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DEZEMBRO — MARÇO · 2011/12 ASSOCIAÇÃO RENOVAR A MOURARIA WWW.RENOVARAMOURARIA.PT DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

Clélia Pondja 29 anos moçambicana recém chegada à Mouraria a fazer doutoramento em Antropologia


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Rosa Maria

Dezembro — Março, 2011/12

destaque texto Ana Luísa Rodrigues e António Henriques fotografia Camilla Watson

Tem-te, não caias

Prédios a cair para o lado, pessoas de idade a viver em condições miseráveis, restaurantes que fecham. Há quem teime em reabilitar imóveis, mas a trama de dificuldades é complexa. Na Mouraria existem centenas de casas vagas ou em mau estado - paredes à espera e moradores que desesperam. Em 21 de Fevereiro de 2010 houve uma derrocada junprograma, criado em 2003, tinha como objectivo “reto ao número 16 das Escadinhas de São Cristóvão. Não cuperar conjuntos de edifícios degradados, propriehouve vítimas, mas o prédio devoluto que ruiu pardade da autarquia, destinados uns a venda, preferencialmente, afectou os vizinhos. Desde então, Manuel cialmente a jovens, e outros a realojamentos”. Lorenzo tem o seu restaurante fechado e e o seu comUm apartamento entretanto reabilitado na rua da padre Joaquim está impedido de ir à casa de banho da Amendoeira, foi à praça no último leilão da EPUL, em sua casa Dezembro. Tal como escritórios no Martim Moniz. O relatório dos bombeiros, que nesse dia acorreram Como foi noticiado no Rosa Maria nº2, alguns imóao local, é claro: “Foram delimitadas zonas de risco em veis camarários irão ser requalificados na operação de caso de queda da parte restante.” (ver caixa). Acontereabilitação urbana da Mouraria. No entanto o prograce que uma das zonas interditadas é o saguão onde se ma vai intervir sobretudo no espaço público, esperansitua a casa de banho de Joaquim. Aliás, nessa mesma do os responsáveis que esta mudança estimule os pronoite, depois do primeiro susto, abateu ainda “uma prietários a recuperar e valorizar os seus imóveis. pequena parte que tinha ficado em suspenso”, de Mas a reabilitação dos edifícios é uma tarefa de toacordo com o mesmo relatório. Segundo os bombeidos. Até porque, num terreno inclinado, os problemas ros, a origem do sinistro neste prédio camarário dede uns representam normalmente problemas para os ve-se à “degradação e falta de conservação”. outros. A Mouraria situa-se na colina norte do Castelo. No dia seguinte ficou decidido tomar medidas para E em vários casos que aqui mostramos, a realidade faz avançar para a demolição do imóvel. Até hoje. lembrar um castelo de cartas. Esta história com contornos quase caricatos faz parte do quotidiano de muitos moradores da Mouraria e de outros bairros históricos. Lisboa tem, desde há décadas, um grande número de fogos e de edifícios devolutos, ou seja, vagos. Esse parque habitacional ESCADINHAS DE S. CRISTÓVÃO, nº 16, em espera, que cresceu na última década, é tanto de PÁTIO 9 propriedade privada, de propriedade da câmara ou de Emergência em suspenso empresas públicas, como é o caso da EPUL. Para as pessoas que trabalham na capital e são obriO espelho da casa de banho gadas a ir viver para as cidades em redor ou mesmo ainda é visível. Resiste ainda no para mais longe, é um fenómeno quase incompreenmesmo lugar, ao contrário de sível. Para os habitantes de Lisboa é também surpreparte do prédio, esventrado há endente continuar a constatar que algumas das artéquase dois anos. rias centrais se despovoam no fim do dia de trabalho. Manuel Casal Lorenzo recorda-se Segundo os dados do último Censos (2011), Lisboa bem desse dia. É arrendatário da tem 547 mil habitantes - ou seja, perdeu em dez anos câmara num prédio vizinho ao que 3,4 por cento da sua população residente. De acordo caiu. Por isso a sua tasca da Galega, com a mesma fonte, entre os habitantes da cidade, negócio de família há décadas, teve 3153 pertencem à freguesia do Socorro e 1333 à frede fechar portas. “Já perdi a conta guesia de São Cristóvão e São Lourenço. a conta à quantidade de vezes que Em Portugal, o segmento da reabilitação urbana fui à Câmara reclamar!”, conta representa cerca de 8% do sector da construção, basManuel, afirmando que desde esse tante abaixo de média europeia. dia nada mais foi feito naquele A maioria dos edificios degradados da Mouraria são prédio. A falta de entendimento de particulares. Mas a Câmara Municipal e a EPUL são com a autarquia levou já o caso também proprietários de vários imóveis. Às pergunpara tribunal. tas do Rosa Maria sobre qual a razão para este panorama, a EPUL refere que vários prédios Mouraria tem mais de 150 edifícios pertencentes a esta empresa por recuperar pública “continuam a aguardar financiamento, embora No Levantamento do Parque Edificado Devoluto da Cidade de Lisboa, elaborado pela tenham projectos de reabilitaautarquia, refere-se que em São Cristóvão e São Lourenço há 48 edifícios parcialmente vagos ção (predominantemente para e 15 totalmente vagos (contando nestes últimos duas vilas, ou seja, dois conjuntos de várias habitação).” Segundo a emhabitações). Assinale-se que, nessa lista, todos estes edifícios aparecem como sendo de presa municipal, “nem a EPUL propriedade privada ou de particulares, à exceção dessas vilas e de dois outros imóveis. nem a Câmara de Lisboa disJá na freguesia do Socorro, contam-se 74 números de porta como parcialmente devolutos põem de verbas suficientes” e 23 são dados como totalmente vagos. Dos imóveis ou conjuntos de imóveis referenciados para continuar a desenvolver nesta freguesia, 14 pertencem à câmara ou à empresa municipal EPUL. o Programa Lisboa a Cores. Este


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罗萨玛丽亚

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RUA JOÃO DO OUTEIRO, Nº46 a 48

Devoluto e emparedado TRAVESSA DO TERREIRINHO, nº 16 a 20

Nos anos 90, a autarquia comprou o imóvel, alojando em outros locais da cidade os proprietários e inquilinos. Posteriormente o edifício passou para as mãos da EPUL e em 2003 integrou o programa de reabilitação urbana Lisboa a Cores, entretanto suspenso. Em resposta ao Rosa Maria, o Gabinete de Comunicação da EPUL refere que este edifício tem já projecto de reabilitação, mas aguarda financiamento. A EPUL diz que “todos os moradores dos prédios integrados no Lisboa a Cores estão realojados noutros locais, existindo o compromisso para o regresso da maior parte deles ao local de origem.”

BECO DO JASMIM, nº24 a 26

Reabilitar o prédio onde nasceu Paulo Santos tem 24 anos e mora no Beco do Jasmim, freguesia do Socorro. Com 18 anos decidiu tomar em mãos a tarefa de recuperar a casa da avó. Ao Rosa Maria recordou, na primeira pessoa, as peripécias para reabilitar o edifício. Uma história movida pelo afecto e pelas memórias de família. Em Setembro de 2006, após saber que os proprietários se queriam desfazer do prédio, decidi avançar com a compra do mesmo, de modo a poder ser o dono da casa onde nasci (1º andar) e conseguir arranjar a casa da minha avó (rés-do-chão). Queria dar-lhe a casa que ela nunca teve - esse era o principal objectivo e foi o único que não consegui atingir. Em 2010 a minha avó teve vários AVCs e actualmente vive em Sintra com os meus pais, acamada e totalmente dependente. A minha ideia era fazer uma obra de fundo, e não de “lavar a cara”. O estado de conservação do prédio era bastante mau, estava mesmo muito degradado, e não me arrependo de ter tomado essa decisão. Comprei o prédio em Maio de 2007 e dei início às obras nesse mesmo mês. O primeiro empreiteiro ficou a dever-me 50 mil euros. A minha obra foi embargada em Agosto de 2007, e nessa altura é que vieram os problemas. Tive de apresentar um projecto de alterações, que foi aprovado, e os projectos das

Dormir na sala

Na casa do Sr. Carlos Cardeira (na foto) trava-se uma batalha inglória contra a humidade. Morador no rés-do-chão de um prédio na travessa do Terreirinho, a água escorre-lhe muitas vezes pela parede do quarto. De tal forma que não teve outra solução senão mudar-se e dormir na sala da frente. António Lourenço, morador do lado, também se queixa: “Pintei a parede há três dias, mas não dá resultado!” E as manchas já começaram a aparecer. Os inquilinos deste prédio afirmam que o senhorio já foi intimado pela autarquia a fazer obras, mas sem sucesso. De acordo com João Bento, morador no primeiro andar, “as infiltrações vêm do prédio traseiro, no Largo das Olarias, que também está em mau estado”. Mas no prédio do Sr. Cardeira e do Sr. João são também precisas obras. De acordo com os inquilinos, o telhado deixa entrar chuva muitas vezes. Os andares superiores do prédio estão vagos – das oito casas do imóvel só quatro estão ocupadas. O Rosa Maria tentou falar com o proprietário do edifício, mas sem sucesso.

especialidades. Só consegui desbloquear a situação em Julho de 2010, data em que tive a licença de construção. Com toda esta confusão, o banco onde me financiei começou a levantar muitos problemas, porque eu já tinha dado dinheiro a mais ao primeiro empreiteiro. Para conseguir concluir a obra, necessitava de mais dinheiro, que não tinha, e que o banco se recusava a emprestar. Nessa altura conheci o engenheiro José Manuel Gomes, gerente da empresa Flores e Gomes, que me ajudou a resolver este problema. Tenho uma grande dívida de gratidão para com ele. Apesar de lhe ter pago, o que ele fez por mim não tem preço. Um dos principais obstáculos que senti foi o mau funcionamento e a falta de apoio da Câmara Municipal de Lisboa. Por isso aconselho: antes de se iniciar uma obra devemo-nos sempre informar junto dos serviços camarários dos procedimentos a levar a cabo, para não sermos surpeendidos como eu fui. Uma obra embargada custa muito dinheiro, e a sua legalização é mais morosa. E em tribunal não é válido dizer que não se conhece os procedimentos legais. Com o prejuizo dos 50 mil euros que tive do primeiro empreiteiro, a recuperação do prédio fixou-se nos 155 mil euros, incluindo projectos, certificados energéticos e licenças. Este prédio tem a particularidade de ter uma estrela entre o 2º e o 3º andar. Dizem que em tempos pertenceu a um judeu, mas tenho de confirmar isso. É uma das tarefas que ainda tenho em mãos.


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Rosa Maria

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crónica

CAMILLA WATSON

notícias

“A Mouraria devia ter uma casa de fados”

Identibuzz – Zumbido de Identidades Híbridas

Fernando Baguinho sapateiro, poeta popular José Manuel Osório, um fado fortaleza

A Rosa Maria está na imaginação. Houve muitas, e ainda há, mas a Rosa Maria dos fados acredito ser fruto da arte poética. Eu se calhar sou poeta porque nasci no mesmo dia de Camões. Comecei a trabalhar como sapateiro com nove anos, gosto daquilo que faço, trabalho há 66 anos no meu ofício. Os meus quadros, as minhas molduras são inspirados num sentimento bairrista. Lembro-me de tudo, tenho muitos quadros da Mouraria antiga. No fado, aquilo de que tenho mais saudades é do fado do “Anos 60” ali no Largo do Terreirinho. Há um fadista que ainda é vivo, o António Rocha, grande amigo do bairro, que passou ali muitas noites. Cantava sempre ali até às tantas, todos os dias. O Fernando Maurício cantava e ia-se embora. O Maurício era da minha criação, nascemos quase no mesmo ano, foi meu aprendiz de sapateiro. Nunca quis ser alguém no fado e foi o melhor fadista castiço, deixou uma grande escola. No fado castiço era o Fernando Maurício e o Alfredo Marceneiro. O Marceneiro tinha um feitio difícil, era quase parecido com o Maurício. Eles gostavam de cantar em qualquer lado, mas depois queriam condições. Ainda lembro de uma cena do Marceneiro, à entrada do Grupo Desportivo da Mouraria, que dizia “convidaram-me para vir aqui cantar, mas não estou a gostar nada disto”. Estava lá o Santos e Castro, que na altura era presidente da Câmara. Foi preciso muita paciência para o levar a cantar um fado, mas depois saiu de lá satisfeitíssimo. O Maurício também era exigente. Só que nasceu aqui no bairro, tinha o sentimento bairrista, tal como o Marceneiro (que nasceu em Campo de Ourique). Dizia que não vinha mas depois vinha. Há muitos do fado castiço que nasceram na Mouraria . Para mim a Argentina Santos é a principal. Outra grande fadista que nasceu aqui foi a Fernanda Maria. Mas até hoje ainda não encontrei uma voz que o público adorasse mais que a do Fernando Farinha, no seu género. A sua forma de cantar encantava toda a gente. A Amália foi a maior fadista de sempre e vai continuar a ser. Houve uma voz que se igualou a ela no tom, a Maria da Fé, ainda hoje penso isso, só que enveredaram por sistemas diferentes. Conheci pessoalmente a Amália em 1989, veio cá inaugurar a placa da Severa e do Maurício na Rua do Capelão. Foi uma festa muito bonita. Se eu disser mal da Amália estou a mentir, faz-me lembrar o Eusébio no futebol. A vida do fado, nos ambientes nocturnos, é muito difícil. Muitos fadistas cantam só à base do álcool. A Mouraria deveria ter uma casa de fados. Antigamente cantava-se na taberna, apareciam os fadistas para cantar. Na Mouraria houve sempre fado como deve ser, havia casas pequeninas. As pessoas que vivem aqui agora estão desinteressadas do fado, vêm de outros sítios, mas o sentimento do fado não se perde. O fado vai evoluindo mas o nosso sentimento nunca se vai perder.

Para cada poema uma memória, para cada acorde uma história para contar. José Manuel Osório era um homem com a alma cheia de fado, e mesmo já muito debilitado aceitou o desafio da Associação Renovar a Mouraria para ser o consultor e presidente do júri do concurso “Há Fado na Mouraria”. Foi um ano de intensa convivência: a preparação do concurso, as tertúlias para “casar” os fados com as novas letras, as eliminatórias e a final, em Dezembro de 2010. Aprendemos muito sobre fado, mas sobretudo sobre a força que um ser humano pode ter, e nunca esqueceremos o Osório a cantarolar os fados, com os olhos semicerrados e o sorriso pleno, com a doçura do homem que afirmava: “eu nunca disse que tinha bom feitio”. Foi um incansável investigador do Fado, tendo coordenado as colecções discográficas «Fados da Alvorada» e «Fados do Fado», e fadista e actor. Foi distinguido com o Prémio Amália Rodrigues Ensaio/Divulgação. Deixou-nos este ano.

Identidades Híbridas é um projecto sobre as novas relações que se estabelecem nos bairros das cidades da Europa; e de como estas relações contribuem para a  criação de formas identitárias pela interculturalidade. É um projecto de documentário participativo que envolve a cidadania na construção de conteúdos audiovisuais, utilizando telemóveis como ferramentas de gravação. “Não nos interessa formar cineastas, mas dinamizar processos de construção audiovisual, em que os participantes entram em diálogo, compartilham ideias e conhecimentos, criando um produto audiovisual que sintam como algo seu.” O projecto-piloto decorreu nos bairros de São Francisco, em Bilbao, e na Mouraria. A intenção é expandilo, integrando bairros de outras cidades europeias com uma trama social semelhante. Durante os dias 22 e 23 de Outubro, jovens e menos jovens aprenderam a trabalhar com os telemóveis e, de 24 a 30 de Outubro, fizeram entrevistas a moradores do bairro, material que será editado e visto na Mouraria em 2012.

Actividade desenvolvida pelo Largo - Residências Artísticas

Projectos Bip/Zip para a Mouraria

O Programa BIP/ZIP – Bairros e Zonas de Intervenção Prioritária de Lisboa é criado pela Câmara Municipal de Lisboa, no quadro do Programa Local de Habitação (PLH), como um instrumento que visa dinamizar parcerias e pequenas intervenções locais de melhoria dos “habitats” abrangidos, através do apoio a projectos levados a cabo por juntas de freguesia, associações locais, colectividades e organizações nãogovernamentais, contribuindo para o reforço da coesão sócio-territorial no município. Para além de fomentar a cidadania activa, este programa visa envolver a população na melhoria das suas condições de vida, promover a capacidade de iniciativa local, bem como

contribuir para uma imagem positiva destes espaços, por forma a permitir e reforçar a sua integração harmoniosa na cidade, sem discriminações no acesso aos bens e serviços a todos devidos. A Mouraria viu serem aprovados quatro projectos para o seu território: o Edifício Manifesto - Casa Comunitária da Mouraria, da responsabilidade da Associação Renovar a Mouraria e do Atelier de Arquitectura Artéria; o Largo - Residências Artísticas promovido pela Associação SOU, já em funcionamento no Largo do Intendente (na foto); um projecto para a Promoção do Acesso a Serviços Culturais e Tecnológicos, uma parceria entre a Junta de Freguesia de São Cristóvão, a Casa da Achada e o Grupo Gente Nova, e a Cozinha Comunitária da Mouraria.


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Lixboa Manuela Lisboa artista, moradora na Mouraria (“Cidadã que, de uma maneira ou de outra, é sempre enganada nas eleições autárquicas.”)

Movimento quer dinamizar S. Cristóvão

Um espectáculo em playback com as músicas do Festival da Canção foi o momento alto da Festa do Idoso. A festa é organizada todos os anos no Centro Social Polivalente S. Cristóvão e S. Lourenço. Na foto, D. Violeta cantava Desfolhada, encarnando quase na perfeição Simone de Oliveira.

CAMILLA WATSON

O recém-criado Movimento Amigos de São Cristóvão apresentou-se ao bairro a 8 Outubro com uma noite de fado vadio. Durante horas, diversos intérpretes passaram pelo “palco” das escadinhas da igreja de São Cristóvão. Antes do espectáculo foram projectadas na parede da igreja imagens de fadistas de outrora, aproveitando o espaço de uma forma criativa e de rara beleza. Espalhados no meio da multidão estavam muitos moradores da freguesia do Socorro, que vieram dar um abraço a São Cristóvão mostrando que essa coisa de Mouraria de cima e de baixo não existe.

“Há Vida na Mouraria” venceu a 4ª edição do Orçamento Participativo

O projecto Há Vida na Mouraria, proposto a votação da edição 2011/2012 do Orçamento Participativo, foi o mais votado pelos lisboetas, de entre os 228 projectos que estiveram a votação. O Há Vida na Mouraria resulta de uma conjugação de propostas vindas de diversas organizações da sociedade civil, de cidadãos a título individual, de Juntas de Freguesia e da própria Câmara Municipal de Lisboa, que contribuiu para a conjugação das diversas propostas. Este projecto foi contemplado com 1 milhão de euros, e resulta de um trabalho que já vinha sendo feito por mais de 20 organizações, no sentido de implementar um Plano de Desenvolvimento Comunitário para a Mouraria. O Há Vida na Mouraria visa contribuir para o bem-estar e a coesão social do território. Serão desenvolvidas iniciativas de promoção da identidade cultural, de maior fruição do espaço público, de melhor acesso à saúde, qualificação e emprego, de capacitação das instituições da sociedade civil, de valorização da multiculturalidade, e de abertura à cidade de Lisboa. Abrange as Freguesias do Socorro, Anjos, São Cristóvão e São Lourenço e Santa Justa. Mais uma boa notícia para a Mouraria e mais uma prova de que quando o esforço e a vontade colectiva se conjugam é, de facto, possível mudar para melhor.

O MASC - Movimento de Amigos de São Cristóvão, como está referido na sua página de facebook “partiu da vontade e das conversas de rua/café do bairro de alguns amigos fartos da típica atitude de falar mal de tudo e não fazer nada.” Na mesma página, dizem ainda que “achámos que a nossa rua e todos quanto moram/trabalham/visitam este cantinho deviam ter mais. Em vez de esperar, optámos por meter mãos à obra; sem apoios monetários ou formalidades institucionais, arregaçamos as mangas e chamamos  todos quantos se queiram juntar a nós”. O movimento pretende a dinamização da cultura, das gentes e do comércio, com o propósito de os transformar em recursos variados e de re-qualificar os seus espaços. A próxima iniciativa do MASC é a recuperação da fachada de um prédio das Escadinhas de São Cristóvão, pertença da EPUL,que contará com a presença do ilustrador Nuno Saraiva (colaborador do Rosa Maria ) e de todos os moradores que se queiram associar. Nuno Franco

Na Mouraria, desde há alguns anos, separam-se os lixos. Como nas cidades civilizadas. É fácil. Sacos de diferentes cores são até distribuídos gratuitamente. Os caixotes foram entretanto retirados das ruas. Alegadamente, muitos dos prédios do bairro não tinham espaço nas respectivas entradas para os acolher durante o dia, por isso ficavam na rua, o que não era nem higiénico nem esteticamente aceitável. O turista passeante pode agora apreciar as fachadas na sua inteireza degradada, sem ser atazanado por moscas. Desde que os caixotes desapareceram, os habitantes da Mouraria passaram a depositar os seus sacos de lixo no chão, à porta das casas, nas esquinas, e sobretudo aos cantos. Quem tem janelas para os cantos, lixou-se. Outros, como eu, contentaram-se com infestações de formigas, porque poderiam ter sido baratas ou ratos. Depois vieram as pessoas. Separado o lixo orgânico do restante, começaram a abrir os sacos, a vasculhar os restos e a deixar o inutilizável espalhado rua afora. Por essa altura telefonei para a Câmara de Lisboa e expus o assunto. Em troca, recebi uma carta que registava a minha “reclamação” e me assegurava que “o lixo só pode ser colocado na rua depois das 19 horas e estão previstas coimas para quem proceder contrariamente”. Sendo que não tinha feito nenhuma “reclamação” e que, por convicção ideológica, não me revejo no papel de bufa, indignei-me. Tinha para mim estupidamente que, ao cidadão/ã, eram permitidas opiniões e sugestões relativas aos serviços da autarquia. Fomos então tropeçando em costeletas roídas, cascas de laranja, meias velhas, seringas usadas, poças de urina, garrafas partidas, embalagens de electrodomésticos, móveis desconjuntados e até, uma vez, na rua dos Lagares, um bebé moribundo. Um dia, bateu-me à porta uma funcionária camarária para me inquirir precisamente sobre o funcionamento do programa de recolha do lixo, e me explicar, mais uma vez, que o lixo só pode ser colocado na rua depois das 19 horas e que estão previstas sanções para quem não o fizer. Aparentemente há muito quem não o faça. A funcionária e as entidades competentes acreditam que, se encurtarmos o período de exposição pública do lixo, minoramos a possibilidade de este ser estripado e, de qualquer modo, informam-me, em breve o bairro será fiscalizado pelas autoridades camarárias e pela polícia. A Mouraria é um bairro velho, habitado por pessoas extraordinariamente diversas, razão pela qual aliás, acolhe um festival de iniciativa camarária denominado “Todos”. Na Mouraria vivem pessoas velhas, pessoas novas, pessoas pobres, pessoas ricas, pessoas muito pobres, pessoas no limite da sobrevivência, para quem vasculhar o lixo de outras pessoas quase tão pobres como elas é o último resquício de esperança de não morrer à fome nessa noite, muitos artistas, muitas crianças, cães vadios, portugueses, chineses, ingleses, indianos. Na Mouraria existem igrejas católicas e mesquitas, fábricas de pão, escolas, oficinas, ateliers, prostíbulos, colectividades e teatros. Na Mouraria cheira a caril, a canja, a caca de cão, a manjerico e, em Julho, ao perfume inexprimível da dama da noite plantada no jardim que faz a esquina da Calçada do Monte com o Largo das Olarias. Na Mouraria, a acção social é uma tarefa de todos. Dos que distribuem batatas e medicamentos pelos que já não podem sair de casa. Dos que lavam a calçada a balde. Dos que reconstroem os telhados. Na Mouraria sabe-se que a separação e reciclagem do lixo é fundamental para garantir que a cidade do futuro possa ser habitada, mas espera-se que as entidades competentes, ao invés de aplicarem cegamente um programa e colmatarem as suas falhas com “coimas”, pensem em mais e melhores medidas de sensibilização.

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Rosa Maria

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reportagem clientes chineses. Mas há cada vez mais portugueses interessados, que estudam chinês e querem comprar livros, normalmente de difícil acesso. A vida de Wu Liang Yuan esteve sempre ligada ao ensino e ao mundo dos livros. Formado pelo Instituto de Educação de Wen Zhou, Wu deu aulas em várias escolas primárias e secundárias. Também formou professores e dirigiu a Escola Primária Central de Qing Tian até à sua reforma.

Dicionário de Português para chineses

texto Joana Dias fotografia Camilla Watson

A 采访中国书店的吴良元老师 * do Professor Wu

Com espanto descobrimos a loja do Professor Wu no Centro Comercial Martim Moniz, rara em todos os sentidos. É uma livraria chinesa que também nos encanta com o seu artesanato vermelho, a cor da China. Wu Liang Yuan, nasceu em 1937 na localidade de Qing Tian, Província de Zhe Jiang. Chegou a Portugal há seis anos, seguindo as pisadas da filha: “eu estava reformado na China, não tinha nada que fazer, e a minha filha resolveu emigrar. Então vim com ela e a restante família, a minha mulher, genro e netos.” Tal como a vinda para Portugal, tam-

bém a ideia de abrir uma livraria foi fruto do acaso. “A minha filha e o marido passavam os dias muito atarefados, e eu não tinha nada para fazer. Então a minha filha arranjou um espaço (esta loja) que era o seu armazém, para eu poder sentar-me e ler, porque sempre gostei muito de ler”, recorda Wu Liang Yuan. Ver todos os dias o professor Wu com

um livro na mão aguçou a curiosidade dos outros compatriotas, que todos os dias lhe perguntavam se vendia livros. “Queriam ler coisas em chinês mas não havia. Então tanto me perguntaram que eu um dia resolvi vender livros que tinha em casa, e depois resolvi abrir esta livraria.” A livraria, situada no 1º andar do Centro Comercial da Mouraria, cativa sobretudo

Wu gosta muito da vida em Portugal. Gosta sobretudo do clima - “nem muito frio nem muito quente” - e dos portugueses. Sente que as pessoas “são bastante simpáticas”, embora seja dificil comunicar. “Se eu falasse português podia ter mais amigos portugueses, fazer aquelas conversas banais, com os vizinhos, os outros comerciantes”, conta o dono da livraria. “Mas já estou velho para aprender! Só sei contar até dez, e umas palavrinhas: «olá», «tudo bem?».” Justamente para contrariar os obstáculos à comunicação, Wu tem na sua loja livros para aprender Português, destinados aos imigrantes chineses. Nas estantes, podem também encontrar-se dicionários, os Clássicos chineses, livros sobre Saúde e Medicina Chinesa, romances, bem como revistas, bandas desenhadas e mangas. Nesta livraria, o olhar não vai só para os livros, pois as peças de artesanato vermelhas despertam também a atenção do público. Wu explica que são ofertas, cada uma com um significado diferente: “são pequenas peças para pendurar em casa, nas portas, nas paredes, para atrair a boa sorte.”. Também o vermelho – a cor da China – é simbólico. “É a cor que os chineses usam para expressar alegria, excitação, é a cor das festas tradicionais, sobretudo do Ano Novo Chinês”, conta o professor, relembrando que “nessa altura o vermelho serve, dizem os antigos, para afastar os maus espíritos da casa, e trazer a fortuna à família.”. *livraria chinesa

sabia que… A sineta de São Crispim evoca uma lenda de amor e guerra? Durante o ano de 1147, D. Afonso Henriques, mesmo rodeado de tropas mercenárias, via com grande dificuldade furar as defesas da Lisboa moura. Mas uma bela e jeitosa moça cristã, que vivia no interior das muralhas, resolveu pôr em prática um ardiloso esquema de sedução, desatando a atirar maçãs e castanhas aos sentinelas mouros para os distrair da invasão que aí vinha. Após isto, e durante alguns séculos, em vésperas de São Crispim belas e jeitosas moças passaram a lançar dali castanhas e maçãs aos belos e jeitosos moços. Hoje, perdeu-se a evocação à lenda mas a humilde torre sineira ainda cá está, ao lado das escadinhas de São Crispim, à direita de quem sobe. Mantém ainda a sua janela gradeada mas desapareceu-lhe a sineta e a sua corda. Como na lenda, mas agora com um inimigo real, está hoje cercada por um estaleiro de obras, descarnada e ameaçando ruir. Nuno Saraiva


罗萨玛丽亚

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reportagem

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texto Nuno Saraiva fotografia Sónia Ramalho

Calma é com Stephan Doitschinoff Nos dias que correm fica sempre bem dizer que a Mouraria é um museu vivo, por todas e mais algumas razões que o leitor pode encontrar a cada canto das páginas deste jornal. Na zona alta do bairro, algures em São Cristóvão, está exposta uma peça hoje seguramente cobiçada por muitos museus e galerias pelo mundo fora. É na escadaria irregular do Beco do Castelo que podemos encontrar uma instalação do artista plástico brasileiro Stephan Doitschinoff que, a convite do c.e.m - Centro em Movimento - e por ocasião do 6º Festival Pedras d’Água, ali nos deixou gravado nas paredes um “Templo Ecuménico”, ou seja, um templo livre, aberto a todas as igrejas, a todas as crenças existentes ou inexistentes. Ora, o c.e.m, ao procurar este artista autodidacta, hoje figura do actual mainstream (do underground ao mainstream vai um passo de anão), sabia que iria encontrar antes um yoda, um mestre Jedi da espiritualidade, que encosta à sua assinatura o cognome de Calma. Grafitter que se preze não ‘curte’ trabalhar em stress, mas este artista brasileiro, nascido em São Paulo há 34 anos, adoptou o pseudónimo Calma para se ler como a abreviatura do latim “con alma”, que significa “com alma”. E começa logo por aí. Doitschinoff faz questão de sublinhar que no seu trabalho sempre existiu uma relação entre o sagrado e o profano. O binómio sagrado/profano sempre andou de mãos dadas, como siameses desligados à nascença, afastados à força e entregues a famílias desiguais. Interliga-se e opõe-se. Um necessita de outro para afirmar o significado de ambos. É assim, a seco, o sagrado no pleno exercício do profano. Doitschinoff ilustra nas paredes o sagrado da transgressão, é como um artista renascentista que pinta a casa de Deus mas sem ter que responder a um Papa. Como afirma o próprio Doitschinoff, no pressrelease da exposição individual intitulada “Novo Mundo” (2008): “Vejo a igreja como uma instituição arcai-

ca, que sempre teve como objectivo controlar as massas, (...) como um símbolo apropriado para corromper as instituições modernas, como as grandes corporações, canais de mídia e governos.” Tal qual como há uns séculos, quando Martinho Lutero, o pai da reforma protestante, disse não ter de se submeter às leis do homem para poder interpretar a palavra de Deus. E não há acasos, há mesmo intenções calculadas, uma mistura bem cozinhada de vivências, algumas que até já traz no sangue: as palavras de Lutero sabe-as desde muito novo, visto ser filho de um pastor evangelista; em alto contraste, a atmosfera mística vem-lhe dos avós espíritas; no bairro da sua infância conviveu lado a lado com curandeiros de Umbanda e com Hare Chrishnas; na adolescência partilhou da cultura punk e das tribos skater... Stephan Doitschinoff aka Calma imprime a spray, trinchas, rolos e marcadores o produto resultado de um mutante religioso! Faz todo o sentido que este artista, numa fase da sua vida de busca interior, se tenha fixado numa pequena cidade do interior da Bahía chamada Lençóis, numa comunidade impregnada de religiosidade. Aí, durante três anos, inspirado nas procissões do padroeiro dos garimpeiros, Nosso Senhor dos Passos (outra coincidência com a Mouraria), resolve pintar todas as casas da cidade, inclusivamente as sepulturas do cemitério, onde nem escapou a capela mortuária, sem ferir a sensibilidade e a fé dos moradores. Esta colossal obra foi documentada no filme “Temporal” e pode ser vista, a par das monografias, em http://www.stephandoit.com.br. Tratado praticamente como se fosse um seu par, a população de Lençóis parece saber o património artístico que ganhou com Calma. Em nota de curiosidade, e contra todas as apostas, o nosso Templo Ecuménico tem resistido a qualquer gesto de vandalismo desde a inauguração em Julho deste ano! Estaremos a conviver com “um novo mundo”?

Detalhe do “Templo Ecuménico”, intitulado “Brilho do Sol”, Beco do Castelo.


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Rosa Maria

Dezembro — Março, 2011/12

está bem! Camilla Watson

editorial

NOVAS SEVERAS

Uma alegria, este cantinho na rua de S. Lourenço. O arranjo da D. Luz ilumina todo o bairro. está mal! Nuno Franco

Numa altura em que a - bem-vinda - reabilitação urbana avança pelas ruas da Mouraria, o Rosa Maria chama a atenção para a degradação dos edifícios. No bairro existem dezenas de imóveis devolutos ou em mau estado que - não se sabe como - vão resistindo inverno após inverno. Sabemos que o problema não se resolve de um dia para o outro, mas é difícil compreender por que razão se arrasta há décadas. Note-se que a cidade perde continuamente residentes para as periferias: Lisboa tem hoje menos 3,4 por cento de habitantes do que há dez anos e milhares de casas abandonadas. Porém, hoje é o próprio mercado que empurra as empresas de construção para a reabilitação, o único nicho em crescimento num sector em crise. A isto acresce, na Mouraria, talvez a conjuntura mais favorável de sempre para inverter o processo de degradação e esquecimento que o bairro teve de suportar. Neste contexto, voltar a perder oportunidades de qualificar prédios não parece aceitável. Pelo menos para Paulo Santos (ver destaque nas pp. 2 e 3) não foi aceitável ver degradar-se o prédio onde a família sempre viveu. Aos 18 anos, contra a corrente, arriscou. Comprou o prédio, reabilitou-o e fez dele a sua morada e de outros arrendatários. Não deveria ser aceitável também para os poderes públicos nem para os particulares que tenham condições para o fazer. Outra oportunidade a não desperdiçar na Mouraria é a consagração internacional do fado, com todos os projectos que lhe estão associados. Que venha em força e que dê força ao bairro (ver entrevista da p. 18). Não apenas no figurino turístico, mas na vida da rua. Vontade não falta aos habitantes, que acorrem sempre que há tertúlias fadistas.

Como é que eu saio daqui?Antes de vir a escavadora, convém avisar a malta. cartas dos leitores Parabéns pelo Rosa Maria, bem feito, respirável e desafiador. Uma pequena contribuição: Que sabia eu da Mouraria, Rosa Maria? Se não havias mostrado? Não em passos, pelos becos Mas na letras e caras do Bairro? Hei-de ir lá, um dia Rosa Maria, descobri qual o teu fado e no Punjab da Vila Almeida Rosa Maria Descobri que mouro sou, Só que ando deslocado

Gostaria de chamar a atenção para uma árvore ímpar da Mouraria - o ULMEIRO do Largo da Achada. Na sua solidão e abandono, a árvore procura sobreviver às pragas e à incúria de manutenção. No entanto, a sua resistência natural precisa de apoio e tratamento adequado. Quem pode fazê-lo? Não resido na Mouraria, mas sinto-me vizinho do grande ulmeiro e das suas gentes, sempre que visito o Centro Mário Dioníso, onde sou voluntário. Joaquim Beja, Lisboa

Querida Rosa Maria, Venho falar-te do abandono a que estão votados alguns dos magníficos prédios da Mouraria. Da solidão destas armações tristes que em tempos foram edifícios vivos, com gente dentro, e que hoje, à conta de instituições negligentes, proprietários irresponsáveis, são fantasmas tristes de fachadas feridas por grafittis inconsequentes. Além da óbvia imagem descuidada das ruas da Mouraria impostas por estes edifícios,

estes espaços são depois muitas vezes ocupados de forma rude, criando situações de perigo, falta de higiene. O meu apelo dirige-se às instituições estatais, claro está, mas também à população, que junta e unida poderá certamente mudar esta paisagem infelizmente tão característica na nossa cidade, e devolver à Mouraria a sua identidade original e castiça. Sandra Borges, Graça

Francisco Raposo

FICHA TÉCNICA Direcção: Associação Renovar a Mouraria Direcção gráfica: Armanda Vilar Edição: Ana Luísa Rodrigues, António Henriques, Maria João Amorim e Oriana Alves Revisão de texto: Margarida Bento Redacção: Adriana Freire, Ana Castro, Ana Filipa Fernandes, Ana Luísa Rodrigues, António Henriques, Carla Maurício, Inês Andrade, João Madeira, Marie-Line Darcy, Maria João Amorim, Margarida Duarte, Mourad Ghanem, Nuno Franco, Nuno Saraiva, Oriana Alves, Pedro Adega, Pedro Santa Rita, Sara Ludovico Colaboraram neste número: Carlos Tomé Sousa, Célia Guerra, Fernando Baguinho, Filipa Bolotinha, Francisco Além-Tejo, Joana Dias, Manuela Lisboa e Padre Edgar Clara Fotografia: Adriana Freire, Camilla Watson, Carlos Morganho, Marie-Line Darcy, MG de Saint Venant, Nuno Franco, Raquel Caixeiro e Sónia Ramalho Ilustração: Antònia Tinture, Hugo Henriques, Nuno Saraiva e Pedro Vieira Agradecimentos: Claúdia Fonseca, Família Castello Lopes, Família Loretti, IELT - Instituto dos Estudos de Literatura Tradicional Propriedade: Associação Renovar a Mouraria Redacção, Administração e Publicidade: Beco do Rosendo, nº 8, 1100-460 Lisboa, Telf: 218 885 203, Telm: 922191892, rosamaria@renovaramouraria.pt Impressão: MIRANDELA - ARTES GRÁFICAS Distribuição: Associação Renovar a Mouraria Versão digital: www.renovaramouraria.pt Direcção comercial: Associação Renovar a Mouraria Fonte: Leitura gentilmente cedida por DSTYPE Depósito legal: 310085/10 Periodicidade: Quadrimestral Tiragem: 10000 exemplares Número três, Dezembro de 2011 CAPA: Carlos Morganho


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notícias arm

Dar e receber, eis o Banco de Tempo da Mouraria Quem é que não se queixa de falta de tempo para resolver todos os problemas do dia-a-dia? Quem é que não gostaria de poder ajudar mais os outros e de poder participar activamente na vida da sua comunidade? Toda a gente, claro. Mas voltamos sempre à mesma questão: não há tempo. Ou melhor, não havia. Porque agora há uma forma de rentabilizar a sua boa vontade e o seu espírito solidário. O Banco de Tempo (BdT) é um banco em tudo igual aos outros. Tem agências, horário, cheques, depósitos e a particularidade de utilizar o tempo como moeda de troca. O BdT funciona da seguinte forma: qualquer pessoa que esteja disposta a dar uma hora do seu tempo para prestar um conjunto de serviços, recebe em retribuição uma hora para utilizar em benefício próprio. Desde acompanhar crianças à escola ou ajudar a fazer os trabalhos de casa, bricolage, ir às compras, passar a ferro, cozinhar, enfim, basta oferecer o que tem para dar e pedir o que quer receber. Se quer ensinar a bordar e quer aprender uma língua estrangeira, se quer ajudar um idoso a ir às compras e precisa que lhe consertem uma torneira é ao BdT que se deve dirigir. Para se tornar membro do BdT basta

Vão arrancar as obras da Casa Comunitária da Mouraria O lançamento da primeira pedra para o arranque das obras no Edifício Manifesto, futura Casa Comunitária da Mouraria, será no início de Janeiro. Neste processo há lugar para todos, para os que querem ver como se reabilita um edifício de forma sus-

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ir a uma entrevista e preencher uma ficha de membro, onde lhe será explicado o funcionamento e onde indicará o que deseja dar e o que precisa receber. CG Agência do Banco de Tempo da Mouraria: Beco do Rosendo, nº 8. Contactos: 967 665 888 bdtmouraria@gmail.com

ARM recebe extintores Comunitários “Vá embora, já está apagado, venha outro!“, assim incentivava o Rui Alves, da Junta de Freguesia de São Cristóvão, enquanto aqueles cerca de 15 bombeiros improvisados apagavam sucessivamente o fogo ateado de propósito nas traseiras da Escola de Bombeiros do Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa, em Chelas. A tarde estava quente, a puxar mais ao descanso e a uma bebida fresca, mas os vizinhos de São Cristóvão aprendiam muito sobre os diferentes tipos de fogos, propagação e meios de ataque em situações de emergência.   Valeu a pena, era o sentimento geral no fim das quase 5 horas intensas de aulas teóricas e práticas. Depois da formação, a Associação Renovar a Mouraria (ARM) recebeu 2 extintores para a futura Casa Comunitária da Mouraria, no Beco do Rosendo. Resta esperar que nunca seja necessário utilizar os extintores, nem dentro da Casa nem na vizinhança. NF

A Associação Renovar a Mouraria (ARM) foi uma das entidades responsáveis pela realização da 1ª edição da Semana da Cultura Chinesa, que decorreu no Edifício Amparo, da Fundação INATEL, de 1 a 6 de Novembro. A iniciativa partiu de um grupo de jovens portugueses com ligações à comunidade chinesa. A parceria com a ARM surge no seguimento de iniciativas desenvolvidas desde Julho, para promover o estreitamento de laços com aquela comunidade integrante do bairro. Workshops de arte e música tradicional, língua e medicina, aulas de Tai Chi, Chi Kung e meditação, conferências, apresentações artísticas e performances pre-

encheram o programa, destacando-se a dança do leão, no início do evento. A Semana da Cultura Chinesa contou com o apoio da Câmara de Lisboa, da Fundação INATEL, da Associação Portuguesa de Kung Fu Xuan Wu, da Associação Daoísta de Portugal, da Associação Nanjing Chinese Medicine Space, da Escola Chinesa de Lisboa e da Associação Buddha’s Light de Lisboa. E ainda com os patrocinadores, a Associação de Comerciantes e Industriais Luso-Chinesa e a empresa Fei Long - Granitos Mármores Yongfei & Changlong, Lda. Dezenas de pessoas participaram nas actividades, aproximando o bairro e o público à comunidade chinesa. FB

tentada, para os que querem pôr as mãos na massa e ajudar a edificar este projecto e para o olhar criativo das crianças, que irão acompanhar o decorrer dos trabalhos através do Serviço Educativo da Casa Comunitária (EME) que está já em curso com a Escola 75, da rua da Madalena. O projecto resulta de uma parceria entre a Associação Renovar a Mouraria (ARM) e o Atelier de Arquitectura Artéria, que ficará responsável pela obra. Trata-se de um edifício municipal devoluto, arrendado pela ARM, cujo pro-

jecto de reabilitação tem já o apoio de diversas empresas, que irão doar materiais de construção. Também o Programa BIP/ZIP da Câmara Municipal de Lisboa apoiou com 50.000 euros o projecto, sendo 30.000 para obras e os restantes para actividades e equipamento. A Casa Comunitária da Mouraria será um espaço multifuncional, destinado a oferecer formação em áreas como as línguas, as artes, ofícios e lavores, onde funcionarão consultórios destinados a apoiar a população nas áreas jurídica,

da arquitectura, ou mesmo da saúde. Não faltará também um espaço para o convívio e para a promoção das relações interculturais e intergeracionais, onde se poderá ouvir música, ler, contar e ouvir histórias, e até petiscar as iguarias que chegam de todos os cantos do mundo. A Casa Comunitária da Mouraria pretende ser um espaço aberto a todos, onde as propostas para actividades serão sempre bem recebidas. Fique atento, em Janeiro será anunciado o dia do arranque dos trabalhos, venha também pôr mãos à obra! IA

texto Mourad Ghanem | desenho Hugo Henriques

Festival celebrou a cultura chinesa


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retratos do quotidiano

Tony Loretti nasceu dois dias depois do Natal de 1947. Terminada a quarta classe, fez-se empregado de mesa, tendo chegado a encarregado do Cacau da Ribeira. Casou e teve dois filhos. Na Mouraria e no mundo do fado lisboeta chamam-lhe “coração de ouro”, e isso percebe-se melhor depois de conhecermos a sua história. O pai, Henrique, foi engraxador na Barbearia Garrett, junto do Largo do Camões, e teve sempre fraca saúde. A mãe, Fábia, foi, segundo conta, a mulher que mais filhos teve na Mouraria, 21, dos quais 12 estão vivos. A história da “Tia Fábia” é a história das famílias pobres da Mouraria e da Lisboa daqueles tempos. A todos criou com muito sacrifício, tendo tido ainda de criar alguns netos, que também lhe chamaram mãe. Nascida em 1915, Fábia trabalhava até de madrugada a fazer lenços para os vendedores de rua, mas às seis da manhã era ela que tratava do almoço que os filhos mais velhos levavam para o trabalho. Como o dinheiro não chegava para compor o farnel, lá ia ela manhã cedo buscar a sopa e o pão “do Barroso”, que era a sopa dospobres da Santa Casa ao lado das Mónicas, na Graça. À tarde ia em busca de uma panela de sopa e seis pães à Chapa 89, assim se chamava a sopa económica

texto Nuno Franco fotografia Álbum da família Loretti

A família Loretti dos Anjos por ser identificada por uma placa com aquele número. No primeiro domingo de cada mês era dia de ir a São Bento buscar queijo, óleo, farinha, leite e pão. A roupa era-lhe dada pela Santa Casa do Bairro Alto, e aí recebia também duas senhas de dez escudos que usa-

va na mercearia. Chegou a receber um subsídio atribuído aos pobres pela Fundação Calouste Gulbenkian, numa das suas imensas acções de filantropia. E todos os anos, pelo Natal, o Grupo Desportivo da Mouraria ajudava a vestir os irmãos Loretti, era o chamado “bodo”. Não admira por isso a fidelidade de Tony Loretti à associação que abriga a “Catedral do Fado”, na qual contribuiu para a conquista de seis primeiros prémios nas Noites de Fado organizadas pela Casa da Imprensa no Coliseu. Foi aí que em 2004 se tornou organizador de tertúlias fadistas, uma por mês e sempre que a necessidade de conhecidos e desconhecidos o justifica: são já numerosas as tardes e noites de fado que organizou em beneficência de pessoas com problemas de saúde graves, sobretudo crianças, o que lhe valeu uma homenagem na Voz do Operário, em Outubro passado. O fado acompanha-o desde muito pequeno, lembra. Quando criança, ia com o pai a todas as casas de Fado onde cantava o Fernando Maurício, acompanhado por uma amiguinha que veio a tornar-se actriz e cantora: Marina Mota. Hoje ajuda a manter vivo o fado da Mouraria.

ensaio Padre Edgar Clara

Alcamim: descodificando um enigma da Igreja

Santa Maria de Alcamim. Era assim que se chamava a paróquia de São Cristóvão no tempo em que D. Afonso Henriques por aqui passou e deixou em terras lusas a catedral de Santa Maria Maior. Alcamim era, pois, segundo alguns historiadores, o centro ou - quem sabe - a catedral dos moçárabes. Já a catedral dos latinos, de rito romano, se ergueu onde hoje se encontra a Sé de Lisboa. O que quer tudo isto dizer? Realmente este lugar outrora albergou um gueto de mouros, depois da ocupação cristã. Porém, durante a presença muçulmana em terras hispânicas este era um gueto, mas de cristãos. A esses chamamos moçárabes, ou seja, cristãos que viviam sob o domínio árabe. Onde se erguia, pois, a catedral moçárabe dedicada a Santa Maria? E de onde lhe veio o nome de Alcamim? Será a imagem de Santa Maria que se encontra na sacristia a verdadeira imagem? Para simplificar as coisas podemos dizer simplesmente que ainda não sabemos onde ficava a referida igreja; alcamim significa, em português, hortaliça, ou horto, ou horta; e a imagem da sacristia não é, realmente, Santa Maria de Alcamim... Onde nos suportamos para afirmar historicamente tudo isto: alcamim significa, realmente, hortaliça ou horta, o que condiz com o mapa pré-terramoto de Tinoco, onde se colocam aqui muito poucas casas. Aqui havia na verdade alguns

palácios e pouco mais... Naturalmente seria um horto... Santa Maria de Alcamim reunia, também, e continuou a reunir - não se sabe até quando - os cristãos de rito hispânico. Rito que ainda se celebra, hoje apenas na catedral de Toledo. Há um documento do século XIII que nos fala já da paróquia de São Cristóvão. Porém, não sabemos a localização da antiga igreja e nada sabemos sobre a vida dos moçárabes aqui residentes. Resumindo, dizemos que aqui se erguia um morro sem grandes habitações, onde se reuniam cristãos sob o domínio árabe. Talvez possamos saber mais no futuro, mas por enquanto há pouquíssimos estudos científicos que nos deixem entrever melhor a vida desta comunidade... Mas Alcamim não é o único enigma desta paróquia... A capela do arcebispo guarda os restos mortais da família Miranda, mas até ao momento não se conseguiu encontrar muita gente viva ligada a estes familiares. Sabe-se que vivem por terras brasileiras e alemãs, que alguns estão fortemente ligados às artes, mas nada mais... Há um estudo publicado sobre a leitura dos túmulos que aqui estão presentes e esperamos no futuro poder fazer o levantamento do chão que aqui se colocou para não degradar mais os túmulos que viam apagar as inscrições neles contidas por tantas pisadelas de fiéis e infiéis do século XX.

Dias virão em que Santa Maria de Alcamim será relembrada na Igreja: a sua história, a sua localização e as suas personagens e protagonistas. Dias virão em que se levantará o chão da capela do arcebispo para se pôr a descoberto os túmulos dos nossos antepassados. Dias virão em que haverá dinheiro para tudo isto... Disto já temos mais dúvidas!

Edgar Clara tem 36 anos e é sacerdote católico desde o ano 2000. Actualmente é pároco de São Cristóvão e São Lourenço e de Nossa Senhora do Socorro. Trabalha, também, como capelão do Hospital Egas Moniz. Licenciou-se em Teologia pela Universidade Católica Portuguesa. Frequentou também a licenciatura em Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social e o mestrado em Filosofia na Universidade Católica de Braga. Nos últimos dez anos desempenhou várias tarefas no âmbito do patriarcado. Trabalhou como director do Departamento da catequese e da comunicação e cultura, como jornalista e director do jornal diocesano “Voz da Verdade” e como porta-voz do Patriarcado de Lisboa.


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Não é por um dia lhe terem dito que ele noutra vida tinha morrido ali, mas junto à sua costela árabe, Alberto Pimenta encontra outra judia. Estamos no Largo da Igreja de São Domingos, onde, em 1506, se deu o mais terrível massacre de judeus em Portugal, ali torturados e queimados durante três

Largo de São Domingos

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Ali se abastece o poeta de romãs, não para comer mas para embelezar a casa com o fruto bíblico, sobre o armário da sala. “Sem estar cheia de árvores, consegue quebrar o trânsito em volta. Tem este marulhar da água nas fontes e é frequentada por gente que está mais preocupada com o mercado da Mouraria do que com os mercados financeiros.” E lá dentro, no Centro Comercial da Mouraria, “gente que come e bebe em horários diferentes, gente de tempos e espaços diferentes ali juntos no mesmo tempo e espaço”, além de um manancial de coisas interessantes, dos ingredientes para as alquimias da cozinha aos artefactos para performances satíricas, como as gravatas, dois euros cada.

Praça do Martim Moniz

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“O que pode ter de particular um bairro na era da globalização? O nome e algumas ideias que já não correspondem à realidade, como na Mouraria a ideia do Fado”, defende. “Quando cá cheguei havia na minha rua uma tasca onde todas as quintas-feiras se cantava fado vadio, sem os cremes que agora lhe põem, e onde fui muitas vezes no Verão, era bonito. Hoje a Mouraria são os imigrantes chineses, africanos, asiáticos e eu – estou a exagerar, claro, há mais portugueses, mas são sobretudo velhos e os estrangeiros não têm ligação com o fado”, explica, exactamente quando passa Tony Loretti (ver p. 10), “o maior organizador de fados no bairro”, contrapõe Adriana Freire, fotógrafa deste passeio e residente no bairro. “Não faço a minha vida na Mouraria”, admite Alberto, para logo depois indicar a Praça do Martim Moniz a uma turista que procura um lugar para tomar café. “Estão a ver? Não há aqui um café, nem um restaurante médio. Acredito que haja sítios onde se come bem, mas não há nenhum que não tenha a televisão aos berros ou corrente de ar, que no Inverno é sinónimo de pneumonia. Eu almoço fora todos os dias, mas para estar minimamente confortável vou à Baixa, e para ter companhia leio o jornal.” Se depender de Adriana Freire, mentora da futura cozinha comunitária da Mouraria, em breve o escritor colocará os dotes de cozinheiro ao serviço da comunidade “e ninguém terá de comprar o jornal para almoçar”. Isso era muito bonito, repete Alberto: “Não ter de comprar o jornal para almoçar... e acabar a minha vida como cozinheiro.”

Rua dos Cavaleiros

passeando com alberto pimenta

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Loja Augusto, especialistas em molduras e caixilhos. Alberto Pimenta, nome marcante da poesia visual e experimental em Portugal, é cliente e recomenda. “A moldura é muito importante para um quadro, tal como o tipo ou o tamanho de letra são importantes para um texto: por exemplo, pôr a Constituição da República ou os Direitos do Homem num texto com meio centímetro tem um efeito significante no texto”. Passam carros em voo rasante na rua apertada, com retrovisores a invadir o passeio. Mas isso “não faz da Mouraria um

Rua do Terreirinho

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“É difícil ter uma ligação interior a um bairro ou até a uma cidade quando se viveu em muitos lugares.” Na Mouraria, Alberto Pimenta gostou, antes de mais, da casa em que vive, que descobriu num anúncio de jornal há 13 anos. “Por ser tão invulgar, em forma de V, com um telhado que lembra as casas da Renânia e da Floresta Negra e uma vista que vai até Almada, com a ponte, o casario todo e a Lua Nova, muito fininha, a crescer, dois dias depois da conjunção com o Sol.” E as paredes fortes. “Outra coisa boa de se morar aqui é não se morar num desses caixotes altos, com as paredes tão finas que se ouve o vizinho de baixo a mastigar.”

A casa

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depoimento recolhido por Oriana Alves

fotografia Adriana Freire


Neste passeio não há restaurantes exóticos nem monumentos classificados – haveria o Palácio da Rosa se o respectivo largo não estivesse em obras e a conversa não se tivesse demorado, ao sol de Inverno, na Praça do Martim Moniz. Há uma sucessão de ruas que ligam a casa de Alberto Pimenta à Baixa e há esta grande praça, frequentada por gente que está mais preocupada com o mercado da Mouraria do que com os mercados financeiros, praça onde crescem romãs e se ouve o marulhar das fontes.

Segue-se a foto na boca de Metro por onde entra e sai sempre que vai para fora do “pays”, (aldeia, em francês). Enquanto deu aulas não foram poucos os relógios que comprou na loja dos senhores de Madagáscar, no interior da plataforma, sempre que se esquecia do relógio em casa, para não ter de voltar a subir a Travessa do Jordão. “Três euros cada um e todos de uma impecabilidade.”

Pimenta da Mouraria

dias. A perseguição prosseguiu com a Inquisição, também responsável pelos autos-de-fé realizados na imensa nave daquele templo dominicano. “É a Igreja que me dá mais pancada”, diz Alberto Pimenta. Na Alemanha habituou-se a frequentar Igrejas para aí ouvir as composições litúrgicas de Johann Sebastian Bach. Às vezes faz o mesmo em Lisboa, sobretudo aqui, mas sempre com um incómodo que também tem a ver com a energia do lugar, e não apenas com as prédicas de alguns padres, “que são de uma soberba que se fosse na Antiguidade Zeus não lhes perdoava”. Em termos institucionais estamos já fora da Mouraria, na realidade estamos na fronteira onde a Mouraria se mistura com a cidade, onde Alberto Pimenta faz a sua vida.

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O reverso da medalha neste terceiro andar íngreme são as escadas, “torna-se difícil com os sacos das compras.” O homem das mudanças na altura perguntou-lhe se tinha a certeza do que estava a fazer: “olhe que a gente vai para velho”. Mas houve qualquer coisa que superou a angústia de vir morar para aqui sozinho aos 60 anos, uma atracção pelo bairro: “os diferentes bairros atraem diferentes tipo de pessoas. Este bairro tem tendência para manter uma certa antiguidade, tem ainda muitas marcas árabes da Mouraria pré-afonsina e agora os novos mouros e outras etnias também mais atraídas por este tipo de convivência humana do que pela vida em caixotes, e por um espaço livre do poder institucional: aqui não há um balcão das finanças, do banco, da administração pública.”

Nasceu em 1937 no Porto, estudou Germânicas em Coimbra, passou por Aveiro, onde redigiu a tese de licenciatura sobre Coleridge, escrevendo e traduzindo para a “Companha”, suplemento literário do jornal O Litoral. Em 1960 foi para Heidelberg (Alemanha) como Leitor de Português. Demitido em 1963, pela sua oposição ao regime fascista e colonialista de Salazar, Alberto Pimenta foi contratado pela Universidade de Heidelberg, onde viveu até 1977. O regresso a Portugal trouxe-o para a Universidade Nova de Lisboa, onde foi professor de cadeiras de Literatura e Linguística até há pouco tempo. É autor de mais de 50 livros que cruzam poesia, prosa e ensaio em torno de um pensamento libertário, que satiriza as convenções burguesas capitalistas. E foram muitas as acções teatrais em que deu o corpo ao manifesto: do histórico happening de 1977, em que se trancou numa jaula de macacos do Jardim Zoológico de Lisboa com uma tabuleta indicando “Homo sapiens”, à recente performance “Feitiços”, na qual manipulou simbolicamente 14 gravatas vermelhas, verdes e amarelas, como a bandeira de Portugal.

bairro mais agressivo que os outros”, nem sequer no vórtice do tráfico de droga do Largo do Terreirinho, pelo qual passamos de seguida, que “fica ali circunscrito”. Alvalade, por exemplo, tem “outro tipo de agressividade, talvez pior”. O que a Mouraria tem é um estilo de linguagem popular, que lhe lembra o Porto da infância. “Nunca me assaltaram na Mouraria… mas também é verdade que não corro muitos riscos, à noite não saio de casa.”


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texto Marie-line Darcy tradução Carlos Tomé Sousa fotografia MG de Saint Venant, a partir de azulejos da fábricaViúva Lamego

Mouraria desenhada a azulejo Plumas, flores, frisos coloridos, folhagens petrificadas no seu próprio movimento, em composições que redesenham as fachadas da cidade. Estão ao alcance da mão, em todos os sentidos do termo. Antes de se estabelecer e nos conferir identidade, a geometria azulejar da tradição portuguesa viajou de outro lugar.


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m Lisboa temos tendência a caminhar olhando para baixo: perante pedras da calçada mal unidas, dejetos de animais e todo o tipo de obstáculos, toda a atenção é pouca. Mas há aí um certo erro, pois em Lisboa a beleza está nas fachadas. E é uma pena não reparar nos dois pavões magníficos e imponentes sobre as paredes do prédio de gaveto que foi Prémio Valmor de 1908, na esquina do largo do Intendente com a avenida Almirante Reis. O azul intenso da sua plumagem destaca-se nesse tapete de flores vermelhas: animais elegantes parecem desafiar o tempo e os transeuntes. A sua presença não é assim tão espantosa como parece à primeira vista: as avenidas novas que bordejam a Mouraria foram construídas no início do século XX. A arte em voga na altura dava pelo nome de «Arte Nova»  e celebrava a natureza. Ricas moradias burguesas da época revestiam-se de frisos coloridos, onde predominam as flores e as folhagens. De ambos os lados da Almirante Reis, estes motivos só esperam que os transeuntes apressados admirem esses trabalhos em cor que surgem aqui e ali sob os céus de Lisboa. Quem por aqui passa, deixando os pavões condenados à sua imobilidade, encontrará em seguida a fachada azul e branca da Viúva Lamego. Esta parte do edifício continua a pertencer à fábrica de cerâmica, mas foi transformada em residência para estudantes estrangeiros. A Viúva Lamego existe desde 1849 e instalou-se no bairro da Mouraria, uma zona da cidade que acolheu os ateliês de olaria. A fábrica ocupou todo o quarteirão e rapidamente ganhou uma boa reputação pelos seus azulejos concebidos segundo o espírito da época. Os proprietários decidiram então adornar a fachada da loja no lado do largo do Intendente: vasos a transbordar de flores, as suas personagens e o seu pequeno macaco guloso fazem desta uma das casas azulejadas mais famosas de Lisboa. Os trabalhos que decorrem neste largo não devem impedir as pessoas de transpor a porta da loja: num cenário de azulejos decorativos empilhados, compradores italianos de cócoras compõem, com a ajuda da vendedora, um painel de azulejos cujo destino final

Quem caminhar pela Mouraria terá de esquivar-se por entre os buracos e as obras do largo do Intendente até chegar ao número 84 da rua da Mouraria onde se encontra o antigo colégio dos Meninos Órfãos. Esta visita permite-nos dar conta da importância do azulejo e do seu papel por vezes pedagógico. As escadas que dão acesso até ao quinto andar do edifício – construído no século XIII e modificado no XIV – são uma espécie de banda desenhada gigante, em azul e branco, representando cenas marcantes dos antigo e novo testamentos. Passando o átrio, deparamo-nos com esse tesouro, datado do século XVII, para ser apreciado. Os azulejos da Mouraria não escaparam todos ao vandalismo e ao roubo. De entre os mais belos mas infelizes exemplos, figura o do Palácio da Rosa, cujos numerosos painéis dos séculos XVIII ao XX foram removidos. A SOS azulejos (ver caixa) conseguiu identificar rapidamente algumas dessas obras de arte e recuperá-las. Este palácio será transformado em hotel de charme pelo que dificilmente veremos os azulejos nas suas paredes originais.

Face às ameaças que pesam sobre o património azulejar – 25 por cento dos azulejos de Lisboa terão desaparecido desde 1980 – a Câmara Municipal de Lisboa criou o PISAL, para identificar e preservar os azulejos. O objectivo principal consiste em fotografar o património público e criar um banco municipal do azulejo. Esta operação começou na Madragoa em 2010, bairro onde uma carta de risco identifica os casos prioritários e os painéis mais ameaçados. As operações alargar-se-ão depois a Alfama, seguindo-se a Mouraria. Para cada zona a autarquia vai criar três instrumentos: a carta do azulejo, a carta de risco e a carta das patologias [doenças dos materiais]. A Câmara prevê ainda o estabelecimento de acordos com diferentes instituições e associações, de modo a sensibilizar para a riqueza do património azulejar e dar formação neste campo. Foi assinado um protocolo com a Polícia Judiciária (PJ) para facilitar a identificação dos azulejos encontrados após roubo. A Câmara organizou os primeiros encontros do património azulejeiro em Novembro último. O PISAL, dirigido por Teresa Bispo, dispõe de 40 técnicos.

SOS Azulejo Criada em Fevereiro de 2008, a SOS Azulejo é gerido pelo Museu da PJ e tem por função lutar contra o roubo e venda ilícita de azulejos. Privilegia uma abordagem preventiva. O Projeto SOS Azulejo conta com o apoio de brigadas especializadas da PJ e da GNR e uma das formas de atuação é feita através da divulgação na Internet dos painéis que foram alvo de furto. A identificação dos azulejos removidos e a sua presença no espaço virtual da net permitirá, espera esta entidade, contrariar vendas ilegais. A SOS Azulejo aconselha os habitantes a fotografar o seu património azulejar e desmultiplica-se em ações de informação com vista à criação de arquivos deste património: a criação da base municipal de dados sobre o azulejo ajudará em parte a cumprir esse desejo.

Nos últimos 20 anos, o roubo de azulejos multiplicou-se por influência de dois fenómenos. A pressão urbanística e a necessidade de demolir os velhos imóveis para construir segundo os novos padrões de conforto levaria à destruição de painéis de grande valor; acresce o facto de que, cada vez mais procurados por turistas e por coleccionadores, estes painéis têm agora um valor de mercado bastante tentador. Na Mouraria, como no resto de Lisboa, podemos constatar as cicatrizes deixadas nas fachadas pelos azulejos arrancados. Mas são em grande parte os mosaicos das fachadas do bairro que lhe conferem identidade. A colina da Mouraria está ali, acessível, a todos aqueles que pretendem tomar o seu tempo, admirando as fachadas naive [estilo feito sem preparação académica], os painéis novo-ricos, as pérolas de flores «Arte Nova», as figuras dos santos protetores – nascidos depois do tremor de terra de 1755 para proteger as casas – ou os tapetes geométricos das fachadas das lojas. Marie-line Darcy

pode muito bem ser uma cozinha na Toscânia, Itália. A ser esse o caso, trata-se, de certo modo, de um regresso às origens, uma vez que seria uma técnica de fabrico e decoração azulejar introduzida no século XVI em Portugal, a majólica italiana, a contribuir fortemente para o arranque da produção dos azulejos em grande escala. A majólica simplificou o processo de feitura de faianças cobrindo-as de esmalte branco. As cores deixaram de se misturar, sendo possível fazer azulejos mais rapidamente. Curiosamente, a majólica chegaria primeiro a Sevilha, introduzida pelo artista italiano Francesco Niculoso Pisano. Antes disso já os italianos tinham promovido a sua técnica na Flandres, um território que era então uma província espanhola, tendo os obreiros flamengos introduzido por seu lado a majólica na Península Ibérica. E foi graças a este pequeno desvio que Portugal passaria a cobrir paredes inteiras com painéis coloridos a um preço vantajoso, embelezando os edifícios até então pouco adornados.

Uma gaivota não voa

A gaivota parece levantar voo por cima do número 30 da Rua das Olarias em três azulejos azul e branco que remetem para o rio tão próximo da cidade, e o desígnio portuário de Lisboa. O proprietário deste edifício recebeu estes azulejos como presente de aniversário. Quando decidiu restaurar o imóvel, decidiu colocar essa ave sobre a porta de entrada. «É bonita, não é?» pergunta com grande sorriso, contente por poder agradar com o voo da ave quem passa ali. Nada se sabe da sua origem, a não ser que já esteve num antiquário. A gaivota das Olarias é um símbolo da paixão dos portugueses pelo azulejo, uma espinha dorsal de uma história fabulosa. Na Mouraria, é fácil perdermonos descobrindo esse imenso mosaico que cobre as fachadas. E encontrando a gaivota podemos seguir à descoberta dessa história. Marie-line Darcy

Marie-line Darcy

Programa de Investigação e Salvaguarda do Azulejo de Lisboa (PISAL)


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Rosa Maria

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conto de natal

texto Francisco Além-Tejo ilustração Rabiscos Vieira

O Pai Natal no Intendente

A

conteceu há cerca de 10 anos quando, de 24 para 25 de Dezembro, o Pai Natal percorria as ruas de Lisboa na sua labuta anual. Em frente do número 143 do Largo do Intendente, verificava a sua lista: “Nada para o 1º andar, ‘uma escada de corda’ e ‘uma bola’ para o 3º… e para o 2º andar… ‘o Pai Natal’? O que é isto?! “. Possivelmente um erro do secretariado. “Bom, já se vê”. Com os presentes debaixo do braço, subiu as escadas. Bateu duas vezes, Luciana abriu. Vestia mini-saia, saltos altos e um top justo que lhe salientava os seios. O Pai Natal não tinha nascido ontem e logo deduziu qual a profissão da sua interlocutora. “Entre”, disse ela sorrindo. Era apenas um quarto, com uma cama grande de ferro, antiga, ao centro. “Peço-lhe desculpa, mas deve ter havido um problema nos meus ficheiros, por isso receio não lhe ter trazido a prenda que desejava…”. Explicou que só naquele momento tinha dado conta do erro. Mas a mulher estava decidida e preparada: “O que está escrito no seu papel é mesmo o que eu quero! Ando nesta vida desde os 15 anos. Depois de tanto tempo, acho que mereço uma prenda! Dei prazer a muitos homens, agora quero eu ter prazer com alguém especial.”. Desta forma franca terminou o seu monólogo. O Pai

mouraria, rua a rua

Natal compreendeu a referência ao seu próprio nome na lista. Seguiu-se um momento de silêncio tenso, cada um a remoinhar a sua estratégia, após o qual o Pai Natal pigarreou embaraçado: “Minha filha, isso não é possível… esse presente não lhe posso dar. Lamento. Boa noite.” E virando as costas, dirigiu-se para a porta. “Era o que eu temia. Meninas!” gritou ela. Num repente, de uma porta ao canto do quarto saíram quatro mulheres com semblante carregado e decidido. A bola e a escada de corda saltaram das mãos do Pai Natal enquanto ele era empurrado para cima da cama. Num ápice, viuse deitado a olhar para o tecto enegrecido e sentiu cordas a apertarem-se-lhe à volta das mãos e pés. “Obrigado meninas, eu agora trato dele sozinha!” exclamou Luciana com um ar feliz. Os detalhes não podem ser descritos: isto sempre é um conto de Natal! A meio da noite, satisfeita com o seu presente, Luciana adormeceu profundamente. O Pai Natal levantou a cabeça e espreitou. Eram duas horas da manhã. Conseguia mexerse. Soltou uma mão, depois a outra. Levantou-se e caminhou lentamente para a porta. “Raios, está trancada!”. Ao reparar na escada de corda num canto do quarto teve uma ideia. Abriu a janela, sorrateiro, e prendeu a escada ao parapeito. “É só um segundo andar”, pensou. Como há muito não descia e subia chaminés, foi progredindo devagar, de forma insegura e desastrada. Na rua, passava então o Adónis, brasileiro que se dirigia para casa depois de umas caipirinhas natalícias. Ao ver o Pai Natal, sorriu. “Olha!.. Um cara vestido de Papai Noel a descer umas escadas. Há

cada maluco!... Mas é bacana…E se meu patrão mandasse fazer, lá na China, uns bonecos Pai Natal a subir escadas, para pendurar nas janelas? Era capaz de vender bem…” O Pai Natal continua a vir a Lisboa. Mas, durante toda a sua noite de trabalho, vê permanentemente as recordações deste episódio humilhante nas janelas de muitas ruas, todas com os seus bonecos Pais Natal a descer escadas.

texto Pedro Santa Rita

Tudo isto é Capelão! Entre a Guia e a rua da Mouraria corre a rua do Capelão. No coração da Mouraria é a mais cantada e mitificada das ruas: quem não conhece o “Rua do Capelão”, fado juncado de rosmaninho? A própria Rosa Maria, homónima deste respeitável jornal, e cantada por Alfredo Marceneiro, habitava por aqui. Hoje, com muitas casas degradadas e piso esburacado, é difícil sentir-se o cheiro a rosmaninho no Capelão. No séc XIX o olisipógrafo Júlio de Castilho apelidou-a de “antiga rua suja de torpe memória”. Um século

depois, Norberto de Araújo escrevia: “o pitoresco que por aqui existe está revestido de negrume e seria forçado classificar isto de interessante: andares de resalto, casas baixas, sombrias, viveiros de gente pobre”. Longe do progresso material das ruas elegantes e arejadas da Lisboa burguesa, o Capelão é um livro vivo de memórias das gentes que lá viveram, um símbolo da Mouraria arrabaldina, popular, castiça e trabalhadora, pintada a águas fortes. Da rua da Guia ao Capelão pela tarde assentavam praça as peixeiras, que vendiam peixe à gente pobre e aos operários que recolhiam a casa. Era também a hora da reza comunitária diante da imagem do oratório da Guia. O arraial na horta do tio Francisco e as procissões do Ferrolho e da Sra. da Saúde (ainda existente) marcavam as animadas festividades. Depois,


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mouraria nas artes

É

uma fotografia a preto e branco. Percebemos que o instante capturado tem como pano de fundo umas escadas onde surgem três homens. Um deles, militar, está de perfil, encostado à parede, postura descuidada e negligente. Os outros homens olham de frente para a câmara. Um deles aparece em primeiro plano, olhar seguro e decidido. A fotografia foi tirada por Gérard Castello Lopes (1925-2011), em 1957, nas Escadinhas de S. Cristóvão, na Mouraria. É uma das muitas fotografias que pode ser vista na Exposição “Aparições - A Fotografia de Gérard Castello-Lopes 1956-2006”, no espaço BES Arte e Finanças até 12 de Janeiro de 2012. Esta imagem é também a capa do livro Perto da Vista, editado pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda, e onde aparecem outras fotografias do mesmo fotógrafo. Quanto à opinião de alguns, de que a fotografia é um ícone da época, Castello Lopes não tem a certeza se concorda. No filme do realizador Fernando Lopes, e quando questionado sobre a razão que o teria levado a tirá-la, o fotógrafo responde que lhe interessava “testemunhar a realidade que o cercava”, o seu objectivo seria “capturar o momento significante”. E que época e momentos eram esses?

texto Margarida Duarte fotografia gentilmente cedida pela família Castello Lopes

Escadinhas de S. Cristóvão, 1957

Tornou-se um ícone da fotografia e retrato de uma época. O momento foi captado por Gérard Castello Lopes, falecido em 2011. Há quem acredite que o descer destas escadas simboliza a fuga para a liberdade.

existiam as tabernas: a do Cegueta e a do Manhoso e os correlativos fadistas da rua. Estes, como descreve Pinto de Carvalho (Tinop), “repartiam a vida entre o fadário das baiucas, a intimidade tépida das mancebias com as marafonas e a residência temporária na cadeia ou no chelindró”. Na esquina do Capelão com o Beco do Forno encontramos a casa onde viveu e morreu Maria Severa Onofriana. A filha da Barbuda batia o fado como ninguém na taberna da Rosária dos Óculos, que ficava no topo do Capelão, e foi aqui que se perdeu de amores pelo Conde do Vimioso. No livro História do Fado (1903), Tinop apelidou-a de “meio soprano dos conservatórios do vício”. Bonita e altiva, “quando se estabeleceram as visitas da polícia sanitária, a Severa tentou opor-se às inovações, e, armando-se de uma acha de lenha, amo-

tinou as suas companheiras e espancou os encarregados da higiénica tarefa”, conta Tinop. Após a sua morte em 1846, Maria Severa passa a gozar de crescente fama nos meios populares, cantada em letras de fados, em romance e até no cinema. Esta popularidade está patente no “Fado da Severa”, de 1848, da autoria do Sousa do Casacão (amigo de farra do Conde do Vimioso) – um fado catalogado por Teófilo Braga no Cancioneiro Popular de 1867. Um século depois da Severa, a mesma rua vê nascer Fernando Maurício, considerado desde as décadas de 50/60 o rei do fado vadio e da Mouraria. Maurício começa a cantar aos 8 anos na taberna do “Chico da Severa”, ao Capelão. Agora os tempos são outros e o fado é canção nacional apropriada pelo regime. Cantado nas casas de fado, perde a sua verve mais popular e quiçá libertária.

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Portugal vivia, na altura, sob um regime ditatorial. A guerra colonial começaria dentro de poucos anos e a polícia política era uma presença no dia-a-dia da sociedade. As condições político-económicas que se faziam sentir traduziam-se numa emigração elevada. No livro Homenagem a Henri Cartier-Bresson, Castello Lopes explica o que lhe interessava quando fotografava: “a alegria das crianças, a tristeza dos adultos, a opressão que por todo o lado vigorava e o desespero de todo um povo” (p. 8). De que forma é isso evidente na fotografia das Escadinhas de S. Cristóvão? Retrata ela a dignidade e altivez de um povo por contraposição à displicência da polícia? Simpatizamos com o homem que nos olha, sem receio, e prossegue o seu caminho? Antonio Tabucchi, a propósito desse homem (citado na p. 13 do referido livro), escreve “creio reconhecê-lo, é o alter-ego de Gérard, o seu heterónimo fotógrafo fotografado. É este duplo do Gérard que vai sair do enquadramento da fotografia. Vai abandonar o Portugal dos anos 50, a sua mole e tolerante ditadura, para entrar no mundo da liberdade”. Fotografia de um Portugal de outrora que a câmara de Castello Lopes fez perdurar no tempo.

Mas o Maurício, já profissionalizado, continua filho do Capelão e da Mouraria - até à sua morte, em 2003, continua a cantar em associações do bairro e tabernas como “Os Amigos da Severa”, verdadeira relíquia iconográfica que o senhor António mantém em funcionamento. Quis o destino juntar as moradas destes dois fadistas que o tempo separou e o Capelão, vai-se lá saber porquê, juntou. Para o assinalar, lá estão as placas descerradas por Amália Rodrigues em 1989. De um lado e do outro da rua, as janelas quase frente a frente. E quando à tardinha, aos primeiros acordes da guitarra, as vozes se encontram para dizer o que lhes vai na alma, devem suspirar – o que nós cantámos e vivemos, para que o fado seja património da Humanidade… Ah, booooca liiiinda!!


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entrevista entrevista Maria João Amorim fotografia Raquel Caixeiro

“A tradição será feita no futuro”

O fado já é património imaterial da humanidade. A distinção obriga à preservação do vasto universo da canção de Lisboa. O que não quer dizer cuidar apenas do passado. Para Pedro Félix, etnomusicólogo e membro da candidatura, é tempo de olhar para o fado como uma expressão em evolução. O que significa para o fado ser considerado Património Cultural Imaterial da Humanidade? Acredito que o fado pouco depende deste “novo” título. No entanto, a sua inclusão na lista do património cultural imaterial da humanidade não deixa de ser importante. Por se tratar de um reconhecimento institucional e internacional, certamente que se traduzirá num interesse acrescido. Até localmente conseguiu uma visibilidade pouco usual. O dossiê de candidatura foi elaborado em torno de um plano forte de salvaguarda que evite normalizações e garanta ao fado todas as condições necessárias para o seu desenvolvimento. Vamos passar a ver o fado com outros olhos? Não creio. A forma como as pessoas vêem o fado decorre mais das suas posições ideológicas do que de uma compreensão informada. Quem persiste numa leitura formatada deste domínio musical, continuará a fazê-lo. Continuaremos a ouvir que, com a nomeação, está a ser implementa-

da uma polí–tica dos “três Fs”. A candidatura não olhou para o fado de um ponto de vista estético, limitou-se a considerar um universo de prática expressiva, procurou entendê-lo, conhecer os actores que nele se movem, dar-lhes voz, e traduzir o conhecimento sobre este meio tão dinâmico da forma mais correcta e moderna. Os debates que já vimos surgir, até mesmo algumas resistências, são a prova de que o fado, por despertar tantas paixões e ódios, é uma manifestação viva. O programa de salvaguarda tem como principal objectivo construir e difundir uma visão mais informada. Se for bem sucedido e estou certo de que o será -, dentro de alguns anos olharemos para o fado de uma maneira mais informada. De que forma é que esta distinção responsabiliza músicos, intérpretes e investigadores do fado? Os agentes passam a estar obrigados, perante um organismo internacional, a preservar a prática (o que não quer dizer “conservá-la”, mas sim assegurar a sua continuação, logo acolher a mudança se for esse o sentido que esta comunidade lhe imprima). Depois, todo o universo do fado é tido como parte activa na construção, preservação e evolução de um património.

O sonho de inscrever o fado na lista do património intangível da humanidade terá nascido por altura da Lisboa Capital Europeia da Cultura, em 1994. Porque levou tanto tempo a concretizar-se? O procedimento burocrático foi relativamente simples porque o trabalho de levantamento do património estava já iniciado. Esta candidatura tem por suporte um complexo trabalho de terreno que consumiu algum tempo na sua preparação. O património em Portugal não é ainda visto como um valor, o património musical normalmente nem é considerado pelo poder político (que o vê como mero entretenimento) e o património musical de carácter popular é ainda menos merecedor de atenção. O fado já viveu momentos de grande visibilidade, como já viveu momentos de grande marginalização. Estou certo de que o “brilho das luzes” irá deslocar-se, com o tempo, para outros objectos. A UNESCO considerou a candidatura portuguesa “exemplar”. Quais foram os argumentos essenciais da proposta formalizada pelo Museu do Fado (em nome da Câmara Municipal de Lisboa)? A candidatura é de facto exemplar e está alicerçada em três pilares: o primeiro, e mais importante, a própria comunidade reconheceu a importância do projecto e mobilizou-se em torno dele; o segundo é o rigor do dossier cuja produção decorreu de uma intensa reflexão que traz uma visão renovada sobre as práticas culturais imateriais; e por último, uma muito produtiva equipa que soube organizar-se com rigor e produzir um dossiê de grande riqueza conceptual sem alienar a comunidade, que sempre esteve no centro das preocupações. O plano de salvaguarda contempla seis linhas de intervenção: 1) a constituição e dinamização de uma rede de instituições detentoras de património relevante para o fado; 2) a criação de um arquivo sonoro digital; 3) a estruturação e implementação de um programa educativo em todos os níveis de ensino; 4) um programa regular de edições (biblio e fonográficas) de documentos históricos e novas produções teóricas; 5) a criação de uma rede de espaços de performance, recorrendo a ferramentas originais; 6) o desenvolvimento de uma investigação regular de carácter etnográfico. O fado é a canção de Lisboa. É correcto fazer dele um símbolo da identidade nacional?

Não nos cabe aferir essa dinâmica. Como cientistas sociais cumpre-nos observar e analisar a produção dos discursos e as negociações simbólicas entre os diversos agentes. O próprio dossier de candidatura era muito claro em relação a isso: identificando essas tendências na comunidade evitou-se basear a sua argumentação nessas dinâmicas. Como foi sentido o momento em que se anunciou (em Bali, na Indonésia) que o fado era património mundial? Havia muita confiança no trabalho que o Museu do Fado e o Instituto de Etnomusicologia desenvolveram. No entanto, houve tensão e alguns nervos no momento da votação. Mas o resultado era, de certa forma, esperado. Em que é que este reconhecimento da UNESCO pode beneficiar a Mouraria, que apesar de ser o berço do fado não tem, actualmente, um circuito de fado? Sem querer ser polémico, é sempre complicado identificar “um berço”, uma “data” para o nascimento de uma prática cultural. Falar das “origens” de todo um universo de comportamento expressivo é especialmente complexo e arriscado. É certo que os bairros do centro da cidade de Lisboa tiveram um papel fulcral no desenvolvimento do fado. Alfama, Alcântara, Marvila, e, claro está, Mouraria…. Mas julgo ser muito mais interessante olhar para o futuro do que continuar a explorar o caminho das supostas “origens”. Diria mesmo que a tradição será feita no futuro! O que é certo é que a equipa está muito atenta a que a nomeação, e o próprio fado, sejam instrumentais para beneficiar a vida quotidiana da cidade. Nesse sentido haverá um esforço para que toda a população, e não só a que está directamente mobilizada para o género musical, sejam beneficiados por esta nomeação. O envolvimento da comunidade passa também por acolher e dinamizar projectos que a própria comunidade proponha. Certamente que a Mouraria, com a dinâmica que se vive no bairro, impulsionada por uma série de associações, será um laboratório muito interessante para testar projectos de intervenção urbana. Contamos com a mobilização de todos e queremos que olhem esta equipa como um parceiro e não como uma entidade separada do quotidiano das populações da cidade e do país, e até das comunidades espalhadas pelo mundo.

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罗萨玛丽亚

Dezembro — Março, 2011/12

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PASTELARIA DOCE MILA Beco dos Cavaleiros, nº 17 T. 218853183 / 912806591 Horário: Seg / Sáb 8h00 / 19h00

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A funcionar desde 1961, esta pastelaria surpreendenos com uma oferta muito diversificada que vai dos bolos sortidos e miniaturas aos bolos de aniversário, casamento, baptizado e o incontornável Bolo Rei. Aqui encontram-se fatias de salame em miniatura, bolos de aniversário muito originais e os deliciosos Pastéis da Mouraria, invenção própria e paladar típico do bairro. Servem-se também refeições simples. O espaço, com uma agradável esplanada é ideal para um café ou lanche a meio da tarde.

Travessa do Cidadão João Gonçalves, 10 e 16 T . 218877576 / 933181010 desifstore@netcabo.pt Horário: Seg / Dom 9h30 / 19h30; Sex — 15h00

MADECOR - TABOA VELHA

Calçada de Santo André, 34 T. 210155691 / 962390717 madecor.taboavelha@gmail.com Horário: Seg / Sáb 9h30 / 18h30

Neste espaço encontramos variadas soluções de mobiliário e decoração. Uma oficina singular de carpintaria e restauração de móveis onde também se executam, igualmente, molduras à medida. O que torna este atelier único no bairro é mesmo o acompanhamento personalizado do seu dono. As necessidades dos clientes são sempre tidas em conta, tal como fica exemplificado pela assistência técnica a fotógrafos (serviços de impressão em tela).

Loja de produtos alimentares asiáticos para revenda e venda ao público. Transpor as portas da Desi Food é entrar num mundo novo, com uma variedade de produtos indianos: especiarias, mais de uma dezena de espécies diferentes de lentilhas, refeições pré-preparadas, aperitivos, variadissimos tipos de arroz basmati, utensílios de cozinha, etc. Aqui poderá encontrar todos os ingredientes necessários à confecção de uma refeição de inspiração indiana e excelentes opções para uma ceia de Natal diferente.

SPA CHINÊS

Rua da Palma, 268 T. 966451758 / 966471717 Horário: Seg / Dom 10h00 / 23h00

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Inaugurado em Setembro, este espaço veio enriquecer a oferta de serviços disponível no bairro da Mouraria. A maioria dos clientes é de origem chinesa, mas já são muito os utilizadores portugueses. Os serviços oferecidos incluem massagem terapêutica com pedras quentes para homens e mulheres, Aromaterapia, programas de emagrecimento saudáveis e naturais, programas de corpo, redefinição e boa forma.

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Largo dos Trigueiros, 16 B T. 916241865 aloja.lisboa@gmail.com Facebook: A Loja, Lisboa Horário: 14h30h / 19h

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Almofadas em coração “Made in Mouraria”, roupa e brincos vintage, pratos do Alentejo de todas as cores, vidro antigo português e brinquedos de África... são tantas as coisas giras que há na nova loja de curiosidades e trivialidades que traz um chic inédito ao nosso bairro. A dona Gabrielle, francesa apaixonada por Lisboa, gosta de contar as histórias que estão por detrás das peças. Com preços acessíveis, é quase impossível sair daqui sem comprar...

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á muito tempo atrás não havia pessoas, só animais. Com excepção de uma velha, que vivia no cimo de um monte e sabia tudo, mas tinha um feitio terrível. Isto era no tempo em que os animais falavam – assim contaram à contadora Cláudia Fonseca no Brasil onde nasceu, quando tinha a idade que têm agora os meninos do Espaço Intervir de São Cristóvão. Um dia apareceu na floresta uma árvore nova que tinha uma fruta redonda, de cor viva e apetitosa, mas para arrancar a fruta do ramo era preciso saber o seu nome, e nenhum animal sabia.

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“Palhombota”, experimentava um, “samcripanca”, inventava outro, e nada resultava. Os animais não sabiam o que fazer. “O que é que vocês acham que eles deveriam fazer?”, pergunta a contadora à audiência. – Dizer todos os nomes do mundo. – Isso eles bem tentaram, mas descobriram que é impossível. – Mas eles disseram maçã? – Não sei se disseram maçã, o que eu sei é que eles disseram muitos e nenhum funcionou. Como resolver isto? Quem tem uma ideia? – A velha! – Boa! Isso mesmo, eles lembraram-se de ir falar com a velha que sabia tudo. Mas qual deveria ir? “Vou eu, vou eu, vou eu”, ofereceu-se o Macaco. “Eu sou muito rápido, vou e volto enquanto o Leão esfrega um olho”, insistiu ele, ao ver que os outros animais duvidavam: “tu és um desmiolado, vais distrair-te e esquecer o nome da fruta”. Mas lá se puseram de acordo e o Macaco partiu saltando sobre as copas das árvores. Pouco depois chegou à casa da velha e lá arranjou coragem para lhe perguntar o nome da fruta misteriosa. Maldisposta como de

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costume, ela avisou: “Mas ouve com atenção porque eu só vou dizer isto uma vez.” O macaco abriu bem as orelhas e ela pronunciou: “gutanjaanja catibiribanja serramatutanja da firififanja”. E ele, enquanto regressava, ia repetindo “gutanjaanja catibiribanja serramatutanja da firififanja”. Mas a meio do caminho um pássaro que falava muito alto interrompeu-o e quando o macaco quis dizer o nome da fruta aos animais que o esperavam à volta da árvore já não foi capaz de se lembrar. “Vês como tu és?” gritavam os animais aborrecidos. “E agora?” – Eles podiam escolher outro animal que tivesse boa memória. – Exactamente! Mas qual? “Urso”, “gorila”, “cavalo”, “elefante”, “serpente”, “coruja” ... – ... o que aconteceu foi que todos concordaram que, apesar de sua lentidão, a Tartaruga era o animal certo para a missão, por causa da sua excelente memória. De modo que a Tartaruga fez o farnel, enfiou a guitarra na carapaça e lá partiu, vagarosamente, para a casa

da velha. Quando, ao fim de seis meses, bateu à porta da velha, a velha começou por se enfurecer por se atreverem a perguntar-lhe uma coisa que ela já tinha dito, mas pensando no esforço da Tartaruga lá aceitou repetir uma vez o nome da fruta misteriosa: “gutanjaanja catibiribanja serramatutanja da firififanja”. E logo a tartaruga pegou na guitarra e compôs uma música para estas palavras e todo o caminho de regresso veio cantando. Por isso, quando o pássaro que falava muito alto se cruzou com ela a Tartaruga não se atrapalhou e seis meses depois os animais reunidos à volta da árvore puderam finalmente deliciar-se com a fruta redonda, sumarenta e de cor viva. Consegues adivinhar que fruta era? A laranja, pois claro! E agora que já percebeste a brincadeira, podes fazer o mesmo jogo com o teu nome, tal como fizeram a Catarinaina catibiribina serramatutina da firififina, ou o Franciscoisco catibiribisco serramatutisco do firififisco ou o Jaimeaime catibiribaime serramatutaime do firififaime.

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Cláudia Fonseca nasceu em 1965 no Brasil, Rio de Janeiro, e vive em Portugal desde 1992. Licenciada em Economia (por engano) e Psicologia (por vocação), ju ior entre a clínica e a narração. Começou a contarApresentação reparte ontempo histórias na Olga Fonseca Biblioteca Municipal de Oeiras há cinco anos, no âmbito do projecto “Histórias de Ida e Volta”. Lá encontrou os seus parceiros nos contos,Sonoplastia e criaram Nuno Morão juntos a Contabandistas de Estórias Associação Cultural (http://contabandisC LE CO L ECÇ CÇÃ CÇ ÃO O A PO P O IADA IA AD DA A P EL ELO tas.no.sapo.pt/). Colabora com o IELT e prepara doutoramento em Estudos 978-989-8421-06-7 I E LT L T • I N S T I T U T O D E E S TTU UDO UD OS S ponte entre a psicanálise e a narração. D E L IIT T E R Culturais, AT U R AT RA A TR T R Afazendo D IC I C I O NA N Auma L

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Contabandista e Ieltsadora


罗萨玛丽亚

Dezembro — Março, 2011/12

agenda cultural No Bairro

Associação Renovar a Mouraria

Beco do Rosendo nº 8 T. 922 191 892 geral@ renovaramouraria.pt — Visitas Guiadas à Mouraria

8, 15, 22 Jan 10h 21 Jan 15h Mouraria: Da sua origem à actualidade multicultural – 900 anos de história Duração: 2h30m Ponto de encontro: Martim Moniz, junto à Igreja da Sra. da Saúde 10 € — 14, 28 Jan 15h Da Alcáçova do Castelo à Mouraria Duração: 2h30 m Ponto de encontro: 10h 10 € — 21 Jan 10h De Alfama à Mouraria Duração: 2h30m Ponto de encontro: Porta do Museu do Fado no Largo do Chafariz de Dentro. 10 €

Casa da Achada

Largo da Achada nº11 T. 218 877 090 — Horários Seg, qui. e sex 15h — 20h Sábado e Domingo 11h — 18h www.centromariodionisio.org

Entrada gratuita — Até 20 Abr 2012 Exposição: Sonhar com as Mãos: O desenho na obra de Mário Dionísio — 7 Jan 16h Itinerários 12 IT Conversa com Jacinto Rego De Almeida — 8 e 15 Jan Dom 15h30 - 17h30 Oficina de Teatro e Comunidade — 8 Jan Entendal de poesia do bairro —

Clube de Teatro Sénior Promovido pelo Serviço Educativo do Teatro da Garagem. Um projecto dividido em duas etapas (sessões de trabalho e espectáculo) realizado em parceria com o Centro de Dia do Socorro. Pretende-se que os participantes experimentem as diversas áreas que compõem o espectáculo teatral, encontrando um lugar onde possam partilhar as suas experiências e reinventar as suas histórias. A 20 de Dezembro há espectáculo, às 16h. Participação de António Bastos, Carlos Silva, Ermelinda Rodrigues e Maria de Lurdes Vítor; orientação de António Vicente.

15 Jan Chá comunitário — 14 Jan 16h Mário Dionísio, Escritor e Outras Coisas Mais — 26 Jan 18h Livros das Nossas Vidas Pedro Rodrigues fala de O Processo de Franz Kafka — 27 Jan 18h Histórias da História – 1 Sebastião Lima Rego fala da ascensão de Hitler. — Ciclo de Cinema - Rir Uma Vez Por Semana Jan — Mar Todas as Seg, 21h30 — 2 Jan A Quimera do Ouro, de Charles Chaplin — 9 Jan Boudu Querido, de Jean Renoir — 16 Jan Polícia e Ladrão, de Mário Monicelli e Steno — 23 Jan O Meu Tio, de Jacques Tati — 30 Jan ABC do amor, de Woody Allen

Teatro Taborda

Rua Costa do Castelo,75 T. 21 885 41 90 96 801 52 51 www.teatrodagaragem.com

Reservas: jbelo@ teatrodagaragem.com 10€ Estudantes, M/ 25 anos, grupos de 10 pessoas (mínimo) 5€ Espectáculos das escolas e Clube de Teatro Sénior gratuito — Café da Garagem reabriu no espaço da cafetaria do Teatro Taborda. Aberto de 3ª a Domingo, das 18h às 0h00 — 20 Dez, 16h Clube de Teatro Sénior Espectáculo. — 19, 20 Jan 21h30 Memória e Diálogo do Corpo Baseado em textos do teatro do absurdo. — 3, 4,18, 24, 25 Fev 21h30 Escola Superior de Teatro e Cinema Espectáculos de final de curso. — 10 Fev 10h30 e 14h 11 Fev 15h30 Projecto Respira 2012, de Aldara Bizarro Projecto de experimentação artística em meio escolar.

Arquivo Municipal de Lisboa

Núcleo Fotográfico Rua da Palma nº 246 T. 218 844 060 — Horários Ter—Sex – 10h — 19h00 (última entrada às 18h) Aberto 1º e 3º Sáb/mês 10h — 17h — Até 7 Jan 2012 Exposição “Ressano Garcia: Percurso na Câmara Municipal de Lisboa” 4ª feiras, 18h - Visitas comentadas. — 12 Jan - 11 Fev Seg-Sáb – 10h às 19h00 Exposição “Luis Ramon Marin – Fotografias 19081940” Parceria com o Instituto Cervantes. Gratuito — Dias úteis, 14h Visitas guiadas à exposição Serviço Educativo “Ressano Garcia:

fazer cidade” Marcação prévia: 21 884 40 60 21 Dez, 2 de Jan 10h30 ou 14h30 Explorar a cidade de Ressano: visita orientada por Lisboa Ponto de encontro: estátua de homenagem aos Combatentes da Grande Guerra, Av. Liberdade. Dias úteis 10h, 14h Oficinas de Expressão Plástica Pré-Escolar – Colorir a Avenida 1º Ciclo Ensino Básico – Retrato Químico da Avenida Informações: ana.lucas@cm-lisboa.pt paula.candeias@cmlisboa.pt Tel: 21 380 71 57

Bar Anos 60

Largo do Terreirinho, 21 T. 218 873 444 www.facebook.com/ baranos60 Encerra às 2ª — Todas as primeiras quintas-feiras mês Noite de fados 6ª feiras Músicas do mundo ao vivo Sábados Música portuguesa ao vivo — 22Dez (fim da tarde) Lançamento do livro “Talvez sejam Poemas”, de Maria Helena Coelho, 96 anos

Crianças e Jovens

Locais para brindar a 2012 No Santiago Alquimista há Reveillon Atrevidote, com os Ena Pá 2000 e os Irmãos Catita, que vão actuar com Miss Suzie e as sensuais Cindy e Vicky. As guitarras de Phill Mendrix e os discos de MD GIMBA garantem ainda mais diversão. Reservas: +351 968 325 240 ou reveillonatrevidote@gmail.com / Pré-venda na Loja Contranatura: 20 ou 25 royales. O Chapitô oferece uma saltitante entrada em 2012 com as Swinging Sisters, até à 1h30, enquanto Madmachine e Ricky Ventura se juntam pela primeira vez formando os “kool and the gangbang”, até às 3h30. Entrada gratuita. Na Rua da Madalena, nº 123, o Club Noir entra em 2012 com a sua Underground Party, sob o mote 80s vs 90s e muito mais.

Meu bichinho meu amor M/4 Adultos 10€ Crianças 6€

Aqui perto

Antiga Cadeia do Aljube Rua Augusto Rosa nº 42 — Até 31 de Dez Ter / Dom 10h / 18h “A Voz das Vítimas” Visitas guiadas: Ter 15h Marcação no local ou e-mail: info@aljube.net Entrada livre

Casa de Lafões Rua da Madalena, 199 — 3ª feiras 22h30

Roda de Choro de Lisboa

Castelo Teatro Bocage de S. Jorge Rua Manuel Soares Guedes nº 13A (à Rua Damasceno Monteiro) T. 214 788 120/912 449 909 — 7, 17, 21 e 28 Jan 11h

— 21

— 2ª a domingo Lisboa vista ao espelho — 12h às 16h À Descoberta do Castelo 3º domingo de cada mês

(inscrição prévia) Danças com História

Chapitô

Costa do Castelo, n.º 1 / 7 — 22 Dez Barbie James 23 Dez DezFesta de Natal a Dançar 27 Dez Flávio Gil “ Fado é bondage” 28 Dez Conversas bravias -À esquerda da crise 29 Dez Vicente Marjamaki “Quintas Dimensões” 30 Dez tocatinas - Rat Swinger 31 Dez Especial Fim de Ano Entrada livre

Espaço Sou 27 Dez 21h30 Cinema no Sofá (Ciclo Amor) Eyes Wide Shut

Museu do Fado

Até 30 Dez Exposição Óscar Cardoso (construtor de guitarras)

Exposição “A Voz das Vítimas” prolongada até ao fim do ano

— Exposição que dá voz às vítimas da ditadura, mostrando o quotidiano vivido na Cadeia do Aljube, sem esquecer os curros, as celas minúsculas onde os presos políticos eram forçados ao isolamento. “A Voz das Vítimas” é organizada pelo Movimento Cívico Não Apaguem a Memória!, Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa e Fundação Mário Soares, em colaboração com a Câmara Municipal de Lisboa. Além da exposição há debates, projecção de filmes e visitas guiadas. A entrada é gratuita. Até 31 Dez.


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Rosa Maria

Dezembro — Março, 2011/12

salmoura

Xacuti de cabrito

Frango à zambeziana

1,5 Kg de cabrito 1 cebola 0,5 Dl de azeite 1 cabeça de alho 2 colheres de sopa de vinagre 1 chávena de coco ralado 1 colher de sopa de açafrão das índias (curcuma) 1 colher de sopa de cominhos ½ colher de sopa de cardamomo ½ colher de sopa de cravinho

Temperar o frango com alho picado, sal e piripiri, juntar leite de coco e deixar marinar de um dia para o outro. Grelhar o frango e ir pincelando com o molho da marinada.

Num almofariz, pisam-se os alhos com o sal e mistura-se o vinagre. Envolve-se o cabrito nesta pasta e reserva-se. Torra-se o coco ao lume, até ficar em pasta. Numa frigideira torramse as especiarias: cominhos, cardamomo, cravinho. Assim que começarem a libertar o seu aroma retiram-se do lume e trituram-se até reduzir a pó e misturam-se com o açafrão das Índias. Pica-se a cebola e leva-se a refogar no azeite, juntam-se as especiarias, o cabrito e a pasta de alho e deixa-se em lume brando até apurar. No fim adiciona-se o coco torrado.

texto e fotografia Adriana Freire

Delícia de Moçambique

Nos anos 80, quando Aziz e a sua mulher Farida, muçulmanos oriundos de Moçambique, abriram o restaurante O Cantinho do Aziz, este depressa se tornou um local de referência do bairro. Quem frequentou a casa na altura conta que Aziz era uma pessoa generosa, cheia de charme, um verdadeiro diplomata, que fazia questão que todos os clientes se conhecessem, formando assim uma grande família. Não havia dia em que a casa não estivesse cheia, e os jantares normalmente acabavam em festa dançante. Os deliciosos pratos moçambicanos que saíam das mãos de Farida foram outra das razões do sucesso. Mas tudo muda, excepto a ementa que “é a mesma há 30 anos”, explica Adam, o actual cozinheiro do Cantinho, sobrinho de Farida. Quando Aziz morreu foi Farida quem ficou à frente do negócio e foi com ela que Adam aprendeu a cozinhar. Antes

“trabalhava como empregado de mesa e barman”, mas as circunstâncias levaram-no a descobrir que a sua vocação era a cozinha e hoje tem orgulho no que faz: “É bonito ver as pessoas a gostar do que fazemos.” Na altura, contudo, reagiram à mudança e se tivesse corrido mal Adam teria voltado a ser empregado de mesa. “Ainda tentei fazer outro tipo de cozinha mas as pessoas queriam era pratos moçambicanos, não valia a pena tentar mudar”. Agora afirma que está satisfeito com o seu trabalho: “São os clientes que me motivam”. E as festas? Os vizinhos envelheceram e quando há barulho chamam a polícia. “Antes eram novos e participavam,” remata Adam. O Cantinho do Aziz Cozinha indo-africana e halali Rua de São Lourenço, 3-5 (Poço do Borratem), Lisboa. Tel. 218 876 472

passatempos

7 Diferenças As duas imagens parecem iguais, mas na verdade contêm 7 diferenças entre si. Descubra-as.

Morcegos+vampiro: 1-Falta um morcego no ar 2-Falta um tufo de folhas na copa da árvore de trás 3-Cor do número por cima da porta 4-Cor dos sapatos do carteiro 5-Falta uma pedra no chão do lado esquerdo 6-Pedra da parede do lado direito das pernas do carteiro 7-Falta uma divisória dos vidros da janela SOLUÇÕES


Dezembro — Março, 2011/12

罗萨玛丽亚

vox mourisco

na dobra das palavras texto Sara Ludovico b.i. português Ana Castro ilustração Antònia Tinture

fotografia Carlos Morganho entrevistas Carla Maurício

O que sabe sobre a Mouraria? Em miúda vinha muitas vezes, e sempre achei que era um mundo à parte com pessoas muito diferentes, e onde se ouviam sempre várias línguas. Quando comecei a trabalhar aqui pareceu-me um pouco assustador, sentia-me numa Chinatown, não em Lisboa. Agora acho um bairro muito interessante, do qual gosto, e onde gosto de trabalhar. Ana, 27 anos, designer industrial, moradora no Bairro Alto

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Dantes vinha muito à Mouraria, sempre teve muito comércio, muita venda de coisas giras e castiças. Mas há outros bairros dos quais gosto mais do ambiente. A frequência da Mouraria piorou e agora venho menos, há até algumas ruas em que tenho medo de entrar. Mas quem não sabe da fama do bairro fica fascinado: tenho uma amiga, de Braga, que aqui veio passear e fazer compras e ficou encantada. Georgete, 59 anos, reformada da função pública, moradora na Penha de França

Comecei a vir à Mouraria porque às vezes venho ao GGN, Grupo Gente Nova, e porque tenho um colega que mora aqui. É um bairro típico de Lisboa mas, ao mesmo tempo, é muito diferente dos outros bairros porque tem muita gente de outras nacionalidades e tem muito comércio de produtos estrangeiros. Já cá vim ver algumas exposições e festivais.

Sei muito pouco sobre a Mouraria. É um bairro típico de Lisboa onde nasceram alguns fadistas muito conhecidos, como a Severa. Por altura dos santos populares tem muita festa, com muita música e sardinhadas. Mas está muito degradado e, em alguns sítios, tem um ambiente muito pesado.

Sandro, 20 anos, estudante, Graça

Augusto Liberato, 62 anos, gravador de metais, Amadora

Sou de Viana do Castelo e desde pequena que ouvia as histórias do meu pai sobre Lisboa e a Mouraria. Ele falava das pessoas que aqui viviam e não eram portuguesas, do fado e dos santos populares. Quando vim pela primeira vez, ao sair do metro apanhei um choque por ver um ambiente que não esperava. Mas achei logo interessante, muito diverso. Gosto das ruas estreitas e castiças, mas tenho pena de ver o edificado tão degradado.

É um bairro histórico muito cosmopolita, e é por isso que me agrada mais. É muito rico, tem uma grande mistura de cheiros, sons, cores e sabores, por isso é um bairro onde se aprende muito. Tem recantos e uma geografia labiríntica de becos e ruas estreitas que nos faz esquecer onde estamos, tanto podemos estar em Lisboa como em qualquer outra parte do mundo. É dos bairros mais interessantes de Lisboa. Carlos, 42 anos, sociólogo, morador no Príncipe Real

Francisca, 25 anos, fotógrafa, a morar em Arroios

É um bairro histórico, ligado ao fado e à Severa. Foi habitado pelos mouros e continua a ter muitos estrangeiros, a diversidade populacional chega a ser excessiva. Acho o Centro Comercial da Mouraria muito desajustado e muito desconfortável.

É um bairro histórico de Lisboa de que toda a gente, pelo menos, já ouviu falar. Às vezes parece mal frequentado, o que é desagradável. Mas gosto da Mouraria pela festa dos santos populares, e por aqui se encontrarem muitos turistas e muita gente diferente.

Marco, 19 anos, estudante, morador no Castelo

Nadine, 18 anos, estudante, moradora na Graça

Uma língua é uma espécie de rio: move-se, troca de águas, flui, estende-se em grandes lagos ou demora-se em vastas zonas pantanosas. Estes movimentos podem ser testemunhados pelas palavras que uma língua recebe e oferece. Para inaugurar esta rubrica do Rosa Maria, dedicada às viagens feitas pelas palavras dentro e fora da língua portuguesa, começaremos por lembrar um legado linguístico do árabe.

rasileiro - eis uma palavra que tem em si o embrião da sua explicação e mesmo uma justificação para a sua aparente anomalia. Por que será que uma pessoa nascida no Brasil não é normalmente chamada “brasiliano” (à semelhança de “canadiano”, “americano”, “italiano”, etc.) e toma o sufixo –eiro, normalmente atribuído às profissões (é o caso de “sapateiro”, “padeiro”, “porteiro”, cozinheiro”, etc.)? Há momentos históricos, usos, linguagens que exprimem em certas palavras um conjunto de experiências, de ideias, de concepções dominantes. E é dentro destas esferas significativas que nascem as criações semânticas de maior relevo. De repente, uma nova visão do mundo intervém e modifica os significantes de palavras preexistentes. Uma palavra como “brasileiro” é a prova disto mesmo. Deixando de lado as várias hipóteses que explicam a origem do nome “Brasil”, a verdade é que este país está intimamente ligado à árvore de cor avermelhada, de nome pau-brasil, cuja procura e exploração foram motivos para o reconhecimento e conquista do território. A sua madeira tão preciosa e de grande importância comercial tomou até parte do primeiro brasão com as armas do Estado do Brasil, no século XVII. Este nome foi então transferido para a população da nova terra, primeiro para os indígenas, depois para os portugueses na época colonial e, por extensão, já mais tarde, para o povo do novo país independente, tal como consagrava a primeira constituição. Assim, “brasileiro” era, na origem, o comerciante português do pau-brasil, designando exclusivamente o nome da profissão. Posteriormente, o seu uso atribuído a alguém nascido ou residente na ainda colónia portuguesa era já tão generalizado, que, aquando da independência do Brasil, se impôs sem hesitação. A cultura enquanto realidade mental e a língua enquanto representação mental da realidade geram um sistema de classificações e de comunicação da experiência, em que o mundo externo é esmiuçado, discriminado, conceptualizado, organizado na mente de uma certa forma, de acordo com a cultura e a época vigentes.

brazilian (inglês) brasiliano (italiano) brasileño (espanhol) ς(grego) (árabe)

brazilian (romeno) (mandarim)

(ucraniano) B.I.

Português Número de falantes no mundo: 178 milhões Variedades: português europeu, português brasileiro, e outras variedades de português de Angola, de Moçambique, de São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Timor Família*: Indo-europeia; Itálica; Românica; Ibérica Ocidental, Galaico-Portuguesa (o português é irmão do galego, primo direito do espanhol e do mirandês, também falado em Portugal, e primo mais afastado do francês, catalão, florentino e romeno, com quem partilha o tetravô latim) Geografia: Língua oficial de Portugal e restantes países da Comunidade de Língua Oficial Portuguesa (CPLP) - Brasil, Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Timor-Leste – falado por todos ou parte dos seus habitantes e também por comunidades emigrantes no resto do mundo Sistema de escrita: alfabeto latino, com uma recente harmonização da norma ortográfica (Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, 1990) subscrita pelas Repúblicas de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portuguesa e de São Tomé e Príncipe Ranking: 7ª língua mais falada no mundo *As línguas, como as pessoas e as espécies de animais e plantas, têm família (e apelidos!): pais, irmãos, tios, primos mais próximos e mais afastados, avós, bisavós e tetravós... todos descendendo de um antepassado comum e com diversos ramos (sub-famílias). Fontes: www.ethnologue.com


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Rosa Maria

Dezembro — Março, 2011/12

banda desenhada de Nuno Saraiva

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Rosa Maria

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Procura-se A ASSOCIAÇÃO RENOVAR A MOURARIA VAI PROMOVER OFICINAS DE FORMAÇÃO PARA GUIAS TURÍSTICOS LOCAIS, PARA INTEGRAR AS VISITAS GUIADAS AO BAIRRO DA MOURARIA, QUE JÁ VÊM SENDO DESENVOLVIDAS DESDE 2008.

Esta formação pretende capacitar os moradores da Mouraria, jovens, adultos ou idosos, de qualquer nacionalidade, para poderem desenvolver visitas guiadas, contribuindo para a criação de emprego, valorizando as visitas com o conhecimento específico dos habitantes da Mouraria. Para se inscrever ou para mais informações: geral@renovaramouraria.pt Telefones: 218 885 203 / 922 191 892


Rosa Maria, Jornal da Mouraria, nº 3