, vai para a escola: “Entrei

na escola com 6 ou 7 anos de idade, e fiz a quarta classe. Agora vou entrar na nona classe. Nunca reprovei. Gosto de Geografia, de Biologia, um pouco de Francês. Só isso”. O EDMILSON

explica também que a chave do sucesso escolar dos jovens da Fundação Novo Futuro está no apoio regular que eles recebem: “É o Advilton. Ele dá-nos explicações nas

disciplinas onde temos dúvidas. Alguns de nós estudam de manhã, outros de tarde. Ele vem às vezes de manhã,

Mesmo com boas notas, o EDMILSON ainda não se preocupou com o seu futuro: ”Não sei ainda”, comenta. De momento, EDMILSON goza da vida na Fundação: “Para mim, lá sinto-

me bem. Só que as crianças mais pequenas, de Joaquim para baixo, não podem sair. Para sair temos que pedir aos responsáveis. Só isso. E também, os mais velhos saem e não fazem os seus trabalhos de limpeza, deixam para os mais novos”. Apesar dessas pequenas contrariedades, não é difícil adivinhar que daqui a alguns anos, quando EDMILSON for adulto, terá muitas saudades também dos momentos que passou na Fundação com os seus amigos.


CACHARAMBA CAPINAR

álcool de cana

cortar as ervas para limpar o terreno

FRUTA-PÃO

fruta-pão : árvore frutífera que dá um fruto grande, redondo, de casca verde-amarelada, pode ser cozido ou assado e consumido como substituto do pão

GRAVANA MACHIM

estação seca e fresca (cacimbo, em Angola)

machete (catana em Angola e na Guiné-Bissau)

PALAIÊS

vendedoras de peixes

ROÇA

grande propriedade agrícola, para produção de café e de cacau no tempo colonial, (Fazenda em Angola, Ponta na Guiné-Bissau)

TCHILOLI

teatro tradicional mais conhecido por “tragédia”, que relata uma história do passado


“Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal” Declaração Universal dos direitos do Homem Artigo 3º

O

s meninos (homens e mulheres) do Huambo e doutras partes não conhecem as palavras que os protegem, os suaves discursos que em seu nome se espalham e criam ruído e som. Sabem da rua, do enviesado das esquinas e da cor fria da lua. Sabem da diferença entre o milho e a massambala e conhecem todas as formas de luta contra o esquecimento. Vida é uma palavra de longa extensão para quem nasce condenado a crescer sem saber de quantos partos se morre, para quantos partos se vive. Vidas são as contas do infinito rosário que se trabalha no número de bois, panos e dinheiro com que são trocadas para saltar os meses e os anos de filho em filho: leite para alimentar a vida, mãos para lavrar a terra, semear, colher, transformar, fechar os ciclos. São árvores de milagres férteis que se prolongam pelo mundo o tempo que lhes é permitido viver. A liberdade não se conjuga neste rio porque nas margens não se praticam as leis de sua própria natureza muito menos de sua fantasia ou vontade. A mulher, os seus muitos filhos são mais sinónimos de terra e essa nada pode contra os seus ciclos, suas águas e seus violentos tremores. A liberdade não se substantiva em nenhuma língua conhecida quando o universo é o dos mais fracos e sua especial condição de escravos, esposas, mães, filhos, órfãos. As mulheres deslocam rochedos com as mãos pequenas mas fortes e escurecidas pelo tempo, são os anjos da casa. Fazem nascer, curam e por vezes matam, por amor e posse. Nada sabem do direito à vida, da fantasia da liberdade ou dos caminhos mais seguros para percorrer a sua curta vida. Crescem os meninos na rua debaixo das árvores à solta com a pouca comida que sobra e agora são capazes de contar as histórias com muitas ou poucas palavras mas onde a sede e a fome estão sempre presentes.

A guerra foi uma longa caminhada em círculos sem casas, sem fogueiras, nem hinos à liberdade com bandeiras rasgadas e gritos de horror. Um silêncio espesso levanta o véu da noite e faz descer o medo ao som dos foles do ferreiro. Ser adulto começa para os meninos antes de tudo quando com as suas mãos já espalham sementes pela terra e cuidam dos pequenos alongando as costas de pele de cabra para os sustentar enquanto os ainda mais pequenos sugam as bagas de leite dos seios sempre cheios das mães. Tudo começa muito antes do dia em que na sombra da noite, descem sobre seus corpos mãos envelhecidas que fazem rebentar bombas sobre o seu sexo de anjos. Os gritos penduram-se facas na garganta escancarada da noite e ouvem-se humanidade afora mas nada detém o corte, a marca, a queimadura. Na noite sangrenta a linfa das virgens desce sobre a terra e desce para a boca ávida dos antepassados. Sangue de mártires a empapar e tornar fértil a terra dos espíritos. As mais velhas esquecem o passado, sua memória de meninas e os lugares de clausura a que foram obrigadas. Nascem depois os meninos e a orfandade. Correm as noites. Os que sobrevivem cantam em silêncio os sons da dor em muitas línguas. Em algumas delas tudo é considerado purificação. Transportam nos corpos os fios de seda da tradição abertos e repostos em dor todos dias. Helena, João, Mauro, José e da Silva podem agora soltar as vozes e encher a noite de histórias. Uma casa, um centro, okutiuka com paredes para permitir a vida faz rolar as narrativas, recordar que o mau é tempo passado e que todos os dias, todos os meninos, as mulheres, os homens tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal. Ana Paula Tavares Poeta angolana


ANGOLA Cabinda

LUANDA Malanje

Benguela

Lubango Namibe

Luena

Morro de M么co

Lobito

Huambo

Menongue


A “

ntes, eu batia muito, queria sempre vencer mas, depois de ter filhos, mudei muito. Quando me provocavam, eu dava surras. Ninguém me vencia. Viajava: Benguela, Menongue no Kuando Kubango, Bié. Ia passear, ver as minhas amigas”, quem fala é

a HELENA, uma mulher de 21 anos com um rosto doce, mãe de dois filhos pequenos, a Sónia e o Josi. A HELENA já sossegou mas continua a não gostar quando os moços da Okutiuka chacotam com ela.

HELENA já saiu do centro, onde viveu muitos anos. Vive agora numa pequena casa alugada no bairro de São Brás. Mas a sua história continua intimamente ligada à história da Okutiuka. A HELENA teve, até hoje, dois grandes ciclos na sua vida: o primeiro, quando era ainda um bebé, uma criança, uma adolescente, e o segundo quando se tornou adulta e mãe. Ou melhor dizendo: tornou-se adulta porque um dia teve um bebé.


Do primeiro ciclo podemos contar o seguinte: a HELENA nasceu no bairro de São Brás em 1989. São Brás não era ainda aquele bairro populoso que se tornou hoje. Naquele tempo à volta da Fábrica de leite era mato, quase não havia casas. Viveu seis anos com a mãe e o irmão mais velho, Hilário. A mãe deles era trabalhadora do serviço comunitário da cidade e varria as ruas. O salário era pouco e ela não tinha ainda casa própria.

“Às vezes ela lavava roupa para outras pessoas”. Outras

vezes, as crianças pediam esmola aos vizinhos. O Hilário lavava carros nas ruas para ajudar a família. Mas, mesmo com muitas dificuldades, a família aguentava-se. Infelizmente, a mãe não soube manter o rumo e guardar a cabeça fria. Começou a beber. Pouco a pouco, enfraqueceu.


Até morrer.

HELENA já frequentava a Okutiuka. Na altura, era uma casa localizada na cidade alta do Huambo, na rua da Granja, que dava o nome ao centro. Para os meninos de rua, havia refeições durante o dia, banhos, e o centro organizava piqueniques ou visitas a outras instituições. Havia também palestras sobre os Direitos da Criança. A HELENA era ainda muito pequenina quando a mãe morreu e não tinha ninguém para cuidar dela. Foi por essa razão que foi viver para a Okutiuka, mais precisamente com a coordenadora geral da Okutiuka, a Sónia que se tornou de facto a sua segunda mãe. Aliás, Sónia foi o nome escolhido pela HELENA para o seu primeiro bebé. Ela foi escolhida para ser a chará da bebé. Assim acaba o primeiro ciclo da Helena.

O segundo ciclo da HELENA é também uma história com meninos. Só que neste caso trata-se dos seus meninos, a Sónia e o Josi, chamado também Hilário pelas pessoas do bairro e Olivier por ela própria. O primeiro bebé da HELENA nasceu num lar para idosos, em Benguela. “Vendi

tudo o que era meu para fazer passagem de bias. Era 5000 kwanzas.” Grávida de seis meses, Helena fugiu, com muita raiva, do Huambo para Benguela porque, conta ela: “não

queria avistar-me com o pai do bebé”. Um pai, o Jojó, que não quis assumir a paternidade.


Em Benguela, foi ter directamente a casa da irmã mas “ela deu-me as costas – lamenta HELENA.

Não tinha família, tirando ela. A minha amiga Chica ofereceu-me a sua casa. Ela já era casada mas não tinha filhos. Fiquei lá quase um mês. Ela vivia na Baía Farta, um município de Benguela onde apanham muitos peixes. Depois, vendi a minha blusa para fazer passagem até Benguela. Em Benguela, procurei a Cruz Vermelha. Disseramme que não é aqui para receber as crianças. Fui no MINARS [Ministério da Assistência e Reinserção Social], disseram-me para vir outro dia. Insisti muito e eles me levaram no lar da terceira idade. Só fiquei um mês. Tive o bebé, que nasceu com quase 8 meses”. Com o bebé

já nascido, Helena telefonou à coordenadora geral da Okutiuka e pediu-lhe para ser a chará do bebé. “Ela gostou”. Quando o bebé fez uma semana, voltou para o Huambo num carro do MINARS. Na Okutiuka, toda a gente ficou feliz. Seis meses depois, alugou um quarto numa casa do bairro de São Brás e, para sustentar a sua nova pequena família, começou a trançar


cabelos. Ainda hoje, é cabeleireira. Faz tranças para quem quiser. Quando não há encomendas, aceita outros pequenos trabalhos. Assim, por 400 Kwanzas, pode carregar seis baldes grandes de água para algumas famílias do bairro. Como cabeleireira, já trabalhou em dois salões de beleza, mas nunca ficou muito tempo, porque o salário era pouco e porque não é fácil trabalhar quando se tem dois filhos pequenos e ninguém para dar apoio. Um dia destes, HELENA quer ter um negócio seu: vender arroz, óleo e postiços.

“Quando completou um ano, fiquei grávida outra vez”. Desta

vez, o pai do bebé era o seu primeiro namorado, o José, um moço que cresceu na Okutiuka e que vive agora com a sua mulher fora do centro. “Eu queria ter filho dele”, diz HELENA com um sorriso e o bebé nos braços. Desta vez, não fugiu. Depois do terceiro mês de gravidez, foi viver, mais uma vez, para a casa da Sónia. Aos oito meses, foi internada no Hospital. Tinha dores e havia um risco de aborto. Finalmente, o bebé veio no prazo certo, bem de saúde.


O nome que ela tinha escolhido para o bebé era Olivier, mas lamenta: “As pessoas

chamavam-lhe Hilário. Hilário é o nome do meu irmão. Não deu para tirar.”

Num bairro onde os vizinhos se vigiam uns aos outros e onde se fala bastante, não é fácil assumir as suas escolhas. “Olivier” não é um nome angolano mas era assim que a HELENA chamava às suas bonecas quando era pequena. Não é um nome qualquer: Olivier é também o nome da pessoa que ela escolheu para ser o seu pai, um francês que trabalhou muitos anos em Angola, primeiro para Médicos Sem Fronteiras e outras instituições, e a seguir para a Okutiuka. No centro, ele cuidou muito da HELENA quando ainda era pequenina e como ela explica com grande entusiasmo: “Nunca vou esquecer

o Olivier, ele é o pai, nunca vai deixar de ser. É bom reconhecer quem te fez o bem”.

Sobre a escola, a HELENA não tem muito que dizer. Começou a estudar em 1998/99, quando todos os meninos da Okutiuka fugiram da guerra e foram levados para Benguela. Entrou directamente para o 2º ano. Desistiu dos estudos em 2007, já era mamã. Com um pingo de tristeza na voz, comenta simplesmente: “Com

os filhos, sinto-me presa. Os meus filhos são muito doentes. Não passam dois meses sem ficarem doentes”.

Sustenta sozinha os filhos porque os pais não dão apoio. “Para dar apoio, tem que se falar com eles”, diz HELENA e ela, como muitas mulheres do bairro, não gosta de pedir “batatinhas”.

O irmão, Hilário, viveu muitos anos na Okutiuka e continua a trabalhar no centro como assistente de enfermagem. Às vezes, ele ajuda também nas limpezas do centro ou no banho dos meninos pequenos. Agora, com 26 anos de idade, tem casa própria e uma pequena lojinha onde a mulher vende produtos como velas, pilhas, e produtos alimentares.


O

JOÃO não é propriamente

tímido mas, mesmo assim, não fala com facilidade. As suas palavras são escassas. Antes de viver na Okutiuka, viveu algum tempo nas ruas do Huambo. Mas não foi nessa cidade que nasceu. Fez os seus primeiros passos mais a norte, na cidade de Bailundo onde vivia com os seus pais e irmãos. Até ao dia fatal em que, “por causa da guerra”, a mãe morreu. Em 2000, o pai decidiu deixar Bailundo com os filhos para ir viver no Huambo, a capital do planalto angolano. JOÃO tinha 6 anos de idade na altura. Não se lembra do bairro onde foram viver mas lembra-se muito bem da Betty, uma mulher jovem que o pai conheceu e que se juntou à família com os seus dois filhos. JOÃO lembra-se bem dela porque ela batia-lhe com ramos de pêssego quando ele não trabalhava: tirar água do poço, lavar pratos ou fazer compras.


Isso durou algum tempo mas, um dia, farto desse tratamento, JOÃO decidiu juntar-se definitivamente aos seus amigos que já viviam na rua. Esses amigos eram mais velhos, já tinham cerca de catorze anos e todos eles viviam num prédio grande e vazio, o FAPA. O prédio era perigoso para as crianças: já tinham acontecido acidentes tal como o de um menino que caiu de um andar alto e morreu. O edifício foi ulteriormente proibido pela polícia, mas durante algum tempo, o João fez a sua casa lá.

“Viver na rua foi muito mal – lembra-se o JOÃO – não havia comida, não havia roupa”. Sem falar da escola a que ele faltava. Antes de estar na rua, andava na 1ª classe.


Para garantir algum dinheiro, JOÃO e os seus amigos ajudavam as pessoas: carregavam as compras, do mercado da  rua do Comércio até às suas casas. Com os trocos que conseguiam, o grupo de meninos comprava pão, arroz, fuba. Para cozer, eles procuravam carvão, arranjavam umas pedras, uma panela e cozinhavam na rua. Ninguém os chateava na rua. Mas essa liberdade tinha custos. Para o JOÃO, o pior era não ter roupa. Apesar dessas dificuldades, nunca quis voltar para a casa do pai. O pai, por seu lado, nunca procurou saber onde ele estava.


O irmão mais velho do JOÃO, Avozinho, tinha também saído de casa do pai, mas não perdeu tempo nas ruas, foi directamente para a sede da Okutiuka onde os dois irmãos já tinham outro irmão mais velho. De vez em quando, JOÃO e Avozinho encontravam-se na Praça, mas não foi este último que trouxe o JOÃO para a Okutiuka. Quem o fez, foi uma moça jovem, a Tia, que o JOÃO nunca tinha visto antes e que nunca mais viu depois. Os dois falaram primeiro com a Tia Beti e, a seguir à entrevista do costume, o JOÃO, tal como os seus dois irmãos, foi aceite no centro. Sentiu-se imediatamente bem na Okutiuka. Nunca mais voltou para a rua. O maior sonho do JOÃO é ser jogador de futebol, mais precisamente lateral esquerdo. E se for possível, quer viajar e ficar noutra cidade, como Luanda, a capital de Angola. Mas antes de alcançar o seu sonho, JOÃO quer acabar a escola. De momento está no 5º ano.


O

MAURO nasceu em Luanda em 1998, mas veio com a mãe até ao bairro das Cacilhas, perto do Académico, quando ainda era bebé.

A avó materna contou-lhe muitas histórias sobre a sua infância:

“Ela me dizia assim que, quando era criança, a minha mãe me botou no rio”. A avó estava a sair do

campo e ia buscar comida quando se apercebeu da situação. Foi ela quem salvou o MAURO das águas do rio. “A minha mãe não me ligava”, diz simplesmente MAURO.


Depois desse episódio, quem cuidou do MAURO foi ela, a avó Brígida. “A minha avó me criou mesmo”, afirma o MAURO. A avó cuidou também do Saco, o primo mais velho do MAURO. Até há pouco tempo, ela tinha uma lavra grande onde cultivava batatas que vendia depois numa pracinha. “Às vezes, ela me levava com ela”, lembra-se MAURO.

“Nas Cacilhas, a minha mãe alugou um quarto, mas ela sempre vinha na casa da avó, e bocava para que eu ficasse com ela, conta o MAURO, mas a minha avó não queria”. Quando a avó fez 70 anos de idade, ficou doente. O Saco e as tias, Jova e Caija, foram então à procura do pai do MAURO.

”O meu pai veio buscar-me para ficar com ele. A minha avó aceitou. Fiquei muito feliz porque nunca lhe vi. Ele ficou feliz de me ver. Ele começou a me beijar mesmo e a dizer: MAURO, o meu filho!”, conta ele. Nunca antes tinha visto o pai. Já tinha

ido ao bairro de São João à procura dele, mas nunca tinha conseguido encontrá-lo.


O pai, Nando, vivia nesse bairro com a sua mulher mais jovem, Tina, e os filhos deles, de quatro e cinco anos. Tinham uma casa de blocos de três quartos, mas o pai raramente estava em casa porque conduzia um camião grande e viajava bastante. A Tina, por seu lado, tinha uma loja própria e vendia bolachas, sugos, gasosas e outros produtos alimentares.

Na casa do pai, a vida tornou-se difícil para o MAURO: “A

minha madrasta me tratava mal. Ela me puxava as orelhas! De manhã, quando era ainda um bocado de noite, ela acordava-me e pedia-me para cartar água numa cassimba” Ao longo do dia, o MAURO quase não tinha refeições. Só o pequeno-almoço era consistente: “Só havia mata-bicho, papa de fuba. Ela não me dava comida. Às vezes os meus amigos me convidavam para jogar bola e quando voltava, o almoço acabou”. Quando não ia jogar à bola, tinha almoço, mas pouco. Quando não havia mesmo, MAURO ia ter com a avó e ela dava-lhe comida. “Tinha lombi”.


Depois de alguns meses, a saúde da avó melhorou e o MAURO voltou para casa dela. Mas somente por um mês. Depois o pai veio buscá-lo. “Ele me pegou à força

e me meteu no carro. Mas eu não estava a aceitar”. A avó

também não aceitava deixar o neto mas não tinha forças para se opor ao pai do MAURO.

Essa experiência aconteceu três vezes. O pai vinha sempre quando o Saco não estava em casa e quando a avó estava na lavra. MAURO ficava em casa sozinho. Não queria ir até à lavra com a avó porque, para chegar ao campo, era preciso passar perto de um cemitério e o MAURO tinha medo desse lugar. Ainda hoje tem medo. A avó nunca o obrigou a ir com ela.


“Um dia, a avó e o Saco vieram buscar-me na casa do meu pai para lhe chamar a atenção. Para ele não fazer mais isso”. O pai concordou, mas perguntou: “Ele é o meu filho. Porque é que não posso vir buscá-lo?”. “Porque você não viu como eu lhe criei, você não me deu ajuda. Agora que cresceu, você veio buscá-lo”,

respondeu a avó. Finalmente e, por uns tempos, o MAURO viveu novamente com ela.

Mas nem por isso, a vida se tornou sossegada. Um dia, a mãe veio e disse-lhe:

“A tua avó que gosta muito de ti não te quer mais. Ela disse isso porque não gostava de mim – afirma o MAURO. Eu também não gostava dela. A minha mãe não me aceitava mais na casa da avó. Queria levar-me para a casa dela em Luanda. Aqui, ela tinha só um anexo.” Alguns meses antes do MAURO entrar na Okutiuka, a mãe mudou de comportamento.

“A minha mãe, quando bebia, vinha na casa da avó. Ela esperava que toda a gente adormecesse para me bater com chicote”, lembra-se. A avó

acordava mas não tinha força suficiente para se opor à mãe. Ela só podia falar. MAURO assustou-se e disse à avó que ia embora. “Eu fiquei um tempo na rua. Três semanas”.

Na rua, MAURO dormiu num quarto de chapas de zinco com outros meninos de rua que o tinham convidado para ficar com eles. Por estar na rua, deixou a escola e não ia mais a casa da avó. “Eu tinha medo da mãe, e tinha roupa suja”, diz ele.


Um menino de rua, que já tinha estado na Okutiuka, indicou-lhe a coordenadora do centro que, naquele dia, estava num restaurante. O menino disse-lhe assim: “Como estás a sofrer muito, fala com ela para ela te levar na Okutiuka”. Mauro abordou a Sónia e pediu-lhe: ”Leva-me hoje para Okutiuka!”. Por causa de uma viagem marcada, a Sónia não teve tempo naquele dia para falar a sério com o Mauro. Mas, dois dias depois, eles encontraramse de novo no Parque da Cultura e a seguir na Okutiuka. “No carro, lembra-se o Mauro, ela me fez perguntas”. No centro, a tia Beti continuou a entrevistá-lo e, a seguir, o MAURO foi entregue aos cuidados do Cachibango para “me banhar e me dar roupa. Para me

levar à cozinha, aos quartos. Me mostraram tudo. Depois disseramme: Você está livre. Podes ficar aqui mas tens que visitar a tua família. Só vou visitar a minha avó”. Ele vai visitá-la aos domingos mesmo se “às vezes falta. Ela diz: Vem visitar-me. Ela pergunta-me aonde eu vivo. Ela não conhece”. O Saco já não vive na casa da avó, mas MAURO também o vai visitar. Quem ele nunca vai visitar são os seus pais.

De momento, estuda na 3a classe. “Para ser Governador! – afirma ele – e ajudar a minha família”. O MAUROsabe que o Governador tem um palácio aqui no Huambo e uma casa em Luanda. “Mas ele tem uma casa aqui também!”.  


E

u vivia com a minha avó, lá na Maiaia, na Chipipa, na direcção de Londuimbali, a última comuna do Huambo, enquanto os meus pais viviam no Central, no Bairro Benfica”. Quem fala é o JOSÉ,

uma pessoa sempre bem-disposta e alegre.

Quando fez quatro anos, a avó, com quem vivia, faleceu. A mãe, uma mulher jovem, veio buscá-lo. “A minha

mãe teve dez filhos, dos quais seis morreram”.

“Ela me levou para a casa do chará. Ele era o marido duma tia minha. Lá, fiquei com ele. Ele me batia bué, maltratava”.

O chará mandava o JOSÉ pedir esmola na rua. Se, no final do dia, não conseguia dinheiro, não tinha jantar. A tia não concordava com a atitude do tio, mas calava porque o tio era muito mau. Porque estava a sofrer muito, um dia JOSÉ decidiu ficar na rua.”Eu sentia-me

mais forte. Pedia esmola no mercado. Quem não me dava, eu chorava”. No mercado, uma vendedora contou-lhe que o centro São Francisco de Assis acolhia meninos de rua. Pouco tempo depois, umas freiras mexicanas apareceram e levaram-no para esse centro. “Lá, deram-me um banho”, diz ele. “Na rua, estava sempre

sozinho, dormia em baixo dos prédios, arranjava caixas de televisão, etc. Estendia-me no chão, apanhava chuva mesmo lá”. JOSÉ nunca tentou proteger-se melhor. Ficava sempre no mesmo prédio, chamado prédio da “Farmácia Trigo”. Na altura, ainda estava aberta e tinha guardas.


O JOSÉ sempre teve um anjo da guarda. Um deles era a Mana Bela, uma moça jovem que lhe dava sempre de comer e roupa. Nunca perdeu de vista a Mana Bela: quando não tem nada que fazer, vai visitá-la na cidade baixa, onde ela vive. Ela recebe-o como um filho que nunca teve. Naquele centro São Francisco de Assis, ficou três dias até que o padrasto, que andava à sua procura, veio buscá-lo. Ambos voltaram para o Central. Continuava mauzinho com o JOSÉ. Já não o mandava para a rua pedir esmola mas continuava a bater-lhe. “Depois duma

semana, saí de lá. Voltei para a rua”.

Desta vez, ficou noutro lugar, na rua 3 na cidade baixa. Lá, encontrou-se com o Zezinho e o China, dois jovens adultos que não viviam na rua. Foram eles que o levaram para a Okutiuka.


Nesse dia, não havia ninguém na Okutiuka. Uma vizinha informou-os que todos os meninos e responsáveis do centro tinham saído, e que estavam no aeroporto para viajar até Benguela por causa da Guerra. “Para mim, a

Guerra não era importante, o mais importante era ficar sossegado na Okutiuka”. Depressa,

foram até ao aeroporto onde se encontraram com os outros. JOSÉ ficou com eles. Naquele dia não houve avião. Voltaram todos para a Granja, a antiga sede da Okutiuka e ficaram lá mais uma noite. Cedinho, no dia seguinte, arrumaram as coisas e foram novamente para o aeroporto. “Eu, não tinha nada,

só uma camisa e as minhas calças”. Finalmente, por volta das 11 horas

um avião da LAM chegou. Entraram todos no avião que os levou para o Lobito. Lá, ficaram três dias num lugar chamado Restinga. Depois, viajaram até Benguela e ficaram mais dez meses no bairro da Fronteira. Um dia de 2000, voltaram todos de avião para o planalto.

No Huambo, “Alguns

meninos voltaram para as suas famílias. Eu voltei para a casa do chará onde fiquei um ano”. O chará não tinha perdido os seus maus hábitos: ”Uma manhã, ele aleijou-me com um lemo”. JOSÉ

ainda guarda no cimo da cabeça uma grande cicatriz dessa cacetada. No final da tarde, ainda a sangrar, fugiu pela terceira vez e correu até Angop, onde encontrou refúgio num prédio. “Uma moça chamada

Lídia viu-me a chorar. Ela me deu banho, enxugou o sangue e fez uma ligadura. Dormi na sua casa. No dia seguinte, procurei Okutiuka. Já não estavam na Granja, tinham mudado de morada. Estavam na Fábrica de leite. A partir daí fiquei lá, até hoje.”


Quando se lhe pergunta sobre a escola, responde: “A escola

em 2000 ficava na Fábrica de leite”. Era uma

classe preparatória para toda a comunidade que preparava os meninos para a escola onde eles iriam no ano seguinte. Mas o JOSÉ desistiu da escola. Preferia ficar o dia todo fora do centro. Uma das razões é que temia os meninos mais velhos: “Eles nos

batiam, nos tiravam as nossas coisas. Eles eram muito maus”. Esses

casos duraram até 2004.

Naquele ano, José começou a trabalhar num talho no Mercado Central: ”Eu batia

ossos de carne com machado. O mercado ainda não estava reabilitado e cada um vendia as suas coisas. Vendedoras mandaram-me vender carne de vaca e porco. Se vendia um tabuleiro cheio, ganhava 100 kwanzas. Por dia ganhava 500 kwanzas”.

Mas o JOSÉ nunca poupou dinheiro. Sempre o entregava a um moço mais velho do centro, Do Hila. “Para este se alimentar”, declara. Mas também para que o Do Hila, em retorno, o protegesse contra os ataques dos mais velhos.


Um dia, não foi ao mercado vender carne. Explica: “Parei mesmo,

com a minha própria vontade. Já não queria mais, porque entrei na Igreja Católica. Primeiro, eu andava assim na Igreja aos domingos. Eu gostava muito dum grupo de adolescentes desta catedral. Integrei o grupo para conhecer as pessoas. Eu tornei-me religioso porque havia um pastor da Igreja Baptista que me dizia: Ó meu filho, tens que conhecer a Bíblia. Daí, ele me meteu num curso bíblico. Fiquei no curso um ano, e depois comecei a enquadrarme, mesmo ali. Depois de conhecer a Bíblia, virei um Cristão”. De vez em quando, o

José lê a Bíblia para os outros meninos da Okutiuka. “Mais para mim, e todos os dias”, afirma ele.

JOSÉ quer ser serralheiro e quer ficar no

Huambo. Ainda não estudou para o ser mas já tem um “Mestre”, o senhor Alexandre, um artesão que trabalhou muito para a Okutiuka. Quando questionado sobre esses anos todos no centro, responde que Okutiuka é como a sua família.


O

DA SILVA tem 22 anos, é o

jovem director da gestão e da contabilidade da Okutiuka. Nem sempre teve essa grande responsabilidade no centro, mas preparou-se durante alguns anos para assumir esse papel. O DA SILVA nasceu no Huambo em 1988. Não se lembra do pai porque morreu antes dele nascer. Mas tem uma boa recordação da mãe com quem ele e o irmão mais novo, filho de um pai diferente, viveram os dez primeiros anos da vida. Naquela altura a família vivia no bairro Bom Pastor na comuna de Capango, nos arredores do Huambo.

A mãe chamava-se Rosalina e era ainda uma camponesa de 18 anos quando deu à luz o DA SILVA. Como não havia homem em casa, a Rosalina tratava de tudo. Tinha um campo próprio onde cultivava sozinha. O campo dava milho, feijão, mandioca, batatas, massambala, consoante o período do ano. Quando era preciso, a Rosalina alugava um par de bois para lavrar a terra. Quando ganhou forças, o DA SILVA começou a ajudá-la: sachava o capim no meio das batatas, do milho, lavrava a terra, fazia a colheita. A família tinha um quarto próprio para armazenar os produtos da lavra. Dois ou três dias depois da colheita, Rosalina ia vendê-los ao Mercado de São Luís e do Bom Pastor.


Mesmo com dias difíceis, a família aguentava-se. O DA SILVA e o irmão iam à escola, mas muitas vezes faltavam às aulas e por isso reprovavam. Em meados de 1996, a mãe deles adoeceu. Durante um ano e meio teve muitas dores e perdeu cada vez mais forças. No início da doença, Rosalina tentou curar-se com medicina moderna mas, como a sua saúde não melhorava, combinou os medicamentos com raízes e plantas da medicina tradicional de um kimbandeiro. Nada disso resultou. Pelo contrário, a sua saúde piorou. Preocupados, os seus parentes levaram-na para o Hospital Central do Huambo onde ela ficou três meses e acabou por morrer. Nunca se soube ao certo porque é que ela morreu. A família acredita que foi um mau feitiço. O DA SILVA tinha 10 anos de idade e o seu irmão 5 anos. Foram momentos de muita dor para os dois.

Sozinhos, os irmãos foram acolhidos pela tia Rosaria, uma das irmãs da mãe. Ela já tinha três filhos. Na casa dela as condições eram difíceis. A Rosaria era comerciante: vendia fuba, arroz, óleo, feijão e outros produtos alimentares no Mercado de São Luís e Bom Pastor. Os filhos iam à escola, mas ela nunca quis matricular os dois irmãos. Ir ao mercado vender coisas era a única actividade deles. Quando o DA SILVA opunha resistência, a tia dava-lhe

“uma boa surra com a mão ou com uma mangueira que magoava o corpo, inflamava a pele e às vezes os olhos”.

A tia não se ficava por aí, amarrava-o também com uma corda a uma cadeira durante uns vinte minutos. Quando o DA SILVA cresceu e começou a opor uma resistência física maior, a tia amarrava-o primeiro, duas horas seguidas, e batialhe. Nesse dia, não recebia comida.

Magoado e castigado por esse tipo de vida, o DA SILVA começou a fugir de casa. Ele já tinha amigos no bairro e preferia passar o tempo com eles na rua. À noite, já não voltava para casa da tia e preferia dormir em casa dos amigos. A tia não se importava com a sua atitude. Apesar disso, quando precisava mesmo dele, mandava um dos filhos buscá-lo.


Passaram-se dois anos assim, antes do DA SILVA ser levado por alguns dos seus amigos até ao centro da Okutiuka. Tinha doze anos de idade na altura. A Nanda, uma coordenadora que já não trabalha no centro, atendeu-o e, depois de ouvir a sua história, deixou-o ficar no centro. Dias depois, o DA SILVA foi buscar o irmão, o Benedito, conhecido por “Cebo” – uma alcunha derivada de cebola. A Tia Rosaria não comentou, nem reagiu à partida dos dois irmãos. Anos depois, ela deixou o Huambo para ir viver em Benguela. O DA SILVA foi um dos meninos que ajudaram a construir grande parte do centro. Quando a Okutiuka se instalou na fábrica de leite, no bairro de São Brás, os edifícios estavam abandonados e bastante destruídos pela guerra. A vida no início assemelhava-se a um camping.

“Capinávamos o local, dormíamos em tendas, a alimentação era feita num jango que foi por nós construído. Os pequenos iam buscar a água num riacho e os mais velhos faziam os adobes. Comprávamos a comida no mercado e voltávamos a pé com os produtos em cima da cabeça”, conta o DA SILVA. Apesar disso: ”a vida era melhor do que na casa da tia”.

Quando o centro foi posto de pé, as coordenadoras do centro, a tia Beti e a Nanda, prepararam um programa para que os meninos pudessem entrar nas escolas públicas e, no primeiro dia do ano escolar, houve uma apresentação para explicar as suas situações aos outros meninos.

“Na escola não havia muitas condições mas os professores ensinavam realmente”, lembra-

-se o Da Silva.

Ao longo dos meses, a Okutiuka contratou carpinteiros, serralheiros, motoristas, cozinheiras para construir e ajudar nas diferentes tarefas do centro. Os meninos estavam envolvidos nas actividades todas e, dessa forma, recebiam uma aprendizagem. O DA SILVA foi colocado na área da logística, sobretudo na logística alimentar. Supervisionado pela tia Beti, registava as doações, contabilizava os produtos, entradas e saídas. “Viram que o

meu comportamento era positivo, então mudei para a administração da Okutiuka”.

Na altura, ele estava na 7ª classe e quem chefiava a administração do centro era o Hernâni. Com ele, aprendeu a arrumar arquivos. No ano seguinte, seguiu um curso de informática durante quatro meses. Depois desse curso, estava pronto para ajudar o Hernâni a inserir a contabilidade toda.

“Gostava daquilo que estava a fazer”, comenta e “depois desse curso, puseram-me como adjunto da administração cá no centro e, daí, comecei a receber um pequeno ordenado”.


Em 2007, o Hernâni demitiu-se e o DA SILVA assumiu o cargo. Tinha dezanove anos. O seu ordenado “subiu um bocado. Já dá”, afirma ele. Como director, também assume o papel de formador dos mais jovens. Neste momento, o Anjo, o Anderson, o Sebilson e o Nataniel são os seus assistentes e têm dias de trabalho pela frente: estão a inserir dados que cobrem vários anos e que, por causa de um vírus informático, foram totalmente perdidos. Em 2010, o DA SILVA recebeu da Okutiuka, no bairro de CaloBrinco, “que a gente aqui chama de Irak”, uma casa com quatro quartos. É onde vive agora, sem família por enquanto. Acerca do seu futuro, o DA SILVA tem algumas ideias: quer entrar na faculdade para seguir um curso de Electromedicina ou um curso de Direito. “Mas há que pagar qualquer coisa”, diz ele. E esse qualquer coisa não parece ser uma coisa tão legal como as propinas. Mas, qualquer que seja esse futuro, quer continuar a ajudar a Okutiuka.

Quando questionado se os meninos recémchegados ao centro são bem tratados pelos mais velhos, o DA SILVA responde: ”Antigamente,

quando um novo vinha, ele levava uma porradazinha”. Parece que já não é assim. “Os mais velhos acabam por deixar o centro. Aqueles que ficam explicam aos mais pequenos o que é o centro – comenta o DA SILVA. Não há conflitos. Respeitam”.


BIAS BOCAR

mandar bocas

CAPINAR CARTAR

cortar as ervas para limpar o terreno tirar água do poço (o mesmo que catar, na Guiné-Bissau)

CASSIMBA

poço de água

CHACOTAR

gozar

CHARÁ

COMUNA

camioneta

alguém muito bem considerado,   homenageado com seu nome dado a filhos, aspirando-se a que estes sigam os mesmos passos na vida sub-divisão dos municípios (o mesmo que Sectores, na Guiné-Bissau)


FUBA FUNGE

farinha de milho farinha de mandioca cozida

JANGO

espaço redondo de tecto cónico que serve, nas aldeias, para as reuniões comunitárias (o mesmo que djemberem, na Guiné-Bissau)

KIMBANDEIRO

curandeiro ou pessoa que trata males espirituais e físicos com ervas, amuletos, etc.

LEMO LOMBI MATA-BICHO

instrumento de madeira, usado na cozinha para fazer pirão

verdura para comer com funge pequeno almoço

MASSAMBALA SACHAR O CAPIM

sorgo, cereal que se come em forma de farinha

remexer a terra para tirar ervas daninhas


Crianças e jovens que participaram nos ateliês criativos Bissau Abdulai Baldé, Abdulai Djaló , Adilson Reinaldo Infada, Amado Cissé, Aquelina Có, Armanda Sanca, Assimeu Mané, Augusta Có, Avilino Fernando Có, Brigida Goncalves, Carlitos Antonio Indi, Carlos Antonio Indi, Dala Mané, Daniel Paulo Insali, Daniela Victor Có, João C. Sanhá, Desejado de Oliveira, Dionildo Embaló, Domingos Cá, Eduardo Indi, Elciana Paulo Có, Elicandra Lopes S. da Gama, Elvira S. Quadé, Erikson Ramiro Có, Eluide Marcelino T. Fonseca, Eti Midana Cá, Fatua Gomes Duturna Ntchala, Francilina Nunes, Fransisco da Silva Junior, Gamal Abdel Augustinho da Silva, Helton Honorario Nanque, Isalmira João Gomes, Ivania Djaló, Ivanildo Sini Sá, Jaime Sá, Jean Preto G. Cá, Laerson Paulo Có, Libania Sá, Madane M. Nhaga, Maiquel Antonio Indi, Mamadu Djaló, Manuela Ié, Musso Djatá, Nelito da Silva, Nice Indi, Ninfa Maria Pam, Nuno Tchudá Nhaga, Ocante Indi Junior, Paulino Luis, Rubem Djú, Sabino Teixeira, Sadi Dafé, Saído Baldé, Sandira A. Cunba, Secuna Camará, Sãozinha Mendes, Soraia Paulo Sanca, Souza Domingos da Silva, Suleimane Cassamá, Teresa Buque Gomes Có, Ussumane Baldé, Wilson Júlio Tamba, Wilson Mário de Oliveira. São Tomé Abilio dos Santos, Alzeza e Silva, Ana Mandinga, Arline Cabral, Bruno Vaz, Carolina Azevedo, Cleria Salvaterra, Edmilson Managen, Fernando Dias do Rosário, Hamilton Soares, Herlander Salvaterra, Jakson  Vaz do Rosário, Joaquim d’Álva, Joidson Jorge, Marlene Maria, Nadilza, Nela dos Santos, Neusa Salvaterra, Nito Correia, Patrick Piedade Pakira, Paulo Jorge dos Santos, Regina Sousa, Santa Mandinga, Yonara e Silva. Huambo Adão Sapalo, Agostinho Mukunda, Albino Lucas, Alberto Jongolo, Arnaldo Chingui, Aurélio dos Santos, Aurélio João, Assis Missõe, Benedito Garcia, Bento Calianguenda, Carlos Santos, Celestino Cambalundo, Celestino Miudinho, Daniel Abílio, Daniel Baptista, Davide Catchota, Dinho, Domingos Artur, Domingos Cassinda, Domingos Tavares, Eduardo Mbueti, Eduardo da Silva, Estevão, Chimbalandongo, Gabriel Kassoma, Graciano Hossi, Graciano Somaquessenje, Guilherme Cameia, Joaquim Mota, João Campos, João Domingos, José Alfredo, José Pedro,, José António, José Capuca, José Litalato, Júlio Chiovo, Helena Livanga, Ito Jamba, Lázaro Chindandi, Manuel Cassinda, Maria Joaquina, Maria Adelaide, Martinho de Lima, Mateus Jacob, Maurício Jamba, Mendes Hossi, Miguel Tomás, Milagres Cândido, Moisés Suyeipia, Nataniel Segunda, Pascual Sachissapa, Paulino Bernardo, Paulino Calima, Paulino Katumbela, Paulo Quinta, Pedro Calakuenhe, Pedro Querino, Sabino Wanga, Venâncio Bernardo , Venâncio Muenho,Victorino Wassuca, Paulo Jerónimo, Victor Tiago.


Agradecimentos Um agradecimento a todos os jovens, rapazes e raparigas, que participaram nos ateliês. Sem eles nada feito. Angola Ao Jaime, à Tia Beti e ao pessoal todo de Okutiuka, uma grande e bela família. Ao Alessandro Bini, pela amizade e pelo alojamento. À Natália Ferreira e Edgar Cameira, pelo apoio em Luanda. Guine Bissau A Nara Lee, minha aluna da MICA, que foi a minha assistente exemplar durante o mês todo dos ateliês. Aos assistentes da AMIC: Pombo Camala, Almeida Quibumba, Nenita Nhaga, Tona, Admane, Isuf, Carlos Ie, Porreiros assistentes da AMIC Ao Saído pelos seus desenhos Ao Eugénio Jorge Mango da AD, pelo apoio em São Domingos A Marta Jorge, pela amizade e pelo alojamento Ao meu irmão Aruna Embalo e à sua mulher, a Ussai, pela amizade e jantares partilhados A Alice Mane da Rede Ajuda (RA), pela visita às tabancas e às madrasas do sector de Buba Ao Miguel, pelo almoço e a visita ao Hotel Coimbra. Cabo-Verde Ao José Sousa Dias, pelo jantar e pelo abrigo. São Tomé Aos jovens de Novo Futuro. Aos assistentes de Novo Futuro: Marisa Afonso, Gina Afonso, Carla Castro assim como: Hyneida, Carla, Genifa, Vania, Idelson, Junila, Yuran, Alan, Liana, Lauricy, Junila, Tatiana, Ednita, e por fim ao Eugenio que, para a realização de uma exposição na Alliance Française, continuou a trabalhar com o grupo de jovens durante 3 meses depois da minha saída. À Paula Borges, pelo passeio até Porto Alegre. Ao Clément e ao Marc Brebant da Alliance Française. Ao Wannes, Paul e Elsa, pelos momentos partilhados na cidade de São Tomé. Lisboa À Cristina Sampaio, amiga de sempre. Agradeço também a equipa toda da ACEP, ao Fernando e ao Laudolino da AMIC, à Sónia da OKUTIUKA e à Dulce da Fundação NOVO FUTURO, pela confiança que me deram e pela amizade partilhada. Por fim, agradeço a minha mulher Glicínia e os meus filhotes René e Hilla, que me deixaram sair de casa durante o Verão todo.


Este livro é, em primeiro lugar, fruto do empenhamento e sabedoria do Alain Corbel e das crianças e jovens, que são os seus autores. E foi possível graças à cumplicidade de muitos outros nos 4 países (Angola, Guiné-Bissau, Portugal, São Tomé e Príncipe). Obrigado à Ana Paula Tavares, à Conceição Lima e à Odete Semedo, pela sua leitura das histórias no contexto dos seus países. Uma instituição, a CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, compreendeu a importância deste projecto, o apoiou e financiou. Obrigado também à FCG - Fundação Calouste Gulbenkian, que lhe permitiu melhores condições de realização com o seu co-financiamento. Que estas histórias quebrem inércias e nos levem a reflectir e agir!

Título Vozes de Nós – Bissau, São Tomé, Huambo Coordenação dos ateliers e recolha das historias Alain Corbel Fotografias Alain Corbel Ilustrações Crianças e jovens participantes no projecto em Bissau, São Tomé e Huambo Coordenação da edição ACEP Colecção Arquipélago (ver www.acep.pt) Criação de Arte Armanda Vilar Revisão Liliana Azevedo Edição ACEP - Associação para a Cooperação Entre os Povos Av. Santos Dumont n.57, 4Esq., 1050-202 Lisboa acep@acep.pt | www.acep.pt com AMIC – Associação Amigos da Criança (Bissau), Novo Futuro (São Tomé) e Okutiuka (Huambo) Apoio financeiro CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa; FCG – Fundação Calouste Gulbenkian Pré-impressão, impressão e acabamentos Guide – Artes Gráficas ISBN 978-989-96229-6-8 Depósito Legal 322423/11



Vozes de Nós 1